Mikrokosmos

Mikrokosmos

Sinopse: Quando estavam sonhando, eles viviam as lembranças um do outro. Ele a conhecia melhor do que qualquer pessoa no mundo e ela era a única que sabia como funcionava a cabeça dele. Ela não sabia que sua alma gêmea era um astro do kpop e ele nunca pensou que realmente chegaria a encontrar a garota que morava em seus sonhos. Eles eram destinados, com apenas uma ressalva: o primeiro toque entre duas almas gêmeas deixava uma marca no peito, sob o coração e simbolizava o primeiro encontro entre suas almas. Mas também poderia simbolizar a última vez em que eles se veriam e sem saber o que o destino lhes reservava, eles precisam evitar se tocar, mesmo que inevitavelmente acabem se apaixonando um pelo outro.
Gênero: Romance.
Classificação: 14 anos.
Restrição: Insinuação sexual e palavras de baixo calão.
Beta: Regina George.

Prólogo

Microcosmo é o Universo do ponto de vista pessoal e subjetivo, onde o corpo humano é considerado um pequeno Universo, uma imagem reduzida do mundo.

Conhecia aqueles cabelos escuros melhor do que conhecia os seus próprios. Ela era capaz de listar com exatidão todas as cores e tons com os quais ele havia colorido os fios ao longo dos anos, mas ela sempre iria preferir o preto. Principalmente porque ele não tinha cortado os cabelos nos últimos meses e os fios estavam na altura dos olhos puxados. Os lábios finos e o sorriso de dentinhos que ele tinha desde criança eram tão conhecidos para ela, que mais pareciam uma extensão de si mesma. Mesmo que não fosse, já que seu próprio rosto era o completo oposto daquele com o qual ela sonhava todas as noites.

Assim como ele sonhava com ela e os cabelos claros que ela vivia cortando na altura dos ombros e se arrependendo. Ele também gostava muito dos olhos dela: eram de um tom de verde escuro e ele sempre acreditava que podia ver galáxias naquele olhar, mesmo que nunca a tivesse visto de perto. As maçãs do rosto bem desenhadas e as bochechas coradas combinavam com a pele bronzeada e ela tinha sardinhas quase imperceptíveis na testa e no nariz. Duas almas e dois corpos completamente diferentes um do outro, mas que se completavam perfeitamente, orbitando em uma mesma galáxia e unidos por uma linha que só poderia ser rompida pelo destino.

반짝이는 별빛들
As estrelas reluzentes
깜빡이는 불 켜진 건물
Os prédios bem iluminados
우린 빛나고 있네
Nós brilhamos como diamantes
각자의 방 각자의 별에서
Em nossos próprios quartos, em nossas próprias estrelas

어떤 빛은 야망
Algumas luzes são ambiciosas
어떤 빛은 방황
Algumas luzes são rebeldes
사람들의 불빛들
Todo mundo emite luz
모두 소중한 하나
Cada uma delas é preciosa

어두운 밤 (외로워 마)
Nesta noite escura (não fique sozinho)
별처럼 다 (우린 빛나)
Como estrelas (nós brilhamos)
사라지지 마
Não desapareça
큰 존재니까
Porque sua existência é importante
Let us shine
Vamos brilhar

한 사람에 하나의 역사
O passado de cada um
한 사람에 하나의 별
A estrela de cada pessoa
70억 개의 빛으로 빛나는
Setenta bilhões de luzes
70억 가지의 world
Iluminando setenta bilhões de mundos

70억 가지의 삶 도시의 야경은
Setenta bilhões de vidas
어쩌면 또 다른 도시의 밤
O cenário da cidade à noite possivelmente é a noite de outra cidade
각자만의 꿈 let us shine
Todos os nossos sonhos, deixe brilhar
넌 누구보다 밝게 빛나
Você brilha mais forte do que todos os outros
One
Um

어쩜 이 밤의 표정이 이토록 또 아름다운 건
A razão pela qual a noite pode ser tão bonita desse jeito
Oh 저 어둠도 달빛도 아닌 우리 때문일 거야
Possivelmente somos nós, não aquelas estrelas ou luzes brilhantes

You got me
Você tem a mim
난 너를 보며 꿈을 꿔
Eu sonho quando te vejo
I got you
Eu tenho você
칠흑 같던 밤들 속
Nessas noites escuras como breu
서로가 본 서로의 빛
As luzes que vimos um no outro
같은 말을 하고 있었던 거야 우린
Estavam dizendo a mesma coisa

가장 깊은 밤에 더 빛나는 별빛
A estrela reluzente que brilha mais forte na noite mais escura
가장 깊은 밤에 더 빛나는 별빛
A estrela reluzente que brilha mais forte na noite mais escura
밤이 깊을수록 더 빛나는 별빛
Quanto mais escura a noite, mais forte o brilho da estrela

도시의 불, 이 도시의 별
As luzes e as estrelas da cidade
어릴 적 올려본 밤하늘을 난 떠올려
Me lembram o céu noturno que eu via quando criança
사람이란 불, 사람이란 별로 가득한 바로 이 곳에서
Bem aqui neste lugar unidos pelas estrelas e luzes chamados pessoas
We shinin’
Nós estamos brilhando

Shine, dream, smile
Brilhe, sonhe, sorria
Oh let us light up the night
Oh, vamos iluminar a noite
우린 우리대로 빛나
Nós brilhamos do nosso jeito
Shine, dream, smile
Brilhe, sonhe, sorria
Oh let us light up the night
Oh, vamos iluminar a noite
우리 그 자체로 빛나
Nós brilhamos do jeito que somos
Tonight
Esta noite

Um

.
Soltou um suspiro aliviado quando desembalou a última caixa de mudança. Havia passado os últimos quatro dias organizando sua bagunça pessoal e estava agradecida por ter conseguido viajar alguns dias antes de começar a trabalhar, caso contrário, acabaria adiando a organização do pequeno apartamento por algumas boas semanas – ou meses. não era realmente um exemplo de organização e perdia suas coisas mais vezes do que gostaria de admitir – às vezes as coisas estavam bem a sua frente e ela não se dava conta. Mas as coisas pioravam muito quando alguma mudança estava relacionada e tivera sorte por ter a ajuda dos pais com a embalagem de todos os seus pertences pessoais enquanto ainda estava em Sidney, mas a mudança para Seul, na Coreia do Sul, impediria de recorrer aos genitores para não acabar sendo engolida pela bagunça.
Apesar da demora – ela tinha levado apenas objetos pessoais, roupas e livros, e ainda assim, tinha demorado dias para arrumar tudo – havia feito um bom trabalho e precisava de lembrar de mandar uma foto da casa para os pais para se exibir. Aquele era um feito e tanto para ela e como ainda não conhecia ninguém em Seul, não teria com quem partilhar sua vitória pessoal fora a família.
Aquela possivelmente era a maior aventura de sua vida inteira, mas estava tão feliz com o rumo que as coisas estavam tomando que sua única apreensão era a distância da família, afinal, estavam em continentes diferentes. Não tão distantes, mas ainda assim, não era uma viagem de uma hora de carro que poderia fazer para visitar os pais como estava acostumada.
O relógio marcava sete horas da noite quando saiu do banho e vestiu roupas confortáveis. O clima em Seul era bem agradável em maio – bem menos quente do que ela estava acostumada a viver em Sidney e pelo país não estar em época de alta temporada, não haviam tantos turistas lotando a cidade e poderia visitar os pontos turísticos com tranquilidade.
Acabou decidindo que não iria cozinhar naquela noite e guardando o celular e a carteira na bolsa, trancou o apartamento e se lançou pelas ruas do bairro em busca de algum restaurante. Diferente do que havia lido em blogs, a comida coreana não era tão esquisita quanto pareciam e tinha conseguido abastecer os armários e a geladeira com a maioria dos produtos que estava acostumada a comprar na Austrália. Mas não tinha saído para comer fora de casa e admitia que mantinha alguma insegurança. Provar uma culinária diferente sempre era arriscado, mas como sua mãe dizia, se estava na chuva era para se molhar e viver em Seul por quatro meses e nunca experimentar a comida local seria uma burrice tremenda.
Sendo uma capital, a vida noturna não era tão diferente da que encontrava em Sidney. Haviam bares, restaurantes, pubs e cafés abertos e muitas pessoas circulando pelas ruas. Seul tinha sua própria Times Square e a Gangnan era tão interessante quanto perigosa. precisou murmurar para si mesma que não tinha cartão de crédito ou qualquer dinheiro extra na bolsa para não correr o risco de comprar coisas supérfluas – que provavelmente nem usaria.
O restaurante que havia escolhido era moderno e músicas pop coreanas tocavam sem parar. Como uma boa entusiasta da cultura coreana, conhecia e gostava muito daquele tipo de música, mas sendo distraída como era, nem perdia tempo tentando descobrir os nomes dos vários grupos ou dos integrantes desses grupos. Apenas escutava as músicas no aleatório e cantarolava junto, para melhorar sua pronúncia do coreano que seu pai tinha lhe ensinado desde criança.
E talvez aquela fosse uma das peripécias do destino, mas se tivesse reparado melhor nas coisas a sua volta – e principalmente, nos donos das vozes que preenchiam seus fones de ouvido todos os dias, talvez ela não tivesse aceitado um trabalho temporário em Seul para ensinar inglês para os trainees de uma gravadora famosa. Ela nem mesmo sabia como tinha conseguido a vaga, já que seu currículo não era o mais extenso, mesmo que já tivesse se graduado e cursado uma pós em linguística.
O destino havia mesmo decidido que era hora de para de apenas sonhar com o garoto que vivia tingindo os fios de cabelo e que tinha um dos sorrisos mais contagiantes do mundo. Estava na hora de eles serem colocados frente a frente. Uma alma ao lado da outra e ambos os corações interligados pela linha vermelha que representava o destino que ambos deveriam compartilhar.
Ou não.

 

.
Ele tinha sonhado outra vez com ela. Não que fosse qualquer novidade para , porque estava mais acostumado com o rosto dela do que com os rostos de seus parceiros de grupo ou mesmo de sua própria família. Bocejou e passou as mãos pelos cabelos, tirando os fios dos olhos e fazendo uma nota mental para marcar um corte, mesmo que gostasse muito daquele comprimento. Mas já estava debochando de seu visual e se aquele não era um indicativo de que deveria aparar as pontas, não sabia o que mais poderia ser.
Ainda estava sonolento e por isso se permitiu tentar voltar a dormir, se aconchegando nos travesseiros e cobertores e respirando fundo antes de fechar os olhos. Estava chovendo, ele conseguia perceber o barulho do lado de fora do apartamento. Também ouvia a bagunça na cozinha e se perguntou que horas eram, apenas para dar de ombros para si mesmo e descartar o pensamento. Se os amigos precisassem dele para alguma coisa, teriam vindo lhe importunar e tirar sua paz. apenas esperava que sobrasse comida do café da manhã – torcia para guardar sua porção, como ele fazia em todos os dias.
Como de costume sempre que estava prestes a cair no sono, o rosto dela surgiu em seus pensamentos. Os cabelos estavam mais curtos do que estiveram em toda a sua vida e os olhos eram tão vivazes que sentia-se tímido em olhar diretamente para eles, mesmo que estivesse sonhando e que ela não soubesse que ele estava ali, observando sua vida, da mesma forma como ele sabia que ela observava a dele – e nenhum deles sabia o nome do outro.
Era esquisito pensar que aquele mundo pós-moderno, onde telefones celulares minúsculos tinham o poder de conter informações infinitas, onde voos para outros países eram tão comuns quanto respirar e onde o mundo inteiro poderia ser visto de uma fotografia divulgada pela Nasa. E mesmo com toda a racionalidade, ainda haviam coisas inexplicáveis que estavam incorporadas em todas as culturas e que eram consideradas ainda mais verdadeiras e reais do que os fósseis encontrados que barravam a ideia criacionista e mostrava ao mundo a ideia evolucionista.
E apesar de querer muito ser considerado um descrente e viver em um mundo de estatísticas e comprovações, ele jamais poderia fazer aquilo. Não quando ele tinha uma alma gêmea, em algum lugar do mundo. Alguém que tinha nascido destinado para ele.
Haviam diversos tipos de almas gêmeas e tantas histórias que aquela havia se tornado uma verdade do senso comum. Algumas pessoas tinham sorte de nascer com uma alma gêmea que seria apenas um irmão ou irmã – como era o caso de e e e – mas outros, como no caso de – e e -, tinham nascido destinados para almas gêmeas românticas. E para eles, a coisa era ainda mais difícil. tinha tido sorte e encontrado sua outra metade em uma das viagens que haviam feito nas férias passadas e tinha uma leve ideia de onde encontrar a sua, mas ele realmente não estava ansioso para aquilo e não poderia culpá-lo. Se pudesse escolher, jamais encontraria a garota de cabelos claros.
Não porque ele tivesse aversão a paixão ou ao amor e preferisse uma vida solitária, muito pelo contrário. Ele era apaixonado pela ideia do amor romântico e sempre tinha desejado viver aquilo intensamente. Mas tendo uma alma gêmea, as coisas não eram tão fáceis.
Como se não bastasse sonhar com ela por todos os dias de sua vida, o primeiro toque entre duas almas gêmeas deixava uma marca sob o coração. O problema era o resultado daquele toque: poderia marcar o primeiro dia do resto de suas vidas juntos, como também poderia significar a última vez em que eles se veriam.
E naquela circunstância as coisas apenas tendiam a piorar. Eles seriam separados pelo destino e todas as lembranças com as quais tinham sonhado ou partilhado antes daquele primeiro toque, seriam apagadas. Restaria apenas a sombra de um sentimento mais poderoso do que qualquer bomba atômica e jamais poderia se acostumar com aquilo. Viver uma vida inteira de solidão porque sua alma gêmea não deveria ser sua era a coisa mais triste que poderia acontecer com qualquer pessoa.
Uma batida na porta o despertou e poucos instantes depois, uma almofada foi jogada em sua direção.
– Levanta logo, . Temos que sair em uma hora. – murmurou e o mais novo resmungou infeliz. – separou o seu café da manhã. – Acrescentou e aquilo foi o suficiente para fazer pular da cama e correr para o banheiro, com um sentimento esquisito de euforia no peito.

Dois

.
Tinha precisado de muito foco para não de distrair naquela manhã e acabar se atrasando para o primeiro dia de trabalho. Seul era tão diferente do que estava acostumada a viver em Sidney que se pegou encantada até pela multidão de pessoas seguindo para o metrô.
Chegou com alguns minutos de folga no prédio da Big Hit Entertainment e depois de passar os informativos de seu contrato para a recepção, foi guiada para salas e mais salas de reunião, conhecendo diversas pessoas, repassando seus dados mais algumas vezes antes de finalmente ser levada para o local onde trabalharia. Sendo fluente em coreano, não era difícil conseguir um emprego na Coreia para lecionar Inglês. Fosse em escolas ou em empresas, era um mercado de trabalho sempre em crescimento. apenas tivera muita sorte – e uma mãozinha do destino – em conseguir uma vaga justamente em uma das gravadoras mais famosas da Coreia do Sul. Aquela era sua primeira experiência como professora de inglês para não nativos da língua e apesar do nervosismo, tinha acordado com uma sensação boa e tinha grandes expectativas para seu primeiro dia.
Se tudo corresse como ela imaginava e desejava, iria mandar um cartão para o pai agradecendo por ele tê-la obrigado a aprender coreano quando era criança. Sendo filha de professor, ela não tinha muitas alternativas, mas tinha pegado gosto pela coisa e se graduado para lecionar. Era apaixonada pela profissão e em sua opinião, a diversidade linguística era uma das coisas mais bonitas sobre a humanidade e era incrível poder ser uma ponte entre uma língua e outra.
O grupo de quem seria professora era composto por cinco garotos e passado o estranhamento inicial, não tardou a se enturmar com eles. Seria muito mais fácil acostumar os garotos ao inglês usando métodos não tão impessoais. Eles conheciam a língua, mas precisavam melhorar a pronúncia e se naturalizar com a conversação.
Por toda a manhã e início da tarde, manteve os garotos dentro da sala enquanto repassava o básico de gramática apenas para desencargo de consciência. Pretendia fazer aulas mais interativas para que o estudo não pesasse tanto. Passada a hora do almoço, eles seguiram para o refeitório juntos. O grupo teria ensaio pelo resto da tarde e usaria o tempo livre para preparar as aulas da semana.
Estava distraída pelos corredores, tentando relembrar o caminho que tinha feito até o refeitório quase uma hora antes, mas não havia uma bendita placa de indicação e pelo que podia perceber, tinha se perdido. Típico dela, tinha que admitir. Suspirou e se escorou na parede, buscando o celular no bolso enquanto decidia para quem mandaria uma mensagem de socorro. Era seu primeiro dia, não tinha amizades ainda e os garotos com quem criara uma maior proximidade estavam ocupados ensaiando e jamais se atreveria a interromper aquilo. Sabia como eram importantes os ensaios antes do debut.
Decidiu que iria esperar alguém aparecer e depois de cinco minutos, achou melhor sair da inércia e ir em busca de alguma alma viva que pudesse dar alguma informação. Sabia onde deveria estar, apenas não fazia ideia de como chegar lá. Percorreu alguns corredores e estava prestes a começar a gritar – pedir socorro como se estivesse morrendo poderia ajudar – quando ouviu a melodia de uma música conhecida. Não sabia quem cantava, mas a letra lhe era conhecida e não conseguiu conter a curiosidade e adentrou mais o corredor, parando em frente a uma das portas, de onde a música soava clara e audível. Quando a voz entrou junto da melodia, sentiu um arrepio tomar conta de si.
– When it comes to you, don’t be blind, watch me speak from my heart, when it comes to you, comes to you…
não saberia explicar porque seu coração estava acelerado e ela sentia como se estivesse sendo puxada em direção aquela voz. Se sobressaltou quando um pigarro soou às suas costas no mesmo instante em que tinha levantado a mão para girar a maçaneta e se virou, encontrando uma das recepcionistas com quem tinha falado mais cedo.
– Precisa de ajuda?
– Eu me perdi. – confessou. – Estava procurando a sala onde estava lecionando para grupo. – Informou e não precisou de mais do que um aceno de cabeça para seguir a recepcionista para longe da porta de onde a voz ainda saía. Apesar das palavras não terem sido ditas, entendeu que aquele não era um território de público comum. Algum artista ou grupo grande estava ensaiando e ela não deveria bisbilhotar mais.
Foi deixada na sala junto de um mapa da empresa e depois de marcar os corredores que deveria percorrer entre um canto e outro, se pegou sem ar e com o coração ainda acelerado. A voz não deixava seus pensamentos e queria muito descobrir a quem pertencia aquele timbre tão bonito.
Para a sorte dela, o destino tinha resolvido colaborar e ouvir seus pedidos.

