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[COLUNA] Céu sem Estrelas: uma conversa sincera sobre saúde mental

Quando começou a quarentena em março de 2020, admito que me vi sem chão. Não que a minha família passe por dificuldades, pelo contrário, eu reconheço meus privilégios. Foi um sentimento de vazio, de estranheza. Eu já estava com tudo planejado: a faculdade voltaria naquela semana, iria no show do McFLY, já tinha até planejado ir a um evento importante da área que eu estudo. 

E do nada, tudo cancelado. 

Minha primeira reação foi de “ah, tudo bem, duas semanas passam rápido”. As duas semanas viraram meses e até o momento, continuamos sem expectativas de eventos presenciais. Mas naquela hora, me vi no limbo. Talvez num limbo que poderia ter sido facilmente resolvido se eu não fosse uma pessoa que não para de pensar nos passos à frente. Depois de meses tentando resolver minha saúde mental com ajuda da psicóloga, o que me deu uma acalmada foram os livros/fanfics. Eu comprei um Kindle, escrevi uma oneshot em 3 dias e publiquei. Parece pouco, mas pra quem não estava gostando da realidade, viver uma fantasia é uma boa ideia.

Um dos primeiros livros que eu peguei para baixar foi Céu sem Estrelas, da escritora brasileira Iris Figueiredo. Logo no início da quarentena, diversos livros ficaram de graça por poucos dias e ele foi um deles. Eu não sabia a sinopse, muito menos do que se tratava a história. O único detalhe que me parecia relevante no momento era que se passa em Niterói e a personagem principal estuda na UFF – igual a mim! Uma ótima maneira de diminuir a saudade, certo?

Acompanhamos Cecília, uma jovem de 18 anos, que acabou de perder seu emprego e se ver num labirinto sem saída quando briga com sua mãe. Iasmin, sua melhor amiga, oferece abrigo para ela por uns dias para que ela consiga resolver suas coisas. Lá ela conhece Bernardo, irmão de Iasmin, com quem logo se enturma e passa a nutrir sentimentos pelo rapaz. Eu diria que CSE é muito mais do que o romance YA. Cecília tem que lidar com diversos problemas familiares, com si mesmo e como isso tudo afeta seus laços com seus amigos e sua vida acadêmica. Ela se vê se perdendo cada vez mais em si mesma e em seus pensamentos cada vez confusos, conflitantes e que a deixam ansiosa. 

Ao final do livro, depois de tudo que aconteceu, Cecília some e pensa em suicidio. Saber de seus limites para se conhecer e conseguir seguir a vida com clareza e tranquilidade é o melhor que ela – e todos nós – pode fazer para não perder a oportunidade de ser você mesmo. Perceber que não estava bem e admitir que precisava de ajuda foi o passo mais admirável em Cecília.

O grande aprendizado da história é óbvio: se cuidem. Pode estar acontecendo diversas coisas na vida, sejam elas boas ou ruins, mas nenhuma delas vai ser resolvida com clareza se você não estiver se sentindo bem consigo mesmo. Não tenha vergonha de procurar ajuda. Existem psicólogos com preços mais acessíveis, façam aquilo que te deixam felizes – mas, por favor, não façam com que vire uma zona  tão confortável que você tenha medo de fazer qualquer outra coisa.

Eu continuei frequentando a psicóloga, dei dois passos à frente para dar um para trás. Minha ansiedade não vai sumir de uma para outra, mas já me sinto mais confortável com meus próprios pensamentos.

A gente vai ficar bem, prometo. 

“— Não existe um céu sem estrelas, Cecília. Mesmo quando estão cobertas pelas nuvens, ainda estão lá. A gente só não consegue enxergar. 

— É como a esperança — ela comentou, pensativa.

 — Sempre existe uma saída, mesmo que a gente não consiga enxergar. — Sim, sempre existe uma saída. Sempre existem estrelas.”

Por Lorena