Ghost Feelings

Ghost Feelings

  • Por: Laís M.
  • Categoria: BTS | Kpop
  • Palavras: 2792
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  • Capítulos: 11 | ver todos

Sinopse: Eles estavam atrás de mim. Não apenas por uma hora ou duas horas, na verdade, eles estavam atrás de mim o tempo todo. E não apenas atrás de mim, eles apareciam por todos os lados. E tudo bem quando eu estava em casa ou sozinho em algum outro lugar, mas eles não tinham escrúpulos sobre tempo e espaço para aparecerem. Isso me deixava maluco. Como quando eles resolvem dar às caras dentro da lanchonete ou até mesmo durante as minhas aulas. A minha capacidade de ignorá-los melhorou muito com o passar dos anos, mas isso não conta quando eles resolvem te chutar ou até mesmo fazer qualquer contato físico com você. Porque sim, eles podem. Pelo menos comigo.
Desde que me entendo por gente eu consigo vê-los. E não apenas vê-los. Consigo cheirá-los, senti-los, tocá-los, como se fossem um outro ser humano. Não me admira o rótulo de esquisito que me foi posto pelos outros. Mas como lidar quando ambos os seres, vivos e mortos, conseguem te tocar e falar como todas as outras pessoas?
Gênero: Drama, Romance, Suspense, Ficção
Classificação: 16 anos
Restrição: Baseada no BTS, mas pode ser lidar com quaisquer grupos. Fora você e os meninos, os demais personagens são fixos.
Beta: Alex Russo

Capítulos:

 

Eles estavam atrás de mim. Não apenas por uma hora ou duas horas, na verdade, eles estavam atrás de mim o tempo todo. E não apenas atrás de mim, eles apareciam por todos os lados. E tudo bem quando eu estava em casa ou sozinho em algum outro lugar, mas eles não tinham escrúpulos sobre tempo e espaço para aparecerem. Isso me deixava maluco. Como quando eles resolvem dar às caras dentro da lanchonete ou até mesmo durante as minhas aulas. A minha capacidade de ignorá-los melhorou muito com o passar dos anos, mas isso não conta quando eles resolvem te chutar ou até mesmo fazer qualquer contato físico com você. Porque sim, eles podem. Pelo menos comigo.
Desde que me entendo por gente eu consigo vê-los. E não apenas vê-los. Consigo cheirá-los, senti-los, tocá-los, como se fossem um outro ser humano. Não me admira o rótulo de esquisito que me foi posto pelos outros. Mas como lidar quando ambos os seres, vivos e mortos, conseguem te tocar e falar?
Por sorte, diferenciá-los nunca foi problema pra mim. Sendo redundante, os mortos tem uma aura… Bem… Mórbida. Eles andam pela multidão o tempo todo, são muito pálidos e quase sempre parecem estar perdidos. Um fantasma novato é o que há de mais simples a reconhecer: eles têm muita dificuldade em aceitar que estão mortos e conseguem ser bastante escandalosos ao gritarem aos quatro ventos, perguntando a todos por que não conseguem vê-los. Estes são os maiores perturbadores.
Basicamente, os mortos costumavam vir à mim para resolverem suas pendências aqui na Terra. Se isso soar como algo legal, procure um médico. Não há nada mais incômodo do que um fantasma te seguindo o tempo inteiro para que você possa levar um pedido de desculpas à um membro da família que fica à duas cidades de distância, ou simplesmente para entregar seu amado cão à um abrigo de qualidade. Sem contar nas vezes que uma adolescente que morreu sem nunca ter ido à um encontro resolve usar você de cobaia.
Eu nunca considerei tal habilidade como um dom. Muito pelo contrário, ajudar fantasmas só me dava dor de cabeça e cada vez mais distanciamento social. Meu melhor amigo, , é o único remanescente na minha vida que parece não se importar de ter um amigo que fala sozinho diversas vezes e vive desaparecendo sem mais nem menos. Nos conhecemos no ensino médio e ingressamos na mesma universidade, o que foi um alívio porque fazer novos amigos nunca esteve em nenhum tópico da minha lista de conquistas. Fora o , as únicas pessoas vivas com quem eu mantinha contatos recorrentes eram meus pais, Jane e… minha vó. Ok, talvez esta última não esteja mais viva.
Eu estava no quinto semestre de Medicina na Columbia University. A escolha do curso e da universidade tinham motivos plausíveis, ao menos para mim. Minha meta de especialização era acabar na Oncologia, o que me traria pacientes que esperariam pela morte e eu poderia, de algum jeito, incitá-los a resolverem suas pendências ainda em vida, já que visavam a morte iminente. Poderia ser egoísta, mas era menos um morto que voltaria para me pedir ajuda depois. A escolha de NY também não foi por acaso. Uma cidade grande poderia esconder talentos, e dentre estes talentos eu quero dizer pessoas como eu. Eu não entendia bem como a seleção de mortos acontecia para nós, mas eu torcia para que eles sejam bem distribuídos de acordo com o número de pessoas disponíveis. Era mais um plano para mantê-los longe.
A faculdade de Medicina deixava meus pais felizes, ao menos. Desde que eles me buscaram no Orfanato Melbourne, eu tenho sido motivo de orgulho em praticamente todas as minhas ações, mesmo quando meus desaparecimentos e surtos de rebeldias aconteciam frequentemente. Ou mesmo quando tive que ser buscado na delegacia diversas vezes entre o ensino fundamental e médio, com as acusações variando entre invasão de domicílio e desacato à autoridade. Mesmo nas situações difíceis em que eu era posto por causa dos mortos, eles dificilmente me davam uma crítica dura. Minha mãe chorava no travesseiro à noite, assim como eu sabia que meu pai bebia seu whisky mais do que o normal quando esses eventos aconteciam, o que me fazia pensar se eles se arrependiam de alguma forma por ter colocado um garoto estranho dentro de suas próprias casas. Na verdade eles se sentiam frustrados por não conseguirem a comunicação desejada comigo, o que admito também ser culpa minha.
A família era dona de uma companhia de advocacia bastante rentável em São Francisco. O nome do meu pai, Ryan , era creditado e citado em várias entregas de prêmios empresariais por toda a Califórnia, e era exemplo de gestão em vários outros estados. Os flashs dos eventos de gala, jantares executivos na sala e pessoas estranhas trocando minhas roupas me lembravam do legítimo sentimento de peixe fora d’água. A única solução para dar fim à exposição do único filho da família , era me tornar um gênio que deveria estar sempre estudando e se esforçando para a próxima prova ou um novo prêmio da feira de ciências.
Não deu outra, meus pais passaram a aceitar de bom grado que seu filho tinha outros interesses. Apesar disso, foi difícil convencê-los a me deixarem estudar do outro lado do país, e ouvi os choros da minha mãe por semanas, mas por fim eles concordaram, junto com a promessa de que me visitariam regularmente e que eu deveria ligar sempre. Isso também fazia parte do plano, visto que é difícil seus pais se frustrarem com suas atitudes estando tão longe.
Apesar de minha constante negação, meus pais insistiram que eu não fosse parar em um dormitório da universidade cheio de pessoas estranhas e com intenções desconhecidas. Guiados pela super proteção da minha mãe, eu residia em um apartamento bem localizado em Manhattan, no quinto andar e com janelas imensas do chão ao teto que me concediam uma vista panorâmica da cidade que nunca dorme. Tudo havia sido escolhido à dedo pela Sra. e eu não me atrevia a palpitar. Apesar de todo o esforço exagerado, eu gostava do meu próprio canto e, sem ignorar meu problema com os mortos, aquela foi a melhor decisão que deixei que tomassem por mim.
Em mais uma quinta feira, eu saía da biblioteca enquanto atendia uma chamada de no telefone.
— O que é dessa vez? — falei enquanto posicionava o celular no ombro e terminava de guardar os livros.
— Onde você está? Eu tô morrendo de fome e você ainda não deu o ar da graça pro almoço, e hoje tem aquela carne de…
— Você não tem membros ou dinheiro? Caso tenha membros, acho que você pode comer sem mim.
— Qual é, , você sabe que minha grana foi reduzida à zero no Queens semana passada. Pode me dizer ao menos onde está?
— Bem aqui.
Ele estava de pé no meio do refeitório e pareceu feliz em me ver.
— Por que demorou tanto? Achei que você estava sem aula nesse horário — ele disse quando me aproximei.
— Estava na biblioteca, andei preparando um artigo novo.
— Ah é? Sobre o que é dessa vez? Bactérias que produzem plástico? — perguntou enquanto digitava no celular.
— Não, é só um artigo simples sobre saúde pública que eu espero conseguir publicar no Citizen. Agora vamos te alimentar.
Nós entramos na fila da lanchonete que hoje parecia mais cheia que o normal. O cardápio era carne bovina, um dos poucos que me animava a vir para o almoço. Para o , tudo que fosse comestível era aceitável.
— Você viu o ranking semestral que saiu hoje? Parabéns, ficou no top 5 de novo — disse sem tirar os olhos do celular e sem nenhum tom de surpresa. Eu apenas bufei em resposta.
Todo começo do semestre, a Columbia divulgava um ranking dos alunos que foram mais bem sucedidos de acordo com o semestre anterior. Havia um para cada departamento e um dos alunos em geral da universidade. Como eu faço parte dos cinco primeiros desde o primeiro semestre, aquilo não me pegava mais de surpresa e me senti cansado só de lembrar que dali há algumas horas eu receberia uma ligação de felicitação vindo dos meus pais.
Estar entre os cinco primeiros sempre foi motivo de bajulação entre meus colegas de classe e professores, por mais que eu não desse a mínima pra isso. Contudo, não foi de todo mal; meus artigos eram elogiados pelos professores mais renomados e o reitor até havia me chamado pra jantar. Meu desempenho era um exemplo para todos.
Enquanto estava concentrado em algo como uma rede social, um vento gélido arrepiou os cabelos da minha nuca. Antes que eu pudesse constatar, uma voz rouca surgiu em meu ouvido:
— Olá!
Continuei olhando para frente, apesar de saber que isso não funcionaria por muito tempo. Pude sentir que ela virou o rosto para os lados, perdida. Abri meu celular, fuçando qualquer coisa sem sentido, torcendo para que ela percebesse que ninguém podia vê-la e se mandasse dali. Não era uma boa hora para lidar com mortos.
Infelizmente, ela não só saiu do meu lado, como começou a tentar tocar em e em tudo que aparecesse à sua frente. Para elucidar, quando os mortos tocam as pessoas comuns, elas apenas sentem no máximo aquele arrepio e um momento frio que gela a espinha. Os humanos para os mortos não eram muito diferentes: ao tocá-los, era como se tocassem em uma massa cinzenta, derretida, escapando de suas mãos. Mas eram ótimos pegando objetos, meus hematomas comprovam isso.
Pessoas como eu conseguiam senti-los totalmente — e jamais me pergunte porquê. Isso tornava muito mais fácil para os mortos nos acharem e nos fazerem de gato e sapato para cumprirmos suas malditas pendências. E era por isso que eu estava apavorado com a ideia daquele fantasma resolver me tocar naquele momento.
Eu vi tremer com os calafrios que o toque do fantasma produzia nele, o que o fez reclamar do clima, mas novamente fingi que não estava vendo enquanto nos aproximávamos das bancadas. No momento seguinte, deu um passo à frente e eu o segui, mas o fantasma não se mexeu, o que fez com nossos braços roçassem um no outro por um breve segundo.
Como um amador, aquilo fez com que eu olhasse diretamente pra ela e desviar o olhar no mesmo segundo. Tarde demais. Senti as mãos dela agarrarem meu braço direito.
— Você pode me ver! Ei! Você consegue me ver, não é?
Balancei o braço para sinalizar que me soltasse, mas ela me ignorou. Fechei os olhos, nervoso, implorando pra que ela não fizesse um escândalo aqui.
— Por favor, você precisa me ajudar! Eu não sei o que aconteceu, eu… Ninguém me vê… Eu morri…
Os olhos dela pairavam em uma expressão entorpecida, ela parecia lamentável. Virei os olhos para observá-la e vi uma menina de uns vinte e tantos anos, os cabelos ruivos desgrenhados, pálida como um papel. Ela usava um moletom com o brasão da Columbia.
Eu não podia dar atenção a ela de forma alguma naquele momento, mas ela parecia que não me deixaria em paz. Sinalizei com a cabeça do jeito mais discreto que consegui para que ela desse o fora, mas infelizmente ela pareceu não apenas entender o gesto como negar veemente segui-lo, mostrando isso agarrando meu braço com ainda mais força.
— Por favor, eu te imploro, me ajuda! Você precisa me dizer o que aconteceu, eu estava no meu dormitório, e de repente… — ela pausou sua fala, os olhos tão arregalados que já estavam me deixando em pânico. Ela parecia que iria surtar a qualquer momento.
A fila avançava, e ela não soltava o meu braço de forma alguma. Respirei fundo, tentando pensar rápido em como resolveria a situação. As pessoas ao meu redor riam e conversavam, não fazendo ideia do que estava acontecendo ali; mas se ela resolvesse pirar, eles iriam saber, de uma forma ou de outra. Ela agora cravava as unhas em minha pele, com uma força que eu sabia que era adquirida pelos mortos porque eles não eram mais… bem, humanos. Suas súplicas enchiam os meus ouvidos e mesmo minha comunicação pelo olhar não estavam adiantando.
— Agora não… — sussurrei o mais baixo que consegui, sem olhá-la, e agradeci por ninguém ter notado, tamanha era a falação do ambiente. Mas isso pareceu ter piorado a situação.
Vendo que eu realmente podia vê-la e ouvi-la, suas unhas cravaram tão fundo em minha pele que senti o sangue dar as caras e fui puxado como um boneco para o lado direito, bem onde havia pessoas com suas bandejas após pegarem a comida. O próximo cenário que vi foi minha roupa encharcada com o que parecia ser suco de laranja e meus joelhos batendo no chão, seguido de um grito agudo de uma garota que caiu à minha frente, com a mistura da comida que caiu sem dó em sua camisa e calça.
Todos os olhos presentes se viraram para a cena. estava estático, e vi em seu rosto que ele não sabia se ria ou se ajudava. Eu me sentia surpreso e ao mesmo tempo puto, e imediatamente virei os olhos para procurar a maldita que havia causado isso, mas ela havia desaparecido.
Senti um empurrão no meu peito e caí pro lado, voltando à realidade caótica.
— Você é maluco? — a garota à minha frente gritou, tentando se levantar sem escorregar nos restos de macarrão e torta de legumes destruídos — Você tem noção do que fez? Não acredito…
Ela bufava, indignada, e algumas garotas se aproximaram dela com guardanapos, todas olhando pra mim com um misto de choque e desprezo. Me levantei do chão rápido, torcendo pra que as pessoas seguissem suas vidas e esquecessem o show.
— Me desculpa, foi totalmente minha culpa — na verdade não foi — Eu te pago um outro almoço, como…
— Você é epilético? Como me atingiu dessa forma? Foi de propósito? — o tom de voz dela aumentava a cada pergunta, e suas bochechas estavam levemente vermelhas. Ótimo, tudo que eu precisava agora era de problemas com terceiros por causa dos mortos em plena universidade, o lugar onde eu havia feito todo o possível para ser uma zona quase intacta dos meus problemas extracurriculares.
— Claro que não! Eu já disse, eu sinto muito, eu posso te pagar o almoço, me deixa só…
— Não quero saber do seu dinheiro, imbecil. Tenho uma apresentação muito importante hoje e ela pode ter sido arruinada pela sua síndrome de Tourette. Portanto, se eu puder não te ver nunca mais na minha vida já é ganhar na loteria. Agora sai da minha frente.
Ela bateu no meu ombro ao sair e foi seguida por pelo menos três garotas, estas com olhares menos assassinos e posturas menos avantajadas. Fiquei em choque por pelo menos um segundo, até as funcionárias da limpeza me tirarem do local com comida destroçada por toda parte. Olhei em volta pela primeira vez e me senti como se estivesse nu, com tantos olhares direcionados a mim. Senti meu ombro sendo puxado em direção à saída e eu agradeci internamente, percebendo que minha fome já havia ido pro ralo àquela altura.

 



Capítulo 2 – Não use copos plásticos.
 

 

— Cara… o que foi aquilo? — perguntou quando chegamos ao banheiro do dormitório onde ele morava. Estava vazio, o que me deu a chance de arrancar a camisa e jogá-la na pia, bufando de tensão.
— Eu não sei, não foi de propósito… Acho que eu escorreguei.
— O que? Escorregou, tá doido? O chão estava tão limpo que eu poderia lambê-lo. Não tinha nada pra você escorregar.
É, só havia um fantasma.
— Eu não sei, acho que apenas me distraí — dei de ombros, torcendo para que esquecesse essa situação tão rápido como quanto aconteceu — Anda, me empresta uma camisa porque ainda tenho duas aulas depois do almoço.
— Cara, você tá legal? Não tá tomando nenhum desses remédios malucos pra ajudar na concentração, né? Essas coisas são perigosas, mano. E que negócio é esse no seu braço, tá sangrando…
— Até parece, não é nada, deve ter sido por causa da queda — dei uma risada e arranquei meu braço de sua vista enquanto abria o pequeno armário dele, pegando a primeira camisa preta que estava semi pendurada em um cabide — Estou perfeitamente saudável, foi apenas um pequeno acidente.
— Você tem ideia em quem resolveu causar um pequeno acidente? — ele perguntou e eu fiquei calado — Cara! Aquela era !
— Esse nome deveria significar alguma coisa pra mim?
— Já te falei dela algumas vezes, das vezes que vi ela e as amigas no Square’s, às vezes no Queens, do Jimin…
— Ah… Claro — O único momento em que não falava de mulheres era quando estava comendo ou jogando, então eu aceitei em meu íntimo que jamais gravaria qualquer uma delas porque havia seriamente coisas mais importantes a me preocupar — Espero que pelo menos ela esqueça disso tudo muito depressa.
— Eu torço por isso, cara. Essas pessoas do Jornalismo não são de esquecer algo fácil, lembro de uma garota que eu peguei do departamento…
Como um botão em meu corpo, apertei no desligar e deixei que as palavras de não fossem absorvidas pelo meu cérebro. De repente me lembrei do fantasma e de que ela me procuraria de novo. Isso era certo. Assim como sua roupa entregava que ela era aluna da Columbia e havia morrido há pouco tempo, a notícia se espalharia pelo campus mais cedo ou mais tarde. Dessa vez eu estaria preparado, e torcia para que seu problema fosse apenas uma carta ou um abraço. Terminei de vestir a camiseta de , limpei o que deu da minha mochila e fui para a aula.
As próximas três horas passaram voando, mesmo eu tendo que me concentrar mais que o normal para não pensar na aparição repentina que poderia acontecer. Era fim de tarde e os ventos de outono já começavam a ser sentidos, o que me lembrava do casaco que havia deixado no banco do carona. Sem poder adiar mais o problema, dispensei o professor de Histologia que insistia em comentar sobre minha última análise das lâminas da aula anterior e fui andando à passos largos para o estacionamento, que ficava em um grande pavilhão coberto na parte de trás da universidade.
O sol ficava cada vez mais apagado e as luzes do estacionamento ainda não estavam acesas, o que me garantia um momento a sós na escuridão que se formava. Havia estacionado meu Jeep Renegade atrás de uma pilastra e não havia outros carros por perto, pelo menos por enquanto. Fechei a porta do motorista ao entrar e esperei.
Dois minutos depois o ar pesou, gélido e macabro por dentro do veículo.
— Tá legal, quem diabos é você?
Ela parecia menos desesperada do que mais cedo, com os olhos menos perdidos, mas ainda confusa.
— Eu… Você está realmente me vendo? O que…
— Ok, vamos pular a parte óbvia da coisa. Eu te vejo, eu te sinto, como ficou bem claro mais cedo, e você está morta. O que posso fazer por você?
— Morta? Mas como… — seu rosto começou a enrugar-se em um choro — Como isso aconteceu? Eu estava apenas…
— Olha só, preciso que me conte exatamente o que se lembra. Ainda dá tempo de participar de uma confraternização no outro lado, então preciso que você se lembre porque ainda não foi pra lá.
Era nesses momentos que meu esforço ia na tentativa de juntar toda a compaixão e paciência que eu poderia reunir. A última coisa que eu queria era perder horas com um fantasma que não sabia, bem, que estava morto.
— Ash, ele apenas… Ele disse que as pílulas eram pra dormir, eu estava muito estressada com o projeto de finalização do curso, com o trabalho, então eu tomei. Acabei adormecendo, eu… Foi isso.
Os olhos dela eram vazios enquanto tentavam se lembrar de tudo.
— Quem é Ash?
— Um cara do departamento de ciências da saúde… Ele cursa Farmácia, eu acho. Não sei muita coisa sobre ele, e esse nem é seu nome verdadeiro. Estávamos saindo há duas semanas, ele me vendeu uns remédios pra dormir…
— Que remédios?
— Não consigo me lembrar, ele me entregou em uma caixa sem nome.
Revirei os olhos, prevendo o caminho que viria pela frente.
— Escuta, qual é o seu nome?
— Me chamo Margot. Margot Abbott.
— É o seguinte, Margot, eu sinto te dizer que você de fato morreu, e esses remédios que você tomou parecem ser a causa. Agora o que te falta saber para enfim atravessar o limbo…
— Mas eu nem tomei tantos assim. Ele me disse para tomar apenas três comprimidos, e que isso bastaria para que eu dormisse por um dia inteiro. Ele disse… — ela havia recomeçado a chorar, dessa vez mais alto — Eu confiei nele. Ele disse que não me faria mal.
Suspirei, cavando até o fundo dos meus sentimentos para tentar resolver aquela situação. Talvez não seria tão fácil quanto eu pensava.
— Tudo bem, o que você quer? Vingança? Podemos discutir os termos.
— O que? Não. Eu só… Estou confusa. Eu havia planejado tudo, meu emprego em Wall Street, meu apartamento em Manhattan, apresentar Ash pros meus pais…
— Ei, não é hora de pensar nessas coisas. Você precisa se concentrar para o que ainda está fazendo aqui, e o que precisa resolver para alcançar o tal paraíso, então precisa me ajudar. O que mais poderia prendê-la nesse mundo?
— Eu não sei. Eu passei a vida toda estudando e não fui a uma festa de fraternidade sequer. Fui beijada apenas uma vez no ensino fundamental e agora por Ash e nunca fiquei de porre, ainda sou virgem…
— Vai sonhando, garota! — falei mais alto do que pretendia e visualizei uma pessoa passando em silêncio alguns metros a frente do meu carro, e aquele olhar que me lançou com certeza confirmou que ela me achava maluco — Meu contrato não inclui participar de orgias ou reencenar American Pie, então eu sugiro que você pense melhor.
— Não é isso! Preciso achar o Ash, preciso saber o que tomei… Preciso saber como exatamente morri — ela suspirou, e balançou a cabeça como se sentisse dores — Ele é um cara popular, frequenta as festas e vende outros produtos. Tenho certeza de que não vai ser difícil encontrá-lo. Preciso saber se foi ele que me matou… — a voz dela falhou.
— Ei, ei, vamos com calma. Você parece ter morrido há pouco tempo, com certeza já estão sabendo da sua morte. Quanto à causa, autópsias servem pra isso. Tudo vai ser divulgado, Ash ficará sabendo. Estamos entendidos?
— Não — ela balançou a cabeça — Preciso saber o que era aquilo. Preciso saber se ele sabia o que estava me dando, só assim posso ficar tranquila.
Ela enterrou o rosto entre as mãos e os ombros se mexeram para recomeçar mais uma crise de choro. A luz forte do meu telefone piscou e vibrou com uma mensagem de , chegando uma após a outra. Para me distrair um pouco de Margot, li as mensagens que apareciam no visor: “Onde você está?”, “Estacionamento, não é?”, “NÃO OUSE TER IDO EMBORA SEM ME DAR CARONA”, “Me deixe na Park Avenue”, “TÁ AÍ????”, “VOCÊ NÃO ACREDITA NO QUE ACABEI DE SABER”…
Mesmo que eu não respondesse, estaria no estacionamento de um jeito ou de outro e isso significava que eu teria que me livrar de Margot naquele instante.
— Tudo bem, eu vou procurar esse tal de Ash e me certificar de saber o que ele te vendeu, e se sabia o que estava vendendo. Agora você precisa sumir do meu carro.
— Mas… Qual é o seu nome?
, muito prazer. Agora… — apontei para a porta do carona.
— ela repetiu meu nome e deu um sorriso pela primeira vez — Você parece ser um cara legal, . Eu confio em você pra me ajudar. E… Sinto muito pelo seu braço. Muito obrigada.
Ela evaporou na mesma hora que as luzes do estacionamento finalmente se acenderam e o topo da cabeça de surgiu no meio dos carros, correndo mais do que o normal.
Não demorou para que ele me avistasse já que eu normalmente estacionava no mesmo lugar. Ele entrou ofegante, com as mãos no peito, e abriu a janela.
— Cara… tem um cigarro?
— O que aconteceu? O prédio não é tão longe — respondi enquanto fuçava meu porta luvas e tirava um maço, entregando-o em seguida — Você precisa parar de fumar.
— Como você conseguiu parar? — ele respondeu enquanto pegava um isqueiro no bolso da frente da mochila.
— Não parei — dei de ombros, acendendo um maço e tragando logo em seguida. A nicotina tirava todo meu estresse recém passado com Margot.
voltou a falar depois de respirar algumas vezes.
— Cara, você não vai acreditar. Uma garota foi encontrada morta no dormitório feminino, parece que ela morreu hoje, um pouco antes do almoço. Está uma loucura lá dentro…
— É mesmo? Quem é a garota? — tentei reunir todo o interesse que podia fingir.
— Uma tal de Margot, ela cursava Direito… Cara, você tinha que ouvir o que disseram sobre como ela estava. Um horror. Parece que ela teve uma overdose, então tem vômito pra todo lado, ela está roxa, os olhos estavam abertos — ele tremeu por uns instantes — Um filme de terror. Nem imagino como a pessoa que a encontrou ficou…
— Uma overdose? — perguntei, tentando acumular o máximo de informações possíveis — Eles disseram que foi isso?
— Ah, eles ainda não sabem de nada, a ambulância acabou de buscar o corpo. Eles devem examiná-la no Hospital Universitário, a universidade fez questão de não causar alarde enquanto eles resolviam isso. Mas já é um dos assuntos mais comentados do twitter, também publicaram no fórum…
Enquanto falava, eu tentava encaixar as peças. Provavelmente Margot havia tomado os remédios na noite de ontem e morreu um pouco antes do almoço, e as pessoas alegavam que parecia ter sido overdose, mas ela não havia tomado pílulas o suficiente para isso. Tentei expulsar da minha mente o quanto tudo aquilo parecia estranho e pensar apenas em bolar uma trilha onde eu encontrava com Ash e o fazia me falar de alguma forma se sabia que o produto que havia vendido para Margot podia matá-la. Não que perguntar de frente resolveria alguma coisa, no mínimo ele me acharia maluco. Tentaria pensar em algo assim que possível.
Deixei na Park Avenue, a umas quadras da onde uma tal Emma morava, não fazendo qualquer esforço para lembrar de mais informação do que isso. dizia estar muito apavorado para voltar ao dormitório naquela noite. Se ele soubesse que eu havia sido informado do incidente pela própria vítima, ele estaria mais traumatizado.
Minha rua estava calma e quieta naquela noite, o que era comum numa quinta considerando que eu morava em uma área residencial sem muitos universitários. A vida badalada de NY começava cedo, e, mesmo sem eu ter conhecimento do cronograma geral da cidade, teria de dar um jeito de me enturmar, mesmo que temporariamente, para achar Ash.
Mesmo na era digital, é difícil achar uma pessoa que é conhecida sob um nome falso. Margot não havia me dado muitos detalhes sobre o cara, e eu não tinha qualquer interesse em encontrá-la antes de obter a informação que ela desejava. Poderia perguntar ao , mas eu tinha grande receio por sua boca ser maior do que o próprio rosto, e pretendia levar esse caso com a máxima discrição possível.
Ao chegar em casa, limpei o pequeno ferimento em forma de pequenas luas vindas das unhas de Margot no meu braço e tomei um banho. Entrei no fórum pela primeira vez e me informei sobre o caso daquela tarde, mas não havia nada de muito relevante; ela tinha sido encontrada pela colega de quarto, uma garota chamada Naomi Bailey que cursava Arquitetura. A única foto publicada era do corpo de Margot envolto em um saco preto e uma enorme faixa amarela atravessando a porta do dormitório. No final da matéria, havia um comunicado que dizia que a autópsia só ocorreria depois de uma autorização por escrito dos pais de Margot, que haviam sido avisados imediatamente e iriam tentar se deslocar o mais rápido possível à NY. Isso poderia atrasar ainda mais os meus planos de me livrar dela, por isso as soluções que me surgiam não eram nada confortáveis.

