The Driver

Sinopse: Estudando para viver de sua escrita, ela se vê obrigada a fazer bicos de Uber para ajudar a pagar as contas. Quando recebe, com a ajuda de seu professor de escrita criativa, a proposta de uma entrevista para um estágio remunerado na nova série da Netflix. Seus dias como motorista acabarão?
Já imaginou fazer uma corrida para ninguém menos que Gavin Leatherwood?
Gênero: Romance
Classificação: 16
Restrição: Só o nome da PP é interativo
Beta: Natasha Romanoff

7 de dezembro, 2017

Eu sei que iria ser um dia incrível e bagunçado no minuto em que meu despertador não faz qualquer barulho para me acordar. Quando meu corpo acha que é a hora para acordar, ou seja, a hora errada, ele acorda. O sol entra pela janela e já bate na altura da escrivaninha do quarto que eu divido com Naomi, sendo que ele geralmente teria que estar um pouco acima dela – quando acordo na hora, ele nunca chega a essa altura. Quando coloco os olhos na claridade e faço as contas do quanto estou atrasada, dou um salto, jogando as cobertas pesadas para o chão.
Me arrependo de não ter colocado meus chinelos de pano no exato segundo que meus pés tocam o piso mais gelado das lajotas cinza do banheiro minúsculo. Tiro rapidamente meu pijama e deixo a água quente do chuveiro cair nos meus ombros, não antes de prender meus cabelos em um coque alto. Eu não tenho tempo de lavá-los, na verdade, eu não tenho tempo para tomar banho, mas minha infância com pais brasileiros e sua lavagem cerebral com higiene não me deixa sair da cama sem tomar um banho. Além disso, é realmente nojento.
Fecho o registro e escovo meus dentes correndo, enrolando uma toalha rosa desbotada no meu corpo. Saio correndo para o quarto, sem “esquecer” de tropeçar na parte do carpete que havia descolado semestre passado. Prometo arrumar aquela ponta solta assim como fiz ontem, e antes de ontem, e semana passada, mas ninguém precisa saber. Puxo uma calça preta e uma camisa branca com listras brancas do meu armário e coloco meu computador na mochila salmão que sempre carrego. Só posso rezar para que os documentos que preciso para a entrevista de estágio que eu teria mais tarde estejam muito bem guardados no bolso da frente da mochila.
Saio correndo até o estacionamento do dormitório, com todos os chaveiros da chave do carro balançando na minha mão direita. Por mais que o dormitório seja da faculdade, ainda tem algumas quadras de distância separando-os de onde minhas aulas de Escrita Criativa acontecem. Há alguns quartos mais perto da faculdade, mas quando fiz minha inscrição, já não tinham mais quartos sobrando. No fim, acabei presa com quem se tornaria minha melhor amiga e esses anos de faculdade não poderiam ter sido melhores.
Olho no relógio do painel assim que fecho a porta do carro preto. 9:30. Ainda posso chegar a tempo para a aula do senhor Riveira, mas sem chance de pegar café na ida. Merda. Certo, eu posso sobreviver sem café. Giro a chave, dando a partida, e alcanço a rua – sem deixar de rezar para que o trânsito de Toronto colabore comigo.

