Up View

Sinopse: Por mais que eu amasse festas, sempre existia um momento em que eu cansava e precisa ir para um canto sozinha, apenas para respirar um pouco.
Não seria diferente naquela festa.
Mas as coisas nunca eram realmente simples e eu sempre tinha que contar com minha incrível capacidade de ser burra.
E também com a capacidade dele.
Gênero: Romance
Classificação: Livre
Restrição: Tom Holland fixo
Betas: Thomasin e/ou Natasha Romanoff
Status: Shortfic


Eu gostava de ir a festas. De todos os tipos. Balada, casamento, aniversário, noivado, comemoração, de criança, chá de bebê. Absolutamente qualquer tipo de festa me animava. Mas, mesmo assim, por mais festeira que eu fosse, sempre existia o momento em que eu simplesmente enjoava.
Era o famoso momento em que as pessoas achavam que eu estava triste, solitária, me sentindo mal, porque eu ia para o canto mais afastado e vazio da festa inteira. Todos que passavam me olhavam daquele jeito. Mas a verdade é que a única coisa que eu precisava era de um tempo para respirar um ar um pouco mais puro e colocar minhas próprias ideias no lugar. Eram dez, vinte minutos sozinha que recarregavam minha energia e me permitiam voltar para a festa para dançar, beber ou comer mais. O que estivesse à disposição.
Naquela festa não seria diferente.
Eu tinha ido para me encontrar com um amigo e dançar pela madrugada inteira, mas fui trocada nos primeiros trinta minutos quando ele encontrou um cara que estava disposto a levá-lo para casa e deixar a noite bem mais íntima. Em defesa do meu amigo, o cara era realmente muito bonito, então tudo bem.
Naquele momento, eu pensei em simplesmente ir embora porque… ficar sozinha em balada? Não é a coisa mais divertida do mundo. Mas eu tinha pagado trinta libras para entrar naquele maldito local de luxo, em um maldito prédio no centro de Londres, não podia apenas voltar para casa e deixar meu dinheiro desperdiçado daquela maneira.
Então eu decidi que, mesmo sozinha, no máximo com um pouco mais de álcool do que o planejado, eu iria me divertir naquele local e aproveitar ao máximo aquela noite. Era o que meu amigo faria com o outro cara, não era?
Foi divertido por várias e várias horas. Existe uma coisa muito interessante sobre o álcool que é como ele consegue desinibir mais as pessoas. Era fácil para mim sair falando com todo mundo, rindo com pessoas que eu sequer lembrava o nome, dançar com completos desconhecidos. E eu me divertia. Conhecer pessoas novas era realmente legal.
Mas claro que, no meio da madrugada, eu precisei do meu tempo de respiro. Pedi licença a todas as pessoas desconhecidas com as quais estava conversando e fui até uma porta nos fundos, que julguei se tratar da porta para área de fumantes. Abri-a e vi uma escada, o que até fazia algum sentido. O local era em prédio, talvez o fumódromo fosse no telhado.
E, quando cheguei ao fim das escadas e abri mais uma porta, percebi que havia acertado e errado. Era, de fato, no telhado. Mas não parecia em nada com uma área de fumantes. Parecia apenas um… telhado.
Enquanto a porta batia alto atrás de mim, caminhei um pouco por ali. Tudo parecia uma enorme construção, com caixas d’água e caixas de concreto e painéis e cinza. As únicas iluminações eram a luz da lua e as luzes da própria cidade, que refletiam pelo horizonte. Londres era uma ótima vista e, enquanto eu caminhava até a borda, tomei um tempo para admirar o quanto eu gostava da minha cidade natal.
Eu sei que é clichê, mas ali de cima, parada na borda, eu conseguia perceber um pouco mais o quanto nós somos pequenos. O mundo sempre acontecendo o tempo todo, não nos esperando ou sequer se importando com a maneira que levamos nossas vidas.
