Ghost Feelings

  • Por: Laís M.
  • Categoria: BTS | Kpop
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Sinopse: Eles estavam atrás de mim. Não apenas por uma hora ou duas horas, na verdade, eles estavam atrás de mim o tempo todo. E não apenas atrás de mim, eles apareciam por todos os lados. E tudo bem quando eu estava em casa ou sozinho em algum outro lugar, mas eles não tinham escrúpulos sobre tempo e espaço para aparecerem. Isso me deixava maluco. Como quando eles resolvem dar às caras dentro da lanchonete ou até mesmo durante as minhas aulas. A minha capacidade de ignorá-los melhorou muito com o passar dos anos, mas isso não conta quando eles resolvem te chutar ou até mesmo fazer qualquer contato físico com você. Porque sim, eles podem. Pelo menos comigo.
Desde que me entendo por gente eu consigo vê-los. E não apenas vê-los. Consigo cheirá-los, senti-los, tocá-los, como se fossem um outro ser humano. Não me admira o rótulo de esquisito que me foi posto pelos outros. Mas como lidar quando ambos os seres, vivos e mortos, conseguem te tocar e falar como todas as outras pessoas?
Gênero: Drama, Romance, Suspense, Ficção
Classificação: 16 anos
Restrição: Baseada no BTS, mas pode ser lidar com quaisquer grupos. Fora você e os meninos, os demais personagens são fixos.
Beta: Alex Russo

Capítulos:

 

Eles estavam atrás de mim. Não apenas por uma hora ou duas horas, na verdade, eles estavam atrás de mim o tempo todo. E não apenas atrás de mim, eles apareciam por todos os lados. E tudo bem quando eu estava em casa ou sozinho em algum outro lugar, mas eles não tinham escrúpulos sobre tempo e espaço para aparecerem. Isso me deixava maluco. Como quando eles resolvem dar às caras dentro da lanchonete ou até mesmo durante as minhas aulas. A minha capacidade de ignorá-los melhorou muito com o passar dos anos, mas isso não conta quando eles resolvem te chutar ou até mesmo fazer qualquer contato físico com você. Porque sim, eles podem. Pelo menos comigo.
Desde que me entendo por gente eu consigo vê-los. E não apenas vê-los. Consigo cheirá-los, senti-los, tocá-los, como se fossem um outro ser humano. Não me admira o rótulo de esquisito que me foi posto pelos outros. Mas como lidar quando ambos os seres, vivos e mortos, conseguem te tocar e falar?
Por sorte, diferenciá-los nunca foi problema pra mim. Sendo redundante, os mortos tem uma aura… Bem… Mórbida. Eles andam pela multidão o tempo todo, são muito pálidos e quase sempre parecem estar perdidos. Um fantasma novato é o que há de mais simples a reconhecer: eles têm muita dificuldade em aceitar que estão mortos e conseguem ser bastante escandalosos ao gritarem aos quatro ventos, perguntando a todos por que não conseguem vê-los. Estes são os maiores perturbadores.
Basicamente, os mortos costumavam vir à mim para resolverem suas pendências aqui na Terra. Se isso soar como algo legal, procure um médico. Não há nada mais incômodo do que um fantasma te seguindo o tempo inteiro para que você possa levar um pedido de desculpas à um membro da família que fica à duas cidades de distância, ou simplesmente para entregar seu amado cão à um abrigo de qualidade. Sem contar nas vezes que uma adolescente que morreu sem nunca ter ido à um encontro resolve usar você de cobaia.
Eu nunca considerei tal habilidade como um dom. Muito pelo contrário, ajudar fantasmas só me dava dor de cabeça e cada vez mais distanciamento social. Meu melhor amigo, , é o único remanescente na minha vida que parece não se importar de ter um amigo que fala sozinho diversas vezes e vive desaparecendo sem mais nem menos. Nos conhecemos no ensino médio e ingressamos na mesma universidade, o que foi um alívio porque fazer novos amigos nunca esteve em nenhum tópico da minha lista de conquistas. Fora o , as únicas pessoas vivas com quem eu mantinha contatos recorrentes eram meus pais, Jane e… minha vó. Ok, talvez esta última não esteja mais viva.
Eu estava no quinto semestre de Medicina na Columbia University. A escolha do curso e da universidade tinham motivos plausíveis, ao menos para mim. Minha meta de especialização era acabar na Oncologia, o que me traria pacientes que esperariam pela morte e eu poderia, de algum jeito, incitá-los a resolverem suas pendências ainda em vida, já que visavam a morte iminente. Poderia ser egoísta, mas era menos um morto que voltaria para me pedir ajuda depois. A escolha de NY também não foi por acaso. Uma cidade grande poderia esconder talentos, e dentre estes talentos eu quero dizer pessoas como eu. Eu não entendia bem como a seleção de mortos acontecia para nós, mas eu torcia para que eles sejam bem distribuídos de acordo com o número de pessoas disponíveis. Era mais um plano para mantê-los longe.
A faculdade de Medicina deixava meus pais felizes, ao menos. Desde que eles me buscaram no Orfanato Melbourne, eu tenho sido motivo de orgulho em praticamente todas as minhas ações, mesmo quando meus desaparecimentos e surtos de rebeldias aconteciam frequentemente. Ou mesmo quando tive que ser buscado na delegacia diversas vezes entre o ensino fundamental e médio, com as acusações variando entre invasão de domicílio e desacato à autoridade. Mesmo nas situações difíceis em que eu era posto por causa dos mortos, eles dificilmente me davam uma crítica dura. Minha mãe chorava no travesseiro à noite, assim como eu sabia que meu pai bebia seu whisky mais do que o normal quando esses eventos aconteciam, o que me fazia pensar se eles se arrependiam de alguma forma por ter colocado um garoto estranho dentro de suas próprias casas. Na verdade eles se sentiam frustrados por não conseguirem a comunicação desejada comigo, o que admito também ser culpa minha.
A família era dona de uma companhia de advocacia bastante rentável em São Francisco. O nome do meu pai, Ryan , era creditado e citado em várias entregas de prêmios empresariais por toda a Califórnia, e era exemplo de gestão em vários outros estados. Os flashs dos eventos de gala, jantares executivos na sala e pessoas estranhas trocando minhas roupas me lembravam do legítimo sentimento de peixe fora d’água. A única solução para dar fim à exposição do único filho da família , era me tornar um gênio que deveria estar sempre estudando e se esforçando para a próxima prova ou um novo prêmio da feira de ciências.
Não deu outra, meus pais passaram a aceitar de bom grado que seu filho tinha outros interesses. Apesar disso, foi difícil convencê-los a me deixarem estudar do outro lado do país, e ouvi os choros da minha mãe por semanas, mas por fim eles concordaram, junto com a promessa de que me visitariam regularmente e que eu deveria ligar sempre. Isso também fazia parte do plano, visto que é difícil seus pais se frustrarem com suas atitudes estando tão longe.
Apesar de minha constante negação, meus pais insistiram que eu não fosse parar em um dormitório da universidade cheio de pessoas estranhas e com intenções desconhecidas. Guiados pela super proteção da minha mãe, eu residia em um apartamento bem localizado em Manhattan, no quinto andar e com janelas imensas do chão ao teto que me concediam uma vista panorâmica da cidade que nunca dorme. Tudo havia sido escolhido à dedo pela Sra. e eu não me atrevia a palpitar. Apesar de todo o esforço exagerado, eu gostava do meu próprio canto e, sem ignorar meu problema com os mortos, aquela foi a melhor decisão que deixei que tomassem por mim.
Em mais uma quinta feira, eu saía da biblioteca enquanto atendia uma chamada de no telefone.
— O que é dessa vez? — falei enquanto posicionava o celular no ombro e terminava de guardar os livros.
— Onde você está? Eu tô morrendo de fome e você ainda não deu o ar da graça pro almoço, e hoje tem aquela carne de…
— Você não tem membros ou dinheiro? Caso tenha membros, acho que você pode comer sem mim.
— Qual é, , você sabe que minha grana foi reduzida à zero no Queens semana passada. Pode me dizer ao menos onde está?
— Bem aqui.
Ele estava de pé no meio do refeitório e pareceu feliz em me ver.
— Por que demorou tanto? Achei que você estava sem aula nesse horário — ele disse quando me aproximei.
— Estava na biblioteca, andei preparando um artigo novo.
— Ah é? Sobre o que é dessa vez? Bactérias que produzem plástico? — perguntou enquanto digitava no celular.
— Não, é só um artigo simples sobre saúde pública que eu espero conseguir publicar no Citizen. Agora vamos te alimentar.
Nós entramos na fila da lanchonete que hoje parecia mais cheia que o normal. O cardápio era carne bovina, um dos poucos que me animava a vir para o almoço. Para o , tudo que fosse comestível era aceitável.
— Você viu o ranking semestral que saiu hoje? Parabéns, ficou no top 5 de novo — disse sem tirar os olhos do celular e sem nenhum tom de surpresa. Eu apenas bufei em resposta.
Todo começo do semestre, a Columbia divulgava um ranking dos alunos que foram mais bem sucedidos de acordo com o semestre anterior. Havia um para cada departamento e um dos alunos em geral da universidade. Como eu faço parte dos cinco primeiros desde o primeiro semestre, aquilo não me pegava mais de surpresa e me senti cansado só de lembrar que dali há algumas horas eu receberia uma ligação de felicitação vindo dos meus pais.
Estar entre os cinco primeiros sempre foi motivo de bajulação entre meus colegas de classe e professores, por mais que eu não desse a mínima pra isso. Contudo, não foi de todo mal; meus artigos eram elogiados pelos professores mais renomados e o reitor até havia me chamado pra jantar. Meu desempenho era um exemplo para todos.
Enquanto estava concentrado em algo como uma rede social, um vento gélido arrepiou os cabelos da minha nuca. Antes que eu pudesse constatar, uma voz rouca surgiu em meu ouvido:
— Olá!
Continuei olhando para frente, apesar de saber que isso não funcionaria por muito tempo. Pude sentir que ela virou o rosto para os lados, perdida. Abri meu celular, fuçando qualquer coisa sem sentido, torcendo para que ela percebesse que ninguém podia vê-la e se mandasse dali. Não era uma boa hora para lidar com mortos.
Infelizmente, ela não só saiu do meu lado, como começou a tentar tocar em e em tudo que aparecesse à sua frente. Para elucidar, quando os mortos tocam as pessoas comuns, elas apenas sentem no máximo aquele arrepio e um momento frio que gela a espinha. Os humanos para os mortos não eram muito diferentes: ao tocá-los, era como se tocassem em uma massa cinzenta, derretida, escapando de suas mãos. Mas eram ótimos pegando objetos, meus hematomas comprovam isso.
Pessoas como eu conseguiam senti-los totalmente — e jamais me pergunte porquê. Isso tornava muito mais fácil para os mortos nos acharem e nos fazerem de gato e sapato para cumprirmos suas malditas pendências. E era por isso que eu estava apavorado com a ideia daquele fantasma resolver me tocar naquele momento.
Eu vi tremer com os calafrios que o toque do fantasma produzia nele, o que o fez reclamar do clima, mas novamente fingi que não estava vendo enquanto nos aproximávamos das bancadas. No momento seguinte, deu um passo à frente e eu o segui, mas o fantasma não se mexeu, o que fez com nossos braços roçassem um no outro por um breve segundo.
Como um amador, aquilo fez com que eu olhasse diretamente pra ela e desviar o olhar no mesmo segundo. Tarde demais. Senti as mãos dela agarrarem meu braço direito.
— Você pode me ver! Ei! Você consegue me ver, não é?
Balancei o braço para sinalizar que me soltasse, mas ela me ignorou. Fechei os olhos, nervoso, implorando pra que ela não fizesse um escândalo aqui.
— Por favor, você precisa me ajudar! Eu não sei o que aconteceu, eu… Ninguém me vê… Eu morri…
Os olhos dela pairavam em uma expressão entorpecida, ela parecia lamentável. Virei os olhos para observá-la e vi uma menina de uns vinte e tantos anos, os cabelos ruivos desgrenhados, pálida como um papel. Ela usava um moletom com o brasão da Columbia.
Eu não podia dar atenção a ela de forma alguma naquele momento, mas ela parecia que não me deixaria em paz. Sinalizei com a cabeça do jeito mais discreto que consegui para que ela desse o fora, mas infelizmente ela pareceu não apenas entender o gesto como negar veemente segui-lo, mostrando isso agarrando meu braço com ainda mais força.
— Por favor, eu te imploro, me ajuda! Você precisa me dizer o que aconteceu, eu estava no meu dormitório, e de repente… — ela pausou sua fala, os olhos tão arregalados que já estavam me deixando em pânico. Ela parecia que iria surtar a qualquer momento.
A fila avançava, e ela não soltava o meu braço de forma alguma. Respirei fundo, tentando pensar rápido em como resolveria a situação. As pessoas ao meu redor riam e conversavam, não fazendo ideia do que estava acontecendo ali; mas se ela resolvesse pirar, eles iriam saber, de uma forma ou de outra. Ela agora cravava as unhas em minha pele, com uma força que eu sabia que era adquirida pelos mortos porque eles não eram mais… bem, humanos. Suas súplicas enchiam os meus ouvidos e mesmo minha comunicação pelo olhar não estavam adiantando.
— Agora não… — sussurrei o mais baixo que consegui, sem olhá-la, e agradeci por ninguém ter notado, tamanha era a falação do ambiente. Mas isso pareceu ter piorado a situação.
Vendo que eu realmente podia vê-la e ouvi-la, suas unhas cravaram tão fundo em minha pele que senti o sangue dar as caras e fui puxado como um boneco para o lado direito, bem onde havia pessoas com suas bandejas após pegarem a comida. O próximo cenário que vi foi minha roupa encharcada com o que parecia ser suco de laranja e meus joelhos batendo no chão, seguido de um grito agudo de uma garota que caiu à minha frente, com a mistura da comida que caiu sem dó em sua camisa e calça.
Todos os olhos presentes se viraram para a cena. estava estático, e vi em seu rosto que ele não sabia se ria ou se ajudava. Eu me sentia surpreso e ao mesmo tempo puto, e imediatamente virei os olhos para procurar a maldita que havia causado isso, mas ela havia desaparecido.
Senti um empurrão no meu peito e caí pro lado, voltando à realidade caótica.
— Você é maluco? — a garota à minha frente gritou, tentando se levantar sem escorregar nos restos de macarrão e torta de legumes destruídos — Você tem noção do que fez? Não acredito…
Ela bufava, indignada, e algumas garotas se aproximaram dela com guardanapos, todas olhando pra mim com um misto de choque e desprezo. Me levantei do chão rápido, torcendo pra que as pessoas seguissem suas vidas e esquecessem o show.
— Me desculpa, foi totalmente minha culpa — na verdade não foi — Eu te pago um outro almoço, como…
— Você é epilético? Como me atingiu dessa forma? Foi de propósito? — o tom de voz dela aumentava a cada pergunta, e suas bochechas estavam levemente vermelhas. Ótimo, tudo que eu precisava agora era de problemas com terceiros por causa dos mortos em plena universidade, o lugar onde eu havia feito todo o possível para ser uma zona quase intacta dos meus problemas extracurriculares.
— Claro que não! Eu já disse, eu sinto muito, eu posso te pagar o almoço, me deixa só…
— Não quero saber do seu dinheiro, imbecil. Tenho uma apresentação muito importante hoje e ela pode ter sido arruinada pela sua síndrome de Tourette. Portanto, se eu puder não te ver nunca mais na minha vida já é ganhar na loteria. Agora sai da minha frente.
Ela bateu no meu ombro ao sair e foi seguida por pelo menos três garotas, estas com olhares menos assassinos e posturas menos avantajadas. Fiquei em choque por pelo menos um segundo, até as funcionárias da limpeza me tirarem do local com comida destroçada por toda parte. Olhei em volta pela primeira vez e me senti como se estivesse nu, com tantos olhares direcionados a mim. Senti meu ombro sendo puxado em direção à saída e eu agradeci internamente, percebendo que minha fome já havia ido pro ralo àquela altura.

