Dear Diary

Dear Diary

Sinopse: Fama. Um mundo que pode ao mesmo tempo encantar e enlouquecer uma pessoa.
São os dois lados da mesma moeda que infelizmente não se pode evitar. E pior do que criar expectativas, é viver uma realidade sem objetivo algum, portanto só quando a oportunidade de realizar seu sonho está bem ali na sua frente, que percebe o peso que suas decisões podem ter e as mudanças que podem vir a acontecer em consequência delas.
E quando se arriscar parece ser a melhor alternativa, vários desafios aparecerão em seu caminho. Será necessário lidar com pessoas inconvenientes, lugares estranhos, coisas totalmente diferentes das quais está acostumada, e não poderá fugir e nem ao menos ignorar. Mas para ajudar nesse mundo louco de celebridades muita gente aparecerá no seu caminho para dar aquela mãozinha básica no que for preciso.
Se o fim compensar todos os tropeços que tomar nessa jornada… Por que não? É errando que se aprende.
“Life ain’t a kind of movie or serie, but it can be our own book. We just need to live chapter by chapter.”
Gênero: Romance, Comédia Romântica, Drama, Suspense
Classificação: 14
Restrição: Pode conter palavras de baixo calão, uso de droga lícita (cigarro), bebidas alcoólicas e insinuações de conteúdos adultos e sexo.
Beta: Thalia Grace

Prólogo

Quando a luz atingiu minha visão, seguida por um grande impacto, minha consciência se apagou tão rápido quanto o grito que eu dei.

Como cheguei a ficar deitada naquela superfície áspera, foi uma coisa que não consegui entender, apenas sentir. Meu corpo todo latejava e eu não me via capaz de fazer nada. Estava completamente confusa, sem lembranças ou fragmentos. Com a visão turva, não podia ver nada muito claro além da noite brilhante sobre mim, totalmente rara na Inglaterra. Eu queria falar, chamar por minha mãe, gritar por alguém, qualquer pessoa! Mas minha garganta estava fechada e a voz não saía.

Borrões constantes começaram a passar por cima de mim, e eu fazia de tudo para chamar a atenção de quem quer que fosse, porém nem ao menos meu dedo indicador obedecia meus comandos. Eu senti o pânico tomando conta do que restava da parte do meu cérebro que ainda parecia estar funcionando, mas eu não conseguia reagir a absolutamente nada. Apenas escutava. Esse parecia ser um dos únicos sentidos dos quais eu ainda não havia dado pane, e mesmo assim não era o suficiente, não quando o som das sirenes me deixou alerta e o cheiro metálico forte de sangue invadiu meu sistema respiratório.

Pela primeira vez desde que abrira os olhos naquela noite, com a visão totalmente fora de foco, me lembrei, e desejei desesperadamente poder estar dormindo, desmaiada, sem qualquer noção das coisas ao meu redor. Mas eu sabia, e havia percebido exatamente o que estava acontecendo. Foi como se eu soubesse desde que olhei o céu estrelado pela primeira vez, que faltava brilho naquilo tudo.

Flashbacks invadiram minha mente como num estalar de dedos e a angústia me tomou dos pés a cabeça. Nada poderia ser pior que aquilo. E no momento que o choro veio, compulsivo e sem controle, mas da mesma forma quieto e silencioso, pareceram, finalmente, notar minha presença ali caída no frio. Mas não importava mais. Eu já estava quebrada de todas as formas possíveis.

— Tudo bem, . Vamos te ajudar. — A voz falou calma e firme. — Tudo vai ficar bem… Só aguente firme!

Só que eu sabia no mais fundo da minha alma que “ficar bem” seria a última coisa a acontecer.

Capítulo 1

“I can see that we’re not happy here, So why would we keep pretending when there’s nothing there? […]

Let’s start over”

Querido Diário…

Hoje se completa um ano desde que ela se foi. E mais um dia em que eu disse com um sorriso no rosto que tudo estava bem, quando na verdade minha vontade era simplesmente de gritar e chorar. Mas com o tempo a mentira se torna quase uma verdade. Os outros parecem acreditar no que digo, no fim, é isso o que importa.

Sinto falta dela… Mais do que um dia imaginei que sentiria.

A situação aqui em casa não está em seu melhor momento, papai além de estressado com tantas coisas para cuidar, está prestes a perder o emprego. Ele não diz, mas eu percebo. Estou ajudando do jeito que posso, mas é algo complicado quando se tem duas crianças em casa. Laura e Leonard, ao contrário de mim, demonstram o que sentem, e não estão nada bem.

A situação complica ainda mais quando tenho de “substituir” da maneira que posso o papel de mãe.

Mas eu tenho esperanças de que tudo mude, quem sabe amanhã, quando for para o estúdio gravar a nova propaganda das maquiagens beuty dream? Dizem que coisas boas acontecem quando você está no fundo do poço, do jeito que estou agora.

O que me resta é pensar positivo. Algo difícil, mas não impossível. Essa vai ser apenas mais uma tentativa que vou fazer e esperar para que tudo dê certo.

E eu espero mesmo que dê.

Com amor,

*

’s POV
Eu havia acabado de gravar o comercial, estava guardando meus pertences em minha bolsa quando um rapaz se dirigiu ao quadro de recados. Logo com a mesma pressa que chegou ali, deixou o papel e se retirou. Quase que imediatamente um grupo de pessoas já se reunia ao redor do quadro lendo-o animadamente. Não vou negar que me senti curiosa.

Enrolei o tempo que pude mexendo no celular, conversando com conhecidos e esperei até que poucos continuassem parados ali.

Talvez uma das únicas vantagens em ser uma garota baixa é que você consegue passar por qualquer lugar e dessa vez não foi diferente. Abri passagem entre as pessoas que sobravam quando vi o anúncio grampeado no quadro. Li rapidamente o papel e, como todas as outras garotas que estavam na sala, também me senti empolgada.

Uma das séries mais assistidas do momento havia aberto inscrições para o papel de co-protagonista, onde a garota atuaria ao lado de um dos atores mais requisitados do último ano. Grande fama e grande salário era uma promessa feita nas entrelinhas para quem conseguisse o papel.

Ouvi-me suspirar quando atrás de mim alguém falou:

, não me diga que ficou interessada? — Uma das assistentes do estúdio, e minha melhor amiga, , resolveu fazer como o habitual e me dar um susto.

— Nem que tivesse tentaria. — Dei de ombros enquanto ela me olhava atentamente, dando em seguida passos largos para ler o comunicado que a pouco todos estavam observando.

— Ah, me poupe, ! Sem drama agora, por favor, e muito obrigada. Você sabe que deveria. — Seus olhos âmbares, intimidadores e persuasivos, quase me fizeram mudar de ideia. Quem conseguisse dizer não para aquela garota deveria receber um Oscar. — Você está dentro da idade e dos padrões exigidos.

— Não estou de drama e você sabe. Não teria tempo nem se conseguisse. — Insisti para ela.

— Já ouviu a frase “pra tudo na vida se tem um jeito”? Pois é, ela é verdadeira. — Seu sorriso debochado me faria rir se fosse em outro momento. — De verdade, , conselho de amiga: Se você quer, então faça. Você tem tanta chance quanto qualquer outra garota que tentar o papel, e com certeza serão muitas. Pode ser a oportunidade da sua vida…

Ponderei as palavras dela por um momento breve. Ah se tudo fosse tão simples, pensei. Ela sabia do meu passado e sabia do meu presente. Sei que tudo o que ela queria era ajudar, mas mesmo assim era difícil pensar sobre. Meu único motivo de trabalhar como atriz/modelo em propagandas era para conseguir um pouco de dinheiro para ajudar na situação financeira em que minha família estava. E se eu conseguisse participar como co-protagonista, obviamente seria mais que perfeito.

Por um momento vi o quão bom aquilo podia soar. O quão bom poderia ser.

Olhei para o papel de inscrição ao lado cheio de nomes e peguei minha caneta. Talvez eu enviasse meu currículo, que não era grande, mas que serviria como base. Talvez eu tentasse o papel. Talvez eu seguisse o conselho de .
Assinei meu nome fechando os olhos em seguida. A garota ao meu lado deu pulos de felicidade, como se apenas rabiscar algo ali já fosse motivo de festa. Ela me abraçou lateralmente e passou o braço pelo meu, assim me arrastando para fora do estúdio.

Não sobrara quase nenhum ser vivo ali, o que significava que eu já deveria estar em casa há algum tempo. Amaldiçoei-me por isso.

— Você sabe a oportunidade que tem nas mãos? Precisa organizar seu currículo e trazê-lo o mais rápido possível! — Ela despejava as palavras enquanto andávamos pela tarde cinzenta de Brighton. — Eu mesma faço questão de enviar seu currículo ao diretor da série, . Não me importaria nem um pouco. Ah, e precisamos de uma foto sua, a foto mais divástica que você tiver, isso é importante. — acrescentou a sua lista mental, quase tropeçando em um cachorrinho no meio da calçada.

— Acho que você deveria parar de falar e respirar. — Me dirigi a ela assim que pararmos em frente à faixa de pedestres.

— Quer estragar com minha felicidade? — Arqueou uma sobrancelha.

— Não, mas não precisa agir assim. Quer dizer, eu só coloquei meu nome em um papel, não significa nada.

Ela pareceu se ofender com o que eu disse, despejando argumentos que eu nem sabia existir na cabeça dela. A partir daí, começamos a discutir sobre os prós e contras de se ter o nome naquela inscrição. Eu não via nada demais, enquanto ela já me imaginava viajando ao redor do mundo, andando em tapetes vermelhos e ganhando prêmios por melhor atuação.

Sorri por ela estar animada por mim.

Essa era uma das características que eu mais amava em : seu positivismo. Ela sempre, não importava em quê, falaria coisas boas, veria o lado bom, te daria conselhos e te faria rir por coisas bobas. Ela estava sempre vendo o lado bom da vida.

E mesmo eu estando ali, sendo uma chata e contrariando tudo o que ela falava, eu ficava feliz por ser com ela. Nunca pensei ser tão grata por uma amizade como sou por essa.

— Você fala que ninguém vai gostar de você, mas isso é impossível, . Todos têm uma queda por mulheres ruivas. — Ela disse após vários minutos de tentativas falhas, tentando me convencer de que tinha alguma chance realmente. Estávamos paradas em frente a uma Starbucks, lugar onde não podia viver longe por sequer um só dia.

— Eu já disse e vou repetir: eu não sou ruiva! Isso é castanho, ok? — Se tinha algo que eu não gostava era que me chamassem de ruiva sem que eu fosse. Meu cabelo era castanho, ponto final.

— Ha-hã, e eu sou loira. — Ela me olhou com deboche e eu ri.

— Mas você é loira, . — Ela ficou muda por um instante batendo o pé impaciente no chão.

— Isso não vem ao caso agora. Estamos falando de você e seu preconceito sobre seu cabelo — Me olhou de cima até baixo e revirou os olhos.

— Quer saber? Esquece… Preciso ir pra casa, Laura e Leonard devem estar sozinhos. — Olhei o horário pelo meu celular e não falou nada, apenas afirmou com a cabeça e deu-me um beijo estralado na bochecha.

— Mais tarde continuamos essa nossa conversinha, não se esqueça!

Sorri para ela enquanto voltava a caminhar. Meu trabalho aquele dia ainda não tinha acabado.

*
Abri a porta dando de cara com duas crianças correndo pela casa.

! — Laura agarrou minha cintura, porém Leonard estava mais ocupado brincando com seus super-heróis. Não me impressionei com sua atitude.

— Olá, irmãozinhos, como foi o dia? — Perguntei, afinando a voz de propósito, enquanto adentrava o local.

Eles começaram então a contar cada detalhe do dia que tiveram, despejaram todos os tipos de informações que um garoto e uma garota de dez anos podem dar. Eu sorria e fazia algumas perguntas para eles de tempos em tempos conforme saia e entrava em outro cômodo.

Laura e Leonard são gêmeos. Cabelos lisos e pretos, olhos num azul profundo que lembrava o céu num dia ensolarado. Os mesmos azuis que eram os olhos de nossa mamãe. Eles eram quase que uma lembrança viva dela.

Já eu, nada tinha de parecido com ela.

Meus cabelos são levemente ondulados da cor castanho acaju. Não considero isso ruivo, mas todos dizem o contrário, coisa que não me agrada muito. Meus olhos são iguais aos do meu pai, azuis levemente esverdeados. Tão indefinidos quanto à cor do meu cabelo. Isso me deixava tão confusa que me fazia querer ter cabelos definitivamente castanhos e olhos da mesma cor, assim eu não perderia meu tempo tentando descobrir o mesmo de cada um. Seria visível o suficiente.

Tive que dar uma pausa sobre meu dilema entre cores assim que meu pai passou pela porta da casa onde morávamos.

Ele tinha a mesma cara de cansaço de todos os dias, como se estivesse esgotado da vida que levava. Não discutiria por isso.

— Olá, . — Ele se inclinou e beijou minha testa. Gesto não muito comum de sua parte.

— Oi, pai, mais um dia ruim? — Perguntei segurando a vassoura em uma das mãos para começar a limpeza do dia.

— O de sempre. — Respondeu ele em um murmúrio. Suspirei derrotada. Ele não me daria nenhum detalhe mesmo se insistisse.

— Sabe que pode conversar comigo se quiser, não sabe? Estamos todos no mesmo barco… — Me senti como se fosse quem tivesse falado. Dei um sorriso torto que ele ignorou.

— Já começou a fazer a janta?

Meu pai me olhou por cima do ombro enquanto entrava em seu quarto para se trocar. Neguei com um movimento da cabeça, que ele não pareceu notar.

— Eu ia limpar o chão primeiro. — Falei no mesmo instante em que soltou o ar pesadamente. Sem dizer nada fui para a cozinha cozinhar algo básico o suficiente para comermos. Sei que se fosse fazer qualquer coisa antes, levaria algum tipo de bronca.

Não tinha escolha.

Na falta de criatividade, macarrão com um molho bem preparado e algum tipo de salada é sempre uma boa saída. Preparei o mais rápido que pude, mas meus pensamentos não estavam concentrados no que iríamos ou não jantar, e sim em como falar sobre o teste.

Isso poderia ser uma tarefa complicada se levar em conta o humor variável que meu pai possui. Mesmo eu sendo maior de idade, tendo dezenove anos, não seria algo fácil de convencê-lo, provavelmente ele descartaria a ideia de primeira. Se bem que ele poderia me incentivar a participar e enviar os documentos, caso a ideia de ganhar dinheiro o agradasse.

Respirei fundo. Não poderia ser tão complicado, poderia?

Eu sentia que a cada dia que se passava, eu me afastava ainda mais de meu pai. Eu queria recuperar o que tínhamos antes, ele não se esforçava pra isso, deixava as coisas como estavam, sem mexer um músculo para mudar o rumo delas.

Os minutos passaram, estava tudo pronto.

Jantávamos em silêncio, cada um em seu lugar determinado, ninguém fazia questão de puxar algum tipo de assunto. O silêncio era quase obrigatório, se não fosse pelo barulho dos talheres em contato com os pratos.

Pigarreei, decidida a falar, chamando a atenção de papai, que me olhou de soslaio. Definitivamente esse seria o máximo de atenção que eu receberia, então tratei de começar a falar antes que perdesse a coragem:

— Pai, preciso conversar com você sobre algo. — Minha voz saiu incrivelmente baixa para a minha surpresa.

— Então fale.

— Bom… Hoje, no trabalho, abriram uma ótima vaga para uma série de TV que está ficando realmente conhecida nos últimos meses…

Meus irmãos começaram a brigar sobre qualquer coisa insignificante, fazendo-me interromper a frase no meio. Meu pai os ignorou e voltou o olhar para mim:

— Aonde quer chegar com isso? — Perguntou com voz ríspida e me vi na obrigação de continuar:

— Queria a sua permissão para tentar o papel. Seria uma ótima oportunidade, sabe? As possibilidades de eu conseguir são pequenas, mas o que custa tentar? me apoiou, disse que seria realmente bom, além de ser um grande salário que nos ajudaria muito caso eu conseguisse. — Disse de uma vez sem olhá-lo. Fixei meu olhar na comida que eu tinha no prato e esperei que ele respondesse, ou pelo menos bufasse num gesto claro de desgosto.

Entretanto ele não fez nada disso. Apenas parou de comer e afastou os talheres do prato. Senti que ele me observava atentamente, como se me estudasse. Fechei os olhos e suspirei imaginando várias respostas que se resumiriam a um não.

— E qual seria o objetivo disso?

Não precisei pensar para responder:

— Ajudar aqui em casa. No que fosse preciso. — Ele assentiu fracamente e permaneceu mais um tempo em silêncio.

Eu sabia que a palavra dinheiro para ele estava sendo uma de suas preferidas ultimamente. Era como mágica; você a dizia e então conseguia a sua atenção.
Olhei para ele, dessa vez nos olhos, que me analisava minuciosamente, querendo detectar alguma mentira ou omissão para acabar logo com aquilo.

— Se quiser, tente, mas não me venha de cara emburrada se não conseguir esse tal papel. Não tenho tempo para mais reclamações além das minhas. — Seu tom, além de ríspido, foi frio como se só quisesse encerrar aquela conversa de uma vez.

Senti que na verdade ele não se importava com o que isso faria na minha carreira profissional se eu conseguisse, ele não se importava com nada além do dinheiro. Saiu da mesa e foi direto para o quarto, se fechando lá, como se a pequena troca de palavras de segundos atrás que tivemos tivesse sido demais para ele.

Meus irmãos, alheios a todo o resto, nem perceberam o clima ruim. Suspirei e me retirei da mesa com o prato vazio, deixe-o na pia e fui tomar um banho. Relaxar: era esse meu objetivo.

Pensei em e no que ela diria se tivesse presenciado esse momento de pai e filha. Provavelmente teria dito que mesmo com toda a frieza e indiferença, mesmo que não tivesse sido uma resposta inteiramente positiva, não estava me impedindo de tentar.

Então era isso que eu faria. Eu tentaria.

Porque não adiantaria ficar assim, deixando a tristeza me consumir como ela já vinha fazendo há tanto tempo. Eu precisava me incentivar a superar tudo aquilo, esse ciclo é algo cansativo. Já estava na hora de seguir em frente. Por mais dolorosa que a vida estivesse sendo, o mundo não pararia por nossa causa, nem pela causa de ninguém. Tínhamos de ser fortes e seguir. Seria isso que ela faria, o que mamãe desejaria para nós.

Estava na hora de criar novas esperanças, novos sonhos. Recomeçar.

*
Vários dias depois…
Querido Diário…

Estou nervosa como nunca estive na vida, minhas mãos estão tremendo tanto que até pareço ter mal de Parkinson. Por quê? Porque hoje é o teste. Hoje é o dia.

Meu estômago está definitivamente e totalmente embrulhado, gira tanto que até parece ter vida própria. Meu coração bate descompassado, fora do ritmo e eu não duvidaria se esquecesse de respirar de vez em quando.

Eu tentei escolher uma roupa boa, tentei arrumar meu cabelo e até mesmo passar algum tipo de maquiagem, apesar de que não consegui fazer nada mais que um rímel básico, delineador e batom. Eu queria estar apresentável para os diretores… Ou diretor, ou quem quer que vá me receber hoje.

Passei o texto um milhão de vezes seguidas na frente do espelho nos últimos dias esperando ser convincente, como se aquilo fosse real. Era assim que tinha que ser, certo?

Eu não tenho tempo a perder, preciso tomar coragem e fazer o que for preciso. Agora é o momento. Não vou colocar tudo a perder, não posso! E antes que essa onda de determinação me abandone e eu me esconda ou resolva desistir, é melhor eu ir agora.

Com amor,

*
’s POV

Estávamos eu e numa sala grande, que antes estivera abarrotada de gente, em um estúdio próximo ao que eu costumava fazer meus trabalhos. Porém, como era de se esperar, esse lugar era bem maior e muito mais bem cuidado em comparação ao que eu frequentava. As pessoas passavam com nariz empinado sem ao menos olhar em seu rosto. Não vou generalizar, mas a maioria delas eram metidas. E isso não estava colaborando com o meu nervosismo.

, tem certeza que enviou todos os papéis que te dei? — Perguntei enquanto passava minhas mãos suadas pela barra de minha saia. Ela revirou os olhos.

Eu tinha passado na primeira seleção, que não era nada mais que uma análise básica da ficha que tive que preencher alguns dias antes. Aparentemente eles gostaram do meu currículo com algumas várias propagandas e algumas poucas sessões de fotos, sinceramente aquilo não era nada além do básico.

justificou dizendo que eu tinha talento.Claro, se você me perguntar isso mais uma vez, eu juro que fecho sua boca com fita adesiva. — Ela fez pose de superior enquanto me olhava e soltei um riso nervoso em resposta. Era uma mistura de alívio e alegria por ela estar me apoiando, fora as outras sensações que eu não conseguia descrever.

Não se passou nem mais um minuto quando uma garota alta, magra e linda, que eu julgava ser modelo, abriu a porta do auditório com um sorriso convencido nos lábios no mesmo momento em que uma voz grossa disse lá de dentro:

— Engoli em seco e virei apressada para , com os olhos arregalados. Ela me lançou aquele olhar de não surte e, incapaz de fazer outra coisa, a eu obedeci.

Senti minhas pernas vacilarem e minha pele ficar pálida. Mais do que já era.

— Olha aqui, não entre em pane! — Ela agarrou meus braços. — Faça rápido: respire, inspire, respire, inspire. Agora vai lá, garota! Me deixe orgulhosa! Todos amam as ruivas, não se esqueça! — Antes mesmo da minha resposta, ela me empurrou para dentro da sala. E eu juro que nunca me senti tão apreensiva como agora.

— Olá, querida. — Disse um homem aparentemente simpático, me estudando minuciosamente com o olhar atento de profissional. — Eu me chamo Gregory Colleman.

— Olá! — Foi a frase brilhante que eu consegui formular enquanto meu coração parecia soar mais alto que o som da minha voz.

Sem mais delongas, ele disse com um sorriso que emanava desafio:

— Faça o que veio fazer.

Ele queria que eu o convencesse e foi o que eu fiz.

Fiz o melhor que poderia ter feito, senti cada palavra na alma e levei a sério o sentimento da personagem. Por um instante, me perguntei se eu estava realmente falando um texto decorado, porque durante um breve momento, eu não estava atuando, estava sendo. Falei o texto com uma paixão que era desconhecida para mim até aquele dia.

Minha professora de teatro teria ficado orgulhosa.

A interpretação se estendeu por longos minutos que passavam parecendo horas. A intimidação que o Sr. Colleman transmitia era grande. Não só dele, mas de todos os outros ocupantes daquela sala.

Algumas dessas pessoas seguravam cadernetas e faziam anotações. Para quê, eu não faço ideia, mas a pressão que eles tentavam fazer não impediu que eu terminasse aquilo que me propuseram.

No final de tudo, o diretor ainda estava lá com o mesmo olhar de antes com as mãos entrelaçadas de baixo do queixo, porém seu rosto não tinha mais o sorriso desafiador, e sim um sorriso diferente. Hora parecia pensativo e hora presunçoso. Difícil de explicar.

— Não imaginava que uma coisa tão pequena como você fosse se sair assim. — Arqueei uma sobrancelha. Não foi legal da parte dele pensar isso. — Você foi bem, senhorita . Para alguém que não faz nada além de propagandas, foi até surpreendente.

Alguns riram, não sei se por ironia ou deboche, talvez fossem os dois.

— De qualquer forma, querida, preciso parabenizá-la. — Os cantos da minha boca se ergueram num sorriso tímido. — Vejo você na terceira fase. — Ele disse por fim, sinalizando com a mão para que eu me retirasse.

Fiquei parada o encarando sem entender, e comecei a piscar diversas vezes seguidas, assimilando as palavras.

— Terceira fase? — Movi os lábios levemente, mas mesmo com o som quase inaudível com que as palavras saíram, a sala explodiu em gargalhadas.

— Ora, senhorita, achou mesmo que a escolha seria assim, com uma vara de condão? Já sabemos que você atua, que sabe trabalhar, que é fotogênica e tem um currículo agradável, além de ser bonita, mas falta a parte da química. — O diretor apoiou o calcanhar em seu joelho e entrelaçou os dedos das mãos em seu colo, ficando com a aparência de um professor da pré-escola. Realmente a sensação era de eu ser uma criança de seis anos.

— Química? – Permaneci estática ainda me sentindo uma boba confusa.

— Claro, você acha que vamos pegar qualquer uma para aparecer na TV? Queremos ver se o casal combina! Não é tão simples assim. — Ele gesticulou e depois revirou os olhos.

Gregory suspirou e virou para o lado, puxando algo de dentro de uma pasta.

— Tome — Jogou para mim alguns papéis. — Decore isso para próxima semana. Esteja aqui no mesmo horário. — Assenti enquanto dava uma lida rápida. — Agora saia, você está me dando tédio.

Franzi a testa olhando para ele. Quem ele acha que é?

Deixei meus pensamentos fluírem por um instante, então virei as costas e sai de cabeça baixa. Cara arrogante, pensei comigo novamente enquanto abria a porta e aquela mesma voz gritava o nome da próxima garota. Então eu ainda tinha de me preparar para mais uma fase, como se o estresse de hoje já não tivesse sido suficiente. Ótimo.

me esperava com uma cara apreensiva, de dedos cruzados e mordendo o lábio inferior. Assim que me viu, levantou tão rápido que quase derrubou outra concorrente.

— E aí? Como foi? Me fala agora!

— Eu passei para a terceira fase. — Disse, ainda pensando no que ele dissera: “Agora saia, está me dando tédio”. Poxa, sou tão chata assim? Realmente estava certa. Provavelmente ele não é daltônico e percebeu que meus cabelos são castanhos, por isso ele não gosta da minha pessoa. Se eu fosse ruiva de verdade ele teria gostado de mim de primeira.

me abraçou e começou a dar mais pulinhos a minha volta. Novamente, ela já me imaginava em programas de entrevistas, falando sobre a série e fazendo agradecimentos a todos pelo meu sucesso. Só que isso não passava de sua imaginação.

— Você tem que ser a escolhida! — Ela falou de olhos arregalados segurando meus ombros. — Nem que eu precise pagar propina!

— Não seja desesperada, criatura. Se tiver que ser, será. — Dei de ombro enquanto segui pelo corredor até a saída.

— Ah, não! Não me venha com essa história de destino, . Você vai sim passar nessa porcaria de série, nem que seja a última coisa que eu faça viva ou morta. — Se fosse alguém que não a conhecesse, teria ficado com medo do tom de suas palavras.
— Boa sorte, então.

Nesse milésimo de segundo que eu virei a cabeça para respondê-la, senti algo forte bater contra meu ombro e braço. A princípio pensei que tivesse alguma pilastra, ou mesmo uma parede que eu não tivesse enxergado, mas assim que um líquido morno atingiu meu rosto, cabelo, pescoço e camiseta, eu sabia que tinha sido pior. Muito pior.

— Olha por onde anda, gnoma de jardim. — Uma voz grossa e aparentemente brava disse, seguindo com várias palavras que não vale a pena repetir.

Eu não tinha visto o rosto de quem era, ainda estava de boca aberta e olhos fechado enquanto esperava o susto passar.

— Hey, não fale assim com ela! Não é porque você é a droga de um famoso que tem esse direito. — Ouvi falar ao meu lado, me defendendo.

— E você é o quê? Segurança dela, por acaso? Cuida da sua vida, garota estúpida. — Abri meus olhos e vi minha amiga apertando os punhos e rangendo os dentes.

Eu precisava evitar que minha amiga o atacasse, mesmo que o cara merecesse por sua falta de educação. Segurei o antebraço dela e passei a mão no rosto antes de olhar para ele e disse contra a vontade:

— Desculpe, não vai acontecer de novo. — Minha voz saiu surpreendentemente calma em comparação a de .

Sem estresse, disse mentalmente e repeti essa mesma frase várias vezes. Eu tinha passado para a terceira fase, isso era uma notícia boa, não ia pensar em coisas ruins agora. Muito menos ficar escutando coisas ruins.

O rapaz que estava de jaqueta preta, camiseta branca, calças apertadas e coturnos pretos, me olhou de cima a baixo e riu sarcasticamente.

— Mas é claro que não vai. Vê se tenta ser menos desastrada. — E com o deboche saltando por cada palavra, virou as costas gritando para a primeira garota que visse “Hey, você! Me traga outro café! Agora!”, enquanto seguia com toda sua arrogância sabe-se lá para onde.

, vamos sair daqui antes que eu pule em cima desse idiota. — Ela me puxou pelo resto do corredor, mas meus pensamentos não saíram dele.

OK, agora fica difícil de gostar da noticia boa.

De um jeito nada bom, eu acabara de conhecer . Ninguém mais ninguém menos do que o ator com quem eu teria de fazer o próximo teste semana que vem. E garanto que, infelizmente, a primeira impressão não foi nem de longe uma das melhores.

 

Nota da Autora: Olá a todos! Bem-vindos a Dear Diary 😉
Espero que tenham gostado! Deixem comentários aí embaixo, quero saber o que estão achando!
Beijos e até a próxima 🙂

 

 

Capítulo 2

“Show me how big your brave is

[…]

Honestly I want to see you be brave”

’s POV

— Quer me repetir mais uma vez por que Maya Santiago deixou de trabalhar na série? — Perguntei de novo para .

Era domingo e estávamos na casa dela jogando conversa fora, fofocando, falando de mil besteiras diferentes, deixando o tempo passar. Eu estava sentada na poltrona enquanto ela estava deitada em sua cama lendo uma revista qualquer, quando tomou ar para falar:

, querida — Começou pausadamente. —, Já li duas vezes, então como uma garota que fez a primeira série, leia você mesma! — Se não fosse pelo meu bom reflexo, teria levado uma revista na cara.

A matéria era um tanto quanto antiga, mas eu não fazia ideia de sua existência até o dia de hoje, já que não me considero alguém dentro do mundo das celebridades. Porém isso era algo que realmente tinha me chamado a atenção. Comecei a ler:

“Uma de nossas atrizes preferidas do último ano, Maya Santiago, a mexicana que conquistou nossos corações confirmou a (pior) notícia!
A gata vai deixar o elenco de uma das séries mais assistidas do momento, a empolgante The Black Side. A atriz afirma que não era algo planejado, mas que não vai deixar as telinhas tão cedo. Nesse mesmo ano pretende fazer a participação em um filme como protagonista! Isso mesmo, galerinha, ela ainda vai caminhar muito sobre red carpets.
Os produtores da série e o próprio diretor, nosso querido Gregory Colleman, disse que a procura da nova celeb está a todo vapor. Segundo nossa fonte, nada de atrizes famosas! Querem uma iniciante talentosa para ocupar as telinhas ao lado do nosso querido cantor/ator/compositor . Será que a new girl vai nos conquistar?Clima de mistério no ar!
E aí, como está a torcida dos fãs?”

Ok, sendo sincera, nunca fui a fã número um da série The Black Side, mas não vou mentir que o suspense que ela passa é contagiante, como se fosse algum tipo de doença que se espalha em dias. É um caso para se pensar, não é nada saudável.

Imagino a emoção de trabalhar como espião/espiã na televisão. Com certeza, bom demais para ser verdade, a ficção virando realidade. Meu foco se esvaiu e meus pensamentos voaram longe.

— Terra chamando ! — estalava os dedos da mão na frente do meu rosto. Pisquei vezes seguidas até me centrar novamente.

— Oi? — Foi minha resposta inteligente.

— Leu a reportagem? Tá aí parada com cara de morte há uns dez minutos… — Minha amiga ligou o iPod deixando um rock alternativo tomar conta do lugar. Ignorei seu último comentário, e perguntei:

— Você acha que é verdade? — Passei da poltrona para a cama.
— O quê? — Depois eu que não estava no planeta Terra. Era o sujo falando do mal lavado, mas já havia me acostumado depois de tantos anos, desse “liga e desliga” de minha amiga.

— Sobre a saída dela. — Disse, torcendo os lábios em uma careta.

— Há alguns dias eu diria que poderia ser verdade. Talvez a proposta do filme fosse melhor que o contrato da série, que, aliás, estava no fim, já que estão prestes a começar a terceira temporada, mas… — Ela puxou as letras e deixou o som se prolongar no ar. — Depois da semana passada, diria que ela não suportou a presença de certo rapaz… Talvez ela tivesse chegado ao seu limite, explodido e desistiu.

Ponderei suas palavras. Eu não duvidava de nada. Depois de toda a educação e delicadeza com a qual me tratou, imaginei o quão difícil deveria ser trabalhar e conviver com um homem daquele. Deus cuide dos amigos e da família de quando ele estiver por perto. Não deve ser simples ou fácil.

— Ou ele estivesse apenas em um dia ruim. — Ouvi minha voz sem ao menos estar preparada para isso.

gargalhou alto, porém eu não a acompanhei, o que fez com que ela pausasse a música, sentasse e me encarasse perplexa.

— Tá brincando, né?

— Por que estaria? — Dei de ombros brincando com os pingentes de minha pulseira. Tivera sido minha mãe quem me dera, desde sua morte não a tirei do pulso por um só momento. Guardava aquilo como mais uma lembrança além daquelas que ficavam penduradas na mesma.

— Qual é, ! Há um segundo você concordava comigo mentalmente e agora fala isso? Vai dizer que é fã daquele babaca? — Minha amiga estava séria e com um olhar feroz que me intimidou momentaneamente.

— Eu não disse isso! Só levantei uma hipótese. — Me defendi, suspirando. — As pessoas têm dias ruins, talvez aquele tivesse sido péssimo para ele. Não o conheço, e por mais que pense mil e uma coisas diferentes, seria ridículo falar sobre coisas que não sei.

Ela pareceu ponderar o que eu falava.

— Você sempre tenta ver o melhor das pessoas, mesmo quando o pior está escrito no rosto delas. — Os olhos de me vasculharam procurando algum tipo de reação, que aliás não deixei transparecer.

A verdade é que eu não sabia como responder. Não era a primeira vez que ela me falava isso, mas eu tinha um conceito sobre como olhar a vida, principalmente depois dos acontecimentos mais recentes. Se olharmos só para o lado negativo, a felicidade não vem, o sorriso não aparece. A vontade de viver é levada pelo vento. As coisas pequenas trazem a felicidade, os pequenos detalhes. Ninguém vai estar cem por cento bem, por isso tirar conclusões precipitadas, em minha opinião, não é melhor forma de encarar as coisas.

Sorri para ela.

— Procurar o lado ruim das coisas é deprimente. Ninguém vive só de defeitos. — revirou os olhos e voltou a ligar seu iPod. Ignorei-a e voltei a ler qualquer outro texto na revista. A última coisa que eu queria naquele momento era pensar no próximo teste. Eu já estava enlouquecendo.

*
Querido Diário…
Quem dera alguém tivesse me desejado boa sorte. Mas não. Ninguém! Estou por conta própria hoje.
Minhas mãos tremem e minha respiração falha. Eu não faço ideia do que escrever aqui, mas sinto grande necessidade nisso. É estranho, eu sei, mas não posso evitar.
Vou respirar fundo e encarar seja lá o que esteja me esperando lá daqui a um tempo. Me sinto corajosa, estou de queixo erguido e nariz empinado. Eu consigo, eu vou conseguir.
Eu sei que vou.
Com amor,

*
Algumas horas depois…
’s POV

Cheguei no estúdio da mesma forma que saí de casa: com medo. E ao olhar ao redor não melhorou em absolutamente nada. Tinham cerca de doze garotas, uma mais linda que a outra, capaz de deixar uma legião de adolescentes com inveja. Me senti deslocada. Mesmo de salto quinze centímetros eu conseguia ser a mais baixa dentre todas. Respirei fundo, empinei o nariz mais uma vez e entrei.

Recebi olhares tortos de todos os cantos. Uma garota me olhou de cima até baixo e estalou a língua. Certo, ela não gostou de mim. Me sentei na última cadeira disponível, não antes de arrumar o vestido que usava e deixar com que meu cabelo solto caísse sobre meu rosto. Eu estava fingindo ser confiante.

Peguei o script de dentro da bolsa e repassei as falas mais uma vez mentalmente enquanto esperávamos o diretor entrar, o que demorou cerca de vinte minutos. Certamente, ele não deixou de ser o centro das atenções quando empurrou as duas portas, causando um som alto, e entrando a passos largos indo em direção a sua cadeira.

— Boa tarde, gracinhas! Espero que não tenham nenhuma crise aqui no meio. — Gregory deu o sorriso mais falso que eu pude presenciar e revirou os olhos em seguida. Nem ele próprio acreditou. — Bom, de qualquer forma espero de verdade que atuem melhor que na semana passada, só aquilo não será o suficiente por hoje.

Terminando com essa frase tão estimulante, o senhor Colleman se sentou, cruzou as pernas e não disse mais nada até que da mesma forma que ele, alguém entrou sendo nada discreto.

Algumas garotas soltaram suspiros, outros sorriram e o resto gritou. Aparentemente apenas eu o olhei séria sem deixar nada transparecer. Nesse caso não era admiração ou algo assim, eu sentia desconforto. não havia sido nada gentil comigo.

— E então, qual dessas gatas vai ser minha próxima vítima? — arrumou sua jaqueta preta e passou a língua sobre os lábios.

Uma garota loira de cabelos lisos com um decote até o joelho, que estava ao meu lado, se arrumou na cadeira o olhando fixamente. Ele passou o olhar por cada garota sorrindo maldosamente, mas sua expressão se tornou séria assim que seus olhos âmbares cravaram em mim. Revirei meus olhos.

— Ah, não…

Gregory franziu o cenho intercalando os olhares entre e a fileira de garotas que eu estava inclusa.

— O que foi? Não me diga que conhece alguma delas, ! Não me diga que já dormiu com alguma dessas garotas?! — O diretor elevou o tom de voz gradualmente enquanto o encarava.

— Não — O moreno negou imediatamente —, ainda… — Continuou ele, dando um sorriso nada discreto sobre seus pensamentos assim que encarou uma garota morena.

Juntei as sobrancelhas. Onde é que eu vim me meter?

— Ok, chega de palhaçada. Vamos começar logo com isso. Melanie Stevens, você primeiro.

A garota loira ao meu lado se levantou dando início a longa jornada de espera. Aparentemente estava escrito em algum lugar, que eu não sabia onde, que eu seria a última a interpretar a personagem da série: Kate.

Uma por uma as meninas foram e fizeram o que deviam. Minha perna direita estava dormente, a outra eu não conseguia parar de balançar, minha mente então não conseguia se concentrar em algo concreto sem ser no texto que eu teria de falar. Eu estava totalmente absorta.

, sua vez. — Em um pulo eu já estava em pé andando apressadamente, tentando evitar o eco dos meus saltos batendo contra o piso, até o lado de e esperei o comando.

— Olha, com esse salto do tamanho do Empire State Building é difícil lembrar que você tem a altura de um gnomo. — O ouvi dizer me olhando de cima até baixo.

Eu podia olhá-lo nos olhos, já que nossa diferença de altura devia ser de aproximadamente sete centímetros. Infelizmente ele continuava maior. Suspirei pesadamente e vi um sorriso sarcástico surgir em seu rosto.

— Qual é ruivinha, o gato comeu sua língua? — Perguntou ele cinicamente e depois continuou. — Espera, eu ainda nem te beijei!

Pisquei. Pensei por um segundo e olhei para cima. De verdade, isso era pra soar bem? Foi uma das piores coisas que já ouvi na minha vida.

— Eu não sou ruiva. — Foi a melhor frase que consegui formular além de alguns xingamentos e coisas do tipo. arqueou a sobrancelha esquerda, mas antes de dizer, muito provavelmente mais algum insulto, foi interrompido:

— Em suas posições, por favor! — Alguém gritou e eu quase exclamei um amém.

— Ah, e dessa vez tente não derramar líquidos em mim. — Recebi esse recado seguido de uma piscadela. — E não pense que vou deixar as coisas mais simples para você. — Estreitei os olhos em sua direção. só podia querer infernizar minha vida.

Respirei fundo e esperei que permitissem, então começamos a atuação.

Foi rápido, mas intenso. Incrível como uma pessoa pode fingir tão bem quanto ele estava fazendo naquele momento. Era estranho “ter” uma conversa sem frases de duplo sentido, piadinhas sem graça ou cantadas de mau gosto.

atuava extremamente bem, prendia todos os olhares do estúdio em si mesmo, era impossível alguém não prestar atenção em tanto talento. Tinha que admitir que isso era algo que ele tinha, na verdade, algo que chegava a me deixar impressionada.

Enquanto adquiria a personalidade de Kate, notei que tudo parecia estar de ponta cabeça. A garota que eu interpretava era do jeito que havia agido comigo. Atrevida e maliciosa, quase divertida. Já ele era sério, observador, quase calculista, mas muito misterioso.

Eu interpretava uma pessoa que nunca seria de verdade na vida real.

As falas se encerraram no mesmo momento em que nossos olhares se desviaram para se prenderem no diretor e em seus assistentes que nos encaram fixamente sem piscar. As outras garotas que já tinham feito a mesma cena agora estavam sentadas lixando a unha, trocando mensagens de texto, observando qualquer ponto distante da sala ou então me encarando com desdém.

— Ótimo, sente-se, senhorita . — Disse Gregory, abanando a mão. Não demorei a obedecer.

Disseram para nos retirarmos da sala e que esperássemos do lado de fora. Eu já sabia o que era. Hora da eliminatória.

Recolhi minha bolsa, script e me dirigi até a saída junto com as outras garotas. Em todos os vinte e cinco passos que eu dei da cadeira até a porta, senti seu olhar semicerrado sobre minhas costas. Eu não sei o que o ator tem contra mim, mas isso está me deixando desconfortável e intrigada, além de muito curiosa. Virei para encará-lo, arqueando uma sobrancelha, questionando mentalmente seu comportamento e ele soltou uma risada nasalada, virou as costas no momento em que deixei a sala.

*

Se passou uma hora e meia desde que saímos lá de dentro. Consegui, talvez por um milagre, conversar com duas garotas que me trataram bem em comparação a algumas outras. Meredith e Lucy eram uns amores de pessoas. Simpáticas, delicadas e fofas.
Descobri mais delas do que talvez devesse, já que muito provavelmente não nos veríamos nunca mais depois do dia de hoje. A conversa fluía como se já nos conhecêssemos há meses.

Fomos interrompidas subitamente quando uma mulher alta de rabo de cavalo loiro apareceu com uma lista na mão. Ela não esperou que o silêncio viesse, começou a falar no mesmo instante em que cravou os pés juntos no chão:

— Os nomes que eu falar, por favor, sigam-me para dentro da sala. As restantes, obrigada por terem vindo e participado, mas vocês não estão entre as finalistas.

Houve um murmurinho de pessoas falando e comentando juntas. Me remexi tensa no sofá onde estava. As demais só ficaram quietas quando a voz da mulher se fez mais alta.

— Melanie Stevens; — A garota que havia feita o primeiro teste levantou aos pulos, igual a uma criança no dia de Natal. — Sophia Albuquerque — A outra de cabelos cacheados levantou com um sorriso convencido e seguiu com seu nariz arrebitado para dentro da sala mais uma vez. — .

Arregalei os olhos e senti meu coração acelerar. Lucy e Meredit me parabenizaram, mas pude ver que estavam arrasadas. As demais garotas que não foram chamadas demonstravam diversas emoções. Algumas choravam, outras tinham olhares indignados, poucas agiram normalmente.

Segui de pernas bambas até a linha que as outras duas meninas formavam de frente para todas aquelas pessoas. Fixei-me ao lado direito delas mexendo distraidamente na minha pulseira de pingentes. O senhor Colleman deu a primeira palavra:

— Então, queridas, queremos dizer que ficamos muito impressionados com a atuação de vocês, mas infelizmente não podemos ter três protagonistas. Teremos de tirar duas de vocês, só que não hoje.

Franzi o cenho confusa enquanto Gregory nos olhava com um sorriso. Percebi que não era a única que não estava entendendo.

— Daremos a resposta ainda durante essa semana, aguardem nosso telefonema, sendo ele de boas ou más notícias. — Olhei para meus pés. — E não se preocupe, para quem não passar, novas oportunidades virão.

Elas, assim como eu, estavam prontas para virar as costas e ir embora quando alguém pigarreou chamando nossa atenção novamente.

— Só para deixar claro – A voz de ecoou pelo lugar. — Espero que nos encontremos outras vezes. Então, se quiserem, podem anotar o telefone de vocês nesse papel, aí podemos marcar reuniões particulares ou…

— Nada disso! — Interrompeu o diretor. — Nada de criar casos com essas garotas, .

— Qual é, só pedi o telefone delas! — Sr. Colleman tinha um olhar de tédio, como se visse a mesma cena todo dia.

— Ah, é? E o que você ia fazer depois que tivesse o telefone dessas meninas?

— Provavelmente teria uma noite bem divertida com algumas delas. — respondeu, dando de ombros. Juntei as sobrancelhas e retorci minha boca em uma careta.

— Ok, chega de besteira, . Podem ir embora, vocês três.

Nada precisou ser dito depois, eu apenas virei as costas e saí andando enquanto as duas outras garotas ficavam para trás dando risinhos cheios de segundas intenções para .

Resolvi que seria melhor se eu aproveitasse a situação e fosse logo pra casa, deitar na minha cama, colocar fones de ouvido e quem sabe escrever no meu diário, ou talvez só dormir. Quando eu estava na metade do caminho que eu deduzia ser o da saída, ouvi as vozes enjoadas e finas demais daquelas outras duas garotas discutindo.

Apressei o passo e elas fizeram o mesmo.

— E você também, sei lá o quê! — Começou a Melanie. — Não pense que vai conseguir isso assim do nada. Essa vaga é minha, espero que saiba.

Parei e fiquei encarando-a.

— Não fale as coisas assim, coisinha. Você viu como ele olhou pra mim. Você não tem chance! — Revidou Sophia.

Aproveitei esse milésimo de segundo enquanto a atenção não estava sobre mim e terminei de andar naquele mesmo corredor onde semana passada eu havia levado um banho de café. Passei pela porta olhando para os lados procurando algum sinal de um táxi para me levar para casa. As duas estavam logo atrás de mim quando estendi o braço e o carro parou.

Enquanto abria a porta e entrava no banco traseiro, imaginei que no meu lugar, daria um breve “tchau” para aquelas duas garotas que me olhavam com certo ódio. Disse ao motorista o endereço de minha casa e logo ele já pisava no acelerador deixando aquele lugar para trás.

Encostei a cabeça no banco enquanto olhava o céu nublado no decorrer dos próximos minutos. Meu celular vibrou dentro da bolsa, sinal de que tinha alguém me ligando. Era .

— Alô?

Gostei da roupa, Julie! — Sua voz animada me deixou confusa. Como ela sabia a roupa que eu estava usando? Enquanto o silêncio se prolongava eu olhava para os lados, como se ela estivesse por perto me observando.

— Quê?

É isso mesmo! Mas ao invés desse sapato, teria colocado aquela bota cano baixo. Combina mais com a jaqueta.

Arregalei os olhos.

— Está me espionando? — Minha voz saiu uma oitava acima do que eu desejava. O motorista grisalho me olhou pelo retrovisor.

Não preciso. — Minha amiga respondeu. — Você está na internet.

— Como assim? — Meu cérebro estava demorando a processar a informação.

É isso mesmo, acéfala! Tem uma revista de fofocas com uma foto sua, e acredite, tem muitos comentários…

— Leia! — Eu praticamente gritei para .

Ok. Tá escrito assim: “IMPORTANTE! Meninas de todo o país! — Afinou a voz em um tom agudo irritante. — Fontes acabaram de nos mandar uma foto de três possíveis garotas que vão fazer o papel da nova estrela da TV! De acordo com as informações que temos, elas estavam deixando o estúdio onde o diretor e produtor de The Black Side está com seus assessores, produtores e co-produtores da série, junto com o protagonista . Tudo indica que essas gatas são as três finalistas. Nada melhor do que uma loira, outra morena e pra completar, uma ruiva! Só falta saber qual delas é a sua preferida. Dedos cruzados para que a escolha seja feita logo!” Fim. — A voz de voltou ao normal assim que terminou de ler.

Fiquei segurando o celular no ouvido sem nada muito interessante de se dizer. Minha amiga não me apressou. Quando o taxi parou de frente a minha casa, entreguei o dinheiro ao motorista e somente quando estava na minha porta, voltei a falar:

— Eu não sou ruiva!

Ah, me poupe, ! Você está na internet, com vários comentários bons e ruins sobre você, e a única coisa que você tem a dizer é que não é ruiva? Você é doente por acaso?

— Não fique com raiva de mim! Só não sei o que dizer sobre isso. — Falei, virando a chave e abrindo a porta, sendo recebida por várias falas de Leonard e Laura, que na verdade, não estava prestando muita atenção.

Talvez algo como “Puxa! E o que estão falando sobre mim?” seria algo normal de se escutar. E se você está tão incomodada assim de terem dito que você é ruiva, o que é verdade, ligue pra eles e faça uma reclamação.

— Vou desligar na sua cara. — Falei.

Faça isso, chego à sua casa em dez minutos. Quero detalhes sobre hoje.

Revirei os olhos e bufei. Eu realmente tinha muito que conversar com a minha amiga hoje.

*

Querido diário…

Já faz cinco dias que a minha foto está circulando na internet e zero dia que me deram algum telefonema do estúdio. me disse que não é tão difícil assim decidir entre duas garotas com cara de

vadias

, vulgo meretrizes, e eu, com cara de um ser humano normal,

porém sexy

. Essas foram palavras dela, não minhas. Eu não concordava com ela nisso, já que eu havia visto as duas atuando e elas eram muito boas.

Laura parece empolgada com a ideia de que talvez eu apareça na televisão. Ela fica criando possibilidades de aparecer também. Pensei sobre o assunto e estou avaliando minha ideia de levá-la até a agência onde eu comecei com as propagandas. Talvez meu pai concorde, ou muito provavelmente não. Mas não custa perguntar.
Andei lendo na internet algumas coisas que deixaram minha autoestima maior. E outras que apertava span logo em seguida, já que eu não tinha dado permissão para ela falar mal de quem havia feito comentários ruins.

Eu estou escrevendo enquanto espero para vir fazer minhas unhas e assistirmos um filme qualquer. Esse fim de semana era a vez de usarmos o meu quarto. Melhor eu ir e fazer a pipoca antes que ela chegue e me dê alguns tapas.

Com amor,

*

Atendi a porta na segunda vez que a campainha tocava.

— Pensei que não viesse mais. — Falei, dando espaço para minha amiga passar.

— Puxa, não me atrasei nem quinze minutos. — revirou os olhos enquanto entrava e cumprimentava meus irmãos, logo em seguida meu pai.

Fomos direto para o quarto onde dois baldes de pipoca, uma fileira de esmaltes, e duas latinhas de Coca Cola nos esperava. Ela se jogou de barriga pra cima na minha cama.

— Claro, fique a vontade.— Murmurei, ela riu.

— O que vamos ver hoje?
— Hum, não sei. Pode escolher, se quiser. — Fale,i pegando meu notebook e colocando em um site de filmes on-line para escolher.

— Que tal “Casa comigo?”? — me olhou com um sorriso de orelha a orelha e os olhos brilhando.

— Ah, não. De jeito nenhum vou ver esse filme de novo!

— Mas é meu filme favorito! Ele aflora meu lado meigo e romântico.

— Nem começa! Escolhe outro, por misericórdia!

Então começamos uma discussão sobre os prós e contras de assistir esse filme outra vez. Já foram tantas que perdi a conta, mas decorei várias falas. Era um filme lindo e tal, mas eu não aguentava mais! E eu tinha quase certeza que ela ainda ia me fazer assistir esse filme mais uma vez só para me provocar e não perder o hábito.

Meu irmão bateu na porta e entrou com o telefone sem fio, fazendo nós calarmos a boca por um instante bem curto enquanto ele falava.

— Julie, falaram que era pra você. — Peguei o aparelho e vi me olhar confusa.

— Falaram de onde era? — Perguntei.

— Acho que é alguém que conhece o Gregalgumacoisa.

Aquilo já foi o suficiente para levar o telefone até meu ouvido e murmurar um “alô” trêmulo. Não sabia que estava nervosa até atender.

Olá, aqui é a assistente de Gregory Colleman, produtor e diretor da série The Black Side, quem está falando é ?

— Sim, é ela mesma! – grudava a cabeça do outro lado do telefone tentando escutar algo.

Pois então temos o prazer de te comunicar que você foi escolhida como a nova protagonista da série. — Prendi o grito quando a mulher terminou de falar. — Queremos que venha até o mesmo estúdio das últimas duas vezes para que possa assinar o contrato e fazer o acordo sobre seu salário.

— No dia que você quiser. — Foi o que consegui responder.

Amanhã às duas da tarde. Não se atrase, por favor. Sala sete, traga seus documentos. Boa tarde, senhorita .

O telefone foi posto no gancho no instante em que eu e minha amiga colocamos uma música qualquer e começamos a gritar, pular e dançar juntas como duas loucas e idiotas.

Ah, o mundo que se ferre! Eu consegui!

— VOCÊ CONSEGUIU! VOCÊ VAI VIRAR UMA ESTRELA DA TELEVISÃO! VAI SER A MAIS NOVA DIVA NA VIDA DESSAS PESSOAS QUE ESTÃO ESPALHADAS PELO MUNDO, VOCÊ É DEMAIS, !

Comecei a gritar por cima de suas palavras, falando que ela sempre seria minha melhor amiga e seria também minha agente, que viajariamos juntas para seja lá onde decidissem que eu fosse, mas estragando completamente minha imaginação fértil, meu pai abriu a porta e paramos estáticas com respirações descompassadas.

— Isso aqui é pra você. — Ele esticou o braço e me deu um buquê de flores. Igual a , franzi a testa.

— Quem deixou? — Perguntei enquanto pegava de sua mão estendida.

— O entregador, quem mais seria? — Seu sarcasmo fez rir. Ele revirou os olhos e fechou a porta atrás de si, nos deixando sozinhas de novo.

— Olha, tem um bilhete, leia! — Minha amiga o puxou e me entregou com excitação visível nos olhos.

Demorei alguns segundos para decidir o que fazer. Por alguma razão, eu estava com um friozinho na barriga, curiosa para saber de quem era, mas apreensiva ao mesmo tempo. Alguma coisa me dizia que essa surpresa não era assim tão boa quanto eu esperava e queria que fosse.

— Certo… — Desdobrei o pequeno papel e comecei a ler em voz alta. — “Meus parabéns pela conquista! Mas acredite, como eu já disse uma vez, não vou tornar as coisas fáceis para você. Ass.: Seu futuro colega de trabalho, ”.

Nota da Autora: Hey, pessoal! Espero que tenham gostado do segundo capítulo. Deixem comentários para eu saber a opinião de vocês sobre a história até agora.
Beijos e até a próxima 😉

 

3º Capítulo

“If I’m a bad person, You don’t like me

I guess I’ll make my own way”

’s POV

Ok, isso tudo deve ser algum tipo de piada, e atrás de mim deve ter uma câmera fazendo com que nesse momento todos rissem da minha pessoa, mesmo que de engraçado aquele bilhete não tivesse nada.

— Hm, ? — franziu o cenho olhando para mim com uma incógnita óbvia no rosto.

— Sim? — Respondi sem tirar o rosto intrigado daquele buquê. Meu cérebro ainda não tinha absorvido metade das informações recebidas naquele curto espaço de tempo.

— O que ele quis dizer com isso?

— Bom, não parece óbvio? Ele não gosta nem um pouco de mim. Muito menos da ideia de que vai ter que trabalhar comigo pela próxima temporada da série.

— Quanto tempo seria isso? Seis meses? — Ela inquiriu. — Você vai mesmo trabalhar na TV nos próximos meses! Isso é um máximo! — Por um segundo eu esqueci a infelicidade que proporcionou com seu presente, e comecei a dar pulos de alegria junto de . De novo. Eu estava em êxtase com esse papel. Estava em êxtase com a minha conquista.

— Eu vou ser atriz de verdade! — Quase berrei em seu ouvido.

— Você vai aparecer em premiações! Tem noção de quão legal isso soa? — balançava meus ombros.

— SIM! EU TENHO! — Arfei de olhos arregalados. — Eu mal posso esperar para ir amanhã assinar os papéis e pegar o roteiro! Se eu pudesse eu ia hoje! Agora!

— Eu disse pra você que todos amam as ruivas!

Pelos próximos minutos — lê-se horas — , demos mais uns pulos, rimos de coisas desconexas e sem sentido enquanto fazíamos danças estranhas até cansarmos. Assim o dia se prolongou. pintou minhas unhas, assistimos alguns filmes, lemos nossos horóscopos, rimos de vídeos on-line, e quando não fazíamos isso comemorávamos mais uma vez, o que resultou no meu quarto totalmente bagunçado e de pernas para o ar. Às vezes eu me pegava olhando para as flores em cima da minha cômoda e percebia como aquilo me incomodava, e então eu jogava meus pensamentos relacionados a isso janela afora e voltava minha atenção para minha amiga. Mas então o tédio tomou conta de nós duas.

Já era noite quando meu pai bateu na porta.

Eu estava deitada na cama com os pés na parede e os cabelos caindo em cascata no chão. estava de pernas cruzadas no tapete mexendo no meu notebook comentando a vida de alguma cantora famosa qualquer que ela era fã e eu não recordava o nome. Levantamos o olhar ao mesmo tempo quando ele se pôs a falar:

— Será que agora uma de vocês poderia me explicar o que está acontecendo? Escutei gritos e barulhos estranhos a tarde toda. Uma hora não tem mais como ignorar.

— Ah… Sobre isso. — Pigarreei. — Lembra que eu tinha falado com você sobre um teste para uma série? — Meu pai assentiu. — Pois então… EU CONESEGUI O PAPEL!

Eu rolei na cama me levantando e fez o mesmo. Ele continuou lá, parado me encarando. Esperei que ele viesse até mim e me abraçasse, dissesse parabéns, abrisse um sorriso, qualquer coisa, mas ele não veio.

Fiquei na expectativa durante pelo que pareceu uma eternidade até ele abrir um sorriso de longe, que não achei que fosse assim tão sincero, e dirigisse a palavra a mim:

— Isso é sério, então? Vai trabalhar de verdade na TV? — Afirmei com a cabeça. Só então ele deu alguns passos até onde eu estava e passou os braços envolta do meu corpo. — Que bom ! Agora vamos ficar todos bem, hein?

Assenti e deixei que ele me olhasse, desse outro sorriso e fosse embora. Me perguntei mentalmente se ele tinha sentido alguma pontada de orgulho sobre o que havia escutado.
olhou para mim e arqueou uma sobrancelha. Balancei a cabeça em negação e voltei para minha cama. Não importava.

Desde que minha mãe morrera, ele não havia sido mais o mesmo. Mas ninguém era. Todos mudamos de diferentes formas que nem mesmo eu sei explicar porquê e como. Só aconteceu e tivemos que aceitar essas mudanças. Talvez eu tenha aceito de uma forma melhor que ele. Ou eu apenas soube lidar com tudo enquanto ele ainda procurava o melhor jeito de se adaptar.

Olhei para meu pulso, para minha pulseira. O que minha mãe diria depois do telefonema de hoje? Talvez tivesse ficado feliz. Ela quem havia me introduzido ao teatro. Ela quem havia incentivado os books que eu fiz. Ela me apresentou para esse hobbie que agora virou uma profissão.

No meio de todos aqueles pingentes, achei a estrela. Talvez fosse o que tivesse maior significado entre tantos outros. Mamãe me chamava assim. Dizia que eu era uma. Que eu tinha brilho próprio e cativava quem estava ao meu redor. Se tudo isso era real, eu não sei. Nunca coloquei atenção e preferia não me prender a esses elogios por mais importantes que fossem, porque eu nunca teria uma confirmação se o que ela disse um dia teria sido verdade. Mas agora, depois desse curto espaço de tempo de felicidade pura, pensei nela e no que ela diria. Talvez finalmente ela ficasse feliz com minhas escolhas. Talvez finalmente ela se orgulhasse de mim.

*
Querido diário…

Eu passei a madrugada em claro com se remexendo ao meu lado enquanto eu pensava em como parecer profissional o suficiente quando fosse assinar aquele mundo de papéis hoje de tarde.
Fiz com que ela dormisse na minha casa, assim teria algum tipo de apoio moral quando levantasse. Negativo. Ela dorme igual a uma pedra, e nem quando eu a empurrei da minha cama ela se levantou. Murmurou qualquer coisa e se aconchegou no meu tapete. O que pareceu bizarro para mim ela nem ao menos abrir os olhos. Mas quem sou eu para pensar que ela é a estranha de nós duas? Fiquei com dó e coloquei uma almofada e um cobertor ali. Foi uma das situações mais estranhas que já vi.
São pouco mais de oito horas e eu já fiz o café da manhã e estou tentando decidir entre usar calça ou saia. Quando perguntei ao meu pai, ele murmurou algo parecido com “se vira” e saiu, levando meus dois irmãos para a escola. Desde então estou aqui, parada na frente do closet esperando que minhas roupas criem vida e me ajudem.
Agora sério, eu preciso ir e tentar de verdade me arrumar, porque tenho certeza que nada por aqui vai funcionar à base da osmose.
Acho que minha amiga está acordando. E acho também que estou ferrada.

Com amor,

*
? – Era com sua voz grogue atravessando meu quarto com uma blusa que cabiam duas de nós e uma bermuda menor que as líderes de torcida usam.

— Pensei que tivesse entrado em coma. — Falei, colocando meu diário de lado enquanto me levantava e arrumava a calça de agasalho que eu usava.

— Deve ter sido o comprimido que eu tomei. Ele faz com que eu durma mais do que deveria. — ela puxou o cabelo o amarrando em um coque mal feito. — Que horas são?

— Hm… — Olhei meu relógio de cabeceira. — Quase oito e quarenta.

— Ah, vou voltar pra cama então… — Ela se virou, mas peguei em seu pulso antes.

— Não, não! Você vai me ajudar! — se virou como se estivesse fazendo um grande esforço para falar comigo. Ou manter-se em pé. Talvez os dois.

, você só tem que estar lá às duas horas, ok? — Ela me olhava como se eu fosse uma criança. — Você pode dormir por mais três horas, comer em vinte minutos, tomar banho em trinta e se arrumar com mais trinta minutos, depois com o resto você chega lá. Viu? Tudo programado. Agora me explica por que eu acordei no chão?

— Eu empurrei você. — Falei simplesmente. — Agora sério, como não parecer uma adolescente? — Arregalei os olhos e gesticulei com as mãos. — Eu não sei o que usar! E eu estou com fome. Fiz o café. Será que agora podemos comer?

— Não, nós agora vamos dormir, entendeu? — se jogou de volta na cama e se cobriu até a cabeça.

— Você é uma péssima amiga. — Falei indo em direção à porta.

— Disponha! — gritou e eu a ignorei.

As horas seguintes passaram numa lentidão tão grande que achei aquilo um tanto anormal. Mas era tanto tédio que senti disposição em arrumar algumas coisas na casa e depois comi, tomei banho, dei um jeito nos meus cabelos (tarefa bem complicada), fiz três maquiagens diferentes com tutoriais da internet até escolher qual tinha ficado melhor, e ainda não era nem meio dia.

Me joguei no sofá da sala e comecei a cantarolar uma música qualquer, esperando que as horas passassem um pouco mais depressa até que eu pudesse finalmente me arrumar.
Entretanto, assim, do nada, vi uma cena de The Walking Dead. Um zumbi apareceu no meu corredor e vinha em direção à sala, onde eu estava, contrariando minha noção do que era verdade e do que era ficção.

Em meio a risadas, perguntei:

— Um caminhão passou por cima de você ou o quê?

— Escutei você cantar. — Ela respondeu, e eu fechei a cara. — Brincadeira, sua boba.

Ignorei enquanto ela passava por mim e revirei os olhos.

— Já dormiu o suficiente para me ajudar agora? — Foi a vez dela de fazer uma reclamação silenciosa.

— Em que você precisa da minha ajuda exatamente? — se jogou ao meu lado e bocejou em seguida.

— No que eu vou vestir, por exemplo. — Ela pareceu dar de ombros, então foi direto para o meu quarto sem nem ao menos me esperar. Escutei o barulho de cabides sendo retirados e de sapatos sendo arremessados para fora. Arregalei os olhos e corri até lá antes que não sobrasse nada no lugar.

— Certo. Você tem que parecer séria, mas jovial. Por favor, nada de usar terninhos. Espero que você nem tenha cogitado essa ideia, pelo amor de Deus! — Não se preocupe com isso. Não está nos meus planos. Nunca. Foi meu pensamento em relação ao que ela disse. Não pretendo usar coisas do tipo assim tão cedo. Não antes dos meus quarenta e poucos anos.

— Por que não veste essa calça preta, essa regata azul e um blazer floral por cima? Não precisa ser manga comprida. Ah, e usa esse salto aqui! E essa bolsa, e não esquece os anéis…

Enquanto ela ia listando tudo o que eu “precisava”, aproveitei para me sentar, deixando que ficasse com todo o trabalho de escolher as peças com sua empolgação mais que necessária.

Nós arrumamos meu quarto em tempo recorde, sendo que não parou de falar sobre as possíveis roupas que eu deveria usar. Na verdade, não calou a boca por um segundo sequer. Ela falava tanto que eu já estava concordando com tudo o que ela dizia esperando que ela adotasse o silêncio. Ela até mesmo me convenceu a colocar o buquê de flores em um vaso com água pois, segundo ela, “seria um grande desperdício jogar tão belas flores no lixo”. Tive que concordar que eram realmente bonitas, então o fiz. Depois de roupas e mais roupas jogadas em cima da minha cama, decidi optar por uma calça cintura alta e uma camisa estampada com mangas no cotovelo nem um pouco social, o que me deixava feliz, já que eu não ia com a cara das roupas muito sociais.

Fiz a maquiagem novamente, dessa vez ficou ainda melhor com a ajuda de minha amiga. Desfiz os bobs do meu cabelo que o deixaram mais cheio e com leves cachos nas pontas, e finalmente quando eram uma e cinco eu estava pronta com me analisando por completo na porta da minha casa.

— Você está linda! Não se esquece de me ligar depois e me contar como foi tudo. — Sorri para ela.

— Não vou esquecer.

— Agora vai. Está na sua hora, garota! — Com um abraço nós nos despedimos e eu segui para o que seria a realização do meu sonho.

*
Depois de andar de táxi, correr de um cachorro e quase ser atropelada por uma bicicleta, consegui finalmente chegar até o estúdio sem muitos danos físicos, talvez só um pouco psicológicos.
Meu pé doía e eu sabia que era por causa da corrida de quase dois quarteirões que tive que fazer por causa do cachorro. É uma pena minha casa ser em uma rua residencial. É preciso andar um pouco (ou correr) até chegar à sociedade.

Passei no banheiro antes de seguir até onde deveria e, para minha felicidade, nada estava tão ruim quanto o pesadelo que se passava pela minha mente. Fiquei grata por isso. Mais grata ainda quando não fiquei tanto tempo esperando na sala de espera tão grande e vazia.

No momento em que me chamaram para entrar, senti-me nervosa. Não que eu já não estivesse, mas fez com que meu estômago revirasse algumas outras vezes além das voltas que já vinha dando. Lá estava o produtor, uma mulher que nunca vi na vida, mas que pela postura que tinha parecia ser alguém importante, e mais algumas outras pessoas. Era uma sala de reuniões de tamanho médio, com decoração em branco e preto e design bem moderno. Alguns detalhes em vermelho vivo, mas nada muito chamativo. Tinha várias e várias cadeiras estofadas de preto com braços inox ao redor da mesa de vidro retangular que se estendia pelo ambiente. Eu era a única em pé.

— Senhorita ! — Gregory veio me abraçar, como se minha presença fosse querida. O que eu duvidava. Provavelmente ele só estava sendo educado.

— Boa tarde. — Sorri para todos ali e sentei na cadeira que o diretor me indicava. Sim, muito confortável. A aparência não enganou no teste.

Enquanto relaxava no assento extremamente macio, observei as pessoas presentes, então percebi que os roteiristas da série também estavam ali. De repente comecei a me preocupar com a forma que eu agia na frente de toda aquela gente.

Antes do que realmente gostaria, começamos uma longa conversa sobre o trabalho que eu faria, sobre a disponibilização que eu deveria ter com as gravações de agora em diante, acrescentando mais um monte de baboseiras que eu não preciso comentar. Me entregaram o contrato e meus olhos leram o conteúdo de várias e várias páginas detalhadamente.
Eu teria uma figurinista, maquiadora e um cabeleireiro. Achei essa parte o máximo, até porque não ter preocupação em se arrumar sozinha sempre seria algo bom.

Eu teria de fazer aulas de luta e de tiro ao alvo com armas para as cenas de ação. Foi uma escolha minha para que não precisassem usar um dublê. Sim, daria mais trabalho, mas com certeza valeria a pena. Ah, e eu teria de entrar para a academia. Não gostei dessa parte, mas não mencionei isso em voz alta. A partir de agora eu teria um novo agente que cuidaria da minha vida profissional, organizando meus horários e minhas atividades. Estava louca para pedir que fosse contratada para isso. Tinha certeza de que ela se esforçaria ao máximo para se dar bem com esse trabalho se tivesse a oportunidade. Era a única coisa que eu realmente queria acrescentar no meio de tantos parágrafos. Só precisava de uma brecha para poder falar, mas as pessoas pareciam tão empolgadas que não conseguiam parar de jogar novas informações em cima de mim. Eu já estava ficando tonta com tantas vozes diferentes soando em meus ouvidos.
— … Temos grandes planos para você, t. — A primeira roteirista falava com um sorriso singelo nos lábios. — As gravações vão começar já daqui a uma quinzena, alguns dias depois de você se estabelecer em Londres e fizer o… — Meu cérebro parou de associar o que ela dizia assim que a palavra “Londres” foi mencionada.

— Me mudar para Londres? — Pisquei enquanto deixava o choque tomar conta do meu rosto.

— Sim, querida. Londres. Onde acha que faríamos as gravações? Nesse estúdio sem recursos? — Ela riu com sarcasmo, sendo acompanhada por todos os outros ali. — Por favor, espero que você esteja brincando.

— Não! Meu pai nunca vai deixar que eu me mude! — Arregalei os olhos sentindo o nervosismo tomar conta e minha pulsação aumentar exageradamente.

A mulher que até agora eu não sabia quem era arqueou uma sobrancelha enquanto me avaliava, depois deixou que um dos cantos de seus lábios se erguesse.

— Mas você é maior de idade, não é? Já tem o direito de ir e vir. Livre arbítrio, senhorita . Quem decide as coisas por você de agora em diante é você mesma. Sair ou não de Brighton é uma escolha sua, não dele.

Não falei nada, apenas a encarei. Sua petulância fez com que eu semicerrasse meus olhos. Então era assim que funcionava pra ela e pra qualquer um aqui dentro.
Eu precisava de ajuda. Precisava agora. Não conseguiria de forma alguma tomar uma decisão tão grande como essa assim em três meros segundos, dando a impressão de ser tão fácil como respirar.

Talvez minha expressão apavorada fosse tão grande que o olhar de pena do diretor me atingiu com um suspirar. Sentir pena, como ele estava fazendo agora, não fez com que minhas preocupações desaparecessem.

— Escute, . — Gregrory começou. — Nós gostamos do seu trabalho, da sua atuação, e ficaríamos realmente felizes se você desse certo nessa série. Já tivemos uma grande perda com Maya, por isso, se não vai poder fazer esse trabalho, fale antes que seja anunciado a todos que você foi escolhida.

Estudei completamente seu rosto. Intercalei olhares entre algumas pessoas e o contrato que estava na minha frente com uma caneta logo ao lado. Pensei nas consequências e comecei a respirar fundo cinco, seis vezes seguidas. Fechei os olhos com força. Eu precisava agir normalmente, se não iam achar que eu era uma criança. Não podia ser tão complicado, certo? Só precisava formular uma resposta curta e simples. Era fácil. Tomei o ar para falar:

— Eu…

— Espere, ainda não acabei. — Fechei a boca. — Leve o contrato, analise-o em casa, leia-o com cuidado e converse com quem for necessário. Te daremos dois dias, então você nos dará a resposta.

— Mas senhor Colleman, nós não temos tempo para… — Aquela mesma mulher petulante começou a falar. Por alguma razão comecei a odiar o som da voz dela.

— Quieta. — Ralhou para ela depois voltando para mim. — Tudo isso se trata do seu futuro, senhorita . Uma grande decisão, por isso escolha com inteligência.

Recostei na cadeira pensando em onde tudo aquilo iria me levar. Certo. Eu tinha 48 horas pra fazer, quem sabe, a maior decisão da minha vida. Socorro!

— Reunião encerrada. — Ele disse. Imediatamente todos se levantaram e se dirigiram a saída, como se fosse algum tipo de pecado permanecer naquela sala. Não me importei com toda a correria. Fui à última a me retirar.

E como se o destino estivesse me pregando uma peça, outra vez quase dei um encontrão com um garoto, mas ao contrário dos novos xingamentos que eu esperava vindo do mega ator , acabei me deparando com outro astro, porém mil vezes mais educado do que o que eu achei que fosse. Me segurou pelos ombros quando percebeu que provavelmente íamos dar de cara um no outro. E graças a Deus dessa vez não tinha nenhuma bebida em suas mãos.

— Opa! Quase que abraçamos o chão agora. — Ele sorriu para mim e por um milésimo de segundo esqueci minha confusão mental sobre os acordos do trabalho e me perdi em seu sorriso perfeito.

— Não, tudo bem! Acabei me distraindo… — Falei assim que percebi que ainda estava parada com a boca entreaberta igual a uma idiota.

— Ah, tudo bem, às vezes acabamos pensando demais. — Deu de ombros quando se afastou repentinamente. E foi nesse instante que percebi nossa grande proximidade.

— Mas obrigada de qualquer forma por ter evitado hematomas no meu rosto, . — Agradeci a ele, totalmente envergonhada e sem graça pela situação.

— Sabe meu nome? — Ele arqueou uma sobrancelha com um sorriso divertido no rosto.

— Sim, você aparece em todas as revistas, fica meio difícil não lembrar. — Senti minhas bochechas corarem e olhei para os meus sapatos. O que eu estava fazendo ali mesmo?

— Ah, claro. Pra ser sincero, eu meio que me esqueço disso às vezes. — virou o rosto para trás, percebendo alguém chamar por ele. — Eu sei que você sabe meu nome, então acho justo eu saber o seu.
— Respondi sem pestanejar. — .

Mais uma vez ele olhou para trás e começou a se movimentar.

