Quarto 277

Quarto 277

Sinopse: “No fim da vida, a maioria dos homens percebe, surpresa, que viveu provisoriamente e que as coisas que largou como sem graça ou sem interesse eram, justamente, a vida.” (Arthur Schopenhauer).
Dois amigos que se reencontram após um acidente terrível, em meio ao caos os dois descobrem as motivações para fazê-la sobreviver àquilo.
Gênero: Sobrenatural/Drama
Classificação: 16 anos
Restrição: Insinuação a sexo
Beta: Rosie Dunne

Capítulos:

Capítulo I – Eu estou viva!

Música para o capítulo: Magic Shop

Não sei quantas horas haviam se passado desde que eu tinha entrado naquele avião, mas não tinha vontade de conferir. Há nove anos eu tinha ido embora da Coreia, voltado para o Brasil e me desligado, ao poucos, de tudo que tinha deixado para trás. Não que não amasse a Coreia, praticamente tinha crescido ali, mas tinha uma carga muito pesada que eu e minha mãe havíamos deixado por lá. Meu pai.
Minha mãe tinha decidido separar do meu pai depois de se cansar da forma abusiva que ele a tratava. Nos dezesseis anos em que convivi com ele, não me lembro de um dia sequer em que ele tenha sido carinhoso com minha mãe, mesmo que ela tivesse deixado a carreira e a família para viver com ele, recém-contratado em uma empresa grande, no outro lado do mundo.
Lembro-me dos jogos psicológicos em que ele a envolvia, além toda a culpa que ele a fez carregar sem motivo algum. Eu sentia a dor da minha mãe todos os dias, desde que tive ciência do que ela sentia e do que ele fazia com ela. E, para mim, nunca tinha sobrado carinho suficiente, Meu pai sempre foi ausente, se importava mais com o trabalho do que com a família. Um homem frio e rígido, eu via minha mãe sempre com medo e presa a ele, e, por consequência, eu também.
Há dois anos, minha mãe foi diagnosticada com câncer e eu a vi sofrer até o seu último suspiro, há poucos meses. Na época da doença, eu precisei pedir ajuda financeira ao meu pai, pois só ele poderia pagar o tratamento dela, em troca ele exigiu que eu voltasse para a Coreia por um tempo, assim que ela melhorasse. Mesmo que minha mãe tivesse morrido, resolvi cumprir a minha parte do acordo, porque não queria ficar sozinha. Mesmo que meu pai não fosse uma boa companhia, eu sabia que meus amigos de verdade haviam ficado em Seul e eu precisava deles agora, mesmo que os tivesse abandonado há anos. Respirei fundo, percebendo que já era madrugada, reclinei a poltrona até que virasse uma cama, e então fechei os olhos. Queria tentar dormir e foi o que aconteceu.

Xx

Sorri ao passar pelo portão de desembarque, eu não tinha noção de como aquele lugar me fazia falta. Era inverno em Seul, na parte externa do aeroporto estava nevando. Eu gostava disso, sentia falta da neve. Fechei um pouco mais o casaco para não sentir frio. Porque eu nunca tinha voltado? Porque eu tinha me desligado de tudo que eu tinha conquistado aqui?
Mesmo com todos os pensamentos em minha cabeça, me apressei a procurar pelo motorista que meu pai havia mandado me buscar, porque nem se dar ao trabalho de recepcionar a filha ele seria capaz. Alguns passos depois, em minha frente eu via um homem alto, de uniforme e segurando a placa com meu nome em mãos. Tão sério. Acenei para ele, me identificando, o sujeito se aproximou e me cumprimentou sem hesitar:
– Senhorita ? – confirmei com um movimento de cabeça e ele continuou – Meu nome é Lee Jihoon. O senhor Walter me mandou para levá-la até sua casa – confirmei novamente com a cabeça – O seu pai pediu para informá-la que sente muito por não ter vindo ele mesmo, mas precisou resolver problemas urgentes na empresa.
Era a desculpa que o meu pai sempre dava. Sorri para Lee Jihoon, aceitando suas palavras, afinal ele não tinha culpa de nada, só estava fazendo seu trabalho. Então o homem apressou-se a pegar minhas malas para levar pro carro, o segui na mesma velocidade, eu estava doida matar saudades da minha casa, e conhecendo o senhor Walter , o lugar deveria estar do mesmo jeito em que deixamos há anos.
Meu pai morava em uma área afastada do centro de Seul, o condomínio de luxo prometia um ambiente mais sossegado, e cumpria bem o prometido. Eu gostava de lá, porém a viagem seria no mínimo 40 minutos, e contando que a estrada estava escorregadia por causa da neve, o tempo poderia ser de até 1 hora. Mesmo com o tempo que passaríamos juntos no carro, não tinha esperança nenhuma de ter uma conversa empolgante com o motorista a minha frente, e considerando que eu ainda estava cansada pela longa viagem, aproveitei o silêncio e meu tempo, recostei da forma mais confortável no banco traseiro do veículo e fechei os olhos. Pouco tempo depois já estava dormindo, tranquila, porque sabia que ao passar pelos portões do condomínio Jihoon me acordaria.
Ao mesmo tempo em que não demorou para que eu dormisse, não demorou nada para que as coisas ficassem estranhas na viagem. Trinta minutos devem ter se passado desde que saímos do aeroporto e, mesmo inconsciente, eu pude sentir os movimentos acontecendo.
Começou devagar, mas senti meu corpo balançando com força sobre o assento, como se o carro me empurrasse na medida em que ele deslizava. No banco da frente Jihoon murmurava algo que eu não entendia, mas não parecia calmo como o homem que encontrei no portão de desembarque há minutos atrás. Buzinas. Ouvi a buzina do nosso carro primeiro, e depois algumas buzinas vindas do lado de fora. Dessa parte em diante as coisas perderam o controle.
O veículo chacoalhava com mais agressividade, e eu sentia meu corpo bater com mais força no espaço que o acomodava. Ouvi freios, o barulho da mão do motorista tentando controlar o volante. O perigo era real, não era um pesadelo que eu estava tendo ao caminho de casa, a coisa, seja o que fosse, estava acontecendo. Quando me dei conta do que estava se passando, me acovardei e mantive meus olhos fechados, encolhi mais meu corpo, como se o que eu não pudesse ver não fizesse mal a mim. Os pneus cantaram e a voz do motorista aumentava a cada segundo, eu ainda não entendia o que ele estava falando, é como se o meu pavor me inibisse em entender a língua dele.
Mesmo que eu tivesse retraído meu corpo como proteção nada impediu que no segundo seguinte eu fosse jogada para a parte de baixo do banco, ficando entre o assento traseiro e o assento dianteiro do veículo. Abri os olhos para encarar o que era inevitável e então vi Jihoon lutando com suas últimas esperanças para controlar o volante, os ombros tensos e o suor escorrendo por sua nuca.
– O quê…
Gritei para o motorista, a fim de saber o que estava acontecendo com a gente, mas fui impedida assim que ele gritou mais alto que minha voz. As mãos de Jihoon cruzaram em frente ao seu rosto, como uma defesa, eu deveria me defender também, mas tudo aconteceu tão rápido que não tive tempo e então só fiquei olhando. Como que entregando os pontos, Lee Jihoon pareceu se lembrar da minha presença no banco de trás, virou o rosto para mim e em silêncio, só com o movimento de seus lábios, o vi me pedir desculpas. E então entendi que havia acabado: para mim e para ele.
Sem sair do lugar em que tinha caído senti o carro rodando para fora da pista, Lee Jihoon já não esboçava movimentos próprios, ele parecia um boneco dançando conforme o carro o fazia dançar. Meu coração disparou na adrenalina, mas antes que eu pudesse lamentar o destino de Jihoon senti minha cabeça batendo com força em algum lugar e depois disso eu não vi mais nada. Só escuridão.

Xx

Eu nunca acreditei em fenômenos sobrenaturais, tudo tinha uma explicação lógica em minha cabeça. Só que nada podia explicar o que estava acontecendo comigo. Loucura, nada mais que loucura. Mas, algo estava acontecendo. Não sei por quanto tempo eu estava assim, já que o tempo parecia algo bem subjetivo nessas condições. Não lembrava como eu tinha ficado desse jeito, mas me parecia algo sério. E se eu pudesse explicar, de uma forma bem resumida toda situação, só um termo definiria esse momento: estava presa em mim.
Sim, presa em mim!
Conseguia escutar meus pensamentos, como se uma voz interna falasse comigo mesma, mas não conseguia abrir os olhos, falar em voz alta, mexer ou sentir meu corpo. No começo disso eu gritava como se o mundo externo pudesse me ouvir, fazia barulho em minha própria cabeça como se alguém pudesse me acordar e me libertar daquilo. Era tão alto, que doía a ponto de me calar, como se meu corpo pedisse para que eu ficasse quieta.
Era assustador!
E o pior era a escuridão. O grande vazio negro dentro dessa caixa em que eu estava. Nada a minha frente, só um espaço oco preenchido somente com meus ecos. Somente o vazio. No começo, a angústia me dominava, fiz de tudo possível para sair dali: chamei pelo meu pai, mas ele não veio. Chamei por Deus, que também não veio. E todos os dias eu chamava por minha mãe, mas adivinha? Ela não apareceu, e foi assim que eu descobri que estava viva, porque se eu tivesse morrido ela teria vindo me buscar. Não teria?
Mas que inferno estava acontecendo comigo?
O tempo, que é impossível calcular nessa condição, passou e eu comecei a ouvir as outras vozes. Eram distantes e não pareciam falar comigo, mas estavam comigo. Eu não entendia nada do que diziam, mas, mesmo assim, ouvir essas vozes me confortava, porque desse jeito eu sabia que não estava sozinha. Eu só queria me comunicar com elas, saber que lugar era aquele e como eu tinha parado ali. E nada, eu continuava na caixa preta.
Eu estava cansada, como se toda minha energia fosse gasta tentando sair da escuridão, totalmente sem êxito. Eu só queria descansar, e assim faria se soubesse como; me entregaria até que não pudesse existir mais e aquela angústia parasse. Durante um período tentei ficar quieta o bastante para que minha energia deixasse de lutar por mim, tentava não pensar mais, e, por um tempo, silêncio venceu. Mesmo que eu ainda pudesse enxergar a escuridão e ela ainda me assustasse eu me sentia mais calma, porque eu estava indo embora. Para sempre!

Coloque a música para tocar aqui

E então, tudo aconteceu!
As coisas mudaram no momento em que escutei a voz. A voz de quem eu nunca conseguia esquecer. Ele estava ali, comigo, e estava cantando para mim. Uma música suave que combinava com seu timbre, eu não conseguia saber que canção era, mas eu tinha certeza que era algo que me confortava, porque eu estava me sentindo mais segura só por ouvi-la. Se eu pudesse o agradeceria sorrindo.
E como eu queria chorar em seus ombros!
Eu queria segurar suas mãos e olhar em seus olhos, dizer a ele que sua presença era o que eu mais queria, desde sempre. Desde o dia em que fui embora de Seul, desde que minha mãe tinha adoecido, desde que ela havia morrido e desde que pisei na Coreia de novo. Queria pedir para que ele ficasse comigo até que tudo passasse. , meu amigo de infância, era ele que estava ali comigo. Porque eu conseguia lembrar claramente dele entre todos? Porque eu não tinha dúvidas sobre a voz dele entre todas as outras vozes que havia escutado antes?
No mesmo instante que reconheci sua voz, senti uma sensação diferente acontecer, um sentimento grande o suficiente para me agitar. Minha energia tinha voltado, e era poderosa novamente. Pela primeira vez em tempos, senti meu corpo querer reagir a alguma coisa, era estranho, como se não estivesse acostumada a isso.
A voz de ficava cada vez mais abafada, mesmo que eu soubesse que ele continuava cantando, eu quase não conseguia ouvi-lo mais. O desespero tomou conta de mim, eu não queria ir embora agora, não queria abandoná-lo. Não de novo, não dessa vez. Eu queria ficar; queria continuar ouvindo , mesmo que não pudesse falar com ele ou vê-lo. Queria me agarrar a ele como fazia quando éramos adolescentes e eu estava com medo de algo.
E foi assim, de repente, que o cenário mudou completamente.
Pisquei algumas vezes, mas não era uma sensação falsa, eu conseguia enxergar de novo, e não era mais escuro, agora estava claro. Eu tinha saído da minha cabeça, mas ainda não estava no céu ou em qualquer lugar que vamos após morrer. Eu estava parada em frente a uma janela e do lado de fora eu via os pinheiros cobertos de neve. E podia ouvir mais do que sussurros distantes, tinha muito barulho à minha volta: um bip constante, os automóveis do lado de fora, pessoas em outros cômodos. Mas, não tinha mais a voz de cantando para mim.
Aos poucos, com cuidado, fui olhando ao meu redor, para me ambientar e tentar entender onde estava. Olhei primeiro para baixo e vi meu peito movimentar, mesmo que não pudesse sentir minha respiração, eu via meu peito mexer pra baixo e pra cima. Estava viva, como suspeitava. A roupa era uma típica camisola de hospital, o que me assustou um pouco. O que eu estava fazendo no hospital? Aos poucos fui percebendo as paredes, a janela, o ambiente lá fora além dos pinheiros… Eu realmente estava em um quarto de hospital. Ainda devagar, virei meu corpo para enxergar mais.
E então, o choque veio!
Em minha frente, em cima da cama o corpo estático. O meu corpo. Era como se eu tivesse dormindo, mas não era uma cena tranquila de se ver. Eu estava machucada: haviam hematomas, haviam curativos e muitos fios que eram ligados a aparelhos. O oxigênio cobrindo meu nariz e minha boca, o frequencímetro ligado aos fios em meu peito, era dele que vinha o bip que escutava tão alto agora. Mas, o eu que estava ali, acordada, não tinha nenhum hematoma ou machucado, como aquele que estava inconsciente. Nada em mim doía, eu não estava sofrendo como aquela em cima da cama parecia estar.
Percebi meus batimentos aumentarem conforme era confirmado com o barulho mais frenético do frequencímetro a minha frente. Eu tinha saído de mim. Eu tinha saído do meu corpo. Senti meus olhos encherem de água, estava prestes a chorar, e foi o que fiz. A minha frente vi que uma lágrima descia pelo rosto que estava deitado. Dei um passo na direção do meu eu em coma, mas antes que eu pudesse me alcançar, ouvi alguém engasgando do outro lado da sala.
.
Ele me olhava tão aterrorizado quanto eu olhava pro meu corpo à minha frente. Então percebi que ele conseguia me ver. O vi afastar-se pro mais longe que poderia de mim. Ele não falava nada, mas sua respiração estava bastante ofegante. estava assustado, assim como eu. Seu rosto estava inchado, porém eu não saberia dizer se ele tinha começado a chorar antes ou depois da minha aparição. Estendi minha mão em sua direção, por querer que ele a segurasse, mas o efeito foi o pior possível, ele se afastou mais até se encostar a parede atrás dele, esse era o sinal para que eu não me aproximasse. Vi o corpo de começar a tremer.
Aquilo não era natural; eu não era natural!
– O que está acontecendo? – a voz de saiu tremida, quase um choro.
– Me ajuda! – foi tudo o que eu consegui dizer enquanto eu chorava.
A reação do homem foi diferente do que imaginei, ao me ouvir, não hesitou em sair do quarto às pressas. Fiquei parada naquele cômodo, confusa, por quase um minuto até que um homem e uma mulher, que nunca tinha vista antes, entraram e começaram a checar meu corpo na cama e os aparelhos ligados a mim. não voltou junto com eles, e isso só me fez sentir mais perdida. Tentei falar e me mostrar aos desconhecidos que estavam no quarto comigo, mas foi em vão, eles não me enxergavam ou me escutavam. Meu coração acelerou mais, minha cabeça estava tonta com tanta confusão.
O que estava acontecendo?
Desesperada, me aproximei da janela com intenção de fazer o máximo de barulho que conseguia. Comecei a socar os vidros e a gritar por ajuda. Nada. Ninguém me ouvia. O máximo que consegui foi fazer a estrutura balançar um pouco, e as lágrimas desciam cada vez mais em meu rosto.
– Doutora – ouvi a voz do homem que estava no quarto, quando me virei para ver o que tinha chamado a atenção do enfermeiro, vi que os dois estavam encarando meu rosto molhado na cama.
– Ela está chorando? – a médica passou de leve a mão, em uma tentativa de secar meu rosto – Como pode?
– E o coração continua a acelerar – a máquina, que monitorava meus batimentos, apitava cada vez mais rápido e mais alto – Se continuar assim, ela vai ter uma parada.
– Mas como pode? – a médica ainda estava incrédula, eu conseguia ver em sua expressão, mas agiu rapidamente – Vai buscar o sedativo, precisamos aplicá-lo agora! – a ouvir falar para o enfermeiro ao seu lado.
O rapaz saiu correndo pelos corredores, enquanto isso ouvia a médica sussurrar para que eu ficasse calma. Na mesma hora, eu (a que estava acordada) coloquei a mão em cima do peito e, pela primeira, pude sentir meu coração, ele realmente batia muito rápido. Vi o enfermeiro voltar com os medicamentos e entregá-los à médica, um frasco e uma seringa. Antes que ela pudesse aplicar a medicação, virei outra vez para a janela, não queria ver aquela cena, nunca gostei de injeções.
E no estacionamento estava indo embora. Ele também olhava para mim, sua boca estava levemente aberta, confirmando que ele conseguia me ver. Fechei meus punhos e bati com eles na janela o mais forte que conseguia, ao tempo em que gritava para que ele me ajudasse, mas nada aconteceu, apenas virou-se e correu até o carro, sem olhar outra vez para trás. Ele estava indo embora.
Eu continuava a chorar, mas senti que estava mais calma, que meu coração tinha desacelerado, quando me virei para as pessoas que estavam no quarto percebi que havia mais um componente ao grupo, só que esse eu conhecia. Parado, observando a situação que se passava ao lado do meu corpo, sua postura era de alguém que estava cansado demais para manter-se em pé e seu rosto era de um homem que havia chorado o bastante por dias.
– Pai?
Sussurrei, mas ele não me escutou e eu já esperava por isso. Ele conversava com a médica que, por sua vez, já tinha finalizado o procedimento e agora monitorava meus batimentos, que estavam mais controlados.
– O que houve aqui? – a fala do meu pai era tão arrastada quanto a sua postura. Ele realmente estava cansado e eu nunca tinha o visto daquele jeito.
– Senhor , esse tipo de reação que sua filha teve é algo que nunca vi em pacientes em coma – ela suspirou e tirou as luvas indicando que realmente tinha acabado, por enquanto – Em uma semana essa é a única reação que nos deu, e foi algo forte – a médica franziu a boca antes de continuar a falar – Eu não posso dizer que é uma esperança de que sua filha estará com a gente novamente daqui a pouco, ou se é algo que vem agravar o quadro dela.
Meu pai deixou o corpo cair na poltrona que estava há alguns minutos, só por ouvir que eu poderia estar piorando. As roupas amassadas, a barba por fazer, não era o estilo dele, aquele homem com o rosto entre as mãos me dava pena e não medo. Aquele não era o pai que eu conhecia.
– Eu não posso mentir para o senhor – a médica chegou mais perto do meu pai – continua não respondendo as minhas técnicas, eu a vi chorar e isso foi inacreditável, mas seu corpo não responde a nenhum outro processo meu. Parece que não há vida! – a médica olhou em direção ao meu corpo e eu fiz o mesmo – Mas, porque ela chorou? Porque o coração disparou?
A mulher falava tão baixo que parecia ser para ela mesma e não para o meu pai, ela estava absorta em seus pensamentos, até ouvir meu pai pigarrear em sua frente. Ela ajeitou sua postura, um pouco sem graça por ter perdido o ar profissional na frente dele, mas continuou:
– Eu não sei explicar o que houve aqui, se aquele rapaz assustado não tivesse corrido para avisar que tinha algo errado, sua filha poderia ter tido uma parada cardíaca – ela olhou de novo para mim, deitada na cama, e seus olhos tinham expressavam dúvidas, mas dessa vez ela não deixou que meu pai percebesse.
! O nome do rapaz que te chamou – meu pai tirou o rosto dentre suas mãos para encarar a médica mais uma vez, estava muito abatido, não parecia estar dormindo bem – ele e se tornaram amigos no primeiro dia de escola dela aqui, eram inseparáveis, até que ela foi embora – a voz do meu pai diminuía a medida que ele contava essa parte da minha vida, mas tinha um afeto enquanto ele contava sobre minha amizade com . Do outro lado eu me encolhi enquanto engolia a seco o que escutava.
A medica ignorou a história do meu pai, apenas sussurrou ao encará-lo novamente:
– Como profissional, meu papel é falar a verdade ao senhor e, por isso, não posso te dar esperança quanto a situação dela – meu pai começou a chorar de novo, um choro silencioso. Discreto como o homem que era – Mas, como mãe, eu preciso que acredite em sua filha. é uma guerreira, era para ela ter morrido naquele acidente, mas está aqui batalhando e querendo nos dizer algo, mesmo que eu ainda não saiba o que é. Confie nela!
Em seguida, tanto enfermeiro quanto a médica saíram do quarto deixando meu pai a sós comigo. Então o vi levantar da poltrona e chegar mais perto de mim, com delicadeza, como se não quisesse me machucar, ele tocou com o polegar no dorso da minha mão. Fazia movimentos circulares, sem pressa, ao mesmo tempo em que, olhava para o meu rosto sem expressão. Meu pai não disse nada, mas eu sabia que ele estava sofrendo.
Sem saber o que fazer, sentei no chão observando a cena de carinho entre meu pai e eu, e então eu pude sentir que, o mesmo movimento que ele fazia na em coma, eu conseguia sentir em mim. Sorri só por sentir o calor dos dedos do meu pai em minhas mãos. Fechei os olhos torcendo para que aquele pesadelo passasse rápido.