XXX

— Senhorita ! Fico feliz que conseguiu se juntar a nós, no fim das contas. — Senhor Riveira dá um sorriso com o canto da boca, quando entro com dois copos de café esquentando minhas mãos. Eu me avisei que eu não deveria ter parado por um copo quentinho da minha cafeteria favorita, mas, quando eu passei por ela, parecia que a espuma do leite quentinho chamava pelo meu nome.
— Sinto muito, senhor Riveira. Achei que o senhor gostaria de um capuccino com canela extra. — Levanto o copo da mão esquerda. Eu sei que eu teria problemas por chegar à aula atrasada, mas eu também sei que meu professor é tão viciado no capuccino daquele lugar quanto eu. — Você sabe, para esquentar se nossas histórias sobre o inverno fiquem geladas demais.
Ele levanta uma sobrancelha e, com uma mão, pede para eu me aproximar:
— Você não pode continuar me subornando assim, . — Ele sussurra, e estreita os olhos quando pega o copo das minhas mãos. Levanta a tampa e sente o cheiro do café misturado com a canela, posso ver seus olhos mudarem de opinião na hora que seu cérebro processa as sensações. — Mas, se você não chegar atrasada das próximas vezes que me trouxer um desses, eu vou agradecer muito.
Com um sorriso pequeno, me afasto da sua mesa, procurando pela minha. Me sinto um pouco orgulhosa e um pouco suja ao mesmo tempo. Me pergunto se é assim que Cher, do filme As Patricinhas de Beverly Hills, se sentia. Assim que sento no meu lugar, o sentimento se esvai.
Olho para frente, enquanto tiro meu computador branco da mochila, encarando o professor baixinho falando sobre a importância de um parágrafo bem construído. O senhor Riveira, ou Mark, quando não está lecionando, é parcialmente careca, mas os cabelos que ainda se agarram bravamente à sua cabeça são grisalhos. Sua pele, ligeiramente enrugada na região da testa, é meio morena por conta de seu legado latino. Desde o dia um na aula de Escrita Criativa, que é o que leciona, ele foi gentil comigo. Um pai das letras.
— Espero que todos vocês já tenham suas histórias engatilhadas para pararem no meu e-mail. — O professor diz, ao final da aula. — Como a senhorita disse antes, espero que suas histórias sobre ser o inverno realmente me façam querer um capuccino do Dom’s para me esquentar. Turma dispensada.
Guardo minhas anotações e meu computador na minha mochila e estou para sair da sala, quando Riveira me pede para voltar:
! — Me viro, encarando enquanto ele coloca o copo de café no lixo ao lado da sua mesa. — Podemos conversar? — Faço que sim com a cabeça, depois de checar o horário em meu celular, e me aproximo. — Não gostei do seu atraso hoje.
Por um momento, acho que ele vai elogiar meu último trabalho, então, quando ele menciona meu atraso, meu estômago parece que vai até meu pé.
— Você é uma ótima escritora, a melhor da turma desse ano, mas você precisa levar os horários a sério.
— Eu levo. Foi um erro hoje, meu celular não despertou. Naomi saiu mais cedo que o costume e aconteceu alguma coisa com meu despertador, só isso.
— E deu tempo de passar no Dom’s? — Ele levanta uma sobrancelha. — Enfim, o que eu quero dizer é que você tem muito potencial e não pode desperdiçá-lo, nem pelo melhor café do Canadá.
— Certo. Não vou decepcioná-lo, senhor Riveira. — Digo, puxando a alça da mochila. Ele sabe, muito bem, obrigada, quando é hora de puxar a orelha dos seus alunos.
— Agora, você vá conseguir o estágio que eu te arrumei. — Ele diz, tentando não sorrir. Mas eu não tento.

