A lista dos desejos

Sinopse: E se sua vida estivesse no fim o que você faria enquanto pudesse? Namjoon sabe e por isso criou a lista com seus desejos antes de morrer. Para alguns a vida acontece quando está prestes a perdê-la.
Gênero: drama
Classificação: 14
Restrição: Namjoon é fixo. Contém palavrão.
Beta: Rosie Dunne

Capítulos:

Prólogo

Música para o capítulo: Lauv – Breathe
Sorri pela primeira vez desde que tudo tinha acontecido. Seis meses tinha sido o prazo que o médico o dera, e seis meses tinham se passado desde que eu o tinha conhecido. Aqui na ponte Jamsu, sobre o rio Han, eu tinha encontrado o homem que mudaria a minha vida. Sorri de novo, mas dessa vez para disfarçar a dor que insistia em ficar mais forte. Eu havia prometido não chorar e estava fazendo o possível para que minha promessa fosse cumprida.
Perguntei a mim mesma se ele já estaria no céu, e ri alto por pensar o quanto ele estaria bravo por me ver pensar assim. Kim Namjoon não acreditava em Deus e em todo o conceito que envolvia a crença, mas eu sim, e pensar que ele estava em um lugar melhor, sem dor, me acalmava. Mesmo sabendo que ele estaria resmungando me vendo associar sua imagem à religião, eu aceitaria o fato de acreditar que ele estava no paraíso.
O nó na minha garganta apertou mais, anunciando que o choro estava perto de chegar. O que eu faria sem ele agora que tinha conhecido o valor da vida? Kim Namjoon tinha dado o sentido que eu queria achar, mesmo que eu ainda não soubesse com precisão o que faria, eu queria algo pra mim e gostaria que ele soubesse disso o tanto que eu sei agora.
O vento passou por meus cabelos, alisando levemente minha pele, como um carinho. Talvez eu tivesse um anjo agora. Aproximei-me mais da grade de proteção da ponte, me apoiando levemente para olhar o rio abaixo de mim. A água me dava tranquilidade, tinha descoberto isso ao lado dele em uma de nossas viagens. A imagem de Namjoon correndo pela areia, em seu melhor jeito desengonçado, inundou minha cabeça de súbito. Lembrar dele sorrindo enquanto procurava pequenos caranguejos fez meu coração apertar. Dobrei meu corpo sobre a grade, segurando firme enquanto, finalmente, me permitia chorar.
Essa promessa eu não conseguiria manter.

Seria assim então? Em cada momento eu teria a lembrança dele perto de mim? Só a lembrança?
Permiti-me chorar alto, sem importar com a movimentação de carros atrás de mim ou sem me importar se alguém pudesse ver meu desespero. Se eles tivessem perdido a pessoa que amava estariam assim também.
Chorei na esperança de aliviar a dor, mas ela não passava. A cada lágrima que descia do meu rosto, uma dor nova surgia. Eu queria ser o tipo de pessoa que agradecia só por ter vividos momentos lindos ao lado dele, mas eu não sou assim. Eu chorava por não poder tê-lo ao meu lado mais.
Chorei!
Senti o braço passar por meus ombros, eu não tinha forças para me assustar, só olhei para o homem que me envolvia. Vi o rosto de Seokjin, tão abalado quanto o meu: os olhos vermelhos e a face inchada denunciavam as horas em prantos. Seokjin ainda chorava, eu sabia que seria difícil para ele superar. Encostei minha cabeça em seu ombro, sem forças para consolá-lo. Me sentia confortável em dividir aquele momento com Jin, que era o melhor amigo de Namjoon, e por tabela tinha se tornado o meu melhor amigo também.
Um pouco mais calma, coloquei a mão no bolso direito do casaco, buscando o que tinha guardado lá. Agora ele encarava a paisagem, absorto em seus próprios pensamentos, o vento bagunçava o cabelo do homem. Chutei levemente a canela dele, só para chamar atenção ao que eu o entregava em mãos: as pétalas estavam murchas por causa do calor de onde haviam ficado. Entreguei uma quantidade a Jin, que sorriu de lado.
Aproximei-me novamente da grade, agora colocando o punho fechado em direção ao rio Han. Abri a mão devagar deixando que o vento levasse as pétalas roxas de Áster embora, percebi Seokjin fazer o mesmo. Suspirei alto percebendo minha mão ficar vazia, ao meu lado ouvi a risada de Jin misturada ao seu choro, olhei surpresa para o homem, que ainda olhava para o rio.
– Ele tinha razão – ele disse sem olhar para mim – Essa cena é ridícula!
Nós dois rimos, lembrando a reação de Namjoon ao ouvir que eu iria jogar as pétalas da flor no rio Han em sua homenagem. Nam tinha dito que seria ridículo e que não consideraria homenagem alguma, e eu prometi fazer mesmo assim por pirraça, sendo apoiada por Jin. Rimos por um tempo.
Respirei aliviada voltando a atenção para as águas, ali, no nosso lugar favorito, tanto meu quanto de Namjoon, eu percebi que ele nunca sairia de mim. Eu guardaria os momentos com meu homem preferido para sempre. Não era uma aceitação, eu ainda estava com raiva, mas preferia ter vivido pouco ao seu lado, do que nunca o ter conhecido.
A morte era um até logo e não um adeus. E eu sempre amaria Kim Namjoon!

