Up View 2

Sinopse: Depois de semanas, ela decidiu entrar em contato com o tal Homem-Aranha para poder devolver sua jaqueta. Ela só não esperava que ele fosse responder e fazê-la enxergar tudo através de lentes cor de rosa.
Gênero: Comédia Romântica
Classificação: Livre
Restrição: Tom Holland fixo
Beta: Natasha Romanoff

fromoutside

Oi, Tom! Aqui é a , nós nos conhecemos no telhado daquela balada, quando ficamos presos, lembra? Então, eu ainda estou com a sua jaqueta e gostaria de devolver porque minha mãe me ensinou a não ficar com as coisas dos outros, então… Se pudermos conversar sobre um jeito de fazer essa devolução, seria bem legal…

Suspirei e rolei a tela do Instagram para cima, vendo as outras dezenas de mensagens exatamente iguais que eu tinha mandado ao longo das duas últimas semanas, praticamente diariamente.
Eu estava tentando. Eu realmente estava me esforçando para contatar Tom Holland e devolver a jaqueta que ele tinha deixado comigo algumas semanas atrás, quando ele trouxe para a vida real seu papel de herói e me salvou da morte certa, em um telhado com uma linda visão.
Mas, aparentemente, conversar com uma pessoa famosa não era exatamente fácil.
Quem diria.
— Você ainda tá tentando falar com o Homem-Aranha? — Ben, meu lindo amigo que tinha me abandonado no dia da balada, sentou-se ao meu lado na mesa da Starbucks, me estendendo meu caramelo macchiato venti. — Nada ainda?
— Nada — fiz uma careta triste e dei um longo gole em minha bebida, queimando a língua em um ponto que já tinha queimado tantas, tantas vezes, que a essa altura da vida já tinha acostumado com a desgraça. — Ou ele nunca vê a DM ou ele tá me ignorando.
Miga, só pensa no tanto de gente que manda DM pra esse menino diariamente, pedindo uma fodinha — a naturalidade que Ben falava algumas coisas era simplesmente encantadora e exatamente por isso nós éramos amigos há doze anos. — Eu também não checaria minhas DMs se fosse ele.
O que, obviamente, fazia completo sentido e mesmo assim eu achava um total absurdo. Será que Tom não pensava na possibilidade de alguém tentar entrar em contato com ele com urgência e o único veículo de comunicação ser a DM do Instagram? Tipo, uma menina que tinha ficado com a jaqueta dele e queria devolver. Na maior boa vontade do mundo.
Tá, eu tinha demorado para entrar em contato. A essa altura, já fazia um mês desde aquele dia no telhado, mas não era tanto tempo assim, ao menos não o bastante para que ele tivesse esquecido do ocorrido.
E não que eu fosse uma pessoa totalmente memorável, especialmente considerando meu senso de humor peculiar e tendência a dramas excessivos, mas a situação em si não tinha sido exatamente mais um dia na vida do cidadão comum. E não que o Homem-Aranha fosse um cidadão comum, mas… Não era possível que ele tivesse esquecido as quase duas horas que ficamos presos naquele telhado, naquele frio maldito, naquela quase sentença de morte.
— Por que você não manda mensagem pros amigos dele? Ou pro irmão?
— Eu nem lembro o nome do irmão dele — balancei os ombros, dando mais um gole no café e sentindo a língua queimar mais um pouco.
, você é burra ou se faz? — Ben revirou os olhos, pegando o próprio celular e digitando muito rapidamente. — Aqui, ele tem três irmãos: Harry e Sam, que são gêmeos, e Paddy, o mais novo. Aparentemente, o Tom é o mais velho.
Santo Google.
— Três irmãos? Uau, uma família sem televisão, claramente — dei uma risadinha, fazendo a mesma pesquisa que Ben provavelmente tinha feito e encontrando a família completa de Tom, já começando a procurar as redes sociais de todos eles.
Eu preferi não comentar sobre o quanto aquilo parecia desesperado e provavelmente humilhante, mas humilhação era só mais uma parte do meu dia a dia, então talvez fosse meio automático. Se meu corpo detectasse qualquer oportunidade de ser envergonhado, ele automaticamente fazia de tudo para passar a vergonha da pior maneira possível.
— O que você tá falando? Você tem quatro irmãos — Ben riu.
— Sim, mas todos nós somos adotados — também ri, abrindo a rede social do irmão que tinha segurado a porta aquele dia, Harry. — Olha isso, o menino tem um milhão de seguidores. Até o verificado ele tem! Nunca que ele vai me responder.
