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[COLUNA] Caso Mariana Ferrer: quantas Maris vão precisar existir?

“15 de dezembro de 2018, Florianópolis, Santa Catarina. Não é nada fácil ter que vir aqui relatar isso. Minha virgindade foi roubada de mim junto com meus sonhos. Fui dopada e estuprada por um estranho em um beach club dito seguro e bem conceituado da cidade”

Se você esteve em alguma rede social durante os últimos dias, provavelmente ouviu falar sobre o caso Mariana Ferrer, que teve seu desfecho, através de um julgamento vergonhoso, na segunda semana de setembro. A audiência foi divulgada na íntegra pelo jornal Estadão na última quarta-feira (04).

Mariana foi vítima de estupro em 15 dezembro de 2018, enquanto trabalhava como promotora de eventos na festa de abertura do verão, Music Sunset, do Cafe de La Musique, um beach club de luxo em Florianópolis; em seu relato, a jovem de 23 anos acusa André Aranha de a ter dopado e violentado, o crime tendo sido percebido pela mãe.

“Consegui chegar em casa graças a Deus. Minha mãe, ao ver meu estado, tirou minhas roupas e se deparou com a pior cena da vida dela, minhas roupas estavam cheias de sangue e odor forte de esperma. O estrago foi grande, físico e emocional. Danos psicológicos que infelizmente só quem também é a vítima pode mensurar”.

Em vídeo vazado na internet, é possível ver o momento em que Mariana é levada pelas escadas do camarim, perceptivelmente alterada, por Aranha, embora sua comanda apresentasse apenas uma bebida alcoólica: uma única dose de gim, o que sustenta o relato da jovem sobre ter sido drogada. 

A perícia realizada no corpo e nas roupas de Mariana comprovou que ela teve ruptura de hímen e encontrou material genético compatível com o de André de Camargo Aranha em sua roupa íntima. Além disso, os testemunhos de Mariana, sua mãe e o motorista de Uber que a levou embora endossam a denúncia.

“O agressor não se aproximou de mim quando eu estava lúcida. Eu não tenho lembranças dele. Fui levada para um lugar desconhecido por mim e acredito que também seja para a grande maioria das pessoas que lá frequentam. Nenhuma das pessoas que me acompanhava no dia me socorreu, pelo contrário, me abandonaram”.

Mas, mesmo com todas as provas e depoimentos, Mariana foi humilhada por três horas. Chegando a implorar respeito aos quatro homens presentes, teve de ouvir barbaridades como “Tu vive disso? Esse é teu criadouro, né, Mariana, a verdade é essa, né? É teu ganha pão a desgraça dos outros? Manipular essa história de virgem?” e ver suas fotos, para um trabalho enquanto modelo, serem usadas contra si. Ao fim da sessão tortura, André foi inocentado. Segundo o promotor, Aranha não teria como saber, durante a violência, que Mariana não estava em condições de consentir a relação, o que foi qualificado como estupro culposo (quando não há a intenção de estuprar, parece piada, não é mesmo?) e, por não se configurar em lei, o acusado foi inocentado.

Segundo o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em setembro do ano passado, o Brasil teve sessenta e seis mil casos de estupros em 2018. A maioria das vítimas (53,8%) são meninas de até treze anos, ocorrendo em média cento e oitenta estupros por dia no país (uma vítima a cada onze minutos). 

Violentadas, humilhadas e silenciadas.

Mariana foi, estatisticamente, apenas mais uma vítima em um país onde o dinheiro compra a sentença. Apenas mais um número aguardando por justiça, parte da pequena parcela com coragem o suficiente para denunciar e enfrentar seu abusador. Quantas Maris vão precisar existir até a lei ser respeitada? Quantos estupros culposos serão registrados daqui em diante? Quantos Andrés de Camargo Aranha vão escapar, ilesos, de crimes hediondos, escondendo-se debaixo das asas da justiça? Qual de nós será a próxima vítima?

Mesmo diante das atrocidades e do descaso da justiça, não devemos nos calar, devemos exigir nosso espaço e voz, incomodar e demandar que a lei seja cumprida é essencial. Denunciem, falem sobre, mobilizem e conscientizem mais mulheres, afinal de contas, somos apenas nós por nós. 

“Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas.” (Audre Lorde)