Nota da autora:
Eu espero que vocês não me odeiem por escrever isso, já joguei no prólogo o que aconteceu com nosso pp para que ninguém ficasse revoltado comigo depois. Mas, continuem comigo, eu prometo que vou fazer essa história ser bonita, ela é muito mais do que sobre morte. É sobre viver!
No mais, obrigada por estarem aqui cedendo um tempo para a leitura da minha fic, espero continuar com vocês ao longo da história. Comentem para que eu saiba o que acharam.
Se quiserem me encontrar por aí eu fico um bom tempo no meu twitter, eu só falo de bts então, me sigam por lá: @kthgalaxys

Coloca a música para carregar, e quando eu falar dá o play: BTS – Heartbeat.

I

Desejo 1.

Seis meses antes.
Tamborilei meus dedos na barra metálica da ponte, o barulho do impacto, mesmo que leve, ressoava alto pelo ambiente. Não havia ninguém àquela hora em Jamsu, somente eu e a água do rio Han abaixo de mim. O local geralmente era movimentado, mas às três horas da manhã não era assim que acontecia.
Senti o vento brincar por meus cabelos, agradecida pela sensação gostosa que ele provocava em meu rosto. Nem tudo me causava algum tipo de emoção, mas o vento gélido me fazia feliz. Olhei para a paisagem em minha frente, agradecida por morar em Seoul, eu amava aquele lugar e achava a cidade linda, principalmente de madrugada, quando estava em silêncio. Escorei meu corpo sob a grade de proteção, achando uma posição confortável, afinal, eu ficaria fora de casa até às 8h, dando tempo suficiente para que minha mãe fosse trabalhar.
Não era a primeira vez que fugia dela após uma discussão, na verdade, era recorrente esse comportamento. Minha mãe não se preocupava mais com minhas saídas de casa e nossas brigas comuns do que antes.
Lembrei-me do nosso último desentendimento, o que ainda era recente e me fizera estar fora de casa até aquele momento. Senti-me mal por repassar as palavras que ela dissera no auge da raiva: , eu só queria que você me desse orgulho. A voz da minha mãe ecoou palavra por palavra em minha mente. Fechei os olhos, triste por saber que, de fato, eu não era um orgulho para a minha mãe.

Entendia a preocupação dela a me ver forma no ensino médio e não entrar em uma faculdade. Eu não tinha vontade de entrar em uma faculdade, a minha vida era confortável demais e eu não queria mudar. Mas, minha mãe não aceitava que influencer, poderia ser uma carreira de sucesso, porém eu ganhava dinheiro com publicações na internet, e isso me deixava satisfeita. Não queria estudar mais; não queria ter um emprego dentro de um escritório. Não queria ser presa a esse nível. Não fazia sentido para mim.