 



Capítulo 2 – Não use copos plásticos.
 

 

— Cara… o que foi aquilo? — perguntou quando chegamos ao banheiro do dormitório onde ele morava. Estava vazio, o que me deu a chance de arrancar a camisa e jogá-la na pia, bufando de tensão.
— Eu não sei, não foi de propósito… Acho que eu escorreguei.
— O que? Escorregou, tá doido? O chão estava tão limpo que eu poderia lambê-lo. Não tinha nada pra você escorregar.
É, só havia um fantasma.
— Eu não sei, acho que apenas me distraí — dei de ombros, torcendo para que esquecesse essa situação tão rápido como quanto aconteceu — Anda, me empresta uma camisa porque ainda tenho duas aulas depois do almoço.
— Cara, você tá legal? Não tá tomando nenhum desses remédios malucos pra ajudar na concentração, né? Essas coisas são perigosas, mano. E que negócio é esse no seu braço, tá sangrando…
— Até parece, não é nada, deve ter sido por causa da queda — dei uma risada e arranquei meu braço de sua vista enquanto abria o pequeno armário dele, pegando a primeira camisa preta que estava semi pendurada em um cabide — Estou perfeitamente saudável, foi apenas um pequeno acidente.
— Você tem ideia em quem resolveu causar um pequeno acidente? — ele perguntou e eu fiquei calado — Cara! Aquela era !
— Esse nome deveria significar alguma coisa pra mim?
— Já te falei dela algumas vezes, das vezes que vi ela e as amigas no Square’s, às vezes no Queens, do Jimin…
— Ah… Claro — O único momento em que não falava de mulheres era quando estava comendo ou jogando, então eu aceitei em meu íntimo que jamais gravaria qualquer uma delas porque havia seriamente coisas mais importantes a me preocupar — Espero que pelo menos ela esqueça disso tudo muito depressa.
— Eu torço por isso, cara. Essas pessoas do Jornalismo não são de esquecer algo fácil, lembro de uma garota que eu peguei do departamento…
Como um botão em meu corpo, apertei no desligar e deixei que as palavras de não fossem absorvidas pelo meu cérebro. De repente me lembrei do fantasma e de que ela me procuraria de novo. Isso era certo. Assim como sua roupa entregava que ela era aluna da Columbia e havia morrido há pouco tempo, a notícia se espalharia pelo campus mais cedo ou mais tarde. Dessa vez eu estaria preparado, e torcia para que seu problema fosse apenas uma carta ou um abraço. Terminei de vestir a camiseta de , limpei o que deu da minha mochila e fui para a aula.
As próximas três horas passaram voando, mesmo eu tendo que me concentrar mais que o normal para não pensar na aparição repentina que poderia acontecer. Era fim de tarde e os ventos de outono já começavam a ser sentidos, o que me lembrava do casaco que havia deixado no banco do carona. Sem poder adiar mais o problema, dispensei o professor de Histologia que insistia em comentar sobre minha última análise das lâminas da aula anterior e fui andando à passos largos para o estacionamento, que ficava em um grande pavilhão coberto na parte de trás da universidade.
O sol ficava cada vez mais apagado e as luzes do estacionamento ainda não estavam acesas, o que me garantia um momento a sós na escuridão que se formava. Havia estacionado meu Jeep Renegade atrás de uma pilastra e não havia outros carros por perto, pelo menos por enquanto. Fechei a porta do motorista ao entrar e esperei.
Dois minutos depois o ar pesou, gélido e macabro por dentro do veículo.
— Tá legal, quem diabos é você?
Ela parecia menos desesperada do que mais cedo, com os olhos menos perdidos, mas ainda confusa.
— Eu… Você está realmente me vendo? O que…
— Ok, vamos pular a parte óbvia da coisa. Eu te vejo, eu te sinto, como ficou bem claro mais cedo, e você está morta. O que posso fazer por você?
— Morta? Mas como… — seu rosto começou a enrugar-se em um choro — Como isso aconteceu? Eu estava apenas…
— Olha só, preciso que me conte exatamente o que se lembra. Ainda dá tempo de participar de uma confraternização no outro lado, então preciso que você se lembre porque ainda não foi pra lá.
Era nesses momentos que meu esforço ia na tentativa de juntar toda a compaixão e paciência que eu poderia reunir. A última coisa que eu queria era perder horas com um fantasma que não sabia, bem, que estava morto.
— Ash, ele apenas… Ele disse que as pílulas eram pra dormir, eu estava muito estressada com o projeto de finalização do curso, com o trabalho, então eu tomei. Acabei adormecendo, eu… Foi isso.
Os olhos dela eram vazios enquanto tentavam se lembrar de tudo.
— Quem é Ash?
— Um cara do departamento de ciências da saúde… Ele cursa Farmácia, eu acho. Não sei muita coisa sobre ele, e esse nem é seu nome verdadeiro. Estávamos saindo há duas semanas, ele me vendeu uns remédios pra dormir…
— Que remédios?
— Não consigo me lembrar, ele me entregou em uma caixa sem nome.
Revirei os olhos, prevendo o caminho que viria pela frente.
— Escuta, qual é o seu nome?
— Me chamo Margot. Margot Abbott.
— É o seguinte, Margot, eu sinto te dizer que você de fato morreu, e esses remédios que você tomou parecem ser a causa. Agora o que te falta saber para enfim atravessar o limbo…
— Mas eu nem tomei tantos assim. Ele me disse para tomar apenas três comprimidos, e que isso bastaria para que eu dormisse por um dia inteiro. Ele disse… — ela havia recomeçado a chorar, dessa vez mais alto — Eu confiei nele. Ele disse que não me faria mal.
Suspirei, cavando até o fundo dos meus sentimentos para tentar resolver aquela situação. Talvez não seria tão fácil quanto eu pensava.
— Tudo bem, o que você quer? Vingança? Podemos discutir os termos.
— O que? Não. Eu só… Estou confusa. Eu havia planejado tudo, meu emprego em Wall Street, meu apartamento em Manhattan, apresentar Ash pros meus pais…
— Ei, não é hora de pensar nessas coisas. Você precisa se concentrar para o que ainda está fazendo aqui, e o que precisa resolver para alcançar o tal paraíso, então precisa me ajudar. O que mais poderia prendê-la nesse mundo?
— Eu não sei. Eu passei a vida toda estudando e não fui a uma festa de fraternidade sequer. Fui beijada apenas uma vez no ensino fundamental e agora por Ash e nunca fiquei de porre, ainda sou virgem…
— Vai sonhando, garota! — falei mais alto do que pretendia e visualizei uma pessoa passando em silêncio alguns metros a frente do meu carro, e aquele olhar que me lançou com certeza confirmou que ela me achava maluco — Meu contrato não inclui participar de orgias ou reencenar American Pie, então eu sugiro que você pense melhor.
— Não é isso! Preciso achar o Ash, preciso saber o que tomei… Preciso saber como exatamente morri — ela suspirou, e balançou a cabeça como se sentisse dores — Ele é um cara popular, frequenta as festas e vende outros produtos. Tenho certeza de que não vai ser difícil encontrá-lo. Preciso saber se foi ele que me matou… — a voz dela falhou.
— Ei, ei, vamos com calma. Você parece ter morrido há pouco tempo, com certeza já estão sabendo da sua morte. Quanto à causa, autópsias servem pra isso. Tudo vai ser divulgado, Ash ficará sabendo. Estamos entendidos?
— Não — ela balançou a cabeça — Preciso saber o que era aquilo. Preciso saber se ele sabia o que estava me dando, só assim posso ficar tranquila.
Ela enterrou o rosto entre as mãos e os ombros se mexeram para recomeçar mais uma crise de choro. A luz forte do meu telefone piscou e vibrou com uma mensagem de , chegando uma após a outra. Para me distrair um pouco de Margot, li as mensagens que apareciam no visor: “Onde você está?”, “Estacionamento, não é?”, “NÃO OUSE TER IDO EMBORA SEM ME DAR CARONA”, “Me deixe na Park Avenue”, “TÁ AÍ????”, “VOCÊ NÃO ACREDITA NO QUE ACABEI DE SABER”…
Mesmo que eu não respondesse, estaria no estacionamento de um jeito ou de outro e isso significava que eu teria que me livrar de Margot naquele instante.
— Tudo bem, eu vou procurar esse tal de Ash e me certificar de saber o que ele te vendeu, e se sabia o que estava vendendo. Agora você precisa sumir do meu carro.
— Mas… Qual é o seu nome?
, muito prazer. Agora… — apontei para a porta do carona.
— ela repetiu meu nome e deu um sorriso pela primeira vez — Você parece ser um cara legal, . Eu confio em você pra me ajudar. E… Sinto muito pelo seu braço. Muito obrigada.
Ela evaporou na mesma hora que as luzes do estacionamento finalmente se acenderam e o topo da cabeça de surgiu no meio dos carros, correndo mais do que o normal.
Não demorou para que ele me avistasse já que eu normalmente estacionava no mesmo lugar. Ele entrou ofegante, com as mãos no peito, e abriu a janela.
— Cara… tem um cigarro?
— O que aconteceu? O prédio não é tão longe — respondi enquanto fuçava meu porta luvas e tirava um maço, entregando-o em seguida — Você precisa parar de fumar.
— Como você conseguiu parar? — ele respondeu enquanto pegava um isqueiro no bolso da frente da mochila.
— Não parei — dei de ombros, acendendo um maço e tragando logo em seguida. A nicotina tirava todo meu estresse recém passado com Margot.
voltou a falar depois de respirar algumas vezes.
— Cara, você não vai acreditar. Uma garota foi encontrada morta no dormitório feminino, parece que ela morreu hoje, um pouco antes do almoço. Está uma loucura lá dentro…
— É mesmo? Quem é a garota? — tentei reunir todo o interesse que podia fingir.
— Uma tal de Margot, ela cursava Direito… Cara, você tinha que ouvir o que disseram sobre como ela estava. Um horror. Parece que ela teve uma overdose, então tem vômito pra todo lado, ela está roxa, os olhos estavam abertos — ele tremeu por uns instantes — Um filme de terror. Nem imagino como a pessoa que a encontrou ficou…
— Uma overdose? — perguntei, tentando acumular o máximo de informações possíveis — Eles disseram que foi isso?
— Ah, eles ainda não sabem de nada, a ambulância acabou de buscar o corpo. Eles devem examiná-la no Hospital Universitário, a universidade fez questão de não causar alarde enquanto eles resolviam isso. Mas já é um dos assuntos mais comentados do twitter, também publicaram no fórum…
Enquanto falava, eu tentava encaixar as peças. Provavelmente Margot havia tomado os remédios na noite de ontem e morreu um pouco antes do almoço, e as pessoas alegavam que parecia ter sido overdose, mas ela não havia tomado pílulas o suficiente para isso. Tentei expulsar da minha mente o quanto tudo aquilo parecia estranho e pensar apenas em bolar uma trilha onde eu encontrava com Ash e o fazia me falar de alguma forma se sabia que o produto que havia vendido para Margot podia matá-la. Não que perguntar de frente resolveria alguma coisa, no mínimo ele me acharia maluco. Tentaria pensar em algo assim que possível.
Deixei na Park Avenue, a umas quadras da onde uma tal Emma morava, não fazendo qualquer esforço para lembrar de mais informação do que isso. dizia estar muito apavorado para voltar ao dormitório naquela noite. Se ele soubesse que eu havia sido informado do incidente pela própria vítima, ele estaria mais traumatizado.
Minha rua estava calma e quieta naquela noite, o que era comum numa quinta considerando que eu morava em uma área residencial sem muitos universitários. A vida badalada de NY começava cedo, e, mesmo sem eu ter conhecimento do cronograma geral da cidade, teria de dar um jeito de me enturmar, mesmo que temporariamente, para achar Ash.
Mesmo na era digital, é difícil achar uma pessoa que é conhecida sob um nome falso. Margot não havia me dado muitos detalhes sobre o cara, e eu não tinha qualquer interesse em encontrá-la antes de obter a informação que ela desejava. Poderia perguntar ao , mas eu tinha grande receio por sua boca ser maior do que o próprio rosto, e pretendia levar esse caso com a máxima discrição possível.
Ao chegar em casa, limpei o pequeno ferimento em forma de pequenas luas vindas das unhas de Margot no meu braço e tomei um banho. Entrei no fórum pela primeira vez e me informei sobre o caso daquela tarde, mas não havia nada de muito relevante; ela tinha sido encontrada pela colega de quarto, uma garota chamada Naomi Bailey que cursava Arquitetura. A única foto publicada era do corpo de Margot envolto em um saco preto e uma enorme faixa amarela atravessando a porta do dormitório. No final da matéria, havia um comunicado que dizia que a autópsia só ocorreria depois de uma autorização por escrito dos pais de Margot, que haviam sido avisados imediatamente e iriam tentar se deslocar o mais rápido possível à NY. Isso poderia atrasar ainda mais os meus planos de me livrar dela, por isso as soluções que me surgiam não eram nada confortáveis.

