Rocket

  • Por: M. Angeli
  • Categoria: BTS | Kpop
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Sinopse: Ser um anjo não era exatamente uma tarefa fácil. Ser um anjo tão desastrado quanto ele, então, pior ainda. Aquilo tudo era novo para ele, sim, mas para um garoto que já era um desastre em vida, não tinha chances daquilo dar certo pós morte.
Se houvesse um recorde para contabilizar o anjo que caíra mais rápido, esse ele certamente ganharia e agora precisava arrumar uma forma de reverter a confusão que havia criado.
Gênero: Fantasia, Drama, Romance.
Classificação: 12 anos.
Restrição: Escrita com Jimin, mas pode ser lida com qualquer um.
Beta: Alex Russo.

Capítulos:

I.

Com todo o cuidado do mundo, um que ele definitivamente não tinha sendo tão estabanado, esticou o pescoço para espiar dentro do escritório de , deixando que apenas seus olhos aparecessem entre a persiana da janela.
Não foi uma tarefa fácil, visto que para isso precisava se manter literalmente pendurado nas paredes do lado de fora, no vigésimo andar de um prédio de vinte andares. Uma queda definitivamente prazerosa se vacilasse e acabasse caindo. E ele estava sendo irônico, obviamente. Cair não era um bom plano.
Quando deu de cara com a janela fechada, o vidro escuro o impedindo de ver do lado de dentro, xingou baixinho e mordeu o lábio inferior em repreensão a si mesmo. Soltou uma das mãos para que pudesse, com ela, tentar empurrar a janela encostada, apenas o suficiente para um de seus olhos, mas acabou tomando o maior susto de sua vida quando encontrou outro par de olhos bem a sua frente, do outro lado, como se esperasse por ele para assustá-lo.
― Boo. ― falou sem nenhuma emoção, mas com o susto, gritou e temendo ser ouvido levou as duas mãos até a boca para se calar.
Só tinha um problema nisso: Ele precisava delas para se manter pendurado do lado de fora do prédio e só teve tempo de arregalar os olhos antes de começar a cair. Mais uma vez, gritou, vendo os andares passarem como um borrão ao seu redor e em seguida fechou os olhos, com força demais.
― Você é um anjo, não vai morrer com a queda mesmo que pareça mortal. ― falou para si mesmo, mas aquilo não foi nem de longe reconfortante. ― Você é um anjo, não vai morrer com a queda. Você é um… Anjo! Um anjo! ― gritou, como se só então se desse conta disso e faltando cinco míseros centímetros para se chocar contra o chão, quando abriu os olhos, estava de pé do lado de dentro da sala onde tentava entrar há segundos atrás.
― Eu achava que anjos não ficavam doentes, mas isso claramente não se aplica a doenças mentais. ― resmungou, olhando para como se ele tivesse algum problema psicológico, mas o garoto mal o ouviu. olhava apavorado dele para sentada atrás do computador, concentrada na tela enquanto segurava uma caneta em sua boca, mordendo a tampa sem ao menos notar.
― Shiu! ― respondeu para ele, colocando o indicador em frente a boca e , sentado preguiçosamente na poltrona branca em um dos cantos da sala, revirou os olhos.
― Ela não pode te ouvir, gênio. ― respondeu, impaciente. ― E nem te ver. Quantas vezes eu vou ter que repetir isso?
olhou para ele boquiaberto. Não que o anjo não soubesse daquela informação, mas diante da naturalidade que aquilo era para . Tudo aquilo era natural para ele, como se já estivesse preso ali há anos, mesmo que aquela condição devesse ser temporária, até que cumprisse a missão recebida para poder renascer na terra como uma nova pessoa.
era um cupido, mas nem em um milhão de anos diria aquilo vendo dele. Quando falavam em cupido, o mais novo sempre pensava em um anjo fofo e gorduchinho, alegre e cheio de amor para distribuir. Mas era quieto e fechado e mesmo não sendo capaz de ver sua aura como via a das outras pessoas, poderia apostar tranquilamente que a de também era escura. Se o pedissem para adivinhar que tipo de anjo achava que era antes de conhecê-lo, certamente chutaria um anjo da morte que estava pagando todos os seus pecados tendo que guiar naquela coisa de ser anjo.
tinha certeza que o enlouquecia e agradecia mentalmente por ser o anjo do amor e não da morte para matá-lo, mesmo que fosse péssimo na sua tarefa. Três meses e nunca o tinha visto disparar uma única flecha.
― Eu não sou muito bom nisso, ok?! ― falou, em um sussurro quase exclamado, e suspirou como se tentasse arrumar paciência para ele do além, já que naquele plano certamente estava em falta. Paciência não era uma das qualidades de , definitivamente.
― Ah, jura? ― ele perguntou, levantando-se da poltrona onde estava sentado até então. Por reflexo, afastou-se, crente que era agora que lhe esmurraria, mas tudo o que o outro fez, no entanto, foi erguer uma sobrancelha, como se perguntasse qual era o seu problema.
― Ahn? ― se fez de desentendido, corando por ter pensado que realmente partiria para a agressão. O outro negou com a cabeça, como se tivesse entendido exatamente o que pensava, mas apenas deu as costas sem dizer nada, para se dirigir para fora da sala pela porta que não havia notado, mas estava aberta.
Só então ele percebeu que, em algum momento daquela discussão boba e sem sentido, havia se levantado e saído da sala e que esse havia sido o motivo pelo qual levantou, imediatamente acelerando o passo para correr e alcançá-los.
― Por que não me disse que ela saiu? ― perguntou ao ficar lado a lado com , que apenas deu de ombros.
― Te superestimei e achei que notaria, desculpe. Não vai mais acontecer. ― respondeu irônico, andando de forma despreocupada com as mãos nos bolsos da calça. ― Acreditei que você veria quando a garota que está perseguindo saísse da sala.
― Eu não estou perseguindo ninguém! ― exclamou, mais alto do que o necessário, e se encolheu por isso em seguida, olhando para os lados como se temesse ser pego.
― Ninguém pode te ouvir, . ― repetiu, e o garoto se virou para ele.
― Eu não consegui me acostumar com isso ainda, está bem?! ― gritou novamente, exageradamente dramático como de costume, e deu de ombros. ― E eu não estou perseguindo ninguém!
― E pode me explicar então o motivo de estarmos aqui de novo com ela? ― o outro quis saber e cruzou os braços emburrado, sem parar de andar.
― Ela está triste. Eu tenho que deixar as pessoas felizes, não tenho? ― resmungou, mas o outro não se deu ao trabalho nem mesmo de encará-lo para responder.
As pessoas, mas temos perseguido apenas ela.
― Pelo menos eu estou fazendo alguma coisa! Você não devia estar fazendo as pessoas se apaixonarem? ― perguntou e se arrependeu no mesmo instante, mas apenas o encarou com indiferença.
― O amor é uma merda. ― disse ele, apontando em seguida com a cabeça para a garota andando na frente deles. ― Você mesmo está apaixonado por alguém que nunca vai ter. Você está morto e ela é humana. Uma humana que não pode te ver, nem te ouvir, ou sentir. Você a segue todos os dias, interfere na vida dela, a faz feliz, mas ela nunca vai saber disso.
não sabia dizer se a intenção de de fato havia sido ser cruel ou se era apenas uma lamentação de uma pessoa amarga demais após sofrer por amor durante a vida, mas ainda assim, aquela fala o afetou mais do que deveria porque sim, ele estava certo e mesmo que sozinho já tivesse pensado em tudo aquilo, ouvir daquela forma ainda assim doía. O mais novo estava apaixonado e ela nunca ia saber.
A função de era levar felicidade para a vida das pessoas que ele encontrava com auras tristes. E sinceramente, ele amava seu trabalho. , mesmo em vida, era um jovem alegre e altruísta e hoje jogava cor nas pessoas cinzas, deixava o mundo repleto de luz. Era dessa forma que ele enxergava as auras, como luzes coloridas e as que não eram, ele fazia com que fossem.
Não sabia o que havia acontecido com , mas imaginava que sua aura, se anjos tivessem uma, também era cinza e desejava poder colori-la também, mas infelizmente não era possível e aceitá-lo era tudo que podia fazer, mesmo quando o outro era rude ou cruel, exatamente como havia sido.
também sofria, sabia disso. E ironicamente era pela amiga de . Foi assim, inclusive, que a conheceu.
estava triste, e sua tristeza deixava triste também. o levou para colori-las porque, mesmo que não admitisse, não conseguia ver triste e foi assim que, no final, colorir a vida de se tornou sua tarefa pessoal, mas porque ele também não conseguia vê-la triste. Quando notou, estava apaixonado por ela e a perseguia por ai. E apesar de ser daquele jeito, não reclamava porque isso o mantinha perto de . Eram a dupla mais patética já existente, mesmo que tentasse manter aquela pose de durão o tempo todo.
levou um segundo para se recuperar das palavras duras de e quando o fez, notou que a porta do elevador já se fechava com os dois lá dentro. O garoto, recentemente anjo, voltou a correr para alcançá-los e conseguiu se esgueirar para dentro no último segundo, se voltando então para :
― Você não precisa ser assim, sabia? ― perguntou enquanto a garota, crente que estava sozinha ali, batia os pés de forma impaciente, esperando chegar ao térreo.
― Você também não, mas eu não fico reclamando, fico? ― devolveu, olhado para o indicador de andares sobre a porta.
― Uhm? ― perguntou , confuso, e se voltou então para ele. ― Assim como?
― Idiota, tagarela, stalker. ― respondeu. ― Quer mais algum adjetivo ou esses estão bons?
― Não era bem disso que eu estava falando. ― fez bico, e apenas ergueu uma sobrancelha para encará-lo, como se perguntasse qual era o problema dele então. Fazia muito daquilo, aliás, mas fingia não notar o ar de deboche contido ali. Não se importava de verdade, muito pelo contrário. Ele até entendia. Vagar sozinho por sabe-se lá por quanto tempo naquele plano só podia ser, no mínimo, triste. Motivo mais do que suficiente para toda aquela amargura e solidão. só esperava não ficar daquela forma também com o tempo pois sabia que estava fadado a viver ali, assim como o outro.
― Mas não nega. ― observou, e conteve um risinho quando apenas cruzou os braços em frente ao peito, emburrado.
A porta se abriu finalmente, e a garota saiu já no térreo, com seus saltos finos ecoando no chão. Quem a via daquela forma, tão aparentemente profissional e elegante, jamais imaginaria a pessoa que era ao fundo. E gostava daquelas duas faces. A mulher adulta com roupas sociais, estagiando em uma multinacional que até então era seu sonho, quanto a fã girl sonhadora que era com os amigos, a garota que escrevia histórias nas horas livres para fugir de sua realidade e que chorava assistindo novelas coreanas. A garota que estava triste porque seu emprego dos sonhos não era o que esperava, porque a carreira que havia escolhido não era a que queria e por descobrir isso tão tarde, já no último ano da faculdade que pagou com tanto custo. A garota que se sentia perdida e que ele queria tanto poder ajudar, fazendo mais do que lhe jogar bolinhas coloridas de felicidade.
― Especialmente a parte do stalker. ― foi obrigado a concordar após, com o pensamento, se dar conta de tudo que sabia dela, sem que ao menos o visse. E claro que se não o fizesse, não deixaria de jogar aquilo nele como uma inofensiva observação nada inofensiva.
― Fico feliz em saber que pelo menos é sensato. ― devolveu e bufou contrariado.
― Que bom que minha tristeza te deixa feliz. ― resmungou enquanto seguiam de perto até a saída do local, cumprimentando as pessoas com um sorriso como se sua aura, na verdade, não estivesse tão sem brilho.
― O anjo da felicidade é você, não eu. Posso me divertir com a desgraça alheia. ― respondeu enquanto o outro observava a garota, se perguntando o que se passava por sua cabeça para deixá-la assim.
― E faz isso muito bem, especialmente comigo, né? ― devolveu no automático, agora sem prestar tanta atenção na conversa, e deu de ombros, colocando os braços para trás da cabeça.
― Pra alguma coisa você tinha que servir, afinal. ― o respondeu despreocupado, mas apontou para a direção da garota com a cabeça em seguida. ― Agora dá pra jogar o pózinho mágico logo antes que estejamos em público?
― Não é um pózinho mágico! ― exclamou ao invés de obedecer.
― Explode como um pó colorido e brilhante. E trás alegria pras pessoas. Se isso não é a definição perfeita de “pózinho mágico” eu não sei o que é. ― caçoou apenas para que o outro olhasse feio para ele.
― Por que você é tão chato?
― Porque decidiram jogar você na minha vida. Um total desperdício do meu tempo. ― reclamou , ainda seguindo a garota enquanto repetia suas palavras de forma afetada atrás dele.
― Provavelmente tinham esperança de que alguém poderia amolecer esse coração de gelo. ― falou por fim, mas não se deu por vencido.
― Pelo visto então desperdiçaram o seu tempo também. ― observou antes de apontar outra vez para a garota. ― Agora vai logo que ela está indo para a porta. ― avisou, deixando claro em seu tom que aquilo era um aviso, do tipo que deveria ser levado em consideração, mas sendo tão quanto era, não achou que deveria ouvir.
Seu pior erro do dia.
― Não tem problema, eu estou melhor com essa coisa de mira. ― devolveu confiante e até mesmo tirou os braços de onde estavam, em sua nuca, para lançar ao anjo um olhar de reprovação.
, vai logo… ― falou em tom de aviso, mas no segundo que desviou a atenção dela, a garota passou pelas catracas que separavam a portaria da rua e ele foi obrigado a suspirar de desgosto. Parando onde estava, bateu um dos pés no chão, jogando os braços para o alto impaciente. ― Ótimo, agora vamos ter que esperar o horário de almoço terminar!
― Eu já disse que posso fazer isso. ― respondeu rapidamente, voltando a segui-la, e finalmente alarmado se pôs atrás dele.
, não. ― avisou, mas o outro não parou de andar, muito pelo contrário. Em provocação até mesmo o fez de forma teatral, atravessando a rua sobre a faixa de pedestre (como se precisasse dela), imitando um robô com as pernas enferrujadas e revirou os olhos, considerando deixar que ele fizesse a besteira só pela afronta. ― Eu não vou falar de novo. ― disse apenas, parando onde estava antes de olhar para cima, para o céu, como se esperasse ser ouvido ao falar. ― Minha função é avisar, e eu estou avisando. ― disse ele, e se alguém pudesse vê-lo, o que não era o caso, achariam que estava louco. ― Não me deixaram acorrentá-lo em uma cadeira, então é isso. Avisei. ― finalizou apenas, antes de cruzar os braços em frente ao peito para esperar o que para ele era inevitável.
Estavam no meio da avenida mais movimentada de Seul, onde ninguém era capaz de andar sem esbarrar em outra pessoa por mais de dois segundos. Onde todas as auras e cores se misturavam ao ponto de não ser possível reconhecer ninguém, mas esperava reconhecer . Mais do que isso, esperava reconhecê-la e ainda acertá-la com a cor certa. E acertar apenas a ela.
Em um segundo, estava com uma bolinha azul nas mãos. O objetivo era que ela trouxesse felicidade a quem fosse atingido e ele havia sido avisado sobre os perigos de atingir pessoas erradas. Perigo que ele ignorou ao confiar que atingiria a certa, o que ele inevitavelmente não fez. E entre todas as pessoas tristes na avenida que ele podia ter atingido e presenteado com um dia feliz, conseguiu atingir uma de suas únicas restrições, um homem vestido de entregador com a aura mais escura que já havia visto. Aura má, do tipo que não era contaminada por felicidade, mas por escuridão e nada além disso.
Em um segundo, estava pronto para acertar com suas cores e alegria e no outro a perdia de vista, ao mesmo tempo que era encontrado por todas as pessoas ao seu redor. Atingir o homem de aura negra fez com que se tornasse visível aos olhos humanos e ao procurar a única pessoa que podia socorrê-lo, não o encontrou mais lá. podia ser visto pelos humanos, mas não era capaz de ver criaturas angelicais.