Ali estava um ótimo pensamento, mas o vento estava realmente gelado e eu não tinha levado minha blusa de frio para lá, então o melhor era voltar para dentro logo e encontrar alguma outra parte calma na própria festa. Ou encontrar o verdadeiro fumódromo.
Mas, assim que cheguei na porta, percebi um pequeno, bobo, problema: aquela era uma daquelas portas que abriam apenas por dentro. E eu tinha deixado ela fechar.
Enquanto meu coração acelerava e eu tentava puxar a maçaneta com toda minha força, apenas dois pensamentos brincavam em minha mente: um, eu tinha deixado meu celular dentro da bolsa, no guarda volumes. Dois, eu ia morrer naquele maldito telhado.
A maldita porta não cedia, não importava a força que eu colocasse, o esforço que eu fizesse. Ela estava totalmente travada por dentro e eu estava fora. Sozinha. Sem nenhuma maneira de me comunicar.
Não sei quanto tempo demorou para que eu desistisse de tentar abrir a porta, mas sei que minhas mãos estavam doendo muito e talvez eu estivesse chorando. Quer dizer, eu podia chorar, certo? Eu ia morrer naquele maldito telhado.
Sozinha.
Com frio.
Que morte ridícula.
Se eu soubesse que morreria assim, teria feito minha melhor amiga prometer que contaria uma história melhor. Heróica. Morreu tentando salvar uma mulher de um assalto. Morreu impedindo uma criança de atravessar na frente de um caminhão. Morreu tentando resgatar um gatinho preso nas ferragens de qualquer coisa que possua ferragens.
Mas não. Eu ia morrer de fome e sede em um telhado, sozinha, com frio. Talvez não desse tempo de morrer de sede, talvez eu morresse de hipotermia antes. Tudo era provável. E eu não estava sendo dramática, apenas realista. Ninguém sabia que eu estava ali em cima. Não tinha como avisar ninguém da minha situação. Eu só seria salva quando alguém desse falta de mim. E até pensarem em subir no telhado, eu já estaria morta.
Caminhei até a borda do prédio e me sentei, os pés balançando de um jeito quase que infantil, as lágrimas rolando e deixando meu rosto ainda mais gelado. Me imaginei saindo dali, sendo salva de alguma maneira milagrosa. Talvez se o Super-Homem me segurasse enquanto eu caía ou eu milagrosamente ganhasse super poderes e aprendesse a voar. Qualquer coisa que me desse só um pouco de esperança.
Em meus devaneios, ouvi a porta abrir e fechar novamente, como se estivesse fazendo questão de lembrar meu maior erro. Era engraçado que o universo quisesse jogar na minha cara o quão idiota eu podia ser. O quanto minha morte era minha própria culpa.
— Tem certeza que aí é um lugar seguro para ficar? — uma voz que eu não conhecia soou atrás de mim.
E aí estava a parte interessante. Era uma segunda voz! Alguém que poderia me ajudar, me tirar dali, me levar de volta para a festa. Eu não iria morrer!
Me virei rapidamente, vendo um rapaz de estatura mediana, jaqueta de couro preta e jeans escuro. Ele segurava uma long neck em uma mão e a outra estava no bolso do jeans. O cabelo dele mexia levemente com o vento, e talvez fosse a emoção em saber que aquele rapaz iria salvar minha vida, mas eu precisava levar em consideração que ele era realmente bonito.
Finalmente, me levantei, sorrindo e sentindo as lágrimas ainda escorrerem, mas dessa vez de felicidade. Caminhei rapidamente até ele, ignorando como parecia que o frio apenas aumentava, louca para voltar para o quente do local e para meus planos de vida.
— Você ‘tá chorando? — ele me perguntou, quando cheguei perto o bastante, a feição assustada.
E eu ia responder, falar sobre minha emoção e como ele era oficialmente meu herói, mas cometi o erro de olhar na direção da porta. E o que vi foi ela novamente fechada. Exatamente como eu havia feito.