***
A Columbia University regia um jornal que era administrado pelos próprios alunos e ficava localizado no departamento de Jornalismo. Prezando pela abolição das notícias em papel e consequentemente a preservação das florestas, eles mantinham um site bem informativo e claro, que também chamavam de fórum. Lá estavam todas as informações sobre a Columbia e fatos importantes que aconteciam por lá, como eventos, congressos, simpósios e, claro, o top 5 dos alunos. Cada aluno tinha seu próprio login e funcionava como uma rede social, porém restrito apenas aos alunos da universidade e com postagens feitas apenas pelos funcionários do jornal. Se existe um lugar onde você poderia achar tudo sobre algum aluno da Columbia, esse lugar era o Citizen Co.
Claro que eu não esperava conseguir informações sobre Ash de uma forma tão descaradamente errada, mas esperava que alguma ideia aflorasse. Eu já havia visitado o Citizen algumas vezes, quando meus artigos precisavam de alguma correção e eu tinha que me deslocar até a sala do professor responsável pela gestão do jornal, o Sr. Miller. Hoje eu iria submetê-lo a uma análise do novo artigo que eu havia preparado ontem, mas minha maior preocupação se ele iria publicá-lo ou não, agora não me incomodava tanto.
Chegar ao Citizen significava estacionar em um espaço apertado e atarracado de bikes e motocicletas. Ele ficava localizado próximo ao prédio das exatas, que era enorme e havia uma quantidade absurda de pessoas correndo. Os jornalistas em formação não eram diferentes.
O prédio era um dos menores, mas era bem estruturado e limpo. As paredes estavam com a pintura em dia e, pela janela de vidro onde se podia ver o escritório, os equipamentos eram bem modernos e atendiam às demandas. O Citizen era uma referência no ramo de jornais universitários sem fins lucrativos pelo país. Pelo menos uns dez alunos ali presentes seriam os próximos âncoras da CNN e editores chefes do New York Times.
A porta branca no final do corredor estava fechada, mas visualizei a correria das pessoas pela janela de vidro ao lado da porta. Elas atendiam telefonemas, digitavam, gritavam umas com as outras de uma ponta à outra da sala, o que fez com que absolutamente ninguém me notasse assim que entrei. Virei à direita e segui para a porta com o nome “Prof. Dr. Jonah Miller” e bati duas vezes, ouvindo um “entre” em seguida.
— Senhor ! — ele tirou os óculos e se levantou da cadeira com um grande sorriso.
— Bom dia, professor, como vai? — apertamos as mãos e ele apontou para a cadeira à sua frente. Sua mesa estava tão abarrotada que eu fiquei em dúvida se ele podia realmente me ver.
— O que o traz aqui tão cedo, meu jovem? Ainda não trouxeram o meu café, estamos um pouco apertados hoje, mas aceita uma água, um chá…
— Não, professor, tudo bem. O prof. Dalton me pediu pra escrever mais um artigo, eu o terminei ontem, então eu vim trazer para o senhor dar os toques finais nele — tirei a pasta da mochila e a coloquei em cima da mesa.
— Ah, o artigo sobre saúde pública, claro… Dalton me informou ontem — ele voltou a colocar os óculos e passou os olhos por cima do papel — Muito bem, muito bem… Farei os preparativos, é claro. Mas infelizmente creio que ele não poderá ser publicado hoje, meu caro. Você está sabendo do que aconteceu em nosso campus ontem? — ele baixou os óculos até o meio do nariz e me observou.
— Ah, claro… A garota. Eu fiquei sabendo.
— Pois é, pois é, uma tragédia — ele suspirou — Por esse motivo nossa equipe está trabalhando dobrado hoje, praticamente todos deixaram os assuntos secundários de lado e estão se concentrando apenas no caso da Abbott. A CNN veio aqui e foi uma dor de cabeça mandá-los embora, então estamos bem atarefados. Mas pode deixar que a publicação do artigo não passará muito do prazo.
— Não se preocupe com isso, senhor — eu dei um sorriso leve — Tudo vai se resolver, eles pegarão o culpado…
— Culpado? Não há culpado, meu jovem — ele soltou uma risada divertida, como se gostasse do fato de ter de explicar o caso pra mim — Isso é um caso claro de suícidio, oh meu Deus, encontraram a pobre garota sufocada no próprio vômito. Não me espanta os pais estarem enrolando para virem reconhecer o corpo, e não duvido que não vão sequer autorizar uma autópia. Céus, o uso de drogas entre os estudantes têm aumentado significamente nos últimos anos, seria uma ótima sugestão se o prof. Dalton lhe pedisse para escrever sobre isso, os riscos são sérios…
O sr. Miller tagarelou por mais alguns minutos enquanto eu balançava a cabeça e concordava. Jogar pra cima dele como se eu mal tivesse lido sobre o caso foi uma boa, já que ele não se incomodava em mostrar serviço. Aquilo era uma das confirmações que eu tinha que coletar para resolver aquele caso: a autópsia não sairia tão rápido como eu pensava, e eu não podia esperar tanto com um fantasma atrás de mim.
Após um breve bate papo sobre minhas notas e minha futura residência no hospital universitário, me despedi do sr. Miller e me preparei para sair da sala dele. O barulho havia aumentado no pequeno espaço do escritório e o telefone não parecia parar por um minuto. Fechei a porta atrás de mim e avistei um bebedouro ao lado, e percebi como minha garganta estava seca. Havia uma placa acima do galão escrita com letras em caps lock e negrito: “NÃO USE COPOS PLÁSTICOS, TRAGA SUA PRÓPRIA CANECA”. Infelizmente, eu teria de beber água em outro prédio.
Como se tivesse brotado de alguma parede divisória do ambiente, uma pessoa passou andando a passos largos ao meu lado enquanto eu saía da frente do bebedouro. O esbarrão foi tão intenso que eu vi papeis voarem e meu braço tentar segurar em algo antes que eu atingisse o chão, e infelizmente esse algo foi o galão cheio de água que me deu um banho e na pessoa que constatei ter caído exatamente em cima de mim.
Antes de mais nada, dessa vez fantasmas não tiveram nada a ver com isso. A pessoa que estava em cima de mim era humana e uma garota com uma expressão tão estupefata quanto a minha. Seu cabelo estava meio molhado meio seco, e seus olhos estavam cravados nos meus. O barulho do telefone no ambiente continuava, mas as conversas cessaram, o que demonstrava que todos estavam olhando pra nós. Espera, esta não é…
Tarde demais. Ela pareceu ter se lembrado no mesmo momento que eu e toda a situação caótica do refeitório veio à minha mente.
— Não acredito! — ela bufou, saindo de cima do meu peito como se quisesse que eu atravessasse o chão. Minha cabeça doeu com o que estava por vir — Como é possível que até aqui você decide arruinar o meu dia? O que está fazendo aqui, afinal?
— Olha, você deveria olhar pra onde anda — eu disse enquanto tentava salvar os papeis menos encharcados do chão.
— EU deveria olhar por onde ando assim como olhei ontem? Me dá licença — ela arrancou os papeis da minha mão e olhou pra mim — Você tem ideia do trabalho que foi escrever e corrigir esses depoimentos? Tem ideia do tamanho de tarefas que temos que fazer hoje? Mas é claro que não, você deve ser algum aluno turista que está aqui pra pedir alguma revisão de trabalho mal feito ao sr. Miller, e eu já vou te avisando que pessoas como você não são o tipo dele, o seu empenho precisa ser mais…
— Mas o que está acontecendo aqui? — o sr. Miller abriu a porta, olhando para mim e garota — , por que está brigando com o rapaz?
— Professor, esse cara causou o maior estrago nos depoimentos que eu havia coletado sobre a ação da polícia, eu iria levá-las à edição, e aí…
O sr. Miller levantou a mão direita e se calou na mesma hora. As bochechas dela estavam vermelhas e ela lançava olhares de desprezo em minha direção. Agora eu percebia como a água que havia caído sobre nós estava gelada e ela estava sem nenhum casaco.
O sr. Miller se virou para mim e para ela simultanemanente.
— Não discutam aqui, há muito trabalho a ser feito. Sei que o sr. não fez de propósito, inclusive ele estava de saída — ele deu umas batidinhas no meu ombro — Quanto à você, srta. , pode se ocupar com uma nova tarefa que lhe darei agora — O prof. Miller entrou na sala tão rápido quanto saiu e trouxe uma pasta consigo — Digitalize, edite e faça todo o processo de publicação do artigo deste jovem, que foi o que ele veio fazer aqui hoje, caso responda às suas dúvidas sobre a presença dele aqui.
olhou de mim para o professor e pegou a pasta, passando o olho rápido sobre o conteúdo.
— Você… é o ?
— O próprio — o sr. Miller respondeu — Agora se me dão licença, preciso atender à milhares de chamadas e e-mails de emissoras sem mais o que fazer querendo nos importunar por informações que ainda nem temos — ele suspirou e se virou para os demais que ainda nos observavam — E vocês aí! Voltem ao trabalho, ou vão levar pontos de demérito! , tenho certeza que pode resolver o assunto do sr. e voltar ao que estava fazendo antes, confio em você, é uma das melhores graduandas que temos. Agora chame a moça da limpeza para dar um jeito nessa bagunça. Mil perdões por todo esse incômodo, sr. . Volte em segurança pro departamento — ele deu um sorriso caloros em minha direção e em seguida entrou para sua sala.
A expressão de era um misto de choque e desgosto. Estava claro que era a primeira vez que ela via o sr. Miller falar com alguém daquela forma.
— Então… Você está bem?
— Você pode sair, por favor? Preciso chamar o serviço de limpeza e você está no caminho. Pode deixar que seu artigo será publicado assim que possível.
Ela deu as costas e desapareceu por outra sala, me deixando à vista de alguns outros remanescentes que ainda observavam a cena. Não demorou muito para que eu retornasse do meu estado estático e seguisse pra porta de saída, farto de mais uma confusão com terceiros em um tempo de recorde, o que era inédito pra mim. Geralmente eu entrava em situações constrangedoras e problemáticas apenas com os mortos.
Na saída do prédio, comecei a pensar que teria que recorrer ao mais uma vez no dormitório para trocar minhas roupas. O mesmo casaco que eu havia esquecido ontem estava no mesmo lugar no banco do carona, e de repente quis pegá-lo e oferecê-lo à tal , mas a ideia passou tão rápido quanto veio. Também porque minha atenção foi presa a outra coisa.
Em um mural de madeira na parede ao lado da porta de vidro da entrada, estavam colados cartazes e panfletos. Havia divulgação de eventos jornalísticos, como congressos e visitas técnicas, mas havia um cartaz colorido e maior do que todos com os dizeres: “FESTA NA GIBBON’S! VENHA E TRAGA MAIS UM & A CERVEJA! SEXTA 20H!”.
A ideia mais desequilibrada passou pela minha cabeça. Me lembrei das palavras de Margot, que eu encontraria Ash em todas as festas da universidade e onde as pessoas geralmente se reuniam. Sem acreditar no que eu estava prestes a fazer, entrei no carro e liguei para .

 


Capítulo 3: Qual é o segredo?
 

 

Eu estava realmente preocupado que não conseguisse encontrar a biblioteca nem mesmo com o Google Maps. Sua demora demonstrava isso, e seu histórico de ser um dos poucos alunos que ainda não havia pisado na biblioteca também.
Depois de meia hora, vi ele entrar meio perdido pela porta da frente e olhar para os lados. Acenei do fundo do salão e ele foi se aproximando mais rápido à medida que me viu.
— E aí, cara? O que houve? — falou especialmente alto enquanto afastava a cadeira à minha frente e recebemos a primeira advertência das pessoas com um “shh” bem agressivo e eu me perguntei porque diabos havia marcado de encontrar com logo em uma biblioteca — Foi mal — ele sussurrou para nossos vizinhos mais à frente — Galera bem nervosinha…
— O pessoal da computação não costuma visitar esse espaço da universidade, não é mesmo?
— Ei, esse negócio de livros é coisa do passado, isso aqui é mórbido, cara — ele olhou em volta com uma expressão de desprezo — Mas e aí, o que tá pegando? Tá quase na hora do almoço, quer ir ao Amadeus? O cardápio de hoje não está dos melhores… Ei, cara, sua roupa…
— Vamos sair na sexta à noite.
piscou duas vezes.
— O que?
Abri o banner de divulgação da festa que havia visto mais cedo no prédio do Citizen no computador e virei para .
— A festa no Gibbon’s? Cara, essa é uma das maiores fraternidades do lado leste! Não acredito — ele soltou uma risada, o que nos rendeu uma segunda advertência — Foi mal — ele sussurrou mais uma vez, mas não parou de sorrir — Você tá legal, ? Por que de repente você quer virar um universitário?
— Não sei, de repente quero ir nessa — dei de ombros, agindo com indiferença — Vai dar bastante gente?
— Oh, pode apostar que sim! A festa no Gibbon’s não decepciona nunca, e dessa vez eu posso ir sem os fracassados do meu departamento. Cara, preciso postar isso… — ele pegou o celular e começou a digitar sem fim.
— Não precisa publicar qualquer coisinha, infeliz digital. Que exagero…
— Não é qualquer coisinha! Olha a situação, vai à uma festa, meus amigos! Finalmente vai dar às caras!
— Prefiro que você pare de falar como se fosse um grande evento. E é claro, não poste nada! Já ouviu falar em invasão de privacidade?
— Você sabe o que é, grande gênio? Não se faça de inocente, você é a celebridade sem rosto, o seu nome é o primeiro no fórum, se liga! E o melhor de tudo: as pessoas não vão se decepcionar quando te virem, com certeza — ele soltou mais uma risada enquanto digitava.
— Mas o que… — franzi as sobrancelhas, surpreso com as informações.
parou de digitar e olhou pra mim, arregalando os olhos ao ver que eu estava realmente confuso com tudo que ele estava despejando pra cima de mim. Eu achei que era apenas uma festa.
— Cara, tá falando sério? — ele suspirou — Você não pode esperar que as pessoas vão passar batido pelo aluno número um. Elas vão se surpreender em saber que você não é um nerd esquisito acneico, na verdade, você não é tão desagradável de se olhar, as garotas vão cair pra cima de você, então pode se preparar. Talvez sobre algumas pra mim…
— Esse não é exatamente meu objetivo…
— Isso não importa, meu amigo, apenas vai acontecer.
— Se você diz — dei de ombros, e fechei meu computador — Agora, vamos almoçar. E, sim, vamos no Amadeus.
deu um gritinho animado, o que fez com que recebêssemos a última advertência antes de sairmos da biblioteca.

