Coincidence

Coincidence

Sinopse: E se você estivesse de férias e por coincidência, encontrasse Henry Cavill?
Gênero: Romance
Classificação: 16 anos
Restrição: Os nomes Mark e Ryan são fixos.
Betas: Bridget Jones

Capítulos:

 

Prólogo
Abra no Youtube a música “Dream a Little Dream of Me” de Ella Fitzgerald & Louis Armstrong e deixe carregando. Dê play quando for indicado 😉

20 de janeiro de 2050

Sábado a noite.
Em outros tempos, provavelmente estaria em algum lugar animado, com muita música – e talvez dança? –, imersa nos burburinhos de pessoas conversando e rindo enquanto brindavam e se serviam com os drinques elaborados da noite, uma confusão de sons e cheiros que, estranhamente, me faziam sentir em casa.
Parece bobeira, mas sempre achei que, em dias como esse, ficasse algo no ar, uma eletricidade que ao mesmo une as pessoas e as deixa alegres, renova as energias que foram perdidas durante a semana e, de um modo ou outro, faz com que nos sintamos vivos.
Bom, eu poderia não estar em um lugar assim agora e, para falar a verdade, não era nada ruim estar em casa em uma noite bonita e fresca como a que estava. Porém, nada me impedia de não ouvir um pouco de música, não é mesmo?
A ideia era chegar ao dispositivo de som rapidamente, mas já passara do tempo em que precisava me acostumar com o fato de que meus movimentos e reflexos não seriam mais os mesmos de quando era mais jovem. Sendo assim, levei um pouco mais de tempo do que gostaria, mas nada fora do normal ou que despertasse preocupações reais. Para mim, uma pessoa que sempre foi inquieta, demorar mais que alguns segundos para levantar, atravessar um cômodo e voltar era tempo demais.
Liguei o dispositivo, que já estava conectado por bluetooth ao meu notebook no qual trabalhava até alguns minutos atrás e o programa de músicas iniciou de forma automática, como eu havia programado – mais uma das manias de gente obcecada em economizar tempo, como eu –, e os primeiros sopros característicos de saxofone encheram a sala, fazendo-me reconhecer a música de imediato (dê play na música!).
Ah! Agora sim estava um perfeito e belíssimo som de fundo para meu estado contemplativo. Permaneci admirando a cidade noturna enquanto parecia uma velha perdida em memórias, como realmente sou. E, por falar em memórias, aquela música sempre me lembrava de momentos especiais que… Que horas são mesmo?
Enquanto voltava-me para a tela de meu notebook a fim de ver as horas, um pop-up de nova mensagem me distraiu, mas ao começar lê-la, nem precisei olhar no relógio para saber que já se passava da meia-noite, no final das contas.

“Agora é oficial, hein? Finalmente uma sessentona! Hahaha.
Tenho certeza que a imagem de estar aqui me enchendo de vinho e queijo franceses (finge que eu ainda sou a menininha de sempre e não estou dizendo isso), fez com que você pensasse que eu me esqueceria do seu aniversário, né?
Rá! Tenho certeza que estou sendo a primeira pessoa a ter dar parabéns, depois de alguns anos tentando. Era isso ou eu seria mais uma vítima de exclusão familiar e você sabe que eu não estou exagerando.
Enfim, chega de enrolar!
Feliz aniversário e que muitas datas como essa se repitam. Queria muito estar aí contigo para poder lhe dar um mega abraço, mas como você mesma disse, os estudos são quase mais importantes do que qualquer outra coisa. Espero, com isso, chegar a um terço da sua obsessão com trabalho (isso não é uma crítica, que fique claro). Afinal, a saudade está grande.
Ano que vem prometo que estaremos comemorando com estilo, todo mundo junto.
Te amo muito.”

Não pude deixar que um sorriso escapasse enquanto permanecia ali, sozinha e olhando para a mensagem de Kate na tela. Realmente essa garota era uma figura. Talvez por isso elas fossem mais próximas de mim? O motivo talvez fosse óbvio: elas eram tão doidas quanto eu?
O fato de Kate ter mencionado que estava trilhando um caminho como o meu, junto à música que tocava, imediatamente fez minha mente transportar-se para anos atrás, momentos aos quais eu comecei a recordar quando recebi a mensagem.
Momentos esses que, até aquele ponto, estava levando uma vida totalmente diferente da que possuía. Mas, colocando tudo em perspectiva, comecei a pensar que às vezes precisamos experienciar algumas coisas antes de chegar até onde estamos, além de que não é só de conquistas que se faz uma trajetória precursora. As perdas e falhas também são parte desta construção e são muito mais enriquecedoras do que qualquer momento de sucesso. Isso se dá por conta das crises que essas falhas suscitam e, principalmente, pelas reflexões que precisamos encarar ao longo da vida.

 

 

Capítulo 1
Já fazia um bom tempo que estava parada, olhando a água infiltrando-se lentamente e manchar o carpete que, durante seus primeiros momentos de inauguração e glória, deveria ter sido azul claro. Provavelmente pela ação do tempo, somado ao conjunto de ter recebido inúmeros visitantes descuidados, as fibras passaram a adquirir uma tonalidade mais próxima ao pastel, um azul-bebê sem graça. Desde que cheguei, percebi que essa era a consequência de uma tragédia anunciada, o que fazia eu me perguntar se, em nenhum momento da concepção de um conjunto de edifícios como aquele, o responsável por criar aqueles cômodos não havia considerado o tempo instável de Yorkshire Dales.
Acreditar que os hóspedes não trariam seus calçados ensopados pela chuva, se não fosse uma completa burrice por parte do proprietário, ao menos era ingenuidade. Ah! Que piada. E o que eu sabia do ramo de hotelaria, afinal?
Levando-se em conta os últimos tempos, eu sabia de pouquíssima coisa, para falar a verdade. Quando decidi interromper o ciclo e a relação nada saudável de × Trabalho ou Trabalho × , não importando qual dos dois era a ordem correta, mas era algo tão constante que explicava por si só a redundância. Isso me daria uma folga nesses últimos dias, como uma espécie de resolução de ano novo. Pareceu-me uma ideia tão boa que até nomeei minha nova rotina de “casa, trabalho, ” para algo como “, que se fodam todos”.
Quando se está próximo de fazer trinta anos, que dizem ser o ano da virada, você começa a repensar toda a sua vida ou pelo menos seus propósitos e o que fez até então que está de acordo com eles. Uma espinhosa e complexa experiência de reflexão para descobrir que, na verdade, muito pouco do que você fez tem a ver com os planos que traçou para si mesmo aos vinte, por exemplo.
Não que eu lembrasse exatamente quais foram meus inocentes e utópicos sonhos da juventude, mas sabia que era algo bem diferente da vida mergulhada em trabalho em que estava no momento. Muito dificilmente a de vinte anos se envolveria tanto com os problemas do trabalho, pelo menos não ao ponto do que era considerado emocionante fosse algumas intrigas no escritório e ser apenas isso o que compunha o quadro de problemas da vida que todo mundo tem.
Parece uma coisa tremendamente clichê para se dizer, mas é a verdade. O tempo realmente passa depressa. Tão rápido, que eu simplesmente não consigo explicar ou ao menos entender como isso, esta construção de pessoa que sou hoje – tão distante da de vinte anos –, começou. Ou ao menos identificar em qual ponto dessa curta linha do tempo a mais jovem parou de existir.
Talvez fosse mais difícil para pessoas como eu, que nunca tiveram planos tão concretos como casar e formar uma família até os trinta, ou estar estabilizado no emprego, com uma boa casa e outras coisas nesse estilo. Entendia a importância que possuir projetos em longo prazo tinha para a maioria das pessoas, mas isso nunca fez muita diferença para mim.
Quando parei o curso desenfreado de sempre estar correndo contra o tempo para tentar recordar o que a de dez anos atrás queria, foi que notei que simplesmente não me lembrava mais. Essa foi a minha chamada de despertar.
Estar perto de fazer trinta anos é uma coisa muito louca, porque é como deparar-se com uma encruzilhada:

Adeus, juventude. Olá, vida adulta.
É quando você finalmente assimila que não dá mais para fingir que ainda é um adolescente, sem responsabilidades e onde a ideia de voltar correndo para debaixo dos braços da mãe ainda é uma opção aceitável no caso de tudo dar errado. O sinal concreto de que todos estão envelhecendo e que a vida é algo extremamente efêmero.
É também quando fica evidente que uma fatia considerável da sua vivência já passou. Se você fez pouca coisa ou se decepcionou com isso, certamente deve começar a mexer seus pauzinhos, e rápido.
Como fazer isso, saber para onde seguir, já era outra história. Uma coisa tão complicada quanto as próprias conclusões às quais se chega, depois de tantas buscas por respostas. Tudo que ganha são mais perguntas.
Foi então que a tentativa de autoconcessão de férias se sobressaiu entre toda a confusão que eu simbolizava no momento. Se eu sabia que fazer uma espécie de retiro era a resposta? Não, não era. Aliás, não fazia ideia se isso funcionaria, mas que era necessário, disso não havia dúvidas.
Portanto, lá estava eu, há exatamente três dias sendo uma completa inútil e praticamente surtando por conta disso. Meu espírito irrequieto não poderia me dar uma trégua por muito tempo, eu já deveria ter imaginado. Sabe aqueles discursos bonitos e motivadores que se encontra em qualquer livro de autoajuda? Pois bem, eles são uma farsa – só funcionam nos livros. Ou pelo menos para mim, estava sendo assim.
Enquanto olhava o carpete, completamente entediada, compreendi que havia chego a algo muito próximo do fundo do poço e estava a um fio de distância para decidir voltar para casa, para o cotidiano caótico, para o trabalho. Fazia um bom tempo que não tinha tanto espaço para ficar apenas com minha companhia, com a mente desocupada, sem preocupações sobre se tudo daria certo no dia seguinte ou se o material a ser apresentado na reunião da próxima semana já estava pronto.
Eu havia ido até ali para poder pensar, certo? Quanto a isso, não podia reclamar. Espaço de sobra tinha para isso e também para repetir todos os raciocínios de novo, se quisesse.
Aparentemente, não estava tendo muito sucesso com o plano, até então. Honestamente, era um eufemismo. Eu mal cheguei e já estava pensando em voltar, era praticamente um desastre. Se eu não me conhecesse consideravelmente bem para saber que só precisava de um pouco de insistência, minha mente já estaria preocupada em decidir qual livro leria durante a viagem de trem, de volta.
Caminhar, de repente, pareceu-me uma ótima ideia embora eu já tivesse feito isso no dia anterior. Mas sempre há mais coisas a serem vistas e exploradas em lugares com tanta natureza como aquele. Sendo assim, eu só tinha que me esforçar um pouco mais.
Uma boa e longa caminhada sem pressa e despreocupada, com certeza só traria benefícios. Talvez encontrasse casualmente os outros hóspedes para uma breve conversa. Sempre dizem que é uma boa ideia conhecer pessoas novas, para se ter novas perspectivas.

