O mistério da cozinha

Sinopse: Um divórcio nunca é uma coisa legal, principalmente com um filho para cuidar. E para piorar tudo, você encontra uma passagem secreta na sua própria cozinha e tem um mistério para desvendar. Junto ao vizinho gato. A vida acabou de ficar 100% ainda mais louca.
Gênero: Comédia Romântica/ Mistério
Classificação: 12 anos
Restrição: os nomes Daniel e Dexter estão em uso
Beta: Regina George

Capítulos:

Capítulo 1

Todo mundo diz que ser mãe muda a sua vida, mas caramba, ninguém me avisou que ia ser tão bizarro assim. Não é apenas uma cabeça que passou pela sua vagina rasgando seu interior, é uma mudança quase em um nível espiritual, eu juro.
No começo, quando ele nasceu, eu me vi completamente apaixonada. Parecia que nada na minha vida faria sentido sem aquela criança com bochechas gorduchas e nariz inchado. Quando ele dormia, eu ficava acordada olhando seus pés fofinhos, checando sua respiração, sentindo o cheiro maravilhoso que a cabeça de neném tem. Eu só funcionava pelo bebê e apenas por ele. Tudo girava em torno dele e de seu bem estar.
Mas aí, com os dias passando, as coisas começaram a ficar um pouco tediosas. Ele só dormia, fazia cocô, chorava e ficava olhando para o nada. Ter um recém nascido é simplesmente entediante. Os dias tinham muito mais de 24 horas e as semanas tinham bem mais que 7 dias. Era absurdamente entediante, chato demais, insuportável. Ficava torcendo para ele dormir para que eu pudesse ver um pouco de TV. E quando não tinha nada que eu gostava na Netflix eu começava a chorar como se o mundo fosse acabar.
Eu fiquei obcecada por Rupaul’s drag race. Eu já gostava antes, mas nos primeiros três meses de Dexter, eu fiquei completamente doente por Rupaul. Assisti todas as temporadas, seguia todas as queens no instagram, gastando o pouco dinheiro que restava com blusas e pins, já que estava em licença maternidade não remunerada (um grande obrigada ao governo estadunidense por isso).
E claro, com tudo isso, eu não tinha muito tempo para o meu marido. Você tem uma casa para cuidar, um recém nascido para ser mãe e doze temporadas de Rupaul e 5 All Stars para assistir, quem vai ter tempo de cuidar de homem? Depois que uma criança de verdade saiu de dentro de mim, me rasgando por completo, tudo em mim mudou. E eu fiquei meio esquecida, o porquê eu já falei, mas enfim. Tudo mudou de verdade mesmo.
Apesar de ser um saco ter um bebê recém nascido, tudo em você muda. Suas prioridades, suas necessidades – tipo raspar a perna. Raspar as pernas é completamente desnecessário quando você tem uma criança que precisa de todos os cuidados possíveis. Eu fui mudada em um nível que jamais esperaria e eu mal reconhecia a do passado. A do presente era infinitamente melhor, mais real. Parecia que minha vida tinha algum sentido, um certo propósito, e eu estava aprendendo a me amar de uma forma diferente. Então, talvez, ficar com meu corpo de grávida não fosse tão ruim assim, pois eu me sentia bem nele. Foi aquele corpo que trouxe Dexter ao mundo e que estava fazendo todas as coisas por ele. Era um bom corpo e estava tudo bem com ele. Talvez conseguir um emprego melhor fosse uma necessidade real pois Dexter merecia o melhor, não apenas o que meu emprego meio bosta podia proporcionar. Talvez fosse a hora de fazer um seguro de vida, caso o pior acontecesse. Eu estava bem com isso tudo. Mas Daniel, meu marido, não gostou muito.
Eu achava que ele estava trabalhando mais para conseguir bancar os muitos gastos que Dexter trazia. Afinal, ele era um pai bom. Passava tempo com Dexter para que eu pudesse tomar banho e cozinhar. Chegava mais tarde do trabalho e ia direto tomar banho para se livrar dos germes que o ambiente de trabalho trazia.