XXX

Eu estou para lá de verde de fome. Já passa da hora, em dias que eu não me atraso, de comer. E eu não havia comido de manhã, receita para o desastre. Como sempre, eu e Naomi vamos almoçar juntas, então a espero no meu carro em frente ao bloco D, o bloco de ciências exatas. Lugar horrível para se estar, muito além da matéria que ensinam – qualquer matéria com números me causa arrepios – , o sol, raro nessa época do ano, bate na carroceria preta do carro e penetra até onde eu estou, deixando o ambiente exageradamente quente. Certo, a exagerada sou eu.
Eu reviso o último capítulo escrito da fanfic de Jogos Vorazes que escrevo. Minhas pernas, que estão cruzadas em cima do banco do motorista, servem de apoio para meu computador, enquanto o banco do passageiro ao meu lado apoia minha caderneta preta. Ela já está surrada e o elástico quase não mais alcança todas as folhas, mas ainda não é hora de comprar outra, não enquanto eu não termino todos os 4 capítulos que faltam. Afinal, se a caderneta é para o arquivamento, ou, como meros mortais chamam, a “caixa plástica debaixo da cama da ”, eu nunca mais lembro aspectos pequenos da personalidade dos meus personagens ou o que acontece nos capítulos finais. Comprar outra agora, nem em pensamento.
Eu sei que Naomi reclama se me vê escrevendo no carro, portanto um olho está vidrado na tela do notebook e outro vigia a grande porta antiga de madeira do bloco D. A porta que eu faço questão de desviar quando chego perto. Quando a cabeça morena da minha amiga aponta na porta, fecho o computador rapidamente, até com um pouco de força, e coloco na mochila junto com a caderneta. Quando volto o corpo no banco e coloco as duas mãos no volante, ela abre a porta:
— Como eu amo/odeio cálculo integral. — Ela coloca o cinto de segurança e eu ouço a porta de trás abrir. — Owen vai almoçar com a gente, já que você estava escrevendo no carro.
— O quê? Eu não estava escrevendo no carro!
— Como se pudesse me enganar. — Naomi aponta para meu cabelo. Droga! Como posso esquecer de soltar o cabelo?
— Elementar, meu caro Watson. — Owen solta, já no banco de trás, afivelando o cinto de segurança. Consigo ver sua cabeça loura pelo retrovisor e reviro os olhos em sua direção.
— Cala a boca, Hayes. — Digo, puxando o elástico do meu cabelo. Passo a mão por entre os fios em uma tentativa falha de domá-los. — Não se esqueça que você, ainda, está no meu carro e eu posso te tirar daqui a qualquer segundo.
— Você pode parar de brigar com meu namorado? — Naomi diz, brincando.
Owen Hayes e Naomi Merrick são o meu couple goals da vida. Eles se conheceram no ensino médio, começaram a namorar no primeiro ano e se separaram logo depois. Naomi nunca me falou por que e quando eu tentei perguntar, pela primeira vez, ela ignorou a pergunta e achou um assunto diferente. Ela não quer falar sobre isso, então eu não pergunto mais. Ao fim do ensino médio, cada um iria para um canto: Naomi viria para a Universidade de Toronto e ele estudaria em alguma universidade dos Estados Unidos. Porém, em um reviravolta do destino e por Hayes ser um tapado e esquecer alguns documentos na hora da matrícula, os dois acabaram na mesma turma de Cálculo. Sinceramente, se os dois não acabarem casando algum dia, algo muito errado tem com essa coisa de amor.
Quando conheci Naomi, no início da universidade, nos odiávamos. Meu santo não se dava bem com o dela e eu cogitava muito pagar um pouco mais por um apartamento que nem ficava perto do campus só para me ver livre daquela coisinha asiática. Porém, e eu descobriria rápido que aconteceria sempre, Owen se intrometeu na vida de Naomi e, por consequência, na minha. Na noite antes de eu assinar o contrato do meu, agora não meu, novo apartamento, ela entrou no nosso quarto em prantos, dizendo que, mesmo me odiando, precisava falar com alguém. E foi assim que eu desisti de pagar por um lugar horrível e criei a melhor amizade que eu já tive: com vinho e shade em macho. As melhores amizades começam assim.