 

.
Estava exausto e faminto depois de passar o dia todo ensaiando, mas também sentia-se nervoso e ansioso. Por qual motivo não fazia ideia, mas a comichão na boca do estômago não havia dado sossego e tinha se distraído muitas vezes – o suficiente para deixar os amigos preocupados e receber não somente olhares constantes como abraços e porções de comida.
E ele jamais iria reclamar daquilo, porque sentia que aqueles garotos eram sua família e se preocupava com todos eles com a mesma intensidade com a qual eles se preocupavam com ele. Tinha precisado deixar claro que estava bem e que apenas sentia-se nervoso para que parasse de lhe perguntar como estava e lhe atirasse pacotinhos de bala. E mesmo com o tanto que tinha comido, ainda estava faminto. Sempre havia espaço para comer mais um pouco.
Estava no elevador, escorado contra o corpo de , observando atentamente o mostrador do elevador que indicava que eles estavam no décimo andar e descendo. Para sorte deles, ninguém tinha solicitado o elevador e mesmo se alguém o fizesse, eles já estavam no limite da capacidade máxima por serem sete.
– Estou acabado. – comentou.
– Minhas pernas estão doendo. – completou. – não estava para brincadeiras hoje.
– A carinha fofa engana todo mundo, porque por dentro ele é maligno. – murmurou.
– Nenhuma piada de tio nesse momento . – murmurou e causou risos no restante do grupo.
Todos os minutos seguintes dentro do elevador foram preenchidos por muitas risadas e piadas ruins – a maioria dita por e estava distraído no meio de uma gargalhada quando seguiu os amigos para o saguão da gravadora. Passou a mão pelos cabelos enquanto ainda ria, levantando a cabeça e por acaso desviando os olhos para a recepção.
E por um segundo, o mundo parou completamente para , enquanto ele encarava aqueles olhos que ele conhecia melhor do que seus próprios.
Estacou no meio do caminho, arregalando os olhos, franzindo o cenho e abrindo a boca em pura surpresa, sem acreditar realmente não que estava vendo. Afinal, qual a possibilidade de ela ter saído de seus sonhos e se materializado exatamente no saguão da gravadora na qual ele trabalhava há sete anos? Nunca tinha visto nem mesmo a sombra daquela mulher fora de seus sonhos e agora ela estava ali, parecendo tão surpresa e tão apavorada quanto se sentia.
Seu coração estava na garganta, a boca estava seca e ele ouviu alguém chamar seu nome de longe, mas sentia-se completamente em outra realidade, como se tivesse começado a sonhar acordado e seu senso de realidade tivesse quebrado completamente. Se tivesse tomado um soco, iria se sentir menos atordoado do que naquele momento.
? – Alguém o sacudiu e o garoto respirou fundo antes de desviar o olhar do dela e focar as pupilas escuras em , voltando a encarar a garota no instante seguinte, com medo de que ela sumisse e aquilo indicasse que ele realmente estava enlouquecendo. – O que aconteceu?
– É ela. – Foi tudo o que disse e mesmo que sentisse que não deveria, se afastou do amigo e deu alguns passos seguros até o local onde ela estava parada.
Os cabelos estavam realmente mais curtos e um pouco mais loiros, mas o rosto dela… não tinha um mínimo detalhe diferente do rosto de suas lembranças sonolentas. E pela expressão que ela mantinha, podia apostar que ela também o conhecia. E que ambos sabiam o que aquele encontro significava.
Parou de andar a exatos um metro e meio de distância dela. Enfiou as mãos nos bolsos do jeans, para evitar o surgimento de qualquer vontade de tocar nela para garantir que não estava sonhando. Ele gostaria de não acreditar naquelas histórias, mas acreditava e não poderia arriscar. Não quando ela estava ali e o destino era tão incerto naquele momento.
Não sabia o que dizer. Não saberia nem se conseguiria falar qualquer coisa ou se deixaria de olhar para ela daquele jeito abismado, como se tivesse visto um fantasma. As marteladas de seu coração o deixavam surdo para o mundo exterior e ele não fazia ideia de onde estavam os amigos ou o que estavam achando daquela cena. estava completamente atordoado e a única certeza que pairava em seus pensamentos era a existência dela. A existência real e não aquela que aparecia em seus sonhos.
Não saberia dizer se estava feliz. Não conseguia distinguir os próprios sentimentos, estava completamente bagunçado. Como se alguém o tivesse pegado, chacoalhado, virado do avesso e deixado jogado no chão de qualquer jeito.
E aquele vinculo que começava a sentir. Como um puxão em sua alma, tentando levá-lo para ela. Para mais perto, para um único toque que poderia decidir todo o resto de suas vidas. E quando o medo tomou conta, decidiu que não estava pronto para aquilo. Aquele poderia ser o primeiro dia do resto de suas vidas, mas também poderia ser o último. E ele não iria conseguir lidar com a resposta, fosse ela qual fosse.

Três

.
Correr desesperada. Aquele era o único pensamento na cabeça de enquanto seus olhos se mantinham presos aos dele e ela sentia tudo dentro dela revirar como se estivesse dentro de uma máquina de lavar roupas. Se tivesse comido alguma coisa mais cedo, certamente acabaria vomitando.
Deveria ter imaginado que aquele emprego em Seul não era apenas uma questão de sorte e sim o destino resolvendo que os 22 anos esperando por ele tinham sido o suficiente. Aquele dia já estava predestinado há muito tempo e mesmo que as coisas dessem errado de algum jeito, sabia que acabaria em Seul de alguma forma e que ela encontraria com ele. Se não fosse naquele dia, seria no seguinte. Não era uma questão de escolha e agora que ele estava ali a sua frente, ela não sentia vontade de estar em nenhum outro lugar.
Ele tinha os olhos mais bonitos que já tinha visto na vida. Pretos, quase misturando a pupila e as íris e formando um círculo todo negro. E para os padrões orientais, eram olhos grandes, expressivos e intensos demais. Como enxergar uma galáxia de sonhos inteira dentro daquele olhar. Era tão esquisito conhecê-lo tão bem e ao mesmo tempo não fazer ideia de quem ele era. Ela poderia apontar as pintinhas que ele tinha de olhos fechados, conseguia vislumbrar as bochechas cheias e rosadas, o formato perfeito do nariz e as covinhas que surgiam quando ele abria aquele sorriso de dentinhos… ele já era o cara mais bonito que ela tinha visto antes mesmo de vê-lo em carne e osso e agora que estavam ali, frente a frente, sentia-se… fraca.
Era tão igual mas tão diferente dos seus sonhos… mais alto do que ela esperava, um pouco mais forte, mas tão fofo e sexy de um jeito que certamente deveria ser crime. Uma pessoa deveria ser proibida de ser as duas coisas, era injusto com o resto do mundo.
Engoliu em seco e respirou fundo, desviando o olhar apenas por um segundo para tomar coragem em finalmente quebrar aquele silêncio. As coisas já estavam ficando esquisitas e sabia que a secretária estava observando-os sutilmente e para sua sorte, encontrou um dos colegas dele a encarando como se soubesse exatamente o que estava acontecendo. E para uma sorte ainda maior, ele interviu na situação ao abrir um sorriso e exclamar exasperado para ela.
– Finalmente achamos você! Vem, precisamos conversar sobre a reunião. – Ele se aproximou com cuidado e estendeu a mão, em um pedido mudo para tocá-la no ombro.
respirou fundo outra vez e assentiu, se deixando guiar pelo garoto. Virou o rosto para trás apenas para constatar que ele os estava seguindo e voltou o rosto para frente. Um segurança se aproximou e a escoltou para uma van e após se acomodar, percebeu que sete pares de olhos estavam sobre ela. Mas o único que realmente lhe causava tremores estava sentado na ponta avessa de onde ela estava.
– Isso não parece com um sequestro pra vocês? – Um deles indagou e apesar do nervosismo e quase estado de desespero, soltou uma risadinha involuntária.
– Parece um sequestro mesmo. – Concordou.
– Vocês sabem o que estão fazendo, não é? – Um outro indagou com preocupação.
– Eles não podem ter essa conversa no saguão da gravadora. – O garoto que havia salvado a situação se pronunciou. – Eu sei que não gostaria de ter tido essa conversa no meio de tanta gente. Já foi difícil sem olhares curiosos em cima. – Suspirou.
– Eu não acho que o vai voltar a falar. – Outro comentou e prendeu o fôlego, murmurando o nome dele de forma involuntária e recebendo a atenção dos sete garotos outra vez. Suas bochechas coraram imediatamente.
– Eu não… sabia o nome dele. – Se explicou e um dos garotos franziu o cenho em confusão.
– Você não nos conhece? – Indagou outro deles.
– Não. – Confessou. – Provavelmente já ouvi as músicas de vocês, mas eu não procuro conhecer os rostos por trás das músicas que eu escuto. Meu pai sempre disse que palavras não tem rosto e só precisamos delas para nos expressar e conectar com as pessoas independente de todo o resto.
– Isso é… legal. – Um deles sorriu para .
– Então, qual o seu nome?
. – Deu de ombros. – E o de vocês?
– Você vai lembrar? – O garoto que a salvou brincou.
– Espero conseguir. – Torceu os dedos das mãos, sentindo o olhar dele – – em cima dela e evitando olhar para ele. Seria engolida por aquela galáxia negra, tinha certeza.
Depois de todos se apresentarem três vezes – menos – os rostos já eram familiares para e ela acabou confundindo e apenas uma vez antes da van estacionar em frente ao prédio onde informou que eles moravam juntos e sentir mais uma vez o ar faltar em seus pulmões e o coração acelerar. Não tinha trocado nenhuma palavra com e agora que seria inevitável começar aquela conversa, não sabia se estava preparada.
Os seguiu para dentro do prédio pelo elevador do estacionamento e se manteve o mais afastada possível enquanto eles discutiam sobre o jantar. Aparentemente, era um ótimo cozinheiro e estava sendo escalado para marcar presença na cozinha naquele dia, já que todos estavam cansados de pedir delivery. O único que não dizia uma palavra era e queria tanto ouvir a voz dele… apenas para se certificar de que aquilo estava mesmo acontecendo e ele era real e estava ali e ela não estava sonhando outra vez.
Mesmo que todos os arrepios que o olhar dele lhe causava fossem reais demais.
Dentro do apartamento, se permitiu alguns segundos para observar as coisas a sua volta. Era a casa de astros da música, com certeza. Em nada se parecia com o apartamento simples onde ela estava morando. Mas diferente do que qualquer pessoa poderia esperar, não era uma bagunça. Sequer tinham decorações fora do lugar e ela acabou sorrindo.
– Acho que vocês podem ficar aqui na sala? – apontou para os sofás e encarou com um olhar perdido e recebeu apenas um aceno de cabeça como resposta. Se virou para e abriu um sorriso pequeno. – Se precisar de alguma coisa, é só me chamar.
– Obrigada. – sorriu, mas voltou a torcer os dedos das mãos quando os seis seguiram por um corredor a esquerda que supôs levar até a cozinha e ela foi deixada sozinha na sala com ele.

 

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Tudum. Uma batida de coração. Tudum. Mais uma e ele realmente não sabia o que falar ou fazer naquele momento. Por que eles não poderiam receber um manual de instruções? Afinal, era o destino brincando com a vida deles e o mínimo que poderia dar em retorno era alguma ajuda sobre o que fazer e o que não fazer ao encontrar sua alma gêmea pela primeira vez. Como se portar quando esbarrar na sua alma gêmea romântica:
1. Não seja um babaca.
2. Fale alguma coisa.
3. Essa lista é uma droga.
– Você… quer alguma coisa? – Murmurou com a voz rouca e precisou pigarrear, passando a mão esquerda pelos cabelos em seguida, buscando se recompor de alguma forma. Deveria mesmo ter cortado os cabelos, mas agora era tarde demais e ela já o havia visto com aquela aparência mais… desleixada.
Ela. .
Era tão estranho saber o nome dela, porque parecia uma novidade, mas era uma novidade tão familiar que as coisas simplesmente encaixavam na cabeça de . Ela era porque jamais poderia ter outro nome que combinasse tanto com ela, mesmo que tivesse conhecimento daquele fato há menos de meia hora.
– Não, eu estou bem. – Ela respondeu com a voz suave e ele sentiu um arrepio na nuca. E novamente aquele puxão na direção dela e por isso cruzou os braços na frente do corpo e seguiu para o sofá, ocupando uma das poltronas enquanto se sentava no outro extremo da sala. – Eu nunca pensei que iria realmente encontrar com você. – Murmurou com um suspiro, torcendo os dedos das mãos e quase arrancando um sorriso de . Já a tinha visto fazer aquilo mais vezes do que se lembrava.
– Uma parte de mim ainda acha que eu enlouqueci de vez e você é apenas uma ilusão. – Ele confessou.
– Eu não fazia ideia de que você morava em Seul. Eu nunca… vi nada além de você. – Mordeu o interior da bochecha e baixou os olhos.
– Eu também não. – murmurou. – Mas eu… – Suas bochechas ruborizaram e ele respirou fundo antes de continuar. – Sonhei com você durante toda a minha vida e nós dois sabemos o porquê e isso é tão assustador. Não temos nenhuma opção aqui. – Respirou fundo.
– Eu sei. – Ela suspirou e voltou a encará-lo. – Talvez a gente possa contornar isso. Eu não vou ficar muito tempo aqui, são apenas três meses de experiência e eu posso recusar caso eles me ofereçam uma vaga permanente. A gente pode… agir como se nada estivesse acontecendo e continuar tocando as nossas vidas como estamos fazendo há anos. – Deu de ombros de forma incerta.
– Não sei se isso daria certo. – falou. – Antes era… só uma ideia. Mas você está aqui agora e eu sinto esse puxão na sua direção… não acho que a gente vai ser capaz de se manter afastado. – Mordeu o lábio inferior e ela suspirou em desistência.
– E o que nós vamos fazer? A gente nem se conhece. Eu não quero me apaixonar por você. – falou com sinceridade, mas aquilo não soou como uma ofensa para , porque ele se sentia da mesma forma.
Se pudesse escolher, também não se apaixonaria por ela. Não porque tinha algo de errado ou que não o agradava sobre – e tudo o que conhecia sobre ela graças aos sonhos – mas sim porque eles sabiam que tudo poderia ruir. Se pudesse escolher, nunca a conheceria pessoalmente e viveria toda sua vida apenas com os sonhos que compartilhavam. Mas ele não podia escolher e sentia que o destino não iria facilitar as coisas para nenhum deles.
– Eu também não quero me apaixonar por você. Acho que podemos… tentar ser amigos. Nossos destinos já estão entrelaçados de qualquer forma, nós não vamos conseguir fugir disso. Só vai ser exaustivo.
– Você não acha isso esquisito? – Ela indagou com um riso nervoso.
– Qual das partes? – arqueou as sobrancelhas em desafio e riu baixinho. O riso dela soava como um coral angelical e se o cantor tivesse prestado atenção, teria percebido naquele momento que se apaixonar seria ainda mais fácil do que respirar. Mas as pessoas viam somente o que queriam e queria continuar levando sua vida normalmente, sendo apenas amigo de .
– Tudo bem, todas as partes são esquisitas. – Concordou com um estalar de lábios. – Mas… desde que eu me entendo por gente e tenho lembranças da minha vida, você sempre esteve lá. Às vezes eu lembro de coisas sobre você que eu não saberia responder sobre mim mesma. – Torceu os dedos novamente e mordeu um sorriso. – E eu sempre soube que esse dia iria chegar, só não sabia quando. Sempre foi uma certeza e agora que estamos aqui, só consigo pensar em como isso é injusto. Estamos sendo obrigados a fazer isso. Não é algo que aconteceu de forma inesperada ou que nós dois queríamos. É só… algo muito mais forte do que nós.
– Eu entendo. – murmurou em um tom de voz mais baixo. – encontrou a alma gêmea dele e apesar de viverem vidas completamente diferentes e se verem pouco, eles são ótimos um para o outro. – Desviou o olhar para o corredor por um instante e fez o mesmo. – … não quer isso. Os outros deram a sorte de nascerem destinados para almas gêmeas não românticas, mas eles também tiveram essa… obrigação de encontrar um ao outro. E não foi algo ruim para nenhum deles.
– Você acha que podemos fazer isso dar certo apenas como amigos? – indagou com cuidado e suspirou, sem saber realmente o que dizer.
Porque para ser sincero consigo mesmo, ele não podia afirmar que tinha certeza de que eles poderiam funcionar como amigos. Eles eram almas gêmeas românticas e só saberiam seus destinos quando se tocassem. E mesmo que aquele momento fosse o mais seguro para tomarem aquela atitude, já que haviam convivido pouco… não sabia se era uma boa ideia. Sentia tanto medo de esquecê-la como sentia de saber que se apaixonaria e que eles ficariam juntos.
– Acho que podemos tentar. – Disse por fim. – Quero dizer, nós não temos alternativas melhores, temos? Ou vamos descobrir que não fomos destinados para estar juntos e esquecer completamente um do outro e viver para sempre com a sombra de um sentimento não vivido ou então…
– Vamos saber que nos apaixonar vai ser inevitável e tudo vai ser… mecânico demais. Não é o tipo de amor que eu quero viver, sabe? Um amor imposto que eu não escolhi. – falou e assentiu.
– Amigos então? – Arqueou as sobrancelhas e ergueu a palma superior para um high five a distância.
– Amigos. – Ela concordou com um sorriso e também ergueu a mão.
– Então… você tá com fome? – indagou e acabou rindo. Droga, ela realmente o conhecia melhor do que a si mesma.