***
A Columbia University regia um jornal que era administrado pelos próprios alunos e ficava localizado no departamento de Jornalismo. Prezando pela abolição das notícias em papel e consequentemente a preservação das florestas, eles mantinham um site bem informativo e claro, que também chamavam de fórum. Lá estavam todas as informações sobre a Columbia e fatos importantes que aconteciam por lá, como eventos, congressos, simpósios e, claro, o top 5 dos alunos. Cada aluno tinha seu próprio login e funcionava como uma rede social, porém restrito apenas aos alunos da universidade e com postagens feitas apenas pelos funcionários do jornal. Se existe um lugar onde você poderia achar tudo sobre algum aluno da Columbia, esse lugar era o Citizen Co.
Claro que eu não esperava conseguir informações sobre Ash de uma forma tão descaradamente errada, mas esperava que alguma ideia aflorasse. Eu já havia visitado o Citizen algumas vezes, quando meus artigos precisavam de alguma correção e eu tinha que me deslocar até a sala do professor responsável pela gestão do jornal, o Sr. Miller. Hoje eu iria submetê-lo a uma análise do novo artigo que eu havia preparado ontem, mas minha maior preocupação se ele iria publicá-lo ou não, agora não me incomodava tanto.
Chegar ao Citizen significava estacionar em um espaço apertado e atarracado de bikes e motocicletas. Ele ficava localizado próximo ao prédio das exatas, que era enorme e havia uma quantidade absurda de pessoas correndo. Os jornalistas em formação não eram diferentes.
O prédio era um dos menores, mas era bem estruturado e limpo. As paredes estavam com a pintura em dia e, pela janela de vidro onde se podia ver o escritório, os equipamentos eram bem modernos e atendiam às demandas. O Citizen era uma referência no ramo de jornais universitários sem fins lucrativos pelo país. Pelo menos uns dez alunos ali presentes seriam os próximos âncoras da CNN e editores chefes do New York Times.
A porta branca no final do corredor estava fechada, mas visualizei a correria das pessoas pela janela de vidro ao lado da porta. Elas atendiam telefonemas, digitavam, gritavam umas com as outras de uma ponta à outra da sala, o que fez com que absolutamente ninguém me notasse assim que entrei. Virei à direita e segui para a porta com o nome “Prof. Dr. Jonah Miller” e bati duas vezes, ouvindo um “entre” em seguida.
— Senhor ! — ele tirou os óculos e se levantou da cadeira com um grande sorriso.
— Bom dia, professor, como vai? — apertamos as mãos e ele apontou para a cadeira à sua frente. Sua mesa estava tão abarrotada que eu fiquei em dúvida se ele podia realmente me ver.
— O que o traz aqui tão cedo, meu jovem? Ainda não trouxeram o meu café, estamos um pouco apertados hoje, mas aceita uma água, um chá…
— Não, professor, tudo bem. O prof. Dalton me pediu pra escrever mais um artigo, eu o terminei ontem, então eu vim trazer para o senhor dar os toques finais nele — tirei a pasta da mochila e a coloquei em cima da mesa.
— Ah, o artigo sobre saúde pública, claro… Dalton me informou ontem — ele voltou a colocar os óculos e passou os olhos por cima do papel — Muito bem, muito bem… Farei os preparativos, é claro. Mas infelizmente creio que ele não poderá ser publicado hoje, meu caro. Você está sabendo do que aconteceu em nosso campus ontem? — ele baixou os óculos até o meio do nariz e me observou.
— Ah, claro… A garota. Eu fiquei sabendo.
— Pois é, pois é, uma tragédia — ele suspirou — Por esse motivo nossa equipe está trabalhando dobrado hoje, praticamente todos deixaram os assuntos secundários de lado e estão se concentrando apenas no caso da Abbott. A CNN veio aqui e foi uma dor de cabeça mandá-los embora, então estamos bem atarefados. Mas pode deixar que a publicação do artigo não passará muito do prazo.
— Não se preocupe com isso, senhor — eu dei um sorriso leve — Tudo vai se resolver, eles pegarão o culpado…
— Culpado? Não há culpado, meu jovem — ele soltou uma risada divertida, como se gostasse do fato de ter de explicar o caso pra mim — Isso é um caso claro de suícidio, oh meu Deus, encontraram a pobre garota sufocada no próprio vômito. Não me espanta os pais estarem enrolando para virem reconhecer o corpo, e não duvido que não vão sequer autorizar uma autópia. Céus, o uso de drogas entre os estudantes têm aumentado significamente nos últimos anos, seria uma ótima sugestão se o prof. Dalton lhe pedisse para escrever sobre isso, os riscos são sérios…
O sr. Miller tagarelou por mais alguns minutos enquanto eu balançava a cabeça e concordava. Jogar pra cima dele como se eu mal tivesse lido sobre o caso foi uma boa, já que ele não se incomodava em mostrar serviço. Aquilo era uma das confirmações que eu tinha que coletar para resolver aquele caso: a autópsia não sairia tão rápido como eu pensava, e eu não podia esperar tanto com um fantasma atrás de mim.
Após um breve bate papo sobre minhas notas e minha futura residência no hospital universitário, me despedi do sr. Miller e me preparei para sair da sala dele. O barulho havia aumentado no pequeno espaço do escritório e o telefone não parecia parar por um minuto. Fechei a porta atrás de mim e avistei um bebedouro ao lado, e percebi como minha garganta estava seca. Havia uma placa acima do galão escrita com letras em caps lock e negrito: “NÃO USE COPOS PLÁSTICOS, TRAGA SUA PRÓPRIA CANECA”. Infelizmente, eu teria de beber água em outro prédio.
Como se tivesse brotado de alguma parede divisória do ambiente, uma pessoa passou andando a passos largos ao meu lado enquanto eu saía da frente do bebedouro. O esbarrão foi tão intenso que eu vi papeis voarem e meu braço tentar segurar em algo antes que eu atingisse o chão, e infelizmente esse algo foi o galão cheio de água que me deu um banho e na pessoa que constatei ter caído exatamente em cima de mim.
Antes de mais nada, dessa vez fantasmas não tiveram nada a ver com isso. A pessoa que estava em cima de mim era humana e uma garota com uma expressão tão estupefata quanto a minha. Seu cabelo estava meio molhado meio seco, e seus olhos estavam cravados nos meus. O barulho do telefone no ambiente continuava, mas as conversas cessaram, o que demonstrava que todos estavam olhando pra nós. Espera, esta não é…
Tarde demais. Ela pareceu ter se lembrado no mesmo momento que eu e toda a situação caótica do refeitório veio à minha mente.
— Não acredito! — ela bufou, saindo de cima do meu peito como se quisesse que eu atravessasse o chão. Minha cabeça doeu com o que estava por vir — Como é possível que até aqui você decide arruinar o meu dia? O que está fazendo aqui, afinal?
— Olha, você deveria olhar pra onde anda — eu disse enquanto tentava salvar os papeis menos encharcados do chão.
— EU deveria olhar por onde ando assim como olhei ontem? Me dá licença — ela arrancou os papeis da minha mão e olhou pra mim — Você tem ideia do trabalho que foi escrever e corrigir esses depoimentos? Tem ideia do tamanho de tarefas que temos que fazer hoje? Mas é claro que não, você deve ser algum aluno turista que está aqui pra pedir alguma revisão de trabalho mal feito ao sr. Miller, e eu já vou te avisando que pessoas como você não são o tipo dele, o seu empenho precisa ser mais…
— Mas o que está acontecendo aqui? — o sr. Miller abriu a porta, olhando para mim e garota — , por que está brigando com o rapaz?
— Professor, esse cara causou o maior estrago nos depoimentos que eu havia coletado sobre a ação da polícia, eu iria levá-las à edição, e aí…
O sr. Miller levantou a mão direita e se calou na mesma hora. As bochechas dela estavam vermelhas e ela lançava olhares de desprezo em minha direção. Agora eu percebia como a água que havia caído sobre nós estava gelada e ela estava sem nenhum casaco.
O sr. Miller se virou para mim e para ela simultanemanente.
— Não discutam aqui, há muito trabalho a ser feito. Sei que o sr. não fez de propósito, inclusive ele estava de saída — ele deu umas batidinhas no meu ombro — Quanto à você, srta. , pode se ocupar com uma nova tarefa que lhe darei agora — O prof. Miller entrou na sala tão rápido quanto saiu e trouxe uma pasta consigo — Digitalize, edite e faça todo o processo de publicação do artigo deste jovem, que foi o que ele veio fazer aqui hoje, caso responda às suas dúvidas sobre a presença dele aqui.
olhou de mim para o professor e pegou a pasta, passando o olho rápido sobre o conteúdo.
— Você… é o ?
— O próprio — o sr. Miller respondeu — Agora se me dão licença, preciso atender à milhares de chamadas e e-mails de emissoras sem mais o que fazer querendo nos importunar por informações que ainda nem temos — ele suspirou e se virou para os demais que ainda nos observavam — E vocês aí! Voltem ao trabalho, ou vão levar pontos de demérito! , tenho certeza que pode resolver o assunto do sr. e voltar ao que estava fazendo antes, confio em você, é uma das melhores graduandas que temos. Agora chame a moça da limpeza para dar um jeito nessa bagunça. Mil perdões por todo esse incômodo, sr. . Volte em segurança pro departamento — ele deu um sorriso caloros em minha direção e em seguida entrou para sua sala.
A expressão de era um misto de choque e desgosto. Estava claro que era a primeira vez que ela via o sr. Miller falar com alguém daquela forma.
— Então… Você está bem?
— Você pode sair, por favor? Preciso chamar o serviço de limpeza e você está no caminho. Pode deixar que seu artigo será publicado assim que possível.
Ela deu as costas e desapareceu por outra sala, me deixando à vista de alguns outros remanescentes que ainda observavam a cena. Não demorou muito para que eu retornasse do meu estado estático e seguisse pra porta de saída, farto de mais uma confusão com terceiros em um tempo de recorde, o que era inédito pra mim. Geralmente eu entrava em situações constrangedoras e problemáticas apenas com os mortos.
Na saída do prédio, comecei a pensar que teria que recorrer ao mais uma vez no dormitório para trocar minhas roupas. O mesmo casaco que eu havia esquecido ontem estava no mesmo lugar no banco do carona, e de repente quis pegá-lo e oferecê-lo à tal , mas a ideia passou tão rápido quanto veio. Também porque minha atenção foi presa a outra coisa.
Em um mural de madeira na parede ao lado da porta de vidro da entrada, estavam colados cartazes e panfletos. Havia divulgação de eventos jornalísticos, como congressos e visitas técnicas, mas havia um cartaz colorido e maior do que todos com os dizeres: “FESTA NA GIBBON’S! VENHA E TRAGA MAIS UM & A CERVEJA! SEXTA 20H!”.
A ideia mais desequilibrada passou pela minha cabeça. Me lembrei das palavras de Margot, que eu encontraria Ash em todas as festas da universidade e onde as pessoas geralmente se reuniam. Sem acreditar no que eu estava prestes a fazer, entrei no carro e liguei para .

 


Capítulo 3: Qual é o segredo?
 

 

Eu estava realmente preocupado que não conseguisse encontrar a biblioteca nem mesmo com o Google Maps. Sua demora demonstrava isso, e seu histórico de ser um dos poucos alunos que ainda não havia pisado na biblioteca também.
Depois de meia hora, vi ele entrar meio perdido pela porta da frente e olhar para os lados. Acenei do fundo do salão e ele foi se aproximando mais rápido à medida que me viu.
— E aí, cara? O que houve? — falou especialmente alto enquanto afastava a cadeira à minha frente e recebemos a primeira advertência das pessoas com um “shh” bem agressivo e eu me perguntei porque diabos havia marcado de encontrar com logo em uma biblioteca — Foi mal — ele sussurrou para nossos vizinhos mais à frente — Galera bem nervosinha…
— O pessoal da computação não costuma visitar esse espaço da universidade, não é mesmo?
— Ei, esse negócio de livros é coisa do passado, isso aqui é mórbido, cara — ele olhou em volta com uma expressão de desprezo — Mas e aí, o que tá pegando? Tá quase na hora do almoço, quer ir ao Amadeus? O cardápio de hoje não está dos melhores… Ei, cara, sua roupa…
— Vamos sair na sexta à noite.
piscou duas vezes.
— O que?
Abri o banner de divulgação da festa que havia visto mais cedo no prédio do Citizen no computador e virei para .
— A festa no Gibbon’s? Cara, essa é uma das maiores fraternidades do lado leste! Não acredito — ele soltou uma risada, o que nos rendeu uma segunda advertência — Foi mal — ele sussurrou mais uma vez, mas não parou de sorrir — Você tá legal, ? Por que de repente você quer virar um universitário?
— Não sei, de repente quero ir nessa — dei de ombros, agindo com indiferença — Vai dar bastante gente?
— Oh, pode apostar que sim! A festa no Gibbon’s não decepciona nunca, e dessa vez eu posso ir sem os fracassados do meu departamento. Cara, preciso postar isso… — ele pegou o celular e começou a digitar sem fim.
— Não precisa publicar qualquer coisinha, infeliz digital. Que exagero…
— Não é qualquer coisinha! Olha a situação, vai à uma festa, meus amigos! Finalmente vai dar às caras!
— Prefiro que você pare de falar como se fosse um grande evento. E é claro, não poste nada! Já ouviu falar em invasão de privacidade?
— Você sabe o que é, grande gênio? Não se faça de inocente, você é a celebridade sem rosto, o seu nome é o primeiro no fórum, se liga! E o melhor de tudo: as pessoas não vão se decepcionar quando te virem, com certeza — ele soltou mais uma risada enquanto digitava.
— Mas o que… — franzi as sobrancelhas, surpreso com as informações.
parou de digitar e olhou pra mim, arregalando os olhos ao ver que eu estava realmente confuso com tudo que ele estava despejando pra cima de mim. Eu achei que era apenas uma festa.
— Cara, tá falando sério? — ele suspirou — Você não pode esperar que as pessoas vão passar batido pelo aluno número um. Elas vão se surpreender em saber que você não é um nerd esquisito acneico, na verdade, você não é tão desagradável de se olhar, as garotas vão cair pra cima de você, então pode se preparar. Talvez sobre algumas pra mim…
— Esse não é exatamente meu objetivo…
— Isso não importa, meu amigo, apenas vai acontecer.
— Se você diz — dei de ombros, e fechei meu computador — Agora, vamos almoçar. E, sim, vamos no Amadeus.
deu um gritinho animado, o que fez com que recebêssemos a última advertência antes de sairmos da biblioteca.

***
É complicado quando um suicídio acontece no seu campus. A pessoa e seus possíveis motivos viram o assunto número um no final da aula, nas refeições, nos laboratórios, corredores, em tudo. O caso de Margot não havia ganhado proporção nacional — afinal, ninguém estava interessado em uma garota que havia se matado por “não aguentar a pressão”. Pelo menos foi isso que a mãe dela havia dito em uma entrevista ao Citizen, como bem foi publicado e disseminado pela cidade inteira. Os pais de Margot realmente negaram a autópsia, disseram que não queriam mais viver aquele pesadelo. Haviam flores e velas acesas na entrada de seu quarto no dormitório feminino, e também em seu armário. O departamento de Direito havia feito uma homenagem à aluna formanda e o reitor havia dado uma palestra sobre saúde mental e os perigos dos narcóticos.
Não conversei com Margot desde o nosso trato do carro. De vez em quando eu a via vagando pelos corredores, olhando as pessoas que colocavam suas flores e às vezes sentada na biblioteca. Eu não fingia mais que ela não existia — sabia que ela estava ali, e sabia que ela sabia; eu só não queria ser cobrado pelo nosso acordo, e desde que mostrei o cartaz da festa de sexta pra ela, ela pareceu ficar mais tranquila. Com tudo isso, foi uma semana bem agitada. Pelo menos até na quinta feira. Na sexta, todos só falavam em uma coisa.
Nunca havia me arrumado para uma festa na vida. Na verdade, eu sempre fui mais do tipo caseiro que sai pra comer de vez em quando com os amigos, tirando a parte do plural porque só havia feito isso com e meus pais. Eu gostava de visitar lugares novos, e principalmente recém construídos, lugares onde eu tinha certeza que ninguém havia morrido e deixado algo para trás. Construções antigas eram o lugar que eu mais evitava na vida — geralmente costumavam ser um antro de reuniões de fantasmas sem fim. Então vocês podem imaginar como fiquei quando soube que a Gibbons ficava em uma antiga propriedade do século XVIII restaurada e magnífica.
O quintal da frente estava infestado de pessoas chegando e carros estacionados nas ruas cogestionavam o pequeno trânsito. Parei o Jeep a uma quadra de distância, torcendo para que o efeito do álcool não acionasse o vandalismo de ninguém naquele dia.
— Como eu esperava! — disse fora do carro — Hoje vai ser épico!
Dei uma risada enquanto pegava meu casaco no banco de trás, e olhou pra mim.
— O que está fazendo?!
— Pegando meu casaco? — respondi — Estamos às portas do inverno, caso você não tenha percebido…
— Tá maluco? — ele se aproximou e devolveu meu casaco ao carro — Lá dentro vai estar um forno, , eu te garanto. Vai ser QUENTE — ele soletrou a palavra lentamente — Deixa alguém além do seu espelho ver um pouco mais desse corpo, tá legal? Levanta as mangas dessa camisa assim, desse jeito, deixa as garotas olharem essas tatuagens legais também, e dá um sorriso que me convença. Agora vamos nessa.
Ele puxou meu braço para andarmos mais rápido. Cada vez mais perto da enorme porta dupla de madeira na entrada, os ombros já começavam a se esbarrar e nós tínhamos que nos apertar um pouco para entrar. Finalmente lá dentro, percebi que estava certo quando frisou que estaria quente. O vento gélido lá de fora não conseguia penetrar e ganhar força com tanta gente se esbarrando e literalmente se esfregando, dançando com o som altíssimo que tornava os gritos de quase inaudíveis e garotas com os seios de fora em cima de mesas. Em menos de cinco minutos já haviam colocado um copo de plástico vermelho na minha mão e de , com um líquido estranho dentro.
— Manda ver, ! — gritou em meio ao som, e em seguida fez uma contagem com os dedos até três e eu havia entendido o recado. O líquido desceu rasgando a garganta, quente e forte, de uma só vez. Minha intuição dizia que era melhor não saber o que acabei de tomar.
disse que precisávamos de mais bebidas, e exigiu que fôssemos à cozinha, que estava apinhada de gente que aparentemente haviam pensado o mesmo que nós. Haviam vasos e recipientes térmicos espalhados por toda parte, que continham vários tipos de cervejas e vodcas. pegou duas Budweiser dentro de uma das bolsas ao lado da pia e entregou uma pra mim, junto com um cigarro, que também aceitei.
estava muito animado. Desde o ensino médio, eu já havia visto todos os seus lados possíveis, mas sabia como ele era o típico cara que tenta se enturmar e nem sempre consegue. Ele vestia um jeans claro e uma camiseta branca, junto com uma jaqueta bomber ridiculamente estampada que eu particularmente não me atreveria a usar. Ele olhava cada garota minuciosamente que passava e tentava puxar assunto, nem sempre dando certo.
Depois de uma hora naquele lugar, eu decidi que era o momento de colocar meu objetivo em prática: achar Ash. Todas as formas que eu havia pensado eram no mínimo estranhas e eu não podia fazê-las sozinho. Infelizmente eu teria de fazer a última coisa que eu queria: falar com as pessoas.
Subitamente, saiu do meu lado e se meteu em uma roda de garotas a alguns metros de nós. Ele já havia bebido o bastante para começar a passar vergonha, mas eu não ia julgá-lo — era ótimo que ele estivesse distraído. Precisava pensar em resolver o meu problema, e me mandar daqui o mais rápido possível.
Comecei a olhar em volta. Depois que chegamos, eu e perambulamos um pouco dentro da fraternidade, e agora estávamos em um cômodo amplo entre o jardim com a piscina e a cozinha de inox, agora com menos pessoas, depois de as bolsas térmicas serem distribuídas pela casa. À esquerda do cômodo, havia uma imensa escada que levava a um segundo andar, onde havia pessoas conversando e casais se beijando por toda parte, e alguns terminavam de subi-la, o que imaginei ser o andar de quartos. A luz estava baixa, com as lâmpadas de led giratórias despejando feixes coloridos por toda parte, o que diminuía meu campo de visão.
Eu estava parado no meio de toda aquela gente, ainda com uma longneck na mão e tragando um cigarro, pensando por que diabos os mortos me forçavam àquilo quando voltei a olhar e procurar por , e acabei olhando mais adiante, para a cozinha. Ela estava parada junto das mesmas garotas do refeitório, com o quadril encostado na bancada e um copo vermelho na mão, sorrindo pela primeira vez. Pareceu virar a cabeça na mesma hora que eu, e olhou na minha direção.
Mesmo com pouca luz, pude ver seu sorriso sumir, e por algum motivo inexplicável não consegui me desfazer desse instante. Continuei olhando-a, como se quanto mais eu fizesse isso, talvez ela voltasse a sorrir como antes. Ou talvez eu torcia para que ela simplesmente virasse o rosto e esquecesse que eu estava ali.
No entanto, não consegui ver sua próxima reação, pois fui abordado por e mais ou menos umas cinco garotas, que me rodearam como predadoras, todas elas sorrindo admiradas pra mim.
— E aí, , adivinha só: eu contei pra essas gatas que tinha vindo com meu melhor amigo, o próprio JungkookJeon, e elas não acreditaram — ele balançou a cabeça como se fosse um absurdo — Aí eu vim te mostrar pra elas…
Uma das garotas deu um empurrão de leve em para que ficasse na minha frente. Ela tinha um cabelo loiro longo e liso e usava um batom vermelho.
— Olá, sr.)— ela tinha um grande e sedutor sorriso no rosto, e elas se amontoaram imediatamente em mim — Eu e minhas amigas estamos no segundo ano de medicina e confesso que você sempre foi minha inspiração. Você poderia nos dar umas dicas, falar sobre o estágio...
As palavras seguintes dela foram parcialmente ouvidas graças ao aumento súbito do som, que já estava absurdo. Tentei dialogar por alguns minutos, mas, vendo que era uma missão quase impossível, as garotas nos puxaram para um local mais afastado do meio do salão, no jardim, onde estava concentrado uma menor quantidade de pessoas do que lá dentro. Também estava mais frio, o que explicava.
Eu geralmente sou um ótimo observador. Também pudera, era quase uma profissão prestar atenção redobrada em todos os lugares que eu pisava, sempre me preparando para alguma abordagem inesperada. Isso me fez ser bom em observar as pessoas e suas intenções — isso não era muito, mas me fazia entender completamente o motivo das vinganças que eu precisava inflingir aos outros por causa dos mortos —, e com toda certeza a garota loira já havia ultrapassado o limite das chamadas segundas intenções. E como eu precisava reunir toda minha compaixão e consideração para serem usadas nos mortos, não sobrava muito na hora de lidar com os vivos.
Por causa disso, eu não hesitei em treinar minhas melhores expressões para demonstrar interesse em tudo que vinha daquela garota. Nós nos sentamos mais afastados de e das outras garotas que, por incrível que pareça, estava conseguindo distraí-las muito bem — ou elas já haviam aceitado que a amiga havia levado a melhor.
Fiz o meu melhor para encarar bem a situação onde ela tagarelava sobre qualquer coisa de seus interesses pessoais — sempre me ligando à eles — enquanto a própria dava um jeito nada discreto de me apalpar onde conseguisse enxergar na luz fraca. Senti ela chegando cada vez mais perto de mim na espreguiçadeira à beira da piscina, e com certeza qualquer coisa que envolvesse me atracar com uma garota desconhecida não estava nos meus planos.
— Então... Becca — sorri aliviado ao me lembrar do nome — A sua história sobre o experimento de difusão simples na célula foi incrível. Deve ter sido muito trabalhoso, estou realmente impressionado.
— Jura? É uma honra de verdade escutar isso vindo de você, visto que eu peguei a ideia de um artigo seu, que por sinal foi um dos melhores até hoje, o jeito como você explicou sobre a osmose, e as aqu... — mais uma mão acariciava meus braços sem permissão.
— Mas então... — eu limpei a garganta e tentei novamente me afastar — Deve ter sido difícil esse processo de preparação do experimento, para apresentar também, sei bem como a Prof. Fitz pode ser rígida. Devem ter sido várias noites sem dormir, bastante pressão...
— Ah, realmente foi. Quase pensei em desistir do curso — ela riu sem graça — Nunca fiquei tão exausta em toda a minha vida. Mas dei um jeito e fiquei ligada por dois dias e deu tudo certo no projeto.
— Sério? Que malandragem foi essa? — sorri brincalhão e ela retribuiu.
— É um segredo, não precisamos falar disso, queria te contar sobre o que a Dra. Sekli disse sobre o anatômico assim que entrei...
— Qual é o segredo? — tornei meu tom de voz mais firme e me aproximei um pouco mais dela. Tive o resultado esperado e ela cedeu um pouco mais — As pessoas pensam que os gênios não se cansam, mas eu ando bem exausto esses dias com a residência se aproximando e meio departamento me pressionando com formulários — dei um riso seco e irônico e me aproximei mais dela — E aí? Não mereço descansar um pouquinho também?
O peito dela desceu e subiu em uma respiração funda e controlada. Estava na cara que ela pensava inicialmente em não me contar, mas não conseguia resistir em fazer o que eu pedia — também porque minha expressão dizia que ela receberia algo em troca por aquilo.
— Comprei uns remédios com um cara do campus. Ele vende várias coisas, pra várias finalidades, mas eles são... bem, ilegais. Não sei onde ele consegue as coisas, mas muita gente consome.
— Hmm — balbuciei, quase como se não estivesse interessado — E qual é o nome desse cara? Onde eu posso encontrá-lo?
— Bem... Acho que o nome dele é Ash. Mas fiquei sabendo que esse não é seu nome verdadeiro. Entrei em contato com ele por um e-mail que uma amiga minha passou, dizem que você só se comunica com ele por lá. Mas como eu disse, essa é uma medida impopular, com certeza você não precisa disso...
— Na verdade, preciso — tentei ao máximo fazer uma expressão abatida que a fizesse se conectar a mim — Como eu disse, a pressão está sendo assombrosa pro meu lado. E eu sou um cara que não gosta de decepcionar ninguém, se é que você me entende...
— Claro! Como entendo! Eu imagino o que você deve passar pra ser o número um e...
— Por isso eu preciso urgentemente desse e-mail. Você pode me arrumar?
A garota hesitou, mas eu sorri, e estupidamente esse foi o gatilho para que ela tirasse uma caneta da bolsa, o que achei bem estranho, e escrevesse as curtas palavras na palma da minha mão, olhando para os lados, como se o ato fosse proibido.
— É só mandar e aguardar a resposta dele — ela diminuiu o tom de voz — Ele vai te dizer onde encontrá-lo.
— Uau, Becca. Nem sei como te agradecer — dei um sorriso animado e vi um olhar clemente no rosto dela — Você acabou de me salvar. Vou te recompensar com uma bebida...
— Só uma bebida? — ela pegou na minha mão e descaradamente se aproximou até o seu rosto ficar a centímetros perto do meu. Tentando disfaçar meu desconforto, passei os dedos na sua bochecha enquanto sussurrei:
— Ei, gata... Você sabe que acabamos de compartilhar um segredo aqui, não sabe? Não quero as pessoas comentando sobre assuntos triviais da minha vida, você entende, não é? — ela balançou a cabeça tão rápido que quase perguntei se estava tonta — Eu agradeço muito pela sua consideração, e por isso eu espero te encontrar aqui depois de buscar as bebidas... — ela acenou mais uma vez e me vi obrigado a dar um beijo no rosto dela, sendo básico e não ultrapassando o limite pois estava realmente agradecido. Ela me acompanhou com os olhos enquanto eu levantava e não disse mais nenhuma palavra — talvez não conseguisse.
Eu era um ótimo mentiroso. Qual é, eu vejo fantasmas! Precisei inventar desculpas a vida toda pra não ser internado em um manicômio e fazer meus pais acreditarem que eu era o cara mais desastrado do mundo para explicar meus machucados e até minha rebeldia. Eu consigo fingir interesse em uma garota que acabei de conhecer, apesar de que não estava acostumado a me prestar àquilo. Assim que me afastei de Becca, mandei uma mensagem para avisando da minha partida e que ele teria que voltar de táxi — ou qualquer outro meio de locomoção que ele poderia arrumar. Eu não podia perder tempo de forma alguma.
Consegui achar a porta da casa com algum custo, visto que parecia que o número de pessoas haviam duplicado desde a hora que eu cheguei. Senti uns olhares pra cima de mim à medida que eu andava, mas resolvi pensar que era impressão minha. Já deviam ser duas da manhã e a temperatura lá fora havia caído bastante. Andei até o Jeep e fiquei aliviado por encontrá-lo são e salvo — porém com um empecilho.
Por algum motivo que jamais vou entender, uma grande SUV preta estava parada bem na frente da porta do motorista do meu Jeep, bloqueando não só a minha entrada mas também grande parte da rua. Não que alguém fosse se queixar àquela altura, visto que eu era o único a sair da festa enquanto ainda haviam pessoas chegando. Mas com aquele carro naquela posição eu não conseguiria ir embora nunca, visto que já tinham carros estacionados à minha frente e trás.
O mais embaraçoso foi quando percebi, ao chegar mais perto, que havia um casal engolindo um ao outro encostados na porta do carona da SUV, ficando entre o Jeep e o carro ao lado, impossibilitando ainda mais a minha passagem. A garota estava encostada com as costas no vidro da janela com o vestido há muitos centímetros acima do joelho e pelo jeito que o cara a beijava me faz questão de repetir o termo "engolir".
Limpei a garganta duas vezes antes que eles parassem e olhassem pra mim. Para completar o constrangimento, a garota era ninguém menos do que , que quando me viu também deve ter se constrangido, principalmente porque suas bochechas ficaram vermelhas e sua armadura não estava presente.
— E aí, amigo — o cara disse, e sua voz embargada denunciava a sua embriaguez — Alguma coisa interessante pra você aqui?
— O carro é seu? — apontei com a cabeça para a SUV. Ele acenou com a cabeça — Pode por gentileza me dar espaço pra sair? — agora gesticulei para o Jeep.
Ele olhou de mim para o Jeep, e em seguida para a SUV, como se as engrenagens em seu cérebro ainda estivessem rodando. Foi então que ele largou e se aproximou de mim.
— Isso precisa ser agora? Eu estou no meio de uma coisa aqui...
— Nós já vamos — falou, pegando na mão do cara — Vamos, , me dê as chaves...
— Que chaves! — ele soltou a mão de de forma abrupta, fazendo a garota dar um passo pra trás — Vem cá, cara, você não acha que tá indo embora muito cedo, não? Fica aí e curte mais um pouquinho, você é calouro, não é? Esse é seu momento, você pode...
— Você pode dar um jeito no seu namorado? — falei ríspido, sem olhar pra ela — Eu estou com um pouco de pressa aqui.
...
— Amigo, como você fala assim com a garota dos outros? Quem você...
— JIMIN!
O grito dela me fez olhá-la. Ela não parecia mais constrangida por eu tê-la pegado aos beijos com esse cara, mas parecia estranhamente desconfortável com a situação — como se estivesse amedrontada com o grito que acabou de dar.
— Vamos embora, a gente pode ir pra sua casa. Que tal?
A frase fez com que o cara desviasse os olhos de mim e lançasse um olhar malicioso pra . Por mais que ela tenha usado o tom de voz mais sedutor que pode, seu olhar entregava que aquela era só mais uma estratégia pra arrastar dali — e no estado que estava, ele jamais perceberia isso.
Finalmente, ele deu uma risada que particularmente comparei à uma gralha e, sem mais nem menos, deu um tapa na bunda de seguido por um beijo no rosto e caminhou até a porta do motorista da SUV. ficou parada por uns segundos ainda, tentando fugir do meu olhar mas no final acabou me encarando. Um sentimento muito estranho surgiu no meu estômago e não entendi porque de repente eu quis socar o cara chamado .
Antes de entrar no carro, ela olhou nos meus olhos de novo por um breve segundo e vi algo difícil de explicar. Um vulto preto, sem forma, sem rosto, apenas... uma sombra. Estava parado atrás de , quase colado, espreitando-a. Ouvi o som do motor ligando e o carro se afastando, enquanto meus olhos ainda estavam pregados naquela coisa, que sumiu tão rápido quanto apareceu. O que era aquilo? Será que havia sido coisa da minha cabeça?

 

Capítulo 4: Garotas mortas estragam o clima.
 

foi o nome que usei no e-mail enviado para Ash. A falta da minha criatividade poderia ser evidente, mas eu jamais poderia usar meu nome verdadeiro lidando com aquele tipo de situação onde eu poderia ser exposto — e até pior do que isso. Foi fácil me comunicar com ele: usando o drama de estudante esgotado física e emocionalmente, eu obtive até uma resposta bem rápida. Por um momento pensei em solicitar o conhecimento de e pedir que rastreasse o IP do computador ou da onde quer que seja que aquele e-mail estava sendo enviado, mas duvidei na mesma hora que seria tão fácil assim. Pelos motivos de: a) não tem como um cara que comanda um esquema daquele tamanho, reconhecido em todo o campus ser tão descuidado com os negócios; b) faria perguntas que eu não queria responder; c) não me deixaria em paz até que eu o respondesse, e isso acarretaria uma série de traumas nele e consequentemente a perda do meu melhor amigo.
Decidi levar as coisas da forma tradicional. Segundo as palavras de Ash, era para nos encontrarmos às 01:00 — da manhã — no terceiro quarto à esquerda durante a festa na Gibbons que continuaria suas festividades hoje também. A ideia de ter que voltar ao mesmo lugar onde eu havia praticamente fugido ontem não me era agradável, mas pretendia acabar com tudo aquilo hoje mesmo.
Se eu não soubesse que fantasmas geralmente ficam presos aos locais onde morreram, também ficaria pilhado com a possibilidade de Margot aparecer também na minha casa. Não que ela não pudesse fazer — ela apenas não deveria saber como. O som estridente do meu interfone tocou e eu sabia quem era pelo ritmo das badaladas.
— Cara! — gritou ao entrar pela porta do apartamento e se jogando no sofá retrátil — Você não vai acreditar onde eu estava…
— Então não precisa contar — me levantei e fui pra cozinha — Tá com fome?
— Claro! — ele suspirou, como se eu tivesse feito uma pergunta óbvia — E sim, eu posso dizer oficialmente que você é um ótimo amigo! Eu já posso riscar o ménage da lista de coisas pra fazer antes de morrer.
— Mas achei que tinham quatro garotas.
— Uma delas estava mais interessada nas outras do que em mim, então fica quieto e apenas considere como um típico ménage.
Eu ri enquanto terminava os sanduíches e os colocava na bancada da cozinha. levantou do sofá e se sentou à minha frente.
— Mas e aí, cara, você sumiu — ele disse enquanto mastigava — Procurei você que nem doido depois e meu celular havia acabado a bateria, sorte que as garotas me levaram pra casa — ele sorriu.
— Ah, eu estava cansado.
— Mas e a Becca? De longe, ela era a mais gata das quatro, você tinha tudo pra se dar bem com ela.
— Sei lá… — dei de ombros — Não rolou.
— Isso é por causa da Jane?
— O que? — eu ri sem graça — Como a Jane veio parar nessa conversa?
— Eu não sei, ela é a única garota que preenche a parte sexual da sua vida.
— Ei, ela é só uma amiga, tá bom? Não faz sentido você mencioná-la nesse caso, eu só não quis ficar com a Becca…
— Amigos que transam? — levantou uma sobrancelha enquanto passava mais pasta de amendoim no sanduíche — Onde você consegue amigas assim? Será que no “clube” onde ela trabalha existem mais “amigas” que ela possa me oferecer? — ele enfatizou as aspas com os dedos.
Balancei a cabeça e peguei meu sanduíche enquanto ia pra sala. Encerrar o assunto ignorando é uma das minhas maiores especialidades e ele já havia acostumado tanto com isso que não enchia mais o saco depois de perceber que eu não queria falar do assunto, ainda mais quando o assunto era Jane.
Para elucidar, Jane era minha única e melhor amiga, e sim, à primeira vista pode parecer que temos um relacionamento um pouco complexo. Nós nos conhecemos desde que me entendo por gente, dois órfãos no Orfanato Melbourne que gostavam de uma brincadeira muito peculiar: quem ajudava o Sr./Sra. Fantasma primeiro.
Sim, Jane era igual a mim.
De cara isso já se torna um dos principais motivos do porquê nós éramos amigos. Nos 23 anos da minha vida, eu jamais havia encontrado outra pessoa que conseguia enxergar os mortos e, por mais que eu sempre reclame dessa capacidade incômoda, era muito mais fácil lidar com ela com outra pessoa.
Jane jamais conseguiu ser adotada definitivamente. Eu sempre fui quieto e na minha e ela era desbocada, sem educação e bagunceira. O dia que meus pais foram me buscar, ela lançou uns bons xingamentos aos prantos para eles e até correu atrás do carro quando fomos embora. Aquela cena havia me deixado desolado por um bom tempo, mas eu sempre me lembrava que tínhamos prometido nunca deixar de ser amigos e sempre manter contato. Ela foi a primeira pessoa que realmente me interessou e me proporcionou uma das coisas que hoje eu considero valerem mais do que tudo: a oportunidade de ser você mesmo.
Nos anos posteriores, eu telefonava para o Orfanato diversas vezes, sempre perguntando de Jane. Estava louco pra contar à ela minhas novas experiências com os senhores fantasmas e também queria ouvir as dela. Várias vezes ouvi da Sra. Dundy que Jane havia fugido do lar temporário, brigado na escola e também tentado fugir do orfanato. Ela não era autorizada a ter um celular e desde então falei com ela poucas vezes até chegar ao ensino médio. Os primeiros anos sem Jane foram os mais difíceis, não ter com quem falar sobre um assunto tão particular que só nós compartilhávamos era estressante. Me sufocava tanto que eu automaticamente fui me fechando para tudo e todos, até para os meus pais, tentando reprimir todas as minhas experiências que nunca poderiam ser contadas livremente.
Depois que conheci no primeiro ano, toda essa pseudo solidão se atenuou. Ele é um cara muito despreocupado pra prestar atenção e se importar com todas as esquisitices que eu mostrava — como falar sozinho no vestiário da educação física ou saber que fui detido por invasão de domicílio. As perguntas dele surgiam, mas ele tinha a incrível capacidade de saber deixar pra lá e respeitar o meu espaço, não mudando absolutamente nada no relacionamento entre nós. Ele me lembrava um pouco a Jane, sobre o sentimento que eu tinha com ela, tirando a parte dos fantasmas, e isso atenuava cada vez mais o desconforto de não saber mais dela.
Foi então que um pouco antes da formatura do colegial, eu e acompanhados de mais dois garotos da nossa turma decidimos nos aventurar nas ruas de São Francisco após uma das últimas aulas extras e acabamos dentro de um clube de strip no norte da cidade. O clube estava parcialmente cheio e não deram a mínima pra adolescentes pré-formandos que só queriam se divertir antes de enfrentar a vida adulta — a prática de suborno também cai como uma luva nessas horas. Eu particularmente estava sendo levado para onde quer que eles fossem, visto que eu não era tão tolerante ao álcool e não estava nas melhores condições. Nós nos sentamos numa mesa esperando que o show começasse e de repente um holofote no palco refletiu a última pessoa que eu esperava ver: Jane.
Ela estava com os seios de fora e uma lingerie acompanhada de muito brilho e lantejoulas. Mesmo os vários anos que se passaram e seu rosto lotado de maquiagem, eu fui capaz de reconhecê-la como se ainda fosse no orfanato. Se não fosse a pouca luz do ambiente e meus amigos surtando, eles teriam notado meu choque.
Reencontrá-la naquela noite foi o pontapé da retomada oficial do nosso relacionamento. Desde então, ela me passou o número de seu celular e seu e-mail, como uma garantia que não perderíamos contato nunca mais. Passei aquela noite com Jane, e, segundo , foi quando eu provei que não era assexual. As coisas não foram premeditadas: ela havia me visto no meio da multidão no final de seu show e de repente já estávamos no calor do reencontro. Conversamos a noite inteira e eu soube de toda a sua história desde que havíamos perdido contato definitivo — desde a saída do orfanato aos 17 anos até os vários bicos e viagens até chegar onde estava. Aquilo não me incomodava nem um pouco. Jane era dois anos mais velha do que eu e sempre foi esperta e decidida, sempre fez o que queria fazer. O fato de ela dançar nua em um pole não mudava um terço do sentimento que eu tinha, pelo contrário, eu admirava o quanto ela era boa naquilo.
Sempre mantínhamos contato principalmente por e-mail, já que Jane alegava que vivia perdendo seu telefone. Há um ano ela havia se mudado para New Jersey, integrando em uma nova equipe de um clube mais requisitado e dizia estar ganhando mais — tanto amigos quanto dinheiro. Agora perto um do outro nós podíamos nos ver mais e vez ou outra ela me tirava de enrascadas com os mortos. Nós jantávamos juntos e eu valorizava cada segundo que eu podia passar sendo plenamente quem eu sou, sem segredos e pessoas prontas pra te colocar em uma camisa de força.
não entendia essa relação. Na verdade, poucas pessoas iriam entender julgando a situação com um olhar tão superficial. Eu e Jane tínhamos uma relação de carinho mútuo, e tudo bem que nas diversas noites de bebedeira e conversas paralelas eu acabava acordando com ela em meus braços, mas não conseguia rotular aquilo. Não me importava com esses acontecimentos, e aparentemente ela também não, mas não deixava de chamá-la de minha namorada.
Me sentei na escrivaninha do segundo quarto que eu usava de sala de estudos e lembrei de forma relâmpago do estudo dirigido que deveria entregar na próxima semana. Verifiquei meus e-mails e Jane ainda não havia respondido ao último que eu havia mandado, mas tinham apenas dois dias. Ela com certeza teria comentários sobre o caso de Margot. Eu pretendia não deixar nada pendente para conseguir resolver o caso na Gibbons.
— Ei, o que pretende fazer hoje? — perguntou entrando no cômodo e se jogando na poltrona embaixo da janela.
— Vou ao Gibbons de novo — respondi sem parar de digitar.
É incrível como consigo visualizar o choque na cara de mesmo sem olhar.
— O que?! — ele usou um tom de voz agudo — Espera… Como assim? Você se divertiu tanto assim ontem e eu não percebi?
— É… Foi mais legal do que eu pensei.
— Eu sei, mas… Foi TÃO legal assim?
— Sim. — dei de ombros — Espero que você possa me acompanhar de novo, se quiser.
levantou do sofá tão rápido que parecia ter sido alfinetado na bunda.
— Cara… Eu não sei o que você tá tomando esses dias, mas a resposta é sim, meu amigo, pra tudo que você quiser! Se eu faturar mais três essa noite eu posso ir pro Guiness, tá bom?!!
— Na verdade não…
— Cala a boca! Vamos vestir você pra que você esteja muito mais desejável hoje, as pessoas podem até querer tirar fotos, as meninas vão suar, se excitar…
— Ei, se controla! Se ficar muito afobado elas vão correr de você.
— Tudo bem, eu ainda terei você pra trazê-las de volta. — ele deu uma piscadinha e voltou a se sentar na poltrona, ligando seu celular.