— Escuta, eu preciso mesmo ir, mas a gente se vê por aí, certo, ?

— Talvez. — Foi a resposta que eu dei a ele, que olhou para mim uma outra vez e sorriu enquanto se afastava.

Eu estava sorrindo, ainda sem mostrar os dentes, mas eu estava sorrindo para ele! Um garoto famoso, que talvez por convivência com certas pessoas, seja tão arrogante quanto o “ator do momento”. Qual é? Aquela reunião tinha afetado meu cérebro.

Pela primeira vez que saí daquela sala, voltei a pensar no contrato e percebi que eu estava perdendo tempo em estar parada ali, conversando com um estranho não tão estranho.
E então, ainda me olhando, ele entrou em alguma outra sala qualquer e eu pude finalmente clarear meus pensamentos.

A passos lentos, arrastando os pés, me dirigi a saída. Não me importei em pegar táxi. Resolvi andar uns vários quarteirões a pé, assim teria mais tempo para pensar.
Rezei silenciosamente para que dessa vez não tivesse nenhum cachorro querendo correr atrás de mim. Eu não estava com o psicológico bom para correr mais dois quarteirões em um dia só. Muito exercício para pouco tempo.

Estava tão distraída no caminho de volta que acabei esbarrando em duas pessoas, que, aliás, me xingaram muito para um segundo e alguns milésimos. Resolvi que não daria muito certo continuar a andar se minha cabeça não estava conectada aqui na terra. Pra melhorar um pouco mais a minha situação do dia, que já não estava nada boa, uma leve garoa começou. A princípio tentei ignorá-la, mas os pingos foram engrossando e eu não tive outra escolha a não ser esperar ela amenizar.

Felizmente havia uma Starbucks perto de onde eu estava. Um café realmente iria bem agora.
Pulando poças, desviando de buracos e cobrindo a cabeça com a bolsa, entrei na cafeteria. Pedi meu Frappuccino de morango com creme e me sentei numa mesa. Encarei o celular por um minuto decidindo o que fazer. Ligaria para .

*

— O que era assim tão importante? — Minha amiga se sentou ao meu lado com um café expresso e muffin de blueberry.
— Seu irmão é advogado — Comecei a falar pegando o contrato na minha bolsa. —, então você deve saber alguma coisa sobre brechas no meio disso tudo. — Entreguei a o monte de papéis e me recostei na cadeira.

— Ainda não assinou? — Me olhou com certa indignação. Apenas dei de ombros.

Sem enrolar muito, indiquei a ela a página onde falava sobre a minha provável mudança e esperei que ela iluminasse meu caminho. O que não aconteceu.
Me ignorando completamente, pegou o celular e começou a fotografar cada página do contrato me deixando ali parada com cara de paisagem, estando só um pouco mais confusa que o normal, ainda sem entender o que ela pretendia fazer.

— O que você tá fazendo? — Perguntei a ela.

— Tirando fotos, . O que achou que fosse? — Revirou os olhos sem me encarar.

— Disso eu sei! Quero saber pra quê.

— Simples. Como você mesma disse, meu irmão é advogado, então vou mandar para ele analisar e ver o que você pode fazer. Eu não posso te ajudar em nada, pelo menos não nisso aqui. Sendo que essa é uma ótima desculpa para vocês dois se encontrarem, já que Luke diz que você não fala mais com ele. — Falou sem fazer uma mínima pausa.

— Fala sério, seu irmão é muito dramático. Ele estava tão ocupado quanto eu. Talvez até mais! Duvido que Luke tivesse tempo até para comer. — Me justifiquei tomando vários goles da minha bebida em seguida. Minha amiga gargalhou.

— Ficar sem comer é papel seu que é modelo. O trabalho dele é ficar com dor de cabeça constante! — Sem se importar com os outros ao redor, continuou a gargalhar alto, me deixando um pouco tímida e envergonhada pelos olhares reprovadores das pessoas dentro da cafeteria.

— Acho que você está errada. Nunca fiquei sem comer pra fazer meu trabalho. E eu sou modelo de fotos, não de passarela. Desenvolver anorexia não está nos meus planos, .

— Talvez você não, , mas muitas garotas com certeza fazem isso e ficam anoréxicas por causa disso. — Eu sabia que era verdade, mas não contestei. Resolvi voltar ao assunto principal que era mais importante agora do que “comer ou não comer, eis a questão”.

— Espero que Luke dê um jeito nisso pra mim. Ele tem menos de dois dias. — Falei com certo desespero na voz. Eu não podia aceitar tudo dentro desse contrato, podia? Não parecia certo.

— Não sei pra que tanto chilique, amiga. — me olhava como se eu fosse um E.T. cabeçudo, de pele verde e duas anteninhas no alto da testa. — É Londres!

— Exatamente, Londres! — Dei mais ênfase na palavra, esperando que ela entendesse. — Eu teria que sair daqui, deixar tudo e todos, inclusive você! Não me parece certo. Eu não deveria nem ao menos me sentir animada com essa oportunidade. Se fosse aqui, em Brighton, seria diferente! Juro que teria assinado no mesmo instante, mas é a quilômetros de distância, num lugar onde eu não conheço nada, com pessoas que eu nem nunca vi! Como eu ia me virar numa situação dessas? Trancada numa casa com cinco gatos, dois cachorros e um aquário, com uma geladeira cheia de sorvete e chocolate, tentando fazer com que o tempo passasse mais rápido e eu me esquecesse da vida que eu levo aqui?

Ela apenas me analisava atentamente. Me estudava com os olhos da mesma forma que um psicólogo faria. Me senti intimidada, ainda mais com os olhares que o casal na mesa de trás nos lançava.

, tudo bem que você fez teatro, é atriz e etc., mas não seja tão dramática! Metade do que você disse foi invenção da sua cabeça. Você nunca gostou realmente da vida que leva, sempre querendo mudar um detalhe, acrescentar ou tirar algo, então quando tem a oportunidade de começar tudo do zero, você cria desculpas porque tem medo de decepcionar os outros, mas quer saber? Fazendo isso só vai estar decepcionando a si mesma e nada além disso. — Seu olhar era duro da mesma forma que a sua voz. Podia imaginar falando tudo, qualquer coisa, mas isso foi uma grande surpresa. — Se me lembro bem, há alguns anos esse era exatamente o tipo de coisa que você faria, era o seu sonho. Mas aí tudo mudou e você resolveu que só faria isso pra ajudar seu pai. Mas não é esse o real motivo, é? Você sentia falta do teatro que sua mãe te levava e das peças que fazia. E a que eu conheço não deixaria de fazer o que gosta por causa dos outros.

Indignada, tentei interrompê-la:

— Mas…

— Eu ainda não acabei! — Interrompe-me. — Você não faz isso simplesmente por que gosta. Faz isso porque lembra sua mãe, . Foi a parte em que ela mais esteve presente na sua vida e você quer mantê-la por perto para não perdê-la. — Dessa vez foi como se realmente ela quisesse atingir meu ponto fraco. Eu estava pasma e sem qualquer palavra pra ser dita, por que talvez, no fundo eu soubesse que tudo aquilo era verdade. — Você tem que parar de pensar tanto nos outros e olhar mais pra quem você é e o que quer da vida. São seus sonhos que estão em jogo aqui, . — apontou para a cópia do contrato sobre a mesa sem desviar seus olhos do meu. — Não são as coisas que eu quero que você tem que pôr na balança, nem a dos seus irmãos, muito menos a do seu pai. Mas apenas a sua. Não importa para quantas pessoas você faça a mesma pergunta “o que eu devo fazer?”, porque as respostas que te darão não deveriam influenciar em nada na sua decisão.
Fez uma pausa dramática substituindo a seriedade por uma expressão serena, suspirando fundo em seguida.

Se antes eu já me sentia desconfortável, agora eu adoraria poder ficar invisível para todos que me olhavam. Mesmo que ela não estivesse fazendo por mal, já tinha sido mais que o suficiente.

, desculpa, mas é que tudo isso é… Maluco! — Recostei as costas no encosto da cadeira cobrindo o rosto com as minhas mãos, assumindo a expressão angustiada.

— Não vou dizer que entendo tudo isso, por que seria uma total mentira, mas eu sei como isso deve ser confuso. Então quero que entenda que eu não posso simplesmente te dizer o que fazer, por que minha opinião não é a sua, por mais óbvio e patético que isso seja. A decisão é inteiramente e totalmente sua. Eu não posso ter nada haver com isso. Por maior que seja ela, você é quem tem que escolher seu caminho .

*

Querido Diário…

Ontem, quando cheguei em casa, decidi que me enfiaria dentro do meu quarto e só sairia de lá quando eu tivesse certeza do que queria. E isso funcionou por mais ou menos vinte e sete horas e alguns minutos, mas Infelizmente meu plano foi por água abaixo assim que meu pai deu seu primeiro grito nervoso quando entrou em casa hoje ao entardecer. Foi a mesma coisa de duas semanas atrás. Deu um jeito de descontar sua raiva nos outros para tentar esconder a angústia e a tristeza que estava sentindo.
Quando ele finalmente parou, pude respirar fundo e abrir espaço para que a calmaria me atingisse e de vez me permitisse voltar para o meu quarto relaxar a mente. Mas mesmo sozinha no silêncio da noite, meu pensamento giram em torno da palavra “Londres”.
Era exatamente tudo o que eu queria vindo no pior momento possível.
Eu não faço ideia do que fazer, mas espero encontrar a resposta nas menores coisas. Eu preciso encontrar o caminho certo.
E é com esse pensamento que eu deixo o sono finalmente me atingir, esperando que ele me traga uma noite sem sonhos para não me perturbar ainda mais.

Com amor,

*

? Eu não tenho o dia todo! — Parecia que alguém havia decidido espancar a minha porta até que abrisse um buraco na mesma, pois os barulhos me fizeram acordar em sobressalto.

Olhei ao redor, atordoada, percebendo que eu nem ao menos tinha me coberto para dormir na noite anterior. O diário estava sobre meu peito e a caneta jogada ao lado do meu travesseiro. Mas meu cérebro definitivamente não estava presente.

— Vamos, ! Você não pode passar o dia todo trancada aí! — Mais batidas fortes que ecoaram na minha cabeça, causando-me uma careta de desconforto. — Luke já está te esperando há quarenta minutos! Abre logo essa porta!

A palavra “Luke” despertou a parte do meu cérebro que até o momento estava desaparecida, fazendo-me pular da cama direto para a porta, escancarando-a no momento em que meu pai provavelmente a derrubaria.

Seu rosto vermelho mostrava que sua paciência já tinha chegado ao fim, e que provavelmente ele já estava bastante atrasado.

— Desculpa, eu…

— Dane-se qual seja a desculpa dessa vez, tenho que ir trabalhar.

Contei até dez mentalmente, esperando que eu pudesse manter a boca fechada e não falar qualquer besteira. Eu só tinha dormido demais, apenas isso. E eu sabia que dizer isso a ele me renderia mais alguns tipos de bronca que fariam minha cabeça explodir. Por isso apenas deixei que ele virasse as costas e me deixasse ali parada com o cansaço matinal me atingido como uma tempestade.

— E aí, baixinha? — Abri os olhos ainda aturdidos, me deparando com o irmão de vestido com uma camisa azul que definitivamente realçava muito a cor dos seus olhos, deixando-o ainda mais incrível.

Eu provavelmente nunca vou superar esse precipício que eu tenho por ele.

— Oi, Luke. Saudades de você, garoto! — Joguei meus braços sobre seus ombros, escondendo meu rosto na curva do seu pescoço, enquanto ele passava seus braços pela minha cintura, levantando-me poucos centímetros do chão.

Nos afastamos com um sorriso no rosto, o mesmo sorriso que eu estava acostumada a olhar todos os dias de minha infância, até que finalmente ele resolveu tomar rumo na vida. E aí está ele hoje, estudando direito.

— Cadê a loira aguada da sua irmã? — Perguntei a ele assim que começamos a andar até sala de estar.

— Se ela te escuta falar isso, vai começar a te chamar de vermelho de farmácia, pode ter certeza disso. — Avisou-me ele com um tom brincalhão na voz, se sentando no sofá e apoiando o tornozelo direito no joelho esquerdo.

provavelmente tem sérios problemas de visão e audição também. Já cansei de dizer que não sou ruiva! — Contestei sua última frase, revirando os olhos.

— Essas suas sardas não enganam ninguém, .

Ele era um caso perdido assim como a irmã. E esse assunto de cabelo não é algo que eu realmente goste de conversar.

— Espero que tenha recebido as imagens que te mandou anteontem. — Deixei-o na sala enquanto pegava uma caneca com café quente na cozinha para eu tomar, oferecendo a ele também, que apenas recusou com um aceno.

— Na verdade é exatamente pra isso que eu vim aqui. — Sua voz soou mais alta para que eu o escutasse mesmo que um pouco longe.

— Claro, porque visitar os amigos é algo que não está nos seus planos dos últimos meses. — Impliquei com um sorriso travesso sobre os lábios.

— Sem essa agora, baixinha! – Levantou as mãos na altura dos ombros, em sinal de rendição. – Vamos falar sobre seu super contrato com Gregory Colleman.

Não tão animada quanto eu deveria estar, me sentei ao seu lado com as pernas cruzadas, ainda com a xícara de café em uma de minhas mãos.

— Quando você vai assiná-lo? — Sorriu para mim, com empolgação evidente no seu sorriso radiante que mostrava todos os dentes brancos e alinhados.

Não me perdendo tanto tempo no sorriso maravilhoso que Luke possuía, passei a mão no meu cabelo tentando amenizar a grande confusão que ele estava, pensando de forma frustrada que eu tinha praticamente menos de vinte e quatro horas para assinar um rabisco que provavelmente mudaria toda a minha vida.

— Essa é a questão, não sei se vou assinar.

Seu sorriso se desmanchou, como se sentisse tristeza pela minha escolha.

— Como não, ? Por acaso está bebendo alguma coisa alcoólica ou alucinógena nessa caneca aí? — Estreitei os olhos tentando absorver suas últimas palavras.

— Pra que todo esse exagero? Pensei que por ser um estudante de direito, devia aprender a se controlar mais, não? — Tentei soar como se sua reação não tivesse me pegado de surpresa, o que era mentira.

— Se eu me lembro bem, , há um ano atrás você estaria arrumando as malas nesse instante. — Luke soou tão sarcástico que me fez ficar momentaneamente indignada com sua forma de falar.
— Talvez muita coisa tenha mudado desde o ano passado. — Despejei as palavras que estavam presas na minha garganta desde que havia falado comigo há quase dois dias.

E talvez fosse esse o real motivo para eu estar tão indecisa. Há um ano minha mãe estaria ao meu lado empacotando a bagagem. Agora não me resta nada além da foto dela no criado mudo, porque foi a única forma que restou de tê-la ao meu lado.

Enquanto meus olhos permaneciam fixos no piso da sala, ainda tentando assimilar por que motivo realmente eu havia dito tal coisa, a voz do meu amigo invadiu meu sistema auditivo, sem me trazer totalmente para a realidade, mas fazendo minha atenção voltar parcialmente para ele:

— Olha , vou ser sincero com você, e espero que pense nas minhas palavras. — levantei o olhar para poder ao menos entender o que ele dizia. — Sobre a parte de se mudar daqui para Londres, no contrato, não posso fazer nada. É umas das condições para que seu trabalho aconteça. E lendo tudo aquilo como eu li, digo que é um grande emprego, . Uma oportunidade igual a essa talvez nem volte a aparecer. Como talvez minha irmã diga: é agora ou nunca. Você tem uma grande oportunidade em mãos e não pode negá-la assim. Mas, em todo caso, sua vida, sua escolha. — Olhou para o relógio, percebendo que provavelmente precisava ir. — Sei que não tivemos muito tempo, e que o que eu te disse talvez não seja do seu real interesse, mas pelo menos leve em conta uma coisa: o que a sua mãe diria em um momento desses. Qual conselho ela te daria.

Senti como se esse estivesse sendo o maior período de tempo que vim pensando em minha mãe desde que ela morrera. Mas pensava nela agora, e não nas lembranças que tivemos antes dela morrer. Era como se eu imaginasse ela num presente que nunca existiu, e num futuro que não passa da minha imaginação.
Mas não mudava o fato de que agora além de nervosa eu estava nostálgica com tudo isso.
Luke se levantou, deu-me um abraço rápido e saiu da minha casa, se preparando para mais um longo dia de estudos e trabalho, enquanto eu permaneci ali, pesando as palavras que eu teria de dizer horas depois.

*

A noite caiu enquanto eu o esperava sentada na cadeira da mesa de jantar, mexendo os dedos nervosamente, sentindo uma sensação horrível no meu estômago, sem conseguir respirar exatamente de uma forma normal. Além de arrepios constantes que subiam pelos meus braços enquanto eu tentava me convencer de que aquilo não seria nada mais que uma conversa comum entre pai e filha.

Ah, reclamou minha consciência, quem você está tentando enganar? Você mesma? Acredite, não está funcionando.

Legal, eu estou tendo uma guerra interior.

E no instante em que eu estava prestes a desistir de seja lá o que fosse que eu planejava dizer, a porta se abriu e meu pai passou por ela sem nem ao menos me notar ali, a poucos metros dele.

Pigarreei alto, antes de perder a coragem que me invadiu.

— Pai, será que podemos conversar? — Ele suspirou, descontente, provavelmente pensando que aquilo seria um desperdício do seu “precioso” tempo.

— Certo, o que você quer?

Empurrei o contrato assinado em sua direção, esperando que ele entendesse isso como um pedido para que lesse.

Nos primeiros dois minutos ele teve um sorriso no rosto olhando para a minha assinatura e para a do Sr. Colleman lado a lado.

— Mas isso aqui é ótimo, ! — Seus olhos brilhavam, talvez mais animado do que eu, mas mesmo vendo-o assim, não consegui sorrir em resposta. — Quando você começa a trabalhar?

— Daqui mais ou menos duas semanas — Comecei a dizer em voz baixa. —, assim que eu me mudar para Londres.

Seu sorriso murchou no exato momento em que as palavras deixaram minha boca.

— Quando você decidiu isso? — Se sentou na cadeira ao meu lado, aturdido demais para começar com suas brigas. Pelo menos agora.

— Tive dois dias pra pensar o suficiente nisso.

— Você teve dois dias para assinar essa porcaria, e resolveu se mudar por vontade própria sem me consultar? — Trincou a mandíbula enquanto falava.

Apertei os olhos quando os fechei, talvez esperando que eu estivesse tendo algum tipo de alucinação, mas quando voltei a abri-los, só encontrei a carranca de raiva que meu pai possuía no seu rosto.

— Escuta, pai…

— NÃO, NÃO ME VENHA COM HISTÓRIAS AGORA! EU SABIA QUE ESSA COISA DE ATRIZ IA DAR MERDA ASSIM QUE SUA MÃE TE COLOCOU NAQUELA PORCARIA DE TEATRO! — Se levantou da cadeira aos berros, talvez esperando que toda a vizinhança o escutasse.

— Você não achou isso uma má ideia cada vez que meu pagamento chegava. — Me arrependi do que falei assim que fechei a boca. Definitivamente minha língua era muito grande.
— EU NÃO ACREDITO NO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO! UMA GAROTA MIMADA, É ISSO QUE VOCÊ É! DEU UM JEITO DE TIRAR SUA MÃE DE MIM E AGORA QUER ME DEIXAR COMPLETAMENTE SOZINHO, QUEM VOCÊ PENSA QUE É?

uas palavras me atingiram como facadas, e ele sabia muito bem daquilo, por que aquela era uma cicatriz que não havia se fechado completamente, e mesmo depois de todos esses meses, a culpa pairava sobre mim de uma forma inacreditável, e agora tudo voltou num piscar de olhos. Por palavras estúpidas vindas da boca do homem que deveria me proteger e não julgar.

— Minha intenção nunca foi essa e você sabe disso, eu…

— ESTÁ REPETINDO O MESMO DISCURSO DE QUANDO SUA MÃE MORREU! COMO VOCÊ CONSEGUE SER TÃO HIPÓCRITA, ? VOCÊ QUEM A MATOU E AGORA RESOLVE IR EMBORA ASSIM DO NADA? — Eu já começava a sentir a ardência nos olhos e a visão embaçada. Eu não ia chorar. Não agora ou na frente dele.

— Será que dá pra você para e me escutar? — Falei mais alto, finalmente conseguindo sua atenção. — Eu nunca escolhi isso pra nossa vida aqui, e você sabe disso! Eu sei o quanto dói e machuca, mas não fui eu quem passou toda bendita noite me acabando em bebidas como você faz logo depois do acidente, e muito menos me afastei das únicas pessoas que eu sabia que podiam estar sentindo a mesma coisa que eu! Eu só quero ajudar, droga! Por que você não consegue ver isso em tudo que eu faço? — A minha voz não saiu controlada o suficiente, tremendo em vários momentos, deixando evidente que ele estava me atingindo como nunca antes.

— PORQUE VOCÊ NÃO FAZ ISSO POR VONTADE PRÓPRIA, FAZ ISSO POR CULPA! — Levei as mãos até a cabeça, respirando fundo engolindo o soluço que teimava em escapar do fundo da minha garganta. Eu não conseguiria mais escutar nada sobre isso.

— Quando eu falei sobre o trabalho, disse que a minha intenção seria unicamente ajudar aqui em casa, e é o que eu vou fazer. Vou mandar um quarto do meu salário para você, mesmo que fique aí falando todas essas coisas, por que pelo menos eu vou ajudar meus irmãos. Foi isso o que eu sempre fiz. — Me levante com a cabeça baixa sem a intenção de olhar em sua direção.

— VOCÊ NÃO FAZ NADA ALÉM DO QUE É A SUA OBRIGAÇÃO! FICA AÍ SE FAZENDO DE VÍTIMA PRA CIMA DE MIM! — Bateu sua mão na mesa, fazendo-me estremecer de medo. — VOCÊ NÃO TEM NEM AO MENOS UM MOTIVO DECENTE PRA ESTAR FAZENDO ISSO!

E foi quando o sangue subiu a cabeça e eu perdi o controle.

— Eu não tenho motivos? Você não me conhece mais! Eu passei o último ano cuidando de Leonard e Laura, tentando fazer com que as coisas voltassem a ser como eram antes, mas você ajudou? NÃO! Ao contrário, nos fez afundar ainda mais! Você não é o único infeliz por aqui, e é exatamente por isso que eu estou indo embora, seguindo em frente. Algo que você não conseguiu fazer até hoje. — Seu olhar duro não pareceu amolecer com as minhas palavras, mas o leve brilho de surpresa presente nele foi o suficiente para eu saber que a escolha já estava feita.

— Quando você sair por aquela porta, , saiba que não terá volta. — Trincou o maxilar, sibilando para mim.

Apenas assenti virando as costas e indo em direção ao quarto.

— Sei disso perfeitamente. — Meu murmúrio talvez não tenha sido escutado, mas foi com essa frase que eu caí na real.

E, finalmente sozinha, comecei a chorar, deixando meus soluços ecoarem pelo quarto vazio, e a as lágrimas escorrerem por meu rosto. Chorar por saber que talvez a culpa tenha sido totalmente minha por ela ter morrido. E eu devia isso a ela. Não era só meu sonho, era nosso. E eu iria realizá-lo por nós duas.

Mas não iria deixar que o que acabara de acontecer tirasse minha felicidade. Eu ia começar tudo de novo. Totalmente do zero. Finalmente construir minha vida, longe daquilo tudo que me impedia. Por que era isso que ela gostaria que eu fizesse.
Finalmente eu estava fazendo meu próprio caminho.

 

Nota da Autora: Então… O que acharam? Hahah! Queria agradecer a quem vem lendo a Fanfic, isso é muito importante pra mim. Espero de verdade que estejam gostando.
Beijos e até a próxima, pessoal!

 

 

4º Capítulo
 

“So now what’s your excuse?
 

What do we have to lose?”
‘s POV

Na manhã seguinte, quando acordei, não tive pressa para sair do quarto enquanto ainda tivesse alguém dentro da casa. Eu não tinha planos de ver nenhum deles por enquanto.
Quando devia ser quase meio dia, com muito esforço sai de debaixo das cobertas, vestindo a primeira roupa decente pela frente, me enfiando no banheiro em seguida o mais rápido que pude.
Assim que encarei o espelho, me deparei com provavelmente a pior aparência que eu consegui arrumar em seis meses.

Suspirei derrotada. Não tinha muito que eu pudesse fazer.

Prendi o cabelo com um rabo de cavalo alto e deixei alguns fios caírem. Peguei os óculos de sol para esconder o inchaço dos meus olhos que conseguiram, de alguma forma, ficar pior do que meu cabelo espavorido.

Traços da briga da noite passada ainda ficavam rondando a minha mente e, mesmo lutando contra isso, me sentia culpada. Mas de qualquer forma, era como se eu soubesse que mais cedo ou mais tarde coisa do gênero fosse acontecer entre eu e meu pai. E esse dia tinha sido noite passada e como eu já suspeitava, finalmente nossos laços tinham sido cortados. Não digo que seja para sempre, porque o para sempre é um termo muito forte para um tempo que talvez nem exista, mas isso pode durar meses, tenho certeza.
Fechei os olhos com força e segurei a ponta da pia até as pontas dos meus dedos ficarem brancas. Então respirei fundo e tentei relaxar.

Sem ligar para mais absolutamente nada, sai de casa a passos largos, pegando o primeiro táxi que vi depois de vários minutos e segui direto para o estúdio, onde Gregory Colleman estaria trabalhando. Assim que cheguei, a secretária cujo eu não lembrava o nome, disse que o Sr. Colleman estava na segunda sala à direita e que estava desocupado no momento, ou seja, que ele poderia me receber.

Dei um sorriso de agradecimento a ela que mal pareceu notar enquanto atendia os telefonemas e parei em frente à porta, batendo três vezes até escutar a autorização para entrar.

— Minha futura grande atriz! — Abriu um sorriso radiante assim que minha cabeça passou pelo vão da porta. — Para que posso lhe ser útil, Srta. ?

Sentei—me na cadeira de frente para a sua mesa, ainda mantendo um sorriso por pura educação da minha parte, sem tirar os óculos escuros até ficar completamente acomodada.

— Eu quero antecipar minha ida para Londres. — Fui direta, recebendo um olhar de surpresa por ele.

— Algum motivo em particular para isso? — Arqueou uma sobrancelha, obviamente confuso.

— Só estou ansiosa. — Achei melhor guardar os meus problemas só para mim e para fazê—lo acreditar, abri um sorriso que seria totalmente entendido como uma expressão de pura animação, mesmo sendo esse ato totalmente falso.

Ok, se eu fosse ser atriz, era melhor que eu conseguisse atuar mesmo fora das telas.

— Bom, se você insiste, podemos antecipar sua ida para depois de amanhã, tudo certo para você? — Gregory pareceu anotar e depois folhear um grande livro a esquerda de sua mesa, sem olhar para mim.

— Hã—hã. Tudo certo. — Me remexi na cadeira por incerteza da próxima pergunta que eu precisava fazer. — Hm… Sr. Colleman?

Ele me olhou e assentiu.

— Algum problema, Srta. ?

— Na verdade sim, tenho mais uma pergunta… — Retorci minha boca em uma careta desgostosa. Será que ele não ia achar isso um abuso da minha parte? Bom, eu acharia!

Odeio pedir coisas aos outros…

— Pois então pergunte.

— Eu só queria saber onde eu vou ficar. — Comecei dizendo. — Eu nunca fui para Londres e não conheço absolutamente nada lá, então eu estou com esse pequeno problema martelando na minha cabeça.

Ele ponderou minhas palavras, parecendo não muito feliz com esse meu pequeno detalhe.

— Ainda não providenciou nenhuma moradia por lá? — Neguei imediatamente, me sentindo um pouco envergonhada. Eu não tinha dinheiro pra comprar uma casa em Londres assim de uma hora para a outra. — Nenhum parente que possa ficar com você até que resolva essa questão?

— Sobre isso, não. Eu não tenho parentes fora de Brighton e nem dinheiro suficiente para comprar um apartamento. — Tentei justificar. — E mesmo eu trabalhando há algum tempo como modelo fotográfica, meu salário nunca foi suficiente para isso. Na verdade, eu ainda moro com meu pai.

Um pouco, talvez muito, pensativo, o diretor apenas assentiu, mas sem confirmar exatamente alguma coisa, parecia apenas ter prestado atenção no que eu falava e agora tentava resolver essa questão no seu cérebro.

Ajeitei os óculos no rosto e suspirei mexendo no anel do meu dedo indicador.

— Então faremos assim: sua empresária irá providenciar um apartamento próximo ao seu emprego com um aluguel razoável, qual nós iremos arcar até que você possa cumprir com essa responsabilidade. — Aliviada, balancei minha cabeça afirmativamente, abrindo um sorriso sem mostrar os dentes.

— Muito obrigada, senhor Colleman. — Já me preparava para deixar a sala quando ele pediu para que eu aguardasse mais um momento, enquanto atendia ao telefone. Logo Gregory tratou de apertar um botão, fazendo a voz da secretária que havia me atendido, aquela que eu ainda não lembrava o nome, invadisse a sala transmitindo receio pela forma que seu patrão provavelmente iria reagir:

— Senhor Colleman, me desculpe, juro que tentei fazê—lo esperar, mas o garoto é teimoso, está indo para aí.

— Obrigado por ao menos tentar, Tiffany. — Gregory passou as mãos pela cabeça e a abaixou em seguida.

Olhei para o semblante franzido do meu chefe e tentei pensar no que poderia fazê—lo parecer tão cansado em dois segundos. Foi aí que a porta se abriu com nenhum pingo de delicadeza, fazendo—me levantar o olhar e exclamar um Ah em minha mente. Agora tudo fazia sentido.

— O que faz aqui, ? — Assumiu o tom profissional a sua voz.

Era só o que me faltava…

— Olha só o que temos aqui… — me olhou, cruzando os braços. — Então agora é oficial, não? Fiquei sabendo que logo, logo vamos ter que nos ver todo dia. — Estreitei meu olhar, mesmo que ele não pudesse ver, então me virei para Gregory, pronta para deixar aquela sala.

— Certo, obrigada pela ajuda, Sr. Colleman, mas agora vou deixar vocês, er… Resolverem seja lá o que for… — sorri mais uma vez contra a minha vontade, passando o mais longe possível do garoto com os braços tatuados.

— Mas já está de saída, ruivinha? Nem tivemos tempo de conversar! — Sua atuação era comovente, pena que a última coisa que eu precisava hoje era a falsidade de pessoas assim.

— Tenham um ótimo dia… — Abaixei a cabeça e passei pela porta, apressada.

Pensei ter conseguido pelo menos uma coisa boa naquele dia, me distanciar de , mas aparentemente essa não era proeza que eu tinha. Descobri isso assim que não ouvi a porta bater atrás de mim e sentir a mão dele agarrar meu braço, fazendo—me virar bruscamente logo em seguida.

— Precisa mesmo disso? — Bufei, sem total vontade de ouvir o que ele tinha a dizer.

— Só quero fazer uma pergunta. Prometo que vou embora logo depois. — Levantou as mãos na altura dos ombros, indicando sinal de rendição, mostrando seu sorriso malicioso que já deveria ser hábito seu.

Me vi dando um suspiro. Deixei a boca em linha reta, demonstrando toda a minha falta de interesse.

— Fala. — Me limitei a uma única palavra.

— Gostou das flores que te mandei? — Mordeu lábio inferior, mostrando uma expressão de puro escárnio.

Sem dar uma sequer satisfação a ele, andei direto para a saída indo o mais rápido que eu conseguia. Não fui muito longe antes que sua mão me impedisse de continuar mais uma vez.
— Não vai nem agradecer, Ruivinha? Gastei uma grana nelas. — Seu riso de divertimento me tirou do sério. Hoje não era um bom dia para escutar seu sarcasmo.

Virei-me de frente para ele, apertando os punhos contra a lateral do meu corpo.

— Ora, o problema é seu de quanto gastou ou deixou de gastar. Aliás, não pedi nada a você, foi escolha sua enviar o tal buquê. — Despejei as palavras de uma vez. — E com que raios conseguiu o meu endereço? — Perguntei com uma grande mistura de cansaço, raiva e tédio no tom de minha voz.

— Tenho meus contatos. — Virou-se para sua direita, sorrindo e piscando com um dos olhos para a secretaria, que até então eu não havia notado a presença, que sorriu envergonhada com as bochechas coradas.

Ah, claro. Consigo imaginar perfeitamente como ele tinha conseguido esse detalhe.

— Quer saber? Que se dane seus meios de conseguir seja lá o que for. E tem outra coisa! Você já fez a pergunta que queria, eu já a respondi, então agora se me dá licença, eu preciso ir embora. — Virei as costas para , que não passava de mais uma coisa pra piorar meu dia que já estava definitivamente um desastre.

Eu só precisava ficar em um lugar tranquilo por um par de minutos que eu me acalmaria. Baixei a cabeça reclamando baixinho enquanto andava. Vi então um par de pés parados um pouco a frente, impedindo que eu continuasse meu caminho. Pensei que talvez eu pudesse pedir ajuda a para me livrar de um idiota arrogante, mas não foi ele quem eu encontrei parado ali, me encarando com um sorriso presunçoso.

— Você realmente gosta de esbarrar nas pessoas assim, ou sua principal característica é ser distraída? — Se não fosse quem fosse, eu teria achado sua pergunta cínica e de mau gosto, mas eu sabia que vindo dele não passava de uma brincadeira.

— Olá, . Tudo bem? — Forcei os cantos do meu lábio para cima, formando um sorriso educado.

Uma risada nos interrompeu.

— Acredite, ela faz isso por divertimento. Aliás, ela ainda não derrubou nenhum tipo de bebida em você? — Eu podia sentir o cinismo e sarcasmo de esvair por cada poro de seu corpo. negou um tanto confuso, o que fez com que o outro continuasse. — Então cuidado, cara. Esse pode ser o próximo passo dela.

Certo, que se dane meu autocontrole.

— Vocês já se conhecem? — A voz de cortou meus pensamentos violentos. Vi seu olhar passear entre eu e o outro garoto, respectivamente.

— Ah, não foi por vontade própria, acredite. — O desdém em sua voz estava se tornando cada vez menos suportável da minha parte. Quer dizer, será que ele não poderia ser educado? — Vamos ter que trabalhar juntos de agora em diante.

— Então é a garota que você tem reclamado? — o olhou como se aquilo fosse um absurdo, e eu me senti agradecida por isso. Pelo menos ele não implicava comigo.

, não julgue a cara de anjo que ela tem assim tão fácil. — iniciou seu discurso de defesa. — Não vai ser você que vai ter que aguentar esse desastre ambulante daqui a uns dias.

— Fala isso como se fosse um sacrifício. — Murmurei mais para mim mesma do que para eles.

— Não vai ser se conseguirem manter água, café e outras bebidas longe de você. — Arqueou uma sobrancelha, me encarando.

— Sério, qual o seu problema comigo? — Arquejei impaciente, cruzando os braços.

— Nenhum, desde que você não derrube nada em mim.

Grunhi de raiva, virando as costas e deixando os dois onde estavam. Se ele queria me tirar à paciência, tinha conseguido exatamente isso com muita prosperidade. Mandei uma mensagem às pressas para , dizendo que a encontraria em minha casa. Eu tinha muito que contar.

Passei pelos corredores restantes igual a um flash até chegar à calçada da rua. Eu precisava falar urgentemente com alguém em que eu confiasse. E eu estava a caminho disso quando escutei chamarem meu nome. Virei para trás, vendo andar apressadamente em minha direção. O olhei confusa, claramente tentando entender a situação, já que de comum ela não tinha nada.

— Que foi?

— Não liga muito para o que ele fala. — Começou dizendo até parar ao meu lado. — às vezes é um idiota.

Concordei mentalmente com o que ele dizia. Tínhamos pelo menos essa opinião em comum. Trocamos algumas palavras. Me limitei a dizer pouco, fazendo o assunto morrer segundos depois. Apesar de minha primeira impressão do garoto metido ter sido bem ruim, eu ainda não tinha o direito de sair xingando-o até a quinta geração para o seu suposto melhor amigo.

— Vou deixar você ir embora. Parece estar com pressa. — Ele disse e eu assenti mais uma vez, fazendo com que pensasse que eu era uma bela de uma mal educada. — Só não leve nada muito a sério. — Voltou a falar.

— Claro — Disse em um suspiro cansado. —, ele só me pegou num dia ruim. Geralmente sou mais paciente. — Ri um tanto sem graça.

— Você tem cara mesmo de quem não explode com facilidade. — Ri mais uma vez com seu comentário.

— Obrigada, acho… — Falei a ele, dando dois passos para trás, insinuando minha ida.

— Parece que vamos nos ver de novo, então? Se você vai mesmo trabalhar na série…

— Depende, se você fizer bastante questão de visitar seu amigo, vamos nos ver sim. — Dei de ombros como já estava fazendo desde o começo.

— Principalmente com a minha participação em alguns episódios. — falou com um grande sorriso, e eu inclinei a cabeça para a direita, quase confusa, mas associando tudo aquilo bem rápido.

— Sério? Em quais episódios? — Agora minha surpresa já tinha se transformado em curiosidade. parecia ser um cara legal.

— Vai ficar sabendo isso depois, não vou te contar. — Me lançou um sorriso divertido e eu me permiti rir baixinho disso.

— Então vai ser surpresa. — Concordei com ele, ainda sorrindo.

Virei às costas para continuar meu caminho, mesmo que repentinamente eu não quisesse mais aquilo.
? — O ouvi chamar e virei meus calcanhares. — Será que você pode me passar seu número? Sabe, pra gente não perder o hábito de se esbarrar… — pareceu sem graça, olhando para tudo, menos para mim.

Sorri em resposta. Ele ficava muito fofo tímido. E era isso que o tornava diferente de . E eu preferiria mil vezes ser amiga de caras como ele, do que daqueles que não sabiam ter um pingo de educação.

— Claro que sim, por que não? — Trocamos nossos números, logo dando espaço para o silêncio tomar conta.

Comecei a me distanciar, dessa vez decidida a ir embora, para então ver o que as próximas horas me aguardavam. Na verdade, eu precisava a todo custo me encontrar com . Tínhamos muitas coisas pra conversar e pouco tempo para tudo isso.

— Hey! — Foi quando a visão da figura de correndo finalmente teve foco. Revirei os olhos ainda cobertos pelo óculos de sol.Como não se pronunciou, achei que eu devesse o fazer:

— Será que falar com o Sr. Colleman não era mais importante do que ficar me perseguindo? — Cruzei os braços procurando alguma vontade de ficar ali o encarando. Coisa que não existia, aliás.

Me olhou surpreso, franzindo a testa, soltando um riso nasalado em desdém.

— Ô, subcelebridade, segunda opção, eu vim aqui atrás do meu amigo. — Foi a resposta que recebi dele. Senti minhas bochechas corarem de raiva. — E, na verdade, você está certa. Falar com o Gregory é realmente mais interessante do que ficar aqui te encarando. De qualquer forma, preciso de para isso.

Eu tinha a opção de responder com palavras não muito próprias, mas mordi a língua e contei até dez. Virei os calcanhares dando um último olhar a , que permanecia sério me encarando, com os lábios em linha reta e mãos atrás do corpo. Me mostrou seu celular discretamente e eu entendi que ele não falaria nada em voz alta.
Sai a passos largos, arrumando os óculos no meu nariz.

No próximo instante eu já estava mandando outra mensagem para .

“Mudanças de planos, me encontre na sua casa. Xoxo”

*

— Será que eu tenho que lembrar você que eu ainda trabalho? — Ao contrário do que pessoas normais diriam quando recebem visitas em suas devidas casas, foi assim que abriu a porta da dela.

Percebendo que eu não estava exatamente bem para rir de suas brincadeiras, desmanchou a sombra do sorriso formado em seus lábios e passou às pressas por mim até conseguir me segurar pelos ombros, arrancando de uma vez o acessório que impedia os outros de verem a forma horrível em que eu me encontrava.

— Mas que diabos aconteceu com seus olhos? O que aconteceu com você, ? – Corrigiu sua pergunta.

Sua preocupação evidente não me pegou de surpresa, mas me fez suspirar em um sinal de cansaço.

— Longa história. Será que podemos, por favor, nos sentar?

Ela concordou, receosa, mas concordou, se sentando ao meu lado no segundo seguinte, prestando o máximo de atenção que podia.

Então contei a ela tudo.

Contei desde a conversa que tive com Luke, até as implicâncias que tive com minutos antes. Não deixei de fora as partes que incluíam . Achei importante ressaltar que pelo menos alguém além dela e seu irmão, parecia não me odiar.

Detalhei a discussão que tive com meu pai. Deixei que algumas lágrimas rolassem por meus olhos em certas partes. Sabia que seria a última pessoa a me repreender por tal ato. Ela só faria isso se fosse realmente necessário fazer.

Havia sido assim quando interveio em minha crise de fim de relacionamento com meu primeiro namorado, com meu chilique por notas no último ano, com a minha quase depressão tempos depois da morte da minha mãe. E seria assim sempre que necessário.
Ela me escutou sem dizer nada, questionar ou interromper. Apenas fez o possível para absorver cada informação que eu lhe falava.

Por fim, de súbito, lembrei-me de falar sobre a data de minha partida. Qual nos rendeu uma longa conversa sobre despedidas. Detalhe qual eu não gostaria de detalhar.

— Você não pode simplesmente “ir”. — Fez aspas com os dedos, me encarando um tanto incrédula. — Isso não combina com a que eu conheço.

— Como se eu tivesse muitas pessoas de quem me despedir. — Respondi com ar de desânimo.

— Não tem que ser alguma despedida, literalmente. — Deu de ombros. — Só alguma coisa divertida que você goste e curta bastante. E não faça drama, . Não temos tempo pra isso. — Balançou as mãos como se não ligasse. — E você tem a mim, e Luke. Não é tão solitária quanto pensa.

— Por que eu chamaria ? Para de insinuar isso, . — Joguei minha cabeça para trás.

— Por que não? Você disse que ele era legal. — Fez sua melhor cara de inocente, que depois de anos tentando, eu aprendi a ignorar muito bem.

— Mas não vejo motivos para convidá-lo. — Tentei tirar essa ideia da cabeça de minha amiga, mas com aquele sorriso que ela deu de pura e total determinação, percebi que não adiantaria mais nenhum argumento.

, você pode estar ignorando uma grande amizade pelo simples fato de ser uma chata e cabeça dura! — usou seu melhor tom de bronca. — Se você não mandar uma mensagem pra ele, eu mesma farei isso.

— Tá falando sério? — Tentei acreditar que tudo aquilo não passava de uma brincadeira dela.

— Você tem cinco minutos. O que vai querer?

A olhei sem piscar, tentando entender seu olhar de desafio que emanava dúvida, como se minha decisão fosse a tomar de surpresa.
Olhei o celular impaciente. imitava o som de um relógio enquanto eu decidia. Sim, ela era infantil em alguns momentos.
Quase todos, pra ser mais exata.
Desbloqueei o aparelho e digitei rapidamente para dois contatos da minha agenda.

“Espero que esteja livre amanhã à noite. Xoxo”

*

Querido Diário…

Minhas últimas horas aqui têm passado muito rápido.
Evitei o contato com meu pai, e ele também não correu atrás de mim, o que significava que ainda está com raiva.
ontem me ajudou a arrumar as malas. Várias, aliás. Eu levaria quase todas as minhas roupas e sapatos, maquiagem e bijuterias. Levaria também meus objetos pessoais de valor, como fotos, livros e outras coisas de decoração.
Contei a notícia para Laura e Leonard, o que me deixou deprimida, já que a primeira pergunta de Laura havia sido se eu iria embora igual mamãe tinha ido.
Garanti aos dois que os visitaria sempre que possível e que também os levaria para minha nova casa na primeira oportunidade que eu tivesse. Concordaram felizes da vida, principalmente quando descobriram que eu iria para Londres.
Daqui a pouco eu irei ao píer com , Luke e no parque de diversões. Lá é um lugar de boas lembranças para mim, e eu o escolhi justamente por isso.
Na verdade está pronta aqui do meu lado me olhando com cara de pressa, prestes a tomar a caneta da minha mão.
Tenho poucas horas para permanecer aqui, então vou aproveita—las enquanto posso.
Com amor,

*

— Luke já está nos esperando no carro. — Foi o que falou quando passou direto por mim em direção à porta.

— Quem diria que um futuro advogado igual a ele estaria indo a um parque de diversões com duas garotas. — Comentei calçando meus tênis, a acompanhando.

— Ele não liga, contanto que ninguém saiba. — Ela deu de ombros, fechando a porta atrás de si.

— Porque com certeza nós o fazemos passar vergonha. — Minha ironia veio à tona.

— Você não esquece mesmo certas coisas, não? — abriu um sorriso debochado cheio de dentes enquanto seguíamos para o carro.

— Não quando isso envolve coisas cômicas.

Rimos juntas, tendo provavelmente as mesmas lembranças que eu. Aquelas de quando estávamos na infância ou no início da adolescência. Quando fazíamos palhaçadas de propósito, ou por acidente mesmo.

— Finalmente, achei que tivessem se perdido no caminho. — Luke falou, dando a partida no carro.

— Culpa da que não se contentou em experimentar só dois conjuntos de roupa. — A provoquei com a minha melhor tentativa de seriedade.

— Minha nada! A gente só se atrasou graças a sua tentativa de rebocar essa sua cara que não tem conserto.

Juntei as sobrancelhas enquanto os irmãos riam, fazendo um high five em seguida.

— Qual é?! Você mesma diz que todos amam as ruivas! — Respondi, quase ofendida.

— Então quer dizer que você finalmente assumiu seus cabelos vermelhos? — Minha amiga indagou.

— Não disse isso! — Justifiquei.

— Mas foi o que deu pra entender.

Cruzei os braços e fechei a boca, permanecendo assim pelos próximos longos minutos que se estenderam até chegarmos lá.
nos encontrou na entrada do parque, tímido, olhando para todos os lados. Estranhei sua reação inicial, mas não fiz perguntas sobre isso.

— Oi, . — O cumprimentei com um abraço. — Obrigada por ter vindo!

— Como você mesma disse, é bom comemorarmos certas fases da vida. — sorriu e deu de ombros, olhando para e Luke que permaneceram ao meu me encalço.

— Gostei do garoto! — Minha amiga quase gritou de alegria pelo que ele disse.
, essa é .

— A melhor amiga. – Ela respondeu e ele esticou a mão, cumprimentando—a.

— E esse é Luke.

— Irmão da melhor amiga. — Respondeu de imediato, mantendo o rosto sério.
Me virei de frente para os outros dois e me desembestei a falar:

— Queridos amigos, esse é , vou trabalhar com ele em algum momento da série que eu ainda não sei qual é, porque esse garoto aqui fica fazendo mistério.

— Sério? O que ele vai ser? — se entusiasmou, intercalando olhares entre eu e o garoto.

— Eu disse a ela que só contaria na véspera. — Sorriu tímido sem olhar para apenas um de nós.

Concordei balançando a cabeça, recebendo uma face de confusão da garota, que transmitia um olhar quase que desesperado por informações. E Também tinha Luke, que riu sem graça da situação. Como ninguém ali parecia confortável o suficiente, por motivos nada concretos, decidi arrasta-los para todos os brinquedos que fossem possíveis, tentando quebrar o clima esquisito entre nós.

Funcionou minutos depois. Logo estávamos todos rindo como velhos amigos, daqueles que se conheciam desde crianças, porque esse era o espírito que aquele lugar nos transmitia. Leveza, diversão e felicidade.

As horas passavam, mas permanecíamos elétricos como se não se tivessem completado mais do que poucos minutos ali. Tirei o máximo de fotos que pude, recordando todos os momentos, fazendo de tudo para não esquecer as boas coisas que me faziam gostar tanto de Brighton, da minha cidade, que apesar de tudo, foi e sempre vai ser a minha casa, o lugar onde cresci, mentalmente e fisicamente. Onde eu construí cada detalhe de quem eu era, do meu caráter. E doía demais olhar ao redor e lembrar que essa seria minha última noite aqui.

Suspirei olhando as luzes que davam o ar infantil e divertido ao píer, sorrindo em seguida vendo meus amigos de infância e meu pseudo novo amigo se divertindo com eles. Talvez esse não fosse o fim. Talvez fosse a introdução de um novo grande começo.

— Por que não vamos tentar a sorte no tiro ao alvo? — Se pronunciou com os olhos brilhando de entusiasmo.

— Claro! Eu vou com você. — a seguiu para uma das barracas coloridas, um pouco longe dali.

Luke permaneceu ao meu lado, sem fazer menção a seguir os dois.

— Vai ficar aqui? — Me perguntou quase descrente.

— Sabe que tiro ao alvo definitivamente não é algo que eu faça de forma decente. — O relembrei desse detalhe, que fazia nos lembrar de episódios nossos de infância nada normais. Como a vez em que a rolha da arma que usei, ao invés de derrubar um dos prêmios, acertou um dos homens que trabalhavam na barraca.

Definitivamente eu era um desastre.

— Mas segundo seu contrato, você vai ter que virar o oposto. — Comentou Luke, inocentemente.

— Eu sei que você está louco para me zoar. — Estreitei meus olhos em sua direção.

— Não esperava que eu fosse mentir e dizer que você vai ser ótima, né? — Riu de forma nasalada, e por total revolta eu lhe dei alguns tapas no braço.

— Obrigada pela parte que me toca.

— Disponha. Amigos servem pra essas coisas. — Deu de ombros, iniciando uma caminhada sem rumo definido, comigo o acompanhado. — Como está sua cabeça? — Luke me perguntou, recebendo meu olhar confuso em resposta.

— Ainda grudada ao meu pescoço, se é o que você quer saber. — Ele riu e me olhou incrédulo, provavelmente pensando em quão burra eu era.

— Quero saber no que você está pensando… — Corrigiu a própria pergunta.

Tornei minha expressão séria, procurando as melhores palavras para descrever tudo aquilo.

— Parece uma cama de gato de tão bagunçada. — Olhei para o chão antes de encará-lo por um momento. — Alguns momentos penso que abandonar tudo isso é a mesma coisa que eu me tornar alguém totalmente diferente, sabe? Por que não vou levar a mesma vida, e isso é um fato. E eu não tenho como saber o quanto tudo isso vai me fazer mudar, se para coisas boas ou ruins. Eu não tenho apoio de todos que eu queria, mas ainda sim tenho daqueles que são mais importantes para mim, e esse é o meu consolo.
Luke se manteve quieto me olhando, esperando que eu continuasse a dizer mais alguma coisa sem sentido que se passasse pelo meu cérebro, mas a verdade é que colocar o que eu estava sentindo em palavras, parecia ser o desafio da minha vida, pois era impossível descrever qualquer coisa que em questão, eu poderia pensar por horas seguidas, mas eu nunca conseguiria organizar meus pensamentos.

Nunca fui o tipo de garota que se abria como uma caixa de música e deixava que minhas palavras se derramassem como uma melodia clássica qualquer. Na maior parte do tempo eu pensava em simplesmente aguentar meu próprio fardo. E isso não significava que eu estava sendo arrogante ou egoísta, nem que eu estava recusando ajuda de ninguém, pois na verdade estava aceitando todas que me oferecessem, mas ainda assim era como se tudo o que eu pensasse ficassem preso em um cofre, trancado por cadeados, enterrado a sete palmos do chão, e mesmo que começassem a escavar, nunca iriam achar a chave para abrir.

Eu não era impenetrável, mas sentia como se uma redoma se formasse ao meu redor.

Quem convivia comigo sabia disso, e por esse motivo, tinham achado outras formas de me desvendar, porque sabiam que se dependesse de mim, tudo estaria sempre uma maravilha. Na teoria, claro, porque tudo seria da boca pra fora.

E eu não queria perder essas pessoas. As queria perto de mim para me ajudar, mesmo que eu não pedisse ajuda.

— Não fique achando que eu vou te deixar em paz assim que você for embora. — Luke me surpreendeu, como se lesse meus pensamentos e sorriu lateralmente, colocando as mãos no bolso do agasalho.

— Claro, não me deixou nem quando foi pra faculdade. Alguns quilômetros a mais, outros a menos não vai fazer diferença pra você. — Ironizei.

— Você é uma chata! — Ele riu me abraçando lateralmente.

— Isso é amor de irmão, seu idiota! — Passei meu braço por sua cintura, o abraçando
da mesma forma que ele fazia.

— Então somos muito hipócritas, porque irmãos não se beijam. — E lá vamos nós com esse assunto de novo.

— Vou dizer mais uma vez. — Pausei ainda sem olhá—lo. — Você é um idiota, Luke!

— Ah, não, ! — O loiro parou de andar, me segurando pelos ombros. — Você sempre foge do assunto!

— Porque se passaram anos desde que isso aconteceu, e você sempre resolve conversar sobre esse acontecimento nas horas mais inoportunas! — Me justifiquei de imediato, colocando as mãos na cintura.

— Não acho que seja importuno! Foi aqui e tudo mais! — Olhou ao redor, dando mais ênfase a sua frase.

E então eu quis me esconder, já que estava óbvio demais que ele havia me deixado desconsertada e totalmente vermelha. Tinha total certeza disso por causa do calor que eu sentia em minhas bochechas.

— Ótimo, então fale sobre isso com o ursinho de pelúcia que eu ganhei, toma! — Lhe entreguei o brinquedo com o melhor sorriso que pude, virando as costas, andando a passos largos para longe dele.

Eu tento evitar momentos constrangedores como esses, mas parece que na minha vida, esses são os tipos de coisas que tem de acontecer frequentemente. Pelo menos é o que parece.

! Por que você tem tanta vergonha de mim? — Luke me alcançou poucos passos depois.

— Você sabe muito bem o porquê. — Fiz um bico gigante com meus lábios.

Ele soltou uma longa gargalhada, e eu fiquei sem acreditar no que ele fazia.

— Sei sim. — Concordou. — Sei também como era a noite aqui cinco anos atrás, quando você me disse que nunca tinha beijado ninguém. — Fez uma pausa enquanto eu prendia a respiração. — E lembro da parte que eu fiquei indignado, porque convenhamos, você sempre foi muito bonita, e eu disse isso pra você, o que consequentemente fez você dizer que gostava de mim.

— E aí, a idiota aqui — Apontei para mim mesma. — beijou você.

Ele sorriu, como se finalmente eu estivesse chegando exatamente onde ele queria. Bufei um tanto indignada.

— É, mas logo em seguida eu te beijei de volta. — Acrescentou.

— E minha mãe viu, o que me resultou em horas de interrogatório sobre as “intenções” para aquilo. — Cruzei os braços rindo da lembrança daquele dia. — Foi quase tão ruim quanto a conversa “de onde vem os bebês” que ela teve comigo aos onze anos.

Gargalhamos juntos pelos próximos segundos.

— Você é a pessoa mais exagerada que eu conheço!

— Faz parte do pacote de ser atriz, acredite!

Demos mais alguns passos, dessa vez procurando algum sinal de e .

— E o que mais está incluso no pacote? — O ouvi perguntar.

— Praticamente tudo que faz ser quem eu sou. Claro, tirando a parte de ser convencida, mesquinha e me achar o máximo. — Dei de ombros, abraçando meu ursinho de pelúcia.
Eu precisava arranjar um nome para ele…

— Então eu gosto desse pacote. — Luke olhou esperando que eu desse alguma resposta, mas me limitei a balançar a cabeça de forma negativa.
— O que deu em você hoje, criatura do Senhor? — Perguntei estranhando seu modo de agir, e me xingando por ter subido minha voz alguns décimos.

— Absolutamente nada, só estou lembrando você das coisas que já fizemos. — Outra vez me abraçou lateralmente, pendendo seu peso sobre mim, o que nos fez cambalear por alguns metros.

— E por que cargas d’água resolveu me lembrar justo de um dos dias mais embaraçosos da minha vida? — Falei irritada, gesticulando mais do que de costume.

— Por que aquele dia é a minha garantia de que você não vai me esquecer. — Juntei os pés, o olhando surpresa, mas tentando não esboçar isso.

— Do que você tá falando?

— Estou garantindo que mesmo que você não volte nunca mais, ainda assim vai se lembrar de mim, porque afinal, eu fui seu primeiro beijo.

Demorei um pouco pra conseguir assimilar tudo o que ele tinha dito. Pensei em começar a responder alguma coisa, qualquer coisa que tivesse nexo, mas para ser bem sincera, era como se meu cérebro tivesse dado pane. Que tipo de coisa era aquela que ele estava dizendo?

— E o que te faz pensar que eu vou te esquecer? Ou esquecer qualquer coisa que aconteceu aqui? — Questionei, procurando algum tipo de esclarecimento.

— Tudo! Você vai entrar em um mundo novo, conhecer pessoas novas. Talvez você fique tão envolvida com tudo aquilo, que nem vai se lembrar do que fez no dia anterior. — A preocupação dele era simplesmente tão patética, que eu senti vontade de rir.

Mas, me colocando no lugar dele, talvez eu acabasse sentindo o mesmo que ele. Insegurança.

— Luke, isso só confirma como você é bobo. — Sorri sem mostrar os dentes. — Eu não vou esquecer você! E sabe por quê? Porque não se esquece do melhor amigo. É simplesmente impossível.

O loiro apenas me olhou, pensando em como continuar a conversa, já que eu havia tirado sua ideia maluca da cabeça com a minha pergunta retórica. Pelo menos eu achava que tinha acabado com essa discussão, afinal, nenhuma palavra saiu da sua boca desde que eu fechei a minha.

E então ele me abraçou.

Um abraço apertado, que acabou por espremer meu novo ursinho de pelúcia entre nós dois, mas eu não ligava pra isso, desde que aquele contato durasse por um pouco mais de tempo.

— Vou sentir sua falta, baixinha. — Luke murmurou com a voz abafada pelo meu cabelo em seu rosto.

— Idem. — Respondi em um murmúrio. — Prometo falar com você sempre que possível. — Minha risada soou triste, da forma que eu estava naquele momento. — Digo o mesmo sobre . Ela não vai escapar de mim assim tão rápido. Ele riu mesmo que parecesse sem vontade de o fazer. Se afastou de mim, mantendo o contato visual. — Tenho muitos motivos pra lembrar de vocês. Juntos ou separados. — Sorri mais abertamente, vendo-o concordar com a cabeça.

— Eu sei que vai, e vou te dar mais um motivo pra isso.

Franzi o semblante, confusa o suficiente para não entender o significado daquela frase.
Pensando bem, ser confusa parecia ter se tornado meu estado de espírito e vivência desde que fiz o teste para The Black Side. Sinceramente eu precisava entender melhor os momentos parecidos com esse, onde as pessoas falavam coisas, que na minha cabeça, não tinha o menor nexo.

E como se já não bastasse a loucura que meus neurônios estavam, Luke colou nossos lábios em um beijo, o que praticamente fez com que tudo se explodisse. Totalmente surpresa, não consegui me afastar, travei todos os músculos do corpo, em choque, tentando assimilar as partes que perdi.

O toque não se aprofundou e nem pareceu se prolongar mais que alguns segundos, porque era exatamente isso. Só um toque. Nada mais íntimo, como troca de DNA ou coisas do gênero, para não dizer outras coisas. Foi apenas um gesto carinhoso, um selo de nossa amizade.

E ainda com os músculos rígidos, sem nem ao menos ter soltado a respiração, vi ele se afastar, procurando algum traço no meu rosto contrariado por sua atitude.
Sei que meu amigo pensava em me encontrar brava, ou quem sabe me mordendo para xingá-lo, mas a atitude que ele teve era a única alternativa que não cumpria a lei da ação e reação. Eu simplesmente fiquei parada o encarando, como uma estátua viva estaria fazendo, porque eu não estava sendo capaz nem de piscar incrédula.

Me safando talvez de uma das conversas mais constrangedoras da minha vida, uma provavelmente que ficaria no top 5, e entraram em meu campo de visão. Um suspiro de alívio deixou meus lábios, que ainda entreabertos, tentavam acreditar no que há pouco acontecera.

— A gente estava procurando vocês já fazia um tempo. — Minha amiga se prontificou a falar, dando um passo à frente em minha direção.

— Onde é que vocês tinham se metido? — Completou .

Enquanto aqueles três pares de olhos me encaravam, dois obviamente curiosos e o outro sem mostrar qualquer ato que lhe entregasse, eu tentava pensar em uma boa desculpa.
Pigarreei um tanto alto, torcendo para que minhas bochechas não estivessem vermelhas vivas, porque já bastava a vergonha daquilo na minha cabeça, não precisava mais duas pessoas dizendo qualquer sacanagem que fosse.

— Estávamos esperando por vocês, só que estavam demorando tanto que resolvemos ir a alguma barraquinha. — Soltei a mentira, rezando silenciosamente para que soasse verdadeira o suficiente para convencê-los.

— E foram em alguma? — retrucou com sua expressão impassível.

— Na verdade não.

Engoli em seco, fingindo arrumar o cabelo, que teimava em cair na frente do rosto por causa do vento fraco que passava pelo píer. Minha amiga mantinha seu olhar convencido pra cima de mim, de quem sabia mais do que devia.

Desconfortável, procurei olhar para qualquer coisa mais interessante que aquelas três pessoas paradas.

— O que acham de pegarmos um algodão doce? — Luke opinou, tentando soar tranquilo e normal, mas conhecendo-o como o conheço, sabia que ele estava inquieto e nervoso.

— Pensei que nunca fosse perguntar! — respondeu como que dissesse “finalmente!”, e me agarrou pelo pulso enquanto os dois garotos seguiam na frente conversando sobre qualquer coisa.

Percebi que minha amiga diminuía a velocidade dos passos, esperando que a distância entre nós duas e os outros ficasse maior para finalmente se virar de frente a mim.

— Você me deve uma bela explicação pelo que eu vi, . Não pense que não vou cobrar. — Quando piscou um dos olhos e seguiu para a fila do algodão doce, eu fiquei sem saber se ria ou se chorava.

Alguns segundos depois de pensar no que fazer, decidi que ia ignorar toda essa minha vontade de me esconder e aproveitar o tempo que tinha com meus amigos.
Comemos o tal do algodão doce, fomos no carrinho de bate-bate, deixando algumas crianças totalmente bravas por isso, mas sem motivo aparente.

Gastamos uma hora fazendo uma porção de coisas divertidas, mas também idiotas, até que paramos na fila da roda gigante.

— Sério que vocês querem ir nesse troço? — Luke franziu a testa e retorceu a boca em uma careta, olhando pra cima.

— Eu quero ir, poxa. — Reclamei, cruzando os braços na altura da minha cintura.

— Pra falar a verdade eu também não tô muito a fim… — concordou com o irmão, me deixando chateada com a falta consideração deles comigo.

Certo, exagero meu, mas eu estava chateada.

— Eu vou com você, , não precisa ficar brava. — se prontificou ao meu lado com um sorriso sem mostrar os dentes.

— Obrigada, ! Você, ao contrário de certas pessoas, é gente boa. — Me pus a falar mais alto, tentando irritar aqueles que me abandonaram na fila.

Fingindo que eu não falava com ela, arrastou Luke para comprarem, provavelmente, mais batatas. Eu ainda não tinha descoberto pra onde ia tanta comida, porque eles simplesmente não paravam de comer! Eu nem ao menos tinha terminado meu algodão doce e eles já pensavam em qual seria a próxima “degustação” que fariam das comidas do parque.

— Hey, , é a nossa vez. — me puxou pelo antebraço, tirando-me dos meus devaneios.

Subimos no banco, sentando-nos lado a lado, descendo a trava de segurança logo em seguida. Ao contrário do que são algumas rodas gigantes, essa não era aquela no estilo filmes de Hollywood, que giravam devagar para os passageiros admirarem a paisagem etc. e tal. Ela na verdade era até que bem rapidinha para as minhas expectativas do brinquedo.

— Obrigada por ter vindo hoje, . — Desviei meus olhos do mar para poder olhá-lo. — Achei que você fosse recusar.

— Por que eu recusaria? — Arqueou uma sobrancelha. — Gosto de ter um dia atoa como hoje.

— Ah, sei lá. — Dei de ombros sorrindo de forma tímida. — Como nós nos conhecemos a tipo, cinco dias? Achei que você diria não.

— Achou errado, então. — Deu de ombros. — Sei que você não faz o tipo de garota louca que vai tentar me sequestrar daqui a pouco só porque eu sou , o cantor da One Direction. Sei que me convidou aqui por eu ser apenas , o cara normal que gosta de fazer coisas normais.

— Que bom que você pensa assim. — Ri enquanto a imagem de uma pessoa criando possibilidades de realmente fazer aquele absurdo relacionado a sequestros invadia minha mente.

— Bom, de qualquer forma eu estou me divertindo com você e seus amigos. — Afirmou ele olhando para o resto do píer.

— Se você diz, então eu acredito que esteja gostando. — Respondi. — Não é sempre que você vem a um parque de diversões em um píer, tenho certeza.

— Na verdade sair de casa já é uma novidade, então isso é uma noite atípica pra mim. — Falou na maior normalidade possível, fazendo-me olhá-lo de uma forma estranha. Eu procurava entender o significado de suas palavras, porque admito que pra alguém como ele que viaja o tempo todo, esse devia ser um dia comum e sem graça.

— Não sei se entendi o que você quis dizer. — Coloquei mais uma parte do algodão doce cor de rosa na minha boca.
suspirou pesadamente e depois se virou para mim, tomando fôlego para falar:

— Isso é diferente da realidade que eu vivo, entende? Tipo uma fuga ocasional. — Assenti, o incentivando a continuar, mesmo que na verdade eu não estivesse entendendo muitas coisas. — É um tanto complicado sair na rua sem ser seguido por paparazzi, ou encontrar fãs por todos os lugares. — Fez uma careta, se policiando logo em seguida. — Não estou reclamando, não é isso! — Se apressou em dizer. — Eu gosto muito da vida que tenho, mas os exageros dela às vezes me incomodam. Como eu não poder sair com alguns amigos de forma despercebida sem que criem algum rumor absurdo sobre isso.

— Essa é a segunda face da moeda. — Bati os calcanhares no apoio do banco, soltando um riso nasalado.

— Quase isso. — Assentiu roubando parte do meu doce. — Mas isso tudo veio incluso quando eu decidi o que queria da vida, e ainda assim, não consigo me imaginar sem essa parte. É bom e ruim ao mesmo tempo, difícil no começo, mas depois se torna uma rotina. A sua rotina.

Uma volta completa se seguiu em silêncio. Me perguntei se aquele brinquedo não pararia nunca, pois já faziam alguns minutos que estávamos ali.

— Você sabe que vai ser assim com você, não sabe? — O garoto ao meu lado se virou quase que completamente para poder me olhar melhor. — Essa parte da fama e etc.

Balancei a cabeça confirmando suas indagações.

Eu havia pensado nisso. Pouco, admito, mas eu tinha um formigamento na barriga, um nervosismo, medo de qual realmente poderia ser minha imagem para todas essas pessoas que eu nem ao menos conhecia. Já havia repetido quase que centenas de vezes para eu mesma que as coisas não iam simplesmente explodir e todos saberiam quem eu era.

Tudo ia acontecer no seu próprio tempo, por mais clichê e idiota que isso soasse, era nisso que eu acreditava.

— Não sei se estou preparada para isso. — Subitamente me senti interessada em brincar com meus próprios dedos das mãos.

Olhei pelo canto dos olhos para , sem a real intenção de continuar com meu foco nele.

— Ninguém nunca está. — Senti seu riso sem verdadeiro divertimento escapar como um sopro.

Logo então veio a sensação que de alguma forma eu estava muito ferrada. Mas se para tudo que se fizesse fosse ter algum tipo de consequência, pelo menos eu estava ciente dessa, mesmo que ainda não tenha realmente acontecido.

O celular no meu bolso vibrou, fazendo um barulho irritantemente alto, chamando a atenção de também. Tratei de pega-lo imediatamente, vendo o nome de Luke na tela bloqueada e sua mensagem. Logo seguida de outra e mais uma.

Suspirei e revirei os olhos antes de lê-las sem nem um pingo de calma.

— Luke disse que ele e já saíram do parque. — Comecei a falar. — Parece que já está tarde e algumas coisas começaram a fechar.

assentiu sem realmente me olhar.

— Você tem alguma coisa com Luke? — Juntei as sobrancelhas o olhando de relance. — É que vocês parecem ser bem próximos.

— Na verdade nem nos falamos muito. — Expliquei. — Ele tem estudado muito ultimamente, então nosso único meio de comunicação acaba sendo , que tem sido como um elo de nossa amizade.

— Ah… — não pareceu convencido. — É que você sabe… e eu vimos vocês se beijando…

E o rubor subiu por minhas bochechas e eu tranquei a respiração.

Não sei o porquê, mas eu senti a repentina vontade de explicar para que aquilo tudo havia sido tão estranho para mim quanto para ele.

Contei com poucas palavras minha constrangedora história do primeiro beijo, e contei também do pequeno drama que eu estava vivendo com uma mudança como essa e que, aparentemente, Luke se sentia tão embaraçado como eu, e sem mais nem menos, ele achou que me beijar seria uma boa lembrança nossa para o futuro.

Guardei para mim mesma o detalhe que eu tinha gostado daquilo. Bastante.

Terminei a história em meio a risos, sendo acompanhada por ele também, que pediu mais detalhes sobre a parte do chilique que minha mãe havia dado quando viu a filha dela, no início da adolescência, aos beijos com o suposto melhor amigo desde a infância.

— Ela começou a perguntar se eu tinha outras intenções além de beijá-lo e por que eu tinha decidido fazer aquilo no carrinho de bate-bate, se era pra mostrar pra alguém ou qualquer coisa do gênero, e eu admito, foi horrível! — levei as mãos para o alto em meio a risadas. — Não tinha uma estabilidade! As pessoas faziam questão de bater principalmente na gente.

, você sabe que é exatamente pra isso que serve aquele brinquedo, não sabe? — me olhou sem cessar sua risada divertida. — Você vai lá pra bater nos outros, não pra beijar!

Sua indignação me fez levar uma das mãos aos olhos, cobrindo-os de vergonha.

— Eu sei! Mas eu tinha catorze anos, me dá um desconto, poxa!

— Desculpa, mas não dá! Isso foi totalmente ridículo.

Nossas risadas se prolongaram por mais alguns segundos, e a toda gigante, não tão gigante assim, não fazia a mínima menção de parar.

— Ela ainda implica com você por isso? — O sorriso largo de ocupava a maior parte do seu rosto, ou pelo menos era o que mais me chamava atenção.

Ainda pouco recuperada das risadas que estávamos dando, acabei por não entender muito bem sua pergunta, o que me fez juntar as sobrancelhas, sem tirar o sorriso de minha face e perguntar:

— Ela quem?

— Sua mãe! Ela ainda lembra disso? — Senti a proporção do meu sorriso diminuir até ficar sem forma.

, quem ainda sorria, pareceu perceber meu desconforto, tornando sua expressão séria enquanto um arrepio subia pelo meu braço.

— Minha… — Senti minha voz embargar e pigarreei para que voltasse ao normal. — Minha mãe morreu faz um ano…

Adquiri um sorriso triste, tentando tirar aquele desconforto que se espalhou ao nosso redor.

Talvez atônito, senti que ele não sabia exatamente o que dizer ou como reagir. Eu sabia bem como era essa reação, tinha se tornado comum desde o ano passado.

— Me desculpe, . Eu não sabia… — Apressou—se em dizer, de olhos arregalados e confusão evidente, provavelmente sentindo uma espécie de culpa por ter tocado no assunto.

— Tá tudo bem! — Resolvi dizer antes que ele pensasse que eu me sentia irritada, ofendida ou qualquer coisa do tipo. — Não tinha como você adivinhar.

Olhei em seus olhos enquanto falava, apenas para ter certeza que ele entendesse que estava tudo Ok. Fazendo o possível para que o clima entre nós dois não ficasse estranho. não pareceu contrariado em manter seu olhar no meu por longos segundos.

— Seus olhos… — Interrompeu sua própria frase.

— O que têm eles?

— Eu pensei que fossem verdes… — Senti uma repentina vontade de sorrir e resolvi não reprimi-la. — Mas agora estão azuis.

— Eles podem ser os dois… Depende da iluminação, não sei… — Dei de ombros ainda o olhando.

— Gostei muito deles. — Mais uma vez naquela noite senti o calor subir ao meu rosto.
Pisquei vezes seguidas, sem saber exatamente o que falar.

Salva, finalmente, pelo fim do nosso passeio no brinquedo, descemos em silêncio e fomos assim até a saída do píer. Realmente a maior parte das barracas havia fechado e apenas as luzes permaneciam acesas.

Como durante todo o passeio, andava com a cabeça baixa, porém atento a todos os lados, procurando não encontrar alguém que o reconhecesse, provavelmente.

Todo esse trabalho, infelizmente foi em vão. A poucos metros do estacionamento três garotas o pararam e pediram autógrafos e fotos. Preferi ficar afastada em um canto apenas esperando pelo garoto, já que o primeiro olhar que recebi das meninas me fez ficar receosa de qualquer aproximação. Eu ainda queria estar viva no dia seguinte, então fiquei onde estava.

A passos largos, ele seguiu em minha direção mais uma vez com um sorriso sem graça nos lábios, pedindo desculpas sem realmente dizê-las. Por mais que insistisse em me dar carona, tive que recusar todas elas, sendo acompanhada por uma que repetia todas as minhas frases para que eu simplesmente tivesse oportunidade de contar o que de fato teria acontecido entre eu e Luke.

Eu poderia ter resumido isso em apenas uma palavra. E ela seria “nada”.

Me despedi de por último, com um abraço apertado. Nunca imaginei que pudesse ganhar um amigo assim, de uma forma tão rápida.

Me sentia um pouco menos perdida e preocupada sabendo que ele havia se oferecido para me mostrar algumas partes de Londres. Mas por noção de abuso, não faria dele meu guia turístico.

Minha amiga pareceu realmente desapontada em ver que não conseguiria arrancar nada de mim dentro daquele carro. Senti-me orgulhosa de mim mesma por ter conseguido ficar quieta. Geralmente ela era uma pessoa tão persuasiva, que dava vontade de socar a cara dela. Claro, só quando ela começava a ser irritante, o que se resumia em quase todos os momentos…

A situação pareceu pior ainda quando Luke parou o carro na porta de minha casa. bufou indignada e quase se recusou a se despedir de mim, mas vendo sua infantilidade, resolveu mudar sua estratégia, e não quis me deixar ir, prendendo-me no banco de trás por vários minutos.

Eu não duvidava que conseguisse me manter ali por toda a noite. Sabia disso porque eu também não queria sair de perto da minha amiga. Porém o dia seguinte seria no mínimo tenso, já que eu deixaria a cidade com todas as minhas malas, sem a intenção de voltar por um grande intervalo de tempo. Então, a minha única escolha era pedir que me encontrassem amanhã na estação de trem.