***
É complicado quando um suicídio acontece no seu campus. A pessoa e seus possíveis motivos viram o assunto número um no final da aula, nas refeições, nos laboratórios, corredores, em tudo. O caso de Margot não havia ganhado proporção nacional — afinal, ninguém estava interessado em uma garota que havia se matado por “não aguentar a pressão”. Pelo menos foi isso que a mãe dela havia dito em uma entrevista ao Citizen, como bem foi publicado e disseminado pela cidade inteira. Os pais de Margot realmente negaram a autópsia, disseram que não queriam mais viver aquele pesadelo. Haviam flores e velas acesas na entrada de seu quarto no dormitório feminino, e também em seu armário. O departamento de Direito havia feito uma homenagem à aluna formanda e o reitor havia dado uma palestra sobre saúde mental e os perigos dos narcóticos.
Não conversei com Margot desde o nosso trato do carro. De vez em quando eu a via vagando pelos corredores, olhando as pessoas que colocavam suas flores e às vezes sentada na biblioteca. Eu não fingia mais que ela não existia — sabia que ela estava ali, e sabia que ela sabia; eu só não queria ser cobrado pelo nosso acordo, e desde que mostrei o cartaz da festa de sexta pra ela, ela pareceu ficar mais tranquila. Com tudo isso, foi uma semana bem agitada. Pelo menos até na quinta feira. Na sexta, todos só falavam em uma coisa.
Nunca havia me arrumado para uma festa na vida. Na verdade, eu sempre fui mais do tipo caseiro que sai pra comer de vez em quando com os amigos, tirando a parte do plural porque só havia feito isso com e meus pais. Eu gostava de visitar lugares novos, e principalmente recém construídos, lugares onde eu tinha certeza que ninguém havia morrido e deixado algo para trás. Construções antigas eram o lugar que eu mais evitava na vida — geralmente costumavam ser um antro de reuniões de fantasmas sem fim. Então vocês podem imaginar como fiquei quando soube que a Gibbons ficava em uma antiga propriedade do século XVIII restaurada e magnífica.
O quintal da frente estava infestado de pessoas chegando e carros estacionados nas ruas cogestionavam o pequeno trânsito. Parei o Jeep a uma quadra de distância, torcendo para que o efeito do álcool não acionasse o vandalismo de ninguém naquele dia.
— Como eu esperava! — disse fora do carro — Hoje vai ser épico!
Dei uma risada enquanto pegava meu casaco no banco de trás, e olhou pra mim.
— O que está fazendo?!
— Pegando meu casaco? — respondi — Estamos às portas do inverno, caso você não tenha percebido…
— Tá maluco? — ele se aproximou e devolveu meu casaco ao carro — Lá dentro vai estar um forno, , eu te garanto. Vai ser QUENTE — ele soletrou a palavra lentamente — Deixa alguém além do seu espelho ver um pouco mais desse corpo, tá legal? Levanta as mangas dessa camisa assim, desse jeito, deixa as garotas olharem essas tatuagens legais também, e dá um sorriso que me convença. Agora vamos nessa.
Ele puxou meu braço para andarmos mais rápido. Cada vez mais perto da enorme porta dupla de madeira na entrada, os ombros já começavam a se esbarrar e nós tínhamos que nos apertar um pouco para entrar. Finalmente lá dentro, percebi que estava certo quando frisou que estaria quente. O vento gélido lá de fora não conseguia penetrar e ganhar força com tanta gente se esbarrando e literalmente se esfregando, dançando com o som altíssimo que tornava os gritos de quase inaudíveis e garotas com os seios de fora em cima de mesas. Em menos de cinco minutos já haviam colocado um copo de plástico vermelho na minha mão e de , com um líquido estranho dentro.
— Manda ver, ! — gritou em meio ao som, e em seguida fez uma contagem com os dedos até três e eu havia entendido o recado. O líquido desceu rasgando a garganta, quente e forte, de uma só vez. Minha intuição dizia que era melhor não saber o que acabei de tomar.
disse que precisávamos de mais bebidas, e exigiu que fôssemos à cozinha, que estava apinhada de gente que aparentemente haviam pensado o mesmo que nós. Haviam vasos e recipientes térmicos espalhados por toda parte, que continham vários tipos de cervejas e vodcas. pegou duas Budweiser dentro de uma das bolsas ao lado da pia e entregou uma pra mim, junto com um cigarro, que também aceitei.
estava muito animado. Desde o ensino médio, eu já havia visto todos os seus lados possíveis, mas sabia como ele era o típico cara que tenta se enturmar e nem sempre consegue. Ele vestia um jeans claro e uma camiseta branca, junto com uma jaqueta bomber ridiculamente estampada que eu particularmente não me atreveria a usar. Ele olhava cada garota minuciosamente que passava e tentava puxar assunto, nem sempre dando certo.
Depois de uma hora naquele lugar, eu decidi que era o momento de colocar meu objetivo em prática: achar Ash. Todas as formas que eu havia pensado eram no mínimo estranhas e eu não podia fazê-las sozinho. Infelizmente eu teria de fazer a última coisa que eu queria: falar com as pessoas.
Subitamente, saiu do meu lado e se meteu em uma roda de garotas a alguns metros de nós. Ele já havia bebido o bastante para começar a passar vergonha, mas eu não ia julgá-lo — era ótimo que ele estivesse distraído. Precisava pensar em resolver o meu problema, e me mandar daqui o mais rápido possível.
Comecei a olhar em volta. Depois que chegamos, eu e perambulamos um pouco dentro da fraternidade, e agora estávamos em um cômodo amplo entre o jardim com a piscina e a cozinha de inox, agora com menos pessoas, depois de as bolsas térmicas serem distribuídas pela casa. À esquerda do cômodo, havia uma imensa escada que levava a um segundo andar, onde havia pessoas conversando e casais se beijando por toda parte, e alguns terminavam de subi-la, o que imaginei ser o andar de quartos. A luz estava baixa, com as lâmpadas de led giratórias despejando feixes coloridos por toda parte, o que diminuía meu campo de visão.
Eu estava parado no meio de toda aquela gente, ainda com uma longneck na mão e tragando um cigarro, pensando por que diabos os mortos me forçavam àquilo quando voltei a olhar e procurar por , e acabei olhando mais adiante, para a cozinha. Ela estava parada junto das mesmas garotas do refeitório, com o quadril encostado na bancada e um copo vermelho na mão, sorrindo pela primeira vez. Pareceu virar a cabeça na mesma hora que eu, e olhou na minha direção.
Mesmo com pouca luz, pude ver seu sorriso sumir, e por algum motivo inexplicável não consegui me desfazer desse instante. Continuei olhando-a, como se quanto mais eu fizesse isso, talvez ela voltasse a sorrir como antes. Ou talvez eu torcia para que ela simplesmente virasse o rosto e esquecesse que eu estava ali.
No entanto, não consegui ver sua próxima reação, pois fui abordado por e mais ou menos umas cinco garotas, que me rodearam como predadoras, todas elas sorrindo admiradas pra mim.
— E aí, , adivinha só: eu contei pra essas gatas que tinha vindo com meu melhor amigo, o próprio JungkookJeon, e elas não acreditaram — ele balançou a cabeça como se fosse um absurdo — Aí eu vim te mostrar pra elas…
Uma das garotas deu um empurrão de leve em para que ficasse na minha frente. Ela tinha um cabelo loiro longo e liso e usava um batom vermelho.
— Olá, sr.)— ela tinha um grande e sedutor sorriso no rosto, e elas se amontoaram imediatamente em mim — Eu e minhas amigas estamos no segundo ano de medicina e confesso que você sempre foi minha inspiração. Você poderia nos dar umas dicas, falar sobre o estágio...
As palavras seguintes dela foram parcialmente ouvidas graças ao aumento súbito do som, que já estava absurdo. Tentei dialogar por alguns minutos, mas, vendo que era uma missão quase impossível, as garotas nos puxaram para um local mais afastado do meio do salão, no jardim, onde estava concentrado uma menor quantidade de pessoas do que lá dentro. Também estava mais frio, o que explicava.
Eu geralmente sou um ótimo observador. Também pudera, era quase uma profissão prestar atenção redobrada em todos os lugares que eu pisava, sempre me preparando para alguma abordagem inesperada. Isso me fez ser bom em observar as pessoas e suas intenções — isso não era muito, mas me fazia entender completamente o motivo das vinganças que eu precisava inflingir aos outros por causa dos mortos —, e com toda certeza a garota loira já havia ultrapassado o limite das chamadas segundas intenções. E como eu precisava reunir toda minha compaixão e consideração para serem usadas nos mortos, não sobrava muito na hora de lidar com os vivos.
Por causa disso, eu não hesitei em treinar minhas melhores expressões para demonstrar interesse em tudo que vinha daquela garota. Nós nos sentamos mais afastados de e das outras garotas que, por incrível que pareça, estava conseguindo distraí-las muito bem — ou elas já haviam aceitado que a amiga havia levado a melhor.
Fiz o meu melhor para encarar bem a situação onde ela tagarelava sobre qualquer coisa de seus interesses pessoais — sempre me ligando à eles — enquanto a própria dava um jeito nada discreto de me apalpar onde conseguisse enxergar na luz fraca. Senti ela chegando cada vez mais perto de mim na espreguiçadeira à beira da piscina, e com certeza qualquer coisa que envolvesse me atracar com uma garota desconhecida não estava nos meus planos.
— Então... Becca — sorri aliviado ao me lembrar do nome — A sua história sobre o experimento de difusão simples na célula foi incrível. Deve ter sido muito trabalhoso, estou realmente impressionado.
— Jura? É uma honra de verdade escutar isso vindo de você, visto que eu peguei a ideia de um artigo seu, que por sinal foi um dos melhores até hoje, o jeito como você explicou sobre a osmose, e as aqu... — mais uma mão acariciava meus braços sem permissão.
— Mas então... — eu limpei a garganta e tentei novamente me afastar — Deve ter sido difícil esse processo de preparação do experimento, para apresentar também, sei bem como a Prof. Fitz pode ser rígida. Devem ter sido várias noites sem dormir, bastante pressão...
— Ah, realmente foi. Quase pensei em desistir do curso — ela riu sem graça — Nunca fiquei tão exausta em toda a minha vida. Mas dei um jeito e fiquei ligada por dois dias e deu tudo certo no projeto.
— Sério? Que malandragem foi essa? — sorri brincalhão e ela retribuiu.
— É um segredo, não precisamos falar disso, queria te contar sobre o que a Dra. Sekli disse sobre o anatômico assim que entrei...
— Qual é o segredo? — tornei meu tom de voz mais firme e me aproximei um pouco mais dela. Tive o resultado esperado e ela cedeu um pouco mais — As pessoas pensam que os gênios não se cansam, mas eu ando bem exausto esses dias com a residência se aproximando e meio departamento me pressionando com formulários — dei um riso seco e irônico e me aproximei mais dela — E aí? Não mereço descansar um pouquinho também?
O peito dela desceu e subiu em uma respiração funda e controlada. Estava na cara que ela pensava inicialmente em não me contar, mas não conseguia resistir em fazer o que eu pedia — também porque minha expressão dizia que ela receberia algo em troca por aquilo.
— Comprei uns remédios com um cara do campus. Ele vende várias coisas, pra várias finalidades, mas eles são... bem, ilegais. Não sei onde ele consegue as coisas, mas muita gente consome.
— Hmm — balbuciei, quase como se não estivesse interessado — E qual é o nome desse cara? Onde eu posso encontrá-lo?
— Bem... Acho que o nome dele é Ash. Mas fiquei sabendo que esse não é seu nome verdadeiro. Entrei em contato com ele por um e-mail que uma amiga minha passou, dizem que você só se comunica com ele por lá. Mas como eu disse, essa é uma medida impopular, com certeza você não precisa disso...
— Na verdade, preciso — tentei ao máximo fazer uma expressão abatida que a fizesse se conectar a mim — Como eu disse, a pressão está sendo assombrosa pro meu lado. E eu sou um cara que não gosta de decepcionar ninguém, se é que você me entende...
— Claro! Como entendo! Eu imagino o que você deve passar pra ser o número um e...
— Por isso eu preciso urgentemente desse e-mail. Você pode me arrumar?
A garota hesitou, mas eu sorri, e estupidamente esse foi o gatilho para que ela tirasse uma caneta da bolsa, o que achei bem estranho, e escrevesse as curtas palavras na palma da minha mão, olhando para os lados, como se o ato fosse proibido.
— É só mandar e aguardar a resposta dele — ela diminuiu o tom de voz — Ele vai te dizer onde encontrá-lo.
— Uau, Becca. Nem sei como te agradecer — dei um sorriso animado e vi um olhar clemente no rosto dela — Você acabou de me salvar. Vou te recompensar com uma bebida...
— Só uma bebida? — ela pegou na minha mão e descaradamente se aproximou até o seu rosto ficar a centímetros perto do meu. Tentando disfaçar meu desconforto, passei os dedos na sua bochecha enquanto sussurrei:
— Ei, gata... Você sabe que acabamos de compartilhar um segredo aqui, não sabe? Não quero as pessoas comentando sobre assuntos triviais da minha vida, você entende, não é? — ela balançou a cabeça tão rápido que quase perguntei se estava tonta — Eu agradeço muito pela sua consideração, e por isso eu espero te encontrar aqui depois de buscar as bebidas... — ela acenou mais uma vez e me vi obrigado a dar um beijo no rosto dela, sendo básico e não ultrapassando o limite pois estava realmente agradecido. Ela me acompanhou com os olhos enquanto eu levantava e não disse mais nenhuma palavra — talvez não conseguisse.
Eu era um ótimo mentiroso. Qual é, eu vejo fantasmas! Precisei inventar desculpas a vida toda pra não ser internado em um manicômio e fazer meus pais acreditarem que eu era o cara mais desastrado do mundo para explicar meus machucados e até minha rebeldia. Eu consigo fingir interesse em uma garota que acabei de conhecer, apesar de que não estava acostumado a me prestar àquilo. Assim que me afastei de Becca, mandei uma mensagem para avisando da minha partida e que ele teria que voltar de táxi — ou qualquer outro meio de locomoção que ele poderia arrumar. Eu não podia perder tempo de forma alguma.
Consegui achar a porta da casa com algum custo, visto que parecia que o número de pessoas haviam duplicado desde a hora que eu cheguei. Senti uns olhares pra cima de mim à medida que eu andava, mas resolvi pensar que era impressão minha. Já deviam ser duas da manhã e a temperatura lá fora havia caído bastante. Andei até o Jeep e fiquei aliviado por encontrá-lo são e salvo — porém com um empecilho.
Por algum motivo que jamais vou entender, uma grande SUV preta estava parada bem na frente da porta do motorista do meu Jeep, bloqueando não só a minha entrada mas também grande parte da rua. Não que alguém fosse se queixar àquela altura, visto que eu era o único a sair da festa enquanto ainda haviam pessoas chegando. Mas com aquele carro naquela posição eu não conseguiria ir embora nunca, visto que já tinham carros estacionados à minha frente e trás.
O mais embaraçoso foi quando percebi, ao chegar mais perto, que havia um casal engolindo um ao outro encostados na porta do carona da SUV, ficando entre o Jeep e o carro ao lado, impossibilitando ainda mais a minha passagem. A garota estava encostada com as costas no vidro da janela com o vestido há muitos centímetros acima do joelho e pelo jeito que o cara a beijava me faz questão de repetir o termo "engolir".
Limpei a garganta duas vezes antes que eles parassem e olhassem pra mim. Para completar o constrangimento, a garota era ninguém menos do que , que quando me viu também deve ter se constrangido, principalmente porque suas bochechas ficaram vermelhas e sua armadura não estava presente.
— E aí, amigo — o cara disse, e sua voz embargada denunciava a sua embriaguez — Alguma coisa interessante pra você aqui?
— O carro é seu? — apontei com a cabeça para a SUV. Ele acenou com a cabeça — Pode por gentileza me dar espaço pra sair? — agora gesticulei para o Jeep.
Ele olhou de mim para o Jeep, e em seguida para a SUV, como se as engrenagens em seu cérebro ainda estivessem rodando. Foi então que ele largou e se aproximou de mim.
— Isso precisa ser agora? Eu estou no meio de uma coisa aqui...
— Nós já vamos — falou, pegando na mão do cara — Vamos, , me dê as chaves...
— Que chaves! — ele soltou a mão de de forma abrupta, fazendo a garota dar um passo pra trás — Vem cá, cara, você não acha que tá indo embora muito cedo, não? Fica aí e curte mais um pouquinho, você é calouro, não é? Esse é seu momento, você pode...
— Você pode dar um jeito no seu namorado? — falei ríspido, sem olhar pra ela — Eu estou com um pouco de pressa aqui.
...
— Amigo, como você fala assim com a garota dos outros? Quem você...
— JIMIN!
O grito dela me fez olhá-la. Ela não parecia mais constrangida por eu tê-la pegado aos beijos com esse cara, mas parecia estranhamente desconfortável com a situação — como se estivesse amedrontada com o grito que acabou de dar.
— Vamos embora, a gente pode ir pra sua casa. Que tal?
A frase fez com que o cara desviasse os olhos de mim e lançasse um olhar malicioso pra . Por mais que ela tenha usado o tom de voz mais sedutor que pode, seu olhar entregava que aquela era só mais uma estratégia pra arrastar dali — e no estado que estava, ele jamais perceberia isso.
Finalmente, ele deu uma risada que particularmente comparei à uma gralha e, sem mais nem menos, deu um tapa na bunda de seguido por um beijo no rosto e caminhou até a porta do motorista da SUV. ficou parada por uns segundos ainda, tentando fugir do meu olhar mas no final acabou me encarando. Um sentimento muito estranho surgiu no meu estômago e não entendi porque de repente eu quis socar o cara chamado .
Antes de entrar no carro, ela olhou nos meus olhos de novo por um breve segundo e vi algo difícil de explicar. Um vulto preto, sem forma, sem rosto, apenas... uma sombra. Estava parado atrás de , quase colado, espreitando-a. Ouvi o som do motor ligando e o carro se afastando, enquanto meus olhos ainda estavam pregados naquela coisa, que sumiu tão rápido quanto apareceu. O que era aquilo? Será que havia sido coisa da minha cabeça?

