Does He Know?

Sinopse: ” ― Nem eu acredito… Ela vai se casar mesmo. E eles ainda te convidaram.
― Lê de novo o convite. Eles não só me convidaram; eu vou ser padrinho.
― Porra! E o quê você vai fazer?
― Não sei, cara, não sei! Pensei em fugir do país, mudar de nome, sei lá. Só não queria ter que lidar com isso e saber que foi culpa minha.”
Gênero: Romance
Classificação: 18 anos.
Restrição: Sem restrições.
Beta: Alex Russo.


Taehyung.
Londres. 23 de julho de 2020.

 

O apartamento estava escuro e silencioso. Tudo que se ouvia era o som das cortinas batendo na janela com o vento. Estava despedaçado. Com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça entre as mãos, ainda tentava assimilar os fatos enquanto algumas lágrimas teimavam em descer.
― Taehyung? Cara? Que depressão é essa? ― A voz de Hoseok se faz presente quando o mesmo abre a porta do imóvel que dividimos. Não sou capaz de responder, apenas o encaro tentando parar o choro. O mais velho acende a luz e seu olhar vai até a pequena mesa de centro e o papel que repousava em cima da mesma. Ele anda até o ponto que seus olhos encaravam e segura o pequeno cartão. ― Meu Deus… Isso chegou hoje?
― Quando cheguei do trabalho o porteiro me entregou. Acho que ainda não consegui acreditar ― disse voltando a chorar.
― Nem eu acredito… Ela vai se casar mesmo. E eles ainda te convidaram.
― Lê de novo o convite, Hoseok. Eles não só me convidaram; eu vou ser padrinho.
― Porra! E o quê você vai fazer?
― Não sei, cara, não sei! Pensei em fugir do país, mudar de nome, sei lá. Só não queria ter que lidar com isso e saber que foi culpa minha.
― Tae… Não é culpa sua…
― É sim, Hoseok! É, sim! Você sabe que é! Fui eu quem apresentou os dois! Fui eu quem disse pra ela esquecer que eu existo!

Londres. 13 de maio de 2017.


Your secret tattoo, the way you change moods
Sua tatuagem secreta, a forma como você muda seu humor
The songs that you sing when you’re all alone
As músicas que você canta quando está sozinha
Your favorite band, and the way that you dance
Sua banda favorita, a forma que você dança
But baby, baby
Mas, querida
Does he know you can move it like that?
Ele sabe que você pode se mover assim?
Does he know you’re out and I want you so bad
Ele sabe que você está fora e que eu te quero muito?
Tonight you’re mine, baby
Hoje à noite, você é minha, querida

As luzes piscavam e a batida da música era frenética. Nossos corpos se moviam num mesmo ritmo, colados. era minha melhor amiga, minha companheira de todas as circunstâncias. Já havíamos nos envolvido antes, não era algo raro, mas nunca passou disso. Sabia que ela não queria nada além de uma amizade com benefícios e eu conseguia me contentar com isso no momento, ainda que guardasse uma paixão pela garota de olhos brilhantes desde que nos conhecemos, no primeiro ano da faculdade.
― Tá pensando em quê? ― Ela ficou nas pontas dos pés para alcançar meu ouvido e então praticamente gritar, já que seria a única maneira de ouvi-la no meio daquela festa.
― Em você!
― Não precisa mentir pra mim, Tae! ― Revirou os olhos e olhou para o canto. ― Tem uma ruiva ali que não tira os olhos de você desde que chegamos. Ela é gata, você devia ir falar com ela.
― Não quero.
― E por quê? Você não tem nada a perder!!
― Porque eu prefiro ficar com você a noite toda.
― Espero que seus planos pra noite toda não sejam só ficar na conversa ― disse com um sorriso ladino.
Era a deixa que eu esperava; a puxei pela nuca e a beijei. O contato já tão conhecido por nós tinha uma sintonia única, como se dançássemos nossa própria música; uma que já conhecíamos muito bem. correspondeu na mesma intensidade e pude jurar que sorriu entre o beijo, um ato simples que eu amava tanto. Quando o ar se fez necessário mantivemos nossas testas coladas, sorrindo e nos olhando nos olhos enquanto a música guiava os movimentos de nossos corpos ainda colados. Não demorou muito até que ela interrompesse o silêncio confortável em que estávamos.
― Ela continua olhando para cá, Tae. Mas agora com cara de quem vai cometer um assassinato, só não sei se o meu ou o seu.
― Provavelmente é o seu, gatinha. Mas sabe que prezo muito pela sua vida e pela integridade do seu corpo todo, acho que devíamos dar o fora e ir pra algum lugar onde só aconteceriam coisas boas a você. O que acha?
― Você sempre tem as maneiras mais criativas de me chamar pra ir pra sua casa.
― Isso é um sim?
― Você já me viu recusar um convite seu desse tipo alguma vez, Taehyung?
Sorri e a puxei pela mão indo em direção à saída do local com um sorriso. Chamamos um táxi e, durante todo o percurso até minha casa, ela segurou minha mão, me roubando alguns beijos vez ou outra. Meu coração parecia prestes à explodir.