— Manda pra todos os Holland que você encontrar. Algum vai ter que responder.
— A humilhação, meu pai — e apesar de saber que era realmente vergonhoso, abri as DMs com todos os Holland e mandei a mesma mensagem para todos. — Pronto, vergonha passada com todos eles. Agora, em vez de ser ignorada por um Holland, serei ignorada por quatro.
— Mas imagina se ele responde, vocês se encontram, se apaixonam… — os olhos de Ben brilhavam com tanta esperança que eu quase suspirei. Era difícil ter um melhor amigo escritor de romance infanto-juvenil. — Minha fanfic vai virar realidade através de você, .
— Olha pra mim, Ben. Eu sou negra e gorda. Alguma vez na sua vida você viu um cara branco famoso namorar uma menina negra e gorda? — a pergunta era, obviamente, retórica, porque a única resposta possível era “não”. Então nem deixei meu amigo responder antes de continuar: — Além de que, nas raras ocasiões em que esses brancos namoram uma menina negra, ela parece ser a própria Miss Universo, então…
— Bom, quem perde é ele — Ben balançou os ombros, fazendo pouco caso. Pelo menos ele não tinha tentando amenizar o que eu tinha falado para me fazer sentir melhor, como se todo o preconceito que eu sofria não existisse ou fosse só uma questão de como eu me via. Odiava quando tentavam fazer isso. — Daqui a pouco você consegue falar com ele, você vai ver.
Eu não acreditei realmente em Bem, mas fingi que sim porque era mais fácil. Mas se tem uma coisa que eu deveria ter aprendido em doze anos de amizade com Benjamin Collins, é que ele quase nunca está errado. E dessa vez não foi muito diferente.
Não foi Tom quem entrou em contato comigo.
Incrivelmente, o Holland a me responder no Instagram foi Harry. Aquele mesmo com um milhão de seguidores e o símbolo de verificado que eu tinha certeza que ia me ignorar completamente. Talvez ele fosse uma boa alma. A mensagem dele foi bastante simpática, dizendo que lembrava de mim e iria falar com Tom sobre a blusa e depois me mandava outra mensagem. Eu mandei um gif de The Office porque era uma das séries que tinha construído meu incrível senso de humor, e esperava que Harry me achasse tão engraçada quanto eu me sentia.
Eu esperei mais uns dois ou três dias até que ele respondesse, e a única coisa que ele fez foi pedir meu número. Pois aqui vai uma curiosidade sobre mim: eu nunca passava meu número para pessoas de fora do meu círculo social. Por que eu era precavida e tentava me proteger? Não. Apenas porque eu nunca lembrava quem era a pessoa e acabava passando muita vergonha quando desligava na cara dela depois de cinco minutos de conversa sem ter ideia de com quem estava falando.
Tem umas coisas que a gente aprende a evitar após tempo demais errando.
Mas eu confiei em mim mesma e na minha capacidade de saber quem seria a pessoa famosa me ligando. Então mesmo que, de certa forma, aquilo fosse contra meus instintos, acabei passando meu número para Harry.
E aguardando.
Demorou quase uma semana para que algo acontecesse.
Eu estava novamente na Starbucks, perto da minha casa. E eu sei que você deve estar me achando a pessoa mais clichê do mundo e acho que a primeira coisa que você deve saber é que, sim, eu sou clichê. A segunda é que a internet da Starbucks era bem melhor que a minha, então às vezes eu decidia ficar trabalhando por lá mesmo. E tomando café o dia inteiro. O fato de Ben ser o gerente daquela loja em específico – ele não era famoso o bastante para viver apenas dos livros – era mais um ponto de atração.
Mas eu estava na Starbucks da esquina com meu caramelo macchiato venti e meu Macbook, tentando encontrar o maldito erro naquele código em que eu estava trabalhando há uma semana – o programa apontava erro na linha duzentos e cinquenta e oito, mas, até aquele momento, meu código tinha apenas cento e trinta e quatro linhas, então, sim, eu estava chorando – quando meu celular recebeu a chamada de um número desconhecido.
falando — atendi, pelo fone mesmo, sem precisar levar o celular ao ouvido. Seja lá quem inventou o fone de ouvido bluetooth, essa pessoa merecia o Nobel da Paz. Quer dizer, se até um presidente dos Estados Unidos ganhou um Nobel desses, talvez qualquer um consiga.
