How You Remind Me

How You Remind Me

Sinopse: “E é assim que você me faz lembrar de quem eu realmente sou”.
A principal da história perde a memória, após ser atropelada, quando ela volta para sua cidade natal tem ajuda do seu amigo de infância para ajudá-la a lembrar dos momentos em que viveram juntos. Mas, e da paixão que ela sente por ele, será que ela vai querer se lembrar?
Gênero: Romance
Classificação: 16 anos
Restrição: contém palavrões e insinuações a sexo
Betas: Rosie Dunne

Capítulos:

CAPÍTULO I
 

Estava sentada na varanda da minha antiga casa em Busan olhando para o jardim lindo e bem cultivado na frente da residência, fingindo estar calma com o que estava prestes a acontecer. O clima era agradável, o que me possibilitava vestir apenas um cardigã por cima da blusa. Disseram-me que nessa época do ano costumava fazer muito frio por aqui, mas não era o que acontecia hoje. Disseram, do verbo eu não lembro nem como as estações funcionam em minha cidade a ponto de precisar que desconhecidos me contem a respeito. O tempo em Busan não era a única coisa que eu havia esquecido no último mês. Eu também não lembrava o meu nome, a minha idade, dos meus amigos ou sequer da minha família.
Eu não sabia qual era minha história; não sabia quem eu era.
Passei o dedo sobre a cicatriz em minha cabeça, trinta dias depois e ela ainda me intrigava. Respirei fundo frustrada com toda a situação, repassando mais uma vez a história que tinha escutado no hospital: , a moça que tinha sido atropelada e batido a cabeça forte o bastante para esquecer de si mesma. Esse era o jeito resumido de contarem minha história aos curiosos, já que por uma semana eu tinha sido atração principal do hospital em que estava. Até aquele momento, tudo o que eu sabia sobre mim tinha sido falado por terceiros, e eu me obrigava a acreditar, já que era o que me restava.
Após baterias de exames, fui diagnosticada com amnésia retrógrada e, por causa disso, todos os eventos que eu tinha vivido pré acidente seriam apagados por um período de minhas lembranças. De acordo com o Dr. Chang, poderia não ser permanente, mas talvez eu não tivesse minhas memórias de volta. Meu estado era incerto.
Eu, pelo menos, confiava que meu nome fosse , já que estava registrada assim em todos os documentos oficiais, a idade, pelo que constava era 23 anos. Eu oficialmente existia em meu país, mas a sensação de vazio me consumia diariamente, já que eu não conseguia me identificar tão bem com essas informações. Eu aprendia mais sobre mim a cada dia, mas não sabia se eram informações que me agradavam ou não. Era como se eu descobrisse aos poucos se gostava de mim mesma.
Além do meu nome e minha idade, em trinta dias soube que, apesar de ter crescido em Busan, atualmente morava há dois anos em Seoul e ganhava a vida sendo fotógrafa de moda na capital. Dividia o estúdio e o apartamento com uma das minhas melhores amigas, Chei Yura , já que não nos desgrudávamos desde que éramos crianças.
Mas, também descobri que tinha ficado órfã aos dez anos de idade: meus pais haviam morrido em um acidente de carro, na véspera do Natal, eu estava no carro com eles, mas, apesar do colisão brutal tinha saído apenas com um arranhão na testa. Era uma história triste, mas não me causava comoção naquele momento. Não conseguia ficar triste pelo casal uma vez que nem sabia quem eram.
Depois do acidente a minha tutela foi entregue a tia Hyuna, irmã gêmea da minha falecida mãe. E eu gostava de Hyuna, era uma companhia confortável durante minha recuperação, éramos muito parecidas fisicamente o que dava mais segurança de estar com alguém da família. Tia Una, como eu sempre a chamara, de acordo com a própria, me contava tudo o que eu questionava de uma forma paciente e tranquila. Eu não me sentia estranha em falar com ela.
Inclusive foi Una quem me falou sobre os detalhes do dia do acidente: o motorista que havia me atropelado estava bêbado e dirigia muito rápido, por isso, não tinha dado o tempo de eu desviar do carro. A pancada tinha sido forte, e por sorte não tinha fora fatal, então, sair sem a memória ainda tinha sido o meu maior lucro. Yura foi a primeira a chegar ao hospital, e foi ela quem ligou para tia Hyuna avisando sobre o ocorrido.
Yura me ligava todos os dias para contar histórias de quando éramos criança até nossa fase em Seoul, tinha esperanças que, em um desses telefonemas, viesse um lapso em meu cérebro e eu lembrasse de tudo, de repente. Doía-me não saber nada que Chei contava, as histórias eram divertidas e eu queria me sentir parte delas, mas não conseguia, por mais que a mulher se esforçasse.
Em uma das histórias de Yu, ouvi pela primeira vez o nome de , nosso melhor amigo. Ao que soube, éramos um trio inseparável em Busan e Seoul, já que morava na mesma cidade que nós. trabalhava como produtor musical em uma grande empresa da indústria fonográfica, e estava viajando a trabalho, para fora do país, por isso não havíamos nos encontrado ainda desde o acidente: o vai direto pra Busan assim que chegar na Coréia, ele me garantiu. E eu vou junto!” , foram as palavras de Yura em sua última ligação para mim.
O fato de estar voltando para Busan me preocupava, já que tinha descoberto por Chei que eu era apaixonada pelo homem desde criança, e, mesmo que atualmente, ele namorasse há um ano eu continuava com o amor platônico. O verdadeiro clichê, dizia ela o tempo todo. Por sorte, nunca soubera desse amor que eu nutria por ele, já que o rapaz nunca fez questão de retribuir o sentimento.
tinha chegado à Seoul na noite anterior e já estavam a caminho de Busan. Por isso, eu estava com meu cardigã sentada na varanda da minha antiga casa, olhando para um belo jardim e ansiosa para conhecer o homem que, além de ser meu melhor amigo, era supostamente o meu amor. Minhas mãos suavam e minha boca estava seca. Eu estava nervosa, não por encontrar , mas por me agarrar a esperança que ele pudesse resgatar alguma lembrança em mim. Eu odiava ser uma folha em branco.
Dez minutos depois, eu vi o carro preto estacionar na entrada da casa da tia Hyuna, fiquei em pé aguardando por minhas visitas. Senti o coração acelerar e a ansiedade tomar conta de mim: uma coisa que eu tinha descoberto sozinha em trinta dias era que era uma mulher bastante ansiosa. Talvez eu parecesse uma criança esperando pelo brinquedo de natal chegar, mas não me importava, mantive minha posição até que os dois saíssem do veículo.
A primeira a descer do carro foi Yura, ela veio até mim, sem pudor esticando os braços para me abraçar. A mulher cobriu meu tronco em um abraço caloroso. Chei era mais alta que eu, o que facilitava seu domínio sobre meu corpo, ela confessou ter sentido minha falta nos tempos que tínhamos ficado separadas, e eu não reagi a nada do que ela disse. Meu corpo involuntariamente encolheu um pouco dentro dos braços delas, e assim que percebeu minha reação a mulher se afastou.