Quatro

.
Gostaria de dizer sim. Ela queria muito dizer sim e quando abriu a boca para responder, depois de alguns segundos nada confortáveis onde eles apenas se encararam, teve certeza que a afirmação iria escorrer por seus lábios. Sim, eu quero ficar para o jantar. Sim, eu quero passar mais um tempo com você. Sim, eu quero estar aqui olhando para você. Sim, se você também quiser isso.
Mas como poderia dizer aquilo sem soar completamente fora de sua mente? Como poderia explicar aquele puxão em direção a ele? entenderia, sabia daquilo. Ele mesmo tinha mencionado o puxão e aquilo a deixava menos receosa. Não desejava aquele sentimento para ninguém, mas admitia que era reconfortante não ser a única enfrentando aquela batalha.
– Eu… acho melhor ir pra casa. – Suspirou ao final da frase e a decepção no olhar de quase a fez desistir de sua decisão. – Acho que precisamos processar isso por um tempo… sozinhos. Eu tô sentindo esse puxão e ele fica cada vez mais forte e sei lá… precisamos ter cuidado.
– Você está certa. – Ele concordou após alguns segundos. – Poderíamos… trocar mensagens. E o convite para o jantar vai ficar em aberto. – sorriu um pouquinho e o coração de perdeu uma batida. – vai cozinhar quando você decidir vir.
– Você não cozinha? – Arqueou as sobrancelhas.
– Um pouquinho. – Deu de ombros.
– Ele cozinha sim! – Alguém gritou da cozinha e riu quando cobriu o rosto com as mãos e suspirou.
– Você não pode mentir pra mim! – exclamou em tom de brincadeira.
– Teoricamente não foi uma mentira. – retrucou. – Eu não minto. Só em casos extremos. – Riu sozinho.
– Que feio. – estalou os lábios em reprovação e eles trocaram mais um olhar antes de ela suspirar e se colocar de pé. – Acho melhor eu ir embora. E sim, é uma boa ideia nós… conversarmos por mensagens.
– E o jantar? – Mais um grito da cozinha e se moveu para a porta enquanto ria. ficava extremamente fofo e adorável quando estava com vergonha e aquilo a deixava levemente tonta.
– Eu venho no final de semana. – Respondeu em um tom de voz mais alto e alguns murmúrios animados soaram. Se virou e encarou os olhos escuros de , que se mantinha há um metro de distância dela, com as mãos nos bolsos e o lábio inferior entre os dentes.
– Vem mesmo? – Indagou e abriu outro sorriso pequeno.
– Venho. – respirou fundo.
– Certo. – Mexeu os pés em nervosismo. – Então nós vamos… deixar a casa limpa.
– Tudo bem. – mordeu um sorriso. Levantou a mão e segurou a maçaneta, fechando os olhos por um instante e voltando a se virar para encarar . Ele arqueou as sobrancelhas em confusão. – Você acha que isso vai dar certo? Porque eu posso pedir demissão e ir embora. Cheguei há poucos dias, não vai me custar nada voltar para Sidney agora.
– Não quero que você vá. – falou, dando um passo em direção a e suspirando quando se deu conta do que havia feito, voltando o passo que tinha acabado de dar. – Eu não estava esperando, em nenhum momento eu contei com esse acontecimento, mas agora… você está aqui. E esse é o nosso destino, então… – Deu de ombros.
– Tudo bem. Eu também não quero ir embora. – Confessou e baixou o olhar. Não conseguiria ser sincera com se continuasse encarando aquela galáxia negra e cheia de estrelas que eram os olhos dele. – Quero conhecer você. Fora dos meus sonhos. Acho que vai ser… uma surpresa, apesar da familiaridade. E nós podemos… transformar essa bagunça do destino em algo legal.
– Eu sinto o mesmo. – Ele concordou com um aceno de cabeça. – Você já é parte da minha vida, . Se você for embora agora, vai deixar um vazio e eu sou egoísta o suficiente para não querer que você vá.
– Não é egoísmo… – sorriu. – É só… a nossa ligação.
– É, acho que sim. – Torceu os lábios por conta das bochechas coradas e suspirou baixinho.
– Anota o meu número. – Lembrou e assentiu, puxando o celular do bolso e anotando o telefone de . Ela sentiu o próprio celular vibrar no bolso e sorriu.
– Vou responder quando eu chegar em casa. – Prometeu.
– E eu vou responder as suas mensagens, mesmo que nunca responda as mensagens de ninguém. – prometeu.
– Sete anos de amizade pra ser desprezado e passado pra trás desse jeito! – Outro grito da cozinha e caiu na risada.
– E esse é o dramático. – murmurou envergonhado.
– Vai ser incrível conhecer você com os comentários deles. Tenho certeza de que vou conhecer outro . – sorriu.
– Isso não é uma boa ideia. – Ele retrucou e ela riu um pouco mais.
– Queria que conhecesse os meus amigos. – Suspirou. – Vou precisar roubar os seus.
– Eu fico com três e você com os outros três. – ergueu novamente a mão para um high five a distância e concordou com uma risada.
– Vou escolher com sabedoria. – Decidiu.
está vetado. – Ele foi rápido e arrancou mais risadas de . – Preciso da inteligência dele quando o meu cérebro para.
– Tudo bem, aceito o argumento. – Respirou fundo e voltou a torcer os dedos das mãos. – Eu vou… embora. Se não for agora, não vou mais.
– O convite está em aberto. – lembrou.
– Eu sei. – Riu outra vez. – Mas vou embora mesmo. Preciso digerir a situação para não acabar surtando. Acordei hoje achando que só iria conhecer meus novos alunos e dar uma aula e acabei encontrando você. É coisa pra caramba e apesar de parecer calma, eu estou completamente instável por dentro.
– Eu entendo. – riu um pouquinho e se permitiu um segundo para apreciar a risada dele. Será que havia algo naquele garoto que não a deixasse encantada?
– Até… mais. Eu acho, não sei como me despedir de você. – Riu de forma nervosa.
– Você quer companhia até em casa? – se apressou.
– Não precisa, obrigada. – Sacudiu a cabeça para os lados. – Tchau,.
? – O rapaz arqueou as sobrancelhas mais uma vez, com um sorriso de lado no rosto bonito.
– Um apelido. – Deu de ombros e o encarou mais uma vez antes de respirar fundo e abrir a porta, saindo para o corredor e sentindo o coração martelar com força a cada passo que dava em direção ao elevador. Olhou para trás por um segundo e encontrou na porta e eles não desviaram o olhar até que as portas do elevador se fechassem e sumisse das vistas dele.

***

.
Ela tinha ido embora há duas horas e ainda não sabia o que fazer. Sentia-se completamente perdido, como nunca tinha se sentido antes. Estava assistindo a um filme com os amigos, mas não poderia dizer que realmente prestava atenção em alguma coisa. Sua mente estava longe, os pensamentos se esbarrando e colidindo um com o outro e lhe deixando atordoado. Tinha sido pego de surpresa. Sequer tinha imaginado que aquilo aconteceria algum dia, mesmo que devesse tê-lo feito. era uma certeza em sua vida, nunca tinha sido uma dúvida ou uma suposição. Eles iriam se encontrar, mais cedo ou mais tarde.
Mas queria tê-la encontrado antes de tudo. Antes da fama, antes de ter o mundo inteiro prestando atenção nele. Eles teriam paz e sossego para sair e se conhecer e talvez… Se apaixonar do jeito certo e não forçados por uma linha do destino, mesmo que aquilo fosse inevitável. O destino deles era uma incógnita, mas ele gostaria de ter passado por todo aquele processo da mesma forma que tinha passado. Não tinha sido fácil, mas com certeza menos caótico do que seria para . Agora… Seria complicado. Eles teriam que tomar cuidado, inventar desculpas e mentiras para que não acabasse na mira da mídia e de alguns fãs mais extremos. amava os fãs com todo o coração, mas ele era muito ciente de que alguns ultrapassavam os limites. Estava acostumado com aquilo de um jeito que jamais se acostumaria.
E ele temia por ela.
Suspirou e torceu os dedos das mãos, chamando a atenção dos amigos no mesmo momento. O filme foi pausado por e logo todos estavam encarando , esperando que ele começasse a falar. Sendo o mais novo do grupo, era normal que fosse mimado pelos amigos, que o tratavam como um irmão mais novo – e às vezes como um filho – que precisava de cuidado e atenção o tempo todo. Não que ele reclamasse, porque amava os amigos com todo o coração e se preocupava com eles com a mesma intensidade. Mas estar com algum desconforto era sempre motivo de comoção geral no grupo.
– Vai fazer a gente obrigar você a falar? – indagou e o mais novo soltou uma risadinha.
– Achei que íamos ver o filme. – Retrucou e revirou os olhos, cutucando na cintura e fazendo o garoto suspirar. – Tudo bem, eu falo… mas eu não sei realmente o que falar.
– Como você está se sentindo? – indagou.
– Eu… não sei. – suspirou. – Eu deveria esperar por isso, não é? Iria acontecer em algum momento. Mas eu nunca pensei nesse dia, nunca imaginei como seria, o que falaria ou como me sentiria… parecia algo tão distante, mesmo que sempre tivesse sido uma certeza. E eu não sei se agi direito ou se falei as coisas que deveria falar…
– Não tem um protocolo, . Todo mundo reage de uma forma diferente. – murmurou, puxando o mais novo para um abraço. deitou a cabeça no ombro do amigo e suspirou outra vez.
– Não sei, eu só… não sei o que fazer.
– Você pegou o número dela? – indagou.
– Sim. – Assentiu.
– Já é um bom começo. – murmurou. – Manda uma mensagem de boa noite.
– Brega. – comentou e riu.
– E qual a sua dica então? – lançou um olhar inquisitivo para o mais velho.
– Nenhuma. Mas sei que isso é brega. – Deu de ombros.
– Uma mensagem de boa noite é legal. – murmurou. – Chame ela para um café amanhã. Pode ser na empresa. Sempre tem alguma sala vazia.
– A gente não pode…
– Se tocar, eu sei. – O mais velho revirou os olhos. – Fica cada um em um canto.
– Acho uma boa ideia você comprar um bastão. – falou. – Pra sempre saber a distância que deve manter.
caiu na gargalhada e mesmo que o comentário não fosse nada engraçado, os seis acabaram se contagiando pela risada do mais velho.
– Droga, sempre tem alguém pra falar bobagem. – reclamou.
– Vamos voltar para o filme. – protestou. – precisa de silêncio para pensar.
– O jeito como o cuida do é diferente. – murmurou com falso ciúme.
– É porque ele é muito fofo. – se defendeu.
– Nisso todos nós concordamos. – declarou.
deu play no filme, mas a cabeça de realmente não estava focada em prestar atenção em qualquer coisa que não fosse . E por isso ele puxou o celular do bolso e diminuiu o brilho da tela antes de procurar pelo contato de no KakaoTalk. Encarou a tela do celular por longos segundos, sem saber realmente o que escrever. não era bom com mensagens. Sempre esquecia de responder ou mandava frases que não faziam qualquer sentido dentro das conversas. Mas ele não poderia agir daquela maneira com . Ela era… sua alma gêmea. As coisas com ela eram diferentes de todo o resto de sua vida.
– Manda um oi. – aconselhou em um sussurro quase inaudível.
– Isso é bom o suficiente? – questionou de forma insegura.
– É um começo. – O outro sorriu pequeno. suspirou.
– Acho que sim. – Concordou.

Oi!
Aqui é o 😊
Chegou bem em casa?

Aquilo era péssimo. já tinha se arrependido de enviar aquelas mensagens quando recebeu a resposta de e mesmo que as palavras dela fossem tudo o que ele deveria esperar, ainda sentia que não tinha feito um bom trabalho com aquele contato.

Oi!

Cheguei sim, obrigada por perguntar
Já jantei e estou arrumando as coisas para dormir
E você?

Estou assistindo a um filme com os garotos
Quero dizer, eles estão assistindo. Eu estou conversando com você

Que filme?

Não sei o nome. Mas tem luta e sangue

Os piores!!!
Prefiro comédia

E com aquele gancho, passou o resto da noite trocando mensagens com , falando sobre tudo e nada ao mesmo tempo e quando deitou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos, lembrou das linhas exatas do sorriso dela com uma clareza que nunca tinha lhe acontecido em todas as vezes que tinha sonhado com ela durante a vida. De um jeito que lhe deixava com vontade de vê-la, de estar com ela… Suspirou em derrota, enfiando a cabeça contra o travesseiro e passando alguns segundos tentando pegar no sono e falhando completamente. Por isso, pegou o travesseiro e seguiu pelo corredor do apartamento até o quarto de . Sempre que se sentia perdido ou indefeso, procurava pelo amigo. Ele era seu lugar seguro e naquele momento, tudo o que precisava era de segurança.

Cinco

.
Tinha acordado com vontade de comer jabuticaba. Não sabia como aquela lembrança – de uma viagem em família para o Brasil quando tinha 8 anos – tinha sido resgatada durante seu sono, mas quando abriu os olhos naquele dia, quase sentiu o gosto da fruta nos lábios até a frustração lhe dominar. Não iria comer jabuticaba porque só tinha experimentado a fruta uma vez na vida e ela certamente não encontraria um pé de jabuticaba em Seul. Sequer encontraria a fruta fora do Brasil ou de outros países na América do Sul.
Levou alguns minutos para se situar e tentar entender o motivo daquela vontade tão esquisita. Jabuticabas eram frutas pequenas e escuras, bolinhas completamente pretas. Como os olhos de . Ele tinha olhos de jabuticaba e aquela constatação fez soltar um muxoxo inconformado e passar o resto da manhã com a cabeça pesada. Precisou de muito foco e disciplina para não se perder nas lições que passara para os garotos naquele dia e quando finalmente saiu para o almoço e se escondeu em uma das mesas mais afastadas do refeitório, seus ombros pareciam pesar um tanto menos. E buscando um pouco mais de paz, puxou o celular do bolso do jeans e ligou para os pais. Tinha apenas uma hora de fuso horário entre eles, então a ligação não seria um problema.
soltou um suspiro aliviado quando o timbre forte de seu pai preencheu seus ouvidos e ela pousou o garfo no prato, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo na palma da mão, enquanto suas pernas cruzadas se balançavam de forma nervosa. Por nenhum motivo em especial, mas sabia exatamente o que estava causando aquela bagunça dentro dela. Ou melhor, quem estava causando aquela bagunça. Sentia também, que não voltaria para sua paz interior nem tão cedo. E aquilo não era realmente agradável, mas ela não poderia fazer nada a respeito senão aceitar as peripécias do destino. já era uma parte indissociável em sua vida antes mesmo de se encontrarem pessoalmente.
– Oi pai! – Exclamou animada. – Tudo bem por aí?
– “Oi amor! Tudo ótimo e com você? Como está Seul?”
– Linda, como você disse que estaria. – Riu. – E eu estou bem. – Suspirou ao final da frase.
– “O que aconteceu? Esse tom de voz não me engana.”
– Eu encontrei com ele. O cara dos meus sonhos. – Murmurou em um tom de voz mais baixo, soltando uma risadinha sem graça pelas palavras que tinha usado. – E eu ainda não sei se isso é uma coisa boa ou não. Ia acontecer mais cedo ou mais tarde, mas as circunstâncias…
– “Você fala coreano fluentemente, . A comunicação não vai ser um problema.”
– Se esse fosse o maior problema eu não estaria surtando.
– “Qual o maior problema então?”
– Ele é um idol. Famoso pra caramba. Até você já deve ter ouvido falar do grupo dele e eu sou tonta o suficiente para nunca ter prestado atenção nisso.
– “Mesmo se tivesse prestado atenção… O destino funciona da forma como ele quer. Você não deveria saber quem ele é até chegar aí e foi assim que aconteceu.” – Tentou consolar.
– Isso é uma merda. – bufou. – Como você lidou com isso? Quando conheceu a mamãe?
– “Também foi uma surpresa e nenhum de nós esperava pelo encontro. Nós apenas nos esbarramos. E passamos o dia todo juntos, sem saber o que aconteceria no dia seguinte. Para a sua sorte, não tivemos muitos problemas.” – Os dois acabaram rindo ao final da frase.
– Nós decidimos não nos tocarmos. – murmurou. – E vamos tentar ser amigos, porque nenhum de nós quer se apaixonar. Ele tem a vida dele, completamente agitada e insana, enquanto eu… Só queria aproveitar as coisas aqui em Seul. Um recomeço. Não era para encontrar um problema tão grande logo de início. Eu literalmente só conheci um restaurante até agora e minha cabeça já está explodindo.
– “Tudo vai ficar bem, . Prometo para você.”
– Você sabe que não pode prometer. Isso é muito maior do que qualquer um de nós.
– “Eu sei. Mas desejo que tudo fique bem e isso também é poderoso.”
abriu um sorriso pequeno.
– Você sempre sabe o que dizer pai, obrigada. – Respirou fundo. – Como estão as coisas por aí? E a mamãe?
– “Trabalhando no jardim.” – Informou e riu. – “Ela nem fala mais comigo, só quer saber de compostagem.”
– Pelo menos você tem o Teddy. – Mencionou o gato de rua que havia encontrado alguns meses atrás e que seus pais tinham adotado. – Ou ele também está te ignorando?
– Ele sempre me ignorou. – O homem retrucou. – Sinto sua falta. Você não me ignorava.
– Também sinto a sua. – Torceu os dedos da mão que não segurava o celular. – E não quero chorar em cima do meu almoço, então vou desligar.
– “Tudo bem. Ligue se precisar de qualquer coisa. Pegamos um avião e chegamos em Seul o mais rápido possível.”
– Eu sei. – riu. – Amo você. Ligo mais tarde para falar com a mamãe.
– “Vou deixá-la avisada. Amo você querida. Se cuide.”
respirou fundo e voltar a guardar o celular no bolso, focando a atenção na comida no prato e mastigando lentamente, contando as respirações em uma espécie de mantra para não surtar. Não estava adiantando, porque nem de longe ela era uma pessoa tranquila ou espiritualizada, mas tentar não lhe arrancaria qualquer pedaço.
Mal tinha terminado de comer quando o celular vibrou e ela franziu o cenho em confusão, apenas para voltar a torcer os dedos da mão direita quando leu o nome do contato que estava lhe mandando mensagens. Tinha passado a noite anterior inteira conversando com ele, mas aquilo não tornou a situação familiar ou impediu seu coração de bater descontroladamente no peito. Ele tinha um efeito sobre ela que não poderia ser explicado em palavras.