Deixei o carro e não olhei para trás. Segui em frente até a porta da minha casa, onde me atirei para dentro no mesmo segundo.

Pronta para me jogar na cama e desmaiar até o dia seguinte, me deparei com a imagem de meu pai sentado na cadeira da mesa de jantar, batendo um envelope contra o vidro da mesma.

— Antes tarde do que nunca, não? — Apontou para o celular que marcava pouco mais que meia noite. — Não achei que fosse voltar aos velhos hábitos assim tão rápido…

Suspirei em desgosto.

— Desculpe pai, já estou indo pra cama, não precisa gastar mais do seu tempo. — Fiz menção de continuar meu caminho, quando ele pigarreou, fazendo-me mesmo sem vontade, interromper meu andar e o olhar.

— Não tem nada pra me contar? — Arqueou uma sobrancelha quando dei de ombros. — Algo sobre isso, por exemplo?

Enquanto eu estranhava e não entendia nem um terço da situação, ele me entregou o tal envelope, qual eu não demorei um minuto para abrir.

Lá estava ela. Minha passagem de trem para Londres. Uma passagem apenas de ida.

— Quando pensou que ia me contar? — Levantou a voz sem mexer um músculo sequer.

— Não achei que você se importasse realmente. — Guardei a passagem de novo no envelope.

— E qual a parte de eu chegar em casa amanhã e não te encontrar aqui você acha normal? E seus irmãos? Acha que eles não iam nem ao menos notar? – Usou o sarcasmo como forma de me intimidar. — Eu achei que você fosse mais inteligente, .

— Se você quer mesmo saber, pai, — Procurei soar o mais calma possível, mesmo que eu soubesse que a raiva escapava por entre minhas palavras. — Laura e Leonard sabem. Fiz questão de contar e conversar com eles. E se você acha legal saber, eles adoraram a ideia de me visitar em Londres! Eles têm dez anos e compreendem a situação melhor que você! E, aliás, desde quando você realmente se importa? Disse que se eu passasse por aquela porta, não haveria volta. É o que eu vou fazer. Quando eu sair amanhã, não vou voltar mais. Acredito que nem vai se importar, já que é isso que tem feito minha vida inteira. Só piorou desde o ano passado. Será que eu estou errada? Não. Tenho certeza que não.

Mais rápido do que eu pude raciocinar, lá estava ele, com os pés plantados no chão em minha frente, acertando sua mão na minha bochecha esquerda.

— OLHA COMO FALA COMIGO, ! SOU SEU PAI, NÃO SEU IRMÃO! Em que diabos você acha que está transformando a minha vida?

A ardência era forte, meus olhos lacrimejaram, meu rosto se virou totalmente para lado direito, não permitindo que eu o olhasse, mas eu não precisava vê-lo para saber sua expressão.

E mesmo se quisesse, não conseguiria.

Instintivamente dei dois passos para trás, cobrindo o lado esquerdo do meu rosto com minha mão. Até respirar com calma e pausadamente parecia um desafio naquele momento. Seus olhos brilhavam de ódio, e eu percebia sua frieza por todas as partes. Eu sabia que naquele momento ele me queria bem longe.

— O que você fez com aquela garotinha, hein? Aquela que eu ajudei a criar anos atrás?

— Ela se perdeu no caminho da perfeição que você impôs a ela.

Virei às costas rumo às últimas horas que eu passaria no meu quarto, deixando o homem que eu chamava de “pai” parado de frente ao corredor, pensando, talvez, no que eu havia dito, ou então planejando os próximos meses que viveria longe de mim.

Pra ser sincera, eu não ligava mais.

Quando fechei a porta atrás de mim, juntei as malas espalhadas pelo cômodo, que apesar de não conterem todas as minhas coisas, tinham as essenciais. Depois de um momento parada, sem foco em pensamento nenhum, me deitei uma última vez na minha cama, abraçada ao meu mais novo ursinho de pelúcia, que ficaria sendo uma das últimas lembranças tidas nessa cidade.

Decorei cada detalhe daquele lugar. Desde o reflexo que a luz da rua fazia na janela, causando sombras no teto, até os diferentes tons que o tapete felpudo tinha conforme a direção dos pelos era alterada.
E encarando o envelope sobre a mesa de cabeceira, peguei no sono sem pestanejar.
Se eu sonhei, não tenho certeza, mas a visão de uma partida definitiva não me abandonou por sequer um segundo pelas horas seguintes.

Mas eu havia me convencido que de agora em diante, minha vida seria Londres.

 

Nota da Autora: Heey! Obrigada por terem lido mais esse capítulo capítulo, espero de verdade que estejam gostando 😀
Comentem aí embaixo o que estão achando, ficarei feliz em saber.
Beijos e até a próxima 🙂

 

 

5º Capítulo
 

“And the world’s gonna know your name
 

And you’ll be on the walls of the hall of fame”
Querido Diário…

Acredito que o conceito de “aluguel razoável” que Gregory Colleman tenha, seja totalmente diferente daquele que eu tenho. Provavelmente bem maior do que eu cheguei a cogitar em algum momento. O lugar onde eu pisava agora deveria ser uma nota ($$$).

Cheguei a Londres por volta das três horas da tarde, não tão empolgada quanto realmente eu deveria, mas minimamente animada para me jogar na cama e dormir o resto do dia.

Na estação do trem, algum tempo antes, tive uma despedida de verdade com e Luke. Não foi nada muito emotivo, até porque ela havia prometido passar um fim de semana comigo para conhecer minha nova casa, e Luke prometeu me ligar para conversar algumas vezes sempre que possível.

Havia falado uma última vez com meus irmãos, numa conversa onde resolvemos usar o Skype uma vez por semana para mantermos as novidades em dia e etc. Eles não estavam tristes com a minha mudança, agiam totalmente contrário a isso.

Definitivamente aquilo não era um “adeus”.

Minha empresária, uma mulher que descobri ter vinte e dois anos, se chama Rachel e parecia ser muito simpática, educada e divertida. A encontrei vestida com uma roupa esporte fino, parada na estação de Londres, segurando uma placa com meu nome completo, fazendo me sentir como se estivesse em um filme.

Ela me ajudou com todas as minhas duas malas grandes, as caixas cheias de suvenires e bugigangas, e até mesmo a minha bolsa, que estourava de tão cheia que estava. Sozinha eu nunca teria conseguido carregar nem metade daquelas coisas. Mas graças a Rachel, essa atividade tinha se tornado mais fácil.

Além de toda essa gentileza, Rocky ou Ray, como insistiu em ser chamada, me manteve ocupada em todos os momentos que esteve comigo para que eu não me sentisse perdida e/ou deslocada. Mas assim que ela saiu do (meu) apartamento, logo depois de deixar todo o meu itinerário e telefones para contato, senti a monotonia ocupar cada canto da minha nova moradia.

E o resto do dia se estendeu em arrumar o que eu havia trazido e olhar pela janela, esperando que a noite caísse logo e eu pudesse finalmente dormir.
E isso demorou muito.

Agora são cerca de dez da noite e eu não tenho absolutamente nada pra fazer.
Claro que sair do apartamento é uma opção, mas com minha cabeça no mundo da lua, as possibilidades de eu me perder são grandes, e eu não quero isso.

Amanhã vou às compras com o resto do dinheiro que tenho no meu cartão de crédito para arrumar algumas coisas que ainda faltam no apartamento. Apesar de estar completo e todo mobiliado, tenho que deixar minha casa com cara de minha.

Logo meus dias vão estar lotados, por isso espero que eu esqueça essa sensação ruim que estou sentindo neste exato momento, e faça algo útil da minha vida a partir de agora. Que valha a pena eu estar onde estou.

Com amor,

*
‘s POV

Já fazia quatro dias que eu estava em Londres. Quatro dias que eu estava mofando sozinha no meu mais novo apartamento.

E só faltava uma semana para eu descobrir como seria minha mais nova rotina. Sete dias para conhecer muitas pessoas e tentar decorar o nome de todas elas. Cento e sessenta e oito horas para descobrir se realmente valeu a pena vir para Londres.

Eu não consigo deixar de ser dramática.

Rachel trouxe-me o script do primeiro capítulo ontem de manhã, o que me tirou do tédio por algum tempo. Depois de uma leitura rápida, desempacotei duas caixas consideravelmente grandes, quais haviam chegado pelo correio dois dias depois da minha vinda, graças a .

Fora isso, eu apenas lia, escutava música e assistia TV. Com exceção do dia de hoje. Agora eu estava parada na portaria do prédio onde eu moro, esperando o tal taxi aparecer e me levar para o estúdio.

Hoje, como Rocky já tinha escrito em meu itinerário, eu teria uma sessão de fotos oficial com o pessoal da série para a apresentação do elenco da terceira temporada para os fãs.

Assim que entrei no táxi e passei o endereço para o senhor despreocupado no banco da frente, que me recebeu com seu olhar de dúvida, fazendo-me abrir um sorriso sem graça. O senhor grisalho parecia realmente curioso em saber o que uma Zé-ninguém estava indo fazer num lugar onde só famosos e pessoas com carreiras respeitáveis iam.

E eu podia apostar que ele estava se mordendo pra perguntar. Mas ele não abriu a boca, contendo-se em observar-me pelo espelho retrovisor. Virei o rosto para o vidro, reparando na arquitetura local, esperando que o homem levasse-me até onde deveria. Londres realmente era uma cidade muito, muito movimentada. Mesmo que talvez eu me arrependesse de estar pensando isso, caso fosse pra New York um dia. Quer dizer, se eu saísse da Europa. Porque venhamos e convenhamos: eu não tinha sequer dinheiro para sair de Brighton, quem dirá viajar para o outro lado do mundo? Pior. Eu viajar sozinha para o outro lado do mundo? Nem pensar! Nunca me perdoaria em deixar aqui.

Já estava atordoada o suficiente à uma hora e mais alguns minutos de distância da loira, um oceano nos separando seria quase um caso de suicídio!

Certo, exageros a parte.

E por falar na criatura… Era a foto dela que aparecia no visor do meu celular.

— Alô? — Levei o aparelho até o ouvido, já me sentindo mais feliz, e me ajeitei no assento do veículo, enquanto apreciava a paisagem urbana passar pelo vidro.

Sua vaca! Quando deixou de usar o celular? — Sua voz saiu tão estridente que tive de afastar meu telefone da minha orelha.

— Obrigada por ser educada, .

Disponha, amiga.

Cinco segundos de silêncio foi o suficiente para que ela começasse a tagarelar de uma vez:

Antes de qualquer coisa quero dizer que vou te visitar daqui a uns vinte dias, ok? Se eu pudesse ia antes, mas eu ainda tenho um trabalho e não posso começar a faltar sem motivos. Aliás, quando você começa mesmo? Quero saber qual é a sensação. Não vai esquecer de me contar, né? Porque se precisar você sabe que eu posso muito bem colocar uma escuta em você! Aí vou querer ver com qual jeito você vai arrumar de me ignorar e…

, eu já entendi! — A interrompi de modo exasperado, levando a mão livre até a cabeça, como se ela pudesse me ver naquele instante. — Pode respirar, ok? Não vou desligar na sua cara, preciso passar o tempo enquanto vou para o estúdio.

Eu não imaginava que você fosse fazer isso, de qualquer forma… — Bufei e revirei os olhos, agradecendo mentalmente por ela não estar perto para ver e me dar algum tipo de bronca como sempre fazia. — Conte-me como é Londres!

Pensei em dar uma desculpa sobre falta de tempo ou qualquer coisa parecida, já que a única coisa que eu fiz ao sair daqui foi ir ao mercado e a uma loja de utensílios domésticos no fim do quarteirão.

— Sobre isso… — Pigarreei tentando achar palavras.

Ah não! Nãnaninanão! Vai me dizer que não fez nada ainda? Qual é, ! Em quatro dias eu já teria conhecido um terço de toda a capital da Inglaterra!

Isso não seria difícil, pensei. Londres é uma das menores capitais do mundo. Provavelmente do jeito louco que é, já teria realmente conhecido mais lugares que as próprias pessoas que moravam ali.

— Olha, não é como se eu não tenha respirado ar puro. Saí duas vezes, mas nada de pontos turísticos. — Me justifiquei percebendo o olhar de canto de olho que o motorista fazia. — Porém… E eu vou repetir mais uma vez com bastante ênfase pra você: Nesse exato instante eu estou indo para o estúdio! Lembra? Te falei isso a menos de cinco minutos… Hoje vou fazer um Photoshoot com o resto do elenco.

FINALMENTE! — Afastei mais uma vez o celular do meu rosto, arregalando os olhos de susto. — Agora tenho certeza que todos vão entender o que disse no Twitter.

Pausa dramática.

, que parte desses quatros dias eu perdi que fizeram falar de mim? — Lá vamos nós de novo com meu estado de confusão mental…

Então você não viu as fotos? — Silêncio da minha parte. Sério mesmo? — , você não pode simplesmente parar de mexer no celular e não usar a querida internet, ok?! É importante saber o que está acontecendo fora da sua casa! Apartamento, quero dizer. — Ela própria se corrigiu, coisa que eu ignorei por completo.

— Como assim tem fotos minhas na internet? De novo? — Eu estava tão surpresa com esse detalhe que mal havia notado minha voz uma oitava acima e os olhos arregalados do homem.

De uma forma engraçada, era como se o grisalho estivesse participando da minha conversa apenas com olhares. E sem total entendimento, devo acrescentar.

Não sei se você sabe, amiga — Ironia transbordava da parte dela. —, mas isso é comum para pessoas famosas.

— Não sei se você sabe, amiga — Repeti e imitei sua própria fala. —, mas eu ainda não sou famosa.

Bom, pelo que você disse não é como se fosse demorar muito. Aposto que depois de amanhã as fotos promocionais estarão em todos os lugares e você será perseguida por todos os lados. Aí sim vai ficar envelhecendo naquele seu apartamento chique.

Respirei fundo, sentando sobre minha perna.

— Será que você pode me dizer logo de uma vez como era a foto e o que o falou?

Nossa! — Franzi as sobrancelhas e esperei que prosseguisse. — Já tá assim, é? Nem gravou a primeira entrevista ainda, flor. Calm down com essas suas exigências, porque eu não vou ler nada pra você, não. Não seja mandona.

— Mas , da última vez você fez questão de ler e…

Mando o link por mensagem. Vê se você se cuida. Ah, e não deixe a fama subir a cabeça. Tá muito mimada para o meu gosto.

!

Tu tu tu tu tu…

Silêncio mortal.

Minha amiga desligou na minha cara. Que ótimo!

Encarei o telefone por vários segundos tentando assimilar o que ela exatamente havia feito. Caramba! Alerta de TPM.

— Senhorita? — Desfiz minha cara de raiva e olhei o motorista, o incentivando a prosseguir. — Já chegamos.

Olhei ao redor, percebendo três segundos depois que o carro estava parado diante de uma portaria enorme com insulfilm preto, não dando o mínimo de visibilidade para dentro daquilo.

Desprendi o cinto num súbito ânimo que me tomou com aquela visão magnífica do estúdio.
Quase não percebi o celular vibrando no meu bolso ou o sorriso radiante que meus lábios formaram.

— Senhorita? — Inquiriu o grisalho me olhando com sobrancelhas juntas.

Balancei a cabeça para os lados, murmurando qualquer coisa enquanto caía na real e o pagava.
Assim que a porta bateu, o carro já não estava mais lá. Fiquei olhando ao redor esperando que uma alma viva aparecesse no meio daquele lugar deserto. Mas que se dane, eu queria ver o paraíso de perto!

‘s POV

Quando eu acordei naquela manhã, mais cedo do que eu desejava, jogado no sofá em uma posição muito estranha que fazia todos os meus músculos doerem e gritarem, percebi que provavelmente eu estava atrasado.

Não fazia muita diferença. Ao contrário da maioria das pessoas que trabalhavam naquele seriado, eu não precisava de muito pra ficar bonito.
De qualquer maneira, a única coisa que eu precisava era dar um jeito de me livrar de toda essa bagunça na minha sala.

Até parece que fizeram um arrastão aqui.

— E aí, dude? — Minha cabeça, que ainda doía demais, não deixava meu raciocínio rápido o suficiente, então eu ainda não sabia o que fazia só de calça indo em direção a minha cozinha.

— Que porra é essa? — Adquiri meu tom irritado.

— Bela festa a que deu ontem à noite. — Me respondeu sem dar real atenção.

Procurei um esforço que achei que não existisse e levantei-me sem a menor vontade de o fazer, indo atrás do meu suposto amigo que não falava nada com nada.

Festa? E eu não me lembro? Impossível!

Não soava nada bem dizerem que eu fiz uma festa, confraternização, reuniãozinha íntima, ou seja lá qual desgraça fosse, se eu não poderia confirmar suas afirmações e me gabar caso tivesse sido algo muito, muito bom. Mas com certeza eu era o único desinformado em quilômetros, porque teve alguma coisa ontem na minha cobertura. Mesmo que eu não lembrasse, estava óbvio.

Não teriam tantos copos com bebidas estranhas espalhados pelo chão ou peças íntimas que eu tinha certeza não serem minhas, já que eu não usava sutiã, pendurados em cadeiras e na televisão (oi?), se tivesse sido apenas uma noite normal, com os amigos e algumas latas de cerveja.

, eu falei com você, cacete. — Cocei a nuca e fiz uma careta, esperando que sua boa vontade me ajudasse a lembrar de algo.
Tudo, se fosse possível.

— Ah, garanhão. — Começou com um sorriso malicioso. — Achei que fossem chamar a polícia lá pelas quatro da manhã. Nunca vi tanta gente num lugar como esse.

Ótimo, eu havia feito bem mais que um simples encontro. Tinha dado algum tipo de festa épica e não conseguia recordar de merda nenhuma.

— Pode me falar as coisas com mais detalhes ou isso é difícil demais pra você?

— Nossa, a mocinha acordou de mau humor. — Se virou para mim com uma xícara na mão. — Quer um chazinho pra aliviar o estresse?

— Cala a boca.

— Certo, estou só tirando uma com a sua cara. — Estendeu uma caneca, dessa vez cheia até a boca com café puro. — Não teve nada de tão horrível assim.

Sua tranquilidade me deixou perplexo.

— Ah, não? Então me explica o sutiã no puxador da geladeira? — Apontei para a peça rosa rendada enfeitando o ambiente.

— Calma aê, cara. Vamos por partes! — Levantou as mãos na altura dos ombros. — E Vamos começar pelas fáceis.

Tomei meia caneca de café puro de uma vez, fazendo caretas em seguida, esperando que entendesse o silêncio como um incentivo para continuar com a tal história da noite passada. Eu era todo ouvidos.

— Primeiro eram dez pessoas. — Falou e eu concordei, porque até aí meu cérebro ainda estava conectado na terra e eu me lembrava dos baralhos e da televisão da sala ligada enquanto conversávamos. — Só que algum desses aí não conseguiu ficar de bico fechado, e logo a casa estava um caos total, com gente saindo pelo ladrão.

Continuei a encará-lo.

— E em que parte disso tudo esse sutiã veio parar aqui?

— Na parte em que começou o strip poker, provavelmente. — Virou as costas voltando para a sala de estar, que estava com a aparência de um lixão.

— Porra! Vai dizer que eu perdi toda a diversão? — Exclamei.

— A ideia de jogar “eu nunca” foi toda e exclusivamente sua. — Retrucou grosseiramente. — E se te faz sentir melhor, e eu expulsamos os intrusos antes que resolvessem usar a piscina.

Suspirei aliviado pela primeira vez naquela manhã/tarde.

Minha piscina intacta. Isso era realmente uma boa notícia, eu quase conseguia ignorar o fato de que eu havia desmaiado no meu próprio sofá sem nem ao menos me lembrar como.

— Bom, agora que eu já fiz um segundo favor a você em menos de doze horas, vou me arrancar daqui antes que você me arrume um terceiro.

Meu amigo bateu nas minhas costas, ignorando o fato de que eu estava tão desequilibrado a ponto de quase cair. Virou nos calcanhares colocando a camiseta que antes estava no seu ombro e foi em direção à porta.

— Vê se não cai bêbado por aí. — Avisou em tom de brincadeira.

— Tem mais alguém por aqui? — Perguntei vendo-o deixar a minha cobertura.

— Tenho cara de detetive? Descubra por si mesmo, seu preguiçoso.

Revirei os olhos quando a porta se fechou.

Aproveitei o momento em silêncio para respirar fundo e tentar colocar algumas ideias e coisas no lugar. Começando por tirar aquela peça íntima dali. Aquela visão realmente não me agradava em nada. Depois de pelo que pareceu uma eternidade, virei o resto do café garganta abaixo, esperando que logo a furadeira imaginaria que funcionava na minha cabeça parasse.

Certo, eu precisaria tomar um longo banho gelado e algum comprimido para aguentar essa ressaca pelas próximas horas.

Comecei a remexer nos utensílios espalhados por ali, enquanto procurava a tal da aspirina. Fazer isso era uma caça ao tesouro. Por que diabos a frigideira estava fora do armário? Ah, que se dane. Eu estava com pressa de ir para o estúdio e precisava fazer isso rápido, o que me fez ter a brilhante ideia de correr pelo meu apartamento. Só que isso deu totalmente errada quando aquilo virou uma corrida de obstáculos, o que não me fez passar da porta por dois motivos: eu tropecei em alguma coisa e me agarrei no batente, então bati as costas na parede quando a figura de um ser humano entrou no meu campo de visão.

— Puta que pariu, quando você entrou aqui?

— Ontem você abriu a porta e eu entrei. Quando achou que tivesse sido? — respondeu com os olhos semiabertos sem me olhar por inteiro, levando uma das mãos a cabeça e bocejando em seguida.

— Você é mais silencioso que um assassino. — Disse sem realmente responder sua pergunta.
Dando de ombros se virou e olhou a bagunça no cômodo.

— Se não der um jeito nisso logo, uma família de ratos vai se instalar debaixo do sofá.

Bufei cansado. O encarei sem real interesse em olhar para sua cabeleira tingida e descabelada. Passei por e segui até o rack onde a televisão ficava, tirei o telefone sem fio do gancho e o lancei em sua direção.

— Liga pra empresa de limpeza doméstica e peça pra mandarem alguém aqui ainda hoje. Preciso estar no estúdio daqui a vinte minutos.

— E desde quando eu sirvo a você, ó Vossa Majestade. — Arqueou a sobrancelha, mantendo o bom humor.

— Não serve, mas é meu amigo. Fazemos esse tipo de coisa pra demonstrar nossa amizade. — Lhe disse com ar de inocente. me olhou com tédio explícito, como se dissesse “não caio nessa, babaca”. — Qual é, sempre fiz favores a você. Ou preciso te lembrar de todas as vezes que ficou bêbado e fui eu quem te ajudei? Sua vez de retribuir.

Ele concordou relutante, vendo que, de verdade, não era nem um terço a se pagar depois de todas as madrugadas em claro que eu passei o carregando pra lá e pra cá (estou sendo exagerado, admito, só estava dando ênfase ao momento).

Dirigi a ele um sorriso presunçoso uma última vez enquanto o assistia revirar os olhos e procurar o número da empresa na agenda do telefone e me enfiei no banheiro pelos próximos dez minutos.

Foi o banho mais rápido da minha vida.

Ainda com os cabelos molhados e a barba por fazer, não chamei o elevador, consciente de que seria muito mais rápido correr até o térreo e desci as escadas num raio, pulando de três em três os degraus, tendo que ignorar a falta de ar que sentia até parar ao lado da minha Harley, decidindo que a moto seria uma boa opção para o meu atraso.

Eu tinha cinco minutos para chegar ao estúdio.

Decididamente carro não era uma opção.

Acelerei mais rápido do que uma pessoa normal faria em qualquer dia de sua vida.

Vinte e três minutos depois, cravados no relógio, eu estacionava minha moto ao lado da entrada principal do meu trabalho. Joguei as chaves para o manobrista e comecei a me preparar psicologicamente para a bronca que Gregory me daria. E ela seria grande. Muito, muito grande.

E pensando no Diabo…
! ONDE É QUE VOCÊ SE METEU? — Respirei fundo vendo que a desculpa esfarrapada não me livraria dessa, fazendo me usar uma postura séria, decidido a usar a estratégia de “já estou aqui, é isso que importa” e fazer logo aquilo que devia ser feito, e levar a sério o resto do cronograma para que meu pequeno atraso fosse perdoado e eu não perdesse mais pontos com o diretor.

Mas, indo totalmente contra ao fluxo que eu estava preparado a enfrentar, o Sr. Colleman me arrastou pelo braço até o outro lado do corredor, junto de Victoria, que parecia entediada lixando as suas grandes unhas e se pôs a falar sem intervalos:

deve estar em alguma parte do salão de entrada. Preciso que você, , ajude-a a encontrar a sala de figurino e maquiagem. E você, Victoria, vá atrás de Philip e avise-o que todos estão aqui e que ele pode começar seu trabalho. — Quando apenas assentimos, sem sairmos do lugar exatamente, ele arregalou os olhos e começou a bater palma, em sinal de impaciência. — Vamos, Vamos! Não temos todas as horas do mundo!

Eu normalmente ignoraria seu pedido, mas eu também tinha que ganhar alguns pontos de volta com ele. E por mais que eu não suportasse aquela garota, prometi a mim mesmo que dessa vez, só dessa vez eu tentaria ser legal com ela. Quer dizer, eu ia falar o que ela precisava saber, e depois cada um por si.

E a cabeleira ruiva de entrou no meu campo de visão no mesmo instante. Inferno, como ela podia não se dizer ruiva? Aquilo não era castanho nem aqui e nem na China! Ela só pode ser louca. Louca e daltônica.

Segui caminhando em sua direção, jogando esses pensamentos para debaixo do tapete de entrada.

Eu ia ser legal com ela. Repeti mentalmente, tentando me convencer a fazer aquilo. Eu ia ser legal. Mesmo que a vontade de irritá-la e provocá-la fossem maiores que muitas coisas, simplesmente por que a cara de brava dela era hilária.

Então reformulei minha promessa. Eu seria legal do jeito que eu julgo ser legal. Em outras palavras, eu tentaria ter uma conversa com ela. Mas meu sarcasmo e ironia ainda estariam presentes.

’s POV

Não tive dificuldade de passar pela portaria. Meu nome estava na lista, confirmando que agora eu trabalhava ali, sendo acompanhado de mais muitas coisas variadas que aprovavam a minha entrada naquele mundo paralelo. Até me deram um crachá!

Não foi nem um pouco difícil achar o estúdio de The Black Side. Não quando um banner do elenco ocupava a parede de seis metros de altura. Abri a tal mensagem de e cliquei no link enquanto esperava que alguém aparecesse e me ajudasse, já que era essa a promessa feita pelo recado que deixaram com o porteiro que eu havia visto minutos atrás.

O site se prontificou mostrando a matéria de uma revista. Respirei fundo me preparando mentalmente e comecei a ler a reportagem de quatro dias atrás.

“É isso mesmo que vocês estão vendo, pessoas do planeta Terra! foi fotografado com uma garota na roda gigante do píer de Brighton na noite passada. Os dois foram vistos juntos apenas no fim da noite, o que não nos permite saber se haviam outras pessoas ou se estavam sozinhos.

Mas quem será a sortuda que foi ao Parque de Diversões com nosso gato?

Claro que sempre temos fontes confiáveis que nos ajudam com problemas de identidade como esse. E claro que nesse caso não foi diferente. A Garota Mistério na verdade se chama , de 19 anos. Até a achamos no Twitter! O que nos fez perceber logo de cara que ela A-M-A o nosso querido e maravilhoso (gostoso também) Iam Somerhalder. (Sigam a gatinha, pessoal: @MrsSomerhalder). Fala sério, depois dessa ela merece seguidores!

E parece que o cantor da nossa banda fa-vo-ri-ta foi bem discreto durante todo o passeio que tiveram, afinal, eles chegaram lá sem serem reconhecidos, e aparentemente também saíram dessa forma. O que nos faz perguntar se os dois voltaram juntos pra casa, ou se estavam em carros separados. Qual o palpite de vocês?

E todos esses detalhes (e mais alguns outros), deixou a famosa pergunta no ar pairando sobre todas as fãs (e garotas da redação). Será que os dois tem algum tipo de rolo, vulgo relacionamento?

E foi então que hoje, há pouco tempo, nossa questão foi respondida. se pronunciou no seu Twitter (@Real__) depois de muito alvoroço dizendo que: ‘ e eu somos apenas bons amigos, podem acreditar. Mas garanto que em breve vocês a conhecerão Xx’.

E aí, directioners e outras apreciadoras de Maravilhoso ? O que acham que o divo quis dizer sobre isso?

Esperamos que logo, logo possamos descobrir.

Fiquem por dentro das notícias!”

Permaneci atônita mais tempo do que eu realmente deveria e depois da cara de susto, ainda fiquei incrédula pelos próximos dois minutos enquanto via meu Twitter. De repente eu estava com muitos seguidores, muitos de verdade. Arranjar quarenta mil seguidores não é tarefa fácil, não! Foi impossível não deixar meus olhos se arregalarem e o queixo cair.

Qual é? Tem que ser alguém muito stalker pra achar meu Twitter que nem ao menos tem meu nome. Eu nem uso aquele troço!

— Eles já descobriram seu Twitter? — Virei para trás mantendo a expressão de susto.

— Mas que desgraça! Tá tentando me matar, ? — Quase berrei com a mão no coração, quando uma voz já não tão desconhecida assim, apareceu do nada atrás da minha pessoa que ainda estava à espera da tal ajuda, em pé no meio do estúdio movimentado.

— Ah, me desculpe, Ruivinha. — Levou uma de suas batatas chips que só agora eu havia notado, até a boca. — Essa realmente não era a minha intenção.

Bufei tentando ignorar o barulho que o pacote das batatas fazia, me irritando tanto quanto a pessoa que o estavam comendo. Resolvi me concentrar e montar uma lista de prós e contras em ter um Twitter comunitário (deveria chamá-lo assim?).

A notícia boa é que algumas das pessoas que me seguiam mandaram mensagens legais. Já outras… Educação não estava no topo da lista dessas, o que resultou numa careta bem desgostosa da minha parte.

Outra coisa ruim: agora todos veriam minhas mensagens ridículas para os famosos que eu mais admirava. Isso inclui até aquelas que escrevi sem vergonha na cara.

— É bem chato como eles conseguem ser rápidos às vezes. — permanecia observando meu celular por cima do meu ombro. — Mas você se acostuma.

Depois de estranhar e tentar entender porque ele ainda não havia falado nada idiota, me virei de frente para .

— Certo. Você não me ofendeu e nem tentou fazer com que eu saísse de perto de você. — O analisei. — O que quer?

— Será que eu não posso simplesmente querer fazer companhia para a minha mais nova colega de trabalho?

Juntei as sobrancelhas e entreabri os lábios.

— Sinceramente, pela meia dúzia de conversa que tivemos, eu sei que você não faria isso se não te obrigassem ou te pagassem. — Respondi cruzando os braços.

retorceu a boca e depois concordou com a cabeça, mais uma vez comendo as batatas.

— É, você tem razão. Não tô aqui pra isso. Ficar te encarando não é o ponto alto do meu dia.

Não respondendo minha pergunta e voltando com aquela sua principal característica de arrogância, deixou meu raciocínio pela metade.

— Então tá aqui por quê? — Revirei os olhos, impaciente. Eu só queria começar meu trabalho.

— Liga os pontos, Ruivinha. O que você tá fazendo parada aqui no meio igual a uma estátua de cera?

Pisquei quatro vezes até fechar os olhos com força e contar até dez mentalmente.

— Com tantas pessoas num lugar exageradamente enorme como esse, eles me mandam justo você como ajuda? — Bati as mãos na lateral do meu corpo. — Isso só pode ser piada.

— Bom, eles mandam e eu obedeço. — O olhei com desdém. — Mas você tem duas pernas, acho que pode se virar sozinha, né?

Pronta para grunhir e virar as costas, uma garota sorridente se aproximou de nós dois com muito entusiasmo. Daquele entusiasmo que me fazia perguntar como ela conseguia estar daquele jeito perto de um cara como .

— Vamos, . Pare de atazanar a vida de , isso só vai nos atrasar ainda mais.

— Não liga pra isso, gata. Ela gosta.

Enquanto o moreno comia suas batatas e pouco se lixava para o resto do mundo, a garota me puxou pelo pulso sem me dar tempo para formular a frase “quem é você?” ou perguntar para onde estávamos indo. Seus cabelos castanhos escuros e com luzes mais claras, cobrindo apenas o pescoço, balançavam de um lado para o outro na mesma rapidez pela qual passávamos por diferentes corredores emaranhados de pessoas.

— Desculpe ter que te tirar de lá daquele jeito, . Mas hoje está sendo um dia bem corrido para todos nós. — Me olhou por cima dos ombros quando entramos para uma sala repleta de araras e cabides.

— Não, tá tudo bem… — Tentei parecer desinteressada em sua pressa. — Hm, qual o seu nome mesmo?

— Ah, desculpe. Victoria. Mas me chame de Vic, ok? Não gosto de formalidades. — Abanou as mãos, abrindo um grande sorriso para mim.

Foi isso que me fez ter certeza de que eu conhecia essa garota.

— Também não faço questão, até porque sou péssima nisso. — Concordei sorrindo abertamente, como ela.

— Sendo assim, vou aceitar isso como um convite para te chamar de .

— Como quiser. — Procurei me sentar antes de ficar tonta com a quantidade de roupas ao meu redor.

Vic parecia não se importar. Logo já tinha vários cabides nas mãos, e os estendia em sua frente, um por vez.

— É bom começarmos a criar algum tipo de contato desde agora para você não se estranhar no começo das filmagens. — Enquanto ela puxava algum tipo de assunto bizarro, eu me sentia perturbada e com uma sensação de familiaridade em algo que definitivamente eu não conseguia lembrar. — As pessoas acham que o é capaz de fazer os novos se sentirem em casa, mas eu ainda não sei se o pessoal daqui se finge de burro ou são de verdade. Por isso me auto designei para esse papel.

— Ele não é a simpatia em pessoa. — Concordei, me encaixando dentro do assunto.

— Pois é. No início da série ele era muito dedicado, sempre pronto pra fazer tudo o que pedissem e mandassem. Era até muito divertido, mas depois de um tempo virou esse traste que você já conhece. — Victoria fez uma pausa, me olhando com um meio sorriso. — Mas ele ainda tem seus momentos. Pode não ser o queridinho daqui, mas sabe os limites que tem.

Eu prestei atenção no que ela falou, juro que sim! Mas assim que notei que ela era a atriz que interpretava Cecília na série, eu meio que apaguei todo o resto. Como eu era burra!
Resolvi não comentar minha falta de atenção. Até porque logo um homem com uma postura pouco masculina entrou acompanhado de duas outras garotas.

— Ai, amor! Finalmente você chegou. — Levantei-me assim que notei que o homem falava comigo, enquanto despachava Vic com um aceno de mão rápido. — Já estava envelhecendo com toda sua demora.

Ri tentando ser educada e parecer bem-humorada, mas sua careta me fez voltar à expressão séria. Recebi um olhar encorajador de Victoria antes que ela me deixasse sozinha com aquele homem e duas clones.

— Vamos logo com isso antes que mais rugas apareçam envolta dos meus olhos. — Às pressas, seguiu até uma grande penteadeira, se posicionando ao lado da cadeira, onde virou seu olhar pra mim e permaneceu desta maneira.

Ah, ele era o meu Hair Stylist e esperava que eu fosse até ele. Hm, certo. Parecia ser uma coisa boa. Sentei na cadeira de frente ao grande espelho, encarando meu reflexo e enxergando a figura dele atrás de mim, que mexia nos meus cabelos e os analisava com ar profissional.

— Então, ! Minha sweet heart, eu sou Philip. Cuido dessa sua juba avermelhada de agora em diante. — Agi como se fosse começar a dizer qualquer coisa, como protestar e dizer que aquilo era castanho, mas Philip colocou sua mão na frente da minha boca e se apressou em ignorar o que eu queria falar. — Guarde suas palavras pra você, fofa. Estamos sem tempo pra isso.

E quase que em um passe de mágica eu não estava mais olhando meu reflexo. Uma das garotas lavou meu cabelo e o hidratou ao mesmo tempo em que a outra fazia minhas unhas da mão.
Certamente era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas eu não ia reclamar disso. Essas mordomias são a melhor parte! Nunca em um milhão de anos ia querer parar com esse processo.

Logo eu estava de volta à penteadeira, com os cabelos enrolados numa toalha e duas garotas estendendo cabides em minha frente. Eram as duas clones de Philip, aquelas que entraram com ele. Não abriram a boca desde que pisaram ali.

Já ele, estava outra vez parado atrás de mim, retirando a toalha e encarando meu cabelo.
Eu não queria saber o que passava por sua cabeça.

— Esse seu cabelo vai ser como a sua marca. Tem que ser divo! — Exclamou com entusiasmo e eu arregalei os olhos.

— Er… Obrigada?

— Sabe, querida, estou pensando em fazer algo diferente desse seu corte feio e sem graça. — Mesmo ofendida, permaneci quieta. — Talvez franja fique bom, certo?

Arregalei os olhos em desespero.

— Olha Philip, eu realmente acho que não seja uma boa ideia e…

— Shiu, coisinha! Não falei com você. — Colocou a mão nos meus olhos, e eu não pude deixar de baixa-las com indignação.

— Mas o cabelo é meu! — Puxei os fios molhados sobre o ombro em um gesto infantil, assistindo seu reflexo tomar expressão brincalhona, arrancando gargalhadas das garotas mudas e sem voz.

— Não, fofa! — Negou balançando a cabeça. — Você entendeu errado. Seu cabelo pertence a mim desde que assinou o contrato. Agora você é só o rostinho bonito que vai desfilar ele.

E ainda vendo Philip apenas pelo reflexo que o espelho me proporcionava, vi-me de voz inativa e sem qualquer autoridade para com eles. O que em outras palavras, só me restava orar e esperar do fundo da alma que meu cabelo ficasse no mínimo “olhável”, e que o especialista em cabelos fizesse jus a sua profissão e nome dentro desse ramo.

E se caso tudo desse errado, que a maquiagem e o vestuário disfarçassem o estrago.

*
Pra se bem sincera, eu já não sabia há quanto tempo estava sendo movida de um lado para o outro como uma boneca. Meu cabelo estava pronto. Admito que ficou melhor do que eu esperava que ficasse, porque no fim das contas eu não estava de franjinha. Estava com uma franja que descia até o meu queixo, emoldurando meu rosto, e eu tinha até gostado da mudança.

O comprimento do cabelo também estava aceitável. Ficava batendo a mais ou menos dois dedos bem gordos da minha cintura. Com certeza melhor do que estava antes.

A maquiagem, lógico, melhor do que qualquer uma que eu já tinha feito durante toda a minha vida, e a roupa… Bom, a roupa foi o que mais demorou. Experimentei calças, vestidos e bermudas, mas só quando eu coloquei uma saia rodada de couro sintético no meio da coxa, um cropped sem mangas, mas de estampa floral com detalhes em azul e vermelho, e um Lita Shoes igualmente preto, com meias que vinham até um pouco acima do meu joelho, que gostei do que vi no espelho.

— Ai, querida! Sabia que eu ia transformar você em uma mini diva! — Philip disse parado atrás de mim com um sorriso ao estilo do gato de Alice no País das Maravilhas. — Adorei! Vocês não?

As suas assistentes sorriram da mesma forma, e eu me senti satisfeita por estarem falando aquilo, mesmo que soasse ensaiado e um pouco exagerado demais.

— Olha! Não é que você conseguiu ficar um máximo assim? — Vic, com as mãos na cintura, falou da porta do quarto onde estávamos.

— Obrigada, mas você quem está arrasando. — Sorri para ela com sinceridade.

Seu cabelo curto estava bagunçado e divertido com as pontas azuis recém feitas, combinando com a roupa no estilo rocker que lhe caía muito bem.

— Vamos pular essa parte de bajulação, garota. Agora é hora do show. — Philip nos expulsou, literalmente, para fora, fechando a porta na nossa cara no exato momento em que nossos pés se fixaram no chão.

— Apressado e impaciente como sempre. — Victória murmurou, agarrando meu pulso e me guiando pelos corredores.

— E agora nós vamos para…? — Perguntei enquanto seguíamos pelo estúdio.

— Agora é a parte em que tiramos as fotos de divulgação da série. — Respondeu me lançando um sorriso por cima dos ombros.

— Ah, isso eu sei fazer. — Sorri me sentindo mais aliviada.

— Que bom, porque é isso que vamos fazer pelo resto do dia. — E sua boca se fechou quando entramos no salão onde o estúdio já estava montado.

O painel infinito branco cobria a parede e se estendia pelo chão. Havia câmeras para todos os lados e o fotógrafo parecia fazer os últimos ajustes em uma delas, enquanto as outras pessoas corriam de um lado para o outro. Provavelmente eram os assistentes que cuidariam da iluminação e de outras coisas que eu já estava até cansada de ver com o passar dos anos, mas que no fundo, não me incomodava nada.

Quando dei o primeiro passo, adentrando no estúdio, todos os olhos se direcionaram para mim, e, como vinha acontecendo com muita frequência, o rubor subiu por minhas bochechas e eu as senti ficarem coradas.

, como você está linda! — Falou Gregory vindo em minha direção.

Sorri para ele, sem me mover, pois ainda tentava não ser o centro das atenções, como parecia ser o caso.

— Obrigada.

— Essas fotos vão ficar ótimas! Os fãs vão adorar. — Continuou ele. — Quero as fotos de sozinha primeiro para a apresentação da personagem. As fotos precisam estar selecionadas e editadas em três dias. — Falou diretamente para o fotógrafo que me media por inteira.

— Certo, chefe. Mas eu estava pensando em antes… — O tal fotógrafo puxou o senhor Colleman para o lado oposto de onde estávamos. Então fiquei ali esperando a próxima ordem.

Olhei ao redor procurando algum conhecido quando vi . Ele sorriu e começou a andar em minha direção.

! Você está incrível. — Falou parando em minha frente.

— Obrigada, . Você também está muito bem. — Respondi olhando-o por inteiro dessa vez.

— Blá, blá, blá. — De novo aquela voz. — Vocês não podiam ser menos óbvios flertando um com o outro. — falou revirando os olhos enquanto arrumava sua jaqueta.

— Vai encher o saco de outro, . — exclamou claramente irritado com o amigo.

— Oi pra você também, dude. Ah, eu estou muito bem, obrigado por perguntar. Com certeza é muito legal conversar com você. — Como sempre, deixou seu sarcasmo e ironia tomarem conta de sua fala. — Gostei do novo corte de cabelo, Ruivinha. — Virou sua atenção para mim.

— Valeu. — Dei um meio sorriso, não sendo a exata ação que eu gostaria de ter.

Fiquei intercalando olhares entre e , esperando pra ver no que aquilo ia dar, porque confortável a situação não estava.

— Vai mesmo ficar aí parado? — perguntou.

— Aham. Vou ficar aqui junto com o meu brother. — bateu sua mão nas costas de com um sorriso completamente falso.

Eu não sabia que droga estava acontecendo entre eles e com certeza não ia querer me meter no meio do que quer que fosse, então deixei que os dois ficassem nessa troca de olhares assassinos até que o diretor voltasse a me chamar. Agora finalmente eu ia começar o meu trabalho.

*

— Vamos fazer uma pausa e depois vamos fazer as fotos dos casais. — Falou Gregory olhando as fotografias tiradas no monitor.

As fotos individuais de todos já tinham sido tiradas, e a em grupo também. Só faltava aquela típica foto dos personagens principais para divulgarem pelos sites e revistas, e depois aparentemente estaríamos liberados.

Eu estava sentada em uma das cadeiras com uma garrafa d’água em minhas mãos, olhando os outros trabalharem, consertando minha maquiagem pela terceira vez enquanto uma das garotas que cuidava do meu figurino apreciava a terceira escolha de roupa que eu usava naquela tarde.

Dessa vez eu também usava um salto milagroso, e meus pés estavam calçados mais uma vez por um par de Lita Shoes, o que me fazia pensar que a estilista desse lugar amava esse modelo de sapato, ou me achava uma verdadeira anã de jardim. A roupa se completava com o look rocker de short de couro, camisa despojada e uma regata soltinha, cinza escuro por baixo. Eu havia gostado bastante do conjunto. E apesar da minha maquiagem estar mais marcada nos olhos, seguida de um batom mais escuro contornando minha boca, gostei do estilo. Era diferente do que eu costumava usar, e eu realmente achei divertida a experiência.

E apesar de ter ficado sozinha alguns minutos, Victória e faziam questão de vir conversar comigo de tempos em tempos para falar sobre qualquer coisa, ou me apresentar para alguma pessoa que faria parte do meu novo dia a dia.

Mas quando nenhum dos dois fazia isso, as pessoas vinham por livre e espontânea vontade falar comigo, me parabenizando por ter entrado na série, dizendo que seria um prazer trabalhar comigo pelos próximos meses. Eu realmente rezava para que fosse.

e , vocês dois agora! No centro, por favor. — Gritou o fotógrafo que eu descobri se chamar Joe.

Segui suas instruções. Tudo o que ele falava, mesmo que me incomodasse, eu estava lá, fazendo. Mas considerando que ele fazia com que minha proximidade com se tornasse cada vez menor, comecei a ficar com raiva do sujeito. Se passaram, pelo que pareceu, uns trinta minutos e o homem não parava de passar diferentes mandamentos. Tudo bem que eu já havia ficado muito mais tempo trabalhando para algumas propagandas, mas poxa, já deveriam ter umas trezentas e cinquenta fotos no mínimo. Será que não era o suficiente? Mas infelizmente não facilitava nada o trabalho do cara. Parecia feliz em poder me provocar seguidas vezes em um mesmo minuto. Queria ver se ele ficaria feliz assim que meu joelho acertasse suas joias.

, passe seu braço por cima do ombro de e sorria como se estivesse se divertindo muito. — Respirei fundo e o fiz. — Agora passe seu braço pela cintura dela, . Vire seu rosto na direção do dela e finja estar fazendo-a se divertir muito. Quero fotos espontâneas, pessoal! Se esforcem para isso. — Gritou o fotógrafo assim que nos arrumamos na tal posição.

Eu poderia ser espontânea. Bastava me deixar a alguns passos desse garoto irritante chamado e eu estaria sorrindo de verdade.

Incomodada com a forma que estávamos, respirei fundo, guardando todos os pensamentos mal-educados que eu tinha, para eu mesma.

percebeu isso, e resolveu se aproveitar.

— Não precisa se preocupar comigo te abraçando, Ruivinha. — Disse do modo mais irritante possível. — Não é como se eu quisesse fazer isso de verdade. Puro profissionalismo.

Respirei fundo. Eu também podia ser profissional. Uma profissional calada.

— Vamos garotos, mexam-se! — O camarada com a câmera estava me tirando a paciência. Eu não sabia mais o que fazer. — Precisamos ser rápidos, não temos o dia todo! — E foi quando eu cansei.

— Você quer fotos espontâneas? Ótimo, eu vou te dar fotos espontâneas! — Estreitei meus olhos para aquele fotógrafo irritante e empurrei para longe de mim.

— Ei! O que eu fiz? – Indagou confuso me olhando por míseros segundos, pois logo em seguida ele me cutucou de forma irritante e eu voltei a empurrá-lo.

— Será que você não consegue parar de ser chato? — Questionei enquanto as pessoas do estúdio começavam a pôr atenção em nós dois.

— Depende, você vai parar de ficar fazendo cara de enterro cada vez que me olhar? — Ergueu uma sobrancelha, em desafio.

— Desculpe se não caio de amores por você. — Respondi seca.

— Antipática.

— Grosseiro.

— Desastrada.

— Convencido.

— Sua dissimulada.

— Você é um idiota, imbecil! Vai ver se eu tô na esquina! — Falei o empurrando mais uma vez até que ele cambaleasse alguns passos para trás, então me virei para o fotógrafo que, acompanhado de todos os outros ocupantes do lugar, me encaravam com uma incógnita na face.
Menos Victória. Ela parecia não estar surpresa e ria por causa disso. E tinha também , que estava com uma das mãos na cabeça, mas parecia se divertir totalmente com a situação.

— Foi você quem pediu! — A voz rouca de me atingiu, e de um segundo para o outro eu estava de ponta cabeça.

— Me coloca no chão! — Falei totalmente atônita.

— Peça desculpas e talvez eu não te derrube. — Falou ainda mantendo o tom raivoso.

— Me coloca no chão agora, ! Isso não tem a menor graça! — Bati as mãos em suas costas, e ele as ignorou totalmente.

Flashs começaram novamente, e eu só podia imaginar que aquele bobão irritante do fotógrafo estava se aproveitando da minha situação enquanto ele me segurava igual a um saco de batatas por cima do seu ombro.

Comecei e espernear igual a uma criança de cinco anos, tentando acertar a cabeça dele com meus sapatos, acreditando que com o tamanho daquele salto, ele sofresse um traumatismo craniano, ou alguma perca de memória que fizesse ele agir como gente.

— Não adianta ficar se balançando. — Retrucou. Eu sabia que ele estava revirando os olhos.
Larguei meus braços e minhas pernas e comecei a choramingar. Por que era tão difícil?

— Será que dá pra alguém me ajudar, droga? — Permaneci ali igual a uma boneca de pano. Vendo apenas os pés de alguém se aproximar.

— Certo, . — Percebi ser . — Já deu seu showzinho, agora será que dá pra levar isso a sério?

— Ela só faltou me bater e você quer que eu deixe isso passar? — Se defendeu. E pelo silêncio emitido por , sabia que não concordava com ele. — Pode esquecer, cara. Dessa vez eu não fiz nada! Mereço um pedido de desculpas.

E então eles começaram e discutir, enquanto eu permanecia jogada sobre o seus ombros, sem que ele ao menos reclamasse do meu peso, como se fosse algo insignificante. O sangue descia todo para a minha cabeça, e eu sabia que em coisa boa aquilo não ia terminar.

— Victoria? — Chamei pela garota parada a minha frente. — Uma ajudinha aqui ia bem!

E foi aí que tudo desandou de vez.

Vic puxava meus braços numa tentativa desastrosa de me colocar no chão, enquanto apertava mais firme seus braços por trás dos meus joelhos, me puxando para o lado oposto de dela, e , que não parava de argumentar por um só momento, surgiu com a brilhante ideia de tentar afrouxar os braços do garoto da minha perna.

Eu sentia que fosse ser partida, literalmente, a qualquer minuto.

Mas antes que isso se concretizasse, todos caíram no chão.

Doeu. Doeu bastante.

Eu tinha uma das pernas sobre uma superfície macia, que eu apostava ser a barriga de , enquanto a outra estava sendo esmagada, também por . havia amortecido a minha queda e diminuído a intensidade do tombo de Victoria, que ainda tinhas suas mãos agarradas as minhas, mas estava toda contorcida pelo chão.

Gememos em conjunto, ainda sentindo a claridade dos flashes sobre nós.

— Jesus, Maria e José! Tá todo mundo bem? — Exclamou uma das pessoas que eu não recordava o nome. Estávamos encrencados. Eu estava encrencada.

Abaixei a cabeça, sobre o peito de , com a vergonha me tomando por inteiro. Eu provavelmente seria demitida. Eu já havia conseguido derrubar todos os meus colegas de trabalho e não queria que Gregory fosse o próximo!

Eu já me preparava para as broncas e xingamentos, quando o riso de Victoria se fez alto.

Levantamos os três a cabeça para a direção da garota, que gargalhava escandalosamente, sem se levantar do chão.

Nos entreolhamos algumas vezes, a encarando com perplexidade. Mas eu logo fui contagiada por sua risada, e então estávamos todos rindo histericamente no chão do estúdio, ainda sendo fotografados. Só que dessa vez eu não ligava. Na verdade, eu começara a achar tudo aquilo muito divertido.

Não tinha motivo plausível ou no mínimo descente, mas estávamos ali, rindo feito idiotas.

— Isso foi demais! — Gritou o fotógrafo, Joe. — Se vocês tivesse feito isso o tempo todo, já teríamos terminado tudo há muito tempo!

se ergueu, permitindo que eu fizesse o mesmo.

Estendi o braço para , que ainda rindo, aceitou de bom grado. Vic também já estava de pé ao nosso lado com o braço sobre a barriga, demonstrando o músculo dolorido de tanto rir.

— Essa foi a coisa mais ridícula que já aconteceu comigo. — Ela falou com a voz rouca e lágrimas escorrendo pelos olhos.

— Então comece a se acostumar, porque ficar perto dessa garota é cair, na certa. — respondeu, ainda gargalhando. Eu não pude evitar em fazer o mesmo. Infelizmente ele falava a verdade.

— Vou adorar me divertir desse jeito! – Continuou Vic, sem se importar se o que ele falara era bom ou ruim.

— Essas fotos com certeza ficaram vergonhosas. — comentou parando ao meu lado.

— Contanto que eu não perca meu emprego, pode ter foto minha careca que eu não ligo. — Falei mordendo o lábio inferior e inclinando a cabeça para a direita.

— Não se preocupa com isso. Você só tem que ligar mesmo com o que os fãs vão achar de você. — comentou. — Você vai perceber que é isso que realmente importa.

— Mesmo que algumas pessoas me odeiem? — Perguntei me referindo a .

— Você acreditaria se eu dissesse que ele só tá assim porque ainda não se acostumou nem com a saída de Maya e nem com sua contratação aqui? — Dei de ombros, porque na verdade não acreditava naquilo de verdade.

— Pode ser… — Me contentei em responder apenas isso e suspirei já sem nada para falar.

— Todos liberados! — Gritou Gregory, ignorando a situação por completo. Ele agiu como se fosse extremamente profissional cair no meio de uma sessão de fotos para o marketing de uma série.

sorriu e se afastou de mim. Num gesto que deixava claro que ele sabia sobre minha confusão mental, mas não me ajudaria. Deixaria que eu me achasse naquele meio e me acostumasse com a nova rotina.

O diretor já havia se retirado para levar uma conversa extremamente animada com os produtores e com o fotógrafo, que agora se reuniam em alguns bancos enquanto tomavam xícaras grandes de café.

Decidi ignorar sua normalidade e comecei a andar por entre as pessoas, recolhendo meus pertences que estavam jogados em um sofá num canto do grande estúdio, entre aquela estrutura complexa que mais parecia um labirinto. Virei em direção à saída, ainda com a roupa das fotos. Elas eram minhas agora, algumas pelo menos (presente do estúdio).

— Hey, ! Espera um pouco. — Virei a cabeça sobre o ombro até encontrar vindo em minha direção.

— Ah, não! Sai pra lá! — Estiquei meu braço não deixando que ele se aproximasse mais. — Sua cota de me encher o saco já acabou por hoje. Fica na sua e eu também fico na minha.

— Calminha aí, estressada! — Juntou as sobrancelhas ignorando minhas ações. — Nem sabe o que eu vou falar.

— Não, mas posso imaginar que não seja amigável.

Ele bufou e revirou os olhos.

— Só vim aqui avisar que eu, daqui pra frente, vou ser tipo a sua babá. Ordens de Gregory. —– Retorci meus lábios em uma careta. — Não, eu também não estou feliz com isso.

— Vá direto ao ponto, .

— Esse é meu número de telefone. — Me entregou um papel pequeno todo dobrado. — Qualquer dúvida que você tiver, é só perguntar.

Assenti o analisando. Procurando algum sinal de boa vontade naquilo. Mas não soube dizer se tinha achado algo ou não.

— Acho que obrigada. — Falei.

— Tá, tanto faz. Preciso ir agora. — Ele falou se apressando em sair.

— Não acha que preciso dar meu telefone pra você também? — Perguntei o que me parecia ser óbvio.

— Eu já tenho. — Respondeu breve. Franzi o cenho.

— Mas eu nunca te disse qual era!

Ele abriu um sorriso malicioso e presunçoso para mim.

— Eu consegui seu endereço em Brighton sem sua ajuda. O que te faz pensar que não consigo ter seu telefone?

E virou as costas, seguindo a passos largos para o fim do corredor, onde desapareceu segundos depois.

 

Nota da Autora: Olá todo mundo!! Espero que tenham gostado desse capítulo tanto quanto eu AMEI escrevê-lo hahah
Comentem aí o que acharam e o que esperam para o capítulo 6 😉
Beijos e até a próxima!

 

 

Capítulo 6
 

“No you don’t know what it’s like
 

Welcome to my life”
‘s POV

Eu caminhava pelas ruas de Londres, sob o céu cinzento de nuvens extensas e espessas, grudando os braços contra o meu corpo, tentando evitar o vento gélido que soprava, enquanto ia para meu trabalho.

Eu podia morar naquela cidade não por muito tempo, mas já havia reparado no grande fluxo de pessoas que frequentavam as ruas. Turistas e moradores costumavam se misturar pelas calçadas, cobrindo-as por horas e mais horas, mesmo depois que o sol se pusesse.

Mas hoje eu poderia dizer que tudo estava estranho demais, quieto demais. Aquilo não combinava com Londres.

Não com a Londres que eu conhecia e que estava aprendendo a gostar.
Uma garoa fina ameaçava cair a qualquer momento, sem sinal de que fosse acabar tão logo, mas apenas isso não era motivo para esvaziar o ambiente, não era motivo para que eu não avistasse nenhuma alma viva andando, se expondo ao clima ameno.

O único som que eu ouvia era o que meus sapatos faziam quando encontravam a calçada. Ou então o dos carros que de vez em quando passavam ao meu lado, desaparecendo logo em seguida.

Poderia ter contado nos dedos o número exato de pessoas que passaram por mim durante todo o percurso, por isso era tão estranho que de repente me sentisse observada. Girei sobre os calcanhares, olhando ao redor e encontrando apenas as portas e janelas das casas fechadas. Não havia ninguém ali.

Mas o som de um ruído qualquer veio à tona, e eu senti meu coração acelerar da mesma forma que fez minha respiração. Logo eu já estava andando apressadamente, sem olhar para os lados. Apenas em frente, esperando que eu estivesse cansada, estressada e imaginando coisas que não existiam.

Porém, contrariando tudo o que eu me forçava a acreditar, escutei outro barulho. Dessa vez não eram só os meus passos que ecoavam pela rua. Eram dois pares de pés batendo contra o chão e uma silhueta preta ao meu encalço. E eu não gostaria de ver quem era o dono desses outros pés e das roupas escuras.

Continuei a correr até que já tivesse em um lugar que eu julgasse seguro, cansada o suficiente para parar e observar ao redor e ter certeza de que não havia mais nem a sombra do sujeito por perto.

Encostei-me ao muro atrás de mim e olhei para todos os lados, duas, três vezes, conferindo. Respirei fundo, deixando meus batimentos cardíacos se acalmarem enquanto minha respiração voltava ao normal e meu nervosismo se esvaia.
Suspirei em alívio.

Mas isso foi antes de uma mão coberta por algum tipo de tecido tapar minha boca e me obrigar a inspirar um odor que queimava até minha garganta. Logo minha visão estava embaçada, e eu perdia todos os meus sentidos…

— CORTA! — Gregory gritou e instantaneamente as câmeras do estúdio se desligaram.

me soltou e se afastou alguns passos, enquanto a maquiadora e suas assistentes vinha em nossa direção retocar a maquiagem.
Aparentemente, de todas as três tomadas, essa de agora havia ficado boa o suficiente.

— Essa cena foi bastante boa. — Continuou o diretor, nos olhando. — Pausa de dez minutos. Vamos mudar o cenário. Hora de gravar a cena do interrogatório.

Vi alguns funcionários moverem algumas estruturas e encaixarem outras para a montagem da sala onde gravaríamos no próximo momento. Aproveitei enquanto estavam todos ocupados e saí para longe dali.

Puxei o roteiro da cima da cadeira e comecei a repassar as falas mentalmente. Hoje estava sendo o primeiro dia de gravações e eu com certeza estava amando aquilo! Bom, pelo menos até o momento estava tudo tranquilo, dentro do cronograma e sem imprevistos.

— Hey, ! — Chamei o garoto que tomava café numa parte mais afastada das outras pessoas, que agora estavam todas concentradas em seguir para a parte coberta do estúdio e arrumar o espaço que ainda não estava pronto. — Você também entra na próxima cena?

— No fim dela. — Respondeu, se aproximando. Conferi no roteiro e assenti algumas vezes. — Está nervosa?

— Talvez. — Dei de ombros.

— Você não tá com cara de quem está confiante. — Rebateu com um sorriso.

— É, eu tô mesmo nervosa. — Admiti revirando os olhos.

— Veja pelo lado bom. — Começou ele. — Você vai ter a oportunidade de bater no .

— É, se eu conseguir não cair no meio da gravação vai ser muito bom.

— Qual é . — Foi a vez dele revirar os olhos. — Nas aulas de defesa pessoal você se saiu bem, então vai conseguir seguir o script direitinho. Tenho certeza.

Olhei para ele com a testa franzida. colocava muita fé em um poço de incertezas.

Durante os oito dias que se passaram desde a sessão de fotos, eu tive três aulas de defesa pessoal. Mas, realmente, aquilo não era pra mim! Eu havia sido horrível na primeira, um pouco menos péssima na segunda e na terceira eu já conseguia desviar de um ou outro golpe com muita dificuldade. Em outras palavras, eu era a pior aluna daquela aula.

E na de tiro ao alvo não foi diferente. Aquela coisa pesava mais do que aparentava, e por menor que fosse a arma, ainda assim tinha um coice desgraçado. Apenas para aprender a destrava-la havia levado mais tempo que o normal, portanto tentar acertar o alvo havia sido tão ruim quanto. Quase pior que treinar na academia. Eu começava a questionar minhas próprias habilidades.

, tem certeza de que viu ela nas aulas? — apareceu ao nosso lado, segurando uma garrafa d’água, com aquele seu típico sorriso sarcástico que eu já estava começando a me acostumar.

Revirei os olhos sem comentar nada.

— Não vai se defender? — perguntou, passando olhares de para mim.

— Pra quê? Ele tá certo. — sorriu.

— Viu? Até mesmo ela concorda. O caso é sério, dude!

— Cala a boca, . — Estreitei os olhos em sua direção.

— Qual é, Ruivinha? Você estava concordando comigo há dois segundos. — Fingiu reclamar ofendido, dando outro gole na garrafa de água.

— Só que a grande diferença é que eu posso falar mal de mim mesma. — Levantei as sobrancelhas o olhando. — Você não pode.

— Sabe que dizer isso não vai mudar o fato de que eu vou continuar falando o que penso, né? — Arqueou uma sobrancelha, da forma mais previsível possível.

— Sonhar não custa nada, certo? — Dei de ombro.

riu ao meu lado no mesmo instante em que eu fiz uma careta. Percebi dar um mínimo sorriso, mas aquilo poderia ter sido algo da minha cabeça, então voltei meus olhos para o script.

— VAMOS ARRUMAR A CENA! — O grito do diretor calou todas as pessoas e as fez correr como loucas.

Inclusive nós três, que seguimos apressados pelo curto corredor, talvez um dos menores dali, que daria na nossa próxima filmagem. O cenário estava pronto.

E mais uma vez as maquiadoras apareceram. Mas agora o trabalho deles não era me deixar bonitinha para as telas. Me descabelaram, borraram minha maquiagem, amassaram minha roupa e, por fim, uns ajudantes do estúdio me amarraram na cadeira colocada no centro da sala.

Sim, eu estava presa, e aquilo era muito legal!

— Luz… — Falou Gregory e algumas lâmpadas se acenderam, outras se apagaram. Algumas mudaram de posição. — Câmeras prontas! — O silêncio total se prontificou e o assistente se colocou de frente para a câmera com a claquete aberta, assim como já tinha o visto fazer várias vezes.

— Cena 7, plano 3, tomada 1. — Ele bateu a claquete e o ruído ecoou pelo estúdio.

— AÇÃO! — bastou essa única palavra vinda do diretor para que enfim começássemos a gravação.

Falas iam, outras vinham. Os minutos passaram e eu, apesar de ter gostado daquilo no início, já começava a me irritar por ter que ficar sempre sentada com as mãos presas. O que me deixava não muito confortável é que eu não podia trocar a minha posição, mesmo quando era preciso fazer alguma interrupção e retomar a tomada. No entanto, não precisamos parar mais que umas quatro vezes para rever alguma fala ou detalhe dentro do script, ou mesmo para sermos corrigidos em curtos intervalos, mas finalmente chegou a parte que, em minha não tão humilde opinião, podia ser deixada de fora. Eu queria mesmo bater naquele garoto, mas não queria que isso fosse gravado.

— Não seja tão hipócrita, Kate. Sabe que isso não passa de uma formalidade.

Com um sorriso se formando no canto dos meus lábios, joguei a cabeça para a lateral.

— Hm, e você quer que eu acredite que sequestrar a sua nova parceira de trabalho e prendê-la sem ordens superiores, por simplesmente achar que ela é uma traidora, vai me fazer ficar mais aliviada? — Questionei.

— Por que não? Hoje em dia quase tudo é possível mesmo.

— Sabe, Ian, achei que já tivéssemos passado por essa fase há alguns anos. — Debochei assistindo seu rosto ficar sério. — Você não mudou nada.

— Diga por si mesma, Deville. — Respondeu se aproximando, aproveitando o fato de eu estar presa, amarrada naquela cadeira. — Você passou tempo demais na França, não conhece mais nada do que deixou pra trás.

— Ah, por favor, Stark! Não acredito que ainda guarda rancor daquilo…

— Você fugiu! — Me acusou com os olhos brilhando com ódio assim que seu punho fechado acertou a parede.

— Eu fiz o que era certo. — Acomodei-me melhor na cadeira. — Teria sido muito pior se eu tivesse permanecido onde você queria que eu ficasse.

— Ah, então é essa a versão da história que você conta aos outros?

— Pra ser sincera, é isso mesmo que eu falo. — Dei de ombros enquanto via seu ódio crescer.

— Sua desgraçada, filha da mãe! — E assim que Ian estava próximo o suficiente, puxei meu joelho para cima, o acertando no ponto fraco de qualquer homem, seguido de um chute em seu queixo e depois, numa última tentativa de ganhar espaço, manda-lo para longe enquanto apoiava meus dois pés em seu peito e empurrava.

Talvez isso só tivesse dado certo porque Ian não estava preparado para essa atitude, mas não ia questionar minha sorte, ia me aproveitar dela enquanto ainda existia.

Puxei os pulsos com força e afrouxei as cordas, soltando meus pulsos e levantando-me da cadeira quando a afastei com um dos meus pés, finalmente estando livre. Não de forma literal, porque a porta devia estar trancada, mas pelo menos dessa vez eu não ia dar a impressão de um animal indefeso.

— Como você… — Confuso e atordoado, olhava-me de cima a baixo.

— Você me prendeu, Stark, não me imobilizou. Tente aprender a diferença e quem sabe um dia, quando estivermos em lados opostos, você não consiga fazer bem feito.

— Mas você… Você não conseguia se livrar de amarras! Nunca conseguiu se soltar de qualquer coisa! — Falava com os olhos atônitos de surpresa.

— Talvez eu tenha passado tempo demais na França, que tal?

Sua aproximação sem hesitação me fez ficar alerta pelos próximos segundos, incapaz de saber qual seria sua próxima atitude. Graças aos céus não tive tempo de descobrir.
A porta abriu repentinamente, revelando talvez um dos amigos de Stark, cujo eu ainda não conhecia. Em dois passos largos se colocou entre eu e ele.

— Acabou seu tempo com ela, Ian. Temos coisas mais importantes pra fazer agora.

— Sai daqui, Dave. Está atrapalhando nossa conversa.

— Seu maxilar está trincado, seus olhos semiabertos e seus punhos estão cerrados. Não vou deixar vocês sozinhos nessa sala.

— Você só pode estar de brincadeira… — Soltou um riso nervoso, sem desviar os olhos do meu.

— Escute seu amigo, Stark. — Uma garota que eu conhecia já de muito tempo, Cecília, entrou na sala parecendo desfilar com seus cabelos curtos e roupas pretas. — Podem conversar depois. Claro, se aceitarem ficar em salas separadas para evitar uma briga desnecessária.

— É muito bom ver como de repente todos resolveram ficar contra mim. — Sorriu com desdém.

— Às vezes é bom ter apoio de algumas pessoas. — Sorri de forma irônica. — É bom ver você, Fiore.

— Bom ver você também, Deville. — Cecília sorriu para mim sem mostrar os dentes. — Mas sabe que prefiro ser chamada de Cece.

— Claro que sim. Como nos velhos tempos. — Levantei um dos cantos da boca em resposta.

— Se agora acabamos com essa história de flashback, seria muito bom seguirmos para a sede falar com o chefe. Aposto que ele não vai gostar do atraso. — Disse o homem parado ao lado de Ian.

— Pelo menos vamos ter alguém para culpar, não? — Pisquei cínica.

— Não teste minha paciência, Katherine.

— Não se preocupe, Ian. — Respondi com inocência. — Conheço seus limites melhor que ninguém.

— Que tal ficarmos todos em silêncio e apenas entrarmos na porcaria do carro? — Perguntou Cecília. — Eu apoio essa ideia!

— Estou com você, Cece. Sei que Ian também está. Podemos ir? — Dave olhou para mim como se eu fosse aquilo que os tivesse impedindo.

— Você na frente, dude. — Falei naturalmente, esperando que seguissem para fora daquele cubículo de uma vez.

’s POV

— CORTA! — O diretor gritou. Não seguiu com comentários o que me fez pensar que outra cena já estava pronta. Isso era bom.

— Já passa do meio da tarde, quem quiser comer alguma coisa, pode comer. Só vamos voltar a gravar daqui à uma hora e meia. — Uma roteirista que estava ajudando nas gravações do dia falou de forma breve, logo seguindo de volta para uma conversa com Gregory.

Cada pessoa se dirigiu para um lado diferente, seguindo em direções opostas, ao contrário de mim, que continuei parado no mesmo lugar por mais um tempo.

Ela era melhor atriz do que eu julgava ser. Mas eu não admitiria isso em voz alta.

tinha se saído muito bem para o primeiro dia de trabalho, e vinha impressionando não só aos outros atores, mas ao resto das pessoas que ali trabalhavam também. E de novo, sem querer admitir, eu era uma dessas pessoas.

A garota, mesmo tendo me arrancado várias gargalhadas e sido terrivelmente péssima todas as vezes que tentaram ensinar a ela o que fazer naquela parte da filmagem, hoje ela tinha feito as coisas mais certas do que qualquer um esperava.

Digo isso porque eu ainda estava dolorido.

Claro, ela não chutou pra valer no meu colega ou na minha cara, pois existiam técnicas para esse tipo de ação, mas ainda assim, não dá pra evitar tudo. E eu ainda sinto uma dor chatinha na minha caixa torácica por causa daquele empurrão. Definitivamente eu não esperava aquilo.

Finalmente agora era o intervalo do almoço e eu podia dar um tempo daquilo tudo. Levantei as mãos aos céus em sinal de agradecimento, deixando o set de filmagem.

Vi e conversando com Victoria, indo provavelmente para alguma lanchonete ou restaurante e eu aproveitei para apressar o passo e me juntar a eles.

— Espero que não tenham esquecido de me convidar para essa pequena confraternização. — ironize e passei um braço por cima dos ombros de .

— Para sua infelicidade, não há nenhuma confraternização. Senta e chora, Bad Boy. — Disse Victoria com uma piscada.

— Nossa, que garota mais grossa! — Respondi, entrando na sua brincadeira.

— Eu? Grossa? Imagina! — Ela disse com um canto da boca levantado. e pareciam não entender o que acontecia.

— Essa irritação toda é fome? — Arqueei a sobrancelha me fazendo e curioso.

— Não. É a sua presença aqui que me deixa assim. — Ouvi risos ao meu lado que preferi ignorar.

— Como você é engraçada, Vic. Estou morrendo de rir.

— Seu bom humor é contagiante, .

— É porque você foi uma ótima professora.

Ela me empurrou com as pontas dos dedos, em um puro gesto de brincadeira, rindo. Eu a acompanhei, puxando a depois para um abraço meio de mau jeito. Essa garota encrenqueira era com certeza a pessoa mais próxima que eu tinha dentro das gravações.
Mas desde que agora fazia parte do elenco, eu me sentia melhor. Um pouco mais centrado na minha zona de conforto.

— Esse momento de vocês… Já deu, né? — Disse .

— Certo, certo. Culpa minha! — Levantei as mãos. — Estavam falando sobre o quê?

— Nada importante. — A Ruivinha se dirigiu para mim pela primeira vez desde que eu chegara.

— Na verdade estávamos perguntando a o que ela estava achando das filmagens. — falou olhando para , como se esperasse a resposta dela.

— Eu estou gostando. Bastante. — A mesma respondeu com um sorriso que eu julguei ser sincero. — Eu achei que fosse ser um belo desastre, mas até agora não posso reclamar de nada nem ninguém.

— Imagino que tenha gostado principalmente da parte dos chutes. — Arqueei as duas sobrancelhas para ela.

— Nossa! Não é que você acertou? — Levou a mão até a boca fingindo estar surpresa.

Os outros dois, supostos amigos meus, deram risada e eu me limitei a apenas encará-la.

— Eu disse que você se sairia bem. — deu um sorrisinho cúmplice para ela que correspondeu.

— Ótimo, porque eu achei que fosse ter que repetir aquela cena no mínimo umas cinco vezes.

— Então que bom que não precisou repetir nada, . — Falou Vic. — Assim fomos liberados mais cedo.

Eu que o diga, pensei. Não queria que ela ficasse me dando chutes vezes seguidas. Não que eu faça o tipo de fracote que tem medo de uma surra, mas experimenta levar chutes várias vezes seguidas no saco. Uma só já havia sido suficiente.

— E agora vamos fazer o quê? — Ela perguntou, mexendo impacientemente em sua pulseira de pingentes. Todas as vezes que eu me encontrava com ela, sempre usava aquela mesma pulseira. Comecei a me perguntar se aquela coisa tinha algum tipo de significado ou ela só gostava de usá-la.

— Tecnicamente esse é o horário de almoço. Então vamos almoçar. — respondeu mostrando o horário na tela de seu celular.

— Mas são mais de três horas da tarde! — Ela arregalou os olhos.

— Por isso eu disse tecnicamente…

Vic suspirou antes de falar:

— Bom, hoje eu não tô pra comida, então acho que vejo vocês mais tarde. — Victoria mandou um beijo no ar para todos e saiu andando de volta para o set de gravações, onde provavelmente iria dormir em algum canto até que Gregory fosse acordá-la.

