Take Me Back To San Francisco

Take Me Back To San Francisco

Sinopse: Ela é colunista em uma das mais conceituadas revistas de São Francisco, e vê sua vida mudar após uma icônica entrevista. Fã de One Direction durante a adolescência, ela sente sua vida ganhar mais cor quando tem a oportunidade de entrevistar ninguém menos que Niall Horan, o loiro fofo da banda.
O que era para ser uma simples entrevista, que a faria reviver seus tempos de fã, e quem sabe salvar a coluna que escrevia, torna-se algo muito maior quando recebe não somente um exemplar da revista autografado, como um convite de amizade feito pelo próprio Niall nas redes sociais.
Em meio a conflitos de agenda, carreira, shows e principalmente a mídia, os dois terão agora que batalhar pelos seus sentimentos, enquanto lidam, ainda, com as dificuldades do relacionamento que começou em São Francisco.
Gênero: Romance
Classificação: 14
Restrição: Não possui
Beta: Elizabeth Bennet

Capítulos:

Prólogo
QUATRO DE AGOSTO DE DOIS MIL E DEZOITO, MOUNTAIN VIEW, CA

Pessoas não paravam de chegar ao Shoreline Amphitheatre quando o evento já estava prestes a começar. Muitas meninas vinham ás pressas acompanhadas dos pais, grupos de adolescentes se perdiam na multidão e vários deles tinham celulares nos ouvidos a fim de tentarem se encontrar e falharem.
Eu já sabia desde o começo que estaria lidando com um anfiteatro lotado e agradeci em silêncio ao crachá exclusivo em meu pescoço, que me permitia ir e vir como bem entendesse sem precisar passar pela massa excessiva de fãs. A revista dedicada ao universo musical onde eu era colunista havia conseguido uma entrevista exclusiva com o cantor após o show. Não pude deixar de me sentir animada, uma vez que secretamente ainda tinha um discreto crush pelo artista.
Eu já não era mais a grande fã de Niall Horan que fui um dia, mas estaria mentindo se dissesse que não acompanhei o mesmo (com fervor) na tão distante época de One Direction. Acontece que seis anos haviam se passado desde o último show em que o vi no palco, e muitas coisas haviam mudado: faculdade, sair da casa dos pais, mudar de cidade, me formar. Eu já não era a mesma que havia se apaixonado por cinco adolescentes bobos há quase dez anos atrás. Então não cheguei a acompanhar a carreira solo de nenhum dele e apesar de ainda sentir um certo carinho por eles, principalmente por Niall, minha vinda até esse show era extremamente profissional.
O objetivo era fazer uma matéria sobre o primeiro tour mundial de Niall Horan como cantor solo. Muitas pessoas no nosso setor estavam empolgadas com os acessos que a revista receberia, mas não sabia ao certo se compartilhava dessa opinião. Escrevia uma coluna voltada para o público adolescente, mas as revistas adolescentes pararam de fazer sucesso uns anos atrás. E, mesmo que ninguém tivesse me avisado, eu sabia que essa matéria era tão somente uma tentativa de salvar o quadro teen que a revista possuía antes de fechá-lo para sempre. E com isso ia embora também o meu emprego.
Estava fazendo cerca de vinte e três graus, e pelo menos desde o meio dia o sol estava mais ameno e o clima mais frio. Já eram quase oito da noite e o sol estava começando a ir embora, quando o palco se acendeu e eu soube que o show iria começar. De onde estava sentada, peguei meu bloco de anotações e me pus a escrever todas as minhas observações, desde a artista que abriu o show, o tempo que Niall levou para substituí-la no palco, o show de pirotecnia, as imagens que se passava nos telões, qualidade do som e empolgação dos fãs.
Entretanto, sem que eu sequer percebesse, quando Niall começou os acordes de This Town, eu cantei junto. A música toda. E como notei no fim do show, depois dessa música esqueci completamente de todas as minhas anotações, ouvindo todas as músicas de Niall Horan e me perguntando porque eu nunca havia tido o interesse de ouvi-las antes. Deixei que todas as canções embalassem a adolescente que existia dentro de mim, olhando para a multidão de fãs e lembrando de quando tinha dezoito anos e sonhava em estar exatamente onde estava agora: prestes a conversar com Niall cara a cara.
Uma hora e meia depois, e ao som de muitas lamentações, Niall deixou o palco. A minha recomendação foi essa: quando o cantor se despedir dos fãs, avise o segurança imediatamente. Pelo que entendi, ele teria um show próximo a Los Angeles ainda amanhã.
Guardei meus pertences e ajeitei meus óculos, tentando forçar minha face a transparecer a menor quantidade de emoção que me fosse possível.
— Com licença. – Chamei o segurança da ala em que me encontrava, mostrando meu crachá a ele. – Meu nome é , venho em nome da PlayList¹ para a entrevista.
O segurança analisou meu crachá e sussurrou um código através de seu walk talk.
— Um momento, senhorita .
Aguardei pelo que pareceu uns cinco minutos, até que a porta abriu e outro segurança igualmente uniformizado apareceu pela porta.
— Paul irá te acompanhar até o camarim. – Disse o primeiro segurança. Concordei com a cabeça, seguindo o segundo segurança porta adentro.
Andei com toda a dignidade que me restava até o camarim de Niall Horan, como pude verificar a placa na entrada. O segurança deu três batidas, que foram atendidas prontamente por uma mulher robusta de cabelos escuros.
— Deve ser da revista! Entre, por favor.
A primeira visão que tive do camarim foi que ele parecia bem confortável, mas nada luxuoso. Havia uma mesa com algumas frutas, um sofá bem normal, um tapete peludo e uma arara com as roupas que ele usou durante o show. Havia também duas poltronas no fundo, para onde a mulher, que depois de ler o crachá dela descobri que se chamava Lucy, estava me levando. E bem na poltrona da direita estava Niall James Horan, com seus cabelos levemente bagunçados, o suéter deixado de lado, os olhos azuis cansados, mas o sorriso brincando em seus lábios com uma expressão satisfeita. Estava bebendo água, mas abaixou-se para pousar a garrafa no chão quando me viu, e se levantou vindo em minha direção.
— Seja bem-vinda… – Começou, deixando a frase no ar.
. , prazer. – Terminei, apertando a mão que ele levantou, à guisa de um cumprimento.
— Niall. Acho que já sabia disso. – Falou, em tom de brincadeira.
— Tenho certeza que já ouvi em algum lugar, mas pode reforçar minha memória?
Niall riu, com aquela risada tão única dele.
Slow, slow hands, like sweat dripping down our dirty laundry. – Respondeu, cantando a última música da setlist de hoje.
No, no chance – Cantei por fim os versos que me lembrei, fazendo ele rir um pouco mais.
— Temos uma fã me entrevistando aqui? – Perguntou, me deixando bem sem graça. Era o que tentei evitar o tempo todo, queria passar mesmo uma imagem profissional. Mas Niall não pareceu se importar.
— Estou mais para… one direction? – Tentei, vendo o sorriso vacilar em seu rosto. – Não se preocupe, não farei nenhuma pergunta relacionada.
Eu sabia o quanto ele não gostava de tocar no assunto, então talvez não fosse mesmo uma boa ideia. O rapaz ficou um pouco mais aliviado.
— Bom, que bom, porque eu não iria responder nenhuma, de qualquer jeito.
Dessa vez quem riu fui eu mesma.
— Certo, hm, se importa se eu ligar o gravador? Vai ser melhor para transcrever depois.
— Não, pode ir em frente.
Ele me acompanhou até a poltrona, para nos acomodarmos. Pelo contrato eu tinha quarenta minutos de entrevista sem interrupção, e tinha perdido pelo menos cinco com gracinhas. Lucy, a mulher que estava ali conosco havia saído da sala, uma vez que a entrevista era exclusiva de verdade, então estávamos somente Niall e eu naquele camarim. Peguei o gravador, meu bloco de anotações e as perguntas que iria fazer. Liguei o pequeno aparelho, colocando no braço da poltrona.
— Hora de abrir se coração, Horan. – Falei brincando. – Bom, como está sendo essa turnê para você desde que começou sua carreira solo?
— Você disse que não iria fazer perguntas relacionadas.
— Não mencionei a banda. – Lembrei, dando de ombros. – A entrevista é totalmente focada na sua carreira solo.
Niall suspirou.
— Certo. Eu costumava gostar muito da bagunça pelo caminho, ter gente sempre por perto também era divertido. Mas parece que agora que estou mais maduro prefiro ficar sozinho. Então a turnês está bem divertida, as fãs são sempre muito gentis, e sou sempre muito bem recepcionado.
— Dos países que visitou até agora, onde teve a experiência mais inusitada? – Perguntei, checando a lista. Niall riu, provavelmente se lembrando de uma piada interna.
— Japão, eu diria. É sempre diferente visitar um país oriental.
— Deseja compartilhar a piada?
Ele riu ainda mais.
— Vamos deixar para a próxima, .
Eu também ri, apesar de não fazer a menor ideia da graça.
— E quando está nesses países, como o Japão que é tão longe, como lida com a saudade de casa?
— Bom, a saudade de casa é algo com o qual tenho que lidar há mais de oito anos, então não faz muita diferença. Sinto muitas saudades da minha família, mas tentamos o máximo manter-nos perto um do outro. – Ele fez uma pausa, aparentemente refletindo. – Temos planos de nos ver em breve, o que me deixa feliz.
— Prefere morar na Irlanda, Londres ou nos Estados Unidos?
— Apesar da saudade, prefiro morar em Los Angeles. É mais fácil para mim por conta do trabalho e eu não gosto de pegar avião o tempo todo. Minha vida é o oposto do que era antes. Eu vivo entre Londres e Los Angeles. No ano passado, acho que passei menos de seis dias na Irlanda, o que é louco. Passei os dezesseis primeiros anos da minha vida lá e agora eu mal passo uma semana².
— Isso é incrível. Acho que nunca nem saí da Califórnia. – Deixei escapar, devido minha grande admiração.
— Você mora aqui?
— Não, moro em São Francisco.
Niall se encostou na poltrona.
— Quantos anos você tem?
— Hm, acho que sou eu quem estou fazendo a entrevista, engraçadinho. – Ele riu, mas se recompôs. – Certo, se tivesse que escolher entre Sign Of The Times, de Harry Styles, Strip That Down, de Liam Payne, e Just Hold On, de Louis Tomlinson com Steve Aoki, qual escolheria?
!
Eu não mencionei a banda! – Frisei, segurando o riso. Além de que ele aparentemente gostou da pergunta. E pensou muito sobre ela.
— Hm, vou escolher Just Hold On. Eu realmente amei a de Louis. É muito, muito boa.³
A entrevista seguiu sem problemas. Conversar com Niall era muito fácil e confortável, me fez esquecer completamente que eu estava conversando com um popstar. Ele também pareceu bem à vontade, provavelmente porque não fiz qualquer outra pergunta que se remetesse a banda. Vinte minutos depois, a cabeça de Lucy surgiu na porta do camarim, que foi aberta.
, espero que tenham conseguido terminar. O tempo da entrevista acabou, e Niall precisa pegar um avião para o norte em duas horas.
Suspirei, desligando meu gravador.
— Sim, tudo certo, tenho material o suficiente para uma boa matéria! Peço para te entregarem uma, se quiser.
Niall concordou.
— Essa eu vou querer ver.
— Essa? – Questionei. Ele deu de ombros.
— Não costumo ler as minhas próprias entrevistas. Acho até um pouco narcisista querer me ver em uma revista.
— Sorte sua que desliguei meu gravador. Iria perder muitos patrocínios. E eu ficaria milionária pelo furo.
Ele apenas riu. Niall era uma pessoa um tanto engraçada. Era muito divertido e gostava de dar respostas espertinhas. Eu não era lá uma grande expert, mas tinha quase certeza que ele tinha flertado comigo vez ou outra. Tenho um gravador como prova!
Nos levantamos da poltrona ao mesmo tempo, onde me espreguicei de uma maneira sutil devido a todo tempo que passei sentada.
— Obrigada pela entrevista, Niall Horan! Adorei saber mais sobre você, tenho certeza que nossos leitores também amarão!
Ele esticou a mão, que eu apertei.
— Eu quem agradeço, . Deixou minha noite muito menos tediosa. Foi bem divertido. – Sorri para ele.
Ao contrário do que pensei, conversar com Niall Horan reacendeu a chama adolescente dentro de mim que sempre foi louca pelo artista. Perguntei-me em que momento da minha vida perdi essa conexão com ele e fiquei triste quando não consegui me lembrar. A adolescente que eu fui me deixara muitas lembranças tão lindas e ingênuas e me partiu o coração ter a consciência de que, por mais que a admiração fosse real, eu não sentia mais aquele amor platônico por Niall Horan.
— Eu também gostei muito. A de dois mil e doze está pirando agora, só para você saber.
— Não precisa ficar com saudades. Tenho a impressão que ainda nos veremos no futuro.
Dei uma gargalha.
— Então até a próxima, Niall Horan.
— Até a próxima, . – Repetiu.
Dei um último sorriso, pegando minhas coisas e deixando o jovem cantor para trás.

Capítulo 1
DEZENOVE DE SETEMBRO DE DOIS MIL E DEZOITO, SÃO FRANCISCO, CA

Estava finalizando minha matéria sobre Billie Eilish, quando Rachel Palm estacionou ao lado da minha baía.
— Posso saber porque Niall Horan te enviou uma encomenda? – Questionou minha amiga, me entregando um envelope.
Endireitei-me na cadeira, alarmada, e abri o envelope, que tinha o tamanho de uma folha A4 e pesava um pouco. Havia uma foto do próprio Niall sorridente ao lado de uma revista. Demorei dez segundos para notar que ele segurava a capa da própria PlayList, apontando para ele mesmo e com o dedo indicava a entrevista que eu fizera com ele no começo do mês passado. Meu nome aparecia logo embaixo, em uma nota colada com fita adesiva.

