Good In Bed

Good In Bed

Sinopse: Ela sabia que nunca tinha sido uma pessoa exatamente fácil de lidar. Ela podia ser mandona, mimada e completamente cabeça dura em diversos momentos. Mas nisso ela sabia que estava certa. Tom Holland era completamente insuportável, e ela iria odiá-lo por quanto tempo conseguisse.
Gênero: Romance
Classificação: 16
Restrição: Sexo explícito
Beta: Rosie Dunne

I

A casa era maior do que ela havia imaginado.

Claro que, a essa altura, ela já deveria ter se acostumado, morando na casa há mais de um mês. Mesmo assim, todos os dias, ainda se impressionava com o tamanho do local.

Não que sua casa no Brasil fosse modesta; era uma casa relativamente grande. Mas a casa da família O’donnell parecia muito maior. Talvez fosse porque tinha quartos demais, ou talvez porque era uma casa em Londres e isso ainda a impressionava.

Ela ainda coçava os olhos enquanto andava lentamente pelo corredor, o estômago retorcendo de fome. Mas, antes de ir até a cozinha, precisava cumprir seu ritual matinal.

Lenta e cuidadosamente, abriu a porta do quarto de Liam, encontrando o garoto ainda dormindo profundamente, abraçado a sua pelúcia de girafa. Ela sorriu doce, reprimindo a vontade de ir até o cama de Liam e beijar sua bochecha rosada. Em pouco mais de um mês, morando naquela casa e cuidando do garoto, já tinha se afeiçoado a ele de uma maneira que sequer achava ser possível.

Após fechar a porta tão cuidadosamente quanto havia aberto, desceu as escada murmurando uma música antiga, que ela provavelmente só conhecia por causa do pai. Assim que chegou na cozinha, encontrou um delicioso cheiro de torradas, e Charlie tranquilamente comendo e olhando a tela do próprio celular.

— Bom dia, Charlie — a voz dela soava realmente animada. — Cadê a Rachel e o Lewis?

— Bom dia, — Charlie não desviou o olhar da tela. Estava tudo bem, ele não fazia por mal, já estava se acostumando. — Ela precisou sair correndo por causa de uma matéria de última hora, provavelmente vai passar o dia fora. Mas fica tranquila, eu vou ficar com o Liam.

— Você sabe que eu amo cuidar do Liam, Charlie — riu baixo enquanto se sentava à mesa e começava a preparar o próprio café da manhã com os ingredientes que Charlie havia espalhado ali.

— Eu sei, mas ele dá trabalho e hoje é sua folga. Vai curtir um pouco, menina.

— E o Lewis? Ainda dormindo? — falar de boca cheia era uma prática horrível mas mesmo assim ela estava fazendo aquilo. Péssima.

— Até parece — os olhos do mais velho reviraram antes de ele finalmente parar de olhar para o celular e encarar . — Acordou em um pulo, mal tomou café da manhã e já saiu correndo pra casa dos Holland pra jogar vídeo game com o Paddy.

balançou a cabeça enquanto mastigava. Paddy era o melhor amigo de Lewis, os dois praticamente inseparáveis. Iam e voltavam da escola juntos, faziam os deveres juntos, saíam juntos, jogavam vídeo game juntos. Praticamente viviam juntos. Era realmente bonitinho de ver.

— Você tem curso hoje, não tem? — a pergunta de Charlie a tirou de seu temporário devaneio.

— Sim — ela tentou não parecer animada demais, o que era quase impossível. — O dia inteiro, como sempre.

— Quer que eu te leve e te busque?

— Não precisa, obrigada — todos os sábados Charlie oferecia, mas sempre negava.

Mesmo quando morava no Brasil, gostava de caminhar. Odiava pegar transporte público, claro, mas caminhar era revigorante. E o local do curso não era tão longe, entre vinte e trinta minutos de caminhada. Quer dizer, não era pouca caminhada, mas também não era nada insuportável. E aquela região era bonita, realmente bonita. Cheia de árvores. A caminhada ficava agradável.

O local do curso também era muito bonito, uma casa um pouco antiga e bem cuidada. Excelente locação para um curso de fotografia.

Todos da turma já estavam reunidos quando ela chegou, faltando apenas a professora. Uma garota de traços asiáticos e cabelo azul sorriu para enquanto ela se aproximava. Ava Ayumi Nakayama era a pessoa preferida de naquele grupo porque ela sempre tinha uma piada sarcástica na ponta da língua.

— Pronta para mais um lindo dia de fotos de plantas? — a animação de Ayumi era quase contagiante. Aquele comentário poderia parecer sarcástico, mas a garota realmente amava fotografar a natureza.

— Sempre — a cumprimentou com um rápido beijo no rosto, algo que Ayumi havia estranhado no começo com agora já estava até acostumada.

Não demorou para que a professora chegasse e, para a alegria de , aquele dia de curso enfim iniciasse.

Os sábados eram o dia preferido de . Quando decidiu fazer aquele programa de Au Pair, a escolha da Inglaterra pareceu a mais óbvia, uma vez que sempre teve interesse por conhecer a Europa. Demorou mais ou menos dois meses para que finalmente encontrasse a família O’donnell, e honestamente ela não poderia estar mais feliz. Charlie e Rachel eram um casal maravilhoso, claramente apaixonados e, mesmo que a vida obviamente não fosse perfeita, eles eram o mais próximo que já havia conhecido de casal de comercial de margarina.

Tinha Lewis, um garoto de 15 anos que… Bom, era um garoto de 15 anos. Parte da turbulência geralmente vinha dele, mas no geral até mesmo Lewis era tranquilo. Mesmo que o trabalho de não fosse cuidar do adolescente, vez ou outra ela se pegava ajudando com matérias escolares das quais ela ainda se lembrava, ou que a faculdade tinha ajudado.

E, claro, Liam. O garoto de dois anos era a criança mais doce que já havia visto em toda sua vida. Claro que às vezes fazia bagunça, manha ou até mesmo desobedecia, mas nada que não fosse controlável. Os momentos divertidos sempre ganhavam dos pequenos momentos de pirraça.

Então, no geral, a vida com os O’donnell era realmente maravilhosa. E, mesmo assim, os sábados ainda eram perfeitos porque ela ficava o dia inteiro em seu curso de fotografia, e aquilo sempre fazia seu dia melhorar em cem por cento.

havia trancado a faculdade de Química no ano anterior porque… algo não parecia certo. E desde então se sentia um pouco perdida. Mas, já em sua primeira semana, Rachel lhe contou sobre um novo curso que iria começar, e ela decidiu tentar a sorte.

E a sorte tinha sorrido para ela.

Era como se, com a fotografia, ela estivesse se descobrindo novamente. No começo, nas primeiras aulas, ela teve que usar os equipamentos do próprio curso porque não tinha equipamento próprio. Mas depois, Charlie e Rachel a presentearam com uma câmera profissional antiga de Rachel e, mesmo que ela ainda precisasse comprar lentes, ela já se sentia quase que uma profissional.

Durante todo o dia, aprendeu mais sobre luz, angulação, foco, aprofundando cada vez mais seus conhecimentos. Quando a tarde caiu, e já estava na hora de ir embora, ela se sentia revigorada, como se tivesse cumprido bem seu trabalho.

, quer ir almoçar no Olive Grove amanhã? — Ayumi perguntou enquanto as duas começavam a caminhar de volta para casa.

— Pode ser — concordou com um sorriso. — Aquela sopa deles é incrível.

— Sopa não é comida, .

— Você ‘tá errada — as duas riram antes de se despedir, virando para lados opostos da rua.

A caminhada de volta era tão agradável quanto a ida, e em pouco menos de meia hora ela já estava novamente em casa – a casa O’donnell, que era também sua por um ano inteiro – e gritando para anunciar sua chegada, como em qualquer filme ou série ruim.

, corre aqui por favor — uma voz também gritada a respondeu, vindo do andar de cima da casa.

colocou a própria chave no porta-chaves e subiu as escadas o mais rápido que conseguiu. Ao chegar no topo, chamou novamente por Charlie, encontrando-o no banheiro da suíte do casal. Pedindo licença e acreditando com todas as suas forças que Charlie nunca a colocaria em uma situação complicada, entrou no banheiro.

Charlie estava agachado de frente para banheira, usando apenas a calça. Dentro da banheira, parecendo completamente feliz, estava Liam, rodeado por inúmeros brinquedos flutuantes, vez ou outra jogando água para todo lado. Rindo, se aproximou mais, vendo Liam sorrir em sua direção.

— Já tá tomando banho, garotão? — ela também se ajoelhou em frente à banheira, vendo o garoto rir e concordar.

— Fala pra porque você tá tomando banho, Liam — a clara reprovação no tom de voz de Charlie com certeza não era um bom indicativo.

— Eu joguei comida — Liam parecia não ter vergonha alguma.

Naquele momento tudo que queria era rir, mas sabia que essa atitude não iria ensinar ao garoto o correto, então fez um enorme esforço para manter a expressão neutra e estreitou os olhos para a criança, tentando parecer reprovadora o bastante.

— É muito feio brincar com comida, Liam.

— Desculpa, — Liam parou de rir, fazendo uma carinha triste. Depois olhou para Charlie: — Desculpa, papai.

Nenhum dos dois resistiu àquele momento, abrindo um sorriso e aceitando as desculpas da criança. Logo Liam já estava voltando a se divertir na banheira, jogando água pra todo lado e brincando com seus patinhos de borracha.

, você pode me fazer um super favor? — Charlie esperou acenar confirmando antes de continuar: — Daqui a pouco a Rachel vai voltar pra casa e vai trazer comida daquele restaurante que ela ama. Enquanto eu termino de arrumar o Liam, você consegue dar um pulinho nos Holland e pedir pro Lewis vir pra casa jantar?

— Claro — bagunçou os poucos fios de cabelo de Liam antes de se levantar e sair do banheiro, deixando pai e filho aproveitarem mais daquele momento.

Ela gostava dos Holland. Tinha sido apresentada a eles logo em sua primeira semana, principalmente por culpa de Lewis – apesar dos pais Holland e pais O’donnell parecerem realmente ótimos amigos -, e já tinha se dado bem com os gêmeos Harry e Sam logo de cara. Talvez fossem por conta das idades próximas ou pelos gostos semelhantes, mas demorou pouquíssimo tempo para que eles já conversassem como se fossem velhos conhecidos.

Em questão de segundos já estava atravessando a rua e tocando a campainha da casa da frente, deixando a cabeça voar para séries de televisão enquanto esperava até a porta ser aberta por um sorridente Sam.

— Você chegou na hora perfeita — o sorriso do rapaz era contagiante, mesmo que ela não fizesse ideia de qual era o motivo. — Eu ‘tô fazendo torta holandesa, vem cá.

Logo ela já estava seguindo Sam para dentro da casa, parando apenas na sala onde Lewis e Paddy estavam sentados no sofá, totalmente concentrados na televisão onde o PlayStation estava conectado.

— Lewis, quando chegar o próximo checkpoint pode salvar o jogo porque vamos embora — ela sabia que tinha soado um pouco autoritária mas assim era a vida.

— Ah, , só mais um pouquinho — Lewis parecia chateado.

— Eu não faço as regras, Lewis — tentou não rir. — Sua mãe tá chegando com o jantar, ela vai ficar puta da vida se você não estiver lá, e nenhum de nós precisa disso. Aproveita pra chegar em um save enquanto eu checo o que o Sam tá aprontando na cozinha.

chegou na cozinha a tempo de ver Sam revirar olhos enquanto mexia uma panela no fogão. Sorrindo, ela chegou mais perto do rapaz, sentindo um delicioso cheiro de chocolate que aos poucos ganhava mais espaço no cômodo.

— Você vai me dar um pedaço da torta? — ela olhou para a panela, achando incrível como cada mexida de Sam parecia totalmente precisa.

— Na verdade eu já estou fazendo duas. Os O’donnell nunca me perdoariam se eu não desse um pouco pra eles.

— Eu ‘tô só imaginando a bagunça que o Liam vai fazer comendo isso — balançou a cabeça. A imagem mental era completamente adorável, mesmo que fosse seguida de horas de limpeza.

— Deixa eu te perguntar uma coisa — Sam falou casualmente. — Você tem planos pra mais tarde?

— Não. — quer dizer, ficar deitada assistindo Netflix provavelmente não encaixava como um grande plano.

— O Tuwaine vai fazer uma reunião de amigos na casa dele. Vai todo mundo aqui de casa — franziu as sobrancelhas para aquela frase. — Menos meus pais e o Paddy, óbvio.

— Ou seja, vai só você e o Harry.

— E o Tom — ela sempre esquecia que eles tinham um irmão mais velho famoso. — Enfim… Quer ir também?

— Eu não quero atrapalhar — ela balançou os ombros, não se sentindo confortável em discordar daquela frase.

Ela queria sair com Sam, Harry e o resto dos amigos deles. Desde a primeira semana dela, os gêmeos tinham sido completamente simpáticos, ela não tinha do que reclamar. De certa forma, eles tinham ajudado-a a se sentir acolhida naquele novo país. Mas mesmo que eles se dessem realmente bem, ela sentia que eles ainda não tinham tanta intimidade a ponto de se meter na vida deles dessa maneira.

— Não vai atrapalhar, eles vão gostar de ter gente nova no rolê — chegou a abrir a boca para contestar, mas Sam rapidamente a cortou: — Vai sim, vamos sair daqui umas sete.

— Sam… — ela pegou o próprio celular, checando a hora. — Isso é daqui quarenta minutos.

— Então sugiro que você vá se arrumar logo. Daqui a pouco a gente te busca.

Repetindo diversos palavrões mentalmente, nem se despediu de Sam. Apenas voltou para sala e praticamente obrigou Lewis a sair da frente do video game, enfim levando-o para casa, mesmo que o garoto estivesse com a expressão totalmente amarrada.

Ela mal cumprimentou Rachel, que aparentemente havia acabado de chegar. apenas avisou que não participaria do jantar porque sairia com os gêmeos – o que era bom, dava aos O’donnell um tempo a sós em família. Em seguida correu para o próprio quarto, tirando a própria roupa e indo para o pequeno banheiro para tomar um rápido banho.

Enquanto corria para ficar pronta, ela xingava Sam mentalmente por tê-la convidado tão em cima da hora, apesar de estar bastante feliz por simplesmente ter sido convidada. Era bom que essa “reunião” fosse bem divertida.

II

Às sete em ponto a campainha da casa O’donnell tocou. tentou terminar de passar o batom o mais rápido possível sem fazer muita bagunça. Mal checou a própria imagem no espelho antes de pegar a bolsa e descer quase correndo, se despedindo rapidamente da família O’donnell, que agora estava reunida à mesa, jantando.
Sam a cumprimentou com um sorriso, fazendo sinal para que ela o seguisse até o carro, que já estava parado em frente à casa dos Holland. Quando entraram no carro, Harry estava na cadeira do motorista, um sorriso enorme para cumprimentá-la. Após os três se ajeitarem no carro, Harry finalmente falou:

— Quer dizer então que o Sam conseguiu te arrastar — não era uma questão, Harry estava apenas constatando o óbvio.

— Bom, não é como se eu tivesse muitos planos para um sábado a noite, né? — ela balançou os ombros, também rindo.

— Vai ser tranquilo, só uma reunião de amigos. O Tom ‘tava nos Estados Unidos há um tempinho pra gravar, como ele voltou essa semana, vamos comemorar — Sam, que estava no banco do carona, se virou, ainda sorrindo, os cabelos um pouco mais longos quase caindo sobre seus olhos.

— E aí você me chama para ser a intrometida no rolê, entendi — ela estreitou os olhos para o gêmeo, que apenas riu e também balançou os ombros.

— O pessoal ama gente nova no grupo. Depois de tantos anos das mesmas caras, é sempre bom inovar as amizades — Harry falou.

A caminho era realmente rápido, mal dando vinte minutos. Eles desceram do carro conversando e rindo, caminhando até a entrada da casa e tocando a campainha. Se prestasse muita atenção, conseguiria ouvir uma música baixa vinda da casa, nada alto para que não parecesse realmente que se tratava de uma festa. O que, pelo visto, eles queriam deixar claro que não era.

A porta foi aberta por um rapaz gigantesco, de pele escura e sorriso divertido. Se já não estivesse rindo por causa dos gêmeos, ela com certeza começaria a rir agora. Ela não sabia quem era aquele rapaz, mas ele com certeza parecia ser super divertido, e sendo a pessoa extrovertida que era, já estava anima por conhecê-lo.

— Finalmente vocês chegaram! — o rapaz puxou primeiro Harry para um abraço de urso, ignorando completamente todas as reclamações do gêmeo. — Eu só perdoo porque trouxeram uma pessoa nova.

— Tuwaine! — Sam tentava de todo jeito desviar do amigo, que tinha soltado Harry e agora tentava agarrá-lo. — Essa é a , ela tá de Au Pair na casa dos O’donnell e às vezes tem que ir em casa arrancar o Lewis de lá.

— Para de fugir, Sam! — Tuwaine finalmente conseguiu agarrar Sam, abraçando o rapaz com força e também ignorando suas reclamações. Apenas após soltar Sam, Tuwaine encarou , mantendo o sorriso. — Eu ainda não vou te agarrar assim, mas saiba que é só uma questão de tempo.

— Não perco por esperar.

— Venham, entrem, fiquem à vontade. O irmão de vocês, o Harrison e a Olivia já estão acabando com todas as comidas e bebidas, acelerem! — Tuwaine entrou na casa, deixando o trabalho de fechar a porta para os recém chegados.

A casa era relativamente menor que a dos O’donnell e dos Holland, mas ainda parecia ser grande o bastante. Em apenas três cômodos eles já estavam na porta dos fundos, saindo em um agradável jardim com iluminação parcial e cheiro de grama recém cortada. Algumas pessoas riam e conversavam, parando apenas quando eles fecharam a porta da casa.

— Então vocês decidiram aparecer, finalmente. — um rapaz moreno, extremamente parecido com Dominic, levantou as sobrancelhas para os gêmeos.

Não tinha como negar, aquele era Tom, o irmão mais velho. O gene que parecia correr na família Holland era óbvio demais, não tinha como ser confundido. sabia que Tom era famoso, muito famoso. Mesmo que ela não fosse fã de heróis, ela ainda sabia quem era o Homem-Aranha e a importância que ele tinha na Terra. Ter uma pessoa tão famosa ali, na sua frente, deveria ser intimidador. Mas ele tinha um rosto tão característico dos Holland que ela acabava se sentindo levemente confortável.

Ao lado, em espreguiçadeiras, estavam duas pessoas que não conhecia. Um deles era uma rapaz loiro, de olhos claros e ridiculamente lindo, provavelmente a pessoa mais linda daquele local. Ao lado dele estava uma garota igualmente loira, de cabelos longos e sorriso simpático.

— Uma garota! — a loira falou antes de se levantar e praticamente voar na direção de , a agarrando com uma força descomunal. — Finalmente mais uma garota nesse grupo pra me salvar desse bando de homem chato depois que a Elysia me abandonou!

riu, retribuindo o abraço da garota com a mesma intensidade, vendo Sam revirar os olhos. Aquela sim era uma excelente maneira de ser recepcionada em um grupo onde ela não conhecia praticamente ninguém. Ouviu uma risada parecendo irônica ao fundo, mas não conseguiu ver quem havia rido.

— A Elysia só foi viajar, gente — Sam revirou os olhos, mas foi praticamente ignorado pelo resto do grupo.

— Você vai assustar a menina nova, Olivia — o menino loiro falou enquanto Olivia soltava , ainda ficando de pé ao seu lado.

— Tá tudo bem, calor humano é sempre bom — torceu para ter soado engraçada, o que pareceu dar certo, já que todos ali acabaram rindo. — Eu sou a , sou babá do Liam e de vez em quando do Lewis também.

— Eu sou a Olivia — a garota loira segurou sua mão e a guiou até uma das espreguiçadeiras que tinha ali, deixando mais perto de todos. — O outro loiro ali é o Harrison e o Tom você já deve conhecer.

encarou Tom por um segundo, vendo-o sorrir para ela. Sorriu de volta, torcendo para parecer simpática o bastante.

— Pior que não — respondeu enquanto sentava no local que Olivia havia indicado. — Ele não estava nenhuma das vezes que fui nos Holland.

— Eu não moro lá. E eu sou famoso, então… — Tom balançou os ombros.

franziu as sobrancelhas, sentindo que Tom havia soado levemente babaca. Não sabia se era apenas coisa da sua cabeça, mas parecia que, com aquela frase, Tom queria parecer superior a todos os outros. Como se ser famoso o tornasse alguém melhor que todos eles.

Mas com certeza era coisa de sua cabeça, então apenas sorriu.

— Bom, se um dia você visitar seus pais, o Sam fez uma torta holandesa deliciosa — ela balançou os ombros e Tom ergueu as sobrancelhas enquanto Harry dava uma risadinha.

Ah não. Ela tinha soado provocativa. Merda! Ela odiava quando fazia isso sem querer. As reações pareciam as mais diversas. Harry e Harrison riam, Tuwaine e Sam pareciam chocados e Olivia estava perdida entre olhar para e para Tom.

— Pode deixar, quando eu visitar meus pais, vou fazer questão de comer a torta que meu irmão fez. Aliás, sinta-se convidada para se juntar a nós, já que você conhece minha família tão bem assim.

Se havia uma maneira de se começar mal um relacionamento, era aquela. Era óbvio que Tom já não gostava de , e ela não iria mentir dizendo que tinha sentimentos positivos em relação ao rapaz. Harrison, que tinha levantado em algum momento que sequer tinha percebido, estendeu uma long neck para ela, que agradeceu baixo antes de dar um longo gole.

— Enfim… Conta um pouco mais sobre você pra nós, — Harrison sentou no mesmo lugar que estava antes, claramente fazer um grande esforço para tentar deixar o clima mais leve.

— Não tem muita coisa interessante, para ser sincera — ela balançou os ombros antes de dar um longo gole em sua bebida. — Eu sou do Brasil, vim fazer Au Pair por um ano e cuido do Liam.

— E você pode beber e cuidar de uma criança? — Tom perguntou.

Poderia ter sido inocente. Uma simples curiosidade. Mas sentiu o tom do rapaz. Ele não estava tentando só achar assunto. Ele estava provocando e, pior que isso, claramente duvidando de seu profissionalismo. Naquele momento ela oficialmente já odiava o irmão mais velho dos gêmeos.

— Hoje é minha folga, então eu posso fazer o que eu quiser. Não que seja da sua conta, claro — o sorriso dela era obviamente forçado e qualquer um ali sabia disso. Assim como o dele.

Ainda que estivesse olhando atentamente para Tom, conseguia sentir o restante das pessoas se olhando preocupadas. A tensão agora estava óbvia, nenhuma tentativa de esconder o que estava acontecendo ali. Era idiota, era infantil, mas mesmo assim… Era aquilo. Ela não tinha ido com a cara de Tom, Tom não tinha ido com a cara dela. E assim seria, era mais fácil apenas aceitar.

Talvez as pessoas demorassem um pouco mais para aceitar aquilo e ela não poderia culpá-los por isso. Ela era a novata, a menina de fora. Era ela se metendo em um novo grupo, para o qual ela havia sido convidada apenas para uma reunião – e, pelo andar da carruagem, não seria convidada novamente tão cedo.

Bom, existiam coisas piores na vida.

! O Tuwaine te mostrou a casa? — Olivia praticamente pulou da espreguiçadeira, atraindo a atenção das pessoas ali, o que quase fez um suspiro de alívio escapar dos lábios da brasileira.

— Não, ainda não.

— Ótimo — em questão de segundos a mão de Olivia já estava cobrindo a de , começando a guiá-la pela casa. — Vem, deixa que eu mesma mostro tudo!

Tão logo elas estavam na casa, já longe dos rapazes do grupo, Olivia parou e encarou . Os braços da loira foram cruzados, e não sabia dizer ao certo como agir a partir dali. Era óbvio que Olivia iria lhe dar um sermão. Quem pensava que era para falar daquele jeito com Tom e o seu grupinho de amigos? Ela era uma estranha que, honestamente? Nem àquele país pertencia, quem dirá àquele grupo.

— Você e o Tom claramente começaram com o pé esquerdo — e mesmo assim a voz de Olivia parecia… simpática.

— Eu não diria isso — tinha necessidade de mentir? Não tinha. Mas mesmo assim ela estava mentindo como a idiota que era. — Só…

— O Tom pode ser complicado — os ombros de Olivia balançaram enquanto ela voltava a caminhar pela casa, levando até a sala e se jogando em um confortável sofá, fazendo sinal para que a Brasileira fizesse o mesmo. — Especialmente quando ele está com todos os amigos.

— Não foi nada demais, só comentários com o timing errado.

— Sério? Porque parecia que ele estava falando que você não é profissional e um pouco folgada, e que você estava falando que era intrometido e não se importava muito com a família.

E era exatamente isso.

Olivia era mais analítica do que parecia, e o rosto de , que começava a esquentar, com certeza não esconderia o quanto ela sabia que outra garota estava completamente certa. e Tom definitivamente tinham apenas trocado farpas atrás de farpas.

— Eu não fui com a cara dele. — finalmente admitiu, esperando o olhar de ódio que Olivia com certeza lançaria.

Mas tudo que a inglesa fez foi começar a rir.

— Como eu disse, o Tom, no meio dos amigos, pode ser um problema. Mas… Você se acostuma e, quando se dá conta, está gostando dele mais do que deveria — de novo os ombros de Olivia balançaram, e sabia que tinha algo ali, alguma história não contada. Mas ela não tentaria descobrir. Pelo menos não ainda. Era cedo demais.

Não demorou muito e as duas voltaram para o grupinho, e logo foi recebida por uma brincadeira leve vinda dos gêmeos, o que deixou seu coração um pouco mais leve. Ela poderia não gostar do Holland mais velho, mas com certeza gostava dos gêmeos e não queria perder a amizade com os dois por pouca coisa.

Durante a noite eles riram, brincaram, se conheceram melhor, contaram histórias sobre o passado, sobre a vida, sonhos futuros… E Tom e sequer olharam um para o outro. E ela sabia que isso não passava despercebido pelo restante do grupo, todo mundo com certeza estava notando a maneira como eles realmente se esforçavam para não dirigir a palavra um ao outro, ou para sequer trocar um olhar.

A noite já estava virando madrugada quando Sam anunciou que precisava ir embora e, mesmo sob protestos dos irmãos e amigos, o gêmeo não se deixou vencer. aproveitou para também se despedir, mesmo sob os pedidos quase chorosos de Olivia, que repetia “eu não aguento mais os meninos”.

Na volta, sentou no banco do carona, já que Harry iria ficar e ir embora com Tom e Harrison mais tarde – ou talvez apenas no dia seguinte, ela não tinha como saber. Ela afivelou o cinto e observou em silêncio enquanto Sam dava partida no automóvel – e agora entendia porque ele não tinha aceitado nenhuma bebida alcoólica. Alguém precisava dirigir, afinal.

— Então… — quem puxou o assunto foi Sam. — O que achou do pessoal?

— Legal — ela não queria falar que o irmão dele era um saco, ao menos não logo de cara. — O pessoal foi bem divertido. O Tuwaine é absurdamente engraçado, e o Harrison é um fofo e consegue deixar o Harry mais divertido ainda, o que eu achava impossível. E a Olivia, ela é feita de amor ou o quê?

— Algo assim — Sam ria, o que era um alívio. — Mas então… Você odiou o Tom, né?

E ali estava.

— Odiar é uma palavra muito forte.

— Ele também não gostou muito de você — Sam falou calmamente.

Ok, também não tinha gostado de Tom. Aquilo não iria deixá-la brava. Não mesmo. Por que ela ficaria? Tom era chato, de qualquer jeito. Ela podia viver com o fato de que ele não gostava dela. Não fazia diferença.

— Ótimo — ela cruzou os braços e, ok, aquela atitude era o completo oposto do que ela deveria ter feito. Idiota.

— Isso vai ser divertido — Sam riu e tentou não bufar.
Ela tinha completa certeza que Sam estava totalmente errado.

III
Naquela noite, dormiu como um bebê.

Acordou com batidas altas e repetitivas na porta. Coçou os olhos e se levantou devagar, tentando se manter acordada o bastante para não tropeçar nos próprios pés enquanto se arrastava até a porta. Do outro lado, encontrou Lewis com cara de poucos amigos, algo realmente comum aos quinze anos, ela não iria culpá-lo.

— Minha mãe perguntou se você vai querer almoçar — a voz combinava com a expressão de mau humor.

— Almoçar? — aquilo não fazia sentido.

Ou os O’donnell estavam almoçando muito cedo, ou…

correu até a mesa de cabeceira, pegando o celular vendo as duas únicas informações que importavam: já era quase meio-dia e ela tinha seis ligações perdidas de Ayumi. Ela apenas avisou a Lewis que não iria almoçar com eles, praticamente fechando a porta na cara do garoto enquanto corria para tirar a roupa e tentar se arrumar o mais rápido possível.

Porra — ela xingou quando desequilibrou e caiu por cima do celular, puxando debaixo de si mesma com alguma dificuldade e retornando a ligação para a amiga, esperando dois toques até ouvir o “alô” do outro lado da linha. — Não me mata.

— Vaca.

— Eu já ‘tô terminando de me arrumar e ‘tô saindo, prometo — não era nada fácil colocar a calça e falar no telefone ao mesmo tempo, estava fazendo um senhor esforço.

— Eu juro que você inventar de vir andando,

— Eu vou de Uber! Sério, vinte minutos e eu já chego! — a resposta de Ayumi foi apenas um sussurro antes de desligar.

se sentiu obrigada a prender os cabelos em um rabo de cavalo alto. Ela não teria tempo de tomar banho, o que por si só era extremamente incômodo, já que ela odiava sair de casa sem tomar banho, e se tentasse pentear o cabelo, ficaria ali para sempre. E não adiantaria muita coisa, honestamente.

Mal falou com Charlie e Rachel antes de sair de casa, avisando rapidamente que almoçaria fora mas voltaria a noite para cuidar de Liam e dar um pouco de paz ao casal. Apenas ao chegar nos degraus, do lado de fora, novamente pegou o celular, abrindo o aplicativo do Uber e odiando o fato que gastaria para uma corrida que iria realmente durar pouco tempo.

? — uma voz conhecida despertou sua atenção.

Do outro lado da rua, Sam sorria para ela, os olhos escondidos por um óculos escuro que protegia do sol que estava realmente bastante fraco. Ela sorriu, clicando para pedir o carro e correndo até o portão, finalmente atravessando e cumprimentando Sam com um rápido abraço.

— Vai passear? — ele perguntou animado.

— Vou almoçar com a Ayumi no Olive Grove.

— Sério? Eu amo esse lugar, a torta de limão deles é a melhor sobremesa que eu já comi em toda minha vida — era incrível como Sam parecia muito mais animado quando estava falando de comida. — Vai a pé?

— Acabei de pedir o Uber, que está a… — ela checou o horário, fazendo careta logo em seguida. — Oito minutos de distância. Perfeito.

— Cancela aí, eu te levo lá.

— Não quero atrapalhar — ela balançou a cabeça negando.

— Eu ‘tô indo pro Tuwaine de novo, te dou carona. Cancela logo antes que cobrem a taxa, menina!

apenas riu e cancelou o pedido de corrida, aceitando a carona de Sam e entrando em seu carro. Pelo segundo dia seguido. Aquilo iria se tornar algum tipo de hábito? Não seria o pior hábito de mundo de se ter, era apenas um pouco… Inesperado. Ainda assim, quanto mais amigos ela fizesse na Inglaterra, melhor. Sendo a pessoa sociável que sempre tinha sido, não era acostumada a ter poucas “opções” de amigos com quem sair em fins de semana, por exemplo.

— Então, não quer ir pro Tuwaine hoje? — Sam falou, tirando de seus pensamentos, Ela franziu as sobrancelhas, um pouco perdida. Pelo que se recordava, não havia sido convidada a visitar Tuwaine em nenhum momento. — Aposto que o Tom está louco pra te ver de novo.

Ah sim, a provocação. É claro que aquilo não seria simplesmente esquecido. Não tinha sido exatamente uma cena linda ou agradável de se presenciar, duas pessoas que mal se conheciam sendo um tanto quanto idiotas uma com a outra, ela tinha que admitir isso. Agora precisava aceitar que aquilo seria sempre lembrado.

— Ha-ha. Vai ficar fazendo gracinha agora, Holland? — ela estreitou os olhos para Sam, que começou a rir.

— É engraçado, você não pode negar.

— O que, seu irmão ser um mala é divertido agora? — ela estava totalmente exagerando e iria negar esse fato por toda a eternidade.

tinha uma lista de defeitos enorme, com o tempo tinha aprendido a enxergar e reconhecer cada um deles. Teimosia era um eles. Ela dificilmente dava o braço a torcer, mesmo quando estava errada; sempre fazia absolutamente tudo a seu alcance para encontrar pelo menos um ponto mínimo em que estava certa, e então se abraçava a esse único ponto com sua vida.

Ela não se sentia orgulhosa de admitir, mas a verdade era que ela gostava de sair por cima em todas as situações.

— Vocês dois foram bem malas. — e Sam estava certo, no fundo de seu coração ela sabia.

Mas ela também gostava de justificar em sua própria cabeça que só tinha sido mala porque Tom era babaca, e gente babaca merecia ser tratada com babaquice. E ela realmente não queria continuar aquele assunto com o irmão do chato em questão, então ficou realmente feliz ao ver o restaurante se aproximando, e o carro começar a parar. Realmente, se não tivesse dormido demais e se atrasado, com certeza teria ido andando.

— Tanto faz — foi assim que ela acabou o assunto, desafivelando o cinto enquanto Sam ia parando o carro. — Obrigada pela carona.

— Coma bastante torta de limão por mim! — ela conseguiu ouvi-lo gritar enquanto saía do carro e finalmente entrava no local.

Não foi difícil achar uma garota de cabelo azul no meio do restaurante, que estava relativamente cheio. caminhou até a mesa de Ayumi e sentou, abrindo um gigantesco sorriso. Que foi retribuído pela amiga com uma careta feia.

— Eu ‘tô só dez minutos atrasada, Ayumi. Me respeita. — revirou os olhos e abriu o cardápio, começando a ler os pratos especiais daquele dia.

O que ela mais gostava sobre o Olive Grove era que, mesmo que ele tivesse um menu de opções comuns, ele também sempre tinha um menu variado, que mudava diariamente. Era a maior graça do restaurante, algo que ela nunca tinha visto antes e achava a coisa mais genial do mundo inteiro.

— Eu sei, mas eu gosto de incomodar — a garota riu, também folheando o próprio menu.

— Aparentemente você não é a única — já decidida, fechou o menu e bufou. Certo, não era o tipo de humor que ela deveria ter em um almoço com a amiga.

— ‘Tá, vamos pedir e você me explica o que foi isso — Ayumi também fechou o menu e elas chamaram o garçom, fazendo o pedido rapidamente. Assim que o garçom saiu levando os menus, Ayumi voltou a encarar . — Conta.

— Não é nada demais. Ontem eu conheci o irmão mais velho dos gêmeos e a gente não se deu muito bem, só isso — balançou os ombros, tentando fazer pouco caso e de alguma maneira dizer que aquilo não importava realmente.

— O irmão dos gêmeos? Ele é famoso, não é?

— Sim, o que só o torna mais prepotente e insuportável — ok, não sabia de onde tinha saído tanto ódio. Tinha sido um pouquinho exagerado.

— Prepotente e insuportável? — a maneira como Ayumi repetiu suas palavras só provava o quanto tinha sido exagerada. — Não ‘tá meio cedo pra falar isso? Você conheceu o cara literalmente ontem.

— Eu não quero falar do Tom, Ava — acabou chamando a amiga pelo nome inglês, agradecendo por ela não se importar. — Não nos demos bem e é isso. Vamos mudar de assunto, por favor.

— Certo… Eu comecei a assistir a série que você indicou. Community.

— Sério? — os olhos de brilharam instantaneamente. Aquilo sim era um assunto legal de ficar conversando por horas e horas. — E o que achou? Por favor, me fala que você ama o Abed!

— E tem como não? — a maneira como Ayumi também levava aquele assunto a sério chegava a provocar arrepios de emoção em . — O Abed e a Annie são os verdadeiros amores da minha vida. E eu realmente queria que o Pierce só morresse.

— Eles também. Todo mundo. Mas logo você descobre que o Pierce é muito importante na história.

No fim elas passaram o almoço inteiro falando de séries e filmes, porque era o assunto mais comum entre elas. E simplesmente amava demais aqueles momentos. Estar com Ayumi era quase como estar com seus amigos do Brasil. Ela se sentia quase em casa podendo falar sobre absolutamente qualquer assunto com alguém que a entendia tão bem.

Quando foram pagar a conta, acabou tendo uma ideia. Pediu um pedaço de torta de limão para viagem e sorriu, orgulhosa de si mesma, enquanto saía do restaurante com Ayumi. A garota apenas encarou o pacote na mão de e sorriu. Já estava acostumando sobre como a brasileira poderia ser um tanto… emocionada.

Como o restaurante não era realmente longe, decidiu voltar caminhando para casa. Foram vinte ótimos minutos de caminhada, durante os quais ela torceu com todo seu coração para que torta resistisse firme e forte. Talvez aquela não tivesse sido sua ideia mais genial, mas não era exatamente conhecida por sua genialidade, então deixaria passar esse erro pessoal.

Quando chegou ao local já familiar, foi direto para a porta da casa dos Holland, tocando a campainha e aguardando com um sorriso no rosto… que morreu assim que a porta foi aberta pelo mais velho dos filhos.

— Boa tarde, vizinha — o sorriso de Tom era horrível, ela odiava o sorriso dele. E ela tinha motivo sim
!
— O Sam está? — ela não iria perder tempo retribuindo o cumprimento. Aquele cara nem morava ali, o que estava fazendo na casa dos pais?

— Ele saiu. Quer deixar recado? — Tom apoiou o braço na batente da porta de um jeito tão ridiculamente clichê que não conseguiu conter a maneira como seus olhos acabaram revirando.

— Entrega isso pra ele. Fala que é presente — ela estendeu o pacote onde a torta de limão estava (intacta, por favor!) embrulhada.

— Claro — ainda com aquele sorriso irritante, Tom pegou o pacote, antes de franzir as sobrancelhas para . — Você ‘tá ciente que o Sam tem namorada, né?

Ah, não — ela carregou o máximo de ironia que conseguia e, dado que ela uma pessoa conhecida por não ser exatamente adorável, era uma quantidade realmente grande. — Não acredito que não vou conquistar o coração do seu irmãozinho com minha incrível torta de limão. Meu mundo caiu.

— Relaxa, você nunca conquistaria o Sam. Ou o Harry. Ou ninguém aqui.

Tom era oficialmente o mais insuportável de todos os Holland e, se não gostasse tanto de Sam (como amigo), ela pegaria aquela torta e enfiaria goela abaixo daquele prepotente idiota.

— Decidiu fingir que se importa e visitar a família, Holland? — ela inclinou a cabeça e piscou de uma maneira inocente. — Foi pra isso que o Sam foi te buscar, né?

— Não que seja da sua conta… Qual é seu nome mesmo? Marta? Miriam? — Tom voltou a sorrir, mas dessa vez era possível sentir o ódio através do gesto.

. .

. — ele parou de sorrir. — Mas hoje é noite de nos reunirmos para jogar. E eu sei que você ama minha família, mas não, você não está convidada. Pode deixar, eu falo pro Sam que você mandou um presente pra ele.

E assim, simples assim, ele bateu a porta na cara de , a deixando do lado de fora. Ela respirou fundo, sabendo que gritar ou ameaçar ou abrir a porta a força não faria absolutamente bem algum naquele momento. E ela ainda tinha um pouco de dignidade intacta em seu corpo, então iria fazer a única coisa que poderia: engolir o orgulho e voltar para a casa dos O’donnell. Ela ainda teria que cuidar de Liam pelo resto do dia para que Charlie e Rachel pudesse ter um pouco de paz.

Alguém tinha que ter.

Porque, enquanto voltava, deixava que a garota de onze anos na quinta série levasse a melhor e lhe dissesse que as coisas não iriam ficar desse jeito. Ela não iria deixar Tom Holland pisar em seu orgulho daquela maneira.

IV

— Liam, não! — correu a sala inteira até alcançar Liam, que estava do outro lado tentando escalar a estante da televisão. — Não pode! — ela conseguiu segurar o garoto antes que ele alcançasse a televisão de sessenta polegadas e lhe causasse um horrível trauma psicológico e financeiro.

Segurando o garoto no colo, que apenas ria, caminhou até a cozinha, deixando Liam em sua própria cadeira, preso, e dando a ele um de seus brinquedos, que no geral deixavam o garoto quieto por tempo o bastante para ela encontrasse outro modo de deixá-lo quieto por mais tempo, e assim por diante.

— Você tem que parar de tentar escalar as coisas da casa, Liam — ela falava enquanto ia até o fogão, pegava a comida que Charlie tinha deixado pronta e colocava para esquentar. — Eu sei que você ‘tá nessa fase de descobrir mais sobre o mundo, mas isso pode causar acidentes, sabe? Pra nós dois.

Com um suspiro, pegou uma vasilha menor na geladeira, destampando e colocando no microondas por exatamente um minuto e meio. Nos fins de semana ela saía, passeava, via os amigos. Mas seu dia a dia era aquilo. Sentar e cuidar de um garotinho de quase três anos e impedi-lo de se matar enquanto a mãe passava o dia inteiro trabalhando com jornal criminal e o pai administrava uma empresa financeira.

Yey.

O microondas apitou, avisando que o minuto já havia passado e estava na hora de, finalmente, alimentar a criança. Ela puxou a própria cadeira para perto dele e sorriu, torcendo para que aquele dia fosse um dos fáceis. Mexeu a colher na estranha papa que Charlie sempre deixava preparada para Liam, pegando um pouco, e levando na direção da criança.
— Hora da comida, Liam! Abre a boquinha!

E Liam desviou o rosto, se recusando a comer.

Ok, aquele seria um dos dias difíceis.

— Vamos lá, não faz isso. Come pelo menos um pouquinho — ela pediu, mas Liam ainda parecia irredutível. — Liam, você tem que comer agora. Se você comer, eu deixo você beber um pouco de suco. Que tal?

E não que ela realmente esperasse que ele entendesse tudo o que ela estava falando, mas a promessa de recompensa pareceu despertar a atenção de Liam. Ele fez um movimento que, no futuro, talvez fosse franzir as sobrancelhas. Mas agora parecia apenas adoravelmente desconfiado.

— Suco — Liam repetiu. Certo, ela sabia que ele amava suco de uva e era feio chantagear a criança desse jeito, mas ela tinha que fazê-lo comer.

— Só se você comer o almoço — ela sorriu e estendeu novamente a colher na direção de Liam, vendo-o abrir a boca e aceitar o alimento, finalmente.

Ela acabou conseguindo fazer com que o garoto comesse toda a refeição e aceitou que aquele não tinha realmente sido um dos dias difíceis. Não era um dos dias maravilhosos em que Liam simplesmente comia sem nenhum trabalho, mas nem chegava perto de quando o garoto simplesmente se recusava a comer e começava a chorar e gritar por todo o tempo em que ficasse ao lado dele segurando a vasilha de comida.
Como prometido, ela encheu metade de sua mamadeira com o suco de uva orgânico horrível que aparentemente todos os O’donnell achavam a coisa mais deliciosa do mundo. Deixou Liam beber todo o conteúdo – ridiculamente rápido – enquanto ela mesma almoçava.

Geralmente, depois do almoço, não demorava muito até que Liam acabasse pegando no sono e ela ficasse livre para assistir alguma série em paz. se sentou em frente à televisão, deixando Liam dormir em seu cercadinho, silencioso. Com o notebook no colo, começou a pesquisar por novas lentes para sua câmera, ficando levemente triste ao perceber que não conseguiria atualiza-la tão cedo.

O dia pareceu voar e logo Liam já estava novamente acordado e brincando com seus ursinhos. A porta foi aberta no horário de sempre, e a voz de sempre anunciou a mensagem de sempre:

, cheguei! Tem comida? — Lewis jogou a mochila no sofá, indo até o irmão mais novo e o pegando no colo, fazendo cócegas na criança que começava a gargalhar.

— Tem comida na geladeira, seu pai deixou pronto. É só colocar no microondas — respondeu, vendo o garoto colocar o irmão novamente no tapete.

— Tem comida pro Paddy também? Ele vai ficar aqui hoje — Lewis apontou para o rapaz parado atrás dele, que não tinha percebido que também tinha entrado na casa. Ela se esforçou muito para não pensar o que essa falta de atenção dizia sobre ela.

— Eu já comi, então tudo o que tem aí vocês podem dividir entre vocês, acho que o Charlie vai cozinhar mais quando chegar. — ela balançou os ombros, voltando a prestar atenção no notebook e nas lentes das câmeras.

Enquanto Lewis ia para a cozinha, observou pela visão periférica Paddy começar a ficar mais à vontade na casa. Era bem esperado que ele se sentisse assim, visto que ia para a casa dos O’donnell com alguma frequência. Quando dizia que Lewis e Paddy eram melhores amigos, na verdade ela queria dizer que os dois eram como unha e carne.

— Meu irmão tinha uma dessa — Paddy olhava diretamente para a câmera de , que estava em cima da mesa de centro para que ela pudesse ficar o tempo todo comparando o modelo do aparelho, se era realmente compatível com a lente que ela estava procurando. — Na verdade acho que ainda tem.

— Qual irmão? — não sabia exatamente porque tinha feito aquela questão. Não fazia muita diferença.

— O Harry. Ele trabalha com isso — Paddy pediu licença e pegou a câmera, analisando rapidamente e logo a colocando novamente na mesa. — É, igualzinha. Mas ele comprou uma melhor, então nem usa mais ela direito.

Era assim que queria estar.

Mas iria aceitar que aquela câmera era realmente boa e tinha sido um presente incrível de Rachel. Além disso, ela precisava de dinheiro para comprar lentes. Por que raios tudo tinha que ser sempre tão caro?! Tinham falado que na Europa aquelas coisas eram mais baratas, não tinham? Ou ela tinha sonhado?

Não seria a primeira brasileira a se iludir sobre uma vida melhor no exterior.

— O Harry trabalha com isso faz tempo? — não precisava realmente continuar o assunto, mas não iria matá-la ser legal com Paddy enquanto Lewis terminava de esquentar comida para os dois.

— Um pouco. Nossa mãe é fotógrafa, então ele sempre teve interesse. Daí o Tom ficou super famoso, ele aproveitou pra começar a fazer o nome dele, principalmente com edição e tal… Mas ele é ótimo com isso. Ele sempre comprou um monte de coisa pra turbinar as câmeras e deixar tudo mais bonito.

Hum.

Aí estava um pensamento interessante, prestes a gerar esperanças demais em .

— E ele ainda tem as coisas da câmera igual a minha?

— Com certeza, ele é muito cuidadoso — Paddy não parecia ter entendido as intenções de . Mas tudo bem, ele não precisava.

— O Harry está em casa, Paddy?

— Acho que sim, não sei. Não fui em casa. O Sam ‘tá, com certeza. Como a Elysia ‘tá viajando, ele sempre fica em casa. Ou com o Harry — o menino franziu as sobrancelhas, parecendo confuso consigo mesmo. — Na verdade eu não tenho ideia.

Ela apenas riu e disse que estava tudo bem. Agora ela precisava esperar mais duas ou três horas que Charlie estaria em casa e ela poderia ir até a casa dos Holland torcer para ter sorte o bastante para que Harry estivesse em casa.

As três horas passaram devagar demais. se dividia entre mexer no notebook e impedir Liam de tentar se matar escalando alguma parte da casa – mas ficava relativamente mais fácil quando Lewis estava e ajudava um pouco a segurar o irmão. Os dois adolescentes, em compensação, praticamente não olhavam para nada além do vídeo-game. Mas tudo bem, era para isso que eles estavam ali. E era paga para ser babá do Liam, não do Lewis, portanto não falava absolutamente nada sobre possível dever de casa.

Quando Charlie finalmente chegou, quase pulou de alegria. Claro, esperou o homem ficar mais acomodado, tomar um banho, se deitar no sofá com Liam por cima dele, tentando empurrar um monte de brinquedos em sua direção. Por mais que ela e o garoto se dessem bem, ela sabia que nunca substituiria a felicidade dele em estar com os pais.

— Ei, Charlie… Teria problema se eu desse um pulinho na casa dos Holland? — ela se sentia sem graça em fazer aquela pergunta, porque significava que Charlie teria que ficar com Liam por alguns minutos, e certo, era o filho dele, mas o trabalho dela. De certa forma, fazia-a sentir-se um pouco anti profissional. — Eu juro que vai ser super rápido.

— Você não precisa nem me pedir essas coisas, — Charlie riu quando Liam passou um carrinho pelo rosto dele, de sua testa até seu queixo, fazendo “vruuum” com a boca. — Vai lá, eu quero aproveitar um pouco o filho que me dá atenção, sabe, já que eu tenho outro que finge que eu nem existo.

Ah pronto! — Lewis respondeu ainda com os olhos grudados na televisão enquanto Paddy apenas ria. — Também vou ficar sentado em você, aposto que você vai amar.

— Você já foi mais fofo que isso, Lewis — Charlie revirou os olhos, voltando a brincar com Liam e deixar Lewis e Paddy jogando vídeo-game em paz.

Rindo, pegou a câmera e saiu quase correndo, para então realmente correr para atravessar a rua. Tocou a campainha dos Holland se sentindo mais ansiosa que nunca, e quase gritou de felicidade ao ver que quem abriu a porta foi o próprio Harry.

— Oi, — ele cumprimentou com um sorriso. — O Sam ‘tá lá dentro, quer que eu chame?

Ela franziu as sobrancelhas. Sério isso?

— Não, eu vim falar com você mesmo — por que todo mundo sempre achava que ela queria falar com o Sam?

— Não brinca — Harry piscou algumas vezes, parecendo curioso. — Claro, diga!

— O Paddy disse que você tem uma dessa? Ou tinha, pelo menos — ela estendeu a câmera para Harry.

Parecendo agora entender do que se tratava, Harry balançou a cabeça e pegou o aparelho, analisando rapidamente, com um cuidado e precisão de manuseio que sabia não ser qualquer pessoa que conseguia. E ela ainda não conseguia tão bem assim, mas já começava a admirar o rapaz.

— Foi uma das primeiras que eu tive — ele sorriu, devolvendo-a para . — Minha mãe me deu quando eu comecei a me interessar por isso.

— Você ainda usa? O Paddy falou que você tem uma melhor, né? — ela estava parecendo muito desesperada? Por favor, que ela não estivesse parecendo desesperada.

— Quase nunca, o Tom me deu uma mais atual. Por quê?

— Então… — ela sorriu amarelo e Harry estreitou os olhos. — Você tem alguma lente ou periférico parados? Que você poderia me vender um pouco mais em conta? Ou alugar?

Ela ainda sorria amarelo, um dos sorrisos mais sem graça que tinha dado sua vida inteira. Harry inclinou a cabeça, sorrindo, parecendo achar completamente divertida a maneira como estava prestes a implodir.

— Tenho vários que não servem na câmera nova, posso te dar sim — ele finalmente sorriu, e ela quase teve um ataque do coração.

— Não precisa dar, eu compro! Eu super compro! — se ele cobrasse mais barato que os sites, claro.

— Eu não uso. Você pelo menos vai usar — Harry balançou os ombros. — Eu não sabia que você era fotógrafa.

— É recente. Eu faço um cursos nos sábados — estava tentando desesperadamente não morrer de vergonha. Harry iria dar as lentes! — Mas ‘tô gostando da coisa, pensando seriamente em me profissionalizar.

— Interessante… Porque eu tive uma ideia — e, de repente, o sorriso de Harry parecia quase maldoso. — Eu vou precisar tirar umas fotos e gravar uns vídeos do meu irmão porque ele é uma anta com redes sociais. Quer vir junto, também tirar umas fotos?

Ela nem precisava perguntar de qual irmão ele estava falando. Era óbvio que era de Tom. Porque Harry tinha aquele sorriso. E porque ninguém mais seria tão fresco a ponto de precisar de um fotógrafo profissional só para fotos postadas no Instagram. Ou Twitter, ela não o acompanhava para saber qual rede social ele acessava.

— Acho melhor não — nem iria fingir dessa vez.

— Eu sei que vocês não se gostaram, mas pensa na oportunidade incrível que vai ser se você realmente for virar profissional — Harry tinha um ponto importante. — Quer dizer, você vai ter no seu portfólio fotos do Tom Holland, um ator mundial. Atenção você com certeza vai conseguir.

Ela odiava que Harry estivesse tão certo.

— Seu irmão vai querer me matar.

— Eu não deixo — ok, dessa vez ela tinha certeza que o sorriso de Harry estava completamente maldoso. — Então, vamos? Domingo agora.

— Certo… Mas não deixa ele me matar!

— Prometo — Harry piscou, antes de pedir para ela aguardar enquanto ele pegava as lentes e demais periféricos que daria para ela.

Lá dentro de seu coração, estava ansiosa. Ela estava prestes a ter uma oportunidade única na vida. Só esperava que no fim não acabasse matando seu modelo. Ou sendo morta por ele.

