The Shades of Magic

The Shades of Magic

Sinopse: Em um mundo onde a magia das bruxas é secreta, você mergulhará na vida de quatro bruxinhas muito poderosas. Unidos em trégua, os antigos desafetos e um novato que chega para mudar as coisas começam a investigar uma série de mistérios que rodeiam a vida deles. Se preparem para viver uma aventura mágica com um toque de romance e lembrem-se: toda magia tem um preço.
Fandom: 5SOS
Gênero: Aventura, Fantasia/Sobrenatural, Suspense, Romance
Classificação: 18
Restrição: Os meninos da 5SOS são fixos
Beta: Donna Sheridan

Capítulos:

PRÓLOGO

Ashton Irwin

A rua dos bares e boates estava movimentada naquela noite. As calçadas lotadas de pessoas sentadas nos estabelecimentos, jantando com amigos e familiares, ou aguardando na fila para começar uma noitada. A aglomeração beirava o insuportável.
Todos os rostos do lugar estavam borrados e eu não conseguia definir se o zumbido alto em meus ouvidos estava só na minha cabeça ou se era fruto de alguma música eletrônica que tocava nas casas noturnas do quarteirão. Ando até o ponto alto da rua a fim de ter uma visão mais geral do local.
Olho para meu relógio e percebo que os ponteiros estão parados. Antes que consiga sacar meu celular do bolso, sinto uma pontada forte do lado esquerdo da cabeça. A dor aumenta rapidamente e me escoro na parede mais próxima, sentindo meu corpo perder a força. Um vento gelado passa na minha nuca e meus pelos se arrepiam.
A poucos metros, na esquina da parede onde eu estava encostado, vejo um rapaz jogado no chão. Ele estava caído no meio do beco, imóvel. Tento ver se ele respira enquanto considero se devo ir até ele ajudá-lo ou se simplesmente ignoro e vou embora. Algumas pessoas passam por mim conversando e rindo e nenhuma parece notar o cara estatelado no chão. Volto minha atenção para o beco e, para minha surpresa, dois homens se aproximam do rapaz e o levantam com violência.
Ao meu redor, as pessoas que passam estão agindo normalmente, como se não estivessem vendo a cena que ocorria. E talvez não estivessem mesmo. Assim que decido interferir, o rapaz olha diretamente para mim e balança a cabeça em um claro aviso para que eu não me aproxime. Vejo-o fazer um movimento mais brusco do que os dois homens esperavam e se soltar das mãos dos mais velhos. Ele tenta correr, mas logo os homens o aprisionam novamente. Percebo que eles usavam roupas semelhantes, ambos com bordados da cor prata na manga do paletó preto.
O rapaz olha novamente na minha direção e levanta sobrancelha direita como se me perguntasse por que diabos eu ainda estava ali. Tenho a impressão que seus olhos faiscaram. Um dos homens desvia sua atenção e, tão rápido quanto a faísca, eles desaparecem numa névoa.
Pisco meus olhos algumas vezes. Eu só posso ter delirado! Não é possível que aconteceu tudo o que eu achei que vi. Balanço a cabeça algumas vezes, certo de que tudo aquilo não passava de uma alucinação causada pela dor de cabeça que eu sentira alguns momentos antes. Miro o ponto onde o rapaz estivera, a viela agora limpa sem névoa. Mesmo com a precária iluminação do beco, percebo um livro caído no chão.
Num impulso, percorro os poucos metros e pego o objeto em minhas mãos. Era um diário com as iniciais C.W. gravadas em dourado na capa. Folheio o diário e me assusto ao constatar que, em todas as páginas, estava escrito a mesma coisa:

“Ashton Irwin, procure ajuda. Procure a Prodwarth Academy. Procure pela ”

 

 

CAPÍTULO 1

Ao abrir os olhos naquela manhã ensolarada de segunda, Calum Hood sentiu como se algo tivesse mudado. Encarou a cama vazia do outro lado do quarto e suspirou pesaroso, mais uma vez sentindo falta de seu colega de quarto. Fazia pouco mais de uma semana que Collin Wilde havia desaparecido sem mais nem menos. Os pais do jovem não tinham notícias dele e Calum muito menos. Parecia até que Collin havia sumido com o uso de algum feitiço.
Duas batidas vigorosas na porta do quarto puxaram o rapaz de volta à realidade. Inconformado em ter que sair de sua cama, Calum levantou-se devagar e caminhou para destrancar a porta que, quando aberta, revelou a figura ansiosa de Luke Hemmings e o tranquilo Michael Clifford, seus únicos amigos de verdade.
– Eu falei que ele estaria de pijama ainda! – riu Michael enquanto tomava uma nota de 10 dólares das mãos de Luke. O loiro revirou os olhos e resmungou algo sobre Calum ser enrolado e adentrou o quarto, sendo seguido de perto por Michael.
– É esquisito ver metade do quarto vazio… – comentou Hemmings. Calum suspirou e concordou com a cabeça enquanto separava na cômoda suas roupas para o dia. – Pelo menos você tem mais espaço agora. Eu pagaria para alguém levar o Michael e eu ter o quarto só para mim.
– Engraçadinho. – Michael disse ao socar o braço do amigo, que fez uma careta e afagou o local atingido. – Eu deveria era me mudar pra cá e deixar que te colocassem para dormir no estábulo junto aos cavalos. Se bem que: coitados dos cavalos!
– Crianças, por favor! – Calum riu ao sair do banheiro e pegar os amigos se batendo como se tivessem oito anos. – Vamos logo tomar café, estou morrendo de fome.
Ambos prontamente se postaram de pé e o trio saiu do quarto em direção ao refeitório da Academia. Ainda com a sensação de que algo havia mudado, Calum olhou mais uma vez para a cama vazia. Suspirou devagar. Talvez só estivesse cansado.

A primeira aula do dia era Botânica Oculta. Calum odiava a matéria com todas as forças. O calor abafado e pegajoso bateu no rosto dos três amigos ao entrarem na enorme estufa de vidro. Luke escolheu o lugar mais próximo da professora Crane, sentando confortavelmente em um dos bancos altos que rodeava a enorme mesa repleta de plantas, sementes e outras coisas que Calum e Michael não sabiam bem definir o que eram.
Risadas altas se arrastaram pela estufa, chamando a atenção de alguns dos bruxos e bruxas ali presentes. Em um canto afastado de todos, Calum viu Bernauer, Orellano, Wheeler e Nash rindo de algo que falava animadamente. Um lampejo de irritação passou por seus olhos, ele não tinha muita paciência para as mulheres em questão.
Bem ali, diante de seus olhos, estavam as quatro aprendizes mais poderosas da Academia. Verdade seja dita: elas eram basicamente perfeitas. Tinham uma enorme quantidade de poderes amplamente desenvolvidos para bruxas tão novas. Sem falar que eram todas bonitas. Calum morreria antes de admitir, mas achava todas extremamente atraentes. Se elas não fossem, para dizer o mínimo, irritantes e cheias de si, ele convidaria alguma delas para sair. Provavelmente a Orellano. Porém, como nada é perfeito, Calum e seus amigos viviam competindo com elas e em raras ocasiões ganhavam. Ser segundo lugar doía e por isso ele jamais daria o braço a torcer.
– Pelos astros, elas não poderiam estar mais chatas hoje! – Michael reclamou, tirando Calum de seus devaneios.
Luke riu, concordando com a cabeça. A professora Crane bateu algumas palmas para chamar a atenção de todos para si.
– Meus queridos e minhas queridas, cheguem mais perto! Temos bastante conteúdo para cobrir na aula de hoje então não temos tempo a perder! – disse animadamente a senhora de idade ao apontar para toda a matéria escrita na lousa atrás de si. – Por favor, abram seus livros na página 293. O primeiro assunto do dia é o uso de ervas para…
Calum se desligou do que a professora falava logo no início. Sua mente viajava em pensamentos aleatórios, entre eles o desaparecimento de Collin. Pensou em diversas teorias que explicariam o sumiço do colega. Entretanto, nenhuma parecia ser boa o suficiente, nenhuma parecia ser coerente o suficiente. Um leve movimento do outro lado da enorme mesa branca chamou a atenção do rapaz.
Era Orellano jogando os enormes cabelos para trás dos ombros e parecendo muito concentrada em tudo que a professora Crane falava. Calum reparou que a boca dela se movia ocasionalmente, provavelmente respondia a alguma pergunta que ele, definitivamente, não estava ouvindo. Como se soubesse que ele a observava, virou o olhar para o rapaz. Um sorriso cruel apareceu em seus lábios e ela levantou as sobrancelhas como se perguntasse “gosta do que vê?” para ele. Os astros sabiam bem como ele gostava. Em um instante, começou a rir e Calum não entendeu o que seria tão engraçado, até ser chacoalhado por Michael.
– Sr. Hood? – indagou a professora Crane.
Calum desviou o olhar para a bruxa a sua esquerda, levemente confuso.
– Letra ‘C’! – falou em uma tentativa de resposta e a classe toda explodiu em risadas.
A professora balançou a cabeça, desapontada, e falou:
– Aprecio seu entusiasmo em responder aos exercícios, Sr. Hood. Mas temo lhe informar que sua presença está sendo solicitada na diretoria.
– Pega suas coisas e vai logo, cara! – sibilou Michael, dando um leve empurrão no amigo.
Calum pegou seu livro da mesa e a bolsa carteiro do chão e deu alguns passos vacilantes em direção à saída da estufa. Demorou um pouco para escutar o caminhado atrás de si e virou-se assustado, quase trombando com Wheeler. A moça fez uma cara irritada antes de proferir:
– Mas que inferno, Hood! Você não sabe andar direito não?
Calum revirou os olhos, levemente irritado. Essa garota sabia ser insuportável.
– Por que está me seguindo?
– Porque eu também fui chamada? – Wheeler olhou para ele com desdém. – Você poderia começar a prestar atenção no que está acontecendo ao seu redor ao invés de prestar atenção na . – completou com um sorrisinho cruel.
– Tanto faz. – o rapaz falou constrangido por ter sido pego e sabia, o que intensificou o sorriso. – Vamos logo.

Wheeler tentava calcular a altura do pé direito da sala da Suprema Nash enquanto aguardava. Fazia mais ou menos dez minutos que estava na sala da diretora da Academia e nem sinal dela. O que deixava Wheeler cada instante mais irritada. Qual o sentido de chamá-la ali se ela não estaria à espera? Suspirou impaciente. A seu lado, Calum parecia igualmente irritado.
– Tem alguma ideia do que ela quer com a gente? – o rapaz quebrou o silêncio.
– Não.
Calum se remexeu inquieto na cadeira acolchoada de cor vermelho. A moça quase conseguia ouvir o que se passava na cabeça dele. A sala afundou em mais um silêncio profundo. Dava para ouvir o tique-taque dos ponteiros do enorme relógio antigo no canto da sala.
Após mais alguns minutos, os dois ouviram passos se aproximando no corredor. Eles se entreolharam em expectativa e observaram atentamente a porta de entrada da sala se abrir, revelando a diretora e um rapaz loiro que eles desconheciam. Confusão marcou os traços dos três jovens na sala. A mulher mais velha os cumprimentou com um sorriso cordial.
– Srta. Wheeler, Sr. Hood! Fico feliz que já estejam aqui. – disse ao direcionar o desconhecido para a terceira e última cadeira vermelha. – Vamos direto ao ponto, sim?
Todos concordaram com acenos de cabeça e ela prosseguiu:
– Vocês devem estar se perguntando o que estão fazendo aqui… Bom, este distinto rapaz aqui se chama Ashton Irwin. Ele é o mais novo colega de classe de vocês. – as bocas de Calum e se abriram para protestar, mas o olhar que a mulher deu para eles os calou no mesmo instante. Olhou para Calum e continuou: – Sei que surgiram inúmeras dúvidas. Tudo que precisam saber, por ora, é que ele será seu colega de quarto, Sr. Hood. E, portanto, está sob sua responsabilidade ser seu tutor por algumas semanas, até que ele se adapte a nossa Academia.
Calum olhava perplexo para a Suprema Nash e soltou uma risada de escárnio, atraindo a atenção para si.
– Algum problema, Srta. Wheeler? Talvez a senhorita ache mais ideal que o Sr. Irwin fique sob seus cuidados…?
– De maneira alguma, Suprema Nash. Tenho certeza que o Sr. Hood fará um excelente trabalho como tutor. – falou rapidamente, o deboche explícito no olhar que deu a Calum. – Apenas não compreendi o motivo de minha presença nesta reunião.
– Ah sim, sobre isso… – a diretora abriu a gaveta superior de sua mesa e retirou de lá o que reconheceu como um Livro das Sombras. – Dê uma olhada.
A jovem tomou o livro em suas mãos. O ‘C.W.’ dourado na capa brilhou. Seria aquele livro pertencente à Collin Wilde? Ela abriu o livro e as palavras nele escritas a deixaram em choque.

“Ashton Irwin, procure ajuda. Procure a Prodwarth Academy. Procure pela .”

– Ele deixou isso para mim. – Ashton Irwin se pronunciou pela primeira vez. reparou que ele tinha uma voz suave. Todos viraram a atenção para o rapaz. – O Collin. Eu estava lá quando ele foi sequestrado. – arfou, se sentindo confusa. – Não fisicamente. Eu estava em casa, dormindo, mas eu estava lá com ele ao mesmo tempo.
– O Sr. Irwin é clarividente. E um muito poderoso, por sinal. – Ashton abaixou a cabeça, envergonhado. – Ele não tem o menor treinamento e dispõe de tamanho poder. Espero que entendam agora o motivo de eu ter colocado-o na Primeira Classe. Preciso que ele tenha todo o apoio para desenvolver sua habilidade o mais rápido possível.
Os jovens bruxos balançaram a cabeça em compreensão.
– Eu compreendo a situação e o papel do Sr. Hood nisso tudo… – começou , insegura de como prosseguir com o que queria falar. – Eu só não entendi ainda como eu me encaixo nisso tudo. Quero dizer, eu vi que meu nome está mencionado no Livro das Sombras do Sr. Wilde, mas não compreendi minha parte.
A Suprema Nash sorriu, como uma mãe paciente.
– A sua parte, Srta. Wheeler, é compreender por que Collin Wilde te citou no Livro das Sombras. Talvez essa seja a pista que nos indique onde ele está.
olhou para a mais velha como se ela estivesse louca. A moça nem conhecia Collin direito! Frustrada com a perda de tempo, achou mais prudente apenas concordar com a cabeça.
– Ótimo! Como falei tudo o que tinha para falar, estão dispensados! Sr. Hood, o Sr. Irwin está sob sua responsabilidade a partir de agora. Qualquer dúvida estarei à disposição! Agora voltem para a aula. – os dispensou enquanto ia até a porta para abri-la. – Tenham um bom dia, meus aprendizes!
Os três saíram da sala rapidamente, ainda confusos e levemente abalados com tudo que ocorrera. Ashton olhou para Calum com expectativa.
– A aula é de Botânica Oculta. – falou .
Ashton olhou para a jovem e ela pôde perceber que seus olhos eram de um tom esverdeado com leve toque de castanho.
– Nunca ouvi falar, mas parece entediante.
Wheeler revirou os olhos e Calum deu uma gargalhada, passando o braço esquerdo pelos ombros do colega enquanto eles caminhavam em direção à estufa.
– Nós, caro colega, vamos nos dar muito bem. Não preciso ser clarividente para saber disso.

 

CAPÍTULO 2

FLASHBACK ON. Vancouver, Canadá – alguns dias antes.