+++

precisava encontrar um lugar mais seguro para morar. Essa foi a primeira coisa na qual pensou ao se esgueirar pelos corredores de seu prédio. Ele agora estava visível, e mesmo assim ninguém tinha perguntado nada ou ao menos achado estranho sua presença ali, independente de nenhum morador do local, jamais, tê-lo visto naquele lugar. já havia estado muitas vezes ali, obviamente, mas em sua forma de anjo, quando não precisava se preocupar em ser ou não visto.
E aquele era outro ponto. estava sempre se escondendo, ou falando aos sussurros. o repreendia por não ter necessidade, ninguém tinha consciência dele ali e apesar de se esquecer o tempo todo, foi naquele momento que notou estar muito mais familiarizado com a forma de anjo do que esperava. Estava andando pelos corredores como se as paredes pudessem explodir a qualquer minuto, e a culpa disso era o medo de ser pego fazendo o que não devia.
Ele não deveria estar ali e se não fosse a péssima segurança do prédio de , dificilmente teria chegado tão longe. Só não sabia se isso era bom ou ruim.
Para ele, de certo, era bom, mas não podia dizer o mesmo da garota.
não sabia bem o que estava acontecendo, ou como havia acontecido, mas agora podia ser visto e como se isso não bastasse, não fosse assustador o suficiente, ainda tinha aquele detalhe importante gritando em sua mente, perguntando o que diabos seria dele se morresse agora. Quer dizer, se as paredes realmente pudessem explodir, o que aconteceria com ele? Ainda era angelical o suficiente para não morrer? E se não fosse, pra onde iria dessa vez? Já tinha passado pelo céu na primeira morte e não imaginava que aquilo fosse igual a um videogame com a opção de restart pra voltar quantas vezes quisesse.
E ele sentia que tinha algo errado com seu corpo. De início tentou se convencer de que era paranóia, mas depois, ao trombar com um poste no meio da avenida e sentir uma dor angustiante, decidiu que a sensação se devia ao fato do seu corpo ter voltado a forma humana, a forma física, e agora podia ter sensações como frio, fome e dor. Mas isso só até sua mão desaparecer diante dos seus olhos quando tentou se apoiar em um muro e mais tarde toda sua forma vacilou. E mesmo que fosse invisível para as outras pessoas na forma de anjo, ainda era visível para si mesmo, o que não aconteceu quando sua imagem sumiu. Nem mesmo ele pôde se ver, ou sentir. Era como uma consciência perdida literalmente no nada e se arrepiou só de pensar.
Desejou ter ali para perguntar a ele o que acontecia agora, mesmo que o outro provavelmente soubesse tanto quanto ele sobre isso. Era muito mais provável que risse daquela cena constrangedora que era de costas para a parede, assustado e acuado enquanto olhava para todos os lados temendo ser visto, mas não estar sozinho já seria de grande ajuda, apenas saber que tinha mais alguém ali. Já podia até mesmo ouvir a voz de em sua mente dizendo o quão patético era, mas não se importava nem mesmo com isso. E nem era também como se não concordasse alias, porque quando pensava que aquilo havia acontecido pois tinha decidido ignorar os avisos do mais velho, só podia concordar. Era, definitivamente, patético. E estúpido.
Quando finalmente chegou até a porta do apartamento de , então, se deparou com outra questão que o fazia se sentir um tanto quando idiota: abria ou não a porta para entrar?
Invadir o apartamento dos outros não costumava ser muito bem visto entre os humanos, mas não era mais um humano. O problema era que agora podia ser visto então se considerar um era o mínimo. Pelo menos nesse caso quando o consideraria se o visse. ergueu a mão para tocar a campainha. Seria péssimo ser pego por ela dentro de seu apartamento, sem ser convidado, mas então fez uma careta ao se perguntar o que raios diria a ela quando atendesse. “Olá, você não me conhece, mas eu já passei bastante tempo te perseguindo por ai com meu amigo anjo, que você alias também não conhece. Sabe, acho que ele tem uma quedinha por você, então vim aqui, procurá-lo no seu apartamento. Posso entrar?”
Sem ter uma desculpa que parecesse minimamente plausível, levou a mão até a nuca e bagunçou o cabelos enquanto urrava em frustração.
― Aposto minha vida como esse idiota fez de propósito! ― exclamou, chutando o chão ao se referir a , mas riu envergonhado quando uma mulher que passava e ele não havia notado, o encarou de canto de olho. ― Desculpa, eu estou… Ahn… ― ele apontou para a porta de , mas então, ao perceber que aquilo não ajudava, fez uma careta que, por sorte, a mulher ignorou, seguindo seu caminho como se ele não tivesse dito nada, mesmo que ainda deixasse claro com o olhar que o estava julgando. ― Vou descobrir como matar um anjo só pra matá-lo. ― resmungou, agora baixinho, mas ao abaixar o olhar para o chão pôde ver uma moeda que ele decidiu ser um sinal para a atitude mais madura que poderia ter naquele momento: decidir o que fazer no cara ou coroa. pegou a moeda, e após olhar mais uma vez para os lados e se certificar de que não era observado, continuou. ― Cara eu entro, coroa eu bato. ― falou antes de jogar a moeda para cima e pegá-la no ar. Receoso, espiou com cuidado, temendo qualquer uma que fosse a solução. ― Coroa. ― suspirou em lamentação. Com aquele resultado deveria bater. ― Vou entrar. ― decidiu no entanto, sem dar a mínima para as próprias regras.
cuidadosamente girou a maçaneta e abriu a porta, se colocando para dentro com calma enquanto espiava todos os lados para ter certeza de que não estava ali. Ouviu o barulho do chuveiro e respirou aliviado, virando-se para fechar a porta atrás de si. olhou mais algumas vezes ao redor, para o espaço já tão conhecido devido às outras vezes que havia estado ali com para acompanhar , mas somente quando ouviu um estalar atrás de si, após endireitar a postura certo de que estava salvo, que caiu na real para a questão mais óbvia do dia: Se ele não podia ver , o que garantia que o outro não o estava seguindo durante todo esse tempo? Se não podia ver , não iria encontrá-lo mesmo que estivessem no mesmo lugar e ele só pensou em tudo isso porque se não podia vê-lo, então a pessoa atrás dele não era e como nunca saia da casa de , o que também não considerou, então era ela atrás dele.
apenas congelou no lugar onde estava, temendo virar para trás. Agora ela também podia vê-lo, a mulher que ele acompanhou por tanto tempo, e precisava de uma certa dose de coragem para conseguir virar de frente para ela. Por um instante ele até mesmo esqueceu que era um intruso, e que não deveria estar ali, mas quando ele fez menção de se mover finalmente apareceu, praticamente se materializando em sua frente. pulou de susto, mas a expressão divertida no rosto dele já estava ali antes disso.
― Você deveria começar a correr agora. ― falou ele, e franziu o cenho.
― Ahn? ― perguntou, mas já era tarde demais. O som de algo metálico se chocando contra a sua cabeça veio junto com a dor e ele se deixou cair ajoelhado no chão, segurando a cabeça enquanto gemia.
, , ! ― gritou, batendo novamente com o objeto metálico contra a cabeça do anjo enquanto se sentava no chão, de pernas cruzadas, para assistir a cena. Se tivesse como invocar pipoca em um estalar de dedos, ele certamente o teria feito. ― Tem um ladrão na sua casa!
― Eu não sou ladrão! ― tentou se defender, mas quando novamente fez menção de se virar, tomou outra panelada. E agora ele pôde ver a panela, sendo atingido perto do olho. ― Ah! ― ele gritou, e riu. ― Para de rir, ela vai me matar! ― gritou, e negou com a cabeça.
― Você não pode morrer, essa é a graça. ― ele respondeu, divertido. ― Até porque não morrer não quer dizer que não possa sentir dor.
deixou o queixo cair, ofendido, mas o grito de chamou sua atenção novamente antes que tivesse a oportunidade de responder:
, e ele é louco!
― Eu não sou louco! ― se defendeu e apenas riu outra vez. E nem era como se fosse fácil fazê-lo rir, o que só deixou ainda mais chocado que ele realmente estivesse se divertindo com aquela situação, tão preocupantemente dramática.
― Você está falando sozinho! ― ela devolveu, como se bater papo com um cara que acabara de invadir sua casa também fosse lá muito normal.
― Eu não… Argh! ― gritou quando se deu conta de que ela não podia ver e o outro apenas riu mais, só faltando jogar a cabeça para trás ao fazê-lo.
irrompeu o cômodo correndo após os gritos, com uma tolha ao redor do corpo e outra nos cabelos. Ela arregalou os olhos quando viu ali, ajoelhado no chão, e segurou a toalha com mais força ao seu redor enquanto desviava os olhos para ela.
― Meu Deus! ― ela exclamou, olhando de com a frigideira na mão, prestes a golpeá-lo novamente, para o garoto. ― O que você fez?
― Eu? Ele invadiu! ― gritou ela, chocada. ― Chama a polícia!
― Eu não invadi! ― devolveu no mesmo tom.
― Sinto em te informar, mas invadiu sim. ― respondeu por elas e ergueu o olhar para ele.
― Você está do lado de quem?! ― exclamou para o mais velho, que apenas riu novamente no primeiro instante antes de respondê-lo:
― Da razão. ― falou, claramente divertido. ― Não tenho pena de gente doida.
― Gente doida?! ― gritou. Ele já fazia muito aquilo, de gritar sem motivo. Quando ele tinha um, então, era pior, mas pelo menos fazia o momento mais engraçado.
― Mas com quem ele está falando? ― perguntou para que negou com a cabeça, fazendo uma expressão de como quem diz: “Eu te avisei”. ― Será que ele invadiu porque é louco e errou o apartamento?
― Eu não sou louco e nem errei o apartamento! ― respondeu exaltado. ― Nem é a primeira vez que eu venho aqui para errar. Só é a primeira vez que eu uso a porta!
E dessa vez realmente jogou a cabeça para trás para gargalhar, o fazendo tão alto que até mesmo pulou no lugar, assustando-se com o som. levou uma das mãos até a barriga, como se lhe faltasse ar para continuar rindo tanto, e se deixou cair deitado no chão, como se aquela fosse a piada do ano.
Quando notou dar um passo para trás e , receosa, apertar com mais força o cabo da panela, que percebeu a merda que tinha feito.