Não demorei muito para ver os resultados. Só de estar respirando o ar fresco, sentir a brisa passando pelo rosto e também a ausência de cheiros poluídos e pesados da cidade, já me faziam mudar de ideia quanto à questão de valer ou não a pena ter tirado férias. Ouvir o som dos pássaros ao fundo, observar a grama tão verde e extensa, as árvores tão antigas e robustas, a imensidão do céu no horizonte sem a interrupção de qualquer construção ou os irritantes e inesgotáveis arranha-céus… Era tudo um espetáculo bem diante dos olhos, gratuito e praticamente reservado.
Pensei seriamente em pegar uma das trilhas do bosque, mas acabei optando pelas caminhadas entre as pequenas montanhas. Não havia muitas e não pareciam tão altas, mas era o suficiente para um leve esforço de subir e descer, além da vista muito agradável, sem dúvida alguma.
Passei boa parte do restante da manhã e início da tarde neste passatempo, até que decidi fazer o caminho de volta. Para ser sincera, estava admiravelmente satisfeita que estivesse apreciando tanto tempo na minha própria companhia, sem cair novamente em um abismo mental. Era surpreendente, e talvez até enervante, a facilidade que possuía para me manter na superfície quando queria.
Não havia nem chego ao meio do caminho de volta quando ouvi o primeiro trovão soar, alto o suficiente para repercutir em ecos pelos vales, dando a sensação de que a terra tremia.
Puta merda. Mas é claro que o planeta iria decidir colocar tudo à baixo com um dilúvio bem agora!
Realmente com medo de ficar presa no meio do nada, desabrigada e com sérios riscos de um raio cair bem no meio da minha cabeça – e pela primeira vez na vida essa máxima era real. Afinal, estava em campo aberto –, tratei de me colocar em movimento e, enquanto corria, tentei vasculhar ao redor por algo que fosse próximo a um abrigo, onde pudesse ficar para esperar a tempestade passar.
A chuva era tão violenta e densa que eu mal conseguia ver alguma coisa além de dez metros, mas felizmente avistei um pequeno casebre – possivelmente de caça, comum nesses tipos de regiões camponesas –, talvez tão velho quanto aquelas terras. Com certeza era infinitamente melhor do que ficar debaixo de alguma árvore.
Vindo do outro lado, da parte oeste onde se predominavam os bosques, pude ver outro hóspede correndo na mesma direção, obviamente pensando o mesmo que eu. Como estava mais próxima, consegui chegar primeiro e deixei a porta aberta para que ele pudesse entrar.
Dei uma checada no estado de minhas roupas enquanto torcia o cabelo para tirar o excesso de água e, assim como meu cabelo, minhas roupas também estavam molhadas, algo bem próximo de encharcado.
Ouvi os passos na madeira da entrada, o outro hóspede chegando, e me virei a tempo de vê-lo rapidamente fechar a porta para então fazer exatamente a mesma coisa que eu. Enquanto ele se analisava, também fiz um rápido reconhecimento.
Não pude evitar ficar extremamente surpresa quando reconheci seu rosto. O que poderia estar fazendo em um lugar rústico como aquele? Não fazia ideia que o local era frequentado por pessoas famosas, muito menos pelas que trabalham em Hollywood.
— Bom, parece que vamos ter que ficar um tempo por aqui — comentou, já tendo finalizado seu exame e olhando a chuva pela janela. Então ele moveu seus olhos para mim, oferecendo um sorriso educado como cumprimento.
— É, parece que sim — sorri educadamente de volta. — Tempo louco esse de Yorkshire. Sempre imprevisível — dei de ombros.

 

 

Capítulo 2
Virei-me para dar uma olhada no interior do casebre pela primeira vez, agora podendo entender melhor o propósito de ainda estar intacto. Apesar da aparência antiga, seu interior estava consideravelmente conservado. Havia uma mesa pequena e simples, assim como duas cadeiras de madeira, uma prateleira vazia e uma estante pequena, além dos suportes para pendurar casacos. Modesto, mas surpreendentemente mais confortável do que imaginava.
— Nada mal — pude ouvi-lo dizer, também observando o interior. — E temos onde sentar, para conversar.
Ele sentou-se em uma das cadeiras e fez um gesto com o braço, numa espécie de convite para que eu o acompanhasse.
— Ah sim. Se tivéssemos chá, seria perfeito — não pude evitar o sarcasmo enquanto caminhava até a mesa, me acomodando na cadeira. — Uma típica e ordinária reunião britânica.
Meu comentário pareceu o divertir e não pude evitar um leve choque por vê-lo tão perto pela primeira vez.
Que ele era lindíssimo, isso era óbvio. Podia-se ver de longe, mas de perto o impacto era muito maior, principalmente pela intensidade que havia naqueles olhos e em como eles pareciam astutos, de certa forma. Era algo totalmente inesperado, para dizer o mínimo.
E que voz! Uma característica ainda mais marcante que qualquer outra em uma pessoa. Com certeza cabia muito bem para ele, um timbre forte e muito agradável. Agradável até demais.
— Posso começar perguntando o que fazia quando foi interrompida pela chuva? — felizmente, consegui prestar atenção na pergunta, fazendo minha atenção se voltar para o que estava fora de minha mente no momento. Ele ainda sorria e mantinha a cabeça pendendo levemente para um lado, como se realmente estivesse interessado.
— Você quer dizer, esse prenúncio de fim de mundo? — não pude evitar dizer. Afinal, fazia muito tempo que não via um temporal daqueles. — Eu estava apenas caminhando e conhecendo melhor o lugar. Nada demais. E você?
— Eu pretendia sair para uma corrida, mas acho a paisagem tão pitoresca que acabei caminhando para apreciar melhor toda a vista — então nós dois olhamos para a chuva, que ainda caía impiedosa.
Ainda mal dava para se ver algo lá fora, além dos arredores do casebre, mas a enorme mancha verde que o horizonte se tornara no momento era um bom lembrete do que ele queria dizer.
— É realmente muito bonito. Mesmo para quem já esteja acostumado com o campo — concordei. — Quase não me arrependo de ter tirado férias. Por conta disso.
— Por que alguém se arrependeria de tirar férias? — ele questionou, voltando seu olhar para mim, parecendo genuinamente intrigado.
— Hmmm, workaholic? — levantei a mão, praticamente dizendo que estava presente no local, assim como às vezes respondemos a chamada de professores em aula. — Com certeza é a resposta óbvia.
— Realmente, não há muitas opções além dessa — seu corpo estava virado para a janela, então ele se voltou para a mesa e pousou os braços sobre ela, numa típica posição relaxada. — E o que você faz para que essa paisagem esplêndida quase seja perdida?
— Fiz parecer que é algo importante como salvar ou mudar vidas, não é? — soltei uma leve risada, porque realmente era um absurdo eu me arrepender de estar descansando. — Mas não. É só o costume de levar o trabalho a sério até demais. Fico o dia inteiro em um escritório, trabalhando com gestão de projetos. E você?
Não pude evitar fazer essa piada. Se é que posso chamar assim, né?
Levantou o olhar e sua expressão dizia que ele realmente havia considerado que eu talvez não o tivesse reconhecido, até que reparou em meu sorriso zombeteiro.
— Bom, não sou tão conhecido assim — ele se justificou. — Pelo menos não a ponto de assumir que todas as pessoas no mundo vão me reconhecer.
— Então você é modesto? — retruquei, não acreditando muito. Meu tom de voz cético quase sobressaindo pela superfície. — Isso é novidade, pelo menos vindo de um artista.
— Existem artistas modestos — ele defendeu. Seus lábios formavam um enorme sorriso. — Só não é muito comum.
Realmente não é a toa que havia tantos murmúrios a respeito dele. Dificilmente você encontra uma figura masculina tão próxima da imagem de perfeição que existe hoje, no imaginário das pessoas, do homem perfeito. Observando-o sorrindo abertamente daquele jeito, era muito fácil deixar-se prender e ficar observando. Talvez, para pessoas que consideram a beleza acima de tudo, quase hipnótico.
— Você está ciente que há artistas que também dizem isso, mas querem dizer exatamente o contrário, certo?
Embora meus músculos e minha postura estivessem longe de parecer relaxados, assim como ele parecia estar, eu estava satisfeita com meu desempenho em manter a normalidade na conversa. Não que ele fosse meu ídolo ou coisa parecida, na verdade havia visto pouca coisa até hoje que ele tinha feito, mas também nunca tivera oportunidade de ver tão de perto e muito menos falar com uma celebridade.
Honestamente, era inegável que fora uma coincidência bem interessante, mas ao mesmo tempo eu sabia que isso não significava nada. O que haveria?
Incomum ou não, o fato é que para mim as celebridades eram pessoas tão comuns quanto eu. Era totalmente avessa a essa cultura de endeusar qualquer outra pessoa, muito menos um famoso.
Como disse, também não era uma fã. Talvez, se fosse alguma outra pessoa que eu admirasse, até poderia estar mais nervosa e agindo como uma completa esquisita, mas plenamente podemos ver que não é o caso.
E, por último, era simplesmente uma coincidência que tenhamos nos encontrado. Não houvesse ocorrido esse temporal absurdo, cada um teria tomado seu caminho para exploração e admiração de tudo que havia para se ver e seguiríamos a vida.
Aliás, seguir a vida seria exatamente o que aconteceria assim que pudéssemos sair dali.
Talvez outros breves encontros também, por coincidência, já que estávamos na mesma região, mas além da probabilidade ser bem média, o que mais poderia sair disso?
Sim. Você, em meu lugar, poderia muito bem se sentir de outra forma e provavelmente pode não me entender, mas eu sou uma pessoa prática. Tive que ser.

Ficamos em silêncio por um momento, ambos talvez perdidos nas suas próprias reflexões. Não que ele parecesse estar refletindo algo, de fato. Poderia estar pensando em qualquer coisa banal ou rotineira para fazer a seguir, quando saíssemos dali – no que iria jantar a noite, por exemplo. Mas não era propriamente um silêncio constrangedor que permanece como um elefante branco, quando duas pessoas não sabem mais o que dizer.
Ali, podendo ver de camarote uma pessoa tão próxima de uma vida extraordinária, sendo um homem bonito, rico, bem sucedido em sua carreira, etc., etc. e mais etc., eu só podia me perguntar: como era ser ele? Como seria uma pessoa assim, com tanta sorte, que pode se sentir praticamente dono do mundo?
Se este encontro inesperado acontecesse em qualquer outro período da minha vida, provavelmente eu manteria todos esses questionamentos para mim mesma e só falaria amenidades dali para frente. Primeiro porque eu costumava ser uma pessoa com uma mente extremamente focada para minha vida profissional, carreira e tudo mais da carga que poderia vir disso. E segundo, eu até então sentia que tudo estava indo muito bem, até não estar mais. Nos últimos meses, frequentemente eu me via repensando meus propósitos de vida, de existência, de tudo, para falar a verdade. Sabe aquela famosa pergunta: “por que eu estou aqui, por que estou fazendo isso, fazendo o que faço?”.
Talvez não houvesse resposta certa para ou talvez nem houvesse resposta, mas isso me fez voltar a ser aquela cabeça pensante, que sai do automático, olha para além do que os olhos podem ver, reflete e questiona. Eu voltei a ser quem era quando comecei a me entender como alguém, voltando a enxergar pela mesma perspectiva de uma pessoa que está começando a vida e só tem planejamentos de como ela pretende ser.

Agora que eu já possuía a experiência de quem já havia vivido um pouco, só tinha uma definição de conclusão para minha crise dos trinta: minha vida, até então, era extremamente chata e monótona.

Eu poderia continuar tentando me enganar, mas sabia que depois de atingir um limite e o ultrapassar, não há como voltar atrás. Não era falta de me sentir uma pessoa produtiva que estava me fazendo odiar ficar a toa nessas férias. Para falar a verdade, era até que, de certa forma, libertador poder ficar fora do ar da loucura que era o mundo moderno.
O que me incomodava era perceber o quanto a minha vida se tornou vazia.
Quando me obriguei a sair, pela primeira vez em tantos anos, do ritmo frenético que estava levando até então, foi que tudo ficou em evidência: tira-se o trabalho, o denominador comum representativo de hábitos muito fora do que é entendido como saudável, próspero para a felicidade, em sua forma mais simples e imperfeita possível, porque felicidade intocável e inexorável não existe. Colocando tudo isso de lado, o que resta?