Ashton sentia como se estivesse se movendo debaixo d’água.
Havia cinco dias desde que ele descobrira ser um bruxo. E desde então as coisas pareciam caóticas e sem sentido. Ele? Um bruxo? Parecia fantasioso demais para conceber. A revelação chegou para ele de forma chocante.
Irwin acordou do sonho com o diário em mãos. Todas as folhas levavam os mesmos dizeres: “Ashton Irwin, procure ajuda. Procure a Prodwarth Academy. Procure pela .”
Ele pesquisou por Prodwarth Academy no Google e deu de cara com um grande total de zero resultado. Em seguida digitou o nome “ ”, porém os milhares de resultados foram desencorajadores. Seguindo sua intuição, Ashton perguntou para sua mãe. Dizer que ela desmaiou de susto não é exagero.
Assim que se recuperou, ela contou para Ashton toda a verdade: que eles eram descendentes de bruxas. Que ela era uma bruxa. E o mais importante, que ele era bruxo. Explicou que se escondera da comunidade bruxa da Austrália, país de origem do garoto, mas que após ser descoberta ela resolveu se esconder sob o nariz deles, mas em outro país, por isso eles se mudaram para o Canadá. Não queria que seus filhos se envolvessem com magia.
E ela, por um tempo, achou que Ashton não tinha poderes. Até que eles se manifestaram e ela os controlou, ou achou que estava controlando. Explicou para ele que alguns de seus sonhos não eram exatamente sonhos. Eram visões. Ashton riu desenfreado, achando que aquilo tudo não passava de uma piada. Porém, a expressão séria de sua mãe o fez entender que nada daquilo era brincadeira. E então ele afundou.
Dona Anne entregou para ele alguns diários, todos com capas iguais ao que Ashton possuía. Na capa, encontrava-se um “A.M.I” dourado, as iniciais dela. Relutante, o rapaz leu o conteúdo dos livros de capa preta. Entre breves relatos de acontecimentos, explicações de matérias e muitos feitiços, Ashton se sentiu cada vez mais ficar preso numa bolha de confusão e incertezas. Sua vida tinha virado de cabeça para baixo e ele passou a questionar tudo o que conhecia.
Ao final do dia seis, Anne-Marie Irwin o chamou de volta para a realidade. Um bom sermão, seguido de um chá calmante mágico, tirou Ashton da distorção de realidade que ele se encontrava. E eles conversaram. Sobre tudo que se passava na cabeça dele, sobre todas as dúvidas, angústias e empolgações. Anne mostrou fotos, explicou passagens dos diários e um básico sobre a comunidade bruxa. No fim de tudo, a mãe de Ashton perguntou se ele queria estudar na Prodwarth Academy of Magics.
De início, Ashton vacilou na resposta. Queria falar que não e seguir com sua vida. Mas ele sabia que agora tudo havia mudado e que ele não poderia ficar ali. Concordou em ir para a Academia e sua mãe soltou um sonoro “ótimo!”. Ela já tinha arrumado sua ida, de qualquer maneira.

***

No oitavo dia desde que Ashton presenciara o sequestro, ele foi à Academia. Na parte norte da cidade, afastada de todas as outras casas, Ashton observou pelo oxidado portão de aço uma construção destruída. A placa de “não ultrapasse os limites da propriedade” capengava no portão e ele se perguntou se eles estavam no local certo. Aquela enorme mansão corroída pelo tempo não parecia, nem de longe, um local apropriado para abrigar bruxos.
Com um movimento de mão, a Sra. Irwin levantou o feitiço que mascarava a real estrutura da Prodwarth. Ashton observou encantado enquanto um véu brilhante se desmanchava e revelava um imponente portão de aço preto e a construção deslumbrante ao fundo.
– Bom… É aqui que me despeço de você. – disse a mãe de Ashton, segurando lágrimas. – Se cuida, meu filho.
Ashton a abraçou com força, deixando o choro sair livremente.
– Tenho um presente para você. – Anne retirou de sua bolsa um globo de neve de tamanho médio. Dentro dele, havia uma miniatura da casa onde eles moravam. – Quando sentir saudades de casa dê uma chacoalhada.
O rapaz pegou o objeto com cuidado. Sorriu triste antes de atravessar o portão, que abriu sozinho para sua entrada.

FLASHBACK OFF.

Prodwarth Academy of Magics – segunda de manhã.

Ashton não conseguia ouvir uma palavra do que a professora falava. Ele estava completamente perdido ao observar Wheeler. Não acreditava que ela estava bem ali diante de seus olhos. Há mais ou menos um ano, o garoto vinha sonhando com . Ela aparecia nos sonhos mais esquisitos dele. Sonhos não, visões. Ele ainda não estava acostumado com o termo. Ashton espiava o futuro enquanto dormia e, em uma dessas viagens, conheceu . Mas ele não sabia quem ela era.
Era estranho ter um rosto sem um nome. E depois um nome sem um rosto. Ao ser apresentado para a moça naquela manhã, ele sentiu como se finalmente tivesse acabado um quebra-cabeça cuja última peça estava perdida pela casa. Ali estava ela: a linda mulher que perseguia seus dias sem nem saber. Não havia mencionado isso para ninguém e pretendia manter o segredo.
– Pois bem, meus aprendizes. Por hoje é só! – a simpática senhora que lecionava as aulas de Botânica Oculta falou, recebendo suspiros aliviados dos bruxos e bruxas. – Sr. Irwin, posso falar com você por um momento?
Ashton olhou um pouco perdido para a professora… Crane? Ele não tinha muita certeza do nome dela. Olhou para Calum em um mudo pedido para que ele o aguardasse e o moreno apenas sorriu, dando a entender que o esperaria. A professora entregou para Ashton um livro da matéria e deu algumas instruções do que ele poderia fazer para ficar em dia com o conteúdo. O rapaz sorriu agradecido e seguiu Calum e os outros para o refeitório.
Era finalmente hora do almoço e Ashton estava morto de fome. Ele percebeu todos os olhares se voltarem para sua direção. Parecia que todos os alunos o encaravam. E eles eram muitos. Sentiu-se um pouco envergonhado, como se fosse um alien que acabara de descer da nave-mãe.
Não trocou sequer uma palavra com os outros rapazes enquanto eles estavam na fila servindo o almoço. Ele estava, para dizer o mínimo, atordoado demais com toda a situação para conseguir proferir algo. Perdido entre as várias ilhas de buffet com os mais variados tipos de comida, Ashton demorou até escolher o que queria.
– Cartão? – perguntou um senhor no que seria o caixa. Ashton deu a ele um olhar confuso. – Rapaz, cadê seu cartão? – o senhor falou novamente, um pouco impaciente.
Ashton olhou para os lados e percebeu que Calum e os outros (ele realmente precisaria se esforçar para lembrar os nomes) não estavam por perto.
– Eu não tenho… – disse ao retirar a carteira do bolso. – Mas eu tenho dinheiro.
O senhor bufou, dessa vez definitivamente impaciente.
– Aqui só aceitamos os pontos da Academia, garoto.
– Eu sou novo, não sabia sobre os pontos.
– Dia de azar, garoto. Não posso te liberar sem que passe o cartão.
A essa altura, uma pequena fila começava a se formar atrás dele, o deixando nervoso. Ashton ia abrir a boca para implorar que ele pudesse pagar depois, mas foi interrompido:
– Mas que demora é essa aqui?! – era Wheeler, surgindo de algum ponto mais atrás da fila. – Ah, claro. Tinha que ser! Qual o problema, Irwin?
– Ele não tem cartão. – denunciou o caixa.
– O Hood não te falou do cartão? – Ashton negou com a cabeça, se sentindo envergonhado. – Pelos astros, ele não poderia ser mais inútil!
– Eu posso ir agora fazer o cartão, se você me falar onde é.
– Não adianta. – a moça falou ao colocar a própria bandeja na balança. – Mesmo que você faça agora, ele só pode ser usado no dia seguinte. Vai entender essa burocracia. – suspirou irritada. – Aliás, cadê o pamonha do Hood e dos amiguinhos dele? Era pra ele estar te acompanhando! – retirou da bolsa um cartão e entregou para o senhor do caixa, olhou para ele e disse: – Passe os dois almoços, por favor.
, não precisa…
– Calado, Irwin. Você já me deu dor de cabeça o suficiente para o resto da sua existência. E é seu primeiro dia na Academia. Aceite o almoço e, como sinal de gratidão, não me irrite mais, está bem?
– Sim, senhora. – Ashton sorriu e concordou com a cabeça.
Ele gostava dela.

Depois que Calum, Michael e Luke se desculparam profusamente pelo vacilo da fila, os quatro rapazes almoçaram juntos e aproveitaram o momento para se conhecerem melhor. Era engraçado e curioso o fato que todos os quatro eram australianos.
Calum Hood, a principio, parecia meio rabugento. Mas logo ele abaixou sua armadura e se mostrou ser muito engraçado e preocupado com seus amigos e família. Contou para Ashton sobre sua irmã, Mali-Koa, que era professora na Academia de Londres e o mais velho percebeu que Calum a admirava imensamente. Ele era o tipo de pessoa que Ashton gostaria de ter como amigo.
Luke Hemmings era o amigo bobão do grupo. O loiro ria de tudo e sempre estava contando uma piada. Era o mais novo dos quatro. Ele falou um pouco sobre sua mãe e seus irmãos, contou que todos ainda moravam na Austrália e trabalhavam no Conselho de Magia de lá. Luke também contou que gostava muito de música e os quatro entraram numa conversa sobre o interesse em comum.
Por fim, Michael Clifford se apresentou. Ele era filho único e seus pais trabalhavam no Conselho de Magia ali em Vancouver. O rapaz era rápido no pensamento e sempre fazia algum comentário espirituoso para os amigos rirem. Amava videogames e convidou Ashton para eles jogarem juntos.
Os rapazes acabaram de almoçar e seguiram para a aula de Magias Elementares.
– É uma das minhas aulas favoritas! – revelou Michael. – Nós podemos usar magia para mexer com os Quatro Elementos, além de Espírito, Sombra e Luz. Minha maior afinidade é com o Ar.
– Eu tenho afinidade com a Terra. – disse Luke. – E o Calum com o Espírito.
– Parece bem mais interessante que a aula de botânica. – Ashton comentou e os meninos riram.
Ao entrarem na ampla sala de aula, que mais se assemelhava a um ginásio, Ashton notou um enorme retângulo branco no chão. Alguns alunos estavam sentados em bancos de madeira que margeavam o recinto, esperando o início da aula. Assim que os rapazes se acomodaram em um espaço vazio do lado oposto a entrada, o professor entrou em sala.
– Boa tarde, senhoritas e marmanjos. – a voz poderosa do homem retumbou pela sala, arrancando risadas dos alunos e várias respostas. – Vamos logo ao que interessa, sim? Fiquei sabendo que temos um aluno novo, onde está você?
Todos na turma se viraram para Ashton e este levantou o braço.
– Ótimo! Seja bem-vindo, Sr. Ashton Irwin. Meu nome é Quentin Lafayette. Pode me chamar apenas de Quentin, não gosto de muitas formalidades na minha sala de aula.
Ashton percebeu que ele tinha um forte sotaque francês.
– Obrigada, profes… Quentin! – falou rindo e arrancou risadas da classe.
– Por ser novo, Ashton, deixarei você esquentando banco hoje. Ao final a aula, faremos seu teste para determinar com qual elemento você tem maior afinidade, tudo bem? – Ashton concordou com a cabeça, ansioso para o que viria. – Então vamos começar. e Adelaide, poderiam nos dar o prazer da primeira batalha?
Alguns alunos exclamaram animados. Calum apenas bufou ao lado de Ashton, comentando como era injusto sempre ir na primeira luta e Luke rebateu que, para aquela matéria em específico, era compreensível. Ashton sentia a ansiedade revirar em seu estômago.
– Luta entre primas – começou Michael. – é sempre divertido. Apenas tente não babar, novato. – ele riu da expressão empolgada do loiro.
A menina que agora ele sabia se chamar Adelaide se posicionou a esquerda de Ashton. estava posicionada a direita, perto da mesa de Quentin. O professor murmurou algo como “quando quiserem” e Ashton focou toda sua atenção em .
A garota parecia relaxada, como se estivesse esperando um amigo chegar. Alguns instantes depois, um filete preto se estendeu pelo chão, logo sendo seguido por outras dezenas. Ashton observou, espantado, as mãos de ficarem completamente pretas. Ele percebeu que bolos negros ondulavam ao redor das mãos dela, se multiplicando e crescendo gradativamente. Várias ondas serpenteavam por suas pernas, a envolvendo suavemente. Em apenas alguns segundos, uma infinidade de sombras rodeava a jovem, a fazendo parecer algum tipo de anjo da morte. As sombras formaram uma espécie de humanoide, que se posicionou ao lado de . Ela mantinha uma expressão suave, como se aquilo não demandasse esforço algum. Por fim, Ashton viu uma coroa negra repousar na cabeça dela.
Bem ali, diante de seus olhos, estava a Rainha das Sombras.
– Pelos astros, por que ela tem que ser tão dramática? – Calum reclamou e os amigos riram. – Ashton, preste atenção na Addy agora.
Ele achou difícil desviar o olhar de .
Virou-se para Adelaide e viu uma intensa luz branca surgir de trás da menina. Ela, diferentemente de Wheeler, parecia se esforçar um pouco mais para exercer a magia. A luz branca se desenrolou rápida em meio a uma cortina de fumaça e Addy sorriu levemente. O mesmo humanoide começou a tomar forma ao lado dela, dessa vez feito de luz. Ashton observou, impressionado, a cortina branca se estender pelo chão, até metade da arena.
Um silêncio sepulcral caiu na sala. E, em um piscar de olhos, sombra e luz batalhavam na arena. As jovens moviam as mãos, controlando seus gladiadores. Alguns alunos gritavam, incentivando elas a darem cada vez mais de si. O Sombra de levou uma espadada do Luz de Adelaide, perdendo o “braço” por alguns instantes, o que o fez recuar na arena. deu um grito de ódio e Ashton ouviu Orellano, como Calum indicou, berrar para que a amiga se esforçasse mais.
Com um amplo movimento no braço esquerdo, criou outro gladiador, surpreendendo Adelaide. Os outros alunos berraram surpresos e Ashton se pegou gritando junto a eles.
– Dez dólares que a Smith desmaia a Wheeler. – Luke girou para Michael e o desafiou, estendendo a mão.
– Sem chances! A Wheeler tá com essa no papo. – Clifford riu e apertou a mão do amigo.
Sem ficar para trás, Adelaide Smith logo conjurou outro gladiador de luz. Sombra e Luz batalhavam intensamente e a disputa estava equilibrada. Os alunos observaram atentamente um amontoado de sombras se formarem por cima dos gladiadores de Addy, que parecia alheia ao que acontecia. esboçou um sorriso vitorioso.
– Olhe para as sombras que a Wheeler formou ali em cima. – Calum sussurrou para Ashton. – A Addy não faz ideia do que está por vir, ela está muito concentrada em fazer os Anjos de Luz baterem nos Demônios de Sombra.
– E como a está fazendo tudo isso? Ela não parece nem estar se esforçando…
– Umbracinese e Luminocinese são as especialidades dela. Ela tem uma maior afinidade com as sombras, mas tanto sombra quanto luz são sua magia mais forte.
– Observem a Wheeler vencer. – comentou Michael.
As sombras que acumulava no teto agora estavam densas e cobriam toda a extensão da arena. A garota deixou que Adelaide abatesse um Demônio de Sombra. Um grito animado ecoou pelo ginásio. Alguns dos alunos que torciam por Addy também não haviam notado a armadilha de . Quando o segundo Demônio estava prestes a ser exterminado, as sombras do teto despencaram sobre os gladiadores de Addy, os consumindo completamente. Um mar negro tomou conta da arena, engolindo toda a luz que a outra conjurara.
Simples assim, Wheeler vencera sua batalha.