Olá, ! Amei a entrevista e quero que saiba que comprei a revista, eu comprei! Estou te enviando uma cópia autografada porque sei que no fundo você queria uma.
Ah, sei que não tem twitter então me segue no instagram para eu poder ver seu ig e te seguir de volta, procurei por e não te achei: @niallhoran (Como se você não soubesse)

Abri o pacote e lá estava a nossa revista comprada por ele e autografada. “Para toda a equipe da PlayList, em especial para . Obrigado pelo carinho!”. Rachel tomara a nota da minha mão, junto com a revista, e estava rindo há uns cinco minutos, descrente.
— Não acredito nisso, ! Você nem é tão legal assim!
A Rachel era uma ótima pessoa, só para deixar claro. Peguei a nota da mão dela, guardando fora de sua vista dentro de um dos meus cadernos.
— Você não tem nada para revisar, não? – Perguntei, fazendo um gesto com a mão para ela sair.
— Não precisa ficar nervosa, só vim dar os parabéns pelo seu bom trabalho que fez Niall Horan pagar trinta dólares por um exemplar da revista. – Comentou, colocando a revista em cima da minha mesa.
— Exatamente, eu só fiz um bom trabalho, só isso. – Resmunguei, pegando meu celular.
— Sei, sei… – Comentou, ainda parada. Por cima do ombro conseguia perceber que Rachel ainda estava observando atenta eu desbloquear meu celular com o polegar.
— Sei que está esperando eu seguir ele no instagram, mas não vou fazer isso. – Resmunguei. – Porque eu já sigo.
Rachel riu, mas me deixou em paz indo em direção a própria mesa. Essa garota não fazia bem para minha sanidade mental e emocional.
A matéria de Niall havia saído no começo desse mês e devido ao meu bom trabalho, realmente conseguimos salvar o quadro teen da Playlist. Desde então estava me dedicando para artistas adolescentes em ascensão, como Billie Eilish, e tinha quase esquecido completamente de minha agradável conversa com Niall Horan.
A verdade é que não esqueci, e pronto. Quando cheguei em casa naquele dia, procurei Niall no Spotify e ouvi todo o álbum, em looping, infinitas vezes e resisti ao impulso adolescente e idiota de ir até Los Angeles somente para assistir o próximo show. Não estava em meus planos ficar obcecada por uma celebridade, realmente não estava.
Óbvio que quando Rachel parou de me espiar eu rapidamente deixei de seguir Niall e segui novamente, pelo menos umas três vezes. Faria mais vezes, mas notei que parecia bem desesperada.
Ele não me seguiu de volta, claro, e eu sei disso porque fiquei de plantão no meu celular pelo resto do dia. Não tinha nada quando saí do trabalho e nem quando cheguei em casa. Antes de jantar verifiquei meu celular novamente e ainda nenhuma notificação fora do normal. Suspirei, sem saber ao certo porque me sentia tão triste. Provavelmente porque era a única chance de nos falarmos de novo e não tínhamos nenhuma forma de termos contato. O que leva de volta a questão do: o que Niall Horan poderia querer comigo, a zé ninguém de São Francisco?
Foi quando coloquei meu prato na pia que a notificação tão esperada chegou.

@niallhoran começou a seguir você
@niallhoran
Hey, ! Segui umas vinte garotas com esse nome hoje, mas pelo menos te achei lol Estou tentando te achar faz um tempão.

Ok, então Niall Horan tinha me enviado uma mensagem. Li e reli o user umas cinquenta vezes, mas por mais que eu estivesse aguardando desde o começo do dia, esse tipo de situação ainda era muito, muito irreal. Não importava o quanto eu olhasse, o símbolo de conta verificada continuou por lá.
As fanfics que lia sobre fã e ídolo sempre muito me iludiram conforme eu crescia, mas eu gostava de pensar que era uma garota bem pé no chão. Sabia como as coisas acabariam antes que ficassem sérias demais, e deve ser esse o motivo pelo qual minha vida amorosa era uma droga. Não era a louca dos signos, apesar de querer muito culpar meu ascendente com o sol entrando não sei aonde para explicar o motivo de ser tão fracassada no amor. Vinte e quatro anos nas costas e nem mesmo um único namorado para apresentar para a família. Bom, claro que tinha outras prioridades agora, como minha carreira. Adorava a coluna teen e amava mais ainda a PlayList, mas queria muito escrever sobre coisas mais sérias do que música pop. Queria escrever sobre fome, sobre política, sobre pobreza e problemas do mundo. Quando eu estivesse bem consolidada na minha carreira, conseguiria pensar em flertes.
O que me levava de volta a Niall Horan e a mensagem que ele tinha enviado. Quer dizer, ele me procurou, e daí? Aposto que ele tinha feito vários amigos dessa forma. Aposto como ele realmente só me achou levemente divertida. Eu poderia me contentar com o fato de que ele só queria me conhecer melhor e ser meu amigo, o dia da entrevista foi a tanto tempo que duvidava ter sido o que levou ele a me procurar. Decidi responder à mensagem.

@
Hey! Ah eu te garanto que essas vinte garotas não se importaram nenhum pouco!

@niallhoran
Espero que tenha razão. Odeio incomodar
@niallhoran
E desculpa a demora, estou saindo de um show nesse exato momento. Vi sua notificação, mas estava um pouco ocupado.

@
Não precisa se desculpar. Deve estar cansado, podemos nos falar outro dia.

Queria fingir para mim mesma que não estava feliz por ele ter se lembrado de mim, mesmo naquela rotina maluca dele, mas me contive. Sentei-me no sofá para conversar com ele, empolgada como se estivesse de novo com dezessete anos. Tentei não surtar, mas não é todo dia que você se pega conversando pelo instagram com meu ídolo de longa data. Mesmo que não conheça tão bem seus trabalhos mais recentes e sequer pensasse nele tanto assim antes de assistir aquele show.

@niallhoran
Não faz mal, sério. Gostei de conversar com você aquele dia.

@
Está me procurando só porque gostou de conversar comigo aquele dia?

@niallhoran
Estou te procurando desde aquele dia. Não deu certo hahaha Imaginei que minha única chance fosse mandando uma revista direto para sua editora. O correio atrasou muito essa conversa!

@
Hahaha atrasou? E caramba, que moral. Eu te sigo no instagram desde 2011

@niallhoran
Ah, eu não ia te achar nunca. Tentei procurar olhando todos os meus seguidores.

@
Ok, agora estou me achando de verdade!

Se passaram cinco minutos sem que houvesse respostas dele. Olhei no relógio, eram onze e quarenta. Relativamente cedo para mim, mas talvez ele estivesse cansado. Devo dizer que a aproximação dele e seu interesse por mim mexeram comigo, mas não sabia dizer o que em mim havia chamado tanto sua atenção.
Vinte minutos mais tarde, meu celular vibrou.

@niallhoran
Desculpa a demora de novo. Estava me arrumando aqui no hotel.

@
Ainda falta muito para acabar a turnê?

@niallhoran
Apenas mais três dias de shows e acaba. Mas as férias só começam mesmo na próxima terça.

@
Achei que seu último show fosse domingo.

@niallhoran
Bom, a questão é que fui convidado para gravar o SoundTrack SanFrancisco¹ na segunda. E já que estarei em São Francisco de qualquer jeito, queria saber se a gente podia se ver

Um barulho seco ecoando no chão da minha sala informava que havia deixado meu celular cair. Não era possível que ele fosse tão direto assim no flerte. Quer dizer, ele nem me conhecia direito, e nosso último encontro havia sido há mais de um mês atrás. E pelo menos que eu me lembre, todas as versões do Niall que eu via na internet era de um garoto tímido, e ele nunca apresentou uma namorada sequer para a mídia. Pois é, como já dizia o ditado: quem come quieto, come sempre. Acho que ele percebeu que eu tinha ficado perplexa, porque chegou outra mensagem.

@niallhoran
Retificando: sair comigo como amigos. Sabe, me mostrar a cidade, os pontos turísticos mais escondidos, coisas assim. Só queria aproveitar minhas férias sem precisar pegar um avião tão cedo.

Bom, agora estava quase tudo mais ou menos esclarecido. Ele havia mesmo comentado que não curtia pegar avião tanto assim. Seria esse o único motivo? Mesmo?

@
Seria muito legal guiar Niall Horan pela minha cidadezinha. Só me chamar no dia que você estiver livre 😊

Não conversamos muito depois disso. Ele falou um pouco sobre o SoundTrack e eu aproveitei a deixa para informar que nunca perdia uma única entrevista, como a amante de música que era. Alguns minutos depois Niall aparentemente usou uma desculpa qualquer para terminar a conversa e eu apenas curti a última mensagem que ele enviado, não me permitindo ficar feliz com a sugestão de me encontrar com ele.
Apesar de ser realmente bem pé no chão, eu era mestre em criar histórias de coisas que jamais aconteceriam na minha cabeça. E quantas dessas histórias já não envolveram Niall Horan? O simples fato de ele ter perdido seu precioso tempo me procurado já me deixava tonta.
Respirando fundo, lavei a louça que se formara em minha pia desde a noite anterior e varri o chão do apartamento. Ele era bem pequeno, tinha apenas quatro cômodos, mas o prédio era moderno, bem localizado e o valor do aluguel também era ótimo. Arrumei minha cama, guardei umas roupas espalhadas, por fim, e coloquei meu pijama, pronta para ir dormir. O relógio apontava que era quase uma da manhã, e eu ainda teria que acordar cedo no dia seguinte.
Não queria pensar muito no que poderia acontecer na próxima semana, e repeti para mim umas mil vezes que ele mesmo disse que queria me encontrar como amigo. Avistei o gravador da entrevista em minha cama de cabeceira, lugar onde ele tem estado desde aquele dia.
Inconscientemente e antes que pudesse me parar, dormi ouvindo a voz de Niall Horan através do gravador.