Capítulo II – Hello, my alien

Flashback

Senti o peso de sua mochila cair ao meu lado, eu estava com tanta raiva que nem fiz questão de olhar para o meu amigo sentando perto de mim. A árvore atrás do campo de esportes da escola era meu esconderijo preferido e sabia onde me achar quando eu não estava na sala de aula.
– E se o seu pai souber que você está matando aula de culinária? – ele sentou tão perto que fez com que nossas pernas se encostassem, era comum a troca de carinhos entre a gente e os toques dele não me arrepiavam da mesma forma que antes.
– E se sua mãe souber que você está matando aula de matemática? – retruquei sem abrir a cara para ele, mesmo sabendo que sua intenção era me animar.
– Eu estava trocando de sala quando encontrei Dana, ela me disse que você tinha saído do banheiro apressada, e ela estava preocupada, achou que eu pudesse saber onde você iria.
Olhei finalmente para ele, que olhava fixo para mim. e seus olhos de bambi, tão receptivos que me faziam esquecer a raiva que tinha acabado de passar. Deitei minha cabeça em seu ombro e suspirei antes de responder:
– Lisa! – ele beijou o topo da minha cabeça, como se soubesse que eu estava sentindo – Eu encontrei com ela e as gêmeas no banheiro – dei de ombros – o mesmo de sempre , elas não me deixam em paz. Só porque não sou daqui, elas pegam no meu pé: falam do meu cabelo, dos meus olhos, do meu corpo, do meu jeito de falar.
– Lisa e o esquadrão são tão estupidas, , não sei como se deixa abalar com elas depois de tantos anos.
– É que parece que eu nunca vou me encaixar, sabe? E ela cutuca sempre na minha ferida.
Afastei minha cabeça de seu ombro e abracei minhas pernas, como se fosse me proteger de qualquer coisa que Lisa pudesse fazer para me atingir, mais que depressa senti os braços dele envolverem meu corpo encolhido, era um abraço desajeitado, mas me mostrava que ele iria cuidar de mim, apesar de tudo.
Sempre foi assim, desde que nos conhecemos: sendo meu herói.
Aos 6 anos de idade, eu tinha ido morar com meus pais na Coreia, por um ano estudei em casa, era um intensivo entre a língua coreana e os costumes do país – afinal, eu não poderia envergonhar meu pai em um ambiente social. Aos 7 anos, entrei para a escola na qual estudei até o dia que fui embora. No primeiro dia de aula, grudou chiclete em meus cabelos e eu o empurrei da cadeira, por ter ficado brava com seu comportamento. Mas, assim que a professora disse que me puniria pela agressão, assumiu a culpa pelo que tinha acontecido. Então nós dois ficamos de castigo, sendo obrigados a nos encarar por longos minutos até que refletíssemos sobre o respeito mútuo. Depois disso, nos tornamos inseparáveis. Anos depois, tinha confessado que só grudou chiclete em meu cabelo porque me achava diferente e legal, mas não sabia como puxar assunto.
Claro que, em algum ponto da minha infância e adolescência, eu tinha me apaixonado por . Não sei quando começou minha paixão por ele, mas não durou muito, mesmo nunca tendo coragem para me declarar, eu sabia que para ele nossa relação era fraternal, e assim me obriguei a pensar sobre nós também. Minha prioridade era nossa amizade.
Como eu não poderia me apaixonar por ? Ele sempre foi meu porto seguro, e naquela época eu não enxergava ninguém fazer o que ele fazia por mim. Se fui feliz em Seul, grande parte disso devo a , que era quem me protegia de qualquer coisa ruim. Ninguém tinha coragem de mexer com o cara legal da escola e, por esse cara ser meu amigo, eu tinha me tornado alguém legal também.
Menos para Lisa.
Um ano depois de ter entrado para escola conheci Lisa e a dupla diabólica, apelido dado por mim ao trio. Lisa, mesmo quando criança, tinha um ar arrogante, quase sempre era maldosa com os colegas de classe, mas sempre conseguia disfarçar seu comportamento ruim, manipulando os adultos e alguns amigos e, dessa forma, ela se livrava de todos os castigos que deveria receber. Mas Lisa me odiava, e isso ela nunca fez questão de esconder, e eu suspeitava que esse sentimento tivesse algo a ver com a paixão secreta que ela nutria pelo meu melhor amigo e que ele gentilmente fingia não saber. Por algum motivo, não via o quanto Lisa era má comigo, ele achava que era coisa de menina estúpida, que passaria rápido. Mas não passou e Lisa me atingia sempre conseguia, até o dia que sai da escola.
– Eu tenho que te contar uma coisa – ele sentou com o corpo reto, encostando as costas na árvore atrás de nós.

me tirou do devaneio que tinha entrado a sua voz era séria o que significava que o assunto seria sério também. Ajeitei minha postura para ouvi-lo melhor, mas torcendo para que não fosse nada que exigisse muito de mim como amiga. Eu faria tudo por ele, mas Lisa não era a única coisa que me aborrecia naquele momento, em casa as coisas não iam nada bem. Era egoísmo, mas eu não poderia ajudar com algo grave se ao mesmo tempo eu estava pensando em como contá-lo que voltaria para o Brasil.
– Calma, , parece que vou falar que estou morrendo – nos conhecíamos tão bem que só pelo meu jeito de olhar ele sabia que estava preocupada, então riu para amenizar meus pensamentos – Lembra daquele curso de dança que comentei com você? – afirmei com minha cabeça – Meus pais me deixaram ir fazê-lo nessas férias.
O meu amigo terminou a frase com um sorriso enorme, o curso de dança era nos Estados Unidos e seria importante para , já que seu sonho era ser um artista famoso na Coreia do Sul. Seria uma notícia incrível, mas assim que voltasse da América eu não estaria em Seul mais, já teria ido embora com minha mãe, eu a convenci de me deixar finalizar aquele ano na escola e passar minhas últimas férias com meu amigo, mas com indo fazer o curso nas férias nossa viagem seria adiantada também. Segurei o ar por alguns segundos, tentando buscar por minha cara mais feliz, mesmo que estivesse destruída. Eu não contaria a ele que estava indo embora, não agora, porque sabendo quem era , tinha certeza que ele adiaria seus planos e eu não poderia permitir que ele cancelasse nada por mim.
– Isso é ótimo, – joguei meus braços em volta de seu pescoço, para abraçá-lo, me forçando a ser o mais feliz possível, mas por trás deixei que uma lágrima caísse por meu rosto e, mesmo sendo uma boa atriz, ele percebeu que eu não estava bem
– Ei! Tá tudo bem, ? – ele deixou que eu continuasse a esconder meu rosto em sua nuca e acariciou minhas costas com sua mão, me confortando.
– Claro que está, , eu estou tão feliz por você que quero chorar – metade mentira; metade verdade – Mas, vou sentir sua falta – totalmente verdade.
– São só alguns meses, eu vou voltar logo – ele afastou meu rosto de onde eu o escondia, me obrigando a olhar para ele – Você é minha soulmate e eu nunca vou te abandonar.
E, assim ele secou meus olhos com os polegares, ainda sorria e eu não pude evitar de sorrir junto. Estava sendo egoísta, tanto por não contá-lo que iria embora, quanto por estar triste por ele conseguir fazer o curso que tanto queria. Então eu decidi que, daquele momento até meu último minuto na Coreia, me dedicaria a fazer meu melhor amigo, meu soulmate, feliz.

Flashback off

Cinco dias.
Haviam se passado cinco dias e eu continuava sem entender o que diabos tinha acontecido comigo. Meu pai continuava a ir ao hospital todos os dias, me deixava sozinha por pouco tempo, na verdade, era a primeira vez que o via tantas vezes seguidas e me dando tanta atenção. A equipe médica me visitava sempre também, porém eu continuava sem demonstrar reação de sair do coma. A decepção era geral, tanto deles quanto minha.
Minha experiência sobrenatural funcionava de forma simples: às vezes eu voltava pro escuro e ficava lá, como antes, e às vezes eu estava no quarto, vendo as pessoas ao meu redor. Não sei qual gatilho me fazia entrar ou sair da minha cabeça, mas era considerando que eu não podia fazer nada a respeito do meu estado de saúde, a situação não era nem um pouco emocionante.
No auge do meu tédio, quando já tinha cansado de procurar alguma explicação, descobri que poderia sair do quarto, mesmo que não conseguisse tocar nas coisas eu conseguia andar e foi isso que fiz. Cho Swag, minha médica, tinha sido desatenta por um instante em uma de suas idas ao meu quarto e ao deixar a porta aberta permitiu que eu saísse andando para fora daquele ambiente em que estava nesses dias todos.
Caminhei pelo corredor, e pelo que parecia, eu estava internada na ala vip do hospital. Era um andar calmo, silencioso, possivelmente por ter poucos pacientes e por isso mesmo, não tinha quase ninguém andando por lá. Mas, por sorte, na mesma hora em que eu percebi que seria chato ficar ali, vi um homem colocar seu crachá na porta para abri-la e ter acesso ao restante do hospital. Corri atrás dele, garantindo que eu passaria por aquela porta também.