— Posso te fazer a pergunta clássica? — minha voz quebrou suavemente o silêncio, como uma leve brisa. Quero dizer, o quase silêncio, uma vez que o som ambiente era o tão gostoso barulho da chuva, caindo sobre a terra molhada.
— Qual delas? — ele respondeu alguns segundos depois, parecendo que também estava saindo de um estado contemplativo.
— Existem mais de uma? — dei risada. — É claro que tem. Eu mesma tenho mais algumas, então provavelmente devem ser as outras.
— A grande maioria se atém a algumas em específico, é verdade. Mas quem sabe você não me surpreende? — que abusado! Era claramente um desafio. — Desde que entrei para esse ramo, aprendi que sempre posso ser surpreendido, por mais que já tenha visto bastante coisa louca por aí.
Ajeitei minhas costas no encosto da cadeira, percebendo que enquanto estive praticamente fora do ar, meu corpo havia praticamente deslizado na cadeira, como se eu estivesse entrando debaixo da mesa. Por reflexo, também mudou sua posição, afastando um pouco a cadeira da mesa, de modo que pudesse sentar com uma perna cruzada, o tornozelo encontrando o joelho na típica cruzada de perna masculina.
Esperei até entender que ele já estava se sentindo confortável novamente e então falei.
— Como é tudo isso? — me restringi a isso. Não queria ter que falar em voz alta as qualidades dele porque não só pareceria bajuladora, como também poderia ser mal interpretado, soando como se estivesse dando em cima dele. Bom, com um rosto desses, eu também interpretaria isso.
Seus braços se apoiaram na perna que estava dobrada e seu tronco se curvou levemente, como se ele estivesse mais próximo, fazendo com que eu expusesse o que deixei subentendido na pergunta.
— Posso ter uma ideia do que você quer dizer, mas não quero ser pretensioso — ele finalmente respondeu, parecendo subitamente sério. — Pode me explicar o que quer dizer com “tudo isso”?
Droga. Além de perfeito, o cara ainda posava de educado e receptivo a ponto de impedir que fosse mal interpretado.
Quer saber de uma coisa? Que se dane. Eu não havia entrado numa crise existencial ferrada e descoberto que minha vida era um tédio por nunca me arriscar?
Foda-se isso, . Amanhã o cara nem vai se lembrar de você.
Não que eu fosse me lembrar de todos os minutos das minhas próximas vinte e quatro horas seguintes, mas provavelmente esse encontro teria muito mais notabilidade para mim, do que para ele.
— Sempre fiquei imaginando como é… — comecei a indagar, pensando como explicaria de um modo, digamos, razoável. Fiz uma breve pausa para reorganizar meus pensamentos. — Como deve ser ter sucesso em algumas coisas, ter dado muita sorte em outras. Tudo isso em um único combo, numa única pessoa. Alguém que provavelmente tenha tudo ao alcance das mãos, sendo requisitado, reconhecido, admirado por homens e mulheres. Talvez até por extraterrestres, se eles derem uma passadinha por aqui.
riu para valer com essa última, jogando a cabeça para trás enquanto gargalhava. Bom, talvez a parte de não parecer bajuladora não tenha dado muito certo. E… Dane-se. Eu estava sendo kamikaze agora, certo? Que se foda o que ele fosse achar disso, se concluiria qualquer coisa sobre mim com essa pergunta. Eu não estava nem aí.
— Obrigado? — ele começou, quando se recompôs. Segurei-me para não revirar os olhos, porque era claro que ele entendera como elogio. Eu já tinha experiência o bastante para saber que pessoas que trabalham com arte e vaidade, ambas sempre costuma andar juntas. — Algumas coisas ficam mais fáceis sim. Muitas coisas, na verdade. Mas também não é tudo. Beleza realmente é algo que até hoje as pessoas dão muita importância e entendo que não caiba a eu julgá-las. Mas para mim há muito mais além disso. Pelo menos tento buscar outras coisas e não ser um refém do próprio espelho, como Narciso.
Foi nessa hora que eu queria ter sido uma fã devota que sabe tudo de seu ídolo e que soubesse de cor e salteado todas as namoradas, affairs que ele pudesse ter, para poder julgar se estava realmente sendo sincero ou não. Porque, convenhamos, todo mundo sabe que esse discurso é o que a audiência gosta de ouvir, né? E ele é um ator, não podemos nos esquecer disso. Não que atores atuem vinte e quatro horas por dia ou fossem pessoas que vivem interpretando personagens. Aliás, isso é um pensamento ignorante e até preconceituoso, mas o que quero dizer é que ele deve saber muito bem construir a imagem que quer que o público veja. Tudo bem que ele não estava dando uma entrevista, estando apenas jogando conversa fora, mas eu não deixava de ser uma espécie de audiência. Até porque ele não me conhecia, então eu poderia muito bem sair de lá e procurar o primeiro jornal de fofoca que aceitasse para que contasse a história e a divulgasse, tendo meus cinco minutos para ser reconhecida como “alguém” fora da multidão ou sentir que fosse algo um pouco além de mera poeira espacial.
— Você me parece um pouco descrente — e lá estava o sorrisinho prepotente. — Sei que pode parecer demagogia de minha parte, mas é verdade. Pensando em padrões de beleza, quando se envelhece perde-se tudo isso. E eu posso ter qualidades, mas ser imortal não é uma delas.
— Para mulheres, sim. A velhice acaba sendo condenável — repliquei, ciente de que poderia estar parecendo bastante arrogante. — O mesmo não se aplica aos homens. Talvez um pouco e em alguns casos, mas normalmente entende-se que os homens ficam apenas mais experientes, assemelhando-se ao vinho, que só melhora com o tempo. Homens mais velhos são mais charmosos, não é o que dizem?
Encaramos-nos por alguns segundos, como uma espécie de embate. O sorrisinho dele ainda estava lá, agora mais sutil e guardado no canto dos lábios. Ele quebrou o contato, passando a olhar os desenhos abstratos que a madeira delineava na mesa, dando-me a oportunidade de apreciar seus enormes cílios, que roçavam em suas maçãs do rosto e também observar com mais calma o restante, notando outros detalhes. Porra, realmente a natureza trabalhara consistentemente nesse exemplar de ser humano. Eu tinha de admitir.
Pensar nisso me irritou um pouco. Não era justo uma pessoa ter tanta sorte. Você provavelmente vai pensar que estou tendo um surto de inveja, mas não é bem a verdade. Eu nunca fui considerada feia, mas também nunca chamei muita atenção por onde passava. Embora saibamos que beleza é relativo, ao mesmo tempo estamos presos ao que a sociedade construiu e entende como belo. Eu certamente me encaixo nesses padrões de beleza, mas facilmente poderia me encaixar mais em “beleza comum” do que “beleza extraordinária”. Para algumas pessoas, com certeza poderia ser colocada na estante “sem graça”.
Não que eu fosse uma pessoa totalmente despreocupada com a aparência e não tivesse autoestima, mas como você já deveria saber, isso de longe era algo de suma importância para mim. Meu visual sempre fora algo bem próximo de funcional e prático. Às vezes, dependendo do meu humor, colocava algo pensando em me sentir mais bonita, peças que ressaltariam o que eu tinha de melhor.
Mas nada que fosse além disso. Nada como esse Adônis que estava em minha frente, que seria reconhecido como algo excepcionalmente belo em qualquer lugar.
Isso fez com que eu voltasse a uma de minhas outras perguntas. Seria possível alguém como ele já ter sido recusado na vida? É claro que não, era impossível, mas… Com certeza as mulheres — homens também, claro — deviam surgir aos montes, de qualquer buraco. Acabei rindo sozinha, imaginando que realmente seria assustador como It: A Coisa se houvessem pessoas saindo de bueiros, enlouquecidas atrás dele.
mexeu a cabeça, parecendo curioso e solícito em entender a piada interna. Olhei-o de volta, minha expressão deixando claro que não compartilharia qualquer coisa que estivesse pensando naquele momento. Provavelmente eu tinha um sorriso que dizia: “daqui você não vai tirar nada, querido”.
— Quais são as outras perguntas? — perguntou então, tendo entendido que eu não comentaria nada do que acabara de acontecer. Ele não parecia chateado, de qualquer maneira. Também não parecia ofendido, se pensasse na hipótese de que ele poderia interpretar que eu estivesse rindo dele.
Mudei de posição novamente, sentando-me de lado no assento da cadeira, de forma que pudesse esticar as pernas. Deixei-as cruzadas, apoiando-as pelos calcanhares e balancei os pés um pouco, testando a rigidez dos músculos, enquanto pensava.
Resolvi ser ousada e ir direto ao ponto.
— Quando você está interessado em uma pessoa, como a chama para sair? — finalmente expus a questão. — Se é que você precise chamar, que chegue a esse ponto.
Certamente ele entendeu meu tom de desafio, mas aparentemente decidiu ignorá-lo. Era realmente surpreendente a sua paciência. Fosse qualquer outra pessoa, já poderia ter se cansado dessa conversa não exatamente tola, mas algo similar? E, com certeza, sem sentido.
— Acontece sim — sua voz era séria, mas muito amigável. — Eu simplesmente peço.
Mas é claro que ele simplesmente pede. Precisa de mais alguma coisa? Argh, como o mundo era desinteressante às vezes.
— E só isso funciona? — soltei e imediatamente percebi que poderia interpretar como se eu achasse que ele tinha a obrigação de fazer algo mais, além disso. Logo tratei de elaborar melhor. — Quero dizer, normalmente as mulheres gostam de romantismo ou algo apelativo como um convite com segundas intenções. Os homens sempre reclamam que é difícil chamar mulheres para sair, etc. Apenas o convite costuma bastar?
— Não entendo porque dizem isso — o entendimento revelou-se em sua expressão, como se uma lâmpada tivesse acendido. — Costumo pedir educadamente e simplesmente funciona.
Essa última fala me fez voltar o olhar para seu rosto, pois antes estava passeando pelo cômodo. Eu precisava olhar seu rosto, porque era difícil de engolir que ele realmente acreditava no que estava dizendo.
Sua expressão já não me dizia nada. Talvez estivesse dando o troco por eu não ter falado nada sobre o motivo de estar rindo antes, mas não era possível que ele estivesse falando sério.
”Não entendo porque dizem isso”. Ele realmente achava que para todos era fácil assim?
“Simplesmente peço”. Porra, era inacreditável!
Poderia ele estar tirando uma com a minha cara? Digo, como se para ele fosse uma coisa óbvia a se dizer, como: “é claro que eu praticamente não preciso pedir, mera mortal”.
Lembra quando eu disse que não estava tendo um surto de inveja? Bom, talvez eu estivesse. Mas também pudera né? Olha o que aquele cara estava dizendo, com a maior naturalidade do mundo. Falando em mundo, estava claro que ele não era justo, mesmo.
Não era a toa que ele achara que eu estava bajulando-o. Claro que sim. Uma pessoa que convive nessa espécie de bolha não deve ter mesmo uma noção de realidade. Provavelmente, naquele instante ele devia estar pensando que, se quisesse, nós estaríamos nos atracando naquele casebre empoleirado.
Como poderia ser diferente, se a pessoa nunca fora rejeitada? Será que esse tipo de hipótese sequer passava naquela cabecinha?
Resolvi levantar e esticar mais um pouco as pernas. Andar ajudava também diluir a súbita irritação.
— Algo errado? — o ouvi perguntar, já que estava de costas para ele.
— Não, de modo algum — apressei-me em responder. Afinal, ele não tinha culpa da bagunça que eu me tornara nessa véspera de aniversário. — Só não consigo ficar muito tempo parada.
Não era só essa demonstração de vida injusta em formato de gente que estava me irritando, eu tive que concluir. O que também me incomodava era aquela última ideia que havia se passado em minha mente. Juntando-se com minhas perguntas e a forma que estou fazendo-as, ele não estaria errado em concluir que eu também não seria a primeira a inaugurar a lista de pessoas que o rejeitaram. Lista esta que não existia por motivos óbvios e, como se podia ver, consistentes.
A questão não era que eu certamente o recusaria se, em algum mundo paralelo, rolasse essa proposta, mas sim o fato dele ter esse conhecimento prévio sobre as pessoas – sobre mim –, porque afinal, não deveria me diferenciar muito delas. Ter dado corda, mesmo que acidentalmente, me incomodava profusamente.
— É a primeira vez que estou aqui e já estou surtindo os efeitos de um lugar tão único — comentei a primeira coisa que veio em mente, de repente não curtindo tanto o silêncio que se instalou.
Quase tive uma síncope quando percebi que completaria a frase com um: “você costuma vir sempre aqui?”. Qual é, ? Se você estivesse mesmo dando em cima desse cara, certamente conseguiria fazer melhor que isso.
pegou a deixa, mesmo que eu tenha deixado meu comentário inacabado.
— Sim. Eu gosto bastante de vir aqui, de vez em quando — ele também se levantou, caminhou até a porta e a abriu. — O que acha de ficarmos na varanda um pouco?
— Já estamos molhados, mesmo — concordei e ele sumiu porta a fora. Em seguida, me juntei a ele, fechando a porta.