***

.
Se existisse um ranking das piores pessoas para puxar assunto ou propor uma atividade para ser feita em conjunto, certamente iria reclamar o primeiro lugar para si. Ele era horrível com aquele tipo de coisa. Contatos virtuais em geral não eram seu ponto alto, ele sabia escrever e falar com o coração, mas mandar mensagens? Péssimo. Completamente péssimo.
Na maior parte do tempo, esquecia da existência do celular e às vezes levava dias para responder as mensagens dos amigos – quando respondia -. Mas com ele não poderia vacilar daquele jeito, porque ele não queria fazer aquilo. Então tinha passado toda a manhã encarando o celular de cinco em cinco minutos, bufando e suspirando de forma impaciente sempre que constatava que tinha zero novas mensagens. Depois de uma leve bronca dada por , foi obrigado a se sentar, abrir o KakaoTalk e chamar para tomar café em alguma das salas vazias, enquanto era observado de perto pelos amigos, que queriam garantir que ele não ia desistir.
Acabou sendo mais fácil do que ele poderia imaginar e mesmo que não estivesse com a tarde livre como tinha, eles passariam um tempo juntos enquanto ela preparava a aula do dia seguinte. E mais feliz do que uma criança ganhando doce, colocou a máscara e os óculos escuros e correu para fora da sala, sendo seguido pelos amigos durante todo o trajeto até a cafeteria do outro lado da rua e então o caminho de retorno para a gravadora. estava gravando tudo, captando os pulinhos animados que dava vez ou outra e os sorrisos bobos que ele abria enquanto pedia dois cafés e alguns bolinhos para acompanhar.
Afinal, ele não poderia ficar sem comer por muito tempo.
– Ele parece uma criancinha feliz. – murmurou para em um tom de voz audível o suficiente para captar a atenção de . O mais novo franziu o cenho e fechou a cara no mesmo instante, arrancando risos dos amigos.
– Uma criancinha muito fofa. – completou e bagunçou os cabelos de quando eles entraram no elevador.
– Vocês vão deixá-lo encabulado e aí vai desandar tudo. – comentou. – Eu acredito em você , não me decepcione! – Exclamou de forma enérgica quando as portas do elevador se abriram no quarto andar.
, , ! – e começaram um coro de torcida e permaneceram murmurando o nome do mais novo enquanto ele seguia para fora do elevador e as portas se fechavam. respirou fundo e engoliu em seco, dando alguns passos em direção a sala onde encontraria . Seu coração batia com força no peito e quando levantou a mão e bateu na porta, sentiu-se momentaneamente surdo.
A única coisa que sentia era o nervosismo e só conseguiu soltar a respiração e voltar a ouvir as batidas de seu coração quando surgiu na porta com um sorriso frouxo nos lábios e os cabelos bagunçados. Ela usava roupas normais, mas para , sempre seria a mulher mais bonita em quem tinha colocado os olhos. E talvez tivesse aquela opinião porque seus destinos eram mais entrelaçados do que um novelo de lã, mas realmente não perdia tempo pensando naquilo.
– Oi ! – Ela saudou com aquele apelido que soava como um sino angelical para os ouvidos de . Seus amigos o chamavam daquele jeito, mas tornava a experiencia de ouvir aquela palavra algo totalmente único. – Você comprou mesmo café?
Ela deu dois passos para trás, espaço o suficiente para que adentrasse a sala sem correr o risco de tocá-la e ele ocupou uma das cadeiras dispostas de frente para a mesa de , depois de deixar o café e alguns bolinhos para ela. Naquela organização, ele poderia parecer como qualquer outro aluno dela e não criariam um problema caso fossem vistos por algum funcionário.
– Eu prometi um café. – Se justificou.
– Sim, mas eu pensei que você ia pegar café no refeitório. – deu de ombros. Sentou-se em sua mesa, o olhar fixo em . Ela parecia tão nervosa quanto ele mesmo se sentia, mas nenhum deles conseguia se manter olhando para qualquer outra coisa.
– Aquele café não é tão bom e eu… queria bolinhos. – Deu de ombros e ela riu.
– Você gosta mesmo de comer, não é?
– Muito. – Concordou rapidamente. – É uma das minhas coisas favoritas no mundo. Estou para a comida da mesma forma que está para o sono.
– E ele gosta de dormir? – indagou. – Me conta sobre eles. – Pediu em seguida e franziu o cenho em confusão. – Eles são parte da sua vida e eu… gostaria de saber sobre eles, pelo seu olhar. E quando eles me falarem sobre você, vou conseguir o olhar deles e ter a história completa. – Se explicou e sorriu, sacudindo a cabeça com um aceno e fazendo seus cabelos cobrirem parte de seu rosto.
– Eu realmente preciso cortar. – Suspirou.
– Não faça isso! – exclamou, pulando da cadeira apenas para torcer os lábios e voltar a se sentar. O instinto estava puxando-a em direção a e ela precisava tomar cuidado. – Você fica muito bem com esse cabelo. Não que não tenha ficado com os outros, não estou dizendo isso… E também, se quiser cortar, deve cortar. Quem sou eu para dizer o que você deve fazer, não é? – Riu sem graça e a achou extremamente adorável naquele momento. E por todas as santidades, em uma ocasião normal, puxaria para um abraço apertado em agradecimento, como fazia com seus hyungs sempre que recebia algum elogio.
Mas ele não podia e por isso bebeu um gole de café e enfiou um bolinho na boca antes de voltar a falar.
– Obrigado. – Murmurou. – Sabia que fui eleito o homem mais bonito de 2019? Até hoje os hyungs me zoam por causa disso. – Torceu os lábios e sorriu.
– Não me admira em nada. Eu votaria em você. – Estalou os lábios. – E o trabalho dos melhores amigos é nos zoar por qualquer coisa. Mesmo coisas importantes. – Acabou rindo.
– Me conta sobre os seus amigos. – pediu, mudando de assunto no mesmo instante. Ele não tinha preparo emocional para aguentar o elogiando.
– Eu pedi primeiro! – Ela contestou e riu com gosto.
– É, tudo bem. Você tem razão. – Concordou. E pela hora seguinte, eles conversaram sobre os amigos e sobre a vida que levavam. A aula de ficou esquecida em meio a papelada em cima da mesa e os bolinhos acabaram muito antes de se dar conta de que precisava correr para o estúdio pois tinha algumas gravações com o grupo. O sorriso frouxo não deixou seus lábios quando ele ergueu a mão para o high five a distância, bem como o aperto no coração para falta de vontade de ir embora. Ele queria ficar mais um pouquinho na companhia de e seus olhos brilhantes.

Seis

.
Tinha passado os últimos dois dias ouvindo BTS. Claro, ela já conhecia a maior parte das músicas sem saber que eram deles, mas tinha sido diferente procurar especificamente pelo grupo e ouvir as canções sabendo quem eram as pessoas que cantavam. E pior ainda, sabendo que era o dono de sua voz favorita nas canções e que era sua… alma gêmea.
Se havia no mundo alguém mais azarada que , ela gostaria de saber para seu próprio conforto mental. Afinal, ser a alma gêmea de uma estrela do kpop não era exatamente o que ela havia planejado e esperado para sua vida.
Mas não podia negar que estava apaixonada e encantada. Pelo BTS, não especificamente por – não ainda, pelo menos. Todas as músicas eram… únicas. Incríveis e completamente viciantes. não conseguia entender como saía de um sofrimento profundo com The Truth Untold, ia para uma vontade insana de dançar com Dope e acabava incorporando uma bad girl com UGH!. Sempre tinha gostado das músicas que conhecia do BTS, mas agora ela sabia que eram canções deles e as coisas ficavam um pouco mais intensas.
Já tinha aprendido algumas danças que tinha assistido nos videoclipes e depois de ler sobre a trajetória dos garotos enquanto grupo, podia afirmar com toda certeza que era fã do trabalho deles. E nunca havia feito aquilo na vida. Na verdade, nem mesmo tinha pesquisado por algum artista específico e escutado somente o trabalho dele. Era adepta de playlists aleatórias que ela apenas colocava para tocar e não se importava em ver o nome da música ou de quem havia trabalhado na canção.
Em menos de uma semana, já tinha sido o motivo pelo qual tinha saído da rotina algumas vezes e ela ainda não saberia dizer se aquilo era bom ou ruim.
Estava livre pelo resto do dia e mesmo que tivesse enrolado muito, havia acabado os planejamentos de suas próximas dez aulas e ela realmente não tinha muito o que fazer na gravadora. Já tinha passado pelo Twitter, Facebook, Instagram e assistindo um ou dois vídeos no YouTube. Mas nada havia conseguido prender sua atenção e por isso acabou suspirando e desbloqueando o celular mais uma vez, mas para acessar o KakaoTalk. Apesar de estar acostumada com o WhatsApp e aquele ainda ser o aplicativo que ela usava para conversar com a família e os amigos de Sidney, ele não usava Whatsapp e era com ele que queria falar naquele momento.
E em todos os outros, também precisava admitir aquilo. Desde a tarde em que haviam tomado café juntos – dois dias antes -, precisava conter a vontade de estar sempre mandando mensagens para . Não haviam se encontrado desde então, porque a agenda dele era apertada e ele estava ocupado com os ensaios, mas tinham conversado muito e subido de patamar ao enviarem alguns áudios um para o outro na noite anterior. Não mandaria áudio naquele momento e um pedacinho dela esperava que ele estivesse ocupado, daquela forma ela poderia se acalmar e continuar em sua rotina monótona.

Ei
Ocupado por aí?


Ei!
Não exatamente
Estou indo para uma pausa de meia hora
E com muita preguiça de descer para comprar algo para comer
Os biscoitos que tínhamos já acabaram

mordeu um sorriso, ajeitando os cabelos atrás das orelhas e respirando fundo antes de se colocar em pé. Vestiu a jaqueta jeans e após juntar seus pertences, deixou a sala e seguiu para o elevador, o celular ainda em mãos enquanto digitava uma mensagem para .

Me dê dez minutos
E me passe o número da sala onde você está


901
O que você vai fazer?

Dez minutos!


Não gosto de ficar ansioso
Sou apenas uma criancinha
Não faça isso comigo 🥺

acabou sorrindo largo, sacudindo a cabeça para os lados e suspirando em seguida. era mesmo uma criancinha quando queria, tinha conseguido observar aquilo mesmo com a pouca convivência e as poucas mensagens que tinham trocado. Ele gostava de implicar com os amigos e era um tantinho dramático e empolgado, não o suficiente para ser chato, mas acabava se tornando engraçado e prendendo em qualquer que fosse o diálogo que mantinham.

Você não vai morrer se esperar


Você não pode afirmar isso
Eu posso ter um ataque agora mesmo

Não fale bobagens 😠
Os garotos estão aí?


Estão
Mas…
?
O que aconteceu com o ? 🥺

Shiii, já volto!

Guardou o celular no bolso e atravessou a rua correndo. Pediu oito cafés, optando por latte para todos já que não conhecia os gostos do grupo. Também comprou alguns bolinhos e um sanduíche reforçado – para – e com algum trabalho, conseguiu voltar para a gravadora e adentrar o elevador, rumo ao nono andar. Quando as portas de metal se abriram, caminhou com cuidado até a sala 901, ouvindo a gritaria e as risadas antes mesmo de parar em frente a porta. Ergueu o joelho para alertar sua presença e quase riu quando a bagunça silenciou e um burburinho sobre quem deveria abrir a porta se iniciou. Cinco segundos depois, estava encarando com um sorriso largo enquanto o rapaz acenava com a cabeça de forma animada.
Após rápidos cumprimentos, deu espaço para que entrasse na sala e ela mordeu outro sorriso ao encontrar os outros seis rapazes parados no meio do cômodo, de forma nada natural quando fingiam que aquilo era a coisa mais normal do mundo. Seus olhos passaram rapidamente por todos eles, até pararem em e o sorriso escorregar para seus lábios de forma inevitável. Os grandes olhos escuros dele a encararam de volta, com um misto de curiosidade, surpresa e alegria por vê-la mais uma vez. Ele deu um passo na direção dela de forma impensada, sendo puxado por , que o abraçou pelos ombros e abriu um largo sorriso para .
– Oi ! – Cortou o silêncio e um instante depois os rapazes não mais pareciam estar atuando muito mal e a mulher suspirou em alívio. Não saberia lidar com eles agindo estranho, principalmente quando a deixava tão… Nervosa.
– Alguém, – Estalou os lábios e todos os olhares se voltaram para o mais novo, que corou imediatamente. – Comentou que estava com fome e como eu estava livre, pensei que seria uma boa ideia trazer algo para vocês comerem. – Deu de ombros, como se aquilo não fosse nada demais.
, me desculpe. – murmurou. – Mas eu vou roubar a sua alma gêmea.
E com aquilo, arrancou uma risada de , enquanto murmurava algo sobre ingratidão e os garotos se aproximavam – com muito cuidado e um grudado nele – em busca dos cafés e dos bolinhos.
– Eu… Trouxe um sanduíche para você também. – Murmurou e sentiu as bochechas quentes.
– Sério? – Ele arregalou os olhos e suas irises adquiriram um brilho tão bonito que tirou o fôlego de . moveu os olhos do amigo para com um sorriso esperto nos lábios cheios e ambos acabaram corando mais ainda.
– É. Você come muito. Não acho que alguns bolinhos seriam o suficiente. – Deu de ombros outra vez. Estendeu o pacote maior para e ele entregou o sanduíche para , pegando alguns bolinhos e um copo de café para si antes de se afastar e deixar os dois sozinhos, já que o resto do grupo já estava acomodado nos puffs para comer e descansar.
– Um brinde a por ter trazido comida! – gritou animado, mesmo que tivesse deixado o café de lado por não gostar da bebida, causando risos na garota, que acenou com a cabeça em agradecimento antes de voltar os olhos para .
– An… – Ele resmungou em dúvida, sua expressão confusa o deixava com os lábios afastados e os olhos grandes, tornando o resultado final uma das coisas mais fofas que já tinha visto. – Podemos sentir ali. – Apontou para os carpetes perto da parede. – Eu sento em um canto e você no outro. – Sorriu pequeno.
– Ótima ideia. – assentiu e seguiu a uma distância segura. Se sentou com as pernas esticadas, enquanto mantinha as pernas cruzadas em frente ao corpo. Ele levou o copo aos lábios e fez uma careta gigantesca ao constatar o amargor.
– Argh. – Torceu os lábios em um bico e riu.
– Você não gosta de café? – indagou.
– Gosto… De café doce. – Deu de ombros. – Não gosto de coisas amargas ou azedas. Meu paladar é infantil. – Brincou e a mulher o achou extremamente fofo outra vez.
Sem dúvidas era crime em algum país alguém ser tão… . Não havia explicação para ele e sentia-se cada vez mais fraca.