Decepcionei-me ao ver a tristeza no rosto de Yura, eu tinha sido rude sem necessidade. Em um impulso levei minha mão ao rosto dela e apertei bem devagar sua bochecha, parecia o certo a ser feito, ou não, porque a mulher a minha frente vez uma expressão de surpresa com o gesto, e eu imediatamente tirei minha mão de perto dela.
– Ei, pequena!
A voz suave de tomou conta dos meus ouvidos, não imaginava que era tão agradável escutá-lo. Inclinei meu corpo para o lado permitindo que meus olhos encontrassem com o homem que subia lentamente os degraus da varanda. era maior do que supôs pelas fotos, seus olhos eram escuros, mas doces. E eles estavam fixos em mim. Ele sorria, mas eu não.
Fiquei parada, observando os movimentos de , que já estava próximo demais. Para minha surpresa, o homem andou até mim, e sem hesitar abraçou-me com carinho. Eu continuaria com meus braços baixos, achando constrangedor aquela cena toda, mas pensei que talvez abraçar me levasse a algum lugar do passado. Por isso, passei meus braços por seu tronco e o abracei também. Era bom, os braços dele eram aconchegantes, seguros e quentes, mas nada além disso. Nada!
Rompi nosso abraço brutalmente e desabei na cadeira atrás de mim.
– Desculpa. Eu realmente…- levei minhas mãos até meu rosto para esconder minhas lágrimas que insistiam em cair – Eu realmente não lembro de você. Eu devia lembrar de vocês dois, mas eu não consigo.
Era dolorido estar ao lado das duas pessoas que me acompanharam durante a vida inteira e não recordar de nada. Era frustrante estar ali com eles e não conseguir sentir nenhuma emoção. Eu não queria mais ser uma história narrada pelos outros, eu quero voltar a ter as rédeas da minha vida. Eu queria voltar a ser eu, por mim mesma.
Os dois estranhos me abraçaram com uma intimidade que me incomodava, aquela atenção além do necessário estava me fazendo mal. Eu não queria compaixão, muito menos pena, enxuguei minhas lágrimas e dei um jeito de afastar os dois de mim, o meu incômodo foi evidente para eles, mas eu não me importava mais. Levantei da cadeira e andei até a porta:
– Hyuna fez bolo e chá pra gente, tem muita coisa para ser conversada e eu preciso de comida para deixar isso mais fácil.
Entrei em casa e ouvi passos me acompanhando, a mesa estava linda com variedades de comida para o chá da tarde. Servi chá para nós três, o silêncio era constrangedor, por isso achei melhor quebrar o gelo antes que passássemos a tarde toda encarando uns aos outros.
– Me contem da época da escola, de quando morávamos aqui em Busan: preciso saber de tudo!
Yura prontificou-se a contar tudo sobre a nossa infância, não sobrava espaço para que participasse da conversa. Olhei pra ele com cumplicidade, ele entendeu e sorriu o vi dizer em silêncio: deixe ela falar. Entendi que, dos três, Chei Yura era a que mais falava, e que eu e tínhamos facilidade em nos comunicar com o olhar, já que era isso que fazíamos enquanto escutávamos Chei.
– … assim que formamos no colégio nós fomos para Seoul, montamos o estúdio e alugamos o apartamento. Aliás, você sabia que temos um gato chamado Romeu? Ele é lindo e laranja, foi você quem deu o nome a ele. Outra coisa que você deve saber sobre você é que Romeu e Julieta é sua história de amor favorita…
Yura era capaz de falar sem parar para respirar, eu olhei para assustada com a habilidade da mulher ao meu lado. Ele começou a gargalhar e eu o segui, aquele era o momento mais sincero que tínhamos tido até então. Além de ter sido o momento em que Yu tinha parado de falar finalmente. .
– Você não para nem pra respirar. Como é possível? – eu não achava que fosse errado dizer aquilo, nem Yura demonstrou estar ofendida com minhas palavras.
– Você sempre diz isso , e nunca consegue entender que é mais forte do que eu. – uma sensação estranha apoderou de mim ao ouvir o “você sempre disse isso” dela.
– Tá tudo bem, pequena? – havia percebido minha perturbação.
– É só que, é a primeira vez que alguém diz que eu fiz alguma coisa que eu tinha costume de fazer antes. Eu senti que eu não me perdi pra sempre, sabe?
Antes que Yura começasse a chorar, ela me disse num tom delicado, olhando direto em meus olhos:
, lembra quando eu cheguei e você apertou minha bochecha? – eu assenti com a cabeça e ela continuou a falar – Você sempre faz isso também, pelo menos quando acha que eu estou ofendida com alguma coisa. É a sua forma de me compensar por ter sido rude comigo. Você não mudou nada , só se esqueceu um pouquinho de como era – sorri sem graça, e para agradecer passei minha mão por sua bochecha. Eu me sentia cada vez mais ligada aquela mulher ao meu lado.
– Se me dão licença meninas preciso ir ao carro buscar uma coisa para mostrar pra vocês.
Observamos ele abrir a porta e voltar em menos de um minuto, em suas mãos havia um álbum de fotos de capa vermelha. Ele agachou ao meu lado da cadeira e me mostrou o objeto.
– Esse foi o presente que você me deu no aniversário desse ano – ele me entregou o álbum – Muitas dessas fotos foram tiradas por você mesma – ele disse enquanto olhava para mim – As outras são de momentos nossos ao longo desses anos de amizade. Eu trouxe na esperança que te ajude, de alguma forma, e quero que você me devolva assim que lembrar de tudo de novo. – com delicadeza e ainda sem tirar os olhos dos meus pegou minha mão e a beijou antes que pudesse continuar o que dizia – Eu te amo , e preciso da minha amiga de volta – uma lágrima escorreu pelos olhos dele fazendo com que as minhas começassem a cair também – E eu vou fazer de tudo para sua memória voltar, isso é uma promessa.
Senti que as palavras eram verdadeiras, eu confiava em e sabia que ele me ajudaria no que fosse preciso. Não resisti e o abracei com força para que ele soubesse que acreditava nele, olhei por cima dos ombros dele, e vi Yura chorando também, fiz um sinal para que ela se juntasse ao nosso abraço. Então, ali na sala, estávamos nós três unidos como se fossemos um, e pela primeira vez tive a sensação de estar entre amigos.

 

Capítulo II
Quando eu pedir, você dá play: Blood Brothers
Já estava quase anoitecendo quando fora embora, ele ficaria na casa dos pais que ainda moravam em Busan. Combinamos de sair mais tarde, para matar saudades da cidade e de nós três juntos. Fiquei sem graça de falar que eu não estava sentindo saudades de nada, mas não queria estragar o clima. Yura tinha subido para meu quarto a fim de dormir um pouco antes de sair, mesmo que tivesse família na cidade, a mulher preferia passar o tempo na casa de Hyuna com a gente, eu já desconfiava de que Yun não fosse tão próxima de seus pais já que não falava muito sobre eles.