V

Foi a primeira vez desde que tinha chegado na Inglaterra e começado seu curso de fotografia que tinha sentimentos conflitantes sobre o final de semana. Por um lado, tudo o que mais queria era que sábado chegasse logo, ela tivesse folga e fosse para o maravilhoso curso. Por outro, no domingo ela iria com Harry tirar fotos do irmão dele.
Existia uma voz dentro da cabeça de que parecia muito a de sua mãe e repetia que cavalo dado não se olha os dentes. O problema era que o cavalo em questão era muito propenso a coices, e ela sempre tentaria encontrar uma maneira de revidar.
Mas, tentando não focar nisso, durante o restante da semana tudo o que fez foi cuidar de Liam da melhor forma possível. Não tinha sido uma semana fácil. Liam estava especialmente enjoado, o que também deixava um pouco enjoada e menos paciente – e sim, era completamente possível.
No sábado, quando saiu em sua caminhada até o curso, tentava se manter calma, dizer a si mesma que estava tudo bem, que tudo iria ficar bem. Mas, assim que chegou, apenas a maneira que Ayumi a cumprimentou já deixava claro que a cara não estava exatamente agradável. Mas, por bem ou mal, a amiga não fez nenhum comentário naquele momento, e agradeceu por toda a eternidade.
Aquele seria mais um dia de prática, e eles tinham sido divididos em diferentes grupos para caminhar pela vizinhança e fotografar principalmente arquitetura. Quanto mais prédios, construções e cimento tivesse nas fotos, melhor. juntou-se à Ayumi e elas começaram a andar e fotografar quase tudo que viam pela frente.
Diferente da amiga, que já tinha se encontrado na fotografia da natureza, ainda não tinha encontrado seu “chamado”. Ela gostava da maioria das coisas que faziam, mas julgava que o motivo era por gostar de fotografia no geral. Não sabia se seu forte seria arquitetura, ensaios fotográficos, natureza… Quer dizer, ela pelo menos experimentaria cada um deles, claro. No domingo, por exemplo, descobriria como era fazer um ensaio com uma verdadeira celebridade.
Que ela odiava.
— Eu não queria falar nada, mas você não parece de ótimo humor hoje — Ayumi falou através da lente, apontando a câmera para um ponto distante de onde estava.
— Eu sei, é só que… — ela suspirou, sentindo-se consternada. Odiava ser o tipo de garota que falava de homem, mas ao mesmo tempo amava reclamar, então honestamente ela estava vivendo um enorme impasse. — O Harry me chamou para participar do ensaio ou sei lá que ele vai fazer com o irmão dele amanhã.
— Não que eu não preste muita atenção no que você fala, mas minha memória realmente não é ótima — Ayumi tirou mais uma foto antes parar completamente e suspirar, finalmente encarando , que a essa altura tinha desistido de fotografar. — Harry é quem mesmo?
— Holland. O gêmeo do Sam. Amanhã vamos fotografar o Tom.
— Ah — ela pareceu enfim entender — O famoso? Que você não gosta?
— Ele mesmo — soltou um alto suspiro antes de voltar a fotografar. — Eu não quero parecer ingrata, mas-
— Já ‘tá parecendo — Ayumi a cortou, usando um tom de voz de quem sentia extrema preguiça. — Odeie ele o quanto quiser, ele é famoso, vai ser uma puta adição pro seu portfólio se um dia você quiser levar esse negócio de fotografia realmente a sério.
— Eu sei, por isso aceitei — Melisse tentou não soar infantil, mas naquele momento era um pouco impossível. Ela sabia que parecia um pouco com uma criança de quem tinham tirado algum doce. Ou algo que ela realmente quisesse muito no momento. — Mas ainda tenho receio de como vai ser. Você nunca viu, mas… A gente realmente não se dá bem.
— Certo, mas vocês não são duas criancinhas brigando na escolinha — a maneira como Ayumi usava as palavras poderia ser descrita como no mínimo cruel. — Vocês são adultos e podem ser profissionais por algumas horas. Ou eu me enganei?
não respondeu. Ela tinha odiado aquele momento com todas as suas forças porque Ayumi estava sendo sensata. E não queria sensatez, queria alguém para ajudá-la a falar mal de alguém que ela não conhecia e sentir pena de todo o seu problema de primeiro mundo. Mas não, Ayumi tinha que pegar todas as verdades e jogar em sua cara, como se ela não soubesse nada aquilo.
Porque sabia. Sabia que aquela briga poderia ter sido resolvida com cinco, dez minutos de conversa. Mas para isso ela teria que dar o primeiro passo, porque Tom era claramente uma planta, e seu orgulho nunca, nunca permitiria que ela tomasse a atitude. Não era apenas uma questão de teimosia, era uma questão de princípios. Ela sabia que não estava totalmente errada nessa história e isso era o bastante.
Se ela simplesmente se rendesse e fosse a primeira a pedir desculpas, ela iria apenas reforçar o estereótipo que ele com certeza tinha de ser o cara supremo do grupo, com quem nada de ruim nunca acontecia porque ninguém ousava desafiar o cara rico e famoso. E ela não deixaria isso acontecer.
Pelo menos não se dependesse de seu orgulho.
— Eu posso ser profissional — foi o que murmurou, mesmo sabendo que Ayumi não conseguiria ouvir, já que tinha ido para o outro lado da rua tirar mais fotos.
A parte mais sensata de dizia que ela estava exagerando, forçando, sendo desnecessária. Mas, como tinha feito em absolutamente todos os momentos de sua vida, iria ignorar praticamente tudo o que sua sensatez dizia e continuar odiando Tom Holland.
Mas no domingo ela seria completamente profissional.
Aquilo era uma promessa.

~*~
No domingo ela acordou relativamente cedo, mais cedo do que estava acostumada. Adoraria mentir e dizer que era apenas um ato de saúde ou horários controlados, mas a verdade é que ela tinha dormido muito mal.
Durante toda a noite tinha antecipado todas as desgraças que poderiam acontecer naquele dia caso ela não fosse profissional o bastante. E, claro, ela iria contar apenas consigo mesma. Não confiaria em Tom para fazer o mesmo, então de certa forma precisava estar preparada para todos o cenários possíveis. era o tipo de pessoa que gostava de ter um roteiro pronto na própria cabeça para cada pequena situação que pudesse ocorrer, e ainda ficava brava se as pessoas não seguissem seu roteiro secreto e pessoal.
Depois do almoço, que dessa vez foi com a família O’donnell completa – e ela quem deu a comida para Liam e cuidou dele enquanto Rachel ajudava Charlie a cozinhar -, se arrumou, pegando todos os equipamentos e se arrumando para sair, pronta para encarar o dia sem reclamar demais.
— Vai fotografar? — Rachel perguntou animada quando passou por ela na sala. Liam dormia no colo da mãe parecendo totalmente em paz.
Por conta do trabalho como fotógrafa forense, muitas vezes Rachel não conseguia ficar em casa por muito tempo, geralmente sendo chamada às pressas. Mas, sempre que podia, a mulher ficava em casa com os filhos, e nessas oportunidades, Liam grudava nela como um bebê coala, não soltando a mãe por absolutamente nada nesse mundo.
— Sim! — sorriu, animada. Era legal que estivesse rodeada de tantas pessoas artísticas por ali. Mesmo que as fotos que Rachel tirava não fossem exatamente agradáveis de ficar olhando. — O Harry vai fazer umas fotos do irmão dele e me chamou para ajudar, para eu poder ir treinando.
— Ele vai tirar fotos do Tom? — Rachel esperou que confirmasse antes de abrir um sorriso e continuar: — O Tom é uma graça. Vivia vindo aqui em casa antes de virar super famoso e não ter tempo mais pra ninguém.
não iria negar e falar que ele definitivamente não era uma graça, ao menos não com ela, mas Rachel não precisava saber disso. Apenas se despediu da mulher e foi até a casa dos Holland, tocando a campainha e sendo atendida pelo patriarca da família, que a cumprimentou com um enorme sorriso.
— Veio roubar o Harry?
— Boa tarde, Dom — ela manteve o sorriso cordial. Até que gostava de Dominic, ele era divertido. — Ele me prometeu fotos, não pude recusar.
— Mas ela tentou — Harry apareceu atrás do pai, desviando para poder passar pela porta e finalmente sair de casa.
— Você vai dormir no seu irmão? — Dominic continuava sorrindo, encarando o filho.
— Talvez. Vamos ver como as coisas acontecem — Harry balançou os ombros, se virando para e sorrindo antes de fazer um sinal para que ela o seguisse.
Ela, por sua vez, apenas acenou em despedida para Dominic, que acenou de volta enquanto gritava para o filho tentar fingir que tinha juízo. apenas seguiu enquanto Harry começava a caminhar tranquilamente.
— Ansiosa? — ele perguntou.
— Bastante — e por mil motivos, mas ela não precisava completar a frase. — Você… avisou que eu vou?
— Claro — Harry riu e a encarou pelo canto do olho. — Vai que eu só chego lá com você e ele acaba te atacando? Nunca se sabe…
— Idiota — ela riu e deu um empurrão leve em Harry, que apenas acompanhou sua risada.
Tom morava ridiculamente perto da casa dos pais, então em menos de dez minutos eles já estavam na casa, que incrivelmente parecia ter o dobro do tamanho da casa dos O’donnell. não tinha ideia do que uma pessoa que morava sozinha poderia fazer em uma casa tão grande mas também não perguntaria. Certamente não era de sua conta. Harry não tocou a campainha, apenas tirou uma chave do bolso e abriu a porta, convidando a entrar.
Enquanto eles caminhavam pela casa de Tom, ela tinha que tomar um tempo para apreciar o quanto o local era realmente magnífico. Ela tinha certeza que Tom não era o responsável pela decoração, não iria acreditar facilmente que ele entendia tão bem assim de arquitetura e design de interiores.
— Finalmente! — Tom surgiu de algum cômodo, cumprimentou Harry com um abraço e ignorou completamente a existência de . Ela não poderia culpá-lo; se a situação fosse inversa, faria exatamente a mesma coisa.
— Pronto para criar vergonha na cara e alimentar sua rede social e seus fãs? — Harry sorriu irônico para o irmão, que apenas revirou os olhos.
— Eu lá tenho escolha? Só preciso trocar de roupa — Tom cruzou os braços, parecendo subitamente sem graça. — Você… tem alguma ideia de qual roupa eu deveria colocar?
— Não? — Harry franziu as sobrancelhas. — Eu não sou figurinista.
Parecendo fazer um gigantesco esforço, Tom virou o rosto e encarou . Ela se sentiu na obrigação de encarar de volta com a mesma intensidade, como se o desafiasse a falar qualquer coisa. E, com apenas uma troca de olhares, eles provavam que eram as criancinhas briguentas na escolinha como Ayumi havia dito.
— Você tem alguma noção de moda?
— Por quê? Por que eu sou mulher? — ela também cruzou os braços, vendo os olhos de Tom revirarem tanto que ficaram quase totalmente brancos.
— Porque você é literalmente a única outra pessoa nessa sala.
Bom, ele tinha um ponto. E iria admitir – mesmo que apenas internamente – que ela tinha atacado-o por absolutamente motivo nenhum, de maneira exageradamente agressiva e… Ela estava errada. Mas nunca diria em voz alta e nunca deixaria que Tom soubesse que ela se sentia levemente culpada pela maneira rude como havia tratado-o.
— Onde estão suas roupas? — ela desviou o olhar enquanto perguntava porque não queria ver como Tom reagiria à sua falta de desculpas.
Enquanto ela seguia Tom e Harry até o que deveria provavelmente ser o quarto do rapaz, pensava como sua noção de moda masculina não era exatamente apurada o bastante. Mas, em compensação, ela sabia dizer quando uma pessoa parecia bonita, então iria apostar todas as suas fichas em sua capacidade de chutar uma roupa que ficasse bem no Holland mais velho.
— O closet fica ali — Tom apontou para uma porta de correr no canto, e óbvio que ele tinha um closet. Apenas pobres tinham guarda-roupa.
deixou seu equipamento na gigantesca cama de Tom e foi até o closet que tinha sido apontado. Para sua sorte, ele tinha excelente gosto para roupas, mesmo que a maioria fosse levemente básica. Ou a pessoa que comprava suas roupas tinha, pelo menos. Pegar algumas peças e combinar acabou sendo incrivelmente fácil, e logo elas estavam espalhadas pela cama de Tom.
— Eu sugiro esses. Não sei quantas fotos vamos tirar e quantas vezes você vai precisar se trocar, mas… É isso — ela apenas balançou os ombros, tentando fingir que não dava muita importância e não estava totalmente nervosa.
— Certo — Tom balançou a cabeça, concordando.
Olha só pra nós dois, sendo totalmente profissionais, sem nenhuma-, interrompeu a própria linha de pensamento quando Tom foi até uma das combinações de roupa e começou a se despir, pronto para se trocar ali mesmo, na frente dela e de Harry. Assim que viu que Tom tinha jogado a camisa do outro lado do quarto e agora começava a abrir o botão da calça jeans, virou de costas.
Enquanto ouvia Harry murmurar qualquer coisa, ela sentia o rosto queimar completamente, não acreditando o quão narcisista Tom podia ser. E ela não iria comentar sobre como o corpo dele era incrível e perfeitamente malhado, os músculos completamente no lugar certo. Não que ela tivesse super prestado atenção a esse fato, claro que não.
— Pronto, podemos tirar as fotos — a voz de Tom a fez virar novamente, vendo-o já vestido e provando que poderia até não ser nenhuma expert em moda mas definitivamente sabia o que era uma pessoa bonita.
Não que ela achasse Tom bonito.
Longe disso.
Eles voltaram para a sala, onde Harry começou a assumir o controle e arrumar o cenário, ligar algumas iluminações – que aparentemente era do Harry mas sempre ficavam na casa de Tom -, e aos poucos o local parecia ainda mais bonito que antes. tomou um tempo para admirar a maneira como o Harry trabalhava e todos os seus equipamentos. Ela sabia que era mais velha que os gêmeos (mesmo que fosse apenas um ano), mas ela com certeza queria ser como Harry quando crescesse.
Depois Harry foi até ela e começou a realmente orientá-la em como tirar algumas fotos, ângulo, ajustar o foco da câmera, melhores lentes para utilizar e o motivo. Sempre que tiravam novas fotos, Harry checava as de e opinava no que poderia ser feito para melhorar a fotografia, e pedia para que ela fizesse o mesmo com as imagens dele. Por conta disso, eles estavam levando muito mais tempo do que deveria para fazer algumas fotos simples, mas Tom não reclamava nem fazia comentários chatos em nenhum momento, e ela meio que se sentia grata por isso.
Após muitas fotos, Harry pediu para que eles fossem para o quintal, tirar algumas fotos no jardim e perto da piscina. Levaram todo o material necessário e logo começavam a tirar mais fotos de Tom. Mas, dessa vez, Harry decidiu parar antes do que esperava.
— A iluminação natural não ‘tá te ajudando, Tom — Harry abriu um sorriso brincalhão. — A gente vai ter que passar um pouco de maquiagem em você.
E, vendo as fotos, era obrigada a concordar. A luz natural não estava destacando as partes certas do rosto de Tom, um problema que com certeza seria facilmente resolvido com um pouco da maquiagem certa.
— Eu não sei passar maquiagem, Harry.
— Eu também não — o sorriso de harry virou na direção de . — Você sabe?
Ela revirou os olhos e concordou. Ela poderia até não entender tão bem assim de moda, mas horas e horas de tutoriais na internet tinham ensinado-a muito a respeito de maquiagem, pincéis, tipos de rosto e tudo o mais. Enquanto Tom ia pegar sua maquiagem – porque obviamente ele tinha que ter um pouco de maquiagem em casa -, se virou para Harry, cruzando os braços.
— Por que eu tenho a sensação de que você me trouxe para fazer coisas que você não faria se tivesse vindo sozinho, Harry?
— Eu nunca faria isso, — a inocência na voz do garoto era tão, tão falsa que tinha certeza que estava completamente certa.
Quando Tom voltou com as maquiagens, Harry pediu licença enquanto voltava para dentro da casa para “fazer alguns ajustes na câmera”, o que era totalmente desnecessário, mas tinha desistido de confiar no rapaz. A essa altura já tinha aceitado que, se ela e Tom realmente se matassem, Harry faria absolutamente nada para interferir.
pediu para que Tom se sentasse em uma das cadeiras da agradável mesinha que tinha lá. Apoiou todo o material que Tom lhe entregou na mesa e, após uma pequena inveja por ver o quanto as maquiagens que ele tinha eram milhares de vezes melhores que as dela, pegou um pincel kabuki, passando no pó, sabendo que não precisaria fazer nada muito completo no rosto de Tom.
— Tenta não furar meu olho, por favor — ele fechou os olhos enquanto ela começava a cuidadosamente espalhar o pó pelo rosto dele.
— Você tem que ficar feliz por eu não te sufocar, isso sim — ela praticamente murmurou, odiando aquele momento com todas as suas forças e se imaginando enfiando o pincel pela garganta do rapaz.
— Dependendo de como você fizer isso, eu aceito — a brincadeira de Tom fez congelar totalmente. Ele não tinha realmente insinuado… Tinha?
— Você não trabalha pra Disney? — foi só o que ela conseguiu dizer, ainda se sentindo levemente chocada pelo que ele tinha falado. Ele não tinha que pelo menos fingir que era um amor de pessoa?
— Não nesse momento em específico — os olhos dele abriram abruptamente, parecendo curioso, enquanto ela criava coragem para voltar a maquiá-lo. — Como você me sufocaria com um pincel?
— Você não quer saber — ela trocou o pincel, se sentindo um pouco mais recuperada do choque.
— Não seja cruel, vizinha — ele riu, voltando a fechar os olhos deixando fazer seu trabalho. Bom, não realmente seu trabalho. Apenas naquele momento.
— Você sabe que eu não sou sua vizinha, né?
— É vizinha dos meus pais. Achei que você amasse os Holland — e lá estava a ironia. Mais algumas frases e o profissionalismo de morreria ali mesmo.
— Aparentemente existe um completamente insuportável — ela terminou o pouco que maquiagem que tinha usado nele, mas que com certeza faria diferença sob a iluminação.
Tom abriu novamente os olhos, o sorriso irônico nos lábios. E nada bom poderia sair dali.
— Eu não te culpo. Também nunca imaginei que um dia conheceria um O’donnell tão sem graça.
— Eu não sou uma O’donnell — ela respirou fundo, tentando ao máximo não fazer nada do que se arrependeria logo em seguida. E obviamente sufocar Tom tinha se tornado completamente fora de cogitação.
— Que sorte a deles.
piscou na direção de Tom, vendo-o sustentar o sorriso ridículo. Sem falar mais nada, virou-se e entrou novamente na casa, indo até Harry e parando na frente dele, cruzando os braços com força na frente do peito.
— Você disse que ia impedir seu irmão de me matar, mas existe uma enorme probabilidade de que eu acabe matando ele.
— Por favor, não. Você não tem noção da dor de cabeça que isso renderia — Harry apenas riu antes de pegar uma bolsa de lente e passar o braço pelos ombros de , voltando para o quintal com ela.
e Tom não trocaram mais nenhuma palavra durante o restante do dia, com exceção do estritamente necessário para as fotos, como pedidos dela para que ele chegasse um pouco mais para a direita e semelhantes. Quando a noite caiu e eles finalmente pararam com as fotos, Harry perguntou se não queria ficar um pouco mais e pedir uma pizza com eles.
Imaginando o desconforto que seria para todos e, sendo confirmada pela cara de Tom quando Harry fez a pergunta, apenas negou e pegou as coisas, caminhando rapidamente de volta para casa. E aquele dia tinha lhe ensinado duas coisas muito importantes. A primeira era que ela realmente gostava muito de fotografia, e fotografar uma pessoa tinha sido o tipo mais divertido até agora. A segunda era que ela realmente nunca conseguiria sentir nada além de ódio por Tom Holland.

VI

Das coisas não tão normais que aconteciam em sua vida, acordar em plena quinta-feira, às sete da manhã, com uma ligação de Ayumi, não era uma delas por dois principais motivos: Ayumi nunca acordava tão cedo, e ela ligava apenas em casos extremos. Como todo bom jovem da geração z, a amiga também detestava ligar, apesar de não ter problema nenhum em mandar vinte áudios de mais de três minutos cada se necessário.
— Ayumi? — sabia que sua voz soava preocupada, mas não podia evitar. Situações incomuns acabavam provocando reações incomuns. — O que aconteceu?
… — a fungada alta do outro lado da linha deixava claro que Ayumi estava chorando. — Eu terminei Community.
precisou se segurar para não bufar alto, mas não evitou revirar os olhos para aquilo. Sete da manhã. Era o horário que muitas vezes acordava, mesmo que Liam acordasse bem mais tarde. Pelo menos assim ela conseguia tomar café da manhã com Charlie, Rachel e Lewis, ter um pouco de interação um pouco mais adulta antes de passar o resto do dia com uma criança. Mas ela ainda achava sete da manhã muito cedo.
— É sério isso, Ava? Você ‘ta me ligando às sete da madrugada, chorando, por que terminou uma série?
, eu estou devastada! — incrivelmente a voz de Ayumi realmente soava séria e, absurdo ou não, realmente acreditava que ela estava devastada.
— Tá — foi tudo que a garota conseguiu responder. — O que exatamente você quer que eu faça?
— Não sei! Você poderia ser legal comigo, só pra variar um pouco.
— Eu sempre sou legal com você — riu um pouco antes de finalmente levantar da própria cama, começando a se arrumar para o dia que já estava começando. — Mas tudo bem, eu entendo sua dor. Eu sofri quando acabou.
— Eu queria que o Troy tivesse voltado pra despedida. , eu não sei mais como seguir minha vida.
— Na verdade é a sua vez de me indicar uma série. Acredite ou não, cuidar do Liam me dá tempo de assistir várias coisas — com um pequeno bocejo, colocou o celular no viva voz e começou a se trocar.
— Não existe série melhor que- eu tô no viva voz? Eu tô me ouvindo.
— Eu preciso me arrumar pra tomar café da manhã. Ei, tive uma ideia — terminou de colocar a blusa e pegou o celular novamente, tirando o viva voz antes que amiga acabasse reclamando. — Sábado, depois do curso, que tal irmos ao cinema?
— Quero. Assistir o que?
— O que estiver em cartaz. Daí choramos juntas que, apesar de totalmente sensato, é triste que o Jeff e a Annie não tenham ficado juntos no final.
Durante os próximos dias, teve algo para esperar ansiosamente, além da própria aula. Até porque aquele sábado foi o menos divertido de todos. Todos os alunos se reuniram na classe, em frente aos computadores, para as aulas de tratamento de imagens. Ela entendia que era uma aula super importante, mas com certeza ainda era a mais sem graça de todas.
Quando conectou a câmera ao computador, percebeu que ainda não tinha descarregado as fotos de Tom para o próprio notebook e todas permaneciam ali. Ela franziu as sobrancelhas. Bom, ela precisava tratar as fotos de qualquer jeito, certo? A dicas do professor eram genéricas, para funcionar com todos os tipos de imagem, e querendo ou não, ela tinha ótimos fotos de um bom modelo.
Acabou escolhendo uma das fotos tiradas ao ar livre, a colocando no editor de imagens e começando a fazer cada uma das edições que o professor estava ensinando. Era um pouco desconfortável porque toda hora precisava dar algum zoom, especialmente no rosto de Tom, e editar os pequenos, mínimos detalhes de sua pele. Agora já estava na metade da edição, mas ela não conseguia deixar de reparar em cada mínimo aspecto de seu rosto e corpo.
Desconfortável.
— Essa aí é uma das fotos que você tirou do menino famoso? — Ayumi, que estava no computador ao lado do dela, encarou a tela enquanto ela tirava uma pequena mancha do rosto do rapaz.
— Sim, eu percebi que ainda não descarreguei as fotos no notebook e tô aproveitando — ela tentou balançar os ombros e fazer pouco caso, torcendo para que a amiga não percebesse como ela realmente se sentia.
— Essa foto está ótima. Deixa eu ver as outras?
Ignorando o trabalho que tinha para fazer, abriu a pasta da câmera começou a passar todas as fotos, vendo Ayumi levantar as sobrancelhas e balançar a cabeça afirmativamente para muitas, o que a deixava um pouco mais feliz, para ser sincera. Era bom ver que a amiga parecia estar achando seu trabalho bom o bastante.
— Ficaram ótimas — Ayumi falou após mostrar a última imagem. — Ele é um ótimo modelo. Vocês tentaram se matar?
— Eu queria, mas fui totalmente profissional — ela balançou os ombros e mostrou que estava totalmente plena, o que era mentira.
— Duvido — foi o que Ayumi disse rindo antes de voltar a prestar atenção nas próprias edições.
Ao fim daquele dia de aula, estava realmente orgulhosa de si mesma. Com as edições, os ajustes finais, as fotos tinham ficado realmente bonitas. Se Tom não fosse um enorme babaca, talvez até mesmo enviasse para ele. Mas não aconteceria, claro.
Ela e Ayumi se dirigiram para um dos cinemas da cidade, comprando um combo pequeno que dividiram entre elas. O filme que passava era um inglês que nunca nem tinha ouvido falar. Era engraçado pensar que aquilo era o equivalente a filme nacional ali, e como parecia totalmente inapropriado chamar daquela maneira.
Mesmo assim era um filme legal, divertido. Elas conseguiram dar algumas risadas e até mesmo chorar um pouquinho. Quando saíram e decidiram ir a um shopping próximo para poder jantar, a noite já tinha caído e as luzes da cidade estavam acesas. tinha chegado no começo de fevereiro no país, portando estava ali há quase três meses, e mesmo assim ainda achava tudo realmente belo. Era como se estivesse olhando para uma das muitas fotos que via pela internet, mas pessoalmente tudo era ainda mais bonito. Claro que ela também tinha tendência a achar absolutamente qualquer cidade nova bonita, então talvez não quisesse dizer tanto assim, mas ela não se prenderia a esse pequeno detalhe.
Como uma escolha totalmente adulta e madura, e Ayumi optaram por comer em um Burger King – que era um pouco diferente dos que tinha ido no Brasil mas ainda lhe dava um pouco de familiaridade. Assim que sentaram e estavam prestes a começar a comer, ouviu alguém chamar seu nome. Isso era algo realmente inesperado porque o número de pessoas que ela conhecia na Inglaterra não era muito grande. Mas, assim que se virou na direção da voz, reconheceu o rosto de Olivia na mesma hora.
— Ei! — abriu um enorme sorriso enquanto limpava a mão no guardanapo, para então se levantar e cumprimentar a loira com um apertado abraço. — Quanto tempo!
— Nem me fala — Olivia retribuiu o abraço com tanta força quanto , e abriu um enorme sorriso para Ayumi, a cumprimentando e vendo a garota acenar de volta com um sorriso tímido. Diferente de e Olivia, Ayumi era tímida. — Você nunca mais voltou, né?
— Bom… — apenas balançou os ombros enquanto se sentava novamente. — Ayumi, essa é Olivia, conheci ela quando o Sam me levou na casa do Tuwaine. Olivia, essa é a Ayumi, ela é do meu curso de fotografia e a pessoa que eu mais encho o saco nessa Inglaterra.
— Prazer — Olivia acenou novamente. — Que legal te encontrar aqui! Depois daquele dia, achei que nunca mais fosse te ver.
— Que exagero.
— Não, é verdade. O Harrison até achou que você tinha odiado todo mundo, mas o Harry explicou que na verdade você só odiou o Tom mesmo.
— Ah, então você viu a briguinha em primeira mão? — Ayumi pareceu interessada, se metendo no assunto como se sua timidez não existisse. — A falou que o Tom é insuportável.
— Ele realmente não gostou dela — os ombros de Olivia balançaram, fazendo pouco caso do desgosto do rapaz. — Mas ela também não foi nenhuma flor com ele, então é meio que compreensível. Dos dois lados.
— Eu imagino. A é bastante boa em ser teimosa. E cabeça dura.
— E o Tom claramente pegou ela pra Cristo — Olivia encarou . — Mas sabem o que eles dizem.
— Não — se sentia perdida ali. As duas estavam tendo uma conversa sobre ela, na frente dela, e apenas agora pareciam ter lembrando sobre sua existência.
— O ódio acaba virando amor.
E então riu.
Realmente riu. Começou a gargalhar no meio do shopping, como se não estivesse em um local público. Mas não conseguia se conter. Aquilo era simplesmente hilário. A mínima possibilidade de ela sentir por Tom qualquer coisa que não fosse asco era risível, não tinha como reagir de outra maneira.
— Nunca — foi o que ela conseguiu falar após as risadas.
— Mas vocês alossexuais são exatamente assim — foi a vez de Ayumi balançar os ombros. — Ficam de richa, criam tensão sexual, ao invés de conversar e resolver como gente, vocês transam pra não precisar expor sentimentos. É tipo… padrão.
— Ela não mentiu — Olivia apontou para Ayumi, concordando. — É só uma questão de tempo até acontecer.
— Vocês são péssimas — revirou os olhos e deu um longo gole em seu refrigerante. — Será que a gente pode não falar de macho?
— Você entendeu errado, . Não estamos falando de macho. Estamos rindo de você — Olivia levantou a mão e recebeu um high five de Ayumi.
Era isso. tinha cavado a própria cova apresentando aquelas duas. Agora teria que lidar com as consequências de suas próprias ações.
— Mas e você, Olivia — Ayumi encarou a loira, aparecendo mudar totalmente o foco de sua atenção. — Conhece o futuro amor da vida da há quanto tempo?
— Bem mais que dez anos, com certeza. Parei de contar por aí — ela balançou os ombros e sorriu. — Nossas famílias são amigas, a gente meio que cresceu juntos. E isso inclui o Harrison e o Tuwaine. Eu fiquei um pouco afastada deles depois que eu e o Tom “terminamos”, mas nos resolvemos e agora está tudo bem.
— Você e o Tom namoraram? — coragem, acrescentou mentalmente.
— Não exatamente. A gente começou a ficar e virou aquela coisa meio amigos com benefícios. E, como todas as pessoas do mundo deveriam saber, isso nunca dá certo. Chegou um momento que ou a gente realmente namorava ou terminava. E ele preferiu terminar — a maneira como Olivia balançou os ombros deixava claro que ela realmente não tinha ressentimentos daquilo.
— Você tem alguma dica pra dar pra , pra ajudar a conquistar o Tom? — Ayumi nem tentou segurar a risada.
— Vai se foder — acabou rindo enquanto jogava uma batatinha frita na direção da amiga.
As três ficaram mais tempo do que pretendiam conversando, e se sentiu realmente feliz. Logo toda a timidez que Ayumi tinha desaparecido, e ela e Olivia estavam realmente se dando bem. Isso fazia com que se lembrasse de suas amigas no Brasil e sentisse um apertinho no coração por conta da saudade, mas era simplesmente maravilhoso fazer novas amizades. Mesmo que as duas amigas em questão estivessem se aproximando às custas de piadas da própria .
Como já estava realmente tarde, elas logo tiveram que ir embora. Olivia deu carona para as duas, deixando primeiro Ayumi na porta de sua casa para em seguida fazer o mesmo com . Após agradecer e se despedir com um abraço, abriu a porta com cuidado. Charlie e Rachel estavam deitados no mesmo sofá, abraçados, assistindo algum filme.
— Licença — ela falou enquanto entrava a pendurava a própria chave.
— Oi, — Rachel sorriu sem se mexer, ainda confortavelmente deitada contra o marido. — Já comeu? Tem comida na geladeira.
— Já comi sim, obrigada. O Liam já dormiu? — ela esperou os dois confirmarem antes de fazer mais uma pergunta: — E o Lewis?
— Vai dormir no Paddy — foi Charlie quem respondeu, franzindo as sobrancelhas na direção de . — Você já vai deitar?
— Vou tomar um banho antes de dormir. Por que? Aconteceu alguma coisa?
— Não aconteceu, relaxa. Na verdade eu queria te pedir um favor, — Charlie se moveu um pouco, obrigando Rachel a mudar a posição. — Combinei com o Don de ir amanhã jogar golfe com ele e os meninos. Sei que normalmente você não trabalha o período completo no domingo, mas queria levar o Liam para poder passear um pouco, e como a Rachel vai ter que ir na redação, queria perguntar se você não poderia ir também no golfe para me ajudar a ficar de olho no Liam. A gente paga hora extra.
— Claro que eu vou, Charlie, não precisa nem se preocupar com isso — ela sorriu. Não tinha muito o que fazer naquele domingo, claro que não iria dizer não para a família que tinha a acolhido tanto. E que pagaria hora extra, no caso.
— Eu falei que você tava preocupado a toa. A é um anjo na nossa vida — o sorriso de Rachel deixou completamente sem graça.
— Muito obrigado, , de verdade — Charlie realmente parecia aliviado, o que era um pouco engraçado. — Vamos amanhã por volta das 9h, tudo bem?
— Estarei acordada.
deu boa noite para o casal e finalmente subiu para seu quarto, tomando um rápido banho antes de colocar o celular para despertar e se deitar. Aquele tinha sido um dia realmente maravilhoso e ela sentia que, naquele momento, absolutamente nada seria capaz de estragar seu humor.

VII

Golfe parecia ser o esporte mais chato do mundo.
não era exatamente fã de esportes, e não conhecia a maioria deles, mas sabia mais ou menos como golfe funcionava e, absolutamente todas as vezes que tinha visto aquele esporte ser praticado, tinha parecido a coisa mais chata do mundo inteiro. Então ela não estava muito animada para aquele dia, mas pelo menos iria ganhar hora extra.
O dia estava um pouco cinza, apesar da previsão do tempo não dar possibilidade de chuva, então tentou arrumar Liam de uma maneira bastante confortável, de forma que ele estivesse fresco para o caso de mormaço ou que com apenas um casaquinho pudesse deixá-lo suficientemente aquecido. Arrumou a bolsa do garoto com tudo o que precisava: remédios, casaco, pano, sua girafa de pelúcia favorita e um par de sapatos porque, por algum motivo, ele sempre perdia um pé de sapato. Quando desceu, Liam em seu colo com a maior cara de sono do mundo, encontrou Charlie terminando de fazer a comida da criança, colocando-a na marmita e entregando para , que apenas guardou na enorme bolsa.
— Pronta para um dia de muito esporte?
— Claro — ela riu, internamente ainda pensando como golfe parecia ser extremamente entediante.
Assim que saíram de casa, encontraram os Holland do outro lado, arrumando as coisas no próprio carro para poderem partir. Harry, Tom, Domic e Harrison, que parecia não se importar muito com o fato de não ser realmente um Holland, logo atravessaram a rua para ajudar Charlie a arrumar as coisas enquanto apenas assistia com Liam em seu colo.
— Você também vai jogar golfe? — Harry perguntou enquanto se aproximava com Harrison ao seu lado.
— Vou só cuidar desse bonitão aqui — ela mexeu a cabeça na direção de Liam, que aos poucos parecia mais acordado e logo ficaria agitado, querendo ir para o chão explorar absolutamente tudo ao seu redor.
— Animado para hoje, Liam? Vai destruir a gente? — Harrison sorriu e segurou a mão do garoto, que deu um sorriso tímido de volta. — Esse é o espírito!
— E o Sam? — ela perguntou como quem não quer nada, visto que o gêmeo não parecia em lugar nenhum por perto.
— A Elysia voltou de viagem, então… Você vai vê-lo com uma frequência muito menor a partir de agora. Confia em mim.
Sem mais delongas, os grupos se separaram em seus respectivos carros. prendeu Liam na cadeira de criança e se sentou no banco do passageiro, sentindo-se um pouco mais animada quando Charlie ligou o rádio e os três começaram a acompanhar a música pop que tocava. Ao menos Charlie e cantavam, Liam apenas balbuciava e se mexia de um lado para o outro, definitivamente acordado.
O local era longe, o que era meio esperado. Precisava de um campo grande, com muito verde, muito espaço, então não tinha exatamente como ser na região central de Londres. Mas era um lugar realmente bonito, o campo parecia perfeitamente verde e bem cuidado, como se ninguém nunca pisasse ali. tinha alguma certeza de que não deveria ser fácil mantê-lo daquele jeito, então admirava quem quer que fosse o responsável.
Assim que desceram do carro, Liam pareceu completamente elétrico, tentando de toda maneira sair correndo.
— Nem pensar! — o segurou, ouvindo-o balbuciar reclamações sem sentido.
Ela não podia culpá-lo por querer correr por aí, mas o local era grande, ele podia realmente apenas sumir. Sabia que, por isso, precisava usar a mochila coleira. Era péssimo porque ela sentia que estava tratando o garoto como um animal que precisava de coleira, mas naquele momento… Liam realmente precisava. Ela não podia impedi-lo de correr por aí e ser uma criança, mas também não podia correr o risco de perdê-lo.
E se Charlie e Rachel estavam satisfeitos com isso, quem era ela para fazer alguma coisa, né?
— Eu achei que nunca mais fosse te ver — Harrison parou ao lado dela após um tempo, balançando os ombros.
Já fazia quase uma hora que eles estavam ali, todos – com exceção de – revezando para poder jogar. E, assim como ela tinha imaginado desde início, golfe era realmente um esporte extremamente chato, especialmente de ficar assistindo. A maior diversão que ela tinha era quando Liam pedia para ela brincar um pouco com ele, e visto que o garoto tinha apenas dois anos de idade, aquilo queria dizer muito.
Como eles precisavam revezar, sempre que alguém tinha que esperar, ia conversar com um pouco com . Ela ficava grata, já que isso a fazia se sentir um pouco mais incluída naquele dia, não apenas sendo a babá do filho de um dos jogadores.
— A Olivia falou isso mesmo. — abriu um simpático sorriso enquanto sentia Liam acertar a girafa de pelúcia várias vezes na perna dela porque, aparentemente, a girafa estava escalando. — Eu não odiei todos vocês, relaxa.
— Então faça o favor de aparecer mais vezes nos rolês — o sorriso de Harrison era simpático e deixava levemente sem graça. — Até porque fiquei sabendo que esses dias você foi lá em casa e nem falou um oizinho.
franziu as sobrancelhas, se sentindo confusa.
— Eu não fui na sua casa.
— Eu moro com o Tom — aquilo explicava tudo. — Você foi lá tirar umas fotos dele e não tirou nenhuma minha? Poxa.
— Acredite, eu preferia mil vezes ter tirado foto sua — ela realmente tentou não revirar os olhos, mas acabou falhando, e o gesto não passou despercebido por Harrison, que apenas começou a rir um pouco mais. — Enfim, eu não te vi por lá, perdão.
— Eu tinha saído, só queria encher um pouco o saco — ele balançou os ombros, acenando para Harry que tinha se virado e chamado-o para voltar a jogar, já que aparentemente estava na vez dele novamente. Ou seja lá como golfe funcionava, não iria pensar muito sobre isso. — Mas pode aparecer mais vezes, você vai ser muito bem vinda.
— Por você.
— O Tom tá longe de ser esse cara mau que você pensa, — Harrison suspirou, parecendo um pouco cansado e fazendo se sentir um pouco mal. — Se vocês conversarem, só um pouquinho, talvez vocês se entendam.
— Quem sabe um dia. — nem acreditou nela mesma.
Harrison levantou apenas uma sobrancelha – um pouco mal, ele não conseguia fazer isso muito bem -, e pediu licença enquanto voltava para o jogo com Charlie e os Holland. voltou a prestar atenção em Liam, que ainda brincava com a girafa como se nada mais importasse. A essa altura o garoto já tinha desistido de fingir que o campo verde era interessante.
Mais algumas horas se passaram em que se dividia entre mexer no celular, mandar mensagens para Ayumi e Olivia – porque elas já estavam naquele ponto da vida de criarem um grupo juntas, aparentemente -, e impedir Liam de se matar comendo as coisas que encontrava no chão, até finalmente os jogadores decidirem que era hora de almoçar.
Todos se reuniram em um restaurante que tinha por ali mesmo, e que provavelmente era caro demais, mas era Charlie quem estava pagando naquele dia, então tudo o que ela faria seria ficar quieta e aceitar o almoço que estava recebendo. Depois de tentar fazer Liam comer pelo menos um pouco, claro.
— Eu tô achando engraçado que o Tom errou todas hoje — no meio de tanta conversa, Dominic tirava uns minutos para rir do próprio filho e ser acompanhado pelo restante da mesa.
— Eu diria que ele está um pouco distraído — Harrison riu e recebeu um high-five; de Harry, e pela maneira como eles não foram tão acompanhados, provavelmente era alguma piada interna dos dois.
— Eu só estou cansado, não dormi direito a noite — Tom revirou os olhos, sem encarar ninguém diretamente. — Se eu tivesse dormido bem, acabaria com todos vocês fácil.
fingiu não prestar atenção na conversa, mantendo o foco entre dar comida a Liam e comer, o que não era fácil. Ela amava cuidar da criança, realmente amava. Em muitos momentos daquele intercâmbio, era a satisfação de ver Liam feliz e saber que ela tinha uma parcela de responsabilidade nisso que deixava seu dia melhor. Mas dava tanto, tanto trabalho que ela não conseguia imaginar ter um filho próprio.
Aos poucos todos terminavam de comer, alguns se levantando, indo sentar em um local um pouco mais confortável, aproveitando aquele momento e o fraco sol para relaxar. Ainda estavam no meio da primavera, então o clima estava bastante agradável a maior parte do tempo, mesmo que não fosse exatamente a preferência de , que tanto amava calor.
— Charlie a chamou. — Vai descansar um pouco. Eu fico com o Liam nas próximas horas.
— Tem certeza? Eu não ligo de continuar com ele — ela balançou os ombros. Geralmente após o almoço, Liam ficava meio molenga e acabava dormindo, então aquela seria uma hora de paz de qualquer jeito.
— Tenho, vai lá esticar um pouco as pernas, ou deitar, ou ler um livro. O que você preferir — Charlie riu enquanto agradecia e saía dali.
Ela caminhou um pouco pelo campo, não demorando muito para encontrar Harrison, Harry e Tom em um canto, parecendo jogar a bolinha de golfe um para o outro como se fosse uma bola de tamanho normal. Ela franziu as sobrancelhas, vendo como os três pareciam estar se divertindo, e decidiu não interferir. Apenas sentou na grama a alguns metros dali, observando-os por alguns minutos antes de pegar o próprio celular e abrir o aplicativo do Kindle, pronta para continuar a leitura de um livro de romance jovem e mediano que ela estava simplesmente amando.
Vez ou outra ela lançava um olhar rápido na direção dos três, apenas para constatar que eles ainda estavam se divertindo. Ela sentia um pouco de falta disso. Quando estava no Brasil, praticamente todo fim de semana estava saindo com os amigos, nem que fosse apenas para o parque da cidade fazer piquenique. Era um pouco agridoce ver pessoas tão perto de si tendo o mesmo comportamento que ela costumava ter e não fazer parte.
Para tentar se sentir um pouco menos isolada, ela apenas voltou a prestar atenção no livro, que estava entrando em uma das partes mais idiotas de todas, porque romance adolescente nunca era realmente bom, e mesmo assim tinha algo que a fazia focar totalmente a atenção e ler mais e mais. Isso, claro, se ela não fosse acertada por uma bolinha de golfe e tivesse a atenção desviada.
pegou a bolinha e levantou o olhar, vendo Tom revirar os olhos enquanto Harry e Harrison pareciam rir sem parar. Aos poucos o rapaz caminhou em direção a ela, parando apenas quando já estava em sua frente, tampando a visão que ela tinha dos outros dois que aguardavam a poucos metros dali.
— Desculpa. Pode devolver? — Tom apontou para a bolinha que ainda estava na mão dela.
— Uau, você é pior nesse esporte do que eu imaginei que seria — não conteve a ironia dentro de si. Ela não entendia o que a levava a falar esse tipo de coisa para as pessoas. Custava tanto assim agir como uma pessoa normal?
— Eu sou ótimo nisso — Tom pegou a bolinha que ela estendeu, estreitando os olhos. — Só estou meio fora de forma hoje.
— Clássica desculpa de quem é ruim — por isso eles não conversavam. Não dava para apenas conversar como pessoas normais. Tinha que ter uma provocação.
— E você? Não deveria estar focada no seu… trabalho? — parecia que Tom tinha falado a palavra trabalho com um certo desprezo, o que a deixava especialmente irritada.
— Acredite ou não, o Charlie quer ficar um pouco com o filho. E não precisava falar com desprezo. Eu não tenho vergonha do meu trabalho.
— Não deveria — Tom balançou os ombros, parecendo realmente sincero em relação àquilo. Talvez tivesse apenas interpretado errado. — Quer dizer, se você não tem vergonha de falar, com certeza não deveria ter vergonha de ter um emprego.
E lá estava.
Ela começava com uma provocação idiota, ele piorava, ela piorava, e tudo ia por água abaixo. Ela não tinha idade para agir daquele jeito e, mesmo assim, agia. Era ridículo.
— Eu sou babá de criança, Tom — ela piscou de maneira falsa e inocente. — Falar da maneira mais simples possível é meu dia a dia. Eu me esforço para que seu cérebro limitado consiga me entender.
Isso é você se esforçando? — a bolinha girava entre os dedos Tom. Ele falava com naturalidade, como quem estivesse comentando o tempo. — Eu tenho um pouco de pena.
— Eu tenho uma teoria.
— Eu não estou interessado.
— Eu não perguntei se você estava — o sorriso irônico de conseguiu arrancar um suspiro consternado de Tom. — Eu acho que você tem uma necessidade insana de me provocar.
— Você acha? — dessa vez ele levantou as sobrancelhas e sorriu, parecendo se divertir. Como se a teoria de fosse tão absurdamente ridículo que ele precisava rir para externalizar a única reação possível.
— Acho que você estava tão acostumado a ter tudo na sua vida porque você é um homem, rico, branco e famoso, que quando chega alguém que não tá disposto a lidar com seu narcisismo, você tenta fingir que quem não tem interesse é você — ficou surpresa consigo mesma ao perceber o quanto soava confiante, muito mais do que ela realmente se sentia. Mas falar mal de homem branco era fácil. — Você só está triste porque eu não sou uma das suas cadelinhas.
— É, , você acertou — ela nunca tinha ouvido Tom ser tão irônico. Também nunca tinha ouvido-o chamá-la por seu primeiro nome. — Tudo que eu queria era te conquistar e ainda estou devastado porque não consegui te colocar de quatro na minha cama.
— Que porra vocês dois estão falando?! — Harrison tinha se aproximado dos dois e eles sequer tinham notado.
olhou para Harrison e abriu a boca para falar algo, tentar explicar a situação, mas simplesmente não sabia como lidar. Ela e Tom nunca tinham realmente discutido na frente de ninguém com exceção do dia em que se conheceram. E agora Harrison tinha ouvido algo que poderia ser bem comprometedor e completamente fora de contexto. Por isso, com a boca aberta, ela virou a cabeça e novamente encarou Tom, vendo que ele também olhava para o amigo, parecendo tão chocado quanto ela.
E, assim que Tom se virou para ela e eles viram as próprias expressões de choque como se fossem espelhos, os dois desataram a rir. Harrison ainda os encarava como se eles fossem malucos, mas eles simplesmente não conseguiam parar de rir porque aquela situação como um todo era totalmente ridícula.
— Nada, Haz. Só pegando a bola com a — Tom balançou os ombros após conseguir parar de rir, o que demorou mais do que deveria. — Vamos voltar?
— Quer jogar também, ? — Harrison parecia agora decidido a ignorar o que tinha ouvido, provavelmente para o bem da própria sanidade.
Antes de responder, encarou Tom, como se quisesse ter certeza de que ele não tentaria impedir o próprio amigo de fazer o convite. Mas Tom apenas balançou os ombros e sorriu, como se não fizesse diferença.
— Obrigada, Harrison, mas vou continuar lendo meu livro. Divirtam-se! — ela sorriu, vendo os dois amigos se afastando e voltando a brincar.
Por um minuto ela considerou que talvez, apenas talvez, um dia ela e Tom pudessem não brigar tanto. Mas dentro de seu coração ainda sentia que aquele provavelmente era um sonho distante.