— Então sobramos nós três… — falou olhando para a garota que se distanciava cada vez mais.

— Por que não vamos comer alguma coisa naquele Costa aqui próximo? Aí você conta mais sobre o que tá achando de Londres, . — falou praticamente ignorando minha presença ali.
Antes que a Ruivinha respondesse, tratei de me enfiar entre os dois e passar um braço sobre o ombro de cada um.

fechou a cara no mesmo instante.

— Ótima ideia, cara! As bebidas de lá são tão boas quanto às do Starbucks.

Meu amigo me observou por um segundo e eu sorri pra ele sem mostrar os dentes.

— Nunca fui em um Costa. gosta tanto de Starbucks que simplesmente não nos dava a opção de escolher. — falou para , me fazendo sentir como se eu fosse um intruso total.

— É de se imaginar que ela não conseguisse viver sem café, porque definitivamente era isso que aparentava. — comentou rindo. — Ela é toda elétrica e animada, parece uma fórmula pura de energético.

— Que bom que finalmente alguém concorda comigo! — Ela responde rindo.

— Quem é essa? — Perguntei por curiosidade, tentando me colocar na conversa de alguma forma.

— Uma amiga minha. — respondeu. — Aquela que estava comigo no dia em que nos conhecemos, sabe? Aquele dia que voou café pra todo lado. — Ela estava apelando para a ironia. Eu me lembrava muito bem daquele dia. Da amiga dela também.

— A sua segurança de meio período?

— Ela te odeia. — disse e riu ao meu lado.

— Ela só trocou uma frase comigo! Deve estar exagerando.

— Não importa, ela te acha tão chato quanto anúncio do Youtube.

gargalhou alto e ela o acompanhou com uma risada baixa. Deixei minha boca em uma linha reta e o semblante sério. Estavam tirando uma com a minha cara e eu não tinha nem como contrariar.

— Vocês dois estão cheios das mancadas hoje, hein?

— Ninguém falou que a verdade não doía. — A Ruivinha deu de ombros sem me olhar.

— Se essa é uma tentativa sua de me fazer ficar aqui no estúdio, pode esquecer. — Comecei a negar com a cabeça enquanto ela revirava os olhos. — Eu também tenho fome, se você quer saber.

— Não vou conseguir me livrar de você, vou?

— Não.

— Ótimo, então vamos comer. — Seu tom de derrota me fez abrir um sorriso. ao meu lado bufou e passou para o lado oposto.

— Eu dirijo…

E então seguimos até o carro prata com insulfilme forte nos vidros. Fui no banco de trás, deixando no volante e se acomodar no banco do passageiro.

Eu quase podia dizer que estava mais irritado que ela por eu estar os acompanhando. Quase. A única coisa da qual eu tinha certeza era que eu não era exatamente bem-vindo ali. Mas sabia que eles eram educados demais para admitir isso e me expulsar dali.

Chegamos ao Costa sem chamar a atenção, e fiquei grato por isso. A última coisa que eu queria nesse dia eram perguntas idiotas no meu ouvido e flashs irritantes nos meus olhos.

Nem tudo na fama era legal e/ou divertido.

Pegamos uma mesa no canto, como eu já estava acostumado fazia um tempo, e fizemos nossos pedidos, sempre de olho no relógio e nas janelas do estabelecimento. Não podíamos nós atrasar, seja lá qual fosse o motivo. Até porque Gregory podia parecer o cara mais bondoso do mundo, mas quando ele queria ser um pé no saco, conseguia muito bem ser.

— As pessoas daqui costumam encarar os clientes assim mesmo ou tem alguma coisa grudada no meu cabelo? — passou as mãos pela cabeça, confusa. Gargalhei de sua atitude.

— Eu frequento muito aqui com os garotos. Os funcionários daqui já conhecem e eu, mas você? Eles ainda não fazem ideia de quem você seja. — Expliquei.

— Ainda… — deu ênfase.

— É. Quero dizer, só um pouco assediada no Twitter e em algumas outras redes sociais, mas vai demorar um pouco até que comecem a seguir você de verdade. — Completei.

— Demorou pra acontecer isso com vocês? — Esse era o tipo de pergunta que podia ser deixada de fora de um diálogo descontraído.

— Não exatamente… — Meu amigo deu de ombros enquanto mexia no celular.

— Nós mergulhamos de cabeça nessa coisa de fama. E assim que caímos, fomos puxados ainda mais para o fundo. — Passei a mão pelo cabelo. — Entrar para o The X Factor foi como entrar embaixo de uma cachoeira. A pressão era horrível, mas ao mesmo tempo era uma sensação boa. Num dia você era um desconhecido total, e no outro, de repente as pessoas te conheciam, sabiam seu nome e chamavam por ele… Foi uma loucura total.

— Ainda é. — Completou sorrindo.

Os olhos dela se perderam nas paredes do fundo da lanchonete. começou a mexer nos dedos sem parar e eu me limitei suspirar, tentando tirar aquela sensação de nostalgia da cabeça.

— Já quiseram desistir? — direcionou seu olhar ao meu.

Meu amigo negou, mas eu respondi o contrário:

— Já.

— Mas você ainda está aqui… — ponderou.

— Estou, porque há muito tempo, eu decidi que não queria ter uma vida sem sentido, não queria passar despercebido. — Respondi a ela sem piscar ou desviar o olhar.

— Fazer a diferença. — falou distraidamente. Concordei com um aceno.

— Ser lembrado pelo que fiz.

— Você quer ser eternizado. — Concluiu. — Isso soa um pouco egoísta, sabe?

Ri sem humor ainda a encarando.

— Quero ser eternizado pelas coisas boas que eu conquistar aos longos dos anos. Os erros podem ir pro inferno, mas foram com eles também que eu cheguei aqui. Foram eles que me mostraram os caminhos mais certos, Ruivinha. — Expliquei. — Mas se quer saber, isso não é mais do que a interpretação de cada um.

me analisou atentamente. Eu quase podia ver seu cérebro trabalhando em um novo pensamento, mas ela não dava indícios de que iria compartilhar isso com alguém que não fosse ela mesma.

— Quem diria que estaria fazendo com que eu realmente pensasse em algo que ele dissera… — Ironizou, talvez tentando mudar o rumo do assunto.

— Não me subestime. — Sorri sem mostrar os dentes. — Eu sou muito mais do que aquilo que você lê em revistas, Ruivinha…

*

’s POV

Era tudo um tanto confuso.

As fotos tinham sido divulgadas a pouco mais de quarenta e oito horas e eu já era conhecida por pelo menos toda a Inglaterra. Ok, quase toda. E mais uma parte do continente Americano.

A repercussão do meu papel só não tinha sido tão grande como a de , que já havia passado em todos os canais da televisão e estações de rádios por todo o país e o resto do mundo.

Meu Twitter nunca esteve tão movimentado e agora minhas fotos estavam em mais sites do que eu realmente achava que fosse possível.

A parte boa é que as fotos estavam menos piores do que eu achei que tivessem ficado. Eu e o resto do elenco podíamos estar jogados no chão, ou podia estar me carregando, mas por incrível que pareça, tudo indicava que estávamos nos divertindo.

É. A tal espontaneidade que o fotógrafo tanto quis, funcionou. Ele devia estar feliz agora.
Rachel estava na minha casa já fazia algum tempo, mas teimosa do jeito que se mostrava ser, contar o que estava fazendo ali seria talvez a última coisa que faria no dia.

— Vamos, Rachel. Pelo menos me leve pra fazer alguma coisa ao invés de ficarmos trancadas aqui o dia todo! — Falei a ela que estava mais interessada no celular do que em mim, sentada ali do seu lado.

— Certo, . — Ela bufou um pouco impaciente. — O que sugere?

— Eu preciso conhecer alguma coisa por aqui. — Comecei a falar. — Por que não me leva para a Oxford Street talvez? Ou qualquer outro lugar! Só não quero mais depender do táxi até pra ir ao mercado.

— Então, em outras palavras, você não conhece nada? — Ela parecia estar um pouco surpresa.

— Conheço a minha casa e o caminho dela para o estúdio. — Respondi, dando de ombros.

— Ok, levanta essa bunda daí. — Rachel se colocou em pé, de súbito, agarrando meu pulso, e me fazendo imitar seu gesto. — Vou te levar pra conhecer sua nova cidade. Não dá pra você viver aqui e não conhecer seu próprio quarteirão.

Bem, nisso eu concordava com ela.

*

Aquela rua era simplesmente imensa! Nem se eu tivesse a tarde toda conseguiria conhecer o lugar inteiro. Era como um shopping a céu aberto, com coisas para todos os gostos.
Nossa primeira parada tinha sido a Primark, qual eu tenho que dizer: lugar bom, bonito e barato.

Tinha literalmente um pouco de tudo naqueles imensos quatro andares, e eu estava perdida segurando tantas coisas.

— Esse lugar é o paraíso! — Falei passando por uma área quase somente de calças jeans.

— Você não viu nada. — Comentou Rachel. — Porque essa é a coleção de outono/inverno. A de primavera/verão é simplesmente perfeita.

— Eu realmente espero que você não se importe em me trazer aqui mais vezes. — Falei me divertindo com o olhar alegre que ela tinha. — Quem diria que com vinte libras eu poderia comprar uma calça e duas blusas? — Ela riu do exagero em minhas palavras.

— Pois é! Fala se essa não é a melhor loja que você já foi?

Eu responderia a pergunta dela, se não tivéssemos nos assustado com algum tipo de grito histérico meio controlado que duas garotas deram atrás de nós.

— AI MEU DEUS! — Falou a primeira garota loira dos olhos azuis. — Você é a nova atriz de The Black Side! !!!

Por mais que aquilo tivesse soado como uma pergunta, eu soube que era uma afirmação. Tentei sorrir para as garotas, mas eu ainda estava assustada com a forma que fui abordada.

— Será que a gente pode tirar uma foto com você? — A outra menina de cabelos pretos veio para o meu lado já com o celular em mãos.

— Claro que sim! — Dessa vez consegui ser mais animada com o pedido dela. — Rachel, será que você pode tirar a foto pra mim e para… Er…

— Jenny e Abby. — Se apresentaram de forma meio desajeitada.

— Isso, pra Jenny e Abby? — Me coloquei no meio das duas enquanto e Rachel bateu as fotos.

— Prontinho, garotas! — Respondeu já devolvendo os aparelhos.

— Espera, Ray! — Tirei meu telefone do bolso, enquanto as duas garotas me olharam sem entender. — Bate uma foto com o meu também.

— Sério? — Abby (ou talvez fosse a Jenny?), perguntou com olhos brilhantes.

— Claro, por que não? — Sorri e posei para a última foto.

— Ah, você é um amor! — A loira exclamou, passando o braço pela minha cintura.

— Só estou curtindo o momento. — Respondi. — Vocês são as primeiras garotas a pedirem uma foto comigo.

— Tá brincando?! — Ela pareceu não acreditar. — Estou me sentindo especial agora!

— Sério, não estou mentindo. — Falei rindo, sendo acompanhada por Ray.

— Será que então podemos abusar um pouquinho e pedir um autógrafo? — A menina dos cabelos escuros me entregou uma caneta e eu fiz o que ela pediu. Foi tão emocionante assinar aquela folha.

, nós temos que ir. — Rachel indicou o caixa com a cabeça, me apressando.

— Er, claro! Só mais dois minutos. — Pedi que esperasse, e ela fez, mesmo que contra sua própria vontade. — Qual o Twitter de vocês?

— Vai seguir a gente? — Jenny (eu tinha quase certeza que era ela) perguntou um tanto surpresa.

— Sim! Finalmente eu achei uma utilidade para meu Twitter, vou aproveitar enquanto posso.

Passaram menos que dois minutos e as garotas já haviam ido embora com um grande sorriso no rosto, papéis assinados e fotos no telefone. E agora eu pegava a foto tirada pelo meu celular e preparava para publicar no Twitter.

? — Rachel chamou atrás de mim.

— Só um segundo… — Pedi a ela, sem prestar atenção.

— Eu não acho que seja uma boa ideia você…

— Aham… — Concordei sem exatamente saber o que ela falava. — Só estou adicionando uma legenda…

, é melhor você não…

— Pronto! Acabei de postar. O que acha? — Mostrei a ela a foto minha e das garotas com a legenda: @Abby_crazy4PLL e @Jen_prettyangel me acharam aqui na Primark. Amei conhecer essas lindas! Xx

— Acho que você devia ter me escutado e não ter postado nada. — Ray me olhou de forma reprovadora.

— E por quê?
— Só te lembrando que, tecnicamente, você já é famosa por suas fotos simplesmente estarem circulando pela internet. — Seus olhos nem ao menos piscavam enquanto ela falava.

— Ahn… Não sei se estou entendendo aonde você quer chegar…

! Se descobrirem em qual loja você está, isso daqui vai virar uma muvuca!

— Está exagerando, Ray. — Respondi com os lábios retorcidos em uma careta ao mesmo tempo em que ela se preparava para me dar outra bronca.

— Mas

— Nada disso vai acontecer. Okay? — Tentei tranquilizá-la, mas ela me respondeu com uma cara zangada. Revirei os olhos. — Agora qual vai ser nossa parada? Victoria Secrets ou Forever 21?

*

Eu havia falado cedo demais.

Nós havíamos descido toda a Oxford Street e agora saíamos da Forever 21 quando, outra vez, fomos abordados por um grupo de garotas.

Cada vez que dávamos mais cinco passos, eu escutava meu nome ser chamado/gritado por um grupo de adolescentes. Logo eu estava assinando papéis e tirando fotos por alguns minutos.

Por isso, com algum esforço de nós duas, conseguimos finalmente entrar na Victoria Secrets.

— Eu tentei te falar que postar aquela foto ia causar fuzuê. — Rachel se mostrava um tanto desanimada por toda a atenção que estavam dando. Estávamos perdendo tempo com tantas paradas e ela não parecia satisfeita com isso.

— Essa vai ser a última loja, prometo! — Cruzei os dedos em sinal de promessa.

— Vinte minutos ! — Ela virou as costas e seguiu para uma parte contrária de onde eu estava, então me concentrei em olhar os pijamas e achar algo que me agradasse.

Não foi uma tarefa difícil, até porque tudo naquela loja era lindo e parecia chamar meu nome.

Escolhi um Baby Doll xadrez e um pijama de calça estampada e blusa cinza de mangas compridas e um ombro caído. Foi muito difícil escolher só dois, mas eu não podia gastar todo meu pagamento naquela loja.

Como já haviam se passado trinta minutos, achei que Rachel também tivesse se empolgado, sendo que não havia me procurado desde que tivera entrado na seção de cremes e outros cosméticos.

Segui vendo as diferentes lingeries até achar um sutiã preto que me agradasse.
Por mais estranho que parecesse, aquele era o sutiã mais bonito que eu já havia visto. Ele e o sutiã rosa nude ao lado. Mas qual dos dois rendados escolher? Eu nunca consigo escolher só uma peça…

Eu não notei por quanto tempo fiquei os olhando, mas só voltei a mim quando o celular no meu bolso vibrou. O peguei de forma apressada, imaginando que fosse Rachel pedindo que a encontrasse, por isso me surpreendi com o número de piscando na tela.

Abri a mensagem, crente que ele havia errado o destinatário.

“O preto é mais sexy”

Arregalei os olhos ainda encarando o telefone e franzi o cenho. Oi?

“Do que você tá falando?”

Tentei me fazer de desentendida. Sua resposta veio logo em seguida:

“O Sutiã. Prefiro o preto”

“Está me stalkeando?” Perguntei esperando do fundo da minha alma que a resposta fosse não.

“Eu não, mas os paparazzis do lado de fora estão”

Virei o rosto para o vidro e me deparei com vários sujeitos segurando câmeras nas mãos, me fotografando descaradamente. Tinham algumas pessoas normais também, curiosos e/ou fãs da série que deviam estar postando vídeos e fotos pelas redes sociais de mim na loja. Eles bem que podiam ter me achado quando eu estava escolhendo cremes, ou sei lá. Agora todos sabem o tipo de sutiã que eu compro. Isso é vergonhoso.

— Mas o quê…? — Não falei por falta de palavras, pois eu estava totalmente paralisada.
Outra vez o celular vibrou na minha mão.

“Se eu fosse você, dava o fora daí antes que mais aparecessem. Eles não têm limites, Ruivinha.”

Encarei a tela do aparelho por alguns segundos enquanto raciocinava.

“Ah, uma dica: use as portas dos fundos Xx”

Acrescentou em mais uma mensagem.

Por um segundo realmente pensei se estaria só enchendo meu saco ou se estaria falando a verdade. Mas quando olhei novamente para o lado de fora da porta e vi todos aqueles caras fotografando cada movimento meu, decidi que era melhor sair enquanto havia tempo.

Pensei em ligar para Rachel e dizer que era sinal vermelho e que tínhamos de voltar pra casa, mas se eu fizesse isso, talvez um daqueles muitos paparazzis notasse e, não sei, fizesse confusão sobre isso.

Será que um deles faria isso mesmo, ou eu estava criando uma tempestade num copo d’água?

Ah, eu não iria ficar pra descobrir. Pelo menos não hoje.
Enquanto eu andava desembestada pelos manequins e prateleiras de roupas, consegui finalmente encontrar Ray, já na fila do caixa, onde pude me juntar a ela e contar que tínhamos que dar no pé.

— Eu tentei te avisar que seria uma má ideia mostrar ao mundo onde você estava. — Falou já sem interesse, mas com muito cinismo em sua voz, agindo como se esse fosse o castigo a se pagar.

— Tá bom, será que agora podemos pagar isso logo e ir embora? — Perguntei impaciente com as peças de roupa na não.

— E agora você acha que ficar de cara feia vai resolver?

— Mas eu não fiz nada! — Retruquei.

— Tanto faz. Temos coisas mais importantes pra fazer, tipo, sair daqui o mais rápido possível.

Depois que pagamos, seguimos pelas portas dos fundos com a ajuda de um funcionário prestativo que concordou em nos ajudar se eu tirasse uma foto com ele. Claro que ele não ia deixar a oportunidade, né? Depois disso, fizemos o caminho inverso até chegarmos ao carro de Ray. Por fim, sãs e salvas, seguimos pra casa.

*

Querido Diário…

Rachel não desceu na minha casa depois que voltamos do nosso passeio. Na verdade, só me ajudou a pegar as trinta e sete sacolas (exagero meu) e logo em seguida seguiu pra sua casa, assim não teria mais nenhum atraso nas coisas relacionadas ao seu trabalho.
O que havia acontecido hoje na Oxford Street havia sido… -Totalmente-, quase desnecessário, segundo ela.

Mas caramba… O QUE FOI AQUILO?!

E apesar de ter escutado Ray falar por minutos seguidos sem nenhuma pausa para respirar no caminho inteiro de lá até aqui, eu quase não tinha prestado atenção em nada, o que provavelmente me daria um peso na consciência agora antes de dormir.

Mas o fato é que eu havia adorado a abordagem das pessoas.

Elas nem sequer tinham assistido alguma filmagem minha, ou qualquer coisa relacionada ao meu trabalho que não fosse aquele Photoshoot desastroso, -talvez nem tão desastroso assim-, e agiam como se me amassem.

Eu sabia que aquilo não era a coisa mais agradável do mundo, mas até o momento, eu podia conviver com coisas do tipo. Eu não me importaria se tivesse que passar por aquilo todos os dias!

Bom, eu era o sinônimo de felicidade até o momento em que Rachel mandou uma mensagem com o meu cronograma para a semana… Tipo, uns dez minutos atrás.

Foi aí que as coisas mudaram um pouquinho e sirenes imaginárias começaram a piscar no alto da minha cabeça em sinal de alerta.
Shit! Eu vou gravar uma entrevista!

E agora eu só consigo pensar no quão ferrada eu vou estar…

Com amor (-não muito-),

*

E você tá reclamando disso por quê? Para de fazer doce, ! falou em tom de bronca do outro lado da linha na manhã do dia seguinte.

— Eu… Eu não sei como agir na frente das pessoas! — Minha voz soou aflita.

, não seja hipócrita!

— Eu vou gaguejar, não vou falar nada com nada! Vão achar que eu sou uma doida! Não, Pior! Vão achar que eu tenho problemas de comunicação e vão querer me mandar para um médico de gente doida…

Você tá começando a me encher o saco…

— A repórter vai rir de mim e no dia seguinte vai espalhar por toda a internet que eu pareço um gato assustado! Eu vou ser zoada por um continente inteiro!

Chega , Já deu. — Ela praticamente gritou do outro lado da linha, me fazendo afastar o telefone da orelha, confusa e de olhos arregalados. — Você já falou baboseiras demais pra cinco minutos de conversa.

— Mas…

Mas nada! Ou então vou cancelar minha viagem pra Londres esse fim de semana! — Sua voz soou alguns tons acima, porém um tanto mais controlada que segundos atrás.

— Não ! Sem essa agora, por favor. Preciso de você… — Ela gargalhou.

Volte ao normal, pare de falar merda e eu não cancelo minha passagem no trem da sexta feira às vinte horas. — Ameaçou, me fazendo ficar em dúvida e ela estava blefando ou não, pois com o passar dos anos eu aprendi a não duvidar de . Ela poderia fazer qualquer coisa.

— Se você fizer isso, vou te jogar na frente de um ônibus vermelho de dois andares, e, acredite, eu não estou mentindo! Comprei um monte de besteiras pra gente se entupir no sábado e domingo e eu não vou jogar toda aquela pilha de doce fora.

Silêncio na linha.

Você comprou twix? — Ela parecia uma criança falando.

— Comprei.

Comprou pepsi? Nutella?

— Comprei.

Isso é mesmo tentador. — Murmurou no telefone. — Bom… sendo assim, acho que não tenho como cancelar.

— Te ganhar sempre foi muito fácil, é só colocar comida no meio e tá tudo certo. — Resmunguei.

Quem tá perto acha que eu sou uma gorda obesa com crise de sedentarismo e fobia à academia. — Ri divertida de seu comentário.

— Engraçado que sou eu a dramática de nós duas.

Vá se ferrar, !

— Te vejo sexta a noite. — Comecei a despedida.

Até lá, minha atriz preferida.

Pelo menos eu me sentia mais calma agora. sempre tivera me ajudado mesmo com coisas pequenas, como essa. Mas ela nunca me decepcionou. Eu era grata a ela por isso.

*

Depois da ligação um tanto maluca que fiz a minha amiga, achei que teria o resto do dia de folga e poderia, não sei… Talvez entrar em coma até o dia seguinte ou algo parecido. Mas claro que eu estava errada. Meu celular apitou mostrando o resto do meu itinerário para o dia. Eu não estaria livre tão cedo assim.

Piscando na tela do meu aparelho estava: Gravação no TS.

Sem encolha e um pouco animada, confesso, chamei um táxi e esperei alguns minutos até que ele aparecesse.

Esse negócio de pegar táxi para todos os lados estava ficando preocupante. Eu devia procurar outro meio de transporte ou iam achar que eu havia virado algum tipo de banco particular deles. Eu poderia falir apenas com a conta de táxi.

Me encontrei com o elenco na Trafalgar Square, percebendo o cenário arrumado e uma parte da praça pública reservada para a filmagem, que eu imaginava ter que ser muito rápida graças a quantidade enorme de turistas ali. Sem contar nos fãs que estavam atrás das faixas, cheios de câmeras nas mãos.

Era minha primeira cena ao ar livre e tudo o que conseguia pensar era em como lidar com aquilo. Eu estava mais perdida que cego no meio de um tiroteio. Não sabia para onde ir e com quem me encontrar. Só sabia que estava no lugar certo porque era meio difícil não ver os trailers com os vestuários e maquiagem, a iluminação sendo montada e as câmeras espalhadas em determinados cantos do perímetro. E claro, tinham os fãs também.

Eu ainda não tinha me acostumado com aquilo. Quero dizer, depois da experiência de ontem principalmente, não sei muito bem o que fazer. Ou como agir.

poderia não ter seu próprio fandom, mas eu tinha notado alguns fãs com fotos minhas nas mãos, o que me deixava com um sorriso bem grande e bobo no rosto.

Percebi estar em um dilema: Falar com eles ou apenas acenar e seguir. Lógico que eu faria de tudo para agradá-los, mas existiam alguns limites que eu tinha que respeitar não só para mim como para o resto das pessoas com as quais eu havia começado a trabalhar. E eu podia apostar que pela grande movimentação da equipe ali, eu levaria uma bela bronca se eu não seguisse algumas ordens Eu via isso sempre que alguém passava por mim com os olhos arregalados, gesticulando sem parar, como se dissesse “Empacou por que, sua mula? Seu pé não tá colado no chão. Trate de fazer seu trabalho!”.

Precisava achar onde estava Philip e suas assistentes imediatamente, por isso me coloquei a observar o local mais atentamente.

A primeira coisa que eu reparei não foram os quatro monumentos dos leões ou a Galeria Nacional que eu pretendia visitar depois. Muito menos a imensa fonte com água cristalina cheia de estátuas.

Foi a galinha no pedestal.

Uma galinha grande e azul.

Os gritos das fãs pareceram aumentar repentinamente por algum motivo, mas sabendo que nada tinha a ver comigo, ignorei os barulhos, pois ainda estava tentando entender o que aquela ave estava fazendo ali. Qual era o objetivo daquela… daquela coisa azul gigantesca, vulgo maravilhosa arte moderna que destoava completamente do modelo neoclássico da construção do Museu de arte logo atrás?

— Aquilo é… diferente. — Pensei em voz alta.

— Nem um pouco discreta. — Me virei imediatamente para a esquerda, procurando quem havia dito aquilo.

— Credo, você até parece assombração! — Falei para o garoto ao meu lado.

— Já me chamaram de coisas piores. — deu de ombros e eu não retruquei, sendo que eu já não olhava mais para ele, olhava de novo para aquela estátua.

Por isso as garotas estavam gritando. Elas estavam se esgoelando para chamar a atenção de . Agora tudo fazia sentido.

Eu já nem me lembrava mais o que eu tinha que fazer. Estava tão atônita olhando aquele troço, que as coisas ao redor pararam de me interessar.

— Eu não consigo parar de olhar… É muito grande!

— E azul… — Completou também com os olhos fixos na galinha. Quero dizer, olhando melhor agora, parecia ser um galo. Ah, que se dane o sexo do animal.

— Parece hipnotizar.

— Mas o cara que fez isso deve estar rico.

— Mais famoso que o homenageado líder da Marinha Inglesa.

— Provavelmente atrai mais turista que a própria praça. Isso é normal? — Perguntou.

— Me diz você, sou nova na cidade.

Então nos encaramos e começamos a rir, sem motivo algum para isso.

Eu mesma fiquei impressionada, porque esse havia sido o primeiro momento onde estávamos agindo como pessoas normais, além do fato de eu não me lembrava de ter visto rindo de verdade até aquele dia. Fiquei mais surpresa ainda em notar que o sorriso espontâneo dele era ainda mais lindo do que aqueles que minha irmã tinha colado nas paredes.

— A conversa de vocês parece coisa de doido. — apareceu ao nosso lado já com o figurino e maquiagem feita.

— Ser normal não tem graça. — Sorri para ele.

— Deveria me sentir ofendido? — Perguntou de sobrancelhas juntas.

— Depende do seu ponto de vista. — Foi a vez de dizer, e dar de ombros.

— Porque estamos conversando sobre isso? — Me vi perguntando com os lábios em uma linha reta, procurando o significado de nossa troca de pensamentos esquisitos.

— Só Deus sabe… — Foi a conclusão de .

— Então vamos mudar de assunto porque já estou confusa o suficiente.
— Se está confusa agora, imagina em uma entrevista. — pareceu ponderar seu próprio pensamento e eu fiz uma grande careta.

— Ai droga, será que dá pra não falar disso? — Pedi.

— Ah, qual é, nem é tão ruim assim. — deu de ombros.

— Claro que não, . Você fica quieto a maior parte das entrevistas. — retrucou cruzando os braços.

— O que posso dizer? Não sou de falar muito. — Respondeu.

— Sério isso? — Virei de frente para ele com olhos arregalados. — Você não é de falar muito? Caramba! Imagina se fosse então.

revirou os olhos enquanto ria.

— Ele fala. Fala muito, mas não em frente às câmeras. — falou entre risos. — Eu e os garotos ainda estamos tentando descobrir por quê.

— Me mantenha informada, pois nada disso está fazendo sentido pra mim.

— É só uma questão de tempo e aí todos vão saber.

— Será que dá pra vocês pararem de falar de mim como se eu não estivesse aqui? — cruzou os braços.

— Certo. Que tal falarmos de outra coisa? — Sugeri.

— Que tal você ir logo para a maquiagem, querida? — Philip apareceu de braços cruzados a minha direita, com uma expressão impaciente e impassível. — A câmera tem uma resolução muito boa, então infelizmente a maquiagem continua sendo necessária.

— Essa foi cruel até para ele. — A voz de soou baixa ao meu lado. riu.

— Vamos logo, ! Perdeu os movimentos das pernas por acaso? O tempo está passando. — Meu cabeleireiro falou um pouco exaltado.

— Er… — Franzi o cenho e dei um passo à frente. — Tudo bem.

— Ruivinha, aquilo não foi um elogio. — balançou a cabeça.

— Eu sei… — Admiti. — Mas sou eu que estou atrasando todo mundo. Volto em uns minutos.

Virei às costas e deixei os dois garotos parados ali, conversando. Philip não olhou outra vez para mim, então conclui que ele estava realmente bravo. Eu, porém, não estava preparada para vê-lo bravo. Nós nos conhecíamos há praticamente quinze dias? Menos? Não queria que o cara que trabalharia comigo até o fim das gravações, em quase todos os dias dos próximos meses, me odiasse e me achasse uma antiprofissional da vida.
Continuei caminhando de cabeça baixa até Vic puxar meu braço.

— Te desejo toda a sorte do mundo. — Foram suas palavras antes de continuar andando até os fãs.

Eu devia estar muito, muito ferrada.

Dei mais alguns passos só pensando por quanto tempo Philip agiria daquele jeito.
Meu celular vibrou em seguida com uma mensagem de .

“Se você sobreviver a isso, vai ver como uma entrevista pode ser fácil, fácil Xx”.

 

Nota da Autora: Olá, gente bonita, tudo bem? Só uma explicaçãozinha, essa história da Galinha/Galo Azul é verdade. Quando fiz intercâmbio e fui para a Trafalgar Square, a primeira coisa que eu e minhas amigas vimos foi o troço gigante azul num pedestal. Se quiserem ver a foto é só ir no Google>Trafalgar Square 2014> fotos e vai aparecer a Galinha. Pode confiar!

E então, gostaram do capítulo? : ) Espero que sim! Comentem aí embaixo o que estão achando.
Beijos e até a próxima!

 

 

Capítulo 7
 

“No one ever lied straight to your face
 

And no one ever stabbed you in back”
 

Querido Diário…

chega em Londres hoje à noite!
Estou extremamente ansiosa para que o dia termine de uma vez e eu possa finalmente encontrar minha amiga depois de tanto tempo! Estou louca de saudades dela. Provavelmente a conta do meu celular prova isso com orgulho! Nunca fiz tantas ligações a ela na minha vida… Seja por facetime ou ligações normais, ela é a primeira da lista.
Porém, as coisas boas vão demorar a acontecer. Minha sexta feira (hoje) está simplesmente abarrotada. A lista é bem grande, tive até que montar uma agenda para conseguir me programar melhor:
09h00min 🡪 Academia.
12h00min 🡪 Almoço com Rachel para discussão do cronograma da próxima semana e dicas sobre a entrevista de hoje. Pegar o roteiro do próximo episódio também.
13h30min 🡪 Aula de tiro ao alvo.
14h30min🡪 Voltar para casa e falar com Laura e Leonard como o combinado.
16h15min🡪 Entrevista para a Seventeen Magazine.
21h20min🡪 Desembarque de na estação de Londres.
Depois de listar organizadamente todos os meus afazeres, só tive certeza de duas coisas: 1ª Eu vou estar quebrada mais tarde. 2ª Eu precisarei de muito café. Começando desde já.
A única coisa que me incomoda verdadeiramente é essa tal entrevista, que eu espero do fundo do meu coração que não mostre meu lado desastrado de ser, passando vergonha na frente de tanta gente. Ah, e tem também Philip, que ainda deve estar me xingando até a quinta geração.
Desde a gravação na Trafalgar Square ele tem me olhado torto, calculado cada movimento meu, evitando que eu saísse da programação por sequer dois segundos, como se fosse meu segurança ou quem sabe até meu responsável legal. – Não esquecendo também que meu Hairstylist resolveu me apelidar de moleza –. Acho que ele mudou totalmente a visão que tinha de mim.
Mas eu vou aprender a lidar com isso… Acho.
Agora preciso terminar de me arrumar antes que eu me atrase para – o inferno da – a academia. Ou quem sabe até desista de ir…
Com amor,

*
— Pode tirar essa sua cara de bunda. — Foi a primeira coisa que Rachel disse quando se sentou na cadeira de frente para a minha no restaurante relativamente cheio.

— Não dá, eu nasci com ela, e ainda não tenho grana para fazer plástica. — Respondi sem tirar os olhos do cardápio.

— Haha. Como você é engraçada, ! Já te falaram isso antes? — Neguei ainda sem encará-la. — Que bom, porque seria mentira.

— Por que não vamos logo para o que interessa? — A apressei.

— Eu sei que você não gosta nem um pouco da academia, mas não jogue esse ódio para cima de mim.

Suspirei derrotada e fechei o menu, colocando-o sobre a mesa e a olhando.

— Certo, desculpa.

— Tudo bem, mas sorria mais, . Faz bem pra alma. — Ela fuçou sua bolsa e tirou de lá o script. — Primeira parte feita. Agora vamos conversar sobre a semana que vem, okay? Então depois você vai seguir para o estúdio que está sendo preparado pela Seventeen Magazine, cujo endereço está no seu celular. Você vai fazer cabelo, maquiagem e figurino lá. Vai ter um ensaio de fotos para a edição da revista, e depois vão finalmente fazer a entrevista.

— Certo. — Assenti várias vezes seguidas. — Minhas mãos já estão suando.

— Olha, não tem com o que se preocupar. Vão ter quatro pessoas ali, se não souber alguma resposta, sorria, fique em silêncio e passe. Alguém responderá no seu lugar. Vai dar tudo certo, você vai ver. — Sorriu e se recostou na cadeira.

— Como que funcionam essas entrevistas? — Perguntei.

— Não sei bem. — Ray passou as mãos nos cabelos e os jogou sobre os ombros antes de responder. — Provavelmente vão perguntar o que vocês estão achando das gravações da terceira temporada. Vão tentar descobrir algum spoiler, e acho que é isso aí. Vai ser fácil.

Claro que ela pensa assim, pensei. Não é ela que está sob pressão.

Deixei que Rachel continuasse a falar enquanto esperávamos nossos pedidos chegarem e eu trocava mensagens com . Ela parecia estar tão animada quanto eu e não via a hora de terminar o turno do trabalho para que pudesse pegar as malas e vir pra cá.

Tentei convencê-la a arrastar Luke para Londres também, mas imaginei que aquilo não se concretizaria. Por algum motivo ele realmente gostava de estudar. Que tipo de doença ele tinha? Não sei.

— Sabe o dia da Oxford Street? — Rachel perguntou com os olhos fixos no celular.

— Como esquecer… — Comentei, rindo fraco.

— Quem te segue no Twitter adorou o que você fez. Até alguns sites falaram sobre isso. Quer ver os comentários? — Balancei a cabeça e peguei seu telefone.

Eu não entrava no Twitter desde o dia que havia publicado a foto, simplesmente porque eu não era muito simpatizante de redes sociais, então provavelmente ele seria esquecido a maior parte do tempo.

Mas quando comecei a ler os comentários, percebi um sorriso crescendo no meu rosto a cada mensagem. As pessoas estavam falando coisas boas, como se realmente gostassem de mim. Era gratificante saber isso. Eu definitivamente estava me sentindo melhor agora.

— Eles estão sendo legais, não estão? — Ray sorria enquanto me olhava.

— Sim! Eu estou tentando associar isso direito… — Falei, sem desviar os olhos do conteúdo no celular.

— As coisas não são tão ruins assim, . Claro que vão ter momentos que você vai ter vontade de desaparecer, mas aproveita o começo enquanto tudo está lindo e maravilhoso.

Concordei ainda com os olhos presos na tela. Essa era a reação das pessoas vendo apenas algumas fotos, imagine então quando o programa fosse ao ar? De repente eu tinha esquecido todo o nervosismo da entrevista, logo substituído por uma ansiedade sem limites para a transmissão da série. Aquilo estava sendo sem dúvida melhor do que eu imaginava.

Só esperava não estar pensando isso cedo demais…

*
Eu tentava entender de onde aqueles seres humanos tiravam tanta energia.
Tinham tantas pessoas andando de um lado para o outro, que ficava difícil se locomover e descobrir para onde seguir. Graças aos deuses que a parte mais complicada já tinha passado, e agora eu apenas observava a movimentação.

Sei que talvez eu já devesse estar acostumada a tudo aquilo, mesmo porque ainda em Brighton era algo do dia a dia observar a preparação para um Photoshoot, só que nada nunca tinha atingido algo naquela proporção. Pois a partir do momento em que dois quintos do One Direction estão prestes a entrar no local, o número de pessoas pareceu ser multiplicado, logo podendo comparar todo o set a um formigueiro humano.

Era certo que eles procuravam alcançar a perfeição, mas era certo também que tudo aquilo estava extrapolando para o exagero. Eu duvidava de verdade que aqueles dois fossem reparar em metade das coisas que aquele bando de gente estava providenciando.

Provavelmente nem a pessoa mais detalhista do mundo repararia.

Até o momento eu esperava, já de frente para a penteadeira, o resto do elenco da série aparecer para podermos, finalmente, tirar as fotos e fazer a entrevista.
Eu estava nervosa. Estava sentindo os dedos das mãos suarem e o coração palpitar forte.

Victoria irrompeu o ambiente a passos largos, passando apressadamente pelas prateleiras e araras de roupas, logo ocupando a cadeira ao meu lado com as bochechas coradas e respiração forte.

Ela sim parecia com um dos empregados daquele lugar.

— Amore! Desculpe o atraso. — Falou ofegante, enquanto passava as mãos no cabelo.

— Tudo bem, Vic. Não estou aqui há tanto tempo assim. — Dei de ombros. — Os garotos ainda nem chegaram. Não vamos poder fazer nada até eles aparecerem.

— Mas são duas bonecas mesmo… — Ela falou irônica. — Ainda bem que não estamos na première de The Black Side. Gregory estaria louco com o atraso deles! Subindo pelas paredes, provavelmente.

— Gregory? Louco? — Franzi o cenho. — Não parece o tipo de palavras que combinam na mesma frase.

, você não tem noção do que está dizendo! — Arregalou os olhos, divertida. — Aquele homem pode passar de “melhor diretor do mundo” para “seu pior pesadelo” em cinco minutos.

— Como Gregory é bravo? — Perguntei curiosa. — Digo, Sr. Colleman parece ser um sinônimo da paciência.

Vic riu alto.

— Só parece mesmo.

— Como assim?

— Gregory nervoso, irritado, contrariado, é o mesmo que sarcasmo puro combinado com paciência zero. — Falou ela. — É algo tão profundo que chega a ser insuportável! Ridículo, escroto… Um novo nível de chatice extrema.

— Pior que Philip na preparação da filmagem dessa semana? — Arqueei a sobrancelha esperando uma resposta negativa.

— Pior? — Victoria estalou a língua no céu da boca. — O que você viu essa semana não foi nada. Philip só está estressado porque agora tem trabalho dobrado com você.

— Comigo? — Ela revirou os olhos.

— Ele está tentando lidar em ter que trabalhar agora com duas pessoas. E irritado por você ainda não ter entrado no ritmo das gravações. — Victoria justificou. — Mas o senhor Colleman nervoso é uma coisa que você pode conviver sem… Pelo menos é isso que eu recomendo, caso você não queira levar bronca e ouvir seus gritos enfurecidos.

Fiz uma nota mental de sempre fazer o que o chefe mandava.

— Então nada de irritar o diretor?

— Nunca em um milhão de anos. — ocupou a cadeira do lado de Vic.

Nós duas viramos os olhos em sua direção, um tanto surpresas. Não esperávamos que ele aparecesse assim tão de repente.

— Será que é difícil avisar quando está chegando? — Perguntei, revirando os olhos com a intrusão do garoto.

— Desculpem minha falta de atenção — Ironizou o moreno. —, achei que já tivessem notado meu brilho.

— É incrível como esse seu ego gigante não conseguiu te sufocar. — Falei voltando meu olhar para meu próprio reflexo no espelho.

— Ah não… Por favor, fiquem quietos por alguns minutos! Preciso de um pouco de paz. — se sentou ao lado do amigo. Assim ocupando a última cadeira vaga.

— O que você tem? — Minha colega de trabalho perguntou.

Ele soltou um suspiro cansado e abaixou a cabeça sobre seus braços.

— Passamos o dia e tarde na gravadora. — começou a explicar. — Criando letras, escolhendo melodias, gravando músicas… Temos um prazo para entregar o próximo álbum, mas ainda faltam vários detalhes. Minha cabeça está explodindo.

Não havia entendido muito bem o que ele quis dizer com isso, mas assenti em sua direção no mesmo momento em que continuou de onde o amigo tinha parado:

— Temos algumas semanas para entregar o que falta. Não acho que vá ser difícil, até porque muitas das músicas nós compusemos e gravamos durante a última turnê, mas a pressão dos últimos dias tem sido grande, cara. — Completou

com os olhos vidrados no celular.

— Estão correndo contra o tempo… — Victoria deixou os lábios numa linha fina. — Boa sorte, garotos. Repassem o recado para os outros três também.

Eles assentiram, mesmo que distraídos.

— Quantas músicas faltam? — Perguntei.

— Três completas e o complemento de duas. Sem falar nos ajustes. — A voz de soou abafada. — Mas parece que são dez.

— Vocês são bons. Tenho certeza que vão conseguir terminar isso até mesmo antes do prazo. — Incentivei.

— Obrigado pelo apoio. — levou a mão ao coração. — Estou emocionado com sua fé em nós. Comovido também.

— Ridículo… — Murmurei mais para eu mesma.

— Que seja isso mesmo. Preciso de uns dias de descanso. — Reclamou , ainda com a cabeça sobre a penteadeira. — Na verdade só umas horas de sossego já estão de bom tamanho.

Eu teria dito para ele aproveitar esse tempo que estávamos tendo agora para tirar um cochilo, mas da mesma forma sorrateira que havia brotado, o reflexo do meu cabeleireiro surgiu no espelho a minha frente.

— Nada de descanso pra vocês agora! — Philip disse, fazendo com que todos nós notássemos sua presença, vindo acompanhado também de uma mulher loira, alta e magra e das suas já conhecidas assistentes. — O trabalho de vocês ainda não acabou por hoje, agora parem de mimimi.

— Sim, senhor. — Vic respondeu de imediato, se colocando ereta na cadeira.

— Você também, palidez sobrenatural. — Ele se referia a mim? não tentou segurar a risada. — Temos uma hora pra deixar a aparência de vocês magnífica, agradeceríamos se tornassem esse trabalho um pouco menos difícil.

Deixei que ele dissesse o que quisesse. Contanto que as próximas horas passassem logo e tudo ocorresse bem, eu não me importava com qualquer outra coisa.

*
Fui tratada igual a uma boneca.

Saias rodadas, rendas, saltos, babados, tons bem claros. Foi esse o estilo estipulado para mim no photoshoot.

Eu igual a uma patricinha. Será que eu parecia com uma?

, como sempre, vestia suas típicas jaquetas estilosas que traziam aquela imagem de bad boy, exalando ainda mais aquele ar convencido que só ele tem.

e Victoria estavam igualmente bem vestidos e arrumados, ela pendendo entre um moderno dark e ele muito próximo do crush colegial. Cada um com um tipo de identidade visual. Formávamos um quarteto engraçado, de certa forma.

E foi logo depois disso que começamos a trabalhar de verdade. Hora das fotos.
Ouvir música e se soltar enquanto tem uma câmera na sua frente com flashes incansáveis é algo que eu gostava de verdade, e de certa forma, já estava acostumada. Por isso esse período dedicado às fotografias me fez feliz. E fiquei até aliviada por nenhum de nós ter caído no chão ou coisa parecida dessa vez. Nos focamos em fazer piadas sem graça e agirmos da forma mais natural possível para não ter que apelar igual a última vez.

Por isso essa foi a parte fácil.

Difícil mesmo foi sentar no sofá junto com os outros depois que as fotos acabaram e esperar pela repórter como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

Quando eu vi uma mulher alta, morena, bem vestida com um gravador na mão e um sorriso no rosto, eu soube que o pesadelo começaria aqui e agora.

— Olá, chuchus. — Todos nós nos levantamos para cumprimenta-la. — Eu me chamo Ivy, e quero dizer que é uma honra estar aqui com os protagonistas e novos integrantes da série The Black Side. Já posso dizer que sou fã de vocês?

— Ah, que amor. — Vic sorriu docemente para a mulher, que assim que cruzou as pernas, se preparou para pular a parte que não lhe interessava e partir para a ação.

Ela ligou o gravador, nos olhou com um sorriso enorme e tomou ar:

— Quero saber antes de tudo: estão animados com a terceira temporada? — Foi sua primeira pergunta.

— Sim, até porque tivemos muitas mudanças desde os últimos meses, então consequentemente várias adaptações. — Vic gesticulava enquanto falava. — Mas as coisas estão indo bem. Tudo encaminhado para ótimos episódios, vocês vão ver.

Sorria e acene, era o que minha consciência falava.

— Eu sei que as fãs do One Direction estão ainda mais animadas com a participação do . Como está sendo essa experiência para você? — A morena se virou parcialmente para o garoto que sorria entusiasmado.

— Tudo tem sido muito divertido, principalmente por meus colegas aqui serem todos muito bacanas. Só é uma pena minha participação ser curta. Alguns episódios apenas. — sorriu de lado.

— Então quer dizer que você é temporário? Até eu estou chateada agora! — Ivy colocou as mãos na cintura, como se estivesse realmente brava com aquilo.

— Mais ou menos isso, sabe? Nós vamos lançar um novo CD em breve, estão nosso tempo anda bastante apertado. — tentava explicar. — É difícil organizar tantas coisas num espaço tão pequeno.

— Estamos sempre ocupados. — começou a falar. — Algumas coisas nós fazemos porque gostamos, mesmo que não tenhamos tempo, como agora. Soa estranho, mas funciona geralmente assim.

— Isso tudo por experiência própria? — A repórter estendeu a pergunta para .

— Sim. Comecei a trabalhar na série como uma experiência de trabalho. Saber como era e etecetera e tal. No fim a série fez tanto sucesso, e eu me diverti tanto trabalhando, que não pude escolher entre compor, cantar e atuar. Acho que não vai ser diferente com .

— Garotos mil e uma utilidades, então? — Ivy perguntou sorrindo sugestiva e esticou as pernas, recostando no sofá.

— Acho que não… — Ele pareceu não ligar de verdade.

— Algumas pessoas estudam e fazem faculdade. Outras nascem com talento e se
transformam em integrantes do One Direction. — Eu não pude evitar de rir.

Os dois garotos ficaram sem graça, com sorrisos tímidos no rosto.

— E fala sério, mesmo com tanto talento nenhum de vocês está namorando? — Percebi que ela se referia a todos.

Nós nos entreolhamos rapidamente.

— É, todos solteiros aqui. — Vic respondeu por nós.

— Credo, gente! Quanto desperdício. — Ela fez uma careta.

— Acho que obrigada. — Falei rindo fraco.

— Mas e você, ? — Ela se virou em minha direção. — Como foi saber que você trabalharia ao lado de grandes celebridades como esses três?

Pensei que teria sido melhor ter continuado em silêncio, mas então ergueu um dos cantos da boca com sarcasmos e levantou as sobrancelhas sugestivamente em desafio. Isso me irritou, mas não deixei transparecer.

— Eu fiquei extremamente feliz com essa oportunidade de trabalho. Digo, sou a novata aqui, e até o momento eles só tem me ajudado, sabe? Não poderia ter pedido uma experiência melhor do que essa que eu estou vivendo. Está mudando minha vida completamente. — E coloque mudanças nisso,, completei mentalmente.

— Você mudaria alguma coisa? — Ivy pareceu curiosa para saber, e eu nem um pouco empolgada para responder.

— Não, eu não mudaria nada. — Abri meu melhor sorriso, mostrando todos os dentes, esperando ter soado convincente.

Todos ali pareceram acreditar, e, sendo essa a intenção, fiquei mais aliviada.
Claro que eu mudaria algumas partes. Colocando como tópicos principais aquelas em que a presença do me tirava do sério, e a que minha vinda para cá havia sido meio impulsiva por conta de problemas familiares.
Mas quem precisa saber disso? Detalhes à parte.

— Eu vi as primeiras fotos de vocês para a promoção da terceira temporada, achei elas super diferentes! Vocês parecem se divertir muito juntos. — Isso porque ela não vê as filmagens.

— Sim, nós temos criado uma conexão bastante divertida entre nós. — respondeu.

— Com certeza os últimos dias têm sido bastante engraçados. — Victoria completou.
Novamente apenas sorri e concordei.

— E vocês tem algum spoiler para contar? , como vai ser seu personagem?

— Ah… Ele vai ser um nerd de primeira. — Riu. — Um velho amigo do Ian, mas vai acabar causando alguns problemas…

— Que tipo de problemas? — Os olhos de Ivy brilhavam.

— Só assistindo pra ver. — Eu ri, porque a morena fechou um pouco o sorriso, nada satisfeita com a resposta.
— Fale sobre como vai ser Ian nessa temporada, . — A repórter pediu, e ele apoiou os cotovelos no joelho.

— Ian vai estar um pouco confuso com a volta de uma pessoa… meio indesejada. — Ele me olhou com o canto dos olhos. — Por isso os fãs podem esperar bastante briga pela frente.

Ela voltou a abrir um imenso sorriso e se virou para minha amiga.

— Victoria… vai nos revelar algo?

— Olha… Só vou concordar com e dizer que vai ter muita briga pela frente, porque eu tenho passado muitos dias na academia e fazendo algumas aulas extras de luta. Pode acreditar que tem gente que vai apanhar muito nessa série. — A mulher pareceu surpresa com a resposta de Vic e riu em seguida.

— Tudo culpa da pessoa indesejada… — completou com um meio sorriso.

— Eu já saquei que essa pessoa é a personagem da , mas a pergunta que não quer calar é: vai ter algum romance entre o seu personagem e o dela? — Assumiu a pose curiosa.

e Victoria riram. Ela escondeu o rosto entre as mãos. negou, claramente divertido.

— A gente se odeia. — Respondi rápido.

— Sem chance. A Kate é um porre. — Ele contribuiu.

— Ai, gente, assim vocês acabam com as minhas esperanças! — Ri do exagero dela. — Vocês estão falando sério?

— Eles estão em uma linha tênue. — Victoria disse sorrindo.

— Mas, como já foi dito antes: só assistindo para descobrir. — Continuou .

— E o que mais eu e o pessoal de casa podemos descobrir assistindo a série?

— Bom… Os personagens vão viver momentos intensos. — Vic deu um meio sorriso. — Mas os detalhes cada um vai ter que descobrir por si.

— Então é isso, gente. Vocês atiçaram ainda mais minha curiosidade. — Ela levantou as mãos enquanto falava. — Aguardaremos ansiosamente pelo primeiro episódio.

Ela desligou o gravador, e eu soltei um suspiro de alívio. Havia sido suportável. Olhei para Vic, que sorriu e arqueou as sobrancelhas, empurrando meu ombro em seguida. Ela bem que tinha dito que não ia ter nada demais.

— Ai, chuchus! Vocês não imaginam o quão curiosos estamos todos nós para essa série! — Ivy bateu palmas e sorriu. — Já tem data para o primeiro episódio ser lançado?

Nós nos entreolhamos. Já tínhamos a data sim, mas Gregory havia deixado bem claro que ela só seria dita no dia da coletiva de imprensa que, graças a Deus, ainda não tinha sido marcada.

— Isso é segredo. — Começou Victoria. — Mas estamos todos nos preparando para a Première.

— Então a Première tem uma data? — A morena insistiu e arrancou risadas de nós quatro.

— A gente te avisa, não se preocupa. — riu e começou a se levantar. Aparentemente a entrevista havia chegado ao fim, e eu sorria cada vez mais por causa disso.

— Chuchus, muito obrigada pelo tempo de vocês, a revista agradece a disponibilização de todos por virem aqui hoje. Não imaginam minha felicidade de estar falando com vocês. — Sorri e me perguntei se ela, só por curiosidade, costumava chamar todos seus conhecidos de legumes como estava fazendo com a gente.

— Ah, obrigado. O apoio que nós estamos recebendo tem sido incrível. — A voz de soou baixa e rouca, acompanhada por um meio sorriso.

— Eu não diria o contrário! Se vocês vissem a loucura de fãs que temos do lado de fora, ficariam de boca aberta. — Ivy comentou com os olhos pregados em e .

Eles tinham esse efeito sobre as mulheres.

— Têm fãs nossas aqui? — Eu já estava sorrindo antes mesmo da resposta.

— Sim, minha chuchu. É só olhar pela janela e vai ver uma pequena multidão de pessoas.

— Vem, . Vamos dar um tchauzinho para esse povo. — Vic me puxou pelo pulso, levando-me de encontro à janela no mesmo instante em que e se levantaram para também nos acompanhar até lá.

Realmente a visão que tive me surpreendeu. Tinha um tipo de corredor que separava as pessoas da entrada do lugar. Uma grade, talvez, eu nãos saberia dizer daqui de cima. Mas a parte que mais me chamou a atenção foram as várias pessoas, muitas mesmo, que estava logo ali, gritando, sorrindo, segurando cartazes e canetas, esperando que fossemos falar com elas.

— Olha que legal o cartaz daquela ali. — apontou.

— Não cara, se liga só naquela garota ali no canto. — Os dois riram.

Ficamos observando os fãs por mais alguns minutos, nos divertindo com a criatividade sem limites que eles tinham.

— Acho que poderíamos descer e dar alguns autógrafos, o que acham? — Perguntei entusiasmada.

Vic deu de ombros, mas não me olhou quando respondeu:

— Acho que sim. Mas é melhor pegarmos alguns guarda chuvas. Parece que vai chover um pouquinho. — Ela apontou para o céu encoberto de nuvens cúmulos nimbos, que até então, nenhum de nós tinha notado.

— Com pouquinho você quer dizer um dilúvio? — falou divertido, mordendo o lábio inferior.

Um relâmpago brilhou e o som estrondoso do trovão ecoou por Londres.
Recuei um passo das janelas.

— Parece que vai ser uma bela tempestade. — Concordei com , acenando com a cabeça.

— Nossa, olha a cor desse céu! — Resmungou .

— Que cor é essa? Parece preto, mas não é. — Vic pareceu contraditória.

— Pode ser cinquenta tons de cinza.

Todos nos viramos para , que escondia um riso e dava de ombros para o que ele próprio havia dito.

— Nossa que piada ruim, cara! — Exclamou , e eu tive que concordar.

— Essa foi ruim demais até pra você, . — Victoria completou.

Outro trovão nos pegou de surpresa e eu encarei a janela, alarmada.

— Er… É melhor eu ir para casa. — Dei mais um passo para trás. — Tá ficando meio tarde e eu ainda tenho que chamar o táxi… Melhor me apressar.

— Ah que bobagem, . — Vic me repreendeu, também me impedindo de sair.

— Juro que não é, Vic. É que eu deixei as janelas abertas e não quero que todos os cômodos fiquem molhados por causa da chuva forte. — Usei a melhor desculpa que eu pude inventar em cinco segundos. Entretanto ela soou horrível até mesmo para os meus ouvidos. — Vai estragar meu apartamento novo.

— Que perda lastimável seria. — Ignorei a ironia de , mantendo minha atenção nos outros dois.

— Qualquer coisa é só passar um pano e tá tudo certo. — deu de ombros.

— Ótima solução. — Revirei os olhos, rindo. — Mas eu preciso mesmo ir.

— Falando em apartamento novo, não vai nem me convidar para conhecer o lugar? — A garota ao meu lado se interessou em mudar o rumo da conversa.

— Você até parece ofendida desse jeito, Victoria. — Respondi.

— Não é isso… É só que você nunca falou nada sobre, sabe? — Ela tentou se explicar, fazendo uma careta engraçada.

Eu já estava começando a achar tudo aquilo bem divertido.

— Ah, uma coisa que você pode não ter percebido ainda é que ela é meio entrona. — falou sobre Vic, deixando-a ainda mais sem graça do que já estava.

— Compre cadeados e coloque na casa inteira.

— Cala a boca, ! — Ela ralhou, jogando sua garrafa de água vazia em , que a pegou antes mesmo de ser atingido pelo plástico. Vic revirou os olhos mais uma vez, mal humorada.

— Se quiser ir para a minha casa, pode ir… — Fui interrompida por relâmpagos iluminando o céu enquanto o atravessava e outro trovão anunciando a tempestade. Eu odiava tempestades. — Mas temos que ir logo!

— Aceito o convite. — A garota sorriu vitoriosa. — Vou pedir para meu motorista nos deixar em seu flat.

— Estaremos logo atrás de vocês. — colocou a jaqueta, a mesma da sessão de fotos, que estava no encosto de uma cadeira e se posicionou ao lado de que parecia distraído digitando no celular.

— Mas eu não convidei você.

— Ah, fala sério, Ruivinha. Eu não preciso de convite.

Eu o fitei da mesma forma que qualquer pessoa faz quando alguém mete o nariz onde não foi chamado. Com indignação.

— Precisa sim. — Respondi de prontidão, cruzando os braços na altura do peito.
Aparentemente eu não soei nada intimidadora, pois ele gargalhou. revirou os olhos e falou:

— Vou tomar conta dele para não extrapolar, . — Colocou a mão no meu ombro, se divertindo com a situação. — Pode confiar.

— Eu confio em você — Respondi sincera. — Não confio nele. — Apontei para .

O moreno se virou para mim e riu com sarcasmo.

— Temos algo em comum, então. — Comentou.

— Que bom. Estou felicíssima.

— Ah, vamos lá, Ruivinha. — Falou com ceticismo. — Não faço o tipo ladrão e sequestrador. Pode acreditar. Posso até te dar minha fixa criminal, se quiser. Não vai ter nada nela.

Pensei por um minuto e logo me dei por vencida.

— Por que insiste tanto em ir?

— Porque eu não tenho mais nada pra fazer.

— Nossa, . Obrigada, devo me sentir lisonjeada por isso?

Victoria apareceu, ainda sorrindo, no momento seguinte, tirando as chances do moreno de retrucar qualquer coisa mal educada. Fiquei satisfeita com isso.

— Tudo pronto. Ele está nos esperando na entrada principal.

— Mas a entrada principal não é onde estão os fãs? — arqueou uma sobrancelha.

— Essa mesma! — Concordou ela, animada.

— Então é melhor irmos logo. — esfregou as mãos.

— Temos que falar com uma legião de pessoas antes de ir pra casa.

— Minha casa. — O corrigi.

Mas ele não ligou. Logo já estávamos deixando aquele lugar e rumando para meu apartamento e para longe daquela tempestade que logo começaria.

*
A primeira coisa que eu fiz quando cheguei em casa foi de fato fechar todas as janelas. Não era uma total mentira.

Estava indo tudo bem. Desde que deixamos o local da entrevista, falamos com os fãs e viemos para meu apartamento. A chuva ainda só ameaçava com seus barulhos fortes e a falta de luminosidade. Até então nada tão ruim.

Vic, como já tinha avisado , tinha fuçado até meu closet. E eu nem tinha chegado a dizer que tinha um. Pelo menos ela havia elogiado minhas roupas, por isso a perdoei por não saber se controlar.

Os assuntos quais conversávamos eram no mínimo esquisitos. Não podia esperar menos que isso reunindo pessoas como nós. A televisão tinha sido ligada em algum momento, por alguém que eu não sabia quem, mas ela estava sendo totalmente ignorada por nós quatro, que agora estávamos falando sobre nossos anos escolares. Até nos interromper:

— Quer que a gente morra de fome? — Olhei para com cenho franzido. — De sede também?

— Do que você tá falando? — Procurei entender onde ele queria chegar.

— Faz quarenta minutos que nós chegamos e você não ofereceu nem uma bolacha de água e sal.

Revirei os olhos.

— Ah, fala sério.

— Tô falando! Que péssima anfitriã você é.

Me virei para .

— Você está com fome? — Ele negou e deu de ombros. — Victoria, você está com fome? — Gritei.

— NÃO! — Respondeu, ainda dentro do meu closet.

Me virei de novo para com um sorriso presunçoso.
Então Vic reapareceu no corredor usando um dos meus óculos escuros.

— Mas eu tô com sede.

e gargalharam, enquanto eu tentei manter a expressão séria e evitar que minhas bochechas corassem. Eu estava quase me sentindo bem em poder dizer algo em que estava errado, mas a colaboração dos outros para isso acontecer foi mínima.

Levantei-me ainda contrariada e fui até a cozinha. Depois de pegar qualquer coisa para oferecer a aqueles três, além de uma jarra com limonada, retornei a sala e coloquei tudo na mesa de centro.

— Me desculpem pela falta de educação. — Revirei os olhos, não gostando de ter que pedir desculpas por um motivo tão besta como aquele.

— Sem problemas, amore. — Victoria sorriu e pegou o copo com a bebida. — Sabe que a gente ama te zoar, né?

Dei de ombros com um lado da boca levantado em um meio sorriso.

— Tenho percebido isso.

— Imagine eu que tenho que aturar esse dois juntos há mais tempo que você. — Comentou .

Os três começaram a rir e eu os acompanhei, iniciando uma suposta discussão séria sobre o papel de um amigo. Mas não chegou a durar muito, pois logo os três se colocaram de pé, Vic ainda com meus óculos, e começaram a se despedir.

Já eram oito horas da noite, mas com a escuridão proporcionada pelas nuvens extensas, parecia ser bem mais tarde e eu ainda precisava falar com para poder busca-la na estação.

— Obrigada por ter deixado a gente te atormentar. — Disse Victoria recolhendo sua bolsa.

— Tudo bem, vocês foram companhias divertidas. Voltem quando quiser. — Falei sorrindo, então olhei para . — Menos você.

— Tudo bem, a gente deixa ele no carro da próxima vez. — A frase de me fez sorrir, sendo acompanhada pela garota também.

— Tchau, . — Despediu-se Vic. — Até mais.
Eu estava com as palavras na ponta da língua, pronta para dizer “tchau” quando escutamos outro trovão ridiculamente forte, de tremer os vidros das janelas. Todos paramos por um momento, estáticos. O barulho de chuva caindo torrencialmente veio em seguida.

Voltamos os quatro para a sala e vimos, pela enorme abertura, a tempestade se despejando do céu. De queixo caído, os outros tinham o olhar fixo nas pedras de gelo que despencavam junto da água. Eu não conseguia enxergar nada além das gotas grossas e do granizo.

— Cacete! — disse de olhos arregalados.

— Calma gente, sem pânico. — falou . — Aposto que daqui a uns dez minutos já vai ter passado.

Logo em seguida nossa atenção se virou para a televisão, que anunciava no jornal:

Infelizmente comunicamos que a tempestade que está caindo em Londres e em alguns locais vizinhos, está sem previsão para terminar. Os meteorologistas de plantão afirmam que a chuva e os fortes ventos não vão amenizar, a tendência é piorar nas próximas horas. Aconselhamos a todos que permaneçam em casa e abrigados até o próximo comunicado…

Todos adquiriram uma expressão de incredulidade. Eu suspirei, me dando por vencida.

— Querem dormir aqui hoje?

*
Definitivamente eu odiava chuva! E odiava muito.

Os três teriam de passar a noite no meu apartamento. A menos que quisessem esperar até meados das duas ou três da madrugada para conseguirem sair daqui, porque a tempestade lá fora parecia não querer dar trégua. Até parecia que abriram a torneira no céu, e, acidentalmente esqueceram-se de fechá-la.

Graças a ela também, a viagem de , e todas as outras programadas para hoje tinham sido adiadas para amanhã de manhã, já que o funcionamento dos trens nas ferrovias seria impossível, e igualmente para os passageiros que chegassem, pois não haveriam condições de andar na rua daquela forma.

Alguns outros comunicados no jornal tentavam prevenir que acidentes de grande porte acontecessem. Fomos avisados que seria possível a falta de energia elétrica em vários pontos de Londres, então meus amigos e eu já havíamos nos precavido e buscado duas lanternas e algumas velas para a iluminação quando isso acontecesse.

Até o momento a luz estava em meia fase. Faltava pouco para que ela acabasse de vez.

— Antes que eu me esqueça — Comecei a dizer, atraindo a atenção e todos. —, além do meu quarto, ainda tem outros dois. Um desses é suíte, o outro não.

— Eu fico com a suíte! — Vic lançou seus dois braços para o alto e nós a encaramos de olhos arregalados.

— Calma, menina. — Disse sem mudar a expressão facial.

— Só garantindo minha noite de sono. — Ela deu de ombros.

— Tudo bem… — Concordei, então virando para os garotos. — Vocês ficam com o quarto sem banheiro. Tem duas camas de solteiro nele. Certinho pra vocês dois. — Falei. — A menos que queiram dormir juntos, aí é só juntar as duas. Eu não me incomodo.

Comecei a rir sozinha sendo acompanhada por Victoria quando uma almofada atingiu minha cabeça.

— Hey! — Disse indignada já imaginando quem tinha sido.

— Sem palhaçada. — Falou .

— Sabe brincar não? — Eu estava chateada, e isso era perceptível na minha voz.

— Sei, mas eu queria jogar essa almofada em você já fazia um tempinho.

Não começamos a discutir como de costume, pois a luz se foi de vez e nos interrompeu. Agora não sobrara nem sequer um terço da maldita energia para iluminar o ambiente.

Recorremos então às lanternas e as colocamos na mesa de centro, onde podia iluminar boa parte de nós e da sala de estar. Tentamos iniciar alguma conversa com a esperança de passar o tempo mais rápido, já que nenhum mostrava sinal de cansaço agora (mas pela cara de todos mais cedo, eu apostava o contrário), e provavelmente ninguém estava interessado em apenas escutar os trovões tão agradáveis proporcionados lá fora.

Quando finalmente achamos um assunto em que todos pareceram interessados em comentar alguma coisa, as opiniões divergentes começaram a deixar alguns de nós um tanto quanto irritados. Talvez por não concordar cem por cento com a ideia de outro, mas sendo sincera eu me sentia tão confusa quanto qualquer um naquele momento.

— Ah, qual é?! — Eu não conseguia acreditar no que eu ouvia.

— Sério, eu não minto. Não do jeito convencional. — Respondeu e aproveitei para soltar uma risada nasalada.

— Então você acabou de mentir. — Afirmei divertida. Ele pareceu revirar os olhos, mas era difícil dizer com apenas a iluminação das lanternas.

— A concepção de mentira de é um pouco diferente da de pessoas normais… — Falou .

— Como assim, isso existe? Mentira é mentira em qualquer lugar. — Respondi sentando sobre minhas pernas, me acomodando melhor no sofá.

— Não, Ruivinha. — Ele também pareceu se ajeitar do outro lado oposto da sala. — Eu divido a mentira em duas categorias.

— E quais seriam elas? — perguntei curiosa e descrente.

— Lá vamos nós de novo… — Victoria jogou a cabeça para trás e a cobriu com um dos braços.

— A categoria um: onde se omitem fatos. A categoria dois: onde ela pode ser relacionada a traição. — Respondeu como se já tivesse dito aquilo milhares de vezes.

— E onde entra a mentira universal, a invenção de histórias? Pra mim esse é o resumo perfeito para o significado dessa palavra.

Ele riu debochado.

— A ação de trair não deixa de inventar coisas que não aconteceram. Se você mente inventando alguma coisa para um amigo ou pra alguém que você ama, está traindo a confiança dele ou dela. — Eu estava confusa.

— E como a omissão de algo pode também não ser um tipo de traição? — Perguntei petulante. — Acho que você tem que rever alguns dos seus conceitos.

— Mas eu não disse que deixava de ser uma traição. — Se defendeu. — Só é um pouco mais leve que a invenção de algo que não aconteceu.

— Mas a probabilidade de se descobrir uma omissão é bem maior do que a invenção de qualquer coisa.

— Talvez, mas eu preferiria saber que alguém deixou de me contar alguma coisa para tentar me proteger, por achar irrelevante, ou simplesmente evitar alguma reação minha, do que inventar algo absurdo e tentar me fazer acreditar que aquilo era verdade. — rebateu sem pausa. — Isso em minha opinião, não passa de traição.

— Mas dessa forma, então todo tipo de mentira é uma traição. — Pelo menos era assim que eu estava ligando os pontos.

— Praticamente isso. — Assentiu, como se tivéssemos chegado a algum lugar.

bufou ao meu lado, como se previsse que aquela conversa estava longe de chegar ao fim.

— Pensando dessa forma, então todos nós já fomos traídos. — Conclui.

— Sim, traição de primeiro grau.

— Vai me dizer que dividiu em categorias isso também? — Falei já um pouco irritada.

divide tudo em categorias… — murmurou.

o ignorou e continuou:

— Traição de primeiro grau: quando a pessoa omite algo. — Enumerou com os dedos. — Traição de segundo grau: quando a pessoa usa a mentira para te ferir. Traição de terceiro grau: quando a pessoa usa a omissão e a mentira juntas, com mais alguns outros atos para, em poucas palavras, destruir todos os sentimentos que você tem por ela. Há quem diga que essa última não seja proposital, mas nós aqui sabemos que quem trai, trai consciente.

Parei por um momento, boquiaberta. A forma como ele falou, mesmo com a voz controlada, mostrava claramente que aquilo já havia acontecido com ele e isso o frustrava. Perdi as palavras por alguns segundos. Pensei que talvez eu estivesse me precipitando com meus pensamentos, mas uma pessoa só agiria da forma que ele age se fosse extremamente prevenida ou se já tivesse passado por situações daquele tipo.

Eu acreditava na segunda opção, mas ainda assim senti necessidade de confirmá-la. Então perguntei:

— Como chegou a essa conclusão, ?

— Alguns conceitos seus mudam depois que você vive algumas situações. Por isso é tão difícil confiar nas pessoas.

Silêncio.

— Talvez a confiança seja sinônima de fragilidade… — Supus.

— A confiança é extremamente frágil. Como se fosse feita de cristal, porcelana, algo assim. Qualquer toque pode quebrá-la e às vezes destruí-la. — Sua voz rouca se tornava quase inaudível a cada palavra que ele dizia. — E mesmo se tentar consertar, nunca mais será a mesma. Então talvez seja isso mesmo. Talvez a confiança seja algo importante demais para dá-la a quem não merece. Seria mais fácil se todos soubessem disso antes de cometerem os mesmos erros.

‘s POV

A luz ainda não tinha voltado, mas todos na casa já dormiam. Eu não esperaria coisa diferente, já que se passavam das três da madrugada.

A tempestade havia acabado, mas uma garoa fina ainda caia, e assim como já era de se esperar, não daria trégua tão cedo. Ainda tinham raios e trovões, e graças a eles, e a várias outras razões, eu não conseguia pegar no sono por mais que dez minutos. Por isso estava na cozinha com um copo de água na mão, pensando.

Aquela conversa toda sobre mentiras, traições e confiança, me traziam lembranças. E eu não queria lembrar.

Odiava o fato de manter meus pensamentos em coisas que já aconteceram. Lembranças que não passam de tempo perdido. Em coisas que eu não poderia mais me prender.
Queria poder assumir que eu tinha superado, mas a verdade era que eu ainda pensava nela e nas experiências que tivemos juntos. Isso para mim significava fraqueza.

Dizem que uma pessoa pode acabar com você de mil formas diferentes, mas você ainda se lembrará dela a partir das coisas boas que a mesma te fez.

Eu sentia falta daquilo. E isso era o que mais machucava.

Já fazia meses e eu ainda não tinha conseguido seguir em frente da maneira certa.
Não, eu não choraria. Nem ao menos sentia vontade de gastar minhas lágrimas por alguém que me traiu, quebrou minha confiança e levou boa parte dos melhores dias da minha vida para o quinto dos infernos.

— Aí meu Deus, ! — Levei as mãos ao rosto quando a luz atingiu meus olhos em cheio. — Eu me lembro de ter dito para você ficar a vontade, mas nem tanto!

A voz de estava num sussurro alto, meio indignado.

— Tira esse troço da minha cara — Ralhei irritado. —, e não aja como se eu estivesse pelado, até parece que nunca viu um homem de cueca nessa vida.

Eu não podia ver, mas podia jurar que ela havia revirado os olhos e ruborizado.
abaixou a lanterna e minha vista pode se adaptar a luz do ambiente. Pisquei algumas vezes até conseguir fazer minha visão se focar nela.

— O que faz ainda acordado? — Perguntou curiosa, adentrando a cozinha e se sentando na bancada.

— Vim beber um copo d’água. Estava sem sono. — Dei de ombros. — E você?

— Idem. — Ela suspirou. — Problemas para dormir, então vim beber água também. Será que você pode me dar um copo?

Assenti e fiz o que pediu, entregando a ela logo depois.

— Deve ter sido difícil. — Levantei meus olhos até seu rosto. — Passar pelo que você passou…

— E foi. — concordei.

Alguns segundos se passaram, o suficiente para que a fizesse falar mais:

— Fiquei pensando naquela frase que você disse por muito tempo. — Comentou baixo.

— Não concorda com ela? — Questionei, enchendo meu copo com mais água.

— Pelo contrário. Isso só me fez pensar em mais coisas.

— Que tipo de coisas? — Perguntei com a curiosidade mais clara que a luz da lanterna.

— Do tipo que, a confiança é realmente tão frágil que você não pode dá-la a alguém sem entregar uma parte de você mesmo junto. — Me mantive em silêncio, esperando que isso servisse de incentivo para fazê-la continuar. Eu a fitava sem piscar. — Por isso as pessoas mudam. Roubam partes delas frequentemente, e se sentem com necessidade de preencher esses vazios para não parecerem assim tão vulneráveis. Ninguém gosta de ser visto aos pedaços, com aparência quebrada. Essa forma é a mais fácil de se manterem intactas. E além disso, talvez essa seja uma das coisas que o passado pode nos ensinar, sabe? Porque ele machuca, e machuca muito. Mas ou você foge dele, ou aprende com ele.

bebeu sua água, mas não largou o copo. Percebi que ela me olhava e esperava minha resposta, ou no mínimo, uma avaliação de sua frase.