Estava secando a louça quando tia Una chegou em casa, vi quando ela deixou sua bolsa na mesa da sala e veio sentar no balcão que separava a cozinha do outro cômodo da casa.
– Quer ajuda, pudim?
Pudim era uma maneira carinhosa que ela tinha de me chamar, demorei um pouco pra me acostumar, mas com o tempo acabei achando engraçado e fofo. Virei em sua direção para podermos conversar melhor, ainda secando a tigela que estava em minhas mãos.
– Não precisa, eu estou terminando já – sorri agradecida com a oferta – Obrigada. Como foi no trabalho hoje? – depois de secar a tigela encostei-me a pia para ficar alinhada a ela, mostrando a mulher que eu estava interessada na conversa.
– Foi um dia produtivo. Sabe aquelas histórias: A Dragon’s Dynasty e Mikrokosmos? Que são de autoras independentes? – balancei a cabeça em afirmação para que Hyuna continuasse – Então, aprovamos e os livros serão publicados – sorri com sinceridade, porque a alegria dela ao mencionar o trabalho me fazia sentir bem – Amo encontrar novos talentos.
Tia Hyuna trabalhava em uma pequena editora de Busan, ela era responsável por encontrar histórias novas para publicar, mas o que os chefes de Una não sabiam era que sua maior fonte de autores independentes era os sites que hospedavam fanfics. Tia Una sempre me falava sobre as fics que lia, algumas eu acompanhava a leitura com ela. Inclusive, as duas mencionadas tinham sido sugestões minhas, me sentia orgulhosa da minha colaboração com o trabalho dela nesse momento.
– Obrigada por sua ajuda quanto a essas histórias, eu as amo e tenho certeza que serão os novos sucessos da editora – eu balancei a cabeça firme, concordando com o que ela tinha acabado de falar. Hyuna abriu um sorriso e colocou o queixo entre as mãos, que estavam apoiadas na pedra do balcão – Mas, me conta você: como foi a tarde hoje? – antes de me deixar responder olhou por trás dos ombros como se estivesse procurando por alguém – Cadê os meninos? Achei que encontraria com eles aqui quando chegasse.
– Hyuna, eu preciso te dizer uma coisa – inclinei meu corpo em direção ao dela, encarando a mulher com seriedade – Os meninos já cresceram, são todos adultos. Já viu o tamanho do ? – abri os olhos demonstrando surpresa enquanto levantava a mão direita por cima da minha cabeça tentando mostrar a altura do homem que tinha recebido – Pois é, cresceu! – ela riu com uma leveza que eu adorava ver – Mas, foi estranho encontrar com os dois juntos.
– Estranho? – ela engoliu em seco. O carinho que tia Uma sentia por meus dois amigos era nítido, então pensar que algo poderia ter dado errado em nosso encontro a incomodava.
– É, estranho – joguei o pano que usava para secar os utensílios sobre o ombro – Como se não fosse esquisito ter eles ao meu lado, por mais que, nesse momento, eles sejam desconhecidos para mim.
Hyuna fez uma careta ao ouvir a palavra desconhecidos e tampou os ouvidos com os dedos, fingindo não escutar. Tombei a cabeça observando com agrado a palhaçada que a mais velha fazia em minha frente, era fácil conversar com Tia Una ou só estar em sua companhia.
– Yura está aqui ainda? – pisquei os olhos confusa, porque por mais que fosse uma pergunta a indagação era carregada de certeza – Yun geralmente não fica na casa dos pais – Hyuna abaixou os olhos sem graça com o assunto – A casa dela é a nossa casa, mas esse não é um assunto para agora – ela deu de ombros enquanto voltava os olhos para mim.
– Então, acho que a resposta é óbvia, né? – minha vez de dar de ombros – A Yura está dormindo no meu quarto, descansando um pouco.
– Lembrou de alguma coisa importante, pudim? – a mudança de assunto tinha sido repentina, o que me assustou um pouco.
Abaixei a cabeça olhando pro meus pés cruzados, não aguentava mais aquela pergunta, mesmo que eu soubesse que era por ansiedade e que Hyuna não fazia por mal. Porém, o que mais me incomodava era a resposta que eu dava todos os dias:
– Não, ainda não lembro nada.
– Sinto muito por isso. Deve ter sido difícil para você – ela respirou fundo antes de continuar – Constrangedor.
– No começo sim, mas depois eu gostei da companhia dos dois. Não foi tão difícil assim – sorri abertamente e desgrudei meu corpo da pia e indo direto até ela. Parei do outro lado do balcão apoiando meu corpo para alcançar a sua bochecha e então beijá-la com carinho – Vou subir pra tomar banho e me arrumar, te vejo daqui a pouco.
Em um mês eu tinha criado um vínculo grande com Hyuna, poderia conversar qualquer coisa com ela, nós tínhamos os nossos próprios momentos e isso me deixava mais relaxada ao lado dela: ler fanfics, assistir doramas ou até mesmo nosso companheirismo em resolver palavras cruzadas em jornais matinais. Hyuna já tinha provado que eu poderia correr para seu colo sempre que precisasse, e eu suspeitava que isso seria constante.
Encontrei Yura em sono profundo quando entrei no quarto, fui direto para banheiro tomar meu banho e vinte minutos depois sai para chamar a mulher que levantou resmungando algum tipo de ofensa para mim. Fiz uma anotação mental de nunca mais acordar Yun por qualquer que fosse o motivo.
O nosso destino seria um bar não tão famoso da cidade: o Jenny’s house que era do senhor Xang, um sul coreano apaixonado pela cultura estadunidense. Yura tinha me contado que o Jenny’s house não era bem visto no bairro no começo, principalmente pelos moradores mais velhos, mas com o tempo a ideia de ter algo de outra cultura no local começara a agradar algumas pessoas. Principalmente a , que era louco por música desde sempre e enxergava no Jenny uma oportunidade de ter contato com artistas diferentes do que ele estava acostumado.
Entendi que o Jenny era o nosso refúgio desde a adolescência, por ser um ambiente que não era frequentado por muitas pessoas, acabava que se tornava quase o nosso local. O senhor Xang sempre deixou que frequentássemos o bar, até determinada hora da noite e sem nenhum consumo de bebida alcoólica, enquanto o nosso trio ainda era menor de idade. Era um risco para o proprietário, mas ele gostava muito da gente, principalmente, de para se arriscar a tanto.
Animei-me com o fato de que conheceria um lugar que fora importante para minha juventude, me concentrei em passar minha maquiagem enquanto Yura saía do banheiro, ainda mal humorada por eu tê-la acordado. Enquanto observava a mulher colocar seu vestido, algo pairou sobre meus pensamentos, mordi os lábios inferiores enquanto ponderava sobre perguntar ou não a Yun o que me incomodava. Coloquei o batom vermelho de lado, decidida a iniciar a conversa que me deixaria constrangida.