Senti mais uma vez a brisa passar por meu rosto, era como se a natureza viesse me apoiar quanto aos pensamentos. Eu era jovem, tinha recém completado vinte e um anos, minha vida não deveria ser decidida tão rápido assim.

Além disso, a internet mascarava o que eu queria esconder: minha personalidade. Nas redes sociais, eu era sempre extrovertida, divertida e animada. Pessoalmente, introvertida, monótona e arrogante. Achava a vida tediosa e previsível. Não tinha amigos, a não ser por Geum, e isso não me afetava. Eu era assim por opção. Tinha preguiça da maior parte das pessoas que me rodeavam. Me aproximava dos outros por interesse, e não via problemas em admitir que meus laços eram feitos por interesse.
Olhei mais uma vez para o relógio em meu pulso, confirmando que havia se passado vinte minutos desde a última vez que tinha olhado. Jamsu era meu local preferido em Seoul, mas eu precisava de algum outro lugar para visitar durante a noite e fazer com que o tempo passasse mais rápido.
Repassei mentalmente alguns bares que ficavam abertos durante a madrugada, mas antes que pudesse chegar na segunda opção, ouvi a porta de um carro fechar em minhas costas.
Mantive o silêncio para ouvir melhor o que acontecia ao meu redor, não estava com medo, considerando que Seoul não era um lugar tão perigoso, mas estava atenta a movimentação estranha, caso precisasse correr. Eu tinha o hábito de visitar a ponte de madrugada e sabia que pessoas àquela hora não eram comuns. Olhei por cima dos ombros podendo observar a cena que acontecia atrás de mim: um homem pagava o uber pela janela, quem pagava por esse tipo de serviço com dinheiro, atualmente?
Continuei olhando o desenrolar da situação, me mantendo atenta a qualquer comportamento estranho. O homem então virou-se em minha direção: seu rosto era jovem, tinha o queixo fino apesar das bochechas arredondas. O cabelo castanho claro, estava levemente jogado para trás, permitindo que sua testa ficasse à mostra. Não era comum aos meus olhos, mas era bonito. Ele andou com firmeza para a direção que eu estava, ainda o acompanhava com o olhar. O vi chegar mais próximo de mim, mas sua atenção era toda para o rio.
Ao perceber sua presença ao meu lado, alinhei melhor minha postura, ficando reta, o que dava a impressão de ser mais alta. Tinha aprendido, nas aulas de autodefesa, que aquela atitude poderia intimidar o agressor. Mas, assim que percebi que o visitante era, pelo menos quinze centímetros mais alto que eu, me encolhi novamente. Mas, eu estava incomodada com a presença de outra pessoa no meu local. Ele me olhava pelos cantos dos olhos, mas não fazia questão de reagir a mim. Dei um passo largo para a minha direita, afastando-me mais do intruso, era o meu jeito de mostrar a ele que estava invadindo o meu espaço.
Mas, ao invés dele ir embora, o estranho revirou os olhos – sem nenhuma pretensão de esconder a impaciência – e recostou o corpo sobre a grade. Olhou concentrado as luzes da cidade em nossa frente. Ele admirava Seoul. Olhei para suas mãos, estavam entrelaçadas, formavam uma concha fechada, firme e dentro dela eu podia ver escapar um pedaço de papel. Tombei a cabeça curiosa com o que ele guardava com tanta segurança, o movimento não tinha sido discreto, e ele percebeu minha intensão. O homem guardou o papel rapidamente no bolso da frente de sua calça.