— Oi, . Aqui é o Tom Holland. Tudo bom?
Eu sei que eu passei uma parte de uma madrugada com esse cara, conversando, brincando e até mesmo fiquei com a jaqueta dele no fim das contas. Eu sei disso, mas, mesmo assim, quando ele me cumprimentou daquele jeito todo casual, no meu número pessoal, eu posso ou não ter surtado. E começado a balançar as mãos no meio do café de um jeito desesperado. E ter chamado a atenção de todos os clientes e dos outros baristas daquele café. Ben nem estava ali naquele momento, então eu só estava sendo meio louca.
— Tom! — eu ri de nervoso, após tentar me recompor e parar de balançar os braços feito um boneco de posto, então pedi a todos os deuses possíveis para que meu melhor amigo voltasse logo. — Quanto tempo!
— Bastante — ele parecia também rir do outro lado da linha, então chutei que eu não estava soando tão desesperada quanto me sentia. — O Harry disse que você mandou mensagem sobre minha blusa, né?
— Mandei. Você acabou esquecendo comigo e eu queria devolver. Ou vender no Ebay, se você preferir.
— Você teria coragem de vender a minha jaqueta preferida, ? — a voz de Tom soou tão, tão chateada que eu honestamente me senti mal. Eu nem sabia que aquela era a jaqueta preferida dele!
— Eu tô brincando! — me corrigi rapidamente. Eu iria escrever o Manual de como não conversar com uma pessoa famosa e iria vender milhares de cópias. Sério.
— Eu também — ele riu e meu queixo caiu. Ele tinha parecido tão chateado! Mas também… ator né. Ele sabia fingir bem. E eu era trouxa, claramente. — Mas eu ficaria muito feliz se você devolvesse, foi um presente, tem valor emocional.
— Claro, é isso mesmo que eu pretendo. A gente pode se encontrar e eu devolvo.
— Seria ótimo, mas no momento eu tô nos Estados Unidos pra uns trabalhos. Só volto daqui umas duas semanas.
Ser famoso deveria ser uma loucura.
O menino estava na maior casualidade conversando comigo, em outro continente. Provavelmente, em um hotel cinco estrelas com uma taça de champanhe, sentado em um trono com pessoas massageando seus pés, o abanando com folhas de bananeira e dando uvas em sua boca. Eu não sei como a fama funciona.
E eu ali, tentando encontrar o erro em um código que eu tinha refeito duas vezes, usando a internet da Starbucks porque era melhor que a minha.
— Bom… Eu posso deixar com alguém, se você preferir.
— Eu não ligo de esperar um pouco. Daí quando eu voltar pra Londres, a gente sai pra tomar um café — olhei a Starbucks ao meu redor e fiquei quieta. Sem piadinhas sobre isso, ! — E você me entrega a blusa. Tudo bem pra você?
— Só se você me prometer que o café não vai ser uma Starbucks — sorri e dei mais um gole em meu café. A ironia tinha gosto de caramelo macchiato com dose extra de expresso.
— Prometo — ele riu. — Salva meu número aí, a gente vai conversando por mensagem.
Depois que Ben chegou, cheio de sacolas e com expressão amarrada, surtei tudo o que precisava porque: um cara famoso tinha me ligado! E porque eu teria um quase encontro com ele dali duas semanas. Eu era oficialmente uma das personagens dos livros de Benjamin Collins.
Quase três semanas mais tarde, eu estava me arrumando para encontrar com Tom em um café que eu desconhecia, mas, segundo o Google, parecia ser totalmente incrível.
do céu, se você colocar essa blusa pra encontrar o Homem-Aranha, eu vou te agredir. Você vai aparecer com uma blusa do Flash e um olho roxo! — Lizzie, minha irmã mais velha e mais nova, entrou em meu quarto sendo a pessoa simpática que tinha sido sua vida inteira.
Eu morava com Lizzie há dois anos e a vida era boa, no geral. Como Ben tinha dito muito bem, eu tinha mais quatro irmãos, então crescer na minha casa tinha sido muito cheio. Ótimo, éramos uma família feliz, mas com pouco espaço. Sete pessoas é um número grande.