-Yura, tem uma coisa que eu preciso saber – ela penteava o cabelo em frente ao espelho e limitou-se a apenas fazer um barulho com a boca me incentivando a continuar a falar – Sabe quando você disse que eu era apaixonada pelo ?
– Loucamente apaixonada – ela continuava concentrada em sua imagem refletida em sua frente – Sim, eu me lembro.
Loucamente apaixonada soava como algo que me fazia parecer uma menina boba que amava seu melhor amigo. Não conseguia me imaginar prestando aquele papel tolo, mas entre nós duas, Yura, naquele momento, era a que mais conhecia o meu passado e talvez eu tivesse sido essa menina boba mesmo. Frisei os lábios decepcionada.
– É que eu queria saber se o – falei devagar, constrangida com o rumo que estava levando o nosso assunto – Bem, se ele correspondia esse meu amor por ele – corei com a pergunta, não era uma loucura que eu quisesse saber se o cara que eu tinha sido apaixonada um dia sentisse o mesmo por mim, não é?
– Não – Chei respondeu seca sem se importar em conferir minha reação quanto sua resposta – Ele nunca sentiu nada por você que não fosse amizade – encolhi meu corpo envergonhada com o que escutava – Para ele, relação amorosa com qualquer uma de nós poderia ser chamada de incesto. – ela me olhou pelo espelho – Palavras do próprio – Yura levantou os braços como se não tivesse culpa sobre o que falava – , acho bom você usar esse seu probleminha aí – ela fez questão de apontar com o indicador pra minha cabeça – pra esquecer esse amor por ele. Sério, não vale a pena – eu percebi que ela falava aquilo por estar cansada da velha se arrastando para o amigo de infância – Me empresta o batom?
– Eu era tão ridícula assim? – mesmo que Chei tivesse tentado mudar o assunto eu insisti em continuar a falar sobre.
– Não, na verdade ele nem sabe desse sentimento pra te achar ridícula, só eu sei disso – pela primeira vez desde que eu a acordei Yun baixou a guarda e me abraçou por trás da cadeira, e depois de um suspiro piedoso concluiu sua fala – Eu só te disse isso porque sei o quanto você sofreu em silêncio por causa dele. Digo, todas as namoradas que ele esfregou na sua cara, todas as histórias de amor passadas com as outras e você teve que escutar sem reclamar – ela falava com cuidado agora – Sei lá, é só que dizem que de tudo a gente precisa tirar algo positivo e, vai por mim, esquecer que você ama o é a melhor coisa que podia ter acontecido disso tudo que você tem passado .
Então Yura deu um beijo na minha bochecha e soltou-se de mim e assumindo outra expressão, dessa vez abrindo um sorriso largo enquanto pegava o batom em cima da penteadeira. Ela era uma boa amiga.

Xx

chegou dez minutos depois daquela conversa, ficamos por um tempo conversando com Hyuna antes de sairmos de casa, a relação deles com minha tia era calorosa o que me fez imaginar que eram tão próximos dela quanto de mim. Eu já não estava motivada mais como antes, mas me obriguei a sair com os dois mesmo assim, não queria estragar a noite de ninguém.
Obriguei Yura a sentar-se no banco de passageiro do carro, ao lado de , o comportamento tinha assustado um pouco os dois, já que pelo que parecia eu sempre sentava na frente com ele. Não sei se pelo incômodo da situação ou por curiosidade, mas os olhos de me encaravam sempre que podiam pelo retrovisor. A cada momento que nossos olhares se encontravam, eu remexia discretamente sobre o assento em que estava. me intimidava, mesmo sem intenção.
Eu tinha ficado com uma imagem patética sobre mim mesma depois de escutar tudo que Yura havia dito a respeito dos meus sentimentos por ele. Eu o encarava, mas não conseguia deixar que a culpa fosse atribuída apenas a ele. Não observando aquele brilho inocente que ele mantinha em seus olhos; não com aquele sorriso reconfortante. Senti o calor confortar meu peito, era uma sensação diferente do que eu já tinha sentindo antes. Abaixei os olhos para desviar minha atenção de .
Eu aproveitaria dessa minha nova vida pra fazer dele o meu irmão, assim como eu era pra ele. Eu não amava naquele momento e as coisas ficariam assim de agora por diante. Olhei pela janela enquanto a paisagem passava por mim, eu fingia me ater sobre as coisas fora do veículo, porém por dentro eu estava prometendo a mim mesma que não me apaixonaria novamente por .
Quinze minutos de carro e finalmente estávamos parando em nosso destino, o Jenny’s house era bem agradável, pequeno e um pouco escuro, mas combinava com a proposta do lugar. O estabelecimento estava mais para um pub do que para um bar, tombei a cabeça confusa quanto ao senhor Xang saber que seu local tinha mais influência britânica do que norte americana. Abri a boca para falar algo sobre, mas antes de dizer qualquer coisa vi balançar negativamente a cabeça me impedindo de continuar qualquer assunto. A nossa comunicação silenciosa continuava infalível.
O senhor Xang nos recebeu gentilmente e não fez perguntas constrangedoras sobre o acidente, me tratou como se estivesse me conhecendo pela primeira vez. O mais velho demonstrava empolgação ao nos ver em seu bar novamente, se mostrava simpático para com o senhor que conversava sem parar enquanto observava melhor o espaço que adentrávamos. A decoração do Jenny era inspirada no rock clássico com várias fotografias de lendas da música espalhadas em suas paredes pretas. Eu conhecia a maioria dos artistas, não sei como, mas me lembrava deles com facilidade e de algumas músicas também.
Era segunda-feira e, por isso, o lugar não estava cheio, mas tinha um número considerável de pessoas ocupando as mesas do ambiente. Senhor Xang nos acompanhou até a mesa no centro do bar, queria que ficássemos em um lugar privilegiado. Não demorou muito até que Andrew, filho e garçom do senhor Xang viesse ao nosso encontro. Suspeitei pela forma com que Yura olhou para o rapaz de que ele era um velho conhecido nosso, talvez bem mais conhecido de Yun. Andrew serviu cerveja para e Yura enquanto eu pedi apenas uma água com gás. Eu rejeitava qualquer coisa que me fizesse ter a possibilidade de esquecer fatos.
Uma hora depois, Andrew permitiu-se sentar à mesa com a gente, já que o bar não estava tão cheio, confirmando minhas suspeitas de que ele era um velho conhecido nosso, sendo mais próximo de Yura do que eu imaginava. As conversas e as risadas foram ficando mais altas ao decorrer dos copos de cerveja ingeridos, chamando atenção de outros frequentadores do lugar. Eu não me importava, achava divertido estar com eles, aproveitando o momento.
Alguns goles de cerveja a mais e , que estava sentado ao meu lado, apontou para uma foto em preto e branco que estava na parede. Era um homem, vestindo uma camisa de flanela com um violão em mãos e um microfone na frente.