***
Eu estava ridículo.
Eu não acredito que deixei que as coisas chegassem nesse ponto.
sabia que eu odiava verde. E sabia que eu odiava mocassins. Mesmo assim, ele me vestiu exatamente como se fosse St. Patrick Day’s na Irlanda e eu só queria queimar aquilo tudo. Tentei ao máximo aceitar que aquilo era um negócio, eu não precisava impressionar ninguém — mas também não precisava perder tanto da minha identidade por causa de um negócio.
Acabou que eu me dei bem com uma regata branca, uma jaqueta de couro e jeans escuros com botas. Não era o que eu costumava usar, mas fazia eu me sentir, bem… menos verde. optou por usar bomber de novo, dessa vez com uma estampa que parecia vômito, o que me fez concluir que ele estava quase explodindo de confiança depois do ménage.
Por incrível que pareça, parecia haver mais gente hoje do que no dia anterior. explicou brevemente que a divulgação nas redes sociais era bastante eficaz, e agora haviam pessoas de cidades vizinhas na festa. Isso explicava os milhões de ombros e cotovelos que senti ao atravessar o hall principal e chegar ao grande cômodo do centro. Com a comunicação completamente vedada neste lugar, sinalizou que iria pegar bebidas e que não era pra eu sair de onde estava. Eu acenei e concordei, e logo em seguida segui prontamente para as escadas em semi espiral procurar o local combinado com Ash.
Se tudo desse certo, aquela história acabaria hoje e eu não teria mais que me preocupar com Margot. Geralmente os mortos despejavam suas tralhas (mais conhecidas como pendências) todas de uma vez em cima de mim, e jamais apareciam de novo logo após fossem resolvidas. Eu esperava que Margot seguisse na mesma linha.
Subi as escadas em zigue zague para me desviar de casais se pegando e algumas pessoas que já haviam perdido a consciência. Contei os quartos até chegar no terceiro e verifiquei se estava sendo observado como algum instinto automático. No andar debaixo eu havia notado alguns olhares sobre mim, e explicou algo como meu nome aparecendo no Twitter da noite anterior e certas expectativas de pessoas que esperavam me ver hoje. Isso não me deixava nada confortável, visto que eu estava prestes a ter uma conversa um pouco difícil com um cara que trabalhava com tráfico de medicamentos.
A porta do quarto estava fechada e estranhamente não havia pessoas ao redor dela, como acontecia nos quartos vizinhos. A minha única opção era esperar por um cara que eu não sabia como era, quando de repente a porta abriu tão rápido quanto fui puxado para dentro e, se eu não estava tão surpreso, ouvi o trinco assim que entrei.
O ambiente do quarto era medonho. A iluminação era tão baixa que limitava seriamente a minha visão panorâmica, e eu só consegui focar onde havia o maior ponto de luz: na mesa do lado direito do cômodo. Ela era grande e retangular, de madeira escura e polida e um cara estava sentado atrás dela, com os pés pro alto. Então vi que haviam mais duas pessoas no cômodo, incluindo a que havia me puxado. Estranhamente me senti no gabinete da mansão Corleone — e essa sensação não era nada animadora.
O cara sentado atrás da mesa se levantou lentamente e caminhou até mim. Ele usava um sobretudo preto, jeans claros e um coturno surrado que dava pra perceber mesmo à meia luz. Havia uma leve fumaça no local que vinha do cigarro aceso de sua mesa. Pela aura, já dava pra saber quem era.
? — perguntou ele e em seguida estendeu sua mão — Sou Ash.
Apertei sua mão sem dizer uma palavra.
— Não precisa ficar tímido, todo mundo aqui é amigo. — ele deu um sorriso sacana que não me passou nem um pingo de confiança — E então, trouxe a grana?
Acenei com a cabeça e tirei os 300 dólares do bolso. Se eu encontrasse Ash no campus montando uma Harley ou dirigindo um Audi eu não iria achar estranho.
Ele contou nota por nota na minha frente, meteu o dinheiro no bolso e gesticulou a cabeça pra um dos caras parados junto à porta. Ele pareceu entender o que aquele gesto significava e sumiu por uns segundos na escuridão do cômodo, surgindo depois com uma maleta preta e colocando-a em cima da mesa.
— E então, vamos às suas necessidades. — disse Ash voltando para trás da mesa — Do que você precisa? Relaxar, curtir, se concentrar, apagar… Temos tudo que você pode imaginar.
Eu havia ensaiado mentalmente aquela conversa várias vezes, mas mesmo agora eu estava seriamente preocupado em qual seria a reação do cara. Também não imaginava que teriam mais pessoas nesse encontro, as quais poderiam facilmente me segurar enquanto eu apanhava pra valer. Eu queria acreditar que estava preparado caso as coisas chegassem àquele ponto, mas na verdade não estava — eu nunca estava.
— Você está bem? — ele me perguntou, visto que eu não havia dito nem uma palavra e minha mente trabalhava a mil.
Literalmente, pensei “que se dane”. Se eu já estava aqui e havia aceitado seguir com aquilo, tinha que chegar até o final, mesmo se fosse um final onde eu teria que relembrar os golpes básicos de defesa pessoal que eu usava contra os mortos.
— Quero a mesma coisa que você deu à Margot Abbott.
Eu não sei como minha voz saiu tão firme e clara.
Ash me olhou com o choque vívido em seu rosto, que logo desapareceu. Mesmo eu não olhando, sabia que os dois caras da porta também começaram a prestar atenção na conversa.
— O que… — ele deu uma risada nervosa — O que você acabou de dizer?
— O remédio que você deu à Margot. Sabe a Margot? A garota suicida da semana passada… Pois é, quero a mesma coisa que vendeu à ela. Pelo visto dá o maior barato…
Rapidamente Ash já estava na minha frente e dava pra ver como ele se controlava pra não me socar. Isso o entregaria, então ele apenas rangia os dentes e me lançava um olhar mortal.
— Eu não faço ideia do que você está falando, amigo. Vendo coisas para várias pessoas todos os dias, então se você não quer nada e veio até aqui pra ficar de papo furado, melhor sair logo.
— Então a gente precisa ter algum tipo de relacionamento amoroso pra eu conseguir o produto também? — dei de ombros — Isso é uma pena, porque infelizmente não vai rolar. Se existir outra maneira talvez…
Ash se aproximou de mim como uma bala e segurou na gola da minha regata, ao passo que os dois caras da porta também se aproximaram um pouco mais.
— Como você sabe disso? — o cara sussurrou, e um leve pânico passou pelo seu rosto — Quem é você?
— Você não precisa mesmo saber disso.
— O que você quer?
— Quero saber se você a matou.
— Margot? Eu jamais faria isso…
— Pelo visto faria, visto que ela morreu depois de consumir seus produtos nada inocentes!
— Espera aí, como você sabe disso!? — ele me soltou em um impulso tão forte que me fez segurar nos calcanhares pra não cair, e ele não parava de tremer — Ela saía com você também? Eu devia saber que ela não era tão inocente assim..
— Acredite, esse é o menor dos seus problemas — suspirei — Você sabia o que estava dando pra ela? Sabia que ela morreria por isso?!
— Mas é claro que não! — ele passou as mãos na cabeça, e andava de um lado pro outro — Eu vendi Lorazepam pra ela, mas foi só isso! Nem disse pra ela tomar tantos assim, eu também fiquei surpreso quando soube, jamais imaginei que ela faria isso.
— Mas ela não fez, tá legal?! Ela tomou os três comprimidos que você disse à ela e acordou morta. Não é possível que não tenha algo de errado nisso! Quero que você confesse!
— Opa, o que está havendo aqui?!
Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo naquele instante. A voz nova que surgiu veio da porta do quarto e era de ninguém mais, ninguém menos do que , o cara bêbado que eu havia expulsado da frente do meu carro no dia anterior. Claro que hoje ele parecia menos embriagado, mas ainda tinha uma cara de maluco pela minha singela opinião. Olhei para a porta na mesma hora que o ouvi e só então percebi como eu havia aumentado o tom de voz nas minhas últimas palavras, e Ash estava me olhando um tanto quanto atônito. entrou no cômodo e percebi que ele estava acompanhado por alguém que eu não esperava ver ali, naquela situação: . Pelo olhar que ela me lançou, ela pensava o mesmo.
parou à minha frente e olhou de mim para Ash e vice versa.
— Alguém pode me explicar o que tá havendo aqui?! — a pergunta era mais direcionada à Ash do que para mim — Posso saber o que esse bosta tá fazendo aqui?
Ah, então ele se lembrava de mim.
— Como… como você sabia? — Ash, ainda atônito, pareceu ignorar completamente a presença de — Como sabia que a mandei tomar três comprimidos?
Eu engoli em seco. Chegar ali e questionar Ash fazia parte do plano, mas minha mente realmente deu um branco com toda situação presente. Como eu explicaria aquilo?! Eu não deveria ter dado tantos detalhes…
Mas eu também não conseguia ir embora, então a situação estava pior do que eu pensava. Janelas? Eu não conseguia enxergar direito naquela escuridão. A porta estava fora de cogitação pelos dois caras parados que não iriam relaxar enquanto não me socassem até a morte. Armas? Nada que pudesse neutralizar quatro pessoas de uma vez. De repente desejei mais do que tudo que , em seu momento pleno de embriaguez, abrisse mais uma porta errada na vida e me desse uma brecha.
cutucou Ash para que ele “acordasse” do transe de olhar pra mim e levantou as sobrancelhas. Ash balançou a cabeça e de repente a mesma expressão de bad boy que tinha assim que entrei retornou.
— Esse cara veio aqui me perguntar se eu matei a Margot.
— O que? — deu uma risada e olhou para mim — Você é maluco? O que te faz pensar uma coisa dessas?
— Ele sabe que eu saía com ela. — Ash quase sussurrou e revirou os olhos.
— E daí que ele sabe disso? Foi um lance passageiro, não foi? Você nem estava mais com ela quando ela decidiu fazer merda, não tem que deixar esses cretinos entrarem aqui e perguntarem isso. — deu mais uma risada e Ash permaneceu sério como uma pedra. Depois de um segundo, o rosto de também mudou — Você não estava mais com ela, não é? A gente conversou sobre isso, eu te disse pra largar aquela infeliz…
— Mas ele não fez, tá legal? — falei pela primeira vez e todos os olhares se voltaram pra mim — E não só isso, ele a vendeu Lorazepam que foi o responsável pela morte dela, mas ela nunca quis se matar, na verdade ela nem sabia o que estava tomando, ela apenas confiou nele! — joguei os braços para apontar para Ash. Pelo canto do olho olhei para atrás de , na escuridão, e ela me olhava chocada. parecia mais com raiva.
— Que porra é essa? — ele disse mais para si mesmo — Então aquela meretriz também tava dando pra esse aí? — ele riu maldosamente e se aproximou de mim, colocando uma mão nos meus ombros — Qual é, cara, vai pra casa. Tem coisas muito mais interessantes nessa festa do que discutir sobre uma garota morta. Você tá estragando todo o clima do lugar.
A voz dele era suave e calma, mas por que ao ouvi-la eu sentia uma força sombria prestes a me engolir?
— Ei, não acredita em tudo que aquela garota te disse. Não vê que ela estava te enganando?
— Quero que ele confesse. — falei firme, olhando em seus olhos. A expressão de tornou-se séria de novo.
— Vai pra casa, estou te avisando.
— Eu já disse que não a matei — Ash disse, o desespero novamente salpicando seus olhos — Eu menti, . Não havíamos terminado. Eu… sei lá, talvez gostasse um pouco dela.
— Cala sua boca — rangeu os dentes ao falar com o amigo, e seu olhar até me assustou — Olha o que sua estupidez nos causou.
— O que você tem a ver com tudo isso? — perguntei, e só depois de meio segundo percebi o que fiz.
Na verdade, também pareceu perceber o que tinha feito. Mas não tive tempo de questioná-lo por mais tempo pois, sem mais nem menos, o cara resolveu me socar. Mas não um simples soco. Foi um baita soco que parecia que ele tinha soco inglês entre os dedos. Foi tão forte na minha boca que me fez perder o equilíbrio e ser lançado para trás, batendo o canto da testa em um tipo de quina e somente em seguida caindo no chão.
Bom, eu não podia negar que isso era possível de acontecer. A primeira reação do meu cérebro foi ficar embaralhado com o baque e minha visão ficou turva, então eu sabia que alguém tinha gritado alguma coisa assim que caí, mas era como se eu estivesse embaixo d’água. E antes que eu pudesse me recuperar, senti a gola da minha camisa sendo puxada e mais um soco. Depois outro. E mais outro. Ele nem me dava tempo de sentir dor.
Se eu fosse dizer que os socos me ajudaram em algo, foi em desentupir meus ouvidos e me ajudar a voltar ao meu estado de equilíbrio. Agora eu ouvia um pouco mais claramente a situação, e com certeza aquele grito era de . Mas não levou muito tempo até eu sentir um forte impacto na barriga e percebi que só os socos não os estavam deixando satisfeitos.
Percebi que eu estava apanhando pra valer quando tentei enxergar alguma coisa na minha frente e o sangue pingando da minha testa não deixava. Ainda assim eu consegui identificar as risadas de , que pareciam um pouco longe pra quem estava me socando, o que me fez lembrar do papel dos outros dois caras na porta. Particularmente, eles não eram nenhum brutamontes e ambos pareciam ser estudantes, mas era difícil encontrar uma brecha pra escapar quando são dois contra um.
Eu ainda ouvia a voz de , mas era difícil entender o que ela dizia. Eram gritos, mas não pareciam direcionados à mim. Talvez eu pudesse escutar com mais clareza se eles parassem de me bater, mas era complicado tentar se defender contra uma surra e ao mesmo tempo tentar não perder a consciência, e eu estava quase nesse nível, e eu não queria perder a consciência aqui de jeito nenhum.
De repente eles pararam. Absolutamente tudo no meu corpo doía, mas consegui abrir os olhos, e tentei fingir que minha visão não estava arruinada. Vi o sorriso largo de , e ele segurava o braço de . Se eu não me engano, ela estava gritando meu nome e depois de forçar mais algumas vezes, conseguiu se soltar do aperto de e vir até mim, se abaixou e levantou minha cabeça jogada no chão, forçando-me a olhá-la nos olhos.
— Ei, você está bem? — ela me balançou, apesar de não ser o certo a se fazer, mas reconheci o seu desespero: ela também não queria que eu apagasse — Por favor, aguenta, você consegue falar? Fale alguma coisa, por favor…
, o que você está fazendo? — ouvi a voz de — Vem pra cá agora mesmo!
— Já chega! — ela gritou, olhando pra ele. Senti sua voz trêmula de novo, sempre que precisava se dirigir à ele — Parem com essa loucura! Você tem noção de quem ele é? Se o reitor o ver desse jeito, pode rolar até uma investigação, e então a casa vai cair pra vocês! Uma coisa vai ligar à outra, será que vocês não entendem isso?! Ele é Jungook , caramba!
Se eu soubesse que o meu nome fariam todos ficarem em silêncio e os socadores se afastarem rapidamente de mim, eu teria feito isso muito antes.
— O que um cara desse tá fazendo aqui?! — ouvi a voz de Ash depois de um tempo. Um barulho de maleta e uma mochila surgiram rápidos e agudos por causa do silêncio, e depois de passos apressados.
— Você está indo embora?! — gritou.
— Sim, estou! Se o seu pai descobrir sobre isso, vai ser muita sorte se eu apenas perder a bolsa de estudos! — Ash respondeu.
— Meu pai é um idiota, vai acobertar tudo. Ninguém vai sair prejudicado.
— Só se for pra você, meu chapa. Ele continua sendo o reitor e não vai deixar isso barato pra nenhum de nós. Vamos embora, galera! — ele gritou para os outros dois caras e desapareceram pela porta.
ainda estava tremendo e uma luz forte me indicou que ela estava tentando digitar uns números no telefone, e minha cabeça tornava a tarefa um pouco difícil. Ouvi passos se aproximando e a sombra de escurecendo ainda mais o ambiente.
— Vamos embora, . Anda, larga esse morimbundo. — ele se abaixou e pegou novamente no braço dela.
— Não… — ela sussurrou, a voz trêmula voltando a aparecer.
— Eu não vou dizer duas vezes.
— Não! — ela gritou, soltando seu braço repentinamente, deixando um meio chocado com a atitude — Se eu deixá-lo aqui só vão encontrá-lo amanhã, você sabe disso. Tenho que levá-lo pra um hospital imediatamente.
ficou calado por uns segundos e encaixou uma única mão nas bochechas de , forçando-a a olhá-lo de perto. Suas mãos estavam mais trêmulas do que antes.
— Você vai se arrepender por isso, — ele sussurrou perto de sua boca, e eu pude sentir aquela sensação estranha no estômago novamente. Depois que vi tremendo mais do que o normal, uma pontada de raiva me fez começar a me mover lentamente tentando segurar meu corpo para levantar e eu juro que seria capaz de devolver o soco de se ele não tivesse se levantado e saído tão rápido do quarto.
Ela respirou várias vezes para se acalmar e pegou o telefone novamente, mas dessa vez coloquei minha mão na frente do visor, o que fez com que ela me olhasse.
— Nada… de hospital — consegui balbuciar e devo dizer que aquilo doeu muito. Eu tinha 95% de certeza que havia quebrado o nariz.
Dizer aquilo foi necessário antes que chegasse uma ambulância no meio daquela festa causando um alvoroço sem necessidade. Que eu precisava de cuidados médicos era óbvio, mas não me conhecia. E se eu fosse parar em um hospital com uma pessoa que não me conhecia, meus pais ficariam sabendo e estariam em NY surtando antes que o sol nascesse.
— O que? — ela disse surpresa — Nada de hospital, você ficou maluco de vez? Já olhou seu estado? Você está sangrando… Ei, você não pode se levantar!
— Eu preciso ir. — fiz um esforço sobre humano para conseguir segurar na mesma quina onde havia batido, que percebi agora que se tratava de um pequeno criado mudo, e uma dor aguda no abdome me fez gemer e cair novamente, e um jato de sangue expeliu da minha boca, revelando algo que eu temia: além dos socos, eles poderiam ter me dado de brinde uma leve contusão pulmonar.
! — gritou novamente, e pelo menos agora sua tremedeira era pelo medo de que eu morresse a qualquer momento e ela fosse a única testemunha — Por favor, aguenta, não apaga! Que se dane o que você diz, você vai pra um hospital agora mesmo…
— Não, por favor… — consegui segurar seus pulsos antes que ela pegasse o celular — Você não entende… não posso…
Eu vi o desespero nos seus olhos, que estavam marejados. Eu poderia estar sendo cruel com ela, mas eu jamais imaginei que estaria numa situação assim com . E por mais que eu não queira admitir, seria uma tarefa bem mais árdua conseguir chegar em casa naquele estado sozinho, por mais que eu não quisesse de forma alguma envolver mais alguém naquilo.
— O que foi? Por que não pode? Ei, acorda! Você não pode dormir, entendeu? Cadê seu amigo? Posso chamá-lo aqui… Ei!
Só que a escuridão me puxava cada vez mais, e ficava mais difícil respirar. Nos meus últimos minutos de consciência eu lembro de sentir a dor por todo meu corpo e a sensação quente do sangue latejando. A voz de foi ficando cada vez mais distante, e me lembro de murmurar algo como “enfermaria” antes de desmaiar.

 


Capítulo 5: Perdendo o controle.
 

Nunca levantem rápido depois de terem sidos atingidos em várias partes do corpo. A dor que provêm disso é horrível. Mas eu abri os olhos e me vi em um local que não era minha casa, então eu não pude me controlar.
Com a dor, fui obrigado a voltar a deitar. O ambiente estava escuro, mas com alguns feixes fracos de luz entrando pelas aberturas das persianas pelo ar condicionado ligado. Eu estava em uma maca no canto e sem camisa, com uma faixa enrolada pelo meu abdome. Olhei em volta e reconheci os outros três leitos dispostos pela sala, cada qual com as cortinas azuis abertas e uma poltrona preta característica à frente da mesa quadrada de madeira. Toda a lembrança da noite vieram à mente. Ela realmente havia me trazido à enfermaria do campus.
Me forcei a sentar novamente e a dor lancinante me fez ficar zonzo, mas eu não podia ficar ali por muito tempo — visto que eu não fazia ideia de como havia entrado. Com alguma dificuldade, consegui ficar de pé. Tentei prestar atenção no meu corpo nos mínimos detalhes, para me auto diagnosticar. Eu já respirava um pouco melhor, e aparentemente não tinha costelas quebradas. A contusão iria passar com o medicamento correto, mas eu ainda teria que ver um médico depois. Visualizei uma pequena pia no canto da sala com um espelho, e a imagem que eu vi me fez gemer de frustração.
Alguém havia limpado todo o sangue do meu rosto, então os estragos estavam bastante explícitos. Meu nariz parecia uma bola de tênis, a ponte levemente curvada para o lado e lá se foram as dúvidas se ele estava quebrado ou não. Havia um curativo torto que entregava que fora feito às pressas no lado esquerdo da testa, e um hematoma ainda vermelho no canto da boca. O nariz quebrado fazia meu rosto parecer pálido e, literalmente, doente. As marcas roxas já começavam a invadir a área abaixo dos meus olhos. Se não fosse por isso, talvez eu conseguisse disfarçar as demais fraturas. Infelizmente, aquilo teria de ser resolvido da única forma rápida e não recomendada que eu conhecia.
Respirei fundo e simplesmente fui. Gritei mais alto do que deveria quando ouvi o “slac” do osso voltando para o lugar, sem falar da dor.
— O que você está fazendo de pé?!
Ouvi a voz de entrando na sala e jamais imaginei como ficaria aliviado de escutá-la. Ela pegou por um dos meus braços e me guiou novamente até a maca, e agradeci internamente por isso porque se não eu já teria caído no chão de novo.
— Gelo… — murmurei, ainda com a mão no nariz que eu havia acabado de pôr no lugar.
Ela me olhou como se eu fosse louco após ver o que eu tinha feito, mas não disse nada. Me colocou de volta na maca e saiu quase correndo da sala, voltando em menos de cinco minutos com uma compressa improvisada feita com gaze. Ela tirou o casaco que estava usando e se sentou ao meu lado no leito, posicionando a compressa com cuidado no meu nariz.
Prestei atenção nela pela primeira vez. Ela tinha uma expressão exausta e seu vestido estava manchado de sangue, então ela ainda não havia ido pra casa. Olhei pelo canto do olho e vi que o casaco que ela havia tirado e pendurado na cadeira na verdade era meu.
Ela acabou seguindo o meu olhar e a senti corar levemente.
— Ah… Me desculpa, peguei ele emprestado pra ir na cafeteria. Espero que não se importe. — ela revirou os olhos e soltou a compressa em minhas mãos, me fazendo ver claramente as marcas vermelhas dos dedos de nos seus braços desnudos perto dos cotovelos.
— Você está bem? — perguntei tentando ser coerente por trás da compressa. Ela me olhou confusa e viu pra onde eu olhava.
— Ah… isso. Não é nada, eu estou bem. — ela respondeu não me convencendo — Você deve se preocupar com você. Nem imagina o quanto me assustou.
— O que aconteceu? — tirei a compressa — Como eu cheguei aqui?
— Bem… Você não quis ir a um hospital de jeito nenhum e falou da enfermaria antes de apagar. Nem sei como não surtei, mas consegui com que você se arrastasse até seu carro. As pessoas estavam bêbadas demais pra reparar em um cara inconsciente, sabe como é. E então chegamos até aqui.
— Você dirigiu o meu carro?
— Ah não, de jeito nenhum! Eu o levei até seu carro pra que fosse mais fácil pedir um táxi de lá. Relaxa, o motorista não era de fazer perguntas. Mas eu trouxe sua chave… — ela apontou rapidamente para sua bolsa.
Continuei olhando pra ela ainda confuso, me perguntando porque raios ela havia deixado meu carro para trás, na frente de uma fraternidade cheia de pessoas com grande potencial ao vandalismo.
— Eu já entendi o seu olhar — ela balançou a cabeça e riu sem graça — Bom, eu não dirijo.
— Ah — agora estava explicado — Você pareceu saber dirigir aquele dia com seu namorado bêbado.
— Não disse que não sei dirigir. Apenas não dirijo — ela deu de ombros — Pode ficar tranquilo que avisei uma amiga que estava na festa e ela ficou de vigiar o seu carro algumas vezes, apesar de isso ter gerado algumas perguntas que eu não soube responder, mas esse é o último dos problemas.
— Você não precisava ter feito isso.
— Ah, que isso, como eu disse, eu me propus a ajudar e não ia deixar de fazer isso por causa de obstáculos como mobilidade, então tá tudo certo.
— Não… Eu quis dizer isso — apontei para mim — Você não precisava ter se envolvido nisso, entendeu? Esse era um assunto que eu tinha que resolver sozinho, jamais carrego outras pessoas nos meus problemas.
— Ah… Entendi — ela me encarou enquanto acenava — Na verdade, mal pude acreditar quando te vi naquele quarto. Sabe, as pessoas que vão lá têm um certo objetivo, e eu não pensei que o fosse desse grupo de pessoas.
— Ah, você diz desse esquema de tráfico de medicamentos? — ela arregalou os olhos por um instante e automaticamente olhou para os lados — Relaxa, não é algo que eu queira me envolver.
— Como assim não quer se envolver? Quem marca um encontro com o Ash não quer fazer uma vistoria sem compromisso daquele quarto.
— É, eu imaginei — dei de ombros — Mas isso é um assunto meu, você não entenderia. Também não vou perguntar sobre o que você fazia lá. Acredite, você já ajudou bastante.
— Mas… Fiquei curiosa sobre as coisas que escutei lá. O lance da Margot e tudo mais. Não sabia que você também tinha um lance com ela, ela parecia bem apaixonada pelo Ash.
— Ah… Não. Você não entendeu. Eu jamais tive algo com a Margot, na verdade eu nem a conhe…
Parei por um instante porque a situação já estava dando merda. E então eu não soube explicar como de repente fiquei tão falante com essa garota, a ponto de quase me entregar. Claro que eu não iria oferecer de bandeja a história toda, mas eu não queria aguçar o sentido investigativo dela.
— Espera, o que? Você ia dizer que não a conhecia?
— Não é bem assim, nós só não éramos tão próximos como seu namorado pensou.
— Você sabia informações demais pra quem não era tão próximo dela.
— O que é isso agora? Tá me fazendo um interrogatório policial sem eu saber? Amanhã essa conversa vai estar no Fórum ou no jornal?
— Ei, ei, nós só estamos conversando, nem tudo aqui precisa ser tão preto no branco. Você só me deixou curiosa, só isso. Eu tenho acompanhado o caso da Margot desde o início e até agora não surgiu nenhuma nova informação, então você me intrigou com as coisas que disse.
— É, só que eu não posso te ajudar com isso. — me levantei novamente e comecei a procurar as minhas roupas.
— Você já vai? E o resto dos seus machucados? Eu te trouxe pra cá porque eu não iria discutir com um cara inconsciente, mas você precisa de um hospital urgente.
— Eu posso me cuidar, muito obrigado. Agora se você não se importa, preciso chamar um táxi pra ir buscar meu carro.
— Ei, cara — ela entrou na minha frente e colocou a mão no meu peito — É sério, eu realmente não quero me meter nos seus problemas malucos porque já percebi o quanto você é um. Mas você não pode sair desse jeito.
— Você saiu desse jeito — dei de ombros, apontando para a parte mediana do vestido suja de sangue.
— É, ok, o seu casaco ajudou. Mas a questão é que já amanheceu e vai ser bem estranho se alguém colocar a cabeça pra funcionar e tentar adivinhar o que aconteceu com a gente. Então eu tô pedindo encarecidamente pra você sentar por mais uns minutos nessa bendita cama até que eu traga umas roupas emprestadas clandestinamente no achados e perdidos e tomar o café que já deve estar frio. Portanto…
Ela nem me deu tempo de protestar e já foi saindo pela porta. Por um lado ela estava certa, não seria nada bom se o que aconteceu ontem fosse descoberto por pessoas de fora — e eu digo de tudo, incluindo a briga e tudo que resultou dela. Apesar de que impunha isso como uma ameaça velada, como se estivesse me aconselhando silenciosamente a manter minha boca fechada sobre isso, ou o querido namorado poderia fazer algo nada galanteador à meu respeito — e também ao dela, visto que havia o enfrentado de forma tão escancarada. Eu não tinha qualquer interesse em levar aquele assunto adiante. Meus problemas agora eram outros, e o principal deles era como eu iria resolver os problemas novos que surgiram da falha de resolução de um deles.
voltou depois de um tempo, já vestida com uma camisa meia manga listrada e um macacão branco e me jogou um jeans e uma camiseta nova. Sem dizer uma palavra, começou a recolher as roupas manchadas e a enfiá-las em uma sacola de pano da enfermaria.
— Vou lá fora tentar apagar mais alguns rastros da nossa presença aqui enquanto você troca de roupa — ela recolheu mais alguns itens em cima da mesinha ao lado da maca, que só agora percebi como estava bagunçada.
— Você fez o curativo? — perguntei.
— Ah… Sim. Nada ao nível da medicina, mas o Google era o único professor disponível, então espero que não se importe. Estava sangrando tanto que eu achei que você fosse literalmente morrer, e eu não queria mais esse trauma.
— Claro.
Fui até a bolsa de e vi café e água dentro de uma sacola de padaria. Peguei a água imediatamente e percebi o quanto estava com sede, e exausto. Depois de alguns minutos ela saiu e eu troquei de roupa, um jeans simples e uma camiseta preta. Coloquei as outras na sacola que ela havia separado para mim e saí da enfermaria, encontrando-a encostada na parede enquanto olhava o teto.
Assim que me viu, ela remexeu em sua bolsa e me entregou na mesma mão minha carteira, minhas chaves e meu celular.
— Tive que desligá-lo porque um tal de não parava de ligar. Acho melhor você acalmá-lo antes que ele enfarte.
— Mais tarde eu ligo. Valeu.
— Tá legal, é o seguinte, não é porque é domingo que o campus está fechado, o movimento de pessoas é bem baixo mas não é inexistente, então sugiro que a gente saia bem de fininho e separados pra não ter que rolar perguntas se formos vistos. Já foi bem difícil mexer meus pauzinhos pra enfiar a gente aqui de madrugada, não quero burocracia pra sair também.
— Ah… Tudo bem.
— Então… Eu já vou nessa. — ela acenou e deu as costas.
, espera… — ela se virou novamente — Valeu por ter feito tudo isso. Como eu disse, você não precisava. Espero que isso fique entre nós, tudo bem?
Ela deu uma risada.
— Pode ficar tranquilo que ninguém vai saber que eu carreguei em um táxi até a enfermaria do campus. Se bem que daria uma ótima matéria pro jornal. — ela fez uma pausa — É brincadeira! Acredite, eu não quero ser relacionada à esse assunto em momento nenhum.
— Ótimo. Ficamos entendidos assim.
— É, ficamos — ela acenou e deu as costas para ir novamente, mas se virou mais uma vez — Mas sabe, , você realmente é uma peça mais estranha do que eu pensei. E tudo bem você ser assim, desde que não esbarre nas pessoas sempre como você faz. Mas uma coisa que eu não consigo sossegar foi o jeito que você falou da Margot, e acredite, eu não tô interessada em te chamar pra uma entrevista e nem nada disso. Mas eu sei que você sabe de alguma coisa. E essa matéria é muito importante pra mim, não que isso seja do seu interesse. Eu também sempre achei esse caso muito do suspeito e mal contado, e pra casos assim eles geralmente arquivam na pasta do suicídio, mas tem mais história nisso aí, eu sei que tem. E eu tô afim de descobrir. E você foi um dos responsáveis por me motivar a voltar a investigar isso, então na verdade eu que tenho que te agradecer.
— Espera aí, eu não pretendia…
— Adeus, sr. . — ela acenou com as mãos e saiu com pressa.
— Você não vai achar nada! — gritei, mas duvido que ela havia escutado.