VIII

A única palavra para descrever a semana de era: péssima.
Liam tinha ficado doente aquela semana, sentindo cólicas todo o tempo, então ele estava especialmente enjoado, chorão e manhoso. Isso acabou resultando em dias extremamente estressantes, já que precisava se desdobrar em vinte para atender cada pequeno choro do garoto.
Mais ou menos no meio da semana, quarta ou quinta, ela não tinha muita certeza, recebeu uma ligação da mãe para falar que um tio dela, um de seus preferidos, tinha sofrido um acidente e estava internado. Sua mãe até tentou acalmá-la, falando que, de acordo com os médicos, ele iria se recuperar. Não era como se isso a deixasse tranquila, de qualquer jeito.
Isso já tornava tudo um pouco mais difícil.
E na sexta-feira, como se não bastasse, ela viu nos stories de seus amigos brasileiros que eles tinham ido em sua balada predileta, e estavam se divertindo horrores, e nem sequer lembraram dela. Nem para uma marcação de “estamos aqui, pensamos em você!”
E claro que, quando ela entendia o quanto aquele pensamento era horrível e ela era uma péssima pessoa por querer que os amigos focassem nela mesmo quando ela estava a um continente de distância, se sentia ainda pior. Porque ela lembrava o quanto podia ser completamente egoísta e como estava sentida por ver os amigos se divertindo sem ela, mesmo sabendo que, naquele momento, era impossível que ela estivesse junto.
Então, no geral, era uma péssima semana porque ela estava tentando lidar com mais do que conseguia, e seu cansaço físico e mental estavam maiores do que ela estava acostumada. Porque, assim como todas as pessoas do mundo, existia um nível de cansaço que ela sabia manejar e continuar seguindo a vida. Era normal, era ser adulto. Mas naquela semana em específico parecia que tudo estava funcionando para deixá-la no pior estado.
Então, naquele sábado, ela não se sentiu nada animada para a aula de fotografia, e apenas esse fato já deveria dizer o quanto ela não estava realmente se sentindo muito bem.
praticamente se arrastou pela cama, transformando até o simples ato de tomar banho em puro sofrimento. Depois ela continuou se arrastando até o local do curso, desejando de todo coração que aquela semana acabasse logo e ela pudesse acreditar que a próxima seria muito melhor.
— Bom dia — Ayumi a cumprimentou com um caloroso sorriso, que rapidamente se desfez enquanto ela franzia as sobrancelhas. — Você está bem?
— Só um pouco cansada, nada demais — balançou os ombros. Uma verdade sobre ela era o quanto ela absurdamente boa em nunca falar o que estava realmente sentindo.
— Certeza? — mesmo assim Ayumi ainda parecia um pouco desconfiada.
— Absoluta.
— Certo… — não parecendo nada convencida, Ayumi cruzou o braço no de , meio puxando a garota enquanto elas caminhavam. — Então… Você vai no rolê da Olivia?
— Rolê da Olivia?
— Ela mandou mensagem no grupo. Dá uma olhadinha lá.
mal tinha checado as mensagens pela manhã, o que no geral fazia parte de seu ritual matinal. Ela quase nunca saía de casa sem conferir cada uma das notificações que tinham chegado durante a madrugada. Mas naquela manhã em específico tudo o que ela queria era tentar se desligar um pouco.
Enquanto ela e Ayumi sentavam em seus respectivos computadores, pegou o próprio celular e abriu o grupo que Olivia tinha criado com as três. Entre as mensagens não lidas, logo encontrou a qual Ayumi se referia: “Vou juntar o pessoal lá em casa a noite. Por favor, vão também! Eu busco vocês na porta do curso”, finalizando com um emoji de coração.
A semana pareceu voltar como um tapa na cara de . Ela estava triste e exausta, e tudo o que mais queria era ir para casa, se enrolar embaixo de sua coberta e dormir até o corpo doer de tanto tempo deitada. Mas, ao mesmo tempo, ela se sentia completamente incapaz de recusar. Então, mesmo que não estivesse tão bem assim, acabou apenas digitando “Festaaaa!!!” com um emoji animado no final.
Foi necessária muita força de vontade para que ela não dormisse na aula. Era mais um dia majoritariamente teórico e chato, e se perguntava se alguém realmente perceberia se ela acabasse dormindo só um pouquinho. Constantemente também se pegava checando as mensagens da mãe, apenas tentando confirmar se não tinha nenhuma atualização sobre o estado de saúde de seu tio.
Mas, como esperado, ela acabou não tendo retorno. Ao menos durante a aula Ayumi sempre arrumava uma maneira de cutucá-la e fazer alguma piada, conseguindo arrancar alguns sorrisos de . Pelo menos isso permanecia, ela ainda podia contar com a amiga para fazer-lhe sorrir mesmo quando as coisas não estavam em nada felizes.
No fim da tarde, quando a aula finalmente acabou, Ayumi e encontraram Olivia esperando as duas em frente ao carro, que estava estacionado do outro lado da rua. Era uma cena um pouco engraçada, porque Olivia estava sentada no próprio capô, as pernas cruzadas e um pirulito na boca. Parecia uma cena de filme.
— Finalmente! — a loira falou assim que elas atravessaram a rua, correndo para puxar Ayumi e para um abraço, apertando as duas ao mesmo tempo. — Estão prontas? Juro que vai ser divertido!
se sentou no banco do carona e Ayumi no banco de trás. Olivia não perdeu tempo, ligando o rádio alto enquanto começava a dirigir. As três cantaram quase gritando, uma pequena onda de ânimo consumindo . Talvez ela ainda conseguisse se animar um pouco. Talvez aquele dia ainda lhe rendesse uma cabeça um pouco mais tranquila. Talvez.
Assim que chegaram, Olivia as levou direto para a sala, onde Harry, Harrison, Tuwaine e Tom estavam conversando alto e rindo.
— Agora a festa pode começar de verdade! — foi o que Olivia quase gritou, correndo para a cozinha e deixando e Ayumi ali, paradas, olhando para os rapazes.
— Então… Essa é a Ayumi. Ela faz fotografia comigo. — riu sem graça, tendo que apresentar a amiga para um grupo de pessoas que nem mesmo ela conhecia tão bem assim. Se ao menos Sam estivesse ali, ela se sentiria um pouco mais confortável.
— Outra fotógrafa. — Harry sorriu, acenando para elas.
— Eu não sei o que acontece, mas eu to rodeado de fotógrafos. — Tom franziu as sobrancelhas. — Acho que vou largar a vida de ator e virar fotógrafo também.
— Nem você acredita nisso — Harrison revirou os olhos, rindo.
— Eu duvido muito que você vai deixar de ser um mimado riquinho metido a importante pra virar… qualquer outra coisa. — Tuwaine arrancou risada de todos, e Tom apenas revirou os olhos.
— Obrigado por fazer minha caveira pra menina nova, Tuwaine — Tom repreendeu o amigo, que continuava rindo.
— Ela é amiga da , Tom. Essa menina já deve te achar o maior chato de todo o universo — Harry balançou os ombros e sentiu o rosto esquentar instantaneamente.
Ela abriu a boca para tentar retrucar, mesmo sem fazer a menor ideia do que poderia falar naquele momento. Antes mesmo que pudesse falar qualquer coisa, o olhar de Tom a encontrou, as sobrancelhas levantadas. E definitivamente não conseguiu falar mais nada. Apenas desviou o olhar e encarou Ayumi, que agora sorria abertamente.
— Vocês não tem ideia — a garota falou, divertida. E logo todos estavam ali apenas rindo de Tom e , que permaneciam completamente quietos.
Não demorou para que Olivia aparece com um engradado de cerveja e vários petiscos, gritando para que eles a ajudassem a carregar tudo para a sala. Em poucos minutos a mesa de centro já estava cheia de garrafas, com salgados caídos por todo lado. Harry tinha ligado uma caixa de som, e uma música alta e agitada tocava. Todos riam e conversavam alto, contando várias histórias, se conhecendo melhor.
— Mas é sério! — Ayumi com álcool era algo totalmente novo para e ela estava simplesmente adorando. — Eu juro que não foi minha intenção. O negócio só… Pegou fogo.
— Eu ‘tô me sentindo normal depois dessa história, e olha que eu sou a pessoa que literalmente fez uma pessoa que não gostava pegar suspensão por absolutamente nada — Olivia literalmente chorava de rir.
— Vocês são pessoas horríveis, eu tô me sentindo uma santa aqui — riu e balançou a cabeça, dando um pequeno gole em sua cerveja.
— Mentira que você nunca fez nada horrível na escola.
— Nunca.
— Não pode ser.
Juro juradinho. Eu nunca aprontei na escola.
— Vamos brincar de “eu nunca”! — Ayumi praticamente pulou, rindo de si mesma logo em seguida. — Vamos, vai. A gente se conhece melhor.
revirou os olhos e balançou os ombros. Era uma brincadeira clichê, mas poderia ser engraçada naquela situação, quando ela não conhecia tão bem assim as pessoas que brincariam com ela. Seria uma boa maneira de se conhecerem mais e contarem mais histórias sobre suas vidas.
— Eu começo! — Harry levantou a mão. — Eu nunca passei mal de tanto beber.
Todos da roda beberam, com exceção de Ayumi e Harry. encarou a amiga, que apenas sorriu e balançou os ombros.
— Minha vez — Olivia sorriu. — Eu nunca fiz depilação brasileira.
— Você… Isso foi proposital! — revirou os olhos enquanto era a única da roda a beber.
— O que exatamente é depilação brasileira? — Harrison inclinou a cabeça com um sorriso pequeno nos lábios, como se ele soubesse a resposta mas quisesse que passasse toda essa vergonha.
— Esquece isso. Eu vou então — quase bufou. — Eu nunca realizei um fetiche estranho.
Tom, Olivia, Harrison e Tuwaine beberam. abriu a boca, surpresa. Esperava um pouco menos, mas até fazia sentido. Um pouco.
— Certo, minha vez — Tuwaine abriu um sorriso quase maléfico. — Eu nunca senti tesão por uma pessoa que eu supostamente odeio.
estreitou os olhos, sentindo-se desconfiada em relação àquela pergunta. E a maneira como apenas os garotos da roda tinham começado a rir, apesar de Olivia e Ayumi manterem um pequeno sorriso no rosto, apenas a fazia pensar que ela estava certa em desconfiar. Mesmo assim ninguém na roda bebeu.
— Você ouviu a declaração do Tuwaine, Tom? Bebe aí — Harry cutucou o irmão, arrancando ainda mais risadas dos outros rapazes.
— Por que eu faria isso? Seria mentir — os olhos de Tom pareciam lançar navalhas na direção dos amigos, que por sua vez com certeza não davam a mínima. Aparentemente o importante era rir de Tom.
estava prestes a fazer um comentário sarcástico quando sentiu seu celular vibrar. Ela viu a notificação do número da mãe. Ignorando os rapazes, que ainda se provocavam, ela abriu o celular e leu rapidamente a mensagem: “Desculpa não ter respondido, filha. Seu tio precisou passar por uma cirurgia de emergência, mas já está tudo bem, não se preocupe. Estou no hospital com ele.”
Era óbvio que iria se preocupar.
Aquela simples mensagem foi o bastante para trazer todos os sentimentos horríveis de volta à tona. As brincadeiras com os amigos de repente pareceram distantes, as risadas parecendo sem vida. Ou talvez fosse apenas ela, o álcool e sua imensa vontade de chorar. E que vergonha seria começar a chorar ali, absolutamente do nada.
— Olivia, posso pegar um pouco de água na cozinha? — falou absolutamente do nada, interrompendo qualquer que fosse o assunto.
— Sim, quer que eu vá com você? Está tudo bem? — a loira parecia preocupada, e se esforçou para não encarar o restante do grupo. Não queria saber como eles estavam encarando-a.
— ‘Tá sim, relaxa. Só estou com sede — ela levantou, pegando o celular e começando a caminhar para cozinha. — Podem continuar sem mim, já volto.
Ela não olhou para trás, praticamente correndo até a cozinha, apenas querendo sumir da vista de todos. se apoiou contra a ilha do centro, tentando respirar fundo e se impedir de chorar. Rapidamente digitou uma mensagem para a mãe, perguntando mais sobre a situação do tio, mas os tracinhos não ficaram azuis. Aquilo era uma merda.
Todos os sentimentos de antes estavam de volta, o cansaço, a preocupação, sentimento de não pertencimento, insegurança, cada coisa que tinha tornado sua semana tão ruim, e ainda potencializados pelo pouco álcool que ela havia ingerido. Ela não deveria ter aceitado o convite de Olivia; era óbvio que em algum momento aquilo aconteceria, com ela não tinha pensado nisso antes?
— Você não precisava ter saído daquele jeito, sabe? — uma voz literalmente fez com que pulasse, dando alguns passos para trás por conta do susto. Enquanto levava a mão ao próprio peito, tentando se acalmar, ela viu Tom revirar os olhos. — Foi só uma brincadeira.
— Não foi por isso — ela balançou a cabeça, tentando clarear a mente. Então a brincadeira tinha sido sobre ela?
— Não precisa fingir. Todo mundo já sabe que você não gosta de mim, eu não gosto de você, yada-yada.
— Eu já falei, Tom, não foi por isso já começava a perder a paciência. Será que ela não poderia não chorar sozinha? Em paz?
— E eu já falei, foi brincadeira, ignora e volta pra-
— Puta que pariu! — ela finalmente perdeu a paciência, cortando-o e subindo apenas um pouco sua voz. Sua semana já tinha sido exaustiva, mas Tom parecia deixá-la ainda mais cansada. — Alguma vez na sua vida você tentou enxergar o mundo por uma perspectiva que não fosse a do seu umbigo?
— Como é? — Tom cruzou os braços e levantou as sobrancelhas.
— Eu falei duas vezes que não foi por sua causa que eu saí de lá! — era um esforço grande não gritar, mas não queria que suas vozes chegassem nos amigos na sala, então estava realmente tentando se controlar. — Não foi a brincadeira! O mundo não gira ao seu redor, Holland! O universo não é sobre você! A vida ainda acontece quando o incrível Tom Holland não está lá!
— Então que porra foi essa?
— Eu ‘tô cansada! — os olhos assustados de Tom e um leve gosto salgado fizeram perceber que ela tinha começado a chorar. As lágrimas que ela tinha segurado por tantos dias finalmente venceram. — Eu trabalhei quase o triplo do normal essa semana, mal dormi porque o Liam mal dormiu, meu tio sofreu um acidente e passou por uma segunda cirurgia hoje, e meus amigos do Brasil foram pra minha balada preferida e nem me marcaram para falar um “queríamos você aqui, . E eu sei que eu ‘tô sendo egoísta sobre isso, porque eles não têm obrigação nenhuma de fazer essas coisas mas- eu só queria- ser importante- vai ver foi por isso eles não marcaram- eu sou egoísta demais pra ser uma boa amiga.
No fim de seu monólogo, já estava começando a soluçar. Era isso. Ela estava tendo um breakdown na cozinha de Olivia. Na frente de Tom. Quando eles estavam praticamente tendo uma festa. Ela não conseguia nem começar a conceber o quanto podia ser completamente ridícula.
— Eu sinto muito — foi a única coisa que Tom falou e, quando percebeu, ele estava abraçando-a.
Aquilo era novidade.
Era diferente.
Ela não tentou se fingir de durona. Apenas se entregou ao abraço, se permitindo chorar contra o ombro de Tom, que estava apenas parado, a segurando e oferecendo um apoio silencioso. se enterrou nos braços dele, aos poucos começando a se acalmar, demorando alguns minutos para finalmente parar de chorar e se afastar levemente.
— Obrigada — foi só o que ela falou, sem saber como desenvolver mais do que aquilo.
O ombro de Tom tinha uma mancha úmida no ombro, o que deixava com um pouco de vergonha. Ela passou as mãos pelas bochechas, tentando secar um pouco das lágrimas que ainda tinham sobrado.
— Por que você veio pra cá se você não está muito bem? — a pergunta de Tom poderia parecer um pouco babaca, mas ela sabia que ele estava sendo sincero. Era quase como se ele estivesse preocupado com ela.
— Eu pensei que talvez fosse me animar. E… Eu não queria ser uma amiga ruim para mais pessoas — apenas depois que terminou a frase, percebeu o quão patética ela tinha soado. Honestamente, naquele momento ela com certeza estava digna de pena.
Por alguns segundos, Tom ficou em completo silêncio.
— Você deveria descansar. Eu te levo pra sua casa — foi a resposta dele.
— Não precisa. Eu já vou melhorar e já volto pra sala.
— Eu bebi muito pouco, se é essa sua preocupação. Eu nem cheguei na metade da cerveja — ele balançou os ombros. — Você mesma disse que está cansada. Sério, , eu te levo. A gente nem fala pro resto do pessoal porque você está indo embora. Só… descansa.
— Eles vão te encher o saco depois.
— Eu lido com eles — Tom deu um sorriso pequeno. — Vamos?
acabou concordando porque não tinha outra opção. Ela precisava descansar, o corpo e a mente, e não conseguiria se passasse o resto da noite, e provavelmente uma parte da madrugada, bebendo. Provavelmente com mais álcool os sentimentos ficariam ainda piores.
— Eu ‘tô com muita cara de choro? — ela sussurrou enquanto eles caminhavam até a sala para que Tom pegasse a carteira e chave do carro.
— Sim — ele sorriu enquanto ela bufava e eles chegavam na sala, atraindo a atenção de absolutamente todo mundo.
? — a voz de Ayumi soou preocupada e perdida. — O que aconteceu?
— Nada — ela mentiu mesmo sabendo que seu rosto a entregava. — Eu ‘tô bem.
— Eu vou levar a pra casa dela, volto daqui a pouco — Tom colocou a carteira no bolso e girou a chave no indicador, como se aquele fosse apenas um momento casual.
— Eu posso ir também — Ayumi já começava a se levantar e pegar suas coisas, mas fez um gesto para que ela parasse. — Tem certeza?
— Absoluta. Continua bebendo, ainda tem muitas revelações pra sair no “eu nunca” — conseguiu fazer a piada, dando uma risada sem graça. — Eu vou te mandando mensagem.
— Por favor — mesmo assim Ayumi se levantou, indo até e lhe dando um forte abraço, sussurrando para que apenas ela ouvisse: — Se precisar eu não ligo de matar o famosinho aí.
Retribuindo o abraço com força, apenas riu, começando a se sentir cada vez mais calma e leve. Após soltar Ayumi, despediu-se do restante do grupo, seguindo Tom em silêncio até o carro. Eles entraram e logo Tom estava dirigindo, em completo silêncio.
— Obrigada por isso — praticamente sussurrou.
— Eu não sou tão ruim quanto você pensa. Só um pouco — ele riu.
— Eu sei. É só que…
— Não precisa explicar. Sério. Eu sou a pessoa que te entende nesse quesito.
Os dois voltaram a ficar em silêncio pelo restante do caminho. Apenas quando o carro parou em frente a casa dos O’donnell, percebeu o quanto ela se sentia aliviada por saber que iria descansar. Realmente descansar.
— Obrigada de novo — ela repetiu enquanto desafivelava o cinto de segurança.
— De nada. Ah, e só pra você saber… Você provavelmente não é uma amiga ruim. E seu tio vai ficar bem. E fala pro Liam que eu vou dar uma girafa nova e maior ainda pra ele — Tom piscou e ela apenas riu enquanto fechava a porta do carro.
ouviu o carro dando partida enquanto ela destrancava a porta. A casa estava silenciosa. Pelo horário, chutava que os O’donnell tivessem saído, ainda não estava tarde o bastante para que todos eles estivessem na cama. Liam estava consideravelmente melhor, talvez eles tivessem apenas ido comemorar, aproveitar o tempo em família. Era o melhor.
Não demorou nem um minuto para que apagasse totalmente após se deitar. E, incrivelmente, aquela foi a primeira noite da semana em que ela dormiu bem e teve sonhos maravilhosos. Como se tudo novamente estivesse bem.

IX

30 de maio era o melhor dia de todos. No mundo. Por exatamente vinte e dois anos teve essa certeza. 30 de maio era quando ela ganhava presente, bolos, abraços, festas, surpresas e tudo o que há de bom. Não tinha como não amar o próprio aniversário.
E, certo, seu aniversário tinha caído em um sábado, bem em dia de curso. E obviamente ela não iria faltar porque era o curso de fotografia, mas ela iria duplamente animada porque, diferente de duas semanas atrás, ela estava feliz. Seu tio estava recuperado, quase totalmente. Seus amigos tinham mandado mensagem, Liam tinha se comportado. E, caso ainda não estivesse claro o bastante, era seu aniversário. Vinte e dois anos causando alegria na vida de absolutamente todas as pessoas, ela tinha certeza disso.
— Feliz aniversário! — Ayumi pulou em assim que a viu. Talvez devesse estar surpresa pela reação da amiga, mas na verdade estava apenas reparando que o cabelo de Ayumi, antes totalmente azul, agora estava metade roxo, metade azul turquesa.
— Seu cabelo ficou lindo! — foi a única coisa que ela conseguiu soltar, até mesmo esquecendo de agradecer os parabéns.
— Eu tinha que ficar linda pra gente sair pra comemorar seu aniversário — Ayumi balançou os ombros enquanto, para a surpresa de , começava a andar para o lado oposto do prédio do curso.
— Ayumi? Pra onde você tá indo?
— Como assim, ? É seu aniversário! Não vamos pra aula, vamos comemorar — Ayumi revirou os olhos porque aquilo era óbvio, aparentemente.
— Mas… A aula…
— Nem vem, — uma terceira voz surgiu de absolutamente lugar nenhum, e de repente Olivia estava do lado delas, provavelmente vinda de um buraco no meio da terra, porque realmente não tinha visto a loira chegar. — A gente vai sair e comemorar seu aniversário sim, nem que pra isso a gente tenha que te arrastar.
— Que bom que eu tenho tanta voz assim, visto que é meu aniversário — ela não resistiu e acabou rindo.
— Que bom que você entendeu.
Foi dessa maneira que acabou não indo para o curso, e uma parte um pouco nerd e levemente viciada em fotografia ficou todo o tempo se perguntando o que estava perdendo da matéria e como faria para recuperar no futuro. Mas, ao mesmo tempo, não podia deixar de se sentir grata pelas amigas que estavam levando-a para um dia cheio de felicidade e parabéns.
E o dia foi muito melhor do que sequer imaginava que poderia ser.
Ayumi e Olivia a levaram por absolutamente todos os pontos turísticos de Londres, algo que ela ainda não tinha tido tempo de fazer. E a cada novo local que visitavam, tinha vontade de matar as amigas quando alguma falava “nossa, sabe que eu nunca vim aqui?”. Mas ao mesmo tempo não podia culpá-las; sabia que viver em uma cidade com pontos turísticos era um atestado de praticamente nunca visitá-los.
Elas almoçaram em um restaurante incrível, e que com certeza não condizia com as roupas que estava usando, mas ela era a aniversariante então tudo estava certo, ninguém poderia falar nada.
— Olivia, você sabia que, por dentro, a ‘tá surtando? — Ayumi sorriu delicada enquanto elas comiam a maravilhosa refeição.
— Eu ‘tô o que? — piscou confusa.
— Eu sei que você tá pensando na matéria que tá perdendo por não ter ido por curso hoje.
— Nerd — Olivia riu.
— Eu odeio vocês — murmurou enquanto colocava uma grande quantidade de comida na boca, mastigando mais rápido do que deveria.
— Você acha que ela quer enganar a gente ou a si mesma? — as três riram do comentário de Ayumi e seguiram o almoço conversando sobre tudo e nada, como esperado.
O restante da tarde foi simplesmente perfeito, e se perguntava se em algum momento de sua vida tinha se divertido e rido tanto quanto naquelas horas. Ela se sentia realmente grata por ter apresentado Ayumi e Olivia, e por tê-las em suas vida durante aqueles meses em que ficaria na Inglaterra. Elas transformavam seus dias em momentos mais felizes.
Apenas quando a noite já estava caindo o trio retornou para a casa, e dessa vez foi a primeira a ser deixada. Mesmo que não tivesse recebido um presente físico das amigas, ela sentia que a presença delas naquele dia tinha sido a melhor parte de todas, então tinha apenas a agradecer.
— Obrigada pelo dia, meninas — ela sorriu, encarando as amigas. — Foi incrível, mesmo.
— Você não vai convidar a gente pra entrar e comer bolo? — Ayumi abriu a boca parecendo chocada. — Que maldade, !
— Não tem bolo.
— Então vamos entrar e comprar um, . Só faltou bolo pro dia ficar perfeito — Olivia balançou os ombros, como se aquele assunto não fosse realmente importante.
— Vocês sabem que a casa não é minha, né? É dos O’donnell.
— Ele não são monstros que não deixam você trazer duas amigas pra casa no dia do seu aniversário. São?
Certo, elas tinham um ponto.
apenas balançou os ombros e desceu do carro com as amigas, torcendo com todas as suas forças para que os O’donnell realmente não achassem que ela estava abusando da hospitalidade deles. Abriu a porta com cuidado, sentindo-se um pouco envergonhada.
E foi recebida por vários gritos de “surpresa!”
piscou várias vezes, o queixo caindo completamente. Gritando e desejando feliz aniversário estavam Charlie, Rachel, Liam, Lewis, Paddy, os gêmeos Holland, Harrison, os pais Holland e até mesmo o próprio Tom. Atrás dela, Olivia e Ayumi também gritavam animadas, claramente sendo parte de toda a armação.
Enquanto as pessoas iam até ela e a abraçavam, tudo o que conseguia fazer era repetir “obrigada” sem parar e chorar. Ela não conseguia acreditar que aquelas pessoas tinham lembrado dela com tanto carinho e tirado um tempo de seus dias para poder fazer algo para ela, que estava ali na vida deles há tão pouco tempo, apenas três meses, talvez um pouco mais.
— … E a nossa família nunca vai conseguir agradecer tudo o que você faz por nós, — Rachel dizia enquanto a apertava no abraço, fazendo chorar ainda mais.
— É literalmente meu trabalho — brincou, terminando de ser agarrada pelos O’donnell, mesmo que Lewis estivesse um pouco tímido e no fim fosse mais sobre ela agarrando Liam do que o contrário.
Depois, foi até os Holland-pais, agradecendo por eles serem sempre tão legais com ela, e eles agradeciam por ela indiretamente ajudar a cuidar de Paddy de vez em quando. Depois, com um sorriso mais brincalhão, ela finalmente se dirigiu para os amigos, que olhavam para ela rindo feito bobos.
— Eu não creio que vocês aprontaram isso — ela revirou os olhos, que ainda estavam levemente úmidos por todo o choro.
— Coisa da Ayumi e da Olivia, culpa elas — Harrison balançou os ombros, apontando para as garotas, que ainda sorriam como se tivessem sido totalmente geniais.
— Mas você amou, a gente sabe — Sam balançou os ombros e não perdeu tempo, correndo para abraçá-lo.
Sam tinha sido o primeiro Holland a falar com ela em sua primeira semana, quando ela foi buscar Lewis na casa deles. E desde então ele tinha sido a pessoa mais próxima dela… Até poucas semanas atrás, quando tinha sumido. Claro que tinha mais amigos e não se sentia realmente sozinha – a menos que estivesse passando por um momento ruim -, mas ela sentia uma pequena conexão com o rapaz e tinha sentido sua falta.
— Para de sumir — foi o que ela falou quando o soltou.
— Desculpa. Mas eu fiz o seu bolo! Considere meu presente — ele riu, apontando para o lindo bolo de chocolate, muito chocolate, que estava na mesa.
— E falando em presente… Nós também temos alguns presentes para você, sabe. Se você largar o Sam e lembrar que nós também existimos e tal… — Harry pareceu se esforçar no drama, fazendo todo mundo rir.
— Não precisava de presente, gente…
— É, todo mundo fala isso, mas todo mundo ama ganhar presente. É assim mesmo que funciona, fez certinho.
Aos poucos seus amigos foram entregando alguns pacotes com os melhores presentes que já tinha ganhado em toda sua vida. Não que os que ela tinha ganhado dos amigos no Brasil não fossem bons, mas ela não conhecia tantas pessoas que tinha o poder aquisitivo tão grande quanto o dos ingleses, então… era esperado. E ela não podia deixar de apreciar o fato de que eles tinham se dado o trabalho de ao menos comprar algo para ela.
Depois de todos os presentes entregues, eles cantaram parabéns – era sempre a pior e mais humilhante parte de qualquer aniversário, aquilo não mudava em nenhuma parte do mundo – e finalmente comeram o bolo, que era mais delicioso do que sequer imaginava ser possível. Sam era realmente um excelente cozinheiro e ela ficava muito feliz em saber que ele seguiria aquela profissão porque o resto do mundo precisava provar sua comida.
Depois, aos poucos, as pessoas começaram a dispersar, alguns indo embora logo – Tom, claro -, outros conversando e rindo entre os amigos mais próximos, fazendo piadas. Até mesmo Liam estava acordado até mais tarde, sendo segurado por Nikki enquanto ela e Rachel riam o tempo todo. Parecia quase uma reunião super família e aquilo tornava tudo ainda melhor.
pediu licença aos amigos quando o telefone tocou, saindo da casa e ficando nas escadas da entrada, atendendo e vendo do outro lado os amigos brasileiros sorrindo em uma vídeo chamada coletiva.
— Parabéns! — Roberta, sua amiga mais antiga, foi a primeira a gritar. — Achou que a gente tinha esquecido do seu aniversário, né?
— Isso nem passou pela minha cabeça — riu, vendo as quatro carinhas que ela mais amava na vida. Como ela morria de saudade daqueles idiotas…
— Aposto que a já estava com amigos novos na Inglaterra e nem lembra mais da nossa existência.
— Mentiroso — ela mostrou a língua. — Eu sempre lembro de vocês.
— Mas tá cheia de amiguinhos novos, né — Débora estreitou os olhos.
— Eles são legais!
— Sabia!
Eles conversaram por mais um tempo, não por muito porque acabou contando sobre a festa surpresa, então eles sabiam que não poderiam segurá-la por muito tempo. Encerraram a chamada dez minutos depois, o coração de ficando um pouquinho mais aquecido. Ela também aproveitou aquele momento do lado de fora para checar outras mensagens de parabéns que tinha recebido, principalmente no grupo da família, e responder todas com um agradecimento genérico, como acontecia absolutamente todo ano.
Hey — uma voz cortou o silêncio da noite, chamando sua atenção. Ao virar ela se deparou com Tom.
— Oi — ela falou enquanto bloqueava o celular e o guardava no bolso. — Achei que você já tivesse ido embora.
— Desculpa decepcionar, só fui buscar seu presente, tinha esquecido em casa — ele balançou os ombros e estendeu um pacote maior do que ela esperava. Vindo de Tom, imaginava que ganharia um par de meias.
— Não decepcionou — ela murmurou enquanto abria o presente e se deparava com uma câmera nova.
Não uma câmera que ela usaria em suas aulas de fotografia, mas uma polaroid. E não qualquer uma, a polaroid original, uma das que sabia ser super caras, do tipo que ela tinha usado uma vez no curso de fotografia apenas porque a professora queria ensinar sobre tipos de câmera. O queixo dela caiu enquanto ela começava a analisar o novo presente, vendo que Tom também já tinha comprado um pequeno estoque de filme instantâneo.
— Você gosta de fotografia, né? — Tom parecia ansioso ao encará-la. — Achei que você pudesse gostar disso, o Harry disse que você iria amar. Se você já tiver uma, tem como trocar também.
— Tom, isso… — ela ainda estava boquiaberta. Rapidamente colocou o filme na câmera, como tinha aprendido no curso, e a apontou para Tom, batendo uma rápida foto e vendo a impressão começar.
— Oi? — Tom riu enquanto pegava a imagem e via que estava escura demais, mal dava para ver quem era na fotografia. — Isso é um sinal positivo? Você gostou do presente?
— Eu amei! — ela riu e correu até Tom, jogando os braços ao redor dele, mas rapidamente se afastando. — Isso deve ter sido caro, Tom. Não precisava mesmo.
— Não foi caro, relaxa — ah é, ele era muito rico. Ela quase esquecia disso. Tom pegou a foto da mão dela, rindo e balançando a cabeça negativamente antes de devolvê-la. — Depois tira uma foto melhor de mim, se não as pessoas vão achar que você é uma fotógrafa horrível.
— O modelo não ajudou — ela balançou os ombros enquanto guardava a câmera na caixinha novamente, mas um pequeno sorriso insistia em continuar em seu rosto.
— Não sei do que você está falando, eu sou lindo.
— Iludido.
— Ok, acabou o presente, devolve a câmera — os dois acabaram rindo juntos, ficando em silêncio logo depois, sem saber muito bem o que falar.
— Você… Quer entrar? De novo. Ainda tem bolo.
— Claro — ele apenas balançou os ombros e os dois novamente entraram na casa dos O’donnell.
Demorou muito pouco para que gastasse mais filmes do que deveria, tirando fotos de todos os presentes na reunião, já imaginando o maravilhoso mural que faria com suas polaroids.
Aquele tinha sido um dos melhores aniversários de sua vida.

X

— Nem vem, — Lewis revirou os olhos. — Essa blusa é sem graça, eu falei isso pra minha mãe quando ela comprou.
— Essa blusa é linda, você que tem um gosto horrível — estreitou os olhos para o garoto, reprovando a atitude. — Além do que, você precisa dar uma variada. Você usa a mesma blusa de Mário sempre, é chato.
— Por que ela é ótima, é uma piada!
Você é a piada aqui — murmurou. — Se você não ia me ouvir de qualquer jeito, pra que pediu minha opinião?
— Por que eu estava em dúvida e você estava passando, ué — Lewis balançou os ombros enquanto vestia a mesma camisa de Mário de sempre, que fazia a clássica piada de “grow up and get a life” usando os cogumelos do jogo.
A mesma piada que via desde que ela tinha 15 anos.
— Parabéns, Lewis, você parece exatamente igual a todos os dias.
— Uma pessoa pode ter uma roupa preferida, sabia? — o menino se sentou na cama e começou a amarrar o cadarço do tênis.
— No seu caso, pode ser que essa blusa saia sozinha andando atrás de você. Ela já sabe ir e voltar da casa do Paddy, você sabe disso, né? — ela riu e cruzou os braços, apenas observando enquanto o rapaz terminava de amarrar o cadarço e finalmente se levantava, parecendo pronto.
— Primeiro que você falou igualzinho minha mãe, e você sabe o que isso quer dizer. Você tá falando que nem velho, — Lewis também acabou rindo, saindo do quarto junto com e descendo as escadas. — Segundo que hoje o almoço vai ser na casa do Tom, não do Paddy, então é bom que eu esteja usando a blusa. Ela poderia acabar se perdendo.
— Palhaço — acabou rindo, cutucando o ombro de Lewis e indo até Liam, que estava sentado no sofá parecendo concentradíssimo em sua mamadeira de suco, apesar de manter firme o abraço em sua girafa de pelúcia. — E aí, animado pro almoço nos Holland?
— Sobremesa! — Liam abriu um sorriso com dentes tortos, que eram honestamente adoráveis e que torcia para que não continuasse assim dali alguns anos.
— Você nem almoçou ainda, menino, contém essa formiguinha — Rachel apareceu na sala, Charlie ao seu lado. — Todo mundo pronto? — a mulher encarou o filho mais velho e estreitou os olhos. — De novo essa blusa, Lewis? Não sei pra que eu ainda compro roupa pra você se você só usa a mesma camisa sempre.
— O que tá acontecendo? Hoje é o dia oficial de criticar a camisa do Lewis e eu não fiquei sabendo? — o adolescente cruzou os braços enquanto todos eles saíam da casa, caminhando calmamente até a casa de Tom.
Não era a primeira vez que os O’donnell e os Holland almoçavam juntos em um domingo, tinha acontecido na primeira semana de na Inglaterra, quando ela ainda não conhecia muito bem absolutamente ninguém. E mesmo que tivesse sido completamente estranho para ela, não tinha deixado de notar como as famílias se davam muito bem.
Parecia aquela coisa bem brasileira de quando você nasce e cresce na mesma casa, do mesmo bairro, com os mesmos vizinhos a vida inteira e todo mundo se vê crescer. E sua mãe vira amiga da vizinha, e seu pai vira amigo do marido da vizinha, e você brinca com os filhos da vizinha e vira amigo deles também. não sabia se os O’donnell e os Holland se conheciam há muitos anos ou se tudo tinha realmente começado com Paddy e Lewis, mas ela não se importava, apenas gostava da companhia de todos.
Dessa vez o almoço seria na casa de Tom porque, além de ela ser maior, Tom tinha passado os últimos dez dias nos Estados Unidos, e pelo que tinha entendido da explicação de Charlie, o rapaz estava de volta para ficar um bom tempo na Inglaterra, e tinha decidido comemorar o fato fazendo um super almoço em família e, não entendia porque, convidado os O’donnell para se juntarem.
— Você trouxe o Bubby! — Tom se referiu à girafa de pelúcia preferida da criança e riu assim que Liam soltou a mão de e correu em sua direção, pulando em seu colo. Liam ria alto enquanto Tom o levantava no colo e o girava no ar. — E cadê o Timmy, heim?
— A falou que ele tinha que ficar em casa — Liam enrolava um pouco as palavras, mas falava bebê o bastante para entender perfeitamente, e Tom também não pareceu ter dificuldade em entender, já que levantou as sobrancelhas na direção de , parecendo curioso.
— O Timmy é maior que o Liam, Tom. Ele nunca conseguiria trazer o seu presente — ela balançou os ombros enquanto Liam descia do colo de Tom e segurava a mão do rapaz, andando com ele para dentro da casa.
Os outros Holland já estavam reunidos, e Sam e Nikki pareciam focados em fazer o almoço, picando legumes, carnes e… não reconhecia os temperos que eles usavam. Ela sorriu, prendendo os cachos em um alto rabo de cavalo e indo até a cozinha, cumprimentando Nikki e parando ao lado de Sam.
— Que bom que você está cozinhando. Eu estava com saudade de comer sua comida — ela sorriu enquanto Sam aproximava apenas o rosto, dando um rápido beijo em sua bochecha.
— Para de drama, eu fiz o seu bolo de aniversário — Sam riu, logo voltando a prestar atenção na cozinha. Pelo canto do olho, viu Charlie se aproximar de Nikki e cumprimentá-la antes de também começar a ajudar com a preparação da comida.
— Já passou duas semanas, Sam. Eu preciso ser alimentada constantemente.
— Quer ajudar a cozinhar então, ? — as sobrancelhas de Sam levantaram e ele revirou os olhos quando balançou a cabeça, negando veemente. — Então sem reclamar. E sai daqui que você tá atrapalhando.
Eles riram enquanto ela se afastava, indo para a sala. Paddy e Lewis já pareciam animados, jogando videogame na enorme televisão da sala. Em um canto, Dominic e Rachel pareciam conversar animadamente enquanto Liam ficava sentado no colo da mãe, brincando com sua girafa de pelúcia e falando coisas sem sentido, meio tentando participar da conversa, meio criando uma história para Bubby. E em outro canto, cada um com uma long neck em mãos e rindo, estavam Tom, Harrison e Harry. Foi do último grupo que decidiu se aproximar.
— Fala a verdade, Harrison — ela falou enquanto parava ao lado do loiro, atraindo a atenção dos três ali. — Você é um Holland perdido.
— Os Holland e os O’donnell precisam trazer os adotados, né — Harrison balançou os ombros e os três riram. — Sem contar que essa é minha casa também, então…
— Eu deveria te cobrar aluguel — Tom estreitou os olhos com um pequeno sorriso.
— Você é bonzinho demais pra isso.
— O Tom? Bonzinho? — a voz de soou completamente incrédula. Quer dizer, eles não esperavam realmente que ela fosse acreditar naquilo, né? — Desde quando?
— Desde sempre — foi o próprio Tom quem respondeu. — Só não sou com você.
— Sinta-se privilegiada, — Harry riu e revirou os olhos. — O Tom não é um “cara mau” com muitas pessoas por aí.
— Tudo bem, às vezes “caras maus” — ela fez aspas com os dedos. — deixam as coisas mais excitantes.
só se deu conta do que tinha falado quando Harrison e Harry explodiram em risadas e Tom levantou as sobrancelhas, deixando um enorme sorriso percorrer de uma ponta à outra de seus lábios.
— Caras maus te excitam, ? — Tom ainda sorria. — Me conta mais.
— Não foi isso que eu falei — não sabia onde enfiar a maldita cara. De repente ajudar Sam na cozinha parecia uma excelente ideia.
— Foi o que todo mundo entendeu, sinto muito — Harry ajudou a piorar a desgraça de . Porque humilhação nunca era o bastante.
— Tá, tanto faz — ela revirou os olhos e bufou. — Eu vou… ver se a Rachel precisa de ajuda com o Liam.
Ela não voltou a conversar com os três por um bom tempo, se sentindo mais envergonhada do que jamais havia sentido. Às vezes precisava tirar um tempo para apreciar como, nos momentos mais inoportunos, não existia o mínimo de filtro entre sua mente e sua boca. E ela sempre acabava passando vergonha por falar mais besteira do que deveria. Vinte e dois anos nas costas a ela ainda não tinha aprendido a controlar a própria fala.
Ao menos o restante do almoço foi tranquilo, ou tão tranquilo quanto tantas pessoas reunidas em uma única casa conseguia ser. Como sempre, acabou mais focada em ajudar a cuidar de Liam, então acabava ficando mais afastada da maioria das conversas, deixando Liam criar um mundo fantasioso em que Bubby era a girafa governante e a princesa protegida por todos. Quer dizer, ela não reclamaria de ser uma princesa.
O céu já estava escuro e Liam já parecia cansado, quase dormindo sentado, quando os O’donnell decidiram que era hora de finalmente ir embora, mesmo que Lewis e Paddy insistissem que só faltava mais uma missão para terminarem a fase – a mesma conversa de sempre. Nenhum dos pais parecia disposto a acreditar naquela história, então eles apenas desligaram o videogame, combinando de jogar no próximo fim de semana. até gostava de jogar algumas coisas, mas realmente não conseguia entender como aqueles dois nunca saiam da frente do videogame.
Após chegarem em casa, se ofereceu para colocar Liam na cama, deixando que Rachel e Charlie pudessem ter ao menos um pouquinho de tempo a sós.
, cadê o Bubby? — Liam perguntou enquanto o cobria e colocava Timmy ao seu lado.
Tom realmente tinha cumprido sua promessa e dado uma enorme girafa de pelúcia para Liam, quase maior que o próprio garoto, e que tinha sido carinhosamente nomeada de Timmy por causa de um desenho que Liam amava.
— Será que ficou lá embaixo? — ela olhou rapidamente ao redor, sem conseguir encontrar a girafa preferida de Liam. — Espera um minutinho, vou pegar.
Ela desceu as escadas correndo e começou a revirar toda a sala, procurando pela girafa em cada canto, mas sem obter nenhum sucesso. Suspirando, ela subiu as escadas novamente, encontrando Liam sentado na cama, esperando-a com os olhinhos ansiosos.
— Não consegui encontrar o Bubby, Liam. Acho que ele ficou na casa do Tom — ela fez uma cara de triste, vendo os olhos da criança marejarem na mesma hora.
— Eu quero o Bubby! — as lágrimas já começavam a descer pelo rosto de Liam.
apenas suspirou, a realização do que deveria fazer a enchendo de preguiça.
— Eu vou buscar o Bubby na casa do Tom se você me prometer que vai esperar aqui quietinho, tudo bem? Você promete? — ela esperou Liam balançar a cabeça, concordando, antes de sair do quarto do garoto e deixar a luz mais fraca, encostando a porta.
pegou a chave da casa e saiu, andando tão rápido que praticamente estava correndo, parando apenas quando chegou na porta da casa de Tom e tocou a campainha, tentando conter a respiração que estava um pouco acelerada. Ela esperou durante bons minutos, precisando tocar a campainha uma segunda vez para que a porta finalmente fosse aberta e Tom a encarasse com as sobrancelhas franzidas.
— Você viu se o Liam esqueceu o Bubby por aqui?
— Não vi — ele piscou algumas vezes. — Mas entra aí, vamos procurar.
Os dois começaram a procurar por todos os lugares que as pessoas tinham acessado durante o dia, que basicamente eram sala, cozinha e principalmente o quintal, que era realmente grande e comportava todos com espaço. ainda revirava a sala quando ouviu a voz de Tom vinda do quintal:
, encontrei!
Um suspiro aliviado escapou de seus lábios enquanto ela corria para o lado de fora e encontrava Tom próximo à borda da piscina com a girafa de pelúcia em mãos. Ela pegou Bubby, torcendo para que agora Liam conseguisse dormir e, consequentemente, ela também.
— Onde ele tava? — perguntou.
— Caído aqui na borda. Talvez o Liam estivesse tentando matar o Bubby afogado para ter uma desculpa para ficar só com o Timmy. Nunca se sabe.
— Primeiro que o Liam não é um psicopata — ela estreitou os olhos enquanto Tom sorria. — Segundo que, se ele tiver armado isso e mesmo assim tiver feito manha pra eu vir buscar essa girafa na sua casa no meio da noite, eu vou defenestrar aquela criança assim que eu chegar.
As sobrancelhas de Tom levantaram, parecendo impressionado.
— Uau, você usa palavras difíceis da língua inglesa.
— Não é difícil impressionar em inglês — ela balançou os ombros. — Língua fácil, sabe como é.
— Sério? Se você não me falasse eu nunca perceberia.
— Cala a boca — ela revirou os olhos e espalmou a mão no peito dele, o empurrando.
Talvez aquele gesto tivesse pegado Tom de surpresa, ou talvez tivesse empurrado com mais força do que deveria, mas o resultado foi que Tom perdeu o equilíbrio e, em um piscar de olhos, ele estava totalmente submerso, demorando alguns segundos para aparecer novamente na superfície da piscina. A boca de abriu em choque porque ela realmente não esperava que aquilo fosse acontecer.
— Porra, ! — Tom xingou, jogando o cabelo molhado para trás e indo até a borda, fazendo força para subir, jogando água para todo lado e obrigando a dar um passo para trás. — Pra que isso?
— Não era minha intenção — ela tentava não reparar demais em como a camisa dele agora estava totalmente grudada em seu corpo e como aquilo não deveria mexer com ela. — Mas você mereceu.
— Mereci? — as sobrancelhas dele levantaram e ele deu um passo em sua direção, fazendo com que ela automaticamente desse um passo para trás. — Eu acho que você também merece.
— Você não pode fazer isso! — desespero tomou conta de enquanto ela recuava, dando um passo para trás a cada novo passo que Tom dava pra frente. — Eu to com o Bubby no braço, e vou ter que voltar andando! A pé! Isso seria inumano!
As costas de finalmente acertaram a parede da casa, pouquíssimos centímetros ao lado da porta dos fundos. Tom estava em sua frente, parecendo realmente bravo e tudo o que ela pensava era que, sim, ele a jogaria na piscina apenas para se vingar.
— Isso soa como um problema seu — Tom balançou os ombros, perto demais para que tentasse fugir sem que ele a segurasse.
— Tom, não faz isso. Sério. Por favor. Eu não posso voltar pra casa toda molhada — e aquela definitivamente não era uma boa escolha de palavras, soube por causa do sorriso sem-vergonha que Tom abriu.
— Tem certeza? — ele aproximou os rostos dos dois e tentou fugir, mas sua cabeça apenas bateu contra a parede. — Nem um pouquinho molhada?
Então Tom balançou a cabeça com força, jogando a água de seus cabelos para todo lado, molhando todo rosto de e começando a rir enquanto ela bufava e ele se afastava. Odiando completamente aquele momento, passou a mão pelo rosto, tentando secar os respingos.
— Realmente maduro, Tom.
— Eu poderia te jogar na piscina, mas eu sou um cara bonzinho, lembra? — Tom ainda sorria daquele jeito detestável e começava a tirar a blusa desabotoar a calça.
— Você vai ficar pelado, menino? — ela rapidamente se virou, ficando de costas para ele. — Qual é o seu problema?!
— Não, eu vou entrar na casa pingando água pra todo lado — a voz de Tom estava carregada de ironia. — Relaxa, puritana, tem uma toalha aqui. Pode virar.
acabou virando, vendo que Tom usava a toalha para secar os cabelos e agora usava apenas a cueca boxer. Ele rapidamente secou o cabelo, enrolando a toalha ao redor da cintura e abrindo os braços.
— Satisfeita?
— Serve — ela balançou os ombros, tentando parecer indiferente. — Eu preciso ir, o Liam está esperando o Bubby.
— Pena. Nem deu tempo de ser o “cara mau” com você hoje — Tom sorria enquanto entrava na casa, sendo seguido de perto por .
— Achei que você fosse bonzinho.
— Eu sou — Tom abriu a porta, dando espaço para que finalmente saísse de sua casa. — Mas eu não ligo de te ajudar a satisfazer seu kink.
— Você é ridículo — ela revirou os olhos e simplesmente saiu, sem sequer olhar para trás ou falar mais nenhuma palavra.
Ao chegar em casa, subiu direto para o quarto de Liam, encontrando o garoto dormindo profundamente, abraçado a Timmy. Ela revirou os olhos e sorriu enquanto ia até ele e colocava Bubby ao seu lado, o cobrindo melhor e saindo do quarto. Depois foi para o próprio quarto, torcendo para que dormisse logo e tivesse uma noite totalmente sem sonhos.

XI

No geral as semanas de eram bastante rotineiras. As maiores emoções sempre aconteciam aos fins de semana, quando ela conseguia sair de casa e encontrar os amigos. Eram os dias que realmente algo acontecia e lhe davam alguma história pra contar.
Por isso, naquela quinta, ela ficou surpresa ao ouvir um barulho alto seguido de palavrões vindos da sala.
Como usual daquele horário, Liam estava dormindo e Lewis estava na escola, Charlie e Rachel estavam no trabalho, apenas estava no local, então aquele barulho na sala não fazia sentido. Mesmo assim, como única adulta da casa, ela sabia que tinha uma obrigação moral de ir ver o que estava acontecendo (e no fundo também sabia que, idiota do jeito que era, seria a primeira a morrer em qualquer filme de terror).
— Puta que pariu, filho da puta! — foram as exatas palavras que receberam tão logo ela chegou na sala.
A ideia de estar vivendo um possível filme de terror foi desfeita assim que viu Lewis ajoelhado no chão da sala, parecendo pegar pedaços de alguma louça que tinha sido quebrada. Pela cor e pela falta que fazia na estante, logo percebeu de tratar de uma estátua de urso bastante feia que Rachel deixava ali porque tinha sido um presente de alguém legal, aparentemente.
— Lewis? — perguntou enquanto se aproximava. — O que aconteceu?
— Eu quebrei a porra do urso horrível da minha mãe, não tá vendo? — a resposta malcriada do adolescente despertou uma atenção especial em .
Não que Lewis fosse um anjo, ele tinha quinze anos, era normal que vez ou outra ele acabasse sendo um pouco chato demais, mas ele nunca tinha sido tão grosso assim. Nem com nem com ninguém, pelo que ela se lembrava.
— Eu tô vendo — ela não ia ser tão grossa quanto Lewis, mas também não iria ajudar o garoto a pegar os cacos como tinha cogitado fazer. — Você não deveria estar na escola?
— Deveria.
Silêncio.
— E não está por que…?
— Porque eu vim embora — Lewis finalmente terminou de pegar os cacos, juntando em uma sacola e jogando no lixo, ainda soltando alguns palavrões no meio do caminho.
suspirou, sabendo que aquilo não estava nem perto da sua rotina, de seus dias praticamente sempre iguais. Em seus meses ali, nunca tinha visto Lewis sequer matar aula ou deixar de fazer os deveres. Ele podia ser a pessoa mais viciada em videogame que já tinha visto na vida, mas ele sempre cumpria com as obrigações, o que era realmente legal de ver.
E, novamente: ele nunca era tão grosso assim.
— Ok, Lewis, o que aconteceu? — cruzou os braços e estreitou os olhos para o garoto.
— Nada.
— Nada? — ela não estava convencida. — Você matou aula, está falando mais palavrões em cinco minutos do que eu falo em um mês inteiro… Aconteceu alguma coisa, é óbvio.
— Não foi nada, — agora Lewis tentava fisicamente sair da conversa, subindo as escadas para o próprio quarto.
E claro que, teimosa como era, decidiu seguir o garoto.
— Se não foi nada, com certeza foi alguma coisa. Você usou uma dupla negativa — por um minuto ela realmente acreditou que estava apenas sendo engraçada, mas a maneira como Lewis apenas parou de caminhar e a olhou parecendo muito bravo já deixou claro que tinha errado feio na escolha de palavras.
— Não. Foi. Nada.
— Lewis… — ela tentou ser mais doce, mostrando que estava realmente ficando preocupada com a maneira que ele estava agindo. — Você não tá agindo normal. É óbvio que aconteceu alguma coisa.
— Não é da sua conta.
— Não precisa ser babaca. Eu só quero ajudar.
— Eu não quero sua ajuda — Lewis estava claramente irritado. — Para de se meter na minha vida. Você não é minha mãe nem meu pai, é só a babá do meu irmão.
Foi com essas palavras que Lewis deu as costas para , bateu a porta do próprio quarto com força e a deixou sozinha do corredor, onde ela ficou um bom tempo parada, em completo silêncio, os olhos presos em absolutamente ponto nenhum.
Demorou mais do que deveria para que finalmente saísse dali e fosse para o próprio quarto, deitar na cama e encarar o teto, pensando nas palavras de Lewis e como elas tinham doído tanto, muito mais do que deveriam.
Apesar de Lewis ter sido desnecessariamente grosso, ela não podia negar que ele tinha falado apenas a verdade. Naqueles meses na Inglaterra, convivendo tanto com os O’donnell, se tornando parte da rotina da família, até mesmo se envolvendo nos momentos de lazer, ficava fácil esquecer que era só a babá.
No fim do dia, ela ainda era a pessoa responsável por cuidar de Liam, a estrangeira, a menina que tinha saído de seus país de terceiro mundo para tentar algo diferente na Europa, como absolutamente todos os brasileiros que ela conheciam queriam fazer. E que iria embora em pouco tempo, voltar para seu país e sua vida, sendo substituída por alguma outra intercambista tentando a sorte. Ela sempre seria a que morava com os O’donnell.
se odiava por ter esquecido disso durante um tempo. Por ter-se deixado levar pelos bons momentos, quase familiares, e esquecido quem realmente era. E ter sido lembrada de seu lugar por Lewis, daquele jeito tão duro, era realmente doloroso. Seu coração estava doendo naquele momento e ela se sentia um pouco boba por ter deixado aquilo a afetar tanto. Até porque, sabia que Lewis estava passando por um momento complicado e que provavelmente não queria realmente machucá-la.
Apenas quando a campainha tocou que criou coragem de levantar. Enquanto caminhava até a porta, pensava que estava com sorte que Liam ainda estivesse dormindo, porque ela realmente não se sentia mentalmente bem para se dedicar à criança.
— Oi, — Paddy deu um sorriso tímido quando ela abriu a porta. Ele ainda usava o uniforme da escola, a mochila nas costas. — O Lewis tá aí?
— Ele tá no quarto dele — fez um sinal para que ele entrasse na casa. — Mas já aviso que ele não está de bom humor.
— Eu sei — Paddy fez uma careta triste. — Por isso vim.
— Paddy, você sabe o que aconteceu com ele? Por que ele chegou cedo da escola?
— Sei.
ficou esperando alguns segundos, mas o garoto não falou mais nada.
— Você pode me contar? — ela finalmente pediu, mesmo já sabendo qual seria a resposta.
— Acho melhor não. É coisa do Lewis. Só vim conversar um pouco com ele. Posso subir?
— Fica à vontade — se sentindo derrotada, se jogou no sofá da sala, desistindo de tentar descobrir o que tinha acontecido com o adolescente. Se ele não queria falar, tudo bem, ela iria respeitar. Era o que deveria ter feito desde o início, para ser sincera.
Não demorou muito para que Liam acordasse e consumisse o resto do dia de . Pelo menos ela tinha algo a mais no que pensar, sem precisar ficar se preocupando muito com Lewis. Sem contar que agora Paddy estava ali, e ela sabia por experiência própria que ter o melhor amigo por perto em momentos complicados era a melhor coisa de todas.
Os O’donnell-pais já tinham chegado em casa quando a campainha tocou novamente. se ofereceu para abrir a porta, deixando que os dois brincassem um pouco com Liam. Ela não sabia ao certo se eles já tinham falado com Lewis, mas não iria se meter mais naquela história. Tinha prometido isso a si mesma.
— Oi — sorriu para Harry, que estava do outro lado da porta.
— Olá. Vim lembrar o Paddy de que ele tem casa — Harry riu. — Mandei mensagem, ele disse que já tava vindo embora, mas isso foi uma hora atrás…
— Eles estão no quarto do Lewis. Quer subir?
— Claro — Harry balançou os ombros e entrou na casa. Acenou um rápido “oi” para o O’donnell e subiu as escadas, seguindo . Logo eles já estavam batendo na porta.
— Vai se mudar pra cá? — Harry falou ao abrir a porta, vendo os dois garotos sentados em frente ao computador, jogando. Como absolutamente sempre.
— Eu falei que eu tava indo embora — Paddy revirou os olhos sem se mover um centímetro da cadeira.
— Fala isso pra sua mãe.
— Tá bom, tá bom… — Paddy levantou e pegou a mochila, que estava no pé da cama. — Você vai pra aula manhã?
— Vou — Lewis sorriu. — A suspensão foi só pelo resto de hoje, amanhã volto ao normal.
As sobrancelhas de ergueram quando ela ouviu a palavra “suspensão”, e ela praticamente começou a se coçar de curiosidade, milhares de teorias se formando em sua cabeça sobre o que tinha acontecido que tivesse Lewis a ser suspenso pelo resto do dia.
Ela mal deu atenção a Paddy e Harry, que logo já estavam indo embora, despedindo-se dos dois na porta e logo a fechando. Enquanto subia para o próprio quarto, se tentava lembrar a si mesma que ela não tinha o direito de se meter na vida de Lewis. Ao mesmo tempo, sabia que suspensão podia ser algo grave, e sentia que Charlie e Rachel precisavam saber o que tinha acontecido.
Não que ela fosse contar, claro. Era uma decisão de Lewis.
, pode vir aqui rapidinho? — apenas a cabeça de Lewis aparecia na porta. Ela balançou a cabeça, confirmando e indo até o quarto do menino.
Lewis estava novamente sentado na frente do computador, o jogo pausado em sua tela. não sabia muito bem o que fazer, então foi até a cama dele e se sentou na ponta. Esperou que o garoto levantasse, fechasse a porta e voltasse para a cadeira. Ficaram em silêncio por alguns segundos até Lewis finalmente tomar coragem para dizer:
— Então… desculpa.
E aquele dia não cansava de a surpreender.
— Desculpa?
— Pelo jeito que eu falei com você quando cheguei em casa. Você queria ajudar e eu fui grosso. O Paddy falou que eu fui babaca.
Abençoado seja Paddy Holland.
— Tudo bem. Eu também não deveria me meter na sua vida. Só fiquei preocupada, você tava agindo estranho.
— Eu sei.
— E… você foi suspenso, Lewis? — ela realmente se esforçou para não soar acusadora.
— Fui — o menino suspirou, parecendo finalmente se dar por vencido. — Eu bati em um menino da minha turma e fui suspenso pelo resto do dia.
— Você bateu em um menino?! — se sentia completamente chocada. Ela nunca imaginaria que Lewis pudesse ser violento. — Por quê?! — tinha que ter uma explicação.
— Ele tava sendo idiota comigo porque eu… gosto de meninos — a frase foi dita quase em um sussurro, mas conseguiu ouvir perfeitamente.
A boca dela abriu em choque, ela não conseguia evitar. Muita coisa tinha acontecido, muita informação tinha sido passada e ela simplesmente não sabia como reagir. Era um daqueles momentos para os quais você treina sua vida inteira mas, quando chega na hora, parece que você nunca treinou e você simplesmente trava. estava travada.
? — Lewis parecia preocupado. — Fala alguma coisa.
— Ele estava sendo homofóbico com você? — foi a única coisa que ela conseguiu falar.
— Sim.
— Então ele mereceu apanhar — a fala dela arrancou uma pequena risada de Lewis. — Eu sinto muito que você esteja passando por isso, Lewis. Você é muito novo para ter que lidar com essas coisas.
— Eu não acho que tenha uma idade em que esteja tudo bem lidar com isso — a maneira como Lewis falou parecia tão adulta que sentiu vergonha de que sua fala pudesse ser interpretada daquela maneira. — No geral as pessoas não ligam, mas esse menino gosta de provocar qualquer pessoa. Ele é um escroto.
— Você bateu muito nele?
— Queria ter batido mais — os dois acabaram rindo.
— Seus pais sabem, Lewis? — esperou o garoto negar com um aceno antes de perguntar: — Alguém mais sabe?
— O Paddy foi o primeiro a saber. Tem bastante gente da minha turma que sabe. Mas… Acho que ainda não to pronto pra contar pros meus pais.
— E sobre a suspensão?
— Eu vou inventar que foi briga boba da escola, é fácil fazer eles comprarem a ideia.
— Sim, mas… um dia eles vão precisar saber — fez uma careta triste, vendo-a ser espelhada na expressão de Lewis.
— Eu tenho medo de eles me odiarem.
abriu a boca em choque. Em nenhum mundo conseguia imaginar Rachel e Charlie odiando o próprio filho. Parecia simplesmente não fazer o menor sentido com o contexto. Os O’donnell eram a perfeita família de comercial de manteiga. E talvez esse fosse o medo de Lewis. Eles eram perfeitos demais.
— Bom, o Paddy não te odiou, né? — ela viu os lábios do adolescente abrirem em um pequeno sorriso, tímido. — Então. Seus pais não vão te odiar. E se odiarem… é um problema deles. Você não vai ficar sozinho. Você tem o Paddy. E eu.
— Obrigado, . E… não conta a verdade pros meus pais ainda. Por favor. Nem… Nem pro Sam, ou o Harry, ou o Tom. Você é amiga deles, né?
— Dos gêmeos, sim — ela não sabia dizer o que ela e Tom eram. Não diria que era amiga, mas… Não diria mais que era aquela coisa só de ódio entre eles. Era complicado. — Pode deixar, não vou contar pra mais ninguém. Quer um abraço? — ela se levantou e abriu os braços, vendo Lewis fazer uma careta.
— Não, valeu.
— Tarde demais. Vou abraçar — ela riu, prendendo o garoto em um abraço e ouvindo-o começar a rir, sentindo-se um pouco mais parte da família.