— Talvez você esteja certa.

— Estou? — Seu tom incrédulo quase me fez rir.

— Sim, acho que está.

Não dissemos mais nada. Terminei de beber minha água em silêncio, até que por fim escutei o barulho dos dois copos baterem no fundo da pia.

Eu nunca tinha pensado daquela forma, e agora que ela tinha dito tudo em voz alta, imaginei que fosse escutar aquilo ecoando na minha cabeça por mais vezes do que eu realmente gostaria.

Percebi que começara a sair da cozinha, levando a luz junto dela, mas mantive meu olhar congelado nos azulejos brancos da bancada.

? — Virei meu rosto em sua direção. — Sinto muito por você… De verdade.

Assenti uma vez e voltei meu olhar para a parede.

Me perguntei se por acaso não teria falado demais naquela noite. Lembro que Victoria e se mantiveram em silêncio enquanto eu discursava sem me calar. Eles só faziam isso quando sabiam que eu estava nervoso ou irritado.

Me perguntei também se, por acaso, meu desânimo e suposta irritação quanto ao assunto era assim tão óbvio. Eu sempre fui cuidadoso o suficiente para não falar demais e dar meias conclusões a quem escutava. Mas independente disso, havia sido a primeira a notar sem que eu dissesse com palavras concretas o que havia acontecido.

E por último, me perguntei se aquele assunto teria realmente acabado naquela madrugada, ali na cozinha. Mas eu sabia, de um jeito esquisito, que a resposta da última pergunta eu tinha. E ela era não.

 

Nota da autora: Oooi, leitores! Repararam que agora Dear Diary tem capa? E que Capa, hein! Hahaha palmas para a Taty B. pela arte!
Digam aí embaixo o que estão achando, logo mais tem capítulo novo!
Beijos e até a próxima 🙂

 

Capítulo 8
 

“Let’s make the most of the night
 

Like we’re gonna die Young”
 

‘s POV

Quando eu acordei de manhã, com grandes olheiras debaixo dos olhos graças à noite mal dormida, não só por causa dos raios e trovões, que sempre me atormentaram desde que eu me entendia por gente, mas também por causa de toda aquela conversa reflexiva, me deparei com um dia de sol.

Aquilo fez minhas sobrancelhas se juntarem. Não bastava meus pensamentos já estarem um caos, agora o clima também daria um de doido completo?

Eu podia escutar a movimentação na casa, indicando que era hora de me levantar, quando de súbito também me lembrei que o número de pessoas dentro do apartamento aumentaria ainda mais. estava vindo.

Pulei para fora da cama, e ainda de pijamas, saí do quarto indo direto para a sala de estar, apenas para me deparar com três pessoas me encarando com olhares engraçados.

— Belas ovelhas… — apontou para a camiseta que eu usava. Senti o rubor subir por minhas bochechas.

— Tem esse pijama há quanto tempo? — Brincou . — Desde os oito anos?

— É, não deve ter crescido tanto desde então. — Vic completou.

Eles riram, claramente divertidos, mas não respondi, me limitei a dar de ombros. Eu gostava bastante desse baby doll, e não seria por seus comentários que eu iria mudar de ideia.

— Alguém ligou? — Fui logo para o assunto que me interessava e recebi uma negação de todos. — Ótimo, então eu ainda tenho algum tempo.

Cada um fez uma cara diferente de confusão.

— Para onde você vai? — Perguntou Victoria. — Quero dizer, nós?

Franzi o cenho.

— Eu preciso ir até a estação buscar minha amiga, . Não precisam ir se não quiserem. — Disse voltando depressa para o corredor. — Aliás, achei que nem fossem mais estar aqui quando eu levantasse.

— Credo, não somos fugitivos.

está vindo? — perguntou por cima da frase de Victoria.

— Está! — Gritei em resposta, já de dentro do meu banheiro. — Era para ela ter chegado ontem, mas não foi possível por causa da tempestade.

me respondeu, mas dessa vez foi a voz de Vic que se fez mais alta:

— Nós vamos com você!

— Nós vamos? — perguntou meio contrariado, eu tinha certeza.

— Claro que vamos!

Ele deve ter revirado os olhos, porque o silêncio depois disso perdurou.

Ri sozinha e entrei no box sem perder mais tempo.

*
Ainda era cedo, não passava das nove da manhã, porém nós quatro já estávamos acordados há tempo suficiente para enfrentar o tumulto de pessoas que Londres proporcionava com alegria para seus moradores e visitante. Admito que rumar à plataforma de trem abarrotada de gente não estava no meu top 10 de “coisas mais legais para se fazer antes do almoço”, mas, se tinha no meio, se tornava algo muito importante para mim. E imediato também.

Quando havíamos acabado de estacionar o carro, meu telefone apitou, avisando que uma nova mensagem havia sido recebida.

Só para garantir que não era nenhum texto da operadora, oferecendo novos serviços “maravilhosos”, eu a li. E logo em seguida fui às pressas para saguão de desembarque, à procura de uma garota loira, alta e esguia parada somente a alguns metros de distância.

! — Ela segurava o telefone próximo ao ouvido, mas assim que me viu, o colocou no bolso e veio em minha direção ao passo em que eu dizia (quase gritava) o nome dela e me espremia por entre as pessoas, parando apenas quando eu e ela estávamos nos abraçando.

De repente, o que já parecia uma bagunça, ficou ainda pior. Falávamos muitas coisas ao mesmo tempo, ríamos sem motivo, e quase pulávamos de alegria também.

— Gente, tá todo mundo olhando pra vocês duas. — A voz de Victoria soou perto, em algum lugar à minha direita, e se eu fosse chutar, diria que tinha uma certa porcentagem de vergonha.

— Ah, me desculpem! — Separei-me de minha amiga, ainda com os lábios se esticando de orelha a orelha. — Deixa eu apresentar vocês, Vic! Essa aqui é minha melhor amiga, .

a cumprimentou com um abraço e apenas acenou com a cabeça. Já era de se imaginar que os dois não se receberiam com sorrisos e abraços. Provável que nenhum dos dois esqueceu o dia do banho de café. Eu até poderia dizer que uma pitada de raiva crescendo nos olhos de enquanto o encarava por um instante.

Vic permaneceu no canto, esperando ser apresentada, mas acompanhava a cena toda sorrindo.

, essa aqui é Victoria O’Brian, mas, de certa forma, sei que você já a conhece. — Falei por fim.

estava estática, os olhos brilhando em animação, e eu não pude evitar rir de seu momento fã, quando a voz saiu meio trêmula e meio esganiçada ao cumprimentar Victoria. Ela estava completamente embaraçada e sem saber o que fazer ou dizer.

— Pode me chamar de Vic se quiser. — Victoria a abraçou espontaneamente. — fala bastante de você.

Isso foi o suficiente para que a loira praticamente pulasse de alegria e me abraçasse mais uma vez, só para depois colocar seu lado de tiete quase histérica para fora:

— Caramba! Caramba! Eu adoro você! — começou a falar. — É uma das atrizes que eu mais admiro, principalmente por não usar nenhum dublê, acho que isso só mostra o quão profissional você é! E seu estilo? Meu Deus! Eu adoro me inspirar nas suas roupas, você é tipo um ícone de moda pra mim e a atuação que você fez naquele filme, eu nunca vou superar o…

— Chega, . — A interrompi, séria, enquanto e , que apenas nos fitavam, seguravam o riso e Victoria tentava manter a pose.

A expressão de minha amiga primeiro murchou, mas logo em seguida se elevou de novo para me dirigir uma careta debochada.

— Foi mal, me empolguei um pouquinho. — Ela gesticulou exageradamente e riu nervosa. Vic a acompanhou. — Mas, meu bem, é Victoria O’Brian na minha frente! Me dá um desconto, né. Posso ser surtada por uns segundos.

Soltei um riso baixo incrédula.

— Já falei, amore — Victoria deu de ombros. —, me chame de Vic. Odeio formalidades.

— Não… Vic é muito comum, aposto que todos te chamam assim. — Todos encaramos minha melhor amiga sem compreender — Que tal Vicka? Posso te chamar assim?

Victoria riu antes de responder.

— Ninguém nunca me chamou assim antes. — Ela disse. — Adorei!

— Ai, amiga, você escutou? — se virou de frente para mim, a voz aguda de novo. — Victoria O’Brian gostou do apelido que eu dei pra ela!

Eu tentei de verdade segurar minha gargalhada, mas não deu. Tentativa falha. estava agindo descaradamente igual a uma doida, e, aparentemente, não dava a mínima para isso.

— Vamos para casa antes que você me provoque uma síncope induzida pelo riso aqui mesmo. — Continuei rindo e segurando no braço das duas garotas para não perder o equilíbrio. — Cadê sua bagagem, maluca?

E conforme tentava convencer de que ele levaria a mala para ela como um gesto cavalheiresco e minha amiga se fazia de difícil fingindo querer carregar os próprios pertences, revireis os olhos para Vicka que tomava a dianteira para a saída, mas todos nós fomos interrompidos quando falou:

— Que tal irmos a uma Starbucks? — Deu de ombros e colocou seu óculos de sol.

colocou a mão na cintura o encarando cheia de ironia.

— Olha só! Não é que o Bad Boy aqui fala a minha língua? — Ela riu se fazendo de impressionada.

E não sei se realmente queria começar a trocar farpas com ali, em um lugar tão público como esse, mas pela expressão de confusão que ele dirigiu a ela, percebi que ele não esperava a retórica, e isso arrancou uma risada de todos nós.

O fato é que, pelo amor que minha amiga tinha ao café da rede sugerida por , a simples menção do nome já a fez ficar ainda mais animada, e mesmo antes de nós todos nos recuperarmos da cena há pouco presenciada, ela já tomava a dianteira, andando para longe.

— Não deviam ser vocês guiando o caminho? — Ela perguntou enquanto se distanciava, e logo seguimos de volta ao carro, meu estômago aprovava um bom muffin agora.

*
Esperávamos sair com facilidade da estação, mas acabamos perdendo algum tempo falando com fãs que nos pararam enquanto estávamos ainda na plataforma e depois nos corredores que direcionavam para a saída.

A maioria das pessoas paravam principalmente meus amigos, mas assim que me estudavam por um momento enquanto esperavam sua vez, seus rostos se enchiam de reconhecimento e decidiam me incluir no pedido, o que, por mais bobo pudesse parecer, me enchia de alegria e entusiasmo.

Quando chegamos, finalmente, na Starbucks, os garotos fizeram questão de pagar nossos pedidos como forma de agradecimento por eu não tê-los expulsado a vassouradas do meu apartamento no meio da tempestade. Fiquei surpresa por ter sido o primeiro a oferecer pagar nossa parte. Ele estava agindo como gente, e isso era novidade pra mim.

Não recusei o presente.

também não, e ainda deu um jeito de se entupir com bastante cappuccino e algumas outras guloseimas, e olha que ela me garantiu ter tomado café da manhã durante a viagem na companhia de uma velhinha muito simpática.

Enfim, quando estávamos a ponto de sair, outras garotas apareceram pedindo fotos e autógrafos. Outra vez, o pedido não foi recusado.

— Nunca em toda minha vida imaginei encontrar o elenco da minha série favorita na esquina da minha casa. — Uma das garotas sorriu sinceramente. — Isso é loucura!

— Eu necessito tirar uma foto com todos vocês. — A outra menina disse, já com o celular em mãos e o rosto corado.

— Você quem manda. — puxou meu braço gentilmente para que ficássemos lado a lado. — Vamos lá?

— Eu tiro a foto para vocês. — ofereceu, dando de ombros e se divertindo com aquilo.

Nos juntamos e fizemos pose com as duas garotas que nos abraçavam lateralmente, sorrindo tanto que a expressão mal cabia em seus rostos. E ainda assim, por algum motivo, fez careta.

— Ah, não! Essa foto está muito sem graça! Por que vocês não tiram uma fazendo alguma coisa diferente? — Minha amiga propôs. — Ia ser mais divertido!

Pensei em dizer para que ela estava sendo muito intrometida numa coisa que não tinha nada a ver com ela, mas as fãs pareceram gostar e toparam de imediato.

Uma delas, a que estava entre e eu, na cara de pau, pulou nas costas dele sem sequer se dar ao trabalho de perguntar se estava tudo bem fazer aquilo. Entretanto, para minha surpresa, ele não pareceu se importar, e me perguntei quão normal esse tipo de situação era para ele, afinal.

Só sabia que eu nunca faria isso se conhecesse o Ian Somerhalder. A última coisa que eu ia querer era o meu crush pensando que eu era uma louca fanática o agarrando por trás.

De qualquer forma, a outra garota pareceu feliz o suficiente em apenas passar os braços por cima do pescoço de Vicka e , se posicionando entre os dois.

E no fim, eu sobrei. Definitivamente.

Um tanto sem graça, mas sem querer dar uma de antipática emburrada por causa disso, fiz paz e amor com os dedos nas duas mãos e mostrei a língua igual a uma boba feliz.

— Todos prontos? — perguntou e começou a fazer contagem regressiva.

Sem esperar por isso, passou seu braço por minha cintura e me puxou para perto dele.

Não tive tempo de protestar, a foto já havia sido batida.

— Ah, essa sim ficou legal! — sorriu com o resultado. — Se forem postar alguma, postem essa!

As garotas comemoraram e ninguém mais além de mim mesma parece notar a súbita estranha atitude de . Nem mesmo ele, que atenciosamente conversava com as fãs.

Gentilmente Vic pediu para que elas apenas publicassem alguma coisa depois que todos nós já não estivéssemos mais ali, mas a pseudo paz durou pouco. Três homens com câmeras enormes brotaram na calçada do estabelecimento e começaram a tirar diversas fotos sem se importarem com o flash ou com as demais pessoas ao redor que nada tinham a ver com isso.

Em respeito àqueles que só queriam comer ou tomar seus cafés, seguimos de volta para meu apartamento, esperando que os paparazzis não nos seguissem e ficassem à espreita na minha rua.

Quando chegamos a minha casa, não houve aquele momento estranho onde os outros esperaram para que eu os convidasse para entrar. Todos simplesmente passaram pela porta como se ali já fosse um lugar há muito conhecido, e gostei disso. Da naturalidade.

Minha sala tinha se tornado um lugar movimentado nas últimas horas e isso me deixava estranhamente animada. Talvez, por ter morado minha vida toda com uma casa cheia, ainda estranhava viver ali sozinha, e o dia de hoje, em especial, me lembrava um pouco de como as coisas eram antes.

Entretanto, por outro lado eu desejava que cada um tomasse seu rumo e me deixasse sozinha com . Nós ficamos tanto tempo longe uma da outra, que admito que estava com ciúmes dela. Ansiava em poder falar e fofocar por horas seguidas sem ter outras pessoas por perto para ter que dividir a atenção.

Mas todos pareciam tão animados e confortáveis um com os outros, que foi fácil concluir que nenhum planejava ir embora assim tão logo.

E além do mais, eu era educada demais para simplesmente expulsar todos eles da minha casa.

— Você não parece se importar com visitas. — se virou para mim, deixando o celular de lado por um tempo.

Ele também não parecia interessado no assunto da conversa dos outros três.

— Não me importo… — Mas naquele momento, eu me importava sim.

— Bom saber. — Ele sorriu sem mostrar os dentes e voltou a mexer no celular.

— Por que a pergunta? Não está pensando em voltar aqui, né? — Juntei as sobrancelhas já ficando preocupada com a hipótese.

Mas ele apenas me ignorou e revirou os olhos para o próprio celular.

Ufa, pensei comigo por um instante. Vou entender isso como um não.

Levantei do sofá e me sentei no braço da poltrona ao lado de . Ela acabou me puxando pela cintura e eu caí em seu colo, o que nos arrancou alguns risos soltos.

— Você tem que me explicar umas coisas depois. — Ela sussurrou sorrindo e eu assenti, mas não sabia muito bem a que ela se referia, mas sabia que era algo em específico. Porém, antes que eu pudesse questionar isso de qualquer forma, a campainha tocou, e minha cara de confusão foi maior que a de todos os outros juntos.

— Alguém pediu pizza e não avisou? — Victoria olhou ao redor e eu franzi o cenho.

— Existe alguma entrega que sobe direto para o apartamento sem antes ligar pelo interfone? — Perguntei com sarcasmo.

— Se alguém pediu pizza, esse alguém vai virar meu melhor amigo. — lançou os braços para cima e eu a olhei fazendo careta.

— Você já tem uma melhor amiga.

— Aprenda a dividir, garota possessiva.

— Poço sem fundo. — Eu retruquei para ela no mesmo instante que a companhia tocou outra vez.

Me levantei, contrariada, enquanto os outros continuaram com seus assuntos inacabados e interrompidos. Exceto , o único desinteressado que ainda mexia no celular. Na verdade, ele sempre parecia assim, despreocupado com a vida.

Fui então até a porta, e quando a abri, esperando pelo vizinho pedindo uma xícara de farinha ou sei lá, açúcar, me deparei com três garotos sorridentes.

— Hey, ! — Disse o primeiro com um sorriso contagiante. — fala bastante de você. Tudo certo?

— É, geralmente ele reclama, mas a gente sabe como ele exagera. — O de cabelos lisos se encostou no batente. — Aprendemos a não relevar.

— Enfim, prazer em te conhecer e tal, mas a gente pode entrar? Estou faminto! — Perguntou o último olhando para dentro do meu apartamento.

Pisquei. Duas, três vezes.

Demorei um instante para raciocinar que , e estavam literalmente parados na minha porta, mas assim que meu cérebro saiu do modo espera, dei passagem para que eles entrassem. Apesar de ainda não estar recuperada 100% da surpresa, e provavelmente estar com uma expressão completamente embasbacada.

— Estão todos na sala… — Avisei atordoada.

— Valeu. — Falou com um sorriso. — E obrigado pelo convite também.

— Ahn… Claro! — Sorria e concorde, era o que minha consciência dizia, mas minha confusão estava no limiar de se tornar óbvia demais.

— Fica tranquila, não vamos demorar. — acrescentou despreocupado e abriu um grande sorriso que chegou aos olhos e não fiz nada além de concordar.

Aliás, o que poderia dizer? “Não chamei nenhum de vocês aqui, então podem chispar e procurar o que fazer”? Não, muito rude. Não combinava com a minha personalidade. Seria mais provável eu perguntar se eles tinham compromisso e sutilmente dar a entender que talvez fosse hora de irem, à expulsá-los na cara de pau.

Dois segundos depois eles já estavam longe da entrada e eu preparava meu sorriso ensaiado para o momento seguinte.

parecia surpreso em vê-los, como se não os esperasse ali. Não foi ele, conclui.

Vicka os cumprimentava como se não os visse há muito tempo, mas também parecia surpresa. nem sequer tinha entrado na lista de suspeitos por motivos óbvios, então só podia ter sido uma pessoa…

, posso falar com você rapidinho? — Mantive o sorriso no rosto.

— Pode. — Respondeu sem nem ao menos me olhar.

Na cozinha. — Insisti quando todos já estavam nos encarando e coloquei o sorriso de mentira no rosto de novo. — Preciso da sua ajuda para alcançar algumas coisas.

— O é mais alto que eu. — , que prestava atenção na conversa como todos os outros, logo já vinha em minha direção, e de súbito, eu o parei.

— Não, . — Disse firme, arregalando os olhos em sua direção. — Você disse que ia me ajudar, já esqueceu? E nem faz tanto tempo assim!

pareceu, finalmente, perceber que eu estava irritada com alguma coisa, e se levantou de contragosto, caminhando a passos lentos até a onde eu estava, enquanto todos fingiam que não tinham percebido nada.

— Fala aí, Ruivinha. — Ele começou quando já estávamos longe das outras pessoas. — Sei que não quer minha ajuda coisa nenhuma.

— Não mesmo! Quero saber quem permitiu que você os convidasse. — Falei num sussurro, prevenindo que ninguém além de nós dois escutasse essa conversa.

— Você.

— Como é?

— Isso que você escutou.

— Mas eu não disse nada! Tá ficando maluco, por acaso? — suspirou e segurou nos meus ombros como se estivesse conversando com uma criança.

— Olha, se eu me lembro bem, eu comentei “você não parece se importar com visitas” não passou cinco segundos e você concordou “não me importo!”. — Afinou a voz como a de uma garota e eu fiz uma careta.

— Isso foi você tentando me imitar?

— Eu trouxe visitas, porque você deixou. — Ele ignorou minha pergunta, e eu tentei segurar a indignação.

— Você distorceu minhas palavras!

— Claro que não.

— Claro que sim! Você trouxe pessoas que eu nem conheço para dentro da minha casa! — Que liberdade era essa que ele estava tomando? — Eu não sei nem como conseguiram passar pela portaria!

— Eu deixei.

— Você o quê? — Perguntei desacreditada.

— Ligue para a portaria num desses seus momentos fora do planeta Terra e disse que eles poderiam subir quando chegassem. — parecia tão “não estou nem aí”, que até pegou um pacote de cookies dentro do armário e começou a comer enquanto eu tentava me recuperar do que ele havia dito.

— Meu Deus!

— Não seja dramática. — Revirou os olhos.

— Não ser dramática? — Aumentei o tom de voz gradualmente. — Você não pode convidar pessoas para a casa dos outros sem avisar o dono da casa para onde essas pessoas vão!

— Ah, nem é pra tanto, Ruivinha! Eles não vão fazer nada de errado. — Deu de ombros mais uma vez e foi a vez dele de estampar uma careta no rosto. — Se faz tanta questão, posso me responsabilizar por eles se quiser.

— Por que simplesmente não me avisou que vinham?

— Porque achei insignificante.

E a minha paciência, puff, desapareceu.

Eu já não sabia nem que argumentos usar, e minhas pernas decidiram por elas mesmas se locomoverem de um lado para o outro. Isso era totalmente frustrante!

E quando eu achei que ele fosse virar as costas e sair, encostou-se na bancada da pia e me provocou, entretido:

— Seu rosto está um tanto vermelho… — Constatou. — Não quer beber uma água?

— Você é a pessoa mais chata que eu conheço! — começou a rir e eu bati o pé no chão. — Seu… Seu ridículo! Ridículo!

começou a rir.

— Você não é boa nisso de xingar.

Grunhi de raiva no mesmo instante que o garoto loiro apareceu na cozinha. E talvez isso tenha salvado de receber um pacote de cookies em sua cabeça.

— Hey, ! — sorriu sem perceber a minha raiva contaminando o ar. — Se veio aqui preparar alguma coisa, não precisa fazer nada não. Aliás, vamos embora em alguns minutos.

— Mas tão cedo? — A pergunta irônica de não pareceu ser percebida por seu amigo.

— Temos que resolver algumas coisas do CD, cara.

— Ah, que pena. — suspirou, fingindo tristeza. — Tinha me esquecido disso.

— Pois é, o trabalho nos chama. — Concordou o outro com naturalidade e seus olhos pousaram nas mãos de . — Olha só, cookies!

E sem dizer mais nada, deixou a cozinha tão rápido quanto veio, mas levou o doce consigo.

— Viu só? Já pode fazer a contagem regressiva. — ironizou quando ficamos sozinhos de novo.

— Cala a boca.

Ele riu e virou as costas para voltar à sala, porém, antes que realmente fizesse isso, voltou seu olhar para mim com um sorriso arrogante no rosto e balançou a cabeça para os lados.

— Tira essa cara de bunda, Ruivinha. Ela não combina nem um pouco com você.

*
Querido Diário…

Eu odeio, ODEIO, O—D—E—I—O O !
Esse energúmeno não consegue perceber os limites!
Não entendo como um cara tão chato como ele pode ter amigos tão legais. Agora eu acredito em tudo que minha irmã, Laura, fala sobre eles naqueles surtos de fã dedicada quando lê ou assiste a alguma entrevista.
é um amor de pessoa. consegue fazer piada sobre qualquer coisa. sorri o tempo todo – (e adorou comer meus cookies). –
Consegui conversar muito bem com eles e por isso pude me distrair do mala sem alça que estava sendo. Corrigindo: que o é.
E ele continuou sendo esse ser humano com falta de bom senso até o meio da tarde, quando os garotos chegaram a um acordo de que deviam ir embora para o estúdio resolver alguma coisa relacionada ao novo álbum.
Finalmente! – Isso estava preso na minha garganta.
Eu poderia detalhar melhor meu humor nesse exato instante, mas está quase, literalmente, me arrastando para fora do meu quarto, e juro que eu só queria desabafar aqui bem rapidinho. Mas tenho certeza que minha letra vai ficar uma [email protected]&%# se eu não largar a caneta agora, e sei que vou ter que deixar para reclamar mais de em outro momento.
Sempre vão ter coisas piores a relatar. É uma certeza.

Com amor,

*
Eu tentei ser evasiva. Usei tudo que estava ao meu alcance para driblar o convite dos garotos, mas fui vencida pela insistência de .

— Ah, ! — Ela disse mais uma vez. — Sabe há quanto tempo não vamos a uma festa?

— Eu achei que você quisesse ficar em casa e conversar como fazíamos nos velhos tempos. — Minha amiga revirou os olhos, ignorando minha fala por completo.

— E nós vamos! — Concordou. — Depois que voltarmos da festa.

Outra vez eu me preparei para protestar, arrumar desculpas, usar várias das experiências horríveis que tivemos como exemplo, qualquer coisa que a fizesse acreditar que essa ideia ia ser um desperdício de tempo, porém ela foi mais rápida e me cortou:

— Por favor, ! Deixa seus receios de lado e vamos curtir um pouco. Tá na hora de dar uma relaxada!

Se eu negasse outra vez, ela iria sem mim. E não estava nos meus planos passar o sábado a noite sozinha e trancada na minha casa, quando minha melhor amiga estava na cidade se divertindo com outras pessoas e não comigo.}

Dessa vez, infelizmente, deixei meu lado ciumento falar mais alto.

Doeu ter que responder:

— Tudo bem, mas só por…

— Aaaah! Muito obrigadaaaaaa — me puxou para um abraço apertado e desajeitado antes que eu sequer concluísse minhas palavras. — Sabia que você mudaria de ideia!

— Mas nós não vamos ficar muito. — Falei com a voz abafada, enquanto a afastava.

— Não vamos? — Ela me olhou confusa e um tanto desolada.

— Não. E também não vamos tomar nem um pingo de álcool!

— E por que não? — Ela choramingou, irritada com minhas instruções. estava prestes a fazer birra, legítima de uma criança de cinco anos.

— Por que não, ué.

— Vai me proibir de paquerar os caras gatos também? — Arqueou a sobrancelha, como se me desafiasse. Eu assumi uma expressão incrédula.

— Não, tá brincando? Claro que não!

— Nem se for seu amigo? — A pergunta dela fez minha mente dar um “click”.

— Por quê? Em quem você está de olho? — Sorri com malícia, e todo o desânimo de antes quase sumiu.

— Responda minha pergunta e eu respondo a sua.

— Não, não proíbo. Até porque isso é ridículo. — Juntei as sobrancelhas, com a curiosidade transparecendo por todos os meus movimentos. — Agora me fala! Quem é?

Ela revirou os olhos e suspirou.

— Aquele … Não tem uma bunda de se jogar fora. — Arregalei os olhos e não consegui conter a gargalhada alta.

— Não acredito que você olhou na cara dura!

— Os olhos são feitos para isso. Ninguém deve me recriminar por usar um dos dons que Deus me deu.

A perplexidade me tomou e comecei a gargalhar realmente alto conforme as bochechas dela ficaram vermelhas

— Você é a pessoa menos discreta que eu conheço, .

— Fui super discreta, pode parar! — Ela se fingiu de ofendida enquanto ria comigo. — não percebeu nenhuma das vezes que eu o olhei ou observei sua parte posterior.

… — Coloquei minha mão em seu ombro. — Você é uma tarada de primeira.

Ela me respondeu com um gesto obsceno e rimos juntas por mais um tempo, e isso me animou mais do que eu esperava. Me levantei do sofá e comecei a caminhar apressada para o meu quarto, uma nova perspectiva bastante interessante para ir aquela festa.

— Onde pensa que vai?

— Vou me trocar. — A avisei do corredor. — Você devia se arrumar também, começando já!

— Ah, não. Pode voltar!

— Que foi? Ficou olhando para a bunda de mais alguém e esqueceu de me contar? — Perguntei com sarcasmo.

— Não, a dos outros não valia a pena. — Comecei a rir outra vez.

— Então o que foi, ?

— Suas fotos com . — Minha amiga me olhou como se eu precisasse dizer muitas coisas, quando na verdade eu ainda a encarava sem entender nada.

— O que têm elas?

Ela retorceu a boca e me olhou cínica.

— Começando pela revista: ele te pegou no colo, você caiu em cima dele. — Falou. — Você diz que se odeiam, mas os dois estavam rindo de verdade naquele dia. — Ela colocou ênfase na palavra. Minha testa se franziu automaticamente.

— Amiga, para você ter noção, aquilo começou a partir de uma discussão. Ele me chamou de dissimulada.

— Mas e hoje? Na Starbucks? — Neguei com a cabeça. Aquela garota estava pensando em absurdos. — Ele te puxou com tanta firmeza que por dois segundos quis estar no seu lugar só pra saber se ele tinha pegada.

!

— Que foi? Tô falando sério!

— Não, você está imaginando coisas! e eu não chegamos a ter nem cinco conversas sem que um começasse a ofender o outro. — Me defendi, enquanto tentava fazer com que ela parasse de viajar na maionese. — Está insinuando coisas sem noção.

— Não estou insinuando nada. — Revire os olhos, desistindo de ter uma conversa com ela. Virei as costas indo para o quarto. — Muito menos dos olhares de em cima de você.

— Oi? — Meus pés pararam de se mover. A olhei por cima do ombro para vê-la melhor. — O que disse?

— Isso mesmo que você escutou. — Outro sorriso malicioso.

— Você usa muito seus olhos. — Comecei. — Usa tanto que vê até o que não existe!

— Descobriremos isso daqui umas semanas, dias, hoje? Quem sabe você não se surpreende?

— Aham, descobriremos sim. — Balancei a cabeça para o lado e me enfiei no banheiro, esquecendo totalmente de que deveria primeiro ir para o quarto. Mas sua risada continuou audível da mesma forma do lado de fora e eu gritei para ela: — Descobriremos o quão maluca você é, !

E decidi que compraria um colírio para essa garota na primeira oportunidade que tivesse.

*
— Todos os caras da festa vão babar por você. — sorriu para mim já dentro de um Uber a caminho da tal balada.

Sim, balada. Descobri que era uma depois que mandou uma mensagem com o endereço. Não foi uma surpresa tão agradável para mim quanto foi para minha amiga.

, a loira sexy é você. — Sorri para ela.

— E você é a ruiva do sonho de consumo de qualquer um. — Ela piscou um dos olhos. Eu revirei os meus.

— Pare de puxar meu saco porque aceitei o convite. — Falei. — E isso é castanho. Eu não sou ruiva.

— Ainda com essa história, ?

— Claro que sim! — Respondi um pouco indignada. — Você que não coloca isso na sua cabeça.

— Eu e o resto do mundo? — Perguntou divertida.

E me limitei a dar de ombros para o assunto se encerrar, e só não retrucou porque devia estar cansada de discutir sobre isso.

Não demorou a que chegássemos até a boate. Uma grande fila se formava na entrada por um amontoado de pessoas bem vestidas e animadas, que já pareciam, apesar do horário, um pouco altas por causa da bebida. Não todas, mas algumas, que riam alto demais e se apoiavam pelos cantos.

Assim que descemos do carro e passamos direto por toda aquela gente, indo direto para os seguranças na porta, os outros começaram a praguejar baixo.

— Vocês duas, onde pensam que vão? Identidade! — O cara vestindo paletó preto de aparentemente dois metros de altura se colocou em nossa frente.

Olhei para e ela para mim.

Ele pediria as entradas logo em seguida. E nós não tínhamos nenhuma. O que responderíamos para ele? “Somos VIP, ok? Agora sai do caminho que estamos perdendo tempo aqui” com cara de arrogantes superiores, ou “Estamos na lista, moço. Pode conferir!” fazendo cara de anjos e sorrindo docemente enquanto piscávamos vezes seguidas? Eu tinha perdido a prática disso.

— Elas estão com a gente. — subitamente apareceu ao nosso lado, quase como se estivesse esperando nós duas aparecermos. Soltei um suspiro de alívio.

O segurança não questionou quando viu ele e os outros garotos ao nosso encalço. No segundo seguinte já estávamos todos na área espaçosa e confortável do camarote.

— Obrigada, . — se pronunciou primeiro.

— Já estávamos pensando em que desculpa dar ao segurança para que ele nos deixasse entrar. — Completei.

Ele abriu um sorriso para a gente.

— Tudo bem, eu ia ligar, mas então vi vocês duas e nem precisei.

— Acho que todos as perceberam, na verdade. — falou. — Estão muito bonitas.

tentava se decidir entre fazer uma cara sedutora ou sorrir abobadamente em agradecimento ao elogio dele e tive que desviar meu rosto deles para não deixar na cara o que estava pensando.

— Pode passar as cinquenta libras, . — se virou divertido para o moreno que estava vestido com sua típica jaqueta de couro.

Eu os olhei, intrigada, quando , contra vontade, tirou uma nota de cinquenta do bolso e deu para o garoto loiro, que abriu um sorriso ainda maior do que aquele que já tinha.

— Apostaram o quê? — Minha amiga perguntou curiosa, de volta à realidade.

disse que não viria para a festa. Eu disse o contrário e apostamos. — riu dando de ombros. — E, claramente, eu ganhei.

revirou os olhos e depois me olhou de cima a baixo.

— Admito que dessa vez você me deixou surpreso.

— Surpreso com o quê? — se colocou na conversa outra vez. — Só porque ela fala como uma careta, não significa que seja uma.

— Assim você me ofende! — Me fiz de ressentida para minha amiga e me virei para os outros em seguida. — Mas não é segredo que eu realmente estava planejando ficar em casa. Só que essa aí me arrastou para cá.

— Muito obrigado, , por ter arrastado para cá. — sorriu para ela, brincalhão.

— Eu que agradeço! — levantou a carteira com um sorriso divertido.

— Sabe como é, tenho que despertar o lado festeiro da minha amiga de vez em quando para ela poder voltar a viver um pouco. — me olhou por cima dos ombros e piscou um dos olhos. — Quem sabe ensinar umas coisinhas novas?

— Parece então que arrumou os professores certo. — puxou a jaqueta e nos dirigiu aquele sorriso malicioso. Eu arqueei uma sobrancelha para ele enquanto erguia um dos cantos da minha boca.

— Acredite quando eu digo que me divertir é algo que já sei fazer há muito tempo, .

Os garotos fizeram um coro de “uuhhh” como provocação, e eu não fiz nada além de rir claramente divertida com a atitude deles.

— E então, gente? — Victoria apareceu atrás do nosso grupo, me fazendo perguntar há quanto tempo ela estava lá. — Quanto tempo mais vão ficar parados aí? A festa é para lá, e não aqui.

tomou a iniciativa e jogou os braços para cima e abriu passagem entre nós até chegar em Vic, liderando o grupo até o bar de bebidas em uma das extremidades do grande salão.

— Vamos nos divertir como se o amanhã não existisse! A noite é uma criança. — puxou minha mão, e eu soube que não tinha mais volta.

Essa seria uma noite interessante.

‘s POV

Aquela estava sendo uma noite interessante.

Depois de pegarmos algumas bebidas no bar, e por fim nos dividirmos pela boate, insistiu em ficar na mesa com a desculpa de cuidar do nosso lugar, ainda que estivéssemos em um camarote e teoricamente aquele lugar já ser nosso. E não importava quantas vezes a chamássemos para um drink, ela nunca aceitava. Nem mesmo , a tal salvadora da pátria, tinha conseguido tirá-la dali.

Não seria possível que ela fosse assim tão santa. Tão certinha. Ninguém agia assim de verdade. Talvez ela pensasse que eu a subestimava, mas se fosse ser sincero, até agora não sei bem o que pensar sobre ela, porque enquanto dizia uma coisa, suas atitudes mostravam outras.

E eu estava a fim de colocar tudo à prova.

Tinha prometido para eu mesmo que não beberia tanto hoje a ponto de não me lembrar de nada amanhã, ficaria sóbrio por pelo menos essa noite. Ia ser engraçado manter os acontecimentos de hoje na memória.

E eu ia me empenhar para descobrir que tipo de garota a Ruivinha era, afinal.

Entretanto, também não ia deixar de curtir minha noite por causa disso. Portanto, depois de dar uns amassos com uma garota de olhos puxados que estava empenhada em fazer aquela noite especial, voltei para a mesa e me coloquei entre e que conversavam animadamente. Porém, ambos ficaram sérios assim que me sentei adequadamente.

— Eu estava me pergunto se vocês pretendem ficar aqui a noite toda. — Falei tomando o último gole da minha bebida e arqueou uma sobrancelha para mim.

— Engraçado, eu também estava me perguntando por mais quanto tempo você ia ficar engolindo a japa do outro lado da pista, mas parece que já tenho a resposta.

Soltei um riso seco.

— Quer dizer que estava me olhando? — Levantei um dos cantos da boca.

— Quero dizer que todos estavam observando seu showzinho, . — riu ao meu lado e bebeu um pouco mais de sua cerveja, para, provavelmente, disfarçar seu divertimento.

Não retruquei o que ela havia dito.

— Você faz do tipo que gosta de chamar a atenção. — Ela disse, ainda me fitando, e a frase soou como uma certeza, como se ela fosse capaz de me decifrar apenas com um olhar.

Sustentei seus olhos com o meu por um longo momento, e balancei a cabeça para os lados.

— Não, Ruivinha. Eu faço do tipo que vive o momento.

Ela soltou um suspiro em discordância, mas se manteve quieta com seu suco de frutas. Fiz uma careta. Prestes a perguntar por que ela estava bebendo suco natural numa balada, Victoria apareceu por entre as pessoas com um cara ao seu encalço, interrompendo meus pensamentos de pronto.

— Não acredito que vocês vão passar a noite toda sentados aí! — Nos olhou incrédula. E estalou a língua no céu da boca.

— Não seja exagerada, Vicka.

— Vocês não estão aproveitando nada! — Eu ri de forma nasalada, pois nisso Victoria tinha razão.

Eu estou aproveitando. — Falei sem interesse real e ouvi murmurar ao meu lado.

— Com certeza está.

Vic pareceu não escutar, o que foi bom, já que falar sobre aquilo de novo começaria a se tornar cansativo demais. Fiquei grato pela garota dos cabelos curtos estar aparentemente ocupada dividindo a atenção entre nós e seu acompanhante desconhecido.

— Levantem essas bundas daí! — Ela se aproximou para pegar em meu pulso. — Comigo aqui vocês não vão ficar sentados.

— Podem ir lá, gente. — sorriu ao passo em que eu ficava de pé. — Estou confortável onde estou.

— Não, você vem junto! — Victoria, com expressão impassível, se aproximou tirando o copo das mãos da garota. — Se continuar negando, eu te arrasto pelos cabelos. Não duvide de mim.

— Vicka, é sério! — Ela fez uma careta de desgosto. — Eu não danço.

Todos pareceram bufar em uníssono, confirmando que não só eu, mas que todos os outros também estavam cansados daquele doce todo, porque venhamos e convenhamos, já tinha enchido o saco.

— Vamos lá, Ruivinha — Parei em sua frente. — Vem dançar.

— Já disse que não, . — Revirei os olhos enquanto ela esbravejava.

— Uma música e não falamos mais nisso. — propôs, e finalmente ela pareceu considerar a ideia.

Talvez eu tenha me senti um pouco ofendido por ela aceitar a dança com logo no primeiro convite que ele havia feito, enquanto Vic e eu tivemos insistido por no mínimo duas vezes cada um para que ela ainda descartasse nossas ofertas logo de cara.

se colocou de pé ao meu lado e estendeu a mão para , arqueando uma sobrancelha, sorrindo em sua direção.

se levantou, e, um pouco menos contrariada, seguiu para a pista de dança com ele.

Continuei parado no mesmo lugar apenas os observando, curioso.

Quando uma nova música começou e preencheu o lugar, conduzindo as pessoas para novos movimentos, vi desatar a dançar como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo para ela. Como se ela estivesse acostumada a fazer aquilo.

E talvez eu tenha ficado impressionado com o que via. Pela forma que ela dançava e se mexia de acordo com o ritmo da música, pelo modo que de repente ela estava agindo com tudo. Parecia existir um lado oculto de que ela se recusava a mostrar. Mas agora, enquanto ela ria com e dançava com ele, sem sinal de aviso meu olhar a acompanhava, totalmente vidrado porque essa era uma da qual eu nunca antes cogitara a existência.

Como era possível alguém fazer o que ela estava fazendo e dizer que “não dançava”? E por que ela fazia tanta questão de esconder isso, como se fosse errado?

Talvez eu começasse a acreditar, bem pouco, que eu a havia subestimado realmente.

— Parece que a velha está de volta. — Notei a presença da amiga/segurança da Ruivinha ao meu lado, com um meio sorriso nos lábios enquanto observava da mesma maneira que eu fazia.

Juntei as sobrancelhas sem entendimento completo.

— Velha ?

— É, . — riu com desdém. — Têm coisas que nem ela mesma gosta de admitir.

Eu me virei pronto para cobri-la com perguntas sobre o que aquilo significava, pois nesse instante minha curiosidade falava mais alto, mas a garota já não estava mais lá, assim como Vic e o cara que a acompanhava. Todos haviam se distanciado para sabe-se lá onde, e só restava eu ali de pé.

Balancei a cabeça para os lados. Talvez as aparências realmente enganassem.

Andei pela pista, me esquivando por entre as pessoas, até estar perto o suficiente da garota para poder me aproximar o suficiente e lhe dizer:

— Isso é novidade, Ruivinha. Nem parece a mesma pessoa. — Falei próximo a sua orelha, chamando sua atenção e assim tornando minha voz audível no meio de toda aquela poluição auditiva causada pela música e pelas conversas.

Incrivelmente, ela nãos e sobressaltou comigo ali.

— Devo aceitar isso como um elogio, ou me sentir ofendida com a observação?

Não lhe respondi e ela não insistiu numa resposta, continuou dançando ao ritmo da música, próxima de , que meio envergonhado em alguns momentos, colocava as mãos na cintura dela a conduzindo para mais perto.

Ela ignorava minha presença, e por isso, resolvi fazer o mesmo.

Fitei os dois por um último momento, rindo de novo. Mas nenhum esboçava uma expressão concreta que me permitissem entender o que se passava na cabeça de cada um de fato. Não era da minha conta, de qualquer forma.

Movi minhas pernas para outra parte do grande salão logo me deparando com minha próxima conquista. A garota com o vestido vermelho com belo decote me olhava com interesse explícito. Decidi que não perderia essa oportunidade.

— Você me parece familiar… — A morena disse, passando a língua pelo lábio inferior pintado da mesma cor do vestido. — Te conheço, por acaso?

— Se ainda não conhece, pode conhecer agora. — Respondi a observando, já imaginando onde aquilo iria dar.

Quando a mulher sorriu mostrando todos os dentes, tive certeza que ficaria ali.

‘s POV

O ambiente e tudo que o formava, a batida das músicas, a movimentação de cada um, as risadas e as respirações que se misturavam simultaneamente, eu podia praticamente sentir a pulsação das pessoas ao meu redor. Aquilo quase chegava a me dar tontura.

Mas não de uma forma ruim como eu estive pensando durante a noite toda. Na verdade, eu me sentia estranhamente bem. Fazia meses que eu não me divertia dessa forma. E por mais que eu não quisesse admitir em voz alta, estava adorando cada segundo.

Parecia errado ao meu ponto de vista quebrar uma promessa que há muito tempo eu tinha proposto para mim mesma, mas enquanto eu não passasse dos meus próprios limites eu estaria bem. Eu estava medindo as consequências. Podia fazer isso.

, por várias vezes tentou enlaçar minha cintura com seus braços, para uma aproximação maior entre nós. Em todas elas eu tive de me afastar.

Apesar de sentir meu coração acelerar sempre que ele me tocava, ao mesmo tempo, cada passo que ele dava em minha direção, eu recuava dois. Não era difícil adivinhar o que ele queria. Mas eu queria de volta? Essa era a questão. E eu não tinha certeza.

Expirei o ar em um gesto cansado depois de respirar fundo.
Precisava sair um pouco dali.

— Eu vou pegar outro suco para mim, ok? — O avisei.

suspirou também. Tentei entender os motivos lendo sua expressão facial, mas ela estava limpa sem sequer um sinal que possibilitasse meu entendimento. Sem mais demora virei para ir ao bar, a poucos metros de distância de mim.

Me sentei no banco assim que o barman virou às costas depois de entregar meu suco.

— Eu quero uma mistura de energético, morango e vodka, por favor. — se sentou ao meu lado e admito que só percebi sua presença quando já estava lá.

— Está quebrando nosso combinado. — Anunciei sem olhá-la. — Lembra? Nada de álcool.

— Uma misturinha de nada não vai me deixar bêbada. — Podia apostar que ela havia revirado os olhos. — Você também devia tomar. — Opinou. — Sabe, para se soltar um pouco e ver se joga essa sua seriedade e preocupação para o quinto dos infernos, como fazia antigamente.

— Eu e meu suco de frutas agradecemos sua preocupação — Ergui o copo como se fizesse um brinde em sua direção. —, mas não, obrigada.

Ela me olhou como se já tivesse perdido a paciência.

, você não pode ter medo de viver sua vida! — Seus olhos quase arregalados me fizeram perceber que ela falava sério.

— Mas eu não tenho medo de viver. — Retruquei com o semblante torcido.

— Ah, não? — Riu sem humor. — Pois bem. Então já posso pedir um drink para nós duas? Já posso pedir para o DJ colocar nossa música preferida, irmos para a pista de dança e ficar por lá até que nossas pernas não aguentem mais? Já posso dizer que seremos as últimas a sair daqui? Já posso dizer que vamos ter uma noite divertida como não temos há meses? Posso acreditar que você não está se moldando a imagem de uma nova pessoa? Posso acreditar que você vai ser apenas você? Posso, ?

Cada palavra que ela despejava eu percebia um novo tipo de mágoa. Por várias vezes me fez acreditar que o passado ficaria sempre no passado, enterrado e esquecido. Mas agora, com seus olhos faiscando de ansiedade enquanto ela esperava minha resposta, eu já não sabia mais qual deveria ser a resposta certa. Se haveria uma resposta certa.

Se tinha algo que eu esperava ser esquecido, eram alguns capítulos da minha vida. E concretizar aquilo, percebi, não dependia só de mim, mas de muitas outras pessoas também.
Só não conseguia entender porque insistia tanto em não me deixar seguir em frente.

— Sinto muito, . — Seus ombros relaxaram num sinal de que ela não teria mais argumentos dali para frente. — Eu não posso. Desculpe por não ser mais a companhia adequada para você.

Seus olhos entristeceram e ela suspirou derrotada.

— Eu só queria que você recuperasse um pouquinho daquele brilho nos olhos, . Um pouquinho daquele ar divertido. Por que você faz com que isso se torne tão difícil de conseguir?

Balancei a cabeça e fiz com que meus olhos se focassem longe dela. Mesmo a resposta para aquilo parecia difícil demais.

— Não dá… Eu não posso. — Minha boca se abriu novamente, palavras mais difíceis se formando para sair, mas qualquer que fosse o momento que eu e estivéssemos tendo, foi interrompido por outra pessoa:

— Está tentando convencer a senhorita reservada a fazer o que dessa vez? — Revirando os olhos, tive certeza que eu poderia ficar sem escutar aquela voz pelo resto da noite.

Me perguntei mentalmente há quanto tempo ele não estaria ali escutando nossa conversa.

— Você não tem coisas mais importantes para fazer, como, sei lá, se agarrar com uma peituda qualquer por aí? — Me virei, um tanto injuriada, para .
soltou uma risadinha baixa atrás de mim.

— Na verdade, era o que eu estava fazendo a uns três minutos atrás. Mas sabe como é, antes que a empolgação atinja um nível muito grande, eu termino. — Retorci meus lábios em uma careta. — Ainda está cedo para ir para casa.

— Você é nojento.

— Como já disse, só estava vivendo o momento.

— E pegar uma DST faz parte dessa sua filosofia de vida? — Perguntei já a ponto da irritação.

— Eu não sei se você conhece — Lá estava ele e todo o seu sarcasmo. — , mas existe uma coisa chamada pre-ser-va-ti-vo muito útil para evitar esse tipo de doença, se não conhece, dev…

— Calem a boca vocês dois! — ralhou de repente. — Poupe meus ouvidos dos detalhes da sua vida sexual antes que comece a se aprofundar nesse assunto, . E você, , pare de implicar com o que ele faz ou deixa de fazer! Sabe que ele adora te encher o saco! Não tente evitar o que sabe que é inevitável.

Paramos os dois e a encaramos um pouco perplexos.

Enquanto minha amiga tinha os olhos semicerrados em nossa direção e sua cara de brava deixava sem palavras, um feito muito grande, devo acrescentar, eu tinha os lábios entreabertos e piscava bem sutilmente, ainda assimilando o que acabara de escutar.

— Hora ruim para interromper? — , que eu não via desde que entramos no local, apareceu, um tanto receoso, à nossas costas.

Seu olhar dançava de mim, para , e então para minha amiga, logo depois repetindo o gesto de novo.

— Não. — foi mais rápida na resposta.

— Certeza?

— Absoluta.

— Tudo bem, só perguntei porque consigo sentir o campo de tensão elétrica pairando por aqui — Ele gesticulou referindo-se a nós três. —, e queria ter certeza que não levaria choque se chegasse perto.

— Claro que não. — Forcei um sorriso. — Só estávamos conversando sobre opiniões divergentes.

Vi que imitava meu gesto, sorrindo para o amigo, sem mostrar os dentes, e claramente contrariado. o olhava atentamente e estudava cada movimento que esboçava.

— Ah, claro… — Ele soltou um riso fraco. — Não fico surpreso. é um cabeça dura de primeira.

— Diz isso porque só trocou meia dúzia de palavras com a sabidinha aí. — O mala ao meu lado, vulgo , falou se referindo a mim.

— E por acaso chegamos a conversar decentemente alguma vez que não fosse por obrigação? — Indaguei irritada.

— Vocês estão começando a me deixar com enxaqueca. — disse com os dedos pressionados nas têmporas. — E sabe o que mais? Eu nunca tive enxaqueca!

— Deve ser esse negócio esquisito que você está bebendo.

— Não tem nada de esquisito com vodka! — O olhar que ela me deu dizia claramente que eu estava a ponto de ser degolada.

— Será que eu posso te roubar por uns minutos? — Ofereceu para num gesto tão súbito que todos pararam para o observar. Ele realmente estava interessado em tirá-la dali ou foi dó da garota por ela ter que escutar uma discussão da qual não tinha nada a ver?

Aparentemente, não importava. se levantou abruptamente logo em seguida, com a bela mistura de vodka e energético na mão, que eu tinha quase certeza de que não lhe cairia bem mais tarde, e apressou-se em concordar com .

— Pode me roubar até por horas que eu vou agradecer! — E Logo depois de uma gargalhada de , os dois desapareceram no meio da boate, e percebi que já não havia mais razão para eu continuar ali.

Desci do banco e a mão de agarrou meu pulso e impediu meu trajeto.

Por dois segundos a ideia de jogar meu suco na cabeça dele pareceu algo bem agradável.

— Você e sua amiga me deixam confuso. — Ele disse e começou a me estudar com o olhar. — Ela age como se você tivesse se transformado em uma “pessoa melhor”, e eu definitivamente não entendo nada sobre o que estão falando! Só fico me perguntando quão diferente você já foi. Me pergunto se vale a pena descobrir. O que aconteceu com você, Ruivinha?

Um segundo se passou e eu levantei o rosto para olhá-lo nos olhos.

— Não é da sua conta, . — Respondi e me arrependi do que disse no instante seguinte.

Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso com a minha aspereza.

— Tudo bem. — Voltou seu corpo de frente para o balcão, ainda espantado comigo. — Não vou tocar no assunto de novo.

Assenti sem saber o que responder em seguida. Mas me esforcei para poder falar mais:

— É só que… — Ponderei minhas palavras. — São coisas que é melhor não comentar.

— Saquei. — Respondeu frio. — Não tem que se explicar, não me deve nenhuma satisfação. — Mordi meu lábio enquanto o encarava, segurando as palavras para mim mesma. — Agora volte com sua dança. deve estar cansado de esperar.

Eu pisquei uma vez e respirei fundo.

— É, você tem razão. — Disse em seguida. — Eu realmente não te devo satisfação nenhuma.

E a partir do momento que sua mão se desprendeu do meu pulso, deixei-o como estava e voltei para o meio da multidão, nem um pouco feliz com a forma que ele falara comigo.

Se ele queria ficar com raiva, ótimo. Que ficasse ali sentado com cara de otário. Não precisava de mais pessoas opinando na minha vida. Já tinha o suficiente.

E mesmo mantendo isso em mente, me questionava o porquê de toda sua curiosidade. não precisava saber de nada além do necessário sobre minha vida.

Afinal, nós não nos suportávamos.

 

Nota da Autora: Olá, leitores! Obrigada por chegarem até aqui! Comentem aí embaixo o que estão achando da história!
E enquanto não sai nova atualização, leiam minha short, recentemente postada aqui no site!
That’s Enough {original | finalizada}
Beijos e até a próxima! 🙂

 

Capítulo 9
 

“Is this more than you bargained for yet?
 

Oh, don’t mind me”
Querido Diário…

É incrível como uma noite pode passar de muito boa à desastrosa em pouquíssimas horas.
De verdade, eu realmente esperava de dedos cruzados que essa saída fosse ser divertida. Imagino que deva ter pedido demais…
Depois de começar a dedicar seu tempo a Louis, voltei para pista de dança reverberando os saltos no chão ao ritmo da música para encontrar .
Os momentos seguintes se transformaram numa loucura.
Não, eu não bebi. Mantive-me sóbria durante todo o tempo, caso contrário não estaria aqui escrevendo em plena madrugada ao lado da minha amiga grogue, que, diga-se de passagem, está péssima. O fato é que muita coisa aconteceu em pouco tempo. Muita coisa que eu não estava nem um pouco preparada para lidar.
queria se aproximar. E eu não tinha certeza se queria o mesmo. Mas que mal teria eu retribuir?
A cada vez que eu me convencia de que íamos sair do “vai não vai” e eu levantava meu olhar para um lugar que não fosse o garoto lindo a minha frente, lá estava com uma sobrancelha arqueada e seu sorriso malicioso no rosto. E quando não era ela, era quem me encarava sem expressão definida.
Incrível a capacidade deles de surgirem exatamente no meu campo de visão.
Mas segundos depois de eu colocá-los em foco, voltava para seu copo de bebida ou para sua conversa animada com Louis, o que viesse primeiro. E dava sua atenção inteiramente para a garota a seu encalço, que não demoravam para começar a se agarrar descaradamente.
Eu preferia assim.
Mas claro, que percebeu meu desconforto e deve ter concluído que era algo relacionado a ele.
O que foi uma droga.
Acabou que apenas dançamos juntos.
Lá pelo meio da madrugada, não conseguimos mais achar Vic, assim como . E perdemos também . Não queria nem criar possibilidades de onde isso estaria. Ou com quem.
E foi aí que tudo desandou.
Sair pela porta da frente pareceu uma boa ideia no momento, ainda mais pelo horário da madrugada (muito tarde para uns, muito cedo para outros). E teria sido mesmo uma boa ideia se não tivessem tantas câmeras nos esperando (tipo, realmente uma quantidade absurda).
Acabei me assustando com os flashs repentinos e dei alguns passos para trás, só sendo parada quando minhas costas bateram no tórax de . O mesmo me segurou pelos ombros e disse para não dar atenção as perguntas feitas pelas pessoas, logo segurando em meu pulso e guiando-me para o estacionamento.
Eu achei que estaríamos seguros indo naquela direção. Mas descobri uns três segundos depois que eu estava enganada. Os caras e as câmeras continuaram nos seguindo e insistindo em mais perguntas. “, você e estão juntos?”, “Quem é a garota com Louis?”, “ está bêbado?”, “Onde e estão?”, “Estão saindo juntos por marketing?”.
Nunca fiquei tão feliz em me fechar dentro de um carro como hoje. Principalmente por eu ter voltado no banco do passageiro, e não com os bagunceiros de plantão no banco de trás.
E, olha, o veículo estava cheio. Duas pessoas sóbria, uma realmente bêbada e duas insistindo em estar levemente alteradas (, eu, , e Louis, respectivamente, para ficar claro).
Os dois últimos, apesar de afirmarem estar bem, não estavam colaborando em nada. Acho que tinha a ver com a bebida, pois os comentários desnecessários sobre as perguntas feitas a e eu eram tantos, que provavelmente nós dois não conseguiríamos mais nos encarar sem ficarmos com vergonha um do outro.
Mas fico grata por estar bêbado o suficiente para não se lembrar de nada. Pelo menos assim eu espero.
Pudera eu não me lembrar dessas coisas!
Eu escreveria muito mais aqui, provavelmente detalhando o que e Louis nos disseram, mas minha mão está começando a doer (talvez porque eu já tenha escrito umas três folhas inteiras, mas na real estou usando isso como uma desculpa para não registrar algumas coisas). — Vou tentar dormir logo depois de dar um jeito em .

Seria muita falsidade colocar agora “com amor”. Por isso vou terminar com apenas,
.

*
‘s POV

— Ai, minha cabeça dói. — reclamou pelo que parecia ser a vigésima sétima vez seguida.

— Quer mais café? — Tentei não rir da aparência desleixada de minha amiga.

Seus cabelos, antes todos ajeitados e perfeitamente bem penteados, agora estavam quase parecendo um ninho de pássaro. Além das roupas amassadas e seu corpo jogado no meu sofá em perfeito estado de inércia absoluta.

— Não — Sua voz estava um tanto arrastada por causa da ressaca. —, quero que o tiroteio dentro da minha cabeça pare.

— Meio difícil depois de todas aquelas misturinhas que você tomou ontem. — Disse sarcástica.

— Vai em frente. Pode falar. — Ela murmurou com o rosto ainda na almofada.

— Falar o quê?

— A tão previsível frase “eu avisei”. — Gargalhei alto.

— Ela levantou a cabeça e prendeu seus olhos em mim. —, eu avisei.

Não entendi qual foi a lógica disso tudo, pois no segundo seguinte uma almofada batia na minha cara, e eu soltava um grito esganiçado pelo susto.

— Você não presta! — Afirmei um tanto transtornada. Ela então fez algo muito maturo como mostrar a língua.

Me limitei a rir.

Era domingo de tarde e eu pretendia aproveitar o dia passeando por lugares que eu ainda não havia visitado. Mesmo que para isso eu precisasse arrastar de pijamas pelas calçadas da cidade. No momento confiava na frase “os fins justificam os meios”.

Depois de muito insistir e encher o saco, cerca de quase uma hora depois, a loira e eu já não estávamos mais em casa e isso me deixava feliz. Provava que eu podia ser um tanto persuasiva.

Já estava mais do que na hora de conhecer um pouco de Londres. Pelo menos nisso concordava comigo.

‘s POV

Fui acordado por batidas insistentes na minha porta, acompanhadas do som repetitivo e irritante da minha campainha.
A princípio eu tentei ignorar, pois estava muito cansado da noite passado para me preocupar com supostas visitas. Precisava de um pouco mais de repouso.

Foi então que senti minha cama remexer e percebi que tinha algo errado. Porque não era eu quem estava se mexendo, e até onde lembrava, só eu morava ali.
Abri os olhos, um pouco confuso e me deparei com uma garota de cabelos castanhos escuros com pontas azuis, enroscada nos meus lençóis. Certo, eu não sabia o que ela ainda estava fazendo aqui, sendo que já devíamos estar no meio da tarde, mas pelo menos eu sabia o que ela havia vindo fazer ontem de madrugada.

Esforcei-me para lembrar de algo relacionado a ela, mas o raciocínio lento não colaborava nem em cinco por cento. Qual era o nome dela mesmo? Carol? Cassie?

Candance! É, era esse mesmo.

Levantei-me, cambaleando um pouco por ter me movido rápido demais, e segui para a entrada da minha casa, deixando a garota no quarto e não me importando de estar apenas de cueca boxer.

Parei de frente a porta e então a abri.

— Eu estava a ponto de desistir. — riu brincalhão e eu cocei meus olhos. — Que cara é essa?

— Cara de ressaca. — Respondi me espreguiçando.

— Não conseguiria imaginar coisa diferente. — Só então fui notar a presença da amiga de , , logo atrás de , ao lado da garota baixinha. — Aliás, cueca legal.

Bufei irritado no mesmo momento que cutucou a amiga com o cotovelo para ficar quieta.

— O que estão fazendo aqui? — Perguntei seco e ríspido. Eu estava com dor de cabeça, estômago embrulhado e ainda tinha que me livrar da garota na minha cama. Eles tinham que ter um bom motivo para estarem ali.

— Não parece óbvio? Estamos procurando você. — A loira disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Tá, mas o que vocês querem, porra? — Questionei quando escorei no batente da porta, os apressando para uma resposta direta.

— Nossa, educação faz bem pra alma, viu? — Que gente mais chata.

— Qual é, Ruivinha. Será que dá para vocês pararem de fazer mistério, por favor? Eu tô quase batendo essa porta na cara de vocês.

— Se arruma aí, dude. — Falou . — Vamos andar um pouco por Londres.

Retorci minha boca numa careta.

— Não acredito que me acordaram pra isso.

— Por quê? Estava ocupado por acaso? — Apesar de minha irritação, a pergunta de foi respondida quando Candance, a garota das pontas dos cabelos azuis que estava na minha cama há poucos minutos, irrompeu no corredor com um sorriso sem graça, já vestida e com seus pertences, pedindo licença de forma desajeitada enquanto carregava os sapatos na mão e saía, finalmente, da minha cobertura.

Bom, pelo menos ela sabia que era sem compromisso…

Já meus amigos não pareceram felizes com isso. E provavelmente nem um pouco interessados em saber no que eu pensava. Na verdade, as garotas estavam com alguma coisa entre a surpresa e choque. parecia apenas incomodado, como se não soubesse o que falar depois disso.

Já eu, por algum motivo novo, fiquei inquieto e um tanto envergonhado. Essa última sensação eu não sabia explicar, mas com certeza me deixou confuso comigo mesmo. Devia ser algo relacionado a ressaca.

— Ela, Er… Hm, tipo, dormiu aqui? — A voz incrédula de me fez voltar a atenção para ela.

— Claro, por que acha que não voltei com vocês da balada? — Eu sorri malicioso.

Sua expressão me fez franzir o cenho. Que outro tipo de explicação ela esperava receber?

— Fala sério, isso é patético! — cruzou os braços e me lançou um olhar raivoso.

— Candance não achou nada patético quando eu estava em cima dela. — Sorri sem mostrar os dentes, talvez com uma expressão um pouco arrogante e sarcástica, eu não sabia especificar qual das duas.

murmurou alguma coisa e respirou fundo, procurando paciência.

— Quem é Candance?

— A garota que acabou de sair. Quem mais seria?

— Meu Deus, você não tem um pingo de respeito, não é? — Minha resposta veio como um riso nasalado.

Mas onde aquela garota queria chegar, afinal? O que ela tinha a ver com as coisas que eu fazia ou deixava de fazer? Desde quando ela achava que podia opinar em algo que eu fazia? Eu transava com quem eu quisesse, ela não tinha porque ficar questionando minhas escolhas.

— Eu não sei como você chegou à conclusão que poderia julgar meus atos, Ruivinha. Mas não acha que está se intrometendo demais em assuntos que não lhe convém?

— Você acabou de passar uma noite com uma mulher que nem conhecia! Você a usou como um objeto. — Estreitei meus olhos, ainda fixos em sua figura de semblante franzido.

— Ela veio por livre e espontânea vontade. E além disso, quem te garante que eu não a conhecia? — Percebi minha voz alguns decibéis acima.

— Você ao menos sabe o sobrenome dela? Quantos anos ela tem?

De um jeito incrédulo, passei as mãos pelo meu cabelo.

— Isso não vem ao caso, . Desde quando se acha no direito de dizer esse tipo de coisa para mim? Você não tem essa liberdade! — Eu quase podia ver faíscas nós seus olhos, como se estivesse escolhendo o melhor jeito de me fazer sofrer. Se eu pudesse adivinhar, diria que era algo relacionado a diferentes tipos de tortura.

Seus punhos cerrados junto ao seu quadril poderiam atingir meu rosto a qualquer minuto. Eu não duvidaria. Mas para minha surpresa, e talvez gratidão também, suas feições se amenizaram, ela respirou fundo e pareceu voltar à razão.

— Você está certo, . — A voz de era controlada e incrivelmente suave. Parecia medir cada palavra que estava prestes a dizer. — Eu não tenho essa liberdade. Não sou nada sua para contestar suas decisões. Apenas colega de trabalho. E ainda assim, já é muito. Mas quer saber? É o que dizem: sua vida, seus problemas. E aliás, da forma que está agindo agora, tenho certeza que isso não passa de rotina para você. Por que então eu deveria me intrometer para opinar ou questionar? Você deve saber o que está fazendo. E pode ficar tranquilo, não pretendo mais ficar aqui gastando meu tempo, muito menos o seu.

Eu a assisti virar sobre os calcanhares e voltar para o elevador, deixando nós três de bocas abertas e queixos caídos, parados ainda em modo espera sem mexer sequer um músculo, como se estivéssemos brincando de estátua.

Talvez estivéssemos assim… tão atônitos, por se tratar de algo que acabara de dizer. Eu e em particular estávamos mais que surpresos. Já … Bem, talvez ela já tivesse visto algo parecido, pois parecia menos impressionada depois de alguns segundos.

Acontece que ninguém esperava escutar a “insegura, tímida e ingênua” agir com tanta confiança e dureza como ela tinha feito.
Outra vez, aquela garota havia me surpreendido. Eu só não havia decidido ainda se isso era algo bom ou ruim. Mas não estava medindo esforços para descobrir.

— Er… Acho melhor irmos então. — coçou a nuca, talvez meio perdido no que devia ou não fazer. — Até mais, .

Ele virou as costas e assim fez . Eu os lancei um sorriso incrédulo. “Até mais” é o cacete!

— Ah, não, nem pensar que vocês vão embora sem mim. — Ambos me olharam sem entender nada. — Vocês me acordaram e agora vão ter que aguentar minha companhia pelo resto do dia.

— Mas a , ela… — Tentou interromper .

— Dane-se a Ruivinha. — Eu estava pouco me lascando para o que a garota ia pensar. — Ela vai superar. Agora se decidam entre ficarem parados na minha porta ou entrarem. Preciso me vestir.

*
Vinte minutos.
Foi o tempo que demorei para tomar banho e me arrumar. Claro que eu ainda não havia comido nada. Acreditava ainda não ser seguro colocar comida no estômago que provavelmente devolveria tudo na primeira oportunidade.

Quando chegamos ao estacionamento, o carro de estava em uma vaga próxima. Não foi difícil também notar a figura ranzinza no banco do passageiro, de braços cruzados e olhar fixo em sei lá o quê.

Sorri comigo mesmo. Ela estava engraçada com essa expressão.
Parei na lateral do veículo e abri a porta, me jogando para dentro do mesmo no momento seguinte. me olhou pelo espelho e semicerrou os olhos, como se aquilo fosse uma ameaça silenciosa para “passe dos limites, e eu posso te ensinar a voar”.
Isso só me fez abrir o sorriso ainda mais.

— E então, Ruivinha — comecei, enquanto todos se ajeitavam no banco —, sentiu minha falta?

Ela murmurou algo para si mesma e bufou.

— Será que eu atirei pedra na cruz?

— Não seja tão chata. — Disse. — Se eu fosse assim tão idiota, vocês não teriam me convidado para vir junto.

— Não foi ideia minha. — Justificou. — Sério. Acredite.

— Mas você estava na minha porta hoje mais cedo.

— E também estive na porta de , e nem por isso estava animada com a ideia. — Franzi o cenho.

— Você o quê? — Uma cabeleira loira entrou e sentou ao meu lado logo em seguida. Não, não era a amiga de . Era uma cabeleira loira tingida. Era , realmente.

— Eu escutei você, criatura pequena! Não pense que vou esquecer. — apontou o indicador para ela com um sorriso travesso. gargalhou alto e fez um gesto de “tanto faz” para o garoto logo depois de mostrar a língua em um gesto infantil.

— Hey, hey, hey! — o cumprimentou. apenas acenou com a cabeça, o que confirmava que ele já devia tê-los visto antes.

— E aí, ? De boas? — estava com um sorriso de orelha a orelha. Me perguntei como ele conseguia estar assim, tão feliz, mesmo tendo acordado de ressaca (porque pelo tanto que havia bebido ontem, era o mínimo a ter acontecido). — Desculpem eu sumir. Estava comendo.

— Está melhor, ? — Perguntou . — Achei que você fosse querer ficar desmaiado em casa hoje.

— Ah, nem pensar! — riu. — Eu agora tô bem. Era só tomar um comprimido.

Ele deu de ombros e os dois continuaram conversando. Fizeram isso como se eu ou os outros não estivéssemos ali. Talvez esperassem que participássemos por livre e espontânea vontade, não sei. Acontece que eu não tinha nada de interessante para dizer.

Mas não precisei me preocupar com isso. Logo já estava dando a partida no carro.

— Todos prontos para passear no Tâmisa? — A amiga de perguntou empolgada, se remexendo ao meu lado como se dançasse no mesmo lugar. — É melhor dizerem que sim, porque a escolha do passeio foi minha!

— Agora você ficou toda animada, né? — a interrompeu. — Devia me agradecer. Se não fosse por mim, você ainda estaria jogada no sofá da sala com uma almofada na cabeça reclamando de dor.

— Poxa, amiga — usou sarcasmo. — Obrigada por mostrar o quão importante você é na minha vida.

gargalhou ao meu lado e soltou um riso fraco.

— É sempre bom relembrar, não é?

— Ah, cala a boca — Sua voz não saiu firme, o que denunciava seu riso.

Não demorou para chegarmos até o centro. Assim como não demorou para que comprássemos os tickets e pegássemos a fila que levaria ao barco em dez minutos.
Eu procurava, com o canto dos olhos, alguém que tivesse nos reconhecido, mas até o momento, nada de câmeras. O ambiente estava calmo e nós muito discretos e sutis. O que era bom. Chamar a atenção provavelmente não daria nada certo nesse momento.
Quando o barco atracou no píer, e o amontoado de pessoas começou a diminuir, nós cinco nos dirigimos para o segundo andar, onde não havia cobertura e poderíamos observar a cidade e o horizonte, não de forma super confortável como no piso inferior cheio de sofás e poltronas, mas ainda assim com a vista muito melhor.

— Wow, cabe gente para caramba aqui. — Disse olhando ao redor.

— Nunca andei num desses. — Falei sincero me referindo ao veículo, e me encarou desacreditada.

— Mas vocês não fizeram aquele clipe onde andavam por aqui a noite? Algo assim, não me lembro.

gargalhou com a lembrança.

— No clipe Midnight Memories, você quer dizer. — Ela deu de ombros, não ligando, apenas se mantendo em silêncio para que er continuasse. — Mas nós não usamos um barco de excursões como esse. Era uma lancha.

— Claro, uma lancha. Devia ter chutado até que era um Iate. — A garota exclamou, jogando o cabelo sobre os ombros. — Esqueci que estou andando no meio de pessoas famosas e ricas que podem alugar qualquer meio de transporte que quiserem. Erro meu, desculpem o descuido.

e eu abaixamos a cabeça quase que ao mesmo tempo quando ela terminou sua fala. arregalou os olhos sutilmente e olhou sobre os ombros. A Ruivinha também pareceu alarmada, mas nada perto do desespero, mas virou-se para a amiga nada feliz.

— Para com isso, sua sem graça! Pode chamar a atenção de alguém. Lembra de ontem a noite?

A loira entortou a boca em uma careta.

— Desculpa.

suspirou e disse mais suavemente, vendo que parecia ter ficado envergonhada e constrangida:

— Só não faça isso de novo, ok?

A outra concordou.

Permanecemos em silêncio depois disso, esperando que todas aquelas pessoas se acomodassem em um dos dois andares, para que finalmente nós pudéssemos começar o passeio pelo rio mais famoso do Reino Unido.

Eu não estava assim tão empolgado para isso. De qualquer forma, a animação de compensava.

Assim que já estava com a embarcação cheia, o guia turístico/capitão, começou a explicar por onde passávamos e porque passávamos por ali.
Não lembro muito bem quanto tempo passou, mas sei que as garotas pareceram empolgadas com a vista e a arquitetura, e até impressionadas com a London Bridge, a London Eye e claro, a Tower Bridge, mais popularmente conhecida por ser um dos castelos da rainha que fica na margem norte do Tâmisa. O grupo de turistas gringos atrás de nós também parecia estar adorando. Falavam numa língua engraçada que eu provavelmente demoraria muito tempo para aprender. Aquilo era espanhol? Não sei.

também pareceu interessado em saber sobre eles, e acabou puxando assunto com um deles que tinha um inglês aceitável e entendível. Descobrimos que eles eram brasileiros.
Isso bastou para que começasse um diálogo.

teve que se esforçar para falar mais devagar, pois recebia uma cara de paisagem como resposta durante todas as vezes, o que foi bastante engraçado. Entretanto os outros pareceram se acostumar com isso depois de dez minutos.

, e não participaram tanto assim da conversa. Os três estavam mais interessados em tirar fotos e dizer coisas idiotas. mais que elas, claro.

Já no fim do passeio, depois de muitos coros de ah, oh e wow, o tal passeio emocionante de barco pelo Tâmisa terminou. Foi até legal. Principalmente a parte em que as duas garotas deram alguns foras no grupo de brasileiros que estavam conversando comigo e com . Eu teria gargalhado caso não soubesse como seria dez vezes mais constrangedor para eles. Fiquei na minha, evitando rir, apenas observando. Como tentou fazer, mas não conseguiu ser assim tão discreto e eficiente.

Quando a maior parte das pessoas já havia saído, voltamos a ter uma interação normal, rindo de coisas aleatórias, e até conversando sobre outras sem sentido, como , que se virou para e começou a falar tão rápido que foi impossível para qualquer um de nós entender o que ela discutia e porque ria tanto.

— Mas por que isso logo agora? — parecia tão perplexa como a gente.

— O garoto de camiseta azul me fez lembrar ele, ué.

— Ele quem? — Perguntei, tentando fazer um favor a todos nós que não estávamos entendendo nada.