— O que vamos comer? — Owen pergunta, do banco de trás.
— Sei lá. A madame não escolheu ainda. — Digo, me referindo a Naomi, quem sempre escolhia o lugar do almoço.
— Eu não consigo escolher uma música com vocês buzinando no meu ouvido. — Ela diz, com meu celular na mão, que previamente estava no console do carro, escolhendo uma música.
— Naomi, eu estou com fome. — Digo, apertando a buzina. — Foda-se a música. Eu quero comer, Naomi.
— Naomi, onde nós vamos comer? — Owen se junta a mim na chateação. — Naomi, Naomi…
Ela joga meu celular de volta no console, depois de colocar Shape of You do Ed Sheeran para tocar. Bufando, ela gesticula para frente:
— Você sabe onde a gente vai comer, . Não sei por que fica me enchendo o saco.
— Alguém está de mal humor hoje. — Digo, dando a partida no carro e saindo do estacionamento da universidade.
— Disse a pessoa que não tem uma foto no Instagram. — Ela retruca, relembrando a nossa discussão de ontem à noite.
— O que tem a ver o Instagram com almoço mesmo? — Diz Owen, se sentando mais na ponta do banco, com a cabeça no vão entre os bancos da frente.
— Fica quietinho, bebê, os adultos estão conversando. — Naomi responde, passando a mão na cabeça do namorado. Ela vira os olhos para mim logo depois. — , você vai ser uma puta de uma escritora. Você precisa de um puta Instagram para combinar.
— Eu não vejo nenhuma justificativa plausível para que isso esteja certo. — Digo, parando na esquina. — Eu já fiz a conta que você queria, me divirto com os stories, não preciso ficar colocando minha cara para todo mundo ver.
— Você é ridícula. Só não coloca nada porque tem medo de rejeição. Se tem tanto medo assim, nunca vai deixar que publiquem alguma coisa sua, vai ter medo das pessoas não gostarem do que escreve. — Ela diz, com o tronco virado pra mim. Eu tento prestar atenção na rua, mas dou uma olhada para minha amiga de vez em quando.
Infelizmente ela está certa.
— Certo. — Mordo meu lábio, sugando o ar por entre as frestinhas do meu dente. — Eu odeio quando você está certa.
— Então você me odeia sempre. — Ela diz, dando uma risadinha e colocando um pé, sem a bota que usava (obrigada por não sujar meu carro), em cima do banco.
— Eu posto uma foto hoje.
— Eu acho bom. — Ela diz, e aumenta o volume do rádio, estragando a música do Ed ao cantar junto.
Continuo nos guiando até o nosso restaurante favorito, de menos de 15 dólares, embalada pela playlist de Naomi. O nervosismo pela entrevista fica guardado num potinho no fundo da minha mente, até, claro, Owen perguntar se era realmente hoje:
— Tá nervosa? — Ele ergue as sobrancelhas, gesto que posso ver pelo retrovisor.
— Não. Eu nem dependo disso para largar o Uber. — Respondo, sarcástica.
— Eu não acredito que vou perder minhas corridas de graça. — Ele diz, e posso ouvir o beicinho que faz.
— Pois pode começar a arranjar dinheiro. — Naomi se intromete, virando a cabeça, quase como em um filme de terror, para olhar para Hayes. — Minha amiga é maravilhosa e vai conseguir o estágio. Dois beijos da tia Naomi.
— Vocês são maravilhosos, mas acho que não vai rolar. — Digo, finalmente, estacionando o carro na frente do restaurante. Paro de falar até o carro estar bem alinhado com a calçada. E continuo logo depois, como se nada acontecesse. — Quer dizer, é com a Netflix e é… Sei lá, é uma coisa grande, sabe?
— E vai dar tudo certo. — Diz Hayes, apertando meu ombro. Posso ver, pelo canto do olho, o brilho do orgulho em Naomi. Meu cérebro grita couple goals.
— Podemos comer? — Digo, depois de um sorriso. — Vocês demoraram demais nos cálculos.
— Você deveria agradecer aos números pelo seu celular. — Diz Owen, saindo do carro. Nossa briga de “humanas e exatas” começa e só termina quando os pratos chegam e a boca fica ocupada demais para palavras.