– Bruce Springsteen – ele se aproximou para que eu o ouvisse bem – A gente, eu e você, costumávamos ouvir os CDs dele deitados no chão do meu quarto. Você gostava muito dele também.
– Conheço Springsteen – e de fato conhecia o cantor, mas não sabia que era uma fã dele – Minha música favorita é My Hometown e a sua? – Hyuna tinha escutado essa música há algumas semanas atrás, e ela só era a minha favorita porque era a única que eu conhecia dele.
Olhei pra esperando a resposta, mas o encontrei com expressão de susto me encarando de volta. Será que era reação típica da bebida sobre ele ou eu tinha falado alguma coisa errada?
– Mas a sua música preferida dele sempre foi a nossa música – ele disse assustado com o que eu tinha acabado de dizer.
– Como assim? Nós temos uma música do Springsteen? – eu ri de maneira divertida sustentando o meu olhar sobre o dele, mas percebi que ele falava sério ao continuar me encarando assustado – Qual é a nossa música ?
Ele se aproximou um pouco mais de mim, o que me fez sentir uma leve palpitação. Ele chegou perto do meu ouvido, fiquei tensa ao ouvir a voz sussurrada de próximo demais, fazendo minha respiração ficar mais contida.
– Eu e você temos uma música. É uma coisa só nossa – ele abaixou mais o tom de voz, confirmando que aquilo era segredo – Não conta a Yun, por favor, ela pode ficar chateada – senti o seu cheiro amadeirado que misturava com o da cerveja em seu hálito, era uma mistura agradável – Toda vez que eu escuto ela eu me lembro de você, às vezes só escuto pra lembrar de você.
Sem aviso foi até a Jukebox que estava perto de nós, ao mesmo tempo vi Yura e Andrew levantando de suas cadeiras e sumindo de minha frente, o clima entre os dois tinha ficado quente enquanto eu me perdia em pensamentos em . Voltei a atenção para o cara que tinha me prometido uma música do Bruce e claramente estava tendo problemas com a máquina, devido o seu recente abuso de álcool. Eu podia levantar e ajudá-lo, mas não queria porque era uma cena engraçada e fofa demais para perder. Depois de tanto insistir ele conseguiu vencer o aparelho e voltou para o meu lado em tempo de eu escutar as primeiras notas do violão:
Coloca a música pra tocar.
Enquanto Springsteen nos agraciava com sua voz, enquanto o homem sentava ao meu lado, o senti envolver minha mão com a sua. O toque dele em mim era macio, provocava calafrios em mim. Mas tão bom que me impedia de tirar a mão da dele. Olhei para o rapaz que demonstra felicidade ingênua por estar compartilhando um momento só nosso. Ele cantava junto com o Bruce, a combinação das vozes era linda.
Era uma cena bonita de acompanhar, me fazia ficar perdida naquele momento. Não estava prestando atenção na música: minha atenção era em , no toque de nossas mãos e em como meu coração respondia aquilo. Mas eu não podia. Não mais. Afastei meus pensamentos, me endireitei na cadeira dando um jeito de tirar minha mão debaixo da dele, e finalmente prestei atenção em um pedaço da música.

But the stars are burnin’ bright like some mystery uncoverd
(Mas as estrelas estão queimando brilhante como algum mistério descoberto)
I’ll keep movin’ though the dark with you in my heart
(Vou continuar movendo no escuro com você em meu coração)
My blood brother
(Meu irmão de sangue)
A canção tinha acabado e eu não acreditava que aquela era a nossa música. Irmãos de sangue?! Mas ele sabia que não éramos filhos dos mesmos pais né? Fiz uma careta ao lembrar das partes que eu tinha conseguido absorver da música. Eu não tinha gostado. Na verdade eu tinha odiado a música porque ela era declaração de tudo o que Yura tinha me falado horas antes em meu quarto. Entre mim e o era apenas fraternidade e nada mais.
– E aí, gostou da nossa música? – ele me perguntou feliz enquanto bebia a cerveja em seu copo.
Eu poderia mentir, que provavelmente foi o que fiz durante anos, mas em defesa dos sentimentos da antiga eu preferi pirraçá-lo.
, eu quero outra música pra ser nossa, eu achei muito clichê e muito masculina – disse firme enquanto olhava para ele – Não achei boa, na verdade – ele não gostou do meu comentário, algo havia o ofendido e quase me arrependi, mas não voltei atrás. Sustentei minha expressão séria e continuei a encarar seus olhos castanhos.
– Ok, senhorita estraga prazeres, você pode achar uma música nova para ser nossa. Eu duvido que consiga algo melhor que o Bruce, mas vou te dar essa chance.
– Desafio aceito!
Minha cabeça ainda martelava ao som de Blood Brothers, aquilo de ser uma irmã para estava nitidamente me incomodando e eu não sabia o motivo. Eu não era apaixonada por ele, não a atual, a que não lembrava dos motivos para amar .
Mas, algo surgiu em meu pensamento no mesmo instante: despertava em mim sentimentos antigos, mesmo que indiretamente. Eu não estava me apaixonando por ele, mas sim resgatando a velha que eu tinha perdida em algum lugar. Olhando pra eu sorri, agradecendo mentalmente por ele estar me trazendo um pouco meu de volta. Ele sorriu, apenas por me ver sorrir.

Capítulo III
– Vamos , me diz onde é a sua casa que eu te acompanho até lá – era a décima vez que eu falava isso a ele e, pela décima vez, ele negava energeticamente a dizer.
– Já disse que não lembro, olha pra mim – em um gesto teatral ele apontou para si – eu não tenho condição de lembrar de nada, nem mesmo do caminho de casa – olhei para ele sem acreditar em um palavra que falava. Ele estava alcoolizado o bastante para eu confiscar a chave do carro dele, mas esquecer do caminho de casa eu tinha dúvidas – é a lei da nossa amizade: eu bebo, Yura bebe e você cuida da gente. – continuei com os braços cruzados olhando para ele perdendo a paciência com a situação – Tá bom, você tem duas opções: me leva pra casa da Hyuna e deixa eu dormir lá ou eu fico aqui esperando meu cérebro voltar a funcionar – ele bufou derrotado – O que vai demorar! E hoje está muito frio e eu posso até morrer congelado aqui fora…
– Meu Deus, quantos anos você tem? – cortei o homem antes que ele continuasse a listar as tragédias que poderiam acontecer a ele e resolvi ceder à chantagem emocional barata – Você consegue andar até o táxi pelo menos, ou eu vou precisar te carregar?
Demonstrando uma agilidade incrível para quem estava bêbado, abraçou-me pelo ombro e me guiou até o táxi mais próximo, eu tinha me recusado a dirigir o carro dele até a casa de Hyuna. Busan era calma durante a madrugada, por isso não demoramos a chegar a casa. Ainda com pendurado em meu ombro, subi as escadas para mostrar o quarto de hóspedes, no qual ele iria dormir, dei a ele cobertores e toalhas limpas. Depois de desejar boa noite segui para o meu quarto.