O hospital era enorme, e fora da área vip existia um caos no que parecia ser a recepção. Eu via os médicos correndo para recepcionar os pacientes que chegavam de maca, ou correndo para entrar no elevador que dava acesso aos outros andares. Reconheci o hospital Ulje no momento que entrei no saguão principal, quando tinha 12 anos precisei vir as pressas para cá quando quebrei meu braço jogando vôlei na educação física. Lembro de ter me sentido muito pequena em um lugar tão grande quanto aquele, e a sensação era a mesma agora.
Olhei ao meu redor e, apesar da quantidade de pessoas passando por mim, para variar, ninguém me enxergava. Acenei com os braços por cima da minha cabeça para chamar atenção, sem resultados. Abaixei meus braços.
– Oiiiii – gritei no meu do saguão, mas ninguém ouviu.
Lembrei de quando era criança e dizia que queria ser invisível por um dia pelo menos, mas se passaram 5 dias e eu não via vantagem nenhuma nisso.
Suspirei derrotada e frustrada com a situação: será que eu ficaria presa aquele lugar para sempre? Se Deus tinha um plano maior para mim eu não estava entendo qual era. Olhei para cima e pedi que se fosse isso, que Ele começasse a mandar sinais melhores para mim.
Eu não queria voltar para o quarto naquele momento, não aguentava mais me encarar sem reação, ou ver meu pai apático, encarando meu corpo em coma, ou a médica frustrada por não conseguir mais nenhum tipo de reação minha sobre o tratamento. Mas ir para onde se ver aquele número enorme de pessoas me ignorando me deixava aflita também?
Então, ouvi uma voz no alto-falante do saguão solicitando com urgência o médico responsável pela pediatria. Pediatria me parecia um bom lugar para ficar e passar o tempo, só torci para que o responsável tivesse que passar por ali. Na mesma hora, reparei em um homem jovem, com o típico uniforme de médico, correndo em direção ao elevador. Só podia ser o meu homem, então o segui para onde quer que fosse.
No elevador era perceptível a ansiedade dele, sua perna estava agitada como se ele estivesse com vontade de sair dali mesmo sem ter chegado no andar solicitado. Terceiro andar. Assim que as portas se abriram o homem projetou o corpo para fora, onde uma residente e uma enfermeira já o esperavam, no curto espaço de tempo entre sair do elevador e começar a andar, eu só pude escutar da mulher com o jaleco branco dizer ao homem:
– Professor Yang, é o paciente do quarto 264, o quadro é grave, ele está tendo convulsões – os três começaram a andar no sentido do quarto – Nós checamos o prontuário dele nessa manhã e estávamos prontos para transferi-lo…
Depois disso não consegui escutar mais sobre o que falavam, mas o corredor estava movimentado, principalmente em direção ao quarto em que o médico havia ido. Engoli em seco e segui andando para a direção diferente do que os três tinham ido, não queria ver o que estava deixando todos tão agoniados.
A intenção era me animar ao encontrar as crianças, mas, de novo, eu me via frustrada com toda a situação presenciada, andei em frente, um pouco menos motivada, mas ainda assim observando tudo no andar. Algumas crianças estavam em quartos duplos, outras em quartos individuais, a maioria entubada ou dormindo. Não tinha muita alegria ali, o que me fez franzir a testa sem entender bem, virei meu corpo para poder olhar para placa perto do elevador e então consegui ler “UTI pediátrica” e entendi o ar sombrio.
– Meu Deus, eu só queria me distrair – balancei a cabeça negativamente, já pensando em localizar a escada para eu sair daquele lugar o mais rápido possível. Mas, antes de dar meu primeiro passo para fora dali, ouvi a voz suave ao meu lado:
– Uau!!! Você é um anjo?
Virei-me para o lado procurando pela voz que tinha escutado, então vi a pequena criatura parada, com o soro pendurado ao seu lado. Ela era tão franzina, parecia que ia quebrar caso alguém encostasse nela e, mesmo que eu não soubesse sua idade, já podia imaginar que estava abaixo do seu peso ideal. Tão pálida que eu conseguia ver as veias roxas por toda sua face. Não era uma imagem agradável, na verdade, causava estranheza e pensar dessa forma me fez sentir culpada. A menina não usava uma camisola hospitalar igual a mim, eram roupas coloridas, estampadas por unicórnios, que faziam um contraste estranho com sua pele alva; na cabeça um gorro verde com bolinhas laranja, não só para proteger do frio, mas para esconder a falta de cabelos dela. Não era um chapéu bonito, mas que combinava bem com o restante de seu vestuário. E ela continuava parada, olhando diretamente em minha direção, o que era muito estranho já que eu era a mulher invisível do Ulje. Olhei ao meu redor, e não vi ninguém além de nós duas naquele corredor.
Será que a garotinha estava falando comigo?
– Você é meu anjo da guarda? – ela me olhou curiosa, virando a cabeça um pouco para o lado – Porque você está usando os pijamas do hospital? – a frase terminou junto com uma careta de insatisfação.
Abri levemente a boca de surpresa por ela estar falando comigo, eu queria responder a ela, contudo não conseguia emitir nenhum som, aquilo só fez a criança revirar os olhos, visivelmente impaciente.
– Tudo bem, você não deve ser meu anjo, por isso não pode falar comigo, mas eu consigo ver sua luz e ela é bonita – ela sorriu e virou-se para entrar novamente no quarto atrás de si.
– Não, espera! – falei o mais rápido que consegui – É que eu não sou anjo de ninguém, só estou surpresa por você conseguir me ver – ela arqueou a sobrancelha, admirada por eu não ser nenhuma divindade, mas sem esboçar qualquer reação de medo – Eu sou , estou internada aqui também – hesitei sobre o que falaria a seguir – Só que eu estou em coma, lá no meu quarto, no térreo. A menina olhou mais uma vez para mim, processando a informação que eu tinha jogado para ela, ela aparentava estar mais intrigada do que assustada com o que eu falava.
Antes que a garota pudesse falar algo de volta, ouvimos passos no corredor, já próximos a nós. Era uma mulher que andava apressada em nossa direção, a criança estreitou os olhos, ansiosa para ver a reação da enfermeira à minha presença ali. Era a prova que ela teria do que eu estava dizendo. Quando a mulher parou em minha frente, imparcial a mim, a garotinha jogou a cabeça de lado para me ver melhor e abriu um sorriso torto para mim, confirmando que acreditava no que eu dizia agora
– Jisooh, para dentro por favor, não é o momento de ficar aqui no corredor tá bom? – e logo que disse isso, a mulher seguiu por seu destino.
Jisooh me encarou mais uma vez, certificando que eu estava ali ainda, e acenou com a cabeça pedindo para eu a seguisse. E eu o fiz.
O quarto de Jisooh não lembrava nada a de uma criança. O cômodo era sem graça com as paredes brancas, não havia decoração a não ser por um mural cheio de desenhos feitos manualmente, cada um assinado por um nome diferente, entendi que eram de suas amigas. Imaginei que seria difícil para ela, que usava roupas tão coloridas, estar internada em um lugar tão sem graça. Procurei novamente pela garota, que agora estava sentada em sua cama, ainda me olhando com curiosidade.
– Então, qual a sua história? – ela me perguntou sem rodeios e, mesmo sendo uma criança franzina, me intimidava um pouco.
Mas estava agradecida por poder conversa com alguém, mesmo que fosse uma criança, e não demorei a contar tudo que eu sabia, desde o que em que “acordei”, expliquei tudo, aproveitando que a menina parecia estar interessada. Ela deixou que eu falasse tudo sem me interromper e, assim que acabei, respirei fundo e a encarei, dando aval para que ela opinasse finalmente.
– Então, quer dizer que só eu e o seu amigo covarde que conseguimos te ver? – eu ri da forma que ela falou sobre , mesmo não concordando com o adjetivo.
– Ele não é covarde, só estava assustado – dei de ombros, porque era o que eu pensava de verdade.
– Bom, eu não fugi não é? – ela cruzou os pequenos braços ao redor do peito, mostrando orgulho próprio.
– Não, você não fugiu – demonstrei apoio à coragem da pequena, mas ainda estava cismada com a atitude dela – Porque eu não te assusto Jisooh?
Jisooh só tinha 11 anos, pelo o que eu tinha conseguido ler na placa de identificação em sua porta, mas falava como alguém que tinha mais idade, se não fosse a overdose de unicórnios por suas roupas, eu começaria a suspeitar que ela não era uma criança.
– Eu estou internada nesse hospital há seis meses, , sem contar as idas e vindas durante um ano – olhei surpresa para ela – Leucemia – ela disse como se não e importasse com o peso do diagnóstico – Nada me surpreende mais, acontecem coisas bem estranhas aqui, sabia? – ela deitou demonstrando sinais de cansaço – Inclusive nesse andar, as coisas estão complicadas há um tempo.
. Pela primeira vez desde que a vi, Jisooh mostrou receio com algo, o que será que estava deixando o andar pediátrico tão complicado? Eu não queria perguntar a ela sobre, para não potencializar seu medo sobre o assunto, mas lembrei do momento em que eu tinha chegado na ala e no garotinho com problemas graves. Será que Jisooh entendia o que tinha acontecido com ele? Será que o que deixava as coisas tão complicadas por ali era a própria morte?
– Eu sinto muito – foi o que consegui dizer, depois de ouvir tudo o que ela disse.
Eu me sentia mal por ela, queria poder ajudá-la mesmo que fosse só para colocar aquela criança em meu colo e abraçá-la forte até que se sentisse confortável de novo, mas eu não conseguia nem ajudar a mim, o que eu poderia fazer por Jisooh? Sentia um leve fraquejar enquanto pensava sobre Jisooh e seu estado de saúde, talvez a história dela tivesse mexido de verdade comigo, a ponto de me fazer ficar fraca, tentei concentrar novamente na garota em minha frente, esquecendo qualquer mal estar que sentia.
– Você vai entrar ou vai ficar encarando a pela porta mais um pouco?
A frase súbita dela me fez saltar de leve, assustada com quem poderia estar me enxergando agora, virei apressada para a direção que a garota olhava e meus olhos encontraram na porta, encostado no batente olhando para mim, parecendo não se importar com a menina na cama, em sua frente. estava vestido com roupas pretas, que combinavam com seu cabelo castanho escuro, era um conjunto que contrastava bem ao tom de pele dele. tinha se tornado um homem lindo, e mesmo que eu tenha visto inúmeras fotos dele ao longo dos anos, era diferente quando o olhava ao vivo. Ele sorriu para mim e sibilou entre os lábios um “oi”, eu retribui o sorriso a ele.
Em nossa frente Jisooh pigarreou, impaciente com nós dois. A garota tinha conseguido a atenção de finalmente, mas ele não demonstrou ficar com raiva ou sem graça pela forma que ela tinha falado com ele, pelo contrário, ele parecia ter achado engraçado o jeito da criança.
– Oi – ele disse tímido para Jisooh, enquanto ela estreitava o olhar para ele. A garota me intimidava e talvez intimidasse também.
– Aaaah – disse como se entendesse todo o mistério acontecendo entre nós – Você só pode ser o amigo que correu quando a viu fora do corpo né?
Jisooh não tinha papas na língua e não se importava, por outro lado percebi meu corpo ficar tenso por medo da reação de ao que ela tinha acabado de falar. Olhei para o chão esperando que ele reagisse ofendido àquilo, mas, ao invés disso, meu amigo andou em direção a Jisooh e estendeu a mão para ela, como um cumprimento, e ela aceitou o toque sem hesitar.
– Esse sou eu, o cara que correu – ele ria enquanto falava, o que me fez relaxar quanto qualquer clima ruim – Sou !
– Jisooh – o aperto de mão entre eles foi delicado, como se não quisesse machucar a garota.
– Você não conhece o ? – a pergunta que fiz causou estranheza em ambos, mas considerando que era um idol mundialmente famoso, achei que qualquer menina da idade de Jisooh saberia quem ele era – BTS? – insisti quando ela não pareceu saber do que eu falava e percebi que o rosto do meu amigo ficava cada vez mais vermelho enquanto eu continuava a falar sobre aquilo.
– A não ser que seja um músico clássico, eu não tenho noção de quem ele seja – ela disse diretamente para mim, o que me deixou sem graça mais uma vez.
Tanto eu quanto rimos e só depois da garota falar sobre música clássica que percebi o violino recostado em uma cadeira que tinha perto de sua cama, o instrumento deveria ser da própria Jisooh, mas eu não queria perguntar sobre aquilo naquele momento.
– Hey!! – quebrei o silêncio – Ela também pode me ver – Apontei com a mão para a menina na cama, mostrando ao meu amigo que ele não era mais o único a viver a experiência estranha – Não está surpreso?
– Não muito – fiquei um pouco decepcionada com a resposta sem emoção dele, mas ele deu de ombros antes de continuar falando – andei pesquisando depois do nosso encontro aquele dia – os olhos de mostravam a tristeza em lembrar daquele – Achei um blog japonês sobre eventos sobrenaturais, nele um cara relatou ter tido essa experiência com a irmã, que estava em coma também – ele continuou a falar – Esse homem contou lá, no site, que o contato com pessoas de almas livres, que no caso seria você, pode acontecer por duas formas…
– Uma alma livre é um nome mais legal um que anjo! – ouvi Jisooh falar, empolgada com a história que estava escutando.
– Então – olhou de Jisooh para mim, continuando o que estava falando antes – As almas livres podem ter contato com pessoas desde que estas tenham vínculo emocional muito forte a elas: um familiar ou um soulmate, por exemplo – ele pigarreou, antes de continuar, parecia um pouco desconfortável com o que iria dizer a seguir – ou a comunicação pode ser feita com crianças que tenham relação forte com a morte – ele terminou e olhou com gentileza, sorrindo para Jisooh, querendo amenizar o que acabara de dizer.
– Criança com a morte fungando no pescoço – Jisooh levantou o braço, para que não tivéssemos dúvidas que esse papel na história era dela.
– Soulmate – fez o mesmo gesto que a garota.
Ouvi-lo dizer aquilo era mais que uma explicação sobre o porquê dele conseguir me ver, era ele dizendo que, mesmo que tenha fugido no começo, estava ali agora, como sempre esteve enquanto vivíamos juntos. Ele queria dizer que apesar do meu abandono a ele, nada tinha mudado. Continuavámos a ser os soulmates.
Sobre a alma livre que tinha falado, tudo parecia fazer sentido, mas ainda era complicado de entender e, apesar de toda informação, ele não tinha mencionado o detalhe mais importante:
– Tá, e nesse blog o cara conta como ajudou a irmã a sair dessa? – perguntei a ele o que eu queria tanto ouvir.
– Não ajudou – ele coçou o pescoço, sem graça – A irmã dele morreu antes de sair do coma.
Uma criança tinha acabado de falar que estava morrendo e eu, quando ouvi que poderia morrer também, me senti mais fraca que antes, se não fosse meu estado não físico de existir nesse momento, eu juraria que não demoraria a desmaiar. Me senti muito covarde com aquilo, mas não conseguia controlar a sensação. Jisooh jogou para trás, fazendo sua melhor cena de drama.
– Meu Deus, eu só sou uma criança fraca de 11 anos, não posso me envolver em casos desse porte – rimos do drama que ela fazia em nossa frente – Hey , como você sabia que a estava aqui comigo? – ela também tinha habilidade de mudar de assunto tão boa quanto a de fazer drama, mesmo que essa era uma pergunta que eu tinha feito silenciosamente desde que tinha aparecido na porta.
– Eu me perdi – ele deu de ombros, como se não fosse algo atípico dele – Acabei parando nessa ala, saí do elevador e percebi que estava no lugar errado, mas não tinha ninguém na enfermaria para me orientar, e então quando eu estava voltando para o lugar de onde tinha vindo, ouvi a voz de – ele sorriu discretamente – E aí achei vocês.
– Quando um soulmate precisa de ajuda, o outro sempre vai achá-lo, não importa aonde – Jisooh recitou a frase como se estivesse narrando uma cena épica em algum filme de ação – , não é por nada não, mas você está ficando pálida demais para uma alma livre– a mudança de assunto novamente.
Mas Jisooh tinha razão, por mais que eu não tivesse reparado em minha palidez, eu sabia que a minha energia estava ficando mais baixa que o normal. Levantei os braços até a altura dos meus olhos e pude ver meu tom de pele quase translúcido o que era anormal para mim. Era como se eu estivesse sumindo.
– Há quanto tempo você está longe do seu corpo físico?
Percebi muito perto de mim, e antes que eu pudesse avisá-lo, o vi tentar tocar em meu braço, sem êxito, o que o deixou assustado, no impulso puxei meu braço para longe dele e ele fez o mesmo com a mão. Da mesma forma que eu não conseguia tocar em nada, ninguém conseguia tocar em mim, e eu sabia que a sensação de não toque era péssima; gélico. E sabia disso porque tinha tentando tocar a mão do meu pai um dia, mas isso só o fez recuar e apertar o casaco mais perto de seu corpo e a expressão do seu rosto era de desconforto. Eu tentava tocar em algo.
– Pouco mais de 1 hora, eu acho – respondi a pergunta de , mais para afastar aquele momento esquisito entre nós, a decepção de saber que não conseguia sentir o toque dele era maior do que a preocupação de estar sumindo. Eu queria chorar!
– Você não pode ficar tanto tempo longe do seu corpo físico, me tirou do lugar no qual minha mente estava – Ele é sua única fonte de energia, até então, você não pode ficar tanto tempo afastada dele assim – olhei com surpresa por ele saber tanta coisa sobre minha condição – O blog, ele me ajudou muito durante a pesquisa – coçou a nuca enquanto me respondia.
– Pelo amor de Deus, sumam daqui antes que eu perca minha mais nova amiga – Jisooh falou o mais alto que seu estado de cansaço permitia, o que me fez ficar em alerta sobre minha condição também.
Acenei com a cabeça em direção a , confirmando que deveríamos ir para o meu quarto, ele sabia que teria que me ajudar a voltar ao quarto e, antes que seguíssemos para fora, ouvi Jisooh chamar por nossos nomes, o que nos fez virar ao mesmo tempo para a garota que chamava.
– Vocês vão voltar para me ver, correto?
– Claro!
Eu e falamos ao mesmo tempo, e sorrimos para a garota, aquela promessa era sincera, nós não a abandonaríamos, iríamos voltar assim que pudéssemos. Por isso que, ao sair quarto, fiz questão de olhar o número na porta, para garantir que não esqueceria qual era a acomodação de Jisooh. Quarto 277.
E então eu segui com para o meu próprio quarto.

 

Xx
 

Ele sentou na poltrona ao lado da cama enquanto ria junto comigo, a risada dele era a zona de conforta mais gostosa que eu conhecia.
– Você só ri porque não foi com você – ele apontava com a cabeça pra mim.
– Mas foi ótimo ver o rosto da recepcionista assustada achando que você estava falando sozinho
– O pior é que eu tive que falar com ela para fazer meu passe de visitante pra entrar aqui – o sorriso dele continuava igual a do garoto que eu tinha conheci há anos – Acho que ela queria me mandar para ala psiquiátrica.
Eu me encostei junto a parede, próxima a ele, o que o fez levantar a sobrancelha intrigado, eu sabia qual era a dúvida de , e mais uma vez eu só podia supor sobre aquilo, já que não tinha certeza de nada:
– A minha teoria é que eu não consigo tocar o que tem movimento ou qualquer sinal de vida. Janelas, paredes e chão não são um problema pra mim, mas portas, elevadores, cadeiras e pessoas sim.
Respirei fundo demonstrando a frustração
– A sua cor voltou – ele falou rapidamente depois de perceber como eu estava chateada – Está se sentindo melhor?
– Sim – sorri para ele – Obrigada por me ajudar a voltar – ele sorriu de volta.
– 1h é seu tempo limite fora desse quarto, pelo menos até a gente descobrir como fazer por mais tempo sem te prejudicar.
– Ok, combinado!
Em seguida nos permitimos ficar em silêncio por alguns minutos, enquanto ele encarava meu corpo inconsciente na cama, eu encarava o chão, nós dois tínhamos muito a falar um para o outro, mas ninguém queria começar. Mas, alguém tinha que fazer e, quando abri a boca para falar, a voz de apareceu primeiro
– Eu tenho que te pedir desculpas por ter fugido naquele dia – ele agora olhava para mim, parada a sua frente – Foi assustador. Não te ver, mas o acidente e achar que você poderia morrer.
Algumas lágrimas começaram a descer pelo rosto dele e ao ver aquilo minha garganta fechou em um nó, eu não aguentaria olhar sofrer em minha frente sem chorar também. Ele continuou:
– O BTS entrou de férias há 7 dias, então eu estava preparando uma viagem para a Austrália com meus amigos. O dia do acidente, era o dia em que eu ia pegar o voo – ele limpou os olhos com, a dorso de sua mão – Eu lembro que estava fechando o zíper da minha mochila quando meu celular tocou, achei que fosse um de meus amigos para me acelerar, já que por algum motivo eu estava atrasado – mexi meu corpo um pouco inquieta com o rumo da conversa – Mas não, era o seu pai! Eu reconheci a voz dele na hora, mesmo depois de anos sem ouvi-la.
Ele passou os dedos entre os cabelos, afastando os fios que caíam em seu rosto. Ainda chorava, o que me fez começar a chorar também. Na hora vi que o meu rosto na cama estava molhado, a mesma reação de 5 dias atrás.
– Ele disse que era para eu vir o mais rápido possível – ele fez uma pausa para respirar – Nenhum médico achava que você resistiria. Seu pai só me disse que você estava morrendo. Ele estava desesperado ao telefone, logo ele que sempre foi tão frio. Achei que fosse o fim, de verdade – ele chorava sem vergonha agora.
– Me desculpa – me sentia muito culpada pelo sofrimento dele, mas só balançou a cabeça como se não quisesse falar sobre aquilo em específico.
– Mas, o que quero dizer é que o dia em que você apareceu para mim eu achei que fosse o seu fantasma – ele riu como se o que tivesse dito algo bobo – Naquela hora, eu achei que você estava morrendo e eu não aguentaria ver aquilo, foi insuportável pensar que você estava indo embora e eu não poderia fazer nada. Eu fugi por medo, porque eu estava te perdendo pela terceira vez e parecia ser definitivo.
Eu não sabia o que falar, só queria abraçar , mas nem isso eu podia agora.
– Depois que fui para o dormitório, fiquei no quarto esperando que seu pai me ligasse e desse a notícia que eu já sabia. Eu chorei, muito. Tanto que o , o único membro que ainda está em Seul, adiou as férias dele para ficar comigo – mais uma vez ele passou os dedos entre o cabelo – Eu contei sobre o que tinha acontecido e ele achou que eu pudesse ter entrado em choque por ver que as coisas estavam piorando com você e isso me fez imaginar tudo. Eu concordei, era o mais certo. Mas seu pai não tinha me ligado e isso foi mais estranho ainda, então esperei dois dias e resolvi ligar para ele e perguntar como as coisas estavam indo – ouvi o suspiro alto de – Daí ele disse que estavam na mesma, que você tinha tido uma reação na última vez em que estive no hospital, mas que seguia em coma.
– eu o fiz olhar para mim – Não chora, por favor – minha voz sumia entre meu choro.
– Tá tudo bem, , eu preciso disso – ele sorriu enquanto tentava me acalmar – Eu conversei com o e nós dois ficamos quebrando a cabeça para tentar entender, até que encontramos o blog que falava sobre essa experiencia com as pessoas de alma livre. ainda não acredita que isso seja verdade, mas não teve coragem de vir te visitar, eu não ligo se ele acha que estou louco… Só estou feliz por você está aqui, comigo!
Dei um passo em sua direção, assim que ele levantou da cadeira em que estava e andando para perto de mim. Estávamos perto demais um do outro, levantou a mão em direção ao meu rosto, na intenção de tocá-lo, mas parou antes que pudesse me alcança. Tanto eu quanto ele sabíamos que não funcionaria. Mas, antes que nos afastássemos, lembrei-me da sensação que tive quando meu pai tocou em minha mão e torcia para que desse certo entre a gente também, porque tudo o que eu mais queria era sentir as mãos de em mim de novo, tinha que dar certo com .
– Você pode tocar em mim – falei para ele, me sentindo animada de novo.
Eu olhei para a cama, mostrando o meu corpo deitado, parecia confuso, mas eu. Ele olhou para o ponto em que eu olhava, ainda sem entender bem o que eu queria dizer, mas eu o incentivei a continuar, e isso o fez compreender minha intenção.
Devagar, colocou a mão em meu rosto inconsciente, e no momento em que sua mão encostou em minha bochecha senti o calor do toque. Balancei a cabeça para ele, afirmando que estava dando certo. sorriu e, motivado com meu apoio, continuou com o toque leve, agora movimentando a mão pra cima e para baixo. O movimento era delicado, mas a sensação que isso causava em mim era forte, como se eu nunca tivesse sentido o toque dele antes. Meu soulmate.
– Eu estou te sentindo – afirmei, assim que o vi olhar para mim, buscando minha reação a sua ação
E eu o sentia! O calor de sua mão provocava coisas boas em mim, em todo o meu corpo, que estava parado ali em sua frente. No reflexo coloquei a mão na parte que sentia ele acariciar, acompanhava o movimento que ele fazia.
– Eu te sinto também! – me disse enquanto sorria, e eu sorri para ele ao saber que nós dois havíamos encontrado um jeito de nos tocar.
Um segundo depois, vi abaixar o corpo aproximando a boca da minha testa, um beijo delicado. A segurança que aquele gesto me passava era inconfundível, só que ele não parou ali, continuou descendo a cabeça até que alcançou os lábios ao meu ouvido, sem hesitar, sussurrou:
– Eu estou aqui agora e nada vai me afastar de você – enquanto falava em meu ouvido na cama, sua voz ecoava em minha cabeça, reproduzindo exatamente o que ele falava pro meu eu desacordado – Eu senti sua falta todos os dias desde que você foi embora – o timbre era doce e provocante ao mesmo tempo – Eu amo você . Sempre amei e sempre amarei!
O jeito que disse as últimas palavras tinha sido diferente de todas as outras vezes em que ele havia dito que me amava. Era intenso. Ele não tinha terminado, tinha mais coisas a falar, mas só conseguiria dizer em meus ouvidos adormecidos, em pé a sua frente, eu estava ansiosa para saber tudo o que ele queria dizer. Assim que abriu a boca para continuar a falar a porta atrás de nós foi aberta com força:
– Por favor senhor, não se aproxime tanto da paciente assim, pode ser perigoso para ela.
A voz da mulher era delicada, diferente da forma com que ela interrompeu o meu momento com , e era tão familiar. De onde eu conhecia aquela voz? Joguei meus braços pra baixo, triste por ela ter acabado com meu mágico, se eu pudesse empurraria a intrusa novamente para fora do quarto e pediria para continuar a me estimular com sua voz. Derrotada com a situação, virei em direção a voz que tinha acabado de entrar, e então entendi o porquê de conhecer aquele tom e o porquê do meu amigo estar com a expressão de choque em seu rosto.
– Lisa?! – falamos os dois ao mesmo tempo, mas claro que ela só ouviu a voz de .
O que diabos Lisa estava fazendo ali? Fisicamente ela continuava a mesma da escola, a não ser por ter crescido um pouco ao longo dos anos, mas o rosto angelical, os cabelos negros e a franja cobrindo a testa continuavam do mesmo jeito. Impossível não reconhec~e-la a mesmo depois de tanto tempo. Engoli a seco enquanto a olhava, Lisa conseguia me acuar mesmo quando não podia me ver.
– Mas o que você está fazendo aqui? – não se importou em ser educado ao ver que a mulher sorria, feliz em vê-lo.
? – ela não parecia tão surpresa em ver o homem em sua frente – Eu trabalho aqui – ela mostrou o crachá para ele – Sou enfermeira.
Ela chegou perto da cama em que eu estava e começou a verificar os aparelhos, como se tivesse lembrado o motivo por ter entrado no quarto. Ao ver Lisa mexendo nos aparelhos conectados ao meu corpo, cheguei o mais próximo da parede que conseguia, eu queria me esconder o máximo possível dela. Era desconfortável ver ela fazendo aquilo, mesmo que fosse seu trabalho.
– Eu fiquei sabendo do acidente com a – ela anotou algo em sua prancheta, sua expressão era genuinamente triste – Sei que não éramos melhores amigas na escola, mas eu sinto muito o que esteja acontecendo com ela – eu não tinha percebido, mas agora via o quanto ela tinha se aproximado de – Eu não sabia que vocês ainda mantinham contato – ela tocou em sua mão.
– Nunca deixamos de ser amigos – ele tirou a mão da de Lisa.
– Eu preciso te dizer que o senhor está aguardando do lado de fora para passar a noite com a filha – ela percebeu o afastamento de , o que a deixou levemente sem graça – Você tem cinco minutos com ela, tudo bem?
– Ok, já está saindo – ele olhou de relance para mim, tentando entender o que eu estava achando daquilo tudo.
Lisa caminhou em direção a porta do quarto na intenção de sair, o que me fez ficar aliviada já que eu não gostava da presença dela ali com a gente, não importava que ela fosse minha enfermeira, ainda não gostava dela. Mas, antes de abrir a porta, a mulher voltou para perto de e disse baixo, como se não quisesse que outras pessoas ouvissem:
– Meu intervalo é daqui 10 minutos, o que você acha da gente tomar um café no refeitório? – abriu a boca, sem saber o que falar, possivelmente intimidado enquanto eu o encarava esperando a resposta – Eu só achei que poderíamos conversar sobre o estado de saúde de – ela completou rápido, antes que recusasse – Os médicos não falam todas as informações para vocês, eu posso ajudar com algumas coisas.
O homem estava estático, olhou para mim com o canto dos olhos, o que fez Lisa olhar na direção que ele encarava, sem achar nada ali. Eu estreitei os meus olhos para ele, uma leve ameaça caso sua resposta fosse sim. trocou a perna de apoio, visivelmente desconfortável, respirou fundo aceitando as consequências que poderiam vir depois do que falasse:
– Tudo bem, eu te encontro daqui a dez minuto, ok? – olhou para o relógio na parede confirmando o horário – Só vou me despedir da .
A minha raiva era tão grande que se eu pudesse beliscaria com as pontas de minhas unhas, para que ele sentisse a pior dor possível, mas, mesmo indignada, eu consegui percebe o olhar de Lisa pro meu corpo ao ouvir o homem se referir a mim com carinho. Era desprezo. Aquela sombra que sempre aparecia em seu olhar quando Lisa praticava alguma maldade comigo ainda estava ali, mesmo que só eu pudesse vê-la. Mas, tão rápido quanto entrou, a mulher saiu do quarto, desaparecendo das minhas vistas.
, eu não acredito que você vai ter um encontro com a Lisa!
– Não é um encontro, , ela vai me passar informações sobre você – ele finalmente olhou para mim – Você não ouviu? Ela também está preocupada. Esquece as brigas da escola, ok? Nós somos adultos agora – dito isso, beijou mais uma vez a testa do meu eu inconsciente – Eu tenho que ir agora, mas amanhã eu volto. – e caminhou em direção a porta, saindo do quarto.
Assim que saiu, vi meu pai entrar, o mesmo rosto abatido de todos os dias. Ele deu um leve toque em minha mão, e sentou na poltrona que meu amigo havia sentado há pouco tempo atrás, eu vi meu pai abrir o livro e se ajeitar melhor em seu assento. Respirei derrotada por saber que Lisa estava tão perto de mim de novo e, que pior, ela estava tomando café com nesse momento.