— Não! — gritei, e desviei do rapaz, correndo até a porta e mexendo na maçaneta apenas para ter o mesmo resultado de minhas tentativas anteriores: nada acontecia. — Não, isso não pode ser real!
Fechei as mãos em punho e bati na porta três vezes, sentindo uma vontade maluca de gritar. Parecia que existia alguém acompanhando tudo aquilo e fazendo as coisas mais improváveis apenas para rir da minha desgraça. Eu me sentia uma maldita criança de quem haviam acabado de arrancar um delicioso pirulito.
— Moça? — o rapaz me olhava de longe, enquanto eu me afastava novamente da porta.
Dessa vez, não fui para a borda do telhado. Caminhei até uma das caixas d’água e me sentei, apoiando as costas contra a estrutura e suspirando profundamente. O niilismo em mim já aceitava minha morte, que na verdade seria apenas uma não existência. Todos éramos condicionados a isso, no fim. Nossa vida era repleta apenas de dor e sofrimento e, pensando bem, a morte era uma dádiva que nós precisávamos aprender a apreciar.
— … Moça? — o rapaz repetiu.
— A porta só abre por dentro — eu torci para não ter soado tão mórbida quanto me sentia.
Ah — o rapaz falou.
Apenas isso. Apenas “ah“.
Como se eu não tivesse acabado de anunciar nossa morte. Como se existisse qualquer esperança de sairmos dali com vida. Como se magicamente alguém fosse lembrar de nossa existência e nos resgatar do momento em que beijaríamos os frios e secos lábios da morte.
— Vou avisar meus amigos — ele disse, simplesmente, antes de tirar o celular do bolso, apoiar a long neck no chão e digitar rapidamente. — Pronto, avisei que estamos presos aqui.
Ah.
Certo, então, diferente de mim, ele não era um completo idiota. Quem diria.
Engoli o choro e tentei sorrir, me levantando e batendo a poeira da calça. Àquela altura, provavelmente, já não importava; eu era feita de pó de construção, lágrimas e humilhação pública. Mesmo que o público em questão fosse uma única pessoa.
— Eles vão nos tirar daqui, então? — minha voz já soava mais firme, menos desesperada. Agora eu sabia que o mundo era um lugar brilhante, amoroso e feito de unicórnios e arco-íris. Eu iria viver, tudo ficaria bem.
— Vão — ele balançou a cabeça, franzindo a sobrancelha logo em seguida. — Não agora, mas vão.
Voltando à hipotermia…
Infelizmente, eu tinha me levantado, então precisei me sentar novamente, exatamente no mesmo lugar. Por isso eu sabia que estava tão suja de pó. Aquele senta-levanta-senta não fazia bem para nenhum tipo de tecido limpo. Só que era difícil não realizar esse maldito ritual porque cada vez que uma nova esperança era colocada em minha frente, ela era cruelmente tirada logo em seguida.
— A gente deixa todos os celulares guardados quando vamos pra festas pra evitar… O que eu estava prestes a fazer. Então vai demorar um pouco pra eles verem a mensagem — mesmo sem ser convidado, o rapaz caminhou em minha direção e se sentou ao meu lado.
Agora que ele estava perto, eu via que ele talvez nem fosse tão bonito. Além disso, conseguindo enxergar melhor seu rosto, eu tinha a estranha sensação de que eu já havia o visto em algum lugar. Deixei meu olhar se prender na mão dele, que ainda segurava o celular, voltando a encará-lo em seguida.
— Ia ligar pra crush? — fui o mais simpática que conseguia. Pelo tempo que demorasse, aquele garoto ainda era meu passe livre daquele lugar.
— Pior. Pra ex — ele riu da careta que eu fiz. — Nós ainda somos amigos. Sabe como é.