Mas a masculinidade do homem era algo muito frágil. Seis anos juntos, três de casados e ele foi decidir que não queria mais ficar comigo logo agora. Quando Dexter tinha seis meses e cuidar dele não era mais nada entediante e ver Rupaul era um sonho distante, ele veio com o papo.
– Você mudou muito – falou, sentado no outro lado do sofá. Eu tinha noção que nós estávamos nos afastando, mas achava que era porque eu fedia às vezes e estava sempre exausta, suja e nervosa. Conforme Dexter foi crescendo e deixando de ser um daqueles bebês que só dormem, eu fui me desligando mais e mais de mim mesma. Isso era errado? Com certeza, mas foda-se. Ter um filho recém nascido é um saco, mas ainda é muito melhor do que quando eles crescem.
– Claro que eu mudei – disse, dando de ombros e passando o canal. Tinha sido mais um daqueles dias que Dexter decidiu não dormir nada e eu estava louca de cansaço – Qual o motivo da conversa?
, eu estou falando sério. Eu não te reconheço mais.
– Nem eu? E qual é o problema disso? – desviei o olhar da TV e o foquei nele. Ele segurava uns papéis – Daniel, que porra de papo é esse?
– Eu não me sinto mais apaixonado por você.
– Grandes bostas, eu também não me sentiria apaixonada por você se visse uma criança saindo de você.
– As coisas mudaram.
– Que porra Daniel, claro que mudaram. Nós temos um filho, as coisas não iam ficar iguais.
, você não está entendendo. Eu não conheço mais você, você agora é só Rupaul e Dexter, você nem olha mais para mim. É como se você não tivesse mais paciência para mim ou para o que eu tenho a dizer – realmente, não tinha. Ele era absurdamente entediante – Nada fora Rupaul e Dexter te interessa!
– O que eu posso fazer se você é chato?
– Tá vendo? Você não gosta de mim.
– Ah, para de ser criança. Eu amo você, só estou cansada – comentei sem muita paciência. Sinceramente, tinha que ser muito egoísta pra querer ter um papinho bosta desses logo quando a criança tinha dormido.
– Nós discordamos em tudo – continuou sua listinha infantil. – Como nós vamos conviver juntos se você não consegue aceitar minha opinião em nada?
– Eu respeito e aceito sua opinião, só não concordo com ela – dei de ombros. – Eu sei o que é melhor para o Dexter.
– Sabe, é?
– Eu carreguei essa criança por quarenta e duas semanas e três dias, eu passo vinte e quatro horas do meu dia com ele, claro que sei o que é melhor pra ele.
– E desde quando ler um livro do Rupaul para a criança dormir é o melhor? – ai meu Deus eu sou casada com um bosta.
– Eu quero que ele cresça sabendo as coisas, cara. Relaxa. Ele provavelmente vai ser hétero que nem o papai – resmunguei, olhando seriamente para Daniel. – E o que isso tem a ver, sabe? Você só reclama que eu assisto Rupaul como se eu estivesse doente. Você parece que pegou um pequeno elemento sobre mim e falou “opa, vou odiar”. Parece que você quer arranjar alguma razão para tirar minha paz.
– Não é verdade – foi a vez dele suspirar. – Olha, eu amei muito você, mas acho que nós temos mais diferenças do que qualquer coisa agora.
– E eu acho que você é um babaca por querer ter essa conversa.
– Eu não sou um babaca! Você que é!
– Tá bom, Daniel. Acabamos?
– Eu quero o divórcio.
Foi assim que meu mundo caiu todinho no chão. Eu sabia que a gente não estava indo bem, mas não imaginava que estivessemos assim tão na merda. Poxa, não já basta ter seu corpo inteiro modificado, ter sua vida colocada de lado, ainda tem que perceber que sua vida amorosa está morta e sem chances de ressuscitar.