 

Capítulo 4: Garotas mortas estragam o clima.
 

foi o nome que usei no e-mail enviado para Ash. A falta da minha criatividade poderia ser evidente, mas eu jamais poderia usar meu nome verdadeiro lidando com aquele tipo de situação onde eu poderia ser exposto — e até pior do que isso. Foi fácil me comunicar com ele: usando o drama de estudante esgotado física e emocionalmente, eu obtive até uma resposta bem rápida. Por um momento pensei em solicitar o conhecimento de e pedir que rastreasse o IP do computador ou da onde quer que seja que aquele e-mail estava sendo enviado, mas duvidei na mesma hora que seria tão fácil assim. Pelos motivos de: a) não tem como um cara que comanda um esquema daquele tamanho, reconhecido em todo o campus ser tão descuidado com os negócios; b) faria perguntas que eu não queria responder; c) não me deixaria em paz até que eu o respondesse, e isso acarretaria uma série de traumas nele e consequentemente a perda do meu melhor amigo.
Decidi levar as coisas da forma tradicional. Segundo as palavras de Ash, era para nos encontrarmos às 01:00 — da manhã — no terceiro quarto à esquerda durante a festa na Gibbons que continuaria suas festividades hoje também. A ideia de ter que voltar ao mesmo lugar onde eu havia praticamente fugido ontem não me era agradável, mas pretendia acabar com tudo aquilo hoje mesmo.
Se eu não soubesse que fantasmas geralmente ficam presos aos locais onde morreram, também ficaria pilhado com a possibilidade de Margot aparecer também na minha casa. Não que ela não pudesse fazer — ela apenas não deveria saber como. O som estridente do meu interfone tocou e eu sabia quem era pelo ritmo das badaladas.
— Cara! — gritou ao entrar pela porta do apartamento e se jogando no sofá retrátil — Você não vai acreditar onde eu estava…
— Então não precisa contar — me levantei e fui pra cozinha — Tá com fome?
— Claro! — ele suspirou, como se eu tivesse feito uma pergunta óbvia — E sim, eu posso dizer oficialmente que você é um ótimo amigo! Eu já posso riscar o ménage da lista de coisas pra fazer antes de morrer.
— Mas achei que tinham quatro garotas.
— Uma delas estava mais interessada nas outras do que em mim, então fica quieto e apenas considere como um típico ménage.
Eu ri enquanto terminava os sanduíches e os colocava na bancada da cozinha. levantou do sofá e se sentou à minha frente.
— Mas e aí, cara, você sumiu — ele disse enquanto mastigava — Procurei você que nem doido depois e meu celular havia acabado a bateria, sorte que as garotas me levaram pra casa — ele sorriu.
— Ah, eu estava cansado.
— Mas e a Becca? De longe, ela era a mais gata das quatro, você tinha tudo pra se dar bem com ela.
— Sei lá… — dei de ombros — Não rolou.
— Isso é por causa da Jane?
— O que? — eu ri sem graça — Como a Jane veio parar nessa conversa?
— Eu não sei, ela é a única garota que preenche a parte sexual da sua vida.
— Ei, ela é só uma amiga, tá bom? Não faz sentido você mencioná-la nesse caso, eu só não quis ficar com a Becca…
— Amigos que transam? — levantou uma sobrancelha enquanto passava mais pasta de amendoim no sanduíche — Onde você consegue amigas assim? Será que no “clube” onde ela trabalha existem mais “amigas” que ela possa me oferecer? — ele enfatizou as aspas com os dedos.
Balancei a cabeça e peguei meu sanduíche enquanto ia pra sala. Encerrar o assunto ignorando é uma das minhas maiores especialidades e ele já havia acostumado tanto com isso que não enchia mais o saco depois de perceber que eu não queria falar do assunto, ainda mais quando o assunto era Jane.
Para elucidar, Jane era minha única e melhor amiga, e sim, à primeira vista pode parecer que temos um relacionamento um pouco complexo. Nós nos conhecemos desde que me entendo por gente, dois órfãos no Orfanato Melbourne que gostavam de uma brincadeira muito peculiar: quem ajudava o Sr./Sra. Fantasma primeiro.
Sim, Jane era igual a mim.
De cara isso já se torna um dos principais motivos do porquê nós éramos amigos. Nos 23 anos da minha vida, eu jamais havia encontrado outra pessoa que conseguia enxergar os mortos e, por mais que eu sempre reclame dessa capacidade incômoda, era muito mais fácil lidar com ela com outra pessoa.
Jane jamais conseguiu ser adotada definitivamente. Eu sempre fui quieto e na minha e ela era desbocada, sem educação e bagunceira. O dia que meus pais foram me buscar, ela lançou uns bons xingamentos aos prantos para eles e até correu atrás do carro quando fomos embora. Aquela cena havia me deixado desolado por um bom tempo, mas eu sempre me lembrava que tínhamos prometido nunca deixar de ser amigos e sempre manter contato. Ela foi a primeira pessoa que realmente me interessou e me proporcionou uma das coisas que hoje eu considero valerem mais do que tudo: a oportunidade de ser você mesmo.
Nos anos posteriores, eu telefonava para o Orfanato diversas vezes, sempre perguntando de Jane. Estava louco pra contar à ela minhas novas experiências com os senhores fantasmas e também queria ouvir as dela. Várias vezes ouvi da Sra. Dundy que Jane havia fugido do lar temporário, brigado na escola e também tentado fugir do orfanato. Ela não era autorizada a ter um celular e desde então falei com ela poucas vezes até chegar ao ensino médio. Os primeiros anos sem Jane foram os mais difíceis, não ter com quem falar sobre um assunto tão particular que só nós compartilhávamos era estressante. Me sufocava tanto que eu automaticamente fui me fechando para tudo e todos, até para os meus pais, tentando reprimir todas as minhas experiências que nunca poderiam ser contadas livremente.
Depois que conheci no primeiro ano, toda essa pseudo solidão se atenuou. Ele é um cara muito despreocupado pra prestar atenção e se importar com todas as esquisitices que eu mostrava — como falar sozinho no vestiário da educação física ou saber que fui detido por invasão de domicílio. As perguntas dele surgiam, mas ele tinha a incrível capacidade de saber deixar pra lá e respeitar o meu espaço, não mudando absolutamente nada no relacionamento entre nós. Ele me lembrava um pouco a Jane, sobre o sentimento que eu tinha com ela, tirando a parte dos fantasmas, e isso atenuava cada vez mais o desconforto de não saber mais dela.
Foi então que um pouco antes da formatura do colegial, eu e acompanhados de mais dois garotos da nossa turma decidimos nos aventurar nas ruas de São Francisco após uma das últimas aulas extras e acabamos dentro de um clube de strip no norte da cidade. O clube estava parcialmente cheio e não deram a mínima pra adolescentes pré-formandos que só queriam se divertir antes de enfrentar a vida adulta — a prática de suborno também cai como uma luva nessas horas. Eu particularmente estava sendo levado para onde quer que eles fossem, visto que eu não era tão tolerante ao álcool e não estava nas melhores condições. Nós nos sentamos numa mesa esperando que o show começasse e de repente um holofote no palco refletiu a última pessoa que eu esperava ver: Jane.
Ela estava com os seios de fora e uma lingerie acompanhada de muito brilho e lantejoulas. Mesmo os vários anos que se passaram e seu rosto lotado de maquiagem, eu fui capaz de reconhecê-la como se ainda fosse no orfanato. Se não fosse a pouca luz do ambiente e meus amigos surtando, eles teriam notado meu choque.
Reencontrá-la naquela noite foi o pontapé da retomada oficial do nosso relacionamento. Desde então, ela me passou o número de seu celular e seu e-mail, como uma garantia que não perderíamos contato nunca mais. Passei aquela noite com Jane, e, segundo , foi quando eu provei que não era assexual. As coisas não foram premeditadas: ela havia me visto no meio da multidão no final de seu show e de repente já estávamos no calor do reencontro. Conversamos a noite inteira e eu soube de toda a sua história desde que havíamos perdido contato definitivo — desde a saída do orfanato aos 17 anos até os vários bicos e viagens até chegar onde estava. Aquilo não me incomodava nem um pouco. Jane era dois anos mais velha do que eu e sempre foi esperta e decidida, sempre fez o que queria fazer. O fato de ela dançar nua em um pole não mudava um terço do sentimento que eu tinha, pelo contrário, eu admirava o quanto ela era boa naquilo.
Sempre mantínhamos contato principalmente por e-mail, já que Jane alegava que vivia perdendo seu telefone. Há um ano ela havia se mudado para New Jersey, integrando em uma nova equipe de um clube mais requisitado e dizia estar ganhando mais — tanto amigos quanto dinheiro. Agora perto um do outro nós podíamos nos ver mais e vez ou outra ela me tirava de enrascadas com os mortos. Nós jantávamos juntos e eu valorizava cada segundo que eu podia passar sendo plenamente quem eu sou, sem segredos e pessoas prontas pra te colocar em uma camisa de força.
não entendia essa relação. Na verdade, poucas pessoas iriam entender julgando a situação com um olhar tão superficial. Eu e Jane tínhamos uma relação de carinho mútuo, e tudo bem que nas diversas noites de bebedeira e conversas paralelas eu acabava acordando com ela em meus braços, mas não conseguia rotular aquilo. Não me importava com esses acontecimentos, e aparentemente ela também não, mas não deixava de chamá-la de minha namorada.
Me sentei na escrivaninha do segundo quarto que eu usava de sala de estudos e lembrei de forma relâmpago do estudo dirigido que deveria entregar na próxima semana. Verifiquei meus e-mails e Jane ainda não havia respondido ao último que eu havia mandado, mas tinham apenas dois dias. Ela com certeza teria comentários sobre o caso de Margot. Eu pretendia não deixar nada pendente para conseguir resolver o caso na Gibbons.
— Ei, o que pretende fazer hoje? — perguntou entrando no cômodo e se jogando na poltrona embaixo da janela.
— Vou ao Gibbons de novo — respondi sem parar de digitar.
É incrível como consigo visualizar o choque na cara de mesmo sem olhar.
— O que?! — ele usou um tom de voz agudo — Espera… Como assim? Você se divertiu tanto assim ontem e eu não percebi?
— É… Foi mais legal do que eu pensei.
— Eu sei, mas… Foi TÃO legal assim?
— Sim. — dei de ombros — Espero que você possa me acompanhar de novo, se quiser.
levantou do sofá tão rápido que parecia ter sido alfinetado na bunda.
— Cara… Eu não sei o que você tá tomando esses dias, mas a resposta é sim, meu amigo, pra tudo que você quiser! Se eu faturar mais três essa noite eu posso ir pro Guiness, tá bom?!!
— Na verdade não…
— Cala a boca! Vamos vestir você pra que você esteja muito mais desejável hoje, as pessoas podem até querer tirar fotos, as meninas vão suar, se excitar…
— Ei, se controla! Se ficar muito afobado elas vão correr de você.
— Tudo bem, eu ainda terei você pra trazê-las de volta. — ele deu uma piscadinha e voltou a se sentar na poltrona, ligando seu celular.