— Sei — eu não sabia. Se tem uma coisa que eu nunca fiz foi manter contato com ex. — E o que você ia falar pra ela? O quanto você fica feliz por vocês ainda serem amigos? — meu tom era divertido e brincalhão. O rapaz sorriu, então soube que ele não me interpretou mal.
— Algo assim. Ou… — ele riu alto. — Ou talvez que eu sinto falta dela e queria mais uma chance.
Coitado. Sofrer por ex é muito o fim da vida.
— Parece que esse telhado acabou estragando a sua noite.
— Você ouviu a parte que eu disse que ia voltar com a ex? Esse telhado, na verdade, salvou a minha noite!
Nós dois rimos e em seguida ficamos em silêncio. Eu e o garoto, que eu não conhecia, mas que tinha o rosto familiar, fazendo piada e rindo como se aquela situação não fosse completamente ridícula e irreal.
— A ex ia voltar com você? — eu, como era incapaz de segurar a língua dentro da boca, acabei soltando após um tempo.
— Provavelmente, não — ele balançou os ombros. — Eu só fui salvo da humilhação.
Silêncio.
Eu ia ficar presa naquele telhado sabe-se lá por quantas horas e tudo o que eu tinha falado com a pessoa que ficaria presa comigo era sobre a ex dele. Quer dizer, quebrar o gelo e conhecer uma pessoa nova? Claramente eu era expert nisso. Por isso estava na festa com todos os meus zero amigos.
— E você? — o rapaz era obviamente melhor que eu nisso. — Também veio se humilhar para o ex?
Nah — mexi a mão, desdenhando de mim mesma. — Só vim respirar um pouco. Achei que aqui fosse o fumódromo.
— Eu também achei — ele franziu as sobrancelhas. — Você queria respirar no fumódromo?
— Eu não faço boas escolhas de vida — balancei os ombros e ele riu. Acabei abrindo um pequeno sorriso e estendendo a mão. — .
— Tom — ele me cumprimentou. — Então… por que você estava chorando?
E tinha aquilo.
Aquela pergunta era provavelmente um tanto invasiva, mas eu precisava levar em consideração que um, Tom estava salvando minha vida e, dois, eu iria ficar algumas horas ali em cima com ele, não tinha muito o que fazer além de conversar. Então eu deixaria passar e seguiria com a conversa fiada.
— Eu estava presa aqui. Deixei o celular lá embaixo, então…
— Você ia morrer aqui! — o queixo dele caiu e eu fiquei um pouco feliz que ele entendesse a gravidade daquela situação. Eu ia morrer! — Espera… Isso significa que eu salvei a sua vida?
Bom, tinha a hipotermia ainda, não precisávamos nos precipitar nessa coisa de vida salva. Eu ainda poderia morrer a qualquer momento.
— Eu estava esperando ser salva pelo Super-Homem e fui salva pelo-
— Homem-Aranha — ele me cortou e riu, e eu franzi a sobrancelha.
Hã?
Mas, cinco segundos depois, meu queixo caiu quando eu finalmente entendi. Por isso o rosto dele era conhecido! Ele era o Homem-Aranha novo! O terceiro? Quarto? Sei lá, eles não cansavam de dar reboot naquele maldito herói. Era um pouco chato, mas, ei, não é todo dia que você fica preso em um telhado com uma pessoa famosa.
— Por isso eu tive a impressão de que te conhecia! Achei que fosse só porque você é branco e gente branca é tudo igual — exclamei, e apontei o indicador em sua direção, me arrependendo em seguida. Provavelmente, aquela reação não estava bem classificada no manual de como conversar com uma pessoa famosa.
— E você com certeza não é uma fã — ele riu de um jeito simpático. Será que ele era legal assim mesmo ou só tinha que fingir para manter a imagem de… Homem-Aranha?
— Não é isso, é só que eu enjoei lá pelo décimo quinto, décimo sexto filme.
— Que exagero, foram só treze filmes — ele entrou na brincadeira e eu fiquei realmente feliz que ele estivesse se esforçando.