Agora, enquanto eu tomo uma taça de vinho sem álcool mais conhecido como suco de uva, olhando o vizinho chegar de moto em sua casa e analisando os papéis do divórcio que Daniel havia trazido quase cinco meses antes – Dexter estava com quase onze meses agora – eu sentia que finalmente podia respirar. Sentada na bancada da cozinha, finalmente tirando o peso das minhas costas por carregar um relacionamento que vinha se desgastando mais e mais a cada dia. Tudo ia ficar bem, principalmente porque eu ganharia uma pensão bem decente e tinha mais seis meses para ficar na casa que legalmente pertence a família de Daniel, e teria tempo (e dinheiro) para tomar as decisões certas.
– Dexter, não! – falei no exato momento que Dexter tacou uma bola na geladeira, fazendo os imãs caírem. – Sinceramente, quantas vezes tenho que te falar que não pode jogar bola nos eletrodomésticos caros?
– Mãmãmãmã – ele respondeu como se entendesse tudo. Fui catar os imãs de geladeira da nossa família feliz quando achei uma separação no chão. Passei meus dedos nela e senti como se fosse algo móvel. Num leve empurrão, aquela pequena separação virou uma fresta.
Uma sensação estranha invadiu todo o meu corpo, como um arrepio que ia do topo da cabeça até os pés. Tinha algo errado ali, algo bem errado mesmo. Fechei o que quer que fosse quando ouvi a porta da sala se abrir.
N/A: Olá olá olá. Mais uma fic nova no pedaço pois… sei lá, deu vontade. Espero que gostem e venham acompanhar o mistério da cozinha comigo. O instagram da pp é @zaragoldwyn e por lá você acompanha os spoilers e tudo mais. Beijos xx @bruni.ta

Capítulo 2

Quando qualquer pessoa olhava para Daniel e eu alguns bons anos atrás só via amor e felicidade. Éramos um daqueles casais insuportáveis, que se apelidaram carinhosamente e se falavam o dia todo. O conheci logo no primeiro semestre da faculdade – ele era flat mate do namorado da minha flat mate. Num dia quando Ian foi à nossa casa acabou levando Daniel e logo nos conectamos. Ele era lindo, com seus olhos azuis e sorriso esculpido. Estudávamos na UCLA, uma das melhores faculdades do país, e nós dois fazíamos cinema. Ele era dois anos a minha frente, mas não tinha problema, pois ainda ficávamos boa parte do tempo juntos.
A coisa é que Daniel era literalmente tudo que eu sempre sonhei: Tinha belos cabelos castanhos, olhos azuis e um corpo daqueles. Era alto e tinha uma tatuagem de golfinho no tornozelo. Tocava guitarra e banjo, gostava de ler e adorava filmes de pequeno orçamento que nem eu. E, para melhorar, vinha de uma família conhecida no meio, os Goldwyns da Silverline Productions. Eles estão na área desde a criação do cinema, produziram milhões de filmes importantes que estudamos na faculdade e conhecem todo mundo desse universo. Seus pais e avós são as pessoas mais chiques que conheci na vida, sério. Todo mundo conhece os Goldwyns, todo mundo baba ovo dos Goldwyns, e eu era só uma garota do norte da Califórnia que queria ser roteirista. Daniel só estava fazendo faculdade para agradar os pais, porque não precisava de nada para seguir como produtor na empresa da família. Eu, por outro lado, tinha mais de cem mil dólares em débito estudantil e o peso do universo em minhas costas.
Por isso nós ficamos juntos. Daniel gostava de ver uma pessoa pé no chão, que trabalhava em um supermercado para pagar as contas e tinha grandes sonhos. Os sonhos dele foram sonhados muito antes dele nascer e ele gostava de ter alguém que pudesse lhe dar novos horizontes. Caramba, naquela época eu nem pensava em sonhos direito, eu só queria ter dinheiro pra pagar a conta de luz.