***
Eu estava ridículo.
Eu não acredito que deixei que as coisas chegassem nesse ponto.
sabia que eu odiava verde. E sabia que eu odiava mocassins. Mesmo assim, ele me vestiu exatamente como se fosse St. Patrick Day’s na Irlanda e eu só queria queimar aquilo tudo. Tentei ao máximo aceitar que aquilo era um negócio, eu não precisava impressionar ninguém — mas também não precisava perder tanto da minha identidade por causa de um negócio.
Acabou que eu me dei bem com uma regata branca, uma jaqueta de couro e jeans escuros com botas. Não era o que eu costumava usar, mas fazia eu me sentir, bem… menos verde. optou por usar bomber de novo, dessa vez com uma estampa que parecia vômito, o que me fez concluir que ele estava quase explodindo de confiança depois do ménage.
Por incrível que pareça, parecia haver mais gente hoje do que no dia anterior. explicou brevemente que a divulgação nas redes sociais era bastante eficaz, e agora haviam pessoas de cidades vizinhas na festa. Isso explicava os milhões de ombros e cotovelos que senti ao atravessar o hall principal e chegar ao grande cômodo do centro. Com a comunicação completamente vedada neste lugar, sinalizou que iria pegar bebidas e que não era pra eu sair de onde estava. Eu acenei e concordei, e logo em seguida segui prontamente para as escadas em semi espiral procurar o local combinado com Ash.
Se tudo desse certo, aquela história acabaria hoje e eu não teria mais que me preocupar com Margot. Geralmente os mortos despejavam suas tralhas (mais conhecidas como pendências) todas de uma vez em cima de mim, e jamais apareciam de novo logo após fossem resolvidas. Eu esperava que Margot seguisse na mesma linha.
Subi as escadas em zigue zague para me desviar de casais se pegando e algumas pessoas que já haviam perdido a consciência. Contei os quartos até chegar no terceiro e verifiquei se estava sendo observado como algum instinto automático. No andar debaixo eu havia notado alguns olhares sobre mim, e explicou algo como meu nome aparecendo no Twitter da noite anterior e certas expectativas de pessoas que esperavam me ver hoje. Isso não me deixava nada confortável, visto que eu estava prestes a ter uma conversa um pouco difícil com um cara que trabalhava com tráfico de medicamentos.
A porta do quarto estava fechada e estranhamente não havia pessoas ao redor dela, como acontecia nos quartos vizinhos. A minha única opção era esperar por um cara que eu não sabia como era, quando de repente a porta abriu tão rápido quanto fui puxado para dentro e, se eu não estava tão surpreso, ouvi o trinco assim que entrei.
O ambiente do quarto era medonho. A iluminação era tão baixa que limitava seriamente a minha visão panorâmica, e eu só consegui focar onde havia o maior ponto de luz: na mesa do lado direito do cômodo. Ela era grande e retangular, de madeira escura e polida e um cara estava sentado atrás dela, com os pés pro alto. Então vi que haviam mais duas pessoas no cômodo, incluindo a que havia me puxado. Estranhamente me senti no gabinete da mansão Corleone — e essa sensação não era nada animadora.
O cara sentado atrás da mesa se levantou lentamente e caminhou até mim. Ele usava um sobretudo preto, jeans claros e um coturno surrado que dava pra perceber mesmo à meia luz. Havia uma leve fumaça no local que vinha do cigarro aceso de sua mesa. Pela aura, já dava pra saber quem era.
? — perguntou ele e em seguida estendeu sua mão — Sou Ash.
Apertei sua mão sem dizer uma palavra.
— Não precisa ficar tímido, todo mundo aqui é amigo. — ele deu um sorriso sacana que não me passou nem um pingo de confiança — E então, trouxe a grana?
Acenei com a cabeça e tirei os 300 dólares do bolso. Se eu encontrasse Ash no campus montando uma Harley ou dirigindo um Audi eu não iria achar estranho.
Ele contou nota por nota na minha frente, meteu o dinheiro no bolso e gesticulou a cabeça pra um dos caras parados junto à porta. Ele pareceu entender o que aquele gesto significava e sumiu por uns segundos na escuridão do cômodo, surgindo depois com uma maleta preta e colocando-a em cima da mesa.
— E então, vamos às suas necessidades. — disse Ash voltando para trás da mesa — Do que você precisa? Relaxar, curtir, se concentrar, apagar… Temos tudo que você pode imaginar.
Eu havia ensaiado mentalmente aquela conversa várias vezes, mas mesmo agora eu estava seriamente preocupado em qual seria a reação do cara. Também não imaginava que teriam mais pessoas nesse encontro, as quais poderiam facilmente me segurar enquanto eu apanhava pra valer. Eu queria acreditar que estava preparado caso as coisas chegassem àquele ponto, mas na verdade não estava — eu nunca estava.
— Você está bem? — ele me perguntou, visto que eu não havia dito nem uma palavra e minha mente trabalhava a mil.
Literalmente, pensei “que se dane”. Se eu já estava aqui e havia aceitado seguir com aquilo, tinha que chegar até o final, mesmo se fosse um final onde eu teria que relembrar os golpes básicos de defesa pessoal que eu usava contra os mortos.
— Quero a mesma coisa que você deu à Margot Abbott.
Eu não sei como minha voz saiu tão firme e clara.
Ash me olhou com o choque vívido em seu rosto, que logo desapareceu. Mesmo eu não olhando, sabia que os dois caras da porta também começaram a prestar atenção na conversa.
— O que… — ele deu uma risada nervosa — O que você acabou de dizer?
— O remédio que você deu à Margot. Sabe a Margot? A garota suicida da semana passada… Pois é, quero a mesma coisa que vendeu à ela. Pelo visto dá o maior barato…
Rapidamente Ash já estava na minha frente e dava pra ver como ele se controlava pra não me socar. Isso o entregaria, então ele apenas rangia os dentes e me lançava um olhar mortal.
— Eu não faço ideia do que você está falando, amigo. Vendo coisas para várias pessoas todos os dias, então se você não quer nada e veio até aqui pra ficar de papo furado, melhor sair logo.
— Então a gente precisa ter algum tipo de relacionamento amoroso pra eu conseguir o produto também? — dei de ombros — Isso é uma pena, porque infelizmente não vai rolar. Se existir outra maneira talvez…
Ash se aproximou de mim como uma bala e segurou na gola da minha regata, ao passo que os dois caras da porta também se aproximaram um pouco mais.
— Como você sabe disso? — o cara sussurrou, e um leve pânico passou pelo seu rosto — Quem é você?
— Você não precisa mesmo saber disso.
— O que você quer?
— Quero saber se você a matou.
— Margot? Eu jamais faria isso…
— Pelo visto faria, visto que ela morreu depois de consumir seus produtos nada inocentes!
— Espera aí, como você sabe disso!? — ele me soltou em um impulso tão forte que me fez segurar nos calcanhares pra não cair, e ele não parava de tremer — Ela saía com você também? Eu devia saber que ela não era tão inocente assim..
— Acredite, esse é o menor dos seus problemas — suspirei — Você sabia o que estava dando pra ela? Sabia que ela morreria por isso?!
— Mas é claro que não! — ele passou as mãos na cabeça, e andava de um lado pro outro — Eu vendi Lorazepam pra ela, mas foi só isso! Nem disse pra ela tomar tantos assim, eu também fiquei surpreso quando soube, jamais imaginei que ela faria isso.
— Mas ela não fez, tá legal?! Ela tomou os três comprimidos que você disse à ela e acordou morta. Não é possível que não tenha algo de errado nisso! Quero que você confesse!
— Opa, o que está havendo aqui?!
Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo naquele instante. A voz nova que surgiu veio da porta do quarto e era de ninguém mais, ninguém menos do que , o cara bêbado que eu havia expulsado da frente do meu carro no dia anterior. Claro que hoje ele parecia menos embriagado, mas ainda tinha uma cara de maluco pela minha singela opinião. Olhei para a porta na mesma hora que o ouvi e só então percebi como eu havia aumentado o tom de voz nas minhas últimas palavras, e Ash estava me olhando um tanto quanto atônito. entrou no cômodo e percebi que ele estava acompanhado por alguém que eu não esperava ver ali, naquela situação: . Pelo olhar que ela me lançou, ela pensava o mesmo.
parou à minha frente e olhou de mim para Ash e vice versa.
— Alguém pode me explicar o que tá havendo aqui?! — a pergunta era mais direcionada à Ash do que para mim — Posso saber o que esse bosta tá fazendo aqui?
Ah, então ele se lembrava de mim.
— Como… como você sabia? — Ash, ainda atônito, pareceu ignorar completamente a presença de — Como sabia que a mandei tomar três comprimidos?
Eu engoli em seco. Chegar ali e questionar Ash fazia parte do plano, mas minha mente realmente deu um branco com toda situação presente. Como eu explicaria aquilo?! Eu não deveria ter dado tantos detalhes…
Mas eu também não conseguia ir embora, então a situação estava pior do que eu pensava. Janelas? Eu não conseguia enxergar direito naquela escuridão. A porta estava fora de cogitação pelos dois caras parados que não iriam relaxar enquanto não me socassem até a morte. Armas? Nada que pudesse neutralizar quatro pessoas de uma vez. De repente desejei mais do que tudo que , em seu momento pleno de embriaguez, abrisse mais uma porta errada na vida e me desse uma brecha.
cutucou Ash para que ele “acordasse” do transe de olhar pra mim e levantou as sobrancelhas. Ash balançou a cabeça e de repente a mesma expressão de bad boy que tinha assim que entrei retornou.
— Esse cara veio aqui me perguntar se eu matei a Margot.
— O que? — deu uma risada e olhou para mim — Você é maluco? O que te faz pensar uma coisa dessas?
— Ele sabe que eu saía com ela. — Ash quase sussurrou e revirou os olhos.
— E daí que ele sabe disso? Foi um lance passageiro, não foi? Você nem estava mais com ela quando ela decidiu fazer merda, não tem que deixar esses cretinos entrarem aqui e perguntarem isso. — deu mais uma risada e Ash permaneceu sério como uma pedra. Depois de um segundo, o rosto de também mudou — Você não estava mais com ela, não é? A gente conversou sobre isso, eu te disse pra largar aquela infeliz…
— Mas ele não fez, tá legal? — falei pela primeira vez e todos os olhares se voltaram pra mim — E não só isso, ele a vendeu Lorazepam que foi o responsável pela morte dela, mas ela nunca quis se matar, na verdade ela nem sabia o que estava tomando, ela apenas confiou nele! — joguei os braços para apontar para Ash. Pelo canto do olho olhei para atrás de , na escuridão, e ela me olhava chocada. parecia mais com raiva.
— Que porra é essa? — ele disse mais para si mesmo — Então aquela meretriz também tava dando pra esse aí? — ele riu maldosamente e se aproximou de mim, colocando uma mão nos meus ombros — Qual é, cara, vai pra casa. Tem coisas muito mais interessantes nessa festa do que discutir sobre uma garota morta. Você tá estragando todo o clima do lugar.
A voz dele era suave e calma, mas por que ao ouvi-la eu sentia uma força sombria prestes a me engolir?
— Ei, não acredita em tudo que aquela garota te disse. Não vê que ela estava te enganando?
— Quero que ele confesse. — falei firme, olhando em seus olhos. A expressão de tornou-se séria de novo.
— Vai pra casa, estou te avisando.
— Eu já disse que não a matei — Ash disse, o desespero novamente salpicando seus olhos — Eu menti, . Não havíamos terminado. Eu… sei lá, talvez gostasse um pouco dela.
— Cala sua boca — rangeu os dentes ao falar com o amigo, e seu olhar até me assustou — Olha o que sua estupidez nos causou.
— O que você tem a ver com tudo isso? — perguntei, e só depois de meio segundo percebi o que fiz.
Na verdade, também pareceu perceber o que tinha feito. Mas não tive tempo de questioná-lo por mais tempo pois, sem mais nem menos, o cara resolveu me socar. Mas não um simples soco. Foi um baita soco que parecia que ele tinha soco inglês entre os dedos. Foi tão forte na minha boca que me fez perder o equilíbrio e ser lançado para trás, batendo o canto da testa em um tipo de quina e somente em seguida caindo no chão.
Bom, eu não podia negar que isso era possível de acontecer. A primeira reação do meu cérebro foi ficar embaralhado com o baque e minha visão ficou turva, então eu sabia que alguém tinha gritado alguma coisa assim que caí, mas era como se eu estivesse embaixo d’água. E antes que eu pudesse me recuperar, senti a gola da minha camisa sendo puxada e mais um soco. Depois outro. E mais outro. Ele nem me dava tempo de sentir dor.
Se eu fosse dizer que os socos me ajudaram em algo, foi em desentupir meus ouvidos e me ajudar a voltar ao meu estado de equilíbrio. Agora eu ouvia um pouco mais claramente a situação, e com certeza aquele grito era de . Mas não levou muito tempo até eu sentir um forte impacto na barriga e percebi que só os socos não os estavam deixando satisfeitos.
Percebi que eu estava apanhando pra valer quando tentei enxergar alguma coisa na minha frente e o sangue pingando da minha testa não deixava. Ainda assim eu consegui identificar as risadas de , que pareciam um pouco longe pra quem estava me socando, o que me fez lembrar do papel dos outros dois caras na porta. Particularmente, eles não eram nenhum brutamontes e ambos pareciam ser estudantes, mas era difícil encontrar uma brecha pra escapar quando são dois contra um.
Eu ainda ouvia a voz de , mas era difícil entender o que ela dizia. Eram gritos, mas não pareciam direcionados à mim. Talvez eu pudesse escutar com mais clareza se eles parassem de me bater, mas era complicado tentar se defender contra uma surra e ao mesmo tempo tentar não perder a consciência, e eu estava quase nesse nível, e eu não queria perder a consciência aqui de jeito nenhum.
De repente eles pararam. Absolutamente tudo no meu corpo doía, mas consegui abrir os olhos, e tentei fingir que minha visão não estava arruinada. Vi o sorriso largo de , e ele segurava o braço de . Se eu não me engano, ela estava gritando meu nome e depois de forçar mais algumas vezes, conseguiu se soltar do aperto de e vir até mim, se abaixou e levantou minha cabeça jogada no chão, forçando-me a olhá-la nos olhos.
— Ei, você está bem? — ela me balançou, apesar de não ser o certo a se fazer, mas reconheci o seu desespero: ela também não queria que eu apagasse — Por favor, aguenta, você consegue falar? Fale alguma coisa, por favor…
, o que você está fazendo? — ouvi a voz de — Vem pra cá agora mesmo!
— Já chega! — ela gritou, olhando pra ele. Senti sua voz trêmula de novo, sempre que precisava se dirigir à ele — Parem com essa loucura! Você tem noção de quem ele é? Se o reitor o ver desse jeito, pode rolar até uma investigação, e então a casa vai cair pra vocês! Uma coisa vai ligar à outra, será que vocês não entendem isso?! Ele é Jungook , caramba!
Se eu soubesse que o meu nome fariam todos ficarem em silêncio e os socadores se afastarem rapidamente de mim, eu teria feito isso muito antes.
— O que um cara desse tá fazendo aqui?! — ouvi a voz de Ash depois de um tempo. Um barulho de maleta e uma mochila surgiram rápidos e agudos por causa do silêncio, e depois de passos apressados.
— Você está indo embora?! — gritou.
— Sim, estou! Se o seu pai descobrir sobre isso, vai ser muita sorte se eu apenas perder a bolsa de estudos! — Ash respondeu.
— Meu pai é um idiota, vai acobertar tudo. Ninguém vai sair prejudicado.
— Só se for pra você, meu chapa. Ele continua sendo o reitor e não vai deixar isso barato pra nenhum de nós. Vamos embora, galera! — ele gritou para os outros dois caras e desapareceram pela porta.
ainda estava tremendo e uma luz forte me indicou que ela estava tentando digitar uns números no telefone, e minha cabeça tornava a tarefa um pouco difícil. Ouvi passos se aproximando e a sombra de escurecendo ainda mais o ambiente.
— Vamos embora, . Anda, larga esse morimbundo. — ele se abaixou e pegou novamente no braço dela.
— Não… — ela sussurrou, a voz trêmula voltando a aparecer.
— Eu não vou dizer duas vezes.
— Não! — ela gritou, soltando seu braço repentinamente, deixando um meio chocado com a atitude — Se eu deixá-lo aqui só vão encontrá-lo amanhã, você sabe disso. Tenho que levá-lo pra um hospital imediatamente.
ficou calado por uns segundos e encaixou uma única mão nas bochechas de , forçando-a a olhá-lo de perto. Suas mãos estavam mais trêmulas do que antes.
— Você vai se arrepender por isso, — ele sussurrou perto de sua boca, e eu pude sentir aquela sensação estranha no estômago novamente. Depois que vi tremendo mais do que o normal, uma pontada de raiva me fez começar a me mover lentamente tentando segurar meu corpo para levantar e eu juro que seria capaz de devolver o soco de se ele não tivesse se levantado e saído tão rápido do quarto.
Ela respirou várias vezes para se acalmar e pegou o telefone novamente, mas dessa vez coloquei minha mão na frente do visor, o que fez com que ela me olhasse.
— Nada… de hospital — consegui balbuciar e devo dizer que aquilo doeu muito. Eu tinha 95% de certeza que havia quebrado o nariz.
Dizer aquilo foi necessário antes que chegasse uma ambulância no meio daquela festa causando um alvoroço sem necessidade. Que eu precisava de cuidados médicos era óbvio, mas não me conhecia. E se eu fosse parar em um hospital com uma pessoa que não me conhecia, meus pais ficariam sabendo e estariam em NY surtando antes que o sol nascesse.
— O que? — ela disse surpresa — Nada de hospital, você ficou maluco de vez? Já olhou seu estado? Você está sangrando… Ei, você não pode se levantar!
— Eu preciso ir. — fiz um esforço sobre humano para conseguir segurar na mesma quina onde havia batido, que percebi agora que se tratava de um pequeno criado mudo, e uma dor aguda no abdome me fez gemer e cair novamente, e um jato de sangue expeliu da minha boca, revelando algo que eu temia: além dos socos, eles poderiam ter me dado de brinde uma leve contusão pulmonar.
! — gritou novamente, e pelo menos agora sua tremedeira era pelo medo de que eu morresse a qualquer momento e ela fosse a única testemunha — Por favor, aguenta, não apaga! Que se dane o que você diz, você vai pra um hospital agora mesmo…
— Não, por favor… — consegui segurar seus pulsos antes que ela pegasse o celular — Você não entende… não posso…
Eu vi o desespero nos seus olhos, que estavam marejados. Eu poderia estar sendo cruel com ela, mas eu jamais imaginei que estaria numa situação assim com . E por mais que eu não queira admitir, seria uma tarefa bem mais árdua conseguir chegar em casa naquele estado sozinho, por mais que eu não quisesse de forma alguma envolver mais alguém naquilo.
— O que foi? Por que não pode? Ei, acorda! Você não pode dormir, entendeu? Cadê seu amigo? Posso chamá-lo aqui… Ei!
Só que a escuridão me puxava cada vez mais, e ficava mais difícil respirar. Nos meus últimos minutos de consciência eu lembro de sentir a dor por todo meu corpo e a sensação quente do sangue latejando. A voz de foi ficando cada vez mais distante, e me lembro de murmurar algo como “enfermaria” antes de desmaiar.