***

– Agora que estamos sozinhas, será que a madame pode fazer o favor de contar a fofoca do novato? – Orellano disparou assim que Bernauer fechou a porta do quarto que dividia com .
Wheeler riu e balançou a cabeça desacreditada. Era noite de filme e tudo que ela queria era um pouco de paz após o dia cheio. Mas o que ela menos teria ia ser paz, aparentemente.
– Mas vocês são umas fofoqueiras mesmo, hein!
– E você nos ama demais mesmo assim. – completou Nash. A filha mais velha da Suprema puxou dois pufes gigantes para perto da TV, enquanto puxava os outros dois. – Bem que eu achei ter ouvido minha mãe falar algo sobre um novo aluno. Mas como era muito cedo e eu estava totalmente sonolenta, achei que tivesse ouvido errado.
– Sabe, parece meio estranho entrar um aluno novo agora. Especialmente se ele for direto para a Primeira Classe. Ele é o quê? O Harry Potter? – indagou , fazendo as amigas rirem.
– Com certeza ele é mais gatinho que o Harry Potter. – falou risonha. – E ele parece gostar da . Ele te encarando durante a aula de Botânica entregou totalmente a paixonite…
– Ah, faça-me o favor. Esse garoto é esquisito.
Wheeler… – começou com um tom de repreensão. – Vai dizer que acha ele feio?
deu de ombros e disse um singelo “dá pro gasto”. As amigas começaram a rir, debochadas.
– Vocês são insuportáveis! – disse ao mostrar o dedo do meio para elas, as fazendo rir ainda mais.
– Agora falando sério, pode fazer o favor de contar logo?
– Espero que estejam confortáveis pra receber o impacto da história…

Já faziam algumas horas desde que contou para as amigas sobre Ashton e o Livro das Sombras de Collin Wilde. As meninas discutiram um pouco sobre o assunto, mas não chegaram à conclusão alguma.
observava a luz da lua entrando pela janela. Suas amigas dormiam profundamente nos pufes ao seu lado. Ela tentou de todas as formas pregar os olhos um pouquinho, mas parecia que não receberia a visita de Orfeu. Essa era mais uma daquelas noites em que ela ficaria remoendo seu passado catastrófico ao invés de dormir.
Orellano nasceu em Buenos Aires. Era filha única e morava com os pais em uma adorável casa na parte nobre da cidade. Um dia, voltando de um passeio em família ao Rio Tigre, o carro em que eles estavam capotou ao ser atingido por um caminhão. lembrava exatamente da sensação vertiginosa do carro sendo jogado no ar. Lembrava-se dos pedaços de vidro que a atingiram, machucando a pele frágil. E do grito desesperado que irrompeu de seu peito, chamando pela mãe.
Ela passou por momentos difíceis até ser resgatada pela Suprema Nash de um orfanato qualquer, mais ou menos um ano após a morte de seus pais. Ela se lembrava de estar no cemitério La Recoleta, após ter fugido do orfanato não muito distante dali. Chegou ao local guiada por espíritos, seus únicos amigos. Eles começaram a aparecer para ela um mês depois do acidente. Ela não sabia como ou por quê. A Suprema a encontrou e a levou para a Prodwarth, onde ela se tornou filha da Academia. Morava ali desde os dez anos de idade e era imensamente grata por tudo que fizeram por ela.
Nash foi a primeira que conheceu. Por ser filha da Suprema, ela vivia na Academia e, por isso, foi a primeira amiga de . Foi amizade à primeira vista. era doce e engraçada e sempre fez questão de incluir em tudo. Acolheu como alguém da família, como uma segunda irmã mais nova.
Ela ensinou coisas básicas da magia e do mundo mágico. Nash era próxima da Água e desde pequena ajudou a controlar seu elemento, o Espírito.
Vários anos se passaram e elas conheceram as outras amigas. Aos dezesseis anos, e entraram para a Prodwarth como aprendizes. As quatro bruxinhas possuíam poderes excepcionais. Elas eram bruxas Ultra, o mais alto ranking de poder. Entraram na Sexta Classe, assim como todos os outros. Além delas, os três patetas, como carinhosamente apelidou Calum Hood, Michael Clifford e Luke Hemmings, também eram bruxos Ultra. Notoriamente menos poderosos que as meninas, uma vez que a testosterona no corpo deles era um inibidor da magia. A inimizade entre os dois grupos foi quase instantânea.
Bernauer era nascida e criada na França. Sua família se mudou quando ela tinha catorze anos. Seus pais assumiriam uma posição importante no Conselho de Magia da América do Norte e por isso se mudaram para Vancouver, onde estavam todos os órgãos importantes da Comunidade Mágica norte-americana.
Ela teve a opção de retornar à França para começar seus estudos mágicos, mas preferiu ficar perto de sua família, principalmente por conta do nascimento de sua irmã mais nova. não queria perder nenhum momento da vida de Alice.
Dentre todas, era sem dúvida a mais criativa na hora de inventar feitiços. As palavras fluíam fáceis, rápidas. Sua personalidade efusiva a tornou próxima do elemento Fogo.
Wheeler era estadunidense. Sua família era descendente direta das bruxas de Salém, cidade natal da garota. Ela tinha um irmão mais velho, John, que há alguns anos fora estudar na Academia de Londres. Não era muito próxima da família, então não ligava muito que eles estivessem longe.
A primeira vista, Wheeler parecia esnobe e chata. Mas quem a conhecia sabia que ela era, na realidade, engraçada e disposta a fazer tudo por quem ela amava. Talvez por isso que sua especialidade mágica fosse sombra e luz.
Mal tinha se passado um mês de aulas e as quatro já eram inseparáveis. Os astros se alinharam e elas se tornaram melhores amigas e irmãs bruxas.
– Ainda acordada? – se assustou um pouco ao ouvir a voz de .
– É… hoje é uma daquelas noites…
– Vamos assistir a um filme então. – disse ao ligar a televisão. – Quer ver “10 coisas que eu odeio em você”? Eu sei que você ama esse filme.
– Não precisa, . Pode voltar a dormir, eu vou ficar bem.
negou com a cabeça, determinada a não deixar a amiga sozinha.
– De jeito nenhum! Vou te fazer companhia sim! Nem adianta tentar me convencer a dormir. Anda, escolhe o filme. – disse ao entregar o controle na mão da amiga.
– Às vezes, você é muito mandona. – riu baixinho e deu play no filme.
riu também e deu uma piscadinha para a mais nova.
– Eu tenho anos de prática como irmã mais velha.
As meninas sorriram uma para outra, cúmplices. Por hora, estava tudo bem.

 

CAPÍTULO 3

Prodwarth Academy of Magics – um mês depois.
Era cedo pela manhã e as atividades da Academia estavam a todo vapor. Os aprendizes trabalhavam para organizar o ritual solar que aconteceria naquele dia em homenagem ao Equinócio da Primavera, também conhecido por Ostara. A celebração seria grandiosa e todos estavam empolgados para o evento.
– LAVENDER, PELOS ASTROS! TENHA MAIS CUIDADO COM ISSO! – berrou Nash para a irmã mais nova. – ESSA É UMA ESTATUETA MILENAR!
A sempre amável Nash mais parecia um dragão soltando fogo pela boca. Ela era responsável por preparar e arrumar tudo o que fosse necessário para o ritual e seu nível de estresse por conta da tarefa estava para chegar a Plutão. A jovem olhava frenética pelas pranchetas que flutuavam ao seu redor, todas lotadas de detalhes importantes para que tudo saísse perfeito. A caneta mágica, que escrevia enquanto ela ditava, rabiscava furiosamente as folhas.
Michael passou a mão direita pelos cabelos recém-pintados de rosa bebê, em homenagem a Ostara, e um pouco de tinta manchou sua mão. Observava, de longe, a moça se descabelar com o descuido dos outros. Ele tinha um sorriso divertido no rosto, achando engraçada toda a situação. O barulho de algo se arrastando chamou a atenção do rapaz e ele colocou a cabeça para fora do Templo Sagrado.
No fim do corredor estava Ashton Irwin, tentando empurrar uma mesa de carvalho. Michael balançou a cabeça rindo.
– Precisa de ajuda?
Ashton olhou para o amigo e sorriu envergonhado.
– A mesa é bem pesada e não sei onde Calum se enfiou. – comentou ao coçar a parte de trás da cabeça.
– Por que você não a trouxe com levitação? – o rapaz de cabelos rosa se aproximou.
– Porque eu esqueci como se faz. – admitiu Ashton. – Poderia me mostrar?
Michael concordou com a cabeça e pediu que Ashton prestasse atenção. O rapaz juntou polegar com polegar e dedo indicador com dedo indicador, formando um triângulo. Em seguida, separou as mãos lentamente, virando-as para que os polegares apontassem para a mesa a sua frente. Abriu as mãos com as palmas viradas para cima e as elevou vagarosamente, fazendo a mesa flutuar. Ainda com as mãos elevadas, deu alguns passos para trás e a mesa seguiu seu movimento. Abaixou as mãos e colocou o móvel no chão novamente.
– Sua vez.
Ashton respirou fundo e repetiu os movimentos de Michael. Uma exclamação animada saiu por seus lábios quando ele executou o feitiço com perfeição. Os rapazes caminharam juntos até entrarem no Templo e Ashton seguiu flutuando a mesa até o altar, onde deu instruções sobre como ele deveria repousar o móvel.
Orellano apareceu com uma toalha de linho branco e a colocou na mesa. Rapidamente, várias aprendizes da Quarta Classe se aproximaram com alguns itens em mãos. organizou o altar, colocando a estatueta da deusa no centro de tudo. Flores coloridas e velas brancas compunham o visual.
– CLIFFORD! – gritou ao reparar o colega parado sem fazer nada. Fez um movimento com a mão para que ele se aproximasse. – Você está desocupado demais. Pegue o Irwin e veja se as meninas precisam de ajuda para construir as fogueiras. Elas devem estar na clareira.
Michael revirou os olhos, mas concordou com a cabeça. Chamou Ash e juntos eles foram atrás de e .

Na clareira, as coisas iam de mal a pior.
Os dois chegaram a tempo de ver partir para cima de Luke. Suas mãos pegavam fogo e ela parecia pronta para matar o loiro. Por sorte, foi mais rápida e prendeu os braços da amiga com magia, a impedindo de executar o feitiço que machucaria Luke. Alguns metros à frente, Calum prendia o amigo pelo tronco.
– Mas que inferno tá acontecendo aqui?! – Michael indagou alto, atraindo a atenção de todos. – Vocês perderam o juízo?
– É tudo culpa desse imbecil que você chama de amigo! – replicou ao passar as mãos pela roupa, retirando um monte de terra que Luke havia jogado nela.
– Minha culpa?! – a voz de Luke subiu algumas oitavas. – Foi você quem começou quando…
– CHEGA! – interrompeu. – Nós temos muito trabalho pela frente e essa briga não tá ajudando em nada!
– Ela está certa. – todos se surpreenderam com a fala de Calum. – Ashton, vem comigo e com o Luke, vamos montar a outra fogueira. Michael, você ajuda as meninas com essa daqui.
Os grupos se dividiram e se concentraram em montar as fogueiras. Assim que elas estavam prontas, colocaram troncos para os aprendizes sentarem ao redor. Depois posicionaram uma gigantesca tábua em cima de cavaletes de metal, montando uma espécie de mesa para colocarem o jantar que dividiriam após a cerimônia no Templo Sagrado.
As coisas fluíram com tranquilidade e rapidamente tudo estava preparado. O sol do meio dia brilhava alto no céu quente e eles suavam, um pouco pelo esforço mágico realizado e um pouco por conta do calor que irradiava do astro. abriu o cooler vermelho que eles tinham levado e serviu um pouco de limonada em copos para todos. Sentados à sombra de uma árvore, os bruxos se distraíram falando sobre o ritual e a festa que aconteceria depois.
Não muito longe dali, escondido em meio às árvores, um homem de terno preto com detalhes prata nas mangas os observava atentamente.

***

Era final da tarde e todos estavam reunidos no Templo Sagrado. Raios de sol entravam pelos vitrais das janelas, colorindo o interior branco e cinza do Templo com as cores das imagens representadas neles. Os bancos de madeira estavam lotados e o recinto um pouco abafado, mas ninguém parecia realmente se importar.
estava sentada na primeira fila, observando atentamente sua mãe conduzir a cerimônia inicial. A Suprema reluzia, tomando a luz do sol para si própria. Os cabelos loiros da mulher eram como ouro derretido. Ela nunca tinha parecido mais poderosa do que naquele momento.
A Suprema encheu as mãos com água e derramou suavemente sobre a cabeça da estatueta da deusa, entoando uma cantiga ancestral. A estatueta brilhou e sua luz se expandiu lentamente pelo recinto, banhando todos ali presentes. Eles se sentiram quentes por dentro, como se a luz tivesse chegado em seus interiores e os aquecido. Aos poucos, as roupas brancas que todos vestiam para a cerimônia se transformaram em peças com lavagem tie dye em tons pastel.
Os professores da Academia levantaram de suas cadeiras na lateral direita do altar. Levavam na mão direita um ovo com símbolos diversos pintados por eles. A Suprema Nash tomou a estatueta em suas mãos e seguiu para a saída do Templo com todos a seu encalço.
Pelo caminho, floresciam na grama pequenas violetas e delicadas lavandas assim que a Suprema passava. As flores foram escolhidas em homenagem às filhas. A procissão seguiu a trilha pela floresta densa, em poucos minutos todos estavam aglomerados na espaçosa clareira.
– É Equinócio da Primavera. Hoje, celebramos a renovação da Terra e a chegada das flores. Celebramos fertilidade. – a poderosa voz da Suprema resoou. Ela estava atrás da enorme mesa e os professores a rodeavam, ainda com os ovos em mãos. – Hoje, sementes serão plantadas e começarão seu processo de crescimento. Estes ovos representam nossos sonhos e desejos para a estação. – continuou a mulher. – Eles são as sementes que deixaremos sob a Terra e que germinarão nos concedendo bênçãos.
Os professores repousaram os ovos em cestas de vime que estavam sobre a mesa, oito no total.
– É também um momento de igualdade entre as forças da natureza. O momento ideal para fortalecer a energia de complementaridade entre homens e mulheres. – ela fez um movimento com as mãos, chamando os oito aprendizes que estavam à frente do grupo. – Essa igualdade será representada por nossos Ultra.
Bernauer, Luke Hemmings, Orellano, Calum Hood, Nash, Michael Clifford, Wheeler e Ashton Irwin se posicionaram em frente as cestas e cuidadosamente tomaram ovos em mãos. respirou fundo antes de falar:
– Os símbolos expressam união, fartura, equilíbrio e amor. – sua voz saiu um pouco trêmula, era a primeira vez que a moça tinha um papel tão importante em um ritual. – Nós iremos enterrá-los na esperança de receber tudo o que os ovos carregam. Como preparativo final, peço que mentalizem esses sentimentos e deixem que eles saiam de vocês junto à respiração.
Todos inspiraram e expiraram vagarosamente. Depois de alguns instantes, as cores das roupas de todos foram desvanecendo. As cores rodopiavam entre os ali presentes, ficando cada vez mais intensas com o desbotar das vestes. Elas flutuavam em direção aos ovos. Estes, anteriormente brancos, sugaram as cores para si. Eles reluziam, cheios com as energias mandadas pelos aprendizes e professores.
Os oito bruxos se ajoelharam e enterraram seus respectivos ovos.
– É hora de deixar as dificuldades irem embora com o inverno. Vamos semear a harmonia! – finalizou .
O sol estava se pondo, colorindo o céu em lindos tons roxos e azuis. acendeu as fogueiras ao lançar uma bola de fogo em cada pilha de madeira. Com um estalar de dedos da Suprema, surgiram pratos repletos de comida na mesa. Era o fim do ritual.