***
Depois do que pareceram horas, estacionei o carro na frente do prédio. Não encontrar plantado na porta da minha casa já foi um alívio. Eu ainda não havia pensado na desculpa que daria sobre o meu estado, então quanto mais tempo eu o evitava melhor. Fui correndo fazer a primeira coisa que fazia sempre que passava por esse tipo de situação: encher a banheira com gelo.
Eu achei que estava acostumado com aquela dor, já tendo sentindo-a tantas vezes com o passar dos anos, mas alguma coisa parecia diferente daquela vez. Não nos machucados, acredite, os mortos poderiam ter acabado comigo bem mais rápido do que aqueles caras. A sensação estranha quando afundei na banheira foi diferente, eu só não sabia o que era.
Ficar por uns minutos submerso me deu tempo de reorganizar os meus pensamentos. Eu não sabia se poderia confiar totalmente que deixaria aquela história pra trás, ou se ela estava falando sério sobre investigar o caso de Margot. Não que eu me importe de vê-la dando com a cara na parede, mas em algum momento ela poderia realmente estar certa de que eu sei de algo e não seria fácil me livrar dela. Apesar de que em uma coisa que ela disse martelava na minha mente: aquela história estava sim muito mal contada.
Tudo bem que eu sabia que Margot não havia se suicidado. A notícia chegou a mim pela própria. E eu não acreditava que poderia continuar com aquela história, se não ela teria que investigar os amigos do namorado — Ash e os demais, até poderia estar envolvido em todo aquele esquema. E se estava naquele quarto ontem e conhecia Margot por Ash, ela também não estava por fora de toda aquela história. Então decidi esquecer e concluir que ela só falou aquilo no calor do momento.
Refiz todos os curativos da tentativa de e o gelo havia ajudado bastante com os inchaços. Meu nariz seria o mais difícil de esconder, mas existia um milhão de histórias para narizes quebrados, então eu estava tranquilo quanto à isso. não levantaria minha camisa nem nada parecido, então os hematomas das costelas também estavam em local seguro. Nem que eu tomasse um caminhão de analgésicos, precisava parecer bem para ele, porque a minha história ainda não estava completa e eu não tinha clareza sobre todos os acontecimentos porque bem… Eu estava desmaiado na maior parte deles.
Mesmo com tudo sob controle, na verdade eu sentia que não estava. E eu raramente me sentia daquele jeito — e não me era nada agradável. A minha vida PRECISAVA de controle, e um controle muito minucioso. Como acham que eu cheguei até aqui com essa vida dupla maluca? Controle. E organização. Se houvesse pontas soltas e situações que poderiam vir a se tornar uma bola de neve, eu deveria resolvê-los logo, antes que tudo fosse pro ralo e homens de branco invadissem meu apartamento.
Uma prioridade desse controle era afastar toda e qualquer tipo de pessoa que desconfiasse minimamente que eu não era muito normal. Geralmente nunca tive muita dificuldade nessa parte — as pessoas tendem a se afastar automaticamente de quem parece meio maluco. Só que a minha intenção nunca foi parecer meio maluco — as situações com os mortos é o bloco do diagrama onde eu abro mão de todo controle, porque simplesmente não dá. Os mortos são imprevisíveis. E eu já havia aceitado aquilo, portanto quanto menos pessoas houvessem no meu ciclo social, menos satisfações e desculpas eu precisaria inventar.
Talvez por isso eu tenha me fechado, além do fator Jane. Depois que saí do orfanato, era muito difícil passar pelas situações com os fantasmas em todos os cantos que eu passava e não poder contar pra ninguém. Meus pais, por mais maravilhosos que sejam, estavam marcando um horário com o terapeuta da família assim que eu falei pela primeira — e última vez — dos mortos, o qual frequentei até os 13 anos. Foi quando bati o pé e me declarei curado do meu “mal”, e percebi que era muito mais fácil mentir e inventar desculpas do que simplesmente falar a verdade. Era cansativo os olhares e as frustrações, e esse era um caminho mais fácil. Por isso era muito mais descomplicado ir simplesmente deixando as pessoas passarem pela minha vida e não fazendo questão de nenhuma delas — elas jamais entenderiam.
é uma exceção por inúmeros motivos, mas expô-lo à todo esse circo nunca esteve na minha lista. Apesar das mentiras e eu consciente de como sou um péssimo amigo, eu gostava da nossa amizade. E não é que eu não confiava nele, ou que achasse que ele iria espalhar a notícia com um megafone, mas tinha a impressão de que ele simplesmente… Correria. E isso eu poderia evitar.
Com tantos pensamentos, dormir foi uma tarefa impossível, então decidi adiantar alguns relatórios de laboratório. Voltei a ligar meu celular e esperar a próxima ligação de , que decidi atender. Depois de uma hora que ele não havia ligado, concluí que ele deveria estar apagado ou pior, deveria estar vindo pra cá. Suspirei e apenas esperei o inevitável. Decidi que esperaria pelo menos tomando uma cerveja, que não seria uma boa combinação com os analgésicos que eu já havia tomado, mas mesmo assim levantei para buscar na cozinha.
Mas infelizmente eu nem consegui ingeri-la pois um grito ensurdecedor encheu a cozinha e todo o ambiente, fazendo com que eu largasse a cerveja de susto e de quebra alguns copos estouraram.
Virei para trás em um pulo e dei um suspiro de nervoso.
— Muito obrigado por isso, vó. Sabia que era minha última cerveja?
— Mas o que aconteceu com você?! — ela se materializou na minha frente, observando cada machucado visível — O que você aprontou dessa vez, garoto?
— É uma longa história. A senhora morreria de tédio.
— Haha, muito engraçado. Eu falei sério, seu insolente — ela me deu um tapa no braço, que fiz questão de encenar uma dor horrenda — Oh meu Deus, me desculpa, me desculpa… mas que raios aconteceu com você!? Quem fez isso? Me diz o nome dessa alma penada que eu o encontro nem que já tenha passado do limbo.
— Relaxa, vó, isso não foi trabalho de um morto e nem nada parecido. Foi uma briga normal com gente de carne e osso — respondi enquanto limpava a sujeira de vidros que ela havia causado.
— Como assim?! Você agora deu pra ser um delinquente rolando no chão com outros brutamontes a troco de que?! Ah, se seu pai soubesse disso…
— Eu nunca sei de qual pai você está falando — dei de ombros enquanto jogava os cacos na lixeira — Relaxa que o Sr. nem faz ideia disso, e nem vai saber. Fiquei bom em apagar meus rastros, a senhora sabe bem disso. Agora se a senhora está falando do meu outro pai…
— Não estou falando de ninguém! — sua voz tremeu e como sempre ela desviou do assunto — Isso tudo foi por causa de alguma garota por acaso? Eu a conheço? Ou foi Jane que te envolveu em alguma furada desta vez?
— Não tem nada a ver com garotas também, senhora preocupada. Apesar de que tive a ajuda de uma dessa vez.
— Ajuda? — ela balançou a cabeça, como se tentasse adivinhar como havia sido minha noite inteira, e posso apostar meu carro que a malícia estava presente nisso. Apesar de seu dom genuíno de falar com os mortos — do qual eu puxei — ela era uma péssima na arte da adivinhação.
Enquanto ela se esforçava para colocar os pensamentos no lugar, voltei para minha escrivaninha e a peguei novamente na minha frente.
— Que tipo de ajuda é essa que você disse? Foi algo a ver com algum fantasma? Você enfrentou um deles na noite anterior? Eram muito perigosos? Você deixou que uma humana te pegasse…
— Ei, sei que a senhora não precisa, mas poderia respirar um pouco? Não aconteceu nada demais, está tudo sob controle como sempre.
— Você não está me convencendo. Vai, quero que você me conte.
Suspirei e despejei a história toda em cima dela, desde Margot, a surra que eu havia recebido dos capangas de Ash e a ajuda inesperada de . Minha vó escutava tudo com muita atenção, com suas expressões variando de furiosa quando contei sobre Ash e até curiosa quando contei sobre . Mesmo não gostando da forma como ela sempre aparecia do nada quando vinha me ver, aquilo foi uma descarga que eu não sabia que precisava.
— Então você conseguiu resolver o problema dessa menina Margot?
— Ah, não sei vó… Eu consegui descobrir as informações que ela queria, mas não sei se vai ser o suficiente pra ela ir, sabe… Pro outro lado.
— É… É complicado, mas você fez a sua parte. Se ela não o deixar em paz depois disso, eu mesma mando ela pastar. — nós rimos — Mas e essa garota que te ajudou a sair da festa? Você não acha estranho ela ter estado presente com esse cara que fez isso com você e depois ter dito que vai investigar o caso que ele pode estar envolvido? Você confia nas intenções dela?
— Vó, eu não confio em nada. Eu já disse, eu não quero saber o que essa garota pensa ou deixa de pensar. Já vacilei quando não pensei direito e falei coisas que não devia perto dela, mas não vai passar disso. Acredite, ela não vai chegar em lugar nenhum, não precisa levar tão a sério.
— Mas então por que você parece tão preocupado com esse assunto?
— Ah… Eu não estou preocupado. — dei de ombros, olhando para a tela do computador — Ela só é um pouco desmiolada e namora um completo babaca, então eu tenho receio. Mas ela vai se esquecer rápido de tudo que aconteceu.
Minha vó acenou e pareceu aceitar esse ponto. Mas ela não havia mentido ao supor que eu estava de certa forma preocupado com , principalmente depois do que eu havia visto naquela noite. Não que isso fosse me consumir, mas eu não parava de pensar como ela faria o que disse. Me fazia pensar o que aquele boçal faria com ela, ou, como eu me convencia a pensar, não deveria acreditar que ele tinha algo a ver com a situação, muito diferente do que eu pensava.
Mas será que Margot sabia? Se as confissões de Ash não fizessem efeito em sua permanência aqui desse lado, o que mais a estaria prendendo aqui?
Fui puxado para a realidade quando a campainha começou a tocar incessamente, o que não é nenhuma surpresa vindo da visita que eu estava prestes a receber. Dispensei minha vó, que sumiu em um piscar de olhos ao chamar de “moleque pervertido” e abri a porta, a qual ele foi entrando sem ao menos me olhar.
— Eu espero que você tenha uma boa explicação pra ter me deixado plantado no meio da festa e que ela diga como você sumiu deixando seu carro pr… — virou-se, reparando em meu rosto — Mas que porra é essa, ?! — gritou e eu podia jurar que o porteiro havia escutado — Você não atende as ligações a noite toda e agora parece que se meteu em briga de gangue?
— Sabia que isso poderia ser facilmente interpretado como briga de casal, não é?
Ele olhou para os lados, como se realmente estivesse preocupado de ser ouvido.
— Irmão, o que tá pegando? Eu passei horas pensando que você estava em um necrotério.
— Que isso, cara — dei uma risada, mas ele não se convenceu — Tá legal, aconteceu que eu sofri um pequeno acidente, só isso. Me perdi na festa no começo, bebi um pouco demais, me envolvi em uma briga. Acho que toda festa tem um pouco disso, não é?
— Espera aí, eu não tava falando sério do lance da briga… Calma, você realmente levou uma surra?!
— Ah… Pois é, mas não foi nada grave, eu já tô bem melhor e…
— Cara, como assim?! Me diz quem foram esses covardes que já já eu descubro algum podre deles e exponho tudo no Fórum! Ninguém vai conseguir escapar!
— Ei, calma aí, Snowden, é sério, está tudo bem. Eu mal lembro do motivo da briga quanto mais quem se envolveu nela, então você pode sossegar e voltar ao normal.
— Cara, mas… Olha pra você, ! Como que você considera isso uma mera briga de bêbado? Qual foi o motivo que esses caras tiveram? Você precisa me contar…
— Eu acabei de te contar tudo que aconteceu. Ou melhor, do que eu lembro que aconteceu. Sinceramente, essas coisas não importam agora, eu só sei que eu tô bastante exausto e preciso descansar antes de terminar os relatórios pra aula de amanhã e…
— Você tá maluco? — ele me interrompeu, colocando uma mão em meu ombro — Desde o ensino médio eu não te vejo com tantos curativos, e você era mestre em arrumar briga naquela época. Se estava com problemas, por que não me ligou? O que você arrumou dessa vez que eu também não podia ajudar?
… Que isso, cara, também não é pra tanto. Eu realmente sinto muito por ter sumido do nada, foi vacilo, eu sei. Mas eu estou bem, é sério.
— Como seu parceiro, eu sei que você está bem. E não vou dizer que não é do seu feitio se meter em pancadarias porque sabemos que não é bem verdade. — ele deu de ombros — Mas desde que nos mudamos você parecia mais calmo, de bem com a vida, e você sabe qual seria a reação da sua mãe se recebesse uma ligação da polícia de NY com uma cobrança de fiança?
, sei que foi atípico isso acontecer em uma festa, mas coisas acontecem pela primeira vez. Eu prometo que tomarei mais cuidado da próxima.
Lancei-lhe um sorriso tranquilo, sem mostrar os dentes, e ele pareceu engolir a minha história — não que ele fosse me deixar em paz sobre os detalhes dela.
— Tudo bem, . Mas o que raios aconteceu? Onde você se meteu nessa confusão? Nem vem inventar desculpas porque eu vi seu carro até o final da festa.
Passei as mãos na cabeça e tentei pensar. Eu sabia de algo que faria acreditar no mesmo minuto, mas tinha plena certeza de que provavelmente ele não me deixaria em paz.
— Encontrei uma colega do departamento.
Os olhos dele brilharam de empolgação.
— Tá zoando! — ele riu — E aí, como foi? Vocês foram pra um dos quartos? Como é o nome dela?
— Não lembro. E devo dizer que até agora não dormi direito, então se você puder me deixar descansar…
— Mentira! Foi tão bom assim? Não acredito como pode não me contar isso assim que cheguei…
Foi uma dor de cabeça me livrar dele depois dessa. Deixei explícito que eu não me lembrava quem era a tal garota e que não me lembrava de absolutamente nada entre nós e, por mais suspeito que fosse, apenas aceitou por causa do meu “jeito fechado” e consegui expulsá-lo amigavelmente do meu apartamento, alegando o quanto eu precisava dormir.
O efeito dos analgésicos estavam passando e a dor que eu tanto evitava estava dando caras às caras, então sem nem pensar duas vezes engoli dois comprimidos e caí no sono antes que eu pudesse chegar ao quinto carneirinho.


Capítulo 6: Fuga da inevitável bola de neve.
Eu não havia colocado nenhum despertador, mas nesse trabalho minha mãe era a melhor. Nem o sono mais profundo era capaz de se manter à insistência telefônica da Sra. Meredith. Alcancei o celular na mesa de cabeceira, sem abrir os olhos, dando fim ao Jack the Bear de Duke Ellington que enchia meus ouvidos.
— A partir de hoje vou mudar esse toque — murmurei assim que consegui arrastar o ícone verde para o lado.
— De jeito nenhum! — ela respondeu em voz alta, mas para mim que ainda estava acordando havia soado três oitavas acima — Como vai saber que sou eu?
— Já conversamos sobre identificadores de chamadas, mãe. Hoje em dia as pessoas não precisam de toques específicos para cada número gravado.
— Eu não sou qualquer número gravado — pude senti-la fazer um bico de desaprovação; sempre fazia isso toda vez que eu tentava argumentar contra seus costumes bregas e ultrapassados.
Barulhos repetitivos em cima de uma superfície de madeira e, em seguida, o chiar de uma panela no fogo indicavam que ela estava na cozinha. Sentei-me lentamente na cama, sufocando um gemido de dor pelo esforço, deparando-me com o escuro impenetrável que estava no quarto. Eu não fazia ideia de que horas eram.
— Eu te acordei? — ela continuou, e pude ouvir o tilintar de talheres e outras conversas baixas ao seu lado — Por que está dormindo uma hora dessas?
— São as aulas — a resposta estava pronta imediatamente, como sempre — Preciso preencher os formulários para o estágio no próximo semestre, têm sido corrido.
— Oh meu amor! É claro, como pude esquecer! Você foi o número um de novo, meus parabéns! Bertha, foi o número um de novo! — ela afastou o telefone para chamar nossa empregada. Pude ouvir as felicitações dela ao fundo — Seu pai está em uma reunião importante com convidados de Londres na sala de estar, mas ele também ficou feliz! Com certeza vai te ligar amanhã — com certeza ela estava com um sorriso de ponta a ponta — Já escolheu seus orientadores? Eu e seu pai estávamos fazendo uma lista, e vimos que o Dr. Noah Smith está disponível e adoraria te conhecer! Tenho certeza que se eu conversar com o reitor ele o contrata para o centro médico.
— Não precisa ter tanto trabalho — usei um tom calmo, porém sério. Precisava pará-la antes que ela tomasse a frente de tudo relacionado a mim — Ainda falta um semestre, vou ter tudo preparado até lá, eu prometo. O que está cozinhando?
— Adivinhe só! Vieiras com parma! — ela riu e tagarelou um pouco sobre os temperos, tempo de cozimento e a importância do tipo de louça que usaria para aquela ocasião. Fiquei aliviado só por tê-la desviado do assunto do estágio — O Dr. Griffin trouxe uma louça tailandesa de presente e seria falta de educação não usar no jantar, apesar de eu particularmente preferir aquela que compramos em Roma, você lembra? Mas seu pai insistiu que usássemos a dele — ela bufou e pude sentir seus olhos se revirando nas órbitas.
Ouvir minha mãe tagarelar sobre jantares executivos em casa enquanto picava os legumes, preparava o molho, conversava com Bertha e ouvia jazz baixinho me deixavam nostálgico e com saudades de casa. Podia visualizá-la usando seu avental rosa com bolinhas brancas, um coque perfeitamente alinhado, preparando uma comida deliciosa usando salto e maquiagem.
— Não vejo a hora de ver você em casa, meu bem! Sua avó virá para o natal e nós prepararemos aquele clam chowder que você adora. E por falar nisso, como está o clima por aí? Aqui o inverno se aproxima mas as pessoas continuam indo à praia, você bem sabe como. Um cliente do seu pai da Flórida nos convidou para passarmos o feriado de ação de graças na fazenda, e eu estaria melhor se você pudesse ir junto — seu suspiro de indignação era mais um pedido.
— Também já conversamos sobre isso, Sra. . Esse semestre está sendo bem corrido, e não vai fazer mal você e papai passarem o feriado com outras pessoas. A sua comida fará todos bem mais felizes, então se anime. Vou ligar duas vezes para ter certeza que você está se comportando.
Ouvi uma fungada e adivinhei que ela já estava ficando emotiva.
— Vai ser a primeira e última vez — sua começou embargada, mas logo se recuperou — Não gosto dessa ideia. Sinto sua falta! Eu e seu pai vamos te ver assim que ele conseguir fechar esse contrato hoje, com certeza será antes do natal. Aí podemos voltar todos juntos.
— Combinado.
Eu esperava ter resolvido todos os problemas antes do natal.
Ouvi Bertha falar algo sobre pôr a mesa e mais tilintar de talheres.
— Vou ter que desligar, sweetheart. Aparentemente a reunião terminou.
— Tudo bem, mãe. Manda um abraço e boa sorte ao papai.
— Você está bem, não é? Estou tão atarefada que até me esqueci de perguntar… — sua voz estava estourada, provavelmente ela estava equilibrando o telefone no ombro com a cabeça tombada e andando pela cozinha — Está precisando de alguma coisa? Você está se alimentando direito? Essas comidas de delivery e refeitórios de universidade não são nada nutritivas, quando eu for farei questão de te levar uma comida saudável.
Lancei uma série de “sim”, “aham” e “não”.
— Está fazendo alguma atividade física? É importante se exercitar, mesmo que você não tenha muito tempo. E não quero te ver com um cigarro na boca de novo!
— Pode deixar, mãe, sempre corro no meu tempo livre — não pretendia contar quando foi a última vez que aquilo havia acontecido.
— E o ? Está te fazendo companhia? Besteira, esse garoto não larga do seu pé — ela suspirou e ouvi os pratos sendo empilhados um a um. Ouvi mais uma vez a voz de Bertha.
— Está tudo em ordem, mãe. Vá servir o jantar antes que papai comece a ter de contar as piadas de golfe para entreter os convidados.
— Você tem razão! — ela riu — Te amamos, sweetheart. Estou com muitas saudades!
— Eu também, mãe.
O visor do celular marcava 10:45pm assim que desliguei. Ainda não me sentia completamente descansado. Absolutamente tudo no meu corpo doía e eu já havia tomado analgésicos demais. Caminhei até o banheiro, ligando a torneira e em seguida jogando um pouco de água no rosto. A palidez não era nada convidativa e eu parecia doente. Os hematomas foram de vermelho para roxo e eu sabia que teria de preparar outra banheira de gelo.
Voltei para a cama com o intuito de tentar dormir novamente. Senti que poderia dormir por pelo menos dois dias, mas não consegui conter meus pensamentos desenfreados. No silêncio do cômodo, de repente fui invadido por eles. Como um flashback, me recordando de tudo que havia acontecido nos últimos dois dias.
Levantei novamente, colocando um jeans, tênis e um casaco. Precisava entregar a mensagem à Margot, afinal, era aquilo que eu fazia. E daria fim aquela história hoje mesmo. Afinal, ela só queria saber a resposta de Ash, não é mesmo? Não havia porquê estender o assunto.
Eu mal fazia ideia de como estava errado.