Sete

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Costumava pensar que seu som favorito era a risada de . Claro, gostava de muitos sons, alguns esquisitos e outros nem tanto, mas a risada de seu hyung era uma de suas coisas favoritas no mundo. ria tanto que chegava a chorar e aquilo era contagiante demais. Mas não poderia negar que a risada de tinha tomado um espaço em seu gostar e que ele iria se esforçar muito para sempre fazê-la rir, mesmo que precisasse começar a apelar e usar as piadas de tio que sempre contava e que nem sempre eram realmente engraçadas.
– Então você não gosta de coisas amargas? – estalou os lábios após bebericar o café e o garoto assentiu com um aceno de cabeça. Tinha deixado o café de lado após poucos goles, apenas para não fazer desfeita. Só desistiu da bebida quando garantiu que não iria se ofender e que na próxima vez, iria levar algo bem doce para ele.
E o “próxima vez” causou uma palpitação estranha no coração de , que ele realmente esperava que fosse um sinal de enfarto.
Não que ele não soubesse que iria continuar encontrando e passando um tempo com , mas ter a prova de que ela gostava da companhia dele era diferente e lhe trazia um conforto inexplicável, porque ele também gostava muito de estar com ela.
– Não. – Torceu os lábios. – Quero dizer, alguém gosta? Não é realmente algo agradável. – Deu de ombros. Desembrulhou o sanduíche e deu uma mordida grande, enchendo a boca de comida e recebendo um sorriso satisfeito de .
– Eu gosto de balas azedas. – Ela murmurou. – Mesmo que eu sempre me arrependa de comer mais de uma. – Riu e a acompanhou após terminar de mastigar.
– Comer balas azedas sempre nos faz abrir caretas horríveis. – Murmurou e deu mais uma mordida.
– Aposto que a careta do homem mais bonito do mundo não é nada ridícula. – implicou e as bochechas de avermelharam no mesmo instante. – Porque você está adorável com essas bochechas enormes cheias de comida.
precisou respirar fundo e contar mentalmente enquanto mastigava, para não engasgar e não sair gritando pela sala por ter recebido um elogio tão… adorável. Infelizmente precisaria usar a mesma palavra que , já que seu cérebro não estava funcionando direito e ele não conseguia pensar em qualquer sinônimo.
– Ah… Não sei. – Riu um pouco desesperado e a mulher gargalhou.
– Estou brincando com você, mas você fica tão constrangido que eu prometo tentar não fazer mais. – Ela bebeu mais um pouco do café sem desviar os olhos de .
– Eu fico constrangido com muitas coisas. – Comentou e com mais uma mordida, finalizou o sanduíche e soltou um suspiro satisfeito. Tinha matado sua fome – por hora – e se pudesse, daria um abraço apertado em por ter sido a responsável por deixá-lo tão feliz naquele momento. Qualquer coisa que envolvesse comida o deixava contente.
– Você é fofo. – Ela declarou. – Mas me conta… Qual a sensação de ser o homem mais bonito do mundo? Tipo, meus pais acham que eu sou linda e eu já fico insuportável com isso. – Riu.
é muito mais bonito que eu. – retrucou. – Não sei mesmo porque eu ganhei essa votação.
– Eu nem vou comentar. – revirou os olhos e o rapaz arqueou as sobrancelhas para ela. – Aliás, advinha o que eu passei os últimos dias escutando? – Mudou de assunto quando percebeu que ele ia insistir na conversa e ele riu.
– Hmmmm. – estalou os lábios, fingindo pensar por longos segundos e fazendo rir mais um pouco. – Shawn Mendes?
– Sim, é claro que sim. – Revirou os olhos. – Porque falar de Shawn Mendes com você é realmente algo muito importante.
– Se fosse o Justin Bieber nós poderíamos chamar o . – sorriu largo e o encarou com o cenho franzido, sem saber se ele estava brincando ou não.
Ele não estava e por isso acabou rindo com gosto.
– Você é esquisito. – Ela declarou. – Esquisito demais para um astro da música.
– Estou apenas mostrando o verdadeiro eu. – Piscou para ela.
– Mentira. – declarou, sentando-se entre eles e virando o rosto para encarar . – Ele finge que não, mas é apenas um bebê que gosta de receber atenção.
– Ah, isso eu já tinha percebido. – sorriu implicante. bufou, se arrastando para mais perto de e deitando a cabeça no ombro do amigo.
– Então você passou os últimos dias ouvindo nossas músicas? – indagou e assentiu animada.
– Eu já conhecia muitas, mas não fazia ideia de que eram vocês que cantavam.
– Até porque você nem sabia quem nós éramos. – Lembrou e ela assentiu em concordância.
– É.
– E o que achou? – a encarou, ansioso para saber a opinião de sobre seu trabalho. Fazer música era a coisa mais importante de sua vida e a opinião de significava muito para ele.
– Incrível. Sério, vocês são muito bons. Eu gostei de todas as músicas e queria muito aprender as coreografias. – Riu sozinha. trocou um olhar rápido com e mesmo que eles não fossem almas gêmeas e aquele papel na vida de fosse de , eles se conheciam o suficiente para entender um ao outro sem palavras e por isso piscou para o mais novo antes de se virar para com um sorriso largo.
– Está convidada para participar dos nossos ensaios. Nós sempre repassamos algumas coreografias e você pode aprender alguma coisa.
– Não, não quero atrapalhar. Vou ver vídeos no YouTube. – garantiu.
– Você não atrapalharia em nada, noona. – murmurou baixinho, as bochechas ruborizando outra vez quando se deu conta de como havia chamado a mulher. – Desculpe. – Quase engasgou e desviou o olhar no mesmo instante em que sorriu frouxo, suas bochechas um pouco rosadas.
– Tá tudo bem. – Garantiu. – Eu… gostei. Ninguém tinha me chamado assim porque eu sou estrangeira. – Deu de ombros, mas aquilo não deixou mais confortável e por isso tomou a frente mais uma vez. Estava cuidando de seu ie, como fazia há muitos anos.
– Você vai jantar com a gente no final de semana? – Indagou e assentiu, parecendo um pouco desnorteada quando afastou o olhar de e o focou no mais velho.
– Se vocês não cancelarem. – Ela riu.
está ansioso para cozinhar.
– E eu estou ansioso para comer. – murmurou, causando risos na mulher.
– Você acabou de comer um sanduíche enorme. – Lembrou.
– Já fazem alguns minutos. – Deu de ombros e ela riu mais. Suspirou quando moveu o olhar para o relógio no pulso.
– Eu preciso ir. Tenho que organizar a sala antes de terminar o expediente. – Explicou e ambos os rapazes assentiram.
– Mande uma mensagem quando chegar em casa. – pediu e mordeu um sorriso.
– Claro. Bom final de tarde para vocês. – Acenou antes de se colocar de pé, passando pelo resto do grupo para se despedir e seguindo para fora da sala com passos rápidos. Quando a porta se fechou, gemeu em frustração e cobriu o rosto com as mãos.
– Eu fui terrível. – Declarou e riu.
– Poderia ter sido pior. – Tentou confortá-lo. – Como estão as coisas aí dentro? – Apontou para o peito do mais novo quando ele voltou a erguer o rosto.
– Bagunçadas. – Falou com sinceridade. – Mas acho que vamos ser bons amigos.
revirou os olhos e deixou um beijo no topo da cabeça de antes de levantar.
– Você é tão burro às vezes ie.
E com aquela frase se afastou, deixando com os pensamentos ainda mais bagunçados e uma expressão confusa no rosto. A mesma expressão que achava adorável e que causava nela as mesmas coisas que sentia quando a ouvia rir.

Oito

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Deveria existir algum tipo de tutorial de “como se vestir para jantar na casa da sua alma gêmea e seus seis amigos astros do kpop”, mas sabia que aquele seria um tema específico demais – e talvez único, então precisou de quase uma hora para decidir usar roupas normais. Afinal, era um jantar em casa e os garotos provavelmente estariam priorizando roupas confortáveis e ela não seria a única maluca a ir vestida como se fosse para o Grammy.
Passou todo o caminho torcendo os dedos da mão direita, enquanto o celular era segurado pela esquerda para que pudesse ver os vídeos de gatinhos fofos em uma falha tentativa de se acalmar. Tinha encontrado e os rapazes mais de uma vez naquela semana, todo aquele nervosismo chegava a ser patético. Mas de alguma forma, ela sabia que não era. Quem não acabaria surtando na pele dela? Talvez devesse se dar mais créditos, já que só tinha surtado no primeiro dia e passado o resto da semana apenas tendo alguns momentos de nervosismo.
Pagou a corrida e pulou para fora do táxi, mandando uma mensagem para avisando que estava na frente do prédio e sendo instruída a subir para o apartamento já que a entrada dela estava liberada na portaria. Subiu todos os andares pensando em como deveria estar vivendo o sonho de qualquer fã do BTS e de como estava tão nervosa quanto uma fã estaria. Só não tinha os gritos e as lágrimas, mas seu coração batia tão rápido que ela sentia que ele ia sair para fora do peito a qualquer momento.
Não precisou tocar a campainha, porque estava esperando por ela na porta, com seu sorriso característico nos lábios finos e usando roupas confortáveis e largas. Parecia ser o tipo de roupa favorita dele quando não estava no palco ou em entrevistas e achava adorável a forma como era normal mesmo sendo mundialmente famoso. Quando pensava em pessoas famosas, imaginava grandes mansões – tudo bem, o apartamento que ele dividia com o grupo era imenso e muito luxuoso, mas ainda era “normal” – e roupas caríssimas. E talvez a camiseta puída que usava naquele dia custasse mais do que seu salário de dois meses, mas sem saber o valor ou marca da peça, não passava de uma camiseta comum para e, portanto, era tão comum quanto ela própria.
Acenou com a mão direita após enfiar o celular no bolso traseiro dos jeans e ergueu a mão no conhecido high five a distância que ele tinha inventado, causando um sorriso pequeno em .
– Eu vou… – Apontou para dentro, se afastando para que pudesse entrar no apartamento. A porta foi fechada após cinco passos e ela alargou o sorriso ao sentir o cheiro incrível de comida sendo preparada. – está animado. Passou o dia todo me fazendo de empregado para ajudá-lo a decidir o que cozinhar para você. – comentou e se virou para ele.
– Vocês não precisavam ter tanto trabalho. – Falou. – Podíamos pedir pizza.
– De jeito nenhum! – exclamou, saindo do corredor que levava aos quartos e se aproximando de para um abraço. – Nós compramos comida quase todos os dias. Quando cozinha, é como um dia abençoado. – Sorriu e assentiu.
– Eu entendo. Na minha casa, sempre fazíamos a quarta da Torta de Carne. Eu e meus pais sempre gostamos de cozinhar.
também gosta. – comentou, levando os olhos sagazes para o amigo, que passou a mão pelos cabelos em desconforto. – Vocês poderiam cozinhar juntos um dia. E me chamar para provar, é claro.
– Uma ótima ideia. – murmurou, sorrindo para e recebendo um sorriso nervoso em resposta. – Então, no que posso ajudar? – Indagou enquanto seguia com os rapazes para a cozinha, sem deixar de reparar na decoração elegante do apartamento e nos quadros nas paredes. Não havia tantas fotos quanto ela gostaria e encontraria em sua própria casa, mas supunha que por serem famosos, encontravam fotos deles mesmos em todos os lugares e talvez quisessem mais normalidade em casa.
– Em nada. – respondeu. – Você é visita e quem vai trabalhar somos nós. – Declarou e ela torceu os lábios.
– Não me importo em ajudar, na verdade, faço até questão. – Retrucou e a encarou com curiosidade, como se quisesse ler dentro de seus olhos verdes. desviou o olhar ao sentir o puxão em direção a ele se intensificar.
– Não tem muito o que fazer, para ser sincero. – comentou. – Mas se quiser, pode ajudar a mim e ao na decoração do bolo.
– Tem bolo? – se animou, batendo palmas rapidamente e arrancando risadas de e bochechas coradas de .
– Eu não sei o porquê, mas sinto que já vi essa reação muitas e muitas vezes. – falou em tom claramente debochado e franziu o cenho em confusão.
– Perdão?
– Depois eu te mostro um compilado de vídeos do fazendo exatamente isso. – Piscou para ela e antes que pudesse responder, a porta da cozinha foi aberta por e a bagunça dos cinco membros restantes tomou toda a atenção de .
estava no fogão junto de , trabalhando animado enquanto o outro ria com vontade. estava no balcão principal, brincando com a decoração do bolo que havia mencionado enquanto conversava com – e provavelmente tinha sido culpa dele as gargalhadas – e e estavam no balcão menor, sem nada para fazer e expressão nada satisfeitas no rosto. franziu o cenho e se virou para em busca de informações.
– Eles são péssimos na cozinha. – O mais novo comentou com um sorriso. – Ruins de verdade então quando estamos cozinhando em casa, eles ficam de fora.
– Compreensível, mas eu fiquei com pena. – Eles riram e acabaram chamando a atenção do quinteto. foi envolvida em abraços rápidos – aqueles garotos gostavam muito de abraçar pelo que tinha percebido – e cumprimentos animados e em um instante estava na bancada junto de e , decorando o bolo da forma mais esquisita que puderam pensar juntos e rindo das piadas sem noção que contava.
E mesmo que tentasse evitar, seu olhar sempre acabava buscando – que estava trabalhando junto com na preparação do japchae* – e o encontrava olhando para ela com seus grandes olhos escuros e brilhantes dos quais ela gostava muito mas que a deixavam completamente nervosa, com as palmas das mãos suando e o coração acelerado.
Como se estivesse sofrendo de um ataque do coração em todos os segundos em que os olhos dele estavam fixos nos dela, até que desse a batalha como perdida e voltasse a tentar prestar atenção no bolo que deveria ajudar a decorar.

 

.
Gostava tanto da risada de . E sabia que aquele não era um pensamento novo em sua mente, mas não conseguia não admirar quando a mulher começava a rir. Suas bochechas cresciam e mesmo com seus olhos grandes, eles quase sumiam durante o riso. Sem falar que ela jogava a cabeça levemente para trás e sempre se apoiava em algum lugar para não acabar perdendo o equilíbrio. Era encantador e precisava repetir para si mesmo que eles deveriam ser apenas amigos, mesmo que algumas palpitações esquisitas tomassem seu interior toda vez que via ou até mesmo pensava em .
Estava ferrado e ainda não tinha noção do quanto.
– Então é bom em tudo? – indagou, levantando o olhar para o mais novo e abrindo um sorriso esperto. franziu o cenho, se perguntando em que momento a conversa tinha ido para aquele rumo sendo que há poucos segundos eles estavam falando sobre as gravações do Run BTS.
estava sentada na bancada junto de e , enquanto e arrumavam a mesa para o jantar e o trio restante cuidava os preparos finais do jantar.
– Sim, infelizmente. – torceu os lábios em desgosto.
– Quando chegamos a essa conversa hyungs? – O mais novo indagou, causando risos gerais.
– Quando contamos sobre o Run em que todos nós jogamos boliche contra você e ainda assim, você ganhou de todos nós. – explicou.
– Eu não fiquei surpreso. – murmurou. – Nós somos horríveis. – Deu de ombros e riu.
– Eu sou muito boa em boliche. – Estalou os lábios. – Talvez devêssemos fazer uma disputa qualquer dia desses. – Deixou a ideia no ar e sorriu.
– Oh não. – falou. – é muito competitivo, . Você não vai querer disputar contra ele.
– Eu também sou competitiva. – A mulher retrucou.
– Gosto mais dela a cada segundo. – murmurou e concordou com um aceno de cabeça.
– Ela é a melhor alma gêmea que você poderia ter . – Decretou.
– Tudo bem. – concordou. – Então vamos competir no boliche. Mas temos que colocar algo como prêmio. – Abriu um sorriso de lábios fechados e arqueou as sobrancelhas. Apoiou os cotovelos no balcão e entrelaçou os dedos das mãos.
– O que você quer como prêmio? – Indagou e deu de ombros.
– Preciso pensar. E você?
– Nesse caso eu vou pensar também. – Devolveu e riu.
– Você é difícil, noona. – Murmurou em um tom de voz mais baixo, agradecendo internamente aos amigos que passaram a fingir estarem muito ocupados com qualquer outra coisa que não fosse olhar para eles. – Bem diferente do que eu esperava de você.
– Você também é diferente, . Mas de um jeito bom. – Sorriu pequeno, parecendo levemente envergonhada e o mais novo abriu um sorriso largo antes de voltar a atenção para o trabalho que fazia.
Durante o resto da noite, mantiveram-se sempre conversando em grupo, com rindo das piadas sem graça de junto de e sua risada escandalosa, se juntando a e com as provocações a e discutindo os assuntos “sérios de adulto” que entretiam e . E enquanto jantava – havia tentado controlar suas maneiras nada delicadas enquanto estava comendo, mas desistiu na segunda garfada e suspirou aliviado ao ver o sorriso animado de vendo-o devorar o segundo prato de comida. Ela não poupou elogios a comida e após uma fatia de bolo – enquanto o grupo devorava o doce sem cerimônias, se ofereceu para lavar a louça e mesmo que a regra da casa fosse “quem cozinha não lava”, se ofereceu prontamente para secar e guardar a louça. A cozinha era grande e eles não correriam o risco de se esbarrar, desde que tomassem cuidado.
– Me conta qual é o seu maior sonho. – Murmurou quando deixou o segundo prato no escorredor de louça, se afastando para que pudesse se aproximar.
– Eu… não sei? – Seu tom de voz parecia uma pergunta e acabou rindo.
– Como pode não saber sobre seus sonhos, noona?
– Sei lá, . Nunca pensei sobre isso. E devo ser a única pessoa no mundo inteiro que nunca parou para pensar nos próprios sonhos. – Riu baixinho. – Quero dizer, tem coisas que eu quero muito fazer. Mas não sei se chegam a ser sonhos.
– Hm. – assentiu em compreensão. – Acho que entendo, porque eu tinha um sonho e não vários. Claro, esse sonho acompanhava outros desejos, mas entendo a dificuldade de separar o que é um desejo de um sonho.
– Acho que se eu fosse catalogar, talvez viajar o mundo todo seria o meu primeiro sonho. Já conheço alguns países, mas eu queria sair pelo mundo e passar em todas as cidades que existem e aprender sobre elas. E fazer uma tatuagem. Definitivamente. – Estalou os lábios.
– Uma tatuagem? – franziu o cenho em confusão.
– É. – riu. – Sempre que eu decido fazer, algo acontece e eu desisto. E então me desconecto da arte e eu acabo deixando de lado.
– Posso ir a um estúdio de tatuagem com você. – se ofereceu. – E te dou uma toalha para você apertar já que não vou poder te dar a mão. – Sorriu pequeno.
– Dói muito? – indagou, movendo os olhos para a mão tatuada de .
– No braço não. – Ergueu a manga e mostrou algumas das artes em sua pele. – Mas na mão dói.
deu um passo para perto dele, mantendo as mãos atrás do corpo enquanto seus olhos corriam por todas as linhas e pontos pintados no braço e na mão de . O rapaz quase prendeu a respiração, mas se manteve firme, com o olhar preso no rosto dela.
– Não são tão bonitas. – Murmurou um pouco sem jeito.
– Eu acho incríveis. – Ela garantiu. – Se você quis fazer elas, é porque são importantes e por isso são lindas. – Levantou o olhar para ele e eles se encaram por alguns segundos, sendo quase o suficiente para fazer erguer a mão e tocar nas bochechas rosadas de , se questionando se a pele dela seria tão macia quanto ele supunha que fosse.
-ah. – A voz de soou no corredor que leva a cozinha e no mesmo segundo se afastou e voltou para a louça, enquanto soltava o ar que nem sabia que estava prendendo e se virava para a porta que tinha acabado de ser aberta.
franziu o cenho em confusão ao encontrar o maknae e com as bochechas coradas e expressões assustadas no rosto, mas decidiu não falar nada e abriu um de seus sorrisos reconfortantes que sempre faziam sorrir. E daquela vez não foi diferente e sentiu-se mais aliviado.
– Vocês querem jogar? – Indagou.
– Você joga noona? – se virou para .
– Um pouquinho. – Ela sorriu pequeno. Minutos depois estavam na sala, decidindo as duplas para disputarem no videogame, enquanto e ignoravam o puxão que sentiam na direção um do outro.

*Prato tradicional na culinária coreana. É feito de macarrão de batata-doce com vegetais fritos, e é aromatizado com óleo de gergelim e molho de soja.