¹ SoudTrack SanFrancisco é um nome fictício de Talk Show criado por mim, exclusivamente para essa história. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Capítulo 2
O mar estava calmo e era um dia claro e sem nuvens no céu, o que por um lado era ruim, pois quase sempre significava um sol ardente. Mas logo depois já relevei a informação, pensando em como o dia parecia bonito visto do píer. Para alguém que morava em São Francisco há uns bons dois anos, me considerava bastante especialista nos pontos turísticos da cidade porque eu basicamente fugia de todos. Era até legal sair com meus amigos no começo da faculdade, mas eu era mais do tipo antissocial, então não vinha muito para São Francisco na época, ficava mais em Berkeley. Por isso nunca me ocorreu visitar a Prisão Federal de Alcatraz antes, mas aqui estava eu, aguardando no Píer 33, sentada em um banco de metal que queimava um pouco por causa do contato com o sol.
Ao meu lado uma mulher antipática ficava toda hora perguntando ao homem que estava com ela se ia demorar muito. Pude observar que assim que questionou pela vigésima vez, uma família de chineses olhou para trás, e um homem particularmente bravo e baixinho a encarou com repreensão. A mulher cruzou os braços e virou para o outro lado, enfurecida, mas pelo menos parou de perguntar. Agradeci em silêncio ao homem miúdo e olhei para o relógio.
A saga da mulher irritante me fez lembrar que Niall estava atrasado. Ele disse que chegaria pontualmente no horário de embarque do ferry, mas só faltavam quinze minutos para a partida e sem nenhum sinal dele. Fiquei com pena de mim mesma antecipadamente, nada pior que levar um bolo. De um cara famoso.
Depois do fiasco que foi nossa primeira conversa, com todo o episódio do mal-entendido, ele pareceu interessado de verdade em renovar nossa precoce amizade. Conversamos com muita facilidade sobre tudo: casa, família, carreira, planos, sonhos. Nenhum dos dois tocou no assunto de namoro, então supus que ele estava passando por algo. Mesmo depois que começou os boatos entre ele e Hailee Steinfeld no começo do ano, Niall não havia afirmado e nem desmentido a relação, o que tornava tudo mais confuso, já que ela estava promovendo um filme e ele estava em turnê há seis meses. Não teriam tempo para namorar, teriam?
Minhas conversas secretas no Instagram com um popstar não passaram batidas, é claro. Durante o resto da semana Rachel ficou me enchendo incansavelmente sobre como eu era sortuda e como estava com inveja de mim. Precisei dizer a ela incontáveis vezes que Niall e eu éramos apenas amigos. Não, na verdade nem amigos, pelo menos não ainda.
O barco atracou no píer, o que me preocupou. Mais cinco minutos e Niall não poderia mais embarcar. Quando estava quase mandando uma mensagem por conta da demora, vi Horan atravessando correndo a The Embarcadero e vindo em minha direção. Ele estava com um suéter azul claro, óculos escuros e um boné cinza. Ainda estava muito longe para que ele me visse, mas veio andando em direção ao ferry e quando chegou no final do tablado conseguiu me encontrar.
— Você sabe que ainda dá para saber que é você, certo? – Perguntei quando ele chegou até mim. Ele olhou para o próprio disfarce, tirando os óculos e os pendurando na gola do suéter.
— Oi, . – Cumprimentou, me dando um beijo no rosto. – É, eu sei. Mas não sou mais assediado como era antes. As pessoas só apontam, é muito difícil ser abordado hoje em dia. Acho que têm vergonha.
Dei uma risada irônica, porque pelo menos todas as pessoas que eu conhecia não teriam vergonha.
Será?
Ele olhou para as pessoas ao nosso redor.
— Bom, mesmo assim, a maioria dessas pessoas devem ter mais de quarenta anos. Tenho certeza que nem me conhecem.
E ele estava coberto de razão, é claro. Cerca de cem por cento de todo o nosso grupo nos ignorou completamente, porque de fato éramos os mais jovens ali, com exceção das crianças chinesas.
— Aliás, quando saímos?
— Nesse exato momento. Você está atrasado – Lembrei.
Niall deu de ombros, mostrando as horas no celular.
— Eu disse que estaria aqui pontualmente. Olha, dez e vinte e oito. Ainda cheguei com dois minutos de antecedência. – Gabou-se, rindo da própria piada em seguida.
Andamos lado a lado em direção ao interior do ferry. Pela sua demora não havia mais nenhum assento, mas não liguei muito, até onde eu sabia a viagem de barco era bem curta. Apoiamo-nos nas barras que se encontravam na lateral da embarcação, com uma vista para o norte. Depois de cinco minutos conseguimos ver a Golden Gate Bridge e Niall me olhou um pouco tonto.
— Está enjoado? – Perguntei, sem estar preocupada de verdade. Acho que ele percebeu que só estava curtindo com a cara dele.
— Não. Por que, engraçadinha?
— Só parece que não curte muito barcos.
— Bom, nunca andei em muitos.
— É, nem eu.
No começo foi esquisito porque só tínhamos começado a conversar há pouco tempo, mas depois eu fui me soltando e conversávamos como se fôssemos amigos há muitos anos. Ele me contou sobre a infância, o desejo de produzir o próximo álbum e sobre sua família. Hesitei em perguntar algo sobre seus pais e seu irmão temendo que fosse um ponto delicado para ele, mas o assunto fluiu bem. Aproveitei para dizer que era filha única de pais superprotetores e desisti de pedir irmãos aos treze anos. Em todo caso, Niall alimentou a maior parte da conversa, o que foi ótimo, porque eu mesma não tinha uma vida tão interessante quanto a dele. Foi quando finalmente fez a pergunta que ambos estávamos tentando evitar. Provavelmente porque ela era tão inevitável.
— E aí, você tem namorado?
Senti que ruborizei, apesar de não ter nenhum motivo para isso. Olhei para baixo, mordendo os lábios.
— Podem descer, com cuidado. Os guias estão espalhados pela ilha, e naquele portal poderão visualizar os horários de saída dos ferries. Podem sair em qualquer ferry até às seis da noite. Precisam pegar a fila. A ilha é aberta e as atrações são livres. Tenham um excelente dia. – Bradou um guia uniformizado que estava na margem da ilha.
Respirei fundo, me achando o máximo por ter me livrado de responder à pergunta.
— E agora, para onde vamos? – Perguntou Niall.
— Sou tão turista nessa ilha quanto você, Niall. – Avistei um grande grupo subindo a ilha, e decidi ir na direção oposta que era rumo às docas, para onde um grupo menor se dirigiu. – Vamos por ali.
— Então, namorados? – Insistiu ele, depois de um tempo andando.
Eu não ia escapar, pelo visto.
— Bem, durante a adolescência passava mais tempo estudando do que saindo. E na faculdade eu era… exatamente da mesma forma. Então eu meio que nunca tive um namorado. – Confessei, para minha própria surpresa. Eu poderia ter fingido ter uma vida interessante pelo menos.
— Poderia dizer o mesmo sobre mim.
Revirei os olhos, tropeçando em uma pedra no caminho.
— Só que seria mentira. Sua vida é pública, esqueceu?
Niall deu uma sonora gargalhada.
— Se achar um único tweet, uma única postagem onde eu mesmo disse que tenho uma namorada, aí podemos continuar essa conversa.
— Amy Green?
— Você era fã de One Direction, tinha esquecido. – Comentou, ainda sorrindo. – Não chegou nem perto.
— Hailee Steinfeld? – Tentei.
O sorriso em seu rosto murchou.
— Eu acho que gostava dela, mas a gente não namorava. – Comentou, um pouco triste. – Problemas na agenda, sabe como é. Mas, ei, você não conseguiu provar!
Dei risada.
— É, parece que não.
Encontramos um outro guia nas docas que nos daria um passeio guiado pela floresta, onde ele nos contaria a biografia de alguns presos famosos que estiveram reclusos na ilha. Sendo bem sincera parei de prestar atenção depois de uns minutos. Niall parecia ter mais coisas a dizer, e por mais que não quisesse ser desrespeitosa atrapalhando a explicação do guia, era até seguro conversar em voz baixa porque estávamos um pouco afastados do grupo.
— De verdade, eu não tive nenhuma namorada que eu amasse, amor do tipo que faz a gente pensar em casar e ter filhos.
Suspirou, e a sinceridade em sua voz acabou comigo.
— Deve ser muito ruim cantar e escrever sobre algo que você não sente de verdade.
— Nem tanto, . Eu só preciso fingir que sinto. É isso que um artista faz.
— Então você é um bom artista.
Horan sorriu, se virando de frente para mim.
— Gosto de pensar que sim. – Disse, debochando do meu elogio.
— É sério. No seu show, eu… não sei explicar. Quando você cantou This Town eu parei tudo que estava fazendo para te ouvir cantando. Você expressa um sentimento através da música que emociona de verdade, Niall. – Falei, mordendo os beiços involuntariamente. Era algo que fazia sempre que ficava nervosa, o que me irritava muito. Niall deu um sorriso mínimo, aparentemente constrangido com o elogio.
— Foi a primeira vez que ouviu This Town?
— Não… eu tinha ouvido falar dessa música nova e gostei dela. O resto do álbum só descobri que existia no dia que a minha chefe disse que eu faria uma entrevista.
— Outch.
Dei risada.
— Mas se serve de consolo, eu já sei de cor todas as suas músicas. Você, bem…
— Eu o quê?
Hesitei por um momento.
— Você era o meu favorito. Na banda.
, você sabe mesmo como fazer um homem feliz. Quase todas preferem o Zayn e ele nem está mais na banda!
— Se for te consolar mais ainda, eu não gosto do Zayn.
Niall riu, e eu ri logo em seguida. Ouvimos o resto da explicação do guarda florestal, que sem que eu percebesse acabou nos levando para onde eu queria evitar ir: a prisão propriamente dita. Ficava no topo da ilha, e não pude deixar de pensar que de uma maneira trágica os presos que aqui ficaram ainda tiveram a dádiva de poder olhar uma linda vista. Pelo menos tanto quanto fosse possível, já que a cela não tinha janelas, algo que reparei somente quando entrei. Eu estava realmente prestando atenção, ali haviam muitos fatos interessantes, mas Niall estava apreensivo, olhava para trás toda hora e parecia estar sendo perseguido por alguém.
— Niall Horan está… com medo? – Perguntei, rindo quando percebi qual era o problema.
— Lugar… interessante para se visitar. Estava pensando em um parque ou algo assim. Sabe, ao ar livre. Não é muito pesado essa… energia negativa ou sei lá? – Perguntou, segurando os ombros, como se sentisse frio. Deixei escapar um riso pelo nariz.
— Se a energia está assim tão negativa, quer sair daqui?
— Bom, eu certamente não te impediria se quisesse ir embora, . – Disse, como se eu estivesse com medo.
O sotaque irlandês fofo foi ficando mais forte à medida que nos aproximávamos do centro do edifício.
— O problema não é a energia negativa, é?
Niall pareceu rendido.
— Eu sou meio… claustrofóbico – Admitiu, um pouco envergonhado.
Eu estava mesmo interessada no tour, mas Niall parecia tenso de verdade, então decidi que o passeio foi uma péssima ideia e resolvi nos tirar dali. Ele agradeceu com um sorriso engraçadinho e colocou seus óculos de sol quando saímos do prédio de novo.
— Eu não vou dizer que não gostei, mas sei lá, da próxima vez a gente podia tomar um sorvete, de repente.
Visitar uma prisão fazia parte do meu plano somos só amigos. Provavelmente foi por essa razão que estávamos onde estávamos, qualquer coisa que impedisse uma aproximação romântica. Como sempre frisei, o crescimento profissional era meu foco no momento, sempre escolheria minha carreira. Eu ainda era bem nova e por mais que a aproximação de um astro em ascensão – ainda mais um astro em ascensão que eu um dia fui fã – mexesse muito com minha cabeça, não tinha nenhuma condição de começar um relacionamento agora. A confusão em minha mente se formou no dia da entrevista. Alguma coisa fez com que Niall decidisse que eu valia a pena e eu precisava saber o que era.
Para nossa total sorte, a fila estava bem pequena e o próximo ferry chegaria em quinze minutos. A viagem da volta foi mil vezes melhor que a da ida, conversamos e rimos muito; depois de prometer não postar em nenhuma rede social, Niall deixou eu tirar fotos dele enquanto o vento batia em seus cabelos, levantando os fios para todos os lados, uma vez que estava sem o seu boné.
— Está parecendo um Golden Retriever. – Comentei rindo, depois de bater a décima foto dele com a língua para fora. Niall riu quando viu o resultado, e saímos da embarcação após atracarem novamente no píer 33. Uma mulher também uniformizada estava na porta distribuindo panfletos para que pudéssemos avaliar nosso passeio.
— Me dê um – Disse Niall, chegando próximo ao stand da mulher e destampando uma caneta que havia ali. Tirou os óculos escuros e escreveu algumas coisas. – Nome? – leu no formulário, conforme escrevia. – Niall Horan. Idade? Quinze anos.
— Quinze?
— Não posso admitir minha verdadeira idade porque – ergueu o papelzinho onde tinha as informações que escreveu e leu – Como foi a sua experiência? Terrivelmente assustadora, não recomendo o passeio para menores de trinta anos.
— Como se alguém não fosse jogar Niall Horan no Google para verificar a sua idade.
— As pessoas geralmente têm mais o que fazer, .
Ele estava certo, então não insisti. Saímos do píer 33, de onde andamos em direção à avenida por um tempo. Niall viu alguma coisa que o fez sorrir e pediu:
— Fica aqui, já volto.
Aguardei em frente a uma Starbucks por quinze minutos até o retorno do meu mais novo amigo, quando o avistei com duas casquinhas enormes de chocolate.
— Por favor, diz que gosta de chocolate? É universal. – Declarou, me entregando a minha.
— Eu gosto. – Não era meu sabor preferido, mas eu realmente gostava.
Guardei o celular que tinha usado para me distrair até seu retorno no meu bolso e nos acomodamos em um dos muitos banquinhos que tinha no píer 33 para comermos a casquinha. Era quase uma da tarde de um domingo, as ruas estavam mais vazias do que de costume e eu ainda estava um pouco tonta por ter ao meu lado Niall Horan comendo uma casquinha de chocolate barata.
— Por que tentou me achar? – Perguntei, em um momento. Ele demorou um pouco para responder.
— Eu te achei legal. Teve muitas oportunidades de me perguntar sobre a banda, mas não fez isso. Você… você realmente quer me conhecer. É curiosa, mas no bom sentido. Acho que faz parte do papel de jornalista. – Riu. – Você também é baixinha, engraçada e gentil. Como minha mãe.
Dei risada, fazendo uma careta.
— Está me comparando com a sua mãe? E eu não sou baixinha, tenho mais de um metro e sessenta.
— Ei, a comparação foi um elogio! – Eu sorri. – E quanto a sua altura, bom, você é mais baixa que eu.
— Mas não muito.
— Em comparação as outras coisas, a altura não importa, na verdade. – Ele disse, envergonhado.
— Sabe, você também é uma pessoa diferente do que pensei que seria. – Ri, lambendo meu dedo onde havia escorrido sorvete. – Tem tanto do Niall que inventei na minha cabeça que não é verdade.
— Tipo o quê?
— Tipo você é um bunda mole.
— A energia lá era mesmo muito péssima, . E eu tenho uma fobia. – Repetiu, pausadamente, com o sotaque irlandês um pouco mais forte.
Jamais pensaria que ele era assim tão sensível, e por um motivo essa informação me deixou mais leve, como se fosse apenas a partir daquele momento que percebi que ele era mesmo gente como a gente.
— Ok, desculpe. – Disse, sinceramente. Terminei minha casquinha antes de falar novamente – Posso fazer uma pergunta?
— Eu vou gostar dessa pergunta?
Pensei por um momento.
— Talvez não muito.
— Bom, acho que não existe nada que você me pergunte que eu não possa relevar.
— O que houve entre você e a Hailee?
— Que Hailee? – Como previsto, seus olhos azuis se fixaram nos meus ardentemente, em uma falha tentativa de se fazer de idiota.
— Hailee Steinfeld? Morena, alta, linda para caramba, aquela atriz que fe…
— Ok, ok, eu sei quem é Hailee. – Interrompeu, sorrindo de um modo um pouco triste. – , sei que hoje fomos totalmente sinceros um com o outro, mas gostaria de… não falar sobre ela. Pelo menos não hoje.
Eu compreendia. Claro que sim. Mas o fato de ele não querer falar sobre Hailee Steinfeld só confirmava no mínimo que alguma coisa aconteceu entre eles, e por mais que não quisesse nada com Niall agora, não sabia se estava pronta para me envolver na vida dele sabendo que existia um rolo.
— Tudo bem, Niall. Respeito isso. – Garanti, com um sorriso. – Espero que com o tempo veja em mim uma amiga com quem pode contar.
Ele também sorriu, aquele sorriso que a fã dentro de mim tanto amava.
— Obrigado.
Niall terminou o próprio sorvete e depois de limpar as mãos nas calças, se levantou, estendo as mãos para mim. Aceitei a ajuda, me levantando do banco.
— Gostaria de te ver amanhã. – Disse, sem rodeios. Sorri, pensando na melhor maneira de reclinar o convite sem chateá-lo.
— Amanhã é segunda, vou trabalhar.
— Depois do trabalho, então.
— Tenho certeza que estarei cansada. – Informei, com uma falsa cara de pesar.
Niall riu, colocando as mãos no bolso.
— Eu não acredito que estará. – Disse apenas.
Decidimos encerrar o passeio e nos despedimos ali mesmo, já que o hotel dele e o meu prédio ficavam em direções opostas. Vi o cantor sumindo pela grande avenida, virando-me na direção contrária, onde um uber me encontraria. Durante todo o meu percurso para casa filtrei tudo que Niall me contou sobre sua vida e a conclusão que cheguei foi que eu queria de verdade conhecê-lo melhor. Desejei que ele insistisse para nos encontrarmos amanhã, e a resposta veio minutos depois de tal desejo.

@niallhoran
Tudo resolvido, . Achei um lugar ao ar livre dessa vez.
@niallhoran
Vou te buscar no trabalho. Use uma roupa confortável amanhã.