XII

— Não! — Liam gritou e estufou as bochechas, virando o rosto para direção oposta a que segurava a colher com a comida que ela tinha feito.
— Por favor, Liam — quase chorou enquanto implorava para o garoto comer pelo menos um pouco, mas ele ainda parecia irredutível.
— Não adianta, , ele não vai comer — Lewis revirou os olhos, digitando rapidamente no próprio celular, sequer se dando o trabalho de encarar e Liam.
— Mas ele precisa comer!
— A culpa é sua por ter falado pro meu pai que ele não precisava se preocupar em deixar a comida do Liam pronta.
bufou, sabendo que Lewis falava apenas a verdade.
Era sexta-feira, e desde o dia anterior, Rachel e Charlie tinham saído em uma viagem romântica para comemorar os dezenove anos de casados, e tinha prometido que ela iria cuidar super bem de Lewis e Liam, que tudo daria completamente certo. Mas ela tinha esquecido o pequeno detalhe que era uma cozinheira horrível, e agora Liam simplesmente se recusava a comer a comida, e Lewis começava a se alimentar de pão e hambúrguer, ou o que quer que ele decidisse colocar no meio.
Os pais chegariam apenas no domingo pela manhã, o que significava que ainda tinha o resto da sexta e o sábado para se sentir péssima por não saber fazer coisas básicas. Que dizer, ela cozinhava o básico, o bastante para sobreviver morando sozinha. Mas sua comida não era ótima, e claramente Liam achava a pior coisa do mundo.
— Por favor, Liam, come só um pouco — ela não aguentava mais implorar para a criança. — Se você comer, você ganha chocolate!
— Não! — Liam gritou e bateu a mão na colher, derrubando comida pra todo lado.
— Desnecessário! — ela brigou com o menino, desistindo completamente. — Quer saber? Não come então. Uma hora você vai ficar com fome.
colocou o prato sobre a pia enquanto Liam cruzava os braços e fazia bico, completamente bravo. Ela respirou fundo e encarou Lewis, que ainda parecia obcecado com a tela do próprio celular.
— O que eu faço, Lewis?
— Cozinha melhor.
— Para de ser idiota — ela jogou o pano de prato na cabeça do adolescente, que apenas riu e colocou em cima da mesa da cozinha. — Eu não sou boa com isso, eu não sou o Sam que-
A ideia praticamente estalou na cabeça de . Se sentindo ansiosa, ela correu para pegar o próprio celular, clicando rapidamente no contato de Sam e esperando três toques até que ouvisse o “alô” do outro lado.
— Sam! — ela estava mais perto de chorar de desespero do que gostaria de admitir. — Quanto você cobra pra cozinhar pra mim?
— Eu… espera, quê? — Sam parecia completamente confuso.
— Eu não sei cozinhar. Nada. E o Liam não come a minha comida por nada, e eu não posso deixar o menino morrer de fome até domingo — ela soltou tudo de uma vez, mal se dando tempo de respirar.
— Você não tem ideia do quanto eu estou confuso, .
— Vem aqui e me ajuda a fazer algo que o Liam vai comer, por favor. Eu dou um jeito de pagar, eu prometo. Eu to desesperada, Sam — pelo canto do olho, olhou para Liam, que parecia ainda emburrado e agora começava a provocar Lewis.
— Tá bom, estou indo aí te salvar.
O suspiro aliviado não foi contido quando ela desligou o celular, imaginando que agora todos os seus problemas acabariam. Pelo menos todos os problemas imediatos.
— Para com isso, Liam! — Lewis brigou com a criança, que agora jogava qualquer coisa que conseguia alcançar no irmão mais velho enquanto gritava várias coisas sem sentido. — , dá um jeito no meu irmão!
— O irmão é teu, eu heim.
— A babá é você!
— O Sam tá vindo aqui ajudar a fazer uma comida decente pra ele. Quem sabe assim ele acalma um pouco — foi na direção de Liam, segurando o braço dele com delicadeza e recebendo um careta feia. — O Sam vai vir aqui ajudar a fazer uma comida gostosa pra você, Liam. Não é legal?
Liam apenas ficou emburrado de novo e oficialmente desistiu. Enquanto não comesse algo decente, aquela criança com certeza não ficaria feliz. De jeito nenhum. Então, quando a campainha tocou, praticamente saltitou até a porta, sentindo-se a pessoa mais feliz do mundo ao ver Sam sorrir para ela do outro lado. E Harry. E Tom.
— Trouxe os dois pra cuidarem do Liam enquanta a gente cozinha — Sam disse antes de estalar um beijo na bochecha de e entrar, indo direto para a cozinha sem nem pedir permissão.
— Valeu — ela falou enquanto abraçava Harry e abria um sorriso simpático para Tom.
— Ei, garotão! — Tom foi até Liam, que ainda estava de cara fechada. — Fiquei sabendo que não estão te alimentando direito nessa casa, é verdade?
— Calúnia! — reclamou enquanto Tom se ajoelhava de frente para a cadeira que Liam estava, dando uma rápida piscadela para ela.
— A gente trouxe um pouco de comida pra você — Harry pegou um saco de um salgadinho que não conhecia, mas sabia que Liam simplesmente amava.
Os olhos do garoto brilharam, e logo ele estava seguindo Harry e Tom para a sala, e não perdeu tempo em expulsar Lewis dali – não que o adolescente ligasse, provavelmente só queria uma desculpa boa para ir para o próprio quarto. Logo apenas e Sam estavam na cozinha, e o gêmeo já começava a mexer em todos os armários e geladeira, procurando ingredientes para poder começar a cozinhar.
— Isso foi o que você fez? — Sam olhou a panela, pegando um colher e colocando a comida de na boca. Menos de segundo depois, fez uma careta e pareceu realmente fazer força para engolir. — Já ouviu falar de sal, ? Alho? Cebola? Qualquer tipo de tempero que não faça a comida ficar horrível?
— Não me humilha, Sam. Eu coloquei sal.
— Um grão não adianta — ele ria enquanto começava a reunir alguns ingredientes na mesa. — Vamos de algo simples. Vou te ensinar a fazer bangers and mash.
nunca tinha sequer ouvido falar daquilo – pelo menos não por nome. Mas enquanto Sam explicava o que estava fazendo e a ensinava, ela logo percebeu que se tratava de um dos pratos que Charlie fazia com alguma frequência. Purê de batata, linguiça, molho gravy e ervilhas. Não era realmente complicado e, se seguisse as orientações de Sam, ela conseguiria reproduzir o prato sem maiores problemas.
— Você sabe que você salvou a minha vida, né? — ela sorriu enquanto esperava o molho terminar de ferver para poder jogar no purê. — Eu não sei o que seria de mim sem você.
— Você ia ter que lidar com uma criança desesperada — Sam sorriu enquanto mexia o molho e logo apagava o fogo. Em um pequeno prato, ele tinha arrumado a comida de Liam, já deixando a linguiça cortada em pequenos pedaços. — Você acha que vai conseguir reproduzir bangers and mash depois?
— Não parece tão difícil… — ela franziu as sobrancelhas, levemente preocupada. Arroz também não era difícil e mesmo assim ela conseguia errar. Tudo era possível.
Sam apenas pediu para que ela fosse buscar Liam na sala. Chegando no local, ela se deparou com Liam rabiscando o braço de Tom, e não tinha ideia de onde ele tinha tirado uma caneta, mas aparentemente ele estava seguindo algumas orientações de Harry para fazer desenhos e Tom era seu papel.
— Ei, Liam, o Sam preparou uma comida super gostosa! E se você comer tudinho, eu ainda vou ter dar aquele chocolate. Que tal? — ela sorriu, vendo os olhos da criança brilharem.
— Chocolate! — ele pulou, segurando a mão de Tom e de Harry e puxando os dois para a cozinha.
Ela os seguiu, rindo da situação que era bastante adorável, vendo Liam se sentar na cadeira de sempre e Sam colocar o prato de comida em sua frente, entregando a colher para a criança. Liam não demorou para pegar uma quantidade relativamente grande de purê e ervilhas e colocar na própria boca, mastigando e engolindo rápido demais, pegando mais e mais colheradas.
— Vai devagar, Liam! — franziu as sobrancelhas. — Assim você vai acabar engasgando!
— Pelo menos agora ele tá comendo — Harry sentou em uma das cadeiras. — Mais um dia em que os Holland salvam .
— Não vou nem fingir que é mentira.
Depois que Liam comeu o prato inteiro, repetiu e comeu o chocolate, parecia que estava com ainda mais energia. O garoto tentou convencer todos a voltarem para a sala e brincar ainda mais, mas usou a desculpa de que tinha que limpar a cozinha – o que era verdade – e acabou deixando o trabalho de entreter a criança para os Holland.
Enquanto guardava a sobra da comida – Sam tinha cozinhado o bastante para que eles almoçassem a mesma coisa no dia seguinte -, se sentia um pouco aliviada. O humor de Liam estava muito melhor, ela poderia descansar melhor aquela noite. Talvez até pedir uma pizza para os três, Lewis com certeza iria amar, e Liam não reclamaria, ela sabia. E era só uma noite de pizza, seria bom.
Quando voltou para sala, após deixar toda a cozinha limpa, encontrou Liam dormindo no colo de Tom. Era normal que ele sempre dormisse após comer, e agitado do jeito que estava, ele com certeza tinha entrado em um sono profundo. Harry e Sam estavam sentados no outro sofá, conversando alguma coisa em voz baixa. Ela se aproximou de Tom, sussurrando:
— Me passa o Liam, vou levar pro quarto dele.
— Eu levo — Tom começou a ajeitar melhor o garoto no colo, levantando-se com um pouco de dificuldade. — Só… me guia, por favor.
Os dois subiram as escadas, tentando impedir Tom de tropeçar em algum degrau e acabar caindo, consequentemente derrubando Liam. Logo eles já estavam no quarto da criança, e Tom o deitou delicadamente na cama, sorrindo para Timmy, que estava sempre na cama do menino, se afastando enquanto o cobria. Apenas após deixarem o quarto e fecharem a porta, parou no corredor e sorriu.
— Muito obrigada por hoje. Vocês me salvaram muito.
— E você não matou uma criança de fome — a resposta de Tom fez com que ela revirasse os olhos. — Mas… não te julgo. Eu também não sou muito fã de cozinha. Quem faz a maioria das comidas em casa é o Haz.
— Eu não sabia que você era bom com crianças — não podia deixar de comentar, afinal, durante aquelas horas Tom tinha entretido Liam, e o garoto parecia realmente gostar dele. Não tinha como negar.
— Eu gosto bastante de criança, e eu conheço a Rachel e o Charlie há anos, eu vi o Liam na barriga dela — o sorriso de Tom era simplesmente adorável. — Eu gosto do menino.
— Então você consegue gostar de alguém.
— Eu gosto de muitas pessoas, — ele levantou as sobrancelhas. — Você só não deu sorte.
— Eu acho que você está mentindo — ela levantou levemente o queixo, querendo parecer um pouco superior. A altura dos dois não era tão diferente, talvez no máximo cinco centímetros de diferença, mas mesmo assim ela ainda se sentia menor. — Você ‘tá começando a gostar de mim.
— O que eu sinto por você é outra coisa — a maneira como Tom e encarou era sugestiva até demais.
— Você ‘tá realmente dando em cima de mim, Tom? — estreitou os olhos, não fazendo ideia de como se sentia em relação àquele momento.
— Depende. Tá funcionando? — Tom sorriu e balançou os ombros, como se aquilo não tivesse importância. Por que era tão difícil entender aquele rapaz? — Quando a Rachel e o Charlie voltam?
— Domingo de manhã. Por quê?
— Domingo a noite vamos em uma balada, comemorar meu aniversário. Você está convidada.
— Seu aniversário é domingo?
— Foi dia primeiro de junho, na verdade — Tom riu e o queixo de caiu totalmente. — Que foi?
— Foi depois do meu! — quase gritou, mas Tom logo fez “shh”, lembrando que ela ainda estava no corredor em frente ao quarto em que Liam dormia. — Um dia depois! Faz um mês, Tom!
— Sim, parte quatro da comemoração. Então, você vai?
— Claro — ela balançou a cabeça e começou a andar para as escadas novamente. — Eu vou ter que te dar um presente. O que você quer?
— Você vai querer manter isso com classificação indicativa livre ou eu posso pedir o que quiser pra você? — o tom na voz do rapaz fez revirar os olhos e lhe dar uma forte cotovelada.
— Esquece, não vai ter presente.
Depois que chegaram na sala, não demorou muito para que os Holland se despedissem e se sentasse no sofá, fechando os olhos e se sentindo um pouco em paz e, ao mesmo tempo, completamente ansiosa pelo que o domingo lhe traria.

XIII

— E se eles reclamarem de eu também ir? — Ayumi murmurou, ajeitando melhor o penteado que tinha feito no cabelo.
— Sem drama — respondeu, se olhando no espelho e reprovando a própria roupa. Nada do que ela vestia parecia adequado. — Eu avisei o Sam que você também vai e eles amaram. Todo mundo gostou de você desde o “eu nunca”. Que, aliás, até hoje eu não sei o que aconteceu depois que eu fui embora.
— Nada demais — Ayumi parou ao lado de , em frente ao espelho, e a brasileira não podia deixar de comparar as duas. era alguns bons centímetros mais alta, a pele vários tons mais escura, o cabelo enorme e cacheado, muito mais cheio de volume. — A gente só ficou se perguntando o que raios aconteceu para você e o Tom estarem agindo civilizados, mas pela sua cara…
— Acho que nem o Tom seria babaca com alguém chorando de soluçar, né? — finalmente desistiu, aceitando que aquela ainda era sua melhor roupa e ela teria que fazer funcionar. E torcendo para que eles não fossem para um lugar chique demais.
— Se ele fosse, eu ia bater na cara dele.
Não muito depois, ela recebeu uma mensagem de Harry, avisando que eles estavam prontos para sair. segurou a mão de Ayumi, praticamente a puxando para fora da casa, encontrando os Holland e Harrison as esperando do lado de fora, todos parecendo animados e tão bem vestidos que ela se sentia um pouco envergonhada.
— Ayumi, você deveria usar seu cabelo assim com mais frequência, ficou incrível — Harrison deu um sorriso simpático para a garota, e riu ao perceber como o rosto da amiga tinha ficado completamente vermelho.
— Obrigada.
— Então, vamos nos dividir em dois Uber? — Harry pegou o próprio celular, já abrindo o aplicativo.
— Ninguém vai dirigir hoje?
— Todo mundo quer beber, então… segurança primeiro!
Logo eles estavam se separando em dois Uber e indo para o local que Tom havia indicado. A viagem foi relativamente rápida; em pouco tempo eles já estavam parando em um enorme prédio escuro de esquina, onde a palavra “Luxe” estava escrita em dourado. não era nenhuma expert em baladas londrinas, mas ela sabia que nada que viesse com a palavra luxe estampada seria monetariamente acessível.
— Hã… É aqui que nós vamos? — ela perguntou sem graça enquanto todos se reuniam a Tuwaine e Olivia, que já aguardavam do lado de fora.
— Por que você parece preocupada? — Harry franziu as sobrancelhas.
— Nada, eu… Nada — sorriu amarelo. — Vamos.
Ela engoliu em seco enquanto todos começavam a caminhar para a entrada, se perguntando de quantas coisas ela teria que abrir mão naquele mês para que seu salário durasse mais tempo. Provavelmente mais do que ela gostaria.
— Relaxa — a voz de Tom soou baixa próxima a seu ouvido enquanto eles andavam. — Eu já reservei uma mesa na área VIP, você vai gastar menos do que imagina.
Ela sorriu grata, vendo Tom devolver um sorriso simpático a balançar os ombros. Logo ele estava saindo de perto dela e indo até o segurança. Enquanto aguardavam a entrada ser liberada, ainda se sentia um pouco estranha. Querendo ou não, ela se sentia um pouco deslocada em um lugar aparentemente tão luxuoso.
O interior do clube fazia jus ao nome Luxe. Tudo era absolutamente lindo, luzes neon tornando a decoração moderna e divertida. O grupo foi direcionado para uma área em um mezanino, onde uma mesa já os aguardava com algumas garrafas e vários copos, sofás e pufes espalhados para que eles tivessem mais conforto. sorriu sozinha e lembrou de um antigo meme brasileiro sobre uma bebida que pisca, sentindo-se a própria Rainha do Camarote.
— Vamos começar brindando! — Olivia foi até a garrafa, a abrindo com facilidade e enchendo os copos. — A uma incrível noite entre amigos!
O grupo brindou e logo estava provando o champanhe mais doce e caro que já tinha experimentado em toda sua vida. Não tinha a ver com aqueles espumantes que tomava nas festas de réveillon com os amigos. não tinha ideia de quanto aquela garrafa custava, mas, como tudo naquele local, o objeto gritava caro.
Pouco tempo após terminarem a primeira garrafa, uma segunda foi levada para a mesa junto com vários shots de alguma bebida que ela não conhecia. E então, garrafas atrás de garrafas, shots atrás de shots, em pouco tempo todos estavam rindo mais, contando mais piadas, se abraçando mais, muito mais soltos e à vontade uns com os outros.
Logo o grupo estava na pista VIP, dançando, curtindo, bebendo mais. As luzes eram estonteantes e a fumaça da máquina tinha aquele cheiro de… fumaça de máquina de balada, horrível. odiava, mas não se importava. Tudo estava mais divertido, as luzes mais coloridas e brilhantes. O efeito álcool deixava tudo mais bonito e divertido.
— Tá curtindo? — Tom se jogou no sofá da área VIP ao lado dela. Depois estendeu uma garrafa de água para ela. — Quer?
tinha dado uma pequena pausa de tanta dança. Pular de um lado para o outro era bastante cansativo, ela precisava respirar um pouco, se hidratar, então não pensou muito antes de aceitar a oferta do rapaz.
— Obrigada — ela soltou um suspiro após um longo gole. — Pelo convite e pela água. Eu tô me divertindo bastante.
— Ótimo — Tom praticamente sussurrou, ficam em silêncio logo depois.
Ela o encarou, vendo que ele parecia a estudar. não tinha muita certeza do que falar naquele momento, e ela não sabia muito bem o que pensar da maneira como Tom a olhava. Parecia intenso demais para seu próprio bem. Era quase como se ele estivesse esperando por algo.
— Por que você tá me olhando assim? — ela franziu as sobrancelhas, dando mais um rápido gole em sua água, ainda se sentindo levemente desidratada.
— É bom te olhar — Tom balançou os ombros. — Faz bem olhar pessoas bonitas.
Ninguém tinha preparado para aquele momento.
— Eu sou bonita, agora?
— Sempre foi.
Ah tá — ela revirou os olhos. — E você percebeu isso enquanto ficava me provocando? Fazendo comentários desnecessários?
— Ou respondendo aos seus.
— De onde saiu isso de você dar em cima de mim, Tom?
— Faz um tempo que eu dou em cima de você, — Tom deu um sorriso maroto. — Você pode ser até irritante em muitos momentos, mas eu não sou cego.
Tom tinha a incrível capacidade de ofender ao tentar fazer um elogio. Ela nem sequer sabia que isso era tão possível.
— O que você realmente quer, Tom?
— Você — ele se ajeitou no sofá ficando mais próximo dela. — Se quiser, eu ainda posso descrever tudo o que eu quero fazer com você.
— Nem em sonho — se forçou a não se afastar porque, em sua cabeça, acabaria demonstrando ter sido afetada. E não importava se seu coração estava batendo rápido, se ela estava um pouco mais tonta, se a mão dela tinha começado a suar; ela não tinha sido afetada pela proximidade repentina de Tom, nem por suas palavras recheadas de tantas intenções.
não estava afetada por Tom Holland.
— Pena — ele abriu ainda mais o sorriso, aproximando-se ainda mais, chegando perto do ouvido dela apenas para sussurrar: — Você não tem ideia do que está fazendo nós dois perdermos.
Sustentando o sorriso idiota, sem-vergonha, Tom levantou do sofá e voltou para a pista de dança, onde a maioria do grupo permanecia dançando, pulando e cantando junto com a música alta. se sentia idiota por estar com a expressão fechada, olhando feio enquanto ele começava a dançar com a Ayumi, e detestando a maneira como os dois dançavam ridiculamente bem.
A parte que mais odiava daquela história toda era como, no fim, ela tinha sido afetada.
Usando as palavras do próprio Tom, realmente o achava irritante, mas ela certamente não era cega. E mesmo que o rapaz não fosse um Harrison no quesito beleza, Tom continuava sendo muito bonito. Ela já tinha visto-o vezes o bastante, de ângulos o suficiente para poder dizer com certeza que se sentia fisicamente atraída por ele.
E honestamente? estava bêbada, Tom tinha sido bem claro sobre suas intenções, sobre o que queria, e naquele momento, com as luzes da balada brilhando coloridas, a fumaça deixando tudo meio embaçado, a música fazendo todos dançarem de maneira mais sensual, teve certeza que ela também queria.
Tudo o que precisava era de um empurrão.
Por isso abriu no celular o grupo com os amigos brasileiros, digitando rapidamente uma mensagem de texto.

[] Eu quero fazer uma coisa mas não sei se devo. Me ajudem.

[Débora] É uma coisa que vai te meter em problema legal? Ou te deportar de volta pro Brasil?

[] Não.

[Roberta] Vai fazer mal pra alguém?

[] Não…

[Pedro] Mais importante: você vai aproveitar?

[] Provavelmente sim…

[Gabriel] Então para de perder tempo com a gente e faz logo!

Rindo, guardou novamente o celular no bolso da calça e se levantou, indo até a roda onde os amigos agora dançavam e cantavam alto uma música que ela não conhecia muito bem. Assim que chegou, cutucou o ombro de Tom, fazendo-o se virar em sua direção. Ela percebeu que, com aquele salto, eles ficavam praticamente da mesma altura, o que era ótimo. Iria tornar tudo mais fácil.
Sem pensar demais nem se dar tempo de desistir, puxou Tom para si e o beijou.
Ao redor conseguiu ouvir os gritos dos amigos, risadas, brincadeiras, até mesmo algumas comemorações. Ela não se importou o bastante a ponto de parar o que estava fazendo para poder brigar com eles, principalmente porque Tom correspondeu ao beijo instantaneamente, a segurando firmemente contra seu corpo.
Era como qualquer beijo bêbado: tinha gosto de álcool e parecia quente. Ou talvez fosse o ambiente. Ou como se sentia no geral. Era um bom beijo, de alguém que parecia saber o que estava fazendo. Daquele exato tipo que gostava e que beijaria tantas outras vezes que pudesse.
— Eu sabia que você não ia resistir — Tom sorriu ao se afastar, passando a língua pelos próprios lábios rapidamente.
— Sabe qual é a melhor parte de te beijar, Tom? — piscou inocente. — Pelo menos assim você cala a boca.
Ela mal conseguiu finalizar a frase, sendo novamente puxada pelo rapaz para outro beijo, totalmente envolvida pelos braços dele, sentindo os músculos firmes contra seu corpo a puxando para mais perto, impossivelmente perto.
chutava que, se não fosse pelos amigos, eles não tinham separado tão cedo. Mas logo o restante do grupo estava fazendo as mais famosas piadas sobre arrumarem um quarto e coisas do gênero, então talvez fosse melhor parar por ali, por enquanto. Eles se afastaram, voltando para a roda como se nada tivesse acontecido, dançando e conversando normalmente.
O local estava ridiculamente quente e sentia que estava começando a fica sóbria, o que ela certamente não queria para aquela noite, então pediu licença aos amigos e foi para o bar. Claro, como parte da área VIP, eles tinham serviço na mesa, não precisavam entrar na fila para pegar uma bebida, mas mais do que uma cerveja, também queria uma desculpa.
— Eu te odeio, — Olivia se aproximou dela na fila, parando ao seu lado.
O estômago de revirou e de repente ela sentiu uma incrível vontade de vomitar. Virando-se para Olivia, viu a garota parecendo realmente brava. Claro. Olivia era ex de Tom. E sequer tinha pensado antes de simplesmente beijar o rapaz na frente de todo mundo. Tinha uma regra sobre não poder ficar com ex de amiga, não tinha?
— Pois eu te amo — Ayumi surgiu do seu outro lado, com um enorme sorriso. Agora as coisas estavam ficando um pouco confusas.
— Ama?
— Por que ela é trouxa — Olivia revirou os olhos.
— Não liga, a Olivia só tá brava porque perdeu a aposta — Ayumi ainda sorria abertamente. — Tá toda triste porque vai ter que me pagar cinquenta euros.
— Você podia ter esperado só mais uma semaninha antes de ficar com o Tom — novamente Olivia revirou os olhos. — Eu só queria cinquenta euros.
abriu um sorriso aliviado. Então Olivia não estava brava com ela por ter ficado com Tom, apenas por ter perdido uma aposta.
— Espera, vocês apostaram isso?
— Claro que apostamos — dessa vez Olivia sorriu. — Que vocês iam ficar era óbvio. A aposta era sobre quando.
— Ridículas — ela riu e pediu uma das bebidas de nome engraçado para o barman.
— Mas e aí, curtiu? — Ayumi perguntou como quem não quer nada.
— Claro que ela curtiu, o Tom beija bem — a resposta de Olivia fez levantar as sobrancelhas.
— Sem comentários.
As duas continuaram rindo e provocando , mas ela apenas fingiu que não era com ela. Quando elas voltaram para a área VIP, encontraram o restante do grupo espalhado por lá, todos parecendo descansar um pouco de toda dança, conversando e rindo despreocupadamente. Os olhos dela encontraram de Tom e seu rosto ficou um pouco mais quente.
Ninguém fez piadinhas ou comentários bobos quando ela tomou a decisão de se sentar ao lado dele, nem quando ele passou o braço ao redor da cintura dela e a puxou para perto, beijando rapidamente seu lábios antes de voltar a conversar com o grupo como se aquilo fosse totalmente normal.
Apesar de que… Naquela noite, seria.
E ela iria aproveitar, sem se importar com o que poderia vir de consequência.

XIV

Quando o celular de despertou cedo na segunda-feira, ela teve total certeza de que sua cabeça iria explodir. Parecia que cada pequeno barulho do aparelho acontecia diretamente em seu cérebro, uma punição pelo tanto que ela tinha bebido na madrugada e por tão pouco que havia dormido.
Foi difícil se arrastar da cama até o chuveiro porque ela ainda sentia o leve efeito do álcool. Sua cabeça ainda estava levemente turva e seu pensamento mais lento do que deveria. tinha estudado química o suficiente para entender cada pequena reação de seu corpo e ele estava tentando a todo custo expelir as toxinas ingeridas durante a madrugada. Maldito acetaldeído.
O jato de água quente do chuveiro – ela tinha alguma certeza que seus banhos diários custavam demais para os O’donnell mas eles nunca tinham conversado sobre – apenas a fez se sentir um pouco mais molenga, o corpo relaxando completamente. Parecia que cada músculo gritava desesperadamente para que ela voltasse a dormir, e a realização de que não poderia era um tanto triste. precisava seguir sua rotina, e ela começava tomando café da manhã com os O’donnell.
Apenas enquanto trocava de roupa e se arrumava para descer, começou a pensar nas coisas que tinham acontecido de madrugada. Não coisas, apenas coisa. Ela se lembrava perfeitamente de cada momento. Ela se arrependia? Não. Mas se sentia ansiosa sobre como seria dali pra frente? Totalmente.
Quando desceu as escadas, encontrou Rachel com o notebook aberto na mesa, Charlie terminando de fazer panquecas e Lewis com o celular na mão. Como absolutamente todos os dias. A única coisa que mudava naquela cena era o prato que Charlie cozinhava.
— Bom dia, — Rachel mal a olhou por cima da tela do notebook e logo pensou workaholic. — Como foi a festa ontem?
— Legal — ela respondeu e instantaneamente a imagem de Tom a beijando voltou em sua mente. sentiu o rosto esquentar na mesma hora. Torcendo para que ninguém notasse, apenas limpou a garganta antes de continuar: — Era um lugar bem chique, pra ser sincera. Sorte que o Tom tinha reservado o espaço VIP…
— Eu nem vi você chegar em casa — Charlie comentou enquanto colocava as panquecas na mesa e todos começavam a se servir. — Foi tudo tranquilo?
— Sim, dividimos Uber pra voltar — ela deu um pequeno sorriso antes de encher a boca de panqueca, pedindo aos céus para que aquele fosse o fim do assunto sobre sua noite.
Logo eles estavam conversando sobre o dia a dia da família, o assunto recorrente de todas as manhãs. No geral mais ouvia do que falava, mas naquela segunda em especial ela se sentia totalmente grata por isso. Não tinha muito que queria falar, pelo menos não com os O’donnell.
Após ficar “sozinha”, se arrastou de volta para o próprio quarto. Liam acordava por volta das nove, o que dava a ela alguns bons minutos para descansar. Se deitando na própria cama, fechou os olhos e respirou fundo. Consequências. Será que ela realmente precisaria se preocupar com isso? Quer dizer, o que poderia realmente acontecer?
Após abrir os olhos novamente, finalmente tomou coragem de realizar a ação que estava adiando desde que tinha acordado. Respirou fundo antes de conectar o wi-fi ao celular e se sentiu levemente feliz ao perceber que não tinha muitas mensagens. Mas ainda era cedo, bastante cedo. Ela sabia que essa calma duraria pouco tempo. Conhecendo os amigos que tinha, não demoraria para que logo suas notificações acabassem ficando cheias.
Claro que foi o que aconteceu durante a parte da tarde.
Enquanto ela dava almoço para Liam, seu celular começou a vibrar com diversas mensagens, especialmente no grupo que ela tinha com Ayumi e Olivia. Tentando prezar pelo próprio bem, ignorou as amigas por algumas horas, até Liam tirar seu cochilo da tarde e deixá-la livre por algum tempo.
“Não quero falar com vocês, obrigada” foi a resposta de após ler todas as mensagens das amigas.
E óbvio que foi um erro.
Não demorou para que seu celular tocasse com uma chamada de vídeo em grupo. Revirando os olhos, ela acabou atendendo, vendo os sorridentes rostos de Ayumi e Olivia dividirem a tela meio a meio.
— Eu falei que não queria falar com vocês.
— Então você fez uma péssima escolha ao atender a chamada.
— A gente só quer conversar, — Ayumi bufou. — Para de ser chata.
— E eu não conheço vocês? — revirou os olhos enquanto sentava na cama, a voz carregada de sarcasmo e descrença. Quer dizer, ela conhecia as amigas que tinha. — Vocês querem me zoar por causa do Tom.
— Você fala como se fosse recente. A gente sempre te zoou por causa do Tom — a obviedade na voz de Ayumi era quase humilhante.
— Você não ajudou, Ayumi.
— Eu não tentei.
— Mas, , a Ayumi tá certa — Olivia falou. — Além do mais… Você nem falou nada pra gente na festa. A gente merece saber o que aconteceu. Como de repente vocês dois estavam tão agarrados.
suspirou profundamente.
A verdade era que ela não queria falar sobre a madrugada anterior porque ela não sabia o que estava acontecendo. Tom e ela tinham passado a noite próximos, trocando beijos, como se aquilo fosse apenas mais um dia. E era. Ir em uma festa e ficar com uma pessoa, era isso. beijava a noite inteira, ficava perto da pessoa todo o tempo, depois ia embora e eles nunca mais se falavam. Era isso, sempre tinha sido.
Tom era sua primeira exceção porque ela sabia que o veria novamente. Porque os Holland não deixariam de ser amigos do O’donnell da noite para o dia. Porque ela não deixaria de ser amiga de Sam, Harry, Olivia ou ninguém próximo a ele apenas para evitá-lo.
E não tinha ideia do que aconteceria a partir de então.
A incerteza lhe dava a sensação de impotência e era uma coisa que detestava de todo coração. Desde que tinha entrado no ensino médio e aprendido que é preciso se organizar para ter uma vida acadêmica decente, ela gostava de fingir que sabia organizar a própria vida. Era assim que ela tinha feito alguns anos de faculdade, era assim que ela tinha trabalhado desde os dezesseis anos, era assim que tinha guardado o máximo de dinheiro que conseguia, era assim que ela sabia que tinha uma poupança de emergência.
Não que ela fosse a louca da organização, longe disso. Essas coisas eram literalmente as únicas que ela tinha conseguido estruturar bem o bastante. Mesmo assim ela ainda odiava não estar pelo menos minimamente no controle de algumas situações. E a noite anterior não estava no controle. O que viria a partir dali era uma incógnita e, mesmo que sua recente paixão fosse fotografia, era uma pessoa de exatas. Seu trabalho era resolver incógnitas, não sofrer por elas.
— Não teve nada demais, gente. Eu só fiquei com o Tom, foi só isso — finalmente respondeu, vendo as amigas parecerem decepcionadas com a resposta.
— Vocês nem conversaram?
— Conversar o que, Olivia? — ela estava com medo de soar brava, então acabava se deixando apenas parecer cansada. Era mais fácil. — Não é como se fosse acontecer de novo.
— Nunca diga nunca, já diria Justin Bieber.
— Eu não disse nunca — a brincadeira fez as amigas rirem, e a partir daí a conversa ficou mais leve e tomou novos rumos.
Após desligar a chamada, se perguntou se deveria tomar outro banho. Quando sentia que precisava esfriar a cabeça, ela gostava de fazê-lo de maneira literal, então muitas vezes recorria a um banho gelado. Mas sabia que na Europa banhos funcionavam de maneira um pouco diferente, e uma vez uma conhecida que tinha parentes morando na Alemanha lhe contou que água por lá era muito, muito cara, então era necessário economizar ao máximo. Ela nunca tinha realmente entrado no assunto com Rachel e Charlie, e não sabia dizer se a regra alemã se aplicava à Inglaterra, mas não iria tentar a sorte.
Além disso, sua atenção foi consumida por uma mensagem enviada por Sam: “oi, cunhadinha”.
Era isso.
Essa era sua vida.

[Sam] Oi, cunhadinha.

[] Nem vem.

[Sam] Menti?

[] Sim.

[] Fala logo o que você quer.

[Sam] Poxa vida, que descaso comigo.
[Sam] Pelo visto o Tom é o único Holland que você ama…

[] SAM!

[Sam] Vamos pro pub quiz sábado, os O’donnell também vão, é pra você ir também hahahaha

[] Pub quiz?

[Sam] GOOGLE, , GOOGLE!

[] Depois eu que to de descaso…

[Sam] Mas eles vão jogar contra nós, como sempre, vai também, vai ser legal.

[] Pode deixar.

Depois disso Liam acabou acordando, e logo o dia da acabou virando sobre o garoto, como sempre.
Quando os O’donnell chegaram, comentou casualmente sobre o tal pub quiz. Charlie pareceu bastante animado, e Rachel disse que ainda precisava confirmar com Nikki se realmente aconteceria naquele sábado, mas nenhum deles se deu o trabalho de explicar para o que raios era pub quiz. Aparentemente ela teria que pesquisar no Google.
Quem sabe no sábado as coisas ficariam um pouco mais claras e ela deixaria de ficar tão confusa.
Ou apenas piorariam.
Tudo era possível.

XV

Ela pesquisou pub quiz no Google.
E recebeu a resposta “Um pub quiz é um questionário realizado em um pub ou bar. Esses eventos também são chamados de noites de perguntas, noites de perguntas e respostas triviais e podem ser realizados em outros locais.” O que apenas falou o óbvio e não lhe mostrou nenhuma regra nem como raios funcionava aquilo. Então sua decisão final foi de apenas seguir o fluxo e ver no que daria aquela noite de sábado.
— Eu amo tanto pub quiz! — os olhos de Ayumi brilhavam, quase esquecendo que elas deveriam estar retratando natureza morta.
— Se não fosse uma coisa muito dos O’donnell, eu super te convidaria pra ir com a gente — disse enquanto dava alguns cliques na câmera.
— Relaxa, podemos ir juntas em outro momento. Se você gostar né — Ayumi voltou a prestar atenção nas fotos que precisava tirar, mas não durou muito. Logo ela estava ao lado de , a cabeça levemente inclinada, curiosa. — Vocês vão contra os Holland mesmo?
— Parece que sim, eles formam um time, nós formamos outro.
— Cuidado pra você e o Tom não brigarem demais, você sabe onde isso vai parar — as sobrancelhas de Ayumi levantaram algumas vezes, sugestivas, mas decidiu que não iria gastar seu réu primário naquele momento e apenas revirou os olhos.
O dia pareceu passar voando, e, quando se deu conta, a aula tinha chegado ao fim e ela precisava correr para casa. Ao chegar, encontrou os O’donnell já prontos, todos devidamente arrumados.
— Vai se arrumar logo, ! — foi a maneira simpática que Lewis a cumprimentou, logo tomando um esporro de Rachel pela falta de educação.
revirou os olhos para o adolescente e correu para o próprio quarto, procurando uma roupa que ela não odiasse. Era começo de julho e o verão já estava dando as caras. Não era nem de longe o calor com o qual estava acostumada, mas ao menos a permitia colocar roupas mais leves, o que ela amava. Por isso acabou colocando um vestido amarelo porque obviamente amarelo combinava com o tom escuro de sua pele, e deixou os cabelos solto, os cachos volumosos caindo para todo lado.
Após amarrar o tênis, jogou algumas coisas essenciais na bolsa e desceu novamente as escadas, pronta para o tal do pub quiz. Os O’donnell e se encaixaram no carro da família e em poucos minutos já estavam estacionados em frente a um pub modesto, nada parecido com o que imaginou que aconteceria, pelo menos não vindo daqueles ingleses que pareciam ter mais dinheiro que ela estava acostumada.
Os Holland já estavam em uma mesa, os seis rindo juntos, parecendo já estarem se divertindo. não sabia dizer ao certo se era algo inglês ou se ela só tinha se metido em uma incrível coincidência mas, assim como os O’donnell, os Holland também pareciam aquela perfeita família de comercial de margarina. Sorrindo, brincando uns com os outros, sem nenhuma preocupação no mundo.
— Olha os atrasados aí! — Nikki brincou, enquanto levantava da mesa para cumprimentar todos, sendo seguida pelo restante da família.
Logo eles estavam todos sentados, as duas famílias – e – separadas, preenchendo suas fichas. ainda estava um pouco confusa, mas Rachel estava controlando tudo, então ela apenas aceitaria. Pelo que tinha entendido, logo alguém começaria a fazer perguntas e todas as mesas participantes tinham que responder naquele papel. Cada rodada era uma nova ficha. O time que ganhasse mais rodadas, ganhava um prêmio – e ela ainda não sabia muito bem qual seria.
Uma coisa sobre que pouca gente ali sabia: ela era competitiva. Muito competitiva. odiava perder, queria sempre ser a pessoa que cantava vitória por aí. Era algo que ela precisava trabalhar, e que tentava esconder a maior parte do tempo. Mas pub quiz era sobre competição, então ela daria seu melhor.
E, claro, tudo deu errado assim que começou.
Algumas perguntas eram relativamente fáceis e até conseguia ajudar a responder, mas a maioria era de conhecimento muito específico inglês, e essas ela não tinha ideia. Coisas como “em que ano o Canal 5 foi lançado no Reino Unido?” e “em que ano EastEnders começou a ser transmitido pela BBC One?”. Como raios ela conseguiria responder essas coisas?
Ao final da primeira rodada, em que os O’donnell claramente não ganharam e já se sentia brava, foi anunciada uma pausa. Dando graças aos céus, pediu licença para os O’donnell e saiu um pouco da mesa, indo até uma parte do lado exterior do local, provavelmente uma área de fumantes, e aproveitando para respirar um pouco e tentar desestressar.
— Você não parece muito feliz — Tom de repente estava ao seu lado, segurando casualmente uma garrafa de água com gás.
— Eu não estou — revirou os olhos. — Eu odiei isso de pub quiz.
— Sério? — ele pareceu realmente chocado, erguendo as sobrancelhas. — Por quê?
— Eu não consegui responder quase nenhuma pergunta.
— Mas o que você ser ruim tem a ver com isso?
O olhar de fuzilou Tom. Será que se ela arrancasse a garrafa da mão dele e a usasse para agredi-lo, alguém perceberia? Ou se ela simplesmente começasse a bater no rapaz. Qualquer coisa assim. Ninguém notaria, certo?
— Eu não sou ruim — os dentes dela estavam travados, tentando conter a raiva que sentia. — Essas perguntas são muito específicas sobre coisas inglesas, não tem como eu saber. Se eles perguntassem sobre a Tropicália, quem escreveu Cálice ou o que foram as Diretas Já, ninguém ia ganhar de mim, é só o que digo.
— Eu não entendi uma palavra do que você falou.
— Exatamente — bufou e cruzou os braços. — É específico.
— Relaxa, vocês ainda têm chance — Tom balançou os ombros. — De ficar em segundo, claro. Nós vamos ganhar.
— Você veio aqui só pra encher o saco, Tom?
— Na verdade eu queria pelo menos te beijar, mas tenho certeza que se eu fizer isso agora, os O’donnell e meus pais não vão nos dar paz, então… Sim, eu vim encher o saco.
cruzou os braços e estreitou os olhos para Tom. O que ela sentia em relação a Tom dando em cima dela tão descaradamente? Ela certamente não odiava, isso era fato. Talvez até mesmo gostasse. Um pouco.
— Você tá bem abusado, né?
— Nem metade do que eu gostaria — Tom riu. — Vem, vamos voltar pra lá, a segunda rodada vai começar.
Ela o seguiu em silêncio, sentando-se novamente em seu lugar. A segunda rodada de perguntas estava um pouco mais fácil, com menos assuntos tão específicos. Ou, quando era específico, ainda era um tipo de específico geral.
— Ei, — Sam inclinou um pouco a cadeira em sua direção, a cutucando. — Qual é a resposta da oito?
olhou rapidamente a tela onde as questões estavam escritas. “No universo de Harry Potter, quantos nuques formam um sicle?”.
— Por que eu responderia? Não vou te dar pontos — ela riu para o amigo.
— Para de ser ruim.
— Eu já falei que são 31 nuques — Tom revirou os olhos, se inclinando um pouco na direção dos dois.
— Você tá errado — sorriu convencida. Ela tinha certeza sobre o número que tinha colocado no papel.
— Não tô, não — Tom estreitou os olhos. Ele também parecia confiante. — São 31 nuques.
— São 27, lamento.
— Você está confundindo porque 17 sicles formam 1 galeão.
— Eu tenho bastante certeza que são 27 nuques. Eu sou muito fã de Harry Potter — ela revirou os olhos.
Os outros Holland e os O’donnell pareciam ocupados demais preenchendo o restante das fichas para dar atenção à discussão dos dois, que agora se dava entre sussurros com Sam no meio parecendo completamente perdido.
— Eu também, e tenho certeza que são 31 — Tom se inclinou um pouco mais contra o irmão. — Eu sou Grifinória, me respeita.
— Foda-se, eu sou Sonserina, sei melhor o que tô falando — claro que aquele argumento teria mais peso se fosse da Corvinal, mas absolutamente qualquer casa era melhor que Grifinória, então ela estava com a vantagem.
— É o que veremos depois que a resposta for anunciada — Tom voltou a se sentar normalmente, fazendo aquela expressão de superioridade que às vezes tinha vontade de arrancar de sua cara na base do soco.
Ao fim da segunda rodada as respostas enfim foram anunciadas. E, como esperado, os dois tinham errado a quantidade de nuques. Por pouco, mas ambos estavam errados. Sam estreitou os olhos, olhando de Tom para , de para Tom. Depois apenas bufou antes de falar:
— Vocês dois são idiotas.
Após a terceira rodada o jogo chegou ao fim, e nem os O’donnell nem os Holland ganharam, e continuou sem saber qual era o prêmio oferecido. No fim tinha sido até bastante divertido. Ela e Charlie claramente eram muito mais competitivos do que Rachel e Lewis, então era até engraçado ver a cara que eles faziam quando os dois se emocionavam demais. Liam estava ali apenas para alternar entre ser fofo e completamente irritante. Com o menino não tinha meio termo.
— Nós vamos ficar mais um pouco — Harry sorriu, apontando para os irmãos enquanto todos começavam a se despedir. — Depois o Tom leva a gente.
— Quer ficar também, ? — Sam sorriu inocente para ela. — A gente te leva.
— Hã… — ela olhou meio em dúvida para Rachel, que apenas fez um sinal positivo meio torto, já que Liam estava meio dormindo em seu colo. — Claro.
Após as despedidas, se sentou na mesa com os irmãos Holland, puxando uma cadeira ao lado de Harry e aceitando a cerveja que ele lhe oferecia.
— Achei que vocês não estavam bebendo hoje — ela deu um longo gole no amargo líquido. Na Inglaterra as cervejas eram diferentes do que estava acostumada no Brasil, bem mais fortes, mas ela estava aprendendo a gostar bem mais.
— Só o Tom não pode beber hoje, ele é o nosso motorista da noite — Sam levantou a própria garrafa, propondo um brinde para a mesa.
Todos levantaram as próprias garrafas – a de Tom sendo uma água com gás – e brindaram. sorriu, se sentindo um pouco mais a vontade por estar apenas com eles. Querendo ou não, os O’donnell ainda eram seus “patrões”. Enquanto estava com eles, especialmente com Rachel e Charlie, ela sentia que precisava se comportar profissionalmente. Mas ali, com os amigos, ela se sentia solta.
— A gente deveria fazer um desses com a Olivia, o Haz, a Ayumi e o Tuwaine também. Qualquer dia desses — balançou os ombros, vendo os outros três concordarem.
— A Ayumi é competitiva? Eu tenho a impressão de que ela é — Harry franziu as sobrancelhas. — E ela também me passa a impressão de quem grita com você se você erra algo.
— Você acha que a Ayumi é má? — começar a rir porque aquele pensamento era simplesmente tão ridículo que com certeza era verdadeiro. — Ela é um bolinho de canela.
— Duvido muito. Você só tá falando isso pra gente acreditar e aí, quando ela começar a gritar com todo mundo, você fica só rindo — Tom recebeu acenos positivos dos irmãos.
— Vamos combinar de vir em outro quiz com eles e vocês descobrem — balançou os ombros.
Eles ficaram conversando por muito, muito tempo. E o clima estava incrivelmente amigável e calmo. Nenhum deles estava bebendo muito, mal chegando a ficar alegres, mas mesmo assim eles riam de tudo, todo o tempo. Parecia que eles eram velhos amigos e aquela reunião era comum. E aquilo fazia se sentir incrivelmente bem.
Já estava relativamente tarde quando eles decidiram que era hora de ir embora. Enquanto Tom pagava a conta – tinha tentado pagar a long neck que havia bebido, mas Tom fingiu que nem a ouvia -, ela, Sam e Harry esperaram do lado de fora do local. O final da noite tinha trazido consigo um vento gelado, que fez com que se abraçasse, tentando se esquentar um pouquinho.
— Eu te ofereceria minha blusa, mas ela tá no carro e a chave tá com o Tom. — Harry fez uma cara triste, arrancando um sorriso involuntário de .
— Tudo bem, é só um ventinho gelado. Assim que a gente entrar no carro já passa.
— Vamos? — Tom apareceu novamente ao lado deles, rodando a chave no indicador. Ele franziu as sobrancelhas para , que ainda se abraçava. — Tudo bem?
— Só tô menos acostumada com o clima inglês do que eu imaginava — ela balançou os ombros, tentando fazer piada.
— Vem cá — Tom se aproximou dela, passando o braço pelos ombros de , caminhando abraçado com ela.
Tinha duas coisas que precisava fazer naquele momento: a primeira era ignorar completamente a maneira como Harry e Sam se encaravam. A segunda era agir normalmente e fingir que aquilo não a deixava completamente sem graça. O que eles estavam fazendo? Aquilo era casal demais, não era? Era exagerado? Eles só tinham ficado uma vez! Não era para estarem andando abraçados – mesmo que estivesse um pouquinho frio e o corpo de Tom fosse realmente quente e confortável.
Algo que ela nunca diria em voz alta.
Ou talvez apenas estivesse exagerando, tentando ler sentimentos demais em atitudes simples. Gabriel e Pedro viviam fazendo isso por ela. Ela mesma já tinha feito isso pelos amigos. Era normal. Mesmo que ela e Tom vivessem praticamente de briguinhas, eles estavam próximos, saindo juntos com alguma frequência. Talvez fosse apenas o jeito dele de agir com os amigos. Era o jeito dela, afinal. Quem era para julgar.
— Melhor? — Tom praticamente sussurrou enquanto eles caminhavam até o carro.
— Eu não sabia que você podia ser simpático assim. Estou honestamente chocada.
Tom ficou alguns segundos em silêncio antes de responder:
— Eu sou um amor de pessoa, .
— Quem diria que você estava me enganando todo esse tempo…
Tom parou de andar, obrigando a também parar. Ela se virou para o rapaz, o encarando curiosa. Eles já estavam no estacionamento, próximos do carro, não tinha motivo para a pausa. Mas, antes mesmo que ela pudesse perguntar, sentiu o braço de Tom deslizar por seu corpo até encontrar sua cintura, a puxando para mais perto.
E logo os lábios deles estavam totalmente conectados.
Aquele beijo era completamente diferente do beijo bêbado. Quando ela beijou Tom, naquela balada, seu corpo todo estava meio amortecido. A bebida não a deixava sentir nada muito bem, tudo parecia estar formigando. O beijo tinha sido bom, mas igual a todos os beijos bêbados que já tinha dado na vida.
Aquele era diferente.
Ela não sabia ao certo o quanto queria beijá-lo novamente, mas apenas pela maneira que ela se entregava, que seu corpo procurava tão desesperadamente pelo de Tom, era óbvio que ela estava esperando para que aquilo acontecesse novamente. Talvez essa fosse toda a ansiedade que ela tinha sentido aqueles dias, aquela incerteza. Ela não sabia se aconteceria novamente, mas ela queria.
Por mais irônico que pudesse ser, o corpo de parecia começar a formigar novamente. Ela tentou puxar o corpo de Tom para mais perto, mas já não existia mais espaço entre eles. precisava de mais, cada parte de seu corpo gritava por isso.
— Será que dá pro casal acelerar? — a voz de Harry puxou de volta para a realidade como um gancho, a fazendo se separar de Tom no mesmo instante.
Ainda presa nos braços de Tom, o encarou, levantando as sobrancelhas.
— Então… — ela percebeu que sua voz estava um pouco falha, então limpou a garganta, mas não soube como terminar a fala.
— Você tá com frio, não é? Eu só quero te ajudar a se esquentar — Tom balançou os ombros com falsa inocência. — Funcionou?
— Não sei dizer — ela sussurrou, abrindo um sorriso pequeno. — Ainda tem muita parte do meu corpo que está gelada e você não beijou…
A boca de Tom abriu levemente, e ficou um pouco chocada e levemente ofendida com a ideia de que ele não esperasse que ela fosse provocar de volta. Quer dizer, era o que eles faziam desde o início. Não era possível que Tom pensasse que ela ficaria para trás apenas porque eles tinham mudado o tipo de provocação.
— Vamos logo, seus irmãos querem ir embora — se desvencilhou dos braços de Tom e caminhou até o carro, sendo rapidamente seguida por ele.
Enquanto Tom se sentava no banco do motorista e Harry no carona, e Sam dividiam o banco de trás. Enquanto o rádio era ligado e uma música agitada tomava conta do veículo, sentiu Sam se aproximar um pouco dela, praticamente sussurrando:
— Tem certeza que você não é minha cunhadinha?
— Eu vou te agredir, Sam — ela sussurrou de volta, vendo o rapaz rir e se afastar, voltando a cantar junto com a música.
suspirou, rendendo-se e começando a também cantar, fingindo que, dentro dela, tudo estava completamente bem.