Nove

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Precisou de apenas alguns minutos para perceber que era a pessoa mais competitiva que já tinha conhecido. Ele não havia disputado a primeira partida e assistiu e jogarem com uma animação que acabou arrancando risos de . E quando ele assumiu o controle contra simplesmente mergulhou no jogo. Não falava, mal se mexia e seus grandes olhos de jabuticaba se mantinham fixos na tela da TV.
A sala de estar não era pequena, mesmo que fossem oito pessoas no total. Um dos sofás grandes estava ocupado por , , e , enquanto o outro era ocupado por , e . estava na poltrona mais afastada do sofá onde se encontrava.
Quando foi a vez de jogar contra , não usou todas as habilidades que ela tinha. Talvez não tivesse vencido ele se tentasse de verdade porque era um jogador muito bom, mas ele não teria tido aquela facilidade para lhe vencer. Apesar de saber que não estava sendo justa e o estava enganando de certa forma, o sorriso largo que abriu quando venceu fez sua mentirinha valer a pena. Principalmente quando ele se deu conta de que havia vencido ela, arregalou os olhos e suas bochechas ruborizaram. Ele estava tão acostumado a jogar apenas com os amigos que simplesmente mergulhou no jogo e acabou rindo quando ele começou a se desculpar.
– Está tudo bem. – Ela garantiu. – Eu não gostaria que você facilitasse apenas para que eu ganhasse como cortesia.
– Isso foi ruim. Eu fui muito rude, não deveria ter agido assim. – insistiu, o olhar fixo em .
– Você está fazendo com que eu me sinta culpada. – Ela reclamou com um suspiro e franziu o cenho em confusão. acabou rindo.
– Por quê?
– Eu não joguei para valer, . Sou muito melhor do que demonstrei, mas você é tão competitivo que eu facilitei e não me esforcei.
– Fala sério, noona. – Ele reclamou e caiu na gargalhada.
– Ela é a mesmo a melhor alma gêmea que o poderia ter. – declarou sem desviar o olhar da TV. estava jogando contra e as risadas escandalosas dos dois eram contagiantes e faziam sentir-se em casa. Seus pais também riam daquele jeito espontâneo e aquilo acalentava seu coração.
– Essa partida não valeu. – Ele declarou emburrado, um bico formado nos lábios finos. bagunçou os cabelos do mais novo e recebeu um olhar atravessado que apenas lhe arrancou uma risada contida. – Nós vamos jogar de novo e você precisa prometer que não vai facilitar. – Encarou com seriedade e ela assentiu com a cabeça, erguendo os indicadores e cruzando um dedo no outro antes de beijá-los e selar a promessa.
– Está jurado. – Declarou e sorriu pequeno.
– Certo. – Desviou o olhar, bagunçando os cabelos e voltando a atenção para a TV, tentando disfarçar o rubor nas bochechas que notou de qualquer forma.
perdeu a partida contra e mesmo que e ainda tivessem uma partida pendente, a vez foi cedida para e , que realmente não facilitou as coisas e não venceu o mais novo por muito pouco.
– Ele não deveria ter sido cavalheiro e deixado ela vencer? – indagou para ninguém em particular.
– Sim. – concordou. – Mas foi mais rápida e fez isso antes do . – Riu.
– Pare de falar e vá jogar, hyung. – reclamou ao passar o controle para o mais velho.
se acomodou no sofá e manteve o olhar na TV, se obrigando a não virar o rosto em direção a e devolver o olhar que ela sentia sobre ela. Quanto mais tempo passava com ele, mais ela sentia aquele puxão se intensificar. Os sonhos se tornavam cada vez mais reais e tinha revivido momentos que tinha partilhado com enquanto estava adormecida mais de uma vez. Sabia o que aquilo significava e também sabia que a alternativa mais viável – fora a de ceder aos caprichos do destino – era a de evitar e se afastar.
Mas como poderia? Antes mesmo de se encontrarem ele já era insubstituível em sua vida e agora que conviviam, não via maneiras de conseguir se manter longe. Gostava muito de estar com e partilhar momentos com ele e se tentasse se afastar, as coisas ficariam ruins. Não queria ter que lidar com aquele sentimento e por isso respirou fundo e o encarou, abrindo um sorriso pequeno quando ele passou a mãos pelos cabelos, demonstrando estar sem jeito. levou o olhar até a varanda e precisou de apenas um segundo para decidir o que fazer. Levantou e com um aceno de cabeça pediu para que a seguisse. Colocou uma das cadeiras entre eles quando se escorou na grade e passou a observar a cidade, mordendo um sorriso quando passou a tamborilar os dedos contra o concreto.
– Você está sentindo também, não está? – indagou por fim, em um tom de voz mais baixo.
– Eu… estou. – Suspirou. – Só faz uma semana, mas fica mais forte a cada segundo.
– Eu sinto a mesma coisa, . E realmente não sei o que fazer, porque nos afastarmos não vai resolver. É pra ser assim. – Virou o rosto para encará-lo e fez o mesmo, os olhos escuros engolindo naquela galáxia particular que lhe tirava o fôlego.
– Não sei se vamos nos apaixonar de verdade. Tenho medo de confundirmos isso e estragarmos nossa única chance… – Interrompeu sua fala, sacudindo a cabeça para os lados de modo frustrado. – Esquece, não quero pensar nisso e ser negativista.
– Isso é ser realista. – contrapôs. – É a nossa vida e nós dois sabemos como as coisas funcionam. Não temos muitas escolhas. – Suspirou.
– Você conhece alguém que tenha passado por isso? – indagou. – Meus pais não eram almas gêmeas românticas mas acabaram se apaixonando. é feliz e os outros… bom, eles tem liberdade para se apaixonar por quem eles quiserem. Eu não tenho muito contato com… tudo isso. – Falou.
– Meus pais. – contou. – São almas gêmeas românticas e eu sempre desejei ter um amor como o deles. É intenso de uma forma que eu mal sei explicar. Mas minha mãe me contou que nem sempre ela soube que era amor de verdade e não apenas o destino forçando algo entre eles.
– Esse é o meu medo. Não saber. Porque eu não tenho nenhuma experiência romântica, então como eu poderia saber caso estivesse apaixonado por você?
– Acho que nós vamos saber. Vamos sentir isso. – mordeu o lábio inferior. – Agora resta saber o que vamos decidir. A gente pode deixar isso pra lá e não dar chance ao destino de brincar com os nossos sentimentos ou então…
– Deixamos acontecer, como deve ser. Nesse caso, vamos estar aceitando a ideia de que vamos nos apaixonar em algum momento.
– É. – Piscou e colocou uma mecha do cabelo para trás da orelha, tendo todo o movimento observado por . – É isso.
– Eu… não sei o que fazer. Não tenho certeza. – confessou.
– Isso é bom, porque eu também não tenho a mínima ideia do que fazer. – murmurou e eles riram.
– As coisas poderiam ser mais fáceis. Só um pouquinho mais fáceis. – estalou os lábios.
– Qual seria a graça disso? – riu.
! Você vai disputar com o ! – gritou de dentro da casa e riu baixinho quando os olhos escuros de adquiriram novamente aquele brilho competitivo.
– Vamos lá, você precisa acabar com o . – Indicou a sala com o queixo.
a encarou.
é muito bom. Talvez eu perca. – Suspirou.
– Confio em você. Tenho certeza de que vai ganhar. – deu de ombros e abriu seu sorriso de dentinhos antes de seguir para dentro da casa e se jogar no sofá. o seguiu após um suspiro e voltou para o seu lugar ao lado de , recebendo um aperto no braço em forma de apoio.
E naquele momento ela precisava muito se segurar em algo para não cair completamente por .

Dez

.
Tinha corrido quase 10 quilômetros na esteira enquanto todos na casa ainda dormiam. Acordou cedo e tomou um café reforçado antes de seguir para a pequena academia que tinham em casa e começar sua série de exercícios com ainda mais vontade do que estava acostumado a fazer. A camiseta larga atrapalhava um pouco, mas tinha ficado com preguiça de procurar uma regata e por isso estava malhando com a blusa com a qual tinha dormido. Uma música animada preenchia o ambiente enquanto ele respirava fundo, o peito subindo rapidamente enquanto esperava que seu coração desacelerasse. Estava deitado no chão com o celular ao seu lado, observando o teto sem realmente prestar atenção, já que seus pensamentos estavam cheios.
Completamente inundados por .
Era difícil para pensar em qualquer coisa que não fosse a conversa da noite anterior. Afinal de contas, eles tinham uma decisão para tomar. Aquela ainda não era a decisão mais importante dentro daquele relacionamento de almas gêmeas, mas seria o pontapé para que eles decidissem o resto de suas vidas.
Abandonar e tentar fugir do destino e nunca mais verem um ao outro ou aceitarem que estavam fadados a se apaixonar e esperar pelo momento em que aquilo iria acontecer de braços abertos.
queria muito uma terceira opção, mesmo que aquela esperança fosse completamente infundada.
O celular vibrou e virou o rosto para a esquerda, abrindo um pequeno sorriso quando leu o nome de na tela do aparelho. Se virou, permanecendo deitado, mas com a lateral do corpo contra o chão. Pegou o celular e o desbloqueou, respirando fundo antes de abrir a conversa.


Bom dia ie!
Meus dedos estão doloridos por causa do controle
Fazia muito tempo que eu não jogava
Agora estou pensando em voltar a jogar Overwatch e a culpa é sua
Acho que ainda está dormindo, então leia minhas reclamações mais tarde

riu, segurando o celular com firmeza enquanto seus dedos se moviam pela tela em um digitar rápido demais. Precisou reler suas respostas para corrigir os erros e clicou em enviar com um sorriso grande nos lábios finos.

Bom dia noona!
Estou acordado há muito tempo
Eu gosto de me exercitar em silêncio então aproveito quando meus hyungs estão dormindo
Vamos jogar Overwatch juntos, mas você precisa prometer que não vai facilitar para mim


Exercícios no domingo de manhã?
Quem é você? Um robô?
Garoto vai dormir!

gargalhou com gosto e precisou cobrir a boca com a mão para evitar rir ainda mais e acordar os amigos. ficava de muito mau humor quando era acordado por qualquer pessoa e por qualquer motivo que não fosse ele mesmo e odiava vê-lo emburrado e sonolento.

Gosto de pensar que estou me mantendo saudável
E você está fugindo do meu convite para jogar Overwatch


Certo, certo
Eu prometo que não vou facilitar
Mas você estava muito feliz por ter ganhado e eu achei fofo
Não se tira doce de criança , é maldade

É ótimo saber que meus hyungs já influenciaram você a pensar que eu sou uma criancinha


Você mesmo me disse que era uma criancinha
Criancinhas não gostam de café amargo

o estava provocando e sentia aquilo. Quase conseguia ver o sorriso largo nos lábios dela e os olhos brilhando em expectativa pela brincadeira e por conta disso, resolveu que iria revidar. estava tentando testar alguns de seus limites, mas ela não sabia que ele era atentado quando queria e que convivia com e há muitos anos e estava acostumado a ser provocado. E retrucar algumas vezes sempre era algo que valia a pena.

Criancinhas não fazem algumas coisas que eu faço noona
Leve isso em consideração


Tudo bem
Ultrapassamos alguns limites aqui agora

O rapaz gargalhou e voltou a se deitar de barriga para cima, apoiando uma das panturrilhas no final da coxa enquanto encarava o celular sem saber realmente o que digitar. Ele sabia exatamente o que queria dizer, mas não sabia como dizer e talvez colocar aquilo para fora não fosse uma boa ideia e ele acabasse se arrependendo. Mas no calor do momento, apenas digitou sua resposta e clicou em enviar.

Talvez me apaixonar por você não seja uma péssima ideia


Então…
Essa é a sua resposta sobre o que conversamos ontem?

Seria tão ruim assim?
Se apaixonar por mim?


Não, de jeito nenhum
Agora que eu conheço você melhor, não sinto o mesmo medo que senti naquele primeiro dia
Acho que… me apaixonar por você não é uma ideia tão ruim assim

Deveríamos sair em um encontro então


Deveríamos?

Sim, deveríamos


Tudo bem, então vamos sair em um encontro
Mas… sem nos tocar
Então pense em algo legal

Tenho uma ótima ideia noona
Quarta-feira fica bom para você?


Fica ótimo
Até quarta!

Não, vamos nos ver antes disso
É a minha vez de levar café para você 😊

E com isso bloqueou o celular, deixando o sorriso largo tomar seus lábios enquanto seu coração batia com força e rapidamente no peito, sem ser motivado pela corrida na esteira.
– Me diga que você tem um encontro. – praticamente implorou e seguiu a voz com o olhar, encontrando o amigo escorado na soleira da porta com os braços cruzados em frente ao corpo.
– Eu… tenho um encontro. – O mais novo murmurou sem conseguir conter o riso bobo. exclamou algo incompreensível antes de voltar para o corredor e gritar como um pai orgulhoso:
– Bangtan, nosso ie tem um encontro!

Onze

.
Tinha um encontro naquele dia. Nem mesmo havia se dado conta de como aquilo tinha acontecido, mas acontecera e sentia-se completamente insegura sobre a roupa que estava usando. Havia pedido algumas dicas do que vestir para , mas ele estava fazendo mistério sobre o lugar onde a levaria e dissera apenas para ela ficar confortável.
Bom, ela queria sair correndo para longe dele e daquele encontro por conta do nervosismo, então aquela havia sido uma péssima sugestão e quando comentara aquilo com , ele apenas mandou um áudio rindo – e a risada dele era a coisa mais adorável que já tinha ouvido na vida – e disse para ela relaxar, mesmo que ele também estivesse nervoso.
Tinha que admitir de que gostava da sinceridade que eles mantinham um com o outro. Falavam sobre o que sentiam, sobre os medos e as expectativas para aquele futuro que parecia tão incerto, mesmo que já fosse predestinado desde seus nascimentos. Era estranho pensar que estava passando por um processo onde acabaria se apaixonando por quando ele realmente era sua alma gêmea. Algumas pessoas simplesmente aceitavam aquilo e se entregavam, mas em um primeiro momento, eles tinham relutado porque não se conheciam o suficiente para querer arriscar se apaixonar. E talvez fosse muita inocência pensar que tudo era, de alguma forma, uma decisão deles. Talvez aquilo já estivesse escrito em seus destinos e eles apenas estavam seguindo o curso do que já estava planejado para eles.
Fosse como fosse, a que tinha conhecido em seu primeiro dia de trabalho em Seul não queria se apaixonar por um total desconhecido. Mas a que tinha acordado naquela manhã e que se encarava no espelho era outra pessoa e ela realmente não via problemas em se apaixonar por . Não quando todas as coisas que tinha conhecido ou observado sobre ele eram tão… encantadoras e apaixonantes. E se aquilo fosse sua cegueira de alma gêmea, ela não ligava. Estava confortável com a ideia de se apaixonar, mesmo que ainda temesse o que poderia vir depois.
Eles não poderiam viver o resto de suas vidas sem se tocar. era, assim como tinha observado de – uma pessoa carinhosa e que gostava de contato. Em algum momento, eles precisariam tomar aquela decisão, sabendo das consequências que iriam enfrentar caso tudo desse errado e eles não devessem ficar juntos. só podia esperar e desejar o melhor para eles, mesmo que tivesse muito medo do que poderia acontecer.
Suspirou e prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, seguindo para o banheiro para fazer sua higiene e tomar um banho. Minutos mais tarde estava usando jeans e camiseta e seguindo para fora do apartamento, esperando que aquela roupa fosse boa o suficiente para o encontro daquela noite. Não estava com vontade de fazer seu próprio café e por isso saiu sem rumo pelas ruas de seu bairro, em busca de algum lugar que lhe agradasse. Os coreanos não tomavam café da manhã como os australianos – nada de ovos e mingau de aveia – e aquilo tinha assustado nos primeiros dias, mas agora já estava acostumada a comer kimchi ou qualquer outra comida tipicamente coreana na primeira refeição do dia. Normalmente comia no restaurante e então seguia para a gravadora, mas tinha sido requisitada para dar aulas para mais uma artista e seus horários estavam mais apertados, por isso pegou uma porção de ttteokbokki* e rumou para a empresa.
Mal tinha dado dois passos pelo saguão quando seu celular vibrou e franziu o cenho em confusão antes de puxar o aparelho do bolso do jeans e desbloquear a tela com a digital. Sorriu de lado e então moveu o olhar pelo local em busca dos grandes olhos escuros que a observavam.


Você está linda noona
Ótima escolha para hoje à noite
Bom dia 😉

Encontrou o mais novo perto do balcão da recepção junto de e e acenou discretamente com a mão antes de rumar para o elevador, com o sorriso de preso em seus pensamentos e muito mais aliviada já que ele também usava roupas normais. estava mesmo bagunçando com ela e ainda não sabia se aquilo era bom ou ruim.
Não trocou mais mensagens com ele pelo resto da manhã, já que tivera aulas para dar e sabia que ele estava ocupado com a produção de novas canções para o grupo. Tinha tentando especular um pouco a respeito, mas era muito bom em mudar de assunto e desviar de suas perguntas e desistido na terceira tentativa. Agora que sabia quem era o BTS e conhecia todas as músicas deles, não poderia deixar de se tornar parte do army e não receber nenhuma informação sobre os novos trabalhos do grupo era um pouco desesperador e frustrante.
Conversou com os pais durante o almoço, ainda inquieta para os planos daquela noite e só conseguiu se concentrar no trabalho depois de comprar um docinho para aplacar sua ansiedade. Seus novos alunos mal tinham saído da sala quando uma batida na porta chamou sua atenção e ergueu o rosto, franzindo o cenho quando sorriu para ela e indicou que entraria na sala. deixou os papéis de lado e se virou para o cantor, extremamente curiosa sobre o motivo da presença dele ali, afinal, ele era o melhor amigo de e entre todos os rapazes, era com ele que tinha conversado mais e desenvolvido mais intimidade.
– Boa tarde . – Murmurou após se sentar. – Como você está?
– Oi . Estou bem e você? – Indagou e voltou os olhos para a porta, esperando ver entrar na sala e isso arrancou uma risada de .
– Ele não vem agora. – Explicou e a mulher assentiu, a expressão um pouco mais cabisbaixa. – Ele foi em casa pegar o carro e pediu para eu te fazer companhia.
– Você sabe para onde ele vai me levar? – Focou os olhos no coreano e o rapaz assentiu com a cabeça.
– Sei. Mas se eu contar, ele vai me matar e eu tenho um encontro na sexta e realmente não acho que é uma boa hora para ser assassinado. – Sorriu torto e gargalhou.
não parece o tipo violento. – Estalou os lábios e se recostou na cadeira. – Acho que ele não faria mal para uma mosca.
– Não faria mesmo. – concordou. – -ah é a pessoa com o coração mais incrível e bondoso que eu já conheci na vida. Se eu fosse ter uma alma gêmea romântica, gostaria que fosse ele.
– Eu tenho sorte então. – declarou e o outro assentiu em concordância. – Mas já que não vai me contar o que está planejando, me fale do seu encontro. – Sorriu animada e riu pelo nariz.
– Ah… é uma amiga da namorada do . – Deu de ombros, como se aquilo não fosse nada demais, mas só pela postura do cantor podia notar que aquilo era sim algo importante.
namora? – Indagou surpresa e riu.
– Em segredo. Ele e a Seulki preferem se manter fora das vistas da mídia, porque os dois são famosos. – Comentou. – é muito mais reservado do que eu.
– E você está ansioso para esse encontro? – indagou.
– Um pouco. Eu a conheci quando sai com e Seulki para um café e foi… divertido. Nós não temos como sair e conhecer pessoas, então encontrar alguém com quem eu consigo conversar sobre coisas que não a minha fama é sempre bom.
– Espero que tudo dê certo para vocês. – sorriu. assentiu outra vez e então seu celular apitou indicando uma nova mensagem e após ler o conteúdo no aparelho, levantou o rosto e sorriu para a mulher.
– E eu espero que você e estejam predestinados um ao outro e que possamos sair em encontros de casais no futuro. – Piscou para e se levantou. – Aliás, ele está esperando por nós. Vou pegar uma carona até em casa. – Comentou.
– Preciso passar no banheiro. – avisou e saiu correndo com a bolsa em mãos, enquanto a seguia aos risos.
De forma nenhuma iria para aquele encontro sem escovar os dentes e retocar o corretivo no rosto.