Quando Lizzie decidiu sair de casa, eu já tinha começado meus trabalhos com programação e acabei me convidando para morar com ela. Minha irmã não era rica, então claro que não negou a chance de dividir aluguel. E, claro, eu ainda joguei a carta de irmã mais velha. Mesmo que Lizzie fosse quatro anos mais velha que eu, eu tinha sido a primeira a ser adotada e iniciado o ciclo Angelina Jolie das minhas mães, então, de certa forma, eu ainda era a primogênita da família, mesmo que pela idade eu fosse a do meio.
E mesmo que morar com Lizzie, no geral, fosse fácil, às vezes ela ainda invadia meu quarto e se metia na minha vida.
— O que tem? O Flash é meu herói preferido!
— Ele é da DC — Lizzia já tinha invadido meu quarto e começado a revirar meu guarda roupa como se fosse dela. — Você vai encontrar o menino da Marvel. Tem que ter noção, irmãzona.
Ela jogou uma camisa genérica de banda em minha direção. Ao menos era uma das camisas que Declan, nosso irmão mais novo, tinha modificado em um dos surtos de “essa família não entende nada de moda e me faz passar vergonha quando saímos juntos!” Sendo justa com meu irmão, ele realmente tinha deixado a camisa muito melhor. Se ele quisesse, com certeza seria famoso no Pinterest ou no TikTok.
No horário combinado, fui para o café que Tom tinha indicado, em uma parte de Londres que eu não costumava ir. O outono já estava acabando, o tempo agradável o bastante para que eu usasse um moletom mais fino, o que anulava completamente a linda blusa que meu irmão tinha modificado e me deixava mais brava ainda com Lizzie por ter me obrigado a trocá-la. O local era um prédio pequeno, de no máximo cinco andares, provavelmente um daqueles com diversas lojinhas. A decoração exterior não era grandes coisas, mas a parte de dentro era bastante aconchegante. Especialmente o café.
Eu nunca tinha visto aquele lugar, provavelmente porque estava em uma parte de Londres que eu não conhecia muito bem, mas ele parecia aquelas coisas tiradas diretamente do Pinterest, que minha mãe amava colocar na pasta de arquitetura dela. Sorri para o primeiro atendente que vi, que sorriu de volta, simpático. Como eu não conseguia ver Tom em lugar nenhum, me sentei a uma das mesinhas e mandei uma mensagem para ele, avisando que já tinha chegado, ao que ele respondeu dizendo que logo chegaria e eu podia já ir fazendo o pedido.
Demorou mais ou menos quinze minutos para que Tom chegasse ao local – meu pedido ainda não tinha chegado e eu já estava julgando o serviço -, usando uns óculos escuros – não estava sol – e sem blusa de frio – estava ventando. Eu oficialmente julgava as escolhas de vida daquele rapaz. Ele sorriu para mim e foi até o caixa, falando algo rapidamente com a atendente, que estava completamente vermelha, coitada.
— Vamos? — ele perguntou, assim que se aproximou da minha mesa.
Eu pisquei.
— Quê?
— Vamos — ele riu e balançou a cabeça daquele jeito, como se me convidasse a segui-lo.
O que eu particularmente não achava uma ideia tão boa assim, visto que eu ainda nem tinha recebido meu café e meu bolo, mas acabei o seguindo de qualquer jeito, saindo da loja e sendo levada para uma porta no final do corredor. Olhei para trás, vendo a atendente sorrir como se eu não estivesse saindo sem nem receber o pedido ou pagar. Enquanto subíamos as escadas, eu cogitei a possibilidade daquele cara ser na verdade um psicopata e eu acabar me tornando apenas estatística. E ser estatística era um dos meus maiores medos.
Mas, após finalmente alcançar uma porta e abrir, eu entendi o que Tom estava fazendo.
Nós estávamos no telhado daquele prédio. Era um pouco parecido com todos os telhados do mundo, inclusive aquele no qual tínhamos ficado presos quando nos conhecemos. A diferença era que tinha uma mesinha exatamente igual à do café, com apenas duas cadeiras. Eu não precisava ser nenhuma gênia para entender exatamente o que tinha acontecido.
— Você tá brincando — eu disse, enquanto via Tom ir até a mesinha e se sentar em uma das cadeiras, apontando para a outra, convidativo. Ainda com o queixo caído, fui até a cadeira e me sentei de frente para o rapaz. — Você não fez isso.
— Foi ideia do meu irmão — Tom balançou os ombros e eu nem perguntei de qual. — Ele achou que seria engraçado porque… Né.
— Espera. Tom, a porta…
— Ela abre por fora, relaxa — ele riu. — Além disso, o pessoal do café sabe que estamos aqui. Daqui a pouco, eles vão trazer nossos pedidos.