Quando finalmente chegamos, já não havia mais paciência para postergar o desejo. foi mais rápida que eu e assim que ouviu o barulho da porta sendo trancada tirou o próprio vestido com rapidez, revelando um conjunto preto rendado de lingerie. Sorri de lado e não hesitei em beijá-la contra a parede da sala. A morena tomou um impulso com os pés e envolveu as pernas em minha cintura, de modo que eu espalmasse as mãos em sua bunda e conseguisse carregá-la para o quarto com facilidade.
Os beijos não eram mais suficientes quando chegamos ao nosso destino. Me sentei na cama, ainda a tendo em meu colo e me separei de seus lábios apenas para tirar a camiseta que usava. Fiz menção de me levantar para tirar também a calça, mas não permitiu. Me olhou com um sorriso travesso e negou com o dedo indicador. Sabia o que isso significava; ela estava no comando naquela noite.
Ela me empurrou até que eu estivesse encostado na parede atrás da cama, ainda sentado, e então se posicionou sobre os próprios joelhos, ficando um pouco mais alta que eu, e tirou o próprio sutiã, jogando-o para algum canto longe no quarto. Mordeu o lábio inferior antes de se sentar novamente em meu colo e voltar a me beijar. Correspondi de imediato, levando uma mão aos seus cabelos e puxando de leve enquanto a outra foi direto para seu seio esquerdo. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, parou de me beijar e fechou a cara.
— O quê foi? Fiz algo que você não gostou? Me desculpa, podemos parar se quiser.
— Não, gatinho, você é muito bom e sabe disso. Mas a nossa regrinha de hoje é que você não pode me tocar.
— Qual é, .
— Vamos lá, Tae, eu sei que você adora quando eu assumo o controle.
E era verdade. Eu amava a segurança que ela tinha e amava saber que se sentia à vontade comigo para fazer o que bem desejasse. Concordei com um um sorriso e ela logo levou as mãos à minha calça e tirou meu cinto. Usou o acessório para amarrar minhas mãos com uma habilidade que era só dela. Desceu então os lábios para o meu abdômen enquanto desabotoava minha calça lentamente de propósito. Tirou, na mesma paciência, as duas últimas peças de roupa que ainda me restavam. Um gemido arrastado saiu de mim quando ela passou a ponta dos dedos de leve em meu membro já ereto.
Tudo que ela fazia aumentava meu tesão de maneiras inexplicáveis. Quando a garota se abaixou e passou a língua com vagareza pela extensão eu inconscientemente xinguei e pedi para que ela fosse logo com isso. Ela sorriu e continuou com a mesma paciência; iniciou uma masturbação lenta em mim enquanto observava minhas reações. Depois de se divertir e me ver implorar para que acelerasse o ritmo ela me abrigou em sua boca, combinando os movimentos de subir e descer com as mãos. Gemi alto. Quando senti que o orgasmo se aproximava me mexi inquieto e a morena percebeu. Foi a deixa para que ela se levantasse e fosse até meu guarda-roupa para pegar um pacote de preservativo que ela mesma colocou em mim. Então ela tirou a própria calcinha e soltou minhas mãos do nó que havia feito.