— É a sensação geral — balancei a cabeça e senti a brisa fria cortar minha pele, me obrigando a me abraçar, o que era um pouco triste de ver.
— Quer minha jaqueta? — Tom ofereceu, enquanto já começava a tirá-la, estendendo para mim.
— Não precisa — neguei, balançando a mão e voltando a me abraçar.
Óbvio que eu queria a jaqueta, eu estava morrendo de frio. Mas eu não queria aquele clichê idiota do cara que empresta a jaqueta pra garota porque ia me fazer pensar naqueles posts idiotas e mentirosos do Tumblr e aquilo era incômodo. Sem contar que aquela jaqueta com certeza não ia servir em mim.
— Você claramente está com frio — Tom atestou o óbvio.
— E se eu pegar a jaqueta, quem vai ficar com frio é você. Eu pelo menos tenho essa camada de gordura pra me proteger por mais tempo.
Tom apenas revirou os olhos e jogou a jaqueta por cima de mim, como se fosse um cobertor. Como eu bem tinha imaginado, o zíper com certeza não fecharia. Mas a jaqueta estava super quentinha e eu não iria continuar reclamando.
Claro que agora tinha a possibilidade do Tom morrer de hipotermia, o que provavelmente seria algo bem ruim, já que, diferente de mim, ele era alguém. Será que, se ele morresse, eu seria culpada de homicídio? Não duvidaria se acontecesse, a vida estava me provando que adorava acontecer como se fosse uma montanha russa, e não era uma das divertidas, que eu pagava um bom dinheiro para conhecer quando alguém me levava na Disney. De Paris, que era mais perto. Eu nunca tinha ido pros Estados Unidos.
Encarei a long neck que Tom tinha levado ali para cima e agora estava totalmente abandonada a alguns metros de onde estávamos sentados. Depois virei a cabeça para a direita e encarei Tom. Ele estava olhando para o céu, o vento ainda balançando um pouco o cabelo dele. E então ele se virou para mim e sorriu.
Naquele exato momento, meu cérebro parou completamente de funcionar. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo ali. Uma hora eu olhava para aquele garoto e pensava certo, ele até que é bonito. Outra hora eu olhava e pensava ok, ele não é bonito, só é branco. E agora ele simplesmente parecia uma das pessoas mais bonitas que eu já tinha visto?
Não. Fazia. Sentido.
— Você ‘tá com frio, não tá? — eu falei, em toda minha genialidade. Era incrível como eu era simplesmente horrível tentando me expressar.
— Não, eu ‘tô tranquilo — ele ainda sorria, ainda com o rosto virado em direção, ainda com a cabeça apoiada contra a caixa d’água. Ridiculamente bonito e clichê.
— Falso — comecei a tirar a jaqueta, já sofrendo por antecipação pelo frio que sentiria, mas a mão de Tom cobriu meu braço, me impedindo de continuar.
— Será que você pode, por favor, me deixar ser legal com você, ?
— Você não precisa morrer de frio pra ser legal, Tom. Se você morre de hipotermia — totalmente possível acontecer, eu sabia disso. —, seu empresário me processa. Eu não tenho como pagar um advogado.
Tom revirou os olhos e se arrastou para mais perto de mim, perto o bastante para que nossos braços ficassem colados. Então pegou a própria jaqueta e puxou um pouco. Agora metade de mim e metade dele estavam cobertos pela jaqueta de couro. E eu tinha que admitir que tinha sida uma ideia inteligente. Tirando o fato de que eu estava prestes a explodir de tanta vergonha por causa daquela proximidade repentina.
— Pronto, agora ninguém morre de hipotermia. Mais feliz? — eu conseguia sentir a respiração dele enquanto ele falava. E ele tinha cheiro de cerveja.
— Se eu não for processada… — ri e olhei para frente porque eu não ia cair na armadilha de olhar para o lado e nossos rostos estarem quase colados quando ele tinha me falado há meia hora que queria voltar com a ex.