XVI

Tom encolheu os ombros e inclinou levemente a cabeça para a direita, abrindo um sorriso completamente adorável e fechando os olhos, as bochechas adquirindo um tom rosado quase imperceptível.
Naquele momento simplesmente travou.
As mãos dela se fecharam no lençol da cama, agarrando o macio tecido que tinha embalado seus sonhos por mais uma noite, e agora quase serviam como uma maneira de segurar sua tensão. Ela nunca, nunca tinha visto Tom parecer tão adorável quanto naquele momento, e tudo o que ela queria era agarrá-lo e provavelmente nunca mais soltar. Pelo menos não tão cedo.
— Eu nunca te vi tão fofo, Tom — ela falou assim que ele abriu os olhos. — Sério, esse sorrisinho foi a coisa mais adorável do mundo, eu te amo por isso.
Toc.
Toc.
Toc.
— Você me ama?
piscou algumas vezes. Ela realmente tinha falado aquilo?
— É modo de falar, não emociona! — rapidamente se corrigiu.
— Tarde demais — ele riu e a puxou para seu colo, começando a distribuir vários beijinhos por toda a pele exposta da garota. — Você acabou de admitir que me ama, não pode voltar atrás.
— Eu te odeio — ela apenas riu antes de segurar o rosto dele e beijar seus lábios com ternura.
Toc.
Toc.
Toc.
afastou-se subitamente, vendo Tom a encarar confuso. Ela não entendia aquilo. Não fazia sentido. Aquele era Tom Holland, e ele nunca tinha sido tão amoroso assim com ela.
?
— Você… por que você tá assim?
— Assim como, ? — ele tentou beijá-la novamente, mas se afastou.
O coração dela batia rápido. olhou ao redor, vendo que estava no quarto do rapaz. Suas roupas estavam caídas no chão do quarto, assim como as de Tom. O lençol mal cobria seus corpos, e tudo parecia perfeito demais. Errado demais.
— Por que você tá sendo legal comigo? — ela realmente se afastou, saindo do colo do rapaz, se sentindo completamente exposta. Ela não deveria estar exposta assim, não na frente de Tom. Não desse jeito.
, o que você tá falando? — e a maneira que ele parecia confuso, machucado? Aquilo era errado. — Você sabe que eu te amo.
O mundo parou completamente. Não.
Toc.
Toc.
Toc.
abriu os olhos, assustada. Demorou um pouco para que percebesse que estava sozinha, deitada em sua cama. Seu coração ainda estava acelerado e sua mente ainda tinha um pouco de dificuldade de entender que tudo não tinha passado de um sonho. Ou, melhor: de um pesadelo.
Com exceção das batidas na porta, que permaneciam insistentes.
Ela se virou um pouco na cama, pegando o celular e checando que já eram quase onze horas da manhã. Coçando os olhos e ignorando totalmente a bagunça que seu cabelo deveria estar, ela se sentou e praticamente gritou:
— Entra!
— Finalmente. — Lewis abriu e fechou a porta, entrando no quarto de e se sentando na beirada de sua cama, parecendo totalmente à vontade. — Você dorme, heim.
— O que você quer, Lewis?
— Eu preciso de ajuda — a frase deixou as bochechas do adolescente instantaneamente vermelhas, o que despertou a atenção de . Lewis não costumava ficar tímido, então com certeza seria algo interessante.
— Diga.
— Eu… queria que você me ajudasse a comprar um presente.
As sobrancelhas de ergueram, mais interessada ainda. Ela abriu um sorriso simpático para Lewis, que tinha as bochechas ainda mais vermelhas que antes, fazendo um contraste muito interessante com os cabelos loiros e os olhos azuis. O que mais achava interessante era como aquilo parecia tão não tipicamente Lewis que chegava a ser familiar, por mais irônico que fosse.
— Presente pra quem?
— Amanhã é aniversário de um amigo meu e do Paddy, ele vai fazer uma festa pra comemorar e… Eu queria dar algo pra ele. Especial.
— Especial? — se arrastou pela cama até estar ao lado de Lewis e conseguir cutucar o garoto com o ombro várias vezes, mexendo as sobrancelhas rápida e sugestivamente. — É um crush? É?
— Sai, — Lewis tentou empurrá-la, mas não aplicou força o bastante para tanto. — É só um amigo… Que… Você vai me ajudar ou não?
— Claro que vou! — ela pulou da cama, provocando um leve susto no adolescente. — Some do meu quarto, eu preciso me trocar.
Revirando os olhos, Lewis deixou a sós. Ela se trocou rapidamente, colocando a roupa mais prática que encontrou. Jogou todas as coisas necessárias em uma bolsa e desceu correndo, encontrando o garoto no sofá, mexendo no celular com cara de tédio.
— ela ouviu Charlie chamá-la, obrigando-a a mudar o caminho que fazia. — O Lewis disse que você vai levá-lo ao shopping, né?
— Sim, ele precisa comprar um presente para um colega, né? — falou de maneira totalmente neutra e inocente. Ela era ótima com segredos, Charlie nunca saberia que ela estava pulando de alegria por ajudar Lewis a conquistar o crush da escola.
— Sim. Ele ‘tá com o cartão de crédito, já conversamos sobre gastos — Charlie lançou um rápido olhar para o filho. — Pode pegar meu carro, as chaves estão penduradas no porta-chaves.
— Obrigada, Charlie! Prometo que trago seu filho e o Lewis de volta sem nenhum arranhão — os dois riram da piada ruim. Ao se aproximar do adolescente e ver a expressão entediada dele, revirou os olhos, pegando as chaves e fazendo um sinal para que Lewis a acompanhasse enquanto saíam de casa. — Eu não demorei a esse ponto, Lewis, não precisa fazer cara de tédio.
Enquanto se sentava no carro e colocava a chave no contato, respirou fundo. Ela dirigia desde os 18 anos com alguma frequência, e se considerava uma ótima motorista. Mas ainda assim ela se sentia bastante nervosa quando pegava um dos carros dos O’donnell porque aquela era a Inglaterra e tudo era ao contrário.
Em suas primeiras semanas, Charlie e Rachel a ajudaram a praticar um pouco – nunca se sabe quando ela precisaria usar o carro por alguma urgência com Liam. Ela conseguia dirigir na Inglaterra mas fazia isso, para usar uma expressão brasileira bastante chula, com o cu na mão.
— Você tem alguma ideia do que vai querer comprar para o menino? — ela decidiu puxar assunto após um incômodo silêncio. — Aliás, que menino é?
— Ele se chama Harry — Lewis suspirou. Melissa achava graça como os nomes ingleses masculinos se resumiam a Tom e Harry. — Ele é do meu ano e… Ele é bem legal. Comigo, com o Paddy, com todo mundo.
— Sabe, eu achava que você tinha uma quedinha pelo Paddy — nunca tinha realmente achado aquilo, mas estava curiosa para ver a reação de Lewis.
O que foi impagável. Pelo canto do olho, ela conseguiu ver a expressão do garoto ficar completamente chocada, o queixo caindo. Lewis a encarava como se fosse completamente maluca.
— Não! O Paddy é meu melhor amigo, só isso. — ele soltou um suspiro. — Além disso, eu acho que ele nem gosta de meninos. Ou meninas. Pessoas, no geral.
— Sério? — franziu as sobrancelhas, vendo a entrada do shopping e virando o carro, entrando no estacionamento e começando a procurar por uma vaga. — A Ayumi também é assim. Ela não gosta de pessoas. Chama assexual.
— A gente nunca conversou muito sobre isso — Lewis balançou os ombros, esperando terminar de estacionar para poderem sair do carro. — Mas pra mim não importa tanto, ele é meu melhor amigo.
O sol estava quente, o verão cada vez mais forte em Londres. começava a se sentir um pouco mais em casa, o calor lhe dando uma felicidade boba. Mesmo naqueles dias de verão, o sol não era tão comum assim em Londres, especialmente quente como naquele dia. E mesmo que não fosse exatamente fã de calor, morar na Europa a fez descobrir que ela não gostava realmente de frio.
Ela e Lewis andaram ponta a ponta do shopping pelo menos três vezes antes de decidir que eles precisavam parar para almoçar. Eles entravam nas mais diferentes lojas, viam os mais diferente artigos, mas mesmo assim nada parecia agradar o rapaz. Lewis realmente queria o presente perfeito, e aparentemente nada naquele shopping chegava perto do que o adolescente procurava.
Os dois sentaram em uma das mesas da praça de alimentação, cada um com seu lanche do Burguer King, ambos com a maior batata que tinha no cardápio. Aquela era uma das comidas não saudáveis que mais amava.
— Lewis, não é por nada não, mas hoje é domingo, minha folga, sabe — ela colocou uma batatinha na boca. — E por mais que eu esteja amando te ajudar nessa empreitada, eu não queria passar o dia inteiro só procurando um presente.
— Eu sei, é só que… — o adolescente soltou um suspiro triste, dando um gole longo em sua Pepsi. — Eu queria que o presente do Harry fosse perfeito.
— Eu sei. Mas… ele vai gostar do que você der, eu tenho certeza. — o sorriso dela era tranquilizador. — Hã… Aliás, você sabe se ele também gosta de meninos?
— Ele é bi — gostava como Lewis falava sobre sexualidade com certa naturalidade. — Mas não é tipo… Não é como se eu estivesse querendo conquistá-lo, eu só… Eu gosto dele, então… Eu quero que ele fique feliz.
— Fofo — ela riu enquanto Lewis revirava os olhos. — Você disse que ele talvez fosse gostar bastante daquela coleção de livros, né? Compra para ele. E lê também, assim vocês ainda vão ter algo sobre o qual conversar depois.
— Pode ser — Lewis balançou a cabeça, concordando. Então o garoto deu uma enorme mordida em seu lanche, franzindo as sobrancelhas, continuando após engolir: — Por que a gente sempre fala da minha vida e nunca da sua?
engasgou com a batata. Aquela era uma pergunta que ela realmente não esperava. De onde aquilo tinha saído?
— Como é? — ela perguntou após se recuperar.
— Tipo, você sabe que eu sou gay e sobre o Harry. Sua vez de me contar sobre algo. Sei lá, sobre o que tá rolando entre você e o irmão do Paddy.
Se tinha engasgado antes, ela nem conseguia explicar o que estava acontecendo agora. Ela tossia sem parar, o bastante para atrair a atenção de pessoas mais próximas. Tentou dar um gole em sua própria Pepsi, mas mesmo assim não adiantava, ela continuava tossindo. Demorou alguns bons minutos para que ela conseguisse se recuperar e finalmente responder:
— Eu- Que irmão? Do que você ‘tá falando?
— Ué, você e o Sam não têm algo? — não era possível saber quem estava mais confuso, Lewis ou .
— O Sam tem namorada! — ela bufou. — Por que todo mundo sempre acha isso?
— Vocês são meio grudados. Ele até foi cozinhar pro Liam porque você pediu. — Lewis balançou os ombros, parecendo pronto para esquecer sobre Sam. — Mas se não é o Sam, qual deles é?
— De onde você tirou que eu tenho algo com algum irmão do Paddy?
— Da sua reação — o adolescente sorriu. — Ficou meio óbvio que eu acertei alguma coisa. Vai, , me conta, por favor.
— Deixa de ser curioso — ela desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar, acreditando de coração que a pele escura não deixaria Lewis perceber o quanto o rosto dela estava vermelho.
Querendo ou não, o sonho daquela noite voltou a martelar em sua mente, a maneira como ela e Tom pareciam… apaixonados. E aquilo era simplesmente a coisa mais assustadora de todas.
— Poxa, . Eu te contei que eu sou gay. Eu confiei em você.
— Golpe baixo! — estreitou os olhos para o garoto mas finalmente se deu por vencida. — Tá, eu… Fiquei com o Tom.
A-ha, eu sabia que tinha algo com algum dos Holland! — Lewis sorria vitorioso. — E ainda é com o famoso, rico. Você não perde tempo mesmo, heim?
— Me respeita, Lewis! — a brasileira alcançou um batata frita e a jogou na direção de Lewis, errando por muito pouco. — Olha o jeito que você fala comigo!
— É brincadeira. Mas então… vocês estão namorando?
Ela piscou várias vezes, se sentindo perdida. Onde aquele maldito assunto iria chegar? E por que aquela pergunta a deixava tão absurdamente desconfortável? Era só negar. Eles tinham ficado duas vezes e nunca conversado sobre. Eles nem tinham trocado o número de celular! Era… ficada. Normal. De jovem.
Normal.
— Não. A gente só ficou.
— Ah. Ei, por isso que você sai tanto com eles? Pra você e o Tom ficarem?
— Não te interessa, Lewis! — ela revirou os olhos. — E chega desse assunto. E vê se não conta pros seus pais sobre o Tom e eu. Nem pro Paddy.
— Seu segredo está seguro comigo, . Relaxa.
Depois de terminarem de comer, os dois voltaram para a livraria e finalmente compraram a coleção de livros. deu a ideia que eles aproveitassem para assistir um filme, ao que Lewis aceitou sem pensar duas vezes. E pelo resto do dia eles riram, conversaram e fizeram piadas idiotas, ficando um pouco mais próximos, fazendo com que sentisse que realmente tinha encontrado um bom amigo no adolescente.

XVII

O dedo de apertou a campainha incontáveis vezes. Quando a porta finalmente abriu, Tom a encarou com a expressão amarrada.
— Noite de jogos! — ela sorriu e ele revirou os olhos.
— Oi, Ayumi — ele cumprimentou primeiro a inglesa, dando um sorriso simpático.
— Oi, Tom — ela retribuiu, sem perder tempo com os dois e entrando na casa do rapaz como se estivesse acostumada com o local, mesmo que aquela fosse a primeira vez que ela estava ali.
Enquanto Ayumi provavelmente se perdia pela casa, Tom finalmente se virou para , a encarando em silêncio. Ela não deixou de reparar na maneira que Tom a olhava, de como seus olhos se prenderam aos lábios dela por alguns bons segundos. E por isso ela sorriu.
— Você tá atrasada — foi o que Tom finalmente falou.
— Você tava ansioso pela minha chegada? — piscou várias vezes em falsa inocência. Ela se aproximou mais dele, deixando os corpos perigosamente perto. — Eu sei que você morreu de saudade de mim.
— Tá muito cedo pra você me provocar, — os olhos de Tom novamente se prenderam aos lábios dela, e depois passearam por seu corpo antes dele voltar a encará-la.
— Eu, te provocando? Tom, fala sério — ela soltou uma risadinha baixa antes de aproximar os lábios do ouvido dele e sussurrar: — Eu ainda nem comecei.
Sem dar a Tom tempo de retrucar ou sequer reagir, se afastou e foi para a sala, onde encontrou os amigos reunidos e se sentou entre Olivia e Harrison, já se metendo na conversa como se estivesse ali desde o início. Enquanto Tom também se sentava em outro sofá, tentava respirar fundo e desacelerar os batimentos cardíacos, procurando se acalmar a qualquer custo. Lançando um rápido olhar para Tom, ela começou a pensar em como tinha chegado naquele ponto de provocações.
Não que ela estivesse contando, mas fazia 21 dias desde que ela tinha visto Tom pela última vez. E na terça-feira daquela semana, Olivia tinha adicionado Ayumi e em um grupo com os rapazes para poderem combinar as reuniões e saídas com mais facilidade. E ter o número de Tom tinha mudado tudo.
Durante os dias que antecederam o sábado, trocou mais mensagem com Tom do que imaginava que aconteceria. No geral eles não eram muito de conversar quando estavam em grupo, e por mais irônico que pudesse ser, os maiores momentos de intimidade entre os dois tinham acontecido quando eles tinham, de fato, ficado.
Mas parecia que, pelas mensagens de textos, eles sentiam uma liberdade completamente diferente. Talvez porque não estavam se vendo, ou porque por trás da tela do celular fosse tudo mais fácil, mas durante aqueles dias eles conversaram mais do que jamais tinham feito por todos os quase quatro meses que se conheciam. E, certo, as mensagens às vezes – ok, a maioria das vezes – tinham uma conotação um pouco mais… Íntimas.
E talvez as mensagens tivessem mexido com .
E talvez isso estivesse refletindo na maneira como ela não consiga parar de olhar para Tom.
Era a milésima vez que ela confirmava o mesmo fato de sempre: era patética.
— Qual vai ser o primeiro jogo? — Harry perguntou, olhando para tudo o que eles tinham espalhado pela mesa de centro da sala e pelo chão.
No Brasil, e seus amigos tinham mania de se reunir praticamente todo fim de semana, então aquela situação era bastante confortável para ela. Porém eles sempre se reuniam para algo simples; assistir algum filme baixado recentemente, ou alguma série. Eles faziam pipocas ou coisas fáceis de comer, talvez dividir algumas pizzas. Ali parecia diferente.
Eles tinham espalhado vários jogos de tabuleiro pelo local, os mais diferentes petiscos e muitas garrafas das mais diferentes bebidas alcoólicas. Aquilo era algo com o qual ela já estava se acostumando, aparentemente os ingleses gostavam muito de beber. Ao menos aqueles ingleses.
O grupo começou com jogos clássicos, a maioria que já conhecia e que causavam discórdia já no começo. Já em Monopoly foi possível ver a beleza a força da amizade daquele grupo.
— Vai tomar no meio do seu cu, Sam — Ayumi praticamente rosnou enquanto entregava algumas notas falsas para o rapaz. — Terceira porra de aluguel que eu tenho que te pagar, toda hora isso, se foder.
— Ah não, mas a Ayumi é um bolinho de canela — Tom ironizou, recebendo uma risada de Harry, Sam e , os únicos que realmente entenderam o comentário.
— Ava Ayumi Nakayama, eu não esperava isso de você — balançou a cabeça em negativa, dando um gole longo em sua bebida, que ela já não tinha mais ideia de qual era, só aceitava o que os amigos iam colocando nos copos.
— Vai se foder você também — a resposta malcriada da garota fez todos da roda rirem ainda mais.
Já era madrugada quando todos já tinham bebido o bastante para não levar a sério mais nenhuma regra de nenhum jogo. O nível com o qual eles se importavam com as coisas já estava baixo o bastante para que eles estivessem deitados entre o chão, os sofás ou absolutamente qualquer superfície da sala, claramente não fazia diferença pra ninguém.
— Espera, o cara tá dormindo ou morreu? — franziu as sobrancelhas, se sentindo confusa.
Eles tinham começado a jogar Black Stories, e todos eles eram completamente péssimos. Era a vez de Olivia ler, e ela mesma não parecia ter ideia do que estava acontecendo. Apenas continuava lendo “a persistência fez o pescador encontrar o sono eterno”.
— Não. Sim. Espera — ela leu novamente a carta, demorando para perceber que a resposta dela não se encaixava na pergunta que tinha feito. — Reformula.
— Ele morreu?
— Morreu.
— Mas ele não tava pescando?
— Ninguém disse que ele tava pescado, só que ele é um pescador.
— Mas ele poderia morrer pescando, não poderia? Tipo, engolido por um tubarão.
— Eu desisto — Harrison, que estava no sofá com a cabeça apoiada no colo de Ayumi, alcançou a carta que Olivia segurava, recebendo um reclamação da loira enquanto ele lia a resposta. — Ah! Que idiota. Mas faz sentido.
— Não estraga o jogo! — Olivia se levantou, pulando no sofá e esmagando Harrison e Ayumi, transformando tudo em uma enorme bagunça.
— Eu vou ver se tem mais cerveja na geladeira — Tom levantou, saindo da sala.
Uma voz dentro da cabeça de , provavelmente uma voz sóbria e sábia, disse que ela não deveria levantar. Não deveria ir atrás. E claro que a voz foi totalmente ignorada, e logo já estava seguindo Tom, não se preocupando em arranjar uma desculpa para os amigos. Ao chegar na cozinha, encontrou Tom colocando várias garrafas de cerveja na ilha.
— Precisa de ajuda? — ela perguntou enquanto se aproximava, vendo Tom se virar para ela e sorrir.
— Com certeza.
Ele a puxou para perto assim que se aproximou o bastante, a beijando com vontade, não se preocupando em ser delicado ao segurar o corpo dela contra o seu. sorriu contra os lábios de Tom, sentindo-se mais animada. A cada novo beijo que eles trocavam, tudo parecia melhorar muito mais. O medo da reação do outro já não era mais existente. Os corpos se conheciam cada vez mais, e o desejo parecia queimar cada pequena parte de seus corpos. Além disso, naquele momento o beijo trazia lembranças das mensagens que eles tinham trocado durante a semana, como se estivesse apenas começando a cumprir todas as promessas que tinham feito um para o outro.
— Você tá bêbada? — Tom afastou-se subitamente, fazendo rir, achando graça da preocupação dele, mas também se sentindo grata. Querendo ou não, aquele pequeno gesto lhe passava um pouco de confiança e tranquilidade.
— Um pouco. E você?
— Um pouco — ele também riu antes de dar um passo para frente e obrigar a ir para trás, andando até que os dois estivessem contra a ilha, as costas da garota apoiadas contra a superfície gelada, completamente presa pelo corpo de Tom.
— O que ta acontecendo? — a pergunta escapou pelos lábios de antes que ela conseguisse se conter.
— Como assim? — ele não se afastou um único centímetro, não ajudando em nada a diminuir os batimentos acelerados da garota.
— A gente. — ela não tentou se conter, levando a palma da mão ao braço de Tom, acariciando sua extensão e sentindo os firmes músculos. Uau, não tinha como esquecer o quanto Tom era… — Isso vai ser frequente?
— Você diz isso? — Tom roubou um rápido beijo, como se quisesse ilustrar a que se referia, esperando confirmar antes de continuar: — Talvez.
— Talvez? — aquilo não respondia nenhuma dúvida que ela tinha.
— A gente não precisa ficar pensando muito sobre isso — Tom balançou os ombros. — Não importa se isso é só tesão ou sei lá. Podemos só fazer o que sentirmos vontade.
Os dois se encararam por alguns segundos, antes do olhar de Tom começar a se perder pelo corpo de , parecendo completamente carregado de luxúria, fazendo um pequeno arrepio percorrer sua nuca.
— E o que você vai fazer comigo? — a voz dela não passou de um sussurro rouco, algo que ela não esperava. Não era possível que ela já estivesse tão afetada assim.
esperou que Tom a beijasse novamente, ela desejou que ele o fizesse, mas os lábios deles não se encontraram. Ao invés disso, Tom afastou o cabelo de , deixando o pescoço dela livre, começando a beijar a pele recém exposta. Ela mordeu os próprios lábios, a atitude inesperada fazendo com que o corpo dela inteiro parecesse completamente acordado e sensível, seus sentidos mais despertos do que nunca.
O corpo de Tom pressionou o dela ainda mais contra a ilha. Era desconfortável como o mármore fazia pressão contra sua cintura, mas não conseguia reclamar, não quando os lábios de Tom sugavam sua pele com tanta vontade. Ela fechou levemente os olhos, tentando se concentrar em não soltar nenhum som vergonhoso demais, odiando a maneira como tão pouco a deixava tão absurdamente afetada.
— Tom… — murmurou o nome do rapaz, como se fizesse um pedido.
E ela não tinha ideia do que estava pedindo. Se queria que ele continuasse exatamente daquela maneira, se queria se ele voltasse a beijar seus lábios, se queria que… Ela suspirou quando sentiu Tom se afastar. Era óbvio o quanto ela queria mais, muito mais.
tinha ficado quase a semana inteira trocando os mais diversos tipos de mensagens com aquele rapaz, realmente o desejando. Ela não precisava esconder isso, não mais. E não importava se ela ainda achava Tom completamente irritante, ou se eles sempre acabavam discutindo em algum momento.
queria Tom.
— O que você quer que eu faça com você? — a pergunta de Tom apenas piorava tudo.
Tudo o que conseguia pensar era completamente impróprio para todas as idades. Era absurdamente difícil manter o olhar firme em Tom, sem se deixar levar completamente por algumas fantasias, algumas imagens mentais que chegavam a fazer seu rosto esquentar em vergonha. Pensar em cada coisa que ela queria que Tom fizesse era absurdamente excitante e sentia que talvez ela não tivesse um autocontrole tão bom assim.
! — o grito de Harry a congelou totalmente. Ela tinha esquecido completamente dos amigos. — , pelo amor, vem segurar a Ayumi, ela vai matar o Harrison!
— Puta merda, Harry! — Olivia também gritava e tudo era caos. — Deixa a e seu irmão transarem em paz!
— Tira a Ayumi de cima do Haz!
— Manda ele devolver minha carta que eu saio!
— Essa carta nunca foi sua!
— Uau — Tom riu, ainda segurando o corpo de contra a estrutura. — Eles vão se matar.
— Eu estou tentada a ignorar esses doidos e fazer exatamente o que a Olivia falou.
— Você realmente quer me provocar, né? — as mãos deles se fecharam na cintura dela, a segurando com firmeza. — Quer ir pro meu quarto ou a gente fode aqui mesmo?
— Que linguajar chulo — estreitou os olhos.
— Ah, desculpa, você quer que eu seja fofo nesse momento? — as sobrancelhas dele ergueram, o sorriso irônico. — Estimada , onde você gostaria que nós fizéssemos amor? Sobre os macios lençóis de seda de meu leito ou sobre esta gelada pedra de mármore?
— Você é tão ridículo — gargalhou, empurrando o rapaz para longe e saindo de perto da ilha, indo pegar as garrafas. — Parabéns, você destruiu todo o tesão.
— Você é difícil de agradar — Tom a acompanhou, pegando as garrafas restantes. — Tudo bem, eu amo um desafio.
Enquanto eles voltavam juntos para a sala com as bebidas, a tempo de ver Ayumi literalmente pendurada nas costas de Harrison enquanto Harry tentava tirá-la e Olivia tentava impedir, decidiu que iria parar de se preocupar demais e seguir o conselho do próprio Tom.
Ela iria começar a realmente fazer o que sentia vontade, quando sentisse vontade.

XVIII

— Eu não acredito que a já arranjou um inglês pra poder dar — foi o que Pedro falou depois que ela terminou de contar toda a história com Tom, sem porém citar o nome do ator, na chamada de grupo que fazia com os amigos brasileiros sempre que possível. — Você é muito rápida, miga.
— Cadê o Kauã, Pedro? — ela revirou os olhos. — Vai encher a paciência do seu namorado, não a minha.
— É, Pedro, vai encher o Kauã — Débora riu do outro lado da tela. — Além do que, todo mundo sabe que a nunca foi de ficar sem alguém por muito tempo. Até que demorou.
— Por que ninguém me respeita aqui? Só um pouco, sabe…
— Gente, deixa minha amiga piranha em paz — Gabriel riu, fazendo todos também rirem. — Viu, ? Eu te defendo.
— Eu não sei porque raios eu sou amiga de vocês — ela revirou os olhos. — Eu não transei com inglês nenhum. Eu só beijei.
— Qual a diferença de beijar um inglês e um brasileiro?
— Ingleses têm menos boca — e mesmo assim beijam incrivelmente bem, ela completou mentalmente algo que os amigos não precisavam saber.
Ela ficou conversando mais alguns bons minutos, até ouvir Liam a chamar porque já tinha acordado. se despediu dos amigos e foi encontrar com o garoto, que já tinha descido da cama e parecia com energia o bastante para já começar a brincar.
O dia estava bonito, um sol forte – ou tão forte quanto o sol poderia brilhar em Londres – entrando pelas janelas e iluminando a casa. Enquanto dava café da manhã para o garoto, cogitou sair um pouco de casa. Raramente saía para passear com Liam, principalmente porque, quando ela tinha chegado no país, ainda estava um pouco frio. Mas agora já era final de julho e o verão londrino estava aproximando de seu ápice.
Após assistir Liam comer toda comida e ela pegar a vasilha para lavar, os dois se dirigiram para a sala, onde o garoto ficou com a atenção completamente presa à televisão e ficou apenas mexendo no celular, perdendo tempo em suas redes sociais e conversando com alguns amigos.
[Tom] O que você tá fazendo?

[] Trabalhando
[Tom] Chato

[] O que você quer?
[Tom] …

[] Pena kkk

[Tom] Você podia vir aqui mais tarde, né?

[] Você é muito folgado

[] Vou sair agora para passear com o Liam, vem também

[Tom] Preguiça

[] A gente passa na sua casa em 10 minutos

Não foi necessário muito esforço para que convencesse Liam a sair um pouco. Ela conseguiu arrumá-lo sem dificuldades, em seguida apenas calçando um tênis e pegando a câmera fotográfica, imaginando que seria uma ótima oportunidade para tirar algumas fotos.
Apesar de alguns protestos por parte da criança, eles caminharam de mãos dadas até a casa de Tom. Foi necessário que tocasse a campainha apenas uma vez para que o rapaz aparecesse com cara de poucos amigos, sendo acompanhado por um cachorro de pêlo acinzentado.
— Eu te odeio — ele estreitou os olhos para antes de abrir um sorriso e se abaixar, estendendo a mão para receber um high-five de Liam. — Bom dia, garotão! Animado pra passear um pouco? A Tessa também vai!
— Tessa! — Liam correspondeu ao high-five de Tom e passou a mão na cabeça do cachorro, que apenas piscou desinteressado.
— Odeia sim — foi irônica enquanto eles começavam a caminhar até o parque.
Ela tinha se prometido que não iria pensar demais no que estava acontecendo e apenas se deixar levar pelo momento, mesmo que isso a fizesse perder o controle, algo que ela detestava. Então não iria, por exemplo, pensar em como ela e Tom caminhando com uma criança de dois anos e um cachorro poderia parecer para quem visse de fora.
— Eu falei que eu tava com preguiça de sair — Tom balançou os ombros.
— Mas veio mesmo assim.
— Eu não negaria algo ao Liam.
— E negaria pra mim? — ela levantou as sobrancelhas na direção do rapaz, arrancando um sorriso bonito dele.
Não demorou para que eles chegassem ao parque e logo Liam estivesse mais agitado do que nunca, tentando correr para todos os lados ao mesmo tempo, dando um certo trabalho para , que ficou os primeiros dez minutos correndo atrás do garoto o tempo todo. A criança apenas acalmou um pouco após ganhar um gigantesco algodão-doce, por mais irônico que pudesse parecer, ficando concentrada demais em comer.
— Quer? — Liam mostrou o doce para Tom, oferecendo um pouco do jeito que ela tanto tentava ensinar. Uma parte de praticamente chorou ao ver a criança fazendo aquilo espontaneamente.
— Um pouquinho, obrigado — Tom aceitou a estendeu a mão para o algodão-doce.
Liam tirou um pouco do doce e deu para Tom. Tão, tão pouco que mal conseguia ver que ele realmente tinha tirado um pedaço. As sobrancelhas de Tom levantaram, parecendo um pouco perdido sobre como agir, mas ele acabou agradecendo novamente e levando a quantidade quase inexistente de açúcar à boca. Ao menos Liam parecia realmente orgulhoso de si mesmo.
aproveitou os momentos mais calmos para tirar algumas fotos, fosse de Liam, Tessa ou da paisagem. Em algum momento, Tom decidiu brincar de pique-pega com Liam, rendendo as fotos mais adoráveis que já tinha tirado em toda sua vida – não que ela tivesse tirado tantas fotos assim, mas aquelas com certeza estavam completamente perfeitas.
Faltava pouco para a hora do almoço quando ela anunciou que era hora de irem embora. Liam não pareceu nada animado com a ideia, começando a fazer um pouco de manha, mas se manteve firme. Ela costumava dar almoço para a criança todos os dias exatamente no mesmo horário, aquele dia não seria exceção.
— Quer almoçar com a gente? — enquanto eles voltavam, achou que seria educado convidar Tom para o almoço. Eles tinham passado uma parte da manhã juntos, afinal.
— Depende. Não é você quem vai cozinhar, né? — Tom riu alto quando recebeu um forte cutucão da garota. — Eu ainda lembro do seu desastre na cozinha, e eu preciso dizer que tenho amor próprio o bastante pra nunca comer sua comida.
— Como se você fosse um ótimo cozinheiro — ela revirou os olhos.
— Você nunca comeu minha comida.
— Tanto faz. Vai querer ou não?
— Vou. Você já me tirou de casa de qualquer jeito…
Após passarem na casa de Tom para deixar Tessa, os três seguiram para a casa dos O’donnell. Após entrarem, foi diretamente para a cozinha, colocando para esquentar a comida que Charlie tinha deixado preparada. Enquanto isso, Liam parecia ficar cada vez menos elétrico, a manhã agitada parecendo começar a finalmente atingi-lo.
— Que carinha é essa? — ela perguntou para o garoto.
— Eu quero dormir — ele coçou o olho e fez bico, não parecendo nada feliz.
— O almoço tá terminando de esquentar. Depois que você comer um pouquinho você dorme.
— Tá bom. Quero suco — ele cruzou os braços e riu.
— Você entende bem o que ele fala? — Tom perguntou enquanto observava Liam se sentar em sua cadeira de sempre. — Pra mim às vezes parece bem enrolado.
— Eu já acostumei — balançou os ombros, enquanto pegava o prato da criança e começava a servir uma porção de comida. — No começo era horrível, eu não entendia uma palavra, mas quatro meses convivendo com alguém mudam as coisas.
— Nem me fala…
Após entregar o prato para Liam, e Tom também se serviram, sentando-se à mesa para também almoçar. Liam acabou não comendo toda a comida que colocou no prato, o sono deixando o humor da criança completamente péssimo. Depois que ele começou a chorar, não demorou muito para que , com a ajuda de Tom, o colocasse para dormir, respirando aliviada apenas após fechar a porta do quarto de Liam.
— Então… esse é seu dia a dia? — Tom perguntou enquanto eles desciam a escada e voltavam para a cozinha, a casa parecendo maravilhosamente silenciosa.
— Hoje ele ficou mais agitado por causa do parque, mas… É, basicamente isso. Mais uma terça em minha vida — ela sorriu enquanto pegava os pratos na mesa e começava a lavá-los rapidamente.
— Parece cansativo.
— Às vezes. Mas é trabalho, é pra ser cansativo — ela o olhou pelo canto de olho, abrindo um pequeno sorriso antes de não resistir e provocar: — Não que você saiba, né?
— Eu trabalho bastante — Tom estreitou os olhos.
— Nunca vi.
— Só porque você não viu, não significa que não aconteceu — ela o sentiu se aproximar mais, se encostando na pia ao lado dela. — Eu não tô gravando muita coisa atualmente porque exagerei ano passado e quero descansar, mas eu ainda participo de muitos programas, entrevistas, photoshoots…
— Uau, que vida incrivelmente difícil — ela terminou de lavar o último prato e o colocou no escorredor, pegando um pano e secando rapidamente as mãos antes de se virar para Tom. — Realmente, deve ser horrível passar o dia inteiro sendo adorado por todos.
— De quantas entrevistas e photoshoots você já participou mesmo? — o longo silêncio de foi o necessário para que Tom sorrisse e continuasse: — Então não fala do que você não sabe.
não fez cerimônia antes de enlaçar o pescoço de Tom e o puxar para um beijo profundo e faminto. Nada naquela cena deveria tê-la levado a isso, mas tinha prometido a si mesma que não iria se privar de atender suas próprias vontades, especialmente aquelas que estavam ao seu alcance.
A melhor parte era que, não importava como beijava Tom, ele sempre a correspondia no mesmo nível. Era o tipo de beijo perfeito em que as duas pessoas claramente possuíam o mesmo objetivo, então aproveitavam cada pequeno segundo, cada gesto, cada toque.
Quanto mais eles se beijavam, mais queria. Ela desejava que eles não estivessem na casa dos O’donnell, apoiados contra a pia da cozinha. Tudo o que ela queria era estar em um lugar em que ela pudesse guiar as mãos de Tom por seu corpo, senti-lo tocá-la por completo, deixar-se levar completamente por todo desejo e luxúria que sentia.
— Que horas o Charlie e a Rachel chegam? — a voz de Tom soou mais grave que o normal quando eles se afastaram. A maneira como ele também parecia bastante afetado pelo momento servia apenas para deixar com ainda mais vontade de ignorar a lógica e se entregar ali mesmo.
— Geralmente a noite — ela também não estava com a voz muito estável. — Por quê?
— E o Lewis tá na casa dos meus pais, né? — como ele sabia daquela informação, não tinha ideia, mas também não iria se preocupar em descobrir.
— O que você tá querendo, Tom? — a pergunta era praticamente retórica. O que ele queria era óbvio demais. — Porque já vou deixar claro que nada vai acontecer aqui — por mais que ela também quisesse.
— Relaxa, eu não transaria com você na casa dos O’donnell, ainda mais se tivermos que ir pro lado do quarto do Liam — o aperto de Tom em sua cintura afrouxou, o que entendeu como uma dica para que ela se afastasse e o deixasse desgrudar da pia. — Não quero que a criança ouça certas coisas e fique traumatizada.
— Só pra você saber, meu quarto não é do lado do Liam — se afastou um pouco a contragosto, mas entendendo que os dois precisavam pensar direito.
— Eu te faria gemer tão alto que ia parecer que é — e aquilo não ajudava.
— Realidade: não dura três minutos — a provocação escapou pelos lábios de antes que ela conseguisse se conter. As sobrancelhas de Tom arquearam, parecendo não acreditar na audácia da garota.
— Você reclama de mim mas às vezes você fala umas coisas que dá vontade de… — ele não completou a frase, descendo os olhos pelo corpo de , parecendo absorver cada pequeno detalhe.
— Me punir? — ela sugeriu a finalização, dividida entre a vontade de rir e de se bater. Era incrível como ela simplesmente não colaborava consigo mesma.
Pela maneira como Tom a olhou, chegou a acreditar por um segundo que talvez ela realmente acabasse apanhando, o que era estranho porque ela tinha certeza que Tom não era desses, mas também não podia negar que estava merecendo. Porém o barulho de chave na porta acabou despertando os dois daquele momento que poderia ter acabado íntimo demais.
Os dois foram para a sala, encontrando Lewis mexendo na estante, onde os jogos ficavam guardados, e Paddy aguardava com os braços cruzados e cara de tédio, franzindo as sobrancelhas assim que e Tom apareceram na sala.
— O que você tá fazendo aqui? — Paddy franziu as sobrancelhas pro irmão.
— Você pode visitar seus amigos quando quiser, mas eu não posso visitar minha amiga? — Tom foi até Paddy e lhe deu vários cutucões, fazendo cócegas no adolescente.
Amiga — Lewis repetiu e riu, ironizando a palavra.
— Não te mete — olhou feio para o adolescente O’donnell. — Vai almoçar?
— A gente já comeu, só vim pegar um jogo novo, zeramos o outro.
— Tom, o pai tava te mandando mensagem, você não viu?
— Não — Tom pegou o próprio celular e checou as mensagens, suspirando antes de digitar algo rapidamente. — Vou passar lá daqui a pouco.
Os dois adolescentes logo saíram com três jogos na mão, praticamente correndo de volta para casa dos Holland. Também indo até a porta da casa, Tom soltou um suspiro.
— Eu vou precisar ir nos meus pais, mas… Você não quer ir lá em casa quando o Charlie e a Rachel chegarem? — não tinha nenhuma inocência no olhar de Tom, então apenas riu.
— Amanhã eu trabalho cedo, Tom. Não posso passar a noite acordada.
— Não é como se você nunca tivesse feito isso…
— E eu me arrependo amargamente — era verdade, a segunda-quase-sem-dormir após a balada de domingo tinha sido horrível, e ela não queria repetir a experiência.
— Chata.
— Chorão — ela revirou os olhos e riu, recebendo apenas um rápido beijo de despedida antes de Tom ir embora, deixando-a novamente sozinha.
suspirou e subiu para o próprio quarto, se deitando e fechando os olhos, tentando acalmar a mente e o corpo, e falhando miseravelmente, se questionando quanto tempo ela ainda conseguiria aguentar.

XIX

— Vocês me odeiam tanto — rolou tão dramaticamente no colchão de Olivia que, por muito pouco, não caiu.
, eu falei que se desse eu te ajudava, sério — Olivia fez uma careta. — Mas meus pais são um inferno. Uma noite do pijama com as amigas? Tudo bem. Duas semanas? Eles viram o inferno.
— Digo o mesmo. E eu ainda tenho dois irmãos pequenos que tornam tudo ainda pior — Ayumi fez uma careta chateada.
— Eu entendo, gente, de verdade. Odeio, mas entendo. É só… — soltou um suspiro alto e triste. — Eu realmente não queria passar minhas férias assim.
Na próxima segunda-feira, as duas semanas de férias remuneradas de começariam. Ela tinha decidido pedir em agosto, durante o verão, na esperança de conseguir sair de casa e poder aproveitar um pouco mais a Europa. Além disso, também eram férias escolares, então parecia que tinha mais coisas acontecendo pela cidade do que o usual.
Tudo o que mais queria era ficar o máximo possível fora da casa dos O’donnell. Ela se sentia confortável com eles, mas não o bastante a ponto de ficar apenas vegetando na casa como faria se estivesse com os pais no Brasil. Ela tinha pedido às amigas para poderem abrigá-la durante aquele período, e obviamente não tinha dado certo.
— Mas eu também acho que a não deveria passar as férias na casa dos O’donnell — Ayumi franziu as sobrancelhas. — Se não é bem capaz deles abusarem dela, como sempre.
— Que?! — estava completamente chocada com aquela afirmação, e ver Olivia concordar era ainda pior. — Os O’donnell não abusam de mim!
… — Olivia e Ayumi se encararam, parecendo um poucos incertas ou com pena de antes da loira continuar: — Eles te fazem trabalhar quase todo domingo, que é sua folga.
— Eles te levam pros eventos de família em fim de semana pra te fazer cuidar do Liam.
— Não… não é assim… — a voz de cortou um pouco.
— Então quando eles te levaram pro pub quiz, ou quando eles te levam pra alguma reunião com os Holland, você não fica cuidando do Liam?
— Fico, mas… — não tinha mas. Por mais que tentasse negar, as amigas falavam a verdade.
Por mais que os O’donnell sempre tentassem envolvê-la nas atividades da família, era sempre sobre cuidando de Liam, direta ou indiretamente. E, com certeza, se ela passasse as férias com eles acabaria trabalhando, porque ela era trouxa demais para dizer não.
— Sabe quem iria te abrigar sem reclamar? — o sorriso de Olivia era tão abusado que qualquer idiota saberia a resposta de longe.
— Não. De jeito nenhum — não sentiu firmeza na própria resposta, o que ficou bastante claro pela maneira que as amigas se entreolharam.
— Mas se você ficar essas duas semanas no Tom, vocês vão poder ficar transando todos os dias. Em todos os cômodos.
— Ayumi? — as sobrancelhas de ergueram em choque.
— Sei lá, gente, não sei como alossexual funciona — a garota balançou os ombros, arrancando uma risada das amigas. — Pra mim vocês só pensam em sexo.
— Você sabe que eu não transei com o Tom, né?
— Tá perdendo tempo — o sorriso de Olivia deixou o rosto de quente. Era como se a loira estivesse rindo dela. — Experiência própria: ele é muito bom.
Como aquele era um tópico que definitivamente não queria continuar discutindo com as amigas, ela logo tratou de mudar de assunto. E mesmo que o que as amigas tinham falado sobre os O’donnell realmente a incomodasse, ela ignoraria por hora. No fim, querendo ou não, tinha dado sorte de ficar com a família perfeita e que a tratava tão bem. Sempre tinha histórias sobre au pair bem piores do que apenas alguém que fazia hora extra demais.
As três passaram boa parte da madrugada acordadas, jogando conversa fora, falando desde os assuntos mais fúteis aos mais sérios. O dia já estava claro quando elas finalmente dormiram, e tinha a sensação de que mal havia se passado uma hora quando Ayumi foi acordada por uma ligação da mãe, pedindo para que ela fosse embora almoçar em casa, consequentemente acordando todas ali.
decidiu não ficar para almoçar com a família de Olivia porque aquilo parecia desconfortável demais. Pegou o ônibus de volta para a casa dos O’donnell, mas desceu quatro pontos antes. Ela precisava caminhar um pouco… e de uma desculpa para ficar mais tempo fora. Respirar um pouco.
Ela mal tinha andado uma quadra quando uma notificação chamou sua atenção. Era uma mensagem particular de Harrison, em que ele simplesmente perguntava “você sabe que música é essa?” Ao abrir, se deparou com um áudio, e já nas primeiras notas, identificou imediatamente se tratar Amor de Que, da Pabllo Vittar. Sozinha na rua, teve uma crise de risos, se perguntado como raios o rapaz tinha parado naquela música. Por isso, ao invés de apenas enviar uma mensagem com a resposta, ela escolheu fazer uma chamada de vídeo com Harrison.
— Não ri de mim — Harrison atendeu a chamada rapidamente, fazendo uma careta consternada.
— Não prometo nada — riu de qualquer jeito. — Onde você conseguiu essa música?
— As fãs do Tom às vezes são meio estranhas — ele balançou os ombros e sorriu, deixando claro que aquilo não era um xingamento. — Elas colocaram essa música em algumas edições que fizeram dele comigo e o Jake Gyllenhaal.
— Achei genial, elas estão de parabéns.
— Você tá na rua? — as sobrancelhas do rapaz franziram, curioso.
— Voltando da casa da Olivia, tentando enrolar ao máximo para chegar nos O’donnell.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não — mesmo assim soltou um suspiro chateado, e ao ver a expressão de Harrison parecer desconfiada, decidiu continuar: — Amanhã eu oficialmente entro de férias e só queria um pouco de descanso deles, mas nem tive coragem de me convidar pra almoçar com as meninas, então já vimos como vai ser…
— Vem almoçar aqui em casa — o sorriso de Harrison era tão lindo que sabia que seria completamente incapaz de dizer não. — O Tom foi almoçar com a família e me abandonou, a gente faz companhia um pro outro.
— Ele nem te convidou pro almoço? Cruel.
— Às vezes os Holland precisam de um tempo a sós em família, sem o melhor amigo intrometido — o rapaz balançou os ombros. — E então, você vem?
— Chego em dez minutos.
Em menos de dez minutos ela já estava tocando a campainha, sendo rapidamente atendida por um sorridente Harrison. Após se cumprimentarem com um rápido abraço, Harrison a levou até a cozinha e riu sozinha com o quanto ela já estava ficando acostumada com a casa daqueles dois; pelo menos com as áreas comuns dali.
— O almoço já tá pronto? — ela olhou para a mesa que Harrison tinha arrumado, achando adorável como tudo parecia tão bem feito. — Eu poderia ter te ajudado, Harrison.
— Já tá relativamente tarde — Harrison fez um sinal para que ela se servisse. — Além do que… Eu não ouvi boas histórias sobre sua comida.
— Foi o Tom, né? — ela revirou os olhos enquanto tentava não encher demais o prato apenas porque tinha vergonha de acabar com toda a comida que tinha sido preparada. — E você acredita nesse cara? Você sabe que ele me odeia.
— Vocês jovens demonstram ódio de um jeito muito peculiar — as sobrancelhas do rapaz levantaram, tão sugestivas quanto possível, provocando uma instantânea reação de vergonha em . — Mas, não, foi o Sam.
— Traíra! — ela revirou os olhos enquanto sentava e dava uma grande garfada em sua comida. Harrison cozinhava muito bem. Talvez não tanto quanto Sam, mas realmente bem.
— Então… Você não quer mais morar com os O’donnell?
— Não é isso — riu. — É só que… Se durante as férias eu ficar o tempo todo com eles, não vai parecer realmente que eu tô de férias.
— Você pode vir aqui em casa sempre que quiser. Aproveita que o Tom não tá indo tanto pros Estados Unidos, dá pra vocês-
— Não fala — ela o cortou e revirou os olhos.
— Agora, falando sério, eu tive uma ideia — levantou as sobrancelhas, interessada nas próximas palavras de Harrison. — A gente tava querendo fazer uma viagem há um tempo, pra praia, algum lugar tranquilo. A gente pode fazer agora, nas suas férias.
— Vai ser em um lugar caro? Porque, diferente de vocês, eu não sou rica.
— A gente dá um jeito — ele balançou os ombros e abriu um sorriso brincalhão. — Seu namorado é milionário, pede pra ele pagar pra você.
— Quando eu arranjar um namorado milionário eu peço sim, com certeza. Mas talvez até lá eu nem esteja mais na Inglaterra, então… — esperava que Harrison risse de sua piada, mas ele ficou sério, claramente não achando a menor graça.
Após terminarem de comer, os dois foram para a sala e começaram a assistir aos mais diversos primeiros episódios de séries. Eles assistiam o primeiro episódio, não achavam graça, mudavam de série. Assistiam o primeiro episódio, não achavam graça, mudavam de série. Ad infinitum.
Já estava a noite e eles já tinham assistido o primeiro episódio de mais ou menos onze séries quando a porta foi aberta, e logo Tom estava entrando, jogando a chave de qualquer jeito sobre a mesa e parecendo animado, mal olhando para a sala enquanto falava:
— Haz, você não tem ideia, meu pai tava falando que- — ele se interrompeu assim que chegou na sala e encontrou sentada ao lado de Harrison, sorrindo. — O que você tá fazendo aqui?
— Também tô super feliz em te ver, Tom — ela inclinou levemente a cabeça para a direita, fazendo uma falsa expressão fofa.
— Ela almoçou aqui e agora nós estamos tentando encontrar uma série que não seja um saco.
— Entendi — Tom se jogou no sofá ao lado de , dando um rápido beijo no rosto dela, um cumprimento amigável demais para os dois, um pouco estranho, levemente inesperado. — Vai dormir aqui?
Ok, agora a simpatia fazia mais sentido.
— Se você me convencer… — ela sorriu e balançou os ombros. — Aproveita que amanhã começam minhas férias, eu posso passar a noite acordada.
— Antes que vocês comecem — Harrison disse exatamente ao mesmo tempo em que Tom abria a boca para responder, cortando-o. —, Tom, eu disse pra que a gente tava querendo fazer uma viagem, e como ela tá entrando de férias do trabalho agora, seria uma boa hora de juntar a galera.
— Eu concordo. Vamos quando, amanhã?
— Se vocês dois conseguirem dormir essa noite… — rindo, Harrison se levantou, dando um rápido beijo no rosto de antes de se afastar, falando: — Vou deixar os dois sozinhos, aproveitem, se protejam.
revirou os olhos enquanto via o loiro se afastar. Aquele era o tipo de coisa que ela deveria se acostumar, e que realmente não era tão estranho assim. era, de fato, o tipo de pessoa acostumada com essas piadinhas. Não era alguém que tinha namorado muito na vida, mas tinha ficado com muitas pessoas, então sempre existia alguém na roda com que ela era “deixada a sós”. Para sua sorte.
— Vocês estavam pensando em viajar para algum lugar específico? — ela perguntou como quem não quer nada.
— Algum lugar tranquilo, de preferência sem turistas — Tom balançou os ombros. — Acredite ou não, conseguir um pouco de paz às vezes é difícil.
— Ser famoso não pode ser só vantagem o tempo todo — decidindo não fazer mais cerimônias, se aproximou mais de Tom, deixando os rostos deles mais próximos. — Você tem que sofrer um pouquinho também.
Tom se inclinou levemente, pronto para unir os lábios aos de , mas ela se afastou antes que o beijo acontecesse. O rapaz piscou confuso enquanto ela abria um pequeno e brincalhão sorriso. Tom se aproximou novamente, tentando beijá-la, mas ela se afastou uma vez mais.
— Não fode, — ele revirou os olhos, não parecendo nada feliz com aquele novo joguinho.
— Não? — ela se fingiu surpresa, com certeza não conseguindo enganá-lo. Bom, a atriz no cômodo não era ela. — Mas achei que foder era justamente o que você queria…
— Para de fazer gracinha — a mão dele tentou alcançar a de para puxá-la para mais perto, mas ela novamente se afastou, fazendo com que Tom revirasse os olhos novamente. — Para com essa porra.
— Olha o jeito que você fala comigo, mocinho — ela riu, se aproximando apenas um pouco. — Se você se comportar, talvez eu seja mais boazinha com você.
— Como é? — Tom levantou as sobrancelhas, parecendo não acreditar naquele momento.
— Se comporta, Holland — a voz dela soou incrivelmente como uma ordem, algo que ela mesma não esperava, mas que certamente surpreendeu Tom. Os olhos dele pareceram mais escuros que o normal, a pupila dilatada. — Seja bonzinho.
— Sim, senhora — ele riu enquanto se aproximava novamente, passando as pernas por cada lado do colo do rapaz e se sentando ali, deixando que ele a segurasse contra seu corpo. — Se eu me comportar, você tem que me-
não deixou que Tom terminasse a frase. Agora, sentada no colo de Tom, de frente para ele, ela sentia ter um pouco de controle sobre o aquele momento – mesmo que estivesse contando com a força de Tom a mantendo ali e impedindo de escorregar. Segurando o rosto dele com menos delicadeza do que deveria, puxou o rapaz para um beijo quente e quase desesperado, tentando absorver cada uma das incríveis sensações que aquele momento causava.
Enquanto as mãos de Tom procuravam pelo corpo de , buscando a melhor maneira de segurá-la com mais firmeza, os dedos dela se embrenharam nos cabelos de Tom, que estavam relativamente grandes, segurando uma quantidade considerável. Sem pensar muito no que estava fazendo, ela puxou os fios do rapaz para trás, obrigando as bocas deles a se afastarem a tempo de ouvir um gemido necessitado escapar dos lábios de Tom.
, o que-
Xiiiiiu — ela riu e, ainda não deixando Tom movimentar muito bem a cabeça, beijou rapidamente os lábios dele, se afastando antes que o rapaz pudesse aprofundar mais o gesto. — Às vezes eu gosto dos meus meninos quietos.
— Vai se foder — ele estreitou os olhos, mas ainda conseguia ver o desejo em cada pequeno detalhe do rosto de Tom. Ela não precisava de um espelho para saber que estava exatamente na mesma situação.
— Isso não é ser bonzinho, Thomas.
Antes mesmo que pudesse voltar a beijá-lo, um barulho alto a fez praticamente pular do colo de Tom, e ela sabia que apenas não tinha caído porque ele ainda estava segurando-a. Virando o rosto na direção do som, viu o próprio celular em cima da estante, a luz acesa e vibrando incessantemente.
— Merda — ela falou antes de se afastar e descer do colo de Tom, correndo para o aparelho e vendo o nome de Rachel. Respirando fundo e tentando acalmar o próprio coração, deslizou o botão verde e atendeu: — Oi, Rachel.
— Oi, — a voz da mulher era simpática. — Deixa eu perguntar, você tá aqui perto de casa?
— Tô sim. Aconteceu alguma coisa?
— Será que tem como você vir aqui rapidinho me dar uma forcinha com o Liam? O Charlie saiu com o Lewis e surgiram umas coisas de última hora da redação, então…
— Claro, claro, eu já tô indo. Chego em dez minutinhos — viu Tom revirar os olhos assim que soltou a última frase e desligou o celular. — Eu preciso ir.
— Eu percebi. Achei que você estivesse de férias.
— Tecnicamente começa só amanhã — pegou a própria mochila, que tinha levado para dormir na casa de Olivia.
— Mas hoje é domingo, né? Não deveria ser sua folga?
Ela ficou em completo silêncio, lembrando o que as amigas tinham dito antes e não conseguindo olhar para Tom simplesmente porque ela não queria ser julgada naquele momento, especialmente porque ela se sentia envergonhada. Ela era uma idiota por não saber falar não e sabia disso.
— A Rachel precisa da minha ajuda.
— Eu entendo — Holland soltou um suspiro… chateado? — Eu também já me meti em algumas situações complicadas por não negar algumas coisas.
— Desculpa — ela jogou a alça da mochila e se aproximou de Tom novamente, dando-lhe um rápido selinho. — A gente conversa sobre a viagem no grupo?
— Claro. Você ainda vai me pagar por isso, .
— Vai ser um prazer — ela riu antes de sair da casa e correr até os O’donnell, tentando focar em como o dia tinha sido ótimo, na viagem que se seguiria, e esquecer o quanto ela era completamente idiota.