— Cansei de brincar. Já tô molhada pra caralho e não aguento mais esperar; só quero que me foda daquele jeito que só você sabe.
Me senti pulsar com as palavras dela e não esperei um segundo antes de puxá-la para cima de mim. Nos demoramos em cada posição até que ela se levantou e apoiou uma das pernas na cama. Entendi o que ela queria e fui até a garota, me inclinando por trás de seu corpo e a penetrando de pé. gemeu alto à medida que eu estocava rápido. Enquanto minha mão esquerda segurava sua cintura para manter o apoio, levei a direita ao clitóris da morena e o estimulei.
Nossos gemidos se misturavam e ela chegou ao orgasmo primeiro que eu, não demorei muito a me desfazer e então estávamos os dois ofegantes, nos encarando depois da transa. Fui até o banheiro para jogar a camisinha no lixo e me seguiu, dizendo que precisava fazer xixi. Rimos juntos concordando que havíamos atingido o maior nível de intimidade que poderíamos.
Voltamos juntos para o meu quarto. Peguei minha cueca no chão e a vesti antes de me deitar, ao passo que foi ao meu guarda-roupas procurar uma camiseta minha para vestir e depois veio se aninhar ao meu corpo na cama. Abracei-a de lado e continuei olhando para o teto. Deixei que meus pensamentos fluíssem sem um rumo certo e mal percebi quando suspirei.
— Tá pensando em quê?
— Em você. — Ela riu. — O quê? É verdade.
— Sempre que eu faço essa pergunta você responde que tá pensando em mim, Tae.
— Então aparentemente não consigo tirar você dos meus pensamentos.
— Palhaço.
— É sério, . Você sabe que eu não minto pra você — disse enquanto acariciava a pequena tatuagem em formato de chama que ela tinha no cóccix. — Eu adoro essa sua tatuagem.
— Ela é idiota. E eu tava bêbada quando fiz, você sabe, você estava lá.
— É, eu sei. É por isso mesmo que eu adoro, pela história. É como um segredo nosso.
— Hm, tecnicamente, a tatuagem também é um segredo nosso. Eu… — começou a enrolar o cabelo com a ponta do dedo indicador, era um sinal de quê estava nervosa. Sorri reparando na brusca mudança de humor que ela apresentou, aparentemente havia ficado insegura com o comentário que faria a seguir, mesmo que minutos atrás estivesse no controle de toda a situação. — Bom, eu… Não fiquei com mais ninguém além de você depois disso.
— Então é mais um motivo pra lista; sua tatuagem secreta é um segredo só nosso. — Ela riu anasalado, mas se mexeu inquieta; ainda aparentava um resquício de insegurança. — ?
— Hm?
— Eu também não tenho ficado com mais ninguém além de você — ela suspirou, eu pigarreei. — Bom, é, a gente não combinou exclusividade, eu sei, mas não tenho essa vontade e isso não quer dizer que esteja te privando eu só… — Estava nervoso.
— Tá tudo bem, Tae. Não quero te privar de nada também. É muito difícil fazer essas coisas darem certo, mas sempre soubemos resolver tudo no diálogo. É por isso que somos melhores amigos.
— É, melhores amigos…