Capítulo III – O assobio

’s Pov on

Flashbak on

, eu sinto muito por não ter falado com você antes, mas eu não conseguiria te dizer isso pessoalmente. Quando você voltar à Seul eu não estarei mais lá, eu sinto muito , mas minha mãe precisava sair daquela casa e, bom, eu também. Eu estou no avião e te contar sobre estar indo embora é a última coisa que vou fazer antes dele decolar, pelo que sei, você também está prestes a voar de volta para casa.
Meu soulmate, não fique bravo comigo, meu coração dói por não me despedir de você da forma correta, mas doeria mais se eu te abraçasse e dissesse adeus. Eu estou indo para o outro lado do mundo, não sei quando voltarei, a única certeza que tenho é que eu te amei, te amo e te amarei para sempre.
Por favor, não se esqueça de mim, porque eu nunca te esquecerei.
Sua !
P.S. Não responda a essa mensagem enquanto estiver com raiva, pense que está sendo difícil para mim também e não quero te ver bravo, apesar de saber que estou te chateando.>

Reli a mensagem de antes de entrar para a aula, depois de sete dias que tinha recebido aquilo eu ainda estava bravo com ela. Respirei fundo e guardei o celular na mochila, mas antes de fechar o compartimento vi o chaveiro que havia comprado de presente para , o de coração escrito “I love you”.
E eu a amava, não só como amiga, e aquele chaveiro estúpido era a deixa que usaria para me declarar. Minha paixão por ela começou no dia que grudei chiclete em seu cabelo, no instante em que eu caí da cadeira ao ser empurrado por ela, foi assim que percebi que seria a minha melhor companhia. E foi. Meu lugar preferido era ao lado dela. Eu me sentia o homem mais seguro do mundo ao lado dela, mesmo que ouvisse o tempo todo o quanto eu era seu herói. Nunca tive coragem de falar sobre isso com , por medo da nossa amizade ficar diferente e, agora, eu nunca mais falaria sobre o quanto estava apaixonado por ela.
Finalmente andei até a sala, a primeira aula do ano seria sobre matemática e eu não estava nem um pouco interessado, sentei na última cadeira, próximo à janela. Apesar de saber que a maioria dos meus colegas tinham curiosidade de saber como tinha sido meu tempo em Los Angeles, nenhum se atrevia a chegar perto de mim, porque a minha cara não disfarçava que não estava para conversa. Mas, mesmo sem me esforçar para ser simpático, vi que Lisa tinha sentado na cadeira ao meu lado, sorridente e inclinada em minha direção.
– ela cantarolou em minha direção – Nosso viajante popular.
– Oi Lisa – disse sem muita emoção, ainda continuava indisposto para conversas.
– Olha, não me interessa se sua amiga não está mais aqui – ela não se importou em ser direta ao falar – Não vou mentir: eu não gostava dela.
– Lisa, não começa, por favor!
, não começa você – ela puxou a cadeira para o meu lado e sentou bem próxima a mim – foi embora escondida, ela não se importou em contar. Acho que você está tirando um peso das costas, deveria agradecer. Fora que agora você pode me conhecer melhor
Lisa mordia a tampa da caneta enquanto me olhava, não poderia negar que a garota era linda e que não tinha tentado nada com ela por respeito a . Sei que ouvir aquelas palavras calado sobre minha amiga era errado, mas, mesmo assim, era uma pequena vingança – mesmo que silenciosa – por como havia me deixado. Sem falar nada abaixei a cabeça, enquanto ouvi Lisa rir vitoriosa, e antes de qualquer outra palavra, vimos o professor entrar em sala, o que fez a garota voltar a cadeira para seu lugar de origem.
Durante o resto do dia, Lisa fez questão de ser minha sombra, mesmo que eu demonstrasse frieza, ela me seguia em todos os lugares que ia. Coincidentemente fizemos todas as aulas daquele dia juntos, almoçamos juntos e fomos embora juntos. Fato é que a presença de Lisa tinha tirado o foco da falta que me fazia, e até que a garota era legal. Pelo menos ao meu lado, Lisa não tinha demonstrado nada de cruel. Foi uma boa companhia, tanto que quando cheguei em casa me sentia mais aliviado; mais leve, o suficiente para responder .
Peguei o celular da bolsa enquanto me jogava na cama, não quis reler a mensagem, para não reviver a dor, eu tinha decidido que ignoraria a falta da minha melhor amiga e fingiria que estava tudo bem, e esperava, de coração, que mesmo depois de uma semana pudesse me responder de volta:

, não posso mentir que estou bem e que não fiquei com raiva com o que aconteceu, mas não quero que a gente fique nesse clima ruim. Sei que está de madrugada aí no Brasil, mas podemos achar um horário para conversar. Todos os dias, ok? Vamos reservar um momento nosso.
Espero que você e sua mãe estejam felizes agora. Em nenhum segundo penso sobre te esquecer, isso seria impossível.
Eu te amei, te amo e sempre te amarei.
Seu !
P.S. Vou fazer audição para uma gravadora aqui em Seul, ela é uma empresa pequena, mas estou animado.

Joguei o celular de lado, sem pretensão de receber uma resposta rápida, afinal, pelos meus cálculos, no Brasil passava de 1h da manhã, porém dois minutos depois ouvi a notificação do aplicativo, o que me fez rolar o corpo com pressa para ler a mensagem que tinha recebido.

, estou morrendo de saudades! Não consigo dormir, quero conversar com você. Conte-me tudo: 1) Como foi o curso nos EUA? 2) Quando será sua audição? e 3) Como foi seu primeiro dia de aula?
Não tenha pressa, me conte os detalhes. Eu estou sem sono.

Sorri com o que estava escrito, eu poderia ouvir a voz dela nas palavras, os gestos dela ao falar. Minha pequena! O coração apertou de novo, ao lembrar que ela tinha ido embora, balancei a cabeça como para afastar aqueles pensamentos, senão ficaria triste outra vez e então contei tudo o que queria saber, menos os momentos com Lisa, de certa forma me sentia culpado por ter desfrutado da companhia da pessoa que minha amiga menos gostava. Conversamos por horas, eu nunca tinha mexido tanto tempo no KaKao Talk, mas tinha ido embora e o celular seria nossa única forma de comunicação, eu não ia deixar aquilo acabar.

xx

Porém, as coisas foram mudando, com o tempo não conversava tanto quanto antes com . Na escola, me aproximei mais de Lisa, e descobri que tínhamos afinidades em comum, e no fim ela era uma companhia confortável. Lisa e eu começamos a namorar no inverno daquele ano, nessa época já não conversava com frequência com e, talvez por isso, não tenha mencionado a ela sobre meu relacionamento.
O namoro durou seis meses, que foi o tempo de eu ser chamado pela Big Hit para fazer parte do grupo que a empresa estava montando. Assim que virei trainee, não tinha tempo para Lisa mais, eu me via entre os ensaios, o trabalho e entre passar o tempo com seis caras que se tornaram minha família. Lisa tinha deixado de ser um conforto para ser inconveniente, a garota exigia muita atenção, que eu não estava disposto a dar a ela.
Achei que Lisa criaria mais problemas, mas mesmo com o término repentino ela só me deu trabalho três anos após o debut do BTS, quando apareceu em um programa de fofocas famoso em Seul contando sobre a época em que namorávamos. Poderia ser uma atitude pequena, mas isso me causou uma dor de cabeça enorme. As fãs odiaram o comportamento de Lisa e algumas me questionaram sobre esse namoro que eu nunca tinha mencionado. Nesse momento eu fiquei esperando que me procurasse, mesmo que para brigar, mas ela não apareceu, talvez não acompanhasse minha carreira como havia prometido que faria. Foi aí que percebi que as coisas entre nós tinham realmente mudado.
Aos fãs eu não disse nada, esperei que a poeira abaixasse e que eles esquecessem sobre o tal namoro, e foi assim que aconteceu: as armys decidiram aceitar que o Lisa tinha dito no programa era invenção e eu me calei diante da conclusão do fandom. Para evitar mais aborrecimentos a Big Hit tinha mandado um advogado entrar em contato com Lisa, levando uma boa quantia em dinheiro para comprar seu silêncio e um contrato que a proibia de mencionar nosso relacionamento publicamente. E assim Lisa me deixou em paz.

Flashback off

Assim que fechei a porta do quarto de , percebi o senhor aguardando sua vez de entrar, eu apenas o cumprimentei com a cabeça, não dando tempo para que ele me puxasse para conversar, nós dois estávamos cansados. Ele também não se esforçou para falar comigo, apenas acenou de volta e entrou no cômodo que eu estava antes. Verifiquei o meu relógio percebendo que ainda faltavam alguns minutos antes do horário combinado com Lisa para o café, o que era bom, já que tinha decidido chegar à cafeteria do hospital antes da moça.
– Oi – chamei com gentileza a atenção da enfermeira na mesa de entrada da ala- A enfermeira Lisa ainda está fazendo as visitas?
– Está sim, o senhor quer que eu a chame? – a senhora estava sendo o mais atenciosa possível, mesmo que eu tivesse atrapalhado o seu jantar – Eu posso telefonar para ela agora, se o senhor quiser.
– Não precisa – falei o mais rápido para evitar qualquer ação precipitada da mulher em minha frente – Nós combinamos de nos encontrar na cafeteria do hospital, se a senhora puder avisar que já estarei lá esperando por ela, seria ótimo.
A mulher sorriu ao concordar com o que pedi a ela, assim que terminei de falar entreguei o meu cartão de visitas a ela e segui rumo ao café do Ulje, mas, antes que eu pudesse chegar a uma área mais movimentada, coloquei o capuz do moletom em minha cabeça e a máscara, que sempre andava comigo, em meu rosto. Era o meu disfarce, daquele jeito ninguém poderia ter certeza de quem eu era, a intenção de me esconder não era só para evitar o assédio, mas principalmente para impedir que me associassem a Lisa, de novo.
Segui as placas e logo encontrei o local que iríamos nos encontrar. A cafeteria do Ulje era uma Starbuck qualquer, nada além disso, o que me fez ficar aliviado, pois o ambiente não era intimista. Antes de sentar, fiz o pedido pra mim chá verde e para Lisa café gelado, além de dois muffins de blueberry porque eu estava com muita fome. Sentei na mesa mais escondida do local, aguardando a minha companhia chegar, o que não demorou para acontecer. Coloquei a máscara para baixo do meu queijo, puxei o capuz da blusa para baixo, o máximo possível, para tampar o que eu conseguia esconder do meu rosto, agora que estava sem a máscara deveria ser mais cauteloso.
Do outro lado do salão, Lisa andava de uma forma confiante, como sempre fora. Era uma mulher bonita, com traços delicados, não passava em lugar algum sem chamar atenção, sorria para cada um que a cumprimentava mostrando ser o mais simpática possível. Assim que me viu, Lisa acenou indicando que tinha me encontrado, e eu levantei o copo de café para que ela visse que não precisaria passar no caixa. Então, ela veio direto em minha direção.
– Quase não te reconheci por baixo do manto, – ela disse referindo ao capuz que tinha por cima de minha cabeça. Assim que chegou Lisa já sentou na cadeira de frente para mim, sem cerimônias – Qual o medo, : ser reconhecido por algum fã ou ser visto comigo?
Eu não disse nada, ao invés disso, empurrei o café em sua direção indicando que aquela bebida era a dela.
– Como você sabe que ainda gosto de café gelado? – ela bebeu um gole do café assim que terminou de falar.
– Algumas coisas não mudam – eu retruquei sem disfarçar o desgosto no meu tom de voz, não me importava em deixar claro que ainda tinha rancor guardado desde o nosso último contato – Então, o que você tem a dizer sobre o quadro da que eu ainda não sei?
– Acho que você ainda sente raiva de mim, não é, ? – ela estreitou os olhos – Espero que você perceba que depois desse tempo todo eu mudei.
Pigarreei assim que escutei as palavras de Lisa, não estava interessado naquele tipo de conversa entre a gente, eu queria saber sobre e era isso que ela teria que me dá. Tomei um gole do chá e mordi o muffin, percebi o quanto estava com fome assim que dei a primeira mordida, fiz uma nota mental de pedir a que fizesse um macarrão para mim assim que chegasse ao dormitório.
– Seguinte – Lisa disse me tirando do lugar onde estava – Você veio para ouvir sobre , e é isso que vou te dar.
Ela sorriu de uma forma carinhosa ao mencionar o nome de minha amiga, era estranho, mas até a postura de Lisa tinha mudado ao mencionar , a pessoa em minha frente não era mais aquele mulherão confiante que eu tinha acabado de ver sentar, mas sim uma mulher dócil, Lisa tinha um ar inocente, o que me fez relaxar mais ao seu lado, essa súbita mudança acabou por me deixar mais confortável.
– Desculpa Lisa, mas estou um pouco cansado, os últimos dias foram complicados para mim. Não durmo direito, não como direito, por isso meu humor está ruim – disse por me sentir culpado por ter tratado a mulher tão friamente – Se a gente puder ir direto ao ponto seria ótimo, eu gostaria de ir o mais rápido possível para minha casa.
– Tudo bem, eu te entendo – ela piscou para mim, mas não com malícia – Eu não tenho boas notícias, – essas palavras fizeram o meu coração parar, apreensivo para o que viria a seguir – Os médicos estão intrigados com o caso dela, ninguém sabe o que acontecerá, as atividades cerebrais de estão muito baixas, , a equipe não têm muita esperança para ela
– O quê? – as palavras de Lisa tinham saído como se fossem simples, e as minhas já eram um sussurro, quase sem forças. Senti que meus olhos estavam ardendo, marejados.
– Eu sinto muito, , mas o que nós, que estamos no caso, ouvimos é que logo logo terá morte cerebral – ela suspirou ao ver minha reação – Eu realmente sinto muito, .
Talvez por ser enfermeira Lisa falava aquilo de um jeito frio, como se fosse fácil para mim receber aquelas palavras. Morte e não podiam estar na mesma sentença. Meu coração disparou, mostrando que eu deveria ficar alerta, mas ainda não sabia com o que. Meu corpo reagiu ao contrário, senti meus braços estavam sem forças, minhas pernas tremiam tanto que eu desconfiava não conseguir sair daquele lugar por conta própria. A dor, ela tinha voltado. A dor da perda; do luto, estava mais perto agora.
Olhei para Lisa outra vez e ela parecia tão abalada quanto eu estava, a mudança no comportamento da mulher de novo, aquilo era estranho ou eu estava estranho e sem conseguir ter uma percepção correta sobre as coisas?
– Eu vou lutar por ela até o fim, – Lisa tinha abaixado a voz até que essa virasse um sussurro no qual só nós dois pudéssemos ouvir – Eu sei que não fui uma pessoa boa para ele no passado, mas eu te garanto que o que puder fazer para salvar , eu farei – ela colocou sua mão sobre a minha – Por ela e por você.
O tom de voz de Lisa ao mencionar a última palavra foi intimidador, olhei assustado para ela, não pela frase, mas pela bomba que ela tinha acabado de jogar em minhas costas. Tirei rapidamente a minha mão debaixo da dela e levantei, sem me preocupar se estava sendo grosseiro ou não. Eu queria chorar, a dor ainda estava martelando em meu peito. Mas não queria desabar na frente da minha ex namorada. Balancei a cabeça, sem conseguir falar nada para a mulher em minha frente, ela entendeu que eu estava te dando tchau e só concordou do outro lado.
Sai em disparada para fora do café, sem me preocupar com a máscara que não cobria mais meu rosto ou com o capuz que havia caído da minha cabeça assim que comecei a andar apressado. Encontrar a saída do lugar tinha demorado mais do que pensei que iria demorar, eu percebia alguns olhares curiosos em mim, mas não sabia se eram pelo reconhecimento ou por eu estar chorando enquanto andava. Antes de dar a oportunidade de alguém me parar, corri em direção ao estacionamento, entrando direto para o meu carro e indo para casa.