XX

Eles partiram na terça-feira logo pela manhã, quando o céu ainda estava muito escuro e nenhum O’donnell estava acordado. As bolsas já estavam arrumadas desde a noite anterior, e mal tinha dormido aquela madrugada, acordando a cada vinte minutos, achando que tinha perdido a hora, que os amigos tinham partido sem ela, que tudo daria errado e ela seria obrigada a passar a semana inteira com os O’donnell, cuidando de Liam.
No fim, meia hora antes do combinado, já estava com as malas na porta dos O’donnell, sentada na escada, esperando que o carro chegasse. No horário combinado, o carro de Olivia estacionou em frente à casa e não perdeu tempo, pegando as malas e correndo meio desajeitada.
— Bom dia! — ela estava excessivamente animada, mas ao menos Olivia respondeu igualmente entusiasmada enquanto descia do carro e abria o porta-malas.
— Como vocês conseguem estar tão felizes? — Ayumi parecia meio mal humorada, sentada no banco da frente do carro e bufando. — São cinco e vinte da madrugada.
— Eu tô de férias. Eu vou viajar com meus amigos. Não tenho motivos para estar triste.
— Vamos logo pra casa do Tom, aposto que os meninos vão atrasar — Olivia bateu o porta malas e em menos de cinco minutos elas estavam novamente parando o carro, dessa vez em frente a casa de Tom.
Para a surpresa delas, os rapazes já estavam arrumando as coisas no carro, parecendo prontos para a viagem.
não sabia exatamente para onde eles iam. Eles tinham falado sobre Skrinkle Haven, que ficava na Inglaterra mesmo, e ela tinha tomado a decisão de não pesquisar nada sobre o local na esperança de ser positivamente surpreendida. Após se separarem entre os carros de Olivia e Tom – percebeu que o rapaz estava com um carro diferente e, inocentemente, se perguntou quantos carros ele possuía, mas rapidamente decidiu que preferia não saber a resposta -, eles finalmente partiram.
Segundo o GPS, a viagem duraria um pouco mais que quatro horas, o que para era um tempo bastante aceitável, mas aparentemente para as inglesas que dividiam o carro com ela era simplesmente uma das piores coisas que poderia acontecer.
— A gente não pode mesmo fazer uma parada? Minhas pernas estão doendo e eu realmente preciso fazer xixi — Ayumi estava quase chorando, e entendia. Pelo que tinha visto, a garota tinha bebido duas garrafas de água.
— Eu vou mandar mensagem pro Sam, falar pros meninos pararem em algum lugar pra você poder ir ao banheiro — sorriu com empatia para a amiga, mandando rapidamente uma mensagem para Sam e pedindo para que eles fizessem uma parada na primeira lojinha que aparecesse.
Demorou mais vinte minutos para que acontecesse, mas eles finalmente pararam em um restaurante de beira de estrada. Ayumi praticamente pulou para fora do carro de Olivia e saiu correndo. e Olivia riram, indo até o carro de Tom, de onde os rapazes desciam e se espreguiçavam, como se duas horas dentro de um carro realmente fosse tão fim do mundo assim.
— Por favor, deixa eu mudar de carro — Sam fez um bico fofo enquanto se aproximava dele. — Aqueles três são um inferno juntos, por isso que eu nunca saio com eles.
— Por isso e porque você não desgruda da sua namorada — ela abraçou o rapaz, deitando a cabeça no ombro dele. — Aliás, ela não ia vir também?
— Ia, mas teve aquele problema com o avô dela, daí ela e família tiveram que fazer uma outra viagem de emergência.
— Mas ele vai ficar bem?
— Vai sim, não precisa se preocupar — Sam sorriu, grato pela preocupação que tinha, mesmo que ela sequer conhecesse Elysia. — Mas, sério, deixa eu trocar de carro.
— Não vai trocar nada — Harry chegou dando um leve empurrão no irmão, obrigando e Sam a separarem o abraço. — Vai passar a viagem cantando com a gente sim.
— Vocês estão fazendo tipo um karaokê no carro? Eu gosto de karaokê.
— Nesse caso eu troco o Sam pela — Harry piscou brincalhão e enquanto o outro gêmeo revirava os olhos.
— Eu aceito.
— Eu fui traído — Sam estreitou os olhos para , depois para Harry. — Vocês não merecem meu amor.
— Que amor? — Tom também se aproximou deles, sorrindo e erguendo as sobrancelhas. — Ninguém aqui recebe seu amor há alguns anos, Sam.
— Porque ninguém merece.
— Tadinho, gente, ele tá triste e solitário, vai chorar — Olivia também entrou na conversa, e logo todos estavam reunidos no estacionamento, apenas brincando juntos e rindo de Sam.
Após Ayumi voltar, parecendo estar com o humor totalmente melhor, eles novamente se dividiram entre os dois carros e dirigiram pelas horas que faltavam. conseguiu convencer Olivia e Ayumi a também fazerem uma sessão karaokê, o que não foi tão difícil já que elas também pareciam muito mais animadas agora.
Ela mal percebeu quando o GPS avisou que eles tinham chegado ao destino e pararam em frente a uma enorme casa. Não era uma mansão, claro, mas com certeza era uma casa muito mais cara do que eles tinham falado que custaria. Enquanto eles descarregavam os carros, pensou em perguntar para os amigos quanto realmente tudo tinha custado, quanto ela com certeza ainda estava devendo, mas decidiu deixar para mais tarde. Eles tinham acabado de chegar no local, ainda não era o momento de deixar o clima estranho.
— Uau — ela falou assim que eles entraram, chocada com o local. — Impossível que isso foi tão barato quanto vocês me fizeram pensar que foi.
Ok, ela tinha feito o completo oposto do que pretendia.
Mas não era sua culpa se parecia que ela tinha acabado de entrar em uma casa saída diretamente de um programa de design de interiores e arquitetura. Tudo parecia completamente perfeito, e poderia jurar por tudo em sua vida que ela conseguia ver o próprio reflexo no piso de madeira escura e sentir um cheiro de lavanda e maresia inebriantes.
— Relaxa, eu consegui um desconto muito bom — Tom sorriu para ela. — Os donos são muito fãs da Marvel, aparentemente.
Se aquilo era verdade, não tinha ideia, mas iria aceitar aquela desculpa, até porque seu bolso agradecia imensamente.
— Então… tem quatro quartos, sendo um deles suíte. Como vocês querem separar?
— Nós estamos em sete, certo? Podemos… dois em cada quarto? E um quarto com três pessoas? — Olivia sugeriu, abrindo a geladeira e a encontrando com apenas algumas garrafas de água. — Nós temos que fazer compra… Vamos dividir os quartos logo e sair pra fazer compra.
— Vai ficar um quarto vazio?
— Eu quero a suíte — Tom falou logo, recebendo reclamações de todos os amigos, precisando elevar a voz para conseguir sobrepor: — Nem vem, eu consegui o desconto na casa, eu tenho direito.
— Ele tem um ponto — Ayumi admitiu, mesmo não parecendo exatamente feliz.
— Eu quero a suíte também. Acho que vamos ter que dividir — piscou para Tom.
— Nenhuma objeção de minha parte.
— Eu quero ficar com o quarto que seja o mais afastado possível desses dois — a brincadeira de Ayumi fez com que todos rissem.
Acabaram decidindo que era melhor se separarem. Olivia puxou e Ayumi consigo, dizendo que as três iriam fazer compras enquanto os rapazes arrumavam os quartos – o quarto delas incluso. Enquanto iam para o carro de Olivia, Ayumi já começava a colocar no GPS o mercado mais próximo, que ficava a alguns bons quilômetros dali.
— Eu vou na frente dessa vez! — correu para o banco do carona assim que o barulho das portas destravando foi ouvido. — Eu vim a viagem inteira no banco de trás, tenho direitos.
— Então vai guiando a bonita aí — Ayumi jogou o próprio celular na direção de e sentou no banco de trás.
Durante o caminho elas aproveitaram para fazer uma lista de compra de última hora, pensando no que seria essencial e sentindo-se um pouco arrependidas por não ter levado Sam com elas, provavelmente a pessoa que melhor saberia o que e quanto comprar de comida. Mas sabia se virar bem o bastante para não atingir nenhum extremo e acabar obrigando mais uma ida ao mercado, ou acabar com comida sobrando no último dia de viagem.
— Eu devo dizer que fiquei um pouco surpresa com a se convidando para dividir o quarto com o Tom — Olivia falou enquanto elas colocavam algumas coisas no carrinho.
— Ficou? — Ayumi franziu as sobrancelhas. — Eu achei que fosse meio óbvio que aconteceria.
— Eu sei, só… Achei que os dois iam tentar ser um pouco mais discretos — as sobrancelhas de Olivia mexeram sugestivas.
— Nós nunca nem tentamos ser discretos — riu. — Já faz um tempinho que eu to querendo dar pra esse menino, óbvio que eu não iria perder a oportunidade, né.
— O que me lembra que temos que comprar proteção pra esses dois, ninguém quer mini-Tom ou mini- correndo pra lá e pra cá daqui alguns meses — Ayumi brincou, puxando as amigas para o próximo corredor.
Em bem menos tempo do que acreditava que aconteceria, logo o carrinho estava cheio e elas estavam pagando a conta no cartão de Olivia – e tentava não pensar no quanto acabaria gastando com a viagem. Ela tinha que se divertir também, certo? O intercâmbio não poderia ser apenas para trabalho.
Quando elas chegaram novamente na casa, encontraram os meninos espalhados pela sala, como se o dia estivesse totalmente entediante.
— Espero de verdade que vocês tenham arrumado os quarto, porque se não… — mesmo não completando a frase, a ameaça era bastante clara na voz de Olivia.
— Claro que arrumamos — Harrison sorriu e se levantou para ajudá-las com as sacolas. — Mas estamos com fome, vocês não chegavam nunca.
— Drama — revirou os olhos e riu, colocando suas sacolas sobre a mesa.
Mesmo não sendo perfeito como nos sonhos de , logo eles tinham separado algumas funções para que pudessem fazer o almoço e irem para a maldita praia, tudo o que ela mais queria. O dia não estava exatamente perfeito, ao menos não com aquele sol maravilhoso que ela tanto amava e que era tudo o que sempre a animava para ir para praia. Mas aquele era o Reino Unido e tinha aceitado que os dias de sol forte eram bastante limitados, ela não podia ser muito exigente.
Além do que, o mormaço estava ridículo e ao menos ela teria uma desculpa para entrar no mar.
A praia não ficava muito longe, mas o caminho até ela era um pouco mais complicado do que esperava. Para começar, eles tinham que parar os carros um pouco longe, e fazer uma pequena trilha até o local. Após passar alguns momentos que ela não considerava exatamente ideais, eles finalmente chegaram ao tal Skrinkle Haven.
não conseguia colocar em palavras o quanto se sentia decepcionada.
Quer dizer, aquele lugar era bonito, claro. Sua câmera com certeza seria totalmente bem utilizada, mas na questão praia, areia e banho de mar, aquele local certamente deixava muito a desejar. Ela encarou os amigos, mas todo mundo ali parecia feliz, então imaginava que as praias da Europa normalmente fossem essa exata decepção.
Enquanto caminhavam, desejou que estivesse nas praias do Nordeste do Brasil, com a areia densa e macia fazendo seus pés afundarem. Mas aquela areia era dura e escura, sem graça. conseguia também ver algumas pedras ao longe, e ela não queria saber o que tinha do outro lado da maior delas, que parecia dividir a praia em dois.
Pedras. Pedras no lugar de areia.
— Você parece tão decepcionada — ela sentiu Tom falar próximo ao seu ouvido, parecendo estar se divertindo.
— Você já foi em alguma praia brasileira, Tom? — ela levantou as sobrancelhas e viu o rapaz balançar a cabeça em negativa. — Então você não vai conseguir entender o que eu estou sentindo.
— Pensa que essa é praticamente a primeira vez que você sai sem precisar se preocupar com uma criança de dois anos — Tom balançou os ombros. — Aproveita.
— É o que eu vou tentar fazer — o suspiro alto que ela soltou fez Tom revirar os olhos.
Mesmo que aquela definitivamente não estivesse nem perto de ser uma das praias mais lindas que já tinha visto em sua vida, estar com amigos era sempre divertido. Claro que ela tinha aprendido aquilo há alguns anos, mas era sempre bom recordar coisas boas.
E, ainda que aquela não fosse a areia e mar que tanto esperava, era um um lugar realmente muito lindo, especialmente para uma aspirante a fotógrafa. Uma boa parte de sua tarde foi gasta ao lado de Harry e Ayumi, os três tentando capturar cada pequeno momento, fosse tirando fotos dos amigos ou da paisagem.
Conforme a tarde caía e o cansaço ia ficando cada vez maior, se sentia com uma estranha sensação de dever cumprido. Olhando as fotos que tinham tirado, era quase como se estivesse revivendo muitos dos momentos, fosse Tom e Harrison jogando Sam na água, fosse Olivia e Ayumi enterrando Harry na areia, fosse ela, Tom, Sam e Ayumi brincando de briga de galo no mar.
— Eu não sei vocês — Olivia soltou um suspiro, dando um longo gole em sua cerveja. —, mas eu estou me sentindo exausta.
Já estava escuro e poucas pessoas ainda estavam na praia. Há algum tempo o grupo tinha cansado das brincadeiras e agora estava apenas sentado na areia, conversando e bebendo as cervejas que tinham levado para lá, vendo como a maré aos poucos subia, praticamente como se quisesse expulsá-los dali. Apenas de olhar para os amigos, já conseguia dizer com certeza que todos estavam totalmente exaustos.
— Nem me fala — ela soltou um suspiro. — Tudo que eu quero fazer quando chegar em casa é tomar um banho quente e dormir. E só acordar amanhã na hora do almoço.
— Droga — Tom soltou de um jeito um pouco manhoso e apoiou o queixo no ombro dela, fazendo uma careta consternada.
— Desculpa — ela riu, dando um beijo rápido nos lábios dele, vendo-o sorrir e balançar os ombros. A verdade era que, apenas de olhar para como ele também parecia cansado, sabia que Tom também dormiria muito rápido. Eles tinham tido um dia realmente cansativo, afinal.
Não demorou muito para que eles voltassem para a casa, praticamente se arrastando até os carros e, quando chegaram, realmente cumpriu com sua palavra de tomar um banho quente e ir dormir – aquela noite ela preferiu ficar no quarto com as amigas -, o cansaço levando a melhor. Mesmo que ela não tivesse feito tudo o que queria, o dia tinha sido realmente proveitoso.
E aquela viagem estava apenas começando.

XXI

Na quarta-feira, todos eles acordaram depois da hora convencional de almoço. No “quarto das meninas”, foi a primeira a acordar, o cabelo de Ayumi caído em seu rosto porque elas tiveram que dividir a cama. Rindo e afastando os fios azuis, levantou com cuidado para não acordar as duas amigas e se arrastou até um dos banheiros compartilhados, lavando o rosto e escovando os dentes.
Ao chegar na cozinha, encontrou Sam e Tom já acordados, conversando casualmente enquanto Sam parecia cozinhar.
— Bom dia — ela ainda estava meio sonolenta.
— Boa tarde — Sam sorriu. — O almoço está quase pronto.
— Você é a melhor coisa que poderia ter acontecido nessa casa, você sabe disso, né? — ela disse enquanto se dirigia até Tom e se sentava em seu colo sem cerimônia, recebendo um rápido beijo no rosto como cumprimento.
— Eu sou? — Sam brincou, olhando de para Tom. — Tem certeza?
— Quê, você acha que eu prefiro quem? Esse aqui? — ela apontou com a cabeça para Tom, vendo o rapaz revirar os olhos. — Até parece.
— Não existem sentimentos entre nós — Tom riu irônico e acenou a cabeça concordando. — É só sexo. Você ainda é o favorito dela, Sam.
— Que sexo? — franziu as sobrancelhas para Tom, vendo-o abrir um sorriso sugestivo.
Não demorou para que os outros da casa acordassem e logo a mesa estivesse cheia e barulhenta, todos comendo e falando ao mesmo tempo, fazendo piadas, brincando. Como já estava tarde, decidiram que aquele dia não iriam para a praia, ficariam o restante da tarde no jardim da casa, ao que sequer contestou.
O local era grande, apesar de ser menor que o de Tom, e sem piscina. Tinha uma churrasqueira, mas eles não tinham nada para colocar para assar. Tinha algumas cadeiras, mas não o bastante para todos, então alguns deles acabaram sentados no chão ou na grama. E, claro, tinha o cooler, cheio de cerveja. Porque isso era a vida.
— Eu só sei que acordei comendo o cabelo da Ayumi — revirou os olhos enquanto os amigos riam.
— Não dormiu comigo porque não quis — Tom levantou as sobrancelhas. — Preferiu me deixar abandonado.
— Olha o drama — ela revirou os olhos, ouvindo os amigos começarem a rir. — Já vai fazer uma cena, Tom? — a escolha de palavras não tinha sido aleatória, e apenas pela maneira que Tom a encarou, ela sabia que ele tinha entendido.
— Eu sou um ator, . Eu sempre faço cena.
Ela apenas riu, feliz por ter deixado aquilo claro. Se os amigos também tinham entendido, ela não sabia e não se importava. O importante era que ela e Tom estavam no mesmo patamar.
O grupo ficou mais algum tempo conversando, bebendo um pouco, nada que os deixasse sequer perto de bêbados. Era muito mais conversas casuais do que eles realmente tentando ficar bêbados, alternando cervejas entre refrigerantes e água.
O céu estava começando a ficar arroxeado quando decidiu ir pegar mais um pouco de água. Deixou os amigos conversando e se levantou, indo até a cozinha e enchendo um enorme copo, dando um gole longo. Quando estava prestes a dar o segundo gole, sentiu sua cintura ser abraçada, um corpo firme se colando ao seu. Ela não precisava se virar para saber que se trata de Tom. Sentiu a mão do rapaz afastar seu cabelo, e logo os lábios dele estavam no ombro dela, caminhando até subir por seu pescoço.
— Já? — ela sorriu, colocando o copo sobre a pia e se virando, ficando de frente para Tom.
— Finalmente — ele a beijou com vontade, segurando seu corpo com firmeza.
— A gente vai só sumir? Eles vão falar — dava um total de zero importância para o que os amigos pensariam, mas achava que seria engraçado ver a reação de Tom. Fazer um pouco de charme – ou, em bom português, cu doce.
— Que falem — Tom prendeu seu corpo contra a pia. — Não é como se ninguém estivesse esperando.
— Tudo bem, mas… — ela riu quando ele revirou os olhos. Suas unhas encontraram o antebraço dele, começando a subir levemente, praticamente sem aplicar pressão. — Sou eu quem dá as ordens.
Não demorou para que eles estivessem no quarto, nem para que Tom estivesse em cima de , tentando tomá-la para si. E ela queria se entregar totalmente, correr o risco de que aquilo fosse rápido, mas não podia. Eles não tinham se desejado por tanto tempo para ser apenas mais um sexo curto em sua vida.
— Espera — a voz dela soou como uma ordem quando ela partiu o beijo. — Eu preciso da sua palavra de segurança. E… seu gesto. Por precaução.
— Abacaxi — Tom respondeu ao mesmo tempo que estava os dedos três vezes. — A sua?
— Unicórnio — a palavra arrancou uma risada de Tom, mas apenas franziu as sobrancelhas, a voz soando exigente: — Alguma objeção sobre a minha palavra, Tom?
— Não — a resposta dele foi quase automática, fazendo-o parar de rir na mesma hora.
— Não o quê? — deu um passo para frente, puxando Tom para mais perto de si, de maneira nada delicada.
— Não, senhora — Tom engoliu em seco, sua pupila dilatada passeando por todo o corpo de , desejando-a, deixando-se consumir pela luxúria.
Ela o beijou com força, sobrepondo-se a ele. Seu corpo inteiro queimava em antecipação. Aquele era seu momento preferido, ela simplesmente amava saber que, naquele quarto, o controle seria dela. As ordens seriam dela. ditaria o que aconteceria ali, como aconteceria. A sensação de poder era absurdamente excitante.
— Senta na cama — ela ordenou, e Tom não tentou contestar.
Assim que se sentou na beirada da cama, Tom abaixou o olhar, mantendo ambas mãos sobre o colchão, sem ousar mexê-las. sorriu, sabendo que era cedo demais para já recompensá-lo mas amando aquele momento. Tom tinha feito apenas o básico, mas a deixava realmente mais tranquila saber o quão comportado ele poderia ser.
— Você trouxe alguma coisa que podemos usar? — ela se aproximou dele, passando os dedos por seus cabelos, fazendo um leve carinho.
— Não, eu não… pensei em trazer — a voz dele parecia um pedido de desculpas, mas mesmo assim ele não ergueu o olhar para encarar .
— Tudo bem. Vamos só… ser inventivos — ela deixou de brincar com os fios dele, afastando-se enquanto começava a tirar a própria blusa e calça, ficando apenas de sutiã e calcinha. conseguia ver as mãos de Tom fechadas em punho, e ela sabia que ele estava se esforçando muito para não olhá-la, não tocá-la. Um ótimo garoto. — Você só pode falar quando eu autorizar ou perguntar algo. Você só pode me tocar quando e onde eu quiser. Entendeu?
— Sim, senhora.
As mãos de Tom ainda seguravam o lençol da cama com força, os punhos brancos pela força aplicada. se deliciava com a maneira como ele estava se esforçando para se comportar, para não avançar nela. Uma pena que eles não tinham nenhum brinquedo naquele momento. Ela gostava de bondage, e a pele branca de Tom ficaria com marcas de cordas incríveis…
— Olha pra mim — a ordem foi atendida de imediato.
Primeiro os olhos de Tom encontraram os de , as pupilas tão dilatadas quanto possível. Então ele bebeu seu corpo, absorveu cada pequeno detalhe de , suas curvas, as marcas de sua pele. Ela amava aquele momento. Sabia que estava longe de ser uma modelo de revistas, que provavelmente Tom já havia visto corpos muito mais dentro do padrão do que o dela. Mas, ainda assim, aquele momento era de . Era ela quem estava no controle, e era o corpo dela que Tom desejava tocar, o braço tremendo levemente pelo esforço em permanecer abaixado.
— Você quer me tocar, Tom? — ela se aproximou dele novamente, fazendo um leve carinho e segurando seu rosto.
— Sim, senhora — Tom engoliu em seco.
Com a ajuda do próprio joelho, afastou as pernas de Tom, se posicionando entre elas. Inclinando-se na direção dele, ela novamente segurou os fio de cabelo do rapaz, aproximando os lábio do ouvido dele.
— Você acha que merece me tocar? — mordiscou levemente o lóbulo da orelha dele, começando a descer beijos e leves mordidas pelo pescoço de Tom.
— Por favor, … — a voz dele soou quase como um choro desesperado.
— Responde a pergunta — os dedos dela aplicaram mais força aos fios dele, puxando a cabeça de Tom para trás e o fazendo soltar um leve gemido de dor.
— Sim — ele praticamente gemeu a palavra, a voz inundada por luxúria e desejo, fazendo todo o corpo de sentir-se exatamente da mesma maneira. Tom precisou respirar fundo antes de se corrigir: — Sim, senhora.
— Tira a roupa — se afastou, dando espaço para que Tom levantasse e se despisse completamente.
Foi a vez de beber o corpo de Tom. Claro, com a exigência da profissão, ele tinha o corpo perfeito, exatamente como a TV e as revistas diziam que todos deveriam ser. Ela umedeceu os lábios, um gesto que certamente não passou despercebido por ele, que parecia perdido entre continuar se comportando e simplesmente beijar . Com um sinal simples, ela ordenou a Tom que novamente se sentasse e, como da primeira vez, ele permaneceu com o olhar e mãos baixos.
— Você pode me olhar, Tom — ele se aproximou novamente, mantendo a posição entre suas pernas. — Eu vou te chupar agora, mas você não pode me tocar, nem gozar. Você pode gemer o quanto quiser, implorar, mas você está proibido de gozar ou me tocar. Entendeu?
, por favor… — quase sentiu pena.
Entendeu?
— Sim, senhora.
o beijou uma última vez antes de se ajoelhar de frente para ele. Ela não fez cerimônias antes de tomá-lo entre seus lábios, engolindo-o quase de uma vez, o sabor amargo de pré-gozo espalhando-se por toda sua boca. Ela segurou a base de Tom, movimentando-se e sugando, tendo os gemidos dele como principal incentivo de como aquilo deveria ser feito.
– Eu preciso- Por favor- Eu quero- — Tom estava claramente com dificuldade para formular frases coerentes. Cada sílaba parecia um extremo esforço, consumindo cada pequena fibra de esforço de Tom para obedecer às ordens de .
Ela sabia que não estava sendo uma tarefa fácil para o rapaz. conseguia ver os braços de Tom tremerem com a força que ele fazia para mantê-los no lugar, como se ele estivesse lutando contra seus próprios instintos. Eles estavam nessa dança há tempo demais, nessas provocações, nesse desejo de se entregarem completamente. sabia que não deixá-lo gozar em sua boca estava sendo uma tortura e tanto.
— Por favor- , por favor, eu preciso- Me deixa- Por favor, eu prometo- – — as palavras se misturavam, ela mal entendia metade do que ele falava. A necessidade, o quase desespero de Tom estava provocando a mesma sensação em . Ela também precisava.
Ela afastou a boca, ficando de pé e conseguindo ver melhor o rosto de Tom. A respiração dele parecia mais pesada, levemente descompassada, e seus olhos estavam brilhantes, como se estivessem segurando lágrimas de cair. acariciou seu rosto com delicadeza, tentando passar um pouco mais de calma e confiança.
— Você se saiu muito bem — ela sorriu ternamente e o beijou, deixando que ele sentisse o próprio gosto na boca dela. — Camisinha?
— Primeira gaveta.
pegou a camisinha e a entregou a Tom, deixando que ele a colocasse enquanto ela tirava as peças íntimas que ainda vestia. Ele se arrumou melhor na cama e subiu em seu colo, dobrando os joelhos no colchão e se posicionando contra Tom.
— Você pode me tocar. Onde você quiser.
A reação de Tom foi quase instantânea. Enquanto ela se encaixava melhor e lentamente se deixava ser totalmente preenchida por ele, as mãos de Tom a seguraram com força, quase machucando, deliciosamente doloroso. Ela começou a se mover, seu corpo inteiro queimando, pedindo mais força, mais velocidade, desesperado pelo prazer. não sabia porque eles tinham esperado tanto por aquilo, porque tinham demorado tanto para estarem em um quarto, gemendo o nome um do outro.
, eu não vou aguentar muito tempo.
— Tudo bem — ela gemeu e, com uma mão, segurou-se mais firme nele, começando a se tocar com a mão livre.
Tudo era prazer.
A cada vez que ela se empurrava contra Tom, quando ela gemia o nome dele sem se preocupar se alguém iria ouvir, quando sentia os lábios de Tom em seus seios, dando beijos e mordidas desconexas. O corpo de estava desesperado, implorando por seu prazer, então, com a ajuda de Tom, ela tentou aumentar um pouco mais a velocidade.
Eles atingiram o ápice praticamente ao mesmo tempo, como se tudo realmente fosse perfeito. se deixou derreter nos braços de Tom, impressionada por ele conseguir mantê-la ainda sentada em seu colo. A testa dela encontrou a dele, as respirações descompassadas se encontrando. E mesmo que se sentisse um pouco mole, leve, segurou o rosto de Tom, delicadamente, e o beijou.
— Você quer eu eu fique duro de novo? — ele brincou após partirem o beijo.
— Quem me dera — ela riu enquanto se afastava dele, sentindo um incômodo vazio, mas se levantando e pegando a camisinha usada, indo até o banheiro da suíte e a descartando.
Ao voltar para o quarto, encontrou Tom deitado, os olhos fechados, parecendo sereno. subiu na cama, se deitando ao lado e começando a fazer um leve carinho no peito dele, tentando ser o mais delicada possível.
— Como você está se sentindo? — a voz de era incrivelmente doce e reconfortante. — Está tudo bem?
Os olhos dele abriram novamente e ele virou o rosto na direção de , esboçando um adorável sorriso. Ela nunca tinha visto-o tão adorável, o sorriso tão sincero e doce. Tom parecia um garoto quase inocente sorrindo daquela maneira. Não fosse, claro, o fato de que eles tinham acabado de fazer um sexo que com certeza estava entre os melhores que já havia feito e, com um pouco mais de prática, Tom com certeza entraria em seu top 3.
— Você é perfeita — foi o que ele falou, fazendo os olhos dela arregalarem em surpresa.
Ele nunca tinha elogiado-a daquela maneira.
Nunca.
— Eu vou pegar alguma coisa pra você beber — foi a única resposta que ela conseguiu dar antes de também sorrir e se levantar.
Sem muita paciência para separar roupas, acabou colocando sua calça e a blusa de Tom, não se importando em vestir o sutiã. Caminhou até a cozinha, descalça, e abriu a geladeira, pegando uma garrafa de suco de laranja que eles tinham comprado e enchendo um copo, esperando que o ajudasse a repor os nutrientes – e às vezes açúcar podia ajudar muito.
? — Harrison também apareceu na cozinha, depositando algumas garrafas vazia de cerveja na pia.
— Oi, Harrison — ela sorriu simpática, ciente de que estava descalça, com uma blusa que claramente não era sua e sem o bojo do sutiã ajudando no formato dos seios. Mas tudo bem, ela não queria disfarçar nem fingir que nada tinha acontecido.
— A gente tava pensando em ir jantar em um restaurante no centro. Você e o Tom vão querer ir?
— Hum… — ela ponderou, olhando para o copo de suco em sua mão e pensando em como Tom parecia meio “enfraquecido”. — Vocês vão que horas?
— Pensamos em sair daqui umas oito.
Ela olhou a hora, vendo que eles teriam pouco mais de uma hora para tentarem ficar prontos.
— Acho que sim. Eu vou falar com ele, qualquer coisa eu aviso — ela sorriu para o amigo, que apenas devolveu o sorriso enquanto ela se afastava e voltava para o quarto.
Entregou o copo de suco para Tom assim que entrou no cômodo, vendo-o esvaziá-lo incrivelmente rápido. Após apoiar o copo vazio na mesa de cabeceira, Tom se jogou novamente na cama. o acompanhou, deitando ao seu lado e o abraçando, rindo levemente quando Tom pareceu se aninhar mais contra ela.
— O pessoal vai sair pra jantar daqui a pouco. Você quer ir? — ela começou a brincar com os cabelos dele. A essa altura já tinha percebido o quanto ele gostava quando ela fazia isso, portanto tinha decidido que faria com frequência.
— Claro, só… Vamos ficar aqui só mais um pouquinho.
— Vamos, depois a gente toma um banho — ela suspirou, abraçando um pouco mais Tom contra seu corpo.
— Você me cansou, . Muito.
— Tem certeza? — ela brincou e depositou um beijo no pescoço dele, fechando os olhos antes de continuar: — Porque, da próxima vez, eu não vou ser tão boazinha.

XXII

Voltar para rotina era deprimente.
Durante suas duas semanas de férias, teve os dias mais incríveis desde que tinha chegado na Inglaterra. A viagem tinha sido completamente perfeita, e ela se sentia mais conectada aos amigos do que nunca. Depois que voltou, acabou se rendendo e passando a semana restante na casa de Tom.
não sabia exatamente o que estava acontecendo. Sentia que as coisas entre eles tinham mudado completamente e, ao mesmo tempo, estavam exatamente da mesma maneira. Querendo ou não, submissão e dominação – além de outras práticas que eles estavam experimentando – criavam um certo laço entre seus praticantes, a tensão durante o ato, era… bizarro. Ela se sentia mais conectada a Tom do que a qualquer outra pessoa que tinha conhecido naquele país.
Mas, ao mesmo tempo, as coisas eram exatamente as mesmas. e Tom ainda se provocavam sempre que tinham a oportunidade, raramente agiam como casal – em alguns momentos eles eram um pouco casal, ela admitia – e, no geral, ela ainda se sentia mais amiga de todas as outras pessoas que tinha conhecido.
Honestamente, ela não tinha ideia de como explicar nada daquilo, mas tinha de fato se prometido de que não iria questionar muito. Além disso, estava bastante confortável com a maneira como tudo se desenrolava. Ela gostava de saber que Tom e ela não estavam se importando com rótulos e nem analisando sentimentos de maneira mais profunda porque, para ser sincera, ela não acreditava realmente que esses sentimentos estavam ali.
Porém, naquele momento, Tom e o que quer que acontecia entre eles não eram muito importantes. Era terça-feira, oito de Agosto, aniversário de três anos de Liam, e a única coisa que poderia descrever a casa dos O’donnell era caos completo.
Rachel e Charlie tinham tirado o dia de folga e, com a ajuda de , eles organizavam a casa inteira na mais perfeita festa de aniversário temática de Patrulha Canina, um dos desenhos que Liam mais amava – desse gostava porque ela amava cachorro. E não estava sendo um trabalho fácil.
Aparentemente alguns parentes O’donnell também chegariam em poucas horas: duas irmãs de Rachel, o irmão mais velho de Charlie e os pais do casal eram presenças mais do que confirmadas. Eles também tinham convidado os Holland, que também tinham garantido que iriam, o que deixava levemente tensa porque ela era esse tipo de idiota que sofria por antecipação por algo que provavelmente sequer a faria sofrer no fim.
! — Rachel estava com os cabelos completamente desalinhados, os fios claros parecendo possuir vida própria. — O bolo! Nós temos que ir buscar o bolo!
— Vamos buscar o bolo! — piscou meio desesperada. A festa estava marcada para às 18h e faltava menos de uma hora.
— Você vai precisar ir sozinha, o Charlie vai ter que ir no buffet porque eles mandaram os doces completamente errados e vamos ter que destrocar, e eu preciso ficar aqui porque minha mãe disse que daqui a pouco já chega — Rachel mal respirava entre as falas. — Você precisa me salvar, !
— Rachel, eu não vou conseguir trazer o bolo sozinha! — sentia-se totalmente desesperada. — Eu não posso só colocar o bolo no banco traseiro e deixar assim, precisa de alguém pra tomar conta.
— O Lewis vai com você!
— Eu vou o quê? — o adolescente, que não estava ajudando em absolutamente nada relacionado aos preparativos, piscou confuso. — Eu não quero ir!
— Mas você vai — Rachel usou a voz de mãe, então Lewis acabou não tendo muita escolha.
Não demorou muito para que estivesse no carro, com Lewis emburrado ao seu lado. Ela ligou o som, xingando mentalmente os O’donnell por terem encomendado o bolo em um local diferente do buffet que entregaria os salgados e doces porque aquilo simplesmente não fazia sentido.
— Que saco, eu odeio quando é aniversário do Liam — Lewis revirou os olhos. — A casa fica cheia de parentes, eu odeio parentes.
— Sério? — riu. — Eles dormem aqui?
— Meus avós e a tia Carmen. E ela ronca — riu ainda mais. — Mas seu quarto era de hóspedes, então geralmente alguém dormia lá. Meus pais falaram alguma coisa?
ficou em silêncio, sentindo uma sensação ruim. Os O’donnell não tinham comentado absolutamente nada de alguém dormir no que era, atualmente, o quarto de . E a ideia de que, de última hora, eles a tirariam de lá ou colocariam alguém para dormir com ela era completamente incômoda.
— Não falaram nada.
— Estranho…
ignorou a sensação ruim que estava em seu estômago e seguiu o caminho que o GPS apontava, finalmente chegando no local que tinha feito o bolo de Liam. Certo, então aquele bolo era simplesmente maravilhoso e agora ela entendia porque os O’donnell tinham feito questão de encomendar naquele local.
Na volta, Lewis foi obrigado a ir sentado no banco de trás para garantir a segurança do bolo, o que deixou ainda mais mau humorado, então acabou colocando a playlist de músicas dele, uma feita totalmente de kpop. Para alguém que não estava acostumada com esse gênero musical, ela acabou gostando muito mais do que achou que aconteceria.
Quando chegaram novamente na casa, a encontraram lotada, com muita gente branca parecendo totalmente igual. foi recebida com um enorme sorriso por Charlie, que aparentemente tinha conseguido trocar os doces, tomar um banho e se arrumar para a festa. Claro que era a única atrasada da história.
Sem nem cumprimentar ninguém direito, correu para o quarto e tomou um banho rápido, tentando se arrumar da maneira mais apresentável possível, colocando um dos vestidos que tinha comprado durante a viagem e que ela tinha se apaixonado completamente.
Após descer, foi apresentada a todos os parentes O’donnell como “a Au Pair que salva nossas vidas todos os dias”, o que a deixou levemente boba e orgulhosa de si mesma. Rachel e Charlie sabiam como deixá-la totalmente sem graça. Mas, como esperado, a festa foi sobre cuidado de Liam todo o tempo, deixando os pais do garoto fazerem a social em paz, entretendo parentes e demais adultos.
mal conseguiu tempo para conversar com Harry, Sam e Tom, que estavam em um canto um pouco mais afastado, rindo o tempo todo. Às vezes algum parente de O’donnell ia conversar com Tom, os mais jovens – primos de idade próxima de Lewis – parecendo completamente encantados por ele. ria sozinha nesses momentos. Ela já tinha se acostumado tanto com a presença do rapaz que constantemente se esquecia que ele era ridiculamente famoso, e isso a fazia se perguntar como eles nunca tinham parado em nenhum noticiário juntos.
E, pensando bem, os locais que eles frequentavam costumavam ser o mais escondido ou exclusivo o possível, o que fazia completo sentido. Era a maneira de Tom tentar manter o máximo de sua vida pessoal longe da mídia. Além do que, ela não sabia realmente o que mais acontecia nos bastidores da vida dele, se existia algum tipo de suborno envolvendo fotos de paparazzi ou… vai saber.
Foi apenas após o parabéns e o bolo ser cortado, quando todos pareciam já cansados da festa, que Charlie se aproximou de como quem não queria nada, rindo para o aniversariante que estava sentado de frente para ela enquanto lhe dava mais uma colherada do bolo.
— Curtindo a festa? — ele sorriu e quis, de todo coração, responder que não. Ela tinha passado a festa inteira cuidando do aniversariante, aquilo estava longe de se encaixar em curtir. Mas apenas sorriu e concordou com a cabeça, deixando Charlie continuar: — Então, deixa eu te falar… Meus pais vão dormir aqui, eles moram um pouco mais longe, fica meio difícil de eles voltarem.
Ah. Lá estava. O que Lewis tinha lhe avisado. Merda, por que eles tinham esperado até aquele momento para conversar sobre aquilo? Porque não poderia dizer não, claro. Os pais de Charlie iam dormir naquela casa, no quarto de hóspedes – o quarto de -, gostasse ela ou não. E isso porque nem tinha sido comentado sobre a tal tia Carmen.
— Claro — ela forçou um sorriso antes de dar mais uma colherada para Liam.
— A gente pensou em te deixar dormir no quarto do Lewis, e colocamos pra ele um colchão no quarto do Liam. Tudo bem pra você?
Apenas de lembrar como Lewis parecia emburrado com tudo aquilo, sabia na hora que não era uma boa ideia. Pelo lado positivo, parecia que a tia Carmen não dormiria ali dessa vez. Ela suspirou e olhou pela sala, encontrando primeiro Lewis e Paddy em um canto, rindo juntos e conversando animadamente – aparentemente o melhor amigo era o único capaz de fazer Lewis sorrir naquela festa -, e em seguida encontrando o olhar de Tom, que apenas sorriu para ela antes de voltar a conversar com os gêmeos.
— Na verdade eu pensei em dormir na Ayumi, Charlie — ela voltou a encarar o O’donnell, criando a mentira na hora. — Eu volto amanhã cedo, não precisa se preocupar.
— Não precisa dormir fora, , a gente consegue dar um jeito pra você ficar à vontade.
— ‘Tá tudo bem, sério — ela ainda forçava tanto o sorriso que seus bochechas começavam a doer. — Eu já tinha combinado com ela de qualquer jeito.
— Tudo bem, quer que eu te leve?
— Não precisa, o Tom precisa pegar um negócio que ficou com ela, ele vai aproveitar pra me dar carona.
— Tudo bem então — Charlie pareceu aliviado por saber que não teria praticamente nenhum trabalho. Liam, que já tinha terminado de comer o bolo, estendeu os braços para o pai, pedindo colo, ao que foi atendido prontamente, praticamente um sinal de que estava dispensada pelo resto da noite. — Amanhã pode chegar mais tarde, você já fez muita hora extra hoje.
Ela apenas riu antes de se levantar a caminhar até os Holland, vendo-os sorrir enquanto ela se aproximava.
— Livre do serviço de babá? — Sam sorriu, lhe dando um abraço rápido, sendo rapidamente imitado por Harry.
— Finalmente — ela suspirou antes de se virar para Tom e falar um pouco mais baixo, com medo de que algum outro convidado além dos Holland ouvisse: — Posso dormir na sua casa hoje?
— Claro — apesar de responder quase automaticamente, Tom parecia confuso. — Aconteceu alguma coisa?
— Os pais do Charlie precisam do quarto de hóspedes.
— E eles só falaram isso agora? — as sobrancelhas de Harry levantaram, meio incrédulo.
— O quarto é deles — balançou os ombros, vendo Sam revirar os olhos e Harry e Tom se encararem rapidamente. — Enfim, eu disse que ia dormir na Ayumi, mas que você ia me levar lá, então quando vocês forem embora, eu vou junto.
O que não demorou muito para acontecer. Logo estava com uma mochila arrumada com o básico para passar a noite fora, se despedindo de mais O’donnells do que estava acostumada e seguindo para a casa de Tom a desculpa de que o carro tinha ficado por lá, então eles iriam de lá mesmo.
— Oi, — Harrison a cumprimentou com um sorriso simpático assim que eles chegaram. Ele vestia apenas uma samba canção, seu traje de dormir, algo que tinha acostumado na semana que tinha passado com eles. — Vai passar a noite aqui?
— Os O’donnell precisam do quarto de hóspedes — foi Tom quem respondeu por ela. — E como a é boba, ela nunca nega nenhuma das coisas absurdas que eles pedem pra ela fazer.
— Tem alguém aqui pedindo a sua opinião, Tom? — ela levantou as sobrancelhas. — Porque eu não ouvi ninguém perguntar o que você acha disso.
— Não é uma opinião, , é um fato — Tom apenas balançou os ombros. — Existe uma grandíssima diferença.
— Aproveita que você ama fatos e deixa um currículo no IBGE, vai que te contratam.
— Que porra é IBGE? — Tom pareceu confuso e se sentiu um pouco triste por perceber que aquela piada sarcástica só fazia sentido no Brasil.
— Que bom que você vai dormir aqui, — Harrison riu deles porque era impossível não rir. — Prometo que amanhã eu faço um café da manhã especial pra você.
— O que seria dessa casa sem você, Haz? — foi até o loiro e lhe deu um rápido abraço, sentindo-se um pouco mais feliz.
Os três conversaram por mais algumas horas, mal percebendo o tempo passar. achava um absurdo como na Inglaterra aparentemente eles não tinham o costume de levar uma vasilha com sobras da festa para alguém que não tinha conseguido comparecer, e aparentemente Harrison e Tom achavam esse costume hilário.
Era quase meia-noite quando já não aguentava mais de sono e disse que precisava mesmo deitar. Os dois rapazes, que também já pareciam meio sonolentos, apenas concordaram que era uma boa hora para dormirem.
Como tinha acostumado, foi com Tom para o quarto do rapaz, se fechando no banheiro da suíte e colocando o pijama, escovando o dente e prendendo um pouco o cabelo. Era uma prática que ela tinha adquirido depois de uma noite em que Tom literalmente babou em metade seu cabelo. Depois que ela saiu, foi a vez de Tom usar o banheiro. Ela não fez cerimônias antes de se deitar, puxando o edredom e descansando a cabeça nos trezentos travesseiros que ele deixava na cama.
Não demorou muito para que a luz fosse apagada e ela sentisse o colchão afundar um pouco quando Tom se deitou ao seu lado. Praticamente no automático, quase que por instinto, se aproximou mais do rapaz, sentindo os braços dele a puxarem para um abraço, deixando que ela se aninhasse a seu peito.
— Você ‘tá bem? — a voz dele não passou de um sussurro baixo contra seu ouvido.
Uhum — ela respondeu simplesmente, sentindo-se bem com o calor que o corpo dele emanava. — Extremamente cansada, mas bem.
— Certo — os lábios de Tom encontraram o ombro de , depositando um beijo carinhoso. — Se você precisar de alguma coisa, me avisa.
— Obrigada — ela sorriu na escuridão, fechando os olhos e sentindo-se estranhamente confortável.
Quase como se estivesse em casa.