Algumas horas depois, após os professores terem deixado a clareira, tocava música alta e os aprendizes faziam uma festa. Os copos vermelhos estavam cheios de ponche de algum sabor cítrico artificial.
Ao caminhar para a borda da floresta, Bernauer viu e Michael sentados em um tronco afastado, conversando animadamente. A amiga estava agasalhada com uma jaqueta do rapaz e sorriu com a imagem. sempre fora apaixonada por ele, mesmo que não admitisse, e era bom ver que o sentimento parecia ser recíproco.
andou por entre as árvores até chegar ao riacho que ficava um pouco mais para dentro da floresta. Era um espaço bem aberto e uma orla de pedrinhas cinza se estendia até a margem.
Na beirada da água, em uma grande pedra achatada, estava Luke Hemmings. Os cachos loiros refletiam a lua suave da lua. caminhou silenciosamente até onde ele estava e sentou-se ao seu lado, o assustando um pouco.
– Pelos astros, Bernauer! – o rapaz reclamou ao revirar os olhos. – O que faz aqui?
– Fugindo um pouco da confusão da clareira. – ela deu de ombros ao retirar dos olhos uma mecha de cabelo assoprada pelo vento.
Luke olhou na direção da festa, o barulho da música chegava até eles como um ruído distante.
– Eu também.
– Achei que você gostasse de festas.
O rapaz suspirou. Ele realmente gostava de festas. A música alta, as bebidas, o amontoado de gente dançando. Ele sempre ficava feliz. Mas, por algum motivo, naquela noite ele não estava animado.
– Acho que não estou na vibe para celebrar hoje. – disse ao olhar para , que observava as ondulações da água. – Estou surpreso que você está sentada aqui.
desviou o olhar para ele, confusa. Ela reparou que os olhos azuis dele pareciam quase transparentes com a luz da lua batendo neles.
– Bom… você quase me matou hoje mais cedo. – Luke riu ao falar, relembrando a briga deles.
– Ah, por favor! – revirou os olhos enquanto mexia na barra da saia jeans branca. – Eu só ia dar uma chamuscada de leve em você. Sabe como é, dar uma surrinha de nada pra ver se você fica menos convencido.
– Eu entendo que você tenha uma paixonite reprimida por mim, mas não precisa tacar fogo na minha cabeça. Me matar não vai acabar com esse sentimento! – ele falou ainda rindo. – AI!
tinha dado um tapa ardido no braço de Luke, que agora esfregava o braço coberto pela camisa social com um bico nos lábios. A garota tinha um sorriso divertido.
– Se alguém aqui está apaixonado, Hemmings, esse alguém é você por mim! Você morre de vontade de me beijar que eu sei.
– Admiro sua autoestima, querida Bernauer. Mas sinto te informar que você ainda vai me beijar primeiro. – ele disse ao dar uma piscadinha para ela.
– Quer apostar? – ela perguntou desafiadora. Sabia que o rapaz adorava uma aposta.
– Eu até apostaria…
– Mas?
– Mas não é certo apostar com quem já começa perdendo.
balançou a cabeça em negação.
– Como eu falei: você precisa levar uma surra para ver se fica menos convencido! – falou sorrindo. – Vai apostar ou tá com medo de perder?
– Está apostado, Bernauer. – Luke esticou a mão e apertou. Chacoalharam as mãos, selando a aposta.
Eles se olharam e começaram a rir.
– Olha! Estrelas cadentes! – Luke comentou animado ao ver lampejos prata cruzarem o céu estrelado. – Vamos fazer um pedido, .
A moça fechou os olhos e pensou por alguns instantes. Ela olhou para ele e sorriu. Estava prestes a perguntar qual o pedido dele quando eles ouviram gritos vindos da clareira. Eram gritos desesperados, como se algo de errado estivesse acontecendo. Sem hesitar, levantaram e correram de encontro aos amigos.

Clareira – alguns minutos antes.
Wheeler e Orellano serviam um pouco mais do ponche alcoólico enquanto conversavam sobre como a prima de , Adelaide Smith, estava se jogando pra cima de Calum. Ela e Calum namoraram há alguns anos, mas ele terminou tudo e desde então a garota nunca havia superado.
As amigas se aproximaram da fogueira e sentaram em um banco afastado de outras aprendizes da Primeira Classe. Ashton estava rodeado por algumas delas e o olhou com uma expressão julgadora. Nunca fora muito próxima das aprendizes da idade dela além de suas amigas. A realidade era que a maioria das garotas da Primeira Classe não gostavam muito das Ultra, desde quando elas era adolescentes. As meninas não se importavam, as outras eram um pouco fúteis demais pro gosto delas.
deu um longo gole na bebida, fazendo careta quando o álcool desceu queimando por sua garganta. Ashton a pegou encarando e ela desviou o olhar rapidamente, um pouco envergonhada de ter sido flagrada.
Do lado oposto da clareira, Lavender Nash dançava com algumas amigas da Terceira Classe. Ela fez sinal com as mãos chamando as duas mais velhas para dançar. recusou o convite, ao passo que arrumou o short branco ao se levantar e saiu correndo em direção as meninas.
e Lavender começaram a fazer uma coreografia juntas e as outras formaram uma roda para que elas dançassem no meio. Elas batiam palmas e gritavam, encorajando as amigas.
– Sabe… você não precisa ficar me olhando feio por estar falando com outras garotas, . Eu prefiro falar com você mil vezes mais do que com qualquer uma daquelas meninas.
voltou o olhar para Ashton, que agora estava sentado ao seu lado. Ele usava uma blusa social branca com os três botões de cima abertos e uma calça social, também branca. A manga curta deixava amostra as tatuagens que ele tinha nos braços. Uma corrente fina de prata repousava na base do pescoço dele. Ashton levou o copo aos lábios e deu um gole rápido.
– Em primeiro lugar, quem te deu intimidade para me chamar pelo apelido? – ela cerrou os olhos ao indagar. – Em segundo, eu não quero falar com você, Irwin. Elas só conversam com você porque é o mais novo “bad boy”. O brinquedo brilhante a ser conquistado.
O sorriso de Ashton se alargou e a cabeça de ameaçava explodir de ódio. Ela não entendia como ou por que ele insistia nela, mesmo com todas as grosserias que ela fazia com ele.
– Você é engraçada, . – ele disse. – Toda conversa nossa eu fico sempre esperando você me cortar até o osso sem necessidade. Não estou te pedindo nada além de uma oportunidade de ser seu… amigo.
se levantou de uma vez. Ouvi-lo falar que queria ser “seu amigo” doeu de uma maneira que ela não esperava. Ela nem gostava de Ashton, achava-o irritante e folgado. Sempre fazia alguma gracinha que ela não gostava.
– Você não iria gostar muito de mim. – ela falou enquanto alisava um amassado inexistente no vestido que usava. Ainda tinha esperanças que ele desistisse da ideia.
– Posso decidir isso sozinho? – ele carregava um olhar sério.
Sem se dignar a responder, ela deu as costas e caminhou rápido em direção a . Estava na metade do caminho quando vários lampejos prata rasgaram o céu em direção à clareira. Todos congelaram em seus lugares e, nos breves segundos de hesitação, homens em ternos pretos com detalhes prata nas mangas se materializaram e agarraram alguns aprendizes.
Os jovens presos se debatiam para se soltar e os que estavam livres atacaram. A música que tocava foi substituída por gritos de ajuda. O ar parecia pesado e insuficiente para abastecer os pulmões de cada um ali presente.
Orellano acertou uma lufada de Ar em um dos homens, livrando uma aluna da Quinta Classe de ser agarrada por ele. Em seguida, atacou com um jato d’Água outro homem que prendia um aprendiz mais novo.
Um clarão roxo brilhou pela clareira, distraindo os homens por alguns instantes. Os aprendizes sabiam que era coisa de Michael Clifford, que havia acabado de criar um círculo de proteção para eles. Cada vez mais o sigilo desenhado pelo rapaz se expandia, acolhendo aqueles que estavam por perto. De dentro do círculo, Michael atacava os invasores com pequenos tornados e manipulava a Água para levar os alunos até eles.
nocauteou dois homens que encurralavam uma aprendiz novata e viu Adelaide ser presa por um dos homens. A prima se debateu e tentou acertar o homem, sem sucesso. Em um movimento rápido, estalou um chicote de Luz nele, gritando um feitiço de expulsão:
– EXPELLO! – o chicote acertou o homem e ele evaporou em uma nuvem prateada.
Nesse momento, e Luke apareceram na clareira. Cobras de Fogo serpentearam das mãos em chamas da jovem e perseguiram alguns homens. Luke abria buracos no chão, prendendo outros para que alguém os expulsasse. O chicote de logo foi acompanhado pelo de Adelaide, que também trabalhava arduamente para expulsar os invasores.
Lutando em conjunto, Calum e Ashton encurralaram outros três homens. Calum, por ser mais experiente, conjurou mais um chicote para a briga e atingiu os homens com força total. Em instantes, eles sumiram pelo céu noturno.
saiu do círculo e se juntou às amigas no centro da clareira, onde ocorria a luta mais intensa. Ela também tinha um chicote em mãos e afogava os invasores com mini-tsunamis antes de expulsá-los.
O número de homens que ainda estavam lá era alarmante. Os aprendizes começavam a ficar cansados. expulsou outro invasor com um golpe cheio de ódio. Ouviu gritos de socorro e se virou procurando pela pessoa.
, CUIDADO! – Calum gritou de algum lugar em meio à confusão.
Ela não teve tempo de reagir. Como se o mundo tivesse ficado em câmera lenta, ela viu o homem a sua frente a agarrar pelos braços. O chicote desapareceu de suas mãos, a magia interrompida pelo susto. Ele tinha um sorriso maldoso, os traços clássicos de seu rosto formavam uma expressão maquiavélica. sentiu quando ele tentou aparatar com ela. A jovem resistiu, fazendo o caminho contrário.
A velocidade dos movimentos voltou quando eles começaram a rodopiar pela clareira. Sobrevoavam a briga, os feitiços executados não passavam de borrões coloridos. Agora via o rosto dele deformado pela velocidade em que eles voavam, girando sem parar. Ela o empurrava, mas a força que ele imprimia em seus braços tornava impossível a missão dela de se soltar.
Um clarão de luz irrompeu em sua visão e o homem desapareceu numa explosão prata. Ela despencou do céu, mas atingiu o chão vagarosamente. Alguém tinha lançado um feitiço para desacelerar sua queda. Novamente, ela sentiu mãos a segurarem. Estava pronta para reagir quando percebeu que era Calum. O chicote brilhava em sua mão direita.
– Você está bem?
– Sim. – ela respondeu com a respiração rápida. – Vamos, ainda temos muitos deles para expulsar.
Ela se juntou a Ashton, que encarava dois invasores sozinho. O rapaz fez o chão ondular, desequilibrando os homens e os atingiu. Sorriu satisfeita ao ver a fumaça prateada.
A poucos metros dali, brigava com outro manipulador do Fogo. Ela tentava empurrá-lo para o alcance de alguém com um chicote. O homem começou a girar o braço esquerdo, criando um círculo de fogo. A mão direita controlava a cobra que lutava com a de .
Luke percebeu a situação assim que o círculo de fogo virou uma segunda cobra pronta para atacar. O rapaz lançou o chicote em direção ao homem, que deu um grito surpreso com o golpe.
Aos poucos, o número de chicotes na clareira aumentou. Os aprendizes mais experientes manipulavam os elementos e carregavam o feitiço de expulsão, abatendo os inimigos rapidamente. Eles davam tudo de si e o trabalho feito em conjunto fluía como se eles tivessem treinado para esse momento.
Um grito agudo resoou pela clareira.
Era Lavender Nash, que fora aprisionada por um dos poucos homens que restavam. Ao ver a cena, todos sentiram o ar ser completamente expulso de seus pulmões. Para , que via a cena de perto, tudo se movia em câmera lenta.
O homem começou a aparatar e, na tentativa de impedir, bateu o chicote de Luz na direção dele, o ódio correndo por suas veias como se fosse fogo. Um raio prateado cortou o céu negro, seguido imediatamente por alguns outros. viu com desespero o chicote estalar contra o vazio onde, momentos antes, o homem estava com sua irmã mais nova.
Lavender Nash fora sequestrada.

 

 

CAPÍTULO 4

estava sentada no sofá na janela do quarto que ela dividia com . Ela observava as primeiras movimentações de alunos pelo pátio dos dormitórios. Olheiras roxas e fundas se destacavam no rosto da jovem. Estava sem dormir há quatro dias, desde que Lavender fora sequestrada. As mãos pequenas apertavam o colar dourado com um pingente de sol que ela usava combinando com a irmã e a mãe.
A moça se recordava vagamente dos acontecimentos, os dias que seguiram o sequestro foram um verdadeiro caos. Os aprendizes estavam com medo e com razão. Ninguém sabia quem eram aqueles homens ou o que eles queriam. Tudo o que sabiam era que todos usavam o mesmo terno preto com bordados prata nas mangas.
Nas horas seguintes ao sequestro, os professores fizeram uma varredura pela floresta e pelos prédios da Academia e não encontraram nada. Juntos, com a Suprema comandando a equipe, eles reforçaram os feitiços de proteção que rodeavam o terreno. Poucas horas depois, bruxas e bruxos do Conselho de Magia chegaram à Academia para investigar o ocorrido.
Dahlia Nash mostrou mais uma vez o porquê de ser ela a maior autoridade da Prodwarth. Mesmo estando abalada com a notícia do sequestro de sua filha mais nova ela teve forças para agir e apaziguar os ânimos dos aprendizes e pais que ligaram incansavelmente após o ocorrido, além de lidar com os investigadores.
Os corredores estavam lotados de aprendizes esperando serem chamados para o interrogatório instaurado pelo Conselho. Os agentes especializados juntavam informações dos alunos e buscaram qualquer coisa que parecesse fora do normal, mas também não chegaram a lugar algum.
Os pensamentos de foram interrompidos quando abriu a porta do banheiro, pronta para as aulas do dia. Ela caminhou até a janela e sentou no sofá, a almofada macia afundando mais um pouco com o peso da jovem. olhou para fora, a fim de ver o que achava tão interessante.
O pátio estava vazio.
– A aula de Poções de hoje vai ser voltada para poções curativas. – proferiu com uma voz baixa, com medo de assustar a amiga. – Você estava bem animada com esse capítulo, você sabe, por cura ser sua especialidade e tal… – ela tagarelou, observando atentamente a reação da mais velha.
virou o rosto lentamente para , um olhar de profunda tristeza marcava sua expressão. Ela suspirou e abaixou os olhos, mirando a almofada laranja que repousava em seu colo.
– Tudo bem então, eu vou me certificar de ter tudo anotado pra você.
se levantou e deu um beijo na cabeça de . Sabia que o sequestro de Lavender era algo pesado para , afinal as irmãs eram muito amigas e muito próximas. Eventualmente, iria se recompor e voltar às atividades normais, mas enquanto isso não acontecia, se preocupava constantemente.
Pegou a bolsa e alguns livros e caminhou para a saída do quarto. Antes de fechar a porta, olhou mais uma vez para a amiga e orou para que os astros a dessem forças para continuar.