’s Pov off

Jisooh percebeu o corpo ficar quente, o que a despertou do sono em que estava, não tinha se sentindo mal para ter aquele tipo de reação, era algo súbito, também sentiu que estava suando e que seu coração estava disparado. A menina começou a ficar ansiosa com aquilo, não gostava de passar por crises, por mais que falasse sobre morte tranquilamente, a ideia de morrer não agradada Jisooh em nada. Só fingia que não se importava. Assim que a garota pensou em apertar o botão de comunicação entre o quarto e a enfermaria, ela foi tomada por uma falta de ar assustadora. A menina tentou colocar a mão no peito e abrir mais um botão de seu pijama, mas não conseguiu, estava fraca demais. Puxava o ar com força, mas nada acontecia.
Era a morte, só poderia ser, Jisooh pensou. Morreria sozinha, em uma noite que tinha dispensado sua mãe de dormir com ela no hospital. Ela tentou puxar o ar mais uma vez e só piorou o sufoco que sentia. Não conseguia gritar por ninguém, mas conseguia mexer as pernas freneticamente, era a sua esperança de que o barulho feito por seu corpo chamasse a atenção de alguém do lado fora.
Mas, assim como começou, a asfixia de Jisooh acabou. De repente. Como se nada tivesse acontecido, a garota já conseguia respirar normalmente a única sequela do momento anterior era o tremor em seu pequeno corpo. A menina então respirou fundo, para garantir que conseguia fazer aquele movimento normalmente e pensou, agora aliviada, na estranheza daquilo: seu corpo, mesmo doente nunca tinha reagido daquela forma antes.
E se aquilo tivesse sido um sinal, não sobre ela, mas sobre outra coisa? Ela tinha a liberdade poética da infância para acreditar em coisas sobrenaturais, e assim o fazia. Jisooh pensou em todas as crianças que tinham morrido naquele andar no últimos meses, como tinham sido os mesmos sintomas em todas. Pensou tanto sobre aquilo que lembrou do assobio que escutava constantemente nos corredores de madrugada, algo fora do comum; um som que a arrepiava. Sem querer pensar mais sobre o assunto que a assustava tanto, a menina encolheu o corpo, abraçando as pernas e começou a rezar, pedindo a Deus que a protegesse de qualquer mal.

’s POV on

Ser uma alma livre não significava que eu estaria o tempo inteiro fora do meu corpo, às vezes, eu voltava para a escuridão da minha cabeça, e foi isso que aconteceu quando saiu do quarto para dar espaço ao meu pai. Em um instante eu estava olhando o senhor Walter ajeitar o corpo para ler e no outro já não vi mais nada. Mas, apesar de não estar em meu estado de alma livre, a percepção do mundo de fora era muito mais clara pra mim, tanto que escutava os roncos do meu pai ao meu lado claramente.
Tentei relaxar e me desligar um pouco das coisas, mesmo sendo uma espécie de espírito, tinha necessidade de descansar. Mas, antes de me desconectar com qualquer parte do mundo externo escutei a porta do quarto ser aberta, com ela ouvi o som do assobio, era um ritmo perfeito, acompanhando cada passo que a pessoa dava para perto de mim. Meu pai continuava a roncar, ele tinha o sono tão pesado que nem se eu pudesse chamar seu nome, ele acordaria.
O sibilo junto aos passos me deixou aflita, tentei concentrar o máximo que pude para sair do meu corpo: sem sucesso. O dia tinha sido cansativo demais, o que me deixou fraca o suficiente para fazer qualquer movimento. O som do assobio tinha cessado assim que a pessoa havia chegado perto de mim, segundos depois percebi que quem estava ali, estava mexendo em minhas medicações, não só pelo barulho na bolsa de soro, mas pela sensação de ardência que tomou meu corpo.
Era como se um fogo tomasse conta do meu corpo, tão forte que eu conseguia sentir o ardor mesmo com meu estando em coma. Tentei me mexer, mas nada aconteceu. Gritei dentro de mim como tentativa de aliviar a dor, o que só fez surgir uma dor de cabeça forte.
O que estava acontecendo? Aquela medicação não poderia ser para o meu bem. E, porque meu pai não acordava?
A sensação de fogo parou tão rápida como quando começou, mas meu corpo agora tremia por causa da experiência. O momento era assustador, e não poder ver quem estava ali era pior ainda. Tentei sair do meu corpo de novo, mas assim que pensei em movimentar percebi o movimento da pessoa que estava ao meu lado.
– Eu te odeio!
Disse em meu ouvido, pausadamente, como se apreciasse cada palavra que saia de sua boca. Eu não reconheci a voz, não saberia dizer se pertencia a um homem ou a uma mulher e mesmo que as palavras tivessem sido claras, minha cabeça tinha distorcido o timbre da pessoa por causa da dor que continuava a latejar aqui dentro.
E assim que terminou de dizer aquilo, a pessoa andou para fora do quarto, ouvi os passos, que não tinham necessidade de serem apressados e antes que pudesse sair pela porta, escutei o assobio recomeçar.

Capítulo IV – Then all the bad days they’re nothing to me

Música do capítulo: Winter Bear

Eu olhava a paisagem pela janela do meu quarto, o dia estava lindo. Era inverno, mas o sol aparecia timidamente entre as nuvens. Eu gostava dos dias nublados. Cinzas. Mesmo que não fosse a preferência da maioria, era a minha. A luz estava linda do lado de fora e poderia apostar que a temperatura era fresca. Nem quente e nem frio. Meio termo.
Cruzei os braços na frente do corpo, desanimada em me aventurar fora do quarto sozinha, a noite anterior ainda me angustiava: a pessoa no quarto, as palavras sussurradas em meu ouvido o assobio. Teria sido real ou só um sonho desagradável? Almas livres sonhavam? Suspirei tentando tirar de mim a agonia daqueles pensamentos.
– Um doce por todos os seus pensamentos
A voz veio de trás de mim, e mesmo que eu não tivesse percebido ele chegar, não me assustava ouvir o tom doce de . Sorri, ainda sem virar para vê-lo. Só por ele estar ali, meu humor já mudava.
Eu sabia que ele estava perto demais, e sabia que se ele pudesse me abraçaria.
, você de novo por aqui – dessa vez me virei para dar de frente com meu amigo, ele realmente estava perto demais.
– Eu disse que voltaria todos os dias – ele abriu seu maior sorriso.
Eu o vi parar de sorrir para me encarar, assim como eu fazia com ele. mantinha os olhos concentrados aos meus, e eu sabia que nenhum dos dois tinha vontade de sair daquele lugar. O olhar dele era firme, mas doce. Queria me dizer algo, mas eu não me esforçava para descobrir, só queria permanecer ali, nas galáxias de .
– Você não deveria perder tanto tempo comigo, – disse sendo o mais sincera possível, não achava que era justo com ele gastar o tempo de suas férias visitando uma pessoa que, na prática, estava inconsciente.
– Não estou perdendo tempo – ele mordeu levemente os lábios inferiores – Estou recuperando o nosso tempo – disse em tom firme.
Dei um passo em sua direção, assim que escutei aquelas palavras. A voz de era como um ímã para mim, quanto mais ele falava, mais eu sentia vontade de estar perto dele. Vi o movimento da respiração por baixo da camisa preta ficar mais forte. estava nervoso?
Percebi ele levantar a mão direita em sentido ao meu rosto. Soube, no instante em que ele começou o movimento, qual era a sua intenção: afastar a mecha de meu cabelo que caía sobre o meu olho. Eu ansiei por aquele toque, inclinei de leve meu rosto, pronta para recebê-lo. Mas, antes de concluir o movimento afastou a mão, me senti frustrada, porém entendia o motivo: ele não conseguiria me tocar, então porque tentar?
Desviei os meus olhos dos dele, ainda chateada com a situação. Olhei em direção ao chão e percebi que na mão que tinha permanecido quieta segurava uma típica cesta de piquenique. Voltei a encarar o homem em minha frente, mas dessa vez com expressão de surpresa pelo o que tinha acabado de ver:
– Acordei e vi como o tempo estava – ele sorria ao falar – Nublado, seu preferido. Imaginei que seria ótimo te convidar para almoçar – ele levantou a cesta até que ficasse ao alcance da minha visão – Vai ser bom sair desse quarto um pouco, o que me diz?
Concordei com a cabeça, feliz pelo convite. Mesmo que eu não pudesse e não precisasse comer, sair daquele ambiente me faria bem, não queria ficar remoendo os acontecimentos da noite anterior, e se eu ficasse naquele cômodo isso seria inevitável. Ainda não sabia se contaria a sobre o que tinha acontecido: uma parte de mim queria compartilhar tudo, tentar entender junto com ele o que havia ocorrido, mas outra parte dizia que não valeria a pena falar a respeito daquilo. Falar sobre a noite estranha só o deixaria mais preocupado, e ambos não teríamos resposta para aquilo.
Sinalizei a porta com a cabeça, entendeu que eu tinha aceitado seu convite. Ele fez um barulho fofo com seus lábios, o que era sinal de que tinha ficado animado, então saímos. Andamos pouco até que ele parou em frente a mesa da enfermaria, provavelmente para entregar o cartão de visita que o dava passe livre naquele andar. Assim como pensei entregou o objeto para a mulher que estava sentada na cadeira por trás da mesa, ela o olhou intrigada antes de receber o que ele lhe entregava.
– Hoje você não demorou muito, senhor – ela era formal ao falar com ele, como o protocolo pedia que fosse, mas pela afirmação eu percebia que ela já se sentia íntima a ponto de comentar sobre o pouco tempo que ele tinha passado no meu quarto
– Hoje os planos são outros – disse, um pouco sem graça com intromissão da senhora
– Aaah – ela falou assim que viu a cesta – Um piquenique. É com a senhorita Lisa? Ela nos disse que vocês são amigos muito próximos.
Assim que ouvi inclinei meu rosto o suficiente para encarar , que já estava vermelho, nem o boné preto que ele mantinha sobre a cabeça impediu que eu o visse corar. Desde criança ele sempre ficava tímido quando o assunto era sobre si, mas ali, com aquelas palavras, enquanto eu o encarava, ele parecia mais incomodado do que acanhado.
Ele olhou pelo canto dos olhos para mim, um movimento tão discreto que a senhora não pode perceber. Sem responder Swang Ju-ri, o nome da mulher na nossa frente era esse, pelo crachá que eu conseguia ler, ajeitou o boné mais para baixo em seu rosto, depositando o cartão sobre a mesa e saindo em seguida.
– Até amanhã, senhora Swang – o rapaz disse tentando amenizar a atitude grosseira.
Mas, a enfermeira não demonstrava ter ficado chateada ou percebido a raiva de com a intromissão da mesma, apenas pegou o cartão, guardou em seu devido lugar e voltou sua atenção para o dorama que estava assistindo antes.
andava um pouco em minha frente, talvez para evitar o assunto Lisa e, de onde eu estava, notava o corpo tenso do meu amigo. Entendi que não era uma boa hora para mencionar o que a senhora tinha falado, até porque isso quebraria o nosso clima de antes, e eu não queria que Lisa tivesse esse efeito sobre a gente. Mas, só de saber que ouvir nome da mulher o irritava me deixava feliz. Sorri outra vez naquele dia. E dessa vez por me sentir vitoriosa.
Caminhamos por alguns minutos pelo hospital, era mestre em se camuflar em meio as pessoas. Ele andava com a cabeça baixa, o boné cobria metade do seu rosto e antes que chegássemos ao saguão principal ele havia tirado uma máscara preta que agora cobria seu nariz e sua boca, deixando só seus olhos descobertos. Eu ainda poderia o reconhecer pelos olhos, mas sabia que o restante das pessoas nem imaginavam que aquele homem andando com uma cesta de piquenique no hospital era , membro do BTS.
Andamos apressados entre as pessoas, até que tivemos acesso a parte externa do prédio. Assim que senti a primeira brisa tocar em meu rosto, parei para apreciar o que acontecia. Era a primeira vez, desde que eu tinha me tornado uma alma livre, que sentia o vento em meu rosto. Era a primeira vez que eu sentia qualquer corrente de ar tocar em mim, desde o acidente. Respirei. Respirei forte, inalando todo ar que poderia.
Era uma sensação estranha, mas poderosa. Como se eu tivesse aprendendo a respirar novamente. Olhei para o céu ainda cinza, com alguns feixes de luz do sol saindo por entre as nuvens. Era perfeito. Ri alto, me permitindo curtir o momento e sabendo que só poderia ouvir o som da minha risada, e isso não me incomodava de forma alguma.
Baixei a cabeça em direção ao meu amigo, que estava parado, me olhando. Por baixo da máscara eu sabia que sorria, porque podia ver seus olhos estreitados e suas bochechas levemente arqueadas. Ele me esperava, mesmo que preferisse não ficar parado ali, com o fluxo de pessoas que entravam e saiam do hospital. E ele sorria pra mim.
Estávamos a alguns passos de distância, então, para alcançá-lo, saltitei até chegar ao seu lado. Saltitei como era de costume fazer quando éramos criança e eu estava feliz por alguma coisa. Isso o fez rir. Enquanto eu pulava até meu amigo, senti meus cabelos sendo jogados de um lado para o outro, acompanhando o meu movimento. Eu queria que soubesse que eu estava feliz. E ele sabia.
Assim que cheguei ao seu lado, dei uma gargalhada, um pouco infantil, mas eu não me importava, e ele fez o mesmo. riu alto, sem se preocupar com a família que passava ao seu lado. Mas, assim que percebeu que estava atraindo atenção mais do que desejava, voltou a andar em linha reta, sabendo que eu o estava seguindo.
Andamos pouco para então virar à direita e dar com um espaço arborizado. Não tinha flores, mas era predominante verde, o que tornava o local lindo. Não parecia que estávamos dentro do hospital. O melhor era que não tinha uma pessoa, além de nós dois ali.
– Que lugar é esse ? – olhei para ele ao perguntar
– Acho que é o fundo do hospital, não sei se tem uma função – ele disse andando em direção ao pinheiro grande – Ninguém vem aqui.
– Como você sabe que ninguém vem aqui?
– Antes de você acordar – ele fez uma aspas com a mão que estava livre indicando que não saberia qual a melhor palavra para empregar sem ser aquela – Eu andava muito pelo hospital, principalmente na parte externa. Precisava de um lugar para pensar melhor, sem ficar olhando para você machucada naquela cama – ele parou perto da árvore colocando a cesta na grama – Até que achei isso aqui. Comecei a vir aqui todos os dias e nunca vi ninguém andar nesta região.
– Me lembra o nosso esconderijo da escola. A árvore que eu gostava de escorar quando queria fugir de algo.
– Eu sei – ele tirou a máscara e o boné, permitindo que eu o visse melhor – Por isso eu vinha todos os dias aqui pensar – e sorriu.
estendeu a toalha vermelha, de um jeito nada gracioso, mas eficaz e indicou para que eu sentasse ao seu lado. Foi o que fiz. Ele tinha se empenhado para o piquenique. Na cesta pude ver a variedade de comida levada por ele, além das bebidas.
, você sabe que eu não vou conseguir comer com você, não é? – falei um pouco assustada com a quantidade de comida que ele havia levado para o almoço.
– Sei – ele estava concentrado demais na comida para olhar para mim
– Desde quando você come tanto assim? – eu disse ainda impressionada com o apetite do meu amigo
– Eu cresci, , essa quantidade é suficiente – ele riu – Eu sou um homem agora, cabe muita comida em mim.
Assenti com a cabeça, mostrando que aceitava sua explicação. Não entendi, mas aceitava. Sem esperar muito, abriu a cesta e escolheu sua primeira refeição. Eu sabia que assim que começasse a comer, ele se concentraria só naquilo, e não adiantaria puxar qualquer assunto com ele nesse momento. E foi assim que aconteceu. Observei se dedicar a refeição, ele não era elegante ao comer, mas era adorável.
Deitei meu corpo para trás com o objetivo de apreciar o céu até que terminasse de comer. Sem conseguir me desligar, pensei o quanto ainda conhecia os comportamentos de , mesmo que tivéssemos ficado anos sem nos ver.

Soulmates, a pequena Jisooh diria, e eu concordava.
Fechei os olhos, me permitindo lembrar do quanto minha mãe dizia que eu me tornava melhor ao lado de . Como se ele fosse a parte que me completava. Giane, minha mãe, sempre falava que minha personalidade era fria como o vento do inverno, mas que isso não era ruim, já que me tornava diferente.
E de fato eu era, fria com minhas emoções. Raramente demonstrava o que sentia, e não me importava que fosse assim. As pessoas diziam que eu era uma rocha. Poucos se aventuravam a ficar ao meu lado, por isso eu tinha um grupo escasso de amigos. Eu não sofria. Minha mãe sabia que isso não me incomodava, admirava minha frieza, mesmo porque ela era o meu oposto. Um turbilhão de emoção, como ela mesma se chamava. Por isso, sofreu tanto enquanto estava com meu pai. Mas minha mãe também sabia que o único que mudava isso em mim era : , minha filha, você é um mistério tão lindo. Eu não consigo te decifrar, e o seu pai muito menos. Mas, faz isso tão bem. Ele te entende e te ama como você é, não vai te mudar para caber no mundo dele. Vocês são o mundo um do outro[…]”.
Eu achava um exagero sempre que ela falava isso, mas de fato era o meu mundo.
Eu conseguia viver sem , assim como sabia que poderia ser feliz sem ele. Mas com ele era completo. era meu oposto. Assim como eu era a frieza, ele era a alegria. Assim como eu era a rocha, ele era a chuva. Através de , eu tinha acesso às emoções que não ousava experimentar com os outros. Ele me permitia ser um pouco dele, quando eu estava com ele. E eu sabia que o mesmo efeito que ele tinha em mim eu tinha sobre ele.
Ele era a luz e eu a sombra.
Minha mãe ainda dizia que o dia em que não estivéssemos juntos, eu me perderia. E de fato me perdi. Assim que fui embora, não demorou muito para que minhas emoções fossem embotadas. Não tinha motivação. Tanto que para tristeza do meu pai, após finalizar o ensino médio, me recusei a ir para a faculdade. Não sabia o que queria fazer, nada me agradava. Me dediquei ao trabalho de maquiadora, que era algo que eu sabia fazer e me dava dinheiro. Mas não era meu sonho, era só uma coisa que eu empurrava com a barriga, como tudo que fiz na época em que estava no Brasil.
– Um doce por todos os seus pensamentos – estava ao meu lado agora, deitado com o rosto fixo no meu.
– Eu senti tanto a sua falta, que dói até hoje – eu queria dizer a ele o quanto ele era especial
– Por que você sumiu, ? Porque você parou de falar comigo?
– Eu não queria te fazer mal – eu cheguei meu corpo mais para perto do dele – Meu medo era te prender a alguém que não valia a pena.
– Quem não valia a pena? – ele chegou mais perto
– Eu – sussurrei fraca com a aproximação dele – Eu te acompanhei de longe. Vi quando você debutou com o BTS. Vi o grupo crescer. Te acompanhei através da sua música. E amei cada parte sua que vi amadurecer. Eu não te abandonei , só me afastei porque você tinha que brilhar.
– Você não entende que eu sou melhor com você? Você é meu lugar seguro – os olhos dele continuavam fixos aos meus.
– Eu não vou embora mais, – eu disse sentindo o rosto dele tão próximo ao meu
– Eu não vou deixar você ir.