― Ah, droga. ― lamentou enquanto voltava a se sentar, limpando a lágrima que escorreu de um de seus olhos em meio as risadas.
― Se você tentou se ajudar, fez um péssimo trabalho. ― provocou, mas o ignorou quando voltou a falar:
― Não é a primeira vez? ― perguntou, olhando de relance para como se montassem juntas um plano não verbalizado para dar fim ao garoto.
nunca viu tão animado quanto naquele momento, quando também olhou para em expectativa.
― Bate, bate, bate, bate. ― pediu ele, e deixou o queixo cair ao encará-lo.
! ― exclamou em repreensão. ― Não bate não! ― gritou para ela, virando de frente para com as mãos para cima, ainda ajoelhado. ― Me deixa explicar!
― Eu pago pra ver você tentando. ― devolveu, esticando as pernas para frente como se tentasse ficar mais confortável para assistir aquilo e respirou fundo, sorrindo como se não tivesse escutado nada. Responder uma pessoa que elas não podiam ver não estava ajudando.
― O que você quis dizer com “não é a primeira vez?” ― gaguejou a pergunta, desviando o olhar brevemente para em seguida, o que fingiu não notar. Imaginou que fosse um sinal para que fosse atrás de um celular para ligar para a polícia e soube que tinha pouco tempo para convencê-las de que era um anjo, só precisava saber como. Lembrou-se imediatamente de suas mãos, que até então, ficavam sumindo, e riu de desespero quando notou que pela primeira vez desde que seu corpo se tornara físico, elas estavam bem ali, quietas e fixas no exato lugar onde deviam estar, mas que até então, não estavam ficando.
foi buscar o celular. ― avisou, agora em um tom de voz sério enquanto reassumia a postura de sempre. Ele cuidava de , mesmo do seu jeito rude ele cuidava e o mais novo sabia disso. ― Se for fazer alguma coisa, faz logo. Você não pode mais se materializar nos lugares e se for preso, vai ficar preso.
Sem dizer nada, concordou com a cabeça.
― Eu sou um anjo. ― confessou de uma vez, e quase se engasgou com a própria saliva ao ouvir aquilo.
― De tudo o que você podia dizer, sério que isso foi o melhor que encontrou? ― perguntou, perplexo, enquanto franzia o cenho. Se tinha dúvidas de que ele era louco, agora não tinha mais.
― Você tem alguma ideia melhor?! ― não conseguiu se conter novamente, e olhou sobre os ombros para encarar o outro.
― Até dizer que é um entregador de pizza e errou o apartamento seria melhor!
― E porque um entregador de pizza sem nenhuma pizza invadiria um apartamento? ― perguntou, esquecendo-se que não estava sozinho e de que ouvia aquela conversa. Ou pelo menos uma parte dela.
― Cara, você disse que é um anjo! ― exclamou. ― Pelo menos entregadores de pizza são reais!
― Anjos também! ― bateu o pé, como se convencer de algo fosse o foco e não a garota que lhe encarava confusa e ligeiramente assustada.
― As pessoas não sabem disso, ! ― retrucou, mas o mais novo apenas bufou.
― Mas somos anjos! ― voltou a insistir, exatamente como a pessoa que era e que não sabia argumentar muito bem. ― Sou um anjo! ― olhou novamente para , de súbito, o que fez com que a garota se assustasse, dando um pulinho para trás. ― Há alguns meses eu morri, então virei um anjo e agora fiz besteira então não sou mais um anjo. Meu amigo também morreu algum dia e…
― “Amigo” é um tempo forte demais. Eu sou obrigado a te aguentar. ― o interrompeu e bufou, vendo estreitar os olhos diante daquela reação.
― Cala a boca. ― devolveu sem desviar os olhos dela e quando a garota fez menção de abrir a boca, a interrompeu mais rápido. ― Isso não foi pra você, foi pra ele. ― explicou, sacudindo as mãos a sua frente como se isso fosse ajudar. ― Meu amigo, ele é um anjo. Eu posso vê-lo, mas vocês não porque, bom, os humanos não podem ver os anjos mesmo que eles andem entre vocês. Eu não quero fazer mal a ninguém, eu só estava atrás do meu amigo porque quando isso me aconteceu, eu parei de vê-lo também… ― mas interrompeu sua própria fala ao se dar conta de que sua teoria estava certa e estava se escondendo. Nunca havia sumido de verdade, ou ainda não poderia vê-lo. Subitamente chocado, ele se voltou novamente para que sorriu satisfeito ao notar que o outro finalmente havia entendido. ― Por que eu posso te ver agora, cretino?! ― gritou exagerado. Nada novo sob o sol. ― Estava só se escondendo de mim! Isso é culpa sua!
― A ideia de invadir foi só sua. ― se defendeu, como se fosse nada demais. ― E eu nem estava aqui de verdade, eu vim porque sabia que viria.
― Você é ridículo! ― gritou, e ele apenas sorriu, como se aquilo fosse o maior elogio que poderia receber.
― Nah, eu só gosto de apreciar as pequenas coisas da vida, como te ver passando por esse tipo de vergonha.
― Você tem sorte de estar morto ou eu te matava, Jeon . ― ameaçou, o que fez o outro rir mais uma vez.
― Adoraria te ver tentando. ― devolveu, mas se calou de imediato quando entrou novamente na sala, com um porta retrato nas mãos e os olhos assustados. Agora ela vestia um moletom três vezes maior que ela, comprido o suficiente para ser usado como vestido e toda a cor pareceu sumir do rosto de enquanto olhava para a garota. não pôde deixar de notar e estranhar a atitude.
― O que você disse? ― perguntou, segurando o porta retrato em frente ao peito enquanto a encarava com confusão.
― Eu… ― ele começou confuso, sem saber o que exatamente ela queria que ele repetisse. ― Repetir…? ― perguntou, mas a fala de chamou sua atenção:
. ― falou ele, seu nome completo, e o encarou. ― É disso que ela está falando, repete. ― pediu a um desconfiado. Agora ele não parecia estar brincando, mesmo que aquilo não fizesse qualquer sentido. ― Diz pra ela meu nome. ― insistiu, sem tirar os olhos de , e sentindo que havia mais ali, algo que ainda não sabia, o garoto concordou com a cabeça antes de se voltar para ela.
. ― falou, e viu a expressão dela ir de surpresa para espanto em um segundo.
― Ele já esteve aqui! ― exclamou ela para . ― Ele já esteve aqui e vasculhou as coisas, só assim pra ele saber esse nome! Eu vou ligar para a polícia…!
― Você não ligou ainda?! ― gritou para ela, chocada.
― Não liguei porque ele falou do , mas isso só prova que ele já esteve aqui, é um stalker!
― Não sou um stalker, não é o que você está pensando! Eu sou mesmo um anjo, ou era! ― gritou desesperado, agora um pouco mais do que antes. Se pelo menos sua mão colaborasse e voltasse a sumir, mas não! Claro que não! Estava até então sofrendo uma crise, temendo ser simplesmente apagado da existência então quando aquilo de ficar sumindo finalmente poderia ser útil, parou. ― Quem me trouxe aqui foi o , pra ajudar! ― tentou novamente, decidindo que, no momento, aquilo era o melhor que ele tinha.
― Para de falar dele! ― a garota gritou com o celular já na orelha, mas agora tinha lágrimas em seus olhos o que apenas deixou ainda mais assustado. Ele não sabia lidar com lágrimas. O garoto, em pânico, olhou para com uma enorme interrogação no olhar, mas tudo que viu em sua expressão foi tristeza, a mais pura tristeza que foi o suficiente para partir seu coração em pedacinhos, ainda que não entendesse o que estava havendo de fato ali.
― Você a conhecia em vida. Por que nunca me disse? ― perguntou suavemente para o cupido, mas fingindo não ter se abalado, desviou o olhar da garota e se focou apenas em .
― Vinte e dois de dezembro. ― falou e sem entender prestou atenção ao que ele dizia, em silêncio. ― Down Street com a Quatorze. Diz isso pra ela. Eu tenho certeza que ela nunca disse a ninguém o que foi fazer lá nesse dia. Vai provar que você diz a verdade. ― explicou, e tudo que o mais novo fez antes de obedecer foi concordar com a cabeça.
― Vinte e dois de dezembro. ― falou e ela tirou o telefone do ouvido imediatamente, encerrando a ligação tão devagar que pareceu um filme em câmera lenda. ― Down Street com a Quatorze, foi o que ele me pediu para dizer.
― Ela vestia o cachecol vermelho, ela nunca mais o vestiu depois disso. ― continuou, encarando um ponto qualquer no apartamento agora, como se revivesse a cena diante de seus olhos.
― Eu digo isso a ela? ― sussurrou, podendo sentir a tensão entre eles. Era um momento importante. Haviam sido importantes um para o outro e por isso ainda ia lá. Ele cuidava dela, e a acompanhava porque a amou em vida, tanto quanto ela o havia amado. Dava para ver isso em sua expressão, especialmente com o choque que a atingiu quando falou o que sugeriu.
― Diz. ― respondeu, e ergueu o olhar para , que aguardava o que quer que fosse a fala com ansiedade.
― Você vestia o cachecol vermelho e nunca mais o usou depois disso. Ele viu.
― Eu sei o que ela fez. ― continuou, e pigarreou quando sua voz soou embargada. ― Sei que ela acha que precisa de perdão até hoje, mas não precisa. Apoio a decisão que ela tomou e não seria certo que tomasse outra só porque eu morri. ― ele meneou com a cabeça para , como se pedisse para ele dizer aquilo em voz alta para ela, e o fez, palavra por palavra, e a garota cobriu a boca com a mão, em choque, enquanto lágrimas começavam a escorrer.
, o que está havendo? Do que ele está falando? ― perguntou ao notar que era sério. Pareceu prestes a largar a frigideira para ir consolar a amiga, mas ao olhar para outra vez achou mais seguro ficar onde estava. Ele parecia inofensivo, mas tinha problemas demais de confiança para simplesmente deixar para lá que ele era um estranho e que havia invadido o apartamento.
― Ela era jovem demais, ainda é. ― voltou a falar, chamando novamente a atenção de Jimim. ― Não daria certo. Especialmente sozinha. ― finalizou, e dessa vez não esperou a autorização para repetir, fazendo a garota chorar ainda mais.
― O que aconteceu no dia vinte e dois de dezembro, ? ― perguntou ao ver a reação da garota àquelas palavras e , dessa vez, deixou a panela de lado para seguir até ela e abraçá-la. Não se importando mais com o anjo que ainda se mantinha ajoelhado no chão. ― Do que você está falando?
― Dia vinte e dois de dezembro… ― suspirou, olhando com tristeza para a garota que se acabava em lágrimas nos braços da amiga. ― Dia vinte e dois de dezembro foi o dia que eu morri.00

II.