[…]

O sol já estava alto no céu e eu ainda estava deitado na cama. estava no banho e cantava American Idiot como se não houvesse amanhã. Ela gritava as palavras e eu me divertia com isso. Ria alto da empolgação dela. Essas pequenas coisas que ela fazia quando estávamos à sós me deixavam feliz; gostava de vê-la ser ela mesma comigo. De repente o som estridente do celular da garota tocando me tira de meus pensamentos e eu atendo por instinto; imaginei que pudesse ser sua mãe e gostava de conversar com a mesma, faria isso até que saísse do banho e pudesse atendê-la. Mas eu estava enganado, ao atender a ligação fui surpreendido por uma voz que já conhecia.
— Alô?
— Tae? Porra acho que liguei pro número errado, tava querendo ligar pra .
— Não, Nate, você ligou pro número certo. Ela tá aqui em casa, nós… Hm… Vamos almoçar juntos.
Nathan era fotógrafo na mesma empresa que eu. Ele havia nos encontrado juntos indo para o cinema há umas duas semanas e, quando descobriu que não era minha namorada, não descansou até que conseguisse seu número.
— Ah, entendi. Acho da hora essa amizade de vocês, pra mim é a prova que homem e mulher podem ser amigos sim sem outras intenções.
— É, Nate, com certeza. Vou chamar a , espera um minuto.
Mutei a ligação e fui até o banheiro, onde agora cantava Love You Like A Love Song. Ri com o contraste dos estilos musicais e ela notou minha presença ali.
— Não conseguiu resistir e veio tomar um banho comigo?
— A proposta era tentadora, mas você sabe que a gente nunca fica só no banho. Eu vim te trazer seu celular que tava tocando, atendi sem olhar o contato porque pensei que seria sua mãe, foi mal.
— E não é? Quem mais me ligaria à essa hora? — questionou fechando o chuveiro e se enrolando na toalha.
— Nathan.
Entreguei o aparelho para ela e saí do banheiro voltando para o quarto, mas ao invés de me deitar novamente comecei a arrumar a bagunça que havíamos feito na noite anterior. Estava inquieto. Enxergava que Nathan tinha interesse nela e não podia negar que esse fato me incomodava um pouco. Ele era um cara legal, mas não conseguia ficar contente com o fato de que ele poderia “roubar” minha garota. Por outro lado, sabia que algo assim eventualmente aconteceria se eu não tomasse coragem para declarar meus sentimentos logo, mas o medo de ser rejeitado me assombrava. Depois de alguns minutos saiu do banheiro, vestindo um moletom meu e inquieta.
— O quê aconteceu? Ele falou alguma merda? Se quiser eu saio daqui agora e vou lá socar a cara desse otário.
— Não, Tae, não foi nada disso. Na verdade… Ele me chamou pra sair. — Não consegui disfarçar o desapontamento em minhas feições. — E eu aceitei.
— Ah. É claro que você aceitou. — Ri sem graça.


Londres.
27 de outubro de 2018.

 


I catch your eye then you turn away
Eu peguei o seu olhar, aí você se afasta
But there’s no hiding the smile on your face
Mas não há como esconder o sorriso em seu rosto
Inside and out, baby, head to toe
Dentro e fora, querida, da cabeça aos pés
He’s not around, girl, you let me know
Ele não está por perto, garota, você me deixa saber