Coloque a música para tocar

E assim que disse isso, encostou sua testa na minha. A pele dele era tão quente e confortável, que eu não queria sair daquele toque. Respirei sentindo a respiração dele junto com a minha. O vi passar a língua pelos lábios inferiores, o que me fez fechar os olhos desejando a boca dele na minha. Senti a mão de sobre minha bochecha, afagando levemente minha pele.
Senti a mão dele sobre minhas bochechas?
, você está me tocando?!
Disse surpresa ao perceber que agora podíamos nos sentir. Em seguida levei minha mão ao rosto dele também, para confirmar o que estava acontecendo. Percebi meu corpo tremer ao tocá-lo.
– Finalmente – sussurrou para mim.
Sem perder tempo, puxou meu rosto para mais perto do seu, sem deixar espaço entre a gente. Senti o hálito quente dele em minha direção, pousei minha mão em seu peito, sentindo os batimentos acelerados dele. Sorri confirmando que queria o mesmo que ele.
encostou nossos lábios delicadamente. Sua boca era macia e úmida. Inclinei minha cabeça um pouco mais, abrindo levemente a boca, o convidando a continuar o movimento
!! – uma voz estridente nos separou de repente.
Com o susto nos separamos rapidamente, o que fez sentar ao meu lado. Lisa, estava em sua frente, com a expressão confusa, encarando o homem sem poder ver minha presença ao lado dele.
– O que você está fazendo aqui? – ela colocou a mão em sua cintura, ainda confusa e eu gemi frustrada pelo momento interrompido.
continuava estático olhando para a mulher que tinha acabado de chegar. A típica reação de quem não sabia o que fazer ou alguém que tinha sido pego em flagrante. Cerrei os olhos, encarando Lisa, me deliciando com o fato dela não poder me ver. Estiquei a minha perna como impulso para chutar o mais forte que conseguia a canela da mulher em minha frente. Lisa sentiu a dor na parte que eu havia atingido, dobrou seu corpo até conseguir passar a mão no espaço onde doía.
arregalou os olhos e na hora se colocou em minha frente para me proteger de qualquer reação de Lisa; segurando a minha mão para me acalmar. Por um instante ele tinha esquecido de que ela não conseguia me ver.
– Acho que um bicho me picou, – ela gemeu as palavras, tentando ser sensual
olhou para trás buscando meu rosto ao perceber que eu tinha escutado a mulher o chamar pelo apelido que eu tinha dado a ele. Projetei meu corpo preparando um novo chute, mas jogou seu corpo por cima das minhas pernas, ficando em uma posição estranha para quem o via, mas que me impedia de mexer os membros.
, me solta! – gritei em seu ouvido esperando a reação que eu queria, mas ele não se moveu.
– Você tá bem, Lisa? – perguntou
A mulher que ainda se contorcia de dor, um exagero já que eu não tinha chutado tão forte. Entendi na hora que Lisa estava fingindo, mas não parecia notar o teatro.
– Aí, , não – eu poderia jurar que tinha lágrimas em seus olhos – Minha perna está doendo muito. Acho que um bicho me mordeu mesmo. Você não viu o que foi?
– Viu sim sua fingida, e fui eu – sacudi minhas pernas freneticamente tentando tirar de cima delas – Sai , eu vou bater nela de novo!
O corpo de balançava conforme eu me sacudia, mas isso não o fez sair da posição em que estava, já que ele era bem mais forte que eu. Mas a cena, do homem chacoalhar o corpo por uma força invisível, fez Lisa dar um passo para trás. Assustada.
– Espasmos. Eu tenho isso às vezes – apressou-se a explicar – Você está bem?
Relaxei as pernas para que ele soubesse que eu não tentaria mais chutar Lisa. Desisti porque me cansava ver a preocupação de com ela e, também, porque não alcançaria a mulher depois de ela ter dado um passo para trás.
– Não, acho que machucou muito – Lisa ainda insistia na mentira, voltou a colocar a mão na canela que nem devia estar doendo mais – Você poderia me levar para casa? Não vou conseguir pegar o metrô com a perna inchada assim.
– Lisa, estamos no hospital, não é melhor você olhar isso seu machucado aqui, de uma vez? – já estava sem paciência.
Rolei os olhos para aquele momento patético, mas agradecida por não cair no papo de levá-la para casa. Porém, conhecendo Lisa, sabia que ela não desistiria tão fácil do que queria. Mesmo não me agradando, eu abracei por trás, encostando minha cabeça na volta entre seu ombro e seu pescoço.
– Vai com ela até a enfermaria – disse baixo perto do seu ouvido – Ela não vai sossegar até te tirar daqui. É isso que a Lisa faz. Eu preciso subir porque já estou muito tempo longe do quarto. Eu te amo – beijei bem de leve seu rosto – Te vejo, amanhã?
– Amanhã – ele confirmou.
Levantei em tempo de ver o rosto de Lisa contorcendo discretamente, por ter visto conversar sozinho. Eu tinha certeza de que ela só gostava da popularidade de , e ele talvez soubesse disso também. Caminhei com intuito de voltar para o quarto, sem olhar para trás. Eu não sabia quantos sorrisos tinha dado ao todo naquele dia, e isso só comprova o efeito de em mim. Sorri de novo, e agora sabendo que era de felicidade pelo nosso momento juntos.

Capítulo 5 – O parque

Sentei no banco traseiro do veículo que seria conduzido por , o amigo de não estava confortável com a situação. Eu percebia isso pela forma com que ele segurava o volante: os nós de seus dedos estavam brancos devido à força que ele fazia ao apertar o objeto. Cruzei os braços ao redor do meu corpo para observar melhor o homem em minha frente, ele era bonito assim como . Enquanto eu me ajeitava no meio do assento de trás, eu via sentar no banco da frente, ao lado do amigo.
Essa era a condição que tinha dado a para participar do dia com a gente: de que ele tentasse manter a situação o mais natural possível. Eu entendia, considerando que ele estaria com alguém que não podia enxergar e nem ouvir o dia inteiro.
permanecia com o rosto fixo, olhando para sua frente e o corpo tensionado. Como se a possibilidade de ver um fantasma dependesse somente do seu movimento de cabeça ou corpo. Dei meu melhor sorriso torto, me olhou pela lateral de seus olhos estreitos, sabendo que eu tinha a intenção de aprontar alguma coisa, mas não me impediu. Descruzei meus braços, para levemente tocar com minha mão no ombro de . Pressionei com um pouco de força a parte do homem em que eu tocava.
pulou assim que sentiu o meu toque em seu corpo. Tanto eu quanto rimos ao ver o rapaz sacudir o corpo, fazendo com que os cabelos coloridos pulassem no mesmo ritmo que ele. Ele abanava a mão por cima do ombro, que eu ainda apertava como se estivesse espantando um inseto que pudesse ter pousado nele.
Aquilo não me ofendia, de forma alguma, mas me divertia com o assombro dele.
está de dizendo oi ria da reação do amigo, tanto quanto eu.
Assim que ouviu isso, olhou para parte de trás do carro, supondo onde eu estava para mostrar a expressão fechada, na sua melhor, imaginava eu, cara de bravo. Não me intimidava, mas assim que ele me repreendeu, puxei minha mão que estava encostada em seu ombro.
– Enquanto eu não puder te ver, , você não pode encostar em mim – encolhi meu corpo no assento – Eu sou cardíaco e isso não é brincadeira que faça – assim que disse isso, virou-se para frente, mas logo voltou sua cabeça para trás – Me desculpe por chamar sua atenção. Eu me assusto fácil!
Não me sentia reprimida por , mas achei gentil ele se desculpar mesmo que eu tivesse começado a brincadeira com ele. Olhei para e sorri, demonstrando que eu tinha aprovado aquele amigo dele. Riu ao perceber que estava virado para uma direção diferente da qual eu realmente estava.
– Ok – alternava seus olhos entre mim e ao falar – Passei o endereço para os pais de Jisooh; eles irão nos seguir até lá, de qualquer forma. Então não acelera demais tá? O carro deles é aquele atrás do nosso
apontou com o dedo a direção na qual o veículo dos pais de Jisooh estava. Apoiei minha cabeça no encosto do banco para observar melhor a interação da família atrás de nós. Os pais de Jisooh a ajudavam com cuidado a colocar o cinto de segurança. Era uma família bonita. Eu gostava tanto de Jisooh, mas não sabia o motivo. Desde o dia em que encontrei com a menina naquele corredor, na ala infantil, não conseguia me desconectar dela. Mesmo que em pensamentos.
Suspirei ao lembrar da noite do assobio. Foi em Jisooh que eu pensei primeiro, ao controlar a angústia.
compartilhava do mesmo apego que eu tinha pela garota. Em sua visita de hoje, disse que havia preparado uma surpresa para Jisooh, mas que queria que eu os acompanhasse no dia.
, tem certeza que está tudo bem se eu ficar muito tempo longe do hospital? – perguntei a ele sem tirar os olhos de Jisooh, no carro de trás.
– Quase certeza, , naquele blog em que eu e pesquisamos sobre as almas livres dizia que assim que elas se conectam com alguém, começam a receber energia de outras pessoas e, assim, estão livres para andar por um tempo maior longe do corpo.
Sorri ao lembrar do dia anterior. Do piquenique. Do nosso quase beijo.
– Então a está sugando minha energia?
– Não, , ela está compartilhando de sua energia. Assim como da minha também.
Eu gostava de mesmo que ele fosse um pouco ranzinza ou medroso. Afinal, não o culpava por estar incomodado. E o rapaz estava ali para ajudar no plano do amigo e companheiro de banda. tinha me contado que o plano começou no dia em que ele havia conhecido Jisooh, mas ele não contou a ninguém porque queria surpreendê-la. A ideia dos dois amigos era simples, mas precisava de muita criatividade. queria dar um dia fora do hospital para a menina, e assim estava fazendo.
Para que plano desse certo ele usou de seu charme para conseguir o telefone dos pais de Jisooh com alguém da equipe médica. Assim conseguiu o contato ele telefonou para o pai da menina dizendo ser um staff da empresa em que trabalhava. Resumidamente, disse aos pais que a filha deles tinha enviado uma carta para os ídolos contando de sua história e sua doença. Na carta, Jisooh comentava que seu membro favorito do BTS era , por ele gostar de música clássica, assim como ela, e que por isso tanto quanto queriam levar a garota para um passeio.
Os pais aceitaram, desde que fossem juntos com eles, óbvio, já que nenhum responsável em sã consciência deixaria uma criança com dois adultos desconhecidos, sendo que um deles tinha o cabelo tonalizado de verde. O que não era problema nenhum. A equipe médica também não negou o pedido, desde que os rapazes não fossem para um lugar muito distante do hospital e que não a obrigassem a fazer esforços.
Mesmo que o plano não tivesse dado certo, eu já havia me divertido o bastante com a interação entre e Jisooh. A menina, esperta como era, entendeu o plano assim que os meninos começaram a falar. Seus pais pareciam não perceber o expressão atônita da menina enquanto olhava para os seus supostos idols, contanto sobre a emoção de receber a carta que ela havia enviado para empresa. Assim que terminou de ouvir a história, Jisooh pediu para que os pais saíssem, e assim poderia conversar melhor com seus ídolos. Os pais da menina estavam felizes demais para questionar qualquer pedido que a menina fizesse
– Eu não entendo o meu pai ser um professor bem sucedido, mas mesmo assim cair nessa história de que eu, justo eu, mandaria uma carta para vocês – o modo Jisooh tinha sido acionado – Não é por nada não, mas não há chances de eu ser fã de um cara que tem o cabelo pintado tão errado quanto o seu – ela apontou para , que agora eu percebia que estava com o cabelo desbotado, provavelmente por causa da tinta que estava saindo.
– Jisooh! – eu disse, sem querer ser grossa, mas repreendendo a menina por ter sido inconveniente.
, eu fico triste com isso sabe – Jisooh olhava para e mostrando que o assunto era com eles – É que nesses anos todos de vida, meus pais não me conhecem nada!
– Jisooh, você só tem onze anos – eu disse a ela.
– Sim, . Exatamente. Uma vida já – ela disse com o drama excessivo que me fez rolar os olhos
– Olha – chamou atenção para ele – Eu fui ofendido por uma criança de 6 anos e tem um fantasma nesse quarto conversando com vocês – ele entregou os balões que havia levado nas mãos de Jisooh – Pra mim já chega, eu vou esperar vocês no carro, porque já estou me arrependendo de aceitar entrar nisso.
Yonngi pressionou os lábios e balançou a cabeça após falar, como se confirmasse a si mesmo o quão intimidador ele parecia ser depois de falar aquilo. Mas, era o contrário, só parecia mais fofo quando tentava ser bravo e, pelo olhar de todos no quarto, a fofura do homem era um consentimento geral. Até mesmo para , que ria com a cabeça baixa, provavelmente arrependido por ter juntado o amigo e Jisooh.
– Jisooh chamou o homem de cabelo verde, antes que ele saíssem porta a fora – Eu gostei de você! – e assim ela amarrou os balões na cabeceira da sua cama, o que era um indício de que tinha conquistado o coração da criança de verdade.
– Criança, você é doida – ele respondeu, ao mesmo tempo em que sorria para ela – Ok, espero vocês lá embaixo – olhou para e em seguida olhou ao seu redor, tentando me achar no quarto. Sem êxito, ele rolou os olhos e saiu porta a fora.
E, assim, nos encontrávamos agora aguardando o momento de sair do hospital para um passeio que e haviam planejado para Jisooh. se recusou em falar para onde íamos, eu desconfiava que não tanto pela surpresa, mas por medo de que Jisooh falasse algo sobre o que ele tinha escolhido para ela.
Assim que viu o pai de Jisooh sinalizar mostrando que a família estava pronta, ele pediu para dar partida. Assim que o carro ligou, me transportei para o dia do acidente, me dando conta de que era a primeira que eu entrava em um veículo de novo. Meu estômago revirou com a lembrança.
Percebi que ninguém nunca tinha comentado sobre como as coisas tinham acontecido no acidente; ninguém tinha falado sobre Lee, o motorista do meu pai, mas eu já supunha que ele não conseguira sobreviver. Fiz uma nota mental sobre perguntar isso para depois, se o homem tivesse sobrevivido de fato, eu queria ajudar a família de alguma forma, já que ele tinha morrido por minha causa.
Cheguei o corpo para trás do banco onde estava sentado. Sentia-me triste depois de pensar naquilo. Abracei meu amigo por trás, cobrindo o seu tronco com meu abraço. Eu estava com medo de andar no carro, mas não por mim e sim pelos outros ocupantes:
– falei próximo ao ouvido dele – Você pode pedir ao para ir mais devagar?
Eu olhei para o velocímetro do carro, que marcava 60km/h, o que indicava que o motorista estava sendo prudente, mas Lee também estava sendo cauteloso no dia do acidente. apertou de leve minha mão que estava ao redor de seu peito, mostrando que ele estava ali para me proteger.
, você pode ir um pouco mais devagar? – disse ao amigo
– Mas, eu tô… – Ele não terminou a frase percebendo que sinalizava com o olhar para a direção que eu me encontrava – , se essa velocidade ainda não for confortável para você, eu diminuo mais tá bom?
Era a primeira vez que falava diretamente para mim. Pedi para que agradecê-lo e avisar ao amigo que naquela velocidade – agora a 40km/h – estava bom para mim. E assim ele fez. Sorri ao ver sorrindo também por causa daquela interação estranha entre a gente. Eu recostei minha cabeça na parte do ombro de que eu conseguia alcançar, não era uma posição confortável, mas eu me sentia bem ali.
Fechei os olhos para não pensar até chegar ao nosso destino. Pelo menos eu sabia que não seria distante. Sentia a mão de ainda sobre a minha; ele a segurava firme, enquanto a acariciava com o polegar em movimentos circulares. Eu sentia o perfume amadeirado do homem em meus braços, o cheiro dele era tão bom que me fazia não pensar em nada além daquilo. Apertei de leve minha mão sobre seu peito, para perceber que seu coração já batia um pouco mais acelerado. encostou a cabeça na minha, permitindo que eu sentisse o calor de sua pele.
era meu lugar favorito no mundo todo.