Nos casamos assim que eu saí da faculdade. Ele já trabalhava na produtora da família como assistente de produtor (não assistente de produção, por favor) e eu, no começo, era estagiária na Fox – emprego que havia conseguido graças aos contatos dos Goldwyns, Deus abençoe eles. Foi uma cerimônia linda, na vinícola da família, tudo perfeito. Nos mudamos para a casa histórica da família em Beverly Hills Gateway, Los Angeles. Por muito tempo eu fiquei insana tentando entender como eu dei tanta sorte. Como uma garota com mil e duzentos dólares no bolso conseguiu vir para a cidade dos sonhos e acabou numa casa histórica em Beverly Hills.
Mas aí uns dois anos depois que nos casamos eu fui demitida por brigar com um produtor e tive que recomeçar minha carreira do zero. Nessa, voltei para a faculdade para estudar mais sobre história do cinema – eu sei, isso é assustador, mas o pagamento era bom. A indústria do cinema é muito podre, completamente imunda. Eu estava num ponto que nem conseguia dormir à noite pensando nas altas merdas que ouvia, então decidi dar o fora enquanto ainda havia tempo. Os Goldwyns logo me descobriram algo para mim, já que o pai de Daniel, Adam, era amigo do diretor da Full Sail University, que ficava na Flórida. Aí os dois conversando, o cara aparentemente disse que eles estavam precisando de uma professora de história do cinema e bam, quando eu vi lá estava eu gravando vídeos explicando filmes de mais de cem anos de idade.
Apesar de ter um trabalho absurdo de doido, eu e Daniel éramos felizes demais. Vivíamos em festas chiques e tomando vinhos caros, viajávamos o tempo inteiro e nossa vida era simplesmente boa. Éramos casados, brigávamos, mas fazíamos as pazes na cama como um casal normal. Tudo certinho, tudo ia bem.
Então, fiquei bêbada uma noite e troquei meu anticoncepcional com meu remédio de alergia e nove meses depois Dexter Maine Goldwyn nasceu. Daniel começou a ficar mais afastado logo durante o primeiro trimestre, ele sempre passou muito tempo trabalhando e quando chegava em casa se enfiava de portas fechadas no escritório, mas isso piorou ainda mais quando engravidei.
E agora estamos nessa: Eu com um bebê de 11 meses que grita o tempo inteiro e divorciada antes dos 30. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo, de forma alguma. Achei que Daniel e eu seríamos para sempre. Mas não fomos, e ok, eu vou me reinventar. Talvez eu corte o cabelo. Talvez eu volte a ser modelo. Sei lá, eu vou dar um jeito. Sem Daniel, mas vou dar um jeito.
– Nossa, finalmente! – Ele disse chegando até mim. Estava de roupa social, devia ter acabado de voltar do trabalho, e tinha aquele cheiro de homem branco rico que eu tanto gostava – Só demorou cinco meses.
– Eu não tenho tempo para ficar lendo e relendo as bilhões de cláusulas que sua família colocou – Na verdade eu precisava ter total certeza de que aquilo era realmente o que eu queria e se eu ia conseguir viver bem sem ele. Não por mim, mas por Dexter. Nós assinamos aquela coisa de sem união de bens e ok, sem problemas, mas meu único bem era um carro e Daniel tinha coisa ou outra. Então, por Dexter, eu precisava ter certeza que teria pelo menos o suficiente para morar em uma das cidades mais caras do mundo. E ele foi bem legal deixando a gente ficar na casa por mais seis meses até que eu arranjasse algo legal, ele foi legal oferecendo para pagar pela mudança e pelo aluguel, além de ter acordado numa pensão bem boa. Então estaríamos ok, pelo menos foi isso que meu advogado disse.
– Nem foram tantas assim – Daniel se abaixou para pegar Dexter, que fez um barulho tipo “ahsayhsa” e ficou no colo do pai – Cadê o beijo do papai?
– Mãmãmãmãmã – Eu tenho muito orgulho do meu filho, sério. Daniel fez uma careta e o colocou no chão.
– Como vai, ?
– Excelentemente bem – Ajeitei meus cabelos, limpando em seguida o suor que se formava em meu buço por causa daquela fresta perto da geladeira. Que coisa estranha. Nunca tinha reparado e nós morávamos lá há sei lá, um seis anos – E você, Dan-Dan?