— É que teve uma vez que um garoto foi contratado para fazer um comercial com . — A garota se interrompeu e riu. — Ele usava o mesmo estilo de cantadas baratas como “nossa, seu pai era ladrão? Porque você roubou meu coração” que o cara que estava no passeio com a gente.

Um coro de risos foi feito por nosso grupo.

— Mas nem quando eu tinha doze anos usava uma cantada dessa! — gargalhou, mas eu duvidava muito que ele não usasse.

— Não era nada disso. — tentou argumentar, as bochechas coradas.

— Claro que era! — Interrompeu . — O garoto era um chato de primeira. A única coisa que salvava era o pouco de beleza que ele tinha. Bem, bem pouca.

— Para de exagerar. — fez uma careta e revirou os olhos. — Tirando as cantadas sem noção, ele foi super gentil e simpático.

— Mas ele foi pago para fazer isso. — Todos se viraram para mim e pararam de andar. — Que foi?

— Nossa, . Essa foi cruel até para você. — balançou a cabeça e percebi seu olhar sério.

— Desnecessário. — Afirmou .

— Mas não é verdade…? — Juntei as sobrancelhas, atônito. Eu tinha dito algo errado, por acaso?

— Tá dizendo que para as pessoas serem legais comigo elas precisam ser pagas pra isso? — A voz de soou baixa, como se estivesse se forçando a acreditar no que eu havia dito.

As pessoas continuaram a passar por mim e pelos outros, com as expressões um pouco fechadas por estarmos empacando o desembarque do grande número de passageiros, de forma que a saída havia se transformado em uma fila indiana.

— Você está distorcendo o que eu disse. — Levantei as mãos na altura dos ombros em sinal de inocência.

— Acho que não… — A garota loira comentou e virou sua atenção para as próprias unhas.

— Não sejam hipócritas! — Revirei os olhos. — O cara só receberia o cachê dele se fizesse um bom trabalho. Nada melhor que tratar todos bem e mostrar serviço para futuros contratos. Dar em cima da Ruivinha foi um bônus.

— E ele repetiu… — riu incrédula. semicerrou os olhos e me encarou.

As mesmas faíscas de hoje mais cedo voltaram para seus olhos. Por um momento fiquei com medo dela perder a paciência e me atirar na água do rio, mas a garota era uma pessoa muito controlada para fazer isso.

— Retire o que disse! — Sua voz soou firme.

— Qual é, não precisa de tudo isso…

— Você acabou de me ofender! — Seus olhos se arregalaram e ela andou em minha direção. A essa altura poucas pessoas sobravam no barco de turismo. — Quero que retire o que disse!

Andei em sua direção com aquela pose que diz “olha, vamos esquecer tudo isso”, mas assim que a distância de um passo nos separava, percebi que ou ela me empurraria, ou gritaria comigo.

Aparentemente minha persuasão não estava funcionando bem hoje.
Por isso, quando ela se preparou para fazer os dois, olhei rapidamente por cima de seu ombro. Não mais que por meio segundo, mas o suficiente para perceber que eu não podia deixar que criássemos um conflito. No instante seguinte eu estava passando meus braços ao redor dela e sorrindo igual a um retardado enquanto a abraçava.

Estava tudo muito normal para ser verdade, e eu devia ter desconfiado disso antes.

— O que você pensa que está fazendo, ? — Ela tentou nos separar, porém eu a impedi.

— Te abraçado. Vai dizer que não percebeu? — Eu podia notar o ar confuso de , mas os olhares compreensivos de e ao meu encalço também. Pelo menos eles não eram desligados e desatentos como as duas garotas.

— Eu não quero abraçar você. Eu quero bater em você! — realmente estava tentando se afastar. — Agora me larga para que eu possa fazer isso.

— Oferta tentadora, Ruivinha. Mas não dá. — Seus músculos tencionaram mostrando claramente seu desconforto. — A não ser que você queira seu nome na manchete da próxima revista. Algo como: foi vista agredindo após passeio turístico com amigos.

— Do que você está falando? — Seu tom abaixou alguns decibéis.

— Do homem com a câmera atrás da amurada, logo depois da fila dos novos passageiros.

O cérebro dela devia ter começado a trabalhar na possibilidade, pois rapidamente ela já não se mexia, e exibia, mesmo sem vontade, uma pose compreensiva para o momento. Na verdade, ela estava passando os braços por cima dos meus ombros enquanto se esforçava para soltar um riso convincente.

Ela deve ter feito algum sinal que convencesse os outros a fazerem o mesmo, pois a risada deles acompanharam a dela logo em seguida.

— É bom que seja verdade, . — Ela ameaçou. E pela forma que sua voz saiu, eu tinha certeza que ela fingia sorrir. — Se isso for só uma brincadeira sua para me atazanar, eu juro por tudo que é mais sagrado que vou assumir a personalidade de uma doida e vou te encher o saco pelo resto da vida.

— Não vou apostar contra você.

Mantive meu sorriso ensaiado no rosto esperando que o intrometido do paparazzi estivesse mesmo fazendo seu trabalho. Eu ficaria muito puto se as fotos de agora não fossem parar na internet. Ficaria mais puto ainda se descobrisse que estava fazendo isso à toa.

— Sério, Ruivinha. — Falei ainda sem nos separarmos. — Isso não estava na minha lista de “coisas para fazer hoje”, mas sem te algo que eu aprendi na vida foi: se é para fazer, faça direito. Então se é para fingir, vamos fazer isso certo.

Nos distanciamos sorrindo falsamente um para o outro e suspiramos, os dois derrotados e sem escolha, como se de repente, tivéssemos entendido o pensamento um do outro para continuar a encenação.

Fizemos então algo mais idiota ainda. Formamos uma roda e nos abraçamos em grupo.
Depois que ninguém mais poderia contestar nossa amizade “inspiradora”, saímos finalmente de onde estávamos parados pelo que parecia ser muito tempo, e voltamos para a calçada que acompanhava o percurso do rio.

Mas era óbvio que nada se tornaria mais fácil. Era óbvio que outros paparazzis apareceriam para tirar proveito da situação.

Eu olhei para . Ela olhou para mim. Nós já sabíamos como agir.

— Eu ainda quero muito te bater.

— Mas você não pode. — Sorri vitorioso.

— Espere só quando não tiver nenhuma câmera por perto. — O sorriso dela parecia até macabro quando combinado com a frase.

— Mas enquanto isso não acontece — Passei um braço sobre seu ombro. —, vamos dar uma volta por Londres, amiga querida. Temos que mostrar quão próximo nós cinco somos.

— Então vamos lá, amados. Vamos estampar as páginas das revistas.

E foi com essa frase estimulante de que continuamos com nosso horário extra de atuação em pleno fim de semana.

‘s POV

O dia tinha rendido.
E, mais que isso, tinha acontecido de uma forma totalmente contrária aos meus planos.
Pelo menos parecia ter se divertido, e no fim, era isso que importava para mim.

Depois da pequena cena sem aviso de , tivemos que agir mais daquela forma o mais naturalmente possível. O que foi realmente horrível. Precisei controlar o que fazer e o que dizer várias vezes, principalmente quando estava ao meu lado com piadinhas irritantes e comentários desnecessários.

Já bastava para dizer coisas constrangedoras, agora ele também havia aderido a ideia de me deixar sem graça.
Infelizmente os dois tinham grande êxito nessa atividade, ainda que não se dessem bem.
Graças a Deus, e conseguiam me entreter e me fazer não prestar tanta atenção na zoação que os outros dois diziam.

Então apesar de não ter conseguido dar uns tapas em , eu havia me divertido na companhia dos outros. Já não estava mais irritada. Na verdade, eu estava bastante feliz, mesmo que agora estivéssemos voltando pra casa, bastante acabados pelo fato de termos caminhado durante muito tempo num turismo meio improvisado pela cidade.

No carro, só estavam , eu e , que havia insistido para nós levar de volta, assim como fez com os garotos alguns minutos antes.

— Sério, . — Falei com o cotovelo apoiado no vidro do lado do passageiro. — Não tinha a necessidade de nos trazer. Eu podia ter pago um táxi com .

— Sei que não tinha necessidade — Ele sorriu. —, mas eu quis. E aliás, acho que sua amiga não se sentiria confortável em dormir no banco do táxi como está aqui.

Olhei para ela no banco de trás, toda encolhida, dormindo no canto de uma forma extremamente pacífica. Olhando assim, nem aprecia intrometida.

— Bom ponto, mas provável que nem ligasse. — Dei de ombros. — Ela deve estar mesmo cansada. Geralmente não dorme fora de horário.

— Fora de horário? — Ele riu um pouco e eu o imitei.

— Sim, igual criança. Por exemplo, em situações como essa, ela tomaria o dobro de café que toma normalmente para se manter acordada e elétrica. Mas acho que esqueceu, ou mesmo nem ligou. — Fiz uma careta e as risadas de aumentaram.

— Provavelmente ela gastou toda energia na noite passada. — Concordei com um aceno. — dançou tanto que me deixou cansado.

— Nossa, ela não perde a oportunidade de uma festa! — Falei sorrindo. — Se você tivesse noção do que fazíamos quando éramos mais novas… — Me detive no meio da frase e deixei que meu sorriso diminuísse até desaparecer. pareceu notar e me observou brevemente enquanto esperava o farol abrir.

Ele seguiu com o carro, e perguntou sem me olhar:

— Você não gosta de falar do seu passado, não é?

Comecei a brincar com os pingentes de minha pulseira, nervosamente. Ele havia percebido meu desconforto, mas tudo o que eu lhe daria seria uma resposta vaga.

— Eu só acho que o passado deve ficar onde está, entende? — assentiu sem esboçar reação.

— Todos passam por situações difíceis. — Falou após um tempo, e limitei-me a ouvi-lo, mantendo meu olhar em algum ponto na cidade que passava por nós. — E todos fazem coisas erradas também. Você não tem que enterrar tudo que aconteceu por alguns detalhes não muito bons. Você não seria um ser humano se não errasse de vez em quando. — Ele suspirou. — O que eu estou tentando dizer é que a vida não é feita só de acertos. Você não deveria apagar tudo que aconteceu com você. As coisas boas merecem ficar.

Olhei para ele com o canto dos olhos. Não era assim tão fácil…

— É como um emaranhado de fios, . — O carro estava em silêncio. — Você quer puxar apenas uma ponta, mas acaba trazendo com ela mais um milhão de nós impossíveis de desatar ou separar um dos outros.

Outro semáforo e seus olhos me avaliaram. Passaram do meu rosto até meu pulso e observaram a pulseira. Se ele entendeu o significado dela, não falou nada. Preferiu manter a quietude por mais alguns minutos.

Talvez não tivesse o que acrescentar. Talvez ele tivesse percebido o clima ruim que aquele assunto havia criado. Eu esperava que tivessem sido essas as razões que o fizera mudar o rumo da conversa. Pelo menos assim eu poderia falar sem medo.

— Eu queria te pedir desculpa por ontem à noite.

Franzi o cenho.

— Por quê?

— Pelo que aconteceu na saída. — parecia um tanto envergonhado, mas eu não sabia dizer se era ou não pelo o que eu pensava ser. — Eu devia ter imaginado como acabaria.

— A culpa não foi sua, . — Dei de ombros.

— Mas se tivéssemos saído pelos fundos, como , e Victoria fizeram, teríamos evitado toda aquela confusão, além de ter evitado todas aquelas perguntas desagradáveis e as fotos na internet…

, para de se preocupar, ok? — Me ajeitei no banco de uma forma que eu pudesse encará-lo. — Faço parte desse mundo agora. Tenho que aprender a lidar com situações como essa. Não dá pra fugir.

— É só que…

— Tá tudo bem. — Insisti. — Sério, pode acreditar! Com certeza não foi agradável, mas faz parte, não é mesmo?

— Mais ou menos isso. — Concordou. — Espero que não estejam falando tão mal de todos nós.

— Aposto que não. — Ri. — Que tipo de pessoa nos repreenderia por querermos nos divertir?

— Você não sabe do que a mídia é capaz… — Seu riso nasalado, um pouco sarcástico me fez repensar o que eu havia dito.

Eu não sabia muito como aquele negócio de fama funcionava, mas será possível que as pessoas criariam falsos boatos apenas para ter um escarcéu como entretenimento? Talvez fosse melhor eu não descobrir isso tão cedo.
Pouco depois chegou ao meu apartamento.

— Obrigada mais uma vez pela carona. — Sorri para ele.

— Sempre que precisar, . — piscou um dos olhos e eu senti minhas bochechas corarem.

Desci do carro e fechei a porta, me dirigindo para a traseira, pronta para acordar minha amiga que só dava sinais de vida graças aos seus longos e profundos suspiros.
A voz de me chamando interrompeu-me antes mesmo do primeiro passo. Abaixei-me de forma que o vidro do carro fizesse uma espécie de moldura em volta do meu rosto, e atentei-me ao que ele tinha a dizer.

— Eu estava pensando… — Coçou a nuca, aparentemente receoso. — Todas as vezes que saímos nunca conseguimos conversar muito.

— Sim? — Esperei que entendesse isso como um incentivo para continuar.

— E eu queria saber se talvez você gostaria sair comigo um dia desses para mudar um pouco essa rotina. — Eu abri um sorriso tímido. — O que acha?

— Eu adoraria.

Ficamos nos encarando por alguns segundos.
Os olhos dele estavam com as pupilas dilatadas com um contorno bem pequeno da cor castanha ao redor das bolinhas pretas. Nesse momento, eu não imaginei que ele conseguisse ficar ainda mais fofo.

Esse momento só foi quebrado quando começou a se remexer e reclamar do cinto de segurança ao redor de sua cintura. Ela dorme de qualquer jeito e ainda reclama por tentarmos preservar a vida dela. Com certeza faz todo o sentido do mundo.

— Já chegamos?

— Acabamos de parar o carro. — Desviei meus olhos de para minha amiga. Mas ao contrário do planejado, não consegui desfazer o sorriso.

— Hm… Tá bom. — se soltou e desceu do carro, meio mole por estar ainda sonolenta. — Obrigada por nos trazer de volta. Te devo uma, dude.

— Vou cobrar de você, . — Ele riu e ligou o carro novamente. — Tchau, garotas. A gente se vê.

Seu sorriso foi a última coisa que eu vi antes dele subir o vidro e desaparecer na rua.
cruzou os braços, ainda parada ao meu lado e levantou um dos cantos da boca com malícia.

— Hoje foi um dia interessante. — Falou, e concordei balançando a cabeça, observando a calmaria da rua.

— Foi… divertido. — Acrescentei.

— É, com certeza foi. — O sorriso não havia abandonado seu rosto.

— Por que você está com essa cara de presunçosa, como se soubesse mais do que devia? — Arqueei uma sobrancelha.

— Porque, minha cara amiga, eu sei de muita coisa. — Seu ombro bateu no meu e ela me lançou um olhar sugestivo.

— Eu não estou entendendo aonde você quer chegar. — Eu até entendia, mas preferia me fazer de desentendida a ter que ficar escutando suas suposições malucas.

— Ah, é? — Ela abriu o sorriso ainda mais. — Vamos ver por mais quanto tempo você vai ficar se fazendo de boba.

— Você é estranha, . — Passamos pela portaria em direção ao elevador. Ela estava ao meu encalço. — Fico me perguntando como eu fui ser sua amiga.

A gargalhada dela tomou o ambiente do elevador.

— Quem sabe eu não te respondo essa pergunta depois de uma maratona de filmes e muito chocolate?

Realmente nisso ela estava certa. Nós precisamos de muitas besteiras para comer e de algumas horas sozinhas sem nenhum garoto por perto para podermos manter as informações em dia.
Eu precisava desse tempo com a minha melhor amiga.

*
Querido Diário…

Seria possível uma pessoa ter overdose de açúcar?
Se a resposta for sim, então eu estou tendo uma.
Caramba, eu comi chocolate até ter a sensação de que iria explodir. E eu não duvido que isso vá acontecer a qualquer momento. Sério, tá difícil até pra respirar.
já voltou para Brighton faz algumas horas, me deixando com esse mal estar horrível sozinha aqui na minha casa. Aposto que ela deve estar rindo de mim à distância. É bem a cara dela fazer isso.
A questão é que eu preciso estar no estúdio daqui há uma hora e eu não consigo mexer sequer os dedos dos pés.
Sabe, eu acho que devia deixar registrado aqui também que estou começando a não gostar da presença dos paparazzi na minha vida. Graças a eles eu tive que ficar fingindo suportar (Sim, eu estou com raiva! Por mil motivos diferentes que já nem sei direito mais!).
Felizmente eu já estou mais “zen” em relação a esse assunto. Isso porque não mencionou nada no último dia e mal conversei com os garotos desde então, por isso pude desintoxicar minha mente de preocupações e envenená-la com açúcar (isso está sendo realmente um problema).
Mas sem mais enrolação… Meu dever me chama!
Pena que não está mais aqui, e saudade também de Luke. Será que ele ficaria feliz se eu dissesse que o jeito de me lembra um pouco ele? Terei que descobrir em outro momento.
Precisava dar uma descansada para relatar os últimos acontecimentos da minha vida aqui antes de sair. Achei importante no começo. Agora, pensando melhor, nem era tanto assim.

Com amor,
.

*
’s POV

Em tempo record consegui ficar pronta. Pensei que o açúcar me faria ficar lenta igual a uma mula, mas de repente eu estava tão animada quanto uma criança no dia do seu aniversário.

Eu estava pronta para entrar no táxi, quando o celular vibrou em minha mão, e eu me apressei em abrir a mensagem.

Foi impossível não esconder o sorriso que vinha crescendo ao decorrer da leitura:

“Bom dia, ! O que acha de marcarmos aquele nosso encontro? Xx”

Nota da Autora: Hey, gente! Tudo bem? Espero que tenha gostado desse capítulo haha! Será que esse encontro vai rolar mesmo? Comentem e me falem a opinião de vocês! Críticas também serão muito bem vindas, juro!
E enquanto não sai nova atualização, leiam minha short, recentemente postada aqui no site!
That’s Enough {original|finalizada}
Beijos e até a próxima! 🙂

Capítulo 10
“If you want me to
The sky is everywhere, so meet me under there”
‘s POV

Hoje estava um dia mais frio do que eu esperava. Principalmente se levasse em conta que poucos dias antes eu estava passeando tranquilamente pelas ruas da cidade, aproveitando o bom tempo. Mas Londres estava nublada e aderia ao seu tom cinzento e nostálgico tão costumeiro. Infelizmente eu não gostava daquele clima tanto quanto eu deveria.

Por isso me apressei o máximo que pude para chegar o antes possível ao estúdio.

Teríamos um longo dia de filmagens hoje, e eu estava super animada. Tinha passado os dias anteriores ensaiando as falas em casa igual a uma doida, além de ter ido treinar várias vezes na academia. Eu já não estava reclamando tanto quanto antes sobre isso.
Parei em frente à porta de entrada, respirei fundo e então adentrei o grande salão, já sendo logo abordada por uma das assistentes de cabelo e maquiagem, para então ser levada até o camarim.

— Querida! Chegou no horário exato. — Philip me alcançou e cumprimentou-me com um beijo em cada bochecha. — Vai economizar meu tempo, isso é ótimo.

— Bom dia! — Sorri para ele, logo me sentando na penteadeira. — Prometo que hoje não vou ser uma pedra no sapato para você.

— Que bom, porque não temos tempo a perder com coisas bobas! — Tinha alguém de bom humor hoje, graças a Deus.

Philip e suas assistentes logo trataram de lavar meu cabelo e o secar, para depois começarem a modelar os fios e então iniciar a maquiagem.

Era algo de ficar de queixo caído quando você reparava na prática e rapidez que eles tinham para fazer qualquer coisa. Eu tinha muita inveja daquilo, pois a única coisa que eu sabia fazer no cabelo era uma trança para assim deixá-lo um tanto ondulado depois.

Já na parte de roupas, não demorava mais que dez minutos. Era muito fácil escolher as peças para minha personagem, já que Kate usava sempre preto. Um tanto monótono, mas prático.
Quase uma hora e meia depois eu já estava pronta, esperando que o cenário terminasse de ser montado e meus colegas dessem o ar da graça e aparecessem logo. Infelizmente não viria para as filmagens de hoje, o que me faria bastante falta, levando em consideração que ele costumava me fazer companhia enquanto não começavam as gravações.

Então mesmo contra minha vontade, eu teria de me acostumar com dias assim. Era fato que não participaria durante toda a temporada, portanto eu deveria arrumar o que fazer além de lamentar sua não ida ao estúdio.

Me sentei na cadeira marcada com meu nome e voltei a reler o script. De verdade, eu gostava muito da minha personagem na série The Black Side. Ela era tão atrevida, tão diferente de mim na vida real, que eu ficava feliz por interpretar outra personalidade e sair da minha mesmice. Em certos momentos eu até mesmo chegava a sentir uma pontada de inveja de Katherine.

No entanto, voltando para a vida real, Gregory tirou minha concentração da leitura quando entrou no ambiente e atravessou o salão com a cara fechada. Murmurei um bom dia em sua direção e ele se limitou a sorrir, sem mostrar os dentes, em resposta. Não sei se estava preparada para apresentá-lo de mau humor, mas não era como se eu tivesse escolha.
Victoria apareceu logo em seguida, também devidamente vestida e maquiada.

— Olá, fofa! — Ela me abraçou. — Como tem andado?

— Com as pernas. — Comecei a rir da minha associação idiota, mas seu olhar de “sério mesmo?” me fez voltar ao normal. — Tô bem, e você?

— Idem. Incomodada com Gregory por ele estar carrancudo, mas bem. — Ela deu de ombros e puxou o script da minha mão. — Espero que ele não implique com a gente.

Olhei de rabo de olho para ele e depois voltei minha atenção para Vicka.

— Você acha que ele faria isso? — Eu queria acreditar que não.

— Ah, sem dúvida nenhuma! — Vic continuou a folhear as páginas. — Capaz de baixar o insatisfeito nele e a gente só sair daqui depois da meia noite.

— Nossa, não é toa que você é atriz. — Murmurei. — Com todo esse drama exagerado é difícil imaginar você fazendo outra coisa não sendo atuar.

— Não muda de assunto, . — Ela emburrou e eu ri.

— A questão é que eu espero que você esteja errada. — Intercalei olhares entre nós e o diretor. — Não consigo trabalhar sob pressão.

Não deu dois segundos que eu disse isso e o Sr. Colleman começou a gritar com alguns assistentes “incompetentes” da produção. Encolhi os ombros e fiz uma careta.

— Acho melhor você dar um jeito nesse seu problema então. — Victoria estalou a língua no céu da boca. — Hoje o dia vai ser meio estressante…

*
— ONDE ESTÁ AQUELE GAROTO?! — A voz estridente do diretor soou no estúdio e todos pareceram arregalar os olhos no mesmo instante, procurando um lugar onde não pudessem ser atingidos por sua fúria. — ELE ESTÁ QUARENTA E TRÊS MINUTOS ATRASADO! — O relógio mudou o ponteiro. — QUARENTA E QUATRO!

Continuei a bater meus pés no chão, impaciente e nervosa. Ninguém se atrevia a olhar nos olhos de Gregory e ele fazia questão de olhar no de todo mundo. Estava tão furioso que ninguém duvidava dos atos que ele poderia cometer se fizéssemos uma pergunta errada ou falássemos algo que não fosse necessário.

Dessa maneira, as respostas se resumiam em coisas como “Sim, Senhor!”, “É pra já!”, “Tudo o que você quiser!”. Essas eram as mais frequentes e promissoras. Até eu já tinha usado uma ou duas delas.

Acontece que eu preferia o diretor de hoje mais cedo. Aquele que não estava se comunicando com ninguém. Aquele que apesar de irritado, não mostrava tendências assassinas, como o de agora, que poderia abater quem quer que contrariasse sua palavra.

Por quê? Porque o querido e maravilhoso , havia tomado chá de sumiço.

Aquele garoto pedia pra ser odiado!

E foi só falar na praga, que ela resolveu dar as caras. Devo dizer que todos pareceram soltar o ar dos pulmões, aliviados com achegada dele.
passou pelas portas a passos largos e apressados. Sua expressão séria dizia que ele estava mais que ciente que tinha passado do horário estipulado.

Sr. Colleman o viu e cruzou os braços. Lançando um olhar ameaçador em sua direção.
Eu pensei que começaria a ver cadeiras voarem, pessoas a correr de um lado para o outro tentando se esconder dos destroços, mas se apressou para ficar de frente com o diretor e eu não vi nada do que imaginei. Os dois começaram a conversar. Pelo menos eu achava que era essa a tentativa de , pois o Sr. Colleman não queria exatamente trocar palavras. Estava mais para trocar socos. Mas não é que o moreno pareceu o convencer com alguma história?

Bufei um tanto contrariada. Caramba, aquele garoto devia ter soado muito convincente ou persuasivo.

No instante seguinte já se juntava a Vic e eu, com aquele sorriso arrogante nos lábios.

— Desculpem fazer vocês esperarem, garotas. — Ele disse com ironia.

— Por que você demorou tanto, ? — Me atrevi a questionar. — Estávamos quase sendo degoladas por sua causa.

O garoto nos olhou de cima a baixo.

— Não vejo nada de errado com vocês. — Analisou, cínico. — Então não vejo motivos para tanto ódio com a minha pessoa.

— Mas é expert em ser idiota, não?

— O quê? Você que está sendo exagerada. — Tentou se defender e eu grunhi irritada.

— Exagerada? Na boa, eu nunca imaginei Gregory tão explosivo! — Tentei argumentar, mas a única resposta que eu tive de , foi um riso nasalado. Meu Deus, ele não conseguia levar nada a sério?

— Tome isso como uma nova experiência de vida. — Revirei os olhos.

— Gregory vai infernizar nosso trabalho hoje. — Falei emburrada, tomando as palavras de Vicka como verdadeiras. — Graças ao seu atraso.

— Eu tive uns problemas com a gravação do CD há pouco tempo. — Explicou enquanto uma das maquiadoras passava pó compacto em seu rosto. — Tive que resolvê-los primeiro para depois vir pra cá.

— Realmente, — Começou Vic. —, você tem bons motivos, mas sabe como o Sr. Colleman é. Por mais que ele não tenha te agredido nem nada do tipo, não espere cortesia da parte dele hoje. Espero que todos tenham comprimidos para dor de cabeça.

— O que vocês estão fazendo aí parados? — Adivinha só quem falava irritado? — Não é hora pra fofoca! Quero cada um em seu devido lugar AGORA! Chega de embromar, suas tartarugas paralíticas!

Eu sei que o diretor estava falando sério, mas tive vontade de rir. E eu teria feito isso se Victoria não tivesse me puxado para o centro do cenário com uma mão cobrindo minha boca enquanto a outra se prendia em meu braço.

— Cala a boca se você quer ficar viva até o fim do dia. — Ela cochichou e eu assenti.

— POR QUE VOCÊS AINDA ESTÃO CONVERSANDO?! — Encolhi os ombros. Victoria Jogou o script para longe.

— Seguinte — se colocou ao nosso lado. —, trabalhamos ou escutamos gritos. O que vai ser?

— SERÁ QUE EU ESTOU FALANDO MANDARIM? — Retorci minha boca em uma careta. Vicka disparou para o outro lado do cenário, onde devia ficar.

— Primeira opção, por favor. — Murmurei antes de imitar o gesto dela para que iniciássemos o dia de trabalho daquela quarta-feira.

*
— Pelo que eu me lembre, contratei vocês por achar que eram bons o suficiente. — Gregory chiou, interrompendo-nos de novo pela que parecia ser a nona vez que tentávamos gravar aquela cena. — ENTÃO POR QUE VOCÊS NÃO CONSEGUEM FAZER ISSO DIREITO?

Relaxei meus músculos em um sinal de desistência. Isso era de deixar qualquer um louco.

— Esse mau humor todo aí é falta de sexo. — Falou Geoff, um dos atores que participava dessa cena comigo e , provocando alguns risos descontraidos de todos ao seu redor, inclusive eu, que acabei rindo um pouco alto demais de suas palavras, desconcentrando-me totalmente. E na hora me arrependi.

— O que é tão engraçado, senhorita ? — Recebi os olhares homicidas de Gregory. — Gostaria de compartilhar? Aposto que todos estão curiosos para saber o motivo para um sorriso tão grande como o seu agora. — Engoli em seco e pigarreei.

— Desculpe… — Respondi e ele revirou os olhos em resposta.

— TUDO DO COMEÇO! — O diretor gritou e os roteiristas se acomodaram novamente em suas cadeiras. Elas já não pareciam ser assim tão confortáveis quanto horas antes.

Um coro de vaias e reclamações foi feito. Sr. Colleman não se mostrou afetado por isso.

— Quanto mais reclamarem, mais tempo vai levar! — Bufei irritada, as mãos em minha têmpora. Nós já estávamos quase no fim da tarde. Eu estava cansada. Todos nós estávamos.

— Vamos fazer isso direito dessa vez, Ruivinha. — falou se posicionando atrás de mim.

— Eu estou tentando! — Afirmei. — Vim fazendo exatamente isso das outras nove vezes, pode acreditar.

— É uma cena de luta, você só tem que se soltar e fazer com eles o que faz com seu instrutor. — deu a dica, e eu tentei fazer uso da mesma quando a gravação começou.

Pela décima vez.

Infelizmente foi outra tentativa falha. Eu não havia obtido grande sucesso dessa vez, assim como nas outras. Entretanto a culpa não pairava em mim totalmente como Gregory fazia parecer. Eu tinha total conhecimento do que eu deveria e de como deveria fazer. Mas eu já tinha dito antes em alto e bom som que não conseguia fazer nada sob pressão. Meu corpo travava, simples assim. E quando não era isso, meu cérebro começava a passar informações invertidas, como confundir esquerda com direita, lascando tudo de vez.

Me joguei, literalmente, frustrada no chão. Fechei os olhos com força e contei até dez mentalmente. Eu tinha que conseguir fazer isso. Não poderia ser assim tão ruim em fingir bater nas pessoas. Eu já tinha feito isso antes! Que desgraça!

— Gregory, vamos fazer uma pausa de alguns minutos? — A voz de soava distante.

— E vocês acham que do jeito que estão, vão conseguir compensar esse tempo depois? — Argumentou irritado. Não me atrevi a sair da posição que estava. — Sinto muito, , mas se vocês não estão colaborando comigo, então não vou colaborar com vocês.

— Olha, Sr. Colleman, alguns minutos de pausa vai ser bom até para você. — Insistiu . — Olhe ao redor. Ninguém está aguentando mais! até se jogou no chão. A garota parece que vai ter um troço a qualquer instante, olha só como ela está pálida.

Tirei as mãos do rosto e fiz uma careta. Será que eu aparentava estar tão mal assim? Realmente esperava que a resposta fosse não. Deus me livre ser gravada parecendo um espantalho anêmico.

— Tudo bem. — O diretor concordou, claramente contrariado. Ele fazia isso como se fosse um grande favor. — VOCÊS VÃO TER MEIA HORA DE DESCANSO! QUANDO VOLTARMOS, QUERO DEDICAÇÃO E EMPENHO! NÃO ME DECEPCIONEM!

— Deus ouviu minhas preces! — Victoria falou e imaginei que a uma altura dessas, ela já não estaria mais por perto.

As pessoas suspiraram aliviadas e até mesmo um pouco animadas com a notícia. Mesmo eu, acabada e desnorteada com a vida, sorri ali onde estava. Cobri meus olhos com as mãos de novo e deixei a paz me atingir.

Pena que ela não durou tanto assim.

— Acho que você me deve um “obrigado”. — Tirei o braço que até então cobria meu rosto, e encarei , que se sentava ao meu lado, de forma despreocupada.

— E por quê…? — Arqueei uma sobrancelha. Minha voz saiu de forma arrastada.

— Se não fosse por mim, a única coisa que você estaria fazendo agora, seria desmaiando, ou então dando um chilique. Estar deitada no chão não entra na lista.

Ele estava certo, mas eu não admitiria isso.

— Então você me fez um favor? — Ri nasalmente. — Sei que usou minha aparência doentia como desculpa.

Ele riu divertido sem aquela sua expressão de deboche tão usual, e mudou de assunto:

— Você está de verdade com dificuldades, não é? — Eu olhei para o moreno sentado ao meu lado, e imitei sua forma de sentar, só para então despejar o que se passava na minha cabeça no instante seguinte:

— É só que Gregory está colocando defeito em tudo! “Fulano entrou pelo lado errado”, “Cicrano abriu a boca antes da hora”, “Você fez uma careta que não era pra fazer”! Isso está acabando comigo… — Grunhi e me deitei no chão de novo. — As coisas estavam indo bem… Até ele começar a implicar.

— E deixe-me adivinhar… — arqueou as sobrancelhas. — Isso afeta na sua atuação.

— Na mosca.

pareceu pensar em algo durante os poucos segundos que permanecemos em silêncio, e então se levantou e esticou a mão em minha direção. O olhei, momentaneamente, confusa.

— Levanta, Ruivinha.

— Pra quê? — Perguntei, tentando entender o que ele planejava.

— Vamos resolver o seu problema. — Segurei em sua mão e fiquei de pé contra a vontade, retrucando:

— Eu não estou com nenhum problema.

— Aham, vou fingir que acredito. — olhou ao redor e depois se colocou a alguns passos de distância de mim. — Vamos ensaiar, o que acha?

— Os outros atores não estão aqui.

— Mas eu estou. — Respondeu rápido. — Se contente comigo, Ruivinha.

— Mas como você quer ensaiar isso então? É uma cena de luta, ! — Tentei esclarecer e dizer que aquilo não ia funcionar muito bem, mas eu já deveria ter imaginado que ele abriria aquele sorriso sarcástico, como fazia naquele exato momento.

— Então lute comigo. — Falou simplesmente e o olhei descrente.

— Sem chance.

— Está com medo de me bater? — Seu sorriso se alargou mais ainda. Por algum motivo aquilo me irritou.

— Claro que não!

— Então vamos lá! — Ele levantou os punhos na altura do maxilar. — Você sabe o que fazer.

, para de besteira!

— Você não vai ter outra oportunidade como essa, acredite! — Juntei as sobrancelhas.
Ok. Se ele queria assim, ótimo!

Respirei fundo e me coloquei na mesma posição que ele.

— Por que está fazendo isso? — Dei o primeiro chute na lateral do seu tronco, partindo para o ataque. Quando eu insinuei dar outro golpe ele desviou.

— Porque eu não estou a fim de gravar a mesma cena mais dez vezes! — Tentou me golpear, e eu me abaixei.

— E por isso está deixando eu te bater? — Seu antebraço bloqueou um de meus socos.

— Como se esse não fosse um dos seus sonhos. — Grunhiu antes de tentar prender meus pulsos distantes do seu rosto.

— Você está certo. — Girei meu corpo para o lado antes que ele me alcançasse de novo, e mais rápido do que consegui raciocinar, abaixei e lhe dei uma rasteira.

caiu e gemeu com a pancada no chão. Eu sorri vitoriosa e surpresa comigo mesmo. As aulas estavam servindo para alguma coisa! Por que eu não conseguia fazer isso quando devia e precisava?

— Bom trabalho. — Sua voz estava meio lenta e esquisita. — Mas saiba que eu deixei você fazer isso.

— Deixe de ser orgulhoso e aceite a perda. — Estendi o braço para que ele se levantasse.

aceitou sem relutância e me deu sua mão. Fui ingênua ao achar que tudo ficaria nessa de “beleza, aceito numa boa”, pois meu corpo foi puxado com força para baixo.

Soltei um gritinho agudo de surpresa e logo eu encontrava o chão ao seu lado.
Demorei um tanto para dizer qualquer coisa que não fossem palavras incoerentes. Fiquei grata ao perceber que as poucas pessoas que permaneceram por ali, não estavam prestando a mínima atenção em nós dois.

— Idiota! — Murmurei enquanto levava minha mão até minhas costelas que doíam por causa do impacto.

— Só estava revidando. — Bufei irritada. — Agora estamos empatados no zero a zero de novo.

— Eu devia ter imaginado que era bom demais pra ser verdade. — Me sentei e abracei meus joelhos, cansada.

— Se você acha… — murmurou. Eu me limitei a revirar os olhos.

— Preciso de água.

— E eu de um cigarro.

Fiz uma careta e me levantei. Percebi tarde demais que ele me encarava curioso.

— Que foi? — Ele franziu as sobrancelhas.

— É que… — Balancei a cabeça para os lados. — Nada. Esquece.

— Tem certeza que não quer falar? — insistiu.

— Tenho sim. São comentários insignificantes. — Mordi meu lábio inferior. — Vai fumar o tal do seu cigarro. A gente se vê quando o intervalo acabar.

Não esperei por sua resposta quando virei as costas e sai andando diretamente para o meu camarim. O que tinha acabado de acontecer?

Um momento singular de quase paz entre eu e o mala do ? Tudo bem que a gente estava “se batendo”, mas não era exatamente proposital. Em outro momento eu conseguiria quase rir pensando nisso tudo. Agora, porém, eu juntava as sobrancelhas e pensava o quão estranho aquilo havia sido.

*
Acho que nunca abri um sorriso tão grande ao ouvir que estava liberada para voltar para casa. Fiquei tão feliz em escutar a frase até mesmo abracei a pessoa generosa que a havia dito tal coisa (só para ficar claro, não, não tinha sido Gregory quem me avisou. Foi um dos seus assistentes que o fez).

Já se passavam das nove horas da noite quando eu finalmente pude me trocar e sentar confortavelmente na cadeira do camarim, respirando fundo. Victoria parecia tão aliviada quanto eu, jogada no sofá no canto da sala, balançando os pés para fora do estofado. Parecia desligada do mundo, viajando por uma dimensão alternativa enquanto observava o teto.

— Vicka? — Eu a chamei e atrai seu olhar.

— O que foi, amore?

— Aconteceu alguma coisa? — Ela fez uma careta, como se não quisesse que eu perguntasse sobre isso.

— Nada que já não seja novidade. — Vic estalou a língua no céu da boca e fez um grande bico com os lábios.

— Quer compartilhar? — Andei até seu lado e me sentei no chão de pernas cruzadas. — Tenho alguns minutos até virem me buscar.

Victoria pareceu contrariada a primeiro momento. Entretanto, logo ela já estava sentada da mesma forma que eu em minha frente, no chão. Quem precisa de sofá quando se tem um tapete macio e gostoso?

— É que eu acho que eu estou gostando de um cara. — Sorri maliciosa. — Mas tipo, gostando dele pra valer.

— E o que tem de errado nisso? — Deduzi que meu sorriso de orelha a orelha mostrava minha animação com a novidade.

— Eu não sei se ele gosta de mim do mesmo jeito… — Seu suspiro desanimado me fez desmanchar o sorriso que exibia. — É confuso. Nós agimos como se fossemos melhores amigos, mas nos beijamos quando temos oportunidade. Só que a gente sempre fez isso como quem faz para “curtir o momento”, sabe? Nunca foi nada sério. E agora toda aquela babaquice clichê que acontece nos filmes e livros está acontecendo comigo. Chega a soar ridículo quando eu digo que sinto meu coração acelerar assim que o vejo.

Eu voltei a sorrir igual a uma boba.

— Você tá apaixonada? — Perguntei com a voz fina, como a de uma criança.

— Não! — Ela se apressou em dizer, com os olhos levemente arregalados. — Apaixonada não… Espero não estar tão ferrada assim. Mas eu gosto dele, entende?

— Sim, acho que sim. — Concordei. — Já pensou em perguntar para ele?

Sua gargalhada ecoou pela sala, fazendo meu sorriso desaparecer e eu assumi uma expressão séria enquanto a encarava.

— E dizer o quê? “Ah, antes que eu esqueça, tô gostando de você mais do que como amiga, viu? A gente se vê!”. Não, . Sem essa. — Victoria revirou os olhos e abaixou sua cabeça. Seus ombros vieram para frente quase que involuntariamente. — Se eu disser algo assim e ele não sentir o mesmo, o cara vai sair correndo! Melhor ficar com o que temos.

— Ah, não! Pode parar com isso. — Balancei a cabeça para os lados de forma exagerada.

— E qual sua ideia brilhante? — Ela ironizou.

— Presta atenção na forma que ele te trata. — Dei de ombros. — Se ele se importa realmente com você… Não sei muito bem como ajudar, nunca fui boa com essas coisas de relacionamento.

— Acho que eu preciso de uma opinião masculina… — Ela grunhiu e jogou a cabeça para trás, antes de começar a murmurar. — Ou me entupir de chocolate. O que vier primeiro. Pensando bem… chocolate é melhor mesmo.

— É isso! — Me levantei de repente, atraindo seu olhar confuso e assustado. — Você está certa, Vicka.

— Então eu devo me entupir de chocolate? — A garota juntou as sobrancelhas.

— Não, você precisa de uma opinião masculina. — Foi minha vez de revirar os olhos. — Eu já volto. — Sai do camarim e comecei a me esgueirar pelo corredor até chegar à sala onde estaria a pessoa que eu procurava.

Bati insistentemente na porta, de tal forma que as pessoas que passavam, começaram a me encarar de forma estranha, provavelmente achando que eu estava louca.
Quando o barulho da tranca sendo aberta foi feito, eu me afastei. Assim que vi a figura morena na minha frente, não pensei duas vezes antes de pegar em seu pulso e arrastá-lo até onde Victoria estava.

— O que você está fazendo, sua maluca? — Ele perguntou com a testa franzida, correndo ao meu encalço.

— Ajudando uma amiga.

— E eu com isso?

— Só cala a boca e vem! — Continuei o puxando com ainda mais convicção.

Ele murmurou algo que eu não consegui distinguir muito bem, mas aquilo pouco importava realmente. Eu queria mesmo ajudar Victoria, por isso faria tudo que estivesse ao meu alcance para resolver essa tal história. Inclusive apelar para conselhos de . Se é que ele poderia ajudar nesse tipo de coisa…Tentei me convencer de que aquela não seria uma ideia assim tão ruim enquanto caminhávamos até onde a garota estava.

Abri a porta e empurrei para dentro, fechando-a atrás de mim em seguida, com pressa.

As duas mulheres que viram, nos olharam com desentendimento e surpresa. Infelizmente eu
não tinha tempo e nem pique para explicar o que estava acontecendo.

— Agora que me sequestrou, será que dá pra me explicar o que diabos está acontecendo? — Revirei os olhos com o exagero de .

— Então essa é a sua solução para o meu problema? — Vicka me olhou enquanto apontava com desdém para , usando o dedo indicador. — Tem certeza do que está fazendo?

— Credo, como vocês são chatos. — Exclamei sem expressão definida. Olhei para e respirei fundo. — Vic está com problemas com um cara e precisa de uma opinião vinda de um ponto de vista do sexo oposto. E mesmo você não sendo minha primeira escolha, é a personalidade masculina mais próxima. Pensei que você poderia ajudá-la.

Ele me analisou por um momento e depois trocou o peso do corpo de pé.

— Fico honrado em saber que você reconhece minha masculinidade. — Revirei os olhos com a ironia de suas palavras. Apesar de que eu já estava me habituando a elas.

— De qualquer forma, Victoria vai te contar tudo agora. — Comecei a andar até o biombo no fundo do camarim. — Preciso me arrumar. Não saiam daí!

Eu virei as costas e dei dois passos antes de voltar minha atenção para eles de novo.

— Será que Philip vai se importar se eu pegar um vestido daqui emprestado?

— Com certeza. — disse convicto. Vic ao seu lado deu de ombros.

— Não se ele não perceber. — Entortei minha boca numa careta, repensando minha ideia. — Já fiz isso algumas vezes, . Só seja cuidadosa e estará tudo certo.

Assenti e peguei o vestido e o sapato que me interessava, seguindo para o biombo, onde me troquei enquanto a garota recontava tudo que já havia dito para mim, e até um pouco mais, dessa vez para . Descobri que ele era um bom ouvinte, pois em nenhum momento interrompeu-a. Agora eu já estava um pouco mais convencida de que trazê-lo para cá não tinha sido uma ideia assim tão horrível.

Quando terminei de me vestir e me sentei na cadeira de frente para o espelho da penteadeira, pronta para passar um batom e desembaraçar meus cabelos, as duas figuras no sofá da sala fixaram seus olhos em mim, parando a conversa que estavam tendo para me observar. Interrompi meus movimentos, enquanto revezava olhares entre os dois através do espelho.

— Que foi gente? Tá muito feio? — Olhei para minha roupa, conferindo se não estava amassada, desajeitada ou então do avesso antes de olhá-los outra vez.

— Não, é que… — Vicka pareceu se interromper. — Você está muito arrumada só pra voltar para casa.

Eu sorri sem saber bem o que responder.

— Não vou para casa, Vic.

— Não? — Ela arqueou a sobrancelha esquerda.

— Não. — disse simplesmente. — Tenho um encontro hoje.

— Encontro? — Foi a vez de me olhar desconfiado.

— Sim, um encontro. — Senti minhas bochechas corarem. Ambos continuavam a me fitar de forma estranha. — Por que parecem tão surpresos?

— Nada. — Ela apressou-se em dizer. — Mas só por curiosidade, com quem vai ser o encontro?

Por alguma razão eu não disse o nome imediatamente. Respirei fundo duas vezes e desviei minha atenção de volta para o batom em minha mão.

.

? ?

— Por que parece tão indignado, ? — Franzi meu cenho, voltando meu olhar para ele enquanto me penteava. — Sim, .

— Você vai sair com um dos meus melhores amigos? — Eu o olhei momentaneamente confusa feat. incomodada com sua reação.

— Até onde eu saiba, sim. Vou. — arqueou as duas sobrancelhas, como se a ideia ainda estivesse sendo absorvida em sua mente.

— Que ótimo, amore! — Vicka se mostrava interessada, animada e feliz. — E o que vocês vão fazer?

— Vamos jantar. Não vai ser nada de mais. — Dei de ombros. E não seria mesmo. Ele era meu amigo, e eu pretendia que, a primeiro momento, ele continuasse sendo apenas meu amigo. — Não é como se fossemos um casal.

Um segundo depois de finalizar a frase, me perguntei por que exatamente eu havia dito aquilo.

— Então talvez eu deva desejar um bom encontro a vocês. — falou, porém era perceptível que não era isso realmente que ele queria dizer. Dei de ombros como quem não quer nada.

— Bem, obrigada. — Olhei para meu celular. — E agora eu preciso ir, ele já está me esperando. E , espero que ajude Vic. E Vic, só ouça se ele disser algo que realmente preste. Boa noite!

me lançou um último olhar observador e então voltou a encarar Vicka.

— Juízo, garota! — Gritou ela no momento em que pisei para fora da sala.

Eu tinha um encontro, e não podia me atrasar.

*
A ida até o restaurante havia sido bem rápida. Impossível que acontecesse o contrário quando se está dentro de uma Mercedes. Eu tinha que admitir que o carro de era muito, muito lindo. Um diferente daquele usado alguns dias atrás.

A fachada do restaurante era sofisticada e requintada. Fiquei feliz por estar vestida de forma adequada, assim poderia evitar constrangimento tanto para mim quanto para , que, aliás, estava realmente bem vestido e muito bonito também.

Ele me ajudou a descer do carro antes de entregar a chave do mesmo para o manobrista. Seguimos então para a mesa de dois lugares, reservada em seu sobrenome, em um canto distante do restaurante. Presumi que ele tinha pensado em manter a privacidade de nós dois, nos colocando longe de janelas e da porta de entrada.

A iluminação fraca e amena do restaurante francês, com as paredes de cor creme e as cadeiras e mesas em metal cor cobre, deixava o ambiente mais aconchegante. A música clássica que tocava de fundo ajudava para que as pessoas que chegassem ali se sentissem espontaneamente relaxadas e leves.

Pouco depois que nos sentamos, um garçom veio nos entregar o cardápio, trazendo consigo uma garrafa de vinho, que preencheu nossas taças no momento seguinte.

— Fique à vontade para pedir o que quiser, . — Ele sorriu e eu assenti. Mas na verdade não estava segura para isso. Eu não conhecia a culinária francesa. Nada além de croissant, Petit gateou, omeletes e baguetes.

— Por que você não pede para mim o mesmo que for pedir pra você? — Sugeri esperando que ele concordasse.

— Todo bem. — Ele riu um pouco e voltou seus olhos para o cardápio. Beberiquei o vinho enquanto ele escolhia, até que ergueu sua visão em minha direção. — O que acha de Ostras Mornae?

— Er, melhor não. — Balancei a cabeça para os lados. — A não ser que você queira me ver parecendo um Baiacu.

Apesar de ter rido, não pareceu entender o que eu queria dizer. Na verdade eu acho que ninguém entenderia.

— Tem preconceito contra ostras? — Indagou brincalhão.

— Na verdade eu sou alérgica. — Expliquei. — Alérgica a todos os frutos do mar. Com exceção de alguns peixes. Exceção de quase todos, na verdade.

— Ah, sim. Então vamos esquecer as ostras. — Foi minha vez de rir fraco. — Que tal então Coq au Vin?

Levantei meu cardápio para ler e conferir se eu não correria risco nenhum ingerindo esse prato e descobrir do que exatamente era feito. Coq Au Vin era, na verdade, galo refogado no vinho tinto, servido com legumes, molho, batatas e cogumelos. Achei seguro, portanto concordei com .

Ele levantou o braço, num gesto que fizesse o garçom vir até onde estávamos já com a caderneta em mãos.

Bonjour, Mademoiselle — Se virou para mim, cumprimentando-me e logo se virou para . —, Monsieur. Já estão prrontos parra pedirr? — Seu sotaque forte e carregado me fez pensar que talvez ele fosse realmente francês. Ou então gostasse muito do emprego que tinha.

— Sim, por favor. — O homem olhou para com atenção. — De entrada vamos querer duas Salade normande. Depois dois Coq au vin como prato principal, e para a sobremesa dois Mille Feuilles.

— Como quiserr, monsieur. — O homem se curvou brevemente e saiu em direção à cozinha.

— Como foram as filmagens hoje? — perguntou numa tentativa de puxar assunto.

— Ah, foram bem demoradas. — Dei de ombros. — Às vezes irritantes. Tivemos que gravar algumas cenas várias vezes.

— Por que tudo isso? — Pela cara que fez, acreditei que ele não havia presenciado um ataque de fúria de Gregory ainda.

Então eu expliquei a ele desde o atraso de , até o cansaço gigantesco que caiu sobre o estúdio completamente depois das oito e trinta da noite. Ele ria, óbvio. Não tinha vivido tudo aquilo, então se divertia com a desgraça alheia. Eu não o culpava por isso. Imaginei que no futuro eu estaria fazendo a mesma coisa.

— Você teve sorte por não ter ido hoje, . — Completei pegando em minha taça.

— Pois é! Consegui perder você batendo em de novo. — Ele fingiu estar realmente chateado. — Nunca vou me perdoar por isso.

— Não estou falando disso! — Ri.

— Mas eu estou. Foi a parte mais interessantes da conversa toda.

Fiquei sem graça e sem ter realmente o que dizer sobre isso, por isso fiquei agradecida quando o garçom de sotaque francês voltou trazendo nossa entrada, que como já dizia o nome, era feita com maçãs. Diferente, mas muito boa mesmo.

Eu odiava comer com outras pessoas. Meu cuidado para não fazer nada estranho na mesa, de repente dobrava. E era aí que morava o perigo. Não sei bem como acontecia, mas parecia que a comida se recusava a ficar no prato, e assim, voava para minha roupa ou então para o chão. E essas não eram os piores possíveis acontecimentos. Então eu rezava e pedia internamente para que nada constrangedor acontecesse. Pelo menos nessa noite.

— E como vai o novo álbum? — Levantei os olhos para . — Acabei me esquecendo de perguntar.

— Vai bem. — Ele pausou a fala para comer o que estava em seu garfo. — Ed está nos ajudando. Ele é um dos caras mais criativos e talentosos que eu conheço, então tenho esperanças que logo, logo possamos terminar pelo menos de compor as músicas que faltam.

Pausa dramática.

— Ed? Ed Sheeran? — Minha cara de surpresa deve ter sido bem divertida, pois estava segurando o riso. Ele assentiu. — Tá brincando?! Ele é simplesmente incrível!

— Então você é uma fã não assumida do ruivo? — Perguntou.

— Eu não digo que sou fã, mas com certeza admiro o trabalho dele. — Dei de ombros. — Fico impressionada com a forma que ele consegue deixar a música tão sentimental. Não é aquela coisa repetitiva, sabe? Que usa os mesmos aspectos comuns de composições de alguns cantores por aí. É uma história diferente para cada música. E ele tem o dom de me deixar toda melancólica por causa disso.

— É acho que mudei de ideia. — Ele disse e eu franzi o cenho.

— Como assim?

— Você não é uma fã não assumida dele. — Ele pausou, me olhando. — Você é uma fã reprimida. — Não sou! — Protestei rindo. — Sou fã de poucas pessoas. E tenho até minha banda preferida.

— Qual? — Vi seus olhos iluminarem e um sorriso abrindo em seu rosto. Coitado. Ele estava se iludindo achando que era a banda dele…

— Fall Out Boy. — O sorriso dele diminuiu. — E eu gosto bastante de Paramore também.

— Já escutei algumas músicas.

— Sim, eles são muito bons! — Assenti. — Gosto de Olly Murs, aliás. Ah, e eu pago pau para Maroon Five. Adan Levine é o cara, pena que já é casado… — Murmurei essa última parte para mim mesma. Não era necessário que ele escutasse e soubesse desse pequeno detalhe.

— Certo, já sei o tipo de música que você gosta. — Ele sorriu e me fitou atentamente. — O que mais posso saber?

— Pode saber tudo o que quiser. — Dei de ombros, envergonhada por algum motivo desconhecido.

— O que você costuma fazer quando está com tédio? — Questionou. Achei uma pergunta bastante boba, mas não disse isso a ele.

— Eu costumo ler muito. — Disse. — Sempre tive muita influência de leitura em casa, portanto tenho uma grande prateleira de livros no meu quarto. Poderia dizer que é a minha parte preferida do ambiente todo.

— Que tipo de livros?

— Todos os tipos. — Respondi rapidamente. — Não tenho o mínimo preconceito com gêneros. Leio de tudo e mais um pouco.

O prato principal chegou no momento seguinte, interrompendo nossa conversa por alguns segundos. contou que gostava de fazer exercícios físicos. Geralmente era isso que ele fazia nos momentos livres que tinha.

Contou-me também como era sua vida antes da fama. De como ele vivia em Liverpool com seus pais e suas irmãs, de um jeito simples, nunca imaginando que fosse ter tudo o que tinha hoje, nem que sequer fosse ter metade das oportunidades que lhe foram oferecidas até então. Além disso, falou como nunca teve dúvidas do que queria ser. Do apoio que recebeu da família quando descobriram isso, e de como se empenhou e persistiu para que finalmente chegasse onde queria.

Nós nos prendemos tanto na conversa que mal percebemos que já estávamos comendo a sobremesa, que devo acrescentar, estava simplesmente deliciosa. O tempo estava passando rápido demais, o que era uma pena. O jantar estava excelente.

— Você não cansa de viajar? — Perguntei curiosa, já que agora falávamos sobre nosso dia a dia — o dele, com certeza mais interessante que o meu, era repleto de idas e vindas para diferentes continentes. — A cada três dias ter que entrar de novo no avião e se preparar para outro lugar totalmente estranho?

— Acho que não. — Ele riu e fez uma careta, como se repensasse a resposta. — Ok, talvez um pouco. Mas eu gosto. Tem sempre algo de bom para fazer em cada lugar que visitamos.

— Viajar ao redor do mundo. — Falei. — Sonho de muitos, realização de poucos.

— Acho que eu tenho um pouco de sorte. — Riu e eu o acompanhei.

— Muita sorte, com certeza. — O corrigi e ele revirou os olhos.

Acabamos a sobremesa e imediatamente vieram recolher nossos pratos. Ainda ficamos conversando e rindo durante mais um tempo, enrolando para ir embora. Mas isso também não demorou a acontecer. Nos levantamos e foi pagar a conta. O garçom que havia nos recebido, agora voltava com um sorriso singelo no rosto, e se posicionava em minha frente:

— Esperro que o jantarr tenha sido de seu agrrado, mademoiselle.

Oui, le dîner était parfait.¹ — Usei meu melhor francês para respondê-lo.

Vous parlez français, mademoiselle? — Ele parecia um tanto surpreso e por isso senti minhas bochechas ficarem vermelhas.

Un peu, monsieur. — Respondi esperando que a conversa se encerrasse ali. Eu não conseguiria lembrar de muitas outras frases em francês e provavelmente não conseguiria às entender também.

O garçom sorriu educadamente, mas pareceu desapontado.

se juntou a nós, e vinha me olhando de um jeito engraçado. Eu apostava que ele tinha ouvido minha conversa com o garçom.

— Vamos, ? — Estendeu o braço, para que eu pudesse passar minha mão pela parte interna de seu cotovelo.

— Claro.

— Nós ficamos muito grratos porr terrem escolhido nosso restaurrante. — O garçom se inclinou para a frente em um gesto educado. — Voltem semprre.

Enquanto dirigíamos de volta para casa, era a música que preenchia o ambiente.
a cantarolava baixinho, e eu tinha que admitir que escutá-lo cantar pessoalmente, era quase uma honra. Sua voz era tão melodiosa que poderia trazer paz para o lugar imediatamente.

— Desde quando você fala francês? — Ele perguntou, tirando-me de meus próprios devaneios, sem tirar os olhos da rua, mas com um sorriso brincando em seus lábios.

Percebi que eu o fitava descaradamente. Decidi então que ela não precisava ver minha expressão constrangida, e me virei para frente no banco.

— Tive algumas aulas quando era mais nova, por causa de uma peça da escola.

— Por um instante achei que fosse fluente

— Não! — Me interrompi com um sorriso. — Quem me dera fosse. Não sei muita coisa, só o básico do básico.

— Já é muita coisa, acredite. — Ele riu, e sua risada me contagiou a fazer o mesmo.

Mais alguns minutos em silêncio e parava na porta do prédio onde eu agora vivia. Ele apagou os faróis e desligou o carro, virando seu rosto em minha direção, esperando pela despedida.

— Obrigada pelo jantar, .

— Não tem que agradecer, . — Deu de ombros imitando o mesmo sorriso que eu.

— Claro que tem! — O contrariei, juntando as sobrancelhas levemente. — Era um restaurante caro, não precisava daquilo. Eu teria ficado feliz se tivéssemos ido à padaria.

Ele gargalhou.

— Claro que precisava! — Seu sorriso se alargou um pouco mais. — E você está fazendo desfeita.

— Nada disso. — Neguei, procurando um melhor jeito de me explicar sem dar entendimentos errados. — Só estou dizendo que você está se importando demais.

— Mas não tem como eu não me importar com você, . — Senti minhas bochechas corarem e agradeci mentalmente pela única iluminação ser a dos postes da rua, assim ele não presenciaria meu rosto vermelho.

Eu não sabia responder àquele tipo de frase. Simplesmente senti minha boca secar gradualmente até estar totalmente drenada. Definitivamente eu não estava devidamente preparada para escutar algo do gênero.

Por isso, em um gesto quase automático, me inclinei para frente e beijei seu rosto, voltando, logo em seguida, para a minha antiga posição.

— Obrigada de novo. — Sorri mais uma vez antes de abrir a porta e descer do veículo. — Boa noite, .

Eu não consegui ficar lá parada esperando sua próxima fala substituir sua expressão de surpresa, por isso fui direto para o portão da portaria, com um sorriso largo em minha face, que eu acreditava poder ser visto mesmo assim de costas.

Ouvi a porta do carro bater e parei repentinamente quando o escutei me chamar:

— Hey, , espera! — Me virei de costas para o portão e o assisti vir em minha direção.

Juntei as sobrancelhas e me perguntei se eu havia esquecido alguma coisa no carro.

— O que aconteceu? — Questionei subitamente enquanto o encarava. — Esqueci alguma coisa? — Olhei para suas mãos, mas nada encontrei nelas.

— Você não, mas eu sim. — me respondeu, com a respiração um tanto acelerada.

— Como assim? — Foi a pergunta brilhante que eu o fiz ainda sem entender o rumo daquela conversa. Porém, quando ele se moveu mais um passo e parou a poucos centímetros de mim, encaixei cada peça daquele quebra cabeça.

Sua boca se encostou à minha com um simples e suave tocar de lábios. Sua mão se prendeu na minha nuca, e quando ele afastou seu rosto do meu, não deixou que eu me distanciasse. Observou cada detalhe da minha face, provavelmente procurando alguma coisa que o impedisse de fazer aquilo. Pensei que, na cabeça dele, eu provavelmente sairia correndo no instante seguinte. Por isso, decidi que eu deveria mostrar que isso não aconteceria, e então repeti seu gesto e o beijei logo depois.

Seu outro braço passou ao redor da minha cintura, colando nossos corpos e acabando com o espaço entre eles, assim que sua língua tocou meu lábio inferior. Nossas bocas se moviam em um ritmo constante e calmo. Minha mão tocou seu rosto sem quebrar o contato, enquanto a outra segurava firme no blazer que ele vestia.

Senti minhas pernas bambas, e fiquei com medo de, caso ele decidisse me soltar, eu cair no chão igual uma boba. Felizmente, quando nos separamos, isso não aconteceu. Ele sorriu para mim, e eu soltei um suspiro antes de sorrir para ele em resposta. Eu não sabia o que dizer, esperava que minha simples reação já fosse o suficiente.
Ele abaixou os olhos para os pés, e deu um passo para trás.

— Acho… Acho que agora sim posso dizer boa noite. — Ele dirigiu mais um de seus sorrisos brilhantes para mim, e eu, totalmente derretida, não consegui fazer nada que não fosse sorrir e concordar, tendo certeza de estar toda corada.

Murmurei um “boa noite” bem baixinho e passei pela portaria, vendo ele seguir de volta para o carro e ir embora um tempo depois.
Segui para meu apartamento sentindo-me leve como uma pena. Um sentimento que há muito eu não lembrava como era.

*
No dia seguinte, antes mesmo das gravações começarem, Vic já havia me arrastado para um canto onde eu poderia lhe contar todos os detalhes da noite passada.

Porém, antes de qualquer coisa a fiz me dizer qual conselho esplêndido havia dado a ela. Foi quando Vicka me contou que ele apenas dissera que os caras podiam ser tão confusos quanto as garotas, por isso, dar indiretas não adiantaria. Dar dicas sutis também não adiantaria. Por fim, ela havia entendido que teria de ser direta e conversar sobre o que estava sentindo.

Ela não parecia feliz com isso, mas tivera aceitado a ideia.

E sem que nós sequer percebêssemos, estava atrás de nós duas escutando a conversa, alegando ter ouvido seu nome e ter ficado curioso em relação a isso. Dei de ombros. A presença dele ali não faria com que parássemos de conversar.

Em seguida comecei a falar como tinha sido meu jantar com . Contei tudo por cima, sem detalhar e dizer mais que o necessário, recebendo reações divergentes das duas pessoas que participavam da conversa. Enquanto Victoria se interessava completamente, revirava os olhos e parecia um tanto alheio a maior parte do que dizíamos.

Deixei de fora da história o beijo. Pensei que seria melhor guardar aquilo para eu mesma. Não teria sentido dizer para eles. Pelo menos não agora.
Quando o diretor apareceu, de bom humor (graças a Deus), fomos direto para de frente às câmeras começar o trabalho.

Mas quando não era um, era o outro.

Por algum motivo, estava mal humorado e não falava nada mais que monossílabos para quem se dirigia a ele. E, para completar, seu sarcasmo havia duplicado.

Vic e eu decidimos que era melhor não mexer com ele. Estávamos em um dia de completo “paz e amor”. Brigas não faziam parte do roteiro de hoje.
De qualquer forma, quando as filmagens acabaram horas mais tarde, depois de muito empenho e trabalho duro, fomos dispensados para casa.

Mais gravações apenas na semana seguinte. Amém.

parecia mais relaxado depois do término do trabalho. A notícia devia ter lhe feito bem, tanto que agora conversava animadamente com Vicka sobre algo que definitivamente não me interessava.

Peguei minha garrafa de água, já quase no fim, e terminei de bebê-la. Busquei então meus pertences e me preparei para seguir até o camarim.

— Preciso falar com vocês antes de irem embora! — Sr. Colleman correu para próximo de nós, então eu me juntei a Vic e .

— Estamos ouvindo. — Disse Victoria, e nós prendemos a atenção nele.

— Bom, meus atores favoritos — Gregory distribuiu os roteiros com o script na rodinha onde estávamos. —, espero que leiam com atenção e já comecem a criar a cena na cabecinha desligada de vocês, certo? Entreguem para também, por favor.

Eu estendi a mão quando ele deu o agrupo de papéis. Começando a folheá-lo, já arregalei um pouco os olhos com apenas a leitura do título. Ah, não…

— Quero deixar registrado que após esse episódio, todos podem começar a se preparar para uma grande coletiva de imprensa sobre a série, certo? Vamos promover o lançamento da nova temporada assim que a gravação do próximo capítulo estiver pronta. — Senti minha garganta secar. — E quero acrescentar que os teasers de lançamento, em partes, já estão prontos. Quando estiverem na coletiva, eles já terão sido apresentados para o público. Acho que deram um bom resultado até agora. Vamos descobrir em breve o que as pessoas acham.

— Hm, senhor Colleman, eu queria perguntar…

— É sobre o roteiro?

— Sim.

— Senhorita , qualquer observação sobre o capítulo deve ser feita depois de amanhã na leitura interpretativa com todo o elenco.

— Tudo bem, mas…

— Nada de “mas”, . — Interrompeu o diretor, já colocando ênfase nas palavras. — Qualquer objeção deve ser dita apenas depois de amanhã no Table Read². Você, assim como todos os outros, sabem como isso funciona.

— Mas eu não posso simplesmente agarrar o ! — Todos os olhares se viraram para mim. — Quer dizer, o Ian! Ah, tanto faz, vocês entenderam. Mas a questão é que eu não vou conseguir fazer isso! — Minha voz subiu algumas oitavas.

Victoria explodiu em uma gargalhada e coçou a nuca, desconfortável.

— Eu não usaria bem essas palavras… — Gregory olhou contrariado. — Mas vamos resolver isso depois de amanhã, sim? Essa deve ser a terceira vez que eu repito isso. — Ele balançou a cabeça algumas vezes. — Até mais, jovens. Tenho algumas outras coisas para resolver aqui.

Sr. Colleman nos deixou rapidamente, cantarolando alguma música de forma desafinada, mas pouco se importando com isso.
Permaneci parada no mesmo lugar, terminando de folhear as páginas, tendo esperança de que as coisas fossem melhorar. Mas claro que a Lei de Murphy é real, e a tendência era acontecer o contrário.

Victoria pareceu notar a perplexidade em meu rosto, por isso enquanto intercalava olhares entre meu desentendimento e a confusão de , abriu um sorrisinho presunçoso para nós dois.

— Acho melhor deixar vocês aqui. — Ela soltou um riso fraco. — Aposto que precisam conversar sobre as páginas dez, onze, doze…

— E treze. — Murmurou .

— Isso, esqueci de uma. — Levantei os olhos apenas o suficiente para passar a mensagem de “cale a boca”. — Vejo vocês por aí! Só tentem não se matar, é o que eu digo.

A garota de cabelos curtos saiu mais rápido do que eu pude perceber e impedir.

— Victoria! — Eu exclamei, mas ela já estava longe.

Me virei para com uma irritação visível. Esperava vê-lo com alguma expressão próxima a minha, mas tudo que tomava seu rosto era um sorriso sarcástico e um riso seco e baixo soando fraco.

— Sério que você não vai dizer nada, ? Vai deixar com que eu pareça a garota insatisfeita que vai ficar arrumando problema a cada parágrafo dessa droga de script?! — Ralhei ao seu lado, gesticulando com os papéis em minha mão esquerda. — Pare de ficar me olhando estranho! Sei que você está tão desconfortável com isso quanto eu! Então por favor, diga que no read trough² você vai me ajudar a mudar isso!

— Somos todos profissionais aqui. — Falou após passar a mão por seus cabelos, transmitindo uma calma estressante. Como se aquilo não fosse nada de mais. — Tenho certeza que vamos dar um jeito.

Dar um jeito? Isso é tudo que você tem a dizer? — Eu poderia rasgar aqueles papéis em sua cabeça. — Por que você tem que sempre agir assim para me provocar? Por que não pode por uma só vez me dizer algo no mínimo tranquilizante? Eu não sei como fazer isso!

Cinco segundo se passaram. Seu sorriso se alargou em malícia assim que deu dois passos em minha direção com um olhar penetrante e observador.

— Não se preocupe, Ruivinha. — Deu de ombros, com a voz rouca e baixa para apenas eu escutar. — Vou fazer isso ser bom para você.

Eu queria não ter ficado afetada por aquela frase do jeito que fiquei. Mas de novo, deu um jeito de me deixar sem palavras de uma forma nada boa enquanto seguia com seu sorriso arrogante para longe de mim.

¹ Tradução do diálogo: “— O jantar estava perfeito.
— Você fala francês, senhorita?
— Um pouco, senhor.”

² Table Read/Read trough: São nomes dados para o dia de Leitura Interpretativa do roteiro, feitas algum tempo antes das gravações. Esse dia serve para que os roteiristas e diretores deem assistência e dicas para como querem que os atores façam nas filmagens. Sempre trabalhando em conjunto tentando chegar a um acordo mútuo.

Nota da Autora: E aí, gostaram desse capítulo como eu gostei? Espero que sim, mas por via das dúvidas, podem comentar aí embaixo, viu? É de graça! : D
E enquanto não sai nova atualização, leiam minha short, recentemente postada aqui no site!
That’s Enough {original|finalizada}

 

 

Capítulo 11
 

“If you don’t swin, you drawn
 

But don’t move, honey”
‘s POV

Sentar ao redor daquela mesa estava me deixando mais nervosa que minha audição para conseguir o papel de Kate, várias semanas antes em Brighton.

O que era bem esquisito, logo que sempre que tínhamos a leitura interpretativa, dávamos um jeito de brincar com tudo, fazer piadas e rir por qualquer motivo, mesmo que fosse pelo mais sem graça existente.

Dessa vez, porém, a sala parecia carregada de um ar tencionado. Faíscas rondavam cada canto do ambiente, dando a impressão de que uma corrente elétrica estava se acumulando ao nosso redor, e a qualquer momento, alguém poderia levar um choque caso fizesse algo errado.
A única coisa na qual eu conseguia pensar era que isso não daria em boa coisa.

Victoria estava sentada ao meu lado e batia ritmadamente e impaciente a ponta das unhas vermelhas sobre o roteiro posto em sua frente. Ela passeava os olhares entre , e eu, sem se importar se aquilo estava óbvio ou não.

Os garotos estavam sentados à nossa frente. Ambos com a expressão indefinida, como se estivessem com a cabeça no mundo da lua, ou pensando na morte da bezerra. Batiam a caneta de forma despreocupada em cima da mesa, totalmente alheios às conversas dos outros presentes. Em outras palavras, eles não pareciam muito felizes em estar ali.

Os roteiristas e o diretor dialogavam sem dar pausa. Pareciam empolgados, e junto com alguns outros produtores, criavam cada parte do episódio com detalhes minuciosos, já provavelmente organizando cada segundo das gravações em suas próprias mentes.
Quando se dirigiam a mim, eu apenas concordava com acenos de cabeça e fazia uma anotação qualquer sobre o plano em meu script. Uma missão bastante difícil, se levar em conta que eu não conseguia me concentrar na leitura do texto. Eu acabava me perdendo entre um parágrafo e outro, voltando a pensar na única parte que realmente me importava. A única que me preocupava. A única que eu gostaria de conversar sobre.

— Que tal falarmos sobre o flashback então? Temos que tomar algumas decisões sobre isso, certo? — A roteirista, qual eu não lembrava o nome, perguntou com animação forçada, percebendo o não interesse dos atores no que era discutido ali.

Aquela frase foi o suficiente para despertar minha atenção. Larguei a caneta que eu segurava e me ajeitei na cadeira com olhar atento a ela. Percebi que meu movimento impaciente no assento chamou muito a atenção, consequentemente atraindo todos os olhares para cima de mim. Decidi que era melhor eu falar alguma coisa antes de qualquer outra pessoa:

— Eu achei essa parte meio sem graça. Podíamos tirá-la e substituí-la por algo mais interessante. — Opinei com uma expressão neutra, torcendo para que acreditassem no meu desinteresse ensaiado.

— Pelo contrário, senhorita ! — Senti que a roteirista, a mesma que já havia se pronunciado antes, parecia ofendida. — Tenho certeza que todos que assistem a série vão adorar!

Mas é claro que vão, pensei ironicamente. Eu jogaria verde e diria que a mulher só dizia isso porque havia sido ela quem escrevera as últimas partes do script. Com certeza ela faria de tudo para que o final não fosse alterado. E eu, ao contrário dela, faria de tudo para que ele fosse totalmente reescrito.

Notei que a mulher me lançava um olhar meio intimidador, como se quisesse que eu mudasse de ideia.

Isso definitivamente não era legal.

— Eu concordo com Abby. — Gregory levantou a mão, indicando a mulher. Então era esse o nome dela, concluí. — Vai ser uma cena interessante de gravar e dirigir. Aposto que os telespectadores vão adorar um pouco de romance. Vai sair da mesmice de sempre dos personagens, fora que vai deixar os fãs ainda mais interessados em assistir a série.

— Ok, pode ser, mas não precisa de tudo isso. — Me referi, gesticulando, outra vez para o roteiro. Uma amenizada na escrita para mim já bastava.

Percebi que manter a pose despreocupada não estava funcionando nem um pouco, uma vez que algumas pessoas na mesa soltavam risos fracos e controlados. Revirei os olhos e soltei o ar pesadamente pelo nariz. Dane-se.

— É só uma interpretação, quanto mimimi. — Alguém reclamou do outro lado da mesa.

— Não me sinto confortável. — Respondi.

— Não gosta da ideia de arrancar as roupas do ? — Victoria riu, se divertindo com minha vergonha. Me encolhi na cadeira.

— Isso não está escrito aqui! — Disse , apontando para os papéis, se pronunciando pela primeira vez desde que começamos o trabalho.

— Não fique tão surpreso, é só ler nas entrelinhas. — A minha amiga retrucou como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, e eu a olhei incrédula simultaneamente quando arregalou os olhos.

— Que mentira! — Protestei.

— Ah, vocês vão se agarrar, eu sei, mas fica mais emocionante pensar desse jeito. — Ela reclamou. — Bem mais legal e divertido do que dar só uns beijinhos.

— Mas ninguém perguntou se eu quero beijar ele.

— Viu? Ela não vai beijar ninguém não! — Retrucou .

— E por acaso você é dono da boca dela? — Rebateu Vicka.