Reparei pela primeira vez no que ele vestia: a calça jeans fazia o par perfeito com o moletom verde escuro, o único acessório que tinha era o pulseira de couro preta que carregava no pulso esquerdo do braço. O cabelo castanho fazia contraste com a pele dourada. O estranho era interessante, mesmo que sem graça.
Meus olhos subiram para o seu rosto, assustei-me ao ver a expressão de deboche que ele mantinha enquanto me encarava: por quanto tempo eu o estava olhando? Os lábios, pressionados uns aos outros, mostrava que ele não estava satisfeito comigo olhando fixamente, senti meu rosto queimar, pelo constrangimento.
Eu nunca ficava vermelha por vergonha, mas tinha acabado de ficar.
Virei bruscamente para frente, encarando o reflexo da lua nas águas do Han. Não estava interessada, mas não suportava a ideia de continuar olhando para o homem, que ainda me encarava. Ele fazia de propósito agora, sabia que estava me deixando sem graça e estava gostando da situação.
– Kim Namjoon – ele disse direcionado a mim.
Olhei para ele, com o canto dos olhos, só conseguia ver os tênis brancos. Engoli a seco, não estava disposta a responder, mas não podia negar que era um nome bonito. Combinava com o rapaz. Ao perceber que eu não iria responder, ele chegou mais próximo de mim, respirando alto, se fazendo presente.
– O que você está fazendo aqui, no meu lugar? – disse, cansada da brincadeira que ele queria fazer. Não tinha paciência com esse tipo de comportamento.
– Comprou a ponte? – ele olhou para mim, não tinha se importado de ter sido grosso – O seu lugar, é o meu lugar preferido em Seoul, e eu venho aqui para pensar, quando preciso.
Mordi levemente os lábios ao ouvir o que ele tinha dito. Sempre tinha achado que Jamsu pertencia a mim por ser a única a considerar o ambiente tranquilizador, mas Namjoon me mostrava que eu estava errada ao pensar daquela forma.
– São três horas da manhã, não é um horário estranho para se pensar? – eu disse a ele, ignorando que eu estava ali fazendo a mesma coisa.
– Não tem nada de normal em minha vida ultimamente
Ele colocou a mão levemente no bolso em que tinha guardado o que antes estava em suas mãos. Acompanhei o movimento, tinha sido involuntário, aquele papel era importante para Namjoon, por isso fiquei mais interessada em saber o que tinha nele.
– olhei para ele esperando sua reação, mas ele só concordou com um movimento de cabeça.
– É um nome bonito – ele olhava as águas interessado em seus movimentos – Daria poemas bonitos.
– Poemas?
– Sim! – ele meneou a cabeça com firmeza – Eu leio muito poemas. Sou formado em literatura e trabalho em uma livraria.
– Ah, deve ser legal – o meu interesse não era real, eu queria manter a conversar até que pudesse perguntar sobre o papel que ele tinha no bolso.
– E você? – ele estava encostado na grade, mas o seu corpo agora voltava- se para mim, eu não tinha percebido o momento em que ele havia mudando de posição.
– Eu sou influencer – me encolhi ao dizer aquilo em voz alta, era a primeira vez que me sentia envergonhada pela profissão que exercia.
– Na verdade, eu queria saber o que você faz aqui de madrugada? – Namjoon riu entre os dentes, feliz por ter me feito ficar vermelha novamente.
– Ah! – respondi sem graça e frustrada – Pensando!
Olhei o relógio e quase quarenta minutos tinha se passado desde que Namjoon tinha se juntado a mim. O tempo passara rápido, eu não havia percebido. Já não pensava em ir para outro lugar, queria permanecer em Jamsu e ver ao nascer do sol, não me importava mais se Kim Namjoon quisesse continuar ali, no meu local.

Play na música.