— Eu… Não sei o que dizer — porque aquilo, definitivamente, não era algo que eu esperava.
Primeiro, porque tinha sido completamente fofo, não engraçado, como Tom tinha falado. Eu realmente achei que apenas iríamos nos sentar, beber um café, eu entregaria a jaqueta dele e era isso. Nunca mais nos falaríamos porque ele era famoso e tinha muita vida acontecendo o tempo todo. Segundo, porque eu estava simplesmente morrendo de vergonha.
— Não precisa dizer — os ombros dele balançaram. — Só achei que em um telhado você se sentiria mais à vontade.
— É meu habitat natural, de fato — fiquei séria por muito pouco tempo, já começando a rir em seguida. — Mas agora você definiu um padrão, Tom. Todos os nossos futuros encontros terão que acontecer em um telhado.
Eu me arrependi no exato momento em que as palavras escaparam da minha boca.
Eu não conseguia acreditar que tinha usado a palavra encontro para me referir ao que estava acontecendo ali, nem que eu tinha sugerido que aconteceria novamente no futuro. Mais de uma vez. Eu precisava trabalhar urgente no filtro entre minha cabeça e minha boca. Aposto que, se eu procurasse com afinco o bastante, conseguiria encontrar um coach que me ajudaria com essa questão.
Com certeza, eu passaria menos vergonha contratando um coach do que falando merda na frente de meros conhecidos.
— Eu achei um padrão alto e difícil, mas eu não fujo de desafios — Tom riu e eu surtei internamente sobre como ele não tinha negado minha fala. Eu tinha tanta coisa para contar ao Ben, ele com certeza iria usar aquilo em algum livro futuro. — Além disso, aposto que meus irmãos conseguem dar ideias, eles são bastante criativos.
— Os meus também, aposto que eles iam amar se meter nisso.
Um dos atendentes chegou com uma bandeja e nossos pedidos. Colocou meu café e meu enorme pedaço de bolo de chocolate – eu tinha pedido para cortar um pedaço um pouco maior que o normal, mesmo que me cobrassem a mais – na minha frente, e apenas um chá na frente de Tom. Gente fitness é um negócio que eu nunca vou entender.
— Você vai passar fome — eu disse, olhando para o chá. Julgando.
— Eu preciso deixar espaço para sair mais a noite com o pessoal — Tom deu um gole em seu chá, fazendo um careta incomodada enquanto eu ria. Eu conhecia muito bem a expressão de quem tinha acabado de queimar a língua.
— Não sei como uma coisa interfere na outra — ri antes de dar uma enorme garfada em meu bolo.
Se tinha uma coisa que eu tinha sido ensinada desde pequena, era que eu nunca deveria ter vergonha de quem eu sou. Isso era muito importante em uma família de duas lésbicas, com cinco crianças adotadas, nenhuma delas sendo branca. Minha família tinha me criado me ensinando a ter orgulho de quem eu era, do meu corpo, da minha cor. E eu vestia esse manto com toda força porque, meu deus, como era difícil ter orgulho de tudo isso em uma sociedade racista, machista e gordofóbica.
Então não importava se Tom iria pensar que eu era esganada por ter pedido um pedaço de bolo tão gigante, eu ia comer tudo aquilo porque eu amava bolo.
— Fala isso pras pessoas que detém o direito do meu corpo — o tom brincalhão dele não me convenceu.
Ouch. Aquilo tinha doído. Era triste pensar que às vezes pessoas famosas não tinham muito controle sobre a própria vida.
— Isso foi triste, Tom. Aqui — eu peguei uma garfada generosa do meu bolo e estendi para ele. — Prova um pedaço de felicidade. Eu não conto pra ninguém se você não contar.
Em vez de pegar o garfo da minha mão e comer o bolo, como eu realmente esperava que acontecesse, Tom se curvou um pouco sobre a mesa e fechou os lábios sobre o garfo que eu ainda segurava, pegando o pedaço que eu oferecia.
No fundo da minha cabeça, dentro do meu coração, eu ouvi Ben gritar feito louco.
Mas eu mesma tentei ao máximo agir normalmente e fingir que aquela cena não tinha sido fofa demais e eu estava morrendo de vergonha e quase me iludindo porque tudo naquele dia estava completamente ridículo e tirado de um livro clichê de romance. Por isso recolhi o garfo e, como quem não quer nada, fingi que aquilo tinha sido totalmente normal.