Levantei-me na manhã seguinte antes do despertador tocar. Abri as janelas do meu quarto e da sala a fim de arejar o pequeno imóvel, me deparando com um céu azul e pontilhado de nuvens. O verão estava quase acabando e quanto mais ao norte, mais era possível ver a névoa que cobria a cidade pela manhã.
Coloquei a roupa que tinha separado na noite anterior e me arrumei, passando meu protetor solar, um rímel e um batom discreto. Passei pela sapateira e coloquei um par de tênis confortáveis em minha bolsa para substituir pelos sapatos de salto mais tarde. Queria chegar no trabalho mais cedo hoje para terminar minhas tarefas mais cedo também. Por mais que não quisesse admitir estava muito ansiosa para saber para onde Niall me levaria mais tarde, e não queria me enrolar com os textos.
Uma hora depois já estava descendo as escadas que me levariam do primeiro andar até o térreo, equilibrando meu celular e minha bolsa na mão direita, enquanto tentava guardar minha chave com a outra mão. E tudo que eu não imaginava encontrar do lado de fora do prédio, eu encontrei: dei de cara com Niall Horan na minha calçada.
– Oi, . – Saudou, colocando as mãos nos bolsos.
Fiquei totalmente confusa.
– A gente combinou de se encontrar aqui?
– Não, só queria te ver.
– E como sabe onde eu moro? – Questionei, arrumando minha bolsa no ombro e fechando o portão do prédio.
Saí da sombra debaixo das árvores e cumprimentei com um aceno as meninas que já tinham chegado para abrir o salão de beleza, situado no térreo do meu edifício.
Encarei Niall, questionando com o olhar, e ele deu de ombros.
– Tenho os meus métodos.
Olhei para o rapaz, totalmente desconfiada.
– Não vou precisar ficar preocupada com você me seguindo por aí, vou?
Niall riu, desencostando do carro e se aproximando de mim.
– Você me disse ontem que morava aqui.
Ele tinha razão, realmente mencionei, mas mesmo assim fiquei surpresa que ele tivesse se lembrado.
– Bom, vou ao trabalho. – Sei que pareci rude, mas ainda estava um pouco mal por ele ter me surpreendido daquela maneira. Quer dizer, não era um comportamento exatamente normal, a gente ainda nem se conhecia direito.
As feições do cantor murcharam e me senti péssima na hora pela má educação.
– Ah… desculpa te pegar de surpresa, imaginei que a gente pudesse tomar um café antes de você ir. Quer dizer, eu achei que entrava as nove, então vim mais cedo. Não queria te atrapalhar, nem nada. – Comentou, tão sem graça que me deu até pena. Tinha como esse homem ser mais fofo?
– Me desculpa… quer saber, tem uma cafeteria ótima ali na esquina, podemos comer lá se quiser. – Ofereci, abaixando um pouco a guarda. Deu certo, ele ficou feliz de novo.
– Eu adoraria.
– Mas saiba que talvez me atrasarei para nosso passeio. – Avisei.
– Certo. – Disse, destrancando a porta do carro com um botão. Analisei o veículo.
– E qual é a do carro?
– Aluguei ontem. Nada contra sua cidade, mas odeio andar de ônibus. Prefiro dirigir.
– Bem pensado. Mas é tão perto que acho melhor irmos a pé, deixa seu carro estacionado aqui.
Niall balançou a cabeça ignorando meu apelo e abriu a porta do carro.
– Entra, . Vou te dar uma carona para o trabalho depois.
Rolei os olhos, rendida, e, depois de conferir se tinha fechado o portão corretamente, sentei no banco do passageiro ao lado de Niall, por mais que achasse ridículo ir de carro até a esquina.
São Francisco era uma cidade amistosa, calorosa e aconchegante, provavelmente foi por isso que assim que saí de Bekerley depois da formatura preferi me instalar aqui, ao invés de voltar para minha cidade natal. As pessoas sempre se ajudavam, mesmo se você não as conhecesse.
Alguns minutos depois, Niall encontrou uma vaga para estacionar próximo a cafeteria, e descemos em frente ao Sweet Maple, a melhor cafeteria de São Francisco. Um vento mínimo tocou meus braços, e notei que o dia estava um pouco mais frio do que parecia estar quando sai de casa, fazendo com que me arrependesse de estar usando um vestido. Meu único consolo era uma blusa fina que eu tinha certeza que deixei pendurada na minha cadeira na sexta-feira anterior.
Entramos no estabelecimento, onde a dona, que já me conhecia devido minhas longas horas escrevendo na mesinha do canto, me recebeu com um sorriso.
Xruṇ s̄wạs̄di̒, ! – Saudou Malai com seu recorrente “bom dia” em tailandês. – Pode se sentar na mesa de sempre se quiser.
– Bom dia, Malai! Obrigada. – Agradeci, indo para a mesa mais afastada, com Niall atrás de mim.
Malai e seu marido, Khalan, vieram há muitos anos da Tailândia para os Estados Unidos, e se encontraram na cafeteria, nesse lugar que chamo de pedacinho do céu. O café da manhã já era incrível e depois de muita batalha, eles ainda abriram um restaurante tailandês na frente da cafeteria, que era gerido por Khalan. Estou dizendo isso porque eles se tornaram parte importante da minha vida quando me mudei para São Francisco e não conhecia absolutamente ninguém na cidade. Perdi as contas de quantas vezes Malai me levou um almoço de graça porque muitas vezes trabalhava tanto que me esquecia de comer.
– Acho que você é bem famosa por aqui. E eu não. – Niall brincou, se sentando na minha frente.
Dei risada, puxando o cardápio do centro da mesinha.
– Malai é um amor. Cuida de mim desde que me mudei. E então, o que vai querer?
Niall leu o cardápio, arregalando os olhos.
– Não imaginei que teria alimentos tão…
– Americanos? – Tentei, fazendo ele rir. – Comida tailandesa ainda não era tão procurada. Eles tiveram que se adaptar à sua maneira.
– Achei bem legal.
– Se está decepcionado, eles têm um restaurante tailandês, poderia dar uma chance.
– Comida tailandesa de verdade?
– Cem por cento autêntica. – Garanti, sorrindo.
– Talvez eu dê uma chance.
Depois de muito ponderar e vários avisos de que chegaria atrasada no trabalho, nosso pedido finalmente chegou até nós. Já tinha perdido o costume de comer coisas muito pesadas de manhã, então só pedi uma vitamina. Niall, por sua vez, tinha alimento o suficiente para valer por um almoço.
– Sua fama te procede, Niall Horan. – Afirmei, rindo para quantidade de comida.
O irlandês fofo me ignorou totalmente, e parecia excepcionalmente feliz comendo a melhor omelete de São Francisco.
– Como é que nunca vim aqui antes? – Murmurou, entre uma garfada e outra.
– Não é sua primeira vez em São Francisco?
– Não. Já vim outras vezes. Aliás, fiz um show aqui no final do ano passado.
Bati na minha testa com a palma da mão, envergonhada.
– Que péssima fã eu sou. Não sabia disso.
O cantor ainda tentou me consolar da gafe, e depois de avisá-lo pela vigésima vez que precisava me apressar, Niall decidiu pedir à Malai embalar para viagem. Minha vitamina de morango estava no fim, e mesmo assim já me sentia cheia.
Voltamos para o local onde ele estacionou o carro, e fui direcionando Niall até o centro da cidade, onde ficava o prédio da editora. Estava até um pouco assustada já que em sete meses jamais me atrasara um minuto sequer e já se passaram mais de vinte e dois minutos do horário que deveria estar lá.
Apesar disso, não reclamei.
Aquela manhã tinha sido tão surreal que nem parecia ter acontecido de fato. Niall me tratava não como fã, mas como uma amiga, e ainda que fizesse pouco menos de uma semana que tínhamos tido contado, senti que ele seria alguém importante na minha vida. Sempre imaginei Niall como alguém gentil, engraçado e simpático, e fiquei feliz quando notei que ele era exatamente do jeito que parecia ser.
O cantor estacionou na frente do prédio e sorriu para mim, cúmplice, com um sorriso que me pedia desculpas.
– Bom trabalho, . Até mais tarde! – Disse, quando abri a porta do carro para descer.
– Estou atrasada demais para brigar com você. – Respondi, sorrindo. – Até!
Atravessei a rua apressadamente, puxando o crachá dentro da bolsa. Educadamente cumprimentei o segurança, correndo até a catraca que permitiria minha entrada e chamando o elevador, que ainda demorou uns cinco minutos para descer. Quando finalmente cheguei até minha baía, já acumulava um total de trinta e três minutos de atraso, o que me fez congelar. Pelo menos minha blusa estava mesmo na cadeira, o que me deixou feliz por dez milésimos de segundos.
! – Sussurrou Rachel na baía ao lado. Coloquei minha bolsa no suporte que havia na parede. Liguei meu computador rapidamente, olhando para sala da minha supervisora e tentando passar despercebida. – ! – Chamou Rachel de novo, um pouco mais alto.
@niallhoran
Desculpa ter te atrasado. Aposto que nunca mais vai querer tomar café da manhã comigo de novo hahaha
Virei me para frente, onde nossas baías se encontravam, e sorrindo por conta da mensagem, encarei os olhos escuros dela.
– Oi, Rach.
Ela fechou a cara.
– Olivia está te procurando desde as oito e meia. – Informou apenas. – E eu disse que teve problemas de saúde.
– Rach, mas o que vo…
– E é bom você ter uma boa desculpa porque ela vem vindo. – Me interrompeu, ainda sussurrando, antes de virar a cadeira em direção a sua própria mesa.
Imitei seu gesto, onde meu computador já ligado aguardava minha senha de acesso. Digitei minha senha e Olivia chegou no exato minuto em que minha tela foi desbloqueada.
– Bom dia, . – Disse, cordial.
– Bom dia, Olivia.
– Rachel disse que teve problemas pela manhã.
Engoli em seco.
– Hm, sim, problemas femininos, sabe como é. – Informei, não soando sincera nem para mim mesma. – Mas consegui resolver.
– Que bom. – Mas não pareceu muito sincera. – Preciso de você na minha sala as duas da tarde.
Assenti, esperando ela me dar as costas para pensar o óbvio: vou ser demitida. É isso. Olivia vai me dar pessoalmente a notícia de que o quadro teen morreu.
– Fala a verdade, onde você estava? – Perguntou Rachel quando Olivia já estava longe demais para nos escutar.
Olhei em volta, observando o movimento anormalmente eufórico do andar. Assistentes saíam de todos os lugares com cópias nas mãos, estagiários mantinham o contato telefônico constante, e mesmo os editores pareciam estar mais ansiosos e apreensivos do que de costume. Tinha uma energia diferente na editora hoje, isso era fato.
Até perguntaria para minha amiga, mas a expressão preocupada de Rachel chamou minha atenção para o verdadeiro motivo do atraso.
– Estava tomando café da manhã. Perdi noção do tempo. – Respondi, na defensiva.
Rachel fez uma careta, indignada.
– Você não toma café da manhã há meses.
– Bom, quis tomar hoje.
– Malai jamais deixaria que você perdesse a hora. – Conjecturou, cruzando os braços por cima do peito, em uma clara posição de desconfiança.
– Mas hoje aconteceu, está bem? – Insisti, encerrando o assunto e me virando de frente para o monitor novamente.
– Hoje é mesmo um dia estranho. – A ouvi dizer, mas tinha tantos e-mails em minha caixa de entrada que nem me dei o trabalho de perguntar o que aquilo significava.
Após passar mais tempo do que deveria resolvendo problemas com o fotógrafo que não queria liberar as fotos para revista sem autorização de Olivia, mesmo que a autorização já tivesse sido enviada, com um designer gráfico que parecia desconfiar da minha formação, com uma mulher irritante que não parava de me pedir revisões sendo que essa nem era minha responsabilidade e com um horário de almoço reduzido devido a tantos acertos de última hora, finalmente chegou o horário da minha reunião com Olivia.
Para compensar meu atraso pela manhã, bati na porta da sala dela cinco minutos antes do horário combinado, só para garantir.
– Entre, .
A sala de Olivia claramente era o ambiente mais iluminado e confortável de todo o andar. Em todos os lugares tinha aquela decoração minimalista da qual ela parecia gostar e muito embora eu também achasse lindo, se tentasse fazer o mesmo jamais chegaria a este resultado sofisticado. A sala só não era mais sofisticada do que a própria Olivia Hillton. Devia ter já seus quarenta anos e era mãe solo de uma menina de treze anos, que sempre mandava cartinhas respondendo minhas colunas. Olivia não era lá a mulher mais divertida do planeta, mas nos dávamos bem no quesito profissional. Na vida, bem, acho que ela era séria demais para sermos amigas, jamais combinaria com minha personalidade impulsiva, mesmo que eu não fosse muito social.
Sentei na poltrona creme que estava defronte à mesa que ela ocupava.
– Bom, o anuncio já foi feito, mas já que estava atrasada graças a seus…
– Problemas femininos. – Completei.
– …problemas femininos, bom, vamos lá. – Retirou os óculos. – A PlayList foi vendida.
– Vendida? Para quem? – Perguntei, aflita. Era muito pior do que pensei, todo mundo iria perder o emprego.
– Para Billboard.
A encarei, em choque.
A Billboard?
– Sim. – Confirmou. – Veja, no momento estamos todos bem. Mas se um belo dia quiserem demitir todos nós e fazer substituições, então farão isso. Não foi só por isso que te chamei.
– Certo. – Disse, ainda tentando absorver o choque de termos sidos vendidos para nada mais nada menos que a Billboard.
– Você mantém seu cargo, mas a partir do mês que vem, não venderemos mais exemplares físicos, apenas digitais. Teremos uma série de novos padrões e regras, e por isso virá um representante da Billboard nos próximos meses para gerir essa unidade e nos ajudar nessa parte.
Pude perceber que as últimas palavras saíram amargas, e por mais que não a considerasse minha amiga, tinha grande respeito por Olivia e poderia imaginar o quão desgastante deveria ser ter que dividir a gestão da unidade com alguém que não sabia nada sobre ela. Me senti mal por Olivia, e por mim também, já que esse homem provavelmente seria meu novo chefe.
Terminamos nossa conversa com todos os pormenores esclarecidos, e voltei para minha baía, onde imediatamente uma mensagem piscou na tela. Era da minha mãe, mas uma notificação no instagram me lembrou que não respondi a mensagem de Niall mais cedo.
@
Fiquei com trauma de cafés da manhã
Digitei rapidamente, antes de voltar ao trabalho. Maçantes horas depois, finalmente pude me desconectar e pensar no quanto minha vida poderia mudar agora que a PlayList estava associada a maior revista do ramo musical. Seria a chance para decolar minha carreira nessa área? Poderiam surgir novas oportunidades, e não eram poucas. Me peguei nesse mantra enquanto ia ao banheiro trocar meus sapatos por tênis confortáveis, como a mensagem de Niall havia solicitado. Estava cerca de uma hora atrasada para nosso passeio, mas ele não pareceu se importar.
Segui suas orientações e depois de sair do prédio onde trabalhava, atravessei a rua e fui até a esquina, onde Niall havia estacionado o carro.
– E você está… muito atrasada. – Informou olhando para o relógio, assim que abri a porta.
O perfume misturado com o cheiro de banho recém tomado me deixou tonta, e dei um sorriso sem graça, me arrumando no banco e colocando o cinto.
– Você me sequestrou de manhã.
– Ok, justo.
Niall deu partida no carro, seguindo a rota estabelecida pelo GPS. Não consegui ver para onde estávamos indo, mas decidi que confiava em seu bom gosto. Guardei meus óculos dentro da bolsa, uma vez que não precisava mais deles, e o gesto chamou atenção de Niall.
– Agora que reparei que estava sem óculos ontem. – Comentou.
– Geralmente só uso para trabalhar.
– Não precisa deles?
Dei um muxoxo, não acreditando que eu ia admitir isso logo para ele.
– Na verdade, não. São os óculos da minha avó. Ela morreu tem uns oito anos, e quando encontrei esses óculos troquei as lentes de grau por lentes normais. – Ele olhava para frente, mas sabia que estava prestando atenção. – Eu sempre uso quando estou fazendo algo para o trabalho. Acho que é desse jeito que me sinto próxima dela.
Ele parou no sinal vermelho segurando em minha mão esquerda, como um pequeno consolo. O gesto me assustou, não tínhamos trocado contato físico até então.
– Parece ridículo, eu sei. – Continuei, quando ele não respondeu, tentando inutilmente controlar o formigamento que estava sentindo por causa de sua mão na minha.
– Não é nada ridículo, . E eu acho que fica linda de óculos. – Falou apenas, soltando minha mão para voltar a dirigir.
Fiquei tocada com o elogio, me lembrando de minha finada avó e no quanto me apeguei ao objeto. Mais uns quinze minutos depois, conseguimos chegar ao nosso destino. Desci do carro, incrédula.
– Minigolfe?
Niall sorriu, orgulhoso de si mesmo.
– Ao ar livre.
– Sério, mas minigolfe?
– Qual é o problema com minigolfe? Ah, , é divertido! – Questionou, encarando a fachada do estabelecimento.
– Divertido para uma pessoa de dez anos, talvez?
Ele revirou os olhos, me cutucando com o cotovelo para me provocar.
– Qual a última vez que veio a um desses?
– Quando eu tinha dez anos, provavelmente.
– Bom, tenho certeza que vai valer muito mais a pena do que visitar uma prisão cheia de péssimas energias.
Foi a minha vez de revirar os olhos, o seguindo para o centro do estabelecimento. O dia estava começando a escurecer, e as sombras alaranjadas do pôr do sol deixavam o lugar mais aconchegante e especial. Pequenas lâmpadas flutuantes já acesas decoravam alguns pontos e notei uns três ou quatro foodtrucks mais adiante. O lugar era realmente casual e um ambiente bem familiar. Eu não queria chamar aquilo de encontro, mas apesar de tudo estava muito parecido com um. Qual parte de “sair como amigos” eu tinha entendido errado?
Obviamente eu não me lembrava absolutamente nada sobre mini golf, então Niall me ensinou a maneira certa de segurar em um taco de golf, como eu devia mirar na bolinha. Os trajetos eram infantis, e ainda assim eu estava achando difícil. No fim de tudo acertei um total de zero buracos, o que fez o rapaz ficar zombando da minha falta de mira por umas boas horas.
E ele tinha razão, o passeio foi mesmo divertido. Senti que com ele estava me soltando mais, sendo mais social e conversei mais do que da primeira vez que nos vimos. Niall ria de tudo com muita facilidade, era um bom ouvinte e mesmo depois de sairmos duas vezes ainda estava surpresa com o seu interesse em mim. Mas não questionei. A conversa tampouco ficou séria o bastante para que ele tocasse no assunto de Hailee de novo. Ele me levou para casa e ficou me observando até que estivesse segura do lado de dentro do portão.
Quando fui até a janela aberta da minha sala para observar a rua, Niall Horan já tinha partido.