 


Capítulo 5: Perdendo o controle.
 

Nunca levantem rápido depois de terem sidos atingidos em várias partes do corpo. A dor que provêm disso é horrível. Mas eu abri os olhos e me vi em um local que não era minha casa, então eu não pude me controlar.
Com a dor, fui obrigado a voltar a deitar. O ambiente estava escuro, mas com alguns feixes fracos de luz entrando pelas aberturas das persianas pelo ar condicionado ligado. Eu estava em uma maca no canto e sem camisa, com uma faixa enrolada pelo meu abdome. Olhei em volta e reconheci os outros três leitos dispostos pela sala, cada qual com as cortinas azuis abertas e uma poltrona preta característica à frente da mesa quadrada de madeira. Toda a lembrança da noite vieram à mente. Ela realmente havia me trazido à enfermaria do campus.
Me forcei a sentar novamente e a dor lancinante me fez ficar zonzo, mas eu não podia ficar ali por muito tempo — visto que eu não fazia ideia de como havia entrado. Com alguma dificuldade, consegui ficar de pé. Tentei prestar atenção no meu corpo nos mínimos detalhes, para me auto diagnosticar. Eu já respirava um pouco melhor, e aparentemente não tinha costelas quebradas. A contusão iria passar com o medicamento correto, mas eu ainda teria que ver um médico depois. Visualizei uma pequena pia no canto da sala com um espelho, e a imagem que eu vi me fez gemer de frustração.
Alguém havia limpado todo o sangue do meu rosto, então os estragos estavam bastante explícitos. Meu nariz parecia uma bola de tênis, a ponte levemente curvada para o lado e lá se foram as dúvidas se ele estava quebrado ou não. Havia um curativo torto que entregava que fora feito às pressas no lado esquerdo da testa, e um hematoma ainda vermelho no canto da boca. O nariz quebrado fazia meu rosto parecer pálido e, literalmente, doente. As marcas roxas já começavam a invadir a área abaixo dos meus olhos. Se não fosse por isso, talvez eu conseguisse disfarçar as demais fraturas. Infelizmente, aquilo teria de ser resolvido da única forma rápida e não recomendada que eu conhecia.
Respirei fundo e simplesmente fui. Gritei mais alto do que deveria quando ouvi o “slac” do osso voltando para o lugar, sem falar da dor.
— O que você está fazendo de pé?!
Ouvi a voz de entrando na sala e jamais imaginei como ficaria aliviado de escutá-la. Ela pegou por um dos meus braços e me guiou novamente até a maca, e agradeci internamente por isso porque se não eu já teria caído no chão de novo.
— Gelo… — murmurei, ainda com a mão no nariz que eu havia acabado de pôr no lugar.
Ela me olhou como se eu fosse louco após ver o que eu tinha feito, mas não disse nada. Me colocou de volta na maca e saiu quase correndo da sala, voltando em menos de cinco minutos com uma compressa improvisada feita com gaze. Ela tirou o casaco que estava usando e se sentou ao meu lado no leito, posicionando a compressa com cuidado no meu nariz.
Prestei atenção nela pela primeira vez. Ela tinha uma expressão exausta e seu vestido estava manchado de sangue, então ela ainda não havia ido pra casa. Olhei pelo canto do olho e vi que o casaco que ela havia tirado e pendurado na cadeira na verdade era meu.
Ela acabou seguindo o meu olhar e a senti corar levemente.
— Ah… Me desculpa, peguei ele emprestado pra ir na cafeteria. Espero que não se importe. — ela revirou os olhos e soltou a compressa em minhas mãos, me fazendo ver claramente as marcas vermelhas dos dedos de nos seus braços desnudos perto dos cotovelos.
— Você está bem? — perguntei tentando ser coerente por trás da compressa. Ela me olhou confusa e viu pra onde eu olhava.
— Ah… isso. Não é nada, eu estou bem. — ela respondeu não me convencendo — Você deve se preocupar com você. Nem imagina o quanto me assustou.
— O que aconteceu? — tirei a compressa — Como eu cheguei aqui?
— Bem… Você não quis ir a um hospital de jeito nenhum e falou da enfermaria antes de apagar. Nem sei como não surtei, mas consegui com que você se arrastasse até seu carro. As pessoas estavam bêbadas demais pra reparar em um cara inconsciente, sabe como é. E então chegamos até aqui.
— Você dirigiu o meu carro?
— Ah não, de jeito nenhum! Eu o levei até seu carro pra que fosse mais fácil pedir um táxi de lá. Relaxa, o motorista não era de fazer perguntas. Mas eu trouxe sua chave… — ela apontou rapidamente para sua bolsa.
Continuei olhando pra ela ainda confuso, me perguntando porque raios ela havia deixado meu carro para trás, na frente de uma fraternidade cheia de pessoas com grande potencial ao vandalismo.
— Eu já entendi o seu olhar — ela balançou a cabeça e riu sem graça — Bom, eu não dirijo.
— Ah — agora estava explicado — Você pareceu saber dirigir aquele dia com seu namorado bêbado.
— Não disse que não sei dirigir. Apenas não dirijo — ela deu de ombros — Pode ficar tranquilo que avisei uma amiga que estava na festa e ela ficou de vigiar o seu carro algumas vezes, apesar de isso ter gerado algumas perguntas que eu não soube responder, mas esse é o último dos problemas.
— Você não precisava ter feito isso.
— Ah, que isso, como eu disse, eu me propus a ajudar e não ia deixar de fazer isso por causa de obstáculos como mobilidade, então tá tudo certo.
— Não… Eu quis dizer isso — apontei para mim — Você não precisava ter se envolvido nisso, entendeu? Esse era um assunto que eu tinha que resolver sozinho, jamais carrego outras pessoas nos meus problemas.
— Ah… Entendi — ela me encarou enquanto acenava — Na verdade, mal pude acreditar quando te vi naquele quarto. Sabe, as pessoas que vão lá têm um certo objetivo, e eu não pensei que o fosse desse grupo de pessoas.
— Ah, você diz desse esquema de tráfico de medicamentos? — ela arregalou os olhos por um instante e automaticamente olhou para os lados — Relaxa, não é algo que eu queira me envolver.
— Como assim não quer se envolver? Quem marca um encontro com o Ash não quer fazer uma vistoria sem compromisso daquele quarto.
— É, eu imaginei — dei de ombros — Mas isso é um assunto meu, você não entenderia. Também não vou perguntar sobre o que você fazia lá. Acredite, você já ajudou bastante.
— Mas… Fiquei curiosa sobre as coisas que escutei lá. O lance da Margot e tudo mais. Não sabia que você também tinha um lance com ela, ela parecia bem apaixonada pelo Ash.
— Ah… Não. Você não entendeu. Eu jamais tive algo com a Margot, na verdade eu nem a conhe…
Parei por um instante porque a situação já estava dando merda. E então eu não soube explicar como de repente fiquei tão falante com essa garota, a ponto de quase me entregar. Claro que eu não iria oferecer de bandeja a história toda, mas eu não queria aguçar o sentido investigativo dela.
— Espera, o que? Você ia dizer que não a conhecia?
— Não é bem assim, nós só não éramos tão próximos como seu namorado pensou.
— Você sabia informações demais pra quem não era tão próximo dela.
— O que é isso agora? Tá me fazendo um interrogatório policial sem eu saber? Amanhã essa conversa vai estar no Fórum ou no jornal?
— Ei, ei, nós só estamos conversando, nem tudo aqui precisa ser tão preto no branco. Você só me deixou curiosa, só isso. Eu tenho acompanhado o caso da Margot desde o início e até agora não surgiu nenhuma nova informação, então você me intrigou com as coisas que disse.
— É, só que eu não posso te ajudar com isso. — me levantei novamente e comecei a procurar as minhas roupas.
— Você já vai? E o resto dos seus machucados? Eu te trouxe pra cá porque eu não iria discutir com um cara inconsciente, mas você precisa de um hospital urgente.
— Eu posso me cuidar, muito obrigado. Agora se você não se importa, preciso chamar um táxi pra ir buscar meu carro.
— Ei, cara — ela entrou na minha frente e colocou a mão no meu peito — É sério, eu realmente não quero me meter nos seus problemas malucos porque já percebi o quanto você é um. Mas você não pode sair desse jeito.
— Você saiu desse jeito — dei de ombros, apontando para a parte mediana do vestido suja de sangue.
— É, ok, o seu casaco ajudou. Mas a questão é que já amanheceu e vai ser bem estranho se alguém colocar a cabeça pra funcionar e tentar adivinhar o que aconteceu com a gente. Então eu tô pedindo encarecidamente pra você sentar por mais uns minutos nessa bendita cama até que eu traga umas roupas emprestadas clandestinamente no achados e perdidos e tomar o café que já deve estar frio. Portanto…
Ela nem me deu tempo de protestar e já foi saindo pela porta. Por um lado ela estava certa, não seria nada bom se o que aconteceu ontem fosse descoberto por pessoas de fora — e eu digo de tudo, incluindo a briga e tudo que resultou dela. Apesar de que impunha isso como uma ameaça velada, como se estivesse me aconselhando silenciosamente a manter minha boca fechada sobre isso, ou o querido namorado poderia fazer algo nada galanteador à meu respeito — e também ao dela, visto que havia o enfrentado de forma tão escancarada. Eu não tinha qualquer interesse em levar aquele assunto adiante. Meus problemas agora eram outros, e o principal deles era como eu iria resolver os problemas novos que surgiram da falha de resolução de um deles.
voltou depois de um tempo, já vestida com uma camisa meia manga listrada e um macacão branco e me jogou um jeans e uma camiseta nova. Sem dizer uma palavra, começou a recolher as roupas manchadas e a enfiá-las em uma sacola de pano da enfermaria.
— Vou lá fora tentar apagar mais alguns rastros da nossa presença aqui enquanto você troca de roupa — ela recolheu mais alguns itens em cima da mesinha ao lado da maca, que só agora percebi como estava bagunçada.
— Você fez o curativo? — perguntei.
— Ah… Sim. Nada ao nível da medicina, mas o Google era o único professor disponível, então espero que não se importe. Estava sangrando tanto que eu achei que você fosse literalmente morrer, e eu não queria mais esse trauma.
— Claro.
Fui até a bolsa de e vi café e água dentro de uma sacola de padaria. Peguei a água imediatamente e percebi o quanto estava com sede, e exausto. Depois de alguns minutos ela saiu e eu troquei de roupa, um jeans simples e uma camiseta preta. Coloquei as outras na sacola que ela havia separado para mim e saí da enfermaria, encontrando-a encostada na parede enquanto olhava o teto.
Assim que me viu, ela remexeu em sua bolsa e me entregou na mesma mão minha carteira, minhas chaves e meu celular.
— Tive que desligá-lo porque um tal de não parava de ligar. Acho melhor você acalmá-lo antes que ele enfarte.
— Mais tarde eu ligo. Valeu.
— Tá legal, é o seguinte, não é porque é domingo que o campus está fechado, o movimento de pessoas é bem baixo mas não é inexistente, então sugiro que a gente saia bem de fininho e separados pra não ter que rolar perguntas se formos vistos. Já foi bem difícil mexer meus pauzinhos pra enfiar a gente aqui de madrugada, não quero burocracia pra sair também.
— Ah… Tudo bem.
— Então… Eu já vou nessa. — ela acenou e deu as costas.
, espera… — ela se virou novamente — Valeu por ter feito tudo isso. Como eu disse, você não precisava. Espero que isso fique entre nós, tudo bem?
Ela deu uma risada.
— Pode ficar tranquilo que ninguém vai saber que eu carreguei em um táxi até a enfermaria do campus. Se bem que daria uma ótima matéria pro jornal. — ela fez uma pausa — É brincadeira! Acredite, eu não quero ser relacionada à esse assunto em momento nenhum.
— Ótimo. Ficamos entendidos assim.
— É, ficamos — ela acenou e deu as costas para ir novamente, mas se virou mais uma vez — Mas sabe, , você realmente é uma peça mais estranha do que eu pensei. E tudo bem você ser assim, desde que não esbarre nas pessoas sempre como você faz. Mas uma coisa que eu não consigo sossegar foi o jeito que você falou da Margot, e acredite, eu não tô interessada em te chamar pra uma entrevista e nem nada disso. Mas eu sei que você sabe de alguma coisa. E essa matéria é muito importante pra mim, não que isso seja do seu interesse. Eu também sempre achei esse caso muito do suspeito e mal contado, e pra casos assim eles geralmente arquivam na pasta do suicídio, mas tem mais história nisso aí, eu sei que tem. E eu tô afim de descobrir. E você foi um dos responsáveis por me motivar a voltar a investigar isso, então na verdade eu que tenho que te agradecer.
— Espera aí, eu não pretendia…
— Adeus, sr. . — ela acenou com as mãos e saiu com pressa.
— Você não vai achar nada! — gritei, mas duvido que ela havia escutado.