— Eu amo tanto chocolate — Tom soltou um suspiro de prazer e minha mente não foi para onde não deveria. Confia. — Fazia tanto tempo que eu não comia… Um pedaço não faz mal, né?
— Um pedaço faz bem. Até porque você vai precisar ter energia se ainda vai sair a noite, glicose é ótimo pra isso.
— Nem me fala — ele voltou a beber o chá. — Aliás, sabe quem vai estar lá? A ex.
Oh — eu soltei, um pouco chocada. Eu tinha esquecido completamente da existência da ex e como aquilo tinha sido uma piada quando nos conhecemos. — Então não tem nem o risco de ligar, você pode só chamar pro canto e…
— É — ele riu alto e eu me achei meio burra, mas acabei rindo também. — Mas a gente conversou um pouco, pra falar a verdade. E vamos ver aí onde vai parar.
Eu era burra e o livro de Ben estava oficialmente morto.
Honestamente, eu não sei o que eu esperava que fosse acontecer. Quer dizer, tinha acontecido muita coisa que qualquer pessoa minimamente romântica enxergaria através de lentes rosas, mas Tom claramente não era uma dessas pessoas. E eu precisava urgentemente me livrar das lentes rosas.
— Depois você me conta se der em algo.
— Sim, eu te arrasto pra um novo telhado e choro pela ex. Vai virar a nossa coisa.
Eu pisquei algumas vezes e enchi minha boca de bolo para não gritar ali, na cara dele. Homem branco era mesmo essa desgraça de nunca perceber as merdas que fala.
No fim, conversamos por mais alguns bons minutos, mas a noite estava começando a cair e ele ainda precisava sair com os amigos, então decidimos que era hora de ir embora. Ele insistiu em pagar minha conta e eu nem cogitei recusar porque ele era rico pra caralho e eu nunca fui burra – trouxa, sim, mas burra nunca, tirando aqueles minutos um pouco mais cedo. Enfim. Torci para que ele tivesse deixado uma gorjeta muito generosa para todos os atendentes, mas não tentei descobrir o quanto.
— Obrigada pelo café. E pelo bolo — sorri quando paramos na porta do prédio, aquele momento estranho em que você se despede da pessoa e cada uma vai pra um lado.
E que, por favor, não fôssemos para o mesmo lado porque seria constrangedor.
— De nada. A gente pode marcar de sair de novo qualquer dia desses, se você quiser.
— Eu adoria. Vai que até lá você consegue me apresentar a ex como atual de novo? — minha risada soou mais sincera do que eu esperava, o que me deixou realmente feliz.
— Veremos — Tom se inclinou em minha direção e me deu um rápido abraço de despedida. — Até qualquer dia, .
— Até — sorri enquanto via ele se afastar para o lado oposto ao que eu precisava ir. Vitória.
Andei apenas dois passos antes de perceber que a jaqueta dele, o motivo real pelo qual tínhamos marcado aquele encontro, ainda estava nos meus braços. Me virei e o vi quase na esquina. Xingando mentalmente, gritei o nome dele e saí correndo pela rua, sentindo quase imediatamente os efeitos do sedentarismo queimando meus músculos. Mas ele ouviu meu grito e parou logo, esperando que eu o alcançasse.
— Você quase esqueceu — falei, meio ofegante, estendendo a jaqueta pra ele.
— Verdade — ele a pegou e riu, vestindo-a rapidamente. — Obrigado por não vender no Ebay.
— Vai te custar me convidar pra passear mais vezes.
Win-win — ele balançou os ombros.
Nos despedimos novamente, dessa vez definitivo, e fomos no famoso clichê de cada um para um lado. E enquanto eu caminhava, pensei que o livro de romance baseado na minha vida do Ben nunca aconteceria. Mas também, eu não era a personagem principal de nenhum romance, então era o esperado.
E estava tudo bem porque eu não queria realmente um romance. É claro que aquela tarde tinha sido um perfeito clichê e qualquer que visse por lentes rosas esperaria as famosas fagulhas. Eu mesma tinha esperado, de certa forma. Mas, no fim, tinha sido normal e amigável.
Como aquela primeira vez no telhado.
E mesmo que eu nunca vivesse o romance dos livros do Ben, talvez eu vivesse uma grande amizade. E, para mim, aquilo era a melhor coisa que minha quase morte no telhado poderia ter rendido.

FIM