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[Coluna] Estomago (2008): quando o filme complementa o conto

[Esse texto possui spoilers]
Pensar em adaptação cinematográfica é sempre um assunto polêmico. Tem aqueles que dizem que o livro nunca vai superar o filme; também tem aqueles que dizem que o filme vale a pena. Opiniões de diferentes tipos são sempre válidas, mas quando pensamos no trabalho de levar a literatura para o mundo da sétima arte sempre precisamos lembar que são mídias diferentes. No final, o resultado de uma não será o mesmo do outro – e não tem problema! Levar em consideração a adaptação de um livro não significa transcrever cena por cena e depois gravar. É um trabalho cuidadoso de analisar quais cenas servem de ponto de virada, quais funcionam melhor em tela cheia e quais podem virar um único momento; também se pensa do ponto de vista dos outros departamentos como direção de arte, direção geral e produção (afinal sabemos que os grandes estúdios Hollywoodianos interferem para adaptar ao público que desejam alcançar).
Roteirizado por Lusa Silvestre, Marcos Jorge e Cláudia da Natividade, o filme brasileiro Estômago (2008) é baseado no conto “Presos pelo Estômago” de Lusa Silvestre, e pensando sobre adaptação, ele vai muito além do texto literário. No conto, somos apresentados a Raimundo Nonato, cearense, que foi preso e não sabemos por qual motivo. Ao longo da escrita somos apresentados aos seus parceiros de cela e ao seu dia-a-dia naquele lugar. Não descobrimos nada de seu passado, apenas que trabalhava em um restaurante, ao contrário do filme que decidiu como eixo principal a relação do personagem com a comida. No roteiro, o foco maior deixa de ser o dinamismo da cadeira e passa a ser Raimundo, agora acrescentando mais informações que não foram exploradas pelo conto.
O longa, construído a partir do conceito da palavra título, apresenta a criação do background do personagem em paralelo a vida carcerária. Partindo da palavra “gorgonzola”, o roteiro conduz para a apresentação de três grandes personagens importantes: Seu Zulmiro, Giovanni e Íria. O primeiro emprego de Raimundo é no bar de Seu Zulmiro, onde sua coxinha faz grande sucesso, o que chama a atenção de Giovanni, que é dono de um restaurante italiano. Giovanni o chama para trabalhar e ele é o primeiro que menciona o queijo com tom soberbo e superior; ele explica que o gorgonzola pode ser usado no prato Romeu e Julieta como forma de adaptar uma sobremesa simples e ganhar mais dinheiro. Quando ele sai com Iria, uma prostituta que conheceu no seu primeiro trabalho, para o mercadão da cidade, ele apresenta o queijo na intenção de impressiona-la, mas não é isso que acontece. Já na cadeia, o queijo se torna objeto para ascender e ganhar respeito. Se a gente analisar com cuidado, todas as características do queijo são repassadas como forma de marcar fases e nos leva ao motivo de Nonato ser preso: assassinato.
Nesse mundo cheio de filmes, claro que vão existir adaptações mal feitas (oi, Percy Jackson), mas quando produzidas cuidadosamente dão um resultado surpreendente. Estômago se torna grandioso não somente por seu roteiro e montagem que engrandece a história, mas também por complementar a escrita literária. Ler ou não ler o conto não atrapalha a experiência de acompanhar como um cozinheiro de botequim se transformou em um assassino calculista e frio.

Por Lorena Bicchieri