– Melhor agora que você assinou os papéis.
– Nossa, você realmente quer se livrar de mim – Falei e ele pareceu um pouco chocado.
– Eu achei que você também concordasse que isso era o melhor pra gente.
– Foda-se o que é melhor pra gente, não é mesmo? – Dei de ombros e Daniel apenas assentiu. Peguei os papéis e entreguei a ele – Toma, pode levar para o seu advogado e ser feliz.
– Você está sendo muito azeda – Foi a vez de ele dizer – Mas eu tenho que te pedir um favor.
– Claro – Porque emprestar meu corpo para gerar o filho dele e passar adiante o sobrenome Goldwyn não era suficiente.
– Eu queria levar o Dexter para conhecer minha namorada.
– Ah vai se foder – Foi tudo que eu pude dizer.
– Eu achei que você já imaginasse que eu estivesse saindo com alguém – Ele se sentou na cadeira, observando Dexter que brincava com o lixo. Caralho ele estava brincando com o lixo.
– Dexter pelo amor de Deus – Corri até ele, o tirando do lixo. Ele chorou, claro. Eu era uma mãmãmãmã terrível.
– E como hoje é aniversário dela, pensei que fosse ser uma boa surpresa levar Dexter para a festa.
– Cara, tá tudo errado – Foi tudo que pude dizer – Você quer levar um bebê para uma festa?
– Vai ser uma reunião na casa dos meus pais.
– Caralho Daniel, que merda. Há quanto tempo vocês estão juntos? – Coloquei Dexter na cadeirinha e senti Daniel ficar mais tenso.
– Há algum tempo.
– Se sua família já gosta dela, tem que ser algum tempo mesmo. Você percebe que nós ainda estamos casados, né?
– Bem, nós estávamos separados antes. Eu já não moro aqui tem algum tempo, caso você não saiba – Ele falou como se estivesse coberto de razão. Que ódio.
– Isso não importa. Ainda estamos casados, eu ainda uso esse anel aqui ó – Mostrei minha aliança para ele. Dexter riu.
– Olha, eu não quero brigar com você, . Principalmente na frente do D – Comentou – Eu só quero saber se posso levá-lo ou não para a festa. Meus pais estão morrendo de saudades dele.
– Pode – Falei toda emburrada, puta da vida, mas me senti meio sem opção. Não queria ser a mãe rancorosa que as pessoas falam mal em festas. A vadia maldosa que não deixou o filho ver a família do ex.
Eu devia ter reparado. Ninguém falava mais comigo, ou me convida para os almoços de domingo. Claro que Daniel estava levando alguém. E era estranho, pois no fundo me importava, ao mesmo tempo que estava meio amortecida. Eu só estava com raiva por ter sido traída, e eu tinha certeza que tinha sido traída. Meu Deus, a família dele deve me odiar agora. Me achar uma ranzinza. Que ódio.
-Valeu,– Foi tudo que ele pode dizer.
Eu o alimentei, dei banho e coloquei uma roupinha que sua avó tinha dado e lá foi ele, todo fofinho, ver a nova namorada do pai. E eu? Fiquei sozinha, me sentindo um lixo descartado. Não conseguia parar de pensar no que Daniel falava de mim, e em como eu queria estar em mais um jantar totalmente fútil dos Goldwyns. Eu gostava demais deles. Droga.
Aí, do nada, eu dei um berro. Tipo, um berro muito alto. Tão alto que meu vizinho veio checar se eu estava bem.
N/A: Exausta porém de volta. Obrigada por terem colocado a fic no top! Agora se puderem dar aquela comentadinha, eu agradeceria. Beijos ♥️

Capítulo 3

– É que minha queen favorita da nova temporada de Rupaul foi eliminada – Falei, com as bochechas coradas, olhando o rapaz a minha frente. Seus olhos azuis que mais pareciam duas pequenas bolinhas brilhantes me fitaram. Ele ergueu a sobrancelha.