Com a primeira conversa que haviam tido, conseguiu provar que falava com os mortos, mas tanto quanto ainda não levavam fé naquela coisa de ser anjo. Pior ainda um anjo que joga bolinha colorida nas pessoas para encher seus corações de alegria. tentou, algumas vezes, explicar que era para colorir auras, mas isso não fez com que elas o levassem mais a sério, mesmo quando sua mão finalmente voltou a sumir (só depois de toda a conversa constrangedora, obviamente, fazendo com que ele se perguntasse se ela tinha algum pacto com para chateá-lo). Por fim terminou ali, preso ao carro com algemas cor de rosa que comprara em um sexy shop no dia anterior, especialmente para ele.
Humilhante era pouco e ele suspirou mais uma vez, insatisfeito, após reclamar pelo menos mil vezes enquanto se divertia mais do que em anos já havia se divertido.
Alguém tinha que tirar proveito daquela bagunça, afinal.
― Pelo menos você já pode dizer que realizou a fantasia de ser algemado por duas garotas. ― caçoou, sentado despreocupadamente no espaço ao seu lado no passageiro do carro, sem ser visto. bufou para ele, tranquilo ali, encostado no banco enquanto além de tudo precisava ficar inclinado graças as algemas presas longe demais.
― As vezes você soa mais insuportável do que o normal. ― resmungou mal humorado enquanto sorria.
― Eu sou ótimo. ― respondeu convencido.
― O que ele disse? ― quis saber, e enquanto as bochechas de coravam de vergonha ria, fingindo não se importar com o fato dela estar interessada no assunto só por ele estar envolvido. Mas claro que se importava.
― V… você não vai querer saber. ― gaguejou resposta, o que por si só já foi o suficiente para que ela entendesse o rumo da conversa entre os dois.
― Definitivamente. ― respondeu, apesar de um meio sorriso como se achasse graça e arregalou os olhos ao notar que ela havia entendido mesmo sem ele falar.
― Não! Não é isso que você está pensando! ― exclamou constrangido, mas a algema o impediu de se inclinar mais para frente, para chacoalhar os braços em um não como tentou fazer. ― Argh! ― resmungou para o novo acessório, o que só fez rir mais.
― Não estou pensando em nada. ― riu ao responder, e sorriu quase orgulhoso.
― Ela está sim.
― Você não está ajudando! ― gritou para ele, virando-se em sua direção sem se importar com o quão estranho aquilo soava para os olhos de quem via por fora e, no caso, não era capaz de enxergar ali.
― E por que eu ajudaria? Foi você que se colocou nessa. ― respondeu, e estreitou os olhos como se tentasse forjar certo ódio para encará-lo.
― Você é um péssimo amigo.
― Não sou seu amigo. ― devolveu e bufou, fechando a cara em um bico já que não podia cruzar os braços igual a uma criança.
interrompeu o assunto ao abrir a porta do carro, voltando a se sentar ao lado de no banco do passageiro sob os olhares atentos de todos, até mesmo . Ela tirou calmamente das mãos as luvas que as protegiam do frio e , obviamente, foi o primeiro a não conter a expectativa:
― Vai demorar muito? Ninguém está ansioso. ― falou de forma um tanto quanto irônica e somente quando a garota desviou o olhar para ele notou o que havia dito, se encolhendo constrangido no lugar e fazendo com que , em retorno, revirasse os olhos.
― Patético.
― Insuportável. ― mostrou a língua para ele, ou para o nada no caso das garotas que não viam o outro anjo, e estreitou os olhos por isso.
― Você tem noção do quanto isso é estranho? ― ela perguntou e ele sorriu sem graça. Aquela era sua reação sempre que a garota lhe dirigia a fala, ainda não acostumado a ter aquela atenção dela. nunca, jamais, esperou que isso fosse acontecer. Ele queria, claro, mas tinha em mente que não aconteceria. Tanto que ainda ficava sem reação sempre que via os olhos dela sobre ele, sabendo que agora era visível para ela.
E pior que isso só o fato de ser obrigado a concordar quando ela o chamou de estranho.
― Dá pra imaginar. ― suspirou, e piscou duas vezes como se não esperasse que ele de fato concordasse.
― Os dois, foco. ― estalou os dedos em frente a , que só então se lembrou do que haviam ido fazer ali e pulou no lugar antes de começar a falar:
― Achamos o cara! ― exclamou em uma animação que fez se assustar, dando um pulinho no lugar. mais uma vez revirou os olhos, mas ignorou, fazendo bico quando riu dele, achando graça na atitude. ― Eu estou certa disso. ― afirmou em seguida, virando-se para encarar que desviou o olhar.
Era, definitivamente, estranho poder falar com ela. Existia certa satisfação nisso, claro, mas ele tinha medo das consequências quando tivesse que ir, voltar a ser anjo. Vê-la e não poder conversar seria ainda mais difícil do que já era. E agora ela saberia também que ele estava lá, mesmo que talvez não fosse fazer diferença nenhuma para ela saber, o que também o perturbava. O que era pior, ela saber e não ligar, ou saber e se perguntar se ele estava ali, sem nunca poder ter a confirmação concreta?
Pensar naquilo era uma tortura e ele não parava de pensar.
sabia que sua condição não era boa. Agora sua forma já voltara a falhar, junto com o vazio que ele sentia aumentar em seu peito o tempo todo. Sabia que precisava recuperar sua energia perdida para ficar bem, antes que desaparecesse de uma vez, mas tinha aquela pontinha de sua consciência o lembrando de que, se recuperasse, voltaria a ser um anjo fadado a segui-la.
Era triste, era uma condição triste, mas era isso ou morrer de uma vez, sem chance de voltar mesmo após cumprir sua missão. Alguns dias ali em troca de sua vida era um preço alto demais, por mais que quisesse alguns dias.
― Então ele mora mesmo aqui? ― perguntou, o trazendo de volta de seus devaneios, e agora olhou para ela para responder que sim, meneando com a cabeça.
O homem que havia pego a energia de usava uniforme de uma companhia elétrica. Como eles atendiam em áreas, não foi difícil achar o cara, especialmente quando tinha um amigo que trabalhava lá. Parecia trabalho de agente da CIA, mas a verdade é que foi bem fácil encontrar o homem e se a teoria de todos estivesse certa, era só recuperar a energia de e pronto, ele parava de sumir. Isso pelo menos pelo ponto de vista dele, pelo menos, já que para as garotas isso só faria com que ele sumisse de vez, mesmo que ainda existisse.
Mais uma vez, triste. Muito triste.
― Mas a parte mais difícil vai ser entrar lá pra pegar isso. ― falou, fazendo uma careta enquanto olhava para a casa do homem. E aquilo nem parecia uma casa, era mais como um barraco caindo aos pedaços. No mínimo suspeito para alguém que tinha um trabalho fixo.
― Vocês pretendem entrar lá? ― perguntou horrorizado enquanto se remexia desconfortável no banco ao seu lado, inclinando-se para frente interessado no assunto agora, com a mesma preocupação que expressou ao saber daquela parte do plano.
― Diz que não. ― falou para ele. ― Elas não podem entrar lá. Isso nem parece uma casa.
― É claro que não. ― o respondeu. Tentou se inclinar mais para frente também, mas as algemas não permitiram muito e ele bufou. ― Vocês não podem estar mesmo pensando em entrar lá! ― exclamou, e se virou para encará-lo.
― Você tem uma ideia melhor?
― É claro que não, mas entrar lá definitivamente não pode nem ser considerado como ideia. É horrível. ― devolveu, e ela revirou os olhos. ― Não me olha assim. ― a repreendeu, esquecendo-se do pudor. ― Não ouviu a parte onde eu disse que ele é mal? Foi por isso que não funcionou nele e ele pôde pegar a energia. Ele é mal. Uma pessoa má. Você não pode considerar entrar lá sozinha!
― Eu não vou entrar, eu vou bater na porta.
― Ah, melhorou muito! ― ele devolveu de forma irônica, mesmo que não tivesse realmente pensado em agir daquela forma. Talvez estivesse andando demais com o . ― E vai dizer o quê? Oi, tudo bom? Você por acaso andou roubando a energia de um anjo?
― Eu posso pedir informação, dizer que estou perdida. Ou pedir ajuda porque meu carro quebrou aqui em frente. ― sugeriu e , ao lado de , passou uma das mãos pelo rosto, inconformado.
― A ingenuidade dela me comove. ― falou ele. ― Como alguém consegue ser mais ingênuo que você?!
― Está mais para burrice. ― o respondeu inconformado e só depois se deu conta do que havia dito, virando-se para ele. ― O quê? Você me chamou do quê?
― Isso também. ― devolveu, ignorando sua pergunta.
― Está me chamando de burra? ― interrompeu a conversa, esticando-se para estapeá-lo como se fossem duas crianças, mas a puxou de volta. ― O que ele está dizendo? ― quis saber.
― Ele está tão inconformado quanto eu com essa ideia. Pessoa má. Ele não vai ajudar a menos que tenha outros planos. Como estupro, roubo, já pensou nisso?
― Está bem, está bem! ― ela concordou, bufando em seguida. ― Foi só uma sugestão. ― retrucou emburrada.
― Uma péssima sugestão. E realmente ingênua. ― concordou, e repetiu com a voz afetada, cruzando os braços após revirar os olhos.
― Que horror, ela é definitivamente sua versão feminina. ― falou com uma careta enquanto olhava para ela e olhou feio.
― Cala a boca. ― respondeu e apenas deu de ombros de forma despreocupada antes de ficar inteiramente tenso. , notando algo errado, o encarou com uma interrogação no olhar, mas uma batida leve no vidro do carro, ao lado de , o fez pular no banco. A garota também se assustou de início, assim como , mas suspirou aliviada, com a mão no coração, quando viu a pessoa do lado de fora. Isso no primeiro instante pelo menos, antes de mudar a expressão para pouco caso e descer o vidro.
, ! O que estão fazendo por aqui? ― ele perguntou e franziu o cenho desconfiado e ligeiramente enciumado com o uso do apelido da garota.
― Quem é você? ― perguntou imediatamente, inclinando a cabeça para o lado a fim de vê-lo melhor. Era um cara bem afeiçoado, e não parecia muito mais velho que as duas, porém bem mais alto. Muito alto. O suficiente para dar dois ’s, porém só alguns centímetros mais alto que . Atlético, bem vestido, e gostou ainda menos dele por isso.
. ― o rapaz respondeu, mas estreitou os olhos ao notar a algema rosa ao redor do pulso de . ― Por que você está algemado no carro?
― Foi a forma que encontramos de realizar as fantasias dele. ― respondeu e deixou o queixo cair.
― O quê?! ― perguntou, suas bochechas corando com a vergonha trazida com a afirmação. ― Eu não… Eu nunca…
― Então por que está gaguejando? ― ela perguntou divertida, o encarando outra vez, e ele ficou momentaneamente sem fala.
― Eu não… Porque é constrangedor dizer isso para um estranho! ― exclamou por fim após recuperar a fala e ela riu da sua falta de jeito.
é tão estranho quanto você. ― respondeu, deixando-o ainda mais perplexo.
― Você está falando esse tipo de coisa para um estranho?!
― Eu não sou tão estranho assim… ― devolveu cabisbaixo e sorriu forçado.
― Infelizmente menos do que eu gostaria. ― murmurou, baixo o suficiente para que o rapaz ao seu lado não entendesse, mas ainda tinha uma audição um tanto quanto privilegiada e ficou satisfeito com a fala.
― O quê? ― perguntou, mas negou com a cabeça.
― Nada não. ― respondeu indiferente, mas fez questão de compartilhar o que havia escutado, obviamente. Podia ter a mentalidade de uma criança, mas certamente uma criança do mal mesmo sendo um anjo.
― Ela disse que preferia que vocês fossem estranhos. ― explicou. ― Acho que alguém não é tão querido assim… ― cantarolou divertido.
― Disse isso? ― perguntou para , que não fez muita questão de negar.
― Você nunca vai saber. ― respondeu, e o rapaz fez um bico inconformado.
― Para com isso, os dois. ― repreendeu, inclinando-se sobre para conseguir falar com o rapaz. ― , mora por aqui? ― questionou, e ele pareceu feliz em ter atenção.
― Sim! ― respondeu rapidamente, com um sorriso o rosto. Ele exalava certa inocência e apesar de não poder mais ver auras para reconhecer seu temperamento, não tinha qualquer dúvida de que a dele era azul claro. Era quase como se pudesse sentir. era puro e alegre, o tipo de cara que deveria deixar satisfeito por se envolver com , mas não era como se o monstrinho do ciúmes tivesse alguma lógica. ― Há uma quadra daqui, na verdade, mas por aqui. ― explicou, e quis revirar os olhos quando também sorriu.
― Sabe alguma coisa sobre essa casa? ― apontou com a cabeça para o imóvel mais a frente. Ele não seguia o padrão de residência das casas ao redor. Enquanto todas eram simples, porém arrumadas e bem cuidadas, a dele era um barraco, praticamente.
franziu o cenho.
― Por que o interesse? ― perguntou ele com certa desconfiança.
― Tem algo de errado com a casa? ― perguntou ao notar sua reação e se aproximou mais para sussurrar a próxima fala:
― Dizem que é um traficante. ― respondeu, e agora prestou atenção na conversa, quase rindo de desespero.
Só faltava essa, definitivamente. Seu pozinho de felicidade nas mãos de um traficante. Simples assim. Ele virou para o lado, pronto para olhar para com o mesmo desespero que sentia, e ficou em choque ao notar que o outro não estava mais ali. nem notou quando ele sumiu.
― Como assim um traficante? ― perguntou a , sem conseguir esconder o seu espanto, e olhou para os lados antes de continuar:
― Dizem que ele criou uma nova droga, que traz felicidade para os usuários. É um pozinho colorido, parece que cada pessoa vê de uma cor, como se ela trouxesse para cada um o que ele precisa. ― explicou, endireitando-se em seguida para assumir outra vez a postura anterior. ― Não que eu saiba algo sobre isso, claro. ― falou já em seu tom normal, voltando a sorrir docilmente. ― Só ouvi por ai.
― Jesus. ― resmungou, sentindo sua pressão despencar ao ponto de até mesmo sentir-se meio tonto. Teve a sensação de que sua forma tremeluziu e ficou em alerta. Olhou primeiro para para ter certeza de que ele não havia notado, mas encontrou o olhar de sobre ele ao invés disso, com uma expressão triste e a testa ligeiramente franzida em preocupação.
“Vai ficar tudo bem” ― os lábios dela formaram a frase sem que nenhum som escapasse e ao notar a surpresa que aquilo causou em , ela sorriu, deixando o garoto mais uma vez sem reação.
― Anjo na verdade. ― respondeu, e a atenção de e imediatamente se voltaram para ele, sendo despertados por aquela afirmação.
― C… como assim? ― perguntou receoso, e riu como se não fosse nada demais.
― Ele está chamando a droga de “Pó de Anjo”. ― explicou. ― E pretende dar uma festa para inaugurar as vendas. Foi assim que eu descobri tudo isso.