*Bolinhos bem picantes e doces de arroz (parecidos com nhoque).

***

Nota da autora: Enrolei um pouquinho pra esse encontro, mas ele sai no próximo capítulo e vai estar lindo!

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Doze

.
Não tinha certeza de que aquela era uma boa ideia para um encontro, mas estava arriscando de acordo com o que conhecia de e supunha que ela fosse gostar. Mas não podia negar que estava nervoso e um tanto preocupado que tudo desse errado e ele acabasse estragando tudo, afinal, eles já tinham limitações com as quais lidar e ter um encontro ruim iria apenas piorar uma situação que já era complicado. Apesar de seus receios, respirou fundo e abriu um sorriso quando avistou e saindo da empresa e seguindo em direção ao carro. Rapidamente checou o estado de seu cabelo no espelho retrovisor – apenas para constatar que não poderia mais adiar o corte dos fios – e verificou se o rosto não estava sujo, abrindo um sorriso largo quando a porta fora aberta e entrou no banco do carona, após se jogar no banco de trás antes que ela pudesse sequer pensar no que estava fazendo.
– Boa tarde noona, – Sorriu largo quando a mulher afivelou o cinto com cuidado e se recostou na porta do carro. Eles já tinham se acostumado a manter a distância um entre o outro, mesmo que aquilo ainda fosse desconfortável e sempre relembrasse o medo que ambos sentiam de que tudo desse errado entre eles. – Como você está?
– Eu tô bem e você, ? – Ela respondeu com um meio sorriso e acabou suspirando baixinho. Gostava mesmo do sorriso de , sempre lhe trazia um ótimo sentimento de tranquilidade.
– Não me deixem aqui segurando vela, por favor. – reclamou, se inclinando para frente e virando o rosto para encarar . – Me deixa em casa antes.
– Como se eu fosse levar você no nosso encontro. – revirou os olhos e se moveu para ligar o carro outra vez.
– Mais respeito com o seu hyung! – reclamou, arrancando uma risadinha de . – Eles crescem e ficam rebeldes. – Bufou e se jogou para trás, cruzando os braços em frente ao corpo e montando uma expressão falsamente irritada.
– Desculpe hyung. – resmungou e estalou os lábios, murmurando que ia pensar no caso e causando mais risos em .
– Então, para onde nós vamos? – Questionou e mesmo com o olhar preso no trânsito, sentiu os olhos dela sobre si e aquilo o deixou nervoso. – não quis me contar e eu odeio ficar curiosa. – Fez um bico e a encarou rapidamente pelo canto dos olhos.
– Hyung jamais trairia minha confiança. – Estalou os lábios.
– Eu deveria, porque você é um ingrato. – reclamou do banco de trás e riu.
– Me desculpe hyung, prometo que não vou mais ser rebelde. – Sorriu de forma inocente e o mais velho revirou os olhos.
– Todos caem nas suas chantagens porque você é fofo. – Reclamou.
– Não tem como dizer “não” para essa carinha. – concordou e mesmo que aquilo fosse o resumo da conversa que estavam tendo, acabou com as bochechas rosadas por conta da vergonha e riu com gosto, estendendo a mão para um high five com em seguida.
– Obrigado por me vingar . Nossa amizade se fortifica todos os dias. – Piscou para a mulher e bufou.
– Você não pode se unir a ele se o não está aqui para se unir a mim e equilibrar as coisas. – Reclamou o mais novo, estreitando o olhar para e ela sorriu travessa.
não ficaria do seu lado. – Palpitou e o rapaz assentiu em concordância.
– É verdade. Preciso do e do . – Suspirou e riu.
– Os hyungs protegem você porque é o caçula. – Declarou.
– Porque eu sou fofo. – Deu de ombros.
– Observar vocês é bem divertido, mas eu ainda quero saber para onde nós vamos . – estalou os lábios e a encarou pelo canto dos olhos outra vez, com os lábios franzidos.
?
– Enquanto não me contar, nada de ie para você. – Decidiu e riu.
– Você é muito maldosa noona. – Suspirou. – Vamos para o meu apartamento.
– Sério? – Murmurou decepcionada e ele riu baixinho quando ela se aprumou no banco e fingiu animação. – Quero dizer, que legal.
– Cozinhar. Vamos cozinhar alguma coisa enquanto anoitece e depois vamos sair. – Completou.
– Vamos sair para onde?
– Surpresa.
– Tudo bem , – frisou o sobrenome do cantor e ele riu. – Tudo bem.
eu amo você, é sério. – declarou, fazendo a mulher rir e sorrir por causa da risada dela. Não falou muito mais durante o resto do caminho até o condomínio e quando entraram no apartamento, os dois seguiram para a cozinha depois de se despedir e sumir no corredor que levava aos quartos.
deixou um avental e um par de luvas para em cima da bancada e depois de estarem devidamente protegidos, distribuíram as tarefas para a preparação dos pratos que tinha planejado. Ele já tinha deixado meio caminho andado e eles precisavam apenas finalizar a comida e guardar as porções nos potes, para então ajeitar tudo na cesta de piquenique que havia encontrado em algum canto da casa. ainda não tinha experimentado gamja*, mas lhe garantiu que era uma comida deliciosa e como o bom entusiasta de culinária que ele era, convenceu a mulher de que ela não iria se arrepender com o cardápio da noite.
– Você prefere fazer a salada ou o doce? – Ele indagou quando guardou a última panqueca no pote, se virando para , que lavava as mãos enluvadas na pia.
– Qual é o doce?
– Tteok. – Murmurou. – É um bolinho de arroz doce. Faço no micro-ondas e é delicioso.
– Eu faço a salada e o você o tteok. – declarou e riu. – Não quero estragar a experiencia de ver você comendo um doce que gosta. Você fica muito bonitinho comendo. – Sorriu em provocação e revirou os olhos, voltando a atenção para o balcão com as bochechas coradas.
– Você me provoca demais noona, em algum momento eu vou começar a revidar. – Falou em um tom de voz mais baixo, como se não tivesse certeza de que queria que ouvisse.
– Você não tinha só seis anos, ? – Ela indagou com divertimento, claramente tentando fugir da situação. O cantor sorriu torto e levantou os olhos até .
– Você me lembra que eu tenho vinte e dois e me deixa desse jeito. – Deu de ombros, fazendo corar levemente e voltar a atenção para os legumes da salada.
– Nós vamos fazer um piquenique? – indagou, mudando de assunto.
– Algo nesse estilo. – assentiu.
– Odeio ficar curiosa, . – Torceu os lábios em desagrado e pela primeira vez, imaginou como seria poder beijar . Se perguntou se a boca dela era tão macia quanto parecia e qual seria o gosto dos lábios dela. Será que ela seguraria em sua nuca e brincaria com seus cabelos ou se apoiaria nos ombros dele? Eles teriam um beijo encaixe ou seria esquisito e precisariam praticar até encontrarem sincronia?
Não fazia ideia e se deu conta de que estava morrendo de vontade de saber.
E lhe matava um pouquinho ter a certeza de que não acabaria com suas dúvidas, porque eles não podiam se tocar.
Suspirou e encarou a mulher rapidamente, voltando a atenção para a massa do tteok que estava preparando.
– Juro que vai valer a pena noona.
– Já está valendo. – declarou e o coração de perdeu algumas batidas. Estava muito ferrado mesmo.

 

*Panqueca de batata.

 

***

Nota da autora: Maldade cortar o encontro na metade, eu sei, mas essa história tá sendo escrita com muito cuidado e por isso as coisas saem um tantinho mais devagar. OS JIKOOK COM A PP SÃO TUDO PRA MIM!!!!!!!!!! Próximo capítulo é pra morrer de amor e tristeza, já tô avisando.

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Treze

.
Estava segurando a cesta com os alimentos para o piquenique – mesmo que tivesse dito que não era bem um piquenique, estava chamando daquele jeito – enquanto dirigia para o centro de Seul e cantarolava uma música que conhecia, mas não fazia ideia de quem estava cantando.
– Seu inglês é bom. – Comentou e a encarou pelo canto dos olhos puxadinhos por um instante, abrindo um sorriso agradecido em seguida.
– Me esforcei bastante para aprender. – Confessou. – Meu professor se esforçou ainda mais para conseguir manter minha atenção nas aulas. – Riu e o acompanhou.
– Você é bem agitado, não é? Exatamente como uma criancinha. – Implicou e riu pelo nariz.
– Você gosta de provocar, não é? – Usou o mesmo tom de voz que ela. – Só porque não podemos ultrapassar a distância segura para que eu me vingue.
– E que tipo de vingança você tem em mente? – Estreitou o olhar para o rapaz e deu de ombros, sem tirar os olhos do trânsito e tornando impossível para decifrar um pedacinho dos pensamentos dele, já que era muito fácil ler os olhos de .
Ela gostava muito daquela característica dele. era tão sincero e natural que seus olhos sempre entregavam a forma como ele se sentia, mesmo que não completamente. E para ela, que o havia visto crescer através de seus sonhos, era ainda mais fácil entender .
– Cócegas, cutucões na costela, esse tipo de coisa. – Estalou os lábios e suspirou baixinho quando seus pensamentos levaram para uma cena que seguiria qualquer uma daquelas coisas: um beijo.
E pensar em beijar era a pior das ideias que poderia ter, já que era uma possibilidade inviável, mesmo que eles estivessem em um encontro romântico.
Em momentos como aquele desejava, com todo o coração, ser apenas uma garota comum conhecendo um cara comum. Nada de almas gêmeas, destinos entrelaçados e qualquer uma daquelas coisas que apenas complicava algo que era para ser tão simples e sossegado.
– Cutucão na costela dói! – Reclamou e riu.
– Meus sentimentos doem quando você implica comigo, noona. – Fez beicinho e ela riu para se impedir de suspirar. era bonito de um jeito que deixava suas pernas fracas e lhe dava vontade de bater nele e depois encher de beijinhos e pedir desculpas.
– Minha alma gêmea é o rei do drama. – Murmurou baixinho e riu, voltando a murmurar a música que tocava pelo aparelho de som pelo restante do caminho.
Levaram cerca de vinte minutos do prédio onde o cantor morava até o estacionamento do lugar onde planejara levá-la e mesmo que tivesse suas suspeitas, seguiu o cantor por mais alguns metros até adentrarem um parque. nunca tinha visitado o Seokchon Lake e menos ainda o Songpa Naru Park, então foi uma surpresa muito boa encontrar todo o entorno do lago tomado por cerejeiras. O final de tarde com o céu em tons de laranja combinava de um jeito admirável com o rosa das flores e tornava a visão um espetáculo e tanto.
Não precisaram procurar por um deck desocupado por muito tempo, mesmo com o clima bom, estavam no meio da semana e o parque estava consideravelmente vazio. Mas nem aquilo dava segurança para tirar a máscara, o chapéu e os óculos escuros. Não que estivesse diferente, já que não usava apenas o óculos, mas para eles era muito mais confortável abraçar a ideia de que estavam mais seguros tomando cuidado, mesmo que realmente não pudessem ter certeza daquilo.
estendeu uma colcha grossa e fofa em uma pequena área do deck, mais próxima da grade que dava a visão para o lago e em um espaço onde as arvores não cobriam o céu totalmente. dispôs as duas almofadas no meio do cobertor, limitando o espaço que cada um ocuparia e eles se sentaram, passando a admirar a paisagem sem que qualquer palavra fosse necessária para tornar aquele momento inesquecível em seus pensamentos e principalmente, em seus corações. Partilhar a presença era o suficiente para que eles fossem inundados por sentimentos e mesmo que aquilo fosse preocupante e um tanto perigoso, já era tarde demais para que fugissem e se escondessem.
Eles eram inevitáveis e aquele pensamento fez rir e o riso dela atraiu a atenção de , com seus olhos grandes e confusos.
– O que foi?
– Já parou para pensar no quão idiotas nós fomos achando que poderíamos evitar isso? – Apontou para eles e franziu as sobrancelhas, ainda sem entender sobre o que ela estava falando. – Estamos nos apaixonando, .
O cantor respirou fundo e após alguns segundos, assentiu em concordância. Eles estavam mesmo se apaixonando e aquilo tornava as coisas mais fáceis mas também, infinitamente mais preocupantes.
– É, eu sei. – Riu fraco e desviou o olhar de para poder se deitar. A mulher repetiu o gesto e por causa das almofadas, não conseguia ver , mas de alguma forma insana, o sentia tão perto que parecia que ele estava bem ao seu lado, com o corpo colado ao seu e seus corações batendo no mesmo ritmo. Como em uma melodia que só eles conheciam. – Se o nosso destino for ficar juntos, então não temos mais com o que nos preocupar, não é? Nós vamos querer isso. – O ouviu soltar o ar pela boca. – Eu quero isso. – Se corrigiu e abriu um sorriso pequeno, seu coração batendo rápido e sendo tomado por um sentimento tão gostoso e que lhe tirava todas as palavras da boca, lhe deixando incapaz de explicar como se sentia.
– Eu também quero, Kookie. Não pensei que fosse querer, mas foi tão… inevitável.
– A palavra é inevitável mesmo. E concordo, nós fomos idiotas. – Riu fraco e ela o acompanhou.
– Você é uma criancinha, é esperado que seja idiota. – Implicou e riu consigo mesma. se movimentou e logo os olhos dele estavam sobre ela, a cabeça pousando em cima da almofada e os olhos estreitos em sua direção. Mais perto do que jamais tinha estado, mas ainda não era o suficiente para e ela fechou as mãos em punho para conseguir se concentrar e não ceder ao puxão.
– Vou contratar alguém para fazer cócegas em você e cutucar sua cintura. – Ele estalou os lábios e gargalhou, cobrindo a boca com a mão em seguida e olhando ao redor apenas para se certificar de que eles estavam seguros. Parou de rir aos poucos e inclinou a cabeça para o lado, mantendo os olhos fixos em e abrindo um sorriso frouxo junto com ele. Não havia um motivo em específico, apenas tinham sentido vontade de sorrir. Era como se seus corações não aguentassem mais e precisassem extravasar aquela explosão de sentimentos de alguma forma.
– Vamos falar sobre isso? – Indagou em um tom de voz mais baixo e franziu o cenho novamente.
– Sobre o que exatamente?
– Nos tocar. – Suspirou e ele soltou um “ah” e então seu olhar se perdeu entre as árvores, dando espaço para analisar cada pedacinho do rosto dele, que ela já conhecia bem demais, mas que nunca se cansava de observar.
– Você quer fazer isso agora? – Ele indagou. – Porque se formos fazer isso agora, precisamos ir embora. – Voltou o olhar para ela e a intensidade tirou o fôlego de . – Eu quero poder te beijar sem precisar me preocupar com as pessoas que podem nos ver.
– Você já pensou sobre isso? – Questionou e ele assentiu devagar.
– Não tinha pensando até hoje mais cedo, para ser sincero.
– Acha que devemos fazer isso hoje? – Mordeu o lábio inferior por conta do nervosismo.
– Honestamente? Acho que não. – Suspirou. – Estamos nos apaixonando, mas ainda tem tanta coisa que eu quero saber sobre você e que quero fazer com você. Eu planejei mais de um encontro, sabe? – Sorriu pequeno e o acompanhou. – E mesmo que a gente não possa se tocar ou ficar mais perto do que estamos agora, eu quero fazer isso. Acho que… quero guardar o sentimento. Porque se as lembranças forem embora, pelo menos eu vou ter tudo isso que estamos vivendo dentro do meu coração.
– Não é algo triste? Penso que isso só vai nos machucar ainda mais. – Respirou fundo e deu de ombros.
– Não sei, acho que não. Eu não vou lembrar de você, mas tudo isso se baseia em emoções e se eu tiver isso comigo, vai ser o suficiente para que eu não seja infeliz.
– Não ser feliz não é sinônimo de ser infeliz. – concluiu e assentiu com a cabeça. Se aconchegou na almofada, ainda com o olhar preso ao dela e por muitos minutos eles apenas se encararam, até a barriga de fazer um barulho e as bochechas dele se tornarem rosadas por conta da vergonha.
– O nenê tá com fome? – indagou com o tom de voz implicante e revirou os olhos, se sentando e puxando a cesta para perto, enquanto ria.
Pelo resto do final de tarde e início da noite, e saborearam a comida observando a paisagem e o céu, que era tomado por estrelas a cada minuto que passava e a noite tomava seu lugar. Falaram sobre tantas coisas e a Lua foi testemunha do momento em que eles juntaram toda a bagunça que haviam feito e por muito pouco não entrelaçaram os dedos das mãos, voltando para a distância segura de um metro com os olhos arregalados e o coração quase saindo pela boca. Ainda não sentiam que era o momento para aquilo, mas assim como se apaixonar tinha sido algo inevitável, os toques, mais cedo ou mais tarde, também seriam.
E eles iriam precisar estar preparados para o que viesse a seguir.