 

Os assobios do vento de primavera e a respiração leve do rapaz eram as únicas coisas audíveis àquela hora da noite. Era tarde, mas Calum não se importava. Caminhou cuidadoso pelo corredor do dormitório e desceu silenciosamente as escadas do segundo andar para o térreo do prédio.
Precisava fumar.
Saiu pela porta dos fundos, tendo a ideia de sentar em um banco de madeira que ficava na área de lazer externa. Assim que fechou a porta, pegou um cigarro Marlboro do maço e o acendeu avidamente. Levou a coisa aos lábios e deu uma longa tragada. Esse pequeno gesto lhe deu uma calmaria que não sentia há dias. Todo o caos que se instalara na Academia o deixou extremamente tenso e Calum precisava do conforto do cigarro. Prendeu a fumaça por alguns instantes e então a soltou aos poucos. Puxou mais uma vez e repetiu o mesmo ritual de antes. Tão logo o cigarro acabou.
Retirou outro cigarro e posicionou-o para acender. Estava no nível de estresse que permitia que ele fumasse dois cigarros. Ele escutou passos se aproximando e levantou o olhar para constatar que Orellano vinha em sua direção. Acendeu o cigarro enquanto observava a moça de cabelos longos sentar ao seu lado.
– Achei que você tinha parado de fumar.
Calum soltou a fumaça que estava presa na boca. O cheiro da nicotina fazia o nariz de coçar.
– Eu estou no processo. – respondeu antes de levar o cigarro aos lábios novamente. – Os últimos dias tornaram meio impossível eu não fumar.
o observava com atenção. De fato, Calum parecia mais relaxado ali naquele momento do que parecera em qualquer outro durante a semana. Ela não sabia bem o que estava fazendo ali. Estava na sala de TV do dormitório das meninas quando viu Calum atravessar o pátio e foi até ele. Talvez só quisesse companhia, mesmo que fosse a de alguém que supostamente detestava ela.
– Como está ?
– Melhorando. – se surpreendeu com a pergunta dele, não achava que o rapaz se importava. – Ela finalmente dormiu, então já é um avanço.
– Imagino que deva ser muito impactante pra ela. – ele disse pensativo. – Eu surtaria no lugar dela.
– Você tem irmãos, Calum? – a moça perguntou. Era esquisito como ela não sabia absolutamente nada sobre ele.
– Uma irmã mais velha. Ela se chama Mali e é professora na Academia de Londres. – o jeito que ele falava de Mali era lindo. Calum amava muito a irmã. – Eu ficaria louco caso ela fosse sequestrada. Ou um dos caras.
– Eu não tenho irmãos. – ela começou, mas se corrigiu. – De sangue, eu digo. Com certeza eu teria uma crise caso uma das meninas fossem levadas.
Calum soltou mais fumaça e fez um movimento com as mãos, juntando a fumaça em uma esfera. O rapaz olhou estranho para ela, que deu de ombros. Mais fumaça saiu pelos lábios dele e ela adicionou à bola, que duplicou de tamanho. Intrigado, Calum soltou a fumaça do último resto do cigarro, jogou a bituca no chão e pisou nela para apagá-la. Mais uma vez, aprisionou a fumaça.
– Ok… O que você está fazendo?
– Aliviando a tensão. – ela respondeu simples. – Quero te mostrar um feitiço que aprendi esses dias.
Ela posicionou a esfera de fumaça próxima à boca. Levantou a mão direita com o dedo indicador dobrado. Soprou levemente a esfera enquanto a mão se movia em círculos lentos, o que ocasionou a saída da fumaça em espiral. Aos poucos, a fumaça assoprada tomou forma de estrela. esticou a mão e a estrela girou, se transformando em estrelas menores antes de dissipar e sumir no ar.
Calum olhou encantado para a garota. Nunca havia visto ninguém fazer nada como aquilo. Era uma mágica simples, mas bela.
– Nem sei por que quis te mostrar isso, mas enfim. – falou um pouco envergonhada. – Achei que fosse gostar e talvez te distrair.
– Fico feliz que tenha feito isso, eu adorei. – ele sorriu para ela. Era um sorriso aberto e caloroso, que fez se sentir quente por dentro. – Vai ter que me ensinar, serei a sensação das festas se fizer isso quando fumar meu cigarro.
deu uma risada divertida e Calum riu junto. Ela não pôde deixar de pensar que aquele momento entre eles era único e que ela queria uma segunda dose. Nunca imaginou que pudesse ter um momento descontraído com Calum Hood, mas ali estava ela pagando a própria língua.
Eles caíram em um silêncio confortável, apreciando a brisa suave da noite e o céu estrelado acima deles. Ouviram ao longe o som de uma coruja. Ambos refletiam sobre os últimos dias, a ansiedade voltando a dar as caras.
– Quem você acha que é responsável por isso tudo? – foi quem quebrou o silêncio.
– Eu não tenho a menor ideia. – Calum falou ao olhar para ela, que brincava com as mangas do casaco de moletom. – Mas acho que são as mesmas pessoas que sequestraram Collin. Tenho quase certeza disso.
– Sabe que pensei a mesma coisa. – se posicionou de forma que seu corpo estava virado para Calum. – Eles sabiam do ritual, o ataque não foi mera coincidência. A única explicação para isso é que eles estão com Collin e ele contou sobre o ritual e talvez até como entrar aqui.
– É isso que me deixa confuso. – o rapaz falou ao passar a mão no cabelo cacheado. – Collin não conhece as estruturas de defesa da Academia, ou pelo menos não deveria conhecer. O que me faz pensar que alguém aqui dentro passou a informação.
arregalou os olhos com a fala de Calum. Seria possível que tivessem um traidor entre eles?
– Mas Calum, se foi alguém aqui dentro, esse alguém teria que ser um professor. Acho difícil algum aprendiz ser tão informado a ponto de saber os feitiços de defesa. – se sentia aflita com as novas possibilidades rodando pela mente. – Nós somos Primeira Classe e nunca estudamos nada remotamente parecido com isso. É magia avançada demais!
– Concordo com você nesse ponto. Porém não acho que seja informação impossível de ser conseguida. Algo assim deve estar em algum Livro das Sombras da Suprema Nash ou do professor Morozov.
– A única maneira de ter acesso a isso seria roubando.
, por favor. Para alguém que vai deixar o inimigo entrar na Academia, um roubo de livro é o de menos.
Ele tinha razão e ela sabia. Eram muitas novas informações para assimilar e sentia que a cabeça agora pesava mil quilos. Passou as mãos pelo rosto, o desespero crescendo.
– Acho que temos que falar sobre isso com a Suprema. – proferiu Calum.
Não podemos e não vamos. – falou de maneira enfática. – Nós nem sabemos se isso tudo tem algum fundamento. Não podemos simplesmente ir à sala dela e jogar essa bomba ser ter algum tipo de prova bem concreta.
– E o que você sugere, senhorita Orellano? – ele falou com um tom leve de provocação.
– Eu sugiro, senhor Hood, – a moça devolveu no mesmo tom. – que a gente investigue tudo isso. Se acharmos algo suspeito, botamos a boca no trombone e contamos tudo para a Suprema. Caso a gente não ache nada, só deixamos de lado.
– Bom, parece que temos um plano. Agora a pergunta é: por onde começamos?
pensou por alguns instantes. De nada adiantava tentar procurar algum responsável dentro da Academia se eles não sabiam quem eram os responsáveis fora.
– Temos que descobrir quem são esses homens, creio que é o primeiro passo a ser dado. Qualquer coisa que possa revelar a identidade de pelo menos um deles.
– Concordo. – Calum falou ao se levantar do banco. – Está bem tarde, acho melhor a gente entrar e descansar um pouco. Tentar assimilar as coisas. Amanhã falamos mais sobre isso, pode ser?
levantou-se também e concordou com a cabeça.
– Só uma coisa. – ela pediu assim que Calum começou a andar em direção ao dormitório masculino. – Vamos deixar isso entre nós, pelo menos por enquanto. Se a pesquisa for pra frente, envolvemos nossos amigos.
– Tudo bem. – ele disse e voltou a caminhar. Deu alguns passos e parou, se virando para que caminhava para o dormitório feminino. – Hm, boa noite.
– Boa noite, Hood. – ela disse ao revirar os olhos, com um leve sorriso nos lábios. Ele sorriu de volta e ambos entraram em seus dormitórios.

***

Mais uma vez, Ashton Irwin se encontrava na rua dos bares, na esquina do beco onde ele viu Collin Wilde ser sequestrado. Diferentemente da experiência da visão, ele não sente a pontada aguda na cabeça ou o sopro gelado e arrepio na nuca.
Ashton olha para o beco e lá está Collin, caído no chão. Logo os homens aparecem e começa a disputa que o rapaz já sabia que Collin perdera. Dessa vez, a roupa que eles trajavam chama a atenção dele. Ele tenta se lembrar, mas não consegue raciocinar onde mais tinha visto os paletós pretos com bordado prata na manga.
O sonho muda e Ashton percebe que está na clareira, no dia em que a Academia foi invadida. Ele é um mero observador da guerra que acontecia. Viu Calum e ele mesmo encurralando alguns homens. A cena continua e Ashton tem certeza que está deixando de perceber algo importante. Ele observa tudo, mas não consegue compreender por que está revivendo aquele dia.
O rapaz continuou a acompanhar a luta. Somente quando um dos invasores se aproxima de onde ele estava, é que ele percebe. Era algo simples, que estava sob seu nariz esse tempo todo, e Ashton se pergunta como deixou esse detalhe passar despercebido por todos esses dias.
Os invasores usavam o mesmo paletó dos homens que levaram Collin.

***

Havia horas que Ashton estava deitado na cama virando de um lado para o outro. Ele acordou após a descoberta que teve enquanto dormia e desde então sua mente não parou de trabalhar. Os sequestradores de Collin e Lavender eram os mesmos, ele não tinha dúvida sobre isso. Entretanto, não conseguia decidir o que fazer com a informação.
Era fato que ele teria que contar tudo para alguém. Sua mente voou até . Ela iria escutá-lo e saber como lidar com a informação melhor do que ele. O rapaz pensou também em contar sobre as visões que teve sobre ela, mas não sabia qual seria a reação da moça. Levando em consideração a conversa que eles tiveram no dia do ritual, talvez ela gritasse com ele.
O despertador soou pelo quarto e Ashton sentou na cama, pronto para começar mais um dia de aulas. Calum resmungou algo incompreensível e voltou a dormir. O mais velho se dirigiu ao banheiro e deixou que o amigo dormisse mais um pouco enquanto ele se arrumava.
Lavou o rosto, escovou os dentes, penteou os cabelos loiros pra cima e vestiu as roupas de sempre: jeans preto, uma blusa preta de algodão, jaqueta de couro e coturno. Quando saiu do banheiro, Calum já estava de pé.
– Bom dia. – o moreno falou preguicosamente.
– Bom dia. – Ashton respondeu antes de Calum ir se arrumar. Ele agora conhecia a rotina do amigo e sabia que era inútil tentar conversar antes de ele estar completamente acordado.
Enquanto aguardava Calum ficar pronto para eles irem tomar café, Ashton viu pela janela do quarto que estava sentada em um dos bancos do pátio mexendo em sua bolsa. Sem pensar duas vezes, saiu apressado para falar com ela. Era agora ou nunca.

Ao sair pela porta da frente do dormitório, Ashton percebeu que a garota não estava mais lá. Olhou ao redor por alguns instantes e a viu entrar no prédio que levava ao refeitório. Correu até ela, na esperança de alcançá-la enquanto ela ainda estivesse sozinha.
! – ele chamou alto ao se aproximar dela.
O corredor estava vazio, exceto pelos dois. A moça se virou com uma cara de poucos amigos.
– Irwin. – disse com um tom impaciente.
– Eu preciso falar com você.
– Já está falando. – ela replicou enquanto ajustava a alça da bolsa no ombro direito.
– Sim, eu… – Ashton se sentiu um pouco intimidado pelo olhar julgador dela. Talvez não tivesse sido uma boa ideia. – Eu preciso que seja em particular. Em algum lugar que não vão nos interromper ou escutar a conversa.
olhou para os lados e viu uma porta com uma placa indicando que ali era o almoxarifado. Andou até ela e girou a maçaneta, descobrindo que estava destrancada. Olhou para Ashton e levantou a sobrancelha esquerda. Ele assentiu com a cabeça e eles entraram no pequeno cômodo.
A saleta era apertada e abafada. apertou o interruptor na parede antes de fechar a porta. A luz pendurada no teto piscou várias vezes até se estabilizar. A iluminação era precoce e mal existia espaço para os dois ficarem, mas era o que tinham no momento. Ashton ajeitou alguns sacos cheios de panos para que se sentasse. Era melhor não receber as notícias de pé, por precaução.
– Pois bem. – a garota começou a falar enquanto sentava. – Desembucha logo porque eu não tenho o dia todo.
– Primeiro eu quero pedir que você escute tudo o que tenho a dizer sem me interromper, tudo bem? – disse sim com um aceno de cabeça. – Ótimo. Essa noite eu tive uma revelação. Eu sonhei com algumas coisas e acho que descobri uma informação que ajudará a chegar aos culpados pelos sequestros.
A garota abriu a boca para falar, mas Ashton a cortou antes.
– Você concordou em me deixar terminar! – ele proferiu rápido e ela levantou as mãos, dando a entender que ficaria quieta. – Como eu estava falando, esses sonhos tinham algo em comum e eu demorei um pouco para perceber. Eu sei que você deve estar pensando “como você sabe que são sonhos e não visões?”. – ela concordou com a cabeça. – Eu não sei, mas eu sinto. A sensação foi diferente de todas as vezes que eu tive visões. Não sabia pra quem contar e algo me disse que deveria ser para você. – ele respirou após finalizar. – Pode falar agora.
– Minha primeira dúvida é: qual foi a revelação?
– Os homens que sequestraram o Collin são os mesmos que levaram a Lavender.
– E como você sabe disso? – perguntou desconfiada.
– Não sei se você reparou, mas no dia do ritual os homens que apareceram usavam um paletó preto com detalhes em prata na manga.
– Eu reparei sim. Achei uma escolha de look um tanto intrigante para um sequestro. – ela respondeu com uma leve risada. – Definitivamente é algo marcante.
– Exatamente. Na noite passada eu sonhei com o sequestro do Collin. Não com tudo da maneira que aconteceu, mas com a parte importante: a que os sequestradores dele usavam o mesmo paletó dos do ritual.
Silêncio recaiu sobre eles por alguns instantes. tentava processar as informações que Ashton acabara de revelar.
– Você tem certeza disso? – ela perguntou e ele concordou. – Ok, eu tenho outra dúvida. Como você sabe que uma visão é uma visão? Quero dizer, você falou que teve outras além do sequestro, falou sobre sensações diferentes. O que te leva a pensar que são visões e não sonhos?
Ashton não sabia como responder a essa pergunta sem revelar seu segredo. percebeu o impasse em que ele se encontrava e entendeu que o rapaz debatia se ocultava alguma informação.
– Presta bem atenção no que eu vou te falar, Irwin. – ela suspirou antes de continuar. – Você veio atrás de mim para conversar e pedir ajuda. Sei lá por qual motivo, você confia em mim. Então me fala o que você tanto pensa se esconde de mim ou não.
O rapaz respirou fundo, pedindo coragem aos astros. Uma hora ou outra ele acabaria contando para ela, então melhor que fosse agora.
– Eu não falei nada no dia que nos conhecemos porque você ia me achar um esquisitão.
Mais do que já acho? – ela respondeu debochada.
– Eu to falando sério, ! – Ashton revirou os olhos. – Antes de entrar para a Prodwarth, eu não sabia que era bruxo. Minha mãe escondeu de mim para me proteger. Logicamente não deu certo. Quando eu tive a visão com o Collin, eu senti algumas coisas que penso serem os indicativos de que estou tendo uma visão. – o observava atenta. Ele coçou a parte de trás da cabeça antes de prosseguir. – Eu não sei como falar isso sem parecer um stalker ou sei lá. Mas eu tive as mesmas sensações ao ver você. Não fisicamente, mas enquanto eu dormia. Antes de vir para a Academia eu tive visões com você, .
parecia que estava congelada no lugar. Ashton jurava que ela nem respirava.
– Em uma das visões, você apareceu com o Livro das Sombras de Collin. Eu me lembro que você fazia algum feitiço e o Livro voltava a ser o que era, com as anotações dele. Você lia algo essencial para desvendar esse mistério todo. – O rapaz fez uma pausa para respirar fundo. – Nunca soube quem você era até chegar aqui. Quando te vi, as coisas se encaixaram. Todas as visões que tive com você e a com Collin. – ele suspirou, aliviado por ter revelado o segredo. – Posso estar sendo meio louco, mas acho que você é uma peça-chave para descobrirmos o que está acontecendo.
o olhava como se uma segunda cabeça tivesse crescido em seu pescoço. Ela sentia o ar ficar escasso dentro do cômodo. Em um impulso, se levantou e esbarrou em Ashton ao sair correndo porta afora.

observava andar aflita de um lado para o outro no quarto que a mais velha dividia com . Ela acabara de contar para elas todos os detalhes da conversa que teve com Ashton alguns minutos antes. Estava irritada com o rapaz e reclamava sem parar.
, você está sendo infantil. – declarou após alguns minutos aguentando o chilique da amiga.
– Eu estou sendo infantil?! – ela exclamou ofendida. – O que você espera que eu faça? Por favor, , me ilumine com seus pensamentos adultos.
suspirou e apoiou a cabeça na mão. tinha acabado de começar uma briga que não acabaria tão rápido. Isso porque ela nem havia contado sobre a conversa que tivera com Calum.
– Você poderia começar se acalmando. – a moça de cabelos cacheados falou calmamente. – Não é justo você culpar o Ashton por isso tudo. Ele não escolheu ser clarividente.
As duas começam a brigar intensamente. Sem a menor paciência para o drama, pega seu celular para avisar Calum que contaria para as amigas.