XXIII

O meio de setembro já dava fortíssimos indícios de que o verão estava chegando ao fim, para a profunda tristeza de . O vento estava um pouco mais gelado durante a noite, exatamente como o outono deveria ser. A parte realmente ruim era que a Inglaterra não brincava em serviço quando o assunto era frio, então às vezes tinha essa horrível sensação de que acabaria congelando a qualquer momento.
As aulas do curso de fotografia já tinha voltado, o que era um fator positivo para o humor da brasileira. Era bom porque, além de fotografar muito mais do que ela tinha feito nas férias, também ganhava alguns bons momentos para apenas jogar conversa fora com Ayumi, e passar tempo com a amiga era sempre maravilhoso; fazia com que sentisse uma sensação familiar e um calor no coração.
Naquele momento, por exemplo, elas estavam sentadas no chão do estúdio do curso, esperando a vez delas poderem fotografar o modelo que estava posando para a sala. estava com a cabeça apoiada no colo de Ayumi, deixando a amiga brincar com seu cabelo.
— Eu queria que, completando três anos de idade, o Liam ficasse automaticamente uma criança muito mais comportada — suspirou, lembrando do dia anterior em que o garoto tinha rabiscado alguns livros de Charlie e feito o homem surtar completamente. — Mas claro que a vida não é assim.
— Eu sinto muito — Ayumi enrolou um dos cachos de no indicador. — Você tem saído muito de lá?
— Praticamente todo fim de semana eu fico na casa do Tom. Eu vou pra lá sábado depois do curso, volto pros O’donnell segunda de manhã.
— E eles não falam nada? — as sobrancelhas da inglesa franziram.
— Eu sempre invento uma desculpa, mas… Acho que eles não ligam o bastante.
— Certeza? Porque, agora que você não tá mais lá aos domingos pra fazer hora extra, achei que eles iriam reclamar — a brincadeira de Ayumi rendeu um tapa por parte de , que apenas revirou os olhos. — Aliás, como estão as coisas entre você e o Tom?
— Igual sempre foram — claro que aquilo fez com que Ayumi levantasse as sobrancelhas, bastante incrédula. Justo. — Nós não mudamos muito, a gente ainda discute com alguma frequência, essas coisas. Só mudou que agora a gente transa.
— E é só isso? Vocês são tipo… um casal?
— Eu diria que não — ficou pensativa por um tempo, tentando relembrar os últimos encontros com Tom, tentando não se sentir obrigada a definir algo. — Eu não acho nem que a gente se gosta desse jeito. A gente só… o sexo é bom. E é isso.
— Isso é coisa de alossexual? — a pergunta de Ayumi fez as duas rirem, e logo era a vez delas fotografarem o modelo, o assunto precisando ficar para depois.
Como de costume, voltou para casa caminhando, pensando que logo teria que começar a usar roupas mais pesadas por conta do frio e odiando completamente aquilo. Tudo o que ela queria era seu verão brasileiro, o calor, reclamar o tempo todo sobre estar suando e como o ventilador não ajuda em absolutamente nada. Como ela sentia saudades de seu país problemático…
Ao chegar nos O’donnell, encontrou a casa completamente vazia, o que era totalmente novidade. Pelo que se lembrava, nunca tinha encontrado a casa assim, ao menos não sem aviso prévio dos moradores. Sem dar muita importância, foi direto para o próprio quarto, começando a separar as roupas que levaria para passar mais um fim de semana na casa de Tom.
Ela se perguntou se eles estavam sendo grudentos demais, odiando a ideia de que talvez estivessem. Pensou sobre o que Ayumi tinha perguntado e sobre o que eles eram. sabia que gostava de Tom, de certo modo. Ela amava odiá-lo, no geral se divertia com as brigas bobas, amava a dinâmica dom-sub e em alguns momentos eles eram até fofos. Mas ela não achava que eles pudessem ser mais do que aquilo.
Quando pensava em Tom, não conseguia imaginá-lo como um namorado. Não queria imaginá-lo como namorado. Ela nunca tinha namorado muito na vida, geralmente seus relacionamentos eram exatamente aquilo, apenas sexo, cada um seguindo sua vida, até que a pessoa dissesse que tinha conhecido alguém e tudo acabava. E estava tudo bem, preferia que fosse assim.
E estava tudo bem que também fosse assim com Tom.
— Você vai dormir no Tom de novo? — a voz de Lewis surgindo de absolutamente lugar nenhum fez com que gritasse de susto, pulando para trás. Ao olhar para a porta, viu o adolescente parado com um sorriso divertido no rosto.
— De onde caralhos você surgiu, Lewis? — levou a mão ao próprio peito, tentando acalmar os batimentos.
— Eu tava no meu quarto — ele apenas balançou os ombros. — Então, vai passar o resto do fim de semana no Tom?
— Quem disse- — o rosto dela ficou instantaneamente quente. — Quem disse que eu vou pro Tom?
— Você me contou que vocês estavam ficando, daí vocês viajaram juntos e desde então você não fica mais em casa nos fins de semana. É juntar dois mais dois — Lewis suspirou antes de complementar: — Isso e o fato de que o Paddy ouviu o Tom conversando com o Harry sobre você dormir na casa dele.
— Entendi — apenas soltou, sabendo que não poderia continuar mentindo, e nem tinha motivos para tanto. Lewis já sabia demais. — Vou. Mas não conta pros seus pais que é no Tom que eu tô ficando, por favor.
— Relaxa, . Então… você tá namorando o irmão do Paddy?
— Não.
— Só sexo?
— Eu- — ela se cortou, levemente desconfortável de falar sobre sexo com um garoto de quinze anos. Mas, se parasse para pensar, ela mesma tinha perdido a virgindade aos dezesseis, então não estava em um assunto tão fora da realidade dele. — É, só sexo. Mas enfim, o que você quer no meu quarto?
— A gente vai jantar nos Holland, meus pais falaram pra você ir também — como acabou ficando em silêncio tempo demais para ser confortável, Lewis suspirou e continuou: — O Tom vai estar lá também, se isso te anima mais.
Claro que me anima saber que eu vou estar com minha host family na casa dos pais do cara pra quem eu to dando — ela ironizou, se arrependendo da escolha de palavras ao ouvir a risada alta do adolescente preencher seu quarto. — Mas se eu recusar pode ser estranho, então…
No fim, se deu por vencida, deixando a mochila pronta para ir para casa de Tom após o jantar. Com os pais dele. Ela não tinha um pingo de vergonha na cara.
Quando ela e Lewis chegaram na casa da frente, Charlie, Rachel e Liam já estavam lá, além de todos os Holland e Harrison, como de costume. Eles logo estavam sentados em uma enorme mesa, rindo e conversando juntos, como se fossem duas família felizes. , claro, estava ajudando a dar comida para Liam, que nos últimos tempos estava ficando cada vez mais comportado à mesa. Fosse os três anos que deveriam ser mágicos ou apenas o costume, ela ficava completamente feliz por isso.
Após o jantar e sobremesa, todos se reuniram na sala para conversar mais, jogar alguns jogos bobos, rir das piadas que Dominic contava, ouvir as histórias bizarras do jornal que Rachel trabalhava. Aos poucos os grupos de conversa começavam a se separar. Paddy e Lewis já tinham ido jogar videogame, como absolutamente sempre. Sam tinha se despedido de todos e ido para casa de Elysia, também como sempre. Harry, Harrison e Tom tinham decidido ir para o quintal, convidando a se juntar a eles, ao que ela acabou aceitando.
Eles ficaram mais um tempo conversando sobre como as coisas estavam loucas, como aparentemente Tom iria gravar um novo filme, mas que seria filmado ali mesmo, na Inglaterra, e o alívio que ele sentia por não precisa ir para os Estados Unidos novamente. mais ouvia do que falava, se sentindo um pouco de fora. Por mais que se sentisse à vontade com os três, não era a mesma coisa de ter também Ayumi, Sam ou Olivia durante as conversas.
Pediu licença ao trio, indo até o banheiro apenas para poder jogar um pouco de água no rosto. Porém, logo após entrar e tentar fechar a porta, sentiu algo a impedir. Mal teve tempo de fazer um pouco mais de força, vendo Tom entrar no banheiro atrás dela e trancar a porta, prendendo os dois ali.
— Você tá bem? — ele a encarou estranho, quase como se estivesse preocupado.
— Claro. Por quê? — ela estava ignorando o fato de que ela e Tom estavam trancados em um banheiro na casa dos pais do rapaz.
— Você tá quieta — Tom balançou os ombros, se aproximando mais dela, prendendo-a contra o móvel da pia. — Geralmente você não cala a boca.
— Saudades de ouvir minha doce voz, Tom? — abriu um sorriso irônico. — Tá ficando dependente demais pro meu gosto.
— Retiro o que eu disse, eu prefiro quando você fica quieta — foram as doces palavras dele antes de puxar para um beijo nada delicado.
Ela se deixou perder nos lábios dele, deliciando-se no beijo e na maneira como os quadris de Tom pressionavam os dela contra a pia, quase doloroso, quentes. sentiu as mãos de Tom passeando pelo corpo dela, a tocando da maneira como ele já havia aprendido que ela amava e que a deixava completamente perdida.
achava ridículo o quanto o desejava, o quanto, a cada novo beijo que eles trocavam, seu corpo começava a arder em luxúria, implorando para que ela se entregasse totalmente, para que deixasse Tom entrar nela e fazê-la gemer daquela maneira que ele conseguia tão bem. Por isso, quando sentiu Tom abrir sua calça, não conteve um gemido surpreso e necessitado.
— O que você tá fazendo? — ela perguntou enquanto ele abaixava o zíper dela e afastava suas peças de roupa apenas o suficiente para poder tocá-la.
— Te dando um motivo para parar de ficar tão quieta — o sorriso dele era completamente imoral e deixava excitada simplesmente porque ela sabia o que vinha a seguir.
— Os O’donnell estão a dois cômodos de distância, Tom — ou talvez fossem três, ela não tinha contado. — Seus pais estão aqui. Você ficou maluco.
— Então eu sugiro que você tente não gemer muito alto — ele riu antes de deixar que a mão invadisse a intimidade de , conseguindo facilmente deslizar sem que os tecidos o impedissem.
A mão de segurou o braço de Tom com força, e suas pernas abriram um pouco de maneira quase automática, recebendo com prazer as carícias que Tom agora fazia nela, a tocando praticamente com maestria, como ele já tinha feito tantas vezes antes, seguindo exatamente as orientações dela. amava como Tom costumava ser um excelente aluno.
— Você é maluco — ela gemeu quando as mãos deles começaram a se movimentar mais rapidamente, se obrigando a morder o próprio lábio para tentar se conter. sentiu-o empurrá-la para cima, a obrigando a subir na bancada, torcendo com todas as forças que tinha para que aquele móvel suportasse seu peso. — Se- Se alguém ouve- Nós-
— É só você ficar quietinha que ninguém ouve — ele riu e sentiu na mesma hora o instinto de puní-lo, mas aquele não era o momento.
E mesmo que fosse, ela sentiu os dedos de Tom invadindo-a e logo foi obrigada a morder o ombro dele pra conter os sons que insistiam em escapar de sua garganta. Os quadris dela mexeram necessitados contra a mão de Tom, suplicando por mais e sendo atendida. Enquanto Tom parecia determinado a levá-la a loucura, tudo o que conseguia pensar era o quanto ela estava tão ridiculamente perto de atingir seu ápice.
Enquanto ela erguia novamente a cabeça, não existia nada além dela e Tom. Não importava que aquela era a casa dos pais dele, se ela estava sentada na pia do banheiro e como aquilo definitivamente nunca tinha sido algo que ela sequer tinha imaginado. Naquele momento existiam apenas e Tom no mundo, e ela estava completamente entregue a ele.
sentiu a mão livre de Tom tampar sua boca quando o prazer se tornou demais para ela, abafando quase completamente os sons completamente obscenos que ela soltou. não se permitiu aproveitar muito a sensação que o orgasmo deixava em seu corpo, descendo da pia rapidamente – sem deixar de admirar a resistência do móvel – e, com a ajuda de Tom, limpou tudo o máximo que conseguiu, até mesmo jogando alguns produtos de limpeza que encontrou no armário apenas para tentar amenizar a própria consciência.
— Você é maluco — bufou, esfregando a pia feito louca. — Sério.
— Quem estava gemendo e pedindo mais era você.
— Sério, Tom, isso foi-
, não é por nada, mas você não é a primeira pessoa com quem eu transo nessa casa — Tom bufou e revirou os olhos. — Eu morei aqui por um bom tempo também, caso você não saiba.
— Eu sei, eu só… — ela soltou um suspiro, sem saber muito bem como completar a frase, sem saber como se sentia consigo mesma por deixado aquilo acontecer logo ali, ou ainda mais por ter aproveitado tanto e, principalmente, por não se sentir realmente arrependida.
— Você vai pra minha casa depois? — a pergunta de Tom a fez rir e revirar os olhos.
— Óbvio que eu vou. Eu preciso te castigar por ter sido tão abusado hoje.
Tom riu e a beijou rapidamente antes de sair do banheiro, a deixando sozinha novamente. trancou a porta de novo e encarou o próprio reflexo no espelho. Aquilo tinha sido tão rápido que ela parecia exatamente a mesma de quando tinha entrado, os fios de cabelo ainda no lugar. Como se absolutamente nada tivesse acontecido. Ela suspirou e jogou água no rosto, rindo sozinha de si mesma.
Era incrível como ela ótima em tomar péssimas decisões.

XXIV

O barulho insistente alto de alguém parecendo esmurrar a porta acordou em um pulo. Os olhos dela abriram de uma vez, recebendo muito mal a pouca iluminação. Ela se sentou na cama, puxando parte do edredom e vendo Tom se mexer ao seu lado, parecendo ainda não estar muito acordado.
— Tom. Tom. Tom! — ela cutucou o rapaz, ouvindo-o apenas soltar um gemido sonolento. — Merda suspirou antes de se levantar, pegando uma camisa qualquer de Tom, que cobria pouco menos de metade de suas coxas.
Assim que abriu a porta do quarto, sentiu Harrison a empurrar de volta, batendo a porta atrás dele, a força que o rapaz tinha aplicado quase a fazendo cair no chão.
— Harrison, que por- — ela começou a reclamar, mas logo a mão de Harrison estava sobre sua boca, cobrindo-a.
— O pai do Tom tá aí! — a frase foi dita em um sussurro nervoso, fazendo Tom sentar na cama instantaneamente, parecendo completamente acordado.
— O que meu pai tá fazendo aqui? — Tom pulou da cama, indo até os dois. Agora o idiota acordava.
— Aparentemente você tinha dito que a gente ia jogar golfe com ele hoje — Harrison revirou os olhos. — Como você se atrasou, ele veio te buscar.
— Você combinou de ir jogar golfe com seu pai hoje? — afastou a mão de Harrison da própria boca e encarou Tom, se sentindo um pouco culpada sem nem saber o motivo. — Era só me avisar que eu não passava a noite aqui, Tom.
— Eu esqueci — Holland deu um tapa na própria testa e bufou. — E depois que a gente- Eu apaguei totalmente, esqueci de colocar o celular pra despertar.
— Pois você trate de arrumar uma desculpa, porque seu pai tava doido pra vir te acordar, eu tive que inventar três mentiras diferentes para convencê-lo a ficar esperando na sala e não te pegar na cama com a babá-vizinha dele!
— Inferno — Tom rapidamente encontrou um shorts, colocando rapidamente ante de falar um “espera aqui” para e sair do quarto com Harrison.
bufou se sentou na cama, se perguntando o que poderia fazer naquele momento. O lado negativo de esconder algo de várias pessoas era justamente perder muito da própria liberdade. Mas não tinha como ser diferente, não naquele momento. Ela estava na Inglaterra como au pair, trabalhando. Não era um passeio em que ela podia fazer a merda que quisesse e viver sem consequências.
Do tipo transar com o filho do vizinho da frente da host family.
— logo a porta estava abrindo novamente, e Tom entrou no quarto, parecendo mais calmo. — Eu vou ter que ir no golfe de qualquer jeito, meu pai ‘tá esperando lá embaixo.
— Tá, eu… — como raios ela sair dali sem que Dominic a visse?
— Eu disse pro meu pai que só preciso tomar um banho e nós já vamos — e aquilo não ajudava em nada. Ela praticamente não teria tempo para pensar em algo. Estava permitido ela ficar brava com Tom por não estar ajudando-a com isso?
— E o que você imagina que eu vá fazer? Pular a janela?
— Fica aqui em casa — a sugestão parecia ainda menos agradável que pular a janela. — A gente nunca volta muito tarde, você pode ficar vendo TV, jogar, o que você quiser. Tem aquele resto de pizza na geladeira, a noite a gente come uma coisa decente.
— Você quer que eu fique aqui sozinha?
— É melhor do que voltar pros O’donnell e cuidar do Liam na sua folga — Tom balançou os ombros e foi até o guarda-roupa, pegando uma toalha limpa e indo para o banheiro.
— Espera, vou entrar com você no chuveiro e a gente discute o que vamos fazer — ela se levantou, começando a segui-lo.
— Nem pensar — ele parou na porta, impedindo de de entrar no banheiro com ele.
— Qual é, Tom, a gente tá sem tempo.
Exato — ele estreitou os olhos. — Eu preciso tomar banho rápido, se você entrar comigo, não vai ter condição de ser rápido. Todas as vezes que nós fomos tomar banho juntos terminou em sexo. Não, eu vou sozinho.
apenas bufou quando Tom fechou a porta do banheiro praticamente na cara dela. Quase se arrastando, voltou para a cama e se deitou, encarando o teto branco, rindo sozinha ao lembrar da reação de Tom quando ela sugeriu que eles pendurassem um gancho ali para mudar um pouco as coisas.
Em poucos minutos, Tom estava novamente saindo do banheiro, se secando rapidamente e colocando uma das roupas de golfe, com direito àquela luvinha ridícula e, meu deus, como golfe era um esporte idiota. Não que fosse falar isso em voz alta, ele tinha direito que gostar da porcaria que quisesse e o fizesse feliz, mas ela julgaria. Internamente.
— Você vai ficar aqui? — ele perguntou enquanto penteava o cabelo de um jeito que ficava ridículo e ela odiava.
— Vem cá — ele foi até a cama e ficou de joelhos no colchão, ficando praticamente da altura de Tom, começando a arrumar o cabelo dele. — Vou ficar, mas saiba que odeio essa coisa de ter que ficar fingindo que eu não existo.
— Ou a gente faz isso, ou confessa logo pra todo mundo que estamos namorando.
percebeu que Tom não queria ter dito aquilo no exato momento em que ela parou de mexer do cabelo dele e se afastou, sentindo como se o corpo inteiro dela estivesse completamente congelado. Ela olhou em seus olhos, tentando encontrar qualquer vestígio de brincadeira, mas não conseguiu. Aquilo não podia ser real.
— Que nós estamos o quê? — ela repetiu, percebendo que a voz ela soava ridiculamente fraca.
— Foi modo de falar — o desespero de Tom em se corrigir seria cômico se não fosse trágico. — Esquece.
— Não brinca com uma coisa dessas, Tom.
— E qual seria o problema? — Tom desviou o olhar e se afastou, voltando a se vestir, fazendo um incrível esforço para não olhar mais para . — Você vem pra minha casa todo fim de semana, nós transamos, dormimos juntos, saímos com os mesmos amigos… Quer dizer, quais são as check boxes de um namoro?
— É diferente.
— Sério? — Tom finalmente pareceu criar coragem de encará-la novamente, abrindo um sorriso sarcástico. — Me explica.
— A diferença é que, para ser um namoro, as duas pessoas precisam estar apaixonadas, e eu não ‘tô apaixonada por você. E você também não está apaixonado por mim, né? — a falta de resposta de Tom fez o coração de afundar. Isso não podia estar acontecendo. Ela respirou fundo e engoliu em seco antes de praticamente sussurrar: — Tom, você tá apaixonado por mim?
— Não — a resposta dele era seca e foi seguida de um riso irônico e doloroso. — Mas eu gosto de você, aparentemente mais do que você gosta de mim.
— Tom-
— Eu preciso ir, , antes que meu pai suba aqui — Tom a cortou e se aproximou, ficando de novamente de frente para ela, que ainda estava de joelhos na cama. — Eu não vou te prender na minha casa, a chave do Haz vai ficar no chaveiro, então se você preferir ir embora, fica à vontade. Mas, por favor, fica. A gente conversa melhor quando eu voltar.
Por um segundo, achou que Tom ia beijá-la. Ele se inclinou levemente em sua direção, como já tinha feito muito mais vezes do que ela conseguia contar, mas parou no meio do caminho e se afastou novamente, pegando os equipamentos de golfe e saindo do quarto, batendo a porta atrás de si.
Pela milésima vez só naquela manhã, se jogou na cama, sentindo uma incrível vontade de gritar. Ou chorar.
O que tinha acabado de acontecer ali, entre ela e Tom… aquilo era assustador demais. Desde que eles tinham começado, se preocupava com rótulos, com o que estava acontecendo. Ela tentava ficar completamente neutra sobre isso e apenas seguir o fluxo, mas a preocupação sempre estava lá, presente.
Ela e Tom tinham conversado há muito tempo sobre não pensar. Sobre apenas aproveitar o momento, fazer o que sentissem vontade quando sentissem vontade, sem medo, ou preocupações, ou discutir coisas que poderiam ser sérias demais. Eles tinham conversado isso na cozinha enquanto se beijavam daquele jeito desesperado de sempre.
Desde a viagem, nunca mais tinham sequer tocado no assunto. Querendo ou não, sexo acabava sendo uma mudança na relação, ainda mais o tipo de sexo entre eles. E mesmo assim eles ainda ignoravam completamente a conversa. As pessoas perguntavam, tinham curiosidade, mas nunca uma resposta concreta de nenhum dos dois. Só sexo.
A merda era que nunca era só sexo.
O mundo inteiro insistia o tempo todo em mostrar que nunca, nunca era só sexo. O tanto de filmes, livros, séries que abordavam como não era possível existir isso deveriam ter feito saber melhor. Merda, era o que tinha acontecido entre Tom e Olivia, não era? Como ela tinha sido tão cega?
E a pior parte?
A pior parte era que gostava de Tom. Mesmo com as provocações, brincadeiras e discussões entre eles, tinha se afeiçoado ao rapaz. Ela se sentia bem com Tom, segura, fosse quando eles saíam com o grupo de amigos, quando eles apenas dormiam abraçados ou quando estava se entregando totalmente a ele. Ela realmente gostava de Tom, mas não tinha mentido ao dizer que não estava apaixonada.
e Tom não podiam namorar, simplesmente não fazia sentido. Primeiro porque não acreditava em namoros em que as pessoas não estivessem apaixonadas. Acontecia, ela sabia, já tinha visto de perto. Ela já tinha namorado-sem-se-apaixonar o suficiente para saber que aquilo não funcionava com ela. Segundo, voltaria para o Brasil em março, e se tinha uma coisa que ela não estava disposta era viver um romance a distância. Especialmente a uma distância tão grande.
Pelo restante da tarde, decidiu que seria uma ótima ideia se afundar em um comportamento auto destrutivo. Colocou comédias românticas na Netflix e comeu o restante da pizza e metade do pote de sorvete de chocolate que ela tinha odiado. Chorou em praticamente todos os filmes, pensando o quanto deveria ser legal viver um deles. Se ela pelo menos tivesse a capacidade de se apaixonar…
Já estava de noite quando Tom e Harrison chegaram, parecendo animados. Aquilo era bom. Talvez fosse um indicativo de que a conversa seria boa. Ou talvez estivesse apenas se enganando.
Mas Tom a cumprimentou com um beijo, então talvez as coisas estivessem bem.
Como todo fim de semana, eles sentaram, conversaram, comeram, assistiram filmes e séries até ficar tarde o bastante para que eles estivessem quase cochilando no sofá e decidissem que era hora de dormir.
Subir para o quarto de Tom foi, pela primeira vez, uma experiência tensa. Ela ficava olhando-o, nervosa, como se a qualquer momento Tom fosse explodir, gritar ou, pior, pedi-la em namoro.
— Então… — queria passar aquela parte logo, mas não sabia como começar o assunto sem parecer muito… desesperada. — Como foi o golfe?
— Bom — Tom apenas riu enquanto eles entravam no quarto. — Eu perdi, mas golfe é sempre bom.
— Você sempre perde? — ela riu, lembrando-se da vez que se juntou aos Holland por causa de Charlie e Liam.
— Só quando minha cabeça só consegue focar em você — o sorriso bonito que ele deu quebrou mais um pouco o coração de . — A gente tem que conversar.
— Eu sei — ela suspirou antes de ir até o pijama, pronta para vesti-lo, mas parando no meio do caminho. Talvez não fosse uma ideia tão boa assim se arrumar para dormir. Se aquela conversa não fosse tão bem… — Eu não queria ser grossa com você.
— Eu sei — a pior parte era que Tom sorria o tempo todo, como se aquele assunto fosse bobo.
— Eu fui sincera, Tom. Eu não tô apaixonada, mas se você estiver-
— Eu não tô — ele a cortou, finalmente parando de sorrir e soltando um suspiro, começando a tirar a roupa e se arrumar para dormir. — Eu gosto de você, , provavelmente mais do que deveria, mas eu prometo que não é tão forte assim.
o encarou desconfiada, não acreditando muito bem em suas palavras. Parecia que o próprio Tom se contradizia em meio a sua brincadeira, ao falar “não estou apaixonado mas gosto muito de você”. Era quase como se ele estivesse tentando convencer apenas para que eles não falassem mais sobre isso, para que nada mudasse entre eles. Como se não tivesse importância.
Ou talvez ele estivesse sendo sincero.
Talvez, assim como ela tinha feito, Tom não estivesse apaixonado mas sentia que poderia se apaixonar, se tivesse um pouco mais de esforço, se pudesse se permitir. Era esse tipo de sentimento que tinha levado a namorar no passado. Ela conseguia entender.
— Você tem certeza? — mesmo assim ela precisava confirmar. — Porque, Tom, eu não quero te machucar. Não quero que você se prenda a mim achando que vai acontecer algo sério entre nós porque… Não vai. Eu vou embora da Inglaterra, eu não-
— Eu entendi, — ele novamente a cortou, se aproximando um pouco mais dela. — Eu entendi. E tudo bem por mim. Eu usei aquela palavra muito mal, só escapou mesmo.
— Eu me preocupo com o motivo dela ter escapado. Se isso é algo que você pensa ou considera.
— Não é — Tom suspirou e enlaçou a cintura de , a puxando para perto. — A gente pode só transar, e ficar, e deixar por assim. Eu prometo que tá tudo bem.
— Como eu vou saber se tá mesmo? — ela o encarou, tentando encontrar um possível blefe na expressão de Tom, mas sem sucesso. Ele parecia ser completamente sincero naquele momento. — Você é um ator, pode estar escondendo tudo.
— Eu pareço estar mentindo?
— Esse é o ponto, mentir emoção é literalmente seu trabalho.
— Então você vai ter que apenas confiar em mim — ele a puxou para um beijo rápido, tão delicioso como sempre. — Será que a gente pode deitar agora?
Ela apenas riu, ignorando sua consciência que parecia gritar que tudo aquilo estava errado e que não tinha como aquela história terminar bem. Mesmo assim ela se trocou e deitou na cama com Tom, grudando-se nele e dormindo em seus braços, torcendo para não ter nenhum pesadelo.

XXV

Uma das piores coisas que descobriu durante seu intercâmbio foi que a Inglaterra não se importava tanto assim com Halloween.
Ela tinha esse sonho de um dia viver o que sempre tinha visto em filmes e séries, de ter crianças fantasiadas pedindo doces nas casas. Ela tinha sonhado em fantasiar Liam e obrigar Lewis a fazer um parzinho fofo com o irmão, e sair com os dois pedindo doces por aí.
Mas na Inglaterra não era assim.
Na Inglaterra, o Halloween não era esse grande evento como nos Estados Unidos. Era exatamente como no Brasil: apenas mais um dia, com a desculpa de ir em festa à fantasia. Por um lado, estava invejando Tom, que tinha viajado para os Estados Unidos na semana anterior. Por outro, ela estava feliz porque poderia ir em uma festa à fantasia que Olivia tinha encontrado para todos.
— Fica quieta! — Ayumi ralhou com ela enquanto ajeitava melhor o suspensório amarelo.
— Eu to quieta! — revirou os olhos.
— Não tá, não — Lewis riu, sentado na cama de e rindo das duas.
— Não quer ajudar, não atrapalha — a brasileira estreitou os olhos para o adolescente, que riu ainda mais. — Aliás, cadê a sua fantasia? Você não disse que a festa do Harry ia ser à fantasia?
— Eu tô fantasiado. Eu sou o Sea Hawk.
— Eu achei que o Sea Hawk tivesse bigode.
— Eu só vou colar quando chegar no Harry, vai que perde a cola — Lewis revirou os olhos antes de lançar um olhar desafiador para . — E olha quem fala, a menina que tá fantasiada de Doctor.
— Você não ouse falar da fantasia da , moleque — foi Ayumi quem ralhou com o adolescente, finalmente terminando de mexer na fantasia de , se afastando um pouco e sorrindo ao observar seu trabalho bem feito. — Nós vamos arrasar na festa.
— Uma Doctor negra e uma Missy asiática. Os fãs vão mesmo ficar felizes da vida — ironizou, apesar de realmente achar que as fantasias delas estavam maravilhosas. Aparentemente, além de uma excelente fotógrafa, Ayumi também tinha um ótimo olho para moda e como fazer cosplay com pouco dinheiro.
— A mídia ser uma vergonha e não saber fazer representatividade deixa de ser um problema meu. Eu vou me fantasiar do personagem branco que eu quiser, e ficar mil vezes mais linda que todos eles — Ayumi apenas balançou os ombros, totalmente convicta de si mesma. Errada ela não estava.
Antes de saírem para levar Lewis à festa de Harry – o combinado era que ela levasse e depois os pais dele buscassem – e seguirem para a festa que Olivia tinha conseguido, pediu à amiga para que tirassem uma foto juntas, deixar aquele momento registrado para sempre. Sua fantasia de 13ª Doctor e Ayumi como Missy estavam simplesmente perfeitas demais para simplesmente se perderem apenas em memórias. O mundo precisava ver.
Após buscar Paddy, enquanto Ayumi dirigia em direção à casa do amigo de Lewis – era a vez dela de ser a “motorista da rodada” -, não resistiu ao ímpeto de abrir a conversa com Tom e mandar a foto que tinham tirado mais cedo.

[] Olha só o que você está perdendo 😉

[Tom] Você é má comigo,
[Tom] Porém achei a fantasia muito difícil de tirar, não gostei

[] É que você não tá aqui, né}

[] Mas prometo que, quando você voltar, eu visto o mínimo de roupa possível

[Tom] Você está brincando com meus sentimentos

[] Quais sentimentos?

[Tom] Tesão é um sentimento

Ela riu sozinha, bloqueando o celular ao sentir o carro parar em frente à casa de Harry e ver Lewis descer animado, acompanhado de Paddy. fez questão de gritar alguns avisos e pedindo para que eles tentassem manter o famoso juízo, que serviu apenas para que os dois adolescentes revirassem os olhos. Não era sua culpa se ela estava se tornando cada vez mais uma adulta chata.
O local da festa de Olivia era bem menor do que esperava.
Não que fosse minúsculo, mas era definitivamente menor do que todas as baladas que eles já tinham ido juntos. Mesmo assim a decoração estava totalmente incrível, e as fantasias pareciam maravilhosas. A música tocava alto, as pessoas dançavam animadas, a bebida era servida o tempo todo.
Era tudo o que uma boa festa de Halloween deveria ser.
estava decidida a aproveitar cada minuto daquela noite. Ela ia de uma lado para o outro, dançando com Ayumi e Harrison, rindo com Olivia, Harry e Tuwaine, conhecendo melhor Elysia… Tudo estava absolutamente incrível.
Até ela, claro, esbarrar em um cara ao ir para o bar encher novamente o seu copo de alguma bebida verde florescente – ela nem queria saber do que se tratava – e derrubar praticamente todo o conteúdo na fantasia dele.
— Puta que pariu — o choque a fez soltar o palavrão em português, mas ela logo se corrigiu, olhando para rapaz e completando em inglês: — Me desculpa, eu não tinha te visto!
— Você falou português? — a resposta dele também foi dada em português, o que a deixou ainda mais chocada. — Não me diz que você é brasileira!
— Eu sou! — ela sorriu, animada. De repente era como se o acidente nunca tivesse acontecido e a fantasia dele estivesse intacta. tinha encontrado um brasileiro! Em Londres! E ela podia conversar em português! — Você também! Que incrível!
— Faz tanto tempo que eu não encontro um BR por aqui! — o rapaz riu, tratando logo de estender a mão em um cumprimento formal demais para o ambiente. — Eu sou o Lucas.
, prazer — ela apertou a mão dele mesmo assim, se sentindo mais feliz.
Era incrível como ela tinha sentido falta de falar português. Quer dizer, ela sempre conversava em sua língua materna com os amigos e os pais semanalmente durante as chamadas que sentia a necessidade de fazer, mas ainda assim tinha diferença. Ali era um ambiente de descontração, em que ela podia se soltar.
E como estar mais solta do que falando em português?
Au pair? — Lucas riu enquanto eles conversavam um pouco mais. Eles tinham saído de perto do bar e ido para um canto um pouco mais tranquilo, onde podiam se ouvir sem precisar gritar muito, aos poucos se conhecendo melhor. — Que legal! Achei que isso fosse coisa de Estados Unidos.
— É mais comum lá mesmo — ela balançou os ombros, dando um gole no novo copo de bebida que tinha pegado. — Mas eu queria vir pra Europa porque tinha a ilusão de que poderia conhecer mais países.
— E não funcionou.
— Nenhum pouco — os dois riam feito bobos. — Mas eu até tô me divertindo com o pouco que conheci do Reino Unido. Mas e você, tá aqui viajando?
— Eu moro aqui faz uns três anos — o suspiro de Lucas foi quase triste. — Eu gosto bastante daqui, mas às vezes bate uma saudadezinha de casa…
— Nem me fala… — entendia aquele sentimento bem demais. — Eu to amando demais meu tempo aqui, os amigos que eu fiz, mas ao mesmo tempo… aqui não é o Brasil. E todo dia eu morro de saudade do meu país-problema.
— Tem que ser muito brasileiro pra ficar triste em uma festa, com saudade de um lugar que tem um dos piores presidentes do mundo, né — a piada de Lucas foi o bastante para descontrair e fazer com que risse realmente alto. Então ele estendeu a mão para ela, os olhos brilhando animados. — Aqui não toca um funk decente, mas mesmo assim a gente pode dançar, né?
Ela apenas riu, aceitando o convite e seguindo para a pista de dança com o rapaz. Enquanto eles dançavam e riam, sentia-se estranhamente confortável. Ela não tinha ideia de quem era Lucas, mas apenas de saber que ele era brasileiro, de poder falar português e ter alguém que a entendesse, que entendesse suas péssimas piadas e referências a memes… aquilo era completamente impagável.
Essa era a parte que ninguém contava sobre viajar para o exterior quando você realmente gostava do seu país de origem. Como você nunca conseguia se sentir realmente pertencente àquele local. E como às vezes a saudade de casa poderia apertar tanto.
Mas ela estava se divertindo com Lucas. Eles dançavam e riam e faziam piadas que apenas brasileiros entenderiam. Falavam mal do governo atual, de como aquele presidente aprendiz de Trump era uma das piores coisas que tinham acontecido. Depois falaram sobre memes antigos e memes recentes. Falaram sobre brigadeiro e feijoada.
E tudo estava perfeito.
Até que Lucas a beijou.
E não era um beijo ruim, longe disso. Na verdade era um beijo bom, de alguém que parecia confiante no que estava fazendo. Mas não era para isso que estava ali naquela festa. E nenhum de seus amigos brasileiros jamais acreditaria se ela dissesse, mas naquela noite ela queria apenas curtir com os amigos. Por isso ela delicadamente afastou o rapaz e deu um sorriso sem graça.
— Eu interpretei tudo errado, né? — o sorriso de Lucas parecia tão sem graça quanto o dela, e era adorável. — O quanto eu errei?
— Não foi muito — acabou rindo. — Eu só… não estou muito no clima.
— Tudo bem, desculpa por ter assumido que… desculpa mesmo. Eu me deixei levar.
Claro que, depois disso, o clima entre eles não ficou totalmente agradável, e achou que talvez fosse melhor voltar para seus amigos ingleses. Antes de se afastar e se despedir pela noite, deu um apertado abraço em Lucas, sentindo o último vestígio de conexão com seu país para então procurar os amigos.
Não precisou ir longe para encontrar Sam, que parecia encará-la desconfiado.
— Ei! — ela sorriu, se aproximando dele e o abraçando, sem porém senti-lo retribuir. se afastou, estranhando a atitude do rapaz. — Tá tudo bem?
— A gente tava te procurando — as sobrancelhas dele franziram. — Você encontrou algum conhecido?
— Eu conheci alguém — riu, mas Sam não acompanhou. — Também é brasileiro. Por quê?
— Eu vi vocês se beijando, estranhei — a voz de Sam parecia acusatória.
Aquilo era estranho e fazia se sentir completamente desconfortável. Ela deu um passo para trás, tentando analisar melhor a expressão de Sam, encontrar qualquer vestígio de brincadeira em suas palavras, mas o rapaz parecia estar sério demais para o próprio bem. não conseguia começar a explicar o quanto ela estava se sentindo mal naquele momento.
— Qual… O que tem? — a pergunta foi feita baixa, com um leve medo da resposta.
— Nada. Só achei que você e o meu irmão-
— O Tom falou alguma coisa? — o cortou, se aproximando novamente e sentindo o estômago revirar um pouco. Ela realmente queria que fosse por causa de todo álcool que tinha consumido.
— Não. Mas acho que todo mundo só assumiu — Sam riu sem graça antes de soltar um longo suspiro. — Sei lá, faz quatro meses que vocês estão nisso, todo mundo esperava que… Quer saber? Esquece. Vocês que se entendam.
E, com um sorriso totalmente sem humor, Sam simplesmente saiu, deixando parada em um canto da balada, com a maior cara de tacho do universo.
Era incrível como algumas coisas pareciam que não podiam ser simples, por mais que ela realmente se esforçasse para tanto. Tudo o que ela queria era poder aproveitar uma festa com os amigos, dançar, se divertir. Mas claro que tinha alguma coisa para a fazer pensar demais, se encher de preocupações, sentir vontade gritar com o mundo.
Nunca, durante todos os meses que o conhecia, tinha visto Sam parecer tão frio assim, e talvez fosse o costume ou o álcool aumentando seus sentimentos, mas aquilo tinha doído. Ela não queria esse tratamento. Ela não merecia esse tratamento.
Sem contar que ela e Tom tinham conversado tantas vezes e… não. Eles não tinham. Porque eles nunca conversavam direito. Porque, entre eles, era sempre um misto de intriga e sexo. A maior conversa entre eles não tinha sido clara o bastante, lá no fundo ela sabia. Mas gostava demais do que tinha com Tom para tentar conversar mais sobre tudo aquilo e correr o risco de acabar perdendo o que tinham.
E, pelo visto, o que quer que eles tivessem, estava começando a afetar mais do que apenas a vida dos dois.
Os passos rápidos dela atropelaram algumas pessoas pelo caminho, a mente trabalhando rápido demais para sequer se dignar a pedir desculpas. Mas os cabelos azuis de Ayumi logo entraram em seu campo de visão e nada poderia tê-la deixado mais aliviada. tocou o braço da amiga, chamando sua atenção e, pela expressão preocupada da inglesa, ela já sabia que não deveria estar com uma expressão feliz.
— O que aconteceu? — Ayumi pareceu preocupada, segurando a mão de rapidamente.
— Eu quero ir embora — a maneira quase manhosa que as palavras saíram de seus lábios fez querer se socar. Ela odiava quando se deixava afetar tanto por coisas, em teoria, tão pequenas. — Você pode me levar, por favor?
— Claro — Ayumi, que ainda segurava sua mão, começou a puxá-la pelo local, indo em direção à chapelaria para pegar a bolsa.
Enquanto entravam no carro e Ayumi dava partida, ficou em silêncio, olhando pela janela. Agora ela não se sentia apenas triste, mas também um pouco brava. Não era justo que ela estivesse se sentindo mal desse jeito. Ela não sabia o que as pessoas pensavam sobre ela e Tom, mas não era sua culpa. Ela nunca tinha feito nenhum tipo de promessa para ninguém.
Nem mesmo para o próprio Tom.
Ela não deveria ser obrigada a viver as expectativas de ninguém, muito menos se sentir culpada quando não conseguia. E, certo, a conversa não tinha sido exatamente ótima e esclarecedora, mas ela tinha conversado com Tom. Eles não eram algo sério, e não seriam. E os dois estavam totalmente bem com isso… certo?
soltou um longo suspiro quando o carro de Ayumi parou em frente a casa dos O’donnell. Ainda estava relativamente cedo, ao menos bem mais cedo do que ela achou que chegaria, mas mesmo assim todas as luzes pareciam apagadas. Pelo menos ela poderia só entrar no quarto e dormir.
— Você vai ficar bem? — Ayumi a encarou.
Um sorriso pequeno tomou os lábios de e, meio que por instinto, ela se inclinou na direção da amiga e a abraçou forte. Ayumi não questionou o que estava acontecendo, o motivo pelo qual estava daquele jeito, mas respondeu com um apertado abraço, mostrando que, para o que quer que fosse, ela estava ali por . Ayumi era, com certeza, a melhor coisa que tinha lhe acontecido desde que ela tinha chegado na Inglaterra.
— Vou ficar ótima — riu após partir o abraço. — Obrigada por isso.
— Se precisar de qualquer coisa, pode me ligar.
— Você vai voltar pra lá?
— Vou, a Olivia já tá mandando mensagem querendo saber o que aconteceu, surtando. Vou lá antes que ela mate alguém — as duas riram. — Mas, sério, qualquer coisa mesmo, é só ligar.
Com um último aceno, desceu do carro e seguiu para casa, feliz por saber que não tinha ninguém mais acordado. Seguiu direto para o próprio quarto, se jogando na cama ainda com a fantasia, não se importando se estava desconfortável. Ela queria apenas fechar os olhos e fingir que estava tudo bem de novo, que não tinha nenhuma preocupação idiota na cabeça. Que poderia dormir tranquila.
! — a porta do quarto abriu de uma vez, com um barulho alto, e logo estava batendo de novo. Em pouquíssimos segundos ela sentiu Lewis pular em sua cama, parecendo totalmente agitado.
— Lewis? — ela piscou confusa. — Que porra… Por que você ainda tá acordado? São duas da madrugada!
, eu fiquei com o Harry! — os olhos de Lewis brilhavam animados, como se ele estivesse contando a melhor notícia do mundo.
Todas as preocupações de se tornaram segundo plano. Ela se sentou melhor na cama, começando a rir feito idiota e bater palmas, animada com a nova informação. Naquele momento ela voltou a ter quinze anos.
— O Harry do aniversário? O Harry bi?
— Sim!
— Me conta tudo!
E enquanto Lewis contava sobre seu primeiro beijo e seu crush, sobre como seus sentimentos eram mútuos e que talvez ele estivesse com um namorado novo, ouvia cada palavra com o ânimo totalmente revigorado. Pelo menos sua noite iria terminar bem, e ela poderia não pensar nas decisões que precisaria tomar no futuro próximo.

XXVI

Fazia quase um mês desde o Halloween, e a vida de parecia totalmente diferente em alguns aspectos bastante específicos. O principal deles era como ela não estava mais falando direito com as pessoas que, em teoria, eram suas amigas.
O grupo de conversa de todos tinha morrido completamente. A última pessoa a mandar mensagem tinha sido Tom, um dia depois do Halloween, e desde então… silêncio total. Claro que ela tinha contado tudo o que tinha acontecido para Ayumi, e como ela se sentia em relação a isso. E, atendendo aos maiores sonhos de , a amiga tinha ficado ao seu lado e decidido também ignorar o grupo.
Talvez fosse meio infantil da parte delas? Provavelmente. Mas ao menos assim não se sentia sozinha demais. Olivia tinha mandado mensagens, mas logo o assunto pareceu morrer porque… O clima estava estranho, no geral. não sabia o que exatamente Sam tinha falado, o que os outros tinham visto, apenas que nada mais estava igual.
Ayumi sugeriu que elas viajassem e conhecessem seus outros amigos – um grupo pequeno e pouco antigo em sua vida, que morava em Glasgow, portanto eles se viam pouquíssimas vezes no ano. Mas não tinha tempo hábil para viajar e nem muito humor para tanto. Além disso, não querendo parecer pessimista nem nada, mas nas últimas semanas sua experiência com grupo de amigos não estava sendo exatamente ótima.
Além de tudo, ainda tinha Tom.
Ele estava de volta à Inglaterra, tinha mandado algumas mensagens para mas, como uma excelente pessoa em se resolver internamente, ela acabou decidindo apenas ignorar toda maneira de contato do rapaz.
Naquele exato momento de sua vida, não tinha controle de absolutamente nada, muito menos de seus relacionamentos pessoais. Tom era pessoal demais e, mesmo sabendo que a culpa não era exatamente dele, ela sentia como se o rapaz fosse o estopim de toda a sequência de acontecimentos merda e o motivo pelo qual ela se sentia tão péssima nos últimos tempos. Se comunicar com Tom era uma constante lembrança de todos os erros que ela, ou melhor, que eles tinham cometido.
Por isso ela tinha decidido que aquilo entre eles, o que quer que fosse, não poderia continuar. Não quando sua vida estava sendo afetada de uma maneira quase negativa. Era divertido estar intimamente com Tom, mas não era nada divertido ver o grupo de amigos ruir por algo que não deveria ter ganhado proporções tão grandes.
Depois de várias tentativas e absolutamente nenhum retorno por parte dela, Tom acabou parando de mandar mensagem, e achou que ele tinha entendido o recado, que eles tinham “terminado”.
E ela descobriu que estava errada em uma fria tarde de sábado enquanto saía do prédio do curso e viu o carro de Tom parado ali perto.
Ela sabia que era ele porque era o carro preferido do rapaz, um que ela conhecia relativamente bem. Além disso, conseguia ver com clareza Tom batucar os dedos contra o volante, balançando a cabeça e parecendo cantar, os olhos cobertos por um óculos escuro e um boné de time ou sabe-se-lá-o-quê na cabeça.
— Você tá brincando comigo — a voz de Ayumi ao seu lado soou ríspida e ela se virou para a amiga a tempo de vê-la revirar os olhos. — O moleque veio te buscar.
— Nem fodendo — foi a resposta de . Ela não entraria naquele carro.
— Macho tem uma dificuldade de aceitar fora, né? — a brincadeira da amiga a fez rir. — Achei que ele tinha entendido que você não queria mais continuar ficando com ele.
riu nervosa. Talvez ela tivesse ocultado de Ayumi o fato de que ela não tinha chegado a conversar com Tom.
— Então… — a maneira sem graça e culpada que ela mexeu no cabelo foi tudo o que a inglesa precisou para entender o que estava acontecendo.
, você conversou com o Tom, né? — Ayumi tentou lhe dar uma chance, mas novamente apenas riu sem graça. A amiga bufou tão forte que podia jurar que ela estava se concentrando para não lhe bater. — Daí fica foda te defender.
— Eu precisava colocar um fim nessa história, Ava — usar o nome inglês da garota pareceu apenas deixá-la ainda mais brava. — Ayumi! Olha isso, a gente nem conversa mais com o resto do pessoal! Com o Sam! Eu não podia continuar como se tudo estivesse totalmente normal porque não tá! Tá tudo estranho e incômodo!
— E seu plano mirabolante era deixar o garoto completamente no escuro, fingir que nunca o conheceu, o que mais? — certo, quando Ayumi falava desse jeito, se sentia um pouco idiota. — Você tem noção de como você tá sendo injusta com ele, né?
— Eu não sinto que eu sou exatamente a pessoa justiçada nessa história.
— Você não é. Mas não precisa descontar nele — a inglesa respirou fundo. — Eu não tô falando pra você continuar se envolvendo com o Tom. Eu tô falando que não é justo que ele nunca descubra porque você não quer mais que isso continue.
ficou em silêncio, e encarou o carro. Ela sabia que Ayumi estava certa, mas mesmo assim não queria conversar com Tom. Será que seria tão ruim assim ela apenas ignorar tudo aquilo? Novembro estava quase acabando, na primeira semana de março ela voltaria para o Brasil, as coisas iam seguir seu curso natural. Em pouco tempo ela seria apenas “a menina que dava pro Tom” na cabeça de todo mundo. E estava tudo bem. Ignorar o problema era sim uma forma de lidar com, ele não era?
Ayumi claramente pensava o contrário.
O monólogo interno de foi interrompido quando a amiga segurou sua mão, obrigando-a a ir até o carro de Tom. Uma parte de queria de toda forma recusar. Frear os pés no chão, falar que ela não estava pronta, que preferia ir para casa. sabia que, se falasse isso, Ayumi não a obrigaria a ter a conversa naquele momento. Ela também sabia que, se não acontecesse ali, nunca aconteceria. E mesmo que fosse mais um dos momentos que ela odiava com todo o seu coração, que a deixasse com tantas dúvidas e com um leve sentimento de impotência, sabia que precisava passar por aquilo.
— Oi, Tom — Ayumi abriu a porta do passageiro e sorriu enquanto Tom abaixava o volume do rádio e tirava o óculos escuro.
— Oi, Ayumi. Quanto tempo — as palavras de Tom soaram quase venenosas.
— E você veio aqui entender melhor o porque — Ayumi afirmou enquanto puxava para mais perto do veículo. — Se comportem. Os dois.
E, simples assim, Ayumi lançou um último olhar para antes de sair. A brasileira respirou fundo e encarou Tom, que ficou em silêncio, apenas aguardando. Sabendo que precisaria ser racional naquele momento, apenas entrou no carro, fechou a porta e afivelou o cinto de segurança. Sem mais nenhuma palavra, Tom deu partida no carro e começou a dirigir.
Eles ficaram assim, dirigindo em completo silêncio por cinco longos minutos. Por um lado, queria acabar com aquilo de uma vez e ir embora. Por outro, aquele período em silêncio lhe dava tempo para ensaiar diversos diálogos mentalmente, podendo se preparar para qualquer coisa que Tom dissesse. Ela só precisava fazer uma pergunta antes:
— Pra onde nós estamos indo?
— Lugar nenhum — a resposta dele era inconclusiva demais e, se não fosse Tom ali, talvez abrisse a porta a pulasse porque aquilo era quase bizarro.
— Você vai só dirigir sem rumo?
— Sim — a simplicidade com que ele respondia era incômoda. — Talvez a gente acabe na Escócia? Nunca se sabe.
Sem responder, olhou para a esquerda, observando a paisagem que se movia rapidamente. Tom dirigia aleatoriamente pela cidade, entrando em ruas que nunca tinha nem prestado atenção que existiam. Algumas eram lindas, outras nada convidativas. Londres era uma cidade grande como todas as outras.
— O que aconteceu no Halloween? — a pergunta de Tom foi direto ao ponto e o respeitava por isso.
Ela encarou a janela por mais alguns segundos, vendo como aos poucos o céu começava a ficar cada vez mais escuro e as luzes da cidade começavam a acender. Ela tentou prestar atenção na música de hip-hop que tocava baixa, mas ela não entendia a letra. Por mais irônico que pudesse parecer, seu inglês não era tão perfeito assim. E então, finalmente, olhou para Tom.
— O que te falaram sobre o Halloween?
— Eu quero saber a sua versão — ele dirigia prestando atenção apenas na estrada, sem ousar desviar o olhar para por um único segundo. Talvez esse fosse seu plano. Talvez ele apenas não quisesse olhá-la nos olhos.
— Faz diferença? — riu irônica, antes de suspirar. — Você já tá com opinião formada.
— Não, , eu não tô — as sobrancelhas dele franziram. — Eu nem sei se essa história tem como formar opiniões.
— O que eles te falaram, Tom?
— Que você ficou com um cara.
Bom, não tinha nenhuma mentira naquilo. Justo.
— É verdade — ela respondeu simplesmente.
E mais um longo período de silêncio se seguiu. queria saber exatamente o que falar. Qual era o problema ali, porque tudo estava acontecendo do jeito mais sentido de todos. De onde vinha aquele drama. Mas a verdade era que ela mesma não sabia, não entendia realmente porque as coisas estavam tão estranhas assim.
Ou melhor… pensando bem, ela entendia bem até demais. Só era difícil admitir.
— Entendi — Tom respondeu após o desconfortável silêncio. — E por que isso foi motivo pra você me ignorar completamente mesmo?
— É o que eu queria saber — ela sorriu irônica. — Eu queria saber porque eu ter beijado outro cara fez o Sam ser grosso comigo. Porque, depois disso, ninguém mais conversou no grupo ou me mandou mensagens. Até a Olivia.
— E você acha que eu sei?
— Acho — pela primeira vez, Tom encarou . Rápido, ele tinha que prestar atenção na estrada, porém o bastante para que ela percebesse que o rapaz não estava nada feliz com o rumo que aquela conversa estava tomando. — O Sam foi bastante específico ao falar que achava que tinha algo acontecendo entre nós. Era quase como se ele estivesse achando que eu tinha te traído. Por que ele acharia isso?
— Talvez por que faz uns cinco meses que nós estamos ficando? — parecia que a paciência de Tom tinha se esvaído. — Por que você dorme na minha cama todo fim de semana?
— E? — a pergunta dela não recebeu resposta por um bom tempo. — Isso se chama sexo casual, eu achei que também acontecia na Inglaterra — Tom não pareceu achar a piada de engraçada. — Você falou pra algum deles que nós estamos namorando, Tom?
— Não.
— Você negou isso em algum momento? — o silêncio dele era toda a resposta que ela precisava. — Eu achei que aquela nossa conversa tinha sido clara. Eu realmente acreditei que nós dois estávamos no mesmo patamar.
— E você pode me culpar, ?! — o carro fez uma curva brusca, cantando pneu e fazendo o corpo dela ir para o lado, sendo segurada apenas pela tração do cinto e, pela primeira vez, pensou que talvez não fosse uma boa ideia que Tom estivesse dirigindo durante aquela conversa.
— Para o carro — ela falou quase automaticamente, e foi atendida quase prontamente. Tom entrou em uma rua calma, parando o carro na primeira vaga que encontrou. Ela respirou fundo, sabendo que a partir dali a conversa ficaria mais difícil. — Por que você nunca negou?
Silêncio.
O céu estava praticamente todo escuro, as luzes dos postes já acesas, começando a iluminar as ruas aos poucos. Tom virou-se para ela, a encarando com um sorriso irônico.
— Você sabe muito bem o porquê.
E aquilo era o que mais a incomodava. O que estava incomodando-a desde o começo, e que ela fazia questão de ignorar apenas pelo próprio prazer. Porque no fim, ela e Tom não eram bons em conversar, em se resolver. Eles eram muito melhores na cama. Ayumi estava certa, desde o início. Transar era mais fácil do que expor os sentimentos.
— É por isso que eu tenho te ignorado — a resposta da pergunta principal, o motivo pelo qual Tom tinha ido encontrá-la após o curso, finalmente estava sendo dita em voz alta. — Porque não dá mais pra gente continuar com… isso.
, eu já falei que eu entendo, e que eu não me importo de continuar exatamente assim.
— Mas eu não tô disposta, Tom — uma risada nervosa escapou pelos lábios dela. — Quando era só sexo, só nós dois fodendo sem pretensões, tudo bem. Mas depois seus amigos e seus irmãos acham que eu tô te traindo? Só por que eu beijei um cara em um festa? Não, esse é o tipo de coisa que eu não quero na minha cabeça.
— Eles confundiram as coisas.
— Eles nunca tiveram a informação completa, pra começo de conversa. Além do que… eles são team Tom, eles sempre vão ficar do seu lado, e eu não culpo nenhum deles por isso — inclinou um pouco a cabeça para trás, apoiando-se contra o descanso do banco. — Mas pra mim não dá. Eu não tenho ânimo de ficar pisando em ovos o tempo todo. E, eu juro que digo isso da maneira mais simpática possível, mas não tem foda que valha todo esse estresse.
— Uma pena, a foda é realmente boa — a brincadeira de Tom arrancou algumas risadas dos dois. Rápidas. Secas. — Eu não queria que as coisas acabassem assim.
— Elas não iriam acabar como você queria — a maneira como Tom a olhou deixou bem claro para que que ouvir aquelas palavras tinham doído tanto dizê-las. Ela desejou de todo coração que estivesse mentindo para si mesma, mas sabia que aquela era toda a verdade. — Eu sinto muito, Tom, mas é o melhor pra nós dois. Só… quem sabe a gente ainda possa ser amigos.
— Eu não acho que eu consiga ser só seu amigo, — o sorriso dele estava quebrado, exatamente como se sentia. — Eu já tive muito de você pra me contentar com menos. Não dá.
A cabeça dela balançou levemente, concordando com as palavras dele. Ela não amava a ideia, mas também não julgava. Ela entendia e respeitava Tom, exatamente como ele estava fazendo com ela. Talvez eles soubessem conversar, no fim. Só demoravam demais para fazer isso, deixando para quando era tarde demais, quando já não era mais possível recuperar algumas coisas.
O coração de estava apertado. Ela não gostava de saber que, oficialmente, nada mais aconteceria entre eles, porque ela gostava de estar com Tom. Uma parte dela realmente estava triste com isso, com a própria decisão. Mas a outra… parecia que tinha um certo alívio que aquilo tinha chegado ao fim, de certa forma. As coisas boas também precisavam de um fim.
— Eu vou conversar com meus irmãos e o resto do pessoal — Tom quebrou o pequeno silêncio que se seguiu. — Não é só porque não deu certo entre nós que não tenha dado certo com os outros, né?
— Obrigada — sorriu. — Você vai me levar pra casa, né?
— Não, vou te largar na rua — Tom revirou os olhos antes de girar a chave e ligar novamente o carro. — Eu sou um cara mau, .
— Nem ouse provocar — eles dois riram e aumentou o volume do rádio, se sentando direito e apenas apreciando a música, acreditando que finalmente poderia ficar em paz com os próprios sentimentos.