— Você não me engana, sabe. – Informou Rachel com a mão direita apoiando o queixo. Ela tinha passado os últimos cinco minutos me encarando, ainda que eu fingisse não fazer a menor ideia do que ela estava falando.
Ignorei, evitando seu olhar astuto. Estávamos almoçando no shopping em paz pela última vez antes de um tal de Jesse Curtis, representante da Billboard, invadir nossa editora com as suas frívolas regras.
— Tentar me ignorar não vai me fazer calar a boca, . – Insistiu Rachel, tomando da minha mão a nota fiscal que estava usando para me distrair.
Revirei os olhos.
— Está bem. Você venceu. Do que está falando?
Minha amiga me olhou cética.
— Você está diferente. Feliz, sabe? Durante esse último mês mal conversou comigo.
— Eu estou conversando com você agora.
— É, mas sou sua amiga e você não me contou sobre Niall.
Certo, era disso que ela estava falando. A questão é que não havia o que contar. As últimas semanas foram divertidas, mas não passou muito disso, também. Niall e eu éramos amigos, bons amigos, mas no quesito de manter amizade com uma celebridade, eu preferia ser discreta. Isso envolvia não contar nada a ninguém, muito menos a Rachel, a pessoa mais fofoqueira da cidade. Porém eu a adorava, e de fato ela era minha amiga mais próxima em São Francisco, por isso quis de verdade compartilhar essa parte da minha vida com ela, principalmente porque nada havia acontecido.
— Não tenho o que contar, Rach.
Os olhos dela brilharam quando não neguei.
— Ele é legal?
— Ele é legal, sim.
— Você saiu com ele todos esses dias?
— Claro que não. Só durante o final de semana. Não estamos namorando nem nada.
Ela fez uma careta de compreensão.
— Certo, sexo casual então.
— Não! Não estamos transando, Rachel! – Repreendi.
— Se beijaram, pelo menos?
Eu estava cem por cento arrependida de tentar abrir meu coração.
— Nem perto! – Resmunguei.
— Espera, isso nos seus olhos é tristeza por não ter dado nenhum beijinho?
Levei as mãos à cabeça, exasperada com a pressão.
— Meu Deus, Rachel, Niall e eu não nos beijamos, não transamos, nem ao menos conversamos sobre isso, e até onde eu sei ele tem namorada, ok? – Explodi, finalmente, pegando de volta minha nota fiscal da mão dela com força.
— Não precisa ficar tão sentimental, só estava curiosa.
— Certo. – Suspirei. – Já acabou?
Ela sorriu, sapeca.
— Nem perto. Mas estou com medo de ser assassinada se fizer mais uma pergunta, então por enquanto estou feliz.
Dei risada, chamando ela de ridícula, e jogamos o lixo fora para irmos embora.
O clima da editora nos últimos dias foi conturbado. Dava para notar que as pessoas estavam mais tensas, todos ficaram muito mais rígidos e até as conversas rotineiras durante o expediente pareciam ter se dissipado. Eu não conhecia Jesse, mas Olivia conhecia e mesmo ela não estava muito melhor que o resto de nós. Ela passou a nos tratar com mais formalidade que antes, e em sua defesa devo acrescentar que eu provavelmente faria o mesmo. Olivia queria que Jesse não encontrasse nenhum efeito na PlayList.
Apesar de ainda ser uma e meia da tarde, era a primeira sexta-feira de outubro, por isso só trabalhamos até o horário do almoço. Foi ideia de Olivia que em toda primeira sexta-feira do mês poderíamos trabalhar por meio período, o que eu achava totalmente ótimo, pois, depois de uma semana particularmente exaustiva de trabalho, só queria entregar minhas roupas para a lavanderia e não fazer mais nada pelo resto do dia.
Rachel provavelmente ainda tinha esperanças de arrancar mais informações sobre Niall, pois me acompanhou até em casa para a “tarde das garotas”.
— Podemos assistir um filme, comer besteiras e falar de homens. – Disse empolgada enquanto entrava no meu apartamento.
— Tenho certeza que vai bem legal. – Comentei indo em direção ao meu quarto. – Estava mesmo precisando disso, Rach, só Deus sabe o quanto.
— É, eu também. A situação no trabalho está bem bleh ultimamente.
— Nem me fale. – Suspirei. – Que filme quer ver? – Perguntei, sentando-me no sofá depois de colocar uma roupa confortável.
— Me dá o controle, deixa eu ver.
Deixei Rachel monopolizar o acesso aos serviços de streaming da TV para procurar um filme, enquanto eu mandava mensagem para o Sr. Lopez avisando que minhas roupas já estavam prontas para serem retiradas. Cerca de vinte minutos depois, com Rachel ainda indecisa sobre o filme, o Sr. Lopez tocou o interfone anunciando sua chegada.
— Rach, vou levar minha roupa, já volto. – Avisei, pegando o saco de roupas que eu havia deixado separado na noite anterior.
Para ir mais rápido, desisti do elevador e desci as escadas correndo para que o Sr. Lopez não precisasse esperar por muito tempo. Abri o portão, entregando o saco a ele, que prometeu que estariam lavadas e passadas até segunda-feira à noite.
Quando retornei ao meu apartamento, Rachel já havia escolhido um filme. O título indicava que era o segundo filme da franquia, o que achei péssimo porque ainda não tinha assistido o primeiro, mas ela tinha demorado tanto tempo para escolher que preferi não comentar nada. No fundo eu achava que Rachel precisava relaxar mais do que eu, e não queria estragar essa tarde para ela, especialmente porque, como ela mesma mencionara, depois que Niall apareceu em minha vida realmente a deixei um pouco de lado.
Sorri para ela diante da escolha, e satisfeita deu play no filme, Escolha Perfeita 2. Estava tudo indo muito bem, até que algo me chamou atenção. Aquela não era…?
— Rachel, pausa o filme. – Pedi, sacando meu celular que estava em cima do braço do sofá.
Pesquisei o nome do filme no Google e em seguida cliquei em elenco. E lá estava: Hailee Steinfeld. Tive que rir da minha falta de sorte. De tudo que eu mais precisava, e entenda minha ironia aqui, era um lembrete de que Niall escondia alguma coisa. Claro, eu não era ninguém para cobrar isso dele, e lembrei a mim mesma várias vezes que não podia me envolver. O cara estava de férias e eu estava apenas fazendo companhia. Ele não gostava de mim nesse sentido, pelo menos não parecia que gostava. E eu? Gostava?
Era frustrante desconhecer a natureza dos meus próprios sentimentos por ele. Em primeiro lugar tinha a admiração e o respeito que foram adquiridos durante meus anos de fã. Isso não tinha mudado. Mesmo que não tenha acompanhado o início de sua carreira solo, esses sentimentos estavam muito bem guardados, e vieram à tona quando conversei com ele pela primeira vez. Mas não podia negar para mim mesma que haviam novos sentimentos, que inclusive eu não gostava. A ânsia de esperar por uma mensagem, o frio na barriga sempre que ele sorria para mim, a eletricidade viciante que percorria pelo meu corpo sempre que ele me tocava, mesmo se fosse sem querer. Eu não podia me permitir pensar assim, porque eu gostava. Eu realmente gostava. Por isso balancei a cabeça umas três vezes para espantar a emoção que começava a me dominar e encarei Rachel, que, com os olhos, esperava uma explicação.
— É Hailee Steinfeld. – Disse, apontando a garota congelada na tela. – A namorada.
Com um aceno de que total entendeu o recado, Rachel olhou para a TV, analisando a menina.
— Ela tem o que? Vinte anos?
Revirei os olhos, desprezando o argumento.
— Vinte e um, acho. Não é uma diferença tão grande assim e você sabe.
— Me empresta seu celular.
Entreguei o aparelho em suas mãos, que digitou algo que não pude ler na barra de pesquisa.
— Além dos rumores, você leu alguma notícia que confirmava o namoro deles?
— Não. Nada. Só li as fofocas da PlayList que apareciam pela minha barra de notificação.
Não era novidade para ninguém que eu era assinante da nossa própria revista, mas mesmo assim Rachel pareceu confusa por um momento.
— Muito bem, vamos desvendar o mistério. – Disse, apertando o enter.
Rachel leu a notícia rapidamente, e em seguida olhou para mim, com uma careta.
— É melhor você ver de uma vez.
Peguei meu celular vendo a fonte, que não era lá muito confiável. Notei que a notícia era de dois meses atrás.