: oi, é a Orellano
: n sei se o Irwin conversou com vc, mas ele e a tiveram uma conversa e ela tá bem puta
Calum: ele contou pra gente agora…
Calum: acho q devíamos falar sobre a nossa conversa
: pensei a mesma coisa
: vou contar pras meninas agora
Calum: de boa
Calum: vou contar pros caras
Calum: boa sorte com elas kkkkk
: obgda kkkkkk eu vou precisar

– Terra para Orellano! – exclamou ao sacudir a mão na frente da tela do celular. – Quem é tão importante pra você só deixar a gente brigar sem falar nada?
– Errr… Eu estava falando com o Calum. – ela revelou, sentindo o rosto queimar de vergonha.
– CALUM HOOD?! – as amigas exclamaram em uníssono.
– Conhecem outro por acaso?
– Por que você estava mandando mensagem pra esse garoto? – questionou com um tom levemente julgador.
Por medo de ser repreendida pelas amigas, deixou de fora a parte do feitiço com a fumaça. Mas compartilhou todas as informações e suspeitas discutidas com Calum. pareceu um pouco apavorada com a possibilidade de ter um traidor entre eles. As meninas conversaram mais um pouco sobre o assunto e combinaram em manter as descobertas apenas entre elas. Assim que se sentisse melhor, elas contariam tudo.

Michael entrou no dormitório das meninas com um prato de comida e uma garrafinha de suco de laranja em mãos. Tecnicamente, ele não podia estar ali. Mas pediu que o rapaz levasse jantar para , na esperança que ele conseguiria convencê-la a comer algo.
Ele subiu as escadas apressado e caminhou rápido até a terceira porta a esquerda, que era o quarto de . Bateu de leve algumas vezes e ouviu a voz suave autorizar a entrada dele.
Ela estava sentada em um pufe na frente da TV.
– Oi. – Michael falou um pouco apreensivo. – Eu trouxe jantar pra você.
Os olhos de brilharam, como se ela fosse chorar. Michael reparou que as olheiras dela estavam profundas e também que ela parecia mais magra. O coração dele apertou no peito.
– Eu não to com fome. – ela respondeu baixo. – Mas obrigada.
Michael sentou no pufe ao lado dela, ainda com o prato em mãos. Tirou o papel alumínio que protegia o yakissoba que separara para . Ela olhou de lado para o prato, repensando a decisão.
falou que é seu favorito. – ele falou com um sorriso. – Tem certeza que não vai querer? Você precisa comer um pouco.
Com um suspiro derrotado, pegou o prato da mão dele. Os dois ficaram em silêncio, assistindo à TV enquanto a moça dava pequenas garfadas na comida.
– Eu não sei bem como falar isso. – ele limpou a garganta antes de prosseguir. – Sinto muito pelo que você tá passando. Eu sei que vocês são muito próximas.
– Obrigada. – repousou o garfo e desviou o olhar da TV para o dele. – Por ter trazido jantar e tudo. Eu sei que estou dando trabalho para as meninas. Desculpa te envolver nisso.
– Não tem problema. Você não tá dando trabalho pra ninguém. – Michael respondeu com um sorriso acolhedor. – Eu me preocupo com você.
A verdade era que Michael gostava bastante dela. sempre fora gentil e educada com ele, mesmo quando as brigas entre suas amigas e os amigos dele atingiram níveis catastróficos. E ele tinha percebido isso há alguns meses, mas não teve coragem de agir até a noite do ritual.
sorriu tímida e voltou sua atenção para a TV, envergonhada demais para seguir encarando Michael. Ela se sentia quente por dentro e não entendia muito bem o sentimento, mas gostava de se sentir assim.
Os dois assistiram ao filme, apenas apreciando a companhia um do outro. Perto do final, Michael percebeu que estava dormindo. Desligou a televisão antes de cuidadosamente a pegar no colo e levar até uma das camas. Cobriu a garota e, por impulso, deu um beijo na testa dela.
Caminhou apressado até a saída e fechou a porta suavemente ao sair. Ele não sabia por que tinha feito aquilo. Seu coração estava disparado com o leve contato. Com um sorriso bobo no rosto, ele fez o caminho até o dormitório dos meninos.

Biblioteca Suprema Harmony Blossom – 15:34

A pequena sala de estudo coletiva estava lotada com a presença dos oito bruxos. Os Ultra estavam reunidos para começarem as pesquisas. se sentia melhor e tinha voltado para a rotina, então as amigas a colocaram a par de toda a situação. Michael também recebera a atualização do problema que agora era responsabilidade do grupo resolver.
Calum Hood era o único calado na sala. Ele estava afastado dos outros, apenas observando a briga que se iniciava com uma expressão de tédio absoluto.
– Pelo amor dos astros, será que vocês não entendem a burrice que é fazer essas pesquisas aqui? – falou com uma das mãos na cintura enquanto gesticulava com a outra. – Qualquer um pode entrar a qualquer momento!
– E onde você sugere que a gente se reúna, hein, mente brilhante? – Luke respondeu em um tom um pouco impaciente. – Até agora você só reclamou e reclamou e não trouxe nenhuma solução!
falou uma série de desaforos para o rapaz e uma gritaria sem fim se instaurou no ambiente, fazendo a cabeça de Calum latejar com o barulho. O moreno esfregou as têmporas antes de falar pela primeira vez:
– CALEM A BOCA! – os sete se calaram de uma vez, pegos de surpresa pelo grito de Calum. – Como vocês esperam que a gente consiga fazer qualquer coisa se vocês brigam por literalmente tudo? – ele respirou fundo e abaixou o tom de voz antes de continuar. – Vocês estão agindo como crianças do jardim de infância.
Os aprendizes se sentiram envergonhados. Calum tinha razão e todos sabiam, eles não chegariam a lugar algum caso estivessem mais ocupados se engalfinhado ao invés de desprender as energias nas pesquisas.
– Nós precisamos parar com essas brigas. – o moreno falou enfaticamente após alguns segundos. – Sei que estamos acostumados com isso, sempre foi assim. Mas temos que nos concentrar na situação em nossas mãos e estabelecer uma trégua.
– Você tá certo, Calum. – falou ao suspirar. – Nós brigamos constantemente e isso é ruim pra todo mundo. Somos um grupo só agora.
– Então concordamos todos com a trégua? – Calum perguntou ao levantar o braço direito e os outros sete bruxos presentes levantaram o braço também. – Ótimo, então vamos voltar para a questão da sala para as pesquisas.
– Eu concordo com a que aqui não é um lugar seguro. – Michael se pronunciou. – Alguém conhece outro local?
– A gente poderia usar uma das salas do subsolo. – sugeriu.
A garota tinha a sala perfeita em mente. Costumava passar muito tempo explorando a Academia quando era criança e conhecia cada milímetro da enorme estrutura do lugar.
– Salas do subsolo? – perguntou confusa. – Eu nem sabia que a Academia tem um subsolo!
– Quase ninguém sabe disso… – a voz suave de soou pelo ambiente. – Uma das entradas é escondida aqui mesmo na biblioteca, atrás da estante de livros sobre necromancia.
– Acho que pode funcionar. – Luke concordou. – Seria muito fácil pegar os livros e levar para lá. Não vamos sair da biblioteca, então nem precisaríamos anotar o empréstimo.
– Mas como entraríamos na passagem sem ser notados? – foi Ashton quem fez a pergunta.
– Ninguém passa perto da seção de necromancia. – a risada de saiu divertida ao falar as palavras. – A não ser eu, é claro.
Orellano era a única aprendiz especializada em necromancia da Prodwarth. A jovem escolhera a especialidade por conta de seu passado. Sua experiência de quase morte despertara nela uma enorme afinidade com a arte mágica. Era frequentemente visitada por espíritos e os ajudava para que eles fizessem a transição do plano terreno para o Além.
– Ótimo, vamos pegar alguns livros que possam conter alguma informação relevante e então descemos pra escolher a melhor sala. – Ao ouvirem as palavras de , os oito saíram da sala de estudo.
O grupo se dividiu e Calum acabou ficando em um trio com Ashton e . A biblioteca da Academia era enorme, com três andares repletos de estantes com livros de todos os assuntos possíveis e imagináveis e até alguns que nunca cruzariam a mente dos aprendizes. Por esse motivo, eles dividiram equipes para cobrir diversas seções e pegar a maior quantidade de livros possíveis para levarem à sala secreta.
A estante com obras sobre “sociedades secretas” era maior do que o esperado. Calum e Ashton olhavam todos os exemplares, tentando selecionar algum que parecesse mais relevante. Um pouco abaixo no corredor, parecia entretida ao procurar por livros na seção de “simbologias”.
– Eu não entendo. – Ashton falou para si mesmo ao abrir o que deveria ser o vigésimo volume de uma série interminável.
– Você deveria pôr isso em uma camiseta. – o tom debochado de resoou pelo corredor até os rapazes.
Calum tentou conter uma gargalhada e recebeu um olhar repreensivo do amigo. O mais novo deu de ombros, ainda rindo das palavras da garota. Ashton bufou e resmungou algo sobre “ ser impossível de lidar”.

***

O contato da estante com o assoalho de madeira fez um leve ruído quando Michael puxou o móvel para abrir a passagem. Partículas de poeira voaram para todos os lados. Por conhecer o caminho, era a primeira da fila para entrar.
Com um feitiço rápido, ela criou um feixe de luz, iluminando o caminho como se segurasse uma lanterna. estava na ponta do corredor, observando discretamente se alguém se aproximava.
Assim que todos entraram, Luke puxou a estante de modo a fechar a passagem de novo. O rapaz tentou observar os arredores, mas a baixa iluminação impedia que pudesse distinguir algo além das paredes de tijolo vermelho e a escada que descia em direção à escuridão. liderou o grupo, pedindo que eles tomassem cuidado com os degraus estreitos.
Desceram em silêncio por alguns minutos e todos podiam sentir o ar ficar cada vez mais úmido e pesado. O grupo seguiu por um corredor com tamanho o suficiente para que passasse uma pessoa por vez. Chegaram a uma porta de metal e Calum deu alguns puxões para conseguir abri-la. Do outro lado, o corredor era largo e várias portas iguais as que acabaram de abrir estavam dispostas pelas paredes.
caminhou até a segunda porta à direita e a abriu.
– Vocês vêm? – indagou ao ver que os outros continuavam parados no início do corredor, incertos sobre a segurança do local em que estavam.
Ela entrou na sala, sendo seguida de perto. Clicou no interruptor e as luzes do local se acenderam. Era um cômodo amplo, as paredes revestidas com pedra cinza deixavam o ambiente mais rústico. Tinham duas mesas retangulares de carvalho e algumas cadeiras com estofados de couro preto ao redor delas. Havia também uma estante grande, algumas prateleiras vazias e um antigo sofá de couro encostado na parede ao fundo.
Os aprendizes olharam maravilhados ao redor. Era o lugar perfeito para realizarem as pesquisas.

 

CAPÍTULO 5

O silêncio que rodeava Luke o fazia se sentir em paz. Era cedo pela manhã, antes das sete horas, e o loiro estava na ala A da enorme estufa de vidro da Academia, escondido entre as centenas de plantas. Faltava mais de uma hora para o início das aulas, mas o rapaz não ligava.
Toda vez que Luke sentia que sua cabeça estava cheia de informações demais, ele acordava mais cedo e passava um tempo na estufa. Tudo no ambiente o acalmava, desde o cheiro de terra fresca ao suave ruído de água pingando para regar as mais variadas espécies ali presentes e até o calor abafado e pegajoso do ar.
Botânica Oculta era a matéria favorita de Luke. A professora Crane o adorava e permitia que ele cuidasse das ervas que eram cultivadas por ela, a doce senhora tinha confiança total nele. O rapaz tinha um conhecimento muito vasto sobre plantas e era, disparado, o melhor aluno da classe. Não que ele fosse deixar alguém saber – inclusive, tinha implorado para a professora que não falasse nada a outras pessoas. Ele estava contente em ser secretamente um amante das plantas.
Descobrira a paixão quando ainda era pequeno. Sempre ajudou sua mãe a cuidar do jardim e da pequena estufa na casa deles em Sydney. Ao ir para a Prodwarth e descobrir que sua especialidade mágica são as poções, sua vontade de saber tudo sobre botânica se intensificou ainda mais, uma vez que a maior parte dos ingredientes eram plantas.
Naquela manhã específica, Luke cantarolava baixinho uma música do U2 ao cuidar de um pé de alecrim. Após trocar a pequena muda para um vaso maior, ele colocou algumas gotas de uma poção de fortalecimento misturadas com água em um borrifador e espirrou alguns jatos na planta. Juntando os utensílios utilizados, ele caminhou calmamente até o tanque de pedra que ficava próximo à entrada da ala esquerda.
Lavou as ferramentas com cuidado e as secou. Em seguida, guardou tudo na estante de ferro ao lado do tanque. Sem querer desperdiçar o conteúdo do borrifador, pegou uma etiqueta no armário da professora Crane e identificou o líquido. A senhora saberia que era obra dele e não jogaria fora.
Luke dirigiu-se à ala B – que era à direita da construção e onde ficavam algumas flores – e começou a cortar as ervas daninha que cresciam nas roseiras. Sua mente voou até Bernauer e o momento que compartilharam antes do desastre do último ritual.
Ele nunca fora o maior fã da moça. Entretanto, antes de todo o caos daquela noite, ele percebeu que se sentia a vontade com ela. Diferentemente do que ele supunha, era espirituosa e conversar com ela era simples. Lembrou-se da aposta deles e sorriu sozinho. Jamais imaginou que apostaria algo do tipo com ela. Por mais que ele quisesse beijar , ele não perderia. Era questão de honra ganhar.
Ao perceber o que admitira para si mesmo, Luke sentiu o rosto esquentar levemente de vergonha. Nunca tinha pensado na garota daquela maneira e agora a imagem dos lábios avermelhados dela não saia da mente dele.
O eco de passos se aproximando chamaram a atenção do rapaz para a entrada da estufa. Parada na antessala estava Zola Hall, uma aprendiz da Quarta Classe que, assim como Luke, costumava passar bastante tempo entre as plantas.
– Oi, Luke! – a voz fina da garota soou pelo ambiente.
– E aí, Zola. – ele respondeu simpático para a mais nova. – Tudo bem?
– Tudo como sempre! – ela falou mexendo ansiosamente nos cabelos loiros e Luke percebeu que as bochechas dela ficavam cada vez mais vermelhas. – E você? O que vamos fazer hoje?
Luke sabia que Zola tinha uma paixonite por ele. Desde que ele conhecera a menina na estufa, há mais ou menos dois anos, ela insistia em trabalhar com ele para cuidar das plantas. Por muito tempo ele negou, achando que aceitar a ajuda iria incentivá-la a nutrir aquele pequeno crush nele. Mas quando percebeu que ela não iria desistir, concordou que eles trabalhassem juntos e sempre tentou deixar claro que a relação entre eles era de amigos e apenas isso.
– Nada demais, estou apenas arrancando algumas ervas daninha.
A garota deu de ombros e pendurou a bolsa em um gancho vazio antes de começar a trabalhar. Conversavam vez ou outra, entretanto o silêncio confortável era o que predominava entre eles.
Precisamente às oito horas o relógio cuco soou pelo ambiente, anunciando que as aulas começariam em quinze minutos. Luke praguejou baixinho ao sentir o estômago roncar, tinha planejado ir tomar café da manhã por volta de 7:30, mas perdeu a noção do tempo.
Apressou-se para guardar a tesoura de jardinagem e as luvas que usava e se despediu de Zola ao sair correndo da estufa.