– O próximo episódio só saí em duas horas – Ele respondeu e eu sorri sem nem perceber.
– Eu li no Facebook.
– Sua queen favorita é Widow Von Du? – O rapaz continuou com seu olhar duvidoso sobre mim – Pois eu não a suporto.
– Meu Deus do céu, você realmente assiste Rupaul’s Drag Race? – Perguntei naquele misto de choque e admiração.
– Claro. É um dos melhores programas da TV atual. Aborda questões muito importantes além de ser super good vibes.
– Quer entrar e tomar um vinho sem álcool enquanto a gente conversa sobre o desempenho da Gigi Goode? – Foi tudo que pude falar. Ele começou a rir.
– Você quis dizer suco de uva? – Continuou rindo – Claro, por que não?
O guiei até minha sala de estar totalmente vintage e ele se sentou no sofá de veludo vermelho que havia pertencido aos avós de Daniel. Só de pensar naquele homem eu tinha vontade de gritar de novo. Mas como tinha convidado não ia surtar. Eu ia finalmente aproveitar que tinha alguém que conhecia Rupaul do meu lado para falar sobre Heidi N Closet.
-Qual é seu nome mesmo? – Perguntei pois honestamente não sabia, e ele morava lá há mais tempo do que a gente.
– Falou ao se ajeitar no sofá – E você é , não é mesmo? Seu marido as vezes conversa comigo.
– Ex – Comentei sem muito caso e ele fez uma careta.
– Por isso você estava gritando?
– É – Dei de ombros – Mas não faz diferença agora. Vou pegar seu vinho, fique à vontade.
Peguei uma garrafa de vinho sem álcool de uma marca duvidosa e duas taças do conjunto que ganhei dos tios de Daniel de casamento. Quem será que vai ficar com isso? Será que a gente vai brigar pelo moedor de sal e pimenta? Ou a gente divide tudo, cada um fica com metade do conjunto e nunca mais podemos dar uma festa para mais de quatro pessoas? Sei lá. Divórcios são loucos.
– Ok, realmente isso de vinho sem álcool existe então – riu ao receber uma taça – Espero que isso não me mate.
– Não é tão ruim assim – Falei ao depositar o líquido na taça dele, ainda pensando em quem ficaria com a taça – Estou lentamente me tornando uma dessas mães que apenas tomam drinks esquisitos.
– Um brinde a isso – Foi a vez de ele falar e brindamos, como dois esquisitos, mas foi engraçado – Seu nome por acaso é pela loja ? Desculpa perguntar assim, mas eu realmente fiquei curioso.
– Não! – Dei uma risada meio exagerada e depois quis morrer por isso – É pela Tindall, neta mais velha da rainha Elizabeth. Meus pais são muito fãs da família Real.
– Então você tem nome de princesa.
– Ela não é uma princesa. Ela poderia ser porque a Rainha ofereceu, mas seus pais queriam que ela tivesse uma vida normal, então ela é só uma parte da família Real, mas sem poderes ou algo do tipo. Não sei qual parte eles acharam bonito disso, mas pelo menos não foi por uma loja de departamentos metida a rica.
– Pelo menos isso – Ele deu mais um gole e sorriu para mim. Pronto, o assunto ia acabar e eu ia ficar olhando para ele que nem idiota, ou iria procurar coisas para falar e ficar puxando assuntos chatos – Então, Gigi Goode, hum?
Por sorte nós dois tínhamos algo em comum e era muito fácil achar assunto com ele. Falamos desde a décima primeira temporada e voltamos até a primeira, passando pelos melhores momentos e até os all stars. Conversamos por quase uma hora sobre isso, sem nem ver o tempo passar, até que liguei a TV com medo de perder o novo episódio de Rupaul, afinal era sexta feira.
– Foi por causa de Crepúsculo que me tornei escritor – disse enquanto o filme passava na TV. A VH1 sempre passava os filmes mais aleatórios antes de Rupaul começar – Eu pensei que qualquer coisa minimamente boa poderia ser vendida para adolescentes desesperados, mas é bem mais difícil que isso. Aí meu agente sugeriu que eu começasse a tentar com auto ajuda, e daí saiu o meu bestseller “Seja uma pessoa fuderosa”.