Nunca havia ido ao campus fora dos horários letivos desde que cheguei em NY e de repente aqui estava eu, tentando burlar as normas pela segunda vez no mesmo dia. Sair não havia sido tão difícil; não havia problemas na movimentação de estudantes aos fins de semana, visto que a biblioteca, laboratórios, restaurantes e demais instalações com projetos ativos funcionavam normalmente. A enfermaria não era uma delas, o que me fez pensar em como havia me colocado lá dentro. Não apenas isso. Agora eu estava arrependido de não ter perguntado como raios ela havia conseguido entrar no prédio em plena madrugada — o que exatamente eu estava tentando fazer agora. Aparentemente, havia muitas coisas para ensinar.
Estacionei do outro lado da avenida, em frente ao enorme portão de grades pretas. Um único vigia noturno estava dentro da guarita ao lado do portão. Não parecia estar prestando muita atenção em intrusos, o que era ótimo para os meios não convencionais que eu pretendia usar.
Desci do carro e dei a volta nas grades principais. Em um ângulo de 180 graus, eu já estava bem longe da vista do vigia. As grades deviam ter uns 6 metros, mas continham várias linhas horizontais, facilitando minha entrada. Do outro lado, coloquei o capuz e comecei a caminhar com a cabeça baixa. As luzes estavam acesas por toda extensão do campus. Tive que me esquivar atrás de árvores e pilastras de pelo menos dois vigias que vagavam com lanternas; avistei as luzes acesas dos dormitórios e agradeci mentalmente pelo JJ’s não abrir aos domingos. Na direção de Morningside Heights, cruzei com algumas pessoas, estudantes voltando de uma social clandestina ao que parecia. Eu não era o único a vagar sem permissão aquela hora.
Cheguei ao John Jay Hall sem grande alarde. Eu tinha um certo conhecimento com fechaduras (e grampos), e agradeci em todas as línguas que conhecia por aquela ainda não ser a digital.
O John Jay Hall era um prédio de 15 andares na extremidade sudoeste do campus. Ali não apenas abrigava o JJ’s e algumas instalações de serviços de saúde, mas também alguns estudantes nos dormitórios. Inclusive . Pensando sobre isso, eu definitivamente não deveria estar aqui. Graças à ausência do JJ’s, ninguém estaria nos corredores naquela hora. Pelo menos era o que eu esperava. Lá dentro havia apenas uma iluminação baixa, quase inexistente. Eu não havia vindo preparado, então a lanterna do meu celular teria que bastar para que eu chegasse ao terceiro piso pelas escadas de emergência. De forma alguma poderia pensar em pegar o elevador.
O restaurante estava vazio e silencioso. Olhando-o dessa forma, parecia muito maior do que era normalmente, com a aglomeração de pessoas impedindo uma visão panorâmica do local. As mesas de madeiras vazias, os pilares também de madeira, o pé direito alto com o teto em mármore branco, os lustres espalhados pelo lugar totalmente apagados. Foi aqui que eu havia encontrado Margot pela primeira vez, naquela cena infame de queda. Hoje, se eu caísse, contava que pelo menos ninguém veria.
Não é que eu pudesse chamar os mortos a hora que eu quisesse. Mesmo se eu pudesse, isso seria algo que eu definitivamente nunca faria. E não era como se eles pudessem me encontrar onde quer que eu esteja. Se eu não soubesse que eles ficavam presos aos arredores de onde haviam morrido, ficaria preocupado de receber uma visita em minha casa, mas felizmente sabia que não era possível. Eles até poderiam, mas não sabiam como. Não haviam lembranças.
Em situações como aquela, bastava que eu chamasse seu nome. Sempre eficaz, não demorou muito para que ela se materializasse no escuro, pálida e com uma expressão confusa, como se ainda não entendesse muito bem como aquilo acontecia.
, é você? — ela olhou para os lados — Está sozinho?
— Como vai, Margot?
— Estou ótima — ela abriu um sorriso, que logo desapareceu — Quer dizer, na medida do possível. Eu queria olhar os jogos de sinuca do JJ’s, mas eles estão fechados hoje. Muitos colegas meus jogavam ali…
— Escuta, vou ser breve — interrompi-a antes que começasse um monólogo — Precisamos conversar sobre Ash.
— Você o encontrou?
— Encontrei. Ele foi bem gentil — meu tom sarcástico fez com que ela inclinasse a cabeça curiosa. Em um piscar de olhos, ela estava próxima do meu rosto, quase encostando em meu nariz, e abaixou meu capuz.
— Meu Deus! — sua boca se abriu em choque enquanto ela dava um passo para trás — O que aconteceu com seu rosto? Você brigou com Ash?
— É, mais ou menos. Pode-se dizer que ele tem muitos amigos.
Ela abriu ainda mais a boca.
— Não acredito que ele mandou Dylan e Bruce fazerem isso! Eu devia imaginar que ele teria esse tipo de atitude… Nem sei o que dizer, … — ela respirou fundo, claramente indignada.
— Relaxa, não foi a primeira briga que eu me envolvi. Mesmo que essa tenha sido um trabalho em conjunto, eu já estou bem. O mais importante é que confrontei Ash, e devo dizer que ele negou a história toda.
— Negou?
— Ele disse que não te matou. E parecia estar dizendo a verdade.
Ela ficou em silêncio e andou um pouco em círculos. Pensei em mais alguma coisa para dizer, mas não havia nada. Ela deveria sumir agora, não é?
— Então… Agora está tudo bem? — perguntei após vários minutos de silêncio.
Ela parou de andar, mas ainda mantinha os olhos no chão.
— Isso não faz o menor sentido — murmurou em voz baixa. Ela levantou a cabeça e havia algo novo e estranho nos seus olhos: uma raiva que não estava ali antes — Têm que ter sido ele!
Engoli em seco. Aquilo não era um bom sinal.
— Margot, olha… Ash te vendeu Lorazepam. É um remédio forte para ansiedade, mas com três comprimidos você no máximo perderia suas aulas do dia seguinte. Na sua idade, uma overdose estava fora de cogitação. O que não deixa de ser uma irresponsabilidade tomá-lo, mas ele não te mataria.
— Ele pode ter alterado o medicamento. Sabia que Ash produz algumas de suas drogas? Deve ter feito esta especialmente pra mim… — sua boca se curvou em uma careta de choro, apesar de seu corpo tremer em raiva.
— Sendo racional, uma overdose só seria possível se você já estivesse sob efeito de outra droga antes de tomar o remédio. O seu corpo não aguentou.
Ela olhou para mim estupefata.
— O que você disse? — havia um vinco em sua testa. Pude ver que ela começou a dar passos em minha direção — Está dizendo que eu usei drogas naquele dia? — abri a boca para responder, mas ela foi mais rápida — Não que te interesse, mas eu nunca usei drogas. Aquela era a primeira vez que eu iria embarcar nessa. Se eu adivinhasse que nunca mais voltaria dessa maldita experiência, eu jamais teria aceitado, você me entendeu?!
Ela aumentou a voz na última frase, não que mais alguém pudesse ouvir. Sua raiva e frustração eram explícitas, ela não estava levando o assunto muito bem.
— Como você pode pensar isso de mim?! — ela continuou — Naomi me dizia que eu era sem graça por não ceder ao estilo de vida de Ash, mas eu não conseguia. Mesmo assim, eu sentia que nós… — ela respirou fundo, tentando não chorar — Ele negou completamente sua participação nisso tudo?! Eu devia saber que ele pularia fora de uma forma ou de outra!
O problema não eram os gritos e a expressão furiosa de Margot. O problema é que quando um fantasma resolvia se revoltar, eles não tinham muita pena do lugar ao redor — e nem das pessoas. Então quando algumas cadeiras voaram acima de mim e os vidros do salão começaram a balançar, eu notei que precisava tomar uma providência.
— Margot, se acalma…
— Me acalmar?! Eu fui ASSASSINADA, ! Eu tinha planos, tinha um futuro brilhante pela frente! E tudo isso foi tirado de mim da noite pro dia! Para as pessoas ainda pensarem que eu fiz isso comigo mesma — ela recomeçou a chorar, e isso fez com que os vidros tremessem com mais intensidade — O que meus pais devem estar pensando, toda a minha família na Virginia, devem estar decepcionados comigo…
— Tenho certeza que sua família também entendeu que você jamais faria isso.
— Mas eles não liberaram a autópsia, não é mesmo? Como era de se esperar! Minha mãe quer evitar a vergonha de ter uma filha que se drogou e não aguentou a pressão, que não soube ir em frente!
— Agora não é hora de se preocupar com o que sua mãe pensa ou deixa de pensar! Se você me disser exatamente o que aconteceu naquele dia, talvez possamos chegar a uma conclusão…
— Não está claro?! Ash fez isso comigo! Ele fez isso comigo! — uma cadeira da lateral do salão voou acima do chão e se espatifou no teto, e aquilo com certeza foi ouvido por toda a área do corredor — Ele vai me pagar, ele vai…
— Margot, se acalma! — falei entre dentes, olhando para trás em direção à porta de entrada. Alguém com certeza havia escutado — Por que Ash te mataria?! Você não me contou…
— Eu já te contei tudo, mas você não vai me ajudar! Ninguém vai me ajudar a fazer com que ele pague! Ele me avisou que seria assim, que você não estava do meu lado… — ela me encarou, o ódio escancarado em seu rosto — Eu mesma vou resolver essa história! — ela deu as costas para sair, mas a peguei pelo braço antes que ela fizesse isso.
— Do que está falando? Quem é ele? — ela me ignorou e tentou se soltar — Eu tô falando muito sério, Margot. Ou você se acalma e acaba com esse show, ou…
Eu não era tão ingênuo a ponto de pensar que ela me escutaria. Mas também não esperava que ela fosse me dar um empurrão e eu seria literalmente jogado pelos ares até bater na parede ao lado da porta de entrada do refeitório. A dor foi tamanha que eu tenho certeza que apaguei por três ou quatro segundos, mas quando abri meus olhos ela já havia desaparecido. Uma explosão do lado de fora, quebrando o restante dos vidros e janelas de pé e em seguida um apagão mostravam a extensão das atitudes de Margot: a energia já era.
As mesas antes perfeitamente enfileiradas agora estavam dispostas em uma confusão de balbúrdia. Uma das cadeiras havia ido parar janela afora, e outra estava pendurada no vidro da cozinha. Um dos lustres espatifou-se no chão. Agora literalmente o prédio inteiro estava um breu.
Xinguei-a mentalmente, e confesso que não esperava que as coisas fossem chegar àquele ponto. Essa era a bola de neve que eu tanto queria evitar. Margot havia desaparecido e do jeito que estava transtornada, eu tinha certeza que ela havia saído do prédio — e isso era a coisa mais perigosa que poderia acontecer com ela naquele estado. Felizmente, ela não conseguiria chegar à casa de Ash naquele dia, visto que suas memórias ainda deveriam estar turvas e ela precisaria de um tempo para se adequar lá fora. Infelizmente, agora Ash era um alvo e de fato estava em perigo.
Margot havia deixado o salão em caos, e não demoraria muito para que alunos e seguranças chegassem ali, e isso significava que eu tinha que sair dali o mais rápido possível. Me levantei com dificuldade e tentei ligar minha lanterna novamente, mas a queda havia deixado meu celular em frangalhos, e não sabia se ele funcionaria novamente. Completamente no escuro, tateei as paredes até achar a porta por onde havia entrado e ao tocar na maçaneta, um choque na minha testa fez com que eu fosse jogado novamente ao chão e gemer de dor. Avistei um fio de luz chegando perto de mim, que vinha da boca de uma lanterna e um rosto conhecido se ajoelhando ao meu lado.
— Não acredito. — gemi, tentando me levantar.
— Era só o que me faltava — bufou, sussurrando — Mas que raios você está fazendo aqui, garoto?
— Eu também deveria perguntar isso, você acabou de literalmente bater com a porta na minha cara.
— A minha bola de cristal quebrou, então foi difícil adivinhar que você estivesse aqui — ela revirou os olhos — Posso saber por que você está nesse breu parecendo um marginal e fazendo… — ela parou de falar assim que iluminou o restante do salão — Mas que merda aconteceu aqui?! Eu ouvi uns barulhos e vim…
— Não dá tempo de explicar, temos que sair daqui agora.
— Não é possível que você tenha feito tudo isso. Eu ouvi vozes antes de chegar, com quem você tava falando?
Antes de responder, ouvi passos correndo e mais feixes de luz porta afora.
— A gente precisa correr!
Antes que ela protestasse, peguei em sua mão e puxei-a porta afora, em direção contrária às escadas por onde eu havia subido — e por onde agora subia uma quantidade considerável de pessoas pela falta do elevador.
As escadas eram a única saída existente do prédio àquela altura. Se alguém nos visse naquela cena ao lado da destruição, não precisava pensar muito pra saber quais conclusões tirariam. Os dormitórios ficavam muitos andares acima, o que me dava tempo de abrir a segunda saída de emergência, ouvindo os gritos estarrecidos dos alunos ao longe. Desci os dois lances o mais rápido que consegui, estabilizando as costas na porta vermelha e tentando pensar o mais rápido que podia. Eu não sabia exatamente o que teria no corredor à minha frente, mas os guardas não iriam descansar agora que já haviam visto nossas silhuetas (e depois de verem a bagunça que estava no refeitório). Maldita Margot, que havia praticamente feito um convite à pessoas de fora com todo aquele circo.
Eu e não tínhamos muito pra onde correr. Àquela altura, os guardas já deveriam ter acionado mais colegas de trabalho e até mesmo a polícia, não por conta de dois penetras mas sim pelo vandalismo no refeitório — fora todo o desespero dos alunos que com certeza teorizavam um ataque terrorista. Eu precisava urgentemente lidar com aquela reviravolta.
, o que está acontecendo? — sussurrou e pude ver que ela estava com medo — Foi você…
— Não, mas seria difícil explicar às pessoas caso elas nos pegassem.
O barulho de vozes na rádio patrulha ia ficando mais alto. Era questão de tempo até que eles chegassem àquela porta. Estávamos no térreo e mapeei a direção da entrada dos fundos por onde eu havia entrado. Não muito longe dela, havia uma sala estreita de almoxarifado com uma porta azul na frente. Poderia não ser uma ótima ideia. Eu contava com a aglomeração de pessoas estar reunida principalmente à frente do restaurante, três andares acima. Meu peito arfava e cada respiração eram como lascas de pedra nas minhas costelas, mas eu não podia descansar. Encostei na parede antes de entrar no corredor, e pude ouvir os passos dos guardas à pouco mais de 50 metros.
… — respirava acelerado, ainda segurando minha mão — O que você tem na cabeça? Ainda não estou entendendo…
— Precisamos nos esconder. Se formos pegos aqui hoje vai ser um desastre, e eu vou precisar da sua ajuda pra isso.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de concordar. sabia perfeitamente que aquela era a verdade; e ela também estava envolvida.
— Vou colocar na sua conta — ela se endireitou, encostando na parede ao meu lado — O que você quer fazer?
— A gente precisa chegar ao almoxarifado.
— Sem chance, ele está trancado uma hora dessas.
— Isso não é problema.
Dessa vez eu não pude observar o olhar que ela me lançou — como se eu fosse louco — e rapidamente a puxei na primeira brecha que as vozes ficaram mais distantes. Andamos rápido, sem correr, rente à parede e abaixados para as luzes que vinham do pátio não correrem o risco de nos pegar e chegamos à pequena porta azul. De joelhos, puxei novamente o grampo do bolso e entreguei a lanterna à , que apontou para a fechadura enquanto eu fazia o trabalho de destrancá-la.
— Uau — ela disse assim que ouviu o clique — O que mais você esconde embaixo desse capuz?
— Vá por ali — uma voz não tão distante soou como se estivesse ao nosso lado, e de repente passos correndo pareciam vir em nossa direção.
Em um impulso, empurrei para dentro da sala e entrei logo em seguida, fechando a porta e apagando a lanterna mais rápido que consegui. Segundos depois, pelo menos quatro guardas passaram em frente à porta e de repente começaram a vasculhar o corredor à nossa frente minuciosamente. Olhei para e imediatamente tapei sua boca com minha mão ao ouvir sua respiração tão acelerada e alta, a ponto de surtar.
Havia uma pequena fresta de vidro em forma de quadrado na porta azul, não grande o suficiente para ver algo no escuro, mas se eles ficassem curiosos o suficiente a ponto de abrir a porta, não teríamos saída. Um suor escorreu pelo meu rosto ao ver uma lanterna passeando perto do vidro, e senti as mãos de pegarem com força em meu casaco. Ela estava com medo. Olhei em seus olhos, que estavam arregalados e visíveis mesmo no breu, e lhe lancei um olhar firme, tentando acalmá-la de alguma forma.
O feixe de luz parou por alguns segundos ao lado do vidro e se afastou depressa, junto com as vozes. Suspirei aliviado e soltei meus ombros, como se um caminhão tivesse saído das minhas costas. Tirei a mão da boca de e pela primeira vez reparei como estávamos grudados. Não que a sala desse vazão para que ficássemos muito mais longe do que aquilo — era um cubículo que já estava um pouco abarrotado pelas vassouras e produtos de limpeza. Mas ao ver que, sem o obstáculo da minha mão nossos narizes estavam quase se encostando, dei um passo pra trás, de repente constrangido pelo momento.
— Me desculpa — sussurrei, passando as mãos pelo cabelo.
— Que loucura — ela balançou a cabeça, ainda atônita com a situação — Quando vamos sair daqui?
— Quando eles derem uma brecha pra gente chegar até os fundos.
— Ah sim, Kim Possible. E quando seria isso? Você viu o estado do refeitório, daqui a pouco vamos ter que nos esconder da polícia, e não apenas dos vigias noturnos.
— Pois é, e se você resolver ajudar podemos fugir dos dois. — disse enquanto me abaixava para revirar umas caixas de papelão.
— O que você tá fazendo agora? Tem certeza que tá em condições de se mexer desse jeito?
— Esse é o menor dos meus problemas agora. — levantei e peguei um dos esfregões, quebrando a ponta pelo joelho e amarrando um pano branco em uma de suas extremidades.
— Tá legal, é sério, o que é isso? Não… Você poderia me dizer o que raios está fazendo aqui pra começo de conversa?
— E você? O que tá fazendo aqui? — me virei para ela.
— Vim ver uma amiga. — ela deu de ombros.
— Os dormitórios estão no oitavo piso, você deveria estar presa no elevador a essa hora.
— Não ando de elevadores. Pelo visto foi a coisa certa a se fazer.
— Não precisa inventar desculpas pra mim. O que há pra investigar aqui a essa hora?
Ela levantou as sobrancelhas surpresa, e uma vermelhidão aparentemente até no escuro mostrou que ela estava constrangida.
— Bem… De certa forma é um assunto confidencial, pra minha matéria. Não preciso te responder sobre isso, ao menos a minha vinda aqui não causou um crime ao patrimônio.
Revirei os olhos e voltei ao que estava fazendo. Achei um vidro de álcool na primeira prateleira, já que era algo que era bastante usado e estava sempre à vista, e despejei sobre o pano.
— Tá legal, o plano é o seguinte: um de nós vai jogar esse pedaço de madeira bem perto da porta de entrada e isso vai chamar a atenção dos guardas por perto. Enquanto eles se concentram nisso, nós corremos até o portão dos fundos e os guardas que estão lá já vão ter sido acionados pelos guardas daqui da frente, então vamos ter exatamente pouquíssimos segundos de brecha pra ir embora. Você me entendeu?
Ela me olhou chocada por alguns segundos, mas acenou. Procurei um isqueiro nos meus bolsos e bufei ao perceber que eu estava realmente seguindo aquela medida para parar de fumar. pareceu perceber o que eu procurava e sacou um isqueiro da bolsa, entregando-o pra mim. Automaticamente olhei em dúvida pra ela.
— O que? Eu sou precavida.
Acenei e me preparei pra ligar o fogo no pano, quando ela segurou minha mão.
— Deixa que eu faço.
— Ah… Não precisa, é melhor eu fazer.
— Quer parar de ser teimoso? Olha seu estado, você vai nos atrasar até chegarmos aos fundos. Pode me dar isso.
Ela agarrou o bastão de mim e abriu a porta devagar, me lançando um último olhar antes de correr para a direita. Sem perder tempo, corri para o lado contrário em direção aos fundos. Ouvi algumas vozes dos guardas do lado de fora gritando para prestarem atenção ao fogo, e visualizei a porta dos fundos por onde eu havia chegado. De repente eu parei, tomado por uma preocupação com que eu havia deixado para trás. Olhei para fora, onde de bem longe eu conseguia ver a silhueta das grades. Olhei para trás, sem nem sinal de e a sirene da polícia já podia ser escutada ao longe. Em um dilema como esse, eu precisava escolher o meu lado sem dúvidas. Se eu fosse pego no meio daquela confusão, as consequências seriam tamanhas que me dava até dor de cabeça. Eu mal poderia adivinhar a reação dos meus pais. O reitor me daria tantos pontos de demérito fossem necessários, isso se eu não fosse detido na delegacia mais próxima e tivesse que pagar uma fortuna de fiança, ou talvez fazer trabalhos voluntários durante toda a minha vida quem sabe. E não sei porque depois de citar exatamente todas as possibilidades de consequências que poderiam advir daquele evento, eu decidi voltar atrás pra buscar .
A minha perna já não estava funcionando muito bem, e a dor que eu sentia não me deixava pensar direito. Para minha sorte, andei alguns passos e avistei correndo com os olhos arregalados em minha direção. Sem dizer nada, ela agarrou meu braço e me puxou direto para a porta de saída, onde saímos pelo pátio extenso e nos embrenhando no escuro até o portão.
Tenho certeza que alguém nos viu. Jurei escutar um “Eles foram por ali” e uma lanterna pegar a ponta do meu capuz, o que me fez correr a plenos pulmões. Segui em direção á Riverside Dr, saindo de Morningside Heights, entrando em Washington Heights, próximo ao centro médico. Cheguei às grades mais afastadas do hospital, onde com certeza seríamos vistos. Meu carro deveria estar há pelo menos 1km de distância dali.
— Droga — ela murmurou olhando para o muro, e a vi tremendo um pouco.
— Está tudo bem? — perguntei, já posicionando meu pé nas linhas horizontais.
— Ah… Sim.
— Ei, olha pra mim — fiquei de frente pra ela, falando baixo — Eu vou primeiro e você vai atrás de mim, do outro lado eu te seguro. Ok?
Ela acenou, mas parecia nem estar respirando.
— Promete? — sua voz falhou e eu mal a escutei, mas acenei do mesmo jeito — Anda, eles estão chegando.
Consegui escalar o muro de 5 metros facilmente assim como na chegada, só que dessa vez tive que morder os lábios pra não gemer de dor. Ao chegar do outro lado, a bolsa de voou em minha direção e por pouco não a deixo cair; isso sinalizava que ela estava pronta para subir.
— Tenha cuidado — tentei falar o mais alto que a situação me permitia. Ela não respondeu e depois de alguns segundos escutei um grito agudo vindo do outro lado das grades e um estrondo no chão — ! , tá tudo bem? O que aconteceu? — ok, dessa vez eu gritei.
— Cala a boca! — ela gritou entre dentes — Eu estou bem! Foi só um mal jeito.
Depois de quase 3 minutos, a cabeça de apareceu no topo do muro onde ela de apoiava com o braço esquerdo, que estava sangrando na área do cotovelo. Como ela havia se machucado daquele jeito de uma distância tão pequena?
Estendi os braços, pronto para pegá-la, esperando que ela fosse cair objetivamente, mas ela simplesmente se desequilibrou ao tentar se sentar e caiu de qualquer jeito em cima de mim, que como não estava nas melhores condições, tentei segurá-la da melhor forma possível, mas quando me dei conta ela já estava em cima de mim e nós dois no chão.
— É sério… Você precisa parar de fazer isso — resmunguei, e fiquei extremamente nervoso ao perceber como eu sentia sua respiração pesada em minha boca. Por que ela sempre tinha que ficar tão perto de mim?
— Oh meu deus, me desculpa — ela rapidamente saiu de cima de mim, estendendo a mão para me ajudar a levantar. Reparei que um dos seus joelhos também estava sangrando.
— Você tá legal? — apontei para seus machucados.
— É, parece que sim. Só está um pouco dolorido, mas nada que um curativo não resolva.
As sirenes começaram ao longe com mais força e voltamos à realidade.
— O que a gente faz agora?
— Entra no carro! — falei e não dei tempo de ela protestar. Ela rapidamente abriu a porta do carona e dei a partida para finalmente sair dali.

Capítulo 7: Sombras no vermelho.
Um dilúvio inesperado começou a cair assim que a Columbia foi ficando cada vez mais distante na imagem do retrovisor. Queria poder dizer que havia um destino em mente, mas quando me dei conta já estava atravessando a ponte do Brooklyn. permaneceu calada durante todo o percurso, e nas poucas vezes que a observei estava pálida como se fosse vomitar e segurava o cinto de segurança com as duas mãos.
Estacionei nas redondezas da Bedford-Stuyvesant por volta das 3 da manhã, o que não era nada recomendado. A rua estava escura e vazia, somente com um bar aberto à nossa frente, com um letreiro em neon parcialmente ligado que dizia “Wilden’s”, pequeno e com várias spotlights vermelhas que davam um ar de cassino ao lugar. Olhei para novamente, e ela não havia se mexido um centímetro sequer.
— Você está bem? — perguntei ao vê-la afrouxando aos poucos os dedos do cinto. Percebi que ela estava tremendo levemente.
— Você só sabe perguntar isso? — ela respondeu rude, e logo em seguida suspirou — Foi mal. Sim, estou bem… acho que sim. Você sempre dirige como um maluco? E onde estamos, afinal?
— Na situação especial, posso ter me excedido um pouco na velocidade. — dei de ombros e a encarei com uma expressão de desculpas pois ela parecia realmente que iria vomitar — Acredito que estamos no Brooklyn, se a nova-yorkina puder me confirmar. Talvez tenha me excedido nisso também, mas não costumo dar carona para muitas pessoas. — ela apenas acenou com a cabeça, ainda olhando para frente — Você está com fome?
— Não. Quer dizer, sim. Não… — ela olhou para mim, como se ainda estivesse analisando se podia confiar em mim — Acho que posso aceitar um café.
Soltei o cinto de segurança e desliguei o aquecedor, e em seguida percebi que havia voltado a tremer. A chuva havia parado, deixando um frio gélido no ar e ela usava apenas um jeans e suéter. Lembrando-me na hora certa do casaco que eu sempre guardava no banco de trás, curvei o corpo para pegá-lo e coloquei-o no colo dela no momento em que ela desatava o cinto. “Vista”, sem esperar sua resposta, abri a porta e saí.
Haviam mais pessoas do que eu esperava dentro do bar. Uma grande quantidade de fumaça provinda dos cigarros e o forte cheiro de cerveja e café tornavam o ambiente um tanto desagradável à primeira vista, mas parecia bem limpo. Haviam uns três caras jogando cartas em uma mesa nos fundos do local e um casal sentados um ao lado do outro em outra mesa. Pelo meu senso observador, ela parecia mais uma garota que ele havia pego na esquina mais próxima. Eu e nos sentamos um de frente para o outro nos bancos acolchoados do bar, e, graças à luminária com led amarela colocada exatamente em cima da mesa, eu pude ver melhor seu rosto.
A palidez estava melhorando e ela parecia mais aquecida com meu casaco. Ela também pareceu me avaliar com seu olhar, mas de alguma forma parecia ser mais do que isso.
Uma garota loira e alta se aproximou de nós dois com um bloquinho de papel.
— Boa noite, pombinhos. O que vão querer? — ela tinha um largo sorriso no rosto e olhava de mim para .
— Pode me trazer um X-burguer e um café, por favor. — respondi e a garota girou o corpo em minha direção para anotar meu pedido, e deu mais um sorriso, dessa vez bem caloroso.
— Só um café, por favor. — disse, porém a garçonete apenas anotou o pedido, disse “Já volto” e seguiu para a cozinha, parecendo ajeitar o cabelo e caminhar de forma não natural.
soltou uma risada seca.
— Uau. Até com a cara arrebentada você consegue seduzir as garotas.
— Não é bem essa minha intenção. — revirei os olhos irônicamente. Ela apenas riu. — E você? Tem certeza que não quer comer nada?
— Eles não devem ter nada sem carne por aqui. E eu acho que não vou conseguir engolir alguma coisa até amanhã, então… — ela deu de ombros e abaixou os olhos, brincando com os guardanapos.
— Você realmente parece que vai vomitar.
— É a minha primeira vez fugindo da polícia, o que você queria? — ela parou com guardanapos e me olhou.
— Não fugimos exatamente da polícia…
— Você entendeu! — ela aumentou o tom de voz um pouco irritada, e em seguida olhou assustada para os lados — Oh meu deus… É inacreditável as situações que eu tenho passado toda vez que você aparece na minha frente. Como eu ia adivinhar que eu acabaria essa noite em um bar estranho tão longe da minha casa?
— Você acreditaria se eu dissesse que esse sempre foi meu sonho? — levantei as sobrancelhas, irônico. Ela apenas revirou os olhos.
A garçonete colocou os pedidos à nossa frente e pegou o bloquinho mais uma vez, virando-se inteiramente para mim.
— Desejam mais alguma coisa? — ela perguntou sorridente.
— Por enquanto é só isso, obrigado. — acenei com a cabeça e ela se retirou, ainda com seu caminhar peculiar. não parecia disposta a tirar sarro dessa vez.
— Tá legal, Ethan Hunt, precisamos conversar. Posso guardar todos os segredos possíveis sobre você que, acredite, são mais dos que os que eu tenho com minha prima mais velha, mas nada é de graça, ok? Eu preciso que você me conte sobre o que estava fazendo lá.
— Agora você vai me interrogar como se eu fosse um criminoso?
— Isso é sério, ! Penny já deve ter enchido minha caixa de recados, o pessoal do jornal já está sabendo da baderna que aconteceu no refeitório, e eu vou participar da execução dessa matéria, e por mais que você duvide, eu minto terrivelmente mal. Então pra eu não me sentir tão culpada por ter estado na cena do crime e mais, por ter encontrado você lá, eu preciso não ficar no escuro nessa situação.
— Eu já disse que eu não fiz aquilo. — dei de ombros enquanto dava uma mordida no x-burguer. Eu sabia que as perguntas dela viriam mais cedo ou mais tarde.
— Mas você estava lá antes que eu chegasse, e tenho certeza de ter te ouvido falando com alguém. Você está acobertando outra pessoa, não é?
Suspirei, tentando desesperadamente pensar em alguma coisa.
— Eu já disse, não havia mais ninguém lá. Você deve ter me ouvido falar sozinho, já que eu também fiquei bem surpreso.
— Isso ainda não explica…
— Eu fui ao laboratório averiguar um experimento pro meu relatório. Não é tão distante assim do John Jay, um amigo vive lá. Foi apenas um caminho que eu tomei. Não é nada tão alarmante, fora o horário que eu resolvi fazer isso. — levantei as sobrancelhas — E eu tenho certeza que mais do que isso não lhe diz respeito algum.
Ela acenou a cabeça me encarando e por mais desconfiada que fosse, pareceu acreditar na minha palavra.
— Mas… Será que eu posso devolver a pergunta? O que você estava fazendo lá?
— Já disse, fui ver uma amiga — estreitei os olhos, esperando que ela continuasse — E investigar.
— Ainda o caso da Margot?
— Bem, sim. Como eu disse, depois do que você falou me deixou bem curiosa, então eu vim olhar os arquivos dela no Citizen.
Levantei as sobrancelhas e ficou em silêncio, até que arregalou os olhos percebendo o que fez.
, em hipótese alguma isso pode sair daqui! É sério, isso é caso de expulsão!
Dei uma risada com toda a ironia da situação.
— Fica tranquila, . Você consultou informações sigilosas de outro aluno e eu fui visitar um traficante. Ambos fugimos de uma cena de crime, então acho que já temos o bastante pra guardar um do outro.
— Também acho que não precisamos de mais — senti-a corar um pouco e abaixar a cabeça — E seus machucados? Estão melhorando? Porque sua cara eu te garanto que não está.
— Muito obrigado pelo feedback — dei uma risada seca — E bem, considerando o fato de que ganhei eles há um pouco mais de 24 horas, a resposta é não. Eles não estão melhorando, mas acho que consigo dar uma boa maquiada neles.
— Você foi ao hospital?
— Fui. — menti, tomando um gole do café — Relaxa, eu vou ficar bem.
— É… Aquele dia foi muito intenso. Nunca imaginei que Ash, ou … — ela abaixou o tom de voz e desviou os olhos — Que nenhum dos dois pudesse fazer isso. Foi um terror.
— Mesmo? Podia jurar que você já estava acostumada com aquele comportamento sutil do seu namorado.
— Não preciso que você acredite, mas ele não é sempre assim… — ela disse, não me convencendo nem um pouco — Não que tenha sido certo.
— Ele nem sempre parte pra cima de quem o contraria? Ah claro, posso acreditar nisso. Afinal, como ele e Ash continuariam com a parceria amigável no esquema do tráfico, não é? — ela me encarou um pouco chocada, abrindo a boca pra falar algo, mas eu a interrompi — Você simplesmente é conivente com tudo isso, mesmo sabendo que eles podem ter algo a ver com a morte de Margot?
— Como você tem tanta certeza disso?
— Eu não tenho certeza de nada, tanto que foi essa dúvida que fui tirar naquele dia. Mas ele não pareceu levar muito na boa…
— O que no mundo te faria pensar que Ash faria uma coisa dessas com Margot? Se você os conhecesse…
— É, mas não o conheço. Mas não vou mentir, eu realmente não sinto que tenha sido ele que tenha feito isso. Mas alguém fez.
— Então levando pro lado do homicídio, quem faria isso então?
— Não sei. — dei de ombros — Não é você que está encarregada desse trabalho?
— Qual é, — ela aproximou seu rosto para mais perto de mim, mesmo estando do outro lado da mesa — Eu sei que você sabe de algo que não quer me contar. E acho que já provei o bastante que não vou espalhar suas maluquices por aí, porque né… De certa forma eu estou envolvida também. Então de algum jeito nós podemos trabalhar juntos nisso, eu publico a matéria e ganho créditos quem sabe a nível nacional e até cito seu nome pra ganhar mais bajulações. O que você acha?
— Acho que você não deveria se meter nisso — eu disse sério, ela me olhou confusa — Nada me garante qual será a reação de se ele souber que você está mexendo com isso.
Ela revirou os olhos, voltando a se encolher no banco.
— Esse é um assunto bem complicado, acho que não vale a pena falarmos dele.
— Você paga de certinha, mas tem um caso gigantesco bem embaixo do seu nariz e não o entrega pra proteger seu namorado? Um otário de primeira, posso te garantir.
— O que você disse? — ela riu de nervoso — Em primeiro lugar, não estou protegendo ninguém. Eu apenas foco em coisas maiores do que universitários tomando pílulas sem receita, e jamais imaginei que isso poderia matar algum deles. — ela respirou fundo, mas dava pra ver que estava nervosa — E sobre , você não tem o direito de criticá-lo, você nem o conhece. Ele é apenas um cara complicado, se enfurece com facilidade, foi culpa sua provocá-lo…
— Você tem medo dele. — a interrompi, e ela abriu a boca para continuar falando, mas de repente se calou.
— E-eu… Da onde você tirou isso? Não tenho medo dele, estamos juntos há muito tempo.
— Não vê como ele te trata? Isso é um diagnóstico para idiotas com toda certeza.
— Você apenas o pegou em um dia ruim. E ele é filho do reitor, automaticamente é uma figura importante, não é tão simples assim acusá-lo de ser cúmplice no esquema de Ash.
Eu dei uma risada, que pareceu a deixar mais nervosa ainda.
— Acredite, seu namorado e todo esse esquema são o menor dos meus problemas. Eu só quero saber quem matou a Margot.
— Então nós dois queremos a mesma coisa! Por que não podemos nos ajudar?
— Nos ajudar. — soltei uma risada — Temos objetivos completamente diferentes com essa história, então não acho que seja benéfico pra nenhum dos dois se trabalharmos juntos.
— Ao menos eu te disse qual é meu objetivo. Qual seria o seu?
— Isso realmente não é da sua conta.
— Tudo bem, lobo solitário, pode fazer isso sozinho. Também consigo interrogar o Ash, e aposto que de uma forma bem menos agressiva do que você.
— Eu não faria isso se fosse você. — disse sério, pensando sobre a promessa de Margot e que não demoraria para que ela o achasse.
— O que? Você acha que ele vai mandar o Tico e Teco pra acabarem comigo também? Ele tem um pouco de noção.
— Afinal, por que raios você está tão obcecada com esse assunto? Eu tenho certeza que outras oportunidades surgirão pra sua ascensão na sociedade, e talvez até melhores ainda.
— Porque é injusto! Desde o começo eu tinha certeza que Margot não havia feito isso com ela mesma, eu sabia um pouco sobre ela. Só que como iria provar algo que estava tão bem resolvido para os outros? Eu desanimei. Graças àquela sua conversa aquele dia, eu finalmente pensei que seria possível provar que todos estavam errados, e quem sabe amolecer o coração da mãe dela. — ela suspirou — Nós havíamos conversado quando ela saía com Ash. Eu e Margot tínhamos muitas coisas em comum.
— Namorar idiotas está incluso nessa lista?
— Haha, muito engraçado. Pode-se dizer que tínhamos os mesmos ideais.
— Ah, você diz de toda essa coisa vegana? Pode deixar que existem um milhão de grupos por aí que não vão deixá-la se sentir só, principalmente na hora de comer aquilo que tem gosto de sola de sapato.
— O que? — ela ameaçou um riso — Você deveria experimentar mais as opções veganas do John Jay. Dá pra comer praticamente tudo que você come sem derivados.
— Os sorvetes são péssimos.
— Também é uma questão de acostumar o paladar — ela deu de ombros — O que você come nas segundas sem carne?
— Eu vou ao Hewitt.
me olhou espantada e soltou uma risada alta, colocando as mãos na boca.
— O Hewitt não é uma opção! — ela ainda ria — Qual é a sua comida favorita? Tenho certeza de que pode encontrá-la na minha versão.
— Quer saber mesmo? — ela assentiu — Bolo de carne.
Ela balançou a cabeça e riu, e não consegui me conter. Senti o peito ficar quente ao lembrar do bolo de carne da sra. Dundy no orfanato. Não era nada igual às iguarias que minha mãe havia me servido a vida toda.
— Isso não é justo. Achei que seu gosto fosse mais…
— Refinado? — completei sua frase e ela concordou lentamente depois — Achou que eu só bebesse vinho do Porto e fumasse Insígnia? Ou melhor, deve ter achado que eu passo meu tempo livre em um campo de golfe usando camisa polo…
— Infelizmente eu não consigo me segurar para julgar as pessoas — ela estreitou os olhos — Sempre pensei que o notável aluno número 1 fosse um cara sério, sofisticado, com gostos elegantes bem diferentes de tatuagens, brincos e x-burguer em bares suspeitos no meio da noite. É incrível como um cérebro brilhante pode habitar em um cara boêmio, delinquente e um tanto esquisito — ela deu uma risadinha, sem maldade — Será seguro agendar uma consulta futura com você, doutor?
— Ei, isso é preconceito — apontei o dedo para ela, mas não consegui assumir uma expressão séria — E como oncologista, eu espero que você jamais agende consulta alguma comigo. Posso não ser muito confiável pra cuidar de você.
Dei um sorriso divertido e ela corou, desviando os olhos para o café. Depois de um segundo percebi como a ambiguidade era uma merda. Onde havia ido parar o filtro entre minha mente e boca para não ser mal interpretado daquela maneira?
Depois de alguns minutos de um silêncio constrangedor, dei um pigarro antes de continuar:
— Então… — falamos ao mesmo tempo. Fiquei em silêncio para que ela falasse.
— Oncologia? Tem algum motivo especial pra isso? — ela gesticulou com as mãos, parecendo nervosa. Sua tentativa de mudar o assunto era evidente.
Tinha um motivo. Não que eu pudesse contar.
Levantei os ombros, descontraído.
— Acho que me identifico com a área — estendi minha mão sobre a mesa, brincando com a barra do meu casaco — E você? Por que a profissão mais enxerida de todas?
— Ei, informação é uma coisa importante. E sempre gostei de me manter bem informada. Pelo menos para a maioria das coisas… — ela baixou os olhos repentinamente e bebeu um gole do café. Pareceu uma forma de não querer falar mais sobre o assunto.
Ficamos em silêncio novamente. Fiquei com vontade de perguntá-la se havia algo errado, mas era óbvio que havia.
Parecia a hora certa de dizer que era hora de irmos. Uma música baixa começou a tocar ao fundo, e reconheci os acordes de Something. Encarei a janela, cantarolando uma parte da letra e automaticamente tamborilei os dedos de leve na mesa, acompanhando o ritmo da música.
Olhei para ela. Ela inclinou os ouvidos e também parecia estar reconhecendo a música. Seus olhos cintilavam em minha direção e não consegui desviar desse olhar. Uma sensação estranha me tomou e de repente senti como se apenas nós dois existíssemos dentro daquele lugar, e o mundo porta afora não havia a menor importância. Como se os olhos dela fossem a porta para um universo estranho e denso e eu estivesse com uma vontade súbita de mergulhar nele.
“Something in the way she moves, attracts me like no other lover..”
Um berro ensurdecedor calou a música ao redor e me fez pular de susto, acordando do torpor e da sensação esquisita que fiz o dever de varrer o mais rápido possível da minha mente. Olhei para trás e um dos caras na mesa do baralho pareceu ter levado toda a grana da noite.
— Beatles, é? — ela deu um sorriso de canto, parecia um pouco envergonhada — Você é realmente uma caixinha de surpresas, sr. .
Ela deu uma risadinha e pude perceber que ela havia voltado à missão de me zoar.
Revirei os olhos, também rindo no final das contas.
— Vá, me diga: achou que eu escutava Mozart, tocasse piano e frequentasse óperas? Ah, não vamos nos esquecer do vinho do Porto…
Ela soltou uma gargalhada.
— Eu não fui tão longe assim a ponto de fazer suposições sobre o seu gosto musical.
— Mentirosa — cerrei os olhos e soltei uma risada.
acompanhou minha gargalhada. E foi tão contagiosa que me fez rir junto, e de repente estávamos rindo um do outro sem motivo algum — e foi tão bom, tão envolvente, e tão… Estranho. Foi inexplicável o que senti no meu estômago naquela hora. Deviam ser as risadas.
O ar pesou repentinamente. Minha risada imediatamente desapareceu quando vi uma pessoa atrás de . Uma pessoa que não estava lá antes.
“É apenas mais um morto, se não lhes der atenção, eles vão embora rápido”. Era esse o meu pensamento padrão quando aquelas coisas aconteciam. Mas aquele não era um fantasma normal.
Ele surgiu em meio à um vulto negro e espesso, se materializando em um cara alto e magro, de roupas igualmente pretas da cabeça aos pés e grandes rodelas escuras embaixo dos olhos, pálido como… Bem, um fantasma.
Ele olhava diretamente para , nada mais. Seu olhar era firme, arrisco dizer que até furioso. De repente aquela sensação ruim, sugadora, angustiante que eu havia sentido naquele primeiro dia da festa veio à tona. Quando eu vi aquela aparição estranha pela primeira vez. Mas agora eu tinha certeza que não era coisa da minha cabeça — e tinha certeza que ele tinha um alvo.
Um pequeno desespero começou a se formar no meu peito. ainda balbuciava algumas palavras, e eu fazia o possível para agir normalmente, mas não dava pra mentir: eu estava extremamente absorto com aquela situação totalmente nova. O que estava acontecendo? Por que esse cara não parava de olhar pra ela?
— Mas o que você está olhando… — ela perguntou, virando-se para trás.
— Vamos embora! — falei impetuosamente, tirando minha carteira do casaco e jogando algumas notas na mesa.
Ela me olhou confusa e em seguida olhou o relógio.
— É… Melhor nós irmos, eu ainda nem pensei na desculpa que vou dar à minha mãe caso ela resolva acordar no meio da noite. Será que existem pontos de táxi aqui perto?
— O que? — dei uma risada até um pouco alta — Olha, sei que eu não sou sua pessoa favorita, mas não precisa descontar na boa educação que ganhei dos meus pais. Jamais te deixaria pegar um táxi uma hora dessas.
— Você não está entendendo, meu caro cavalheiro. Se alguém por acaso me ver saindo de um carro desconhecido a essa hora, isso não vai pegar nada bem…
— Levanta antes que eu te carregue, e é sério!
Ela arregalou os olhos para mim, mas levantou. Nosso momento descontraído, ou seja lá o que foi aquilo, havia acabado.
— Mas o que está acontecendo!?
Peguei na mão de e andei a passos largos para fora do bar. Escondi-a atrás de mim ao passar do lado do fantasma estranho, e ele não olhou para mim nem sequer uma vez; continuava com seus olhos cravados nela a cada passo. Aquilo não era bom, não era.
Felizmente, ao sairmos do bar, ele continuou lá. Quando olhei para trás pela última vez, ele havia sumido. Fui tomado por um alívio instantâneo, mesmo eu não tendo a menor ideia do que tinha acabado de acontecer.
! — gritou, o que me fez acordar e voltar para o momento presente. Olhei pra ela, que parecia irritada, e soltei nossas mãos rapidamente como se pegassem fogo. — Você realmente tem um parafuso a menos, é impressionante. Como você me arrasta de um local assim? E se alguém nos visse?
— Foi… Foi instinto, me desculpa. Podemos ir agora?
— Instinto? — ela arqueou as sobrancelhas — Você é mais galinha do que eu pensei. — ela balançou a cabeça e entrou no carro.
— Onde você mora? — perguntei, ainda olhando pela janela de vidro onde estávamos sentados há um minuto atrás, onde agora a garçonete limpava a mesa.
respondeu o Queens e eu já estava dando a partida no carro, talvez indo mais rápido do que quando saímos da Columbia. Não vou negar que eu estava um pouco apavorado com o desconhecido — e eu não me lembro a última vez que fiquei daquele jeito, talvez quando eu vi o primeiro fantasma da minha vida ao pé da escada no orfanato quando eu tinha dois anos, e por isso eu não estava sabendo controlar muito a questão do comportamento de normalidade. Eu não sabia o que era aquilo, mas sabia o que eu estava sentindo: ele com certeza estava atrás dela e isso me perturbava mais do que a própria aparição.
Estacionei na frente da enorme mansão onde morava. Não que me interessasse quanto dinheiro ela tinha, mas pelo visto era muito. As luzes estavam apagadas e sua rua era particularmente escura e deserta, e tinha um ar sombrio de madrugada.
— Bem… Obrigada pela carona. — ela desatou o cinto de segurança e me deu um meio sorriso, tirando o meu casaco — Acho que já estamos entendidos sobre o que aconteceu hoje, não é? E espero que seus machucados melhorem. Então… — ela abriu a porta do carro.
, espera! — disse rápido, o que a fez girar o corpo para mim — Sobre o assunto da Margot… Acho que podemos trabalhar juntos.
abriu a boca e voltou a fechar a porta.
— O que? — ela sorriu — Você tá falando sério? Mas o que aconteceu? O que o fez mudar de ideia?
— Não temos tempo pra isso agora. Você topa ou não?
— É claro que eu topo! Isso é demais! — ela ficou tão extasiada que se aproximou de mim para talvez me dar um abraço, mas desistiu na última hora. Em vez disso, ela abriu a bolsa e escreveu um número em um post-it, colando-o acima do painel — Liga pra mim amanhã bem cedo, manda mensagem, o que for. Precisamos discutir sobre isso urgentemente. — ela deu mais um sorriso e voltou a abrir a porta — Se não me ligar, eu vou ao seu departamento. — ela deu uma piscadinha e saiu do carro. Mas qual é o problema do meu coração?
Depois de ver entrando em casa, ainda aguardei mais uns minutos antes de ir embora.