Eu não era triste a esse nível.
— Você já pensou sobre o significado da vida? — eu perguntei, e, ok, eu era esse nível de triste.
Tom começou a rir. Realmente gargalhar. Eu queria muito pensar que poderíamos estar rindo juntos naquele momento, mas era bastante óbvio que ele estava rindo de mim e eu não conseguia rir de mim mesma em momentos como aquele. Quando eu fazia uma piada auto depreciativa? Ótimo, vamos rir por horas. Quando eu tentava ser inteligente e soava estúpida? Um pouco mais difícil.
— Você estava pensando no significado da vida enquanto achava que ia morrer? — ele ainda ria e eu ainda me sentia humilhada.
— Não, tava pensando em ligar pro ex e me humilhar um pouco — balancei os ombros e, dessa vez, munida apenas de sarcasmo e desejo de vingança, virei o rosto novamente na direção de Tom.
Ele estava tão perto quanto eu imaginei que estaria, mas o momento não parecia fofo ou clichê. Tom parecia chocado com minha audácia e eu, no meu auge da quinta série, me sentia vitoriosa, então só conseguia sorrir irônica.
— Golpe baixo, — ele se deu por vencido e também riu. — Eu só bebi mais do que deveria.
— E sentiu falta da ex, pensou no remember…
— Vamos mudar de assunto? — ele desviou o olhar, então fiz o mesmo.
E, novamente, ficamos em silêncio. Porque… mudar o assunto? A gente não tinha assunto, o que ficou muito perceptível quando, quinze ou vinte minutos depois, ainda estávamos sentados exatamente da mesma maneira, em completo silêncio, esperando que alguma coisa acontecesse. Sei lá, já deveria estar perto de amanhecer, não era possível que os amigos de Tom ainda não tivessem visto a mensagem.
? — Tom me chamou após tanto tempo que eu quase tinha esquecido como era sua voz. Ok, exagerei, mas o sentimento era tipo isso mesmo. — Quer brincar?
Franzi as sobrancelhas e encarei Tom. Se deus quisesse, ele não estava falando em um sentido sexual. Quer dizer, não sei exatamente o que mais ele poderia estar querendo dizer, mas juro que se ele estivesse sugerindo transar pra passar o tempo…
— Como assim? — eu sabia que meu tom era acusador, mas não tinha como não ser. Era automático que minha mente sempre fosse para o ponto mais bizarro em qualquer situação.
— Vamos ver quem derruba a garrafa de long neck primeiro! — ele riu e levantou, fazendo a metade dele da jaqueta cair no chão e sujar de pó.
Levantei também, segurando a jaqueta contra meu corpo e seguindo Tom. Ele pegou a garrafa de long neck e jogou o pouco de cerveja que ainda tinha no chão, em seguida caminhou até uma das caixas de concreto e apoiou a garrafa lá. Depois, no caminho de volta, saiu pegando várias pedras, me estendendo algumas.
— Quem derrubar a garrafa primeiro vence — ele sorriu, antes de jogar uma pedra e acertar exatamente o centro da garrafa, mas ela sequer se mexeu.
— E qual é o prêmio? — eu também ri, jogando a pedra e acertando a parte de cima da garrafa, que novamente nem se mexeu.
— Até o final a gente inventa alguma coisa — mais uma pedra e nada da garrafa se mexer.
Não era fácil jogar as pedras enquanto segurava a jaqueta, então acabei me dando por vencida e colocando o blusa, deixando-a aberta e conseguindo melhorar consideravelmente minha pontaria.
Tom e eu ficamos jogando pedras por tempo demais, mas elas eram muito pequenas para provocar qualquer reação na garrafa, que parecia muito longe de cair. Mesmo assim, era divertido, nós riamos e fazíamos piada sempre que alguém errava. Parecia que aquela brincadeira estava durando horas e horas, até ouvirmos o barulho da porta novamente. Eu e Tom viramos exatamente ao mesmo tempo, vendo dois rapazes, um deles segurando a porta, acenando para nós.