Toquei a campainha um pouco impaciente enquanto passava a mão pelos braços, tentando ajeitar minha fantasia. e eu iríamos para a festa de Halloween de um pub que costumávamos frequentar juntos, já era o terceiro ano consecutivo e isso se tornara um costume nosso. Estranhei quando ela atendeu à porta com uma feição preocupada, diferente do usual, mas não pude deixar de me encantar com sua fantasia. Estávamos combinando: eu era o Batman e ela a Mulher-Gato. O macacão de vinil colado ao corpo dela já despertava minha imaginação e eu sequer tinha entrado em seu apartamento.
— Miau miau, hein. Quem será o morcegão sortudo que vai acompanhar essa gatinha hoje à noite? — proferi entrando, quando ela abriu espaço. nem sequer sorriu.
— Tae… A gente precisa conversar.
— Miando assim você me deixa preocupado.
— É sério, Taehyung.
— Tudo bem, não tá mais aqui quem falou. O quê rolou de tão preocupante? Vamos ser papais?
— Caralho, Taehyung, para de fazer piada.
— Tá bom, tá bom. Parei. Pode falar.
— Eu não sei se é um bom jeito de te contar, mas eu não imagino outra forma. Hm… A minha tatuagem… Ela não é mais o nosso segredo. — Não entendi no início, minha expressão confusa me denunciou. — Eu e o Nate… Já faz um tempo…
— Ah. Sim. Claro. Faz sentido.
— E… Não é só isso…
— Hm, não vejo como melhorar essa informação.
— Ele me pediu em namoro ontem…
— Não me diz o que eu tô pensando que você vai dizer.
— Eu aceitei, Tae.
— Eu definitivamente preferia a notícia que seríamos pais. Há quanto tempo vocês…?
— Uns quatro ou cinco meses.
— E você achou que a melhor alternativa era esconder de mim, ? Me enganar?
— Eu não sabia como você ia reagir e nem sabia se ia dar em algo sério mesmo.
— Você nunca sabe, não é? Eu não acredito que você fez isso comigo, . Então é isso? A gente tá terminando assim?
— O quê você quer dizer com isso, Taehyung?
— Porra, qualquer um sabia. É nítido, . Eu sou apaixonado por você desde sempre.
— E ia esperar até quando para me falar alguma coisa? Queria que eu ficasse à disposição pra sempre, esperando sua vontade de tomar uma atitude?
— Você tinha a mesma capacidade de tomar uma atitude que eu. Ia esperar até você parar com o assunto de não querer nada sério, mas pelo visto o problema de algum compromisso era só comigo. — À essa altura nós já gritávamos e lágrimas escorriam pelo meu rosto.
— Eu tinha medo de estragar a nossa amizade, porra!
— E mesmo assim você estragou! Você mentiu pra mim, !
— A gente sempre disse que não tinha exclusividade!
— E a gente também sempre disse que não ia esconder nada um do outro, merda! Eu não queria que você ficasse me esperando. Eu só queria uma abertura, qualquer sinal que fosse que eu poderia investir no campo sentimental. Caralho, você me enganou. VOCÊ ME USOU, SAM. COMO VOCÊ PODE SER EGOÍSTA ASSIM? — O choro continuava a cair pelo meu rosto e eu já não conseguia controlar os soluços que o acompanhavam. Ela abriu a boca para responder e uma enxurrada de memórias me atingiu. — NÃO. Não fala nada. Agora você vai me ouvir. Pensando bem, tudo faz sentido. Você sempre ter feito questão de esconder do Nathan o que a gente tinha, os comentários sobre ele saber como te agradar… Eu sou muito burro mesmo. Só me faz um último favor. Esquece que eu existo. Inventa alguma mentira pro Nate e diz que a gente só se afastou sem motivo. Já vai ser ruim o suficiente continuar convivendo com vocês por ele ser meu colega de trabalho, mas não me tortura mais me fazendo assistir tudo isso do seu lado. Eu vou embora agora, . Da sua vida.
— A-A gente não vai sair juntos?
— Não faz isso comigo. — Ela correu e me abraçou.
— Me perdoa, Tae. Por favor não me odeia.
— Eu nunca seria capaz de te odiar. Mas eu quero que entenda o meu lado. Mesmo que tenha sido sem intenção, e eu prefiro acreditar que foi, você quebrou o meu coração. Eu preciso ficar longe de você pra não sofrer mais. — Dei um beijo na testa dela e me afastei. Fui até a porta segurando o choro e lhe dei um sorriso triste antes de sair.
— Tae! — Me virei — Eu te amo.
— Eu também te amo, mas sabemos que não é da mesma forma. Me dói dizer isso, mas espero que a gente não se aproxime mais.
Assim que fechei a porta atrás de mim me permiti desabar e chorar, ainda conseguindo ouvir o choro dela vindo de lá de dentro. Me apressei a trilhar o caminho de volta para casa e, quando estava quase chegando, peguei o celular e liguei para o único amigo que eu sabia que me entenderia. O único para quem eu havia admitido em voz alta meus sentimentos pela morena.
— Oi Tae, já tô quase saindo. Me atrasei?
— Esquece a festa, Hoseok — disse em meio ao choro. — Vem pra minha casa, por favor. Preciso de um amigo.


Londres. 15 de agosto de 2020.