NIALL HORAN E HAILEE STEINFELD ESTÃO FICANDO REAL OFICIAL

Você quer romance? Pois nesta semana tivemos vários novos ships incríveis! Primeiro foram as divas Ashley Benson e Cara Delevingne formando o casal mais lindo deste planeta, depois tivemos Liam Payne seguindo o baile e beijando uma modelo italiana, agora, Hailee Steinfeld e Niall Horan foram vistos fazendo compras juntinhos e dando beijos, bem românticos!
Hailee Steinfeld é uma cantora cheia de músicas girl power, como Love Myself e Most Girls. Ela também é a BFF do Justin Bieber que a gente respeita (teve uma época em que chegaram a achar que eles ficavam, mas isso foi desmentido). No começo deste ano, ela e Niall já haviam sido vistos juntos em um show do Backstreet Boys em Las Vegas.
E aí, aprovou o casal Hailee Steinfeld e Niall Horan? Nós amamos!
Veja as fotos em que eles aparecem juntos!:¹

E haviam quatro fotos na tela. A primeira delas mostrava os dois abraçados, em duas eles pareciam estar conversando e na última estavam aos beijos. Bem no meio da rua. Não sei dizer porque fiquei chateada, se foi porque queria estar no lugar dela ou porque Niall estava me escondendo isso. Provavelmente porque ele não gostava de mim desse jeito. Ou ainda não confiava em mim o bastante e talvez estivesse tentando proteger seu relacionamento com a atriz tendo em vista minha profissão e o local onde eu trabalhava.
De qualquer forma, não importava. Principalmente porque depois de dar play no filme novamente, Niall me mandou uma mensagem perguntando se podia me ver no dia seguinte.
Não era o bastante, mas foi o suficiente para eu voltar ao meu bom humor e assistir o resto do filme sorrindo.

✈✈✈

Na manhã seguinte, Niall me esperava em frente ao portão do prédio, mas dessa vez eu havia tomado nota disso olhando pela janela da sala antes de descer. Quando abri o portão, ele desceu do carro para me cumprimentar e por isso pude analisar suas roupas, dando uma risadinha.
— O que foi? – Perguntou, olhando preocupado para si mesmo.
Sorri, educadamente.
— Estamos combinando. – Respondi sem graça, apontando para minha blusa rosa clara e minha calça jeans, idêntico ao look dele.
Niall pareceu aliviado em rir disso também, se aproximando para me dar um beijo no rosto.
Para ele pareceu um ato inofensivo e talvez até corriqueiro, como se fizesse isso o tempo todo. Porém assim que se aproximou o suficiente, a insistente eletricidade que eu sentia com seu toque tomou conta de mim e eu senti o tempo parar, mesmo que o cumprimento em si tivesse durado no máximo dois segundos. Lábios macios tocaram meu rosto e o cheiro de perfume e sabonete me envolveu de novo, fazendo com que subitamente desse um suspiro. Quando se afastou de mim, o tempo pareceu voltar ao normal e eu pisquei confusa. O gesto me chocou de certa forma, mas consegui fingir costume a tempo para não demonstrar que fiquei desnorteada com seu toque.
— Onde vamos?
Ele demorou um pouco para me responder.
— Acho que vamos só andar um pouco. – Respondeu balançando as chaves do carro distraidamente e indo até o lado do motorista. – O clima está bom hoje, então acho que está fora de cogitação irmos até a praia.
— Melhor evitarmos locais muito cheios. – Concordei, entrando no carro atrás dele.
Entendi o que ele quis dizer, e minha mente tinha várias teorias. Não ter nenhum plano em mente e mesmo assim ir me buscar apenas porque queria passar um tempo comigo era minha teoria favorita no momento, e sorri tão largo que Niall percebeu.
— Porque está sorrindo? – Claro que assim que foi notado, o sorriso basicamente sumiu do meu rosto, dando lugar, tenho certeza, a bochechas levemente coradas.
— Olha para a rua, Niall! – Disse, fazendo ele prestar atenção para onde ia e ignorar totalmente minha alegria repentina, que eu mesma nem sabia de onde vinha.
Ele deu uma risadinha e, para o meu alívio, não insistiu.
— Como foi sua semana? – Perguntou, enquanto virava uma avenida que, estranhamente, eu não conhecia.
— Bom, todo mundo está nervoso agora. Segunda-feira vai ser um dia decisivo por lá.
Ele concordou com a cabeça.
— Vai ficar tudo bem, você vai ver. É uma excelente profissional.
Sorri em agradecimento.
— E quanto a você, aproveitando as férias?
— Olha, sinceramente, estou ficando entediado de ficar sem fazer nada. Comentou, com uma careta. – Ficar no hotel azarando as gatinhas não é mais tão legal.
Eu achei engraçado.
— Então é isso que faz durante a semana enquanto estou me ferrando no trabalho? Fica azarando as gatinhas do hotel? – Claro que por trás do tom de piada, minha pergunta tinha um que de verdade.
E Niall não percebeu.
— Bom, alguém precisa fazer o nobre trabalho. – Disse, dando de ombros.
— Flerta e não as chama para sair? Que coisa feia, Horan…
— Nah. Elas só podem sair de final de semana. – Concluiu, com o semblante divertido. Parou no sinal vermelho para olhar para mim, dando uma piscadinha. – E você sabe que nos finais de semana já tenho compromisso.
Dei risada, tentando, sem sucesso, disfarçar meu sorriso sem graça.
Niall dirigiu por mais dez minutos, até estacionar em uma rua arborizada e claramente residencial. Descemos do carro e eu percebi que realmente não sabia onde estava. O local era tão diferente do resto do São Francisco que eu conhecia, que parecia que de repente tinha ido parar em outra cidade. Respirei fundo o ar de sal e maresia, e percebi que estávamos próximos da praia. A oeste, talvez?
— Onde estamos? – Perguntei a um Niall sorridente. Ele trancou o carro vindo se juntar a mim na calçada.
— Eu não faço a menor ideia. – Anunciou, olhando em volta com as mãos na cintura. Algo em sua expressão dizia que ele estava se divertindo muito.
— Saiu dirigindo sem rumo? – Questionei, sem saber como me sentia sobre a situação.
— Sempre quis fazer isso. – Sorriu. – Você não?
Pensei por uns minutos, Niall queria uma resposta séria. Tínhamos nossos celulares carregados, o que garantia GPS, um carro, o dia ainda estava claro e o bairro parecia bem seguro para mim. Concluí que não importava o lugar, eu estava com ele e então não precisava me preocupar.
— Na verdade, eu gostei.
O sol já não estava mais brilhando no céu, sendo substituído por nuvens levemente acinzentadas. Niall e eu andávamos lado a lado conversando amenidades.
Estávamos em um parque que tinha no final da zona residencial e o comércio mais próximo ainda estava há umas duas quadras a frente. Niall estava explicando a diferença entre guitarra e baixo quando uma gota caiu no meu ombro.
— … então concluindo: a grosso modo, a diferença está no número de cordas. – Dizia ele, absorto em sua explicação. – Uma guitarra tem seis cordas e o baixo apenas quatro. Lógico que depende de vários outr… – Interrompeu o que dizia, olhando para o céu.
— Sim, isso foi uma gota. – Afirmei, olhando para o céu também. Bem a tempo de uma segunda gota cair na minha testa. Niall riu.
— Tudo bem, vai dar tempo. – Garantiu, avistando o comércio adiante. Estávamos bem longe de seu carro para nos abrigar lá, por isso era mais certeiro correr até onde estava o comércio local.
Soltei uma risada pelo nariz, que mesclava descrença e desespero.
— Você está subestimando a velocidade da chuva de São Francisco.
— Não pode ser mais rápido que em outras cidades.
— Pode, se a cidade em si for praticamente uma ilha, banhada de água por todos os lados. – Retruquei, apertando o passo.
— Tenho quase certeza que essa informação não fez o menor sentido. – Rebateu, andando mais rápido ao meu lado.
E eu tinha razão, é claro. Não sobre a ilha, também não fazia ideia do que estava falando, mas enquanto andávamos muito mais gotas começaram a cair, a princípio tímidas e depois já gordas e grossas.
Tivemos tempo o suficiente apenas para olhar um para o outro quando as gotas se transformaram em um chuvisco mais pesado.
— Vai dar tempo? – Perguntei ironicamente, correndo com as mãos na cabeça, como se minhas mãos pequenas pudessem me proteger da chuva.
Niall riu, correndo atrás de mim.
— Desculpa se eu não sou o melhor consultor meteorológico da cidade. – Gritou atrás de mim.
O chuvisco ainda não era o suficiente para nos encharcar, mas eu mesma percebi que subestimei as nuvens acinzentadas quando uma verdadeira chuva desabou sobre nós. Agradeci em silêncio por não estar usando maquiagem, ou então seria obrigada a exibir delicados olhos de panda para o cantor. Fiquei incomodada, não gostava de tomar chuva assim. Percebi que fechei a cara, ainda correndo em direção ao toldo – que ainda estava há uma quadra e meia de distância – e quando notei um silêncio percebi que Niall não me seguia com pressa.
Analisei o homem, que estava zero preocupado por se molhar. Na verdade, encarava o parque, o céu, e a mim com um certo deslumbre. E mesmo de longe, quando ele sorriu assim para mim não pude fazer nada a não ser sorrir de volta. Com apenas um olhar de despreocupação, sem me falar nada, Niall havia me convencido a apenas aceitar o momento. A rua estava deserta a não ser por nós dois, e assim que fechei os olhos e deixei a chuva me inundar, pela primeira vez em muito tempo senti… paz. A correria do meu dia a dia nunca tinha me incomodado, até aquele momento. Percebi que estava elétrica e ansiosa há tanto tempo que tinha me esquecido como era relaxar. Meu cabelo e minhas roupas já estavam ensopadas, e estava tão concentrada que nem deu tempo de me sentir envergonhada por causa da camiseta rosa clara encharcada que revelava os detalhes de renda do meu sutiã.
Não fiquei debaixo da chuva nem por cinco minutos inteiros, e o cantor chegou próximo a mim, segurando meu cotovelo. Abri os olhos lentamente, vendo sua expressão serena.
— Acho que já chega de banho de chuva por hoje, . – Disse divertido, por cima da chuva. – Vai ficar doente.
Ele tinha razão, é claro. Tinha grandes chances de ficar doente, mas eu não ligava, porque estava com ele. Mesmo assim concordei, deixando-me levar pelo seu eletrizante toque em minha pele, correndo em direção ao toldo que nos protegeria da chuva. Tirou as mãos do meu cotovelo para segurar minha mão, e fomos rindo pela calçada enquanto a chuva apertava atrás de nós.
Quando chegamos a uma cobertura segura para nos proteger da chuva, eu estava arfando de tanto correr. Minha roupa estava tão molhada que precisei torcer minha camiseta e meu cabelo. Niall passava pela mesma situação, mas ao contrário de mim, que estava toda desgrenhada, ele mais parecia um modelo. Um vento acompanhou a chuva, e estremeci. Ele parou de sorrir por um momento ao me encarar, preocupado.
— Desculpa por isso.
Eu ri.
— Está se desculpando pela… chuva? – Perguntei, para que ele visse que suas desculpas eram ridículas.
— Bom, sim. – Deu certo, ele voltou a sorrir.
Ao olhar para a fachada do estabelecimento, seus olhos brilharam.
— Quer entrar?
Acompanhei seus olhos para ver porque ele tinha ficado tão excitado, e percebi que estávamos em frente a um bar de karaokê. Assenti. Ele era um cantor, não perderia sua empolgação por nada.
— Você vai cantar? – Perguntei.
— Só se você cantar também. – Propôs, com uma piscadela. Levei apenas cinco segundos para pensar nessa condição, mas não precisava pensar muito para ganhar um show de Niall Horan de graça.
— Feito. – Concordei, acompanhando Niall até o interior do local.
Era um estabelecimento com uma iluminação baixa e talvez até um pouco precário. Havia um bar com um pequeno balcão que abrigava umas dez pessoas, até onde pude contar, e várias mesinhas estavam distribuídas na frente de um palco improvisado. Havia um microfone estacionado bem no centro e uma TV pequena pendia ao lado. Ladrilhos pretos e brancos pelo chão davam até certo charme ao local, que, provavelmente pelo horário, não estava cheio. Algumas pessoas ergueram as cabeças quando Niall e eu entramos, mas o resto apenas nos ignorou. Escolhemos uma mesinha bem no centro do bar, e Niall foi até o balcão ver como funcionava as coisas por ali.
— É só ir até o centro, escolher uma música e dizer o número para aquele homem. – Disse, apontando para um homem baixinho de camiseta vermelha nas laterais do palco.
— Certo.
Levantei-me da cadeira, munida com uma coragem que não tinha, e fui até o centro do palco escolher uma música. Achei uma que, mesmo com nossa recente aproximação, Niall iria achar graça da escolha.
— Número três-cinco-nove – Informei ao homem. Ele ligou o microfone e digitou o número que escolhi. As letras saltavam na pequena TV, mas eu as ignorei, pois sabia a música de cor.
Nas três primeiras frases, Niall já tampou a cara, rindo. Escolhi Stereo Hearts, a música que ele cantou na turnê de Up All Night.

“My heart’s a stereo
It beats for you, so listen close
Hear my thoughts in every note oh oh
Make me your radio
Turn me up when you feel low
This melody was meant for you
To sing along to my stereo.”

Estava tímida, praticamente cantava olhando somente para ele. Por ter achado minha escolha engraçada ele me incentivava, cantando junto comigo com os lábios. As pessoas que antes ignorava agora olhavam para mim, e depois que me soltei olhei para elas também. Estava horrorosa: ensopada, meu cabelo deveria estar desesperadamente descontrolado, mas olhando para aquelas pessoas naquele lugar que eu não conhecia, o sentimento de relaxamento que senti na chuva a pouco voltou com toda a força. Consegui me soltar, cantando como se fizesse isso sempre e foi tão fácil quanto respirar. Eu sabia que não cantava mal, mas não sabia se no fim das contas iria conseguir surpreender um cantor de verdade. Foi legal me sentir uma verdadeira popstar para variar e receber uma salva de palmas de todos os poucos presentes do bar.
Niall levantou-se para aplaudir, me recebendo com um high five.
— Adorei a escolha da música. Cantou bem melhor que eu na época. – Brincou, rindo.
— Que comentário lisonjeiro. – Disse, entregando a lista de músicas para ele. – Mas agora é sua vez.
Niall titubeou, encerrando os olhos para mim e olhando objetivamente ao redor de si mesmo. Inclinei a lista em sua direção insistindo com o olhar e ele suspirou, aceitando.
— Se chegar algum paparazzi aqui, lembre-se de que a culpa é sua. – Disse, indo até o palco. Passou poucos minutos escolhendo e sussurrou um número para o homem de vermelho. – Hora da vingança. – Disse para mim, só mexendo os lábios.
Quando começou a cantar, ri, reconhecendo a música. Era Valerie, a música que Louis tinha cantado na mesma turnê.