 

Nota da autora: A você, pessoa persistente que chegou até aqui, meus mais sinceros agradecimentos.
Ficarei muito feliz em saber sua opinião da história até aqui, o que acha de me contar nos comentários? 😉
Até logo!

 

 

Capítulo 3
Ele estava empoleirado displicentemente na cerca da varanda, olhando a chuva. O cheiro de terra molhada ali fora era muito mais intenso e estranhamente revigorante. Era muito fácil deixar-se levar naquelas fantasias de plano de aposentadoria considerando-se morar em um lugar assim. Estabelecer uma rotina pacífica e tranquila, acordar todo dia para regar as plantas, verificar a horta. Ao final da tarde sentar-se com os gatos em uma poltrona, tomando chá e assistindo o pôr do sol.
— Pensando em quanto tempo vamos demorar para sair daqui? — ouvi sua voz grave e encorpada levemente abafada pelo som da chuva, mas ainda muito característica.
— Na verdade não estou com pressa — informei, dando de ombros. — Não tinha muitos planos para hoje além de ficar passeando por aí. Estou tentando não fazer muitos planos no momento, sabe? Quer dizer, agora mesmo estava pensando em me aposentar em um lugar como esses, mas não estou levando a sério.
— Então está sendo uma viagem não só de férias, mas de autoconhecimento?
— Não sei bem se posso colocar dessa forma, mas de um jeito ou de outro meio que acabou tornando-se uma espécie de jornada ou algo assim — expliquei. — Estou prestes a completar trinta anos e estou meio que pirando com isso.
— Ah, a crise dos trinta. — ele moveu a cabeça em concordância. — É uma fase difícil. Envelhecer, na verdade, é sempre difícil, mas tem suas vantagens. Você tem a oportunidade de tornar-se cada vez mais sábio, mesmo que quanto mais se adquira conhecimento, mais entende-se que não sabe nada.
— É, Sócrates sabia o que estava fazendo — dei risada. — Mas espere um pouco, você tem mais de trinta? Quero dizer, quanto mais de trinta você tem?
— Tenho trinta e sete. — ele virou o corpo de lado, encostando toda a lateral do tronco na cerca para me encarar. — Estou na fase da crise dos quarenta.
— Meu deus, quantas crises existenciais existem? — nós dois rimos ao mesmo tempo. — Mas você não deve estar falando sério. Só está dizendo isso para que eu me sinta melhor.
— Gosto de pensar que sempre estamos em crise. Pelo menos é o que torna os humanos diferentes dos outros animais, somos conscientes de nossa própria consciência e existência, e constantemente ficamos repensando essas questões ao longo da vida.
— Essa sabedoria toda é resultado da crise dos trinta pela qual passou? — brinquei e ele sorriu.
— Dos trinta e cinco — deu uma piscadinha. Revirei os olhos.
— Você tem razão, de qualquer modo. — Encarei a cerca escurecida pela água e passei os dedos sobre a fina camada d’água que estava tentando passar pela superfície, para finalmente ser absorvida e se tornar uma coisa só, em conjunto com madeira. — Meio que isso fica evidente quando completamos mais uma década de vida, porque é meio que um rito de passagem.
Quando voltei a encará-lo, nossos olhos se encontraram e foi quando percebi que estávamos ligeiramente próximos. Perto o bastante para ver seus olhos muito mais detalhadamente, estavam extraordinariamente claros. estava sério agora, concentrado. Talvez refletindo sobre todas essas coisas, como eu?
Que merda para ele, concluí. Ficar preso por algumas horas com uma pessoa com um papo pesado desses.
— Podemos falar de algo menos profundo, se você quiser — propus, tentando amenizar o clima. — Afinal, são apenas o quê, quatro da tarde? Muito cedo para assuntos complexos assim.
— Muito pelo contrário, gosto de conversas complexas. — Ele ainda não quebrou o contato visual. Muito raro encontrar pessoas que olham tão diretamente nos olhos, como ele fazia. — Se sua preocupação é que possa estar me chateando, apesar de ter razão em muitas coisas, pelo que conheci de você até agora, dessa vez posso garantir que está enganada.
Ok, estamos tendo uma conversa absolutamente normal, como dois adultos que estão batendo papo para passar o tempo, já que ficaram presos devido a um contratempo climático. Certo?
Então por que eu fiquei subitamente nervosa com essa declaração? E por que eu estava começando a sentir um breve calor esquentando minhas veias se estávamos numa varanda, com uma baita chuva, uma temperatura quase fria, talvez 64 graus Fahrenheit?
Os lábios delineados dele estavam semiabertos, suavemente corados pela temperatura levemente baixa, como se eles precisassem de cor para chamar mais atenção…
, o que você está fazendo?
De repente, me movi e senti como se o mundo todo estivesse voltando para os seus eixos. Foi só então que eu percebi que nós estávamos mesmo muito próximos, as chances de termos feito isso inconscientemente não era nada remota.
Como eu disse, não tenho graves problemas de autoestima além dos dias que não me sinto tão ok, como todo mundo, mas… Seria possível que ele estivesse interessado em uma pessoa tão desinteressante como eu?
Desinteressante que eu quero dizer seria para alguém como ele, que deve conhecer todo tipo de pessoa o tempo todo. Não era melhor nem pior do que ninguém, apenas extraordinariamente comum.
Ou talvez ele estivesse entediado e essa era sua forma de passar o tempo. Vindo de um cara reconhecido mundialmente como galã, não seria lá tão surpreendente, não é mesmo?
— Vou voltar, estou começando a ficar com frio. — E o Oscar vai para: , senhoras e senhores! Chegava a ser ridículo, quantos anos eu tinha? Quinze?
Não esperei ele responder para enfiar-me de volta para dentro e comportadamente me obrigar a acomodar-me cuidadosamente na cadeira. Não estava julgando, mas eu não estava afim de ser o passatempo de ninguém.
Ele não entrou exatamente em seguida. Devo ter ficado alguns minutos sozinha, olhando pela janela, até que observei pela visão periférica sua figura aparecer e lentamente caminhar em minha direção. Poderia ele estar desconfortável com a situação?
Não. Eu duvidava muito.
— Olha, eu não sei se é esse o motivo de você estar suspirando profundamente assim, mas se for pelo que acabou de acontecer ali na varanda… — ele começou, sua voz perfeitamente calma. — Peço desculpas. Eu nem ao menos sei se você é comprometida ou não.
Opa. Que direto. Não esperava por essa.
— Relaxa, não é isso — respondi, sem nem pensar. E então eu me dei conta. — Espere aí, comprometida? Como se fosse acontecer alguma coisa, realmente. — dei risada.
Sua testa se enrugou um pouco, um sinal claro de confusão. Gente, ele estava falando sério? Estava tão explícito assim, tão claro como água, que se ele estalasse os dedos nós iríamos nos envolver? O fato de estar comprometida seria realmente o único impeditivo das coisas se desenrolarem?
Seria possível uma realidade ter se tornado assim tão distorcida e carente de possibilidades para uma pessoa, onde todos a sua volta iriam se comportar exatamente como o esperado sempre, de forma dicotômica assim?
— Visivelmente posso perceber que estou interpretando as coisas de forma errada aqui — ele finalmente respondeu.
Inacreditável. Que arrogante! Quanta prepotência, quanta… Argh. Também, eu esperava o quê?
Veja bem, eu não estava querendo me fazer de difícil para formar uma espécie de relação de flerte, que seria totalmente equivocada caso decidisse seguir por este caminho. Tão pouco almejava sair da situação de certa forma “vitoriosa”, por conseguir conquistar uma posição relativamente indiferente, esse era um objetivo completamente mesquinho ao meu ver.
— Olha, já que você foi direto, eu também serei — comecei. — Você é sim, atraente. Não tem como negar isso, seria a mesma coisa que dizer que o Papa não é religioso. Esse tipo de situação deve ser extremamente natural para você, imagino. Mas não pretendo ir a fundo com isso.
— E por que não? — foi a sua réplica.
Se não estivesse sentada, eu teria caído.
— Er… Acho que quem está interpretando as coisas erradas agora sou eu. — Até tive que mudar de posição na cadeira, porque era como se eu estivesse sentada em um formigueiro. — Corrija-me se eu estiver errada, mas você não quer realmente fazer isso. Ou quer?
Ele riu levemente. Que ótimo, agora eu era engraçadinha para ele. Quando que essa chuva vai diminuir mesmo?
— Não pensei a respeito, mas estou curioso — ele argumentou. — Você não me parece comprometida, tão pouco adepta ao regime celibatário… Então, qual é o problema?
— Problema? Que problema? — foi minha vez de rir. — Não é como se tivesse acontecido muita coisa para sequer haver um problema.
— Certo, mas você fugiu. — Ele apontou e lá estava o sorrisinho convencido de novo. — Não pode negar isso.
— Escuta, tudo isso é porque tivemos aquele papo sobre cantadas e você disse que nunca foi recusado na vida, e agora está meio que… Acontecendo? — Que conversa mais absurda. Será que eu tinha caído enquanto corria na chuva, batido a cabeça gravemente e estava sonhando, ou melhor dizendo, delirando? Se estivesse, deveria transar com ele de uma vez, aqui mesmo, então. — Se for o caso, não se preocupe, você sabe muito bem que não é uma completa rejeição.
— Eu não disse que nunca fui rejeitado — e isso foi tudo o que saiu dele naquele momento.
Tirei os olhos da estante que observava, para encará-lo de volta.
— Entendi errado, então?
— Você faz parecer como se isso fosse impossível — respondeu, na lata. Não me passou despercebido que ele desviou de responder diretamente minha pergunta.
— Você quem se comporta como se fosse impossível.
— Bom, acabo de provar que é possível sim, aparentemente.
Meus olhos estreitaram-se, demonstrando minha suspeita.
— Sei o que está fazendo — acusei. — E está dando certo.
— O que estou fazendo? — Ele então deixou suas costas apoiaram-se no encosto da cadeira. Sua expressão poderia convencer na ingenuidade, não fosse a cara de cafajeste que esse homem tinha.
— Obrigada — respondi, simplesmente. — Devo voltar a sessão de perguntas?
— Ah, não. — Ele fez uma expressão dramaticamente ofendida. — Agora, é minha vez.
Conversamos por mais uma meia hora e então a chuva pareceu dar uma trégua. Pelo menos reduziu o bastante para que pudéssemos sair dali e voltar para a hospedagem. A caminhada de volta foi tranquila e razoavelmente confortável, continuamos conversando por todo o trajeto. Embora tenhamos percorrido em pouco tempo o caminho de volta, desenvolvemos uma espécie de cumplicidade. Talvez seja comum esse sentimento, quando se supera algum obstáculo junto de outra pessoa.
Quando chegamos, ele virou-se para mim, provavelmente para se despedir.
— Acabo de notar que não sei o seu nome. — Observou, rindo.
. — Estendi a mão, para que ele a cumprimentasse.
— Foi um prazer te conhecer e passar a tarde com você, . — Ele a pegou e cumprimentou de volta, um leve aperto. Tentei ignorar o fato de que a minha mão praticamente desaparecera, envolta pela dele.
— Digo o mesmo. — Fiz um aceno com a cabeça e logo depois nos soltamos. — Bom, te vejo por aí.
Dei um último sorriso e me virei, tomando o rumo para o meu quarto. Estava louca de vontade de tomar um banho morno e me enfiar dentro das cobertas para me esquentar um pouco. Poderia muito bem fazer hora na banheira também, se conseguisse manter a água quente por um tempo.
Não ter nada calculado para fazer em seguida podia ser desesperador em alguns momentos, mas também gratificante, em outros. Estava me dando o luxo do famoso fazer vários nadas, pelo menos uma vez na vida e finalmente estava me sentindo bem com isso.