+++

sentia como se todas as suas definições de “crise existencial” tivessem sido atualizadas. Jogado no chão do apartamento de com os braços e pernas abertos, ele sentia sua forma vacilar, mas lutava para ignorar apesar do vazio que sentia sempre que isso acontecia.
A verdade era que aquilo acontecia cada vez com mais frequência agora. só não sabia se o motivo era sua esperança de recuperar a energia se esvaindo ou a distância cada vez maior de uma possibilidade de resolução favorável para o problema.
E para piorar, havia sumido de novo. Se com motivo ou só porque decidiu fazer alguma coisa mais importante, nem imaginava. costumava ser um tanto quanto instável normalmente, mas ele ainda assim não podia evitar de sentir certa dose de preocupação. Por mais instável que ele fosse, era um momento complicado demais para que simplesmente virasse as costas para , ou para o problema. Não combinava com ele, nenhuma das duas coisas, e não saber onde o outro havia se metido não ajudava em nada a tranquilizá-lo.
… ― ouviu lhe chamar, e abriu os olhos sem se mover. Ela estava de pé ao seu lado, de banho recém tomado. Se lhe perguntassem, diria que ela cheirava a sonho, tanto quanto ele se sentia em um sempre que ela lhe dirigia a palavra e o fazia crer que aquilo tudo era verdade, que ela realmente o via e podia falar com ele. ― Eu sei que você não pode ficar doente, mas o sofá costuma ser mais confortável. ― ela brincou, mas apesar do sorriso, ela o encarava com certa melancolia, como se estivesse triste com a situação, tanto quanto ele.
estava sumindo, afinal. Em um segundo estava visível e no outro não, e ele não podia deixar de esperar o momento em que simplesmente não voltaria mais.
― Eu ainda sinto o frio quando sumo. ― explicou sem desviar o olhar dela, com o cabelo caindo sobre os ombros e um pijama branco com estampa de unicórnios coloridos, nada semelhante com a mulher profissional que ela demonstrava ser durante o dia, mas que combinava perfeitamente com a pessoa que ela era de verdade, por dentro, mas que poucos podiam ver. ― De alguma forma me sinto melhor assim, em poder sentir alguma mesmo quando acho que não vou mais voltar.
suspirou com a fala, soando realmente triste com ela. Sem dizer mais nada por um instante, ela se aproximou sob os olhares atentos dele e se deitou a sua esquerda, ficando de lado para poder olhar direito para .
― Dói? ― ela perguntou com um sussurro, erguendo uma das mãos para tocar o rosto do anjo. sentiu que a região sumiu naquele exato momento, e vacilou com a mão no ar, mas durou só um segundo, tempo necessário para se recuperar da surpresa antes de voltar a se aproximar, tocando o rosto de com delicadeza que o fez piscar por mais tempo que o necessário antes de finalmente respondê-la:
― Não, não dói. ― afirmou, o fazendo no mesmo tom usado por ela. estava perto demais, o suficiente para que ele sentisse sua respiração, e até mesmo a ouvisse. Perto o suficiente para que ele fosse capaz de ver a pintinha discreta que ela tinha no rosto e perto o suficiente para que temesse assustá-la, ou fazer com que fugisse. ― É apenas uma sensação de vazio, sempre que uma parte some. ― explicou, olhando diretamente para a garota que concordou com a cabeça antes de tirar a mão de sua face. a encarou, mas desviou o olhar para sua camisa, deixando que ele lhe analisasse por alguns segundos. E foi exatamente isso que ele fez, apenas observou cada pedacinho de seu rosto, desejando poder guardar tudo que pudesse daquele momento em sua memória, para quando voltasse a ser um anjo ou, quem sabe, morresse de vez. ― Acredita que eu estou falando a verdade agora? ― não resistiu em perguntar. ― Que eu sou um anjo?
― Eu sempre acreditei. ― ela respondeu, erguendo o olhar para ele enquanto sorria fraco. Triste, de certa forma, como se sofresse tanto quanto ele com o que estava acontecendo. ― Não achou mesmo que eu fosse largar tudo para ir atrás da sua história se não acreditasse, achou?
acreditou, pensei que fosse por ela.
― Não foi. ― ela respondeu, desviando a atenção para a manga de sua camisa, com a qual passou a brincar como se evitasse encará-lo. ― Eu sentia alguém sempre comigo. ― confessou, e sentiu a surpresa cair sobre ele no mesmo segundo. ― Era como uma boa energia sempre comigo, um quentinho no coração, e aquela sensação de nunca estar sozinha. Mas de uma forma boa, não ruim, como se um anjo me guardasse, e eu senti isso em você assim que apareceu. ― ela se voltou novamente para ele, agora sorrindo. ― Meu anjo. ― sussurrou a última fala, divertida, e riu com a surpresa em sua face. ― Não pareça tão chocado. Você mexe com o dia das pessoas, afeta seu humor. Elas podem não entender, mas sentem algo. E eu sentia. Quando você falou, foi como se tudo fizesse sentido e por isso decidi ajudar. Não quero que você morra, . O mundo precisa de você, e do que você faz. Você traz alegria, e luz. Faz com que as pessoas não se sintam sozinhas. Você traz esperança. Não merece que nada de ruim te aconteça, especialmente quando mais uma vez, só tentou ajudar. ― falou, deixando-o sem falas enquanto tentava assimilar tudo aquilo. ― Não sei se dizer que você é uma ótima pessoa está certo, mas gostaria muito de ter tido a oportunidade de te conhecer em vida, . Tenho certeza que já era um anjo antes disso.
Quando ela terminou, sentia coisas demais dentro de si para conseguir entender todas elas de uma só vez. O tempo todo, pôde senti-lo, e não havia satisfação maior no mundo do que aquele reconhecimento, vindo dela que com certeza era uma das pessoas que mais lhe importava naquela realidade.
Não a tinha conhecido em vida, mas a ligação que sentia com ela em morte era forte, real, e inexplicável. Ouvir aquelas palavras era tudo o que ele precisava, mas com o fim tão próximo, soavam apenas como seu presente de despedida. Um dos seus desejos finais antes de partir de uma vez por todas.
E agora ele estava ainda menos preparado para o fim do que antes.
― Me conhecer em vida não teria adiantado. ― disse por fim, quando finalmente conseguiu juntar as letras em sua cabeça para que formassem palavras conexas. ― Eu morri cedo antes, e agora também. Talvez eu só seja péssimo nisso, em viver. ― se lamentou. ― O mundo não é fácil e isso não é pra qualquer um.
― O único erro que você pode ter cometido, , é em ser bom demais para esse mundo. Eu te conheço há vinte e quatro horas e já posso dizer isso.
― Mas isso não muda o fato do que vai acontecer. ― ele respondeu cabisbaixo, e ela suspirou. ― me avisou dezenas de vezes, mas fiz assim mesmo e agora…
― Nós vamos dar um jeito. ― ela respondeu com uma confiança que ele definitivamente não tinha em si mesmo. ― vai trazer alguma novidade sobre a festa e enquanto ela acontece, recuperamos sua energia. É um ótimo plano dessa vez. ― falou convencida, e se permitiu rir, mesmo que fraco.
― Melhor que o primeiro, definitivamente. ― ele brincou, e ela riu também por isso, estapeando seu ombro em sinal de brincadeira.. ― Se acreditava em mim, por que me algemou?
― Anjos não deveriam existir. ― ela devolveu, respondendo a sua pergunta. ― Posso parecer maluca, mas disso pelo menos eu sei. Não sabia até que parte era verdade e que parte era apenas minha imaginação, mas não tem mais como negar agora.
― Acho que não. ― ele respondeu, virando de lado assim como ela, para que pudessem ficar deitados frente a frente. Por vários instantes, não disseram mais nada e não se importou com o silêncio. Ainda era difícil acreditar que aquilo tudo era verdade e se ele conseguisse superar aquilo, queria poder sonhar com aquele momento, com ela. Queria poder lembrar do seu perfume adocicado e do formato de seus lábios. Mas ela estava perto o suficiente para que pudessem se tocar e foi exatamente isso que ela fez, chamando sua atenção. encontrou sua mão com a dela no pequeno espaço entre eles e a segurou, brincando com os seus dedos mesmo quando eles não podiam ser vistos. ― Você ainda consegue me sentir quando minha mão some? ― perguntou baixo. Não era necessário falar mais alto daquela distância.
― Posso. ― ela falou, mas de alguma forma ele soube que ela mentia. Não sabia dizer porque, mas imaginou que ela faria aquilo para confortá-lo.
― Pode me dizer a verdade. ― pediu, e ela suspirou antes de negar.
― Em um segundo é você, e no outro só ar. ― confessou, e ele concordou com a cabeça.
― Era de se esperar.
― Nós vamos dar um jeito, . ― ela respondeu com convicção, e ao apertar com mais força sua mão, a imagem dela se firmou, como se a confiança dela sobre aquilo surtisse algum efeito. Ela sorriu ao erguer o olhar para ele, e fez o mesmo, mas o som da porta sendo aberta bruscamente fez com que eles se separassem de imediato.
― Obrigada pela ajuda, já pode ir. ― praticamente fechou a porta na cara de antes de suspirar aliviada por ter se livrado dele, encostando-se na porta como se aquele fosse o ponto alto do seu dia. ― Céus, ele é tão amorzinho que me irrita as vezes.
― Na maior parte das vezes, no caso. ― devolveu divertida, agora já sentada no chão ao lado de que apenas voltou para a posição inicial, jogado de barriga para cima, olhando de ponta cabeça para . Ela olhou para , e assim como provavelmente faria, suspirou por paciência antes de voltar a falar com :
― Na maior parte das vezes. ― respondeu a amiga. ― A bondade dele me irrita.
― Chama amor reprimido. ― devolveu, e lhe encarou ofendida.
― Nem em um milhão de anos. ― respondeu, mas a fala de ainda repercutia na mente de , que agora prestava o dobro de atenção no assunto.
e , amor reprimido. Como se faltasse exatamente aquele empurrãozinho, como a flecha de um cupido. se sentou ao pensar aquilo, ficando de costas para as meninas. Seu coração doía pelo companheiro apenas em cogitar aquela possibilidade. Não seriam tão cruéis em dar a ele a missão de fazer com que se apaixonasse por outra pessoa e o esquecesse, seriam?
não estava ali desde que aparecera pela primeira vez, então fazia sentido, mais do que gostaria que fizesse na verdade.
Só então assimilando o que havia dito e lembrado de , levou uma das mãos até a boca.
― Oh, desculpa! E… ele está aqui? ― perguntou a . A reação do anjo para a fala fazendo com que ela imaginasse que estivesse. ― Eu… É difícil lembrar dele quando você não está falando sozinho.
― Ele não está. ― respondeu rapidamente, girando para ficar de frente para , ainda parada na porta, mas agora branca como um papel. ― Ele não ouviu. ― garantiu, e ela concordou com a cabeça, parecendo mais aliviada.
― Eu descobri algo, com o . ― disse por fim, e ajeitou a postura imediatamente, pronto para ouvir o que quer que fosse.
― A festa vai ser amanhã. ― falou ela, deixando-o ansioso. ― E já tenho um plano pra recuperar tudo.