Yura tinha saído mais cedo do Jenny’s house com Andrew, e minha intuição dizia que ela não voltaria para casa essa noite. Senti o cheiro de cerveja e cigarro por meu corpo, por isso, decidi que era hora de tomar banho. Ao mesmo tempo que sentia a água quente cair por minhas costas, ouvi o chuveiro do banheiro social sendo aberto, afastei a visão de no banho enquanto ainda conseguia controlar esses pensamentos. Minutos depois sai apropriadamente vestida com meu pijama e dei de cara com no meu quarto, apenas com uma toalha envolta em sua cintura, abrindo meu guarda roupas.
, o que você tá fazendo aqui? – ele pulou ao meu ouvir falar, não tinha percebido minha presença até então – Pelo amor de Deus, não vem me dizer que esqueceu o caminho do quarto também.
– Engraçadinha – ele continuou a mexer no armário até pegar uma calça de moletom cinza e uma camisa branca- Só estou pegando meu pijama – ele me mostrou a roupa dando de ombros – Eu te disse que era comum você me trazer para cá no final da noite – eu ia protestar mas não tinha argumentos já que, aquelas peças masculinas, definitivamente, não eram minhas – Com licença pequena – ele disse e me fazendo dar um passo para o lado, dando espaço para que ele pudesse entrar no banheiro e colocar sua roupa.
A simples visão de apenas de toalha me perturbou de maneira que eu não conseguia explicar. Mesmo que eu quisesse, a minha mente repassava cada detalhe do corpo dele que tinha ficado à mostra: o abdômen definido, os ombros largos, os braços definidos. estava confortável em se apresentar daquela forma em minha frente, mas eu não, alguns hábitos entre a gente deveriam mudar. Ouvi a porta do banheiro abrindo atrás de mim, segundos depois senti o homem passar por mim, encostando levemente seu braço ao meu. Acompanhei os movimentos de até vê-lo jogar seu corpo em minha cama, ajeitando o travesseiro de um jeito mais confortável.
– Boa noite – falei mais como uma desculpa para que ele me deixasse sozinha – Eu estou com sono, a gente conversa amanhã. Ok?
– Tudo bem, eu também estou com sono – ele bateu a palma da mão da cama me convidando a deitar do seu lado.
– Mas você vai dormir lá – apontei com as duas mãos em direção ao quarto de hóspedes, percebendo que a porta do meu quarto estava fechada.
– Claro que não. Eu nunca dormi lá – me imitando ele apontou para mesma direção que eu tinha apontado antes e em seguida apontou para a cama em que estava deitado. – Sempre dormir aqui. Com você. Então deita aqui de uma vez.
Balancei a cabeça negando tudo aquilo
– Não , a Yun vem dormir aqui comigo e…
– E mais nada! Yura não volta aqui hoje, eu não acredito que você seja tão inocente de pensar isso – ele levantou e foi até mim ficando parado na minha frente. Eu não tinha dado um passo desde que tinha saído do banheiro – Por favor pequena, uma vez só vamos fingir que nada aconteceu e fazer uma coisa só nossa. Por favor!
Eu cedi a ele , mas só porque era tarde e estava cansada demais para travar uma batalha entre nós. Caminhei para a cama e deitei no espaço destinado a mim.
– Ok, mas você apaga a luz – disse a ele e consegui ver um sorriso vitorioso em seu rosto, em um segundo o quarto ficou completamente escuro.
Que tipo de amizade era aquela, afinal? Em um dia de convivência com ele percebi que éramos muito ligados, tinha um vínculo grande comigo. Era estranho ser tão próxima a alguém e nem sequer lembrar disso. Deixei que ele dormisse comigo não só pra evitar uma discussão mas, também, porque eu precisava me sentir protegida disso tudo que estava acontecendo comigo. E ele era a pessoa ideal para isso.
voltou para a cama, então ele me abraçou encostando a cabeça na volta do meu pescoço. O cheiro de sabonete invadiu meu olfato, senti-o roçar o nariz, bem de leve, na linha do meu pescoço me fazendo amolecer. Segurei forte a sua mão, que estava sobre minha barriga, fazendo movimentos verticais acariciando sua pele.
– Você é tão cheirosa, pequena – ele sussurrou as palavras de um jeito íntimo.
Ri, mais pelo efeito que a voz dele causou em mim, do que do próprio comentário. Eu não queria dizer nada, então não disse. Estava envolvida no momento sem me preocupar se era o certo ou errado, já que o homem ao meu lado tinha namorada e não deveríamos estar tão próximos. Estendi meu carinho para o braço dele, pelo menos até onde eu conseguia, a mão livre de acariciava minha barriga por debaixo da minha blusa provocando um espasmo com o choque de nossas peles. Ele aproximou sua boca do meu ouvido:
Virei meu corpo para poder ficar de frente a ele. Nossos rostos estavam a centímetros um do outro, eu conseguia sentir sua respiração e mesmo no escuro conseguia saber exatamente qual era a sua expressão. Passei minha mão por seu cabelo, e ele fez o mesmo comigo. Seu toque era calmo e aconchegante.
– Obrigada – sussurrei baixo, ele aproximou mais de mim encostando nossas testas, deixando o espaço entre a gente quase que inexistente – Obrigada por cuidar de mim, por ser paciente e por não desistir de mim.
Dessa vez foi ele quem não disse nada, mas segurou meu rosto até encostar de vez nossas bocas, foi apenas um selinho mas me fez sentir meu estômago dando voltas em uma sensação boa. Ele desgrudou nossas bocas e me deu outro beijo, só que dessa vez na testa.
– Boa noite, pequena!
– Boa noite, !
Virei meu corpo mais uma vez e fechei os olhos sentindo o braço dele me envolver de novo. Dormi em seus braços não tinha sido difícil.
Era um dia nublado, uma mais nova apareceu em meu sonho, estava sentada no meio fio, em frente a casa de Hyuna. A eu mais nova chorava e segurava um violão em suas mãos, em um canto do objeto estava escrito Haewon em uma grafia bonita e alongada. Eu assistia a cena de perto, mas a garota chorosa não percebia minha presença.
A garota não tocava o violão, apenas segurava o mais próximo do seu corpo, como se fosse um pedaço dela. Percebi a figura de um menino mais velho se aproximar, e sem hesitar sentar ao lado dela. Era .
– Oi, eu sou , moro aqui do lado. Nunca te vi por aqui. Qual é o seu nome?
, mudei ontem pra casa da tia Hyuna – ela não tinha parado de chorar e ainda mantinha o violão junto de si.
– É, e porque você está chorando pequena? – era dali que o apelido tinha nascido então, e olhando melhor para a cena eu compreendia o porquê de dizê-lo. A daquele dia estava menor do que de costume.
A garota olhou com desconfiança para ele, mesmo que eu tivesse “de fora” da lembrança, sabia quais sentimentos se passavam por ela naquele momento. Não queria dizer nada a um estranho, só queria sentir a dor sozinha.
