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[COLUNA] Skinny Skinny, de Ashton Irwin: Uma mensagem sobre dismorfia corporal

Quando, no dia 23 de setembro, Ashton Irwin anunciou seu primeiro álbum solo intitulado Superbloom, os fãs não sabiam o que esperar desse debut. Claro que Ashton vinha se mostrando um dos músicos mais apreciados e talentosos da indústria ocidental, chegando a ser reconhecido como “O Baterista Mais Importante da Atualidade” (2016), mas ninguém estava preparado para o que Skinny Skinny, o primeiro single do álbum, traria ao fandom e aos demais apreciadores tanto da banda quanto do baterista.

Num cenário de galpão, Ashton se apresenta à frente de quatro espelhos que mostram seu reflexo distorcido, onde não consegue ter uma visão clara de si. Ashton dança livremente, numa coreografia sensível e inesperada para nós, meros espectadores, onde passa com muita clareza a dor de estar preso sob a própria pele. Quem poderia imaginar?

Hoje os debates sobre pressão estética no mundo artístico são grandes, principalmente com o advento do kpop, onde se tornou conhecida as loucas dietas que idols coreanos devem seguir para encaixarem-se no padrão social, mas há cinco ou seis anos atrás não era tão discutido, principalmente sobre os homens da indústria; porém, para o fandom da banda 5SOS — infelizmente  sempre foi um assunto recorrente. Não da forma que é hoje, onde luta-se para que todos possam ter os corpos que querem e amarem-se sem sofrer qualquer preconceito, mas sim com críticas extremamente pejorativas aos quatro australianos.

Michael Clifford constantemente era transformado em piada quando engordava, mesmo que minimamente. Calum Hood, que sempre fora o mais sexualizado dos quatro, foi duramente atacado quando engordou também. Luke Hemmings, o que sempre esteve mais na vista atendendo a todos os requisitos do garoto loiro, de olhos claros, das camisetas de banda e piercing, também fora chamado por nomes terríveis por parecer “afeminado demais”. Ashton, desde o início, quando “só tinha mato” na fanbase, era tratado terrivelmente, sendo ignorado, considerado feio e todo tipo de coisa péssima para se dizer para outro ser humano. Apesar de todas essas coisas, a banda em si nunca falou muito abertamente sobre os ataques que sofriam devido suas aparências, não costumam colocar isso nas músicas e preferem se abster desse tipo de discussão com os “fãs”. Afinal, eram os garotos punk-rock, e esse não é o tipo de “banalidade” que uma banda do gênero trata.

Mas Ashton traz como conceito principal do Superbloom tal debate, e então percebemos como essas coisas podem afetar (e de fato afetaram) a vida do baterista;

Nas palavras do próprio Irwin, “Ao escrever esta música, pensei em mim mesmo e nas lutas de muitos outros jovens com a imagem corporal, especialmente a dismorfia corporal. É algo que nunca enfrentei de forma criativa e me sinto forte em dizer que “Skinny Skinny” vai diretamente para aquele lugar doloroso em minha mente.”(você pode ler o comentário na íntegra clicando aqui).

É nesse momento que a mensagem por trás do clipe se torna mais clara. A juventude, onde somos bombardeados com expectativas sobre nós, mexem fortemente com nossa visão sobre nós mesmo. Como Ashton se vê de uma forma tão distorcida nos espelhos . (My second face, my damn reflection / We always meet when I’m defeated / You tear me up all of the time¹), e como isso não muda, ainda que seja só pele e ossos (I’m skin and bonе, I’m made of nothing / My secret pose, my secret ending / You tear me up all of the time²). Ashton ainda nos faz pensar mais profundamente nos efeitos que essa dismorfia causou a si quando canta, ainda que vagamente, sobre bulimia, citando rapidamente um dos distúrbios alimentares mais comuns entre os jovens que lidam com a pressão de precisarem serem magros para serem bem aceitos.

Apesar de tudo isso, o clipe se encerra com o baterista quebrando todos os espelhos. Ele arrasta o objeto com dificuldade, representando como essa luta é árdua, a de aceitar a si mesmo, e então destrói todas as imagens ruins refletidas e distorcidas, todas as impressões erradas que lhe faziam odiar viver no próprio corpo. A luta da auto aceitação não é fácil, mas deve ser enfrentada com uma boa marretada de amor próprio.

Essa face inesperada foi certeira, onde pode aproximar os fãs de um Ashton que nunca vimos, sempre tão inalcançável (e não só por seus 1,83m de altura), mas que agora parece tão verdadeiramente real, alguém que suporta as mesmas inseguranças e lutas que uma garota que vive numa cidadezinha rural (sim, estou falando de mim mesma). Acredito que Skinny Skinny não só foi feita para que possamos nos identificar com essa realidade cruel, como também para ser uma forma do próprio Ashton de lidar e demonstrar essa luta que por tanto tempo fora extremamente íntima e pessoal. O álbum com certeza é uma válvula de libertação de todas as coisas que guardou para si mesmo em todos esses anos de carreira.

Superbloom como um todo promete ser muito impactante, com discussões sobre alcoolismo, depressão, vícios, desespero e esperança, temas que Ashton diz não ter trabalhado artisticamente até então. Contará com 10 faixas e será lançado no dia 23 de outubro deste ano (2020), contendo tanto Skinny Skinny (que você pode assistir ao MV clicando aqui) quanto a nova música, lançada  hoje (16), chamada Scar (que você pode ouvir clicando aqui). Meu orgulho deste trabalho impecável mal cabe em meu peito, já aguardo ansiosamente para apreciar todas as nuances de Ashton Irwin, enfrentando junto a ele todos os seus demônios — e, quem sabe, também até alguns dos meus?

TRADUÇÕES

¹ “Meu segundo rosto, meu maldito reflexo/Sempre nos encontramos quando estou derrotado/Você acaba comigo o tempo inteiro”

² “Eu sou pele e osso, eu sou feito de nada/Minha pose secreta, meu final secreto/Você acaba comigo o tempo inteiro”

Por: Thalia Grace