 

Capítulo 8: A morte está bem à frente.
 

Queria poder dizer que havia dormido bem, mas duas horas não é tempo suficiente pra isso. A imagem daquela aparição medonha não saía da minha cabeça e nunca desejei tanto ver minha vó. Ela poderia não ter as respostas, mas eu precisava saber que não estava louco. Também queria falar com Jane, mas hesitei com o pensamento de tirá-la de qualquer serviço que estivesse tendo no momento. O jeito foi ficar andando de um lado a outro tentando lembrar de qualquer referência sobre tudo que eu vivi até hoje com os mortos, e se eu pudesse ligá-las aquilo.
Mas não havia referência. Eu nunca havia presenciado tal coisa antes, e pensei bastante nisso. Na maioria das vezes, eu era procurado pelos fantasmas que haviam acabado de morrer, e geralmente tinham problemas bem simples, apesar de irritantes. Vez ou outra sempre tinham aqueles mais pirados, que já estavam aqui há um tempo, e mal se lembravam de sua própria identidade. Era com esses que eu havia ganhado grande parte das minhas cicatrizes e faziam minha mãe pensar que eu era completamente problemático.
Mas eu nunca, jamais havia visto um fantasma com aquela aura negra e perturbadora. Sua presença era tão esmagadora que eu ainda podia sentir minha garganta fechando, uma estranha sensação de estar sendo sufocado. Era algo sinistro.
E eu não sabia nada sobre isso. Tentei chamar minha vó dezenas de vezes, mas infelizmente quando eu mais precisava, ela nunca estava presente. A única coisa que eu tinha certeza absoluta era de que era o alvo daquela aparição estranha. Ele esteve presente naquela festa e estava presente no bar, e deveria estar presente agora mesmo ao lado dela enquanto ela dorme. Esses pensamentos me deixavam maluco de desespero. Aquilo definitivamente não era nenhum fantasminha protetor. Ele queria matá-la.
Pensei que ficando perto dela talvez eu pudesse decifrar melhor aquela coisa, e de quebra não deixar que morresse. No momento do impulso eu disse a ela que a ajudaria a investigar o caso de Margot, mas agora não sabia como contornar aquela situação. Em um final de semana, eu acumulei todos os problemas que evitei a vida inteira.
Antes de dormir, consegui ligar meu celular com algum custo e mandei uma mensagem para o número que havia anotado no post it. Era apenas um ponto de exclamação, mas eu sabia que ela iria entender. Desejei que ela fosse a primeira coisa que eu visse assim que abrisse os olhos, e por um momento esse pensamento me deixou ansioso.
A Columbia estava um caos àquela manhã. Haviam avisos por toda universidade e meu celular agora recebia notificações do fórum por causa do aplicativo que havia instalado nele. Todos se perguntavam como o refeitório do John Jay havia sido destruído na noite anterior justo em um momento de um baita pico de energia, onde as câmeras não puderam filmar nada. Aparentemente a polícia falaria com pelo menos umas vinte pessoas e, claro, teríamos de almoçar no JJ’s ou no Ferris Booth, já que havia uma enorme faixa amarela cercando o local.
Fui até a enfermaria e a Sra. Vanderbilt quase teve um ataque ao ver meu estado, mas pedi sigilo a ela como sempre — NY já havia me trazido problemas com os mortos antes, mas nada àquele nível. Não sei se é porque ela já era idosa, mas a desculpa dos meus supostos treinos de boxe sempre caíam como uma luva para ela.
Depois de meia hora, eu me sentia bem melhor com os curativos e remédios certos, mas ela deixou claro que eu precisava ir pra casa e descansar — e, claro, ir a um hospital. Mesmo que eu não estivesse pensando em fazê-lo, agradeci a ela e me preparei para a próxima resolução de problemas do dia.
Não liguei porque meu celular agora funcionava a hora que queria. Fui direto para o departamento da computação, na “biblioteca” que era uma sala com várias mesas compridas e computadores que parecia mais uma lan house. Sabia que gostava de passar o tempo aqui quando não estava comigo, então foi fácil enxergá-lo nos fundos da sala, com um headphone na cabeça e concentrado no que eu adivinhei ser algum jogo online.
Parei ao seu lado, mas ele continuou concentrado. Puxei uma cadeira e dei uma leve cutucada em seu ombro, o que o fez olhar pra mim e em seguida revirar os olhos.
— Não se pausa jogos online — ele murmurou, ainda olhando para a tela.
— Tenho um pedido importante pro meu hacker particular.
não disse nada por alguns segundos, e em seguida digitou rápido algumas palavras em algum tipo de chat e retirou o fone, fechando a tela.
— Você sabe que eu recebo multa por abandonar a partida, não é? Portanto, se for pra você me pedir pra baixar um dos seus livros de Anatomia na deep web, pode transferir o dinheiro pra minha conta.
— Preciso que você me dê informações — puxei a cadeira ao seu lado — Na verdade… Sobre a surra que eu levei na festa, eu sei quem foram os caras.
— Como é?! — ele sussurrou, se aproximando — Eu devia saber, você jamais esquece das coisas. Por que não me contou antes? Eles te assustaram tanto assim?
— Não foi esse o caso. Eu vou te contar, mas você precisa me prometer que além de não contar pra ninguém, não vai fazer nenhuma gracinha como hackear qualquer coisa que seja sobre eles. — ele revirou os olhos, mas apenas assentiu concordando — Tá legal… — suspirei — Eu tive uma briga com o namorado da , e…
— Você brigou com Park? — falou um pouco alto demais, e duas das únicas pessoas que não usavam fones enormes na cabeça se viraram para nós, com uma certa cara feia. Dei um soco de leve na perna de e dei um sorriso amarelo de desculpas — Desculpa, cara. Mas… Como assim?! O que te levou a isso? Ele ficou maluco só por causa do seu tombo com a ? Ele é bem mais medonho do que eu pensei…
— Não… Quer dizer… Não foi só ele. Tinha um cara chamado Ash, e mais dois…
— Ash?! Você está falando do Ash do esquema dos entorpecentes?
— Shiu! — alguém balbuciou ali perto e eu escondi meu rosto entre as mãos, me perguntando porque eu insistia em ter conversas reveladoras com em lugares fechados.
— Espera aí, , como você sabe da existência do Ash? Só quem sabe sobre ele já… Você sabe… — ele fez um gesto colocando um dedo no nariz.
— Não foi pra nada disso que você está pensando. E agora quer me contar sobre você? Como você conhece o Ash?
— Eu não o conheço necessariamente, o conheci em uma festa aleatória onde Bryan fez uma compra dele, eu só vi tudo, mas não achei relevante. Agora por que diabos você se meteria em uma briga com ele?! O que foi que você comprou?
— Eu não comprei nada, eu só… — suspirei e fechei os olhos por um minuto. Eu não sabia como explicar aquilo sem ter que falar tudo — Eu estava interessado em algo, foi isso. — dei de ombros — Mas na hora, o entrou no quarto e acabamos discutindo. E aí rolou a briga.
— Meu irmão, esse cara é maluco mesmo — balançou a cabeça e se recostou na cadeira — Olha o estado em que ele te deixou. Ah, mas eu juro que se ele aparecer na minha frente…
— Você não vai fazer nada, esqueceu o que conversamos? Fora que ele só deu o primeiro soco, o resto do trabalho foi concluído por dois caras aleatórios que estavam com Ash.
— Covardes! — rangeu os dentes, e tinha uma expressão realmente furiosa — Mas por que afinal foi toda essa discussão com para as putinhas de Ash fazerem isso com você? Tem realmente algo a ver com a ? , não me diga que você e ela…
— Ei, ei, tá maluco? A garota não tem nada a ver com essa história, eu nem a conheço, esqueceu? Acho que eu só fui… Exigente demais com os produtos, só isso. E já tinha rolado um estranhamento entre nós no primeiro dia da festa, nada que venha ao caso. — dei de ombros — Talvez ele já estava alto naquele ponto da festa, mas não importa. O que importa é que eu quero saber o que você sabe sobre o Ash.
— Puts, nada — levantou os ombros, dando uma risada baixa — Na verdade, acho que nem os amigos dele sabem alguma coisa. O cara é conhecido sob um nome falso e ninguém é interessado o bastante pra consultar a pauta de presença das aulas dele. Sei o que todo mundo sabe: que ele vende todo tipo de coisa. Existem até teorias sobre isso, tipo que ele traz as mercadorias do México ou que ele tem um trailer pra cozinhar metanfetamina, coisas assim.
— Não é exatamente esse tipo de coisa que eu quero saber — suspirei, tentando pensar em outro método — Ele tinha uma namorada? Sei lá, alguém que ele andava vendo…
— Não faço a mínima ideia, ele estava com uma garota diferente a cada festa que eu o via. Mas, espera, eu acho que… — ele juntou as sobrancelhas — Tenho quase certeza que já o vi com a Margot — ele olhou para os lados lentamente, como se estivesse falando algo proibido — Sabe a Margot Abbott? A garota que morreu semana passada? — um arrepio passou pela sua espinha.
era o tipo de cara que acreditava que falar o nome das pessoas mortas automaticamente era um ritual de invocação. Bom, pelo menos ele poderia ficar tranquilo à isso.
— Sei… — acenei.
— Por que o interesse nesse cara? Tá pensando em se vingar? Pode contar comigo!
— Claro que não — olhei-o como se fosse o maior absurdo de todos — Eu só acho estranho esse cara viver no anonimato em pleno século XXI.
— Isso é conveniente pro negócio dele — deu de ombros e começou a desligar o computador — Afinal, como iriam entregar alguém que ninguém sabe o nome? E fica fácil provar que não é ele, ainda mais com a parceria que ele tem com o por baixo dos panos, o que já é ameaçador para qualquer um por si só — ele pegou a mochila — Onde vamos almoçar hoje? Com todo esse circo sinistro que aconteceu no refeitório. — tremeu — Parece até coisa de fantasma.
Dei um sorriso de lado e caminhamos pra fora da sala. Ele mal fazia ideia.

***
Mais uma sessão de burburinhos e deduções estava acontecendo durante as minhas aulas daquele dia. Parte delas eram adivinhações em relação ao que poderia ter causado o alvoroço no John Jay e parte sobre a festa do fim de semana. Depois do professor ter de pedir silêncio mais de duas vezes, eu havia desistido de prestar atenção, não que eu já não estivesse tendencioso à isso à medida que qualquer perda de foco que eu tinha, a aparição horrenda voltava a tomar meus pensamentos. Consequentemente, eu encarava meu celular a cada minuto para verificar se havia respondido minha mensagem, e não vê-la estava me deixando agoniado, e já era quase meio dia. Será que ela havia faltado às aulas? Será que estava tão cansada que dormira até agora? Será que não estava em casa? Eu precisava urgentemente me focar para não enlouquecer.
Com o sinal do fim da aula, meu celular apitou uma vez, e duas, e três. Olhei apressadamente e nem posso descrever o alívio quando vi o nome dela no visor, logo abaixo do nome de que dizia que estaria esperando em frente ao Lerner Hall para irmos ao Ferris Booth. A mensagem de tinha apenas uma frase que dizia: “John Jay, 1º piso, agora!”.
Meu coração disparou. Eu tinha aulas no centro médico em Washington Heights, e até chegar em Morningside Heights era uma caminhada de dez minutos. não se importaria de esperar um pouco. Juntei as minhas coisas rapidamente e atropelei algumas pessoas ao sair da sala, e não pude controlar meus pés até chegar ao meu carro que eu havia deixado na frente do prédio. Em poucos minutos eu cheguei corredor indicado.
Ele estava vazio, a não ser por duas ou três pessoas em frente ao prédio mexendo no celular ou conversando entre si, e comecei a pensar que aquilo não poderia ser o que eu estava pensando.
Antes que eu me desesperasse, fui puxado pelo braço para dentro da mesma salinha azul da outra noite, com a porta sendo fechada rapidamente atrás de mim. Não estava mais tão escuro, e pude ver colocando o dedo indicador na boca para que eu não fizesse barulho.
Observei-a sem dizer nada. Ela estava bem. Ao menos parecia bem. Havia um curativo em seu cotovelo e joelho onde ela havia se machucado ao cair do muro, mas fora isso ela estava perfeitamente bem. O cabelo estava solto, com duas mechas presas atrás e ela usava um vestido azul sem mangas com detalhes em vermelho. Não havia olheiras em seu rosto e nem outros machucados, nem aura diabólica alguma atrás dela.
! — ela falou mais alto, estalando os dedos à minha frente e voltei à realidade — O que deu em você? Tem alguma coisa no meu rosto?
— Ah… Foi mal, estou meio distraído. Não dormi muito bem essa noite. E você?
— Eu… O que?
— Você dormiu bem? Está tudo bem?
— Ah… Sim. — ela juntou as sobrancelhas, confusa — Não dormi as horas necessárias, mas dormi muito bem. Nós precisamos…
— E os seus machucados? Como cuidou deles?
— Eu mesma cuidei disso, um kit de primeiros socorros básico. Não é a primeira vez que eu tenho que fazer isso… — deu de ombros.
— Como assim não é a primeira vez? — interrompi. me olhou confuso mais uma vez.
— Bem, eu não sei qual é o seu problema hoje, mas as pessoas se machucam. E ponto final, nada disso mais importa. Podemos ir direto ao ponto?
Sei que ela me olhava como se eu fosse maluco, e sei que eu estava me entregando ao tratá-la com toda aquela ansiedade, mas eu não sabia como agir. Eu não sabia quando o fantasma voltaria a aparecer, e mesmo que aparecesse, eu não sabia como lidaria com ele. Percebendo meu silêncio, continuou:
— É o seguinte, o que vou te dizer é um pouco chocante, mas isso não saiu da minha mente nem por um minuto e eu preciso saber se você está disposto a qualquer coisa pra descobrir quem matou a Margot.
— Sim… Sim? Você está me assustando, o que você está pensando?
— De todos os lados que eu olho nessa história, não vamos conseguir nada dando um passo maior que a perna, então precisamos começar do começo. Nós temos que descobrir como exatamente ela morreu, só aí a gente vai poder fazer alguma coisa. — ela falava rápido e gesticulava bastante com as mãos, parecendo se esforçar para colocar as palavras em ordem em sua cabeça. Apenas assenti com a cabeça, com uma certa expressão confusa — E… Bem, nós só vamos descobrir isso com a autópsia.
— E você acha que essa não foi a primeira coisa que eu pensei? Mas não dá, os pais dela já negaram, e não há possibilidade mais…
— Eu estou dizendo de nós fazermos isso, . — ela me interrompeu, abaixando o tom de voz na última frase — Quer dizer, você fazer isso.
Fiquei sem fala por alguns segundos, e me olhava com um certo desespero pela minha resposta. Quando reencontrei minha voz, só consegui proferir tais palavras:
— Você ficou maluca?
— Eu sei, eu sei. — ela respirou fundo e me olhou um pouco perdida, sem nexo. Era o que aquela proposta era: sem nexo — Sei que isso parece loucura, mas eu não sei de que outra forma forma a gente pode descobrir isso, tá legal? Eu nem sei se é possível, eu apenas pensei, eu…
— Talvez você tenha se esquecido de que precisamos de uma coisa muito importante pra fazer uma autópsia, que é o corpo da pessoa! — disse entre dentes, ainda com a expressão de choque — Aliás, dado o tempo, isso não seria mais uma autópsia e sim uma exumação! Você tem ideia de que está propondo que desenterramos um cadáver?!
— Pode até ser, mas…
— Sabia que o tempo mínimo para uma exumação é de 3 anos? Margot morreu há uma semana e está enterrada há menos tempo que isso, o corpo dela mal começou a deterioração…
— É exatamente por isso! Eu tenho certeza que ainda dá pra descobrir alguma coisa, a decomposição é mais lenta embaixo da terra, e a maluca da mãe dela não concedeu o mínimo de dignidade à Margot de ser enterrada na própria cidade e resolveu fazer um velório aqui, eu estava presente, eu sei…
— Foi pra isso que você pediu minha ajuda? Por que não quer ir pra cadeia sozinha? Eu tô realmente impressionado…
— Olha, eu sei, eu sei. Talvez eu não esteja dando um exemplo de cidadania te propondo isso pra minha matéria, mas se nós não conseguirmos provar que Margot não cometeu suicídio, a polícia nunca vai reabrir esse caso, entendeu?
Abri a boca para protestar, mas as palavras se perderam. Eu realmente não sabia o que dizer, e mesmo sendo totalmente contra à ideia, não sabia como convencer do contrário. Realmente era necessário provar que Margot não havia cometido suicídio, mas fazer isso daquela forma nos levaria à consequências desastrosas. E eu nem digo da polícia em si, que já seria calamidade o suficiente, mas não sabia do que eu sabia: o quão desconfortável seria para Margot toda aquela cena? Ela já não estava bem da cabeça com toda a raiva e o rancor com Ash, a última coisa que ela precisava era de dois enxeridos abrindo seu corpo sem mais nem menos.
As engrenagens na minha mente giravam desesperadamente tentando me trazer soluções enquanto ainda me encarava, esperando uma resposta. Seu olhar me passava o quanto ela estava incerta com aquela proposta, e eu sabia que ela não insistiria caso eu negasse. Mas como eu explicaria que de alguma forma eu sabia que fantasmas não ficam lá muito felizes com pessoas estranhas mexendo em seus corpos, principalmente os que já estão um pouco desequilibrados?
, olha… Não vamos fazer isso, ok? Podemos pensar em outra coisa. Tenho certeza que existe outra solução pra isso, uma não tão radical.
— Então eu imploro que você me diga qual é. — ela deu de ombros, um pouco menos ansiosa do que antes.
Na verdade, realmente havia um jeito, igualmente não muito recomendado. Um jeito que só eu poderia resolver, mas não sabia como iria convencer disso.
— Você confia em mim? — perguntei sério, me aproximando um pouco de seu rosto para falar mais baixo. Senti-a ter um calafrio, mas não desviou do meu olhar.
— Acho que ainda não sei responder isso.
— Eu quero evitar que você se meta em uma enrascada, então só dessa vez, será que pode confiar um pouco em mim?
— Eu posso saber o que você está pretendendo fazer? É pedir muito que você me deixe participar também?
— Sim, é! Eu tô falando muito sério, pelo menos por dois dias, não faz nada, me entendeu? Sai com suas amigas, se concentra no seu trabalho, mas não inventa de fazer nenhuma loucura. — olhei no relógio do celular e vi que já havia deixado esperando tempo demais, e eu não estava afim de responder mais perguntas naquele dia — Preciso ir, está me esperando. A gente pode continuar essa conversa depois.
não disse nada e pegou a bolsa que havia deixado no chão, colocando-a no ombro. Abri a pequena porta pronto para sair, mas eu não esperava que ela fosse sair junto comigo ao mesmo tempo. Por sorte, não havia ninguém no corredor naquele momento. Ao menos, ninguém desconhecido.
Tive poucos momentos na vida em que literalmente fui “pego em flagrante”. Resultado de muitos cálculos e organização das situações, o que sempre dava certo quando eu lidava com pessoas normais. Mas já estava claro que ultimamente minha vida estava passando por um enorme kamikaze, só que ele estava preso de cabeça para baixo maior parte do tempo. Então pode-se imaginar o quão embasbacado fiquei ao ver que havia parado exatamente em frente à porta azul, no exato momento em que eu e deixávamos a sala.
Acho que chocado era pouco para descrever a cara que ele realmente fez.
? Mas o que vocês dois… — ele olhava e apontava para mim e ela, que estava com as bochechas vermelhas — Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?
Ninguém disse nada. Eu literalmente não sabia o que fazer diante de tanto constrangimento. Mas eu não podia ficar calado — caso contrário, aquilo seria o começo de um mal entendido terrível.
… Como você veio parar aqui? Não disse que ia me esperar lá na frente? — dei uma risada seca, me aproximando dele e dando um tapa leve em seu ombro. Ele me olhou como se estivesse me sacudindo mentalmente.
— É, e você demorou, então eu estava indo até o meu quarto e… — ele olhou novamente de mim para , ainda com a expressão confusa.
Fiquei calado novamente, e tampouco falava. Na verdade, ela parecia louca para sair correndo.
— Então, você está com fome, não é? Eu também tô morrendo de fome, é melhor a gente se apressar se não as mesas no Ferris vão estar todas lotadas. Ah, essa é a , você a conhece, não é? Que ótimo. Agora vamos, eu tô realmente com muita fome… — falei sem pausas e procurando não dar espaço para as respostas de . Ele ficou ainda mais confuso e se deixou ser arrastado por mim direto para longe do corredor, cumprimentando brevemente antes de sairmos.
Eu andava a passos largos para fora, até deixando para trás em um momento. Quando chegamos ao meu carro, eu já me preparei pelo que estava por vir.
— Você quer começar a me explicar o que diabos você estava fazendo preso com em um cubículo agora ou depois de comermos? — perguntou enquanto entrava no banco do carona.
— Não é nada disso que você está pensando. — respondi enquanto pegava um cigarro do maço que eu guardava no porta-luvas para situações onde eu, bem, não queria falar.
— Já saquei, não quer me contar. — disse enquanto me oferecia um isqueiro ao ver que eu tateava meus bolsos — Mas se você pensa que eu vou te deixar em paz até saber dessa história, pode parar de sonhar.
— Não tem história nenhuma. Eu e ela só… Nós só estávamos conversando.
— Irmão, eu juro que não tô te julgando pro que quer que tenha rolado dentro daquela sala, muito pelo contrário, a é responsável pelas fantasias de qualquer pessoa que goste de mulher nesse Campus, sacou? O problema é que ela tem namorado! E não um namorado qualquer, ela namora o filho do reitor, que não é nada aconselhável de se arranjar um problema, você estava ciente disso antes de entrar naquela sala com ela?!
— Você não tá entendendo…
— Quem não tá entendendo é você, ! E o papo da sua briga com não ter sido por causa dela, isso foi mais uma mentira? Hoje mesmo você falou dela como se nunca tivessem trocado três palavras, e agora saem de uma cena totalmente comprometedora juntos. Já imaginou o que aquele maluco faria se soubesse disso? Já pensou se não fosse eu que tivesse visto aquela cena?! Você por acaso sabia que ele tem mais informantes que o FBI? Eu estou te falando, tem doido pra tudo nesse mundo, e aquele lá é um doido de primeira. Você já ouviu os rumores sobre ele? São medonhos, dizem que ele já atropelou e matou um cara, mas o pai dele encobriu a história toda, ele nem foi à julgamento. Teve outra vez que ele…
Liguei o carro e deixei falando, novamente não me prestando à lhe dar atenção. Eu não precisava saber do que era capaz, ele já havia me deixado bem claro que o que ele quisesse, simplesmente teria. Isso não o tornava assustador pra mim, pelo contrário. Talvez lidar com fantasmas medonhos tenha me tirado o temor dos vivos, vai saber.

***
Não falei com desde o incidente com no almoço. Talvez ela estivesse preocupada demais para me mandar uma mensagem, como se aquilo fosse chamar a atenção de mais alguém. Ela era extremamente preocupada com imagem e reputação, o que era difícil de entender, considerando que ela tinha uma personalidade justiceira bem forte, mas nada defensiva. Isso me fazia questionar novamente o que ela fazia com o boçal que chamava de namorado.
Mesmo que ela não me contactasse naquele dia, senti que ela iria atender o meu pedido. Ela confiaria em mim. E por conta disso eu precisava encontrar Margot novamente o mais rápido possível. Desde nosso fatídico encontro da noite passada, eu não a via em lugar nenhum em torno da Columbia, e isso me preocupava. Para definir a situação: um fantasma em busca de vingança é algo extremamente incômodo, maçante e desagradável. Eram os responsáveis que mais tinha me ferrado até hoje, mas eu sabia que no estágio de espectro que Margot estava naquele momento, ela não conseguiria fazer muita coisa. Depois de deixarem essa vida, os mortos que ainda não estavam preparados para deixar essa terra geralmente vagavam com uma ideia fixa na cabeça, a pendência que eles tanto precisam resolver para enfim atravessarem o limbo — ou irem para o céu, ou o inferno, ou para a próxima vida, a lista de teorias era infinita e eu nunca estive animado a saber. Eles perambulavam por aí até encontrarem um pobre ser humano que por um infeliz acaso consegue vê-los e automaticamente ajudá-los — mais conhecidos como eu, Jane e outras pobres pessoas. Um fantasma novato era fácil de ajudar, e até tinham prioridade na minha lista de tarefas extracurriculares. Ao verem que o problema da sua ideia fixa havia sido resolvido, eles simplesmente partiam, e nunca mais apareciam.
O problema era quando um fantasma começava a se desviar dessa ideia fixa. Quando encontrei Margot no dia de sua morte, ela havia apenas um objetivo: descobrir se Ash a havia matado, com intenção ou não. Porém, mais rápido do que jamais presenciei, Margot parecia ter se apartado desse pensamento e fazer algo que era a ponta do iceberg de todo fantasma problemático: começar a questionar. Da garota assustada que não entendia como sua vida fora acabar daquele jeito, ela tinha upado para uma versão determinada e furiosa. E isso não era algo que eu esperava, o que tornava tudo mais estranho.
Não é que Margot deveria acreditar que Ash dizia a verdade. Ela simplesmente não queria e decidiu não acreditar nele, decretando assim que resolveria com as próprias mãos. E aquilo não era nada bom. Isso era de se esperar de fantasmas que estavam vagando há tanto tempo que mal se lembravam de sua identidade e muito menos do porquê ainda estavam aqui, e isso os corroía até certo ponto que os deixava totalmente surtados e perigosos, com uma única meta de perseguir, perturbar, assombrar e até matar outras pessoas. Ou acham que os espíritos malignos sempre foram malignos?
Mas Margot estava sendo um caso atípico, e era por isso que era perigoso deixá-la à mercê. Uma garota morta há uma semana não tinha todo aquele ódio — até fantasmas assassinados brutalmente ainda levavam um tempo para me darem todas as informações claramente para terem seus problemas resolvidos. A mente deles ainda estava enevoada, ficavam presos aos lugares que morreram por simplesmente não se lembrarem de como sair. Mas Margot havia saído e mesmo que eu torcesse internamente que ela não achasse a casa de Ash, eu já não tinha mais tanta certeza disso após o seu sumiço.
Depois do Ferris, voltei ao campus e, após despistar , fiz algo que eu já não estava mais acostumado: matar a aula.
Não que fosse muito inteligente matar aula na própria universidade, mas eu não podia perder mais tempo no caso de Margot. Procurei cruzar por todo o campus, desde o primeiro edifício até o último, o que totalizam uns seis quarteirões. Eu a chamava incessantemente, com a maior discrição aprendida durante esses anos, mas ela parecia ter desaparecido do campus — e aquilo dificultaria caso eu chegasse no ponto de ter de invocá-la de outros métodos. E se minha vó não facilitaria minha vida resolvendo aparecer, eu teria de dar outro jeito.
Já era quase fim de tarde quando desisti de procurar por Margot, e decidi voltar ao meu carro, ainda pensando em como eu executaria um plano de chamá-la de forma mais eficiente. O estacionamento estava abarrotado de carros, mas sem sinal de muitas pessoas. Peguei as chaves no meu bolso ao passo que meu celular apitou com uma mensagem, e o nome de na tela apareceu com a pergunta: “Onde você está?”, “No estacionamento, não é? NÃO SE ATREVA A IR EMBORA SEM MIM!”. Em seguida, eu já começava a digitar a resposta dizendo que estava realmente com muita pressa quando vi uma pessoa conhecida há poucos metros à minha direita.
Como eu estacionava na maior parte das vezes atrás de uma enorme pilastra, era viável observar muito e não ser visto. Do outro lado do estacionamento, à direita, uma fila de motos preenchiam as delimitações em forma de linhas amarelas, e Ash acabava de subir em uma delas. Rapidamente me abaixei no banco do motorista até que apenas a parte superior da minha cabeça fosse visível. Ele descartou o cigarro que fumava no chão ao mesmo tempo em que seu telefone vibrou. O diálogo era baixo e parecia tranquilo, como se ele estivesse falando com um parente. Mas o que ele dizia não era nada tão alarmante quanto ver o que estava à sua frente — ou melhor, quem.
Margot havia se materializado do nada em frente à Harley-Davidson preta de Ash, e por um momento prendi a respiração. Ele conversava calmamente no telefone, mas os olhos dela estavam fixos, arregalados, completamente medonhos, o que denunciava algo que eu já sabia, e precisava fazer algo imediatamente.
Por muitos minutos ela ficou daquele jeito, imóvel, com a mesma expressão assustadora sem desviar os olhos de Ash. Ela vai surtar, ela vai surtar. Eu tinha certeza daquilo. Imediatamente usei toda a força estranha de minha mente para chamá-la, sussurrando quase que inaudivelmente, implorando para que ela fosse embora. Não posso dizer que ela me ignorou; em vez disso, ela virou o rosto lentamente para mim, e me fitou por um momento. Ela estava assustadoramente macabra com aquele olhar e não fez absolutamente nada. Balancei a cabeça inúmeras vezes em negação, como uma súplica silenciosa. Quando ela simplesmente me ignorou e voltou a olhar para Ash e de repente as vigas de metal acima de sua cabeça começaram a tremer lentamente, eu soube que aquilo não estava indo terminar bem.
As vigas tremeram com mais violência e eu soube que Margot não iria parar. Xinguei-a violentamente, de repente querendo socá-la e mandá-la para bem longe, mas naquele momento eu precisava fazer algo bem mais urgente, que era impedir que Ash fosse esmagado pela viga que estava prestes a cair à uns 8 metros de altura.
Margot abriu um sorriso medonho enquanto eu saía do carro o mais rápido que conseguia e de repente já era possível escutar o “crac” da viga, e Ash pareceu perceber que algo estava errado justo no momento em que uma das instalações cederam, e a viga ficando pendurada por um dos lados.
— SAI DAÍ! — gritei a plenos pulmões, e ele continuava paralisado — PARA COM ISSO AGORA, MARGOT! VOCÊ VAI MATÁ-LO!
Em minha impulsividade, talvez eu a tenha deixado mais irritada — ou até mais ansiosa pra terminar o serviço, porque em seguida a outra instalação da viga se rompeu em um estalo e atingiu em cheio não só a moto de Ash, mas como todas as outras vizinhas à dele, causando um estrondo parecido com uma bomba e fazendo alguns dos carros acionarem o alarme pelo impacto.
A viga estava ligada diretamente à uma pequena parte da rede elétrica do estacionamento, e toda a alarde de faíscas e lâmpadas explodindo me cegaram por uns minutos, me jogando para trás e automaticamente protegendo meu rosto com os braços. Quando voltei à mim, Margot ainda estava no mesmo lugar com um olhar carregado de ódio e ouvi claramente um grito vindo do meio dos escombros. Levantei rapidamente e avistei Ash, que aparentemente havia pulado no último segundo da queda da viga, mas não havia conseguido salvar uma de suas pernas que estava presa embaixo do enorme bloco de metal.
Uma poça de sangue começava a se formar na área onde sua perna havia sido soterrada, e constatei que a barra de ferro que ligava à viga na pilastra havia penetrado logo acima do joelho. Ele gemia de dor, e parecia ter ficado apagado por alguns segundos.
— Ei, você consegue me ouvir? EI! — gritei, balanço-o um pouco com o intuito que ele não dormisse. Tateei meus bolsos rapidamente e percebi que havia deixado meu celular no carro na pressa de correr até aqui, o que me deixou frustrado.
— Me… ajuda… — ele parecia grogue, seu corpo devia estar tomado pela dor. Olhei mais de perto de tive a certeza de que sua perna havia sido esmagada — Está doendo tanto, por favor, me ajuda! Por favor…
— Fica calmo, eu vou tirar você daí. Aguenta mais um pouco! — me levantei, tentando pensar rápido naquela situação. Tentei empurrar a viga, chutá-la, puxá-la, mas ela nem se movia.
— É tudo culpa sua, . — de repente Margot havia decidido falar, depois de minutos em silêncio. Não havia se mexido um centímetro desde a queda do objeto, e ainda olhava fixamente para Ash — Você fez isso comigo! Agora se arrepende e chora pelos cantos como se eu fosse acreditar, seu miserável…
? O que você disse? — olhei diretamente para ela, a confusão estampada em meu rosto. Como ela sabia o nome verdadeiro de Ash se havia me deixado claro que ele nunca a contara?
Pelo visto eu estava com a péssima mania de pensar em voz alta ultimamente. Ash agarrou com força a barra da minha camisa, me fazendo girar o corpo para ele. As veias em sua testa estavam dilatadas e seu rosto estava contorcido em dor, de forma que eu tinha a certeza de que ele iria desmaiar a qualquer momento. Mas ainda assim, ele abriu a boca para pronunciar:
— Como… — sua respiração estava ofegante, ele tentava se concentrar na frase em vez da dor — Como sabe o meu nome? Com quem está falando… Margot…
Mas ele não foi capaz de terminar a frase. Merda, merda, merda. Olhei para trás e Margot havia desaparecido, e se eu não tirasse Ash debaixo daquela viga naquele momento, ele poderia dar adeus à uma das pernas. Mesmo ainda debilitado pelo final de semana, fiz o maior esforço que consegui para ao menos levantar um pouco do que fosse da viga para que eu alcançasse o joelho de Ash. Aquilo havia me deixado estampado de suor. Tirei meu casaco rapidamente, rasgando um pedaço do tecido e envolvendo na parte mais exposta de seu joelho, amarrando com o máximo de força que havia conseguido. Se ele sangrasse mais, não perderia apenas a perna.
Me preparei para correr novamente até meu carro pegar meu celular e quem sabe gritar por ajuda, mas de repente uma pancada em minha nuca embaçou minha visão e me senti inebriado por alguns segundos. Senti minha cabeça sendo puxada para trás, e de repente estava no chão.
Tudo acontecia em câmera lenta. Avistei Margot e seu sorriso divertido, irônico, debochado. Ao lado dela, um vulto preto, destemido, assustador.
Meus braços não me obedeciam, e eu sentia meu peito se afundando, e minha consciência sendo bifurcada. Como se cordas gigantes e espessas estivessem me perseguindo e finalmente haviam conseguido se agarrar a mim, e me puxavam para uma escuridão desconhecida. Um novo tipo de pânico me tomou. Não era o medo da morte, parecia o medo de ser… tomado. Eu sentia a tentativa de separação de meu corpo com minha alma de forma atenuante. Era desesperador, uma angústia sem fim. A escuridão foi me tomando cada vez mais, e de repente eu não via mais nada, não sentia mais nada, e estava no nada, vazio, escutando apenas uma voz que parecia tão ao longe, mas fazia todos os pelos do meu corpo se eriçarem: uma risada maléfica, inescrupulosa, cortante. E foi ficando cada vez mais longe até que não pude distinguir mais coisa alguma.