III.

havia trocado o chão pelo sofá, por insistência de , mas a crise existencial persistia embora agora ele só pensasse em . Ele esperava estar enganado, pois se não estivesse, aquela seria a história de amor mais triste do mundo.
havia saído para buscar comida enquanto ia atrás de roupas que incluíssem na sociedade, já que ele usava vestimentas brancas que nem de longe seriam aceitáveis em uma have no meio da noite.
Ele estava sozinho, o que lhe dava muito tempo para pensar, mas foi nesse instante que apareceu, de súbito em uma entrada no mínimo triunfal que fez pular no lugar, sentando-se de imediato.
, onde esteve?! ― perguntou espantado, mas o outro apenas caminhou calmamente em sua direção, sentando-se no espaço ao seu lado no sofá. ― Eu achei que não podia mais te ver. Por que foi embora daquela maneira?
― Você faz perguntas demais.
― É o ? ― perguntou, e viu o outro ficar inteiramente tenso, mas não respondeu nada. ― Não me diz que eles são sua missão, por favor. Isso seria cruel demais.
― Seria, mas não é da sua conta. ― devolveu de forma rude, mas isso foi resposta o suficiente para e, sinceramente, também justificava toda a pose amarga do outro anjo. Qualquer um seria amargo naquela posição.

― Eu não preciso de pena, . ― ele respondeu rapidamente, incomodado com aquela atitude, e lutou para se controlar. Conhecia bem o suficiente para saber que aquele compadecimento não o agradaria. precisava poder desabafar, mas não o faria com se este mantivesse aquela atitude.
― Desculpa. ― pediu, cruzando as pernas em forma de índio sobre o sofá. ― falou algo sobre os dois, e , que deixou claro o que estava acontecendo. Eles são sua última missão, não são? Antes que você possa partir?
ficou quieto por um instante, como se pensasse se respondia ou não, mas por fim acabou suspirando.
― São. ― respondeu, e lutou para não demonstrar nenhuma reação que o irritasse mais. não ia ficar satisfeito, e instável como estava com aquela situação, era capaz de simplesmente sumir de novo. ficou em silêncio, e esperou ansiosamente que o outro continuasse, mas não o fez. Desistindo, voltou a se sentar direito no sofá, virado para frente, e só então continuou, quando ele já não mais esperava que o outro o fizesse. ― Eu morri em um acidente de carro. ― começou, e o encarou com atenção. ― Tinha muito gelo na pista, um motorista perdeu a direção e bateu no meu carro, então fui jogado para baixo de um caminhão. Foi um acidente horrível, eu não tive tempo nem de tomar um susto ao ver o caminhão se aproximar antes de morrer. Em um segundo eu estava no carro e a luz dos faróis do caminhão me fizeram fechar os olhos. No outro, quando abri novamente, estava na Down Street com a Quatorze e via seguir sozinha no frio com o cachecol vermelho ao redor do pescoço. Não tentei chamá-la, sabia que estava morto de alguma forma inexplicável, então só a segui. Ela parecia desconfiada e amedrontada, olhava de um lado para o outro e eu soube que havia algo errado antes mesmo dela chegar ao seu destino. estava indo para uma clínica clandestina de aborto. ― com aquela fala, não conseguiu controlar o choque e se virou imediatamente para encarar . Era uma confissão um tanto quanto íntima aquela. O suficiente para que o anjo não estivesse preparado para ouvir, mas fingiu não notar a reação exagerada, não movendo um músculo da posição em que estava, encarando um ponto aleatório a sua frente como se revivesse a cena em sua mente. Ou quem sabe diante de seus próprios olhos. ― Normalmente esses lugares pedem que a pessoa vá com um acompanhante, mas não tinha ninguém além de mim e ela não quis me contar. Não sei por que, se ela tinha medo que eu a impedisse ou se apenas não queria que eu compartilhasse aquela culpa com ela, mas a deixaram sozinha para voltar para a casa, sem estar recuperada. Praticamente a jogaram no meio da rua e foi quando ela quase morreu e o hospital tentou seu contato de emergência que ela soube que quem havia morrido era eu. Dois dias depois.
, isso é… Horrível. ― expressou, sem ter palavras melhores para exemplificar seu choque. Era uma história cruel. Tão cruel quanto jogarem para ser sua última missão.
― Eu sei. ― respondeu apenas. ― E assistir tudo isso sem poder fazer absolutamente nada é ainda pior. Estar lá, quando ela mais precisava de alguém, mas não fazer nenhuma diferença porque ela não sabe que você estar lá. Querer oferecer algum conforto, mas não poder. ― lamentou, passando uma das mãos pelo cabelo como se revivesse aquilo ao contar a história. ― Ela ficou dias internada. Pela complicação do aborto e porque não parava de chorar mesmo quando dormia por algumas horas. Ela conheceu depois, e ela foi literalmente o anjo de , quem ela precisava para melhorar. a salvou, mesmo com esse jeito um tanto quanto doido e histérico. A amizade delas se desenvolveu tão rápido, da noite para o dia, e foi tão forte que eu só podia acreditar que ela foi mandada como um presente para . Quando ela apareceu, eu já tinha minha missão. O próximo casal vinha conforme eu juntava outro e no começo eu era muito bom nisso. Até chegar o último. Se era um teste eu falhei miseravelmente. Acho que essa parte ficou bem óbvia. ― suspirou, e finalmente se moveu, apenas mudando o foco para olhar para baixo, agora para uma de suas mãos pausada em seu colo. ― Sabe o que é pior? ― ele riu sem humor, e dessa vez sentiu sua voz falhar por um instante, antes que ele continuasse. Aquilo partiu seu coração. ― é perfeito pra ela. Ele é bobo, talvez até um pouco idiota, mas é puro. Ele… ele é uma pessoa boa, do tipo que não se vê mais no mundo. Ele é o tipo de pessoa que coloca o bem estar dos outros na frente do seu, que se dedica a quem ama, e que ama intensamente. Ele tem a aura mais limpa que eu já vi, mais azul que a sua até… ― parou por um instante, e fingiu não notar a lágrima que ele deixou escapar quando disfarçou para limpar. ― é melhor do que eu jamais seria e talvez por isso eu o odeie tanto. Ele só faria bem para ela, e se eu fosse bom, terminaria logo com isso, mas eu não sou. Sou egoísta, e fraco. Tenho medo de deixá-la ir e tenho medo de ir também.
tentou pensar em algo para dizer, qualquer coisa que pudesse confortá-lo, mas a verdade era que não tinha como. estava morto e vivo. nunca mais poderia ter a garota, ser visto por ela, ou tocá-la. sabia como doía, gostar de alguém que nunca poderia ter, mas pior que isso era já ter tido, e saber o que havia perdido.
Agora estava fadado a entregá-la a outra pessoa, ou se torturar em acompanhá-la de longe sem que ela soubesse. Era um destino cruel, e ele nem imaginava como qualquer um pudesse merecer aquilo, especialmente .
olhou para ele com tristeza, mas antes que descobrisse o que dizer, a porta foi aberta e entrou com a comida.
― Não diz que eu estou aqui. ― pediu. ― Vou ficar caso precisem de ajuda, mas não diz que eu estou aqui por enquanto, por favor.
concordou com a cabeça sem dizer nada, e pela primeira vezes desde que conhecera , o ouviu agradecer por alguma coisa.