parou em um estacionamento quase vazio, a não ser por alguns poucos carros espalhados entre uma vaga ou outra. Sai do meu abraço em porque sabia que tínhamos chegado ao destino final. Fora do carro, ao lado de e , eu podia ver onde estávamos, finalmente.
Era um parque de diversões.
Assim que os pais de Jisooh estacionaram ao lado do carro de , os meninos correram para ajudá-los a tirar a cadeira e os acessórios da menina. Pouco mais de um minuto depois, o grupo em que estávamos já atravessava o portão que fora aberto por um senhor. Não tinha ninguém no parque, além do nosso grupo e de alguns poucos funcionários, que presumi estarem ali para fazer as coisas funcionarem.
Vi próximo a cadeira de rodas em que Jisooh estava para ficar da altura dos olhos da menina:
– Jisooh, hoje o parque é todo nosso? – ele olhou para os pais da menina antes de continuar a falar – Eu pedi que só os brinquedos infantis fossem ligados hoje, para que a Sooh aproveitassem tudo sem preocupações maiores – os pais da menina assentiram emocionados com a dedicação dos meninos à filha – Hey, eu sei que você ia preferir os brinquedos radicais, assim como eu – agora ele falava diretamente para a garota – mas são as condições médicas: o mínimo de esforço possível.
– Vocês fizeram tudo isso por mim? – Jisooh estava com os olhos cheios de água, era primeira vez eu via a garota emocionada daquela forma.
– Sim – confirmou – O que acontece no parque de diversões, fica no parque de diversões.
– Literalmente, porque todos que estão aqui assinaram um contrato para não divulgarem nada sobre hoje – é a vez de abaixar para falar com Jisooh.
A menina não escondia as lágrimas, o que me fez chorar junto com ela. Eu estava ficando mais emocional com toda a situação. olhou sorrindo para mim, porque sabia que em outra época eu não me sentiria confortável em chorar na frente de estranhos. Mesmo que, de todos ali, só dois pudessem me ver, aquela demonstração seria estranha para mim.
– ouvi a voz doce de Jissoh chamar por ele – Eu posso?
Antes de completar a pergunta Jisooh ergueu os dois braços, pequenos assim como ela, convidando para um abraço. Ele aceitou sem hesitar. A cena era de aquecer o coração: ver e Jisooh unidos em um abraço era agradável. Minhas duas pessoas preferidas no momento, juntas. Ele fechou os olhos para aproveitar melhor o carinho da menina, não a apertava. Eu tinha impressão de que tinha receio de quebrar Jisooh.
E assim que o abraço com finalizou a menina virou o corpo para o lado em que estava. Ela fez o mesmo gesto que fez para , por um segundo fiquei apreensiva com a possibilidade de ele negar o abraço da menina. Mas, sem pensar sobre, se permitiu abraçar a criança em sua frente e diferente de , o amigo mantinha um sorriso que mostrava seus dentes. Jisooh bagunçou o cabelo de , como um lembrete de que ela ainda poderia fazer piadas sobre ele. Todos rimos, e dessa vez não apelou. Talvez o parque de diversão deixava todas as almas mais leves.
O dia passou leve como começou. Jisooh e interagiam como duas crianças, já se consideravam amigos. era o encarregado de conduzir a cadeira de Jisooh e ajudá-la a entrar ou sair de cada brinquedo que íamos. Os pais de Jisooh preferiram ficar sentados na lanchonete, esperando que a filha aproveitasse o que podia com os seus ídolos. Era um casal jovem, mas pareciam tão cansados.
Olhei para Jisooh e , que estavam a frente de mim e de . corria com a cadeira de Jisooh que, por sua vez, abria os braços e fazia barulhos de avião, enquanto o homem que brincava com ela gargalhava. Duas crianças. Estavam indo direto para o carrossel, pela décima vez. Aparentemente esse era o brinquedo preferido de Jisooh.
– Você é incrível, sabia – disse para , que caminhava ao meu lado.
– Eu queria dar esse dia para Jisooh – ele deu de ombros – o me ajudou a pensar em algo. Não é engraçado o efeito que ela tem em nós? – ele apontou com o queixo em direção aos dois que estavam a nossa frente – Eu nunca vi o tão brincalhão com alguém que ele acabou de conhecer, mesmo com outras crianças.
– Ele é um bom homem – eu sorri, ainda olhando para os dois – Um pouco ranzinza, talvez.
, ele é muito ranzinza!
riu, e logo em seguida olhou ao redor. Desde que tínhamos chegado, ele dava sinais de que queria me tocar, ficar próximo a mim, mas com o número de pessoas ao nosso redor. Eu entendia ele evitar me tocar, uma vez que ele sempre parecia louco aos olhos de outras pessoas. Percebendo a vontade dele, eu me adiantei e abracei pela cintura.
– Se a gente deixar os dois irem ao carrossel sozinhos, seria um crime? – ele perguntou baixo, que só eu ouvisse o que ele falava.
– Você acha que tem chances da Jisooh bater no se não tivermos perto? – respondi no mesmo tom
– Acho, mas não me importo!
Sem esperar que eu falasse mais alguma coisa, senti me conduzir para um caminho diferente do que ia para o carrossel. Ele me segurava pela cintura, e os passos eram apressados. Eu seguia seu ritmo. olhava para os lados, ele estava procurando o melhor lugar para ir. Senti meu coração acelerando com a possibilidade do que ia acontecer. No dia anterior, Lisa tinha atrapalhado o nosso beijo, mas hoje não tinha ninguém para fazer esse papel.
entrou em uma barraca que estava fechada. Eu o vi abaixar um pouco o rosto para passar por baixo da lona que cobria o cubículo, e eu fiz o mesmo para acompanhá-lo. Dentro estava escuro, mas tinha luz o suficiente para que pudesse ver que era uma barraca de brindes. Os ursos de pelúcia estavam enfileirados atrás de , mas minha atenção se prendeu ao homem que estava em minha frente, com o olhar fixo em mim.
andou até acabar com o espaço entre nós, ele me puxou pela cintura até meu corpo encaixar ao dele. Levantei a cabeça para olhar melhor para ele, e ele abaixou o rosto para chegando sua boca até minha testa, onde depositou um beijo demorado. A mão de deslizou por meu corpo, subindo levemente a camisola que eu vestia. Senti o toque dele passar por minha cintura e subir até a altura dos meus seios, onde ele parou. Ele parou e eu tremi, porque queria sentir mais de suas mãos em mim.
Quando olhei novamente para , seu rosto estava perto demais do meu. Eu podia sentir seu hálito. A mão, que antes tinha voltado para minha cintura agora estava em meu rosto, acariciando minha bochecha, para então passar por trás de minha cabeça. segurava meus cabelos com delicadeza, mesmo que firme. Ele puxou meu rosto para perto do dele. Fechei os olhos no momento em que inclinei minha cabeça para o lado. Abri levemente a boca dando a permissão para ele continuar o movimento que tinha iniciado.
Os lábios de tocaram os meus. Eram macios. Suguei levemente o lábio inferior dele. Esse foi o gatilho para invadir minha boca com sua língua. O beijo começou leve, com cuidado. Nossas bocas moviam em sincronia, assim como nossas línguas. O beijo de era a melhor coisa que eu havia experimentado até aquele momento. Senti a mão dele pressionar com mais força minha nuca, me fazendo gemer baixo.
Assim que me ouviu, algo em mudou. O beijo ganhou intensidade, deixou de ser leve para ser carregado de desejo. Forte. Eu segurei as costas dele com mais forças, enquanto sua mão descia por mim, até chegar em minha coxa. Com um pequeno impulso, me vi passar as pernas em sua cintura, apertando seu quadril em meu corpo. Foi a vez de gemer. Pela primeira vez, desde que o beijo começou, separamos nossas bocas, para que descesse os lábios até meu pescoço.
Os lábios dele dançavam por meu pescoço, devagar, me provocando. alternava entre passar a língua por minha pele ou morder levemente. Minhas mãos estavam por dentro de seu cabelo. Eu puxava os fios indicando a ele que queria que continuasse. Senti o sorriso abafado agora em minha orelha. a chupou com determinação. Minhas pernas fraquejaram.
Senti nos empurrar até que eu encostasse as costas em uma prateleira cheia de ursos de pelúcia. Alguns caíram no chão, mas isso não me importava, porque voltou os lábios para os meus. Encaixei melhor meu corpo em seu quadril, ouvi novamente o gemido do homem. Ele jogou o corpo para cima, e assim eu conseguia sentir a hesitação dele. Joguei a cabeça para trás, tentando respirar e pensar melhor sobre o que estava acontecendo, antes de avançar a mão por baixo da minha camisola e me fazer perder o sentindo de novo.
– eu chamei por seu nome com a voz fraca – Esse é só nosso primeiro beijo.
– Mas eu esperei tanto por isso que agora eu quero você toda de uma vez – ele disse com a boca em meu colo
– Eu também te quero – eu disse – Mas, vai ser estranho, você não acha?
tirou o rosto do meu pescoço para olhar para mim. Eu apertei suas bochechas com uma mão o forçando a fazer um bico com a boca, o qual beijei levemente. Em silêncio, concordamos em não seguir adiante com as carícias. Tanto eu quanto ele estávamos frustrados, mas concordávamos que além do beijo só aconteceria quando eu estivesse acordada.
Ele me colocou no chão com calma, ainda mantinha a mão em minha cintura, pressionando minha pele com força. O toque de era bom, assim como seu cheiro. E, pensando nisso, eu o cheirei mais uma vez, com um nariz próximo ao seu pescoço inalando o perfume dele. Minha mão involuntariamente passeava por seu peitoral, que era trabalhado.
, não adianta pedir para parar e continuar me provocando assim – ele disse, mas em um tom divertido, para quebrar o clima quente entre a gente.
– Desculpa – me afastei por segurança – Eu acho melhor eu ir lá fora procurar a Jisooh e o , né?
– Seria ótimo, porque eu preciso me recompor antes de ir – ele olhou para baixo e eu sabia que era para indicar o volume em sua calça.
Antes que eu pudesse sair da barraca, me inclinei para beijar novamente os lábios de . Eu nunca me cansaria daquela sensação que ele me provocava. Saí em seguida e não demorou para que eu encontrasse a dupla de amigos que eu tinha deixado no carrossel. agora estava sentado na cadeira enquanto Jisooh andava ao seu lado. Os dois andavam com calma enquanto conversavam sobre algo que eu ainda não conseguia escutar.
Acenei com a mão para Jisooh mostrando o lugar em que eu estava e ela indicou a a direção que ele deveria empurrar a cadeira. Senti chegar perto, até que ele abraçou minha cintura por trás, esperando que os dois nos alcançassem. Jisooh continuava sorrindo, mesmo apresentando sinais de cansaço pelo dia agitado que tivera.
– Os lugares não estão trocados? – eu disse olhando para os dois, que tinha nos alcançado – Porque você está andando enquanto está usando sua cadeira?
– A , a Jisooh andou dez vezes no carrossel, se isso não acabou com ela andar é que não vai né – respondeu diretamente o que eu havia perguntado a ele – E eu tô cansado!
Assim que parou de falar todos estávamos encarando o homem. Surpresos por ele ter me respondido.
, você me ouviu? – eu abaixei ficando mais próxima de , no movimento quase me desequilibrei e para não cair eu encostei minha mão no joelho do homem na cadeira em minha frente.
– Limites, – ele batia a mão em seu joelho tentando adivinhar onde a minha estava nesse momento para que eu a tirasse de lá – Eu posso te ouvir, mas ainda não te vejo. Temos um combinado!
Olhei para que me olhava de volta. Jisooh começou a pular em comemoração ao nosso lado. Se poderia me ouvir, esse era um sinal de que eu estava voltando?

Capítulo VI

.
Encostei meu corpo ao pé da cama hospitalar de Jisooh, a menina me encarava na ponta contrária da, não estava feliz e isso me preocupava. Pela manhã eu tinha recebido uma mensagem de texto dela pedindo que eu fosse ao seu quarto antes de visitar naquele dia, pois tínhamos que conversar como adultos. No começo achei que fosse mais uma gracinha de Jisooh, que gostava de dramatizar tudo, mas olhando para sua expressão eu percebia que era algo sério.
Jisooh estava apreensiva, suas olheiras profundas me assustavam, será que ninguém da equipe percebia que a garota não estava dormindo bem? Desde que eu tinha chegado nenhum de nós havia falado nada, ali, em frente a menina, parecia que eu estava ao lado de uma adulta e não de uma criança. Poucas coisas deixavam Jisooh sem palavras, e essa era uma delas.
– Jisooh, o que está acontecendo? – quebrei o silêncio finalmente.
– ela disse por fim, mas sua voz era baixa – Eu andei lendo alguns artigos sobre os casos parecidos com o da – mudei minha postura para ficar mais confortável, aquilo me interessava – São raros, os casos e os artigos, mas eu consegui encontrar algo mais seguro do que um blog japonês.
Ela olhou para mim com ironia, sabia que o conhecimento que eu tinha era raso, mesmo que tivesse dado certo até então. Era a cara de Jisooh buscar fontes mais confiáveis sobre o que estávamos vivendo.
– Eu achei muita coisa além do que você leu de relato no seu blog
– Temos alguma esperança? – eu andei até sentar na ponta, próximo a sua perna.
– Temos – ela mantinha uma expressão triste –Mas, você sabe quais são as condições, não sabe? Você leu os artigos também, não leu? – ela perguntou e eu respondi assentindo com a cabeça – Eu sabia! Você tinha mais informação sobre isso do que um blog japonês podia oferecer.
Abaixei a cabeça ao sentir o peito começar a arder, eu não queria encarar Jisooh por me sentir um covarde naquele momento. Tinha omitido uma informação importante para , mas nem eu mesmo sabia lidar com aquilo, o assunto me aterrorizava, e eu não era acostumado a sentir medo.
– Mas o ouviu a no parque, isso pode ser um sinal de que ela está acordando – olhei com os olhos marejados para a garota em minha frente, suplicando para que ela concordasse comigo – Pode ser diferente dessa vez, você não acha?
– O ouvir a é só uma prova de que as condições emocionais influenciam, mas não determina se ela volta ou não ao corpo físico – ela engoliu em seco – , ou a não vai acordar mais ou… – ela fez uma pausa antes de continuar – Você sabe o que precisa acontecer para ela voltar – outra pausa, agora para respirar fundo – Sou eu , não tenha dúvidas.
– Não Jisooh! – de repente minhas lágrimas desceram por meu rosto – Nós dois temos a conexão com a , pode ser que seja eu.
A menina de 11 anos se mostrava mais forte que eu, enquanto eu chorava em sua frente, Jisooh não deixara cair uma lágrima sequer. Limpei meu rosto com o dorso da mão, sendo encorajado a manter uma postura mais firme, sabia que eu era o adulto ali, tinha que ser eu a proteger a garota. Respirei fundo ao me recompor, tentando não chorar mais.
– Não, – ela sorriu discretamente – Olha para mim, sou eu e não você, e está tudo bem – os olhos da garota começaram a lacrimejar – Eu gosto de saber que meu propósito aqui é maior do que só ser uma criança doente – ela deu de ombros – Eu sinto que está mais perto que pensamos.
– Do que você está falando? – me assustei com a forma que ela falava.
– Coisas estranhas acontecem aqui – uma lágrima solitária desceu por sua bochecha, contive o ímpeto de secá-la – Mas, não quero falar sobre isso agora, tá?
Concordei com a pequena, não queria forçá-la a dizer mais do que já tinha dito. Meu coração apertou ao repassar tudo que tinha escutado até então, não era justo como as coisas estavam funcionando: eu queria proteger ; queria proteger Jisooh, mas estava falhando em ambas. Lembrei-me do que Lisa havia dito na cafeteria, sobre talvez não voltar; olhei para Jisooh a minha frente, aparentando estar cada vez mais fraca. A vida era injusta!
E se eu perdesse as duas?
Senti a dor subir por meu peito, a vontade de chorar dominou meu corpo e eu cedi. Abaixei a cabeça, tentando tampar meu rosto com as mãos, queria esconder o choro, mas era impossível. Meu corpo todo denunciava meu sofrimento, a sensação era intensa e, por mais que eu odiasse chorar na frente de outras pessoas, naquele momento eu não conseguia me controlar. Percebi Jisooh chegar próxima a mim, com seus bracinhos magros a garota me abraçou da melhor maneira que conseguia. Passei meu braço ao redor de seu tronco, aceitando o carinho da criança.
, eu não sei quando vai ser, mas eu sinto que não vai demorar – ela disse próximo ao meu ouvido – Promete cuidar da ? Uma parte de mim sempre vai estar com ela.
– Eu prometo Jisooh – respondi ainda mantendo o abraço – Tudo bem se eu disser que te amo?
– Eu te amo também – ela soltou um riso abafado, ainda escondia seu rosto no nosso abraço e eu suspeitava que ela estava chorando também – Obrigada por fazer esses dias aqui mais felizes.
– Vou tatuar seu nome em meu braço para que eu tenha uma parte de você sempre comigo também – eu disse, ainda com o coração apertado com nossa conversa.
– Não… meu nome não – ela disse saindo do abraço para olhar em meus olhos – Tatua o número desse quarto. Quarto 277 – eu a encarei surpreso com o pedido – Porque foi aqui que nosso vínculo começou.
Ela sorriu e eu a segui para logo em seguida concorda com o que ela havia dito. Jisooh limpou com cuidado as lágrimas insistentes em meu rosto, depositando um beijo leve em minha bochecha. Ela estava tranquila agora.

off

Dentro da sala de convivência, na ala da pediatria, podia-se ver um grupo de crianças em reunião. Eram cinco cabecinhas que conversavam próximas demais sobre um assunto importante. Por mais que a equipe médica não percebesse ou não acreditasse, algo de ruim estava acontecendo naquele corredor. Tentaram falar com o cirurgião chefe, mas ele achava que aquilo não passava de fantasia infantil ou de uma brincadeira em conjunto para ajudar o tempo no hospital passar mais rápido. Nem as enfermeiras acreditavam, uma vez que elas, que viravam noites na ala, nunca tinham escutado ou visto nada incomum ou alguém diferente por ali.
Mas, fato é que todos naquele pequeno grupo já tinham escutado o assobio alguma vez. Era algo que ocorria esporadicamente, mas sempre de madrugada e toda vez causava arrepios em quem o escutava. O assobio tinha virado uma lenda urbana para as crianças do hospital, tinham decidido que se tratava de um fantasma que rondava o corredor da UTI. Era de comum acordo que estavam ali, na sala de convivência, para planejar a melhor forma de capturar a alma penada que assustava todos eles. O problema é que nenhuma das crianças tinha coragem o suficiente de ouvir o assobiador sem tampar a cabeça quando ele estava passando pela ala.
O que as crianças não falavam em voz alta naquela pequena aglomeração, era que algo pior acontecia sempre que o assobiador visitava a pediatria: três dos seus colegas, que estavam internados, haviam morrido nos últimos três meses. Os adultos comentavam discretamente, mas as crianças ouviam, sabiam que os colegas tinham morrido com os mesmos sintomas e que estavam prestes a receber alta do hospital. Os adultos não sabiam como ligar essas coincidências, já que cada criança tinha um diagnóstico diferente. As crianças que estavam melhorando, de repente estavam mortas, sem que ninguém pudesse fazer algo para ajudá-las.
Os pacientes da ala sabiam que as mortes estavam associadas ao assobiador, mas não tinham coragem de falar isso em voz alta: não por medo dos adultos acharem que estavam fantasiando, mas por receio de atrair a morte para si. Ninguém queria ser o próximo; ninguém naquele grupo queria ser visitado pelo assobiador. Era como aquele livro de jovens bruxos, onde não se pode nomear o mal para não atraí-lo. Esse era o lema dos pequenos.
Do outro lado da sala Jisooh ouvia tudo em silêncio, a garota morria de medo daquele assunto, apesar de manter a postura segura frente aos amigos da pediatria. Ela era uma das mais velhas entre eles, tinha que manter a postura de “adulta” que tinha conquistado com dificuldade. Não queria participar ativamente da reunião por não saber como capturar algo sobrenatural. Acreditava na história do fantasma que rondava a ala pediátrica, mesmo que fosse absurdo. Mas, Jisooh tinha medo.
Ela tinha medo principalmente por saber que o assobiador estava mais próximo dela do que os outros podiam imaginar. Sentada do outro lado da sala de convivência, a menina encolheu seus braços ao redor do corpo, ao lembrar-se da noite na qual acordou tremendo de medo e com a sensação de que alguém a havia atacado. Não queria ser vista como o próximo alvo pelos demais.
A reunião terminou sem nenhuma conclusão, ninguém sabia como provar aos adultos que a história do assobiador era verdadeira, e muito menos sabiam como encarar o ser sem sentir medo. Jisooh foi para o quarto frustrada, queria achar uma saída para aquela situação, mas era incapaz de pensar em alguma coisa que pudesse dar certo. A menina também se sentia mais cansada do que o normal, podia ser pela medicação que haviam mudado ou só pelo avanço da doença em seu corpo.
Os pais de Jisooh a visitaram naquela noite, levaram mais desenhos de suas amigas e ajudaram a garota a fazer uma vídeo chamada com as mesmas, para que matassem saudades uma das outras, as visitas eram restritas, então Jisooh não via suas amigas há muito tempo. Sentia saudades delas. Sentia saudades de ser uma criança normal.
Seus pais foram embora assim que o médico passou para a última visita da noite, não era permitido mais que dormissem com ela, diziam que era por causa da imunidade baixa da garota, mas Jisooh sabia que esse não era o motivo real: a equipe não descartava alguma infecção misteriosa ser a causa das mortes das crianças, sendo assim, evitavam visitas fora do horário destinado a elas.
Assim que seus pais foram embora Jisooh tomou os comprimidos, que a auxiliavam a dormir, deixados por seu médico, eram florais, mas faziam efeito positivo na garota. Ela sentiu o sono chegar devagar, e agradeceu por conseguir relaxar mesmo que sua cabeça estivesse fervilhando com ideias assustadoras. Em poucos minutos a pequena tinha se entregado ao cansaço e dormido finalmente.
As coisas aconteceram de forma silenciosa: Jisooh não tinha escutado nada, mas tinha sentido uma mão afagar levemente sua cabeça careca. Era um toque delicado, carinhoso, quase materno. Assim que a mão parou com o afago, Jisooh percebeu seu soro ser manuseado, alguém estava manipulando sua medicação.
Mesmo assim, a criança não abriu os olhos, ainda não tinha coragem de encarar quem quer que fosse que estava em seu quarto. Não poderia ser a equipe do hospital, já que estes não visitavam os quartos de madruga a não ser que fosse preciso. Jisooh sentiu o ardor tomar conta do seu braço, era incomodo, a queimação caminhou até chegar ao seu coração, a criança sentiu a dor aguda em seu peito, tanto que em um espasmo encolheu seu corpo e soltou um gemido de dor involuntário.
– Calma, pequena, eu estou aqui para cuidar de você – a mão voltou a afagar a cabeça de Jisooh – Logo, logo vai passar. Confia em mim!
Para a surpresa da menina, a voz era de uma mulher: calma e terna. Era agradável, não era assustadora, isso fez com que Jissoh se sentisse confortável em tentar abrir os olhos para olhar aquela desconhecida que estava ao seu lado. Mas, a visão da menina estava turva, ela não poderia reconhecer o rosto da mulher nem se esforçasse muito.
– Shiuuuuu – a voz agora era melodiosa, quase uma cantiga de ninar – Dorme meu anjo, logo sua dor vai passar. Eu vou fazer sua dor passar.
E assim foi: Jisooh não sentia mais a dor que sentira antes, mas sua respiração estava pesada, os movimentos eram difíceis de serem feitos, a fraqueza do corpo era evidente. Não entendia bem o que estava acontecendo, mas se sentia dormente. Fechou mais uma vez os olhos porque estava cansada demais para insistir com eles abertos. Mas, antes de dormir outra vez, ela ouviu a mulher se afastar de sua cama a passos lentos enquanto assobiava uma melodia que Jisooh já havia escutado antes.