★★★
Essa capa de filme com a mansão antiga parece interessante, vamos ver a sinopse… Hmmm, terror? Não. Esse também em preto e branco apenas com os atores parece bacana, mas não saberia dizer. O anterior que tinha visto também parecia promissor. Por que escolher algo para assistir na Netflix é tão difícil?
Bom, eu poderia me decidir depois de jantar em algum restaurante próximo e aproveitar para já me preparar para dormir, com uma sessão de filme.
Tomando uma coragem que só poderia ser motivada pela necessidade inerente de me alimentar, afastei os cobertores e vesti-me rapidamente trocando a calça de pijama por um jeans escuro e cobri a camiseta com um casaco sete oitavos. Acrescentei um gorro para proteger as orelhas do vento e botas, para pés quentinhos e secos.
Mesmo que a noite estivesse fria, a expectativa de me movimentar me agradava. Sempre que não estava no trabalho eu gostava de ficar andando pela cidade, vendo prédios e pessoas, tendo todo um mundo ao redor nunca imutável, orgânico e absolutamente vivo. Por mais que o interior fosse menos movimentado que a cidade, também tinha seus encantos. Em lugares como York Dales, você podia prestar atenção em qualquer detalhe.
Segui para o hall de entrada, já pensando em algumas opções de prato que eu gostaria de me aventurar hoje e estava passando exatamente pelo restaurante da hospedagem quando ouvi uma risada que eu conhecia bem, afinal, passei a tarde toda ouvindo ela.
estava sentado no bar do restaurante, rindo com o homem atrás do balcão. Como se sentisse que havia alguém o encarando, ele olhou para trás, os olhos parando em minha direção.
— Olá, — me cumprimentou, despreocupado. — Vai dar uma volta?
— Boa noite — respondi cumprimentando os dois homens, no mesmo tom. — Sim, mas na verdade estou saindo para jantar.
— Pensei nisso também, mas como está frio decidi ficar por aqui. — Seus olhos fizeram uma breve análise pelo meu corpo. — O que acha de ficar, também? Sei que se aprontou para sair, mas por aqui podemos continuar conversando e ficar até mais tarde, se quisermos.
Que… Inusitado. Mas o que tinha a perder?
Eu poderia muito bem dar de ombros naquele momento, se não estivesse com o corpo duro de tão tenso, subitamente e inexplicavelmente em expectativa. Caminhei até onde eles estavam e sentei-me no banco ao lado do seu, tentando me mover como se fizesse aquilo o tempo todo e fosse absolutamente banal uma celebridade me convidar para jantar.
— Bom, o que temos? — perguntei, para os dois.
— Esse é Mark — me apresentou o homem, que cumprimentou com um breve aceno de cabeça. — Ele estava sugerindo que eu levasse o prato do dia, que era massa.
— Muito prazer em conhecê-lo, Mark. — Olhei para ele, percebendo por suas roupas que era o responsável pelo bar e talvez estivesse totalmente acostumado com clientes querendo saber do cardápio e… Gente famosa perambulando pelo lugar, a noite. E então virei o rosto no espaço entre os dois, para esclarecer que agora falaria com ambos, olhando para cada um. — Parece uma ótima ideia.
— Imagine, o prazer é meu — respondeu com simpatia e então virou-se para meu acompanhante. — E então?
— O que acha de vinho? — perguntou, ainda com o olhar em mim. Demonstrei minha concordância com um rápido aceno.
Ele então apenas direcionou um olhar sugestivo para Mark, que entendeu que ele poderia transferir os pedidos para a cozinha, desaparecendo pela porta com os dizeres APENAS FUNCIONÁRIOS em seguida, depois de soltar um “com licença”, nos deixando a sós com a música que tocava, provavelmente do rádio local. Reconheci que era “You and I” de Michael Bublé, uma das mais bonitas e excelentes dele.
— Você costuma fazer isso frequentemente? — perguntei.
— O que, vir aqui? — quis se certificar, confirmei com um breve movimento com a cabeça. — Às vezes. Por quê?
— Ele não perguntou para você qual vinho, já conhece suas preferências? — apontei.
Seu olhar se intensificou, suas íris me captando com muito mais atenção, por um breve momento antes dele me responder.
— Já tinha pedido antes de você chegar — contou, parecendo um pouquinho desconcertado. — Você quer escolher a garrafa?
— Não, tudo bem, não entendo muito bem de vinhos — respondi, achando graça de tê-lo pego de surpresa. preocupado em ser machista, será?
— Bom, se você considera que alguém que conheça apenas o vinho pelos quais tem preferência, por pura eventualidade, alguém que entenda de vinhos… — murmurou, em um tom modesto e um sorriso muito charmoso. — Eu aceito.
— Achei que esse fosse o primeiro hobby que um homem fosse adquirir, quando atinge certo poder monetário — comentei, mais como um devaneio do que uma opinião formada realmente.
— Um hobby comum para certas classes financeiras, é verdade — concordou. — Posso entender o interesse, mas acabo voltando minha atenção para outras coisas.
— Que tipo de coisas? — não pude deixar de perguntar, embora estivesse um pouco receosa da resposta.
— Vídeo-game, por exemplo — ele falou, mas me deu uma rápida olhada para conferir minha reação, como se já soubesse qual fosse, sendo algo comum de acontecer. — Livros, também. E você, senhorita workaholic?
Pude compreender na hora por ele esperar esse tipo de reação, já que com certeza as pessoas deviam formar uma imagem e provavelmente não esperavam que ele fosse revelar este tipo de coisa, mas não achei algo tão fora da curva assim. Não chutaria essas opções, mas não era difícil absorvê-las.
— Você me pegou, atualmente não tenho um hobby definido, mas já tive alguns — respondi, não muito feliz que essa fosse a realidade. — De vez em quando leio ou assisto alguma coisa, mas muito esporadicamente. Não é com frequência o suficiente para acompanhar uma série, por exemplo. Sempre estou tão preocupada com a falta de tempo, com a cabeça em planos para o amanhã, que sinceramente esqueço de viver o presente, de vez em quando.
— Acho que você não é a única que tem problemas com isso — ponderou ele, olhando para o balcão, enquanto refletia. — Na verdade o mundo todo parece preocupado e ansioso, as pessoas estão cada vez mais imediatistas. É como se todos estivéssemos fugindo de um inimigo comum, mas invisível.
— E não estamos mesmo? — instiguei e ele voltou seus olhos para mim, querendo que eu completasse a sentença. — O tempo é o inimigo.
— Faz sentido, mas fico me perguntando… — murmurou de volta, levantando-se e contornando o banco para poder se apoiar no balcão em pé. — Será mesmo? Ou não estaríamos obcecados por algo que simplesmente não temos controle?
Embora não estivesse falando necessariamente para mim, aquela afirmação caiu em peso em minha mente, não podendo ser mais certeira.
Tentei não me deixar levar pela espiral de epifania que certamente aconteceria, se estivesse sozinha.
— Uma vez li uma teoria científica de que o tempo realmente está passando mais rápido, por ligeiras alterações na rotação da Terra, outra sobre buracos negros… — sorri, balançando a cabeça negativamente enquanto olhava para baixo, achando engraçado fazer este tipo de comentário e levar a conversa para este rumo, meu cérebro de alguma forma agindo de uma forma estranha, talvez movido pelo desespero?
— Interessante — a voz de estava próxima agora. Quando ergui o rosto para olhá-lo, as duas grande orbes pareciam mesmo um buraco negro, magnetizando tudo em sua direção. — Estava pensando, o que acha de pedirmos para viagem e comermos em um de nossos quartos?
O que?, foi a primeira coisa que pensei.
— Quero ouvir mais sobre as teorias — ele explicou, o convite se estendendo em um sorriso largo.
— Astronomia é um dos seus assuntos? — perguntei, minha voz transparecendo toda minha confusão. Estava ciente de quem estava desconcertado agora, era eu.
— Astronomia definitivamente é um dos meus assuntos — garantiu, parecendo divertido com a minha expressão lívida. — Os assuntos preferidos, é claro.
— Ok, podemos ir para o meu quarto, então… — respondi, meio que automaticamente, ainda sem ter noção direito do que estava acontecendo. Tudo o que eu sabia era que só sentia o corpo todo formigar.
— Vou falar com o Mark para prepararem tudo. — Ele piscou, chamando-o logo em seguida.

Enquanto caminhávamos para meu quarto, algumas coisas se passavam pela minha mente. E não, não é algo eufórico como “Meu deus, talvez role algo com esta noite!”. Aliás, quem dera eu pudesse ter esse único pensamento como “preocupação”.
Na verdade, o que eu tinha em mente em geral era na verdade um questionamento, que não envolvia só eu, mas também uma outra pessoa e um conjunto de pessoas: o que eu estou fazendo? O que está fazendo? E por último: o que nós estamos fazendo?
Quero dizer, eu não era aquele tipo preconceituoso de pessoa que acha que amizade entre homem e mulher não existe, não mesmo. Muito pelo contrário, meus relacionamentos com colegas de trabalho masculinos sempre foram algo estritamente profissional e um ou outro acabava por se tornar uma amizade, mas nunca nada além disso. Nem por parte deles houve alguma insinuação nesse sentido; os que fizeram insinuações, eu simplesmente me afastava. Então, eu certamente tinha provas de que isso podia acontecer tranquilamente.
Também não era extremamente vaidosa a ponto de achar que se algum homem está me convidando para conversamos e jantarmos em um lugar privado, é porque está querendo que eu vá para cama com ele, embora seja a motivação de grande parte dos homens quando fazem esse tipo de convite.
Porém, como o homem que eu estava acompanhada em questão, nada era tão óbvio assim. Bom, a não ser o fato de que ele é sim um homem, isso era mais que óbvio. Pensando racionalmente, ou seja, tentando não tomar parte de nenhum lado e sem querer parecer uma pessoa totalmente sem autoestima, eu formava hipóteses do que poderia acontecer em seguida. Não que fossem acontecer, mas é bom cogitá-las para sempre estar preparado, certo?
Vamos então a hipótese um: só quer privacidade porque ele é uma celebridade, com certeza é constantemente observado e qualquer movimento em falso, no dia seguinte ele estará estampando todas as capas de revistas. Ou seja: nenhum interesse romântico ou sexual nisso, apenas praticidade. Já a motivação para ele ainda querer jantar comigo e não ter ido para as acomodações dele para isso ou fazer qualquer outra coisa que gente como ele faz: ele está entediado? Eu tenho uma conversa razoavelmente interessante? Ele está se sentindo solitário? Ok, faz sentido.
Hipótese dois: é, inegavelmente, um homem cobiçado. Eu simplesmente não consigo calcular quantas mulheres já devem ter tentado algo com esse homem, seja uma coisa mais séria ou de apenas uma noite. Prepotente ou não, não deve ser novidade para ele um ser feminino estar mantendo conversa deixando em aberto que, se for para rolar algo, será ele o responsável em dar o primeiro passo e a mulher em questão pode fazer o resto. E cá entre nós, como eu disse anteriormente, é homem. E homens geralmente curtem transar para passar o tempo. Homens curtem muito transar para passar o tempo. Aliás, não só homens, mulheres também. Eu mesma inclusive.
Sendo assim, fazer essa cogitação não era tão absurda assim, né. Poderia sim, ter algum tipo de interesse nesse convite. Talvez não seja a única motivação – nós acabarmos na cama (céus, que os deuses me ajudem) –, mas talvez o famoso: se acontecer, que mal tem?
Mas isso só me faz voltar para o início da hipótese dois: ele deve ter milhares de mulheres por aí, totalmente disponíveis para ele, então por que diabos iria querer uma pessoa que não está disposta? Oficialmente disposta, devo admitir. Eu não era hipócrita para negar que ter um homem daquele esquentando a minha cama seria uma péssima ideia, tendo-se em conta a ideia de passar o tempo que mencionei antes, embora soubesse que depois provavelmente pensaria que foi uma péssima ideia, sim.
Fosse o que fosse, o resultado é que eu estava confusa. Muito confusa.
E eu teria que me virar com isso, porque nós já estávamos na frente da porta do meu quarto e estava abrindo-a em um movimento automático, destrancando-a e girando a maçaneta, deixando que ela se abrisse naturalmente, dando-nos a visão da sala anexa ao meu quarto.