XXXX

O sol está se pondo quando eu atravesso o estacionamento do estúdio de gravação. Muito além do frio ou a mochila que carrego, o que pesa meus ombros é a sensação de fracasso. A entrevista com o roteirista da nova série da Netflix tinha ido nada bem. Meus planos de largar a vida de Uber tinham ido por água abaixo na última hora. Adeus, estágio remunerado, foi uma honra ser indicada.
Como meus pais não eram as pessoas mais ricas do mundo e a melhor faculdade de literatura e escrita era do outro lado do país, e absolutamente nada barata, eu ajudava com as despesas de me manter morando em Toronto carregando pessoas para lá e para cá da cidade. Eu perdi as contas de quanta gente estranha eu carreguei no meu carro, mas valia a pena. Eu conseguia comer e pagar o aluguel, mesmo que irrisório, do dormitório da faculdade, enquanto meus pais pagavam a mensalidade, nada irrisória.
Depois de jogar minha mochila e bater com força a porta do porta malas, sento no banco do motorista e minha cabeça gira com um turbilhão de pensamentos. O que o senhor Riveira vai falar? Depois de todo aquele discurso de “você tem potencial”, estou certa que vou ter que aguentar outro. Ele fora tão incrível ao conseguir a entrevista para mim, mas só de estar na presença de um dos meus roteiristas favoritos, ou seja, Roberto Aguirre-Sacasa, escritor de Riverdale, foi o suficiente para me fazer travar. Nem quando ele me perguntou sobre a história que eu mais tinha orgulho, com gênio da lâmpada e romancezinho adolescente, eu consegui dar uma resposta satisfatória. Qual era o meu problema, afinal?
Conecto o meu celular no carregador do carro, depois de mandar uma mensagem para Naomi (“Entrevista ruim, sem chances ☹”), e abro o aplicativo do Uber, pronta para fazer algumas corridas para dirigir a entrevista para fora da minha cabeça. Assim que me coloco disponível, um pedido pula na tela do aplicativo e eu suspiro. Não precisava ser tão rápido. Eu podia curtir a minha fossa só mais alguns minutos.
Ligo o carro, logo depois de colocar o cinto, e saio da vaga que estacionei há algumas horas. Dou a volta no estacionamento do estúdio, esperando que o GPS me guie para fora de lá, mas, para a minha surpresa, ele me manda parar e esperar o passageiro na frente do prédio que eu acabara de sair. Olho para o outro lado, tentado segurar o choro assim como fazia com a respiração.
A porta de trás bate com força e eu me encolho ligeiramente. A voz do meu pai faz eco em minha cabeça, quando se cresce ouvindo “não tem geladeira em casa pra bater a porta assim?” qualquer força que coloquem na hora de fechar a porta já parece que fará um estrago.
— Boa tarde. — Digo, automaticamente, ao ouvir o barulho do cinto de segurança.
— Boa tarde. — Ele responde, e eu olho pelo retrovisor por puro reflexo. Deus. O que é esse cabelinho penteado para trás? Isso, se concentra nas partes ruins para não se apaixonar pelo cara. Eu consigo ver duas sobrancelhas cheias acima dos olhos castanhos de onde eu estou. Ele usa uma jaqueta jeans por cima de um moletom cinza e não chega a olhar para longe do celular quando me responde.
— Você é o Gavin? — Pergunto, como sempre faço quando alguém entra no meu carro para uma corrida. Ele concorda, ainda sem olhar para cima, então eu desisto de começar a puxar assunto.
Não estou reclamando, pelo contrário, prefiro os passageiros que não me perguntam como vai minha família ou se acho que está muito frio ou quente. Porém, confesso que conversar com o senhor Gavin Leatherwood, como dizia o aplicativo, não me faria nada mal.
Começo a dirigir, tentando manter meus olhos nos montinhos de neve da rua, para me manter longe deles, ao invés do retrovisor e um certo passageiro. Meu celular começa a apitar com algumas mensagens de Naomi. Tento ignorar. O aparelho, quando estou trabalhando com o carro, fica em um suporte no para-brisa para que eu possa acompanhar o trajeto no GPS, o que facilita muito. Mas não ajuda se você tem uma amiga igual a minha.
Quando olho para o celular, para deixar no silencioso, vejo o enorme risco vermelho na pista virtual do aplicativo indicando congestionamento. Era só o que faltava para deixar meu dia melhor. Coloco o celular no silencioso e dou uma olhada no banco de trás, claro que pelo espelho. Ele continua no celular.
— Desculpa por incomodar — Digo, limpando a garganta. — Mas você trabalha no estúdio?
Ele não me ouve, então olho pelo meu ombro para trás, discretamente. Está muito concentrado no aparelho e posso ver os fones de ouvido em sua orelha. Claro, , ele não iria te ignorar só pelo prazer de te ignorar. Ou iria?
Só preciso de alguns minutos para alcançar o engarrafamento do GPS. Aproveitando a parada forçada, dou uma checada nas mensagens de Naomi.