– Tudo bem, eu vou embora então, só queria ajudar – não tinha mágoa nas palavras dele, mas compreensão – De qualquer forma, belo violão.
O menino pensou em levantar, mas fora puxado pela garota na mesma hora sendo obrigado a sentar outra vez. Ela não queria ficar sozinha. Lembrei da emoção que senti ao deparar com os olhos escuros do garoto sobre os meus: conforto. E isso tinha sido o gatilho que fizera a pequena contar tudo o que estava acontecendo com ele. Não conseguia ouvir as palavras dela, como se minha memória me sabotasse quanto a descobrir os detalhes de uma só vez. Mas pude ver ela mostrar o violão ao rapaz e dizer que pertencia ao pai dela. Mesmo sem saber tocar, a pequena não conseguia se desgrudar do instrumento.
– Me empresta seu violão um pouco? – mesmo hesitante a garota entregou o violão ao rapaz em seu lado – Pede uma música, qualquer uma e eu tocarei para você.
arqueou a sobrancelha, confusa com o que estava acontecendo.
– Eu não sei – ela deu de ombros – Pode ser a que você quiser – o corpo da garota encolheu um pouco mais sem o violão em seus braços.
– Que bom – ele abriu o sorriso genuíno – Eu só sei tocar uma música ainda, comecei a aprender recentemente.
O comentário tinha feito sorrir, e não era para agradar ao mais novo amigo, era porque ela tinha vontade. Sem esperar por mais tempo, passou os dedos pelas cordas fazendo o instrumento soar as primeiras notas. De novo não consegui ouvir a canção que ele tocava para ela, mas pude sentir a sensação que aquele gesto causara em mim.

Abri meus olhos subitamente, vi que dormia profundamente mas eu teria que interromper. Balancei o corpo dele até que ele acordasse no susto.
– O que foi – ele pulou ao acordar – Onde é o incêndio?
, o que você fez por mim no dia em que nos conhecemos?
– Toquei uma música com o violão do seu pai – ele tinha uma expressão assustada, ainda por eu ter sido acordado de forma bruta – Você estava chorando por causa do acidente e eu quis te ajudar.
Soltei um grito surpreso levando minha mão a boca, assustando mais ainda o homem ao meu lado. Levantei e chorei, como uma criança sem vergonha nenhuma. Eu tinha acabado de ter minha primeira lembrança concreta do passado. Aquilo tinha sido forte e emocionante, não conseguia me segurar. me abraçou sem saber o que estava acontecendo, fazendo carinho em minha cabeça tentando me acalmar.
o que está acontecendo?
– Eu lembrei – meu rosto estava inundado de lágrimas – Lembrei – Minha fala falhava – Do dia em que nos conhecemos. Foi uma lembrança ! – Pulei no colo dele e abracei com toda força, ele por sua vez rodava nossos corpos rindo abertamente para demonstrar a alegria daquele momento.

CAPÍTULO IV
Olhei ao redor, a praça perto da sorveteria estava vazia, a não ser por poucas crianças que passeavam com os pais por lá. Tateei a bolsa ao meu lado, na cadeira, com intenção de pegar a câmera e registrar algumas cenas que aconteciam ali. O gesto tinha sido em vão, já que eu não andava com a câmera mais a tira colo. Desde o acidente, aquele era o primeiro momento em que sentia vontade de tirar fotos, mesmo eu tendo aquilo como profissão. Guardei as mãos embaixo da mesa, frustrada por não conseguir fazer o que queria.
Olhei para , em minha frente, me encarando enquanto eu pensava sobre a vida. Franzi a testa, mesmo que fossemos amigos, ter o olhar dele sempre em mim, me deixava desconfortável. Pisquei algumas vezes, tentando esconder a vergonha que sentia com aquilo, o que fez com que ele sorrisse. Desviei o olhar do dele, me concentrando em Yura, que ainda estava no balcão experimentando os sabores de sorvete, já que se sentia indecisa em escolher os seus.
Nós três estávamos comemorando a minha primeira memória resgatada, que tinha acontecido na noite anterior. Os dois tinham decidido por tomar sorvete, visto que não conseguiriam beber depois da noite passada.
– chamei-o sem graça, queria perguntar o que precisava antes que Yura chegasse a mesa, ele olhou para mim com os olhos levemente abertos, respondendo apenas com um barulhinho típico dele – Ontem, quando você me beijou – engoli a seco, sem graça por continuar – Aquilo é comum entre a gente?
– Não, mas… – ele parou antes de continuar – Você não se lembra mesmo, né?
Ele parou com os olhos fixos aos meus, estava sério, ao ponto de parecer outro homem. E eu estava confusa, ele falava como se eu fosse obrigada a saber o que tinha acontecido entre a gente, e eu não lembrava de nada.
Eu não lembrava nada, e queria gritar isso a , mas ele estava apreensivo, como se esperasse uma resposta certa, eu hesitei em dizer qualquer coisa. Queria que ele me falasse o que estava acontecendo, mas percebi os nós dos dedos dele ficarem brancos devido a força que o homem fazia ao segurar a mesa. Era a primeira vez que eu o via inseguro daquela forma.
– Tudo bem – Yura finalmente tinha se juntado a nós, quebrando o clima, eu a agradecia por aquilo – Eu pedi um sundae porque não poderia escolher menos que quatro sabores.
Eu ri com o comentário, mas com o canto dos olhos vi apertar os lábios enquanto desviava o olhar para a praça. Eu poderia jurar que havia lágrimas em seus olhos. Yura estava alheia ao que acontecia e eu confusa. Toquei levemente minha mão direita na mão esquerda dele, a que estava tensa sobre a mesa. Deslizei o polegar devagar em sua pele, para que ele relaxasse. O que quer que fosse a gente superaria juntos. olhou novamente para mim, meneando a cabeça como concordância ao meu gesto. Seu rosto já estava mais leve, o que me fez ficar mais aliviada.
Lembrei que Yun ainda estava na mesa, entre nós, e quando olhei em sua direção ela mantinha os olhos fixos no cardápio. Sabia que a mulher só estava tentando disfarça que tinha reparado na cena que acontecera, já que não tinha necessidade nenhuma de pesquisar o que iria pedir mais. Soltei a mão de e, por sorte, nesse momento, os pedidos chegaram a mesa. Ninguém disse mais nada, todos concentram a atenção nas taças de sorvetes.
Não demorou muito para que o nosso grupo fosse embora, mesmo que o intuito tivesse sido para comemorar a minha lembrança, não se falou nesse assunto. Algo tinha acontecido entre mim e , e mesmo que não tivesse sido dito em voz alta, era o bastante para que não quiséssemos tocar em nenhum assunto por enquanto. E Yura, mesmo sem participar do momento, entendia e respeitava o nosso silêncio.