 

Nota de autora: Novamente, se você chegou até aqui, fique com meus mais sinceros agradecimentos. Felicidade me define neste momento porque essa att chegou e para quem não sabe, Coincidence ficou no primeiro lugar de fics mais lidas no site. Surreal, ainda não caiu a ficha! Hahaha. Mas enfim, estou extremamente contente que minha história está sendo lida e espero que vocês gostem desse novo capítulo. Não se esqueça de deixar um comentário me contando, combinado? Ah! Acabei de fazer um grupo no Facebook das minhas histórias. Que tal entrar nele para conversarmos de Coincidence e muitas outras coisas mais?
Até logo! XOXO.

 

 

Capítulo 4
Procure no Youtube a música “Moonlight Serenade” de Carly Simon e deixe carregando. Dê play quando for indicado 😉

Dei espaço para que entrasse e foi o que ele fez, caminhando até o centro da sala e apoiando a sacola com as nossas refeições na mesinha de centro.
Segui para a copa para pegar as taças de vinho e quando cheguei na sala ele já estava separando as embalagens e passou-me a minha. Enquanto ele pegava nossos talheres e guardanapos, usei a engenhoca de extrair rolhas para abrir o vinho e nos servi. Esperei ele munir-se da sua própria embalagem e mais os outros utensílios para então virar-me para sentar no sofá, quando passou-me pela cabeça que usar a própria mesinha seria muito melhor.
— O sofá pode ser todo seu — avisei, apoiando as coisas novamente na mesinha e sentando-me no carpete de pernas cruzadas. — Mas eu prefiro ficar por aqui mesmo, se não se importa.
Ele observou-me por um momento enquanto eu tirava os talheres descartáveis do invólucro e o encarava de volta, sendo que estava ciente da minha expressão de bom humor, uma vez que eu iria finalmente colocar aquela coisa cheirosa no meu estômago.
— Não me importo — ele respondeu e fez o mesmo que eu, juntando-se a mim para usar a mesinha como mesa de jantar. Tinha espaço o suficiente para se fazer esse improviso, talvez fora comprada tendo isso mesmo em mente, como propósito. — Aliás, até prefiro que seja assim.
— Verdade? — perguntei antes de colocar a primeira garfada na boca. Hmmm, delicioso!
— Sim, não sou tão adepto a um estilo de vida pomposo, apesar do que você deve pensar de mim — ele sorriu com a provocação antes de ser a vez dele de colocar a comida na boca.
— O que penso de você? — repeti, surpresa. — E o que lá você sabe do que penso a seu respeito, ? Não fosse alguns filmes que vi você fazer, eu podia muito bem não te conhecer. Tipo, não saber quem você é, real.
— Ah, então estamos já na fase em que nos chamamos pelo sobrenome? — despistou enquanto eu movia o braço para alcançar minha taça. — Muito injusto, porque eu ainda não sei o seu.
Ainda? — repeti ressaltando a palavra, interrompendo meu segundo gole no vinho. — E o que te faz pensar que eu com certeza vou te dizer?
Uma de suas sobrancelhas se arqueou.
— E por que não diria? Você é por acaso alguma serial killer que caça homens bonitos e famosos? — e com essa, ele deu seu primeiro gole no vinho. Tão naturalmente como se estivesse falando de programas de tv.
Não pude evitar a explosão de gargalhadas, embora estivesse muito longe de estar bêbada. Afinal, ainda nem tínhamos começado a beber.
— Pelo jeito temos alguém criativo por aqui — falei após as risadas terem cessado. — Além de extremamente modesto, para dizer o mínimo. Mas gostei dessa descrição — estreitei os olhos enquanto tentava encaixar a minha própria imagem com esse personagem em minha mente, dando mais um gole no vinho. — Vou ficar com ela. E isso significa: sem sobrenome.
— Quanta maldade — ele brincou, após terminar de mastigar. — Uma perfeita vilã.
— Isso te faz o mocinho da história? — revidei e saboreei mais uma boa garfada de comida.
— Estou longe de ser um mocinho — murmurou, seus olhos diretamente nos meus.
Porra.
— Pare de brincar comigo, — repreendi, mas não muito seriamente.
— Só estou dizendo a verdade, não sou um santo — ele deu de ombros. — Mocinhos perfeitos só existem na ficção.
— É, eu não diria que você é santo nem de longe mesmo — concordei e foi a vez dele de rir.
— O que isso quer dizer? — perguntou, ainda divertido.
— Nada — fiz uma expressão inocente que não o convenceu nem um pouco. — Sobre o que você quer falar agora?

Embora soubesse que eu estava nitidamente querendo mudar de assunto, não insistiu, voltando ao assunto que ficou pendente do bar (sim, as teorias de astronomia) e assim fomos até acabarmos de jantar. Depois de ficarmos conversando mais alguns minutos ali, nossos traseiros começaram a dar sinais de que estavam ficando doloridos ao estarem tanto tempo sob uma superfície dura e não tão confortável assim em comparação com algo estofado e então partimos para o sofá, tão entretidos nos assuntos diversos que conversávamos – e definitivamente mais soltos, por conta do vinho – que praticamente nem vimos o tempo passar.
— Uma caixa de som potente — disse de repente, observando minha caixinha de som portátil sob a poltrona, junto ao meu tablet. — Suas músicas estão ali?
— Uhum — concordei com preguiça de articular mais, por estar já em um estágio de relaxamento avançado por conta do álcool.
pegou o tablet e conseguiu desbloqueá-lo sem dificuldade, uma vez que eu não utilizava proteção na tela de bloqueio quando não estava transitando com ele. Talvez ele tenha clicado no botão de play sem querer porque imediatamente o cômodo foi preenchido pela música que eu estava escutando em outro momento, de Ella Fitzgerald.
Ele escutou alguns segundos e depois olhou para mim, sua expressão era um misto questionador e satisfeito.
— Então curte músicas antigas? — perguntou. Apenas fiz que sim com a cabeça, como resposta. — Geralmente são ótimas, mesmo.
— Gosto da sonoridade e de como elas são estranhamente nostálgicas — murmurei tentando voltar a fazer parte da conversa, apesar da moleza que sentia em todo o corpo.
— Verdade, tenho a mesma sensação — concordou, pensativo. Ele clicou na tela e passou para a próxima música. — Também são ótimas para dançar.

(Dê play na música!)

Ele voltou a olhar para mim, um sorriso sugestivo nos lábios.
— Ah não, eu não sei dançar — me apressei em dizer, toda a languidez indo embora e deixando apenas o alerta.
, vamos só balançar pra lá e pra cá, não vou propor nada elaborado — e pegando minha mão de surpresa, ele me puxou para ficar em pé e para mais perto dele, de forma que pudesse colocar a outra mão em minha cintura.
Lutei por um momento para entender o que estava acontecendo já que ele me puxou com uma facilidade impressionante, era quase como se eu fosse uma boneca de pano – leve e mole, sem resistência nenhuma. Quando meu cérebro finalmente processou toda a informação de movimentos sem que me atrapalhasse como uma completa desastrada, finalmente consegui falar alguma coisa.
— Eu estou levemente bêbada, então não me culpe se eu cometer um assassinato no seu pé — murmurei, sentindo meu rosto ferver de embaraço e de… Outra coisa que não era bom pensar muito no momento.
— Não espero menos de uma serial killer — respondeu, os olhos brilhando junto ao sorriso. — Pelo menos é apenas o pé, poderia ser pior.
— Você bem que merecia ter coisa pior, já que está me obrigando a… — e ele me interrompeu.
Shhh, eu quero ouvir a música — sussurrou enquanto fechava os olhos, apreciando-a.
Fiquei então em silêncio, concentrando-me para também ouvir e sentindo nossos corpos balançando levemente enquanto fazíamos uma espécie de ensaio de valsa. Era muito fácil se deixar levar pela situação, porque ela parecia muito surreal. Eu, aqui, dançando com , levemente bêbada depois de tomar muitas taças de vinho.
Totalmente descoordenada quando ele havia me puxado, apoiei as mãos em seus ombros, sem querer muito próximo ao seu pescoço, de forma que pude sentir a ponta dos fios de cabelo de sua nuca acariciando levemente meus dedos. Entretida em como os fios pareciam se curvar naquela área, como se crescessem mais logo estariam formando cachos, movi minha mão para acariciá-los, sem prestar muita atenção propriamente no que fazia. Sabe aquele filtro que temos que nos impede de sair falando qualquer coisa socialmente ou fazer o que dá na telha? Quando você ingere álcool, existem alguns estágios de embriaguez. O primeiro é a perda desse filtro, nem tudo parece tão definitivo ou preocupante assim, você só está focando em viver o momento conforme as coisas vão acontecendo à sua volta. É nesse estágio em que eu estava, então justificava – mesmo que em partes – minhas ações impensadas no momento.
Quando realmente percebi o que estava fazendo, já era tarde. já estava com os olhos bem abertos, suas íris parecendo um lago denso e interminável, magnético e com brilho próprio. Embora não tenha percebido quando estávamos no casebre, agora podia perceber claramente um detalhe: discretamente, na parte superior da íris do olho esquerdo, havia uma manchinha de uma cor diferente do restante dos olhos. Subitamente fiquei encantada em captar aquela minúcia, algo que podia-se interpretar que ele enfim não era tão perfeito quanto o resto do rosto aparentava. E por incrível que pareça, aquilo não afetou em nada sua beleza ou algo de sua imagem – muito pelo contrário, tudo o que eu conseguia pensar é que ele não poderia ter um detalhe mais charmoso.
Sem poder evitar não ser mais afetada por aquele olhar tão intenso, fechei novamente os olhos por reflexo, o que me permitiu sentir a presença de ainda mais intensamente, quase podendo sentir o calor de seu corpo sendo transferido para o meu e vice-versa. Estávamos com os rostos tão próximos que nossas respirações já se misturavam e haviam se tornado uma só. Podia sentir seu hálito debilmente batendo em meu rosto, um cheiro totalmente novo que combinava muito bem com o tão conhecido aroma de vinho e senti o corpo todo arrepiar, como se ele já soubesse o que iria acontecer e estivesse se preparando, vibrando e queimando em expectativa.
, eu quero te beijar — ele anunciou, sério. Senti minha testa se franzir em confusão e abri meus olhos preguiçosamente.
— E por que não simplesmente beija? — devolvi, meu raciocínio um pouco mais lento que o normal. Será que estava mais bêbada do que calculei e não estava plenamente consciente do mundo a minha volta?
— Você quer ser beijada? — perguntou, ainda sério. Foi então que entendi.
Por mais pessimista que fosse esse pensamento, não esperava que esse tipo de coisa viesse dele. A surpresa com o súbito cuidado fez minha guarda cair, acompanhada com uma descarga de adrenalina que fez meu corpo todo explodir em uma longa e devastadora onda de calor, imediatamente. Eu conhecia bem aquela sensação, embora não a sentisse há um tempo considerável.
Totalmente deixando-me levar pela situação, tentando ter como perspectiva simplesmente viver pela primeira vez na vida para variar, fiz com que meu corpo respondesse àquela pergunta. Erguendo-me na ponta dos pés e inclinando vagamente a cabeça para cima, levei meus lábios até o dele, não conseguindo ser tão imediatista quanto queria, mas o suficiente para que ele entendesse que estava fazendo algo que realmente queria.
Contrariando todas as expectativas, nós nos beijamos lentamente. Um beijo totalmente sem pressa, reconhecendo e sentindo a presença um do outro, experimentando e explorando. Forcei meu corpo contra o dele, querendo que eles ficassem totalmente em contato, enquanto meus dedos subiram pelos fios de seu cabelo, sentindo a textura.
absorveu meu movimento, passando os braços pelo meu corpo em um abraço apertado, mas ele não conseguiu manter muito tempo. Seu braço direito afrouxou o aperto e sua mão passou a alisar toda a lateral de meu tronco até as coxas, voltando até a altura do quadril e pressionando por ali. Eu, por outro lado, explorei seus cabelos, seus ombros e peitoral, deliciando-me com as descobertas.
Quando nossos lábios se separaram, percebi que eu precisava sentar urgentemente, devido a sensação estranha da consistência de minhas pernas. Como um ímã, acompanhou automaticamente meu movimento, sentando-se ao meu lado.
Embora estivéssemos em silêncio, estava claro o que iria acontecer a seguir, se nenhum de nós interrompêssemos. Não precisávamos expressar com palavras.
— Posso ir embora, se você quiser — o ouvi dizer, enfim, interpretando erroneamente meu silêncio.
— Não, não é isso — murmurei, passando a mão pelos cabelos. — Só estou… Processando tudo.
— Muita coisa para processar? — quis saber (ou talvez entender?), sua voz gentil. Sua mão pegou a minha e ele passou a fazer um carinho gostoso nas costas da minha mão, com o polegar. Seu rosto e corpo estavam totalmente virados para mim, dando-me total atenção.
— Não sei se isso é novidade para você, mas… Sim? — não pude evitar de sorrir abertamente para ele, sentindo-me confortável com sua presença ali tão próxima e solícita.
— Não importa o que é novidade ou não — sua outra mão alisou brevemente uma mecha lateral do meu cabelo. — O que importa, agora, é que eu quero você. Acho que você sabe disso desde o início. Resta saber se você também me quer.
E teria como dizer o contrário? Impossível, apesar de tudo. A espécie de orgulho que eu nutrira outrora, que foi um dos motivos de ter fugido a tarde, já tinha ido por água abaixo ao me deixar levar pelas emoções do momento. Esse estrago já estava feito. A outra preocupação, de estar sendo um mero passatempo, agora não podia deixar de ser um pouco hipócrita. Eu também não estava fazendo muito diferente com ele, para falar a verdade.
Tendo decidido isso, me encontrei em outro dilema: eu estava prestes a transar com e… Contrariando a todas as fantasias de qualquer mulher, que normalmente sempre andam preparadas para enfrentar qualquer coisa, eu não tinha me depilado. Talvez para você isso seja um absurdo, mas para uma pessoa que quase sempre está focada em outras coisas, depilação acaba ficando sempre por último na lista de prioridades. E não é como se eu tivesse em mente transar com alguém aqui, tendo-se em conta minha situação atual. Até poderia acontecer, caso eu encontrasse alguém durante os passeios por aqui, aliás, não era tão difícil assim e eu certamente me preocuparia antes de cair na cama com um cara, mas pensando que se a pessoa em questão não se importasse, eu quem não seria a pessoa de deixar de ter prazer por algo tão supérfluo assim – afinal, seria uma perfeita transa comum, com um cara tão comum quanto eu.
O problema era que na situação em que eu me encontrava agora, não tinha nada de comum. As mulheres que iam para a cama com deviam ser a epítome do ser feminino entendido como desejável, provavelmente todas extremamente preparadas e munidas do que elas têm de melhor. De uma forma ou de outra, talvez nenhuma estivesse tão desprevenida quanto eu estava agora.