Nay
Para de ser boba! 7:26 pm
O que aconteceu? 7:26 pm
Você tá vindo direto pra casa? 7:29 pm
Quer que eu compre um vinho pra desestressar? 7:30 pm
Tô te esperando com vinho e A Proposta ♥️ 7:53 pm

Eu
E isso é tudo que eu preciso agora 7:55 pm
Tô chegando 7:55 pm
Só tenho um passageiro 7:56 pm
Trânsito 💩 7:56 pm

— Não! — Escuto, vindo do banco traseiro. Ele dá um sorriso amarelo, aparentemente, não era para ter saído tão alto. — A bateria acabou. Desculpe, estava decorando um texto.
— Imagina. — Digo, indo com o carro um pouco para frente. “Agora é sua chance, penso, pergunta alguma coisa”. — Então… Você trabalha naquele estúdio?
— Aham. — Ele responde, se ajeitando no banco. — Eu sou ator.
— É da nova série da Netflix? — Pergunto, achando que seria coincidência demais.
— Como você sabe que está sendo produzida ali? — Ele pergunta, tirando a jaqueta jeans e colocando ao seu lado no banco.
— Eu tive uma entrevista de estágio lá hoje para trabalhar na série. — Digo, batucando de leve o volante, enquanto mando o carro alguns centímetros mais para frente.
— Vamos ser colegas de trabalho. — Ele diz, dando um sorriso perfeito. Eu já vi sorrisos bonitos, mas o dele ganha de longe. Seu sorriso chega aos olhos e seus dentes são tão brancos quanto os do Ross naquele episódio de Friends, mas eu tenho certeza que os de Gavin não brilham no escuro.
— É… Acho que não. Fiquei um pouco nervosa demais em ter Roberto Aguirre na minha frente. — Digo, virando a cabeça para trás novamente.
Gavin Leatherwood é um cara simpático. Logo a primeira impressão de ser do tipo que entra e não fala nada se esvai e eu posso ver que ele é do tipo que quando começa a falar nunca mais para. Ele me conta que não é do Canadá, mas que mora lá para poder filmar a série (que ele diz não ter nada a ver com Sabrina, a bruxinha. Para um ator, ele é um péssimo mentiroso). Conta, também, o quanto está animado no trabalho. Ao final da corrida, depois de um congestionamento de 45 minutos, eu já sei mais coisas dele do que eu sei de Owen.
— Então é isso, senhor Leatherwood. — Digo, puxando o freio de mão, sem desligar o carro.
Como a corrida é paga com cartão de crédito, não viro para trás para dar tchau para ele, só respondo um boa noite. Erro tolo. Se eu tivesse me virado, teria visto seu rosto pela última vez e teria percebido que ele deixou a jaqueta jeans no banco. Mas como não faço, continuo meu caminho. Vou para casa. Chega de trabalho. Eu só quero tomar um vinho e ver comédia romântica com a minha amiga. Quando parei no sinal vermelho, olhei para o retrovisor e vi a jaqueta. Suspiro. Levaria amanhã para o estúdio que ele trabalha. Isso, bom plano.

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