***
Depois do que pareceram horas, estacionei o carro na frente do prédio. Não encontrar plantado na porta da minha casa já foi um alívio. Eu ainda não havia pensado na desculpa que daria sobre o meu estado, então quanto mais tempo eu o evitava melhor. Fui correndo fazer a primeira coisa que fazia sempre que passava por esse tipo de situação: encher a banheira com gelo.
Eu achei que estava acostumado com aquela dor, já tendo sentindo-a tantas vezes com o passar dos anos, mas alguma coisa parecia diferente daquela vez. Não nos machucados, acredite, os mortos poderiam ter acabado comigo bem mais rápido do que aqueles caras. A sensação estranha quando afundei na banheira foi diferente, eu só não sabia o que era.
Ficar por uns minutos submerso me deu tempo de reorganizar os meus pensamentos. Eu não sabia se poderia confiar totalmente que deixaria aquela história pra trás, ou se ela estava falando sério sobre investigar o caso de Margot. Não que eu me importe de vê-la dando com a cara na parede, mas em algum momento ela poderia realmente estar certa de que eu sei de algo e não seria fácil me livrar dela. Apesar de que em uma coisa que ela disse martelava na minha mente: aquela história estava sim muito mal contada.
Tudo bem que eu sabia que Margot não havia se suicidado. A notícia chegou a mim pela própria. E eu não acreditava que poderia continuar com aquela história, se não ela teria que investigar os amigos do namorado — Ash e os demais, até poderia estar envolvido em todo aquele esquema. E se estava naquele quarto ontem e conhecia Margot por Ash, ela também não estava por fora de toda aquela história. Então decidi esquecer e concluir que ela só falou aquilo no calor do momento.
Refiz todos os curativos da tentativa de e o gelo havia ajudado bastante com os inchaços. Meu nariz seria o mais difícil de esconder, mas existia um milhão de histórias para narizes quebrados, então eu estava tranquilo quanto à isso. não levantaria minha camisa nem nada parecido, então os hematomas das costelas também estavam em local seguro. Nem que eu tomasse um caminhão de analgésicos, precisava parecer bem para ele, porque a minha história ainda não estava completa e eu não tinha clareza sobre todos os acontecimentos porque bem… Eu estava desmaiado na maior parte deles.
Mesmo com tudo sob controle, na verdade eu sentia que não estava. E eu raramente me sentia daquele jeito — e não me era nada agradável. A minha vida PRECISAVA de controle, e um controle muito minucioso. Como acham que eu cheguei até aqui com essa vida dupla maluca? Controle. E organização. Se houvesse pontas soltas e situações que poderiam vir a se tornar uma bola de neve, eu deveria resolvê-los logo, antes que tudo fosse pro ralo e homens de branco invadissem meu apartamento.
Uma prioridade desse controle era afastar toda e qualquer tipo de pessoa que desconfiasse minimamente que eu não era muito normal. Geralmente nunca tive muita dificuldade nessa parte — as pessoas tendem a se afastar automaticamente de quem parece meio maluco. Só que a minha intenção nunca foi parecer meio maluco — as situações com os mortos é o bloco do diagrama onde eu abro mão de todo controle, porque simplesmente não dá. Os mortos são imprevisíveis. E eu já havia aceitado aquilo, portanto quanto menos pessoas houvessem no meu ciclo social, menos satisfações e desculpas eu precisaria inventar.
Talvez por isso eu tenha me fechado, além do fator Jane. Depois que saí do orfanato, era muito difícil passar pelas situações com os fantasmas em todos os cantos que eu passava e não poder contar pra ninguém. Meus pais, por mais maravilhosos que sejam, estavam marcando um horário com o terapeuta da família assim que eu falei pela primeira — e última vez — dos mortos, o qual frequentei até os 13 anos. Foi quando bati o pé e me declarei curado do meu “mal”, e percebi que era muito mais fácil mentir e inventar desculpas do que simplesmente falar a verdade. Era cansativo os olhares e as frustrações, e esse era um caminho mais fácil. Por isso era muito mais descomplicado ir simplesmente deixando as pessoas passarem pela minha vida e não fazendo questão de nenhuma delas — elas jamais entenderiam.
é uma exceção por inúmeros motivos, mas expô-lo à todo esse circo nunca esteve na minha lista. Apesar das mentiras e eu consciente de como sou um péssimo amigo, eu gostava da nossa amizade. E não é que eu não confiava nele, ou que achasse que ele iria espalhar a notícia com um megafone, mas tinha a impressão de que ele simplesmente… Correria. E isso eu poderia evitar.
Com tantos pensamentos, dormir foi uma tarefa impossível, então decidi adiantar alguns relatórios de laboratório. Voltei a ligar meu celular e esperar a próxima ligação de , que decidi atender. Depois de uma hora que ele não havia ligado, concluí que ele deveria estar apagado ou pior, deveria estar vindo pra cá. Suspirei e apenas esperei o inevitável. Decidi que esperaria pelo menos tomando uma cerveja, que não seria uma boa combinação com os analgésicos que eu já havia tomado, mas mesmo assim levantei para buscar na cozinha.
Mas infelizmente eu nem consegui ingeri-la pois um grito ensurdecedor encheu a cozinha e todo o ambiente, fazendo com que eu largasse a cerveja de susto e de quebra alguns copos estouraram.
Virei para trás em um pulo e dei um suspiro de nervoso.
— Muito obrigado por isso, vó. Sabia que era minha última cerveja?
— Mas o que aconteceu com você?! — ela se materializou na minha frente, observando cada machucado visível — O que você aprontou dessa vez, garoto?
— É uma longa história. A senhora morreria de tédio.
— Haha, muito engraçado. Eu falei sério, seu insolente — ela me deu um tapa no braço, que fiz questão de encenar uma dor horrenda — Oh meu Deus, me desculpa, me desculpa… mas que raios aconteceu com você!? Quem fez isso? Me diz o nome dessa alma penada que eu o encontro nem que já tenha passado do limbo.
— Relaxa, vó, isso não foi trabalho de um morto e nem nada parecido. Foi uma briga normal com gente de carne e osso — respondi enquanto limpava a sujeira de vidros que ela havia causado.
— Como assim?! Você agora deu pra ser um delinquente rolando no chão com outros brutamontes a troco de que?! Ah, se seu pai soubesse disso…
— Eu nunca sei de qual pai você está falando — dei de ombros enquanto jogava os cacos na lixeira — Relaxa que o Sr. nem faz ideia disso, e nem vai saber. Fiquei bom em apagar meus rastros, a senhora sabe bem disso. Agora se a senhora está falando do meu outro pai…
— Não estou falando de ninguém! — sua voz tremeu e como sempre ela desviou do assunto — Isso tudo foi por causa de alguma garota por acaso? Eu a conheço? Ou foi Jane que te envolveu em alguma furada desta vez?
— Não tem nada a ver com garotas também, senhora preocupada. Apesar de que tive a ajuda de uma dessa vez.
— Ajuda? — ela balançou a cabeça, como se tentasse adivinhar como havia sido minha noite inteira, e posso apostar meu carro que a malícia estava presente nisso. Apesar de seu dom genuíno de falar com os mortos — do qual eu puxei — ela era uma péssima na arte da adivinhação.
Enquanto ela se esforçava para colocar os pensamentos no lugar, voltei para minha escrivaninha e a peguei novamente na minha frente.
— Que tipo de ajuda é essa que você disse? Foi algo a ver com algum fantasma? Você enfrentou um deles na noite anterior? Eram muito perigosos? Você deixou que uma humana te pegasse…
— Ei, sei que a senhora não precisa, mas poderia respirar um pouco? Não aconteceu nada demais, está tudo sob controle como sempre.
— Você não está me convencendo. Vai, quero que você me conte.
Suspirei e despejei a história toda em cima dela, desde Margot, a surra que eu havia recebido dos capangas de Ash e a ajuda inesperada de . Minha vó escutava tudo com muita atenção, com suas expressões variando de furiosa quando contei sobre Ash e até curiosa quando contei sobre . Mesmo não gostando da forma como ela sempre aparecia do nada quando vinha me ver, aquilo foi uma descarga que eu não sabia que precisava.
— Então você conseguiu resolver o problema dessa menina Margot?
— Ah, não sei vó… Eu consegui descobrir as informações que ela queria, mas não sei se vai ser o suficiente pra ela ir, sabe… Pro outro lado.
— É… É complicado, mas você fez a sua parte. Se ela não o deixar em paz depois disso, eu mesma mando ela pastar. — nós rimos — Mas e essa garota que te ajudou a sair da festa? Você não acha estranho ela ter estado presente com esse cara que fez isso com você e depois ter dito que vai investigar o caso que ele pode estar envolvido? Você confia nas intenções dela?
— Vó, eu não confio em nada. Eu já disse, eu não quero saber o que essa garota pensa ou deixa de pensar. Já vacilei quando não pensei direito e falei coisas que não devia perto dela, mas não vai passar disso. Acredite, ela não vai chegar em lugar nenhum, não precisa levar tão a sério.
— Mas então por que você parece tão preocupado com esse assunto?
— Ah… Eu não estou preocupado. — dei de ombros, olhando para a tela do computador — Ela só é um pouco desmiolada e namora um completo babaca, então eu tenho receio. Mas ela vai se esquecer rápido de tudo que aconteceu.
Minha vó acenou e pareceu aceitar esse ponto. Mas ela não havia mentido ao supor que eu estava de certa forma preocupado com , principalmente depois do que eu havia visto naquela noite. Não que isso fosse me consumir, mas eu não parava de pensar como ela faria o que disse. Me fazia pensar o que aquele boçal faria com ela, ou, como eu me convencia a pensar, não deveria acreditar que ele tinha algo a ver com a situação, muito diferente do que eu pensava.
Mas será que Margot sabia? Se as confissões de Ash não fizessem efeito em sua permanência aqui desse lado, o que mais a estaria prendendo aqui?
Fui puxado para a realidade quando a campainha começou a tocar incessamente, o que não é nenhuma surpresa vindo da visita que eu estava prestes a receber. Dispensei minha vó, que sumiu em um piscar de olhos ao chamar de “moleque pervertido” e abri a porta, a qual ele foi entrando sem ao menos me olhar.
— Eu espero que você tenha uma boa explicação pra ter me deixado plantado no meio da festa e que ela diga como você sumiu deixando seu carro pr… — virou-se, reparando em meu rosto — Mas que porra é essa, ?! — gritou e eu podia jurar que o porteiro havia escutado — Você não atende as ligações a noite toda e agora parece que se meteu em briga de gangue?
— Sabia que isso poderia ser facilmente interpretado como briga de casal, não é?
Ele olhou para os lados, como se realmente estivesse preocupado de ser ouvido.
— Irmão, o que tá pegando? Eu passei horas pensando que você estava em um necrotério.
— Que isso, cara — dei uma risada, mas ele não se convenceu — Tá legal, aconteceu que eu sofri um pequeno acidente, só isso. Me perdi na festa no começo, bebi um pouco demais, me envolvi em uma briga. Acho que toda festa tem um pouco disso, não é?
— Espera aí, eu não tava falando sério do lance da briga… Calma, você realmente levou uma surra?!
— Ah… Pois é, mas não foi nada grave, eu já tô bem melhor e…
— Cara, como assim?! Me diz quem foram esses covardes que já já eu descubro algum podre deles e exponho tudo no Fórum! Ninguém vai conseguir escapar!
— Ei, calma aí, Snowden, é sério, está tudo bem. Eu mal lembro do motivo da briga quanto mais quem se envolveu nela, então você pode sossegar e voltar ao normal.
— Cara, mas… Olha pra você, ! Como que você considera isso uma mera briga de bêbado? Qual foi o motivo que esses caras tiveram? Você precisa me contar…
— Eu acabei de te contar tudo que aconteceu. Ou melhor, do que eu lembro que aconteceu. Sinceramente, essas coisas não importam agora, eu só sei que eu tô bastante exausto e preciso descansar antes de terminar os relatórios pra aula de amanhã e…
— Você tá maluco? — ele me interrompeu, colocando uma mão em meu ombro — Desde o ensino médio eu não te vejo com tantos curativos, e você era mestre em arrumar briga naquela época. Se estava com problemas, por que não me ligou? O que você arrumou dessa vez que eu também não podia ajudar?
… Que isso, cara, também não é pra tanto. Eu realmente sinto muito por ter sumido do nada, foi vacilo, eu sei. Mas eu estou bem, é sério.
— Como seu parceiro, eu sei que você está bem. E não vou dizer que não é do seu feitio se meter em pancadarias porque sabemos que não é bem verdade. — ele deu de ombros — Mas desde que nos mudamos você parecia mais calmo, de bem com a vida, e você sabe qual seria a reação da sua mãe se recebesse uma ligação da polícia de NY com uma cobrança de fiança?
, sei que foi atípico isso acontecer em uma festa, mas coisas acontecem pela primeira vez. Eu prometo que tomarei mais cuidado da próxima.
Lancei-lhe um sorriso tranquilo, sem mostrar os dentes, e ele pareceu engolir a minha história — não que ele fosse me deixar em paz sobre os detalhes dela.
— Tudo bem, . Mas o que raios aconteceu? Onde você se meteu nessa confusão? Nem vem inventar desculpas porque eu vi seu carro até o final da festa.
Passei as mãos na cabeça e tentei pensar. Eu sabia de algo que faria acreditar no mesmo minuto, mas tinha plena certeza de que provavelmente ele não me deixaria em paz.
— Encontrei uma colega do departamento.
Os olhos dele brilharam de empolgação.
— Tá zoando! — ele riu — E aí, como foi? Vocês foram pra um dos quartos? Como é o nome dela?
— Não lembro. E devo dizer que até agora não dormi direito, então se você puder me deixar descansar…
— Mentira! Foi tão bom assim? Não acredito como pode não me contar isso assim que cheguei…
Foi uma dor de cabeça me livrar dele depois dessa. Deixei explícito que eu não me lembrava quem era a tal garota e que não me lembrava de absolutamente nada entre nós e, por mais suspeito que fosse, apenas aceitou por causa do meu “jeito fechado” e consegui expulsá-lo amigavelmente do meu apartamento, alegando o quanto eu precisava dormir.
O efeito dos analgésicos estavam passando e a dor que eu tanto evitava estava dando caras às caras, então sem nem pensar duas vezes engoli dois comprimidos e caí no sono antes que eu pudesse chegar ao quinto carneirinho.