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não estava, nem de longe, confortável com a idéia de deixar ir sozinha pra casa do traficante. Tudo bem, ela tinha um anjo ao seu lado, literalmente. E , talvez, fosse lerdo demais para cumprir sozinho sua parte da missão, mas ainda assim soava como uma péssima ideia para ele, mesmo que o traficante estivesse ali na festa com ele e e não em casa, onde estaria com .
E se o homem tivesse feito uma armadilha imperceptível que decapitasse a cabeça de qualquer um que pisasse na casa além dele? Era uma possibilidade plausível. Pelo menos pra . foi com ela para avaliar o local antes que entrasse, para evitar esse tipo de coisa, mas não estava muito confiante quando, bom, eles não conseguiam se comunicar. Talvez com um tabuleiro ouija, mas não era como se eles tivessem tempo para isso.
Na verdade também não tinha nenhuma ideia se o tabuleiro funcionaria, ele só estava ansioso e preocupado. Já tinha muita gente morta naquele grupo, não precisavam de mais um.
virou de súbito para , e antes que ele abrisse a boca, ela respondeu a pergunta que ele não teve oportunidade de verbalizar:
― Não, eu não vou ligar pra ela de novo, . Ela está bem.
― Mas e se aconteceu alguma coisa? ― questionou aflito, e o segurou pelos ombros para que parasse quieto e lhe escutasse.
, me escuta. ― falou, fazendo com que ele a encarasse. ― Ela está mais segura do que nós porque ele ― fez com que o anjo se virasse na direção do traficante, que passava um saquinho brilhante discretamente para uma mulher ao seu lado. ―, está aqui. ― completou. ― Ela só precisa recuperar a fonte, nós temos que recuperar todos esses saquinhos.
― Sobre isso… ― ele parou, fazendo uma careta enquanto pensava. ― Temos um plano para recuperar tudo? ― perguntou, e ela concordou com a cabeça.
― Você é o plano.
― Eu sou o plano? ― questionou , e ela suspirou como se buscasse paciência do além. via muito aquilo em , e novamente não pôde deixar de notar a semelhança no temperamento dos dois.
― Você não acha que ele te ensinou a sentir sua energia a toa, né? Por que tínhamos muito tempo a perder? ― comentou com certa dose de ironia, e deixou seu queixo cair.
― Ah… ― falou, como se tudo fizesse sentido agora, e ela acabou rindo enquanto passava um dos braços sobre seu ombro.
― Vamos lá, menino anjo. O que você sente? ― perguntou, esperando que ele colocasse em prática o que havia aprendido com .
respirou fundo, e se concentrou em um ponto qualquer, apenas para manter o foco. Aos poucos, ele foi eliminando as pessoas ao redor, a gritaria e agitação. Ele eliminou a música alta, e as luzes piscando, até que não sobrasse ninguém ali, nem mesmo , até que fosse capaz de ver apenas os pequenos pontos coloridos aqui e ali, dos pacotinhos já vendidos. Por sorte ainda eram poucos. Ele se concentrou um pouco mais, e se permitiu ver cada uma das pessoas com o pózinho, mas desistiu em seguida. Era uma pequena quantidade, o suficiente para uma dose, duas, no máximo. Eles usariam e a droga seria absorvida da mesma forma que aconteceria se os atingisse com ele. O que o preocupava mais era os vinte saquinhos com o homem e, pior ainda, os outros que ele sentia perto. Pelo menos uns cinquenta escondidos.
― Ele escondeu aqui perto, uma quantidade maior. ― falou para ela, deixando que tudo voltasse. ― Está lá fora, talvez um carro?
― Provavelmente um carro. ― ela concordou, olhando ao redor. ― Não lembro de ter visto seguranças no estacionamento, podemos arrombar o carro e pegar.
― O carro deve ter sistema de alarme. Ele não seria burro de deixar lá sem isso, seria?
― Eu não seria. ― ela respondeu apenas. ― Se você chegar perto, acha que consegue a localização exata de onde está dentro do carro? ― ela perguntou e ele concordou. ― Então vamos ter que ser rápidos. Só que não vamos poder voltar, temos que dar um jeito nos outros antes.
― São poucos. O efeito vai passar e o problema se resolve sozinho. Nós precisamos dar um jeito nos outros e principalmente na fonte.
está cuidando da fonte, então só precisamos quebrar o vidro do carro. Não parece tão difícil.
― Isso até o alarme disparar e chamar a atenção de metade do mundo. ― retrucou, mas na falta de uma idéia melhor, seguiu em direção à porta que dava para o estacionamento, junto com que já seguir para lá sem esperá-lo.
― Eu já disse, só precisamos ser rápidos. ― disse enquanto ele acelerava o passo para acompanhá-la, lado a lado.
― E se ele chegar em tempo de anotar a placa do carro quando estivermos fugindo? ― questionou ainda assim. Tinha aquela voz em sua mente gritando que aquilo tinha mais chances de dar errado do que certo, mas aparentemente, não era a melhor pessoa para por juízo na cabeça de ninguém:
― Cobrimos a placa. ― sugeriu, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
― Isso não é crime? ― ele perguntou com uma careta e ela deu de ombros. estreitou os olhos para ela. Nunca imaginou que um dia ele seria o mais ajuizado em qualquer situação.
― Roubar um carro também. ― argumentou ela.
― Vamos roubar só o que está dentro do carro, não um carro. E tecnicamente, o que está dentro é meu.
― Não sei se a polícia vai aceitar um “tecnicamente esse pó de anjo é meu”. ― ela respondeu com a voz afetada e ele suspirou vencido, até porque, não tinha exatamente como defender a atitude.
― A polícia vai nos prender por furto e contrabando. ― disse o óbvio, abaixando atrás de um carro assim que saíram da boate e avistou o carro do homem, podendo sentir a energia vindo lá de dentro como se gritassem para voltar ao seu dono de origem.
― O que você está fazendo? ― ela perguntou, lhe encarando da mesma forma que fazia sempre que tomava alguma atitude estúpida e o anjo, já acostumado com aquele tipo de olhar, segurou sua blusa para puxá-la para baixo também, junto com ele.
― Ai, minha roupa! ― ela gritou, o estapeando duas vezes antes de se focar em arrumar a blusa que ele tirou do lugar.
― Não grita! ― exclamou aflito, e cobriu a própria boca ao notar que havia feito exatamente o que pediu para que ela não fizesse.
― Por que isso tudo, ?! ― ela perguntou, descrente e confusa, e ele tirou a mão da boca para respondê-la:
― Porque seria ótimo se ninguém desconfiasse da gente! ― devolveu e ela revirou os olhos inevitavelmente.
― Ah, porque soa muito bem duas pessoas escondidas atrás de um carro enquanto observam outro! ― ela retrucou, e ele resmungou simplesmente porque aquilo fazia sentido.
― Finge que está passando mal. ― sugeriu, e ela bufou.
― Não faz nem dez minutos que a festa começou, não tem como eu já estar caindo por ai!
― Quando eu estava vivo as pessoas começavam a beber já no caminho. E não faz tanto tempo assim que eu morri. Meu corpo ainda está fresquinho. ― comentou e ela fez uma careta, enojada.
― Argh. ― resmungou, tremendo como se sentisse um arrepio. ― Que detalhe desnecessário.
― Provavelmente. ― foi obrigado a concordar, mas não se importava muito de verdade. Não era novidade pra ninguém que ele estava morto.
― Dá pra focar no que viemos fazer?! ― perguntou, o estapeando mais uma vez, e levou uma das mãos para a região atingida.
― Para de gritar! ― praticamente gritou, sem se dar conta. ― E de me bater também!
― Então para de ser estúpido! ― ela devolveu, não se importando em gritar outra vez. ― Não tínhamos que ser rápidos?! Faz logo o que viemos fazer!
Contrariado, voltou a se concentrar, ainda com a mão segurando o braço dolorido, mas não deu qualquer indício de se importar.
― Fundo falso no porta malas. ― respondeu de uma vez assim que conseguiu colher a informação e ela jogou os braços para o alto, como de dissesse “finalmente!”.
― Eu vou pro carro, cubro a placa, e quando eu te der okay, você vai quebrar o vidro para abrir o porta malas. Quando você tiver tudo, fugimos.
― Isso está soando estranhamente fácil.
― Não é fácil. ― ela respondeu. ― Você tem que ser rápido entre quebrar o vidro e dar a volta no carro. Pode ter também algum cadeado no fundo falso, ou algo que dificulte as coisas. Vai precisar de algo para quebrar uma fechadura se houver, e de força.
fez um careta com essa segunda parte, e olhou para os próprios braços, como se analisasse os próprios músculos, fazendo um bico insatisfeito como se só então notasse não ter nenhum.
― Em uma escala de zero a dez, de quanta força estamos falando? ― ele perguntou, mas ao invés de respondê-lo ela deu as costas revirando os olhos, e seguiu para o próprio carro, o fazendo com que o anjo suspirasse.
Enquanto esperava que ela fizesse o que tinha que fazer, olhou ao redor, procurando por qualquer coisa que pudesse usar como arma. Tinha algo em mente, mas não era como se fosse simples simplesmente encontrar um pedaço de ferro por ai. Talvez fosse justamente pelo fato de poder ser usado como arma, mas era só uma suposição, é claro. Andou por ali, mas parou ao ouvir um assovio. Era e ele a amaldiçoou pela falta de descrição, mas foi até lá, até porque, ela provavelmente faria um escândalo para chamar sua atenção se ele não ouvisse.
― Você é louca? Eu achava que a intenção era não chamar atenção. ― ele sussurrou ao se aproximar, mas ela ignorou o desespero, estendendo para ele uma chave de fenda. A maior que ele já havia visto. ― De onde você tirou isso?
― Do meu decote. ― respondeu sarcástica, mas quando ele estreitou os olhos, sem entender, ela respirou fundo, como se buscasse paciência para explicar. ― Da minha caixa de ferramentas, . Todo mundo tem uma caixa de ferramentas no carro em caso de emergência, mesmo que não sabia usar.
Ele olhou novamente para a chave, chocado com o tamanho, e depois para ela.
― Você claramente não sabe só por ter um negócio desses. ― resmungou. ― Eu tenho certeza que nenhum carro tem uma peça tão grande pra ser retirada com isso.
― Ela vai ser útil agora, não vai? Deveria agradecer por eu ser uma pessoa prevenida.
não achava que “prevenida” era a palavra mais adequada, mas optou por não fazer mais nenhum comentário sobre isso. Ele deu as costas para ela, pronto para seguir em direção do outro carro, mas parou ao se dar conta de algo, voltando-se novamente para ela:
― E se tiver câmeras aqui? ― perguntou. ― Você não pode participar. Eles podem ver a placa do carro ao voltar as gravações, antes de você cobrir.
― Não tem câmeras. Isso mal é um estacionamento e essa boate é clandestina. Ninguém vai fazer nada.
― Você não pode ter certeza.
, já me viram com você. Estamos há minutos conversando aqui. Já era. E quanto mais tempo perdemos, pior, porque o cara pode vender o que tem e vir buscar mais. Precisamos ir logo.
― Certo. ― concordou, mesmo ainda não se sentindo totalmente confiante. Olhou ao redor mais uma vez, para cima, como se procurasse câmeras, mas era impossível saber sem uma verificação mais profunda, o que eles não tinham tempo de fazer.
foi até o carro, e após contar mentalmente até três ele quebrou a janela, fazendo com que o alarme soasse. Foi ai que a correria começou. destravou o porta malas, e correu até lá para abri-lo. Havia algumas coisas ali, caixas vazias, e ele não precisou olhar uma a uma para saber. Ele sentia que, pelo menos, o que precisava não estava em nenhuma delas, então afastou todas e sem vacilar puxou para cima o tapete que forrava o fundo. Sem nenhum tipo maior de proteção, encontrou embaixo apenas uma cordinha que, ao puxar, revelou exatamente o que ele precisava.
― Isso. ― comemorou, sorrindo animado ao vê-las brilhar mais forte, como se sentissem sua presença.
, rápido! ― ouviu chamar, e olhou para trás. Um homem na porta esticava o pescoço para ver o que acontecia, como se procurasse o carro cujo o alarme soava.
Apressado, pegou uma das caixas vazias e começou a jogar os saquinhos lá dentro, tentando se manter ligeiramente abaixado como se aquilo fosse impedir que o homem o visse.
― Estão pegando algo de dentro daquele carro, não estão? ― o homem perguntou, e arregalou os olhos, tentando acelerar o que fazia quando finalmente saiu com o carro.
― Vamos, vamos! ― ela gritou, e terminando de uma vez o que fazia, bateu o capo para fechá-lo antes de correr de encontro ao carro de , entrando rapidamente do lado do passageiro sem soltar a caixa por um só segundo.
Sem ao menos esperá-lo fechar a porta, arrancou com o carro dali enquanto um dos homens corria em direção ao carro com o celular em mão. Ele tentava fotografar a placa coberta e gargalhou alto ao notar isso ao olhar pelo retrovisor. a acompanhou.
― Caramba eu não acredito que isso deu certo. ― ele riu, em um misto de alívio e nervoso, mas seu riso cessou quando ele viu o dono do carro sair da boate após ser avisado. ― Ai droga, ele saiu. Liga pra , ela precisa sair de lá agora!
― Meu celular, na bolsa atrás, pega meu celular! ― respondeu em alerta agora, e deixando a caixa no chão do carro, se inclinou para trás para buscar o aparelho no local indicado.
localizou o celular sem dificuldade, e voltou para frente. Olhou pelo retrovisor para se certificar de que não estavam sendo seguidos, pelo menos por enquanto, e foi nesse instante, exatamente nesse instante, que ele sentiu.
Foi como se uma corrente de eletricidade passasse por todo o seu corpo. Começou bem da ponta de seus pés e subiu por baixo de sua pele com um leve formigamento. olhou para suas mãos em tempo de ver sua forma sumir e voltar gradativamente, como se ela se firmasse ali novamente, se solidificasse, e de alguma forma ele soube: tinha conseguido, ela tinha encontrado o que foi procurar e apenas isso já foi o suficiente para que ele voltasse, como se o simples fato de uma pessoa boa possuir sua energia fosse o suficiente para que sua existência parasse de ser colocada em prova.
E foi ai que ele arregalou os olhos.
, o que houve? ― perguntou, mas ele mal foi capaz de ouvir sua fala.