***

Assim que entrou na biblioteca, Calum viu que estava andando em direção à seção de necromancia. Para um desavisado, aquela seria uma cena comum. Mas Calum sabia muito bem o motivo da bruxa ir para lá, afinal era o mesmo motivo pelo qual ele caminhava para a mesma seção.
reparou que o rapaz se aproximava e sorriu para ele, fazendo o coração de Calum acelerar por um milissegundo. Involuntariamente, ele sorriu de volta. Em um entendimento mútuo, a bruxa fica observando se alguém aparece enquanto o bruxo abre a passagem secreta. A moça tinha em mãos mais livros sobre sociedades secretas, que havia pegado alguns minutos antes.
Ela escuta o barulho do móvel sendo arrastado e lança um olhar feio para Calum, o repreendendo pelo descuido, ao passo que o jovem dá um sorriso nervoso e move a boca em um pedido de desculpa. volta seu olhar para a biblioteca e congela ao constatar que a Suprema Nash estava no recinto.
– A Suprema tá vindo pra cá! – ela sussurra de olhos arregalados.
Os bruxos se mexem freneticamente para fechar a passagem e esconder os livros que carregava. Em segundos, eles se ajeitam em pontos diferentes do corredor para parecer que procuravam exemplares sobre necromancia, mas não juntos.
– Sorria e acene, benzinho. – fala baixo e rápido, segundos antes de a Suprema reparar que a dupla estava ali.
– Crianças? O que fazem aqui? – a diretora fala com os olhos cerrados, achando muito estranho ver aqueles dois juntos.
– Suprema Nash! – fala com um tom animado. – Eu estou procurando alguns livros sobre ajudar os espíritos na Travessia. É sempre bom eu melhorar nisso…
A Suprema dá um sorriso satisfeito e vira sua atenção para Calum.
– E-eu.. errr… – o rapaz gagueja e arregala os olhos para ele. – Eu estou atrás de explicações sobre Ressurreição! – ele diz ao retirar um livro da estante.
Para seu descontentamento, era um livro sobre Invocações.
– Você poderia começar pesquisando na área correta, Sr. Hood. – a Suprema fala com um sorriso divertido e Calum sente seu rosto esquentar. morde o lábio inferior para segurar uma risada. – Vou deixar vocês pesquisarem em paz… Srta. Orellano, dê um pouco de auxílio para ele, sim?
– Pode deixar comigo. – responde com uma risada e a bruxa mais velha segue seu caminho para a Seção Reservada da biblioteca.
No instante em que estão sozinhos de novo, desata a rir. Calum resmunga algo incoerente e volta para sua posição inicial, abrindo a passagem com um puxão bem dado.
– Vamos logo! – ele fala emburrado enquanto recolhe os livros que espalhou.
Ainda rindo do rapaz, a bruxa o segue e eles iniciam a longa descida.

e Calum foram os últimos a chegar à sala secreta. Era meio da tarde e o grupo resolveu limpar e organizar algumas coisas antes de retomarem as pesquisas, uma vez que o lugar estava cheio de poeira e teias de aranha.
teve a ideia de colocar uma lousa e canetas marcadoras para que eles pudessem fazer uma espécie de quadro com informações importantes e levou alguns blocos de folha para anotarem achados durante as pesquisas. Calum sugeriu que eles usassem a parte superior da estante para deixar os livros que ainda não tinham lido e a inferior para os livros lidos.
– Agora que a sala está mais habitável… – Michael falou alto, chamando a atenção de todos. – Acho que é o momento de colocar o feitiço de proteção e invisibilidade.
O garoto retirou da mochila um rolo de barbante, uma caixa de giz, algumas velas brancas e vários de seus amados cristais, esses na cor preta.
– Nós criamos juntos um feitiço que vai bloquear a entrada de outras pessoas nessa sala. – disse com um tom animado. – Se alguém aparecer aqui em baixo, não vai ver a porta. Somente nós oito vamos vê-la.
– E como fazemos esse feitiço? – e Ashton indagaram ao mesmo tempo. A bruxa lançou um olhar feio na direção do loiro.
– Eu vou conduzir o ritual. – Michael respondeu e apontou com a cabeça para a saída da sala.
No corredor, ele rapidamente desenhou um círculo no chão com o giz branco que tinha levado. Entrou na sala e repetiu o desenho. Para finalizar, traçou uma linha reta da borda inferior do aro que estava no corredor até a borda do que estava dentro da sala, conectando os círculos.
Michael direcionou os amigos, de modo que , Calum, e Ashton ficassem espalhados por um círculo e , Luke, e ele no outro. Enquanto entoava o feitiço, o bruxo pegou o rolo de barbante e enrolou os outros com o fio, entregando um quartzo preto – pedra responsável por proporcionar proteção – para cada um deles no processo. Por fim, Michael parou em seu lugar no círculo.
Corium et fimum protegat. – A voz de soou poderosa pelo ambiente e o fio do barbante se transformou, brilhando como se fosse feito de luz. Os círculos mudaram de cor, emanando uma luz vermelha intensa.
Corium et fimum protegat! – os outros repetiram em uníssono.
As pedras nas mãos dos aprendizes sugaram a luz do barbante, assim como a do traçado que Michael tinha feito no chão. Todos estavam impressionados com o feitiço performado, trocando olhares deslumbrados entre si. Michael foi o primeiro a se mover, recolhendo os cristais um por um e colocando-os em uma pequena cesta posicionada em um das prateleiras da sala.
– Como sabemos se o feitiço funcionou? – Luke questionou após alguns instantes.
– Se você vier aqui em baixo sem uma das pedras, a porta não vai aparecer. – respondeu. – E antes que alguém questione, os cristais estão ligados à nossa energia. Somente nós oito conseguimos ativá-los. Então, mesmo que caiam nas mãos erradas, nada vai acontecer.
– Vocês realmente pensaram em tudo. – se pronunciou, sentindo orgulho da amiga. – Esse ritual foi incrível!
Todos concordaram e elogiaram a dupla responsável, que trocou um high-five vitorioso.
A euforia do ritual passou e os bruxos resolveram juntar as duas mesas de carvalho e se sentaram ao redor dela para voltarem às pesquisas. Por algum tempo, o único som audível era o das páginas dos livros sendo passadas. Vez ou outra alguém soltava um suspiro frustrado.
tinha em mãos um livro sobre simbologia das cores. Sua ideia era tentar decifrar a decisão da escolha das cores para o paletó que os homens usavam. Ela folheou algumas páginas até encontrar uma que falasse sobre a cor preta.

“Preto é a cor do poder, da sobriedade, da hombridade, transmitindo a sensação de sofisticação e elegância. É a “não” cor, ausência de vibração, cor das pessoas que buscam proteção ou afastamento do seu redor. O preto também pode sugerir silêncio.”

Anotou as informações no bloco ao seu lado e seguiu ávida para a página que explicava a cor prata.

“Pela proximidade com o branco, o azul e o cinza, a cor prata gera efeitos de sentido de frieza e distanciamento. Remete à sofisticação moderna, à tecnologia. É o símbolo de atualização, modernidade e requinte. Transmite estabilidade, sucesso, qualidade e distinção, principalmente quando associado ao preto.”

A jovem se sentiu animada ao fazer mais anotações sobre a descoberta. Não era muita coisa, mas já era um começo.

***

A luz prateada da lua cheia banhava as quatro bruxinhas paradas próximas ao portão de entrada da Prodwarth, refletindo o brilho dos vestidos que elas usavam. Era sábado à noite e, em circunstâncias comuns, os aprendizes teriam permissão para sair da Academia e aproveitar a cidade. Porém, devido ao sequestro, as autorizações de saída tinham sido revogadas.
Mas isso não impediria as quatro amigas de saírem para comemorar o aniversário de Orellano. A moça completava vinte e quatro anos e queria celebrar no lugar de sempre, o Pleasure Paradise. As jovens deram as mãos e iniciaram o feitiço para aparatar até um prédio abandonado na Granville Street, uma das principais ruas na vida noturna de Vancouver.
Chegaram ao local tranquilamente, já tinham performado aquele feitiço dezenas de vezes. Discretamente, saíram da construção e caminharam animadas em direção à boate, logo avistando a imponente fachada. A parede preta com linhas desiguais vermelho neon brilhava com força total. Logo acima da porta de entrada, um coqueiro neon na cor verde identificava o local.
Elas entraram de graça e sem passar pela enorme fila, uma vantagem de ser a maior crush do dono da casa noturna. O ambiente estava recheado de pessoas bebendo e dançando, a música era quase ensurdecedora. Elas repararam que a decoração havia mudado, agora a boate reluzia por conta dos móveis em tons de dourado. Parecia até que tudo fora arrumado para destacar e o vestido curto com pequenas pérolas douradas que ela vestia naquela noite.
Desviando dos corpos pelo meio do caminho, as mulheres seguiram até a área VIP, onde a confusão de seres humanos era consideravelmente menor. e se dirigiram ao bar, pedindo dois shots de tequila para cada, enquanto e guardavam lugar em um dos pequenos lounge com sofás de camurça dourada e uma mesinha de centro.
Algum hip-hop que elas não conheciam explodia através das caixas de som e do ponto levemente elevado em que elas estavam, podiam ver o resto da boate dançar ao ritmo da batida. Uma garçonete simpática apareceu perguntando se elas queriam outra bebida e pediu uma garrafa de Chandon Rosé para fazer um brinde em homenagem ao seu aniversário.
– Vamos beber essa tequila de uma vez! – bateu palminhas animadas e entregou os dois copinhos para cada amiga.
se encarregou de colocar o sal no dorso da mão de cada uma e distribuiu as fatias de limão. Todas pegaram o primeiro shot com a mão livre e se prepararam para o brinde.
Arriba, abajo, al centro y adentro!
pronunciou a clássica frase utilizada antes de beber o destilado e todas fizeram os movimentos acompanhando-a. Elas lamberam o sal, viraram os dois shots seguidos e então morderam o limão. Fizeram caretas por conta da acidez da fruta e começaram a rir de si mesmas.
A atendente voltou com o champanhe e elas brindaram novamente, começando a sentir os efeitos do álcool no sangue. Cantaram parabéns para , fazendo a amiga morrer de vergonha quando todas as pessoas da área VIP se juntaram ao coro.
Por algumas horas, elas puderam ser jovens adultas normais. Sem magia, sem sequestros, sem seitas misteriosas para serem desmascaradas.
Várias músicas depois, decidiu que elas deveriam se juntar à multidão na pista de dança e todas beberam o resto do champanhe antes de correrem para o meio da aglomeração abaixo delas. Tinham pouco espaço para se movimentarem, mas elas não ligaram. Estavam felizes demais movendo os quadris no ritmo de um hit da Dua Lipa.
Agindo como a jovem que era, pegou seu celular e fez um instagram stories com as amigas. Elas nem ligavam se alguém da Academia ficasse sabendo que elas tinham saído. As chances de terem outras pessoas na rua eram enormes, de qualquer maneira. As amigas cantavam e pulavam para tomar frente no vídeo e ria ao fundo.
Alguns minutos depois, sente o celular vibrar e o tira da bolsa para ver uma notificação de Luke, que havia respondido sua postagem:

Luke Hemmings respondeu ao seu story: nem chamaram, estou oficialmente magoado :/

Ela solta uma risada sozinha e responde a mensagem dele com um “oops!” e um emoji piscando. Era estranho falar com Luke sem ser o ofendendo de alguma forma. A recém-firmada trégua entre eles mostrava que o rapaz, assim como todos os amigos, podia ser bem legal quando queriam.
Sedenta após dançar várias músicas seguidas, passa por ao se dirigir até o balcão do bar e pede uma água ao bartender mais próximo. A moça ajeita o vestido preto no corpo, alinhando a transparência lateral no lugar certo. Ela se vira de volta para a boate e observa as pessoas enquanto aguarda. Após alguns instantes, o rapaz que a atendeu chama sua atenção:
– Uma água e uma dose de tequila. – ele fala alto, colocando o copinho do destilado forte em frente à garota.
– Eu não pedi isso… – diz um pouco confusa, enquanto empurra a tequila de volta.
– Eu sei – inicia o bartender – Aquele senhor ali mandou para você. – fala e indica com a cabeça um homem do outro lado do bar.
desvia o olhar para o local indicado e sente o sangue passar devagar por suas veias assim que seus olhos tocam o homem. Parado, a poucos metros dela, estava o mesmo ser desprezível com quem havia lutado há algumas semanas, o cara que tentara sequestrá-la. O terno preto com detalhes prateados nas mangas, característico dele, estava alinhado à perfeição.
Ele enfia a mão dentro do paletó e puxa algo que logo identificou como sendo o colar que usava combinando com Lavender. Sorrindo zombeteiro, o homem balançou o objeto em suas mãos, se vangloriando por estar com o artefato.
Filho da puta! – ela sibilou entredentes.
Com o sorriso arrogante ainda no rosto, ele levantou o copo de uísque que tinha em mãos, fazendo um brinde, antes de virar toda a bebida âmbar dentro da boca. Assim que colocou o copo vazio no balcão, deu as costas e saiu andando apressado pela multidão. Não precisou se virar para ter certeza de que a jovem o seguia.
Era óbvio que ela o seguiria.
O álcool no sangue de parecia não fazer mais nenhum efeito. A adrenalina de saber que o confrontaria a deixou sóbria em questão de segundos, lhe dando uma lucidez atenta de quem se preparava para batalha. ouviu suas amigas a chamando, mas ignorou as vozes. Não podia o perder de vista de maneira alguma. Sabia, também, que caminhava para uma armadilha. Mas ela estava preparada e, dessa vez, não pensaria duas vezes antes de aprisionar o homem e levá-lo para ser interrogado na Academia.
Ao sair pela porta da boate, olhou para os lados e viu o lampejo de prata nas mangas enquanto o homem virava a esquina correndo. Não hesitou em disparar atrás dele, tentando arduamente se equilibrar nos saltos altos das botas over the knee que usava. Corria incansavelmente atrás dele, que se dirigia a uma parte mais vazia do quarteirão. O coração da moça batia freneticamente em seu peito.
De onde estavam, já não podia mais ouvir a música alta que se fazia presente mesmo do lado de fora das boates da região. Os únicos sons audíveis eram o dos sapatos batendo no concreto e a respiração entrecortada dela. Eles entravam cada vez mais fundo na área residencial.
O homem entrou em uma casa que parecia abandonada e a jovem o seguiu, diminuindo a velocidade. Um clarão de luz brilhou no cômodo que parecia com uma sala de jantar, chamando até o lugar. Lá estava o sequestrador, o sorriso diabólico rasgando a face dele.
– Eu sabia que você era imprudente, garota. – a voz grave do homem soou alta e . – Mas não imaginei que também fosse burra.
Ela sentiu o sangue ferver nas veias. Sem dar qualquer resposta, o atacou com uma bola de fogo. O mais velho desviou por um triz, a pequena fumaça que subiu de seu braço esquerdo denunciou o quão perto a bola passou de atingi-lo. atacou novamente e dessa vez ele estava preparado, apagando o fogo com um jato d’água.
Inesperadamente, ele lançou uma cadeira na direção da jovem. Ela desviou o objeto, que voou em direção à janela, fazendo um barulho alto ao estilhaçar os vidros. Eles trocaram mais alguns ataques até que, com uma lufada de ar, conseguiu prender o homem na parede.
– Quem é você? Por que sequestraram Collin e Lavender?
– Ora, ora… talvez você não seja tão burra assim, se já descobriu que levamos seu amiguinho. – ele falou com um tom levemente sufocado por conta do feitiço de prisão que executava.
Quem é você? – ela repetiu ao fechar mais o punho, apertando-o com o feitiço, a raiva que sentia ficando mais evidente em seu tom de voz.
– Essa pergunta, Wheeler, jamais será respondida.
O choque por ele saber quem ela era a fez vacilar por um segundo, tempo suficiente para que ele se soltasse da prisão invisível. sentiu o corpo ser empurrado com agressividade para a parede ao lado. A cabeça dela colidiu no gesso com força, deixando-a levemente desorientada.
O homem saiu correndo da casa e ela o seguiu, sentindo o mundo girar ao seu redor. Ao chegar ao jardim frontal, ele ainda estava lá. Assim como fizera na boate, ele enfiou a mão no paletó e puxou o colar de Lavender. viu um objeto cair com o movimento dele, mas o homem não percebeu.
– Diga para sua amiguinha se apressar, a irmã idiota dela não vai viver para sempre.
apenas observou quando o raio prateado subiu em direção aos céus, levando o homem para longe dali. Ela correu até onde ele estava parado. Reluzindo na grama, jazia um broche prateado. Era uma mão com punho fechado e um chapéu tradicional de bruxa repousava sobre os dedos. Estava gravada no chapéu, em letras cursivas, a palavra “renascer”.
A jovem estava tão espantada com o objeto que nem percebeu luzes azuis e vermelhas se aproximando. Ela definitivamente não percebeu os faróis sendo jogados em sua direção. O que com certeza percebeu foi a estridente sirene soar e os dizeres “PARADA!” saírem da caixa de som do carro de polícia.
Sem dúvida alguma, estava ferrada.