Eu tinha duas opções. Primeira: dar uma desculpa qualquer e pedir que ele fosse embora. E me odiar depois por ter deixado de fazer uma coisa, por algo tão ridículo. Pensando-se nos riscos, o que poderia acontecer? No máximo, ele não curtir muito e querer parar por ali, assim que me visse sem roupa. Se fosse o caso, seria até bom perceber um babaca antes de dar para ele de fato, não é mesmo?
Segunda opção: dane-se estar com depilação atrasada e ir viver um pouco, mesmo com os riscos, para variar. Se fosse para ter arrependimentos, melhor é de ter feito o que tinha vontade, e não o contrário.
Olhei novamente para , que claramente estava esperando alguma espécie de resposta, mas não parecia nenhum pouco ansioso por isso. Ele parecia realmente estar gostando de passar um tempo ali, sua postura e expressão totalmente despreocupada, quase como se fizéssemos isso há muito tempo. Automaticamente estava retribuindo o carinho, meus dedos subiam e desciam lentamente por toda a extensão de seu braço, acariciando sem objetivo claro, apenas curtindo o caminho. Embora fosse uma carícia inocente, a eletricidade zunia entre meus dedos.
Era impressionante o quão bem e confortável conseguíamos nos sentir na presença um do outro e o quanto o contato de nossas peles podia ser reconfortante, ao mesmo tempo em que fosse magnetismo puro. Embora não estivéssemos nos atracando agora mesmo como duas enguias, a química era palpável. Mesmo que fosse a nossa primeira transa, eu poderia apostar que nos encaixaríamos rapidamente. Seria fácil, como respirar. E com certeza tão ardente como tudo que é instantâneo, urgente ou perigoso.
Finalmente subi meus dedos para seu rosto, algo que quis fazer desde que passei a observar suas feições mais de perto. Percorri sua face timidamente, sentindo a barba crescendo roçando em minha pele, ciente que estava sendo observada com precisão quase cirúrgica. Quando voltei a olhar nos olhos após distrair-me mais uma vez com a perfeição de seu rosto, deparei-me com eles totalmente escurecidos de desejo. Provavelmente, um reflexo do meus.
— Sabe o que você disse antes, de não ser o mocinho? — comecei, tendo feito minha decisão. Esperei que ele concordasse e ele o fez com um movimento de cabeça, embora sua expressão demonstrasse confusão. — Bom, espero que você tenha falado sério, porque eu não vou ser boazinha com você.
O sorriso safado de resposta dele foi impagável, que arrepiaria até os dedos dos pés de qualquer ser humano, vivo ou morto.
— Como eu disse, senhorita assassina — sua voz estava alarmantemente rouca agora enquanto ele fazia desenhos abstratos com a ponta do indicador, subindo por toda a extensão de minha coxa, até chegar à altura da virilha. — Não espero menos de você.

 

Nota da autora: E parece que nossa protagonista deixou o orgulho de lado e deixou-se ceder aos encantos do ator no final, não é mesmo? Espero que tenham gostado. Entra lá no grupo das minhas histórias pra gente conversar 😉

 

Capítulo 5
Honesty, is such a lonely world
Everyone is so untrue
Honesty, is hardly ever heard
And mostly what I need from you
“Honesty” by Billie Joel

(Não é obrigatório, mas se você ler o capítulo ouvindo a música, vai ajudar na experiência).

Não fiquei exatamente surpresa ao acordar com o outro lado da cama vazio na manhã seguinte.
Não tinha muitas expectativas. Nenhuma, para falar a verdade.
Como eu desconfiava, a sensação ainda era surreal – como acordar de um sonho mais intenso e sinestésico, perfeito pelas imperfeições que são tão inerentes à realidade, mas tão bonito quanto todos os sonhos dourados.
Senti a transição para a realidade começando a surgir enquanto caminhava até o banheiro, para mais uma vez enfrentar um dos meus desafios daquela hospedagem: o chuveiro. Era engraçado como eu passara a pensar tanto em chuveiros desde que tinha vindo para cá e como eu simplesmente nunca pensava neles antes de ter problemas com esse aqui em específico. Bom, o que eu tinha em casa sempre funcionou com uma simplicidade e perfeição – se é que eu poderia colocar dessa forma –, a não ser quando ele pifava e aí, trocava por outro. O que definitivamente não era igual ao que tinha aqui. O chuveiro do meu quarto era um pouco sentimental, você precisava saber lidar com ele, para conseguir a água quente o suficiente para conseguir ficar um segundo sem roupa neste frio da Inglaterra mesmo com o aquecedor.
Tive que testar a dita cuja umas três vezes, abrindo e fechando o registro até sentir que estava na temperatura exata ao que queria: quente, mas não fervendo. O banheiro já estava se preenchendo daquela névoa de vapor sutilmente quente e reconfortante quando finalmente me coloquei debaixo d’água. Enquanto ela escorria molhando todo meu corpo, observava o vapor dominar a janela lateral que sempre me distraía nesses momentos de banho. Aliás, a informação de que a vista do banheiro deste quarto em específico tinha algo a mais, foi como uma daquelas pequenas coisinhas inesperadas (mas bem vindas), quando me falaram dos quartos vagos que poderia escolher. E realmente a vista era maravilhosa. Toda a extensão de vales percorrendo os vários tons de verde até o limite visível no horizonte, acompanhado vez ou outra de tonalidades diferentes de céus, enquanto poderia relaxar na água quentinha. Não pude evitar pensar no privilégio que tudo aquilo compunha, afinal, até então nunca tinha pensado como pode ser difícil às vezes se conseguir água aquecida quando se precisa. E então precisei passar o dorso da mão para limpar o vidro, que agora estava totalmente coberto pelo vapor e acabei me distraindo novamente com a vista.
E então, quando finalmente voltei minha atenção para o banho em si e que precisaria me ensaboar, foi quando as lembranças de ontem à noite vieram, dominando tudo por vontade própria.

Senti os dedos de acariciarem meu cabelo em uma espécie de agradecimento depois do primeiro orgasmo que o havia proporcionado. Ele me puxou gentilmente, demonstrando sua intenção de que eu me levantasse e decidi atendê-lo por uma primeira vez; fazendo o caminho inverso que havia feito, tocando toda a extensão de pele que tinha ao meu alcance até chegar aos seus lábios.
Ele me recebeu mais ávido do que esperava, visto o que acabara de acontecer. Imaginara que estivesse um pouco aéreo ou até mesmo lascivo quando na verdade parecia que havia tocado justamente em um ponto importante que o fizera despertar da
la petite mort. Suas mãos me acariciavam em todos os lugares que podia encontrar, trabalhando em tirar minha blusa, a qual ajudei a retirar.
Foi quando ele começou a abrir o zíper dos meus jeans e ajudava-o mecanicamente a tirá-lo que um estalo se deu em minha mente, de modo que não pude simplesmente deixar para lá. Por mais que eu estivesse me esforçando em apenas em viver o presente, os anos construídos em único hábito uma hora ou outra teriam seu peso, impossível de se ignorar. A insegurança ainda estava lá.
, eu… — comecei assim que interrompi o beijo, me achando uma completa imbecil logo em seguida.
— O que foi? — ele imediatamente quis saber, o semblante de repente preocupado.
— Pode parecer idiota, mas… — sussurrei, sem poder evitar olhar em seus olhos tão atentos. — Preciso te avisar que não estava preparada e se você tiver algum problema com isso, é melhor pararmos agora…
— Desculpe, , mas o que quer dizer com pre… — ele começou, sua expressão denotando sua confusão para logo depois se abrir totalmente pela compreensão ao entender o que eu queria dizer. — Claro que não me importo. Seria muita hipocrisia da minha parte, não acha?
Ele finalizou sua sentença com aquele sorriso que poderia derreter qualquer ser gelado desse planeta enquanto olhava sugestivamente para seu peitoral, ligeiramente coberto de penugem caracteristicamente masculina.
Não pude evitar rolar os olhos para cima, enquanto soltava uma risadinha tensa.
— Você sabe que as pessoas pensam diferente… — e fui interrompida pela reviravolta de corpos, onde de alguma forma eu não estava mais por cima, mas sim abaixo de .
— Vou mostrar para você o que penso sobre isso — declarou, me direcionando um olhar determinado antes de abaixar a cabeça, para iniciar um caminho perigoso até a região que estava muito ansiosa em receber seu toque.
, eu realmente não recuso oral em situações normais, mas como isso aqui não tem nada de normal, você não precisa… — falei, meio nervosa e tentando erguer a cabeça para olhá-lo, já que ele descia cada vez mais.
— Se você não quiser, eu paro — me distraí totalmente ao sentir o ar expulsado de sua respiração densa perpassar a região bem abaixo do meu umbigo, algo extremamente sutil, mas que fez meu corpo se arrepiar descontroladamente, meus músculos se tencionando com a espera. Ele havia parado ali para olhar para mim, uma sobrancelha arqueada em desafio, esperando minha resposta.
Como se já não fosse visão afrodisíaca o bastante ter a visão daquele homem prestes a me beijar da forma mais íntima possível, suas mãos ainda trabalhavam em me acariciar, uma carícia leve e gostosa pela parte exterior de minhas coxas, subindo para delinear a curva de meus quadris, deixando um rastro que fervilhava minha pele e deixava minha linha de pensamento cada vez mais falha.
— Ok… — foi o que consegui dizer, enquanto o via descer os lábios novamente em direção a minha pele.
Ele foi dando breves selinhos distribuídos por ali, na região do umbigo e abaixo dele, descendo lentamente para a virilha e dando atenção a ambos os lados, na região interior de minhas coxas.
— Isso é um sim? — pude ouvi-lo dizer ao fundo da imersão de sensações em que estava mergulhada até o último fio de cabelo no momento.
— Ande logo — murmurei ligeiramente irritada, puxando um pouquinho sua cabeça de encontro onde queria, fazendo-o rir, mas no fim, obedecer
.