Eu queria desaparecer. Arregalei os olhos em descrença e levei minha mão direita até minha cabeça.

Ela não disse isso, tentei convencer a mim mesma, repetindo a frase vezes seguidas, de que aquilo não se passava da minha imaginação fértil. Eu estava enganada, claro que estava.
Todos viraram o olhar surpreso para ela, e eu senti vergonha (mais do que antes) do que estava acontecendo, totalmente constrangida. Vic estava provocando! Havia feito isso de propósito porque sabia do meu encontro com alguns dias antes. Ela queria ver como tudo aquilo ia desenrolar.
Pena que era só ela que queria isso!

— Você não está ajudando! — Grunhi apoiando os cotovelos sobre a mesa e segurando minha cabeça. olhava sério e concentrado para os seus papéis.

— Talvez pudéssemos fazer algumas mudanças.

Olhei para , agradecida. Primeira vez na vida que eu me sentia assim por algo que ele havia dito. Comecei a acreditar que as coisas iam dar certo de agora em diante.

— Ótima sugestão! — Disse a tal Abby, e quase soltei um suspiro de alívio, imaginando que tivessem decidido ouvir minha opinião e modificar algumas partes, como por exemplo, tudo. Ou só o momento em que tirávamos as camisetas um do outro, talvez. Por isso, olhei atenta para o homem que falava:

— Na verdade eu estava pensando em um pouco mais de ação! Por que não rasga a camisa dele? Digo, Kate. Seria mais impressionante. — Disse o roteirista número dois que eu não fazia questão de saber o nome. Não depois disso. — Talvez possamos falar com os figurinistas para eles deixarem as costuras mais frágeis nas roupas do para tornar isso mais fácil. Digo, Ian.

— Não mesmo! — Me ouvi dizendo mais alto e agudo do que eu planejava.

Victoria gargalhou.

— Não eram essas as mudanças que eu pretendia propor. — murmurou e mudou sua posição na cadeira.

Um burburinho de conversas paralelas surgiu e eu fechei os olhos com força, contando mentalmente até dez.

— Por que os personagens não podem simplesmente se beijar? — Sugeri com uma expressão sofrida. Eu não queria fazer aquilo! Por que as pessoas fingiam não perceber tal coisa?

Todos me olharam sérios e depois começaram a rir, como se aquilo tivesse sido uma piada, uma piada bastante engraçada, por sinal. Abaixei a cabeça sobre meus braços na mesa e choraminguei quando voltaram a suas devidas conversas.

Meu estômago até mesmo revirava em saber que caso não dessem ouvidos às minhas palavras, eu teria que, infelizmente, arrancar as roupas de , e além disso, fingir que era algo bom e excitante. Ah, qual é? Por que raios quiseram escrever isso aqui?

E como se não fosse o suficiente eu teria que aparecer de sutiã por alguns segundos (eu esperava que fossem só segundos). Nunca havia feito isso, e não tinha ideia de como me sentia sobre isso ainda.

Fiz uma grande careta quando minha consciência repassou cada parágrafo do texto, formando a cena em minha cabeça. Eu não estava feliz com aquilo.

— Não tem que se sentir insegura com essa gravação, querida. — A mulher ao lado de Abby disse.

— Isso mesmo! — Aprovou Gregory. — Vocês vão poder ensaiar até se sentirem confortáveis.

Ah, vai se lascar! Eu nunca me sentiria confortável insinuando uma cena de “quase sexo” com o cara que não conseguia trocar meia dúzia de palavras sem me insultar. Corrigindo, eu não me sentiria confortável insinuando uma cena dessa com ninguém!

— E como vocês sugerem que eu faça isso? Por acaso existe esse tipo de ensaio? — Bati com o roteiro na mesa, a ponto de perder a paciência.

Cometi o erro de virar o rosto para Vicka, que me dirigiu um sorriso bastante malicioso, respondendo minha pergunta retórica. Eu queria que ela participasse menos daquela conversa, porque ultimamente, tudo que ela falava ou fazia, além de não ajudar em absolutamente nada e me constranger, também não prestava.

— Vocês podiam fazer isso juntos. — Estreitei meus olhos em sua direção. — Sabe, tentarem uma aproximação maior, essas coisas. Só para não se estranharem tanto.
gargalhou, como se aquilo o divertisse. Pisquei relutante. Eu ouvi o que acabei de ouvir?

— Tá de brincadeira?! — Praticamente gritei, porém poucos colocaram atenção nisso. — Você está delirando, Victoria!

Ela me ignorou totalmente e deu de ombros.

— Pode ser uma boa ideia.

— Uma boa ideia?! Ficou maluca?

— Calma , foi só uma hipótese!

— O quê? — Meus olhos se arregalaram na direção de Gregory, a procura de ajuda ou qualquer intervenção. — Isso está fora de cogitação.

— Só estamos procurando uma solução para seu problema, senhorita . — O diretor retrucou e eu não pude conter o olhar de indignação que se formou em minha face.

— Meu problema? — Tive certeza que minha voz saiu como um choramingo reprimido.

Ele tinha um semblante controlado, mas parecia ter uma pontada de decepção, como se não esperasse essa reação minha com algo relacionado ao meu trabalho.

— É o que parece. Cada solução dada ou comentário feito para tentar ajudar, só piora sua expressão ou o modo como age. — Explicou com a voz dura e eu encolhi os ombros. Será que eu estava fazendo uma tempestade num copo d’água? — Fico me perguntando se vamos ou não conseguir chegar a um acordo, ou se você vai continuar recusando quaisquer propostas feitas. Porque não podemos sair daqui com um impasse.

Franzi o cenho, logo formando uma expressão contorcida, me encolhendo na cadeira, mais uma vez, enquanto os olhares de todas as pessoas se fixavam em mim de novo, em expectativa. Parecia meio irônico, mas eu não gostava de toda a atenção daquela sala concentrada em mim.

Soltei um suspiro de derrota. Eu não acharia qualquer desculpa convincente o suficiente que os fizesse mudar de ideia. Dessa vez, me vi numa rua sem saída. Eu não teria escolha.

— Tudo bem. — Murmurei.

— Tudo bem? — Eu jurava ver Vic quase tão incrédula quanto .

— É. Vou tentar fazer a cena. — Dei de ombros. — Não tenho um leque grande de opções.

Do que adiantaria eu continuar negando, se eles continuariam a insistir? Impasse não era uma opção, Gregory havia deixado isso bem claro há alguns instantes. Parecia mais fácil aceitar de uma vez e me preparar psicologicamente para o que fosse acontecer dentro dos próximos dias a agir feito uma chata mimada que quer tudo do jeito dela.

E era essa a minha decisão. Eu tentaria.

Por alguma razão desconhecida para mim, todos pareceram perplexos, principalmente . Ao invés de estar rindo, como eu previa, ele me encarava sério com um sorriso de escárnio.

Respirei fundo e decidi que olhar para ele não era a melhor opção agora.
Todos me fitavam com expressões descrentes e eu via a dúvida de forma evidente no olhar de cada um. Evitei dar atenção para quem eu não conhecia, mas ainda assim era mais reconfortante do que por minha vista em Vic, ou .

Eu não entendia aquelas pessoas. Tentaram quase praticamente me obrigar a algo, e quando eu decidi que seria melhor mesmo eu fazer aquilo, elas me olharam como se eu fosse um E.T. e tivessem acabado de fazer a maior descoberta do século.
Finalmente, quando perceberam meu desconforto, pelo que pareceu ser uma década depois, o diretor e os roteiristas voltaram a seu diálogo inicial, ignorando a tensão formada nos minutos anteriores, e agindo como se tudo tivesse voltado ao normal e agora pudessem seguir com o trabalho deles, já que o problema havia sido solucionado.

Quando a reunião acabou, decidi que já tinha anotações suficientes para estudar até a gravação, além de ter que me esforçar para colocar a vergonha e timidez de lado, e aturar várias pessoas na minha cabeça me falando o que fazer. Eu não tinha nenhum motivo que me fizesse querer ficar ali por sequer mais um minuto. Me levantei com pressa e olhei para aqueles que ainda permaneciam na sala, me estudando com o olhar de forma minuciosa.
Foi aí que tive certeza que essa discussão não teria acabado por aqui.

*
— Oi? Você vai gravar uma cena agarrando o e não ia me contar? disse com a voz alterada. — Que tipo de amiga você é?

— O tipo de amiga que está praticamente enlouquecendo com essa história! — Aumentei o tom de voz tomando cuidado para não gritar. Eu ainda estava no estúdio, recolhendo minhas coisas. A leitura interpretativa havia acabado já há alguns minutos, e não consegui esperar até chegar em casa para falar com minha melhor amiga — , você sabe que isso vai ser constrangedor!

Eu estava no meu limite. Já bastava o fato de ter escutado Vicka me encher a paciência até eu entrar e fechar a porta do camarim em sua cara, e ainda ter conversado com , que, por incrível que pareça, conseguiu me deixar totalmente desconfortável com o mínimo de palavras possíveis, agora tinha que suportar a quase histeria da minha amiga que nem sequer estava na mesma cidade que eu.

Ótimo! Obrigada mais uma vez, Lei de Murphy, por mostrar o quão ferrada uma pessoa pode ficar em menos de vinte e quatro horas.

— Ah, por favor, ! — Ela devia estar tomando cuidado com as palavras, porque a uma altura dessas, ela já teria me apelidado de vários nomes feios e dito isso em alto e bom tom. — Vai dizer que não sabe fazer isso?

Choraminguei do outro lado da linha.

— Não é tão simples assim…

— Claro que é! Vocês nem ao menos vão se beijar de língua! — Ralhou me interrompendo. — Quantas vezes você não me falou sobre a existência do beijo técnico? Olha, eu consigo até mesmo ouvir você me falando isso de novo agora!

— Aquilo foi na peça do último ano do colégio!

— E daí? Você beijou o cara do mesmo jeito, e, cá entre nós, parecia bastante verdadeiro!

! — Disse eu constrangida.

— Que foi? Queria que eu dissesse que tinha sido muito mal feito? — Indagou com ironia. — Desculpa, mas seria mentira. E quer saber mais? Aposto que você vai conseguir se superar ainda mais nessa palhaçada toda.

— Hein?

— Tô dizendo que você é boa no que faz, . — Ouvi o seu suspiro, e imaginei que ela estava prestes a fazer um discurso. — Não vão ser essas inseguranças bobas que não vão permitir que você atue. Caramba, eu te conheço melhor que muita gente! Sei que seu perfeccionismo vai superar esse seu medo de fazer as coisas erradas, e vai impressionar até a si mesma! Quem disse que você tinha que começar esse trabalho já sabendo tudo? Pronta para encarar qualquer coisa? Já estava mais do que na hora de começar os desafios, mesmo que seja com coisas simples, como essa da qual você tanto reclama. Esse tipo de roteiro é o tipo de inovação que você precisa. Sério, se você já sabe usar uma arma e ainda por cima lutar, uma agarração aqui e outra ali não vai ser nada. — Ela fez uma pausa e depois me advertiu. — Só não vá ficar muito envergonhada quando ele tirar sua blusa, senão é óbvio que terá que regravar outras vezes tudo de novo até tirar a expressão de “gato assustado” da sua cara, e sei que não é isso que você quer. Mas poxa, já parou pra pensar em quantos atores e atrizes já tiveram que fazer coisas piores que essa? Você tá no lucro, baby. E olha pelo lado bom, pelo menos o é um cara bonito. Pode não ser lá muito simpático, mas é bonito! Se ele fosse um cara esquisito, cheio de acne no rosto e com o cabelo oleoso, eu até entenderia seus motivos, mas como esse não é o caso e as circunstancias são diferentes, acho que você não tem outra opção a não ser dar uma chance a você mesma e fazer.

Alguém bateu na porta nesse exato momento e eu gritei algo parecido com “estou ocupada”, esperando que quem quer que fosse me deixassem em paz naquele instante.
Eu estava tão aérea que nem parei para pensar que poderia estar sendo rude com a pessoa.

, eu só não sei… É difícil de explicar. Você sabe que eu sempre tive vergonha de beijar meus namorados até mesmo na sua frente. Agora imagina eu dando um beijo muito quente no cara que eu apenas suporto por motivos de trabalho, e ainda ter que gravar isso para mostrar para quem quiser ver!? É praticamente ridículo! — Minha voz soava quase desesperada. Desesperada pelo entendimento de alguém. Entretanto, a capacidade que possuía de gargalhar até nós momentos mais importunos era impressionante.

— Sua frescurenta! Que coisa mais sem sentido, . É só um beijo técnico, com algumas coisinhas a mais. Não é como se vocês estivessem fazendo tudo de verdade. — Muito reconfortante, só que não. — Vai me dizer que você achava que nunca na sua carreira fosse fazer uma cena mais adulta? Para de besteira e aceite os fatos, menina. Você vai conseguir, garanto que vai.

— Seria mais fácil se você estivesse aqui… — Murmurei para o telefone, torcendo para que ela entendesse a indireta direta e que a resposta dela fosse positiva.

, como pode dizer algo assim? — Eu a ouvi suspirar. — Nunca precisou de mim antes para conseguir fazer algo, e não importa a distância, vou estar te apoiando, acredite.

Foi a minha vez de suspirar.

— Por favor, ! Só por um dia… — Geralmente fazer birra, ou insistir, funcionava com a minha amiga. Mas por alguma razão eu pensei que dessa vez não fosse funcionar da forma que eu queria.

— Eu preciso de você, !

— Olha, amiga… Eu sei que sua adaptação com essa nova vida não deve estar sendo fácil, mas você precisa aprender a lidar com a pressão. E eu sei que você consegue! Não tem porquê ter medo, ok? Você sabe lidar com suas emoções melhor que ninguém. E você sabe também que eu vou fazer o possível para estar ao seu lado em todos os momentos, como foi desde que nós nos entendemos por gente, da mesma maneira que você vem fazendo por mim desde sempre. E eu repito: estarei ao seu lado sempre. Talvez mais vezes no sentido figurativo do que no real, mas por mais que eu queria, não posso simplesmente largar tudo aqui e ir para Londres a qualquer momento, entende? E comigo aí ou aqui, sei que você vai fazer melhor que a encomenda. — Ela soltou um riso fraco. — E daí se você tiver que gravar a cena mais de uma vez? Nem tudo sai bom logo de cara, e é melhor que dessa vez fique extraordinário! Imagine a cara de todos, com o queixo caído, vendo você atuar?! Gregory vai ficar orgulhoso por ter te contratado como atriz. E se isso não acontecesse agora, aconteceria depois. Você sabe disse, não sabe? Sabe que uma hora ou outra teria que fazer isso, certo? A principal intenção para te contratarem era ter um par para o personagem do , . Foi óbvio desde o começo que vocês iriam se beijar, e agora chegou a hora.

Não respondi de imediato. Na verdade segurei meu lábio inferior entre os dentes para garantir não dizer nenhum absurdo enquanto escolhia as palavras com atenção. Soltei o ar, nem um pouco feliz. Eu sabia tudo aquilo. Sobre a minha situação e a de , eu só esperava que aquilo tudo fosse um pouco mais adiado. E sobre eu e , eu só queria que ela pudesse estar mais vezes aqui comigo. Ela era a voz da razão que eu precisava ouvir todos os dias para ter certeza de que não estava enlouquecendo, ou então fazendo coisas erradas!

Apesar de não ter contado a ela até hoje sobre o meu beijo com , nós não tínhamos segredos. Ela era uma das pessoas mais importantes na minha vida, e abrir mão da sua presença e companhia, estava sendo muito difícil.

Ouvi outras batidas na porta e revirei os olhos. Decidi ignorá-las, me concentrando em formular alguma resposta convincente sobre meu ponto de vista para minha amiga.
Ela me interrompeu antes que eu pudesse abrir a boca.

— Ah, espera um pouco! — A voz dela atingiu um novo nível de animação. Parecia ter descoberto uma nova peça de um quebra cabeça. — Acho que entendi.

— Entendeu o quê? — Minha voz já não tinha emoção. Na verdade eu poderia desligar a chamada agora que não me importaria de verdade. Já tinha falado o suficiente sobre tudo. Mas mesmo assim a escutei dizer:

— Se fosse com o , você estaria fazendo essa novela mexicana toda por causa de uma cena? — Juntei as sobrancelhas, estranhando sua pergunta. Como o assunto mudou de alhos para bugalhos assim tão de repente?

— Como assim?

— Só responde, por favor. — Pediu, e eu hesitei por um segundo.

— Provavelmente, mas o que isso tem a ver? — Eu sabia que não a tinha convencido. Eu não tinha convencido nem a mim mesma, imagine a ela.

— Provavelmente? — Pude jurar que pela forma que falou, ela estaria dando um sorriso presunçoso.

— Não sei, ! Por que fica fazendo esse tipo de pergunta?

— Porque eu tenho quase certeza que se não fosse com , você não estaria fazendo esse drama gigantesco. Você se importa! — Quando bateram na porta outra vez, nem me dei ao trabalho de responder. Estava perplexa demais com o que havia acabado de dizer.

— Está insinuando alguma coisa? — Minha voz afinou de uma forma irritante. Grunhi com mais batidas insistentes no meu camarim.

— Não sei, . Estou? — Ela provoca e eu cruzei os braços, fazendo um bico, mesmo sabendo que ela não poderia ver.

— Sério, que bicho te mordeu hoje? Primeiro dá uma de amiga compreensiva, e agora fica dizendo coisas sem sentido? Cadê a lógica nessa conversa? — Me ignorando completamente ela continuou:

— Ah, mas não adianta se fazer de desentendida! Eu consigo perceber muita coisa, e se fazer de boba ingênua não vai adiantar nada. Então pode ir parando com essa palhaçada que…

Nesse momento notei que a maçaneta da porta girava e a mesma se abria. A figura de invadiu o ambiente e de forma perplexa eu o encarei, ainda segurando o telefone contra minha orelha. De repente eu não assimilava mais as palavras de do outro lado da linha.

— Precisamos conversar. — Ele disse firme e eu balancei a cabeça para os lados. Mas que diabos…?

— … porque você não pode simplesmente…Ela se interrompeu.Calma aí, tem alguém aí? Quem é? É um cara? Você está trocando sua amiga por um cara? , não me ignora!

cruzou os braços na minha frente, ainda com um olhar impassível que parecia dizer que não sairia tão cedo do meu camarim e encarou o telefone, como se o objeto o aborrecesse. Bufei irritada.

— Amiga, falo com você depois, ok? Preciso resolver um problema…

— Nem pensar! Você não vai deixar de falar comigo e desligar no meio de uma conversa séria como essa, você…

— Beijos,

!

A chamada foi encerrada e eu me dirigi até a mesa, onde coloquei o celular ao lado da minha bolsa. Respirei fundo antes de virar de frente para , sem um pingo de paciência e apoiar meu quadril no móvel atrás de mim.

Só para ressaltar, eu não estava feliz com a presença dele ali.

— O que você quer?

— Conversar? — Revirou os olhos. Ele mudou a posição dos pés.

— Ah, claro. — Concordei. — Com “conversar” você quer dizer “discutir”, certo?

— Por que você tem que ser tão difícil? — Eu percebi um certo desprezo em sua voz.

— Difícil? Ah, vai catar coquinho! Não estou sendo “difícil”, só não concordo com nada daquilo, e não vou sair por aí fingindo o contrário como você. — Me senti petulante e desafiadora quando terminei se falar. Mas o som de sua gargalhada me tomou desprevenida e eu assumi uma expressão raivosa. Hoje estava difícil de encontrar a paz de espírito neste lugar.

— Você às vezes é engraçada, Ruivinha. — O olhei com o cenho franzido.

— Hein?

— O que te faz pensar que eu gosto dessa situação? Até onde eu saiba, não mostrei indício algum que deixasse alguém pensar que eu estava satisfeito! — Ele deu um passo em minha direção.

— Ah é? — Me atrevi a dar um passo na direção dele também. — E aquele seu sorriso sarcástico no final deixou todos imaginando o quão chateado estava, não é mesmo?

Ele grunhiu e bateu os braços do lado de seu tronco.

— Mas é impossível ter um diálogo com você! Eu nem vim aqui falar sobre isso exatamente! — Passou as mãos pelo seu topete que estava perfeitamente arrumado.

— Falar sobre o que então? Tenho certeza que veio aqui apenas para zoar a “pobrezinha da atriz despreparada e ingênua que não consegue fazer nada direito”. — Falei dessa vez com minha própria ironia.

Por algum motivo eu já não suportava a ideia de ter que aguentar se sentindo superior. Ele não era melhor que ninguém.

— Eu nem nunca disse isso. — Se defendeu com a voz alterada e o semblante torcido.

— Mas com certeza pensou.

— Olha, a culpa não é minha se ninguém quis ouvir você hoje. E se não percebeu, eu tentei fazê-los mudar algo naquele script, até a maldita da vírgula, mas não funcionou. Então você podia parar com toda essa raivinha e encarar seu trabalho! Se ainda não se tocou, essa é a única coisa que eles esperam de você. — Abri a boca, indignada, e andei em sua direção até estar próxima o suficiente para olhá-lo nos olhos.

— Eu estou- encarando meu trabalho. E eu vou gravar aquela cena idiota, nem que eu tenha que repeti—la quinze vezes ou interpretá-la durante horas! Não importa como, com ensaio ou sem ensaio, seja lá como isso funcionar, eu vou atuar exatamente da forma que querem, para poder esfregar na cara de vocês que eu consigo sim fazer qualquer coisa, e que ninguém tem que encarar minha inexperiência como um problema. Eu posso ser tão boa quanto qualquer um, não subestime minhas habilidades, . — Terminei a frase sentindo meu rosto queimar e meus pulmões buscarem por ar imediatamente.

O olhar de desdém-barra-indignação do moreno em minha frente me atingiu no segundo seguinte.

— Você está distorcendo tudo! Eu não te subestimo, Ruivinha. Muito pelo contrário. Mas se foi a essa conclusão que você chegou, ótimo! — Fez uma pausa e deu um último passo, ficando cara a cara comigo. Eu teria recuado, mas decididamente isso o faria pensar que suas palavras estavam me afetando, e não queria mais que ele se vangloriasse às minhas custas. Chega de mostrar fraquezas. — Mas se você quer mesmo praticar ou fazer qualquer coisa do gênero que seja parecido com o que diz o script, só te aviso desde agora que mesmo se você passar o rodo em uma balada inteira, nunca vai estar preparada para fazer isso em frente às câmeras.

— Como pode ter tanta certeza? — Questionei com os olhos semicerrados.

— Porque nunca vai ser a mesma coisa. — Respondeu imediatamente. — Não vai ser comigo.

Adquiri uma expressão confusa e soltei um riso forçado. Meu cérebro estava trabalhando a um milhão por hora.

— Você não é melhor que ninguém, . Tira seu cavalinho da chuva.

— E depois sou eu que subestimo alguém? Você está fazendo exatamente a mesma coisa, não sabe o que te aguarda!

— Será possível que está tentando me intimidar? Se for isso, esquece. Não está funcionando. Não vou dar ouvidos ao que você diz.

— Se não se importasse, não estaria parada aí me escutando. — Fechei minhas mãos em punhos e contei mentalmente até dez. — Quero dizer que nada que você fizer lá fora, vai te preparar para o que vai acontecer aqui dentro. Isso aqui é sério, não diversão. Espero que se lembre disso a partir de agora, e não se esqueça quando chegar a hora.

Firmamos nosso olhar um no outro por vários segundos. Percebi que não conseguiria formular uma resposta coerente para aquele tipo de frase, portanto decidi que era hora de sair para bem longe dali.

Recuei três passos largos ainda sem mudar o rumo do meu olhar, então pegando meu celular, puxando minha bolsa de cima da penteadeira, esbarrei propositalmente meu ombro no seu braço, para por fim deixar a sala batendo a porta com força.

Ignorando completamente qualquer pessoa que passasse por mim, segui para saída pronta para ir para casa e fazer o impossível para pensar em outra coisa que não fossem as próximas gravações.

me parou no caminho e ofereceu carona. Aceitei na hora sem pestanejar. Precisava mesmo ficar um tempo com alguém legal. Nós não conversávamos decentemente desde o nosso encontro.

Cruzamos com uma última vez no caminho antes de entrar no carro. Ele nos observava atentamente, mas eu não pude distinguir qual era sua expressão. Na verdade, a única coisa que eu conseguia distinguir era a raiva que eu sentia dele. Entretanto isso pouco importava. Meu celular vibrou anunciando uma mensagem de e isso fez meus pensamentos mudarem de rumo instantaneamente. Abri um sorriso em meio à leitura. Algo que conseguiu mudar provisoriamente tudo o que eu estava sentindo, para algo melhor.

“Me espere na estação as oito da manhã no dia da sua próxima gravação. E sim, já pode dizer que sou a melhor amiga do mundo todo, eu sei disso! Te vejo em breve. Xx”
 

Nota da Autora: Ai, como eu amo esse capítulo… Amaram ele também? Estão ansiosos pelo próximo também? Deixem aí embaixo o que estão achando 😉
E enquanto não sai nova atualização, leiam minha short, recentemente postada aqui no site!
That’s Enough {original|finalizada}

 

 

Capítulo 12
 

“c’mon c’mon
 

Show me what you all about”
‘s POV

Já era quase meia noite quando eu ainda zapeava pelos canais da televisão procurando qualquer coisa que me tirasse do tédio. Eu não entendia como depois de um dia cheio de trabalho não conseguia sentir sono e nem um pouco de cansaço, era a coisa mais sem sentido do mundo. Além de péssimo pra caralho, porque sinceramente eu estava muito a fim de dormir.

Ouvi um zumbido esquisito vindo da minha direita no momento em que escolhi colocar no canal de esportes, pronto para assistir uma luta de UFC. Estreitei meus olhos e virei o rosto, percebendo então que o barulho esquisito na verdade era o do meu celular tocando e vibrando no sofá de couro. Bufei e revirei os olhos enquanto puxava o aparelho e deslizava o polegar no botão verde.

— Fala. – Puis a ligação no viva voz e coloquei o iPhone ao meu lado como estava antes.

— É bom conversar com você também, cara. – O sarcasmo foi acompanhado pela risada de em seguida. – E aí, como vão as coisas?

— Pode pular essa parte e dizer o que quer. – Objetei, ignorando sua pergunta.

— O que te faz pensar que eu quero alguma coisa? – Perguntou aparentemente ofendido. – Não posso ligar para um amigo?

— Poder até pode, mas o que me faz pensar que você está prestes a pedir algo são duas coisas… — Pigarreei. – Agora são onze horas e quarenta e oito minutos da noite. Você não me ligaria nesse horário se não tivesse acontecido algo muito importante ou não estivesse me convidando para alguma festa. E julgar pela sua voz despreocupada, não acredito que seja nenhuma dessas opções. Então, a não ser que você queira me corrigir, espero que me conte logo o que quer.

— Vai se foder, ! – Soltei uma gargalhada quando joguei minha cabeça para trás, divertido.

— E então, ? O que vai ser? – O provoquei.

— Porra, você às vezes é irritante. — Há quem diga que não é só às vezes, completei mentalmente. – Vai trabalhar amanhã, não vai?

— Vou. Por que quer saber? – Bocejei e passei as mãos no cabelo. Esse tédio estava me matando. E eu imaginava minha morte mais divertida que isso.

— Beleza, vou com você amanhã. – Juntei as sobrancelhas e encarei o telefone com o semblante confuso, grato por não conseguir me ver realmente. Ele parecia bastante certo do que estava dizendo, mas por alguma razão eu não.

— Como assim? Pra quê? Por quê? – Frisei a última parte, esperando uma explicação.

— Para te fazer companhia.

Quatro segundos depois eu explodi em uma gargalhada alta.

— Me fazer companhia? – Comecei tentando controlar a falta de ar e me fazer ficar sério. – Cara, você bebeu? Está se escutando, ?

— Foda-se você, . – Podia apostar que ele estava revirando os olhos.

— Eu não sou trouxa! Vai dizer por que quer ir?

— Você disse que estava ansioso para a gravação, e mais sei lá o quê, acho que era algo a ver com uma filmagem da pegação entre você e a . E se eu lembro bem, você disse que ela estava quase explodindo de raiva por isso. – Uma risada baixa acompanhou suas palavras e eu concordei com um aceno, mesmo sabendo que ele não poderia ver. Esbocei um meio sorriso enquanto me lembrava do quase desespero de para mudar o script e convencer os roteiristas a esquecerem essa atuação. – Fiquei curioso com essas paradas e por isso quero ver no que vai dar.

Certo, aquilo soava estranho.

— Tem certeza que é por isso mesmo? – Questionei com uma sobrancelha arqueada, nem um pouco convencido. Esse discurso todo estava parecendo história pra boi dormir.

— Tenho – Ele insistiu. Eu não acreditei.

— Se quer ir, tudo bem. – Disse por fim. – Tenho que estar lá às dez horas em ponto. Por isso, chegue aqui por volta desse horário.

— Mas você vai chegar atrasado. – Observou. – Vai levar uma bronca.

— Posso lidar com isso, eles vão superar. – Dei de ombros, nem um pouco preocupado com isso.

vai querer te assassinar. – Gargalhei outra vez. – Vai deixá-la ainda mais nervosa.

— Essa é a graça, lad. soltou um riso fraco, parecendo desacreditado.

— Você deve ter tesão por irritar essa garota. – Ri baixo, concordando com ele.

— É, realmente eu me divirto muito com a irritação dela, Lou. Ganho meu dia quando faço isso. – O cara se manteve em silêncio, e por alguma razão achei que devesse acrescentar mais alguma coisa ao que tinha dito. – Mas ela não pode reclamar. Aquela garota também consegue me irritar como ninguém.

— Hm. Se você diz… – Sua voz soou avaliadora, mas Lou não mostrou interesse, na verdade ele até parecia bastante entediado (ou desconfiado) com o assunto, e como eu não tinha nada melhor para conversar resolvi que era hora de desligar.

— De qualquer forma, você sabe onde está a chave reserva daqui, certo? Para caso eu não atenda a campainha.

— Sei sim, cara. Tranquilo.

— Falou então, dude. Vejo você amanhã.

Até. – Desliguei o telefone e logo em seguida a TV também. Havia perdido o interesse em assistir a luta no fim das contas.

Quando me levantei para seguir até meu quarto, não consegui evitar escrever uma mensagem para apenas por diversão. Ela ficaria louca comigo. Mas eu adorava vê-la louca. E antes que pudesse repensar, mandei:

“Espero que tenha feito a sua parte para amanhã. Não costumo trabalhar com amadores, ponha isso em mente. Boa noite, Ruivinha. Xx”

*
Querido Diário…

Já posso enlouquecer, ou por acaso esse momento é inconveniente para fazer essa pergunta?
Estou na estação de trem de Londres sentada ao lado de uma senhora de cabelos grisalhos que está me encarando fixamente como uma alucinada maluca desde o momento em que tirei você (o diário) de dentro da minha bolsa e comecei a escrever. Estou me perguntando se escrever em um diário é assim algo tão absurdo. O olhar esquisito dela faz isso parecer coisa de outro mundo. Ou, pensando melhor, ela que não seja desse planeta…
De qualquer maneira, não estou aqui para ficar sendo observada por pessoas estranhas que não sabem disfarçar suas ações, mas sim para esperar .
Porém, ficar sem nada para fazer está me enlouquecendo! Minhas mãos não param de suar, e do jeito que eu estou balançando meus pés, pode-se até desconfiar que eu tenha mal de Parkinson (eu sei, pareço uma louca).
E aí você me pergunta: “Mas por que todo esse drama, ?” E a minha resposta vem bastante direta: “Porque é um cretino! E eu o O—D—E—I—O com todas as forças que o universo me oferece!”. Fim. Essa é a história.
Eu não faço ideia de quem ele pensa que é, ou de quem ele pensa que os outros são, mas já está mais do que na hora de alguém mostrar que ele não a última bolacha (ou biscoito?) do pacote. Ele não é tuuuuudo isso que pensa, não!
Só que mesmo eu querendo muito ser a pessoa que vai esfregar na cara dele que ninguém pode se fazer melhor que os outros, e finalmente o colocar no seu devido lugar, me sinto receosa. E se acharem que sou tão convencida quanto ele?
Dane-se!
Decididamente não vou me deixar ser humilhada por ele.
Bom, pelo menos foi isso que ficou repetindo no telefonema de ontem à noite, me encorajando. Espero que aquela loira esteja certa, afinal, porque eu concordei que não deixaria ficar se achando às minhas custas e prometi que daria um jeito de acabar com essa palhaçada toda.
E que se ferre o bom senso. Minha amiga foi clara quando disse que às vezes não devemos ser assim tão racionais. Por isso, uma vez na vida, vou agir de acordo com a primeira coisa que vier na minha cabeça.
Só não faço ideia se essa atitude vai ser boa ou ruim.
Terei que descobrir em algumas horas.

Com amor (e muito nervosismo),

*
‘s POV

— Não acredito que você ainda escreve nesse diário. – Foi a primeira coisa que disse quando me encontrou na estação.

— Eu nunca deixei de escrever. – Respondi com a testa franzida. – Pensei que se lembrasse.

— E eu me lembro. Só achei que tivesse perdido o hábito, tipo, se esquecido desse caderninho. – Pisquei duas vezes. Caderninho?

— Não é só um “caderninho”. – Disse com ênfase. – E você sabe que isso fazia parte da terapia que eu frequentava. Acabei gostando de escrever aqui.

Minha voz diminuiu o volume conforme foi terminando a frase. assentiu, percebendo que falar sobre aquilo não seria a ideia mais brilhante do dia.

— E então, vamos direto para o estúdio? – Mudou de assunto e colocou um sorriso no rosto. Não consegui não sorrir com ela.

— Se quiser… – Dei de ombros. – Já tomou café da manhã? Ainda temos tempo para isso se você quiser.

— Não se preocupa, já comi no trem.

— Certo, então vou chamar um táxi para nos levar até o estúdio de gravação. – Respondi já tirando o aparelho celular do meu bolso, que provavelmente estava esgotado de ligar para táxis todos os dias (ou a maioria deles, pelo menos).

— Quando você pretende comprar um carro? Melhor, quando você vai criar coragem de tirar a carta? Se eu andasse de táxi tanto quanto você, já estaria vendendo meu corpo por algumas moedas. – Soltei uma gargalhada alta, sem poder me conter.

— Cala a boca.

— É sério! Eu estaria numa pobreza profunda. – Ignorando sua última observação, liderei o caminho para fora do lugar.

— Mas eu não sou assim tão dependente do táxi. – Respondi. – A academia fica super perto da minha casa, então posso ir andando. Se eu pegar o ônibus vou sair em frente ao lugar onde faço os treinos de tiro ao alvo e as aulas de luta. O táxi só é necessário para ir ao estúdio. E geralmente eu não tenho precisado voltar neles sempre também. tem oferecido carona quando está por lá.

Me arrependi imediatamente depois que conclui a frase.
adquiriu um sorriso malicioso enquanto me encarava com um brilho diferente nos olhos.

— Quer dizer então que você tem andado com o , hein? – Sua voz estava cheia de segundas intenções. – Quando ia me contar sobre isso?

Se eu dissesse que na verdade não tinha intenções em contar, provavelmente teria me atirado na linha do trem um segundo antes dele passar por cima de mim. Por isso, resolvi omitir alguns casos.

— Mas não é nada importante. – Defendi-me e revirei os olhos. – Ele me deu algumas caronas e só isso.

— Ele beijou você? – Arqueou uma das sobrancelhas.

— Não! – Respondi indignada, corando.

Ela revirou os olhos e colocou a mão no quadril.

— Ele te beijou, né? – Insistiu.

— Claro que não! – Minha fiz afinou de repente e eu pigarreei. – Claro que ele não me beijou. Por que ele faria isso? Não temos nada além de amizade. Pensei que você soubesse disso.

Ela gargalhou e enganchou seu braço no meu enquanto andávamos juntas para a saída.

— Boa tentativa, amiga, mas você não me enrola. – sorriu satisfeita, continuou. – Sei de mais coisas do que você pode imaginar.

Eu a olhei com indignação, recebendo uma risada como resposta. Ainda tentei argumentar, mas minha amiga parecia ter resposta para tudo, se tornando cada vez mais irritante, e, portanto, decidi me focar em seguir até o estúdio. Certamente ela nem se lembraria do nome dela quando chegasse lá.

*
— MEU DEUS, OLHA O TAMANHO DESSE LUGAR! – se esgoelou e conseguiu fazer com que todos notassem sua presença. Sutileza nunca foi seu forte.

— Oi. – Cumprimentei algumas pessoas que passaram por nós com um aceno de mão envergonhado e um sorriso ensaiado.

— CARAMBA, OLHA ESSE EQUIPAMENTO! – Berrou em meu ouvido, acabando com a audição que me restava.

Fiz um movimento para a lateral, segurando a cabeça, ainda atordoada com seu timbre de voz.

— É. – Concordei, incapaz de dizer o contrário. – Tinha certeza que você ia gostar. Mas o que você vai amar mesmo é o camarim. – Completei certa.

— E POR QUE VOCÊ AINDA NÃO ME LEVOU LÁ? – Dei dois passos para trás me recuperando de seus gritos.

— Primeiro: não vamos nos exaltar. Consigo te escutar perfeitamente bem daqui sem que você grite. – Falei pausadamente, buscando sua compreensão com um olhar cauteloso. Ela sorriu envergonhada, e baixou os olhos para seus sapatos, num interesse súbito. – Segundo: eu pretendia te apresentar a algumas pessoas antes.

— PESSO… – Pigarreou. – Que pessoas? – questionou depois de controlar o volume de sua voz.

Antes mesmo de buscar ar para continuar, nossa conversa foi interrompida:

— Senhorita ! – Me virei para ver Gregory vindo em minha direção com os braços abertos e um sorriso no rosto. – Chegou mais cedo, acordou animada?

— Sim, animada com uma certa visita em especial. – Indiquei minha amiga com os polegares, enquanto trocava meu foco entre o diretor e ela.

Seus olhos vagaram até minha amiga e ele a olhou de cima até baixo. abriu um sorriso mostrando todos os dentes e estendeu a mão. Ele a apertou com um sorriso singelo, esperando para que uma de nós abrisse a boca para uma apresentação formal.

se apressou em ser ela mesma a fazer isso:

— Olá! Eu sou , a melhor amiga de . – Pela forma como ela tomou ar em seguida, soube que falaria sem parar até que desmaiasse por falta de oxigênio. Eu já estava preocupada antes, agora então eu só queria tirá-la logo dali e evitar que falasse o que não devia. O histórico dela em conversas com pessoas parcialmente conhecidas não era lá essas coisas. – Você deve ser o diretor Colleman, certo? É um imenso prazer conhecer você! Já vi suas fotos na internet e várias reportagens em algumas revistas. Você tem muito talento, e provavelmente muita paciência para conseguir comandar isso tudo. Eu não conseguiria fazer nada disso, geralmente sou muito destrambelhada, sabe? Além de totalmente distraída, às vezes até parece que eu vivo em outra dimensão, acredita?! Mas eu superaria esses defeitos meus só pra fazer isso pelo resto da vida. Você deve ter se esforçado demais para conseguir estar onde está agora. E ainda deve se descabelar pra conseguir manter tudo em ordem, aposto! Mas você não deve se arrepender de nada, certo? Deve ter valido a pena. Sei que sim. E sabe o que mais valeu a pena? Contratar essa garota para trabalhar com vocês! Ah, , não me olhe com essa cara. Sabe, senhor, ela pode parecer um pouco sonsa de vez em quando, mas acredite que quando ela fica determinada, é de dar orgulho! É, pode rir, mas é verdade. Conheço ela quase que por toda a minha vida e sei que ela fica fazendo muito cu doce, mas uma hora vocês vão conseguir dobrar ela para fazer qualquer coisa. Igual a um origami. É verdade, não precisa me olhar com essa cara de surpresa. Só precisa de jeitinho para persuadi-la. Se precisar de ajuda eu posso… Hey, calma lá!

Quis que um buraco aparecesse no chão e me engolisse. Eu a empurrei, sem muita delicadeza, para qualquer lugar que colocasse uma distância considerável entre ela e Gregory Colleman, que aliás, gargalhava visivelmente divertido com tudo que minha amiga, ou suposta amiga (depois de toda aquela faladeira eu não sabia mais), havia dito. Parecia que todo o meu sangue estava se concentrando nas minhas bochechas, e não era preciso de um espelho para olhá-las e saber que estavam da cor de um tomate por pura vergonha.

— Me desculpe por isso, quando ela se empolga começa a discursar um testemunho de Jeová pra cada um – Sorri sem graça, desejando ter super poderes e ficar invisível e desaparecer. –, mas vou segurá-la para que isso não aconteça, ok?

— Não se desculpe, . – Ele ainda gargalhava. Aquele safado mal humorado estava se divertindo às minhas custas! – Sua amiga é engraçada. E eu acredito no que ela tenha dito.

— Em qual parte? – Questionei com ironia. – Na que ela diz que é destrambelhada? Porque se for, é verdade mesmo. – A lancei um olhar semicerrado. nem se deu ao trabalho de me encarar.

— Obrigada pela parte que me toca. – Disse ela.

— Não precisa agradecer, foi você mesma quem disse isso, me poupou o trabalho de pensar. – Me virei para ela com um sorriso cínico no rosto sem mostrar os dentes.

Por alguma razão Gregory ainda permanecia ali rindo.

— Não estava me referindo a isso, senhorita . – Sr. Colleman pareceu se acalmar, finalmente.

— No que então? – Minha voz saiu baixa e rouca, denunciando minha apreensão. Mas então ele sorriu de forma paternal e me olhou nos olhos.

— Na parte em que fizemos uma boa escolha em contratar você. – Gregory piscou um dos olhos quando sorriu e se afastou. Eu ainda fiquei parada mais alguns instantes, atônita, absorvendo o que ele havia acabado de dizer, com minha amiga sorrindo presunçosa ao meu encalço.

*
E eu tinha razão em uma coisa, afinal. Minha amiga tinha gostado do camarim da mesma forma que gosta de Starbucks. Ou seja, muito. Muito em proporções gigantescas.
pulava em excitação mexendo em todas as minhas roupas organizadas em araras e nas maquiagens guardadas nas prateleiras, fora os sapatos enfileirados no chão. Ela estava fascinada! Tão feliz quanto uma criança ficaria no meio de uma piscina de bolinhas coloridas. Eu percebia sua empolgação pelo simples expressão que carregava na face.

Minha amiga estava feliz por estar aqui. E eu por tê-la aqui.

— Você pode levar tudo isso para casa? – Perguntou apontando para a arara de vestidos e colocando um dos cabides em sua frente.

Philip soltou um riso nasalado enquanto manuseava meu cabelo de um lado para o outro com uma mão, e esquentava meus miolos com o secador na outra.

— Ela não pode usar o que temos aqui em outro lugar senão nas gravações, gracinha. – Respondeu Philip soltando um dos bobs do meu cabelo. Estava ficando tão, mas tão volumoso, que eu começava a me assustar com o que via pelo reflexo.

— Sério? – perguntou com ar desanimado, olhando desolada para o vestido através do espelho e depois para mim. Infelizmente ela não pareceu notar meu olhar de desespero por causa do cabelo.

— Seríssimo. – Philip respondeu, não dando atenção a ela. Muito menos a mim.

A verdade é que eu levava sim algumas roupas pra casa. Fiz isso pela primeira vez no meu encontro com e depois passei a repetir algumas vezes. Eu as usava e depois as devolvia sem que ninguém soubesse. Ok, talvez Victoria soubesse e fizesse o mesmo. Mas se eu assumisse isso na frente do meu Hair Stylist, provavelmente teríamos um pequeno atraso com as gravações hoje. E um problema absurdo de brinde para resolver simultaneamente.

— Ah… – Os olhos de minha amiga baixaram para os próprios pés. – Nem se pedir com jeitinho?

era inacreditável! Criando toda essa conversa esquisita só porque ela queria pedir as roupas daqui emprestadas quando lhe conviesse.

— Nem se ela vender um rim no mercado negro. – Indignou-se Philip.

Abafei uma risada com a palma da mão. As assistentes do homem que cuidava da minha aparência, me repreenderam.

— Ai, quanta burocracia. – Minha amiga murmurou uma reclamação e voltou vasculhar meus pertences. Ela não deixava passar absolutamente nada.

Pouco depois de mexer um pouco mais aqui e um pouco mais lá, olhou para mim com o semblante franzido:

— Ué, esse aqui não foi o par de sapatos que você usou na primeira sessão de fotos de publicidade da série? – Ela os pegou com uma mão e apontou para a arara com a outra. – E essa aqui não foi a saia?

Fiz sinal de positivo com os polegares, incapaz de dizer uma palavra enquanto coloriam meus lábios com um pincel que a qualquer instante podia parar no fundo da minha goela.
Eu não estava com vontade de comer batom, obrigada.

Os olhos dela brilharam e voltaram a apreciar a tal roupa tão “especial”.

Mais alguns minutos de perguntas da parte de depois, e de respostas desinteressadas da parte de Philip, Vicka finalmente apareceu na porta da sala com um sorriso de orelha a orelha. Nem parecia que estava prestes a começar a trabalhar.

— Loira! – Disse Vic para , animada. – Por que não disse que vinha?

— Decisão de última hora. – Olhou de relance para mim e piscou um dos olhos. – Vou voltar para casa ainda hoje.

Victoria trocou olhares entre nós duas, e por fim se pronunciou:

— Se te expulsaram de casa, não se aflija. Tenho algumas camas vazias na minha sobrando. – Gargalhei logo em seguida acompanhada de .

— Pode deixar que já vou te colocar na lista de “lugares para ficar” em caso de emergência.

— Que bom! Eu ficaria ofendida se você não fizesse. – Victoria brincou apontando o dedo para ela. – Agora sério. O que veio fazer aqui no meio da semana?

Mandei um olhar significativo para , com os olhos quase pulando para fora da minha cara. Ela não podia dizer a verdade, porque eu sabia que se ela fizesse isso, Vicka ia acabar com minha paciência e saúde mental. E eu faria qualquer coisa para evitar isso.

— Dia de folga. Nada pra fazer. Vim visitar minha amiga. – Ela deu de ombros e sorriu. Aquele tipo de sorriso ensaiado que a gente dá quando precisa se livrar de alguma coisa ou alguém.

A agradeci com um suspiro longo de alívio.

Eu adorava o fato de nós duas podermos nos comunicar sem palavras, apenas com pequenos gestos. Anos de amizade muito bem trabalhados.

— Ah, que coisa fofa! – Vic apertou as bochechas dela, fazendo voz de criança e riu com a expressão de “o que você pensa estar fazendo?” que fez.

— Infelizmente ela vai ter que ir embora de noite. – Falei em tom desanimado.

— Então teremos que aproveitar as horas que temos. – A garota sorriu maliciosa e minha melhor amiga riu divertida. – Aliás, vamos começar com as fofocas do momento.

— Quê? – a fitou sem entender.

Victoria levantou um dos cantos da boca, sorrindo presunçosa.

vai ter que beijar o .

— Não brinca?! – fingiu surpresa. Revirei os olhos.

— Sério! – A empolgação da Victoria era tanta que até parecia doença contagiosa. Se espalhava pra todo canto. – Ele vai jogar ela contra a parede e ela vai, literalmente, rasgar a camiseta dele. Eles vão se pegar muuuuito. Você vai ver!

Sempre fui a favor das pessoas ocultarem alguns detalhes das conversas. Aparentemente Vic não concordava.

— Não!

— Sim!

— Não consigo acreditar!

— Pois acredite! Vai ser a cena mais quente da temporada.

E lá vamos nós com as bochechas vermelhas de novo.

— Ih, ela tá toda envergonhada, olha só! – Apontou Vicka. – Toda desconcertada com a gente falando aqui. Desse jeito fica difícil não te zoar, .

— Zoar sempre foi uma das minhas atividades favoritas durante toda a minha vida. – animou-se. – Meu dinheiro foi muito bem gasto na viagem de hoje.

Espetacular, minhas amigas realmente gostam de mim, pensei.

Duas batidas fortes na porta impediram a conversa das duas de seguir adiante.

— O set está pronto para as filmagens. – Um dos assistentes de produção gritou do outro lado. – Estão todos aguardando.

— Eles vão ter que esperar! – Philip resmungou ainda escovando meu cabelo. – Não posso deixar você sair daqui assim. Nem ao menos está vestida!

Abaixei meus olhos até o roupão longo, felpudo e branco que eu usava. Suspirei. Atrasada, que maravilha!

— Faz assim, eu vou indo para lá e enrolo eles por uns minutos.

— Você faria isso? – Perguntei receosa para Vitoria.

— Garota, eu faço qualquer coisa para não ver Gregory com olhar de assassino. Posso até fingir um ataque epilético, se for preciso.

— Muito obrigada, Vicka!

— Não me agradeça, você tem cinco minutos! – Ela me cortou abrindo a porta. Assenti mesmo sabendo que ela não prestava mais atenção.

— Eu ajudo você a se vestir. – Se pronunciou . – Mas agora vamos logo antes que mais alguém venha chamar você.

Apenas concordei com tudo, apesar de não querer sair de dentro daquela sala. Quanto mais tempo demorasse para as gravações de hoje começassem, melhor seria para mim.

*
— Não esqueçam que amanhã gravaremos as cenas fora do estúdio. – Gritou Gregory, repetindo mais uma vez a frase que havia dito durante o dia inteiro, com intuito de reforçar nossos compromissos.

A cada intervalo da gravação ele falava em particular com os atores e dizia sempre a mesma coisa. Agora, provavelmente cansado de andar de um lado para o outro, decidiu fazer as coisas do jeito mais fácil e ficou se esgoelando igual um louco.

Como se já não soubéssemos disso. Não que ele fosse louco, me refiro a gravação fora do estúdio. Rachel, minha empresária, sempre fazia questão de grifar compromissos assim com canetas neon e deixar anotado em vários outros lugares para não me deixar com dúvida da importância da situação.

— Ele está fazendo isso porque está nervoso. – respondeu como se lesse meus pensamentos. Eu mal havia notado sua presença ali.

— Nervoso com o quê? – Quem está nervosa aqui sou eu, quis completar indignada quase roendo as unhas. O meu pesadelo se tornaria realidade em alguns minutos. Eu estava quase endoidando.

— Oras, ele está assim porque não faz a mínima ideia se a próxima gravação vai dar certo. –
Disse simplesmente soltando um riso seco.

Ótimo, mais pressão!

— As pessoas daqui estão começando se mostrar bem pessimista. – Observei com ironia e uma pontada de irritação.

— Você não tem nem ideia… – Foi o que ele respondeu, com a voz rouca e fria, antes de se distanciar para falar com um dos câmeras.

— Cinco minutos! – Alguém gritou em aviso e a correria se estendeu para todos os cantos mais uma vez.

Certo, respira fundo. Agora é só repetir isso mais um milhão de vezes, beber água e vai ser moleza, tentou minha consciência. Mas eu já imaginava que nem se eu tomasse um litro de chá de camomila conseguiria me acalmar.

Procurei com os olhos, sentindo meu coração palpitar mais forte com a proximidade do desafio. Quando finalmente a encontrei, coloquei as mãos no quadril e a encarei como se tivesse lasers no lugar de olhos. Para a garota que havia vindo me visitar justamente para me dar apoio, ela não estava cumprindo essa missão com muito êxito.

Desde que eu havia saído do camarim, e ela encontrado (que só pra ressaltar, eu não fazia ideia do que estava fazendo ali), a minha querida e tão estimada melhor amiga havia passando todas as horas disponíveis apenas com ele e não comigo. INJUSTIÇA!

E para se defender, ela ainda ousou usar desculpas! Justificou que eu tinha Victoria e para minha companhia, e que eles entendiam melhor que ela como me ajudar num momento desse. Além de acrescentar que preferia ver tudo dos bastidores sem atrapalhar em nada.

Por algum motivo isso tudo soava como uma desculpa premeditada.
Eu só não mostrei o quão chateada estava, porque tinha certeza que havia algo rolando entre os dois. E a última coisa que eu gostaria de fazer era estragar a paquera da minha amiga, isso não seria justo com ela.

Mas amenizei meu olhar quase mortal assim que a vi vir em minha direção. Com só alguns passos atrás dela, claro.

— Então agora vai ser a prova dos nove, huh? – Ela abriu seu tão típico e irritante sorriso malicioso.

— Não seja chata. – A adverti.

— Ah, qual é? Nós duas sabemos o quão engraçado isso vai ser.

riu enquanto eu emburrei.

— Obrigada pelo apoio. Levantou minha autoestima dez vezes! – Impressionante como de repente comecei a gostar de usar o sarcasmo e a ironia. Inferno! Eu tinha que parar com isso.

— Acho que você tem passado muito do seu tempo com o . – Ela revirou os olhos. – Do jeito que fala, até parece ele.

— Na verdade ele consegue ser ainda pior que isso. – comentou com o dedo indicador para cima e os lábios comprimidos numa linha reta. – Anos de prática, sabe como é.

Revirei os olhos.

— Tá, tanto faz. – encerrou o assunto. – Viemos aqui desejar boa sorte.

— Obrigada. – Nós trocamos um abraço rápido.

— Vai dar tudo certo, você vai ver. – Ela olhou em meus olhos e sorriu. Me senti confiante por um pequeno momento.

repetiu o gesto logo em seguida, num abraço meio desajeitado, mas com poucas palavras que me fizeram rir nervosamente. Ele se afastou logo em seguida. permaneceu me encarando, me estudando com o olhar e um sorrisinho contido nos lábios.

— Aproveita.

— Quê? – Perguntei franzindo a testa, sem entender.

— Qual é , não precisa se fazer de boba. – Ela riu baixo. – Tô falando pra você aproveitar a situação. Ele pode ser um porre, mas é bonito e gostoso, deve ter uma boa pegada.

! – Abri minha boca em indignação, mas não consegui dizer mais nada além do seu nome.

— Não me olhe assim como se eu não pertencesse a esse planeta. Nós duas sabemos que o que eu disse é verdade. Então ao invés de ficar com essa cara de quem comeu e não gostou, pelo menos curte um pouquinho o que vai acontecer. – Se eu arregalasse mais meus olhos, eles sairiam do meu rosto. – Aposto que vai ser bom. E se não for eu juro que te pago um sorvete.

— Um sorvete nada, quero uma sorveteria inteira! – Objetei sem mudar minha expressão.

— Não importa, sei que vai gostar, pode pedir o que quiser que não vai receber. – Revirou os olhos convencida.

— Como você pode dizer uma coisa dessas? – A repreendi. – Isso tudo não tem cabimento. Tem noção do q…

! Aí está você. – se colocou ao nosso lado segurando uma garrafa de água pela metade, acabando completamente com a bronca que eu planejava dar a minha amiga. – Estava te procurando.

“Até mais” mexeu a boca antes de se afastar, presunçosa, até o encontro de . Derrotada, me virei para . Eu não o via desde a cena que gravamos juntos, e isso fazia algumas horas. Fiquei feliz por vê—lo novamente.

— Oi! – Sorri e tentei parecer tranquila, mas certeza de que não estava funcionando. — O que foi?

— Já falei com , agora só falta você. – Falou sorridente antes de me puxar para um abraço. — Boa sorte. Sei que não está feliz com isso, mas vai dar tudo certo. Pode acreditar.

Assenti com um sorriso sem mostrar os dentes.

— Então já falou com o ? – Depois que as palavras saíram, pensei que talvez fosse melhor não tê-las dito, mas eu queria muito saber o que ele teria dito ao “Sr. sou melhor que você”.

— Ah… Tipo – Ele pigarreou. –, eu desejei sorte e tal… E ele respondeu que não precisava disso. – sorriu para descontrair.

Ah, babaca. Nunca fui a favor da violência, mas consegui me imagina batendo naquele otário com umas doze formas diferentes de golpes em 0,3 segundo. Por que eu ainda fui perguntar? Óbvio que a resposta dele soaria tão idiota quanto ele.

— Claro que ele disse. – Tentei rir para não mostrar minha irritação. Dessa vez pareceu funcionar.

— TODOS PARA O CENÁRIO! – Um assistente de Gregory gritou no alto falante.

A raiva evaporou e o nervosismo voltou com tudo. Minhas mãos começaram a suar, minha respiração se tornou curta e meu coração descompassado.

Pisquei algumas vezes tentando voltar ao normal. Meu estômago embrulhou e agradeci por já fazer muito tempo que eu havia comido alguma coisa. Fora isso, eu também sentia a adrenalina. Conhecia bem aquela sensação.

— Que cara de gato assustado é essa? – Victoria fez o favor de apressar minha ida até o cenário do set. – Você vai arrasar.

— É fácil falar. – Resmunguei enquanto uma das ajudantes de Philip bagunçava meu cabelo ainda mais. As coisas aqui tem que ser realistas. Inclusive a juba no lugar do meu cabelo.

— Vai logo e para de reclamar, quanta besteira. – E assim fui praticamente atirada para ficar de frente para as câmeras.

Ótimo.

estava parado ao meu lado tendo os últimos retoques da maquiagem sendo feitos. Ao contrário de mim, ele parecia totalmente tranquilo.

Por outro lado, assim como eu, também estava com a roupa suja, encardida, com alguns rasgos e cabelos totalmente bagunçados.
Felizmente era exatamente essa a intenção que tinham: não nos deixar no nosso melhor estado.

— EM SEUS LUGARES! – Sr. Colleman gritou e todos o obedeceram imediatamente.

Respirei fundo uma última vez e olhei para . Percebi que ele também tinha os olhos fixos na minha pessoa, provavelmente imaginando o quão desastroso seria aquilo.

Estava tão alheia e concentrada no que eu tinha que fazer dali a alguns segundos, que mal escutei os comandos do diretor ou os do rapaz da claquete que se dirigiu a nós dois.

— Preparada? – Perguntou sem mudar a expressão impassível do rosto.

— Não. – Respondi sincera e com a voz neutra, sem mostrar qualquer tipo de preocupação. – Mas para tudo existe uma primeira vez na vida.

— É. Claro. – Concordou. – Só não esqueça de rasgar minha camiseta. Sei que vai gostar. – Sorriu sacana e eu o empurrei para trás.

— Idiota.

— Realista. – Corrigiu e eu não tive tempo de dizer mais nada.

Quando “ação” foi dito (digo, esgoelado), e todo o estúdio se fez em silêncio, pudemos enfim dar início a cena.

Abrimos a porta do cenário e a batemos com força, com objetivo de causar barulho. Fingimos estar com a respiração acelerada, cansados por mil motivos diferentes, e com expressões cheias de significados, como mandava o roteiro. Nossos olhares se encontraram simultaneamente, num ato ensaiado, e nos encaramos por alguns segundos, estudando um ao outro.

— Você está bem? – Perguntou ele com ar exausto, voz rouca e quase arrastada.

Assenti apenas uma vez, devagar, sem quebrar o contato visual.
E foi com essa breve e firme troca de olhares que começamos a nos atracar louca e desesperadamente.

Eu o puxei pela nuca, embrenhando meus dedos finos em seu cabelo, quando seus braços passaram ao redor da minha cintura e me apertaram com força. Nossos corpos se chocaram e então seus lábios encontraram os meus, numa carícia firme, iniciando um beijo quase bruto e desesperado.

Não sei bem como, mas a porcaria do beijo técnico não aconteceu, e quando percebi, sua língua quente já estava brigando com a minha, se arrastando por cada pedacinho da minha boca, num beijo lascivo, quase febril, cada vez mais rápido e profundo.
Nós agíamos como se precisássemos um do outro desesperadamente, assim como pedia o script.

Quando o ar se fez necessário pouco depois, ele mordeu meu lábio inferior, o prendendo entre seus dentes com um pouco de força para finalizar o beijo. Suas mãos deixaram minha cintura rápido demais e nos afastou. Nesse pequeno intervalo de tempo em que nos distanciamos num breve segundo para recuperar o ar, empurrou meus ombros para trás e minhas costas bateram na parede com força, causando um baque surdo em resposta a sua atitude.

Ian (ou , tanto faz) olhou-me dos pés a cabeça antes de seu corpo se colar ao meu mais uma vez. Suas mãos correram pela lateral do meu corpo com bastante interesse e curiosidade até chegarem a minha nuca, aproximando meu rosto do seu de uma forma voraz, juntando os lábios numa urgência ainda maior e mais intensa que o anterior.

Deixei que ele me beijasse assim por mais um tempo enquanto procurava meu bom senso perdido em algum lugar da minha cabeça.

Lembrei vagamente do que tinha me dito antes, e decidi que ela estava certa. Eu era um ser humano, não ia morrer por aproveitar só um pouquinho, certo? Fazia parte do meu trabalho interpretar aquilo, certo? Certo.

Minhas mãos, até então tímidas, que se encontravam atrás do seu pescoço, desceram por seus ombros e braços tatuados e inquietos, num caminho lento até os cotovelos, sentindo cada músculo definido, seguindo por seu tronco, para por fim subir vagarosamente com elas espalmadas até seu tórax.

E então apertei o tecido entre meus dedos e rasguei sua camisa.
O pior dessa situação constrangedora foi que eu realmente tive que fazer força para que o tecido rasgasse, que resultou numa reclamação baixa vinda do fundo da minha garganta, podendo muito bem ser comparada com um gemido rouco e cheio de expectativa, se levasse em conta o que estávamos tentando interpretar.

No segundo seguinte, depois de tirar o que lhe restava daquilo que um dia foi sua camisa, e eu apreciar descaradamente, não só com os olhos, mas com os dedos também, seu abdômen definido e suas muitas tatuagens desconhecidas para mim até então, ele fixou os olhos no meu, com lábios entreabertos e pupilas dilatadas. E elas transbordavam em surpresa.

Só não tive tempo de descobrir se aquele era Ian, o personagem sendo incorporado no momento, ou , o cara que me torrava a paciência todos os dias.

Sua boca avançou em meu pescoço, com beijos languidos e molhados que deixavam uma trilha de saliva até minha clavícula, onde sugou a pele com destreza e ferocidade. Fechei os olhos, incapaz de mantê-los abertos e joguei a cabeça para trás, apoiando-a na parede fria, fazendo isso parte da atuação ou não, meu cérebro havia simplesmente virado gelatina.

Ambas as minhas mãos fizeram caminho por suas costas, a arranhando levemente com as pontas das unhas e sentindo cada centímetro dos seus músculos rígidos até chegar ao cós de seu jeans. Suas carícias terminaram abruptamente e reclamei baixinho, nada feliz. Seus dedos ágeis continuavam a explorar minhas costas por debaixo da camiseta, apertando minha cintura com vontade. A uma altura dessas eu já não sabia mais o que estava fazendo.

Antes que sua boca capturasse a minha de novo, arrastei meus lábios pela linha do seu maxilar, seguindo para o pescoço e com planos de continuar descendo até suas tatuagens, que prendiam minha atenção, porém antes que o caminho se prolongasse, agarrou minha cintura com firmeza e sem aviso prévio impulsionou meu corpo para cima. Segurei em seus ombros e enlacei minhas pernas em sua cintura estreita, enquanto ele pressionava seu quadril contra o meu e segurava minhas duas pernas na altura das coxas, então procurando minha boca com a sua para mais um beijo cheio de desejo fingido.

O cenário imitava um apartamento. Eu sabia que se andássemos em linha reta chegaríamos ao quarto com a porta aberta em pouquíssimos passos.

E foi o que aconteceu.

Com uma facilidade impressionante, me carregou de olhos fechado e mãos firmes como se eu não pesasse dez quilos até que chegássemos à cama. Literalmente jogada ali, ele alcançou a barra de minha camiseta e a tirou, apressadamente, quase desesperado. Seus olhos passaram por meus seios cobertos apenas pelo sutiã de renda e seguiram até minha barriga por um segundo que mais pareceu uma eternidade. Suas mãos logo não perderam tempo de explorar com a mesma intensidade que seus olhos cada pedacinho da minha pele exposta, assim como eu havia feito momentos antes.

Subitamente, me dei conta que estava só de sutiã e calça, me agarrando com um homem, na frente de dezenas de pessoas, sendo gravada para mais tarde reproduzir tudo isso na TV e internet, mas de alguma forma não me permiti ficar vermelha, ainda que no fundo eu me sentisse constrangida com tudo aquilo, por um milagre, consegui agir com uma naturalidade quase real.

Quando seu corpo se encaixou entre minhas pernas ainda cobertas, e se deitou sobre o meu, seus beijos começaram a descer pelo meu pescoço, lentos e bastante habilidosos, até chegarem aos ombros, colo até descer pela minha barriga, quase chegando ao cós da calça, quando, por fim, Gregory encerrou a cena.

Suas mãos soltaram-se do meu quadril e as minhas deixaram sua nuca imediatamente.
Evitamos olhar nos olhos um do outro. Na verdade, evitamos nos olhar em qualquer lugar.
Eu me sentei na cama, e assim como ele, virei meu olhar em direção às pessoas que assistiam a cena e respirei com calma, esperando meus batimentos cardíacos diminuírem, me repreendendo eternamente por tê-los deixado se acelerarem dessa forma.

Com minha visão periférica vi cruzar os braços e esperar pelas próximas instruções (se é que haveria alguma).

Eu os fitava com expectativa. O que será que teriam achado?

foi a primeira pessoa que eu procurei. Seus olhos admirados e o sorriso aberto em seu rosto quase me convenceram que eu havia feito tudo muito bem. Infelizmente a expressão de não parecia assim tão satisfeita, parecia desgostoso e quase desapontado. Procurei um meio termo entre e para tentar compreender, entretanto foi o semblante de Gregory que me chamou a atenção.

O brilho no seu olhar transbordava orgulho. Seria isso então? O meio sorriso que ele tinha significava que eu havia o impressionado?

Se foi, ele não disse. A única voz escutada por mim e por todos os outros, foi a da roteirista que acompanhava a produção do capítulo, que disse que aquela parte estava encerrada e me dispensou das filmagens. Por algum motivo eu não conseguiria falar com ninguém agora.

Sentia os olhares em cima de mim, mas fingi não notar. Aproveitei a deixa e saí dali o mais rápido que pude. Sem me distrair, segui a passos largos para meu camarim.

E eu não olhei para trás em nenhum segundo.

Nota da Autora: Hello, it’s me! E então… o que me dizem? A PP foi bastante ousada pra quem não queria nada, não é mesmo? Pois é gente… Muitas (quase) revelações. Espero que tenham curtido esse capítulo tanto quanto eu.

E enquanto não sai nova atualização, leiam minha short:
That’s Enough {original|finalizada}

 

Capítulo 13
 

“If you hear my voice come pick me up
 

Are you out there?”
’s POV

— Se você continuar andando de um lado para o outro assim, vai acabar abrindo um buraco no chão que vai dar na Austrália. – lixava as unhas e ocupava todo o sofá do meu camarim enquanto estava deitada ali espaçosamente aproveitando o conforto do mesmo.

— Pare de falar bobagens. – Reclamei enquanto revirava os olhos.

— Então pare de agir igual uma doida. – Retrucou em seguida.

— Desculpa, só estou nervosa.

— Com…? – Ela me incentivou a falar, mas na verdade apenas a ignorei.

— Várias coisas. – Desconversei.

— Seja específica, por favor. Ainda não aprendi a ler a mente das pessoas. – Me importunou com seu sarcasmo.

Infelizmente ela vinha fazendo isso desde que eu havia deixado o estúdio de gravação logo após a filmagem minha e do .
Sinceramente? Eu estava constrangida.

— Eu só quero ir pra casa, tomar um banho quente e dormir muito.

— Devia se sentar um pouco. – Me ignorou. – Sua cara está péssima e você nem se trocou quando te dispensaram, muito menos se preocupou em arrumar seu cabelo, e olha que ele está um caos.

, você bem que podia ser mais sutil. Não tá vendo que estou estressada e quase pulando em cima de você?!

— Tudo isso por causa da cena? – Eu sentia o tom de indignação em sua voz.

— Quê? Não! Claro que não…

— Por que está na defensiva? – Inquiriu mais uma vez.

— Não estou na defensiva. Só não quero mais ficar aqui. Podíamos estar nos divertindo juntas, sabia? – Indaguei revirando os olhos.

— Falou a menina que há pouco ameaçava me degolar.

— Cala a boca!

— Não tente mudar de assunto, .

— Mas eu não estou tent… – Por um instante bem curto fiquei feliz por Vicka ter interrompido minha frase no meio quando entrou pelo camarim sem nem ao menos bater.

Ela me olhou por inteiro e deu de ombros em seguida.

— E então, o que eu perdi?

— Nada. – Respondi rápido.

— Não me convenceu.

— E eu lá quero convencer alguém? – Perguntei com as mãos na cintura.

Pela expressão que ela fez, não ficou muito feliz com minha atitude.

— Certo, querida. Venha aqui, vamos conversar. – Ela abriu os braços de forma dramática e me chamou para que ficasse ao seu lado. – Cadê o carinho, a paz no coração?

Enquanto ria, eu me limitava a revirar os olhos e tentar não sorrir, porque apesar de eu estar brava com tudo aquilo, não conseguia evitar me divertir com essas duas.

— Devo ter esquecido em casa. Qualquer lugar bem longe daqui.

— Arg, hoje está impossível brincar com você. Sério. – Reclamou no mesmo instante quando revirou os olhos.

— Eu só quero ir para casa e dormir por umas doze horas e fingir que não preciso levantar.

— Nossa, mas será possível que o te deixou tão sem energia assim?

Eu não esperei o próximo segundo para atirar a escova de cabelo que estava na penteadeira em direção à garota loira que eu chamava de amiga.
Seu grito curto e fino, seguido do barulho de algo caindo no chão.

— Que é isso! Ficou doida? – Arregalou os olhos, me olhando sem se mexer do chão. – Desde quando ficou tão agressiva?

— Não estou agressiva! Só queria fazer você parar de falar.

— E atirar objetos nas pessoas é uma boa forma de fazer isso? – Objetou Vicka com as sobrancelhas juntas e a boca torcida em uma careta.

Dei de ombros e não respondi. Por que não pulávamos a parte em que discutíamos e não íamos logo para o fim dessa enrolação toda? Nunca gostei de ficar revivendo a mesma coisa durante tanto tempo.
Provavelmente ambas se cansaram, e resolveram calar a boca de uma vez. Eu murmurava um “amém”, muito agradecida.

— Sabe o que eu acho? – Perguntou Vicka. Neguei confusa. – Que você está toda revoltadinha assim porque gostou.

Soltei uma gargalhada quase histérica. Alguém bateu na porta e eu a abri enquanto respondia:

— Ah, mas você só pode estar de brincadeira…

— Quem está de brincadeira? – Todas movemos as cabeças no mesmo instante para nos depararmos com , e , quem havia se pronunciado, parados a nossa porta. – E você costuma abrir a porta assim sempre ou somos especiais?

Primeiro eu juntei as sobrancelhas e o encarei com o semblante franzido. Então percebi que os garotos pareciam sem graça, e olhavam para todos os lugares, menos para mim.
Menos . Ele me olhava com bastante interesse. Por isso segui seu olhar e foi quando…

— MAS QUE MERDA! – Eu bati a porta na cara deles que se fechou com um estrondo e me virei para as garotas. – POR QUE VOCÊS NÃO ME AVISARAM QUE EU AINDA ESTOU SEM BLUSA?

— Amiga, eu já te vi com menos que isso – Justificou estática no mesmo lugar. –, não precisa de escândalo. Pensei que estava assim porque queria.
Soltei um riso sem humor e impregnado de vergonha. Corri para trás do biombo e coloquei a primeira coisa que vi.

Por que mesmo eu não me joguei da ponte hoje de manhã?

— Em minha defesa, eu não disse nada porque minha tia passou minha infância e adolescência andando em casa de calcinhas e sutiã. – Ouvi Vicka dizer. – Depois disso eu aprendi a não questionar a mania dos outros.
Eu não costumo falar muitos palavrões, nem pensar em muitos xingamentos, mas naquele momento a única coisa que eu queria era dizer um bom e sonoro “puta merda”.
— Vocês duas ainda me pagam. Vou raspar a cabeça de vocês quando estiverem dormindo, duvidam? Vocês nunca mais vão me deixar passar por uma situação dessas.

Eu ouvia risos do outro lado da porta conforme eu me aproximava mais dela. Não olhei para nenhum deles quando abri a mesma e dei passagem para que entrassem.
De repente eu achava meus sapatos muito mais interessantes que qualquer outra coisa no quarto.

— Agora as senhoritas vão dizer o que estavam discutindo tão animadas? – Aquele trouxa não sabia a hora de calar a boca, não?

Como eu não abri a boca, as minhas duas (ex) amigas trocaram breves olhares, buscando o que fazer.
Revirei os olhos.

— Por que tanto interesse no que eu e as meninas conversamos, ? – Deu de ombros erguendo um canto dos lábios em deboche.

— Sou um homem curioso, Ruivinha.

— Intrometido, você quis dizer. – Objetei semicerrando os olhos.

— Quanto mau humor.

— Sua presença me deixa assim.

— Hm, você parecia estar brava antes de eu chegar aqui, na verdade. – Por que raios ele tinha que ser tão… tão boboca?

— Impressão sua, . – Me levantei e fui para o canto mais distante da sala. Qualquer coisa pra ficar longe dele.

Vicka se colou ao meu lado e enroscou seu braço no meu.

— A conversa está ótima e tudo mais, mas temos compromisso. – Ela olhou para e eu.

Ah, ela ia me livrar da encrenca! Agora sim um vestígio de felicidade me encontrou.

— Temos? – fez uma careta de desentendimento. Eu a repreendi com os olhos. – É, temos! – Se levantou imediatamente.

— Nós vamos com vocês. – deu de ombros como se resolvesse os problemas assim.

— Não! – A voz de soou estridente e bastante desesperada. – Não dá para vocês irem.

— E por que não? – As sobrancelhas de se juntaram.

Eles iam ser muito tapados se acreditassem na gente, mas não sei expressar o quanto que eu queria que eles fossem tapados.

— Porque vamos comprar coisas femininas. – Expliquei adquirindo a pose mais convincente que eu pudesse fazer. – E vocês vão ficar entediados, a gente marca de ir todos juntos uma outra hora.

— Se for para comprar calcinha e sutiã eu faço questão de ajudar.

— Se manca, .

Os três garotos nos estudaram por um instante. Acho que tinha funcionado.

— Er… – olhou ao redor e suspirou. – Até mais! – Balançou as mãos e foi a primeira a sair do camarim.

Olhei para Vicka e juntas fomos para a porta.

— Não esqueçam de trancar quando saírem! – Avisei séria. – Tchauzinho, garotos.

arqueou uma sobrancelha, nada convencido.
É talvez eu não tivesse enganado todos, mas não importa. Sem deixar isso na cara, abri o sorriso mais cínico que eu tinha guardado para ele, e saí da sala de nariz empinado, para longe daquela criatura.