Passamos alguns minutos em silêncio, não era ruim ficar ao lado dele, pelo contrário, me sentia confortável no mesmo espaço que o estranho. Se Namjoon fosse um assassino já teria me matado, e dividíamos o mesmo gosto para lugares especiais. Ele não era ruim. Ele sentia o mesmo.
Por se sentir a vontade agora, Kim buscou no seu bolso o papel levemente amassado que tinha tanta vontade de esconder outrora, abriu a folha e leu, em silêncio, atentamente o que tinha escrito.
– O que é isso? – perguntei, cansada de tentar achar um jeito mais sutil de matar minha curiosidade.
– Os meus desejos – ele disse, dobrando o papel e passando para mim, eu arqueei a sobrancelha com a oferta.
– Isso é um poema? – o ouvi rir ao escutar minha pergunta, fiz um bico com os lábios, intrigada com a reação do homem em minha frente, mas peguei o papel que ele me entregava. Não perderia a oportunidade de ler o que ele queria esconder.
– Não – ele mordeu os lábios carnudos – São os meus desejos – ele enfatizou a frase dessa vez – Tudo o que sempre quis fazer por minha vida, mas não fiz.
– Por quê? – eu ainda não tinha aberto o papel, estava interessada no que ele tinha para dizer.
– Porque eu não tive coragem – a voz dele estava embargada – Porque eu quis agradar meus pais antes de a mim mesmo – ele começou a falar mais devagar, com dificuldade de continuar – Porque eu não pensei em mim e agora eu tenho pouco tempo para fazer o que eu realmente quero fazer.
Namjoon virou o rosto para o outro lado. Ele estava chorando. Ele estava chorando. Senti minha respiração pesar ao olhar a cena do homem se escondendo em suas próprias lágrimas. Eu queria confortar Namjoon, mesmo sem entender o que estava acontecendo.
Eu queria confortar o homem que eu nem conhecia. Pisquei ao perceber minha reação estranha diante da situação.
Olhei para as minhas mãos, levemente trêmulas. , a menina fria e sem consideração, estava tendo empatia por um desconhecido. O que Namjoon estava fazendo comigo? Eu queria fugir daquele caos que estava entrando, mas, ao mesmo tempo, queria ficar e entender o que estava acontecendo.
Namjoon continuava a olhar fixo para o outro lado. As lágrimas ainda eram discretas, mas continuavam a descer em seu rosto. Observei outra vez minhas mãos, e lembrei-me do papel que ele havia me dado. Desdobrei rapidamente a folha, com pressa para ler o que tanto agoniava o homem.
Uma lista.
Era isso que continha na folha: escrita à mão e enumerada. Os desejos de Namjoon, ele estava falando sério sobre aquilo. Li rapidamente alguns, percebendo a alternância entre as vontades simples e as complexas dele. Não era incomum que alguém escrevesse uma lista de coisas para se fazer, mas porquê aquilo incomodava tanto ao rapaz?
– Desde quando você tem esta lista? – perguntei com cuidado, sabendo que aquele papel não era uma simples pauta de planejamento de vida para Namjoon.
– Há três dias no papel – ele tinha parado de chorar e voltado o rosto para o rio Han, ainda não olhava para mim, mas eu podia perceber o nariz avermelhado e inchado por causa do choro – Os desejos… esses, desde que entendo por gente.
– Mas, você pode fazê-los agora – eu disse tentando motivar o homem – Nunca é tarde para começar, certo?
A frase de autoajuda tinha saído sem que eu percebesse de minha boca. Eu odiava frases feitas, mas precisava falar algo positivo na tentativa de alegrar o Kim.
– Não! Não é. – a voz dele ainda soava um pouco trêmula – Mas eu tenho prazo de validade.
Eu fiz uma careta com a piada sem graça que ele falara, percebendo minha atitude ele apontou com o dedo sobre o papel o último desejo que tinha escrito. Acompanhei com os olhos o movimento, podendo ler o que ele me mostrava: “Morrer feliz comigo mesmo”. Esse era a última vontade de Kim Namjoon. Abri os olhos, assustada com a certeza de finitude que o homem jovem a minha frente carregava.