– Seja uma pessoa fuderosa – Caímos na gargalhada – Isso é a melhor coisa que eu ouvi na vida.
– Eu sei! Foi uma ideia de ouro. Foi com esse livro que eu comprei a casa aqui do lado. A casa tinha ido a leilão e eu tinha dinheiro no bolso por um livro besta.
– Eu tenho quase certeza que Daniel ganhou um livro desses de aniversário ano passado…
– Deve ter sido o mais novo, o “enfuderoso” – Caímos na gargalhada de novo. era uma pessoa muito engraçada e eu nunca ia esperar isso dele. Sempre que eu o via, ele estava de óculos escuros e roupas que poderiam caracterizar um bad boy. Mas lá estava ele, escrevendo livros incríveis de auto ajuda, vendo Rupaul na casa da sua vizinha e tomando vinho sem álcool. Ele já havia se tornado uma das melhores pessoas que eu já havia conhecido.
Quando foi embora, depois do episódio novo de Rupaul, percebi que fazia pelo menos um ano que eu não me divertia desse jeito. E havia sido tudo tão simples: Apenas duas pessoas conversando em frente a uma televisão. Desde que Dexter nasceu, Daniel e eu mal conversamos, e quando conversávamos, era para discutir qualquer bobagem.
Então foi uma boa mudança, com certeza. Marcamos de ver o próximo episódio juntos e ele foi embora, me deixando naquela casa. Sozinha. Era muito estranho isso, pois acho que não tinha passado um minuto sozinha nos últimos meses. Dexter normalmente ocupava todo o meu tempo e minha vida. Principalmente agora que ele estava aprendendo a andar e quebrando minhas costas.
Eu tinha que arrumar alguma coisa para fazer. Qualquer coisa. Precisava me distrair. Queria desesperadamente que Dexter voltasse logo. Já era tarde e ele devia estar cansado e com saudades de mim. Ou não. Sei lá.
Quando eles chegaram era quase dez da noite e Dexter já estava dormindo. Da porta pude ver a garota de cabelos loiros e curtos que me acenou. Lhe desejei feliz aniversário e voltei para casa, colocando Dexter para dormir e indo deitar na minha enorme cama de divorciada. No momento que deitei me lembrei da fresta na cozinha. Eu precisava saber o que aquilo era.

Capítulo 4

Acabei desistindo de ir ver a maldita fresta na cozinha quando vi meu celular vibrando em cima da cama. Era minha chefe me mandando milhões de mensagens. No caso, duas. Mas para mim são milhões.
Juliana era minha chefe há pouco tempo. Ela havia postado um anúncio no craigslist da UCLA bom demais para ser verdade: Procurava uma editora de vídeos para o YouTube e Instagram que fosse rápido e bom em trabalhar com deadlines. E que fosse preferencialmente uma mulher. Achei que fosse um tarado ou algo assim, e inclusive no e-mail eu literalmente respondi que se fosse um tarado para nem me responder pois eu tinha um filho e meus peitos estavam caídos.
De alguma maneira incrível, eu era exatamente o que Juliana procurava. Ela queria alguém que fosse exatamente o que eu era, e foi muito bom poder chamar uma mulher de 16 anos de chefe. Tá, ela não tem 16 anos, mas sinto que é quase isso.
Ela é uma influencer. Bem jovem, daquelas que não precisa de procedimentos estéticos ainda. Tão novinha e bonitinha, parece uma boneca, com aqueles cílios enormes e pele impecável. Mas não é isso que atrai no papo com Juliana. Seus vídeos são fáceis de editar pois são absurdamente gostosos de assistir. Eu me sinto na obrigação de fazer um baita trabalho bom. O que é fácil, pois o conteúdo é realmente bom. Sempre dizem que nunca ficamos na área que nos formamos e é verdade. Eu queria ser roteirista/produtora e quando perdi o emprego da Fox virei professora de história de cinema, o que era meio legal mas meio “meh”? Então quando Juliana me ofereceu o emprego eu fiquei igual uma libélula saltitante. Claro que tem a parte chata, que é editar, mas eu conseguia fazer tudo enquanto Dexter berrava atrás de mim ou lambia o próprio xixi que vazou da fralda.