 

*

 

Querido Diário…

Se vergonha matasse, todos estariam no meu enterro agora.
Não querendo ser dramática, nem nada, mas quase todo mundo que estava lá na hora da gravação do agarra-agarra, veio me parabenizar no dia seguinte.
Apesar de dizerem que eu tinha talento para a “coisa” e que estava no rumo certo na minha vida, por alguma razão desconhecida eu deduzia que na verdade eles quisessem dizer algo como “Tá perdendo a vergonha na cara, hein?! É assim que se faz!”, e então sorrir, dar uns tampinhas desajeitados nas minhas costas e sair andando por aí.
É, pois é.
Pelo que parece, a sorte não estava sorrindo para mim. Dois dias depois daquela gravação, quando eu pensei que estava livre de todo aquele bafafá de “nossa, você viu a hora que ele pegou ela de jeito?” ou “também teve aquela parte onde ela beijou o pescoço dele e ele se arrepiou todo!” e mais um monte de blá blá blá sem sentido, bateram na minha porta e eu fui toda inocente ver quem era, esperando de dedos cruzados ser alguém oferecendo carona.
Mas adivinha só? Me arrependi de girar a maçaneta no instante seguinte que me deparei com escorado no batente com uma expressão de quem não quer nada com a vida.
Olha, decididamente eu não fui alguém muito legal na outra vida, porque quanto mais eu ignorava, mais ele me perturbava! Desgraça.
A questão é que então tivemos um pequeno diálogo, que além de inútil, me fez ficar bastante irritada com sua presença.
Ele estava definitivamente interessado em me encher a paciência, pois desde a vez em que acidentalmente abri a porta sem a camiseta depois daquela maldita gravação, aquele filho de uma kenga (ok, a mãe dele não é uma kenga) fazia questão de fazer comentários desnecessários. Mesmo quando eu estava completamente vestida.
Eu estava de roupão. R—O—U—P—×O. Qual o problema dele perceber a diferença?
Lembro então de ter dito algo como “Desembucha logo o que você quer, não quero ficar aqui olhando para a tua cara.” E ele estendeu uma blusa na mão com um sorrisinho provocativo nos lábios. Sim, era a camiseta que usei na gravação que eu nem lembrava mais da existência. Eu não queria aquela coisa.
Claro que eu o xinguei, etecetera e tal, mas não resolveu muita coisa.
Ele ainda teve a audácia de se aproximar e dizer bem baixo só para eu escutar “Não tive tempo de dizer antes, mas… Belo trabalho ontem, Ruivinha.”, e me olhou de cima a baixo e deu um meio sorriso.
E aí eu bati a porta na cara dele.
Não que tenha resolvido alguma coisa, porque eu tive que vê-lo hoje, e vou ter que vê-lo amanhã, e provavelmente depois de amanhã, até que um raio caia na cabeça dele e o parta em dois.
Mas não tem problema, enquanto isso não acontece eu ocupo meu tempo fazendo coisas mais interessantes, como dormir. Então… Boa noite!

Com amor,
.

 

*

 

‘s POV

Dispenso todo o estresse matinal. Sempre desprezei e achei muito ridículo aquelas pessoas que olhavam o relógio e se espantavam por ver que estavam míseros três minutos atrasadas, e faziam o possível e o impossível para recuperar o tempo perdido.

Infelizmente agora eu as entendia perfeitamente e começava a me achar tão maluca quanto elas.

E lembrando o fato de que a sorte não estava sendo uma boa amiga ultimamente, lá estava eu, com um copo de café na mão, a bolsa na outra, correndo e tropeçando nos meus próprios pés em direção ao estúdio torcendo não chegar atrasada. De novo.

Os últimos dias tinham sido um conjunto de desastres iminentes. Quando eu pensava que não dava para piorar, a lei de Murphy, mais uma vez, se mostrava sempre competente demais. Desde que voltara para Brighton, as coisas começaram a ficar esquisitas. Talvez tenha sido tudo o que aconteceu aqui, e ainda o que ela havia me contado sobre lá, ou o que eu entendi nas entrelinhas, não sei direito o quê, mas algumas coisas estavam diferentes, e não era um diferente bom do tipo que nos faz ficar animados, era um diferente do tipo que faz você ficar frustrado por não poder entender do que se trata.

E por isso estava tão distraída com absolutamente tudo, de modo que minha concentração se perdeu até mesmo dentro de casa quando eu colocava água em um copo e ela transbordava sem eu ao menos perceber.

Tá, eu estava assimilando essas coisas a estresse, pois era a explicação mais plausível que eu pude encontrar para meus momentos de alienação. Ou talvez fosse tudo um resultado dos pesadelos que eu andava tendo de novo… Noite passada por exemplo.

Não sei bem como aconteceu, fazia meses que não sonhava com coisas ruins, entretanto tive um pesadelo esquisito onde eu acordava sozinha numa ilha, e, aos poucos, todas as pessoas que eu amo ou já amei iam aparecendo. Mas ao invés de felicidade, eu sentia falta de ar, uma espécie de sufocamento repentino causado pela presença delas. Eu queria correr para longe, o mais rápido que minhas pernas trêmulas permitissem, mas algo não permitia que eu me afastasse delas. Primeiro parecia que eu estava lidando com uma força invisível, depois aos poucos se transformando em algo gélido preso aos meus membros, e logo eu visualizava meus pulsos e calcanhares rodeados por correntes, me prendendo ali. E mesmo acorrentada, com medo de toda aquela gente com olhares assassinos, por alguma razão maluca eu não queria que nenhuma delas me deixasse sozinha.

Era como se eu odiasse a ideia, mas aceitasse ser prisioneira deles.

Lembro que de repente, mesmo com a imagem não muito nítida e a visão embaçada, meu pai, meus irmãos, , Luke, minha mãe e outras pessoas mais formavam um círculo a minha volta, todos de pé me observando com serenidade, substituindo o olhar gélido que antes me lançavam. E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, eles desapareciam. Eram puxados pela água ou sugados pela terra, me deixando aos prantos em desespero absoluto, sem poder fazer absolutamente nada por estar toda enroscada naquelas malditas correntes.

Naquela noite acordei suada e com o coração acelerado, respiração errática, como se o sonho não tivesse sido sonho, além da sensação horrível de aperto no coração, que posso dizer quase ter me causado pânico. Tive medo de verdade como há muito eu não lembrava ter.

Com pressa, sem pensar no que estava fazendo, levantei trôpega a procura do celular e liguei imediatamente para meu pai, sem me importar com o horário.

Mais tarde eu lembraria que essa teria sido a primeira vez que falei com ele desde minha mudança. E o que aconteceu depois só fez com que eu me sentisse ainda pior. Amaldiçoei-me naquele mesmo segundo por ser tão inconsequente.

“Como pode ser tão fingida e me ligar à uma hora dessas querendo saber sobre nosso bem estar?” perguntara ele exasperado, tomando ar para prosseguir “Como você consegue se olhar no espelho todos os dias sabendo que foi você quem matou sua mãe? Como consegue dormir todos os dias sabendo que poderia ter evitado toda aquela desgraça? Não me procure mais com suas desculpas de ‘preocupação’. Não me interesso por nenhuma delas. Não depois que você nos abandonou por puro egoísmo. Não me ligue mais, ! Eu não quero escutar sua voz.”.

A ligação havia sido breve, histérica, rancorosa. Tão ruim quanto aquele pesadelo ridículo. Porém agora eu já entendia que ele não queria mais contato comigo, que ele não queria mais ter notícias minhas, que a única coisa que ele provavelmente queria era que eu permanecesse distante.

Ah, mas o dinheiro sim, esse ele queria muito, fazia questão de continuar recebendo todo mês na sua conta bancária.

Por alguma razão, não fiquei surpresa.

Passei as próximas horas em claro, mas não me permiti chorar. Preferia ficar com os olhos inchados por falta de sono a ficar com eles inchados por causa de lágrimas ridículas.

Pensei em tudo e em nada ao mesmo tempo. Enquanto o que ele falou ecoava por minha cabeça, decidi que eu tinha que fazer aquilo que me fazia feliz, e apenas isso. Poderia parecer egoísta sim, mas a tentativa dele de me deixar com remorso e peso na consciência não haviam funcionado. Minha mãe sempre dissera que antes de você amar alguém, deveria amar a si mesmo.

Eu confiava no que ela tinha dito.

Balancei a cabeça algumas vezes e mandei esses pensamentos para longe quando passei pela entrada do estúdio de forma tão apressada e desnorteada que mal notei a presença das outras pessoas. Na verdade, só quando cheguei ao local de gravações que percebi que o único motivo pelo qual eu não ter notado ninguém, era porque não havia ninguém ali.

Olhei para o relógio na esperança de que eu estivesse adiantada, mas não era o caso.

Tinha algo muito errado nisso tudo, mas certeza que o horário não era.

— Cadê todo mundo? – Deixei a alça da bolsa escorregar por meu ombro e atingir o chão enquanto minha voz ecoava pelo lugar vazio e escuro.

Um homem de barba branca e macacão azul apareceu e eu deduzi que ele fosse algum sujeito da manutenção. Assim que me viu, franziu a testa e transformou seu rosto numa careta.

— Quem é você? – Seu sotaque escocês carregado um tanto enrolado denunciava que além de não ser nativo daqui, tinha bebido um pouco antes do seu turno.

— Eu trabalho aqui. Sou uma das atrizes de uma das séries que gravam nesse estúdio. The Black Side.

O homem passou os dedos em sua barba comprida demais e coçou a nuca, como se estivesse fazendo esforço para se lembrar de alguma coisa.

— Hoje as gravações são externas. – Falou por fim, depois de vários segundos em silêncio. – Ninguém te avisou?

Minha primeira reação foi fechar os olhos, respirar fundo e pensar em todos os palavrões existentes no vocabulário de um ser humano. Depois peguei a agenda do meu celular só para ter certeza do quão burra eu era e recolhi minha bolsa do chão.

Se eu não fosse parecer uma louca histérica, teria gritado de frustração. Mas como não era esse o caso, choraminguei e olhei para o homem que continuava a me encarar com uma expressão que passava de confusa para perplexa, terminando com uma cara digna de bocó.
Falei qualquer coisa que soasse como um pedido de desculpas, e sai correndo para o ponto de táxi mais próximo.

Eu tinha que ligar para alguém e avisar que eu chegaria atrasada, sabia que todos iriam me xingar até a alma se eu fizesse isso, mas era necessário. Então para quem eu ligaria…?
Fiz uma lista mental e fui analisando-a minuciosamente.
Gregory? Não, ele está fora de cogitação.

Assim que atendesse ele discursaria pelo telefone desempenhando seu papel de chefe babaca típico de quando estava com o humor péssimo e provavelmente me faria ficar chateada durante todo o dia com coisas que eu poderia ter evitado ouvir se tivesse prestado mais atenção a minha agenda.

Philip, talvez? Hm, definitivamente não.
Ele diria que as coisas não acontecem do meu jeito e que levar tudo na moleza não “rola”, porque agora eu tenho coisas mais importantes a fazer do que dormir o dia inteiro. E isso seria só o começo de uma longa bronca.

?
não iria para as gravações de hoje, estaria fora de cogitação.

Victória não seria uma má escolha… seria?
Talvez até fosse se eu já não estivesse devendo um milhão de favores a ela. Vic, do jeito que era, riria na minha cara e provavelmente não ajudaria em muita coisa, como foi no dia que até ataque epilético prometeu fazer, se preciso.

E então sobrava… Merda!

.
Ele, que dentre todas as opções, seria a pior, parecia a mais plausível. Talvez, se eu pedisse com jeitinho, ou se um grande milagre acontecesse, ele seria o ideal para me ajudar agora. E claro, tinham as chances dele desligar o telefone na minha cara, mas mesmo assim procurei seu contato e liguei. Ele sim era expert em atrasar as gravações. Para ele isso seria moleza.
atendeu ao telefone três toques depois.

? – Minha voz estava carregada de expectativa e desespero.

Não, a rainha.

— Deixa de ser idiota. – Retruquei depois de revirar os olhos, com pressa.

Não revire os olhos, Ruivinha. – Falou ele e minha expressão mudou de impaciente para surpresa. – E não fique surpresa. Consigo imaginar você perfeitamente agora.

Pisquei e me recusei a pensar sobre isso, balançando a cabeça para os lados.

— Será que dá para parar de adivinhar como eu estou ou deixo de estar e me ouvir por um minuto? – Pedi enquanto passava o endereço certo para o motorista do táxi e pedia para ele se apressar.

Um minuto? Hm, não sei se vai rolar. Sabe como é, tenho que começar a gravar agora… – Ele estalou a língua no céu da boca. Bufei sem paciência.

, para de ser sarcástico! Eu estou presa no trânsito.

Que desculpinha besta! Nós estamos praticamente do lado do seu apartamento. Você tem duas pernas, dá para vir andando.

— Sua informação não mudou nada na minha vida. Eu continuo presa no trânsito! – Levantei a voz numa tentativa de fazer com que ele entendesse.

O motorista começou a me olhar feio pelo retrovisor.

E o que você espera que eu faça? – Grunhi de raiva.

— Enrole eles o máximo que der.

Not.

, por favor! Eu nunca te pedi nada. – Me sentia tão desesperada que só não implorava porque ainda tinha meu orgulho próprio.

Exatamente! Aí você vai ficar me devendo um favor. Quem garante que você vai cumprir depois? – O tom de dúvida na sua voz era óbvio. Mordi meu lábio inferior e fechei os olhos com força.

— Eu juro que você pode me cobrar depois! E prometo também que não vou reclamar do que você quiser que eu faça, contanto que não tenha baixaria ou envolva atividades que me façam agir como uma meretriz…

Silêncio do outro lado da linha.

?! – Eu o chamei impaciente.

Tô pensando, porra! – Reclamou rude.

— Pensando no quê? Eu já disse que te pago um favor de volta, só tenta embromar por alguns minutos e…

Não é nisso que eu tô pensando, cacete.

— No que então, santa educação? – Esbravejei. Por um segundo eu desejei que ele não tivesse tanto desinteresse assim em tudo.

Estou pensando na desculpa que vou usar.

Meu cérebro levou alguns segundos para assimilar o que ele disse, mas quando o fez, não pude evitar um sorriso.

— Tá brincando?! – Uma repentina animação me atingiu, mas não completamente. Era impossível não ter uma pontada de dúvida quando se tratava de .

Bem que eu gostaria de estar brincando…

Gargalhei feliz no telefone. O motorista me olhou estranho mais uma vez enquanto tentava se concentrar no caminho que deveria seguir.

— Se você não fosse um ser humano tão desagradável eu poderia te abraçar! – Deixei escapar com um sorriso no rosto.

Dispenso contatos físicos, muito obrigado. – Seu tom de desprezo me fez rir uma última vez.

— Dane-se isso. Até mais, . E obrigada!

Ele ia falar alguma coisa, porém desliguei o telefone antes que isso acontecesse, o cortando instantaneamente. Se fosse importante, ele diria depois.

 

*

 

Antes de descer do táxi, depois do que pareceu ser uma eternidade, o homem olhou para mim uma última vez, juntou as sobrancelhas e perguntou com uma pontada de dúvida:

— Você não é aquela garota nova do seriado de suspense? Como é o nome mesmo? The Black Life? – Não consegui evitar o sorriso.

— The Black Side, na verdade… E você está certo, sou eu. Meu nome é . – Abri o sorriso e entreguei o dinheiro que lhe devia. – Pode ficar com o troco. Até qualquer hora!

Bati a porta e não esperei resposta dele.

Mesmo com certa distância eu já conseguia ver a área reservada para as filmagens e toda a movimentação apressada que denunciava o preparo para longas horas de gravação.

Corri o mais rápido que pude usando minhas sandálias de salto e passei pelas faixas de isolamento.

Foram tantos olhares irritados, bravos, raivosos e assassinos para cima de mim, que eu quase desejei dar meia volta e entrar naquele táxi de novo.

Philip foi o primeiro a me achar, e sem dizer uma palavra, me puxou pelo braço com ar exasperado e me guiou até a primeira cadeira vaga em seu caminho, me sentando ali o mais rápido que pode para logo começar a mágica de me deixar apresentável.
E ele não perdia tempo.

— Jesus Cristo, menina! O que aconteceu com você? Suas olheiras estão tão grandes que até parece que levou uma surra. – Sempre tão delicado com as palavras.

Preferi não responder e gastar meu tempo relendo o script. Infelizmente não consegui realizar essa atividade com muito êxito.

! – Antes de vê-la realmente, vi seu reflexo através do espelho de maquiagem. Hm, Vicka não estava feliz comigo… – Onde você tinha se metido, coisinha?!

Eu abri minha boca para responder e recebi um puxão de cabelo em resposta.

— Nada de conversas agora! – A voz de Philip saiu estrangulada. – Não tá vendo que tenho que transformar isso em um ser humano normal em dez míseros minutos? Entende como está sendo difícil? – Protestou Philip, segurando a escova de cabelo com força, deixando os nós de seus dedos brancos. – Hey, você aí! Para de ficar coçando a bunda e venha me ajudar imediatamente!

— Quem se importa com maquiagem? – Protestou Vic. – Eu estava enlouquecendo atrás dessa garota, meus cabelos ficaram até brancos de estresse! – Exigiu Vicka com os olhos semicerrados e sobrancelhas quase juntas, e então se virou para mim. – Por que não atendeu minhas ligações?

— Eu disse: nada. de. conversa.

— E eu disse: quem. se. importa.

Meu cabeleireiro a olhou tão fixamente que vi chamas em seu olhar e decididamente, se eu fosse ela, teria corrido para as montanhas.

Passei os próximos minutos com essas duas pessoas falando no meu ouvido sem parar, discutindo como se o mundo fosse acabar a qualquer momento, quando quem sofria as consequências era o meu couro cabeludo com todos os puxões que recebia.

Só agradeci pela garota da maquiagem ter sido tão paciente. Imaginei que eu estaria sem meus olhos antes da hora do almoço.

Depois de me trocar como se minha vida dependesse disso e sair correndo do trailer, deparei-me com me esperando impaciente e nem um pouco bem humorado do lado de fora.

Seu olhar que parecia estar fazendo picadinho de denunciava sua não alegria muito facilmente.

— Você me deve um favor muito grande. – Disse baixo, num tom rouco de raiva controlada que me causou arrepios. – Mas muito, muito grande mesmo. – Deu ênfase a palavra, e o olhei com o semblante torcido.

— Por quê? Que desculpa usou? – A curiosidade falou mais alto.

Um segundo depois desejei ser muda.

Seus olhos faiscaram e ele me deu as costas enquanto caminhou rumo ao meio das câmeras. Mas como eu já estava ferrada mesmo, não vi problema em me ferrar mais um pouco, então segurei o seu braço, insistindo numa resposta.

— Não te interessa, porra! – Reclamou grosseiramente, e não consegui deixar de me sentir ofendida.

Parei de andar por um segundo antes de segui-lo ainda mais rápido do que antes.

— Hey, não fala assim comigo, seu grosso!

— Grosso igual o meu p…

— Não ouse terminar essa frase! – O interrompi a tempo de ouvir baixarias.

— Não deixa de ser verdade, de qualquer jeito.

— Eu não quero saber! – Torci meus lábios em uma careta. – Você está agindo de uma forma ridícula.

— Ah, sério? – Sorriu debochado. Respirei fundo e fechei os punhos. – Eu não ligo, Ruivinha.

Me controlei para não parecer uma garota mimada e insatisfeita, pois minha vontade era dizer muitas verdades sobre o seu comportamento exagerado para esse projeto de homem.
Antes que eu fizesse isso, uma das ajudantes de figurino parou ao seu lado com expressão solidária.

— Se sente melhor, ?

bufou impaciente.

— Sim, obrigado. – Respondeu seco. Franzi o cenho os observando com atenção.

— Você tem que tomar cuidado com o que come na rua… Alguns lugares não são de tudo confiáveis. – Afirmou ela, e eu, que começava a entender tudo aquilo, tentava controlar o riso.

— É, eu sei. – concordou desinteressado, provavelmente tentando fazer o assunto morrer. Mas pela forma que ela o olhou, não ia fechar a boca tão cedo.

— Nós ficamos preocupados com o tempo que você passou no banheiro. – Coloquei a mão na frente da minha boca, evitando rir. – Depois, se você quiser, posso falar com meu irmão para ele te passar algum remédio, sabe? Ele é médico e tudo mais… Pode te ajudar.

assentiu, contrariado, e ela sorriu uma última vez antes de sair andando e me dar espaço, para finalmente, poder gargalhar alto e na cara dele.

— Você não fez isso! – Falei incrédula e muito, muito realizada.

— Sem comentários.

— Você fingiu que estava com dor de barriga?! – Soltei outra gargalhada, sentindo meus olhos lacrimejarem e os músculos da barriga doer.

— Não me orgulho disso e agora cala a boca. – Sem graça, ele respondia com poucas palavras, e eu só ria ainda mais.

— Parabéns, . – Respirei fundo e me concentrei. – Me surpreendeu.

Ele se virou e me encarou por dois segundos. Tentei me manter séria, fazendo jus a minha profissão, mas infelizmente foi uma tentativa falha da minha parte.

— Você ainda me paga. – Tentou soar ameaçador. Continuei rindo.

Por alguma razão, tudo aquilo parecia muito hilário aos meus olhos.

— Ahã. Espera sentado. – O provoquei.

— Se você não cumprir o que disse…

Eu o interrompi antes que terminasse a fala:

— Não se preocupe, . Tudo que eu prometo, eu cumpro. – Dei um passo em sua direção, ficando cara a cara com ele e cruzei os braços. – Duvida de mim?

No primeiro instante ele fez menção de contrariar, dizer bobagem, qualquer coisa do tipo, mas ponderou o que eu disse em seguida, me estudando por um segundo para por fim fixar seus olhos no meu.

Esperei que ele dissesse alguma coisa, qualquer que fosse, pois aquela aproximação começava a se tornar incômoda demais, mas não recebi resposta. Ele virou as costas e saiu andando.
Fomos chamados para a gravação em seguida. E ninguém tocou mais no assunto.

 

*

 

Sempre, sem exceção, quando havia uma pausa na gravação, eu dava um jeito de ingerir cafeína, ou algumas gramas de chocolate só para me deixar mais esperta para as horas seguintes. Hoje, que eu já não estava fixa no planeta Terra, café e chocolate eram iguais a necessidade extrema.

Eu estava sentada sozinha numa parte mais vazia do lugar reservado bebericando uma grande xícara de café bem quente, tentando me manter aquecida naquele vento gélido, escutando ao longe a movimentação dos paparazzi e dos fãs, quando por alguma razão, até então desconhecida por mim, duas mulheres prenderam minha atenção.

Estavam as duas tão alheias e concentradas em seus próprios problemas, que mal notaram passar ao lado de uma área repleta de câmeras e pessoas trabalhando para gravar uma série de TV. Ambas falavam bastante alto, e não consegui evitar não escutá-las.

Mãe e filha discutiam da mesma forma como eu lembrava fazer com a minha mãe pouco mais de um ano atrás.

— Você não pode me tratar como se eu ainda fosse uma criança! – A garota falou com a voz esganiçada, olhar raivoso e totalmente convicta do que dizia. – Eu tenho dezesseis anos, quando é que você vai perceber que não preciso mais da sua ajuda para escolher o que eu quero? Posso cuidar de mim sozinha.

A mãe lançou um olhar duro, severo para a menina. Mas a expressão dela assim durou poucos míseros segundos, logo se suavizando, olhando em seguida para a filha com carinho.

— Você ainda não entende, mas não é dona do seu próprio umbigo, querida. – Eu imaginei que a garota a interromperia, falaria mais um milhão de bobagens, e tentaria convencer a mãe a se dobrar segundo seus conceitos. No entanto, a mãe continuou antes que isso acontecesse. – Aprenda que toda escolha tem uma consequência. Tudo que você disser pode e será usado contra você. E quando isso acontecer, você não vai poder fugir. E eu estou aqui com intuito de te ajudar. Só confie em mim, querida.

— Você não me entende, nunca me ouve! – A garota gritou, argumentando fortemente.

— Talvez daqui uns anos você entenda o que eu quero dizer, filha… – O sorriso triste da mãe deixava claro que não adiantava o quanto repetisse, a menina não concordaria.

Num grunhido de frustração a garota andou a passos largos na frente da mãe, que a seguiu para fora do meu campo de vista e audição.

Uma vez, pelo que parecia ser éons atrás, eu tivera uma discussão parecida com a minha mãe… E foi para lá que minhas memórias me levaram enquanto o vento londrino bagunçava meu cabelo e esfriava meu café.

— Você não vai e ponto final, . Não insista mais, a decisão já foi feita. – Ela disse descendo as escadas ao meu encalço.

Apesar de segurar firme no corrimão, tropecei nos meus saltos e quase cai.

— Quem disse? Você não pode me impedir de sair por aquela porta. – Afirmei com a voz firme e rígida. Eu iria com ou sem a permissão dela.

— Olha como fala comigo! Sou sua mãe, me respeite! – Sua mão segurou em meu braço e eu virei bruscamente, ficando face a face com ela.

— Quer dizer que eu devo te respeitar, mas você nem ao menos escuta o que tenho a dizer? – Soltei uma risada incrédula. – Muita hipocrisia da sua parte, não?

Os olhos dela faiscaram. Por reflexo puxei o meu braço e dei um passo para trás.

— Você é inconsequente, . – Seus olhos passaram por cada centímetro do meu rosto – Quando vai perceber que suas decisões não afetam apenas a você mesma? Você não é dona do seu próprio mundo! Não pode sair por aí fazendo o que quiser, porque um dia vai acabar se arrependendo! Devia confiar primeiramente em mim que sou sua mãe a ouvir aquele seu namoradinho que te faz pensar que já é grande o suficiente para agir por si só.

A adrenalina corria por minhas veias, acelerando meu coração e deixando minha respiração errática.

— Não fale assim dele! E eu não me arrependo de nada. Nunca me arrependi e nem nunca vou me arrepender. Enquanto aqui dentro me acusam por não ser a filha dos sonhos, lá fora tem um mundo me esperando com coisas incríveis! E eu não vou ficar aqui, desperdiçando meu tempo enquanto eu poderia estar vivendo.

Virei as costas e andei até a porta. Com os saltos ecoando no chão e bolsa batendo contra minha perna, segurei a maçaneta. Antes que eu saísse de uma vez, minha mãe chamou minha atenção, quase suplicando minha atenção:

— Você não vai fazer isso, ! Eu te proíbo.

E foi então que eu disse a coisa mais idiota da minha vida:

— Tarde demais, eu já estou fazendo.

? – Meu nome ecoou nos meus pensamentos. Procurei me concentrar naquele som e me trazer de volta ao presente, mas o processo para que isso acontecesse estava bastante lento.

— Planeta Terra chamando ! – Victoria estalou seus dedos na frente dos meus olhos, e foquei minha visão nela após algumas rápidas piscadelas. – Baby, o que aconteceu com você? Ficou fora do ar por uns cinco minutos.

Eu a encarei confusa.

— Verdade, até parecia que você tinha tido um blackout… – , que até então eu não havia notado a presença, falou ao lado dela. – Ficou aí toda estranha olhando para além do horizonte com uma cara de gato assustado…

— Fiquei? – Perguntei descrente, mas não precisei de outra confirmação além dos olhares estranhos que me lançaram.

— Você tá legal? – Vicka franziu o cenho e me fitou.

Assenti ainda incerta do que realmente havia acabado de acontecer… Eu devia ter ficado muito tempo submersa em pensamentos sombrios que mal havia notado a presença deles ali, na minha frente, chamando por mim.

Respirei fundo e tentei parecer subitamente despreocupada com o assunto.

— Já devemos voltar ao set? – Questionei arriscando um sorriso amarelo.

— Não… É horário de almoço, na verdade. – Ela respondeu. – Você quer vir com a gente? Íamos comprar peixe e batata frita com bastante molho para entupir nossas artérias com toda essa gordura.

Ri baixo e concordei primeiro com um aceno, para depois me lembrar de responder:

— Claro! Podemos ir. – Me levantei rapidamente, arrumando minha roupa e meu cabelo. Aproveitei também para jogar fora o copo onde antes tinha café, e parei ao lado dos dois em seguida.

— Tudo bem, eu vou avisar o Gregory que vamos sair todos juntos por aqui onde não tem nenhuma alma viva passando. Vou pegar umas toucas e talvez alguns cachecóis para nos escondermos também. – Vic sorriu animada e virou as costas, indo direto para onde o Sr. Colleman provavelmente estaria.

Eu ri conforme ela se afastava, pensando se talvez não buscaria alguma peruca também.
Senti o olhar de sobre minha pessoa, e me virei para ele, ligeiramente incomodada com toda sua observação.

— Por que está me olhando como se quisesse descobrir cada segredo obscuro da minha alma? – Questionei com uma pitada de humor que, se foi entendida por , não demonstrou.

— Suas palavras, não minhas. – Revirei os olhos. Ele não tinha senso de humor.

— Para de me encarar. – Pedi já sem saber muito como agir, mas bastante sem graça.

me fitava com uma expressão difícil de descrever. Passava um ar misterioso pelos seus olhos quase semicerrados e os lábios comprimidos em linha reta, acompanhado pelas sobrancelhas que começavam a se juntar conforme ele franzia a testa. Os braços cruzados na altura do seu tórax, e as pernas firmes no chão faziam sua pose se tornar intimidadora.

Eu começava a me sentir desconfortável com toda aquela observação.

Anda, Vic, cadê você?, me perguntei o olhando pelo canto dos olhos.

Ele mudou o peso do corpo de pé e por fim perguntou com a voz rouca, baixa demais para que outra pessoa além de mim escutasse:

— O que aconteceu com você, ?

— Nada. – Soltei uma risada nasalada. – Já disse isso, esqueceu?

— Acho que você não entendeu a pergunta. – Continuou com olhar fixo no meu, de uma forma tão intensa quem impedia que eu os desviasse. – Talvez você pense que ninguém note, mas eu sei que algo aconteceu com você. Não hoje, nem ontem, mas há algum tempo, e isso reflete em quem você é agora. E sinceramente, estou disposto a descobrir.

Meus lábios se entreabriram em surpresa, soltando um suspiro de incerteza. Pensei em dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas as palavras não saíam. Isso estava soando bizarro!
Ele esperava em silêncio, mas não por uma resposta, ele esperava por uma descoberta. Algo que, se dependesse de mim, ele não teria.

— Já falei com Gregory. – Ambos nos viramos para encontrar Vicka com um sorriso no rosto e sua bolsa pendurada no ombro. – Ele liberou nossa saída. Ah, e também falou para evitarmos confusões e voltarmos vivos para cá. Vamos então? Tá aqui a touca de vocês. Façam bom uso delas!

Permaneci mais alguns segundos estática, ainda sentindo o olhar de sobre minhas costas.

Me coloquei ao lado dela e assenti, pegando a touca e a vestindo. Decidi que falar agora talvez não fosse a melhor ideia. Eu correria grandes riscos de gaguejar e parecer uma idiota, por ter sido pega claramente de surpresa pela observação de . E não daria esse gostinho a , mostrando que tudo aquilo havia me afetado. Portanto, seguimos em silêncio, deixando o assunto desaparecer de uma vez.

 

*

 

Mais tarde naquele mesmo dia, depois de tantos momentos embaraçosos, pensei que precisava de algum tempo sozinha para pensar, e, graças ao que dissera antes das gravações sobre a distância da minha casa até o set, e tive então a brilhante ideia de voltar a pé para o meu apartamento, o que devia ter passado pela minha cabeça logo de cara que seria uma péssima ideia.

Infelizmente só percebi o tamanho da minha burrice quando comecei a caminhada e os fotógrafos decidiram me acompanhar amigavelmente (sentiu o sarcasmo?) no meu caminho de volta enquanto registravam cada vez que eu respirava, piscava e clamava por misericórdia, como se fosse a coisa importante para a vida deles.

Ah qual, é?

— Hey, , como tem sido as filmagens?

— Sorria para a câmera!

— Já deixou a fama subir à cabeça?

— Por que está tão pálida?

— Vamos lá, nos conte sobre as gravações!

Eles faziam tantas perguntas que eu me sentia zonza. Não abri a boca em momento algum e me limitar a dar alguns pequenos sorrisos, torcendo para que se cansassem e então me deixassem continuar a volta para casa tranquilamente. Mas isso não aconteceria. Os paparazzis estavam dispostos a seguir cada passo meu pelo resto do dia.

Abaixei a cabeça, apressei o passo e continuei meu caminho, cobrindo o rosto com a mão quando os flashes pareceram ser insuportáveis.

Nesse momento de desespero decidi que eu tiraria minha carteira de motorista o quanto antes possível. Não dava pra ficar assim para sempre, e pegar táxis já estava se tornando enjoativo, não podia depender deles para tudo também.

Mais alguns passos e aquela caminhada começou a se tornar impossível.
A ideia de tirar os saltos e sair correndo passou pela minha cabeça, assim como a outra de mandar todos eles para um lugar nada bonito, mas ambos os pensamentos foram interrompidos tão rápido quanto a moto que parou no meio fio ao meu lado.

Inferno! Era tudo o que me faltava, pensei. Em decorrência do susto, meu coração gelou, e logo pensei que aquilo fosse algum tipo de assalto e já estava quase jogando minha carteira na fuça do infeliz quando o cara tirou o capacete e meu olhar de medo foi substituído por descrença.

?

— E aí, Ruivinha. – Os flashes aumentaram parcialmente.

— O que você tá fazendo aqui?

— Te oferecendo uma carona. – Ele esticou o capacete que usava em minha direção. – Quer?

Eu teria dito não por duas razões. Primeira: eu tinha pavor de motos. Segunda: a combinação de moto + não parecia nada segura.

Mas ponderei tudo por um instante e cheguei à conclusão de que se eu recusasse, ele me deixaria ali junto com aquele infinito de luzes brancas e “bem” seria a última palavra que poderia definir meus estado físico e mental. Desesperada seria a primeira delas.

Relutei por um segundo, e então peguei o capacete de sua mão. Ele ergueu um dos cantos da boca em um sorriso convencido. Mantive meus lábios em uma linha reta e coloquei a proteção na minha cabeça. O perfume dele havia impregnado cada centímetro daquele acessório, mas não achei ruim.

Olhei para a moto mais uma vez. Tinha certeza que me arrependeria disso depois.

— Não temos o dia todo… – Me apressou apontando para o relógio em seu pulso, debochado. Abaixei a viseira do capacete e então subi na garupa.

Segurei no tecido das costas da sua jaqueta com uma mão e esperei que ele desse a partida.
olhou-me por cima dos ombros.

— Tem certeza que está segurando firme? – Levantou as sobrancelhas de forma sugestiva.

— Tenho, tenho sim. – Não, na verdade eu não tinha.

— Você que sabe. – Se virou para frente, e aquela coisa começou a se mover.

Levei um susto com a aceleração e instintivamente passei meus braços por sua cintura, numa tentativa de me manter firme e ainda em cima daquela coisa.

Ele riu, se divertindo com a minha desgraça.

E para meu desespero, continuou acelerando quando se deparou com a rua livre de carros e com faróis a seu favor. Eu fechei os olhos, e esquecendo meu orgulho, o apertei ainda mais forte numa espécie de abraço de urso por trás. E como se não fosse o suficiente, ele começou a passar por entre os carros e fazer curvas como se fosse um alucinado, e eu, mera passageira, numa tentativa, talvez não muito inteligente de não entrar em pânico e me sentir segura, apertei minhas coxas contra seu quadril.

Eu esperava ser a única a perceber isso.

Permanecemos em silêncio durante os próximos minutos, e a certa altura, eu já começava a me acostumar com a sensação de andar naquilo. Era boa, eu estava curtindo, e por isso me atrevi a abrir os olhos. O caminho passou de familiar para desconhecido de uma hora para a outra.

Observei ao redor procurando um ponto de referência qualquer. Quando não achei nenhum, falei o mais claramente que pude através de todo o acolchoado do capacete:

— Meu apartamento ficava a duas quadras atrás!

Ele sorriu por cima do ombro. Um sorriso malicioso que passou para a sua voz quando me respondeu:

— Sei disso. Não é para lá que estamos indo.

— Para onde então?

— Para o meu apartamento.

Minha expressão assumiu um misto de surpresa e confusão, meu corpo todo ficou tenso. Um pensamento louco passou pela minha cabeça e me perguntei se estaria me sequestrando. Ri dessa maluquice logo depois. Que coisa ridícula, o cara não faria isso nem se fosse pago, imagine se fosse por vontade própria.

— E por quê?

— Porque, Ruivinha – Ele soltou um riso nasalado e inclinou a cabeça para o lado. – se você quer sobreviver nesse mundo, saiba que o primeiro passo para isso é despistar um paparazzi.

Ele acelerou a moto em seguida, e não consegui evitar um ruído de animação quando a injeção de adrenalina me atingiu, e dessa vez, eu não estava com medo de senti-la.

‘s POV

Eu podia apostar que estava com as pernas bambas quando desceu da garupa. A respiração dela era rápida e curta, e eu podia notar que tentava fazer com que seus batimentos cardíacos voltassem ao normal sem dar muitos indícios disso.
Mas ela tinha gostado, estava óbvio pela maneira admirada que olhou para a máquina depois que desceu dela.

Entregou o capacete para mim sem me olhar nos olhos, com vergonha. Soltei um riso baixo, mas nada disse.

Subimos até minha cobertura em total silêncio, o mesmo só sendo interrompido pelas conversas alheias dos outros moradores que nos fizeram companhia no elevador.
Destranquei a porta e a abri totalmente.

— Fique à vontade. – Falei.

Ela primeiro observou a entrada com atenção, para depois se virar em minha direção e dizer:

— Tem certeza que não tem nenhuma garota escondida pelos cômodos? Digo, no seu quarto? – Indagou com uma pitada de provocação.

Revirei os olhos e ri sarcasticamente, fingindo me divertir com a observação dela.

— Se quiser conferir, vá em frente – Dei de ombros. –, mas tenho certeza que hoje somos os únicos aqui.

Ela arqueou as sobrancelhas, e percebi, depois de um tempo, que minha última fala havia tido um sentido ambíguo. Bom, não havia sido essa a minha intenção, mas se eu a tinha provocado, então estava valendo.

— Okay. – Foi o que ela respondeu.

Andou até o sofá, onde se sentou e cruzou a perna. Sentei-me de frente para ela e ficamos dessa forma por algum tempo.

Tentei imaginar no que ela estaria pensando e por que estava assim tão quieta. Talvez tivesse sido o ataque dos fotógrafos, ou o passeio comigo na moto, mas então lembrei-me de hoje mais cedo e de seus devaneios. Isso com certeza fazia mais sentido.

— Está me olhando daquele jeito estranho de novo.

Sorri presunçoso e apoiei os meus antebraços nos meus joelhos.

— É que eu estou tentando te intimidar. – Respondi. – Talvez assim você me fale.

— Falar o quê?

— O que aconteceu. Não é óbvio?

Ela praticamente juntou os cílios quando colocou os olhos em mim numa observação silenciosa. havia percebido aonde eu queria chegar e o que eu queria saber, tinha passado um vislumbre de entendimento nos olhos dela.
Mas apesar disso, eu sabia que o assunto não viria fácil. Os músculos dela tencionaram numa demonstração de desconforto.

— Não sei do que você está falando.

— Ah, tenho certeza que você sabe. – Rebati pronto para despejar argumentos. – Não leve a mal, mas você não é santa. Você parece inocente, parece mesmo, mas não é. Está meio na cara que você esconde alguma coisa e não quer que ninguém desconfie. Mas relaxa, entendo bem desse negócio de querer esconder, fingir que não aconteceu. Todos têm um passado e infelizmente não se pode fugir dele para sempre. Você pode ter feito coisas erradas antes, mas agora pode fazer as certas, é só questão de escolha, sabe? Usar o que aconteceu para crescer, ou deixar que aquilo te diminua.

Seus olhos deixaram os meus. Ela se recostou no sofá, pensativa. Uma mão mexendo nervosamente na pulseira de pingentes e o olhar vidrado em cada um dos diferentes símbolos ali colocados.

Deduzi que aquilo teria algo relacionado com o que eu queria saber. Os únicos momentos que eu a vira tirar aquele acessório havia sido quando estávamos prestes a gravar. Nas demais ocasiões, o bracelete estava sempre lá, escorregando por seu pulso despreocupadamente.

— Não é tão fácil assim, . – A voz dela saiu num murmúrio desgostoso. – E nem bom de ouvir.

Avaliei sua postura, sua expressão, os movimentos dos dedos ao redor dos pingentes, a respiração curta e profunda. Ela estava prestes a mergulhar no seu passado e eu pronto para escutar uma boa história.

— Deixe que eu mesmo julgue isso, Ruivinha.

Nota da Autora: E não é que esse capítulo ficou gigante? Comentem aí o que estão achando e quais são as expectativas de vocês para a fiction!!
E enquanto não sai nova atualização, leiam outras histórias minhas:
Uptown Girl {original|em andamento} – Longfic
That’s Enough {original|finalizada} – Shortfic/Oneshot

Beijos e até a próxima!



Capítulo 14

“I’m confident

But I still have my moments,

Well baby, that’s just me”

‘s POV

permaneceu imóvel, me olhando fundo nos olhos, me analisando e esperando talvez pelo momento em que eu diria qualquer besteira que a faria cair na real e pensar antes de sequer cogitar abrir a boca sobre alguma coisa para mim.
Mas após uma análise firme, convencida de que eu não ia fazer nenhuma burrada naquele momento, ela suspirou. Um suspiro que ia além do cansaço. E então pareceu tomar coragem, umedeceu os lábios com a língua e tomou fôlego para falar:

— E-eu não… Eu não sei por onde começar, por isso vou direto ao ponto. Quando eu… — A campainha tocou a interrompendo bruscamente.

virou o rosto em direção à porta e eu troquei olhares entre as duas por incansáveis segundos.
Merda.

Se eu fosse atender, seria provável que não voltasse a falar, até porque não ia querer uma plateia para escutar sua história de vida. Se eu ficasse ali para escutá-la e ignorasse a campainha, quem quer que fosse que estivesse do lado de fora insistiria até que eu fosse o atender, porque o porteiro devia ter informado que eu estava aqui e não fazia sentido fingir o contrário. E pior que isso, devia ser alguém íntimo, se não a portaria não teria liberado a entrada sem interfonar.

Eu estava sem muitas opções no momento.

O som irritante preencheu a sala mais uma vez.

— Vai ficar aí? — apontou com o polegar para a porta, mordendo o lábio inferior, incomodada.

Frustrado, levantei e girei a maçaneta, torcendo que fosse só um vizinho chato pedindo uma xícara de farinha ou qualquer coisa do gênero, para que eu pudesse expulsá-lo rapidinho.
Infelizmente quem eu vi ali era a última pessoa que eu esperava no momento.

E eu tinha muitas opções na lista, acredite.

?

Não consegui esconder a surpresa.

Dude! Espero não estar atrapalhando. — Passou pela porta com um sorriso enorme no rosto e nem percebeu quando fiz menção de interrompê-lo e dizer que na verdade estava atrapalhando sim. — Você não tem noção… Tô pra te contar uma coisa já tem dias!

— Sério? — Adquiri uma falsa animação no tom da minha voz. Porém minha curiosidade era verdadeira.

Ele continuou a afundar cada vez mais na minha cobertura. Decididamente aquilo era um sinal de que ele não ia embora tão cedo.

— Sim, cara! É uma coisa entre eu e a… — Ele parou repentinamente quando se deparou com a garota sentada no meu sofá. — ?

— Oi, . — Cheguei a tempo de ver seu aceno tímido acompanhado de um sorriso educado.

trocou olhares entre eu e ela, claramente confuso e com total desentendimento, sabendo que tinha perdido algum capítulo de toda a história. Mas ele se recompôs rápido. Substituiu o semblante torcido por um sorriso e se dirigiu completamente para ela:

— O que você tá fazendo aqui? — pareceu incomodado com a escolha de palavras e acrescentou sorrindo. — Digo, nunca pensei que fosse te encontrar na casa do .

— Pois é. — Ela pareceu sem graça. — Na verdade eu nem sabia que vinha até poucos minutos. — Sorriu também.

— Sério? Então o que houve?

— Paparazzis. — Respondi direto e simples enquanto segui até o sofá. Me sentei confortável e espaçosamente ali mesmo.

acabou me… Ajudando. — disse não tão convicta assim de suas próprias palavras, mas aceitava, ainda um tanto incerta, o tal acontecimento.

A expressão de se misturou em uma série de sentimentos que eu fui incapaz de adivinhar. O vi ficar subitamente distante da nossa conversa, mas de novo, se recuperou rápido enquanto colocava um sorriso simples em seu rosto.

— Acontece de vez em quando, tenho certeza de que poderia ter sido bem pior. — Respondeu convencido daquilo. — Teve sorte, .

— É. — Ela concordou com a voz baixa. — Devo ter tido sim.

Ficamos em um silêncio um tanto quanto incômodo pelos próximos minutos. Nós procurávamos algo que pudesse preencher o ambiente, mas aparentemente, sem um bom motivo, ou talvez incentivo, nada parecia o suficiente para começar uma conversa maior que um monólogo. Bom, os motivos pareciam óbvios, na verdade. A atmosfera não era uma das melhores, bastante desconfortável.

Eu estava bravo e tentava não demostrar isso. Queria ter tido uns minutos mais a sós com a Ruivinha, mas como o universo estava fazendo algum tipo de complô contra minha pessoa, as respostas que eu queria não viriam hoje.

claramente tinha algo a contar sobre ele e mais alguém. Infelizmente assim que viu , e acabou com nossa conversa quase reveladora, ficou surpreso e resolveu fechar a boca sobre o tal assunto também.

E ela, como nos últimos dias, permanecia quieta e pensativa, mexendo distraidamente na porção de pingentes em sua pulseira.

tinha mania de mexer no acessório quando ficava nervosa. Eu havia percebido isso já fazia um tempo, porque sempre antes de uma gravação enquanto arrumavam seu figurino e/ou retocavam sua maquiagem, ela inspirava e expirava fundo vezes seguidas para controlar os batimentos cardíacos e também mantinha os dedos da mão direita trabalharem nos berloques em seu pulso esquerdo, segurando-os firmes pelo máximo de tempo que podia antes de tirá-los para gravar. Ela fazia isso tão distraidamente que nem parecia perceber o quão frequente aquilo era.

Meu telefone tocou nesse mesmo instante, chamando a atenção de todos ali e me tirando a concentração dos pensamentos que rodeavam-me. Bufei discretamente e tirei o aparelho do bolso.

— Eu vou atender isso aqui e já volto. — Anunciei e não esperei a resposta, já levantando e indo direto para o corredor com o aparelho grudado na minha orelha.

Assim que eu pisei fora da sala os dois começaram a procurar algo para os entreter.
Foram poucos minutos respondendo o telefonema, mas o suficiente que para os dois se colocassem em uma conversa aleatória.

Eles conversavam em voz baixa e atiçavam ainda mais minha curiosidade. Foi impossível não tentar descobrir sobre o que falavam, o que por fim fez com que eu enrolasse um tempo a mais no corredor apenas escutando suas trocas de palavras. A voz de ambos transbordava em seriedade.
Me concentrei por um instante para os escutar:

— … e eu não sei muito bem porquê. Eu gosto de estar aqui, e ainda assim, queria estar lá. — soava frágil.

— Sente falta da rotina?

— Não… Sinto falta das pessoas.

— Dela também? — pareceu ter cuidado com as palavras que escolhia.

— Principalmente dela. — Escutei rir baixo e suspirar em seguida. — Mas ela está comigo, entende? Sempre vai estar.

Sem conseguir mais aguentar, silenciosamente me esgueirei pelo corredor até estar rente ao batente, começando a observar os dois. Eles mal notaram minha presença.

— Por isso a bússola? — ergueu um dos pingentes com o dedo. assentiu e sorriu de leve.

— A bússola sempre vai indicar um ponto: o norte, aquilo que você ama. E por mais longe que você esteja, ela sempre vai apontar para o mesmo lugar. O meu norte não é a minha casa, é o meu coração. E ela está lá. Sempre vai estar.

Um momento de silêncio e percebi que o ar tinha ficado tenso outra vez. Ambos encarando o chão sem saber o que falar, porque talvez não tivesse nada a ser acrescentado. Pelo menos não sobre aquilo, seja lá qual fosse o assunto anterior.

Pensei que aquele seria o melhor momento para reaparecer e assim fiz. Devolvi o telefone no bolso e entrei na sala com um sorriso no rosto. Os dois me olharam instantaneamente.

— Alguém quer pizza? — Não esperei a resposta e já busquei meu celular outra vez. — Vou pedir algo para nós.

Não sei direito o que aconteceu depois, mas a conversa fluiu normalmente como se nada tivesse acontecido.
De certa forma eu preferia assim.

‘s POV

! — Disseram meus irmãos em uníssono através da imagem ruim e embaçada do skype.

— E aí, pequenos, como estão? — Sorri para a tela esperando que eles pudessem me ver com clareza.

— Estamos bravos com você! — Reclamou Leonard que cruzou os braços e torceu a boca.

— É… Você tinha prometido que ligaria antes. — Laura o apoiou.

Sorri triste, assentindo em concordância. Eles estavam certos, afinal.

— Me desculpem, ok? Estive bastante ocupada nas últimas semanas… — Falei com voz macia e observei a expressão de ambos amenizar. — Mas não vou deixar isso se repetir!

— Verdade? — Inquiriu minha irmã com uma sobrancelha arqueada.

— Claro que sim, princesa! Vou encher muito o saco de vocês dois. Até cansarem de mim!

Eles riram, aquela risada sem força que contagia o riso das outras pessoas também, num tipo de bem estar instantâneo. E foi só aí que me dei conta de quanta saudade eu sentia dos dois.

— Quando você vai vir nos ver? — Leonard pulou em animação.

Tentei camuflar minha tristeza com um sorriso que se abria largamente em meu rosto.

— Em breve.

— Esse em breve vai demorar muito?

— Não sei, princesa…

— Queremos te ver! — Reclamou meu irmão e sorri divertida.

— Vocês estão me vendo agora, seus birrentos.

— Mas queremos ver pessoalmente.

Outro aperto em meu peito. Respirei fundo e lhes dei outro sorriso, dessa vez pequeno e sem mostrar os dentes.

— Promete que virá em nosso aniversário? — Pediu Laura, com seus grandes olhos azuis. Aqueles mesmos olhos que sempre conseguiram tudo o que queriam.

— Sim, por favor! — Leonard insistiu.

— Leonard? Laura? Venham comer! — Meu coração que antes se apertava de saudade, agora saltava num misto surpresa e ansiedade.

Olhei para o relógio apenas para ter certeza de que não estava ficando louca, e com o cenho franzido voltei o olhar para o skype.

— Desde quando papai chega mais cedo do serviço? — Perguntei a eles, verdadeiramente confusa.

— Ele tem passado mais tempo com a gente, tem até ido nas minhas aulas de karatê. — Meu irmão sorriu orgulhoso e não pude evitar fazer o mesmo.

— Sim, é verdade! Ele tem ido me ver tocar violino também.

— Isso é ótimo, pequenos. — Disse sem fingir. Na verdade, era muito melhor do que eu tinha pensado que seria. Pena que não poderia acrescentar isso à conversa.

Só esperava que eles percebessem quão sincero era o meu sorriso naquele momento.

— Então nada mais de noites cheias de trabalho para ele, só tempo para se divertirem juntos?

— É, ele tem trabalhado menos por causa disso. — Laura continuou a explicação. — Quando perguntei o porquê, ele respondeu que era para aproveitar o tempo antes que mais um de nós dois fosse embora de repente.

Minha alegria se transformou aos poucos num vazio que eu sabia que não poderia ser preenchido por nada.

Apesar de “embora” ser uma palavra muito forte, eu não poderia dizer que ele estava errado.

— Laura e Leonard, por que estão demorando tanto? — Ele os chamou de novo.

— Já vamos, papai!

— Vocês deveriam ir e não deixá-lo esperar mais. — Falei em um tom sem emoção, automático. Estava perplexa demais até mesmo para demonstrar isso aos meus irmãos.

— Só mais cinco minutos, ! Por favor!

— Queremos conversar com você!

— Eu sei, pequenos, e vocês vão falar comigo, só não agora… — Tentei de novo aquele tom de voz macio, torcendo para que os fizessem me escutar, da mesma forma que mamãe fazia ao que parecia ser tanto tempo.

— Então prometa que não vai se esquecer!

— Sim, por favor! Prometa que virá no nosso aniversário também!

— Mas…

— Crianças, por que não vem logo?! — A voz dele soou mais perto e mais firme.

Olhei apreensiva para a porta ao fundo dos meus irmãos. Se eu os conhecia bem, sabia que nada haviam falado ao nosso pai sobre minha ligação para eles, e apesar da proximidade e nova relação que esses dois vinham criando com ele, era difícil adivinhar qual seria a atitude de papai ao vê-los falando comigo.

! — Laura e Leonard exclamaram juntos, me forçando a uma resposta.

— Tudo bem, tudo bem, eu prometo, ok? Satisfeitos? — Respondi me dando por vencida.

— Agora sim! Tchau, . — Eles sorriram abertamente. Era tudo o que queriam ouvir.

— Espertinhos…

— Vamos esperar você ligar!

— Farei isso.

— Te amamos!

— Eu amo vocês também, pequenos.

— Crian… — A chamada foi encerrada antes que eu soubesse o final daquela sentença.

E mesmo com a felicidade que eu estava sentindo por finalmente me comunicar com eles, ainda tinha uma pontada traidora de tristeza e dúvida.

Eu havia partido e deixado minha família de uma hora para outra. Em questão de dias eu havia me mudado para uma cidade onde eu não conhecia absolutamente nada, e tudo por causa de um sonho, que era considerado idiota por muitos, mas de total importância para mim.
Eu, pela primeira vez em muito tempo, coloquei meus desejos em primeiro lugar na minha lista de objetivos, e deixei a vontade dos outros como realizações secundárias sem muita importância, tudo porque eu havia decidido que minha felicidade era primordial na minha vida.

Infelizmente, agora, depois de tantas semanas, que fui me dar conta do quão egoísta eu estava sendo desde então.

*

Os dias passaram depressa, tudo estava uma loucura, e mesmo nos meus momentos de descanso, não conseguia encontrar paz. Os sonhos não me deixavam. Cada noite que eu pregava os olhos, era um novo pesadelo que vinha para me atormentar.
Só podia ser coisa do estresse.

As gravações estavam cada vez mais puxadas com a proximidade da première que Gregory teimava em já marcar a todo custo mesmo que ainda levasse meses. Filmávamos o dia todo para cumprir os prazos, e eu praticamente não tinha tempo para mais nada, e quando tinha, infelizmente, essas confusões tomavam conta da minha mente.

Uma coisa diferente vinha atrás da outra e minha agenda ficava cada vez mais cheia. Eu não tinha quase tempo nem para escrever em meu diário (isso pra mim é um cúmulo do absurdo).
O aniversário dos meus irmãos estava chegando também. Eu estava tentando me programar para visitá-los, mas as chances eram mínimas. Cogitar a ideia de faltar aos ensaios, aos Table Reads, ou às filmagens já me causava dor de cabeça o suficiente para uma vida.
Outra coisa que estava acabando comigo era o fato de eu não conseguir arrumar tempo para conversar com .

Mas ao contrário de mim, todos pareciam estar aproveitando bem a vida.
principalmente, aliás.

Ela estava bastante ocupada com sua nova amiga. Elas tiravam fotos juntas quase todos os dias e pareciam se divertir como nunca com as banalidades que postavam ou então com as mil e uma piadas internas que tinham. Se mostravam tão felizes e atarefadas juntas que não tinha tempo para outras coisas. Inclusive eu.
Eu me sentia só.

Nem mesmo Vicka, que antes era tão frequente no meu dia a dia aqui, parecia estar presente.
Terminei de tomar o café assim que desci do táxi e corri para o estúdio já seguindo direto para o camarim. Philip estava a minha espera e logo partiu para o seu trabalho.

— Sabe, baby, às vezes eu acho que você não explora muito esse seu lado sexy que o cabelo ruivo te proporciona… — Ele disse em certo momento, arrancando alguns risos meus. Já havia desistido de dizer que meu cabelo na verdade não era vermelho. — Mas essa sua jogada de anjo talvez esteja funcionando bem. Todos adoram você.

Aquilo tomou conta dos meus pensamentos por alguns momentos. Será que era verdade? Porque eu não me sentia nem um pouco adorada.

Venci o orgulho que me dominava e ligue para em um dos momentos de preparação para a filmagem.
Ela atendeu no terceiro toque:

, minha diva! — Minha amiga tinha uma animação exagerada na voz.

— Hey, .

— E então, conte-me o que aconteceu. — Pediu com malícia e eu juntei as sobrancelhas.

— Na verdade não aconteceu nada. — Respondi. — Só estou ligando para saber como você está.

Pelo silêncio que veio em seguida, imaginei que ela tenha ficado surpresa.

— Ah… Eu estou bem. Trabalhando e você? — Incentivou que eu continuasse o diálogo.

— Idem. Estou no estúdio. Vou gravar em alguns momentos, só falta… — Parei de falar abruptamente quando escutei a voz de outra garota se juntar a dela. — ?

— Ah, oi! — Ela respondeu em meio a risos. — Desculpa, , é que esse não é um dos melhores momentos.

Suspirei derrotada.

— Tudo bem… Posso perguntar por quê?

— Ah, é que eu estou com a Helena. — Instantaneamente minha mente me repreendeu por ter ligado para ela. É claro que as duas estariam juntas. As amigas inseparáveis. Que dúvida eu tinha?

— Ah, sim… Eu não queria atrapalhar. — Tentei esconder a irritação, mesmo achando que foi totalmente inútil.

— Não está atrapalhando. Só estávamos curtindo. Você sabe que eu sou muito feliz. — Sua risada foi acompanhada pela a da tal amiga.

Obviamente uma piada interna. Meu estômago embrulhou.

— É, claro que sei. — Respondi seca. Lembro-me de quando éramos felizes juntas também, acrescentei mentalmente. — Vou deixar vocês duas agora. Até mais, .

— Mande notícias logo, ok? Beijos! — Encerrei a chamada no instante seguinte.
Procurei um canto vazio qualquer no set e me sentei ali, com as costas encostadas na parede.
Eu queria chorar. Mas derramar lágrimas não adiantaria.

Não era como se não pudesse ter outras amigas, isso seria completamente ridículo sequer de pensar. Eu não era única na vida dela, nem nunca seria. Mas a sensação agora era como se ela tivesse se esquecido de mim… ao menos percebia que estava se afastando? Achei que ficaríamos unidas mesmo em circunstâncias como esta, mas agora eu chegava a uma conclusão diferente.

O engraçado era que, a partir do momento em que eu dissesse isso em voz alta, me sentiria uma garota melodramática. E eu me recusava a fazer isso.

? — Abri os olhos e me deparei com Vic me encarando. — O que você está fazendo aí?

Trabalhei rápido em uma desculpa, já que a ideia de dizer “me sinto substituída pela nova amiga da minha melhor amiga” não parecia soar bem.

— Estou cansada. — Respondi por fim e forcei um sorriso.

— E por que não sentou no sofá? — Ela própria deu de ombros em seguida. — Ah, não importa. Gregory está nos chamando. Quer fazer um ensaio rápido com o script antes de gravarmos.

Assenti e me levantei.

— Todos já chegaram? — Vic concordou e começou a tagarelar sobre qualquer coisa sem importância até chegarmos no local estipulado.

Poderia soar insensível da minha parte, mas eu não estava a fim de conversas hoje. Na verdade, ficaria contente se pudesse ficar vinte e quatro horas reclusa em meu apartamento me lamuriando sobre meus próprios pensamentos.
Infelizmente…

— Acelerem o passo, suas molezas, os pés de vocês estão caindo por acaso? — Mostrei um pequeno sorriso. Gregory era quase pior que eu com xingamentos.

Encarei meus pés pelos próximos minutos, segurando o script na mão direita, esperando pelas novas instruções.

— Que cara é essa, Ruivinha? — A voz de ecoou ao redor e levantei o olhar em sua direção. — Parece que está num estágio avançado de transição de ser humano para zumbi.

— Sempre muito delicado. — Murmurei.

— Só quero saber o que aconteceu, .

Avaliei seu olhar e tentei entender sua curiosidade. Porque era só isso que percebia-se ali. Não havia importância, apenas aquele desejo secreto de entender meu comportamento.
Salva pela boa vontade do diretor, não pude lhe dirigir mais que um dar de ombros.

As próximas horas passaram devagar até demais. Tivemos que estender o horário de trabalho por causa de alguns imprevistos, que foram aos poucos, acabando com nossa animação e paciência. Eu, por outro lado, só me sentia ainda mais desgastada, com vontade evaporar e sumir.

Estava tentando outra vez me concentrar e fazer meu trabalho, mas no momento em que eu tirava os olhos do roteiro, era como se todo o meu foco fosse lançado para o espaço e o pesadelo que vinha me perseguindo na última semana voltava à tona. Somado às minhas próprias reflexões nada animadoras da minha vida…

Fechei os olhos com força numa tentativa de fazer as imagens indesejáveis deixarem meus pensamentos, assim como todo o resto que me atormentava. Eu não precisava disso agora.

, sua vez… — Uma voz que mais pareceu sussurrar, invadiu meu sistema auditivo, mas eu a ignorei como estava fazendo com as demais. Já não conseguia fazer a separação do que soava dentro da minha cabeça e do que vinha de fora.

— Srta. ! — Um chamado forte me fez despertar e abrir os olhos alarmada, me deparando com Sr. Colleman. — Algum problema com você?
Demorei alguns segundos para finalmente responder:

— Não, só acabei me distraindo. Está tudo bem.

olhou pra mim com a testa franzida e, por incrível que pareça, surpreenda-se se quiser, com um olhar que parecia ser de preocupação. Depois de me analisar por rápidos dois segundos, perguntou:

— Você está pálida, quer um pouco de água?

— Não, já disse que estou bem.

Ele deu de ombros, parecendo contrariado, e não tocou mais no assunto. Porém, seu olhar observador não pareceu me deixar mais depois disso.

Tentamos mais uma vez. Cada um em sua posição, ao meu lado interpretando Ian, como se fosse um expert em qualquer assunto relacionado a eletrônicos.

Eu, leiga da forma que sempre fui, tinha que fingir entender do assunto para o bem de Kate, quando na verdade, não tive dificuldade em perder a linha de raciocínio e acabar com a cena mais uma vez.

Eu não estava bem, mas tinha que parecer estar. E eu estava me esforçando muito para isso, me focar no trabalho e deixar meus problemas pessoais de lado. Contudo, sempre que chegava minha vez de atuar, eu travava como nunca.

— Desculpa, só preciso de mais cinco minutos! — Falei passando as mãos pelos cabelos, irritada comigo mesmo e com minha incapacidade de cumprir meu trabalho.

Eu via todos suspirando nervosos e derrotados. Cansados de ter que gravar aquela cena pela décima quinta vez, se eu não estivesse enganada. Já não prestava mais atenção na claquete, nem em quantas vezes ela era batida.

, essa cena é simples! Por que toda essa dificuldade? — Reclamou Gregory com tédio bastante explícito.

— Eu preciso de um tempo. — Pedi recebendo um olhar não muito feliz dele em resposta.

— Mais tempo, Ruivinha? Pensei que os quarenta e cinco minutos anteriores já tivessem sido suficientes. — Rebateu com sua usual arrogância.

— Cala a boca, , eu não dirigi palavras a você. — Respondi sem paciência e todos ao redor me olharam desacreditados.

Fui até a cadeira atrás da fileira de câmeras e puxei minha bolsa, peguei o celular e comecei a digitar o número que eu precisava falar o quanto antes, com os dedos levemente trêmulos, deixando eu mesma surpresa por aquela atitude.

— Tem alguém bastante nervosinha, hein? Acho melhor tomar uma água com açúcar para acalmar os nervos. Quem sabe um litro de chá camomila?

Não precisava me virar para saber que era quem falava.

— Me deixa em paz, ok?! — Me afastei alguns passos, tentando conseguir privacidade.

Tarefa muito difícil quando toda a produção do estúdio adotava a missão de te encarar com frustração e ódio por não conseguir dizer duas simples frases.

Eu estava tão irritada quanto todos eles, mas a diferença é que eu tinha que escutar todas as reclamações das pessoas ali dentro e fingir que não estava prestando atenção no mínimo ruído. Eu era culpada, de qualquer forma, e sabia disso.

— Ah, qual é? Não aguenta uma brincadeira, ? Pensei que a TPM já tivesse passado.

— Ah, não! Sem briga vocês dois. — Senhor Colleman tentou intervir, não sei se ao meu favor ou à sanidade de todos, mas a questão é que eu não deixaria falar daquele jeito comigo. Não mais.

— Eu disse: cale a boca, . Ou você é surdo? — Levei o telefone ao ouvido, virando as costas para , e eu só não joguei o celular na cara dele porque tive noção do certo e errado

— Será que não pode conversar civilizadamente?

— Será que não percebe que estou tentando fazer uma ligação?

O deboche praticamente transbordou quando seu riso nasalado foi ouvido.

— Não consegue nem escutar umas reclamações que já vai pedir ajuda? Vai ligar para mamãe, ?

— Não, seu idiota! Eu não vou ligar pra minha mãe porque ela está morta! — O silêncio se estendeu no estúdio e olhos arregalados de todos os lados me encaravam.

Eu olhei para ele, não enxergando mais nada. Todo meu autocontrole se quebrou e a bomba tinha explodido.

Mas o que mais me impressionou, além da minha própria voz estridente, meu coração acelerado e minha respiração entrecortada, foi o olhar surpreso de que se desfazia aos poucos, substituído por outra expressão. Ele estava com pena.

Eu odiava quando as pessoas sentiam pena.

— Será que agora você pode me deixar em paz? — Virei as costas com um entulho de diferentes emoções tomando conta de mim.

Deixei o estúdio sem medir as consequências que aquilo poderia me render e segui pelo corredor até meu camarim. Foi só quando bati a porta que percebi meu rosto molhado e as lágrimas escorrendo.

Eu estava pouco me lixando para o fato de eu estar cdo, queria mais que tudo se lascasse.
Sentei-me de frente para a penteadeira e me debrucei ali.
Precisava de um tempo sozinha.

‘s POV

Eu nunca fui bom em agir com mulheres nervosas, com raiva, tristes, a ponto de socar, a ponto de matar, a ponto de explodir. E ver ali, simplesmente fazendo tudo aquilo se juntar em um único momento, quase me fez entrar em pânico.
Assim que ela deixou a parte de gravação do estúdio e seguiu para sabe se lá onde, os olhares antes vidrados nela, agora estavam centrados em mim. Aparentemente eu era o babaca da história por ter ferido os sentimentos da minha colega de trabalho e agora eu teria de lidar com isso da pior forma possível: pedindo desculpas.

— Não dá pra trabalhar assim… — Alguma pessoa murmurou.

— Desse jeito vamos atrasar nos prazos! — Outro falava.

— Os dois não se aturam e isso acaba afetando todos nós! Que tortura! — Uma terceira voz se sobressaiu e eu apertei meus punhos na lateral do meu corpo, respirando fundo.

— Vai ficar aí parado com cara de quem viu a morte ou vai falar com ela? — Gregory disse para mim sem se levantar da cadeira. — não vai voltar pra cá por osmose, . É melhor se apressar, não temos o dia todo.

Inclinei a cabeça para a lateral e fiz a maior careta que me era permitida.

É o que dizem: se está no inferno, então abrace o capeta.

Andei até a porta do seu camarim, esperando que ela estivesse lá, como havia dito uma assistente de figurino no corredor.

Fiquei num dilema de “bater ou não bater” pelos próximos cinco minutos, porque no instante em que eu levantei a mão para abrir a porta, escutei o choro de abafado do outro lado.

Porra, eu não sabia como lidar com aquilo.

Olhei para cima e juntei as sobrancelhas.

— Deus, me ajuda nesse momento, porque sozinho eu não consigo.

Esperei que Sua benção me atingisse, mas não sabia ao certo se tinha recebido a tal dádiva ou não, então só respirei fundo e girei a maçaneta.

— Sai daqui! — Uma almofada quase atingiu a minha cabeça.

Fora uma recepção muito calorosa.

, eu…

— Vai embora! Chega de brincadeira por hoje, . Já tive o suficiente!

A voz trêmula dela e seu rosto vermelho e inchado começaram a me deixar nervoso. Caramba, que situação péssima!

— Vim aqui me desculpar… — Ela fungou e bagunçou mais um pouco o cabelo, ao contrário de me dar atenção como eu esperava que acontecesse. Percebi que tinha que continuar a falar, senão eu não conseguiria resolver porcaria de situação nenhuma. Mas era mais fácil pensar que colocar em prática. — Eu não sabia sobre… sobre a sua mãe. Sinto muito. De verdade.

Ela tinha um olhar rancoroso através do espelho, mas se ainda estava com raiva de mim, não disse nada. Se debruçou sobre seus braços outra vez como se eu não estivesse ali.

Pigarriei alto e comecei a fazer sons estranhos na esperança de alguma coisa útil sair da minha boca, mas nada além de Ahs e Ers infinitos se fizeram audíveis.
Decidi então que eu não havia sido abençoado pelo divino. Inclusive, Ele provavelmente devia estar rindo de mim lá de cima.

— Será que você pode sair? — perguntou, grossa, sem sequer levantar a cabeça.

— É que eu…

— Você nada! — Me interrompeu de súbito. — Já veio aqui, pediu a porcaria das desculpas e eu aceitei. Agora sai!

Eu podia não conhecer aquela garota por muito tempo, mas ela estava me irritando de uma forma totalmente ridícula!

— Não vou sair daqui. — Balancei a cabeça em negação, adquirindo um olhar sério para ela.

Como é? — Sua voz saiu uma oitava acima, com o total intuito de me fazer repensar se eu realmente continuaria ali. — Será que ninguém consegue me dar cinco minutos para eu me deprimir nessa porcaria de lugar?

— Olha, pode ficar aí reclamando o quanto quiser, mas eu não vou sair daqui.

— Ah, não? Então talvez eu deva começar a prestar atenção nas suas ironias ou no seu sarcasmo idiota e fingir me divertir com ambos. — Grunhiu.

— Olha, Ruivinha, eu sei que eu posso não ter sido um cara muito agradável…

— Nada agradável. — Corrigiu-me com os olhos avermelhados refletidos pelo espelho.

— Isso. Nem um pouco agradável, mas por mais… esquisito que isso possa soar, quero te ajudar. Eu só queria entender um pouquinho da pessoa que você é para poder fazer isso.

A princípio ela me encarou, e eu pensei que estivéssemos chegando a algum lugar, mas então sua risada estridente tomou o quarto e eu fechei a cara, irritado com sua atitude.

— Ótima piada a sua, . Já pensou em fazer um show de stand-up? Talvez fizesse sucesso. Seu senso de humor é realmente peculiar.

Bufei, passando as mãos pelo meu topete perfeitamente arrumado e o transformei num ninho.

— Será que você pode ficar quieta e escutar, por sei lá, três minutos? — Aceitei sua boca fechada como um “sim” e continuei. — Eu não sei como agir em momentos como esse, então pelo menos respeite meu esforço de agora. Não tá sendo fácil, principalmente porque eu não faço ideia se quando eu acabar de falar com você, vou receber um abraço ou um soco.

— Seja direto, babaca. — Bufei.

— Até quando eu tento ser legal as pessoas me xingam. Que inferno! — Ralhei, gesticulando.

— Seu tempo está acabando. — falou sem emoção. — Dois minutos.

Revirei os olhos.

— A questão é que eu vim aqui dizer que vou tentar ser mais amigável.

Pausa dramática.

— Estou decidindo se rio de você, ou se pergunto que porcaria de bebida você estava tomando.

Qual é?/i> Eu não devia ser tão chato, devia? Era normal às vezes eu acordar não muito bem humorado e acabar sendo irritante com todo mundo. Há quem diga que eu não sou irritante só por causa disso… Mas porra!

— Se alguém perguntar, só diga que eu tentei. — Virei as costas pronto para deixar o quarto, desistindo.

— Espera, … — Olhei sobre o ombro, a voz dela soando desconfiada. — Está falando sério?

Apenas assenti, e recebi uma careta de .

— E tem certeza que está sóbrio?

— Posso te garantir que você não vai querer me ver bêbado.

O ar pareceu pesar ao nosso redor, e ela já não chorava mais. Nem ria ou tinha alguma expressão estranha no rosto como aquela que ela costumava assumir cada vez que ficava prestes a dar um piti.

— Está sugerindo uma trégua?

— Estava antes de você perguntar se eu estava bêbado. — A corrigi.

— Então quer dizer que voltamos à estaca zero? Vai continuar a ser insuportável comigo? — Sua testa se franziu e eu dei de ombros.

— Não sei. Me diga você, Ruivinha: o que vai querer?

Eu quase podia ver o “loading” na sua testa enquanto seus olhos me estudavam. Ela cruzou os braços e expirou forte.

— Tudo bem.

— Tudo bem? — Franzi a testa.

— Tudo bem. Vamos tentar do seu jeito. — Arqueei a sobrancelha, com um pouco de dúvida. — Sou .

Ela estendeu a mão e eu a observei.

. — A cumprimentei, apertando sua palma em seguida.

— Isso é o início de uma amizade? — parecia propor um desafio com a expressão facial que estava.

— Se você quer chamar assim. — Dei de ombros. — Só não se empolgue muito. Prometi ser mais amigável, e não ser seu melhor amigo.

— Isso é o de menos, mas se quer fazer dessa sua frase de efeito, fique à vontade. — Ri nasalmente. — Vamos ver quanto tempo isso vai durar.

Por um instante eu não tinha o que responder, estava apenas atônito e surpreso demais com suas palavras para formular alguma frase. Podia soar idiota mesmo, mas eu não sabia o que dizer para ela.

se aproveitou do momento e bateu seu ombro no meu, mostrando um dos lados da boca erguidos em um sorriso de provocação.

Eu não sabia dizer se o que ela havia dito fora apenas brincadeira, mas naquele momento eu tinha descoberto que , assim como eu, também tinha seus momentos.


Nota da Autora: Amigos então? Será que isso vai dar em alguma coisa? Hahah Comentem aí o que vocês pensam sobre isso!

E enquanto não sai nova atualização, leiam outras histórias minhas:
That’s Enough {original|finalizada} shortfic/oneshot
Uptown Girl {original|em andamento} longfic