Jogamos as pedras no chão e esquecemos totalmente da existência da garrafa. Me segurei para não fazer o mesmo que havia feito quando Tom apareceu a primeira vez e correr em desespero. Caminhei calmamente até os amigos de Tom, meu coração cheio de alegria por finalmente sair daquele local.
— Como você veio parar aqui? — um dos rapazes, um loiro, abraçou Tom enquanto ria.
— Ele ia voltar com a ex — balancei os ombros e ri, vendo Tom soltar o amigo e estreitar os olhos para mim.
— Aliás, essa é a . Já estava aqui quando eu cheguei — ele riu. — , esse é o Haz, meu melhor amigo, e aquele segurando a porta é o Harry, meu irmão.
— Prazer — balancei a mão e vi os dois retribuindo o aceno. — Obrigada por nos salvarem.
— Desculpa a demora, só vi a mensagem do Tom agora — Haz, o loiro, balançou os ombros como se dissesse “foi mal”.
— Pelo menos a gente vai sair daqui, é o que importa — e, honestamente, era literalmente a única coisa que importava naquele momento.
Eu ia viver.
Nós quatro finalmente saímos daquele telhado e, enquanto descíamos as escadas e o barulho da porta batendo ecoava, eu suspirei de alívio de saber que eu estava voltando para a festa – que honestamente já deveria estar acabando a essas horas – e iria para a minha casa. Deitar em minha cama. Viva. Era o melhor cenário que eu poderia ter pedido naquela situação.
— Aliás, Tom — Harry falou, enquanto a gente entrava no local da festa e, como eu tinha imaginado, não tinha quase mais ninguém no local. — A gente meio que já estava indo embora quando o Haz viu a mensagem e pediu pra voltar, então o Tuwaine está esperando na esquina com o carro. A conta ‘tá fechada.
— Beleza, podem ir na frente, daqui a pouco já vou — Tom fez um sinal para os dois, que apenas se entreolharam, acenaram para mim e saíram. Tom então se virou para mim, sorrindo. — Não foi exatamente a noite que eu esperava, mas até que foi divertido.
— Você salvou minha vida, Tom. Pra mim, foi completamente perfeito — eu falei, e ri.
— Então… A gente se vê por aí? — ele cruzou os braços, parecendo totalmente sem graça. E eu não tinha achado fofo, nada fofo. Imagina.
— Em um telhado qualquer — ri e me despedi dele com um abraço.
Enquanto Tom saía do local, suspirei. Eu nunca mais iria ver aquele menino na minha vida. Quer dizer, provavelmente iria vê-lo nas telas do cinema, mas daí era uma coisa completamente diferente. Era um pouco triste porque eu tinha gostado dele, ele era divertido. Mas conhecer pessoas em festas sempre tinha sido exatamente aquilo: uma noite de muita diversão do lado da pessoa, uma despedida cheia de promessas e depois? Nunca mais.
Caminhei até a chapelaria e finalmente peguei minha bolsa e minha blusa de frio, pronta para pagar a conta e finalmente voltar para minha casa. Apenas quando fui colocar minha blusa que percebi que ainda estava usando a jaqueta de Tom. Paguei a conta o mais rápido que consegui e saí correndo do local, mas quando cheguei do lado de fora, não tinha nenhum carro parado na esquina. Eles já tinham ido embora.
Suspirei e apoiei as costas contra a parede, pegando meu celular e chamando um Uber para poder voltar para casa. Durante minha espera, coloquei as mãos nos bolsos da jaqueta de Tom, encontrando-os vazios. Agora eu precisava tomar uma decisão. Aquela jaqueta se tornaria ou uma memória ou uma desculpa. Apenas o tempo poderia dizer.

FIM

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