Na mensagem, minha amada chefe Juliana me desejava um bom descanso e falava que eu precisava estar descansada amanhã, além de que havia enviado alguns arquivos para um vídeo de review. Juliana queria colocar mais personalidade em seus vídeos e era lá que eu me divertia. Logo esqueci da fresta maldita, da porra da namorada nova de Daniel, do vizinho… Ah, do vizinho eu não tinha esquecido não.
Um vizinho que gostava de Rupaul era absolutamente tudo para mim. Se Daniel fosse mais como , ainda seria casada com Daniel e não estaria sentindo umas leves fisgadas que indicavam que minha florzinha podia estar adormecida depois de ter sido arrombada, mas que ainda estava muito viva, obrigada.
Com Dexter dormindo o sono dos privilegiados, em seu pijaminha anti sufocamento, com aquelas ondinhas avermelhadas todas bagunçadas, não tinha como não se apaixonar por ele. Toda vez que eu o via dormindo tinha vontade de chorar de tanta saudade de sua voz adorável e suas bochechas rosinhas. Chorei um pouco, mas me pus para cima e logo estava eu com fones de ouvido caros (um presente do ex), num computador muito caro ( que também era do ex) e sentada numa cadeira gamer de última geração (presente de Juliana, que não era gamer e não tinha onde enfiar um trambolho desses). Confortável e pronta para editar uma review, muito boa por sinal, sobre uma nova linha de maquiagens. Quando terminei, já estava no site da empresa procurando descontos no rímel maravilhoso desses. Odeio trabalhar com Juliana, acabo gastando mais do que recebo.
Terminei de editar por volta de 2 da manhã, quando Dexter ia acordar para se alimentar. Quase dormi dando peito? Sim. Dexter que me acordou com uma mordida na cara quando tinha acabado e eu só pude falar um “puxa, muito obrigada meu filho”. Foi aí que coloquei o menino para dormir de novo, nós dois na mesma cama dessa vez, sua respiração calma contra minha pele. Era maravilhoso ser mãe e amar esse pequeno ser que tinha saído de mim. Mas não era tão maravilhoso assim quando ele acordava 2 horas depois para pedir mais comida. Fizemos isso algumas vezes mais e no fim, Dexter cansou de brincar de dormir. Aí entramos na rotina do dia a dia: Café da manhã, ele tentando comer o lixo, meu celular apitando aos berros de tantos comentários que o grupo de Rupaul estava mandando e Juliana me dizendo que viria me buscar em uma hora.
Oi?
Claro que eu tinha esquecido que ia modelar para ela, na casa de seu irmão. Era óbvio que isso aconteceria comigo. E então, num furacão, Dexter chorando, peito vazando, tudo dando errado, que o vizinho veio bater na porta.
– Ótimo! – Disse, sem muita paciência, e entreguei Dexter a ele – Você fica com ele enquanto eu termino aqui.
Nem sei o que me deu, mas sei que pelos próximos vinte minutos eu apenas loucamente arrumei minhas coisas e as coisas de Dexter, tomei um banho, coloquei os absorventes de tetas e estava pronta. Claro que então me lembrei que tinha basicamente entregue meu filho nas mãos de um total estranho. Eu só pioro a minha própria situação.
Mas quando cheguei na cozinha, estava lhe dando uma maçã enquanto imitava um macaco comedor de maçãs. Dexter gargalhava de uma forma que jamais havia visto antes.
E, atrás de , percebi uma coisa esquisita. Não tinha mais fresta nenhuma.

N/A: Apenas agradeçam à Lana que sem querer querendo me fez escrever. Se vai ter atualização semanal eu não sei, mas seguiremos tentando. Xoxo gospel girl
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