“Since I’ve come home
Well, my body’s been a mess
And I miss your ginger hair
And the way you like to dress
Oh, won’t you come on over?
Stop making a fool out of me
Why don’t you come on over, Valerie?”

Niall tinha presença de palco e era confiante no que fazia e por isso, obviamente, todos estavam prestando atenção, deslumbrados. A escolha da música de Amy Winehouse foi totalmente para me provocar, então também acompanhei Niall cantando a música. Durante a cantoria de Niall, mais pessoas tinham começado a chegar e se instalaram ao fundo, observando o show. Alguém começou a bater palmas no ritmo da música, e de repente todo o bar estava embalado na performance de Niall – totalmente grátis. Será que tinham reconhecido Niall Horan, o ex-one direction? Dei uma furtiva olhada para trás, mas não notei nada de estranho.
Quando ele terminou a música, todos estávamos de pé, aplaudindo. O cantor agradeceu, educado, colocando o microfone no local correto e vindo até mim. Tentando ser engraçadinha, também o recepcionei com um high five.
— Why don’t you come on over, ? – Disse, em tom de brincadeira.
— Muito bem jogado, adorei. – Comemorei.
Ele sorriu.
— Longe de mim querer me livrar de você, mas acho melhor irmos embora. Você ainda está molhada e estamos perdidos. Não quero que fique doente.
Achei sua preocupação fofa e por mais que realmente não quisesse ir embora, concordei, seguindo Niall para fora do estabelecimento. Descobrimos que seu carro estava há vinte minutos de distância de onde estávamos, e por isso ele decidiu pedir um uber até lá. Sinceramente não me lembrava de ter andado tanto.
— Desculpe por não ter nada planejado hoje. – Começou, enquanto esperávamos. – Tenho uma semana inteira para isso e não consigo fazer o mínimo.
— Eu quem deveria ter planejado algo, eu que moro aqui!
, não me leve a mal, mas nunca mais vou deixar você planejar nada.
Dei risada, dando um soquinho amistoso em seu braço.
— Eu gostei de hoje. Foi muito divertido. Eu não me sentia em paz assim desde… Bom, faz muito tempo.
— Que bom. – Suspirou, virando-se de frente para mim. Sua voz não passava de um sussurro, como se me contasse um segredo. – Porque eu gosto de você.
Encarei Niall inexpressiva, ao mesmo tempo animada e com medo da declaração. Ele passou seus dedos pelas minhas bochechas, e seu olhar em mim ardia tanto que cheguei a ficar tonta. Eu via tantas coisas e tantas emoções diferentes em seus olhos e em sua face e para mim não parecia possível eu, sendo a antissocial que era, ter uma conexão tão forte com alguém em tão pouco tempo.
Niall se aproximou devagar, se inclinando em minha direção. Deixou que a cabeça pendesse para o lado e eu não ousei fazer um mínimo movimento enquanto ele se aproximava. Estava tão perto de mim que sentia seu hálito suave e tive certeza que ia me beijar. Niall Horan estava a centímetros do meu rosto e ia me beijar.
Mas então toda emoção deixou sua face e no último segundo ele olhou para baixo, balançando a cabeça. Meu choque se dissipou e eu pisquei confusa várias vezes. Fiquei chateada, e também aliviada. Não sabia com certeza se queria esse beijo. Eu me sentia em paz quando estava com ele, me envolver agora seria um pequeno preço a se pagar por isso?
Eu não sabia.
Niall fez uma gracinha para espantar o constrangimento, mas, como eu, logo percebeu que não havia nenhum constrangimento. Éramos apenas Niall e , dois bons amigos. Bom, não foi isso que ele disse.
Mas foi o que fiquei gritando na minha mente para mim mesma até o resto da noite.



Duas semanas se passaram e as cenas do quase beijo ainda não tinham deixado minha memória. Se tivesse que conviver apenas com a lembrança desse acontecimento talvez não estivesse tão eufórica, mas o problema eram os sentimentos novos que acompanhavam. Toda vez que eu me lembrava de Niall se inclinando em minha direção meu coração começava a bater mais depressa e eu prendia a respiração, mesmo sabendo que nada aconteceria.
E indo contra tudo que jurei não sentir, resmungava, frustrada. Porque sim, no final das contas eu precisava que ele tivesse me beijado. Não que eu tenha certeza sobre como eu me sinto, porque não tenho. Mas pensei comigo mesma que, se ele não desistisse da ação e fosse até o fim, poderia me ajudar a descobrir a profundidade dos meus sentimentos por ele.
Estava em conflito com minhas emoções havia dias. Rachel percebeu, é claro, mas tentava não demonstrar muito no trabalho, principalmente depois da chegada de Jesse. Pensar nele me fez desviar de Niall para o meu problema no trabalho.
Jesse… Ele era um problema. Era um homem que não passava dos trinta anos, de porte sério e assustador. Só sua entrada foi pensada para intimidar todo mundo, e deu certo. O clima leve e descontraído que costumava gostar se dissipou e trabalhar sob sua vigilância era tortura, por isso tentava ao máximo não chamar atenção para me passar despercebida.
A princípio ele só observou e, então, uns dias depois solicitou uma reunião geral explicando como as coisas iriam funcionar dali para frente. Não é novidade dizer que ele ficou com a sala de Olivia, que precisou sentar em uma baia como o resto de nós, e que a mesma perdeu todas as regalias que usufruía antes. Além de atroz e arrogante, ele também assediava assistentes e estagiárias. Testemunhei uma cena horrível no banheiro entre duas assistentes se consolando e confidenciando o assédio do homem.
Quando me meti para perguntar porque não o denunciavam, argumentaram que tinham medo de serem despedidas. Elas eram bem mais novas do que eu, pareciam ainda estarem no começo da faculdade, e naquele momento não me ocorreu nenhuma forma de ajuda-las, pois também fiquei com medo de deixar as coisas piores.
Nem por isso deixei para lá. Contei a Rachel e juntas pensamos em uma forma de coletar provas para impedir que ele continuasse com essas ações sem precedentes. Enquanto as provas não vinham, só pensei que daquele dia em diante, no que dependesse de mim, nunca mais deixaria menina nenhuma entrar no escritório dele sozinha. Talvez tenha tido uma motivação extra quando fez questão de ficar com a sala privada. Estremeci de pavor quando pensei nisso.
Quanto a mim, bom, eu era a única responsável por uma coluna inteira, então ele não tinha com quem falar a não ser comigo. Não me deu muita bola, mas exigiu que eu entregasse a ele uma lista de novos talentos que ele mesmo iria verificar sobre quem eu poderia escrever. Fiquei brava, escolher era justamente minha parte preferida. Mas não contestei, se quisesse um futuro na Billboard teria que fazê-lo confiar em mim, por mais desumano que ele fosse. No começo me senti mal por usar Jesse para isso, mas depois pensei que, caso não desse certo, pelo menos poderia achar alguma evidência de seu comportamento sexista para usar contra ele e fazer com que fosse embora dali.
Era quarta-feira à noite, tinha acabado de pisar no meu apartamento e me jogar no sofá. Geralmente tomaria um banho antes, mas, francamente, estava tão cansada que poderia dormir ali mesmo. A minha responsabilidade interior não deixou, é claro, então me arrastando fui até o banheiro me lavar e substituir minhas roupas sujas por outras mais confortáveis. Aproveitei para lavar meu cabelo e durante o banho notei como ele havia crescido. Fiz uma nota mental para me lembrar de marcar um horário no salão lá embaixo, fazia tempo que não cortava o cabelo.
Uma vez limpa e vestida, fui até a cozinha preparar meu jantar. Tinha deixado umas coxas de frango marinando na geladeira ontem à noite, então apenas coloquei em uma travessa e coloquei tudo dentro do forno. A bateria do meu celular estava quase acabando, mas antes de colocar para carregar temporizei uma hora no meu celular, e uma mensagem de Niall piscou na tela.

@niallhoran
Hey,
@niallhoran
Já está em casa?

Sorri, ativando o temporizador antes de respondê-lo.

@
Siiim, já cheguei.
@
Estou fazendo meu jantar

@niallhoran
Talvez eu vá aí jantar com você

@
Pode vir, se quiser

@niallhoran
Feito!