 

Capítulo 9: Os cálculos não mentem.
 

O rosto de pairou no escuro, às vezes longe, às vezes perto. Estiquei as mãos para alcançá-lo, mas ele continuava se afastando, balançando, parecendo fazer uma brincadeira comigo. Sua imagem parecia borrada, como se eu estivesse vendo seu reflexo em uma poça, que se desmanchava a cada segundo mais. Ela sorria, e depois contorcia o rosto para chorar, em um loopin infinito. Por que eu estava vendo isso? O que estava acontecendo? Em vez de tentar escapar da escuridão, eu adentrava ainda mais nela, procurando aquele rosto, querendo tocá-lo, puxá-lo para mim. De repente o rosto no reflexo repuxa os lábios em uma linha dura, séria, os olhos pairando, fitando-me seriamente. Uma lâmina invisível surgiu rasgando sua garganta, em um corte fundo e preciso que fez o sangue ser jorrado para frente, matando-a sem ela ao menos dar um mísero grito. Um grito de horror escapou de minha garganta, e corri desesperadamente até a imagem dela.
Uma lufada de ar invadiu meus pulmões violentamente, e fui impulsionado para frente, abrindo os olhos e deparando-me com uma luz branca e forte. Desnorteado, eu ofegava como se tivesse corrido uma maratona, meu corpo mostrando os sinais do quão assustado eu ainda estava com a experiência anterior.
Virei para o lado, tentando respirar fundo e me acalmar, e abri os olhos novamente, dessa vez bem devagar. Eu não estava mais no estacionamento. Pisquei os olhos várias vezes para me certificar disso mas o som de uma porta sendo aberta e algo sendo derrubado me fizeram acordar.
! — reconheci a voz de , que me pegou pelos ombros e me deitou de barriga para cima — Meu Deus, cara você acordou! Enfermeira, ei! Tem alguém aí? Enfe…
Enfermeira?
Puxei a barra de sua camisa, fazendo-o olhar para mim, e me apoiando em seu braço para me sentar. Foi quando percebi que estava em uma maca, sem camisa, e algo me incomodou no nariz. Olhei lentamente para o lado, onde havia uma infusão de soro em meu antebraço esquerdo, ligado à um equipamento ao lado da minha cama. Coloquei as mãos no nariz e senti o cateter nasal indo desde atrás de minhas orelhas até o pescoço. Tentei retirá-los, mas eu estava lento demais.
— Ei, cara, tá maluco?! — retirou minhas mãos rapidamente — Você vai ficar bem quietinho aqui enquanto eu vou atrás de uma enfermeira. Ei, tem alguém escutando?! Eu quero…
— O que eu estou fazendo aqui? — puxei-o novamente, dessa vez falando entre dentes e fitando-o de maneira séria, quase desesperada. abriu a boca para responder, mas pareceu estar pensando melhor no que diria — Anda logo, , o que aconteceu?! Por que eu estou aqui?
— Você não se lembra de nada?
— Me lembro do estacionamento e da viga, e de que Ash estava… — interrompi minha frase antes que eu dissesse que também me lembrava de Margot, e de como ela quase o matou — Aliás, o que aconteceu? Como ele está? Você pediu ajuda?! Ele ainda deve estar lá, temos que ir lá! — comecei novamente a tentativa de retirar todas as infusões que haviam colocado em mim, mas fui parado por novamente, dessa vez com uma expressão até amedrontada.
, isso foi há três dias atrás. Ele está vivo, vocês dois foram trazidos pra cá.
Pisquei, tentando absorver o que ele havia acabado de dizer. Aquilo não fazia sentido algum. Infelizmente, antes que eu pudesse refletir sobre toda a situação atual, uma mulher de branco entrou correndo pelo quarto, vindo até mim e colocando o estetoscópio em meu peito.
— Há quanto tempo ele acordou? — ela disse enquanto pegava um pequeno equipamento de medir pressão nos bolsos.
— Tem uns 5 minutos… Eu gritei, ele estava virado para o lado quando entrei, achei que… — respondeu, mas foi interrompido pela enfermeira:
— O senhor deveria ter apertado o botão. — ela disse ríspida, apontando para o grande botão vermelho no criado mudo ao lado da cama. deu um sorriso sem graça e de desculpou — Como se sente, Sr. ?
— Estou ótimo, nunca estive melhor. Inclusive acho que não preciso de mais nada disso… — apontei para os tubos e tentei me levantar, mas ela também não me permitiu.
— O senhor chegou aqui desacordado, com vários hematomas, uma costela quebrada, pontos abertos, com uma tentativa de colocar um nariz quebrado no lugar, lotado de aspirina no sangue e ficou em coma por três dias. Mesmo tendo feito todos os exames, sinto informá-lo que só sairá daqui com a permissão do médico. — ela recitou tudo isso sem ao menos olhar para mim, apenas anotando algo na prancheta de plástico em sua mão e colocando-a de volta na base da cama — Eu vou chamá-lo agora mesmo. Sugiro que não faça nenhuma tentativa de fuga, será pior para o senhor.
Ela disse e desapareceu pela porta. Fiquei estático, ainda com as palavras de pairando em minha mente, tentando desesperadamente me lembrar de algo. Aquilo não era possível, eu não poderia ter perdido a consciência por todo aquele tempo. Aquela sensação, o sufoco, o vazio… Eu ainda podia senti-lo, como se tivesse passado por ele há minutos atrás.
Olhei em volta, fazendo o possível para manter minha respiração a um nível regulado. Recostei-me de volta na cama, agora com as costas levantadas, e olhei novamente para — e de repente para algo que estava atrás dele.
— Cara, você sabe o susto que me deu? — ele voltou a falar, sentando-se na cama ao lados dos meus pés — Foi uma loucura chegar lá e ver você naquele estado, e o Ash também… Foi muito sinistro! E todas aquelas pessoas em volta, a ambulância, os bombeiros, e todo o caos para tirar…
— Quem mais sabe que eu estou aqui? — interrompi-o, com uma expressão séria.
— Acredito que toda NY. Seu fã clube aumentou drasticamente o número de membros. — ele apontou para as flores e cestas de chocolate espalhadas em um canto do quarto, que eu só reparava agora — Eles te acham um herói.
— Merda — murmurei, passando as mãos na cabeça. — Os meus pais… Diga que eles não avisaram meus pais.
— Eles bem que tentaram, mas o sistema da Advocacia é um lixo. Interceptei todo e-mail e ligação que mandaram, ainda respondi à Columbia com a assinatura eletrônica dos seus pais. Eles estão totalmente fora da situação.
— Valeu — falei, repuxando os lábios para dar o melhor sorriso que pude, mas eu estava muito grato. sabia exatamente o que aconteceria se meus pais ficassem sabendo daquele ocorrido; e não seria nada legal. — Você pode buscar água pra mim? De repente fiquei com muita sede.
— Eu vou se me prometer que não vai sair daí.
— Eu prometo. — ri, sendo sincero com a promessa.
Esperei que a porta se fechasse para começar a falar.
— O que a senhora está fazendo aqui?
Ela não me respondeu de imediato. Em vez disso, apenas se aproximou da minha cama e colocou a mão em meu rosto, de forma maternal. Geralmente eu conseguia ler seus olhos, mas hoje ela parecia querer esconder o que sentia, e deixar transparecer apenas o alívio.
— Meu querido… Estou tão, mas tão feliz de ver você acordado. Não sabe o quanto eu vivi na agonia durante esses dias.
Coloquei minha mão sobre a dela ainda em minha bochecha, acariciei-a e também devolvi seu olhar de compaixão. A sensação de tê-la por perto naquele momento deixou meu coração um pouco mais quente e um pouco menos desesperado.
— Como você está se sentindo? — ela perguntou enquanto se sentava ao meu lado. Retirou suas mãos da minha bochecha, mas ainda segurava minha outra mão.
— Estou bem, eu acho. Foi tudo muito rápido, ainda estou tentando entender o que aconteceu. — suspirei, coçando os olhos levemente. Tinha certeza que eu parecia mais cansado do que realmente estava — Onde estava esse tempo todo? Te chamei várias vezes e você não apareceu.
Ela desviou os olhos, envergonhada. A culpa era o próximo sentimento que ela agora deixava transparecer. A mão que segurava a minha estreitou o aperto, e vi seus olhos ficarem marejados quando teve coragem de me olhar.
— Eu não sabia… Eu não fazia ideia. Estou tão arrependida. — ela fungou com o nariz de repente vermelho, e abaixou a cabeça, acariciando minhas mãos — Eu deveria ter escutado, deveria estar aqui quando tudo aconteceu. O quanto deve ter ficado assustado, eu sinto tanto…
— Está tudo bem, vó. Não precisa ficar assim, não é a primeira vez que isso me acontece. Aliás, eu mal sei direito o que me aconteceu dessa vez.
— Você não se lembra de nada? — ela perguntou agora me fitando atentamente, ansiosa pela minha resposta. Não soube dizer o que ela queria ouvir.
— Você ouviu minha conversa com . Eu me lembro que tentei impedir Margot de matar Ash, ou , seja lá quem for. Mas ela estava diferente, parecia… Transtornada. Ela estava com tanto ódio, eu tenho certeza que ela o mataria se eu não estivesse lá. — enquanto eu contava, minha avó acenava com a cabeça, parecendo absorver cada palavra com muita atenção — O que está havendo, vó? Margot enlouqueceu tão rápido, eu nunca presenciei isso. Achava que os mortos ainda levavam um tempo até chegarem naquele comportamento, mas ela se lembrava de tudo, ela até sabia o nome de Ash. Tudo foi bastante estranho.
— Eu sei, eu entendo. Pra ela ter conseguido fazer você ficar nesse estado, e causar aquela calamidade, não consigo nem imaginar quais forças estejam atuando sobre essa garota…
Minha vó bufou indignada com a situação, e uma lâmpada acendeu em minha mente, e de repente fazia total sentido existirem forças estranhas atuando sobre Margot, ela jamais ficaria daquele jeito sozinha. Havia algo acontecendo, mesmo eu não fazendo ideia nem do que poderia ser.
Meu olhar distante chamou a atenção dela, que franziu o rosto, e não vi saída a não ser contar.
— Pode não ter sido Margot que fez isso comigo. — disse muito sério.
— Como assim? — Ela franziu as sobrancelhas. — Você não me disse que estava lidando com duas assombrações.
— Não estou. Quer dizer… Mais ou menos. Há algo acontecendo que estou tentando descobrir o que é.
Ela não se moveu e ficou séria, esperando que eu continuasse. Despejei tudo, desde que vi a aparição pela primeira vez na festa até a vez no bar. Tentei detalhar a forma como aquele fantasma era estranho, como a força que emanava dele era assassina e sombria, mas não tenho certeza se fui bem claro. As sensações eram complexas demais para colocá-las em palavras.
A posição dela havia passado de parcialmente relaxada para totalmente rígida. A mão que segurava a minha foi para o peito, e ela parecia chocada e confusa ao mesmo tempo. Ela se levantou, e, se fosse possível, parecia mais pálida do que o normal. Ela parecia estar desesperadamente tentando se lembrar de alguma coisa.
— O que foi? O que a senhora tem? — perguntei ansioso, visto que ela não relaxava uma vez sequer — Você já viu isso antes?
— Acho que sim. — ela sussurrou — E isso não é nada bom.
— O que ele é? Ou melhor, o que ele quer com a ? Como eu me comunico com ele…
— Você não vai.
— Como assim? — juntei minhas sobrancelhas. Ela voltou a se aproximar de mim e a pegar em minhas mãos, dessa vez com mais urgência e medo.
— Você vai se afastar dessa garota imediatamente e ele nunca mais aparecerá na sua frente. Isso não tem nada a ver com você, , e a sua segurança é a minha maior prioridade, então eu estou te implorando: fique-fora-disso.
De acordo com os meus cálculos, 98% das vezes que eu ignorava um conselho da minha vó, eu acabava me dando mal. Nunca havia tido motivo para duvidar dela, ela simplesmente sabia de tudo. Quando viva, ela levava o nome de Madame Kang e trabalhava como cartomante em algum lugar nas ruas de Seul. Fora essas informações e histórias de suas experiências com os mortos, eu não sabia muito mais. E mesmo a tendo conhecido apenas como fantasma, havia uma conexão inexplicável que eu sentia, e dessa conexão vinha toda a confiança que eu depositava nela, e em tudo que dizia — inclusive o fato de ser minha avó biológica. O conhecimento que ela tinha sobre o outro lado era extenso, porém não muito detalhado. O jeito que suas mãos me apertaram indicavam que ela estava aflita por mim, de uma forma que eu nunca a vi antes.
Apesar disso, não consegui controlar o sentimento que me tomou. Aquilo parecia errado, injusto, cruel.
— O que você está dizendo? — Soltei minhas mãos, explicitamente indignado — Você entendeu a parte de que ele com certeza vai matá-la? Ele só está esperando o momento certo, e eu não posso deixar isso acontecer.
— Quantas vezes preciso dizer? A sua missão é com os mortos, você precisa ajudá-los a seguir em frente, a encontrar a paz. Pessoas vivas irão morrer um dia, você não pode interferir nisso, pode se focar em ajudar essa garota depois da morte, e…
— Como é que é? — falei um pouco mais alto do que pretendia, e automaticamente olhei para a porta. Não demoraria muito para aparecer, mas eu não conseguia encerrar aquela conversa. Ela se afastou de mim mais uma vez, com um olhar frio que eu jamais vira — Tá dizendo pra eu deixá-la simplesmente morrer?
— Espíritos malignos existem, , e são impossíveis de lidar. Se algum deles está atrás dessa garota, podemos chamar de destino, pode acreditar que não é algo aleatório, não há nada que você possa fazer! Estou exigindo que você se afaste dessa menina agora mesmo e muito menos tente fazer algo, ou ele vai te matar também!
— O que pode ter feito pra um fantasma desses estar atrás dela? Eu não posso…
— Tudo que eu mais temia aconteceu! Desde que me comuniquei com você pela primeira vez há 18 anos atrás, durante todo esse tempo, fiz de tudo para você nunca encontrar nenhum deles! — ela bufou, ainda com uma expressão de medo — Por favor, me prometa que você não vai mais se envolver nessa história! Será que você consegue entender o perigo disso tudo? Já imaginou como seria se ele tentasse roubar a sua alma?
A lembrança da escuridão, do medo e do vazio vieram à minha mente, junto com a frustração da impotência que eu senti. “Acho que sim”, murmurei para ela, não me atrevendo a contar os detalhes da experiência. Eu estive lá por alguns minutos que se transformaram em três dias, e um calafrio atravessou minha espinha ao imaginar o que poderia acontecer se ele fizesse isso comigo de novo.
— Ela é só uma garota. — murmurou — Anda, quero que me prometa. Diga que não vai mais se envolver com esse assunto.
Olhei pra ela, em silêncio. Seu olhar era frio, mas passava uma sincera preocupação com toda a situação. Em contrapartida, tinha certeza do ardente contragosto que estampava meu olhar. Mesmo assim, me vi concordando com a cabeça, vendo-a desaparecer no momento seguinte quando e o médico adentraram na sala.

***
Meu celular estava oficialmente morto quando o peguei dentro de um saco plástico, junto com minhas chaves, carteira e tudo que estava nos meus bolsos. Por mais que eu tenha protestado, não recebi a alta no dia que acordei e ainda me prenderam por mais um dia, por questões de observação, disseram eles. Nesse meio tempo, havia ido na minha casa e voltou com uma muda de roupas e meu carro. Era o começo de uma noite fria quando eu terminava de me trocar no quarto, me preparando para ir embora. Ao menos o tempo no hospital havia me renovado totalmente. Eu não sentia mais dores e os hematomas haviam praticamente desaparecido. Me senti como se tivesse matado dois coelhos em uma cajadada só ainda que indiretamente.
parecia estar bem, de acordo com as informações de . Havia desmaiado de dor várias vezes no caminho até o hospital e teria de usar muletas por um bom tempo, mas estava vivo. No fundo eu torcia para que ele estivesse sem memórias do acidente, assim não poderia se lembrar que eu sabia seu nome verdadeiro e muito menos que havia chamado Margot na sua frente.
entrou no quarto assim que eu terminava de colocar o casaco.
— Eu te disse que não precisava vir me buscar, estou perfeitamente bem pra dirigir. Posso ir pra casa sozinho.
— E quem disse que você vai pra casa? — ele sorriu — Pensei que não seria nada mal se fôssemos comemorar sua alta depois de todo esse susto, e antes que você rejeite a ideia imediatamente, eu trouxe alguém pra me ajudar a te convencer!
Abri a boca para protestar, mas só consegui abri-la ainda mais ao ver Jane entrando pela porta. Ela correu e me envolveu em um abraço apertado, que correspondi. Ela murmurou algumas palavras rapidamente no meu ouvido que não consegui entender bem, mas pude jurar ter ouvido um “você está ferrado” e logo depois me deu um selinho demorado.
— Feliz em me ver? — ela abriu um largo sorriso.
— Claro, mas… — balancei a cabeça e olhei feio para .
— Ei, não olha pra ele desse jeito! Se não fosse por , eu jamais ficaria sabendo dessa sua nova empreitada. Tentei te ligar um milhão de vezes e nada, já estava achando que você tinha morrido. Aí ele me liga e me vem com essa! — ela suspirou.
— Me desculpa, estou meio sem celular. — dei de ombros — Você está de folga? Não queria recebê-la em um ambiente desse. — apontei para o quarto.
— Você sabe que tiro folga quando bem entendo — ela me deu uma piscadinha — Mas sim, já estava planejando vir te ver há um tempo. E trouxe presentes. — ela ergueu uma sacola de papelão que trazia em uma das mãos — Portanto, você não tem opção de rejeitar a nossa saída de hoje.
sorriu empolgadíssimo, acenando com a cabeça para mim. Sair com ele e Jane seria uma receita para o desastre — e uma grande ressaca —, mas eu sentia que se não fizesse, seria engolido pelos meus próprios pensamentos, e talvez fizesse uma besteira. Por fim, acabei aceitando, o que rendeu os gritinhos de e um enorme sorriso de Jane.
Em menos de uma hora, eu apertava o Jeep entre dois carros no estacionamento abarrotado sem organização alguma do Cliff Glory, no Brooklyn. As batidas da música eletrônica podiam ser ouvidas a cinco quarteirões de distância, e as pessoas se amontoavam na entrada, barrada por dois caras enormes e mal encarados. Jane bateu a porta quando saímos e ajeitou sua blusa, que era frente única e por pouco não mostrava os seios. Ela pegou na minha mão e me puxou para a entrada, e veio atrás da gente.
— É… Acho que tem muita gente, que tal nós irmos pra outro lugar? — comentou ao ver a enorme quantidade de pessoas na fila.
Jane riu, virando-se pra ele.
— Você não aprendeu nada, não é?
Ela andou até os seguranças, e algumas vaias vieram das pessoas na fila. Jane murmurou algo que não consegui entender por alguns minutos, e de repente os grandalhões simplesmente desataram a faixa da porta, abrindo passagem para que ela entrasse. abriu a boca chocado e eu apenas ri, enquanto ela virava e acenava para seguirmos em frente.
— O que é dessa vez? O dono daqui é seu cliente? — perguntei, já começando a falar mais alto por causa do som.
— Eca, não! — ela fez uma careta — Mas ele gosta das minhas apresentações a ponto de me dar um cartão vip. — ela riu a mostrar o cartão roxo em neon.
Ao entrar na arena do clube, quase perdi o fôlego. Eu não sabia se não estava muito bem ainda ou as luzes coloridas e spotlights piscantes me davam uma certa fotofobia, mas o lugar era fascinante. Estava lotado, com ombros batendo aqui e ali, e parecia mais animado do que nunca. Jane usou seu cartão mais uma vez para nos levar ao final de uma escada, onde sentamos em uma mesa redonda e imediatamente um cara montado em um smoking colocou um drink vermelho com frutas à nossa frente, e Jane gesticulou algo para ele que novamente não pude entender.
— Uau! O que você é, algum tipo de magnata desconhecida? — perguntou, tomando um grande gole do drink.
— Tenho poder sobre os magnatas, isso conta? — ela levantou a sobrancelha e tenho certeza que ficou excitado. Antes que ele pudesse estender mais o papo, três garotas se aproximaram de nossa mesa, vestindo nada mais que um conjunto de lingerie, com a pele brilhando em glitter e usando máscaras como em um baile. Elas foram em direção à e começaram a acariciá-lo. parecia pasmo e olhou para mim e Jane, que soltou uma gargalhada.
— Podem levá-lo, meninas! Ele merece o melhor tratamento!
fez a cara mais embasbacada que já vi e se deixou ser levado pelo trio, que desapareceram no meio da luz baixa.
O garçom foi até nossa mesa novamente, dessa vez trazendo um enorme balde de gelo repleto de uma mistura de cervejas que incluíam Budweiser e Heineken e se retirou, e Jane arrastou sua cadeira para mais perto de mim.
— E então, quer começar a me contar de livre e espontânea vontade ou terei que te embebedar pra isso? — ela perguntou enquanto enchia um copo.
— Não há nada pra contar. — dei de ombros e bebi um gole farto da cerveja.
— Ah, então você acha mesmo que vou considerar natural ir te avisar em um hospital depois de ter ficado em coma? E sobre o e-mail que me mandou da tal Margot… Foi culpa dela isso ter acontecido com você?
— Não é isso… Eu só prefiro realmente não falar sobre isso agora.
Ela balançou a cabeça e olhou em meus olhos, de uma forma intensa.
— Você está bem? — ela perguntou baixo, mas ainda assim pude entender seus lábios. Ela colocou suas mãos em meu rosto, acariciando-o. Apenas concordei com a cabeça, e ela deu um sorriso — Não sabe como senti sua falta! Mas vou deixar os assuntos chatos para depois e te dar uma noite incrível hoje! Anda, vem comigo!
Uma noite incrível ao estilo Jane era uma série de eventos imprevisíveis. Apesar disso, deixei que ela me carregasse escada abaixo para o centro da pista de dança livremente. Estava disposto a entornar qualquer bebida pela frente assim que meus pensamentos se desviassem do momento presente e tentassem fugir para o que eu não queria pensar. Ou para quem.
Sempre tive um total de zero habilidades de dança, mas eu perdia toda a minha decência com Jane, e a bebida também estava ajudando. A quantidade de pessoas não permitia que nos mexêssemos livremente, mas o trunfo dela era sempre o mesmo: ela dançaria em qualquer lugar, mesmo que tivesse que subir na mesa do barman e cativaria mais do que as próprias atrações da festa. Depois de pouco tempo, o ambiente já estava mais quente e abafado do que quando cheguei, e tudo parecia tão engraçado, enérgico e despreocupado. Eu — ou alguém — já havia me livrado da minha camisa, assim como outras pessoas, e a batida pesada da música de repente se tornou um refúgio. Além disso, tinha plena consciência de que o que Jane havia me dado não era um cigarro, e de repente tudo parecia se mover em câmera lenta, inebriante, eu sentia o toque corporal das outras pessoas sem me importar. Fechei os olhos por alguns instantes, sentindo totalmente o momento presente, desejando que toda a culpa, cobrança, passado, que tudo desaparecesse.
Passei um braço pela cintura de Jane, que dançava à minha frente de costas e a puxei para mais perto. Apesar de chapado, eu conseguia identificar o cheiro de seu cabelo, que não havia mudado em nada durante todos esses anos. Ela moveu o quadril de forma tão sensual que meu corpo começou a reagir, e afundei meu rosto em seu pescoço, sentindo novamente o cheiro familiar, a presença, o toque. Não existia nada que me agradasse mais do que a sensação de cordialidade, intimidade.
Sem tempo, ela rapidamente se virou para me beijar. Um beijo intenso, urgente, praticamente em chamas. Não era uma novidade, nada havia mudado. Apertei seu cabelo na nuca, puxando-o para trás afim de olhar em seus olhos por um momento.
Só que não foi Jane que eu vi.
O rosto de estava a centímetros do meu e eu ainda segurava sua nuca. Ela deu um sorriso fraco sem mostrar os dentes e disse a seguinte frase: “Vai me deixar morrer, ?”
As palavras me acertaram como uma bala e me afastaram de Jane há três passos. Ela me olhou confusa e pegou em meus ombros, murmurando algumas palavras que não consegui escutar. Um breve zumbido invadiu meus ouvidos e balancei a cabeça para me reposicionar no ambiente, de repente achando que não estava bêbado o suficiente. Jane parecia preocupada e a encarei por cinco segundos antes de forçar uma gargalhada e voltar ao bar, onde definitivamente faria qualquer coisa para não pensar em mais nada.

 

Capítulo 10: Na contramão da experiência.
 

A luz forte que invadiu meu quarto naquela primeira manhã de inverno foi uma das primeiras coisas erradas do dia. Abri um pouco os olhos, me arrependendo no mesmo instante pela dor de cabeça tremenda que senti, consequência da noite anterior. Não era preciso levantar para constatar que eu estava completamente um trapo. De barriga pra baixo pude ver o tapete persa vermelho aos pés da cama, presente da minha tia Guida logo após saber da minha aprovação no vestibular. Ao menos eu havia acordado na minha casa.
Virei para o lado e vi as costas nuas de Jane, coberta com apenas uma parte do lençol em sua cintura. Os cabelos loiros estavam bagunçados em cima do travesseiro e ela parecia dormir profundamente. Suspirei e levantei da cama nu em silêncio para não acordá-la e fui direto para o banheiro, abrindo a gaveta e pegando meu kit de primeiros socorros, que diga-se de passagem, poderiam facilmente pensar que eu havia assaltado o estoque de um hospital. Tomei duas aspirinas e lavei o rosto, sentindo ainda mais desconforto com a água gelada.
Voltei ao quarto e coloquei uma calça de moletom e desci para a cozinha, ligando a cafeteira e pegando ovos, bacon, pão e tudo que eu pudesse achar para preparar o café da manhã. Não que Jane fosse exigente, é só que repentinamente parecia que eu não comia há dias.
— Bom dia! — Jane falou logo após o bacon começar a estalar. Ela usava uma camisa minha xadrez, que pegava até um pouco acima do joelho — Hmmm, ovos com bacon? Você é um clichê total.
— Me desculpa não ter comprado croissant. — nós rimos — Pode sentar, já está quase pronto.
— Você pode fazer sem pressa nenhuma, sr. Le Cordon Bleu. Eu preciso de um banho urgentemente. Essa noite foi quente demais! — ela me mandou um beijo no ar e entrou no banheiro.
Enquanto eu ouvia o chuveiro, terminei os ovos, peguei umas maçãs que eu tinha há algum tempo e o café, colocando-os à mesa. Quando eu começava a organizar as louças dentro da pia, a campainha tocou.
não pode estar aqui tão cedo, pensei. Não depois da noite que ele deve ter tido ontem. Mas se não fosse , quem mais estaria ali?
Ao abrir a porta, meu coração disparou.
? — falei, em um tom sinceramente surpreso.
Ela olhou pra mim e de repente desviou os olhos, o rosto corando até a raiz dos cabelos. Foi então que percebi que eu ainda estava sem camisa e minha calça de moletom estava posicionada em um cós tão baixo que era visível que eu só estava usando ela.
— Ah… O que faz aqui? Está tudo bem? — perguntei, tentando mudar o foco da situação constrangedora.
— Eu não sei. — ela deu uma risada forçada e deu de ombros — Talvez verificar que você não estava morto. Você resolveu ficar em coma depois de ter me pedido pra esperar, e foi tão… — ela mordeu o lábio inferior, e suspirou — Sabe quantas vezes tentei ligar? Quantos recados eu deixei? Eu fui ao hospital depois que você acordou, mas você não estava.
— Eu sinto muito. Meu celular parece que morreu no acidente.
Ela balançou a cabeça, ainda mordendo o lábio inferior, como se estivesse se impedindo de falar mais alguma coisa. Mal posso imaginar quantas perguntas teria.
— E como você está? Está sentindo alguma dor, desconforto, pelo menos dessa vez vai respeitar o tempo de repouso? — ela me olhou séria, mas o canto de sua boca se repuxou em um leve sorriso. Ela parecia realmente feliz em me ver vivo, e o formigamento estranho no meu peito me fez querer sorrir também, como um sentimento mútuo.
— Sim, eu estou bem. Está satisfeita agora?
— Não vou ficar satisfeita até conversarmos. — ela disse, voltando ao estado sério de novo, mas relaxado — Tem um tempo livre pra um café?
Ela me fitou como se tivesse tomado vinte segundos de coragem para dizer aquilo. A pessoa mais cismada de ser vista comigo estava agora me chamando para um café. E eu automaticamente quis cancelar tudo para aceitar o convite.
De repente a voz da minha vó invadiu minha mente, repassando toda a conversa que eu havia tido com ela naquele quarto de hospital. E depois a lembrança do rosto de no meio da festa, e a lembrança de seu rosto na escuridão. O emaranhado de imagens brigavam entre si, chocando-se, loucos para verem quem eu iria escolher seguir. levantou uma sobrancelha, ainda aguardando minha resposta.
— Na verdade…
— Com quem você está falando, ?
Oh, merda! Eu havia esquecido completamente que Jane estava aqui.
Não só isso, ela adentrou no ambiente, enrolada em uma toalha branca e secando o cabelo com outra menor. Ao vê-la, os olhos de se arregalaram por um breve momento e Jane se aproximou de nós na porta.
— Ora, ora, quem é essa aí? Você não me disse que tinha feito uma amiga nova, . Olá, muito prazer, sou a Jane. — ela estendeu as mãos para , que ruborizou e demorou alguns segundos para cumprimentá-la com um sorriso fraco.
Isso definitivamente não deveria estar acontecendo.
— Jane, essa é a… — minha voz saiu mais rouca que o normal, e eu olhava fixamente para . Uma colega da faculdade.
— É muito bom saber que você fez mais amizades depois de se mudar, além do panaca do . — Jane riu — É um prazer te conhecer, . Quer entrar pra tomar café da manhã com a gente? Esse lindinho caprichou hoje! — ela pegou em meu braço e recostou a cabeça no meu ombro.
Nunca desejei tanto que a viagem no tempo fosse real. Meu olhar, cravado em , passava uma mensagem, que eu não fazia ideia se ela estava entendendo ou não: não é nada disso que você está pensando! Mas quem eu queria enganar? Não havia como interpretar errado em uma situação daquelas.
E eu não sabia por que diabos eu não queria que ela visse nada daquilo. Nunca me importei de ser visto com Jane, de deixar que as pessoas achassem e rotulassem do jeito que quisessem, mas de repente quis abrir a boca e despejar uma enxurrada de explicações, não que isso fosse mudar alguma coisa.
ainda parecia surpresa, mas conseguiu imprimir um sorriso de canto.
— Hoje não vai ser possível, eu preciso resolver um assunto urgente. — ela me fitou por um segundo ao dizer isso — Pelo visto você está melhor do que eu pensei, . Parece que eu não precisava me preocupar. Tenho que ir, então tenham um ótimo dia. — ela me olhou pela última vez antes de se virar e ir embora.
Dei um passo à frente automaticamente, pronto para ir atrás dela. Mas eu não podia. E nunca me senti tão idiota por isso.
Fechei a porta e Jane estava parada atrás de mim, de braços cruzados.
— Então agora você tem uma amiga? — ela tinha um olhar divertido, achando graça de toda a situação.
— Ela não é uma amiga. — murmurei, caminhando até a mesa. Eu não sabia o que era.
Antes de sentar, pude jurar ouvir Jane murmurar um “acho bom”.