– Seis meses – ele apressou-se a dizer para mim antes que eu tirasse conclusões precipitadas – Tenho seis meses de vida, conforme meu médico disse.
– Mas… – eu não conseguia continuar a frase, as palavras morreram em minha boca. Não sabia o que falar.
Olhei mais uma vez para ele, Namjoon parecia estar saudável, não poderia estar morrendo assim, tão rápido. Ele entendeu prontamente minha indagação, mas não se esforçou a justificar. Tinha ficado sério novamente, e mesmo que eu não o conhecesse, soube que não estava mentindo.
– Eu me questiono se posso resolver essas coisas antes de… – ele ficou em silêncio, não terminou de falar e não precisava finalizar o que queria dizer – Eu nunca tive coragem de ser eu mesmo ao longo da vida, agora tenho medo de não dar conta de fazer as coisas que tenho vontade.
Eu olhei com cuidado para o Kim, ele tinha ressentimento em suas palavras. Não saberia dizer se culpava a ele mesmo ou a alguém, mas estava decepcionado com o rumo que a vida tinha levado. Decepcionado por não ter vivido da forma que queria. Não estava frustrado por morrer, mas por não viver antes de morrer.
– Eu posso te ajudar – eu sussurrei as palavras, nem eu mesma estava acreditando na proposta que estava fazendo. Eu queria, realmente ajudar Namjoon, mesmo que eu não recebesse nada em troca.
Olhei mais uma vez a folha em minhas mãos, repassei os desejos com cuidado, alguns eram simples e outros eu não saberia se seriam possíveis de realizar. Dependiam de Namjoon e eu não fazia ideia se ele estava motivado o suficiente para correr atrás deles. Segui a direção dos olhos dele, estavam fixos em um ponto distante, além do rio.
– Você não tem que fazer isso por um desconhecido – a voz dele tinha voltado a ser firme, ele ainda não olhava para mim – Não preciso que tenham pena de mim.
– Eu não faço nada por pena, Kim Namjoon – eu disse com a mesma firmeza de voz que o homem tinha ao meu lado – Eu quero te ajudar com isso, não tenho nada melhor a fazer.
Não era mentira, meus dias estavam ficando repetitivos além do que eu gostava, e Namjoon tinha acabado de me dar um projeto novo a seguir. Não era só isso que me motivava a entrar em seu projeto, mas eu não poderia dizer o quer era, já que nem eu sabia a razão.
Namjoon suspirou alto, olhou por um tempo para mim e, por fim, concordou com minha ajuda. Ele não disse mais nada e nem eu, em silêncio observamos as luzes a nossa frente. Eu não perguntei ao Kim o que ele tinha que o havia dado um prazo tão curto de vida, queria ouvir quando ele quisesse me contar e não quando tivesse que responder alguma pergunta.
– Você tem uma caneta?
Perguntei tirando o rapaz de seu devaneio, ele sorriu de lado e buscou o objeto em seu bolso traseiro entregando em seguida a mim. Risquei com cuidado o primeiro desejo da lista, não me importava em ser a pessoa a fazer aquele gesto, deixar com que eu riscasse o primeiro desejo era como firmar nosso acordo a partir dali.
Kim olhou para mim em cumplicidade e eu retribuí. Então eu tinha um novo amigo, além de Geum e dessa vez eu não esperava nada em troca dessa amizade. Olhei mais uma vez para o relógio em meu pulso, faltava pouco para às cinco horas da manhã. Entreguei a lista amassada para Namjoon que sorriu ao guardar o papel com cuidado em seu bolso novamente.
Lembrei da primeira frase riscada por mim no papel e me senti satisfeita por conseguir compartilhar do momento com ele. Namjoon não tinha ido a toa a Jamsu aquela madrugada. Não acreditava em destino, mas naquela noite ele pareceu funcionar bem entre a gente. Voltamos a ficar em silêncio, teríamos algumas horas ainda até que o objetivo fosse alcançado, mas nenhum dos dois estava disposto a sair do nosso local antes de amanhecer.
Desejo n.1 – ver ao nascer do sol na ponte Jamsu em um dia de semana.