***

Ashton acordou num pulo. Passou a mão no rosto suado e acendeu a luz de cabeceira. Do outro lado do quarto, Calum dormia pacificamente. O relógio digital apontava que eram três e vinte sete da manhã. Tinha sonhado com sendo presa pela polícia.
Tinha sido muito real, até demais.
E por esse motivo ficou se perguntando se não seria uma visão, ao invés de sonho, mesmo que ele não tivesse sentido os sinais que indicavam a clarividência. Riu sozinho do pensamento. Wheeler não seria presa. Era impossível! A garota era doida, mas não a ponto de ir parar na cadeia.
Porém, quando o número 13 saltou em sua visão e o arrepio na nuca se fez presente, Ashton sabia que Wheeler estava em maus lençóis e teria que ser ele a ajudá-la.
Trocou o pijama por jeans preto, camiseta branca e um casaco de moletom e procurou na internet o telefone da 13ª delegacia de polícia da cidade. Era um chute, mas fazia sentido ser o local em que estaria, supostamente, detida. Ele saiu do quarto e utilizou o feitiço que Calum o ensinara para sair despercebido da escola.
Do lado de fora, ligou para a delegacia. Foi prontamente atendido e ficou confirmado que sim, havia uma tal de Wheeler detida. A fiança da garota custaria 200 dólares. Ashton abriu a carteira e percebeu que era o exato valor que sua mãe havia lhe mandado para o mês. Era literalmente todo o dinheiro que ele tinha, mas que se danasse.
Parado no ponto de ônibus na calçada oposta à Academia, ele pediu um motorista pelo aplicativo no celular e foi ao resgate da donzela não tão indefesa assim.

– Wheeler! – gritou uma policial na porta da cela comunitária.
abriu os olhos e olhou ao redor. Entre alguns baderneiros comuns e alguns moradores de rua, ela era a única mulher no recinto. Olhou para a policial como se lhe perguntasse qual a necessidade do grito. A mulher bufou impaciente e falou:
– Anda logo, pirralha. Pagaram sua fiança.
A mais nova fez uma expressão confusa. Quem poderia ter pagado sua fiança? Ela não tinha usado a ligação que era de direito dela, não queria que soubessem o que tinha ocorrido. Iria passar a noite na cadeia e ir embora pela manhã como se nada tivesse acontecido.
se levantou e desviou das pernas esparramadas pelo chão. A policial a conduziu até a saída e entregou a bolsa da menina de volta. Ao passar pela porta que separava a recepção do resto da delegacia, se deparou com Ashton.
O rapaz reparou que uma das alças do vestido de estava arrebentada e ela tinha alguns machucados espalhados pelos braços e mãos. A boca da jovem caiu alguns bons centímetros e ela tentou formular o que falar, entretanto só sabia abrir e fechar os lábios como um peixinho dourado no aquário.
– Antes que você surte, – começou Ashton, levantando as mãos em rendição enquanto a moça se aproximava – eu tive uma visão.
– O que você quer para guardar o segredo? – disparou a garota, se dirigindo à saída da delegacia. Conferiu o celular e este mostrava várias mensagens de suas amigas perguntando onde ela estava e algumas ligações de .
“Obrigada, Ashton” seria um bom começo. – o rapaz falou, desacreditado.
mandou uma mensagem no grupo das meninas avisando que já estava voltando para casa, e Ashton continuou:
– Eu vim te ajudar e você me trata assim. Eu realmente sou um grande panaca.
A moça suspirou e revirou os olhos dramaticamente ao cruzar os braços.
– Escuta bem o que eu vou te falar, novato. – virou-se para ele com certa arrogância. Até demais para quem tinha acabado de ser resgatada da cadeia. – Eu não pedi que você viesse. Ia passar a noite aqui e sair amanhã. Você veio por livre e espontânea vontade. Então não espere que eu vá te agradecer como se você fosse algum tipo de cavaleiro no cavalo branco que veio me salvar porque eu não vou. – proferiu com desdém. – Então me diga logo o que você quer pra guardar o segredo. E quanto foi a fiança, já que você veio e fez a burrada de gastar dinheiro com isso.
Ashton balançou a cabeça descrente. Essa garota era impossível! Lógico que não esperava que ela fosse cobri-lo de louvores por ter ajudado, mas esperava pelo menos um mísero “obrigada”, o mínimo de educação. Não sabia o que pedir em troca de seu silêncio, nem sequer tinha passado por sua cabeça pedir algo para ficar calado. Mas a maneira que o tratara acendeu uma chama de raiva que ele não imaginava ser possível.
Então ele pensaria no que ia pedir.
– Vou pensar e te aviso, Wheeler. – falou seco enquanto entravam no carro que a garota havia pedido. – Por enquanto, só vamos pra casa.

***

O grupo estava reunido na sala secreta. contava o que tinha acontecido na perseguição e luta com o sequestrador enquanto o broche passava de mão em mão. Todos o analisavam com um interesse clínico.
– Quando ele retirou o colar de Lavender, eu percebi algo cair do bolso dele. – a moça falou devagar. – Me forcei a sustentar o olhar dele, pedindo aos astros que ele não percebesse que tinha deixado escapulir esse broche. – respirou fundo antes de continuar. – Ele mandou um recado pra e desapareceu naquele raio prateado.
A expressão de todos se contorceu em confusão.
– Recado pra mim?! – a voz de subiu algumas oitavas ao pronunciar as palavras.
sacudiu a cabeça em afirmativa, sentindo suas entranhas se revirarem com as palavras que falaria.
– “Diga para sua amiguinha se apressar, a irmã idiota dela não vai viver para sempre”.
A sala imergiu em silêncio após a fala da jovem. Todos olhavam para , que lutava para conter as lágrimas que ameaçavam cair. Michael abraçou-a e ela soltou um soluço fraco ao se agarrar nele.
– Isso não pode ficar assim! – exclamou com raiva. – Quem esse filho da puta pensa que é?
– Ela tem razão. – concordou Luke. – Nós temos que resgatar Lavender e Collin e acabar com a raça dessa seita.
– E o que aconteceu depois disso, ? – foi Ashton quem perguntou, dando um sorriso debochado para a jovem.
– Eu peguei o broche e vim para a Academia. – ela respondeu ao direcionar um olhar mortal para o loiro. – O que mais eu faria?
O sorriso de Ashton se alargou e ele passou a língua pelos lábios antes de proferir:
– Ah, sei lá… Pensei que você poderia ter ficado presa resolvendo algum outro problema… – sentiu o sangue desacelerar por suas veias. Ela iria matar o garoto a sua frente. – Mas que bom que você ficou livre sem precisar de ajuda, não é mesmo?
, você tá bem? – questionou ao perceber que a cor havia sumido do rosto da amiga. – Você parece que vai desmaiar.
Sentindo a cabeça girar – parte em ódio, parte em cansaço – puxou a cadeira mais próxima e se sentou. Luke apareceu com uma garrafa de água e a jovem bebeu grandes goladas, respirando fundo. Ashton a observava ainda com o sorriso no rosto, achando divertido deixar a garota desconcertada.
– Pessoal, me lembrei de uma coisa. – tinha em mãos um dos blocos de anotação. Ela secou o rosto e leu o que tinha escrito sobre as cores. – As cores devem representar o ideal deles. – concluiu ela. – De acordo com o livro, prata é símbolo de modernidade e preto de sofisticação. Juntas, representam qualidade.
– O que você está dizendo, ? – era Michael quem estava confuso. – Que eles são algum tipo de seita que quer, sei lá, atualizar para melhor a sociedade bruxa?
– Renascer. – a voz de Calum soou e todos olharam para ele. – É a palavra gravada no broche. Eles querem renovar a sociedade.
– Mas como? – franziu o cenho.
– É isso que temos que descobrir a seguir. – concluiu Calum.

***

Após pensar por alguns dias, Ashton finalmente tinha decidido o que queria de em troca do silêncio dele. Na realidade, ele não queria escolher nada. Mas a atitude arrogante da garota o chateou, de forma que ele iria fazer a troca apenas por pirraça.
Depois de perder vergonhosamente sua luta na aula de Magias Elementares, Ashton decidiu que queria que desse aulas particulares para ele. Afinal, ela era uma das melhores e, curiosamente, eles compartilhavam a afinidade com a Luz. A bruxa era a pessoa ideal para servir de tutora dele.
Quentin Lafayette liberou a turma alguns minutos antes do horário final da aula. e as amigas esperavam o fluxo de alunos diminuir para que então pudessem sair da sala e Ashton aproveitou para ir falar com a jovem.
– Ei, … – ele chamou-a pelo apelido apenas para irritá-la. – Preciso falar com você.
As amigas lançaram olhares sugestivos para ela e saíram dando risadinhas, fazendo com que parecesse um pouco aborrecida.
– Por que acha que pode falar comigo? – ela falou com um tom levemente hostil.
– Deve ser por você ser tão acessível. – Ashton rebateu, entediado. – Eu já escolhi o que eu quero.
olhou ao redor, constatando que o ginásio onde eram ministradas as aulas estava vazio. Com um movimento de mão, ela fechou e trancou a porta do outro lado do recinto. Voltou o olhar para Ashton, indicando que ele podia prosseguir.
– Eu quero que você seja minha tutora.
De todas as reações que ela poderia ter, a que ofereceu foi a última da lista de opções de Ashton: ela riu. Não só riu, mas gargalhou alto, como se o que ele tivesse sugerido fosse absurdo demais para levar a sério. A garota secou algumas lágrimas dos olhos, sentindo a barriga doer pela risada.
– É sério! – Ashton falou um pouco irritado. – Se você quiser que eu fique calado, é esse o meu preço.
– Por que você quer isso?
– Porque você é uma das melhores e depois da minha derrota na aula, eu percebi que quero estar entre os melhores também. – ele falou com uma honestidade que surpreendeu a jovem. – E apesar de achar que a teria mais paciência comigo, nós dois temos a afinidade elementar em comum, então pensei que você seria a escolha certa.
– Certo… – ela falou pensativa. – Só espero que você saiba que em momento algum vou pegar leve com você.
– E eu nem quero isso. Só peço que você não comente com ninguém. – Ashton deu de ombros e imitou o movimento. – E então? Temos um acordo?
– Claro.
Ashton começou a se afastar, satisfeito que tinha conseguido o que queria. Entretanto, segurou seu braço e o puxou de volta.
– Pera aí, você não tá achando mesmo que é só isso, né? – o bruxo olhou confuso para ela, que sustentava um sorriso misterioso nos lábios. – Cara, você tem tanto a aprender sobre ser um bruxo. O Hood realmente não fez nada por você.
– O que você quer dizer? – Ashton tinha um semblante confuso.
– Que esse acordo é muito importante para não ser selado com magia. – a jovem falou como se fosse óbvio. – Querendo ou não, eu não confio em você.
As palavras dela machucaram Ashton de uma maneira que ele não esperava. Depois da reação dela na delegacia, não era para ele estar surpreso com essa atitude. Mas ele estava. E a falta de confiança da bruxa nele o deixou levemente magoado.
esticou o braço direito e tomou o dele pelo pulso. Instintivamente, Ashton segurou o pulso dela de volta.
– Eu, Wheeler, por meio deste Acordo Mágico, me comprometo a dar aulas de magia para Ashton Irwin em troca do silêncio dele sobre minha prisão. Também me comprometo a não falar sobre tais aulas para ninguém além dele, até que seja decidido o contrário.
Enquanto ela dizia sua parte do acordo, filetes de sombras saíram da manga da blusa preta dela e serpentearam pelo braço da moça, indo em direção ao braço de Ashton.
– Eu, Ashton Irwin, por meio deste Acordo Mágico, me comprometo a não falar sobre a prisão de Wheeler em troca de receber aulas de magia. Também me comprometo a não falar sobre tais aulas para ninguém além dela, até que seja decidido o contrário.
As sombras subiram pelo braço do bruxo e adentraram a camisa dele. Ashton sentiu uma ardência no ombro esquerdo, que sumiu tão rápida quanto veio. tinha um sorriso esperto no rosto, como se ela soubesse de algo que ele não tinha a menor noção.
Traité réalisé. – falou e soltou o pulso de Ashton. – Não se esqueça de que você não pode falar sobre o assunto com ninguém. Te garanto que não vai querer sofrer as consequências de quebrar um Acordo Mágico.
– E quais seriam as consequências? – o rapaz perguntou enquanto a bruxa se afastava.
Ela se virou e deu um sorriso misterioso.
– Quebre o Acordo e você vai descobrir. – dito isso, ela abriu a porta do ginásio com um movimento de mão e saiu sem olhar para trás.

***

Naquela noite, ao retirar a camisa antes de entrar no banho, Ashton levou um choque ao perceber que havia uma tatuagem em seu ombro esquerdo. Lembrando-se da ardência que sentiu ao selar o tratado com , o rapaz teve certeza que aquilo era obra dela.
A tatuagem era relativamente pequena. Ele observou com atenção o traçado marcado, percebendo que as linhas desenhavam flores de cerejeira. As linhas escuras um pouco mais grossas davam um ar mais robusto para a tatuagem, deixando-a mais masculina. Pequenos galhos e folhas complementavam o desenho, os detalhes se misturando às sardas que ele tinha no ombro.
– Ah, Wheeler… Que merda você aprontou comigo? – Ashton praguejou baixo antes de se enfiar em baixo do chuveiro.