Quatorze

.
Era quase impossível encontrar momentos de paz e silêncio em casa já que ele morava com seus sete melhores amigos. Mesmo com a diversidade de personalidades e com o aprendizado que tinham adquirido um sobre o outro e o respeito pela privacidade, podia contar nos dedos os momentos em que ficara sozinho em casa nos últimos meses e por esse motivo era tão estranho estar só naquela noite de sexta-feira. Todos seus amigos tinham compromisso – familiares ou românticos – e ele tinha sido o único a optar por ficar em casa durante o único final de semana em que não iriam trabalhar. e tinham o convidado para seu encontro duplo – que se tornaria triplo já que ele deveria convidar – mas não se sentiria confortável já que ele e tinham uma relação completamente diferente da relação de com Seulki e também não estariam naquele encontro como e Euntak.
E em momentos como aquele, desejava muito ser um pouco mais corajoso como tinha sido ao encontrar Juyeon, sua alma gêmea. Eles tinham se tocado no primeiro encontro e enfrentado as consequências de morarem em cidades diferentes e o grupo estar no início de uma turnê mundial que iria durar meses. Não tinha sido fácil e tinha sido o ombro no qual o mais velho tinha choramingado em muitas noites, mas eles tinham dado um jeito e hoje eram felizes com a vida que levavam juntos, mesmo que realmente se encontrassem uma vez por mês e por apenas um final de semana.
Aquele era o tipo de coragem que não tinha e por isso estava sozinho em casa, preparando o jantar para poder assistir um drama que o faria chorar e resmungar por precisar dormir sozinho naquela noite.
Mas talvez ele não precisasse ficar tão sozinho e com isso em mente, correu até a sala em busca de seu celular e procurou pelo contato de enquanto caminhava em retorno para a cozinha e para as panelas. Clicou no botão de chamar e se concentrou em fuçar o lámen na panela para não ficar encarando a foto de na tela do aparelho. Aquele sorriso largo o deixava completamente bambo, mesmo que fosse só com uma fotografia.
ie? – murmurou quando atendeu a ligação e logo sentiu o peso da péssima ideia o atingindo. E se ela estivesse ocupada? E se não quisesse passar a noite no telefone com ele? Se tivesse planos? Ele era tão impulsivo e acabava fazendo as coisas sem pensar direito, tinha que começar a se policiar mais.
– Oi . – Suspirou em retorno. – Desculpe ligar para você assim do nada, não quero te atrapalhar ou sei lá.
– Não está atrapalhando. – Ela respondeu. – Na verdade eu estou em entediada, o filme que estou assistindo é uma porcaria e a minha pizza ainda não chegou.
– Sinto muito. – sorriu triste, mesmo que ela não pudesse vê-lo.
– E você, está com os meninos?
Meninos. Ela era mais nova do que metade do grupo e ainda assim se referia a todos eles como meninos. adorava a forma como e seus melhores amigos tinham construído uma amizade natural e sincera, aquilo realmente o fazia feliz.
– Na verdade estou sozinho. – Confessou.
– E eu sou sua última opção para passar o tempo? você é a pior alma gêmea do mundo inteiro, fala sério. – Reclamou em falsa indignação e o cantor riu baixinho.
– Eu juro que você não é a minha última opção noona. Meu plano era cozinhar, assistir um drama e chorar um pouquinho, mas senti uma vontade absurda de falar com você e eu só… liguei. Só me dei conta de que poderia estar ocupada ou não querer falar comigo quando você atendeu.
– Não estou ocupada e jamais iria negar uma conversa com você ie. Gosto de conversar com você. – declarou e causou uma batida errática no coração de .
– Então… quer ficar em chamada comigo? Podemos assistir o mesmo filme ou série e jantamos juntos, já que meu jantar ainda não está pronto e a sua pizza não chegou.
– Isso soa como um segundo encontro em menos de dois dias. – provocou e estalou os lábios.
– Um encontro à distância, mas ainda assim, um encontro. – Ele declarou.
– Eu vou adorar. – Foi o que disse, arrancando um sorriso largo do cantor.
E enquanto ele cozinhava, a conversa fluía naturalmente, como sempre havia acontecido. contou sobre os dois dias de ensaio desde que haviam se encontrado, falou sobre o trabalho, sobre a amizade que estava criando com sua vizinha de porta – Lauren também era estrangeira e acreditava que seria bom para ter aquele tipo de contato já que estava longe da família e de seus amigos – e quando a pizza chegou e tirou a panela do fogo, eles entraram em uma discussão sobre o que assistir enquanto ambos se acomodavam em seus sofás para jantar. gostava de filmes de fantasia e queria ver Homem de Ferro, mesmo que soubesse as falas de cor, e eles acabaram tendo que decidir no pedra, papel e tesoura com a promessa de não roubar. acabou ganhando, mas mentiu e deu a vitória para , que de alguma forma pressentiu que ele tinha mentido e decidiu que eles iriam assistir Homem de Ferro.
– Você vai ter que me explicar tudo, porque eu não sei nada sobre Marvel e heróis de forma geral. – Ela murmurou com a voz embolada por causa da comida e aquilo fez sorrir. Gostava muito da intimidade que eles já tinham.
– Esse filme tem poucas referências. – Explicou. – Mas é um absurdo que você não conheça o MCU, eu vou ter que sequestrar você e te obrigar a assistir todos os filmes.
– Eu já assisti alguns por causa do Capitão América. – falou.
– Não fala mais comigo . – fez uma careta e ela gargalhou. – Homem de Ferro melhor Vingador e todo mundo sabe disso.
– Não gosto muito dele…
– É sério, não fala mais comigo. Não dá pra aceitar esse tipo de coisa, não tem condições. – estalou os lábios.
– Você é um bobo . – Declarou. – E gosto muito de você por isso. Obrigada por melhorar a minha noite de sexta.
– Estamos só começando . Só desligo quando você me xingar ou cair no sono.
– Acho que você acaba dormindo primeiro.
– Não se eu cantar para você dormir noona. – Sorriu sozinho.
– Isso é jogo baixo. – declarou e a imaginou com uma careta.
– Culpa sua por não gostar do Tony. – Ele declarou e ela riu outra vez, voltando o assunto para a explicação que precisava receber antes que o filme começasse e a conversa se tornasse escassa, já que ambos prestavam atenção na TV.
deixou o celular escorado em seu ombro e acabava sorrindo com os murmúrios e comentários espontâneos de , completamente satisfeito em apenas ouvir a respiração dela e partilhar aquele momento juntos, mesmo que estivessem distantes.
A presença de em sua vida tinha se tornado uma das coisas mais preciosas para ele e não se via mais sem ela. Esperava que o destino tivesse pena dele.

Quinze

.
Estava quase dormindo. Era o segundo filme do Homem de Ferro que estavam assistindo e já sentia os olhos pesados e bocejava mais vezes do que poderia ser considerado normal. Desviou o olhar para o relógio na parede, constatando que ainda não era meia noite e que estava mais ranzinza e preguiçosa a cada dia que passava. Acabou rindo e soltou seu “ahn?” característico de quando não entendia alguma coisa e causou uma pequena confusão nos sentimentos da mulher.
– É bobagem. – Falou. – Estou só pensando que me sinto velha porque nem é meia noite e eu já estou morrendo de sono.
– Quer que eu cante para você dormir noona?
– Não. – Sorri sozinha. – Quero terminar de ver o filme com você.
– Ok. – murmurou e conseguiu vê-lo sorrindo daquele jeito que o fazia franzir o nariz.
O restante do filme foi silencioso, fazia apenas alguns comentários e ao final do longa tinha apenas uma opinião nada aceitável na concepção de , mas se conversasse com alguns fãs da Marvel, acabaria sendo acolhida por ter achado o filme uma grande bosta.
, é sério… o primeiro filme é mil vezes melhor. Esse segundo foi horrível demais.
– Nenhum filme do Homem de Ferro é ruim. – defendeu.
– Se você está falando isso é porque o terceiro também é ruim. – estalou os lábios em provocação e acabou rindo quando bufou do outro lado da linha. Ele parecia uma criancinha birrenta e queria muito estar com ele naquele momento para vê-lo emburradinho.
– Isso é a maior calúnia que alguém poderia dizer contra Tony Stark, eu não acredito que nós somos almas gêmeas…
– Não chora nenê, todo mundo tem algum prazer culpado por gostar de algo ruim. – riu. Levantou e colocou o celular no bolso, passando a ajeitar a bagunça na sala de seu apartamento antes de seguir para o quarto e trocar de roupa para que pudesse dormir. E durante todo esse processo discursou sobre como os filmes da Marvel eram incríveis e as conexões que cada filme tinha com o resto do universo cinematográfico. Aquilo divertia , já que ela gostava de ouvir falar sobre qualquer coisa. Ele gaguejava às vezes e aquilo era realmente adorável.
Se deitou na cama e suspirou, sentindo-se muito mais alerta do que estava durante o filme. Ainda não eram duas da manhã e poderia sair para correr uma maratona devido a falta de sono que havia lhe acometido naquele momento.
– Estou enchendo o saco, não é? – murmurou. – Desculpe noona, eu me empolguei. Vou deixar você dormir agora.
– Não estou com sono. – falou. – Na verdade poderia passar horas apenas te ouvindo falar sobre qualquer coisa, mesmo que seja para defender o filme ruim do Homem de Ferro. – Estalou os lábios.
– Você gosta de provocar. – observou.
– Só um pouquinho.
– Noona… – Ele suspirou e fechou os olhos para aproveitar o formigamento que aquilo causou em seu corpo.
– Não faz isso, é maldade. – Declarou.
– Desculpe, eu só… queria passar mais um tempo com você, mas é final de semana e as coisas em Seul ficam agitadas.
estalou os lábios, entendendo realmente o que queria dizer e o motivo para que eles não mencionassem ir para a casa um do outro.
– Eu também queria. – Falou. – Mas vamos nos ver na segunda, é meu dia de comprar café e bolinhos. – Tentou rir animada, mas soando falha em sua própria tentativa.
– E o meu sanduíche. – completou e ela riu.
– Claro, e o seu sanduíche.
Ficaram em silêncio por alguns minutos e precisou conferir na tela do celular se a ligação ainda estava ativa. Estava prestes a sugerir que desligassem e tentassem dormir quando quebrou o silêncio.
– Queria sugerir uma loucura. – Ele disse e quase o imaginou sorrindo travesso, os olhos brilhando por conta da aventura.
– Que loucura?
– Você aceita?
– Eu não sei o que é, como posso aceitar qualquer coisa? – Retrucou e riu.
– Você confia em mim?
– Claro. – Não pestanejou ao responder. – Mas gostaria de saber que loucura você está planejando.
– Vamos para Busan. – Falou e arregalou os olhos, sentando na cama em seguida e tirando o celular do alto falante para colocá-lo contra a orelha.
– O que você quer fazer em Busan?
– Minha família é de Busan.
– Eu sei , mas não entendo porque você gostaria que eu fosse junto. – Torceu os dedos da mão de forma nervosa.
– Quero que conheça meus pais. Mesmo se nós… não dermos certo no futuro depois de… você sabe, – Ele suspirou. – Quero fazer as coisas com você, como falei no nosso primeiro encontro. Não fazemos da forma convencional, mas isso não nos impede de tentar.
– Tudo bem. – concordou com um aceno de cabeça, ainda um pouco lenta por carga de sentimentos envolvidos naquela conversa. – Que horas você quer ir? Temos que comprar passagens.
– Já resolvi isso. – murmurou. – Nosso voo sai às oito horas. Fica bom para você? Dá tempo de dormir um pouquinho. – Riu pelo nariz.
– Você acha mesmo que eu vou conseguir dormir? – revirou os olhos. – Nem se eu tomasse calmante ie.
– Também estou nervoso. Meus pais sabem sobre você, mas ainda assim é inesperado. Faz tempo que eu não apresento alguém para eles.
– Não é como se você pudesse namorar né. – riu baixinho. – Preciso arrumar uma mala pequena.
– É, eu também. Te vejo em algumas horas, o motorista vai nos levar para o aeroporto.
– Ok. – Respirou fundo. – Até daqui a pouco ie.
– Até mais noona. – E com isso a ligação foi finalizada.
ainda passou alguns minutos encarando o aparelho, processando o último acontecimento e tentando se acalmar. Iria conhecer os pais de , iria visitar a cidade onde o rapaz tinha nascido e morado durante a infância e cujos locais poderiam lhe ser familiares por conta de todos os sonhos que haviam partilhado. Mas o que a deixava mais nervosa e ansiosa era o fato de passar um final de semana com e não poder tocá-lo do jeito que tanto queria e precisava. Sentia-se mais tentada há cada dia que passava e não sabia o quanto mais poderia aguentar.
E do outro lado da cidade, sentia-se da mesma forma.

Dezesseis

.
A teoria do caos implicava que uma pequenininha mudança no início de um evento qualquer poderia trazer consequências gigantescas e desconhecidas no futuro. É uma das leis mais importantes do Universo e ela está presente na essência de quase tudo o que cerca a vida humana. Não era uma teoria difícil de se entender quando você usava exemplos reais e naquele momento, onde tinha o rosto repousado contra a janela do avião e dormia tranquilamente, pensava nas infinitas possibilidades acerca do relacionamento deles, caso eles tivessem se tocado naquele primeiro dia.
Quando acordaram por adiar aquele momento, parecia fazer sentido que aquela era a melhor opção. Mas já não tinha tantas certezas, sua cabeça estava uma bagunça e seu corpo parecia pedir pelo dela. Queria os toques, os abraços, os dedos entrelaçados e os beijos. Queria tanto aquilo que se via sonhando de olhos abertos com infinitos futuros onde o Universo não os separava e enquanto estava adormecido ele continuava a partilhar os sonhos com . Ela não saía de sua cabeça e aquilo o estava enlouquecendo aos poucos.
E por isso pensava tanto em como as coisas teriam e sucedido se eles tivessem se tocado logo quando se encontraram. Seriam eles azarados ao ponto de serem separados pelo Universo? Ao mesmo tempo em que pensava que doeria menos ter esquecido de depois daquele primeiro dia, não conseguia se enxergar sem tudo o que tinha vivido com ela desde então. Estava experimentando um tipo de sentimento raro e inexplicável e sabia que cada pedacinho daquilo não poderia ser vivido com mais ninguém. Apenas com , porque ela era uma extensão de si mesmo. Também analisava futuros onde estavam sendo burros por adiar tanto aquele primeiro toque, já que poderiam ser sortudos e não acabarem sendo apagados da vida um do outro. Como seriam as coisas naquele caso? Eles iriam começar a namorar? precisaria ir a público e explicar que tinha encontrado sua alma gêmea para não precisar se esconder com . Admirava a forma como Namjoon vivia, mas não sabia ser tão discreto e não queria viver limitado pelo que podia fazer para não ser exposto na mídia.
Suspirou baixinho, afastando o olhar da mulher adormecida e focando a atenção na aula de inglês online que deveria estar assistindo, mas na qual não havia prestado a mínima atenção. Tinham saído de Seul há meia hora e tinha o dobro do tempo até desembarcarem em Busan. Seus pais iriam buscá-los no aeroporto e os fizeram prometer que não iriam envergonhá-lo. era o caçula da família e era mimado como tal, mas não queria que seus pais o tratassem como um bebezinho como costumavam fazer.
Não na frente de , pelo menos.
Acabou se distraindo com o curso, mas quando finalizou a aula não poderia afirmar que realmente tinha entendido alguma coisa e iria precisar estudar novamente e se pedisse com cuidado, Namjoon o ajudaria já que não conseguia negar nada para o maknae quando fazia manha.
continuava dormindo quando o avião pousou e entrou em uma pequena batalha interna para decidir como iria acordá-la. Afinal, não poderia tocá-la e a única solução não era nada educada visto que não atendia aos seus chamados. Sem qualquer opção, precisou jogar uma almofada na mulher e quando ela acordou assustada e pulou na poltrona, sentiu-se culpado e começou a pedir desculpas no mesmo segundo.
– Noona, me perdoe! Mas você não acordou quando eu chamei e eu não posso tocar em você e…
– Está tudo bem. – garantiu, ainda um pouco atordoada pelo susto, soltando uma risadinha em seguida. – Eu realmente apaguei e deixei você sozinho, me desculpe.
– Você está cansada, era de se esperar que dormisse. – sorriu culpado. – Eu que inventei essa viagem de última hora e nem te dei tempo para se preparar. Me desculpe outra vez.
– Eu aceitei porque quis, então não há motivo para qualquer pedido de desculpas. – deu de ombros. Se espreguiçou e bocejou lentamente, passando a mão pelos cabelos para ajeitar os fios e voltando a encarar . – Já chegamos?
– Vamos pousar logo. – Informou. – Acho que meus pais já estão nos esperando.
– Tem certeza de que não é melhor eu ficar em um hotel? É só uma noite, mas ainda assim, é a sua família e eu não quero atrapalhar. – Mordeu o lábio inferior e sentiu um aperto na boca do estomago.
– Minha omma está ansiosa para conhecer você noona, não tire isso dela. – Brincou e riu junto dele.
– Tudo bem então, prometo não tocar mais no assunto. – Cruzou os dedos e os beijou para selar a promessa. Se recostou na poltrona depois de verificar o cinto de segurança. – Conseguiu terminar a sua aula?
– Mais ou menos, acho que não entendi direito. As coisas ficaram um pouco confusas da metade para o final. – Murmurou e assentiu com a cabeça em entendimento.
– Eu posso ajudar você ie, sou professora de inglês, lembra? – Sorriu pequeno. – Não vai ser sacrifício nenhum.
– Não quero atrapalhar noona.
– E não vai atrapalhar em nada. E de qualquer forma, você sempre passa algumas tardes comigo na empresa e podemos usar esse tempo para estudar. Prometo que monto um planejamento mais descontraído pra você. – Sorriu com animação e acabou assentindo em concordância, arrancando um sorriso ainda mais largo de , que transformou seu coração em gelatina derretida.
Não demoraram a desembarcar e como supunha, seus pais já os esperavam no aeroporto e cumprimentaram com animação depois de esmagarem em abraços e beijos. Decidiram parar em algum lugar para que pudessem tomar café da manhã antes de seguirem para a casa da família para que e pudessem deixar as mochilas e então saírem para passear, já que queria mostrar a cidade para a mulher. Ali em Busan ele ainda era facilmente reconhecido, mas como ninguém esperava que ele estivesse fora de Seul, um chapéu e máscara seriam o suficiente para que pudessem ter um dia livre e tranquilo sem medo de paparazzi.
E estava ansioso para ter aquele tempo com , já que eles precisavam falar sobre quando finalmente iriam acabar com aquela espera e finalmente dar o aval para que o Universo determinasse o que iria acontecer com seus futuros.

***
Nota da autora: Sumi e voltei com esse capítulo lindo, cheiroso e fofo demais pra avisar que estamos chegando ao ápice da história e que não faltam muitos capítulos para que ela termine. Espero que estejam gostando!
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