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[COLUNA] Além do casal hétero: o caso de The Thing About Harry (2020)

Quando há um lançamento de uma nova comédia romântica, já imagino qualquer possibilidade  de enredo. Um rapaz totalmente fora do padrão conhece uma mocinha que é toda dentro das  regras; em um primeiro momento eles se odeiam, e poucos momentos depois, eles percebem  que gostam e por fim ficam juntos. Ou talvez eles se gostam, mas tudo dá errado para eles  ficarem juntos; eles brigam, mais uma vez não ficam juntos e no final conseguem superar tudo.  São apenas exemplos de como um bom clichê funciona. No caso de casais heterossexuais, essas  histórias são contadas e recontadas o tempo todo. Cada era do cinema e da literatura possuem  seus casais marcantes. Como não lembrar de 10 Coisas Que Eu Odeio em Você (1999)? Ou de  Amor e Outras Drogas (2010)? Nosso imaginário é moldado a partir de um mesmo ponto de  vista o que ajuda a reforçar um padrão. Quando pensamos em casais LGBTQ+, raramente os  grandes estúdios os associam a grandes histórias de amor.  

Pessoas LBGTQ+ atravessaram – e ainda atravessam – a história repleta de esteriótipos que  propagam preconceitos. Sua vontade de amar, seu jeito de viver, eram proibidos por leis em  diversos países, marcados como pecaminosos por religiosos e tratados como doentes pela  ciência. Na hora de contar um romance a partir de seus pontos de vista, muitas histórias  agregaram a si, mesmo que sem quiser, esse fardo. É fácil lembrar de um filme LGBTQ+ que  o personagem principal morre, mas e com um romance completo e feliz?  

The Thing About Harry (2020) conta sobre Sam, que por causa do casamento de uma amiga da  escola, precisa dar carona para a pessoa que ele mais odiava no ensino médio, Harry, o bully.  Partindo da premissa inicial enemies to lovers, acompanhamos Sam perceber que Harry que  não é mais nada que ele se lembrava. Harry é um rapaz pansexual gentil, flertivo e simpático e  que está caidinho por Sam, que por sua vez nega por todas às vezes que o sentimento é mútuo.  Produzido pela Freeform, um canal da TV a cabo norte-americana, o filme se torna um avanço  no momento em que, sem desrespeito, apresenta um romance LGBTQ+ de maneira leve. Com  leve inspiração em Quando Harry encontra Sally (1989), o filme é divertido de assistir. Por ser  um tele-filme o orçamento é mais baixo, o que faz com que o roteiro seja simplificado e um  pouco acelerado, mas nada que atrapalhe a sensação de torcer pelo casal principal. E se me  permito ir além, lembra até fanfic do casal polêmico e queridinho do fandom da One Direction,  Larry Stylinson – a título de curiosidade: Sam seria o Louis e Harry, o próprio Harry. 

Filmes como esse e Com Amor, Simon (2018) podem nos reapresentar ganchos básicos de  romance, mas ao subverte-los ao público que quase não se via em tela, eles se tornam  importante. Além de claro ajudar a construir um novo imaginário. Se amamos clichês  heterossexuais, por que não amar os LGBTQ+ também? 

Por Lorena Bicchieri