Me permiti relembrar ao menos esta vez, pensando que estes deveriam ser momentos que devem ser lembrados como especiais e únicos, apesar do incômodo que sentia ali, escondido em um cantinho em minha mente. Mesmo que as aparências agora apontassem algum tipo de insinceridade, podia confiar em minha memória recente de que o que vivemos não foi uma mentira. Éramos pessoas reais, prazeres e sensações reais.
Não pensei muito mais no que aconteceu durante o dia. Não havia o que se pensar além de que o que aconteceu ontem não passava – apesar de tudo – de apenas um caso de uma noite, como muitos já surgiram por aí e ainda vão continuar surgindo, uma vez que os humanos simplesmente são assim. Não era como se ele tivesse me prometido qualquer coisa e eu muito menos, então… Sem ressentimentos.
Também não fiquei ressentida por ele não ter me procurado durante o dia e nem na noite que se seguiu. Como eu disse, tudo isso era esperado – já era madura o suficiente para medir as consequências de minhas ações e não esperar que isso aconteça com as outras pessoas.
Sendo assim, passei o dia tranquilamente, continuando minha vida de onde tinha parado antes que o momento-inesperado-com- ocorresse, perguntando-me o que fazer em seguida para me manter em movimento ao invés de ficar enfiada no quarto, mofando junto aos carpetes semiúmidos.
A propósito, tive um dia atipicamente movimentado – meu deus, eu disse mesmo isso? –, não parei um minuto na hospedagem nem mesmo para comer; fiz minhas refeições nos pequenos restaurantes da região. Eu estava totalmente disposta, querendo fazer todas as atividades que eram sugeridas para os turistas, desde visitar os museus pequenos, andar a cavalo e até nas trilhas, bosque adentro.
Vira e mexe pegava-me rindo sozinha pela minha piada interna, do motivo de tanta disposição ter aparecido de repente. Embora nunca fora uma pessoa muito ativa sexualmente, também não era de ter longos intervalos entre parceiros. Era um efeito puro da causalidade das situações, embora não procurasse muito, também não recusava muitas vezes quando a oportunidade surgia.
E então, deixar a trilha por último, por mais que tenha sido uma decisão feita de última hora, acabou sendo a melhor de todos os tempos. A trilha que escolhi terminava subindo uma montanha e como era uma das mais longas cheguei ao destino (que era o topo) bem quando o sol estava se pondo e, apesar de não estar um tempo totalmente aberto, a vista era espetacular ainda assim.
Definitivamente aquele momento foi o melhor da viagem inteira (embora algum certo evento anterior que ocorrera também fora incrível) e não só porque estava me sentindo a dona do mundo, ali de cima podendo observar tudo, mas foi especial porque foi a situação e cenário perfeitos para finalmente parar, sentar e pensar.
E foi exatamente isso que eu fiz.
Essas são uma das vantagens de se viajar sozinha, você simplesmente faz o que te dá na telha. Porque sim, existem prós em estar apenas consigo mesma, embora envolva algo complicado para qualquer ser vivendo neste mundo cosmopolita e quase inóspito: você precisa gostar da própria presença. Por mais que o mundo tenha influências que ditem o contrário, construir uma relação saudável consigo mesmo é um trabalho diário. Entender que nem tudo se aplica a você e nem tudo tem a ver com você, o seu eu verdadeiro e, acima de tudo, estar em paz com isso.
Então, quando me vi totalmente apenas com a minha presença sob o topo da montanha, assistindo aquele espetáculo da natureza, foi praticamente um convite a ficar até o final e seria praticamente um insulto recusar.
Acomodei-me sentando em uma pedra mais alta das mais variadas que estavam ali, além de tímidos pedregulhos sobressaindo-se na relva e fiquei ali, admirando o horizonte, deixando meus olhos percorrerem calmamente cada pedaço da vista, cada curva das poucas nuvens que se destacavam do todo, cada arbusto, folhagem e árvore enquanto pensava e refletia sobre mim mesma.

Por mais que estivesse tentando fugir daquele momento, sabia que ele chegaria. Uma hora ou outra, teria que ficar totalmente sozinha com meus pensamentos e parar de fugir deles. Parar de fugir de mim mesma e dos sinais que estava tentando comunicar.
Eu precisava pensar, colocar tudo em perspectiva.
E ser honesta comigo mesma.
Não tinha certeza se teria sucesso – como poderia, tratando-se de coisas tão abstratas? –, mas tinha que tentar. Tinha que buscar entender o que poderia ter dado errado durante todos esses anos que me fez culminar na pessoa oca que havia me tornado hoje.
Não podia sempre colocar a culpa no trabalho, afinal, eu não nascera trabalhando. Recordo-me de ser sempre essa autêntica, cheia de planos até depois da faculdade. Talvez até nos meus primeiros anos de trabalho, embora minha dedicação e determinação sempre se manifestassem desde cedo.

Fiquei uma boa parte daquele tempo de reflexão buscando algo que pudesse ter feito essa desconexão entre a antiga e a que sou hoje, quase como se estivesse personificando esse “evento”. Como se ele fosse um personagem que havia sido criado em minha história para protagonizar o clímax, a batalha principal onde eu, que representava a heroína, havia perdido e a de hoje era resultado desse momento pós derrota, onde o herói fica fragilizado e perdido quanto a sua motivação.
A questão era: poderia a de hoje reunir forças para fazer a revanche e desafiar o vilão para a batalha final e assim, alcançar a tão requisitada vitória?
O que fazer então quando o vilão é você mesmo? Sendo perfeitamente realista e racional, não havia uma justificativa sequer para colocar alguém ou algo neste papel. Minha vida fora extraordinariamente banal até então, sem quaisquer traumas. Tenho família, amigos – ou ao menos tinha –, até que fiquei tão obcecada com trabalho que eles acabaram por se cansar de ficar em segundo plano e agora quem fora colocada de lado era eu.
Eu simplesmente havia me perdido com os passar dos anos, buscando algo que agora nem sabia dizer o quê. Independência? Dinheiro? Sucesso na carreira? Eram motivações justificáveis, e certamente havia “conquistado” todas. Quero dizer, não que dinheiro para mim não fosse um problema, mas me mantinha em uma situação estável e até confortável.
Se o caminho que tracei para alcançar onde estava agora valia a pena, era uma coisa muito diferente.
Como quase tudo na vida, era uma questão de perspectiva. Falhar por falhar, certamente não se podia obter muito disso. Mas falhar e tirar alguma coisa disso, qualquer coisa que te acrescente, que te desenvolva, já fazia a tão desagradável e dolorosa falha valer a pena. Sempre que penso se as coisas que acontecem valem a pena, não consigo deixar de me lembrar da frase de Fernando Pessoa, que apesar de extremamente óbvia, é tão verdadeira: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
E eu queria ser essa pessoa que Pessoa exalta, pela virtude de ter uma alma que sabe lidar com os momentos não tão agradáveis que passamos na vida, como essa crise existencial miserável pela qual me encontrava. Queria desesperadamente, como nunca antes havia desejado algo na vida.
Então entendi que havia errado, sim. Errado em várias coisas até então e continuaria errando em outras muitas, mas ao mesmo tempo, não seria o mesmo erro. Não podia deixar-me perder dessa forma novamente, permitir me afastar das pessoas que amava novamente. Nada poderia ser mais importante do que as pessoas que amo e eu mesma. Nada.
Assim, quando fiz todo o caminho de volta já com pouquíssima luz por estar anoitecendo, tive plena consciência de uma coisa: uma havia subido aquela montanha e outra muito diferente havia descido.
E a viagem tinha finalmente atingido o seu propósito.
Feliz aniversário — sussurrei para mim mesma quando desci toda a montanha e voltei-me para encará-la, como uma espécie de despedida, daquelas que nos sentimos felizes porque sabemos que não estamos perdendo algo, mas sim ganhando, e involuntariamente sentindo surgir um sorriso, acanhado mas ainda presente, de orgulho no rosto.

★★★
No dia seguinte, o primeiro pensamento que tive é que já poderia voltar para a cidade, me sentindo pronta para enfrentar o mundo novamente. E então um segundo depois quis me estapear, porque era exatamente esse tipo de pensamento que tinha me colocado aqui, até então.
Talvez a que descera a montanha fosse mais idiota que a antiga, vai saber. Decidida a provar o contrário e que realmente iria dar uma virada na minha vida, decidi ficar a manhã inteira na cama, fazendo absolutamente nada. Apenas me dei ao luxo de ficar de molho na cama até tarde, vendo um pouquinho de seriados na Netflix e me enchendo de petiscos. Até bebi Coca-cola, o que é um absurdo até para pessoas com dietas das mais desregradas, estar tomando refrigerante às dez da manhã.
Decidi também não definir um prazo para estar de volta, outro luxo que também podia me permitir. Só voltaria quando realmente tivesse vontade e não por preocupações de possíveis coisas que poderiam acontecer.
Faria também qualquer coisa aleatória, não programada para o dia. Talvez andar a cavalo de novo? Realmente ontem havia sido algo interessante.
Se eu quisesse chutar o balde, podia bater na porta do quarto do e propor um remember, agora com certeza preparada. Havia trazido alguma lingerie sensual na mala? Simplesmente não fazia ideia, mas a probabilidade era de 99% negativo. Espera, 99% não, vamos me dar algum crédito, talvez uns 90%. Consideravelmente não seria uma péssima ideia, ainda mais tendo-se em conta o desempenho da pessoa em questão. Não teríamos problema de química nem que estivéssemos nos relacionando por vinte anos, fácil.
Não pude evitar rir comigo mesma. Para quem não queria ser mais uma das centenas de mulheres que estavam ao pé dele (nada contra, só uma observação, afinal quem sou eu para julgar alguma coisa) que não venera sua beleza, estava me comportando muito de acordo com a ideia. Adicione só um pouco mais de ironia nessa frase e está perfeito.
Bom, se realmente resolvesse fazer isso, sempre poderia colocar a culpa no momento kamikaze que tinha me proposto viver.
Carpe diem, você nunca me pareceu tão agradável… E conveniente.

 

E passamos da primeira metade dessa história! Sabe o que isso significa? Sim, minhas caras e meus caros, estamos próximos do fim.
Espero muuuito que tenham gostado deste capítulo, porque ele é extremamente importante para mim, afinal, é uma virada na vida dessa personagem tão complexa e intensa que é a PP, não é mesmo?
Se gostou tanto como eu ou até mesmo um pouquinho menos que isso, não esquece de deixar seu comentário. Vou simplesmente amar saber sua opinião. 💜
Ah, se quiser, entra no grupo das minhas histórias no Facebook.
É isso, até a próxima att!
XOXO