XXVII

Quase um mês tinha se passado e as coisas pareciam melhores.
O grupo tinha voltado a vida e todos estavam conversando novamente, mas claro que não era como se nada nunca tivesse acontecido. Eles saíram juntos e tinha sentido o clima um pouco estranho. Ela e Tom mal se falaram, e mesmo que todos tentassem fingir que tudo estava normal, tinha aquele maldito elefante na sala que não estava sendo ignorado o bastante.
Era ridículo o quanto sentia falta de Tom, e ela se sentia péssima por isso.
Ter “terminado” as coisas era a melhor decisão que tinha tomado, disso ela não tinha dúvidas. Ela sabia como os sentimentos de Tom estavam avançando para um estágio perigoso, e não podia continuar com aquilo, brincando com os sentimentos dele apenas para satisfazer seus desejos carnais. E não importava o quanto ela pudesse ser egoísta, até mesmo tinha limites.
Ainda assim, era triste acordar sozinha na própria cama aos domingos após tanto tempo acordando abraçada a Tom.
Era engraçado esse sentimento, essa quase carência. Era difícil aceitar que algumas coisas não necessariamente estavam ligadas, como sentimentos e sexualidade. já tinha passado por isso antes, então ela sabia exatamente em que ponto de relacionamento se encontrava. Era sua enorme vontade de ter alguém, de se sentir amada, ter alguém a abraçando durante a noite, mesmo que ela não fosse realmente apaixonada por essa pessoa.
tinha aprendido da forma mais dolorosa possível o quanto era ruim se render àquele desejo. Não era apenas o fato de que ela era incapaz de se apaixonar, era a ideia de segurar alguém a si, de impedir a pessoa de realmente viver um amor. Sua última experiência com namoro tinha sido horrível o bastante para que ela nunca mais se deixasse levar pela carência e pela vontade de namorar.
Porque a verdade era que, se não fosse Tom, poderia ser qualquer outra pessoa. O sentimento, ou falta de, seria exatamente o mesmo.
Então ela estava decidida a focar no que realmente importava. Seu curso de fotografia estava quase chegando ao fim, ela tinha um ensaio incrível que estava realizando com Ayumi, focando especialmente em arquitetura e urbanismo. Liam estava cada vez mais esperto e tinha que tomar cuidado redobrado com o que falava perto do garoto, além de ter que constantemente impedi-lo de se matar por causa da curiosidade excessiva.
E, para finalizar, ela voltaria para o Brasil em menos de três meses, e sempre que pensava naquilo, sentia um sabor agridoce. Por um lado era triste saber que esse período estava chegando ao fim, que logo ela voltaria para a “vida real”. Por outro, ela finalmente voltaria para seu país, com seus pais, seus amigos, seu sol, sua vida. Ela nunca tinha imaginado que sentiria tanta saudade assim de casa.
O importante agora era cuidar de Liam, que estava completamente concentrado na pista de carrinho que tinha montado no tapete da sala. se dividia entre assistir o garoto e uma série de comédia da Netflix quando a porta da frente foi aberta com força, e Lewis entrou batendo o pé, seguido por uma Rachel que parecia realmente nervosa. Aquela era uma cena incomum. Não apenas porque era Lewis chegando junto com Rachel em uma quinta-feira a tarde, mas também porque, em teoria, o adolescente deveria estar na escola, e Rachel no trabalho.
E, em todos os meses que morava com os O’donnell, ela nunca tinha visto Rachel mais cedo do serviço.
— Direto pro quarto, Lewis! — Rachel estava claramente brava, o rosto vermelho. Aquilo era mais incomum ainda.
— Isso é injusto! — o adolescente gritou de volta, parecendo prestes a quebrar a casa inteira. — Você não pode fazer isso!
— Eu sou sua mãe, Lewis, eu faço a porra que eu quiser! — os gritos dos dois continuavam altos, e aquilo parecia que não iria acabar tão cedo.
Sem falar com nenhum deles, apenas levantou e foi até Liam. O garoto não merecia ficar na sala, ouvindo aquelas coisas. Inventou uma desculpa qualquer e o pegou no colo, levando-o para o quarto junto com todos os brinquedos que ela conseguiu carregar.
— Por que minha mãe tá gritando com meu irmão, ? — o menino perguntou assim que chegaram no quarto, fazendo uma careta adorável.
— Eu não sei, Liam. Mas eles vão se entender, eu prometo — sorriu sem graça para a criança. — Fica aqui quietinho enquanto eu tento ajudar seu irmão, tá bom?
— Tá bom. Mas você vai voltar?
— Vou sim, prometo — ela riu antes de dar um beijo no topo da cabeça do garoto, encostando a porta do quarto e descendo novamente as escadas um pouco devagar, tentando ver se o território estava um pouco mais calmo.
E, claro, não estava.
Ao chegar na metade dos degraus, ouviu que os gritos ainda continuavam, tanto de Rachel quanto de Lewis. Engolindo em seco, caminhou até os dois, se perguntando porque raios estava ali e o que pretendia fazer quando chegasse perto o bastante.
— Do que você me chamou?! — Rachel parecia completamente fora de si, como se estivesse pronta para bater no próprio filho.
— Você é homofóbica! — a resposta gritada de Lewis fez o corpo inteiro de congelar. Aquilo não podia estar acontecendo.
— Você não tem noção do que tá falando, Lewis!
— Você tá me colocando de castigo porque eu tenho um namorado! — várias lágrimas caíam dos olhos de Lewis e se sentia completamente impotente. O adolescente virou para o lado, encontrando o olhar dela e parecendo pedir ajuda. — , você concorda comigo, né?
Aquele era o pior cenário do mundo.
— Não enfia a nas suas merdas, Lewis! — Rachel apontou o dedo para o filho. — Você tá de castigo porque você destratou um professor!
— Eu mandei aquele idiota tomar no cu porque ele foi homofóbico comigo e com o Harry! Ele queria dar suspensão pra nós dois porque eu beijei o meu namorado! — o adolescente jogou os braços para o alto, parecendo completamente farto. — Todo mundo naquela escola namora e beija quando bem entende, mas quando são dois garotos se beijando é suspensão? O nome disso é homofobia!
— Casais héteros podem se beijar? — acabou se intrometendo porque, honestamente, até agora ela estava do lado de Lewis nessa história toda.
— Sim! O tempo todo!
— Não importa que merda de fase de chamar atenção é essa que você entrou, Lewis, você está de castigo e ponto final! — a palavras de Rachel fizeram o queixo de cair e as lágrimas de Lewis aumentarem. — A menos que você termine esse “namoro” — ela fez aspas com os dedos —-, você está de castigo por tempo indeterminado.
— Eu odeio você! — Lewis gritou ainda mais. — Você só tá fazendo isso porque eu sou gay, porque eu to namorando um menino!
— Lewis, tenta se acalmar um pouco, por favor — ainda não sabia porque raios estava se metendo naquela história, mas ao mesmo tempo ela sentia que não poderia deixar Lewis sozinho naquele momento. Provavelmente um dos piores momentos da vida do adolescente.
— Você sabe que é verdade, — a voz de Lewis ficou mais baixa, sem os gritos nervosos, mas as lágrimas continuavam descendo pelas bochechas agora rosadas dele. — Se fosse sobre você estar dando pro irmão do Paddy, a conversa seria completamente diferente. Mas como é o meu namoro com um menino, eu me fodo.
Se achava que estava ruim antes, agora ela não sabia sequer descrever. Seu olhar desviou para Rachel, que a encarou por três segundos com as sobrancelhas erguidas, mas logo voltou a olhar para o filho, respirando fundo antes de falar:
— A não é minha filha — a mulher ficou alguns longos segundos em silêncio, ouvindo o filho fungar antes de completar: — Vai pro seu quarto, Lewis. Nós dois precisamos nos acalmar um pouco.
Sem olhar para trás, Lewis subiu os degraus e bateu a porta do próprio quarto alto o bastante para que elas ouvissem com clareza do andar de baixo. engoliu em seco, sem saber muito bem exatamente o que fazer. Rachel estava com o olhar perdido, as mãos correndo do rosto para o cabelo. A brasileira apenas respirou fundo, achando que talvez aquele não fosse o melhor momento para continuar ali, decidindo se virar para subir as escadas e ver como Liam estava.
— a voz de Rachel a travou logo nos primeiros degraus. se virou em silêncio, apenas encarando a mulher. — O que o Lewis falou é verdade? Você se envolveu com um dos filhos da Nikki?
pensou em mentir. Falar que o adolescente estava apenas dando um exemplo idiota de como as coisas seriam muito diferentes se Lewis fosse hétero, mas agora que a bomba já tinha explodido no ar, não tinha mais como juntar os pedaços. Querendo ou não, agora juntar alguns pontos ficava fácil demais.
— Sim. Eu e o Tom estávamos… meio juntos — era tão difícil falar aquilo com Rachel. — Mas não estamos mais. A gente… terminou.
— Isso aconteceu por quanto tempo?
— Alguns meses — fechou os olhos. Será que ela voltaria para o Brasil mais cedo do que imaginava? Os O’donnell podiam interromper o contrato a qualquer momento. — Mas eu prometo que nunca interferiu no meu trabalho, Rachel.
— Eu gostaria que você tivesse comentado antes — Rachel parecia incrivelmente cansada. — Você é babá do meu filho, , e o Tom é filho de uma das minhas melhores amigas. Contar isso para mim e para o Charlie era o mínimo que eu esperava de você.
Era engraçado. Com tudo o que tinha acontecido entre ela e Tom, com todas a paranoias que tinha criado na própria cabeça, ela realmente chegou a acreditar que era impossível se sentir um ser humano mais sujo do que aquilo. Mas ela estava claramente enganada. Rachel tinha conseguido fazer se sentir completamente indigna de sequer estar na Inglaterra.
Mesmo que ela tivesse ido para lá com o próprio dinheiro.
— Eu não queria que vocês achassem que isso poderia influenciar em meu trabalho, Rachel. Ou… ou sei lá, que se tornasse um problema.
— Do tipo se a gente te obrigasse a terminar com ele caso você quisesse continuar trabalhando pra nós? — a risada irônica de Rachel fez se sentir idiota por realmente ter cogitado essa ideia. — Você é uma adulta livre, . Mas a partir do momento que você está em outro país com um contrato comigo, eu fico responsável também pelo seu bem estar. Se não fosse o Tom, se fosse qualquer outra pessoa que te fizesse algo ruim, isso também seria um problema pra mim.
encarou o chão, se sentindo a criança mais idiota do mundo. Ela nunca tinha contado porque sabia que não seria bem vista pelos olhos dos O’donnell, que seu comportamento não era exatamente o mais profissional de todos. estava totalmente ciente disso. Mas, claro, ela novamente tinha pensado apenas nela mesma. Como sempre, tinha colocado as própria necessidade a frente de todas as outras e feito merda.
Ela não merecia nada do que tinha.
— Eu sinto muito, Rachel. Eu não queria causar nada disso.
— Eu não sou essa pessoa, — de repente Rachel estava completamente vulnerável, parecendo também estar prestes a chorar. — Eu não te mandaria de volta pro Brasil por ser jovem e se interessar por um rapaz como o Tom. E eu não sou homofóbica, — e agora Rachel estava chorando. — Não tô falando que tudo são flores e que isso não me incomoda em nenhum nível, mas eu amo meu filho. Só não quero que ele sofra isso de novo na escola. Eu não quero que meu menino sofra.
Sem pensar muito, caminhou até Rachel e abraçou, deixando que a mulher chorasse um pouco em seu ombro. Ela sequer conseguia imaginar como Rachel se sentia naquele momento, com tantas informações jogadas na sua cara daquela maneira, tendo que aguentar o peso de tantas coisas ao mesmo tempo. Naquele momento, a única pessoa feliz daquela casa era Liam. Não existia a menor dúvida daquele fato.
— Você e ele precisam conversar quando estiverem mais calmos — foi só o que falou enquanto Rachel se afastava. — O Lewis também precisa processar tudo o que está acontecendo com ele.
— Eu sei. Eu só… Preciso respirar um pouco.
Entendendo o recado, balançou a cabeça e saiu dali, subindo as escadas devagar. Praticamente no automático, foi até o quarto de Lewis, batendo na porta duas vezes e pedindo para que ele, por favor, abrisse.
O que ela não esperava era que a porta fosse aberta praticamente no mesmo segundo e que Lewis se jogasse em seus abraços, lhe apertando em um abraço quase desesperado.
, me desculpa, por favor! — Lewis ainda chorava um pouco. — Eu falei sem pensar, eu nem percebi que eu tinha falado sobre você e o Tom, eu só falei, me desculpa, por favor!
— Calma, menino — ela o segurou com mais firmeza, lhe fazendo um carinho nas costas para tentar acalmá-lo. — Tá tudo certo, prometo.
— Eu não queria ter falado, mas eu não tava pensando direito.
— Eu sei. Com você tá, Lewis?
— Péssimo — o abraço foi partido. — Minha mãe me odeia.
— Ela não te odeia, Lewis. As coisas também não estão fáceis pra ela — fez um leve carinho no rosto do garoto, limpando um pouco das lágrimas de um jeito meio torto. — Se acalma e conversa com ela direito, sem gritar. Eu tenho certeza que vocês vão se entender.
— Eu menti. Eu não odeio minha mãe. Eu a amo, muito.
— Ela sabe disso. E ela te ama. Promete que vai conversar com ela sem gritar?
— Prometo — Lewis respirou fundo antes de encarar novamente, parecendo preocupado. — Você… tá com problema? Por causa do Tom?
— Não, relaxa. Até porque, eu e o Tom não estamos mais juntos há um tempo — balançou os ombros e, antes que Lewis pudesse responder, ela o cortou: — Outra hora eu explico. Vai lá descansar e acalmar o Paddy e o seu namorado porque eu tenho certeza que os dois devem estar preocupados com você.
Com uma risada final, deixou Lewis sozinho novamente, voltando para o quarto de Liam e entrando na brincadeira do garoto, tentando esquecer todas as merdas que tinham acontecido em um espaço de tempo tão curto.
nunca tinha desejado tanto que o tempo passasse rápido, que março chegasse logo e ela finalmente voltasse para o Brasil, e pudesse deixar todos aqueles problemas exatamente ali, na Inglaterra. E que ela nunca mais voltasse para buscá-los.

XXVIII

10
A luzes de Londres pareciam mais brilhantes do que nunca, e elas eram lindas. gostava daquela sensação de cidade grande, de toda boa selva de pedra. Londres era uma excelente selva da pedra.
09
As pessoas ao redor pareciam agitadas, animadas, rindo, conversando, felizes. Isso a fazia sorrir.
08
Charlotte lhe estendeu mais um pacote de pipoca, e riu enquanto aceitava. Comer pipoca, no meio da rua, feita pela mãe do namorado de Lewis era a última coisa que ela se imaginaria fazendo naquele dia.
07
se perguntou se deveria mandar mensagem para os amigos brasileiros, já que meia-noite chegaria antes para ela. Decidiu que sim. Eles com certeza a encheriam de mensagens de madrugada.
06
Ela pensou em Ayumi, que tinha viajado para a Escócia e tinha enviado várias fotos com os amigos, parecendo estar se divertindo como jamais estivera. Se perguntou se deveria ter aceitado o convite para viajar com ela, mas sabia que não. Ayumi merecia um tempo sozinha e livre de seus dramas.
05
se sentia feliz porque os O’donnell tinham viajado por duas semanas e a casa estava apenas para ela e Lewis. Estava sendo incrivelmente bom.
04
Ela pensou em Olivia, em como os amigos estavam passando aquele momento juntos. Lembrou do convite da loira e da insistência para que passasse com eles. Mas ela não conseguiria. Não mais.
03
Ao seu lado, Harry e Lewis estavam de mãos dadas, olhando para o céu, aguardando os fogos. Eles pareciam felizes e eram o casal mais lindo que já tinha visto em toda sua vida. Seu coração estava aquecido.
02
pensou em Tom. Decidiu que era melhor não.
01
— Feliz ano novo! — os gritos ecoaram ao seu redor enquanto fogos coloridos explodiam sobre o London Eye, realmente perto de onde eles estavam.
Enquanto Lewis e Harry davam o famoso beijo da virada, Charlotte a puxou para um abraço apertado. tinha conhecido a mulher naquele dia mesmo, e já sabia que a inglesa era totalmente expansiva, carinhosa, gostava de abraçar. Era incrível porque se sentia confortável assim.
Lewis também a abraçou com força, desejando um feliz ano novo e agradecendo por todo o apoio que tinha lhe dado durante aquele ano – especialmente no que se referia a Harry. Ela sorriu e agradeceu pelo convite para virar o ano com ele na casa do namorado – mesmo que, de última hora, Charlotte tivesse decidido que eles deveriam ver os fogos no London Eye. Pelo menos assim ela não tinha virado sozinha em casa.
Eles ficaram conversando mais um tempo, vendo as pessoas comemorando a virada do ano. gostava de ano novo. Não da mesma forma que a maioria, prometendo uma vida nova, novas oportunidades, isso não fazia muito seu estilo. Para ela, eram apenas mais dias diferentes. Mas ela gostava do clima que o ano novo deixava, do ânimo, da esperança.
— Tem certeza que não quer ir pra casa com a gente? — Charlotte perguntou pela milésima vez quando eles decidiram que era hora de ir para casa e anunciou que iria voltar para a casa dos O’donnell.
— Tenho sim, já me meti demais na virada de vocês — ela riu quando os três começaram a reclamar, repetindo que a presença dela era mais do que bem-vinda. — Além disso, eu não quero que a casa do O’donnell fique sozinha, e como o Lewis vai dormir com vocês…
Claro que Charlotte insistiu para pelo menos deixá-la em casa. Eles riram e conversaram durante todo o caminho, ainda totalmente acordados e animados. Quando chegaram, se despediram com novos abraços, novos “feliz ano novo”, todos os clichês que a data pedia.
Não era a primeira vez que ficava sozinha na casa dos O’donnell, mas era a primeira vez que ela passaria a noite sozinha ali. E, incrível ou ironicamente, ela se sentia completamente confortável. Abriu a geladeira e pegou uma taça de sorvete que ela e Lewis tinham comprado no dia anterior.
As coisas na família estavam… ok.
Após aquela briga horrível, Lewis e Rachel conseguiram conversar com mais calma, dessa vez também diante de Charlie, tentando esclarecer as coisas ao máximo. Era claro que os pais O’donnell não estavam totalmente confortáveis com a sexualidade do filho, mas ao mesmo tempo eles pareciam realmente dispostos a se esforçar para aceitar e apoiar Lewis, o que era um grande passo. Maior do que achou que aconteceria.
Aquela ideia totalmente idiota de Rachel, de fazer com que o adolescente terminasse com o namorado, foi logo por água abaixo porque, honestamente, não fazia o menor sentido, e parecia que agora ela entendia isso. E mesmo que as coisas entre pais e filho não estivessem exatamente como costumavam ser, era nítido como todos estavam se esforçando para melhorar. E era o que ela podia pedir.
Rachel acabou comentando com Charlie sobre o envolvimento de Tom e , e o homem nunca falou sobre o assunto com ela. Mas ela sabia pela maneira como Charlie a olhava agora, como se ela fosse uma pessoa errada, uma influência ruim. Ao menos ela ainda cuidava de Liam normalmente, e ninguém falava nada sobre seu trabalho.
O natal tinha sido aceitável e, para o ano novo, Rachel e Charlie tinham decidido viajar para a casa de algum parente. Pelo que conseguiu entender, foi a primeira vez que Lewis não foi junto, mas o adolescente tinha insistido demais para passar a virada com o novo namorado.
Era estranho assistir de longe essa parte da vida dos pais, quando os filhos começavam a ficar cada vez mais independentes. via nitidamente o incômodo no olhar de Rachel, mas a mulher sabia que não poderia segurá-lo. Por isso tinha sugerido também ficar e ajudar Lewis, ao que os dois acabaram aceitando, provavelmente por falta de opção.
tirou os sapatos e se sentou sozinha no sofá, com a taça de sorvete no colo, e colocou uma série de comédia aleatória. Ela riu sozinha por mais ou menos cinco episódios, quando o sono começou a tomá-la. Após deixar a taça já vazio na pia, subiu para o próprio quarto e se deitou, relativamente feliz por como sua virada tinha acontecido.
Seus olhos já estavam fechados e ela estava muito próximo de dormir quando ouviu o celular começar a vibrar sobre a mesa de cabeceira. Morrendo de preguiça, ela esticou o braço e tirou o aparelho do carregador, mal abrindo os olhos para ver o que estava acordando-a. E, ao ver o nome de Tom ligando para ela, abriu os olhos de uma vez, assustada, apertando o botão verde para atendê-lo.
— Tom? — ela franziu as sobrancelhas.
— Abre a porta pra mim.
— Quê? — se sentou e coçou o olho, tentando acordar completamente. — Que porta?
— Dos O’donnell. Eu tô aqui. Abre pra mim.
Por que aquilo parecia não fazer sentido?
— Eu achei que vocês iam virar o ano na sua casa.
— A gente virou — Tom soltou um alto suspiro contra o microfone do aparelho. — Eu não vou sair daqui enquanto você não abrir.
— O que você tá fazendo aqui? — se deu por vencida, levantando sem se importar em trocar o pijama ou sequer calçar os sapatos, descendo rapidamente as escadas.
— Você tá vindo abrir a porta? — a pergunta de Tom foi seguida pela porta sendo aberta e um leve arrepio em todo o corpo de por conta do vento frio que agora invadia a casa quente.
— O que você tá fazendo aqui? — repetiu a pergunta, olhando nos olhos do rapaz, vendo-o abrir um sorriso bobo.
— Eu queria você — Tom entrou na casa e bateu a porta atrás de si, puxando o corpo de e a beijando com determinação.
Por um lado, tinha sentido falta de ter Tom daquela maneira, parecendo tão entregue a ela, desejando-a com tanta vontade. Fazia um mês desde que eles tinham “terminado”, dois meses desde o Halloween, e tinha sentido falta dele praticamente todos os dias.
Ao mesmo tempo, parecia que tempo nenhum tempo tinha passado. Os lábios de Tom sobre os seus eram exatamente o mesmo, como ela se lembrava. Quentes, certos, encaixando-se com uma precisão quase assustadora. A sensação de calor que ela sentia parecia nunca ter deixado seu corpo.
A única coisa errada naquela cena era como Tom tinha um fortíssimo sabor de álcool, o que a deixava ter certeza que ele estava bêbado. E, por mais que odiasse admitir, apenas por isso acabou o afastando.
— O que você tá fazendo aqui? — ela repetiu pela terceira vez e soltou um suspiro cansado antes de se afastar totalmente do rapaz, indo até a porta e a trancando.
— Eu já falei. Eu queria você — as sobrancelhas de Tom franziram e percebeu que o olhar dele não parecia focar totalmente, o que a fez se perguntar o quão bêbado ele estava.
— E a gente conversou há muito tempo sobre como isso não vai mais acontecer.
— Mas, … — a expressão de cachorrinho que caiu do caminhão da mudança era totalmente injusta. — É ano novo.
— E daí? — meio se dando por vencida, soltou uma risada leve. — Eu percebi mesmo que você tá bêbado, só mais um motivo pra eu não deixar você se levar pela emoção.
Tom bufou e cruzou os braços, completamente manhoso. caminhou até ele e o obrigou a descruzar os braços, segurando sua mão e o levando até o sofá, onde Tom se jogou ainda parecendo completamente emburrado, nada feliz com a maneira como estava lidando com situação.
— Eu vou pegar um copo de água pra você — ela riu enquanto ia até a cozinha, enchendo rapidamente o copo antes de voltar para a sala e estendê-lo para o rapaz.
— Eu não quero ficar o ano novo sem você — Tom ainda parecia manhoso após tomar todo o copo quase de uma vez. — Eu odiei “terminar”, eu tô sentindo sua falta.
Quantas vezes o mesmo coração podia ser partido?
mordeu o próprio lábio rapidamente, se impedindo de dar qualquer resposta que soasse precipitada. Delicadamente tirou o copo vazio da mão de Tom, o colocando sobre a mesa de centro para apenas então encarar o rapaz novamente, se sentando ao seu lado no sofá. Ele ainda a olhava com aquela expressão de coitado e o odiou por isso.
— Foi melhor nós termos terminado — foi a resposta que ela escolheu, no fim.
— Não — Tom se aproximou um pouco mais dela. — Eu tô odiando acordar e você não estar abraçada em mim. E eu odeio quando a gente sai e você não fica me provocando o tempo todo. Mas o que eu mais odeio é que…
Tom parou de falar, olhando para algum ponto distante. o encarou por vários segundos, a curiosidade a matando para saber o que ele queria dizer. Mas a frase nunca foi finalizada, e tinha empatia o bastante para não forçá-lo a dizer algo que não queria.
— Não era pra você ter se… Se sentir assim sobre mim — o ímpeto de tocá-lo foi mais forte que ela, e logo ela estava fazendo um leve carinho nele. — Mas agora aconteceu, e eu não posso correr o risco de te machucar.
— Mas eu não ligo — os olhos dele fecharam enquanto ele se entregava ao carinho dela. — Você pode me machucar, eu não ligo. Ficar sem você tá machucando mais.
Infinitamente.
O mesmo coração poderia ser partido infinitas vezes.
E sempre doeria como se fosse a primeira.
A história de que um dia se acostuma com a dor era a maior mentira que as pessoas contavam. sentia novamente a dor do coração partido e era tão insuportável quanto da primeira vez. Naquele momento ela se odiava por não conseguir retribuir os sentimentos de Tom, por vê-lo tão frágil e vulnerável em sua frente. Tudo o que ela mais desejava era fazê-lo feliz, poder ser a pessoa que o faria sorrir.
se odiava por saber que nunca seria essa pessoa.
— Você tá bêbado — foi só o que ela falou, percebendo que a própria voz soava fraca, precisando limpar a garganta antes de continuar: — Amanhã você vai se arrepender de tudo o que tá falando agora.
— Mas não vai deixar de ser verdade — aquela afirmação deixava tudo ainda pior.
— Você deveria voltar para sua casa, Tom. Eu te acompanho até lá, só pra garantir que você não vai cair no meio do caminho.
— Eu não quero ir — antes que pudesse reagir, ela sentiu os braços de Tom envolvê-la, a puxando para um abraço apertado, permitindo que ele descansasse a cabeça o ombro dela. — Você também sente minha falta, não sente?
— Tom… — usou um tom de advertência. Aquele com certeza era um território perigoso.
— Eu sei que sente — ele riu e sentiu-o mover a cabeça, depositando alguns beijos em seu ombro, começando a direcioná-los a seu pescoço. — Eu sei que você sente falta de como eu sempre me comportei tão bem, de como eu te obedecia. E depois de como eu te fodia, de rebolar em mim. Você gemia tão gostoso,
— Eu tô tentando não ser a vilã dessa história, Thomas — ela o afastou, cerrando os dentes e se esforçando ao máximo para não transparecer o quanto aquelas palavras de Tom eram completamente verdade. — Sério, é melhor você ir embora.
— Posso ficar aqui? — as sobrancelhas de levantaram, desconfiada, mas rapidamente Tom complementou: — Eu durmo no sofá mesmo. Eu só não quero voltar com o pessoal.
— Tudo bem — a brasileira se deu por vencida. — Você pode dormir na minha cama, eu fico no quarto do Lewis. Ele vai passar a noite no namorado.
— A gente pode dormir juntos — enquanto eles subiam as escadas, estreitou levemente os olhos para Tom, julgando as palavras dele, mas o rapaz apenas riu. — Eu não vou te atacar durante a noite, relaxa.
— Não é o que me preocupa.
O quarto de não estava totalmente arrumado, a cama bagunçada porque ela tinha tentando dormir antes de Tom aparecer em sua porta e virar sua noite da virada completamente de cabeça para baixo. Ela deixou que o rapaz se acomodasse, não olhando muito enquanto ele tirava o jeans e a camisa, deitando-se semi nu embaixo do edredom.
Antes que ela saísse e o deixasse sozinha, Tom pediu novamente para que ela ficasse. Apenas mais um pouco. Soltando um suspiro, foi até a cama e se sentou ao lado dele, passando os dedos levemente pelos fios escuros e curtos, mais curtos do que ela estava acostumada.
— Me desculpa — mesmo que a voz de Tom estivesse baixa, ela ecoou no quarto escuro.
— Pelo quê?
— Por ter me apaixonado por você.
Os olhos de fecharam, ardendo, e seu estômago pareceu congelar completamente. Quando aquele sofrimento acabaria?
— Me desculpa por não ter me apaixonado — foi a única resposta que ela conseguiu sussurrar.
Ali, em silêncio, desejou de todo coração que as coisas não tivessem acontecido daquela maneira. Ela se odiava por saber que tinha deixado as coisas chegarem naquele ponto, por saber que ao seu lado estava o rapaz mais perfeitamente imperfeito que ela já tinha conhecido, e provavelmente que conheceria em toda sua vida, e que ela não conseguia retribuir seus sentimentos.
Mas, mais do que tudo, odiava saber que ela e Tom nunca teriam um felizes para sempre juntos.

XXIX
[Sam] Mel, você teve alguma notícia do Tom?

[] Ele tá dormindo aqui em casa

[Sam] … Entendi

[] Relaxa, não é que o você tá pensando
[Sam] Conhecendo meu irmão… Seria melhor se fosse, né? 🙁

suspirou, relendo as mensagens de Sam pela décima vez, pensando no que ele realmente quis dizer. Já estava relativamente tarde e ela precisava almoçar, mas Tom ainda estava dormindo em seu quarto.
Como prometido, tinha passado a noite no quarto de Lewis, deixando Tom dormir sozinho, por mais que ela quisesse ter jogado tudo para o alto e se rendido ao rapaz. Era difícil demais ser a pessoa sensata de uma não-relação.
Com um suspiro, ela subiu as escadas e foi até o próprio quarto, encontrando Tom dormindo calmamente. Acendeu a luz e caminhou até a cama, sentando-se ao lado dele e começando a brincar com o cabelo do rapaz, precisando chamá-lo diversas vezes até que ele finalmente acordasse, parecendo ainda muito sonolento.
— Eu vou pedir comida pra gente. O que você vai querer?
— Você não vai cozinhar? — ele soltou uma risada preguiçosa. — Decidiu que não vai tentar matar nós dois?
— Se você fizer gracinha eu desisto de ter pena de você e faço almoço — os dois riram um pouco mais. — O que você quer comer, bonito?
Tom se sentou na cama e, juntos, escolheram uma comida relativamente saudável pelo Uber Eats mesmo. Eles continuaram na cama, conversando, contando como efetivamente tinha sido a virada do ano, sem sequer citar tudo o que tinha acontecido depois que Tom apareceu na casa dos O’donnell. riu das histórias dos amigos, arrependendo-se apenas um pouco de não ter aceitado o convite de Olivia.
Demorou por volta de quarenta minutos para que a comida finalmente chegasse e eles pudessem descer para almoçar.
— Então… — Tom puxou assunto enquanto eles comiam. — Quando os O’donnell voltam?
— Semana que vem — infelizmente, ela completou mentalmente. Ter a casa apenas para ela estava sendo uma experiência boa demais.
— Aposto que você está triste com isso — a risada de Tom era calorosa. — Não vai mais ter a casa pra você, vai ter que voltar a cuidar de uma criança…
— Eu gosto do Liam. E do Lewis.
— O que eles falaram quando descobriram sobre nós dois? — a pergunta pegou de surpresa. Ela não tinha comentado com Tom sobre aquele dia com Rachel, sobre como tudo tinha acontecido. E provavelmente ela estava com a expressão bastante confusa, porque logo Tom complementou: — Eles falaram com os meus pais, e meus pais falaram comigo.
— Que merda. O que eles falaram?
— O clássico, sobre como foi irresponsável, como eu poderia ter te prejudicado, como eu não deveria ter nem dado em cima de você, etc — Tom acabou rindo ainda mais. — Você acredita nisso? Eles acham que fui eu que te conquistei. Mal sabem eles que sempre foi você quem deu as ordens.
A risada que soltou era nervosa, procurando por uma piada que não estava ali, ao menos não para ela. Pegou as embalagens do almoço e foi até o lixo, descartando tudo, feliz por não ter precisado lavar louça naquele dia. Além disso, Tom tinha insisto em pagar pelo almoço, e não era idiota de recusar apenas para manter o orgulho, então aquela refeição tinha sido ótima por vários motivos.
— Então… Sobre ontem… — ela começou e Tom soltou um suspiro, afastando um pouco a cadeira da mesa apenas para poder sentar-se de lado, ficando de frente para .
— Eu estava bêbado.
— Claramente — bufou. — E falou algumas coisas… Preocupantes.
— Eu lembro tudo que eu falei — as sobrancelhas do rapaz franziram. — Eu realmente não menti, .
O que ele esperava com essa afirmação? Deixar as coisas melhores?
— Você quer deixar as coisas mais difíceis entre nós? — sua voz soou acusatória e ela se odiou por isso.
— Para de ficar me culpando por tudo, .
— Eu não tô te culpando! Pelo menos não só você — ela soltou um suspiro alto antes de se aproximar mais dele, apoiando o quadril contra a mesa. — Desculpa se em algum momento eu fiz soar como se fosse o caso, não é. Eu também me culpo por tudo isso, Tom. Eu sabia que você estava se apaixonando por mim, já faz tempo, e mesmo assim eu não parei quando deveria porque eu deixei o tesão falar mais alto — passou a mão pelo rosto, se sentindo levemente desesperada. — Eu deveria ter sido mais responsável, parado antes, pensado mais nos seus senti-
! — Tom levantou da cadeira e foi até ela, segurando-a pelos ombros com misto de delicadeza e urgência. — Respira. Você tá pirando!
— Claro que eu tô pirando, Tom! Você aparece aqui, bêbado, dizendo que- — a frase dela foi interrompida pelo lábios de Tom se chocando contra os seus. Os olhos de arregalaram e ela o afastou rapidamente. — E isso! Por que você faz isso?!
— Desculpa, foi mais forte que eu — Tom riu levemente, como se tudo estivesse totalmente bem. — , sabe qual foi a pior parte da história? Você se encheu tanto de paranoia, se culpou tanto que você esqueceu o que eu repeti várias vezes: está tudo bem pra mim.
— Você lembra tudo o que você falou ontem, né?
— Lembro — ele se aproximou novamente, acariciando levemente o rosto de . — E eu estava falando a verdade. Eu acabei me apaixonando sim, mas eu sei exatamente como você se sente, e eu sei que é só sexo. Sempre foi só sexo. E, , está. Tudo. Bem.
Ela apenas balançou a cabeça, não acreditando em uma única palavra que o rapaz falava porque, honestamente, não tinha como. Parecia que Tom não tinha ideia do que estava falando. Ele apenas revirou os olhos e bufou.
— Eu vou ter que viver com o fato de que você vai embora, que nós nunca vamos ser um casal, e, sério, a gente nem seria um bom casal — Tom balançou os ombros e se sentiu obrigada a concordar. Eles seriam um casal péssimo. — Eu vou te superar. Mas eu não quero ter que ficar sem você o pouco tempo que eu ainda posso.
— Honestamente, eu não tenho ideia de como você consegue confiar em você mesmo falando isso — revirou os olhos, a imagem de Tom parecendo tão frágil ainda muito forte em sua cabeça. — Você está deliberadamente falando que quer sofrer, e eu sei muito bem o seu nível de masoquismo, Tom. Eu não posso ter esse peso na minha consciência.
— A parte ruim dessa história é que você só me cortou — Tom franziu as sobrancelhas, parecendo um pouco incomodado. — Começou a me ignorar, e daí… Terminou. Simples assim. Você nunca nem me deu a chance de ter o último beijo, a última foda, nada.
— Mas é assim que funciona, não é? — ela acabou rindo um pouco. — Você nunca sabe que está fazendo algo pela última vez, até que acontece. O último chocolate, o último cigarro, o último abraço. Você só segue fazendo essas coisas, até que nunca mais faz.
— Me deixa ter você pela última vez — a testa de Tom encontrou a de , a voz dele soando baixa. — Só mais uma vez.
A cabeça e coração de gritavam “não” desesperadamente. Ela sabia que era uma péssima ideia, irresponsável, que ia contra absolutamente tudo o que ela estava tentando desconstruir entre eles. Lá no fundo, simplesmente sabia que se entregar a Tom naquele momento seria uma decisão ruim.
Mas o que era mais uma decisão ruim no meio de tantas outras?
segurou a nuca de Tom e o puxou para mais perto, unindo os lábios deles em um beijo que era tudo o que ela tinha desejado pelo tempo em que tinham ficado afastados. Era quase ridículo o quanto sentia falta do corpo de Tom contra o seu, o contato do rapaz. Ele era um maldito vício que ela tinha adquirido.
Em meio a beijos e toques desesperados, eles subiram para o quarto de , batendo a porta com força. decidiu se entregar totalmente, esquecer por alguns minutos que eles deveriam ter parado com aquilo de vez. Especialmente porque não era justo que apenas ela se cobrasse tanto assim. Como qualquer relacionamento, não estava sozinha, não cabia apenas à ela tomar decisões. Ela tinha que acreditar em dor, dar a ele o direito de escolha. E se ele também queria…
— Eu senti tanto sua falta — Tom sussurrou contra seu ouvido enquanto eles começavam a se despir, um pouco desesperados. — Eu senti falta do seu toque, da sua boca, do seu corpo…
— Tom, eu-
— Você sempre me deixou louco, — os beijos dele começaram a encontrar cada parte da pele nua de , encontrando os locais sensíveis que ele tinha conhecido tão bem. — Quando a gente saía juntos, tudo o que eu pensava era em te foder, em te ouvir gemer meu nome…
Tom não deu a tempo de responder ao comentário. As mãos dele passearam por seu corpo, acariciando levemente seus seios nus, brincando com , provocando sensações deliciosamente prazerosas. Tom a provocava lentamente, como se eles não estivessem desesperados, ansiando pelo ápice.
— Não me tortura, Tom — ela murmurou e ele riu, a levando até a cama e se deitando por cima dela.
A boca do rapaz se fechou ao redor de seu seio, levando-a a morder o próprio lábio, deixando-se ser tomada pela sensação de prazer que aos poucos consumia cada fibra de seu corpo. As mãos dele começaram a percorrer seu corpo, tocando-a em regiões sensíveis, que gritavam por mais contato.
Os beijos dele começaram a descer pelo corpo dela, espalhando consigo todo o calor e desejo que sentia há tanto tempo. Tom parecia completamente focado em lhe dar o máximo de prazer, concentrando carícias, beijos, mordidas nas partes mais sensíveis de . Ela suspirou, as sensações se tornando quase demais para lidar.
Era incrível pensar que, mesmo que os dois não estivessem em uma cena, Tom permanecia focado em lhe tocar exatamente como ela sempre ordenava, lembrando cada pequeno detalhe que levava à loucura. O simples pensamento de que, mesmo naquele momento, Tom ainda a obedecia de certa forma, era o bastante para que ficasse completamente molhada.
Os beijos subiram novamente pelo corpo dela e, enquanto beijava seus lábios, sentiu a mão de Tom começar a acariciar sua coxa, lentamente, naquele mesmo ritmo torturador, parecendo realmente focado em fazê-la sofrer pelo máximo de tempo possível.
— Eu falei pra não me torturar — uniu os dentes, nervosa.
— Eu estou sendo um bom garoto pra você — o sorriso de Tom era insuportável, e piorava quando as mãos dele chegavam tão, tão perto de sua intimidade, mas nunca a tocava. precisava que ele a tocasse. Era definitivamente uma necessidade.
— Você tá me deixando puta.
— Eu tô te deixando molhada — Tom corrigiu e, finalmente, a tocou.
sequer tentou segurar o gemido alto que escapou de seus lábios quando as mãos de Tom a tocaram, passeando aos poucos por sua intimidade. Ela rebolou o quadril levemente, tentando aumentar a fricção contra a mão do rapaz, mas Tom não parecia disposto a lhe dar o que ela queria.
— A última vez que a gente transa e você quer me fazer sofrer? — ela moveu o quadril novamente, tentando aumentar o ritmo da mão do rapaz, aprofundar ainda mais seus movimentos, mas Tom não a tocava onde ela tanto ansiava.
— Se essa é mesmo a última vez que a gente transa, eu quero te ouvir gritar meu nome.
Finalmente Tom tocou seu clitóris, e teve a impressão que estava vendo estrelas. Ela fechou os olhos com força e gemeu exatamente como Tom queria. Alto, desesperado, necessitado. O corpo inteiro dela estava envolvido por eletricidade, totalmente carregado de prazer, alucinadamente pedindo por mais. Quando sentiu o dedo de Tom penetrá-la, chegou a acreditar que iria atingir seu ponto alto exatamente naquele momento.
Mas ele ainda mantinha o ritmo lento, cruel. chamou pelo nome de Tom, pedindo por mais velocidade, mas ele a calou com beijos ardentes. Novamente ela rebolou, tentando forçá-lo a ir mais rápido, findar aquela tortura, mas naquele momento, diferente do que ela havia se acostumado, era Tom quem estava no controle.
E estava descobrindo que aquilo também era incrível.
Tom se afastou apenas o bastante para que pudesse descer os lábios por seu corpo e, antes mesmo que ela pudesse reagir, os lábios dele estavam se fechando em sua intimidade, a sugando sem piedade, a língua de Tom a abrindo e explorando cada vez mais, os dedos ainda se movendo dentro de .
As mãos dela se fecharam com força, suas unhas arranhando o colchão com uma força que a própria não sabia possuir. Era quase como se o mundo tivesse acabado e tudo o que ela conseguia enxergar, sentir, era Tom. estava completamente perdida e entregue ao próprio prazer, completamente incapaz de pensar direito.
— Tom, por favor- — ela se pegou implorando em meio aos gemidos, sua voz não passando de um murmuro carente. — Eu não vou conseguir- Não por mais tempo- Por favor.
não prestou atenção quando Tom pegou uma camisinha, não prestou atenção enquanto ele a vestia. Tudo o que ela sentiu foi quando Tom a invadiu de uma vez, preenchendo-a com força, chocando os quadris cruelmente. Ela chamou pelo nome de Tom diversas vezes, mexendo o próprio quadril contra o rapaz, desesperada, buscando por toda fricção que conseguia.
Não demorou para que ela fosse completamente tomada pelo prazer, falando coisas desconexas, sentindo um dos melhores orgasmos de sua vida. Tom ainda se moveu nela mais algumas vezes, a sensibilidade pós-orgasmo tornando a sensação incômoda e incrível, até ele finalmente também atingir o próprio ápice.
Logo os dois estavam deitados na cama, cansados, as respirações aceleradas e descompassadas.
— Acha que foi uma última vez que valeu a pena? — brincou, vendo-o abrir um pequeno sorriso.
— Com você, todas as vezes sempre valem — Tom a puxou para perto, dando-lhe um beijo preguiçoso. — Você… Tá bem?
— Eu deveria estar te perguntando isso — ela franziu as sobrancelhas, encarando-o com preocupação. — Eu sou a pessoa que se preocupa com você, com os seus sentimentos, lembra?
— Eu tô ótimo, — Tom tocou o rosto dela levemente, acariciando-a antes de se afastar um pouco. — Eu prometo que meu coração não está partido. Não muito, pelo menos.
apenas riu triste e se ajeitou melhor na cama, tomando o cuidado de não ficar demais nos braços de Tom, fechando os olhos e respirando fundo. Ela ainda não sabia se tinha acertado ou errado feio ao se entregar a Tom mais uma vez, mas, ao mesmo tempo… sentia que eles tinham realmente se resolvido.
E que, ironicamente, a partir dali as coisas ficariam realmente bem.

XXX

— Só mais três semanas — Ayumi soltou um suspiro triste antes de receber uma reclamação de e voltar a ficar na pose correta. — Eu não acredito que você vai embora em tão pouco tempo.
— Quando você fala assim, quase me dá vontade de desistir de ir embora — deu uma risadinha, olhando a amiga pela lente da câmera, ajustando melhor o ângulo para tirar mais uma foto.
— Mas você poderia ficar, se quisesse — mais um suspiro desanimado e Ayumi desistiu completamente de ser a modelo de . A brasileira suspirou, também se dando por vencida e revendo as fotos que elas tinham tirado naquela tarde. — Você poderia estender seu contrato por mais um ano, não poderia?
— Eu nunca pretendi realmente renovar o contrato, para ser sincera — se sentou em um dos bancos da praça em que estavam fazendo as fotografias, pegando a Polaroid que tinha ganhado de aniversário e vendo algumas fotos que tinha tirado com a amiga. — E acho que, especialmente agora, os O’donnell não renovariam nem se eu quisesse.
A risada de era nervosa e sincera. Depois de tudo o que tinha acontecido, ela tinha total certeza que os O’donnell nunca aceitariam renovar o contrato com ela. Tudo bem, não era um desejo que ela tinha. Queria voltar para o Brasil, para sua vida de terceiro mundo, era mais fácil assim. O tipo de problema que o primeiro mundo tinha lhe trazido era mais desgastante do que ela estava acostumada.
— Eles reclamaram muito por causa do Tom?
— Algumas coisas não precisam ser ditas em voz alta pra gente saber que estão realmente mal — ela balançou os ombros e começou a desencaixar as lentes da câmera, as guardando na bolsa. — Só pelo jeito que o Charlie meio que me evita e que a Rachel me olha eu já sei. Eu virei a brasileira vadia.
— Ser vadia não é um problema.
— Pra eles, claramente é. Mas eu vou sentir tanta saudade de você. E da Olivia, de todo mundo, no fim. Mesmo que as coisas não estejam exatamente como eram antes.
— Mas pelo menos você e o Tom voltaram a se falar normalmente — o rosto de ficou quente instantaneamente com o comentário simpático de Ayumi. Claro que a amiga queria apenas apontar um ponto positivo mas… Tinham aquelas memórias que não sentia exatamente orgulho, apesar de também não sentir vergonha.
— Ele meio que teve que aceitar, no fim — as duas começaram a caminhar em direção ao ponto de ônibus, que já virava a esquina. — Mas, sabe, uma parte de mim queria tanto ter se apaixonado por ele…
— É engraçado porque, sendo ace-aro, eu nunca pensei como deve ser ruim ser alo-aro, mas vendo seu sofrimento eu fico feliz por ser assexual — Ayumi deu uma risadinha e apenas franziu as sobrancelhas enquanto elas subiam no veículo.
— Como é?
A expressão assustada de Ayumi quase fez com que começasse a rir, mas ela estava chocada demais com o que a amiga tinha falado para sequer se importar em dizer que “estava tudo bem”. Enquanto elas se sentavam no banco do ônibus, Ayumi parecia realmente se sentir culpada pelo que havia acabado de falar.
— Desculpa, eu não queria assumir nada! — as palavras saíam meio atropeladas da boca da inglesa, o desespero claramente a tomando. — É só que, pelo jeito que você fala, deu a entender, mas eu não quis assumir nada, eu juro!
— Ayumi, calma — acabou rindo. — Não tem problema, eu só… Nunca tinha nem pensado na possibilidade e fiquei um pouco chocada. Só isso.
— Desculpa, eu não queria impor.
Novamente, afirmou que estava tudo bem, mas o trajeto de ônibus seguiu em silêncio. Ela nunca tinha sequer considerado a pequena possibilidade de ser uma pessoa arromântica. nunca tinha pensado em realmente separar atração sexual de atração romântica. Era estranho porque ela sabia que eram duas coisas diferentes, mas, por alguma razão inexplicável, ela não achava que essas diferenças poderiam se aplicar tão profundamente a ela.
E, agora que realmente pensava sobre isso… fazia todo sentido, não fazia? Ela sempre tinha sido essa pessoa, afinal. A que ficava com várias pessoas, que nunca se apaixonava por ninguém, que sempre tinha um ficante mas nunca um namorado. E mesmo nas poucas vezes que errou ao namorar alguém, sempre foi na esperança que acabasse se apaixonando no caminho.
Nunca tinha acontecido.
Em seus vinte e dois anos de vida, nunca, nunca tinha se apaixonado. E agora parecia que isso fazia todo sentido. Não que ela tivesse completa certeza que realmente fosse arromântica mas, se fosse o caso, agora tudo fazia sentido.
E a melhor parte era que ela não precisaria continuar se culpando, se odiando por não retribuir os sentimentos de Tom. Ela não precisaria se martirizar por algo que era simplesmente… ela. Se Ayumi estivesse certa, era uma pessoa arromântica. E estava tudo bem ser assim.
Durante a viagem, sorriu o tempo todo. Ela ainda não conseguia dizer com certeza se se identificava como alo-aro, mas apenas a possibilidade já a reconfortava. Muitas pessoas falavam sobre como rótulos são ruins, mas às vezes eram os rótulos que ajudavam tanto uma pessoa a se sentir… normal.
Quando chegaram na casa de Tom, onde todas as aguardavam, não conseguia parar de sorrir. Era ridículo o quanto apenas saber que ela não era um problema podia mudar completamente o seu humor, a maneira como ela enxergava as coisas. Era como se Ayumi, mesmo que sem querer, tivesse feito toda sua vida ser definida.
E tudo ficava melhor quando fazia sentido.
Eles tinham combinado de reunir o grupo inteiro para passar aquela tarde de sábado juntos, a última que todos conseguiriam estar presentes antes que enfim voltasse para o Brasil. Sam tinha aceitado fazer um jantar incrível – tendo Elysia e Harrison como principais ajudantes, os outros apenas auxiliando em coisas mais básicas.
Todos se sentaram na sala, porque ainda estava frio demais para ficarem no exterior, e conversaram, comeram e beberam juntos. Era quase como se tudo estivesse normal de novo, como se alguns dramas nunca tivessem sequer atingido todos.
Talvez fosse porque era a última reunião que faria parte, ou talvez fosse porque ela tinha acabado de tirar um peso enorme das costas, mas tudo parecia totalmente perfeito. Ela não se sentia mais julgada, e Tom às vezes olhava para ela e sorria. Eles tinham se resolvido da forma mais errada de todas, por um lado. Por outro era como se aquele dia, na casa dos O’donnell, tivesse colocado todos os pontos necessários na história.
Tom estava apaixonado, não, e era assim que aquela história acabaria.
A noite estava alta, e não fosse pelo aquecedor, sabia que o frio estaria insuportável. Enquanto lavava a mão na pia do banheiro, ela pensou que uma das poucas coisas que a Europa tinha acertado na história era o aquecedor nas torneiras. Apenas de pensar em como sua mão estaria na água gelada, ela já conseguia sentir a dor.
Ao sair do banheiro, enquanto caminhava de volta para sala, passou por Tom, que voltava da cozinha parecendo ter dificuldade em carregar mais garrafas de cerveja do que possível.
— Quer uma ajuda aí? — ela sorriu, apontando para as garrafas.
— Tá tranquilo — ele as posicionou melhor e pareceu realmente não estar mais com dificuldade. — Você parece feliz hoje.
O comentário dele a deixou ainda mais feliz.
— Eu tô mesmo — eles pararam de caminhar, conversando no meio do corredor. — A Ayumi me falou uma coisa que eu acho que é verdade, e me fez me sentir mais em paz comigo mesma.
— Sério? — os olhos de Tom brilharam em curiosidade. — O quê?
— Que eu provavelmente sou arromântica.
As sobrancelhas do rapaz levantaram, e aos poucos ele pareceu absorver a informação. sorriu, apreciando falar isso em voz alta. Era algo com o qual ela poderia se acostumar.
— Faz sentido — Tom finalmente sorriu e concordou. — Quer dizer, é a única explicação pra você não ter se apaixonado por mim. Eu sou incrível.
— Não emociona, você só é branco — os dois riram juntos. — Mas é engraçado, eu nunca tinha nem pensado nisso.
— Às vezes a gente não enxerga o óbvio — com um suspiro baixo, Tom estendeu uma das garrafas para , que aceitou prontamente. — Como você está sobre voltar pro Brasil?
— Animada. Eu tô com saudade dos meus amigos, minha família, meu sol…
— E da gente? Você vai sentir saudade?
— O tempo todo — ela foi sincera. Querendo ou não, ela sabia que sentiria muita saudade das pessoas que tinham tornado aquele período o mais incrível possível. — Você vai sentir minha falta?
— Eu já sinto — o sorriso de Tom não parecia mais doloroso, apenas… conformado. — Acho que ainda demora um pouco pra eu conseguir te superar.
— Mas você consegue — piscou, fazendo-o soltar um riso sincero. — Daqui a pouco você encontra uma pessoa incrível, que vai ser romântica e se apaixonar por você, e ser a namorada, ou namorado, ou namorade que você merece.
— Eu espero que sim, . Mas até lá, eu vou sentir falta disso — Tom se inclinou em sua direção, roubando um rápido selinho. Depois se afastou novamente e franziu as sobrancelhas antes de falar: — Você vai voltar aqui pra Inglaterra algum dia?
E aquela era uma excelente pergunta, da qual não tinha ideia da resposta.
— Talvez. Passear, quem sabe. Ou quando eu me tornar uma fotógrafa muito famosa e vier fazer vários photoshoots do famoso Tom Holland — ela riu enquanto ele revirava os olhos.
— Eu sou muito exigente. Não é qualquer um que pode tirar minha foto.
— Eu sou especial — piscou e Tom bufou. — E você pode ir me visitar no Brasil também. Vocês todos. Quero mostrar pra vocês o que é uma praia de verdade.
Eles voltaram juntos para a sala, rindo e fazendo uma das coisas que faziam de melhor: se provocar.
O restante da noite foi o mais próximo do perfeito que uma reunião de amigos poderia chegar. exigiu tirar fotos com o grupo, com cada um separadamente, gastando praticamente todos os filmes da sua Polaroid, enchendo consideravelmente a memória de sua câmera.
Nas fotos, todos sorriam, todos pareciam felizes. Na foto com Tom, ela beijava a bochecha do rapaz. Nas fotos em grupo, sempre aparecia abraçada com algum dos amigos. Aquelas polaroids carregariam para sempre as mais diversas memórias, desde as mais doces até as mais azedas. E amaria e odiaria cada uma delas.
Quando ela escolheu fazer um intercâmbio, lhe falaram que a experiência iria mudar sua vida. E agora olhando para os amigos, para Ayumi, para Tom, entendia que aquela era a maior verdade de todo o mundo. Seu ano na Inglaterra a tinha ensinado demais sobre o mundo mas, especialmente, sobre ela mesma.
Aquelas memórias e ensinamentos iriam ficar com por toda sua vida, e elas os levaria para o Brasil com orgulho.

FIM