Ele sentia que algo havia mudado, aquele vazio de antes não existia mais, aquela sensação de que poderia sumir a qualquer momento e como se para provar isso, até mesmo sua forma parara de vacilar.
Sem responder a pergunta da garota, segurou o número um na discagem rápida, já cansado de saber que aquele seria o telefone de . Quando ela atendeu, após o primeiro toque, se adiantou falado antes dela:
― Você pegou. Conseguiu, não conseguiu? ― disse de imediato e ela concordou do outro lado rapidamente.
― Sim! É tão lindo! ― falou, maravilhada. ― E brilhante!
sorriu ao ouvir, sabia que sim, por mais estranho que fosse o fato dela conseguir pegar e tocar na energia, vê-la, e não simplesmente consumi-la. Era o que acontecia quando pessoas boas entravam em contato com a energia. Ela era absorvida e sua aura era colorida. Pelo menos era assim quando jogava a energia nelas e se perguntou se era isso que estava faltando.
Era novo demais naquela coisa de anjo para entender o que estava acontecendo, mas independente disso, via uma possibilidade ali, uma grande possibilidade que o deixou totalmente nervoso por não saber se era o certo a se fazer.
― O que ela está dizendo? ― perguntou enquanto dirigia o carro pelas ruas, mas o garoto a ignorou.
, me escuta com atenção. ― falou ele, e a notou ficar séria pelo tom de voz usado quando murmurou um “uhum” para ele em retorno. ― E… eu acho que tem um jeito de… ― ele parou por um instante. Se dissesse em voz alta seria real e a euforia o consumia por isso. Ele queria, sabia que queria, mas não soava certo. Era trapaça, não devia por mais que quisesse. Ele não devia. ― , eu acho que tem um jeito de eu ficar aqui. Eu, no caso, ficar aqui. Nesse plano. Voltar. ― assim que ele disse isso, arregalou os olhos e o encarou.
― O… o quê? ― gaguejou do outro lado, assustada e um tanto quanto surpresa.
― Eu acho que pode ter um jeito de voltar, mas eu precisaria de você. ― explicou, mesmo que ainda de forma vaga. Ele precisava da ajuda dela pra fazer aquilo, sim, mas mais que isso, ele precisava que ela apoiasse a ideia de alguma forma. poderia até não saber, mas o maior motivo pra querer voltar, com certeza, era ela. E isso também não soava certo. Deveria fazer aquilo só por si próprio, não deveria? Então porque só conseguia pensar em ficar por ela quando a ideia o deixava tão animado?
acompanhou aquela garota por meses, sabia cada uma de suas manias, cada um de seus gostos. Sabia tudo que a irritava, e tudo que a deixava feliz. Conhecia sua rotina e diariamente se dedicava em deixar seus dias melhores mesmo que ela não soubesse disso. a amava de uma forma que não deveria amar, pois era um anjo enquanto ela era mortal.
― Eu quero ficar. E acho que sei como. ― começou novamente, mas ela não respondeu nada, esperando que ele continuasse quase como se soubesse que ele tinha mais além daquilo para dizer. ― Só que… Se eu ficasse…
, não. ― o interrompeu, como se soubesse o que tinha a dizer, e o fato de negar afundou não só seu coração, mas como também todas as suas esperanças. ― Eu sei o que você vai falar, e não pode ser assim. Não pode ser esse o motivo. ― explicou ela, deixando claro que sim, ela havia entendido.
Tinham tido poucos momentos juntos e eram isso, momentos que não significavam nada. Pelo menos não para ela. sentiu-se decepcionado, mas lutou para pensar que, pelo menos, nunca mais se veriam. Ou nunca mais seria visto por ela, o que já era um progresso visto que foi ele quem se humilhou, basicamente. Levou apenas cinco segundos para que ela continuasse sua fala, os cinco segundos mais lentos de sua vida, quase como se durassem uma eternidade, mas ele ficou mais calmo quando ela continuou:
― É uma escolha muito importante pra ser tomada pensando em outra pessoa além de si mesmo, . É você quem tem que querer isso, por você. Sua felicidade aqui não pode depender de ninguém.
suspirou, não esperando por aquilo, por mais que ela tivesse razão. E se ficasse por ela e não desse certo? Como se sentiria?
Mas a verdade era que aquela coisa de ser um anjo era solitária. tinha agora, mas porque estava em treinamento. Sua missão, na verdade, deveria ser cumprida só por ele, sozinho, e vagar por ai sem ter com quem conversar ou não poder fazer absolutamente nada era mais do que entediante. Ser um anjo era um saco, e começar uma vida novamente, do zero, com certeza seria difícil, mas ainda assim era melhor do que ser condenado a sabe-se lá quantos anos de solidão.
― E… eu quero. ― gaguejou, mas não porque não tinha certeza e sim porque aquela possibilidade era real, a de voltar, a de ser humano de novo e viver. Viver intensamente, aproveitar tudo que não tinha aproveitado no seu curto tempo de vida. ― Eu quero voltar.
― Então eu fico feliz em ajudar, . ― ela respondeu, e ele soube que ela sorria mesmo sem vê-la, fazendo com que ele sorrisse junto. ― E pode até ficar com a gente até conseguir se adaptar novamente. ― ofereceu, fazendo sorrir. ― Vou ficar feliz em te ajudar.
― Eu agradeço por isso. ― falou sincero, não conseguindo conter a emoção com suas palavras.
― Patéticos. ― revirou os olhos, mas ele não se importou, especialmente quando voltou a falar:
― Me diz, o que eu preciso fazer pra que você fique? ― ela perguntou, e ele se ajeitou melhor no banco antes de explicar.
― Preciso que esconda a energia, e nunca me conte onde. ― falou, certo de que aquela era a solução. ― Só esconda em um lugar seguro, enterre, qualquer coisa, mas não me conte onde, e nem pra ninguém. Só você pode saber e mais ninguém, então ele estará seguro.
― Só isso e você fica? ― ela quis saber, e ele concordou com a cabeça, com o coração cheio da mais pura esperança.
― Se eu estiver certo, sim. ― respondeu ele, suspirando pela expectativa. ― Assim que você a tocou eu pude sentir. Você não tem más intenções e isso foi o suficiente para que eu parasse de sumir, então… Então se ela ficar aqui, mas não comigo, eu acho que pode dar certo. Acho que vai me permitir ficar, .
― Certo. ― ela falou, como se pensasse. Dava para notar em seu tom de voz que sua ansiedade era tão grande quanto a dele, e ficou satisfeito só por isso. Ela podia não confessar, pelo pouco tempo que tinham tido, mas ele sabia que ela também queria isso. podia sentir. ― Então um lugar onde também podemos recuperar na pior das hipóteses, no caso de não dar certo.
― Isso seria ótimo.
― Já sei onde. ― ela riu, como se a ideia a deixasse animada. ― Eu sei onde, eu… Eu vou esconder! ― e sem esperar que ele encerrasse a ligação ou dissesse qualquer coisa, o fez, levando tão a sério sua missão que o fez rir.
― Você acha que… Acha que tem um jeito dele voltar também? ― perguntou no instante seguinte, a voz três tons mais baixo enquanto ela se referia claramente a .
A expressão de murchou.
― Não. ― o próprio respondeu, se materializando subitamente no banco de trás. pulou de susto, mas percebeu, pela esperança que viu surgir nos olhos de , que ela soube que era ele ali.
― Ele está aqui? ― ela perguntou, repentinamente animada. ― Ele sabe como voltar? ― quis saber, mas tudo o que fez, foi esperar que ele falasse.
― São situações diferentes. Não tem como, e você sabe. ― explicou para ao notar que ele também tinha esperanças daquilo, que também acreditava em um final feliz para ele.
― Eu sei, mas podemos tentar descobrir um jeito.
― Não, . ― negou enquanto olhava para a janela do lado de fora e levou alguns segundos para que ele se voltasse novamente para o anjo no banco do passageiro. ― Talvez nós pudéssemos tentar, talvez nós pudéssemos buscar alguma forma disso acontecer, mas de que maneira isso é justo? Está na hora de eu aceitar que morri, e deixá-la seguir em frente.
― Não precisa ser assim, . ― lamentou cabisbaixo, deixando alarmada.
― O que ele está dizendo, ? ― ela perguntou eufórica, tendo certa dificuldade em se concentrar em e na rua a sua frente enquanto dirigia.
― Se eu tivesse feito o que já devia ter feito, ela teria seguido com a vida. Ela estaria bem com o , feliz. Olha o que eu fiz, eu a impedi de viver e a mantive presa em um passado que não tem como voltar. Eu a mantive todo esse tempo presa a mim, uma pessoa que já morreu. Isso não é certo, . Eu preciso aceitar, e deixá-la ir para que eu possa fazer o mesmo e só posso torcer para que vê-la feliz seja o suficiente pra doer menos. Ou que pelo menos o “descansar em paz” venha agora pra não ver nada disso.
… ― o chamou com a voz embargada e somente ao encará-la e ver seu rosto molhado, notou que ele próprio deixava uma lágrima escorrer, denunciando a ela o que acontecia. ― O que ele está dizendo? ― perguntou, e com tristeza no olhar, ele apenas negou com a cabeça, fazendo com que a garota irrompesse em lágrimas.
― Peça pra encostar o carro, vocês vão acabar se machucando. ― pediu, e repassou o recado que imediatamente obedeceu. ― Ela vai ficar bem, diga isso a ela. Vai ficar muito melhor agora com uma nova pessoa para amar. Alguém bom de verdade, que vai apoiá-la e amá-la tanto quanto eu podia ter amado. Pode contar toda a história para ela, e eu espero que ela consiga me perdoar. Não queria causar problema, não queria que ela sofresse, eu só tinha medo de partir de vez. Eu tinha medo de ser esquecido. Fui egoísta, eu sei. E não justifica dizer que foi por amor, mas foi. Diga a ela que eu a amei de verdade, e que se tiver alguma coisa depois disso, que eu vou amá-la também.
… ― falou, sem se importar mais em esconder suas próprias lágrimas. Não havia passado tanto tempo assim com , mas o suficiente para amá-lo, por mais amargo que o outro fosse. tinha sua própria forma de amar as pessoas, de demonstrar afeto, e entendia, assim como entendia também que era considerado um amigo por ele, como entendia que por mais chato e reclamão que fosse, ele também estava satisfeito em ter uma companhia.
. ― interrompeu a fala que provavelmente não conseguiria continuar e sorriu, apesar de ser um sorriso um tanto quanto melancólico e até meio triste. ― Você foi muito inteligente, eu fiquei orgulhoso, e espero que guarde bem essas palavras porque mesmo que eu tenha oportunidade, nunca mais vou repetir. ― falou para o anjo, que lutou contra as lágrimas para encará-lo sem que elas embaçassem sua visão. ― Se tem alguém que merece viver, esse alguém é você, . Já passei por tantos anjos e nenhum jamais chegou tão perto de ser realmente um anjo. Nenhum jamais passou perto de toda a sua bondade, e do seu amor pelo próximo. Nenhum nunca teve tanta disposição para fazer o seu trabalho e ninguém jamais o fez pensando apenas no bem que isso causava ao próximo e não em si mesmo, porque precisava fazer isso para finalmente descansar. Lá em cima nada é ao acaso, . Eu tenho certeza que se você não merecesse, jamais deixariam que esse seu plano fosse em frente, mas é inteligente e se tem alguém no mundo que merecesse essa oportunidade é você, por isso está tendo.
― Você não tem o direito de me dizer tudo isso agora. ― choramingou, irrompendo em lágrimas novamente e sorriu, mesmo que seus olhos vermelhos denunciassem que aquilo estava sendo tão difícil para ele quando para o outro.
― Tenho sim. ― respondeu, puxando de algum lugar atrás de si uma flecha. Era linda, provavelmente o objeto mais bonito que já havia visto. Tinha cerca de trinta centímetros, totalmente dourada com a ponta vermelha. Havia um coração um pouco mais acima e algo como penas no topo, também vermelhas, e todo o conjunto reluzia de forma brilhante. ― É uma despedida e essa é a última flecha. Usei a outra em ontem e hoje… Hoje, ela.
separou a ponta da flecha do resto do cabo e a sacudiu levemente contra sua própria mão, despejando nela um pó vermelho que brilhava três vezes mais do que os que usava para colorir auras. Repentinamente, um aroma adocicado preencheu o lugar e se amor tivesse cheiro, definitivamente seria aquele.
O rapaz se inclinou para perto da garota, e apenas assoprou o pó próximo de seu rosto, fazendo com que ela fechasse os olhos como se sentisse que ele fazia algo.
caiu em um choro intenso assim que ele terminou, e sorriu brevemente pra ela antes de se afastar e olhar uma última vez para conforme sua imagem já vacilava.
― Não se esqueça de passar o recado. ― pediu ao garoto. ― E boa sorte.
desapareceu diante de seus olhos, e o fato de ter feito isso sorrindo não fez com que a tristeza no coração de fosse mais branda. Ele não precisou dizer para o que houve, pois ela entendeu mesmo sem que nenhuma palavra fosse dita. Ela chorou por isso, mas da mesma forma como acreditava que nada lá em cima era ao acaso, acreditou que o final feliz de se iniciaria agora, pois não podia aceitar que alguém fosse punido por amar demais. Não quando o sentimento era tão verdadeiro ao ponto de sobreviver daquela forma, como o dele tinha sobrevivido.
Ele e teriam um final feliz, assim como com apesar dela não saber disso ainda. Mas se isso aconteceria, era graças a um sacrifício muito maior, o de , e nada mais justo que o seu final feliz também chegasse agora, mesmo que fosse numa próxima vida.

Nota da Autora:
Mais uma fic que saiu quase como um parto, mas no final, ameeeei! Hahaha Obrigada a Vicky pela ajudinha com o plot que estava mais do que confuso! XD
Like ever, nem tudo pode ser feliz comigo né, então apesar dos PPs, tivemos outro coitado pra sofrer, sorry. Hahahah Se serve de consolo, e espero que sirva, eu tbm sofri com ele! Eu queria, real, escrever uma trilogia sobre o , mas acabou que nunca aconteceu.
Enfim, espero que tenham gostado e vou deixar aqui meu grupo de leitoras e meu twitter caso queiram encontrar as outras fanfics que eu já escrevi. E não esqueçam de comentar, pls.

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