Capítulo 7.

O vento estava gélido do lado de fora, mas ainda assim eu gostava de senti-lo por meu corpo. e eu tínhamos decidido voltar pro mesmo local em que havíamos nos tocado pela primeira vez depois de tudo. Não era a melhor paisagem, mas continuava sendo o nosso do lugar no hospital.
Acariciei os cabelos escuros dele, que mantinha a cabeça em meu colo, enquanto cantarolava uma melodia com os olhos fechados. Ele era tão bonito. Passei os dedos por entre os fios de cabelo lisos do homem em meu colo, em silêncio, apreciando a cena que acontecia abaixo de mim. ainda murmurava a melodia.
– Você não está cansado? – tão de repente cortei a paz que estava entre nós.
– Não, eu me sinto bem – ele respondeu, ainda mantendo os olhos fechados – Tive uma boa noite de sono.
Suspirei, ajeitando melhor a postura, parando o movimento que fazia em sua cabeça. abriu um dos olhos, me encarando, desaprovando o meu comportamento. Mas eu não voltei a mão para os seus cabelos, queria a atenção dele o tanto quanto poderia ter.
– Eu quis dizer sobre estar cansado disso…- apontei com a mão para o ambiente em que estávamos – Dessa história, desse hospital e – fiz uma pausa assim que percebi que ele sentava ao meu lado, sério – de mim?
passou as mãos por meu rosto, segurando com delicadeza, mas firme, me obrigando a olhar para ele enquanto falava. Eu me mantinha convicta, mesmo que estivesse quebrada com a situação.
– De onde você tirou isso? – senti os polegares dele acariciando minhas bochechas, fechei os olhos com a sensação que o toque causava em mim – Eu nunca me canso de você, não importa o que aconteça.
, não é justo que você se prenda a mim assim – respirei fundo, queria tirar as mãos dele de meu rosto, mas não tinha forças para fazer aquilo – Você passou as férias toda aqui, comigo. Preso nesse hospital com uma pessoa que não existe – senti os olhos ardendo; a expressão dele era de choque – O que quer que seja, não sou real – tirei com delicadeza as mãos dele do meu rosto, ele já tinha parado de me acariciar.
– Você não pode estar fazendo isso comigo de novo!
Ele encostou nossas testas, sua voz tinha virado um sussurro falho, eu mal podia ouvi-lo, mas ouvia e sabia sobre o que ele se referia. Era sobre abandoná-lo outra vez, meu coração apertou ao perceber a súplica dele. Engoli a seco, me sentindo péssima.
, nós estamos vivendo algo irreal – fechei os olhos por não conseguir encará-lo mais – Nós não estamos juntos de verdade.
– Mas eu estou mais próximo de você do que sempre estive – a voz dele tinha voltado a ficar firme – Eu nunca estivesse tão perto de você quanto agora.
– Mas, não é justo – agora era a minha voz que falhava – Você merece estar com alguém que…
– Com alguém o que ? – ele tinha levantando, as mãos na cintura enquanto respirava apressado, claramente estressado com o assunto – Alguém que me ama por quem eu sou? Alguém que incentiva a ser o meu melhor? Alguém que me conhece melhor do que eu mesmo? Alguém com quem eu me sinta confortável e seguro?
Olhei para baixo, sem graça, não queria prosseguir o assunto. Machucava-me também, mas era tarde para deixarmos a discussão de lado. Eu estava protelando sobre a decisão.
, esse alguém é você – ele se mantinha em pé – Sempre foi você. Sempre foi.
Olhei com cautela para ele, não queria que a raiva dominasse o momento, mas sabia que ele estava errado. Aquela situação não era natural, e eu não tinha perspectiva de melhoras, eu sabia que algo errado estava acontecendo e, se não fosse por minha vontade a estar presa a , eu já não estaria nesse plano mais. Então eu só estava sendo, outra vez, egoísta e prendendo ele a minha situação.
Não era justo. Não com o homem que eu amava.
– chamei com calma por seu nome, ele estava de costas, evitar me olhar era a forma dele fugir o debate – – insisti quando percebi que ele não queria ceder, mas eu precisava olhar em seus olhos antes de continuar.
Os olhos dele eram a janela para uma galáxia linda. Eles me confortavam. E, de novo, eu estava sendo egoísta a ponto de buscar conforto nele, ao invés, de confortá-lo.
Assim que virou em minha direção, pude ver a expressão dura em sua face. Ele estava com raiva. Bati com a mão no espaço vago da toalha em que eu queria que ele se sentasse novamente, sabia como acalmá-lo e era isso que faria para continuar a conversa entre a gente.
pressionou os lábios, ainda estava tenso, mas, mesmo hesitante andou com calma até que estivesse sentado em frente a mim novamente. Passei a mão com cuidado por entre seus cabelos que teimavam em cair sobre os olhos. Os olhos escuros estavam marejados. Quantas vezes eu tinha feito chorar naquele curto espaço de tempo em que havíamos nos reencontrado?

Sorri para atenuar a dor que percebia em seu rosto, mas não surtiu efeito, a raiva ainda se mantinha ali. E o medo. estava com medo, assim como eu, e isso significava que ele entendia mais do que imaginava a gravidade das circunstâncias.

Inclinei minha cabeça para alcançar sua boca, unindo os lábios aos dele. A boca macia de fechou levemente sobre a minha. Seus lábios estavam macios e quentes, levemente úmidos. Afastei-me, antes que o beijo ficasse mais forte, ao ar livre costumávamos ser mais discretos já que sabíamos que ele sempre chamava atenção por onde passava e nunca poderíamos saber quem estava de olho na cena.
– eu disse em um murmúrio, tentando manter a calma do momento, nossas testas continuavam unidas e os olhos dele estavam fechados – Existe a possibilidade de eu não voltar, você sabe disso – ele balançou levemente a cabeça para baixo, ainda sem desgrudar nossas cabeças, concordando com o que eu havia dito – Você promete ser forte caso eu não acorde?
não respondeu, mantinha os olhos fechados, mas uma leve careta surgiu em sua face. Era dor. Doía dizer aquilo. Doía mais ver o efeito que as palavras causavam nele. Mas eu precisava dizer por que sentia que era questão de escolha eu continuar ali, existindo como fantasma. E a escolha era minha.
Mas eu já estava cansando.
Minha mão passeou com delicadeza pela pele do rosto de , a sensação de tocá-lo era deliciosa e, por Deus, como eu queria fazer aquilo de forma real. Parei o toque na região de sua bochecha, a parte preferida em acariciá-lo. Sequei com o polegar a lágrima que tinha escorrido de seus olhos.
– Você promete ser forte ? – repeti a pergunta, com necessidade de ouvir a resposta dele.
Ele abriu os olhos, mantendo-os fixos aos meus, ainda brilhavam por culpa do choro. E eu continuava me odiando por fazê-lo chorar tanto. umedeceu os lábios antes de responder.
!
A voz tirou a nossa atenção. Era um grito, e vinha de um espaço não tão longe de onde estávamos. O vi virar o rosto em direção a mulher que o chamava, acompanhei o movimento, arfei alto ao ver Lisa em nossa frente, de novo, estragando um momento decisivo.
, pede para ela ir embora, por favor! – disse as palavras entre os dentes.
Com Lisa entre nós eu não poderia continuar a conversa que queria ter com e ele sabia disso. Sua vontade era fugir da conversa, por isso, o homem ignorou o que havia pedido e continuou olhando para a intrusa. Ele não disfarçava estar me ignorando, enquanto voltava a atenção para Lisa, que permanecia em pé encarando .
Sem paciência levantei apressada, passando com firmeza ao lado da mulher que ainda estava parada olhando para o homem que eu tinha deixado sozinho. Olhei para a expressão de Lisa, e não era a típica euforia que costumava demonstrar sempre que encontrava com . Não. Lisa estava pálida e seus olhos assustados. Hesitei por um instante, virei o rosto para encarar novamente, ele tinha percebido o mesmo que eu e agora, olhava intrigado para a mulher.
Mas, sabendo dos truques de Lisa não me permiti esperar pelo desfecho da conversar, segui firme para o quarto. Com raiva e triste. Com raiva por usar de Lisa para fugir de nossa conversa. Triste por saber que eu quebraria o coração dele outra vez. Se ficar ou ir embora era uma escolha, estava decidida. Eu faria chorar novamente.

Capítulo 8.
Música do capítulo: LMM
Joguei-me na cadeira vaga ao lado da cama em que meu corpo descansava. Observei desanimada o torso ao meu lado, os hematomas do acidente estavam amenos agora, mas ainda estavam ali por toda minha pele. Não era uma cena bonita, visto que os aparelhos ligados ao meu corpo eram um nítido lembrete de que eu não estava apenas dormindo. Não me surpreendia que quisesse passar mais tempo fora daquele quarto do que dentro dele.
Olhei para o homem que dormia no sofá, no canto mais afastado do quarto, estava encolhido para caber melhor na cama improvisada, eu nunca o tinha visto tão pequeno como agora. Meu pai, sempre confiante, o homem de negócios, o estrangeiro que tinha conquistado uma grande empresa coreana, agora era só um homem que nem fazia sua barba. Ele estava acabado, tinha envelhecido, no mínimo, dez anos e isso era culpa minha. Sorri com o canto dos lábios: há tempos não sentia afeição pelo homem adormecido em minha frente.
Deitei a cabeça de modo que pudesse esconder meu rosto da claridade. Estava cansada. Fisicamente cansada, e isso era estranho, porque desde que tinha virado uma alma livre não sentia esse tipo de desgaste. Fechei os olhos na intenção de acalmar a mente que estava inquieta, mas adormeci em pouco tempo.

Abri os olhos com facilidade, o ar estava pesado e o ambiente era diferente do qual eu estava antes. Um lago emergia em minha frente, as árvores secas rodeavam o lugar, a areia escura cobria parte dos meus pés. Remexi incomodada com a sensação arenosa por minha pele, mas só piorei a situação, jogando mais areia em minha pele. E ela era úmida. Senti o banco sob mim balançar de maneira errante, segurei as cordas que desciam ao lado do meu tronco para me equilibrar novamente. Eu estava em um balanço.
Estiquei o braço para olhar melhor e tentar entender se aquilo era um sonho ou real. Baixei meus olhos por meu corpo: o vestido que me cobria era branco, quase longo, mas não a ponto de encostar-se à areia abaixo dos meus pés. Mas a roupa não era, nem de longe, parecida com a camisola do hospital. Levantei do banco oscilante, sem me afastar muito de onde estava, mas só para tentar me ambientar melhor quanto ao local. Nunca tinha visto aquela paisagem nem por fotos.
Ao meu redor eu percebia vultos que andavam, não chegavam perto de mim, mas eu sabia que eram pessoas. Eu não sentia medo apesar de tudo, mas estava perdida. Rodei o corpo na intenção de achar algo familiar, e, assim que o fiz, avistei uma mulher caminhando em minha direção. Ela era baixa, usava um vestido branco, assim como o meu. Eu podia vê-la tão nítida quanto eu me via, não era um vulto em meio aos outros, a mulher sorria ao passo que se aproximava. Seu rosto era muito semelhante ao meu, mesmo que não fossemos a mesma pessoa.
Percebi meu coração acelerar conforme a distância entre a gente diminuía. Eu a conhecia.
– Mãe?!
Senti os braços dela envolverem meu corpo. Era a minha mãe quem estava ali, comigo. Aceitei o abraço e devolvi o gesto com a mesma intensidade que ela. Eu podia senti-la novamente. No conforto de seus braços, me permiti chorar. E ela fez o mesmo. Talvez fosse a primeira vez que eu transbordava emoção para ela, mas eu sentia tanta falta da mulher que havia me criado que não me importava de a estar assustando.
Afastei nossos corpos para poder olhar novamente a mulher em minha frente. Era realmente minha mãe. Ela olhou para meu corpo de cima a baixo, os hematomas causados pelo acidente não existiam nesse plano. Os olhos dela brilhavam, satisfeita com o que via. Eu ainda estava em êxtase.
Segurando minha mão ela me guiou até o balanço, no qual eu havia acordado. Sentou-se no banco ao lado do meu – só agora eu tinha reparado o outro balanço em paralelo ao que eu estava sentada – meus olhos acompanhavam o movimento da mulher, encantados por eu vê-la outra vez.
– Mãe, que lugar é esse? – mesmo que eu estivesse contente por encontra-la, ainda me sentia confusa quanto o que estava acontecendo.
– Não era para você estar aqui – ela disse enquanto balançava suavemente o corpo para frente e para trás na cadeira de madeira – Pelo menos não agora.
Olhei ao redor notando o tempo ficar fechado, de repente tudo tinha ficado cinza e uma neblina densa emergia do lago a nossa frente. Eu não tinha percebido o tom de cores mudarem. Tinha sido ríspido. Encolhi o corpo ao perceber que aquilo estava começando a me assustar.
– Mãe, que lugar é esse? – disse novamente com a voz trêmula, mas a mulher que me acompanhava estava alheia ao meu medo.
Ouvi um grito ecoar em um lugar distante de onde estávamos, quis tampar os ouvidos com o dedo, mas assim que pensei em fazer, mais gritos surgiram. Ao longe avistei um emaranhado de sombras caminhando em nossa direção, olhei assustada para minha mãe que já se mostrava mais apreensiva.
– Esse é o limbo, – ela engoliu a seco, ainda fingia que a transformação do lugar não a incomodava – É onde as almas ficam enquanto não sabem o rumo que devem levar. Aqui estão as almas perdidas.
Olhei novamente ao meu redor entendendo o que aqueles vultos significavam. E agora, ao contrário de antes, eu sentia medo. As sombras estavam próximas, não as recém chegadas, mas sim as que já estavam no limbo no momento que eu havia chego.
– Você vive aqui? – perguntei atônita a minha mãe, não suportaria saber que ela estava perdida junto aquelas almas ao meu redor.
– Não, minha filha – ela respondeu docemente, enquanto passava as mãos por meus cabelos – Eu já encontrei meu lugar. Eu só vim para receber alguém – ela olhou em direção as sombras que avançavam até nós – Aquelas são as almas novas, algumas vagarão pelo limbo pela eternidade. Aqui não é um bom lugar para viver, mesmo que a princípio não pareça – ela tirou a mão de meu rosto – Há muito sofrimento aqui .
Eu escutei mais um grito de dor, mas dessa vez eu não soube de qual direção ele vinha.
– Você veio me buscar? – perguntei hesitante.
– Não – ela disse calmamente, arqueei a sobrancelha confusa – Ainda não é a sua hora, mas quando for estarei aqui para te receber.
Minha mãe levantou calmamente de onde estava sentada, caminhando até o centro arenoso. Estava virada para o exército de sombras que chegava, queria chamar atenção. Senti o coração acelerar assim que percebi que as novas almas estavam próximas. Eu sentia medo delas.
, assim que eu pedi você deve ir embora – a voz dela era um pouco mais tensa do que outrora – Algumas almas não são tão pacíficas, você não pode demorar aqui.
Levantei, indo de encontro a minha mãe, a neblina estava alta e agora cercava todo o ambiente e não só a água. Segurei firme o braço que pude alcançar da mulher, ela ainda era morna como eu costumava lembrar.
– Porque eu estou aqui? – perguntei a ela.
– Porque é o momento dá troca, meu amor!
– Troca?
No mesmo instante que disse, minha mãe apontou com o queixo em direção aos vultos que chegavam, a frente deles eu conseguia ver a sombra menor correndo acelerada em nossa direção. Era uma criança. Os cabelos longos dançavam conforme ela corria, o rosto era familiar.
– Jisooh!
Sussurrei o nome da menina assim que a reconheci. A dor no meu estômago chegou logo que vi o sorriso da pequena a uma distância curta, ela tinha ganho tempo frente as outras sombras. Estava linda, de uma forma que eu não tinha visto antes.
Mas, se Jisooh era uma das sombras no limbo, isso só podia ter um significado.
– O que ela está fazendo aqui? – gritei para minha mãe que mantinha o rosto sereno com a chegada da criança – O que ela está fazendo aqui?
– Oi – a menina estava ao meu lado, ainda sorria, mas balançava a mão pequena como um cumprimento inocente.
– Jissoh – abaixei para ficar na mesma altura que ela, queria chorar mas algo me impedia – Não pode ser…
, não temos muito tempo – ouvi minha mãe falar por cima de mim, continuava confusa.
No mesmo momento que escutou a urgência na voz de minha mãe, Jisooh me abraçou pelo pescoço. Apertou levemente meu corpo ao dela, não parecia mais a menina frágil que eu tinha conhecido no hospital. Eu sentia sua pele sobre a minha, mas não sentia a respiração da garota, o que me fez embrulhar o estômago. Antes que pudesse me afastar Jih encostou a boca próximo ao meu ouvindo:
essa escolha sempre foi minha e não sua. Você vai voltar agora que te dei uma parte minha, mas toma cuidado, por favor – ela se afastou para olhar em meus olhos – Não foi a doença que me matou.
Joguei meu corpo para trás ao escutar a última frase, então Jisooh estava, de fato, morta. Encarei a pequena que, tranquilamente, segurou a mão de minha mãe. Eu mal conseguia respirar. Ainda não conseguia chorar.
, agora que você tem uma parte minha em você, cuida bem de mim okay?
Jisooh disse no mesmo instante que puxou o braço de minha mãe em direção contrária a que estávamos, ela estava apressada para sair dali. Olhei para frente e vi os vultos se dispersando pelo ambiente, mas alguns ainda insistiam em andar em minha direção.
– Filha, está na hora de você ir – minha mãe chamou minha atenção quando percebeu o quão perigoso o lugar tinha se tornado.
Acompanhei com a cabeça as duas andar de mãos dadas rumo a ponte que separava o lago de algum lugar que eu não conseguia enxergar. Não me preocupava a volta, porque de certa forma eu sabia que conseguiria voltar sozinha, mas toda a situação me deixava tonta.
– Me perdoa – minha mãe gritou por sobre os ombros a medida que se afastava. Arqueei a sobrancelha, confusa com a última frase.
Observei a mulher e a menina andar sem olhar para trás, ainda mantinham as mãos dadas. No chão, percebi as sombras chegarem próximas demais e, sem que eu tivesse tempo de reagir, vi o vulto se atirar sobre o meu corpo. No instinto gritei colocando os braços sobre o rosto, sabia que não dava tempo de me proteger mais.

A primeira coisa que percebi foi a respiração, tão forte quanto eu não lembrava mais. Assustei-me com a lufada de ar que sugava para o meu pulmão. A dor de cabeça foi a segunda coisa que tinha percebido: era forte, a ponto de embrulhar meu estômago, que também doía. Meu corpo não estava saudável. Aos poucos, abri os olhos, incomodada com a claridade do local em que estava. Pisquei várias vezes até ambientar minhas vistas, senti todos os fios grudados em mim, o bip constante dos aparelhos fazia minha cabeça doer mais. Semicerrei os olhos para observar o quarto em que eu estava, reconhecendo o lugar.
Era o hospital.
Eu estava acordada.