***
Jane não se demorou muito na minha casa após o café. Ela disse ter negócios a resolver no Queens, mas garantiu que jantaria comigo. E por jantar eu quero dizer uma sessão de perguntas minuciosamente feitas por ela.
Eu não podia escapar da sociedade por muito tempo, então assim que Jane saiu fui checar meus e-mails. A maioria dos não lidos na minha caixa de entrada pertenciam à minha mãe, que ficou sabendo, graças à mágica de , que eu estava sem celular e que compraria outro assim que possível. Não abri minha conta do banco para verificar que ela com certeza havia mandado o valor de um telefone novo ou até mais, pois seus e-mails mais recentes pareciam desesperados e furiosos por eu não atender suas ligações. Suspirei e comecei a respondê-la, dizendo que tempo era o único empecilho que havia me impedido de comprar um telefone novo. Me empenhei para redigir uma mensagem grande e convincente, para acalmá-la o bastante para não pegar o primeiro avião para NY. Fiz o pedido de um celular novo na loja mais próxima que eu conhecia dali para conseguir falar com ela ainda hoje. Se ela aparecesse por aqui seria desastroso.
Fora os e-mails dos professores que fizeram questão de me passar absolutamente tudo que havia sido dado, havia um e-mail do reitor. Um enviado de sua conta pessoal. Fiquei confuso e por um segundo pensei que tivesse algo a ver com , mas não era nada disso. Era um convite para uma festa beneficente.
Uma festa beneficente de uma das universidades da Ivy League era um evento apenas para a maior classe de NY, e quem sabe de outras partes do país. Ele seria oferecido pelo reitor em pessoa em prol da nova reforma do estacionamento, refeitório do John Jay e da construção do novo prédio laboratorial ao sul do campus. Pensei imediatamente em ignorar o convite e apenas não ir, apesar de as letras pequenas indicarem que apenas alunos selecionados à dedo haviam recebido, e que seria encarecidamente respeitoso que todos comparecessem àquele grande momento. Um outro e-mail também do reitor era diretamente para mim, me desejando uma boa recuperação e um bom retorno à Columbia.
O restante do meu dia foi uma eterna tentativa de colocar os estudos em dia, mas eu falhava em todas as vezes. Minha cabeça simplesmente não me obedecia e continuava voltando sem parar para os eventos anteriores, desde a queda da viga até aparecer na minha porta. Eu não me surpreendi como ela sabia onde eu morava, afinal, ela tinha acesso a esse tipo de informação, mesmo que clandestinamente. Mas o jeito que toda aquela situação havia me incomodado era no mínimo atípico. Eu só podia constatar que coisas estranhas andavam me acontecendo ultimamente. Pensar em e concomitantemente na conversa com minha vó me deixava ansioso de uma forma que eu nunca havia estado, e quase matei metade de um maço de cigarros. Agradeci internamente por não ter um celular naquele momento para não avacalhar todo o meu acordo com minha vó.
As horas passaram bem rápido e de repente já era hora de eu me encontrar com Jane. A temperatura lá fora havia caído drasticamente, e eu senti que a primeira neve se aproximava. Coloquei jeans e botas pretas, e um casaco jeans escuro. Esperava que aquilo me mantivesse quente, mas não estava muito confiante. Ao descer o elevador, verifiquei minha caixa de correio na entrada e vi a caixa do celular. Joguei-a no banco do passageiro e dei a partida.
Jane já me aguardava em uma mesa ao lado do imenso aquário do Le Bernardin. Ela estava com um vestido verde escuro, com uma fenda que ia muitos centímetros acima do joelho e com uma postura elegante — e incrivelmente sexy. O vinho já estava na mesa, e tenho certeza que ela havia pedido o mais caro.
O garçom me guiou até a mesa, servindo uma grande taça de vinho logo em seguida.
— Desculpa, acho que eu estava em falta do smoking. — dei de ombros, apontando para minha roupa, que parecia drasticamente fora de ocasião.
— Sem problemas, sabe que prefiro você assim. — ela sorriu e abriu o cardápio. Em seguida, estalou os dedos e logo um garçom se aproximou da nossa mesa, trazendo consigo um tablet para anotar os pedidos. Não fiz questão de nada em especial e logo ela já havia finalizado essa parte. Quando ele se retirou, ela tomou um gole da taça, deixando uma marca do batom vermelho na mesma — E então, . Por mais quanto tempo você vai ficar calado?
— Até você se esquecer completamente daquilo. — suspirei, brincando com o guardanapo.
— Você deve pensar que eu tô brincando. — ela trincou os dentes, seus lábios formando uma linha fina — A diversão de ontem já acabou. Sabe como eu fiquei ao receber a ligação de me avisando que você estava em uma cama de hospital? Ainda por cima, em coma?! Mas o que raios aconteceu? É tudo culpa da maldita que você estava ajudando?
— Mais ou menos. Não… — suspirei, tentando pensar por onde eu começaria.
Acabei por despejar tudo pra ela. Desde a primeira vez que vi Margot até o acidente com a viga. Jane escutava tudo com atenção e enchia a taça de vinho várias vezes, até pedir outro. Ela bebia bastante quando estava nervosa.
Ao final do meu relato, ela me encarava com um olhar distante, quase parecido com a expressão inicial da minha vó. A taça de vinho balançava em seus dedos e ela mordia levemente o lábio inferior, parecendo pensar de uma forma profunda sobre a história.
— Então você encontrou um deles. — ela afirmou em voz baixa, e seus outros dedos começaram a dedilhar a mesa — Isso aconteceria algum dia.
— Você também já os viu? — perguntei, aproximando meu tronco da mesa — Você e minha vó… Essa é uma situação nova só pra mim? Por que nunca me contou antes?
— Porque não era importante. — respondeu ela, mas senti seu lábio tremer — Quer dizer, é só mais um fantasma, com algumas habilidades um pouco mais especiais talvez, mas é só mais um espectro.
— Como assim habilidades especiais? — questionei, e ela desviou os olhos — Que habilidades, Jane? Que papo é esse?
— Nenhuma, . Eles só são um pouco mais demoníacos do que os outros e não são passíveis de ajuda. Então sua avó está totalmente certa ao dizer pra você ficar longe desses malucos.
— Por que eles não se lembram de nada, não é? Mas ele estava perseguindo alguém… Como uma retaliação, algo do tipo. — Jane olhou para o lado e estalou os dedos mais uma vez, pedindo indiretamente outra bebida. Levantei uma sobrancelha, mas ela não disse nada — Você não pode ficar em silêncio em uma situação dessas. Vai, diz o que tá pensando.
O garçom surgiu com a terceira taça de vinho e com o aviso que nossos pedidos já estariam prontos. Jane encheu nossas taças e ainda não dizia nada.
— Jane… — falei entre dentes.
— Tá bom, tá bom! — ela bufou, largando a taça na mesa — Desde que eu te conheço, você sempre teve horror à nossa… — ela olhou de soslaio para os cantos rapidamente — Particularidade. Você sempre fez o que tinha que fazer e só. Mas eu não, eu queria entender porque eu era desse jeito, porque eu sou… E o que eu tinha que fazer. Então fiz umas pesquisas.
— Pesquisas. — repeti e soltei uma risada irônica — Eu já te falei…
— Sim, você pensa que todas essas pesquisas são fajutas que vieram de lunáticos ou fraude, mas eu realmente fiz alguma coisa, . Eu tive de fazer, depois de encontrar com um deles. — ela suspirou e bebeu um gole do vinho — Foi no ensino médio, quando eu tinha matado aula com algumas meninas que me ofereceram um cigarro. A gente foi pra cobertura de um edifício abandonado e lá tinha um cara em pé no parapeito, pronto pra pular. As meninas se assustaram e até tentaram gritar aos quatro ventos para que ele não fizesse aquilo, mas elas não estavam vendo o que eu estava. Que aquele cara não estava ali por vontade própria. — ela baixou os olhos, passando o dedo indicador pela circunferência da taça — O espírito estranho me deixou com tanto medo que eu não consegui fazer nada. Ele segurava o cara naquela posição, e de repente… Jogou ele de lá de cima.
Minha respiração saiu entrecortada. Queria poder dizer que estava chocado, mas eu estava apenas paralisado. Como se Jane estivesse confirmando todas as dúvidas que eu tinha sobre aquilo, e o resultado disso não era bom.
— Jane… — minha voz saiu rouca, e eu não encontrava as palavras seguintes — Eu não sabia, você nunca disse…
— Claro que eu nunca disse, sempre quis esquecer esse dia. Você não tem ideia de como foi assustador e bizarro… Foi o primeiro fantasma que eu vi que não estava ali para pedir ajuda, e sim pra matar alguém. E ele podia tocar outro ser humano, então automaticamente fiquei com medo por mim. — ela fechou os olhos por um segundo antes de continuar — Depois daquilo, eu fiquei desesperada e me meti em uma biblioteca pela primeira vez. Não que fosse ajudar muito, mas lá tinham computadores e você sabe como é a Dundy com tecnologia. Daquela vez eu peguei até alguns livros, e li alguns relatos. Alguns completamente sem pé nem cabeça, e outros até que convincentes… E uma parte que me deixou completamente atordoada.
Ergui uma sobrancelha, e pela cara que Jane fez, aquela era exatamente a parte que ela não queria contar.
— Eram só alguns livros velhos e idiotas, não sei porque…
— Jane. — encarei ela muito sério.
Ela passou a língua nos lábios antes de continuar, odiando o fato de não poder se livrar de mim.
— Em um dos livros dizia algo sobre espíritos malignos tentarem roubar a alma de seres humanos. Era algo bem específico, caso eles fossem… interrompidos. Ou até quem sabe tomar seus corpos. — ela desviou os olhos novamente — Mas esses livros são velhos, ninguém deveria dar importância à eles. E você está aqui, não é? É só ficar longe deles, bem como sua vó te aconselhou. — concordei devagar com a cabeça, agora eu desviando os olhos. Eu mentia muito bem, mas não para Jane. Ela sempre sabia quando algo partia de mim sem convicção — Você acredita no inferno, ?
Dei uma risada seca, dando um gole do vinho.
— Você sabe que não.
— Pois deveria. — ela levantou a sobrancelha, remexendo na taça de vinho novamente — O espírito que você viu veio direto de lá.

***
O silêncio recém instaurado tornou a comida menos apetitosa. Jane ainda tentou conversar mais um pouco, mas algo se embrulhava em meu estômago e me impedia de falar muito, apesar de eu ter tentado. Toda a sua história parecia me dar ânsia, e eu não conseguia focar no momento presente.
Era revoltante ter de dar às costas para um fantasma matar livremente porque “é assim que tem que ser”. Não que eu sempre tive essa aura justiceira e vigilante e protegi os oprimidos a vida toda. É só que tudo aquilo parecia cruel, e desumano, e extremamente perigoso.
Não conseguia ficar parado. Minha vontade era levantar e ir embora, mas não faria isso com Jane. A preocupação dela e da minha vó eram relevantes, eram temores baseados em experiências reais, eu é que parecia estar indo na contra mão de todos os ancestrais por simplesmente querer saber mais sobre aquilo.
Mas afinal, por que eu queria? Eu pude ver e sentir que não ficar longe daquela coisa me traria a morte certa, mas ainda assim… Deixar morrer livremente, por qualquer que seja o motivo, contrariava todos os músculos do meu corpo, e minha cabeça doía com o dilema. Se fosse outra pessoa, eu estaria sentindo o mesmo? Estou me sentindo tão angustiado porque, afinal, é com ela? Eu não sabia o que responder e a dualidade me matava e me paralisava.
Por fim, pedi licença à Jane para ir ao banheiro. Ela quis protestar, mas não disse nada. Sabia que havia algo na minha cabeça que eu não conseguia me livrar, e sabia também pela comida praticamente intocada na mesa. Havia algo preso em minha garganta que eu não sabia o que era.
O banheiro inteiro de mármore negro deixava o ambiente escuro, apesar da máxima iluminação. Parei em frente ao espelho, meu subconsciente julgando o cara do reflexo. Não era uma boa ideia, não era uma boa ideia. Fechei os olhos por um instante, tentando me recordar da sensação de ter a alma praticamente roubada. Das outras vezes que ignorei os conselhos de minha vó e sempre não dava certo. Que aquele era provavelmente o conselho mais importante que ela já me dera na vida! Lembrei de sua expressão fria, a história de Jane, e de como eu negligenciei tudo que eu era. Uma onda de remorso me bateu por não ter estado com ela naquele momento, e como era desrespeitoso com tudo que nós éramos correr atrás de um fato tão sombrio em sua vida, tão traumático.
Liguei a torneira da pia e me abaixei para jogar uma água no rosto. Eu ficaria bem. Eu esqueceria aquela história. Eu voltaria para a mesa e automaticamente eu e Jane voltaríamos a ser quem sempre fomos. Eu não estragaria mais nada hoje.
Joguei a água no rosto mais uma vez e imobilizei minhas mãos na região dos olhos por mais um tempo, a ponto de sentir até o último segundo do frescor. Mas quando levantei o tronco para dar uma última olhada no espelho, percebi que não estava sozinho no banheiro.
E muito menos bem acompanhado.
Antes que eu pudesse reagir, Margot me empurrou como um trapo para a parede, cravando sua mão em meu pescoço, com um olhar horripilante. O aperto não estava tão forte, então imaginei de cara que ela talvez não tenha vindo me matar.
— Então você está vivo! — murmurou uma risada seca — Eu achei que tínhamos um acordo, ! — sua voz saiu rouca, entrecortada, medonha. Ela definitivamente não era a garotinha assustada do carro.
— Margot, se acalma… Eu tentei conversar…
— Você estava tentando me enganar! Assim como Ash! E ainda teve coragem de salvá-lo, seu miserável de merda! — ela restringiu o aperto, e o ar passava cada vez menos pela minha garganta — E ainda trouxe aquela vadia pra se meter na minha vida! Nosso acordo já era!
— Margot… — eu tentava pronunciar algumas palavras, mas com sua força sobre humana ficava cada vez mais difícil à medida que ela se irritava.
— Eu deveria acabar com você agora, sabia? Mas primeiro vou acabar com a puta que se acha no direito de remexer no meu corpo, como se eu fosse mais uma marionete! — ela berrou à centímetros do meu rosto, que fizeram alguns fios de cabelo balançarem.
Sem saber da onde me surgiram forças, puxei a perna esquerda e consegui atingi-la um pouco acima da barriga. O golpe fez o aperto em meu pescoço afrouxar e assim eu enfiar o cotovelo do braço esquerdo direto em seu nariz, fazendo-a dar vários passos para trás e se apoiar na pia. Respirei ofegante enquanto tossia algumas vezes, sem perdê-la de vista caso tentasse me atacar de novo.
— O que… Você acabou de dizer? — perguntei em meio às tossidas —
Margot deu uma gargalhada, e senti o vidro do banheiro tremer.
— Seu estúpido! A vagabunda da sua parceira está nesse momento em Woodlawn se achando no direito de cavar minha cova como uma imbecil. Só que ela não parou pra pensar que eu não gostaria nem um pouco disso. — ela disse, dando um sorriso perverso — Ela sempre foi assim, metendo o nariz onde não deve. Agora finalmente ela pode aprender uma lição.
Margot deu um último sorriso e simplesmente desapareceu no ar.
Não, não, não, não, não.
não podia estar fazendo aquilo. Absolutamente não podia.
Minha boca ficou seca. Direcionei meus pensamentos para o dia da nossa conversa atrás da porta azul. Não vi em qual minuto eu fiz, mas meus pés se moveram por conta própria e de repente eu já havia corrido para fora do restaurante. Se ouvi gritos de Jane ou de qualquer outro funcionário local foram incoerentes. Eu só conseguia pensar em como chegar no túmulo de Margot.

 


Capítulo 11: Sussurros em Woodlawn.
 

Woodlawn. Woodlawn. Eu dirigia cegamente, como um louco, e tinha certeza de já ter ultrapassado dois sinais vermelhos. O celular novo parecia levar uma eternidade pra ligar e passar as configurações, quando finalmente pude ouvir a voz da máquina me ensinando a usar o controle de voz. Gritei sobre a localização de Woodlawn e foram mais segundos arrastados até que ela pesquisasse, ao mesmo tempo em que eu sentia uma gota de suor em minha testa. Pensei em parar até achar a localização exata do cemitério, mas eu simplesmente não sei se conseguiria. Eu dobrava o World Trade Center quando o telefone finalmente disse o endereço, no Bronx. Bufei e, como um maluco, derrapei o carro para a direita, cantando pneu, e me enfiei do outro lado da pista, recebendo várias buzinas e gritos, que duraram milésimos de segundos. Eu já estava muito longe.
Pelo horário, o portão de ferro batido já estava fechado, com algumas lâmpadas dos postes da entrada apagados, o que deixava ainda mais escuro. Havia uma neblina densa e bizarra no ar, deixando o ambiente ainda mais macabro. Estacionei o carro à uma longa distância, e em hipótese alguma eu poderia escalar o portão da frente. Já deveria estar em uns 10 graus e a temperatura só cairia mais à medida que as horas passassem, e me preocupei com a possibilidade de nevar, apesar do inverno ainda nem ter começado.
Eu jamais visitava cemitérios. Era um local que sempre havia uma remota chance de ter um fantasma, e eu não precisava necessariamente visitar túmulos para me comunicar com quem quer que seja. Mas invadir um cemitério ou a sala de provas da polícia, que diferença fazia.
Haviam câmeras principalmente na entrada. Dei a volta em um ângulo de 360o pelos muros, onde havia uma grande quantidade de árvores e muita moita. havia entrado de alguma forma. E tinha dado certo, visto que não havia nenhum carro de polícia ou pessoas correndo pra lá e pra cá.
Os arbustos atrás dos muros eram tão espessos que não era difícil escalar uma das árvores grossas para chegar ao topo. Caí de joelhos do outro lado, mas meus músculos estavam tão tensos que mal senti o impacto. O breu impossibilitava a minha visão, e eu não fazia ideia de como acharia . O túmulo de Margot era algo que eu definitivamente não procurei saber, e o cemitério era enorme. A cada minuto que passava minha garganta se fechava ainda mais, e me senti um idiota por não lembrar o número de de cor para poder usar o telefone.
Depois de andar alguns metros pelo leste do cemitério, avistei uma luz fraca ao longe. Parecia vir da boca de uma lanterna e estava se mexendo rápido e depois devagar, como se a pessoa estivesse em movimento. Não parei para tentar adivinhar muito e corri à plenos pulmões em direção à luz, torcendo para que Margot tivesse desistido da ideia do ataque.
A neblina ficava mais densa à medida que eu me aproximava da luz e aquilo me causava arrepios intensos, como se me dissessem o que estava por vir. Sem perceber, gritei o nome de , e imediatamente o pequeno foco de luz virou-se totalmente pra mim, me cegando por alguns momentos e me fazendo parar. A próxima coisa que senti foram braços passando em volta de meu pescoço, e um cheiro que estranhamente eu já reconhecia.
! — arfava, seu peito descendo e subindo tão rápido que parecia que havia corrido há pouco. Um soluço denunciava que ela segurava um choro.
Instintivamente, puxei seu rosto para olhá-lo melhor. Ela parecia totalmente apavorada, e estava com a testa molhada de suor. Usava um vestido com os ombros desnudos e tremia naquela noite gelada. Parecia assustadoramente pálida.
Ela rispidamente me soltou ao ver que eu encarava demais, parecendo perceber o que havia feito. De repente toda a sua postura estava de volta, e ela passou as costas das mãos embaixo dos olhos.
— Você está bem?! — perguntei, pegando em seu braço e me aproximando para enxergá-lo melhor. Olhei para os lados, atordoado com a pouca visão, e me preparando para Margot aparecer a qualquer momento — Tá machucada? Viu algo estranho? Por que você está assim…
— Eu estava… Eu… — ela começou, e sua voz era abafada na tentativa de segurar mais soluços — Como você chegou aqui? Como você sabia…
— Isso não importa agora! Você não deveria estar aqui! — olhei pra ela, dizendo entre dentes, minha irritação evidente — Achei que tínhamos combinado que essa não era uma boa ideia! E o que raios aconteceu com você…
— Eu não sei! Eu estava na lápide de Margot… Aí… — ela ficou com os olhos perdidos, e meu coração de repente se apertou. Peguei a lanterna ainda acesa em sua mão direita e rolei a luz para averiguar o ambiente rapidamente.
Bem atrás dela, havia uma estátua imensa de uns 6 metros de pedra branca, com a forma de um anjo. A pintura estava lascada e as últimas folhas do outono ainda estavam espalhadas pelo chão, e um vento gélido as empurrou para longe. O silêncio era um tormento, gritava no fundo de minha mente. Algo de bom não iria acontecer se continuássemos ali.
— Temos que sair daqui agora mesmo. — falei, e virei o corpo para andar na outra direção.
— Espera…
— Se disser algo sobre terminar seu serviço, eu nem sei o que faço com você, ! Vamos sair daqui antes que alguém nos pegue!
— Serviço? — Ela juntou as sobrancelhas — Não é nada disso que você tá pens….
Eu não podia ouvir suas explicações. Peguei em sua mão e a lanterna e a puxei para a direção que eu me lembrava do muro. Meus músculos ainda estavam tensos e talvez eu apertasse demais a mão dela, mas nada se compara à rigidez que senti ao ouvir aquele sussurro na escuridão.
— Não tão rápido, . — a voz de Margot soou surpreendentemente macia e abafada, tão diferente da voz arrastada que eu ouvira no banheiro.
Abruptamente, virei meu corpo para trás. Não havia absolutamente nada ao redor, mas cada nervo do meu corpo estava alerta. Ouvi mais uma risadinha e mais um sopro frio, e desloquei para trás de mim, não soltando sua mão em momento algum.
Margot estava brincando comigo. Desde o início sabia que eu viria atrás de , e queria machucá-la na minha frente. Eu movia a lanterna por todos os lados, mas ela não aparecia, e ficava repetindo palavras e risadas que eu não conseguia compreender, com uma voz que não era mais dela. “Você não pode escapar de mim”
“Você não tem vergonha de se fazer minha amiga agora que estou morta?”
“Você permitiu que ele fizesse isso comigo”
“Me matou igual fez com seu irmão, com seu pai, com mais quem, ? Quem será o próximo da sua lista? Amiga…”

Que merda de papo era aquele?
, o que foi? — sussurrou, e parecia estar tremendo mais. Aquelas palavras não eram direcionadas à mim, e Margot não aparecia, então o que diabos era todo aquele jogo?
Em um milésimo de segundo, soltou de meu aperto e gritou quando teve o corpo arrastado pelo chão e lançado de costas à estátua do anjo, que tremeu com o baque e a fez cair de bruços. Imediatamente corri em sua direção, mas um puxão invisível me fez tombar para trás e também cair. Na mesma hora, Margot se materializou a minha frente, com um sorriso macabro no rosto.
— Filha da puta! — resmunguei, tentando me levantar — O que você pensa que está fazendo?!
— Estou fazendo o que ninguém fará por mim. Ou você pensa que vou ficar sentada olhando a vida de todos aqueles que colocaram Ash propenso a me assassinar seguirem seus caminhos felizes? A resposta é não. — sua voz ficou baixa e ela aproximou o rosto do meu — Vou te dar uma última chance, . Você não tem nada a ver com isso, então sugiro que…
Só que ela não terminou de falar pois meu punho a impossibilitou. Acertei seu nariz em cheio, fazendo-a gemer e cambalear pra trás, e atingi seus tornozelos, o que a fez cair finalmente. Isso me daria tempo de chegar em , mas não atrasaria Margot por muito tempo.
Me abaixei ao lado de , que ainda estava no chão porém parecia acordada.
— Ei! , olha pra mim! Você está bem?! — eu ofegava, desesperadamente pensando em uma forma de como me livraria de Margot para sairmos dali — Fala comigo, você se machucou?
… — ela grunhiu, tentando se levantar e colocando as mãos na cabeça, como se sentisse dores — O que aconteceu? Você ouviu… As vozes… Tinham vozes…
Minha garganta ficou seca, e desviei os olhos. Aquela era uma variável que eu não esperava.
— Temos que sair daqui agora mesmo, depois nós…
— Você não vai a lugar nenhum! — ouvi o grito de Margot na mesma hora em que ela puxou a gola do meu casaco, me jogando para trás violentamente.
Tudo a minha volta estava girando. Eu havia rolado como uma bola por pelo menos uns quatro metros, e tenho certeza de ter ouvido chamar meu nome. Antes que eu pudesse me recompor, senti um chute direto no abdômen, e depois um punho forte direto no olho.
— Primeiro será você então… — Margot murmurou enquanto apertava novamente meu pescoço, dessa vez com tanta força que eu poderia levar a sério o lance de me matar — Depois eu me resolvo com a garota, e então Naomi, Ash, todos eles…
Senti o ar passar cada vez menos pela minha glote, e meus olhos quase saltaram das órbitas. Movi uma das mãos para o pescoço de Margot, tentando causá-la algum dano para que afrouxasse o meu aperto, mas pelo visto estava sendo sem sucesso. Ouvi a voz de mais uma vez, dessa vez se levantando por completo e correndo até mim.
— Não… — tentei falar, gritar, gesticular para que ela não chegasse perto.
Mas ela não pareceu me entender e continuou em frente, com uma expressão assustada no rosto. Eu sabia que ela não podia ver Margot, mas deveria ser desesperador ver uma pessoa prestes a morrer de asfixia sozinho. Assim que ela se aproximou de mim, uma das mãos de Margot soltou do aperto em meu pescoço e brevemente tocaram , fazendo-a ser lançada novamente para trás, desta vez à pouco metros. Pelo seu grito, ela havia batido em algo. Uma raiva aterradora me tomou e puxei a outra mão de Margot, tirando do meu pescoço e jogando a testa em seu nariz, empurrando-a para o lado, e depois dando mais um soco, e depois mais outro. Ela gemeu e tossiu, e lhe incitei um pontapé no tórax.
— Estou te avisando… — disse entre dentes, meu punho lhe dando mais um golpe no rosto — Se chegar perto dela de novo, vou te mandar direto pro inferno!
Ela parecia fraca, mas mesmo assim deu um sorriso irônico, mostrando dois dentes quebrados que logo voltariam ao normal.
— Seu burro — ela gargalhou como uma bruxa — Ele vai atrás dela! — ela riu e tossiu logo em seguida — E ele… Com ele você não…
Ela tossiu mais uma vez, dessa vez com mais violência, e simplesmente desapareceu no ar.
Sem perder mais nenhum segundo, levantei rapidamente e me abaixei ao lado de , pegando seu rosto em minhas mãos. Havia um corte aparentemente superficial acima de sua sobrancelha esquerda que sangrava, e ela parecia estar um pouco grogue por causa do segundo impacto. Seus olhos se abriram lentamente e sua respiração estava pesada e profunda.
. Ei. — falei devagar, sussurrando, afastando seu cabelo do rosto — Você pode levantar? Fala comigo… Temos que…
A ponta de seus dedos foram direto para minha boca, calando-me. Sua cabeça se levantou e pude sentir sua respiração quando ela tocou sua testa na minha, ainda de olhos fechados. Senti uma queimação em minha pele e meu coração desestabilizar.
— Você… está bem? — ela perguntou, se afastando do toque por um breve momento — Você estava… Eu não sei…
— Eu prometo que vou te explicar tudo. Agora por favor, me diga que consegue levantar, nós precisamos urgent…
Como uma série de coincidências ruins, uma sirene começou a apitar e luzes vermelhas e azuis estavam piscando ao longe. Não, não, não, não. Xinguei raivosamente ao observar um par de lanternas correndo ao longe, se movimentando aleatoriamente, procurando o local da confusão. Parecia que toda a algazarra havia finalmente atraído a atenção dos coveiros. Era tudo que eu não precisava.
pareceu perceber e imediatamente se levantou, ainda que cambaleante.
— Ai meu Deus… — ela arfou, olhando desesperadamente para os lados — … O que a gente faz?
— Faça o que eu disser! Vamos! — puxei-a rapidamente pela mão pela direção que eu me lembrava do muro.
O problema não era apenas escalar o muro para sair do cemitério. Os coveiros poderiam não nos pegar, mas a polícia com certeza iria, visto que eles estavam dirigindo em círculos ao redor do local. Puxei para a escuridão da base do muro há poucos metros da estátua, e mesmo que eu não fazia ideia de qual direção sairíamos do outro lado, não tínhamos outra escolha.
— Ah não… — ela murmurou, engolindo em seco olhando para a altura do muro, que era maior do que o da Columbia.
— Eu vou primeiro. — falei, olhando firme em seus olhos, tentando passar confiança — Vamos pela árvore e saltamos do outro lado.
— Nunca subi em uma árvore. — ela olhou para cima e pude ver o medo que ela sentia.
— Você vai conseguir. Como da outra vez. — coloquei a mão em seu ombro, e senti o formigamento estranho de novo, fazendo-me soltá-la depressa. Ela concordou com a cabeça e eu comecei a escalada.
Visto que não era a mesma árvore que eu havia subido na chegada, essa estava mais lisa e difícil de alcançar o topo. Depois de ter ralado as palmas das mãos umas duas vezes quando quase escorreguei, consegui chegar ao ápice da árvore e pular para o muro, que era mais espesso nesta parte. Olhei para de cima, esperando-a, olhando para os lados nervoso com a iminência da outra ronda da viatura, que parecia estar do outro lado.
Apesar de nunca ter feito aquilo, se saiu bem. Conseguiu chegar ao alcance de minhas mãos bem mais depressa do que eu esperava, e a puxei para o muro, onde ela se sentou, com os olhos fechados e respirando pesadamente. Independentemente do seu medo de altura, ela havia chegado bem e com apenas os machucados que havia ganhado lá embaixo.
— Eu vou pular e te seguro. — disse mais uma vez, em voz baixa, e ela apenas concordou com a cabeça sem abrir os olhos.
Pular daquela altura não foi tão difícil, e dessa vez consegui cair de forma mais digna. O problema foi que o barulho pareceu ser mil vezes mais alto no asfalto por conta do silêncio ensurdecedor da rua parcialmente iluminada por postes amarelos e sem uma alma penada, apenas o barulho da sirene que se aproximava cada vez mais. Sussurrei para pular, e a vi concordando com a cabeça novamente, passando as pernas para o outro lado do muro, finalmente abrindo os olhos.
Ela respirou fundo e pulou direto para os meus braços estendidos. Dessa vez a segurei firme, sem cair e coloquei-a no chão, xingando aquele formigamento persistente que eu não sabia da onde vinha.
Não dava tempo de perguntar se ela estava bem, apesar de que seu semblante denunciava novamente que ela queria vomitar. As sirenes estavam altas, as luzes se aproximavam cada vez mais e o barulho do impacto dos meus pés havia feito os policiais pisarem no acelerador.
Olhei em volta. Não era o lugar onde eu havia escalado na chegada com toda certeza, e a única forma de encontrar meu carro seria contornando todo o muro do cemitério até o portão de entrada, o que seria extremamente suspeito se fôssemos pegos e não havia tempo para encontrar um esconderijo.
Na verdade, não havia tempo pra nada. Tentei correr alguns metros com , mas não éramos mais rápidos do que um carro. Sem chance de não sermos colocados na viatura se fôssemos pegos naquela situação em meio a uma correria, e não estava nas melhores condições físicas pra isso.
Por fim, havia um jeito. Impopular, eu diria.
— Para! Não vamos conseguir. — puxei seu braço e ela juntou as sobrancelhas, usando sua expressão normal quando queria dizer que eu estava maluco.
— O que você quer dizer? Eu realmente não quero dormir em uma cela… — ela sussurrou entredentes, olhando nervosa para os lados.
— Lembra que eu disse pra fazer o que eu disser? — ela concordou com a cabeça, ansiosa — Preciso que você fique parada.
Foi nessa hora que eu a beijei.