— Taehyung, você não acha que tá sendo meio radical?
— Talvez. Mas eu não vou ficar aqui assistindo tudo isso, Hoseok — disse dobrando mais roupas e as acomodando na grande mala.
— Eu não consigo deixar de ficar preocupado. Você tá indo pra outro país!
— Tá tudo bem, cara, eu não tenho quinze anos.
— Eu sei, mas tenho direito de me preocupar com meu melhor amigo. Seu histórico te condena, ou já esqueceu que tive que me mudar pra morar com você porque o bonito resolveu se afundar no coração partido e não queria sair da cama? Não tem quinze anos mas tive que cuidar de você como se tivesse, mocinho.
— Credo, falando assim parece que você é meu pai. Já te falei que você pode ir comigo se quiser.
— Taehyung, eu sou professor. Não posso simplesmente sair enquanto o ano letivo ainda está acontecendo. E eu particularmente não tenho a menor vontade de me mudar para os Estados Unidos.
— Mas acho bom ir me visitar quando suas férias chegarem.
— Você sabe que eu vou! E… Quando você pretende contar… Pra eles? — suspirei. Parei de organizar minhas roupas e me levantei.
— Quer saber? Agora. Você me leva lá?

[…]

A porta foi aberta por um Nathan sorridente que me convidou para entrar de imediato. Estava agora sentado no sofá de sua casa, de frente para ele e , que balançava os pés ansiosa.
— Bom, eu vim aqui dizer que sou muito grato pelo convite para ser padrinho de vocês, mas vou ter que recusar.
— O quê? Como assim, cara?
— Pois é, Nate, fico muito honrado mesmo, mas não posso aceitar.
— Poxa, Taehyung, eu sei que você e a se afastaram há um tempo mas eu ainda quero que seja nosso padrinho! Foi você quem nos apresentou e vocês foram melhores amigos por muito tempo, vivo falando pra que deviam se reaproximar, vocês tinham uma amizade linda.
— Nathan eu tô indo embora do país em duas semanas. Vou me mudar pros Estados Unidos em três semanas, tirar umas férias em Vegas, sei lá.
— Você sabe que não precisa fazer isso, não sabe? — Foi a primeira vez que ela se pronunciou. Não sabia se era por conta de minha presença, mas ela estava estranhamente quieta em todas as vezes que a vi depois de “terminarmos”.
— Mas eu quero. Já te disse que não queria ficar assistindo à tudo isso de perto, . — Me levantei. — Se não se importam, eu realmente só vim dizer isso. Ainda tenho muitas coisas para arrumar.
Nathan concordou com a cabeça, com uma expressão descontente e me acompanhou até a porta.
— Tem certeza que não quer repensar essa decisão? Nós podemos esperar para você se decidir.
— Tenho, Nate. Você é um cara legal, não me leva à mal. Eu só não quero ser padrinho num casamento onde sou apaixonado pela noiva.
A boca dele se abriu formando um O, não esperei pelo próximo comentário e corri de volta para o carro onde Hoseok me esperava.


Aeroporto Internacional Heathrow.
Londres. 5 de setembro de 2020.


He’ll never know
Ele nunca vai saber
The way you lie when you look at me
A maneira como você mente quando me vê
So keep trying but you know I see
Então continue tentando, mas você sabe que eu vejo
All the little things who make you who you are
Todas as pequenas coisas que fazem você ser quem é
So tell me girl
Então me diga, garota
Does he know you can move it like that?
Ele sabe que você pode se mover assim?
Does he know that you’ll never go back?
Ele sabe que você nunca irá voltar?