E assim que li a mensagem escutei duas buzinas ritmadas do lado de fora da janela. Sem acreditar no que ouvia, deixei meu celular na mesa de centro e fui até o parapeito e olhei para baixo. E lá estava Niall Horan, invadindo meu espaço pessoal pela milésima quinta vez. Dei um sorriso de felicidade pela visita inesperada.
– Pode abrir para mim? – Gritou de lá de baixo.
– Só porque senti sua falta, Horan! – Gritei de volta, arrancando um sorriso do artista.
Corri para trocar meus shorts curtos por uma calça mais comportada e verifiquei meu cabelo, que obviamente ainda estava molhado. Dando uma última conferida no espelho em busca de qualquer dano comprometedor e não encontrando nada, abri o portão apertando o botão próximo a bancada da cozinha.
Niall bateu a minha porta nem dois minutos depois, então concluí que subiu de escada. Essa informação não era tão relevante assim, mas a parte mais romântica de mim queria acreditar que era porque ele queria me ver mais rápido. Abri a porta sorrindo como uma idiota por ter dito tal pensamento.
– Olá, popstar! – Cumprimentei, ao me revelar depois que a porta foi aberta. Estava tentando ao máximo fingir que não era a primeira vez que Niall via meu apartamento, ou que ficávamos a sós em um ambiente tão particular.
– Oi, . – Disse, beijando meu rosto. A essa altura deveria ter me acostumado com isso, então disse a mim mesma que estava tudo bem e dei um passo para trás, convidando ele para entrar.
Meu apartamento não estava uma zona total, mas também não estava dentro dos padrões que eu normalmente deixava quando recebia uma visita. Havia alguns copos e talheres acumulados na pia ainda por lavar, e uma coberta aleatória que havia tirado do armário para me cobrir ontem à noite ainda estava em cima do sofá. A toalha que me enxuguei depois do banho ainda estava na porta, uns sapatos teimosos estavam fora da sapateira e, já que o apartamento era tão pequeno e a porta do meu quarto estava aberta, dava para notar que a cama estava bem bagunçada.
Dei de ombros, indo até o sofá e dobrando a coberta para guardá-la no lugar.
– Eu não sou tão desorganizada, se é isso que está pensando. – Disse em tom de brincadeira. – Alguém se esqueceu de avisar que vinha.
Os olhos dele brilharam, sorrindo de repente ao ouvir minha defesa.
– Faz de conta que não estou aqui. O que faria agora?
– Arrumaria a casa. Lavaria a louça, colocaria as coisas no lugar, algo do tipo. – Respondi, colocando a coberta no armário que tinha no corredor. Era lá que eu deixava minhas roupas de inverno e cobertores extras, mesmo que não fizesse um inverno tão rigoroso em São Francisco.
– Então faz de conta que não estou aqui. Faça suas coisas normalmente. – Pensei que ele parecia já bem à vontade quando percebi que ele tirava os sapatos. – Não se preocupe, eu não tenho chulé.
Soltei um som engraçado pelo nariz.
– Não dá para te ignorar aqui. Para começar, se não estivesse aqui eu ainda estaria usando meu shortinho super curto e confortável da Tinker Bell. – Me referia ao shorts que usava antes.
– Porque você tirou ele? – Reclamou, olhando para a minha calça de moletom cinza e sem graça.
– Está tentando ser engraçadinho, Horan? – Perguntei, dando risada da cena.
Ele deu de ombros me seguindo até a cozinha, onde lavei os utensílios que se acumulou.
– Não tem lava louças? – Questionou, vendo meu trabalho manual.
– Não. Aluguei o apartamento quase totalmente mobiliado, só tive que trazer minha cama. – Esclareci, secando minhas mãos em um pano. – E, como essa cozinha é planejada, não tem um espaço para a máquina, mesmo se eu quisesse.
Niall encarou o pequeno cômodo, constatando o óbvio.
– Tem razão.
O guiei de volta para sala e entreguei o controle na mão dele, dizendo que preferia cuidar do resto sozinha. Ele revirou os olhos, mas aceitou sua condição de hóspede e ficou zapeando os canais da TV enquanto eu recolhia o lixo, minhas roupas sujas e estendia minha toalha em um varal improvisado nos fundos da cozinha. Por último coloquei os sapatos no lugar, arrumei minha cama e ajeitei os tapetes desalinhados. Tudo não deve ter demorado nem meia hora, e depois de levar o lixo até o depósito do andar, voltei para a sala, me sentando no sofá ao lado dele.
– E nesse exato momento eu me sentaria aqui na sala, pegaria meu controle para assistir um filme e então sentiria frio. – Falei, quando ele se virou para me olhar. – Aí eu iria no armário do corredor de novo pegar uma coberta, depois iria dormir deixando ela jogada no sofá e desarrumando a casa gradativamente mais uma vez. E amanhã quando chegasse do trabalho faria tudo de novo.
– Acho impressionante sua paciência. Minha casa em Los Angeles fica desarrumada por uma semana antes que eu crie coragem.
– Sim, eu adoro minha persistência. – Confidenciei. – Mas adoraria mais ainda ter uma empregada, se quer saber.
Um cara famoso e rico deveria ter uma, até onde eu sabia.
– Eu tenho uma. – Bingo. – Mas ela só limpa mesmo, então a bagunça sobra para mim de qualquer jeito.
– Bom, você é um bagunceiro, Niall Horan.
– Você não está errada.
– Eu sei que não. Assisti todos os vídeos diários. E você sempre estava bagunçando.
– Eu? – Questionou, incrédulo. – Eu era o mais quieto! Quase ninguém me notava.
Fiquei com pena porque era bem verdade. Niall no começo da banda quase não aparecia e era bem raro ouvir sua voz. Talvez seja por isso que ele virou meu favorito, sempre fui ótima em torcer para os menos favorecidos.
– Ok. – Cedi, colocando uma almofada no colo. – Mas você ainda é bagunceiro.
Ficamos conversando por longos minutos, até que Niall virou sua cabeça em direção a cozinha, inalando o ar com força. Logo em seguida ele franziu o nariz.
, tem alguma coisa queimando na cozinha.
– O jantar! – Bradei, saindo do sofá em um pulo para ir até a cozinha. A maior parte da fumaça saiu pela janela, mas ainda tinha bastante quando cheguei. Me ajoelhei e abri o forno só para me decepcionar: o frango estava terrivelmente carbonizado. Niall chegou alguns minutos depois, observando a desgraçada alheia.
– Queimou muito?
– É, queimou totalmente. – Suspirei frustrada, levantando-me para olhar para ele. – Sinto muito, Niall.
– Ei, não foi nada.
– Eu arruinei o jantar. – Frisei, como se ele tivesse uns cinco anos de idade.
O cantor apenas sorriu.
– Pode me chamar para jantar numa próxima vez. Sempre pode tentar de novo, certo?
Sorri, concordando.
– É, pode ser.
Ele colocou as mãos no queixo, pensativo.
– Agora eu preciso salvar o jantar… – Murmurou consigo mesmo. Em seguida deu um sorriso de quem entendeu tudo. – Pode esperar uns minutos aqui? Eu volto em um instante!
Não tive tempo de protestar, o rapaz já estava na porta calçando os tênis. Joguei minhas chaves para que ele não precisasse ficar esperando do lado de fora de novo e, não havendo nada a fazer, fui até o sofá. Na mesa de centro avistei meu celular abandonado e percebi que a bateria tinha acabado de vez. Dei um murmúrio de frustração, me lembrando que quando Niall chegou eu não tinha colocado ele para carregar e por isso o alerta do timer não havia anunciado que o frango estava pronto.
Coloquei o celular para carregar e cerca de vinte minutos depois Niall havia retornado com duas sacolas cheias de comida. O logo exibido na sacola indicava que ele havia pedido comida no restaurante de Malai e Khalan: Sweet Lime.
Arqueei as sobrancelhas, surpresa.
– Alguém me disse que a experiência iria ser cem por cento autêntica.
Com um sorriso de satisfação fui até ele pegar as sacolas de suas mãos, enquanto Niall tirava os sapatos de novo. Não queria usar a mesa, achei que seria mais especial se comêssemos na mesa do centro, e Niall não iria desconfiar que eu queria que fosse especial.
Sabendo que Khalan sempre me manda talheres descartáveis, fui até a cozinha e peguei dois jogos de toalhas, dois pratos e dois copos, e voltei para a sala. Abri os potes e dispus os pratos na ordem em que eles deveriam ser apreciados. Percebi que Niall não fazia a menor ideia do que pediu: era exatamente o mesmo pedido que eu sempre fazia.
– Eu disse que era seu amigo e que não sabia o que pedir. – Justificou, provavelmente notando meu olhar atento.
– Bom, você acertou em cheio. Vem. – Chamei, sentando no chão ao redor da mesinha. Ela não era tão grande, de modo que ele poderia tocar em mim sem querer. Estremeci.
Apontei para o primeiro prato que tinha separado.
– Vamos começar pela entrada. Isso é spring roll. – Expliquei, colocando um em meu prato e sendo imitado por ele. – É um rolinho como aquele chinês, só que o recheio é diferente. Esse tem shitake, carne de porco, repolho, cebola roxa e temperos.
Um Niall um pouco relutante aproximou seu spring roll para uma mordida com uma certa desconfiança. Na primeira mordida eu soube que Malai e Khalan haviam ganhado seu coração. Satisfeita, comi meu próprio rolinho. Estava com muitas saudades mesmo do restaurante, e não conseguia nem me lembrar da última vez que estive por lá.
– E esses? – Perguntou apontado para os quatro espetinhos. Notei que ele já tinha terminado sua parte dos rolinhos. – O que são?
– Espetinhos de porco servido com molho satay. Não me pergunte o que tem aí, porque eu nunca soube – Ri. – Só sei que é gostoso.
Sem a desconfiança e a relutância de antes, Niall pegou o espetinho e novamente aprovou o sabor.
. – Chamou, entre uma mastigada e outra. – Hoje vai ser exibido minha entrevista do SoundTrack.
Arregalei os olhos.
– Não acredito que me esqueci disso! Que horas?
– Umas dez e meia, acredito.
Olhei no relógio: dez e trinta e seis.
– Vou dar uma olhada.
Abandonando o jantar, sai trôpega em busca do controle da TV, que encontrei no sofá. Liguei a TV e procurei a emissora que iria exibir o programa, que já tinha começado.
– Deixa eu adivinhar, você também não assiste suas próprias entrevistas?
Ele me mostrou um sorriso envergonhado.
– Não. Não pelo mesmo motivo da revista. – Arqueei as sobrancelhas, e ele continuou. – É esquisito me ver na TV, de uma certa forma nem parece eu. Olha aquilo! – Exclamou, apontando para a tela.
E eu olhei. Vi um Niall educado, sentado na poltrona e sorrindo amigavelmente. Ele estava sentado em uma posição que queria indicar que estivesse confortável, mas para minha surpresa notei que ele não estava. O Niall confortável estava bem ao meu lado, sentado de qualquer jeito no chão da minha sala, sem os sapatos e com molho satay nos cantos da boca. Aquele cara da TV só queria sair dali o mais rápido possível.
Fiquei pensando se ele detestava seu estilo de vida. Não era mentira que, de uns tempos para cá, já vi muitas fãs tendo experiências ruins com Niall Horan, a maior parte de outros países. Diziam que era rude, o que na minha mente já era uma grande besteira. Niall não poderia ser rude já era simplesmente o cara mais fofo que já conheci. Porém não podia chamar aquelas garotas de mentirosas, alguma coisa com certeza deve ter acontecido. E por que? Ele estava de saco cheio de ser famoso? Queria voltar ao anonimato?
Desviei para olhar o Niall ao vivo que estava ao meu lado, e fiquei surpresa quando vi que ele também estava me olhando. Não, respondi minha própria pergunta. Ele amava seus fãs e amava sua carreira. O problema não era esse.
– Você não parecia muito confortável ali. – Constatei.
– E não estava. – Concordou, limpando o molho da boca. Inclinou-se para pegar seu último espetinho, quando percebeu que já tinha comido todos. Sorrindo, ofereci o meu último para ele, que aceitou. – Obrigado. Bem, eu já deveria ter me acostumado. Quer dizer, como disse, não sou mais tão assediado como na época da banda. Nem se compara! Antes tinham sei lá, milhares de garotas na frente dos hotéis em que ficávamos.
Fiquei sem graça.
– Provavelmente eu era uma delas. – Confessei.
– Queria ter te conhecido naquela época.
– Ah, eu bem que tentei, Niall Horan. – Ri. – Deus está de prova que eu tentei.
Lembrei quando a banda estourou nos Estados Unidos e eu e minhas amigas de minha cidade natal nos viciamos nas músicas. Acampamos na fila no primeiro show e consegui combater a timidez mais de uma vez para segui-los pela cidade. Foi com certeza o maior e melhor fandom ao qual pertenci e mesmo que já fizesse uns bons anos que não escutasse uma música sequer, sentia que ainda pertencia a ele.
Niall estava sorrindo quando olhei para ele de novo.
– Era frustrante ser minha fã, imagino.
– Era bem frustrante ser sua fã. – Concordei. – Desculpe, te interrompi. Continue.
– Certo. O caso é que de milhares de fãs na porta do hotel, agora me deparo com menos de trinta. One Direction não podia ir para nenhum lugar público e agora as pessoas não me param mais na rua. Aqui mesmo em São Francisco consigo contar nos dedos de uma mão quantas vezes fui parado. Entrevistas… eu já fiz quinhentas entrevistas! Depois de oito anos de fama eu com certeza deveria ter me acostumado. – Ele olhou para a TV, pensativo. – Mas eu ainda não me acostumei. Não consigo ser eu mesmo. Nunca sou eu mesmo ali.
– Sinto muito. – Murmurei, sem saber realmente o que dizer.
– Eu sou eu mesmo quando estou com você. Gosto disso. Acho que é por isso que te persigo tanto.
Dei risada.
– Sua vez de ser tiete, famoso Niall.
– Eu já fiz minha parte! Te segui no instagram, te segui na sua casa, te segui no seu trabalho. – Falou, enumerando os itens nos dedos das mãos. – Não aguento mais ser stalker, quando a gente vai chegar na parte que eu conquisto a garota?
Ele falou em tom de brincadeira, mas eu gostaria que ele não estivesse brincando, principalmente estando tão confusa em relação a ele.
– Ah, já chegou nessa parte. – Afirmei. – Mas daqui duas semanas a garota vai te dar um pé na bunda e você vai escrever uma música triste para se lembrar dela. Quem sabe o término não te ajuda a escrever as músicas do próximo álbum.
Ele riu.
– Pena que eu não escrevo músicas assim.
– Deveria tentar. Sua vida amorosa é um ótimo exemplo disso. Daria músicas incríveis. – Argumentei, fazendo ele me olhar indignado.
– Não tem como saber nada sobre minha vida amorosa.
– Bom… eu sei que ela existe. – Eu disse, sem pensar. Niall ficou sério de repente. Droga, .
– Ela existe. – Concordou Niall. – Quer dizer, mais ou menos.
Não sabia como responder, então só olhei para a TV e assistimos juntos o resto da entrevista. Como ele mesmo havia mencionado, não estava nem um pouco confortável de estar ali. As respostas em sua maioria eram curtas e ensaiadas, como se ele já soubesse o que seria perguntado e tivesse sido orientado de como responderia. Ainda era emocionante para seus fãs que não o conheciam pessoalmente, mas para mim aquele Niall não era o meu Niall. Então não demos muita bola para entrevista e logo depois ficamos no sofá conversando. Nunca imaginei que um dia estaria batendo papo na sala do meu apartamento minúsculo com Niall Horan, nem que acharia isso tão normal. Quer dizer, depois de praticamente um mês que o conheci, sentia que ele era apenas um cara normal. Com inseguranças, problemas, medos e tudo que uma pessoa normal carrega. Conversamos tanto que quando olhamos no relógio, já eram quase três da manhã.
– Meu Deus, são três da manhã. – Murmurei, sonolenta.
– Ah, não… desculpe, . Amanhã você trabalha, eu esqueci totalmente. – Desculpou-se já se levantando.
Eu precisava mesmo dormir, mas realmente não queria que ele fosse embora.
– Sem problemas… pode dormir aqui, se estiver com sono. – Ofereci. Estava tarde e eu não morava exatamente no bairro mais seguro da cidade. Eu não era tão ousada quanto ele provavelmente estava pensando, e por isso fiquei com medo que ele entendesse errado. Niall podia ser fofo, mas ele ainda era um homem no fim das contas.
– Se realmente estiver tudo bem, o sofá está ótimo para mim. – Disse, sorrindo. Um alivio sem tamanho percorreu meu corpo, principalmente porque se ele tinha aceitado ficar, era porque também queria minha companhia.
Assenti e fui até o armário do corredor e peguei uma coberta limpa e um travesseiro extra. Como meu apartamento era pequeno e não tinha quarto de visitas, o sofá aumentava de tamanho até virar uma cama. O sofá-cama foi o que levou minha mãe a ser a primeira grande apoiadora desse apartamento na época que eu estava escolhendo um, assim poderia me visitar sempre.
Niall também pareceu surpreso com a engenhoca, e eu mostrei um sorriso debochado para ele.
– Nada igual sua cama queen size, hein. – Zombei, apontando para o sofá.
– É king size, mas enfim. – Alfinetou de volta, rindo. – Estou brincando.
Eu sabia que ele não era esnobe nem nada do tipo, então acreditei nele.
Fui até o banheiro e, depois de escovar meus dentes, fucei minha gaveta até achar um pote de escovas de dentes descartáveis que meus pais acumulavam dos hotéis que iam e depois trazia para mim. Entreguei uma para ele, que ficou surpreso.
– Você é uma excelente anfitriã. – Agradeceu.
– Boa noite, Niall. – Desejei.
– Boa noite, . Pode deixar que eu me viro.
Concordei, indo para o meu próprio quarto e fechando a porta atrás de mim. Foi difícil achar uma posição confortável sabendo que Niall dormia no cômodo ao lado, mas consegui depois de um tempo. Repassei em minha mente nossa conversa da noite anterior e depois todas as nossas conversas. Ele parecia bem interessado em ser meu amigo, era bem verdade. Mas tinha um algo a mais. Ele flertava comigo de vez em quando, desde a entrevista que fiz com ele. E foi então que lembrei. O Niall que assisti no SoundTrack não tinha nada a ver com o Niall que eu entrevistei em agosto. As respostas não eram ensaiadas nem iguais e ele estava bem tranquilo, do jeito que eu conhecia. Quer dizer então que ele gostou de mim porque eu dava a ele a mesma paz e tranquilidade que ele dava para mim? Porque na correria do nosso dia a dia tão diferente, mas ao mesmo tempo tão igual, nós fazíamos bem um ao outro e por isso ele insistia em me ver sempre? Fazia sentido na minha cabeça, pelo menos.
Mas tinha um porém. Ele confirmou, com as palavras exatas, que havia uma vida amorosa. Fosse o que fosse, ele estava sim envolvido com a Hailee. E mais, percebi que ele também estava confuso e que provavelmente por isso tinha desistido daquele beijo. Mas quando me lembrei disso, a sensação de confusão instantaneamente se foi. Analisei cada ponto da nossa precoce amizade e comecei a sentir um misto de pavor com felicidade quando me dei conta do que estava acontecendo comigo pela primeira vez na vida. Me revirando na cama uma última vez com o frio na espinha, as borboletas no estômago e a boca seca, sorri, percebendo que estava muito encrencada, no fim das contas.
Eu estava total e completamente apaixonada por Niall Horan.