Por isso, quando disse que iria para casa a pé, nenhum dos dois protestou quanto ao meu pedido. Iam me encontrar na casa de Hyuna, mas só esse espaço entre estar sozinha e com eles me daria o tempo suficiente para me recuperar, o que valia para também. Ri sozinha enquanto andava: recuperar de quê? Eu não sabia e algo me dizia que não me contaria tão fácil.
A distância entre a sorveteria e a casa de Hyuna não era muito grande, mas eu andava devagar. Era proposital, porque quanto mais eu demorasse a chegar, mais tempo eu teria longe de , e ele de mim. Mas, mesmo que eu quisesse me afastar um pouco dele, minha mente estava ocupada por ele. Cocei a cabeça, com medo do que aquilo poderia significar. Eu não poderia me apaixonar por ele.
Não poderia me apaixonar outra vez por ele.
Ainda absorta em meus pensamentos, senti uma mão segurar de leve meu braço. Pulei com o susto que havia levado, o coração palpitava levemente. Olhei para o lado e um homem alto, sorria para mim. Era lindo. Os cabelos curtos eram pretos, vestia uma camisa social, mas pelo porte do corpo eu podia ver o quanto ele era musculoso.
– Oi? – disse a ele assim que percebi que o rapaz insistia em me olhar sorrindo. O sorriso do homem era lindo.
– Você não se lembra né? – ele bateu com a mão levemente na testa – Park Dakho – ele curvou-se em minha frente, me cumprimentando rápido, levantando-se em seguida – Estudamos na mesma escola.
– Ah, sim! – respondi sem nenhuma reação, um pouco sem graça com a situação – Eu estou com um pequeno problema – apontei para minha cabeça, sem vontade de explicar com detalhes o que acontecera.
– Tudo bem, eu sei do acidente – ele estava confortável com o que acontecia, mesmo que eu não estivesse – As notícias correm rápido por Busan – ele deu de ombros.
– E nós éramos bons amigos no colégio? – a pergunta era só uma forma de manter a conversa, não esta curiosa sobre isso.
– Nós namoramos, na verdade – ele riu alto no momento em que eu abri os olhos, espantada com a informação – eu fui seu primeiro namorado e sim eu era muito apaixonado por você – o homem era confiante quanto a situação, mesmo que eu tivesse chocada com o que recebia ele não se mostrava abalado.
– Ninguém me contou sobre você, desculpa – suspirei cansada ao pensar no quanto eu não sabia sobre mim.
– Deve ser difícil ter sua vida narrada por outros né? – ele passou a língua pelos lábios, o que era extremamente atraente – Deixa eu adivinhar? Yura e , seus protetores estão contando tudo o que você precisa saber?
Fechei o rosto, desaprovando o tom que ele usara para falar dos meus amigos. Não disfarcei o descontentamento, e ele não se abalou pelo que dissera e nem por minha reação. Dakho respirou fundo, enquanto colocava as mãos nos bolsos da calça, ele já não olhava para mim, ao invés disso, observava a rua ao nosso redor.
– Tudo bem você ficar com raiva sobre o que eu disse – ele não era rude, falava de forma delicada – Mas sempre foi assim: Yura e ditando o que você tinha que fazer ou não – ele agora olhava para mim, era um olhar doce, mas firme – Nosso namoro terminou por causa deles.
Eu olhei para o chão, sem saber o que pensar daquelas informações que tinha recebido. Mas, o que mais me incomodava era ouvir Park Dakho falar daquela forma sobre os meus amigos, as únicas pessoas, além de Hyuna, que estavam me apoiando desde o acidente. Senti a mão dele tocar meu queixo, me fazendo levantar o rosto para olhar novamente para ele.
– Desculpa, eu não deveria falar essas coisas assim – ele soltou meu rosto – Mas, eu tenho meus motivos para desconfiar do , e você deveria ter também – dei um passo para trás com intenção de me afastar do homem, estava pronta para ir embora – , você deveria tomar as rédeas de sua vida agora que pode, não deixe os dois te controlar como sempre fizeram. Você é uma mulher incrível.
– Tá, eu vou embora agora – não me preocupei em ser educada com o homem, já que ele estava me irritando, comecei a andar sem me despedir adequadamente.
– ouvi ele gritar meu nome, o que me fez virar em sua direção – Desculpa de novo, acho que não usei as palavras certas. Podemos sair e conversar melhor sobre isso, o que você acha?
– Melhor não – disse sendo direta – Mas, obrigada por me convidar.
Dei as costas ao homem me sentindo ridícula por agradecer pelo convite para sair. Mas, eu não tinha gostado de Dakho, mesmo que não lembrasse da nossa história, não me sentia confortável ao seu lado. E ele era meu ex, e isso tinha um motivo para ser. O homem não poderia culpar meus amigos pelo término. Arfei com raiva daquele encontro inesperado.
Eu realmente não tinha gostado de Park Dakho, não só pela arrogância quanto as pessoas que estavam ao meu lado, mas pela petulância do homem em duvidar da minha capacidade de discernimento.
Andei por mais cinco minutos chegando à casa de Una, antes que pudesse subir os degraus de acesso à varanda, vi sentado na poltrona rente a porta. A cabeça estava baixa e os olhos fixos nas formigas que caminhavam perto de sua bota. Ele não tinha me visto chegar, mas assim que dei o primeiro passo para ir de encontro a ele, o vi levantar a cabeça e olhar para mim.
sorria ao me ver aproximar, os olhos brilhavam novamente. Enquanto eu subia os degraus, ele levantou-se vindo encontro a mim, sem hesitar passou o braço por minha cintura, me abraçando delicadamente enquanto depositava um beijo em minha testa. Fechei os olhos, feliz por ver que tinha voltado ao seu estado normal.
– Yura está lá dentro assistindo séries – ele me guiou em direção a porta enquanto andávamos – Eu fiquei aqui te esperando!
– Eu sabia que você estava me esperando – disse sendo sincera.
Ele franziu o nariz ao abrir o sorriso de canto a canto, era a minha expressão favorita em . Encostei minha cabeça sobre seu ombro, mesmo não sendo tão confortável de andar nessa posição, continuávamos a caminhar. Devagar, aproveitando o momento nosso. Resolvi por não falar sobre Dakho a . Pelo menos não naquele momento.
Senti a mão de acariciar levemente a pele da minha cintura, por baixo da blusa, era a sensação mais gostosa que já tinha sentindo. E assim entramos em casa: junto e felizes, mas distraídos ao olhar que nos observava do outro lado da rua.

Nota da autora:
Oiiii!!! Tudo bem por aqui? Espero que sim! Pessoal, muito obrigada a quem vem aqui ler um pouco da história que escrevo, espero que vocês estejam gostando. Eu tento deixar How You Remind Me o mais leve possível, e espero que as coisas estejam indo bem nesse sentido.
Comentem e me deixe saber o que estão achando da fic até aqui!
E pra quem quiser, tenho um perfil no twitter que uso para falar de bts e para falar das fanfics, a conta é @kthgalaxys.