Era o dia do embarque e Hoseok me acompanhava, me ajudando com as malas. Meu amigo realmente parecia um pai dando adeus ao filho com os olhos vermelhos após chorar. Ele odiava despedidas. Estávamos próximos à sala de embarque quando seu olhar se fixou em um ponto atrás de mim e ele sorriu. Disse que precisava ir ao banheiro e me deixou ali sozinho. Dei de ombros e continuei a mexer no celular, até que sinto alguém tocando em meu ombro.
— Com licença, você sabe me dizer se é aqui a sala de embarque do vôo com destino à Nevada?
— O quê você tá fazendo aqui, ?
— Indo atrás de você, não é óbvio?
— Você não tá fazendo sentido.
— Eu ouvi o que você falou pro Nathan naquele dia. E…
— E o quê?
— Terminei com ele e comecei a pensar no que faria. Eu achei que você tinha desistido de mim dois anos atrás e então o casamento me parecia uma boa escolha. Nate é um cara legal, ele entende meus humores, conhece minhas bandas favoritas, é compreensivo, mas ele tem um defeito irreparável: ele não é você. Ele sabe sobre muitas coisas, mas nunca vai saber a maneira como me sinto quando te vejo, não vai saber o valor de cada coisa que vivemos, todas as pequenas coisas que fazem você ser quem é, as coisas que fazem nós dois sermos… Nós? — Eu ri anasalado, meus olhos estavam cheios. — Bom, então eu me agarrei à uma gotinha de esperança que surgiu quando ouvi o que você disse e comecei a me planejar. Tem uma parte de mim que acha uma loucura eu ter largado tudo dessa forma, mas eu precisava tentar. Então… Será que é tarde demais?
— Sim, é. Mas quem liga? A gente nunca foi de seguir conforme o convencional. — Ela suspirou aliviada e jogou os braços ao redor do meu pescoço, me puxando para um beijo depois de tanto tempo. Nos separamos sorrindo quando o barulho de palmas invadiu meus ouvidos. Era Hoseok. — Acho que eu nem preciso perguntar quem foi que te contou o dia da minha viagem.
— Eu sabia que vocês ainda iam acabar juntos. Mas presta atenção, , eu não quero ver meu filho chorando pelos cantos de novo, ok? — disse sério, porém e eu gargalhamos.
— Hoseok você não é meu pai, cara. — Ri alto.
— Pode ficar tranquilo, eu só quero fazer seu filho feliz, Hoseok! Já errei uma vez e não quero fazer nada parecido de novo.
— Tá vendo, Taehyung, você é meu filhote sim! — Fomos interrompidos pelo som do alto falante chamando o vôo. — Andem logo antes que eu prenda os dois aqui. Me esperem nas férias e usem camisinha!
Demos as mãos e fomos, rumo à um novo começo.
?
— Sim.
— Ele sabe que você nunca vai voltar?


Las Vegas.
21 de novembro de 2020.

As luzes do cassino piscavam e nós ríamos, bêbados. me puxava pelo braço enquanto andávamos até que parou de repente. Seus olhos brilhavam.
— Tae. Quer fazer uma loucura?
— Quero fazer todas as loucuras com você!
Ela voltou a me puxar e só reparei no destino quando estávamos parados na frente. Uma capela com um letreiro neon, onde um homem vestido de Elvis Presley estava em pé, fumando um cigarro.
— Oi! A gente quer se casar — disse atropelando as palavras.
Casar? Eu ri um pouco nervoso.
— Era essa loucura que você estava falando?
— Sim, você quer voltar atrás e dizer não?
— De jeito nenhum. Vamos nos casar, então!
O homem então foi para trás do pequeno altar e pegou um chapéu de padre, que vestiu, e um par de alianças feitas de fichas de poker.
— São noventa dólares.
Tirei a carteira do bolso e entreguei a quantia à ele. riu e colocou uma das alianças em mim. Repeti seu ato e coloquei a outra nela.
— Ok, agora pelos poderes investidos à mim por uma porrada de gente chapada eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva etc e tal.
Nos beijamos.
— Eu não acredito que o Elvis Presley casou a gente em Las Vegas. E foi você quem pediu!
— O Hoseok vai surtar quando vier nos visitar e descobrir que não foi padrinho do nosso casamento. Acho que vamos ter que casar de novo; sóbrios e numa cerimônia planejada. O quê você acha?
— Por acaso você tá me pedindo em casamento pela segunda vez no dia?
— Só se a resposta foi positiva.
— Então eu aceito!

Fim.