Vipers

Vipers

Sinopse: “Nunca ame uma pessoa a ponto de esquecer a verdade sobre ela.”
Ela nunca se esqueceu das palavras da mãe, naquele doloroso presságio.
Ele era membro dos Vipers – as víboras de Seoul – e um dos criminosos mais conhecidos da cidade e, ainda que soubesse a verdade sobre ele, o amava. Sempre o amaria.
Gênero: Romance, drama, máfia
Classificação: 16 anos
Restrição: Violência
Beta: Alex Russo

Capítulos:

UM

“Let me die first or I’ll die twice”

Quando o visor do celular exibiu o nome há tanto tempo não pronunciado foi como se um cubo de gelo escorresse pela garganta da mulher, congelando suas entranhas de um modo que a fez se curvar e apoiar as mãos nos joelhos, respirando fundo antes de recusar a ligação. Ela podia pensar em poucos motivos que levariam a lhe procurar, e nenhum dos cenários que sua mente foi capaz de formular lhe agradava.
— Doutora, a senhora está bem? — uma enfermeira tocou brevemente em suas costas, e a mulher se afastou num sobressalto. Era exatamente aquele estado de alerta que a simples lembrança do sobrenome lhe trazia. E esse era apenas mais um dos motivos que fizeram com que fechasse todas as portas daquele passado a sete chaves, anos atrás.
— Sim! Claro! — ofegou, desenhando um sorriso forçado nos lábios enquanto sentia o celular vibrar mais uma vez entre seus dedos, fazendo com que precisasse conter o impulso de jogá-lo na parede e fazer com que se calasse de uma vez por todas — Você pode checar o paciente do leito 8 pra mim, por favor? Acho que a sonda pode estar obstruída… — conseguiu dizer, respirando com alívio quando foi deixada sozinha mais uma vez. Não que isso fosse de fato motivo para alívio, quando o nome de seu ex cunhado seguia aparecendo na tela do celular insistentemente.
No momento da terceira ligação ela já sentia o desespero nublando seus olhos e jogou o celular sobre a mesa do conforto médico, orando aos céus para que ele desistisse, mas quando a tela se iluminou pela quarta vez, fazendo o coração da mulher se apertar dentro do peito diante da única razão plausível para ter insistindo tanto, deixou que os dedos trêmulos pegassem o aparelho sobre a mesa, prendendo a respiração por um momento antes de enfim atender à ligação.
? — a voz do homem soava algo entre temerosa e aliviada, quase como se não acreditasse que ela, de fato, atendia. Por Deus, ela mesma não acreditava naquilo.
— O que houve, ? — perguntou, a voz tão trêmula que se surpreendeu por ele ter compreendido. Cobriu os lábios com uma das mãos a fim de evitar um soluço, prevendo o que ouviria a seguir.
— É o , . — ele disse sob a respiração, e a menção do nome do homem que mais amara em toda a vida foi o suficiente para que sentisse um lamento engasgado escapar de dentro dela, direto seu coração partido.
Era como ter seu pior pesadelo concretizado, aquele que rondava sua mente durante todos os anos que passaram juntos, e mesmo hoje, longe dele: o medo de perdê-lo, tão intenso e devastador quanto a certeza de que isso fatalmente aconteceria.
— Como? — a palavra saiu de seus lábios em um murmúrio, enquanto tentava secar as lágrimas que só então percebeu ter deixado escapar.
— Moony… — a voz de era tão afetuosa quanto o uso do apelido, quando ele completou — Ele está vivo.
O alívio que preencheu cada centímetro dos 1,70m da mulher era tão revigorante quanto doloroso, como se cada nervo fizesse questão de atestar o fato de que ela também vivia. Talvez fosse só uma questão de ter perdido a prática – antigamente, ela costumava passar por aquilo mais frequentemente do que gostaria de se recordar. Pensando melhor, não era tão diferente assim da sensação que costumava ter sempre que ele voltava de algum lugar. Muitas vezes não inteiro, mas vivo. E para , isso bastava. Tinha de bastar.
— Você não podia ter começado por aí? — conseguiu dizer depois de alguns segundos, franzindo o cenho e brincando com um fio solto no sofá de couro para distrair as mãos que ainda tremiam. A risada de soou do outro lado e era tão familiar que parecia um soco no estômago: os compartilhavam do mesmo riso que parecia carregar sempre um toque de melancolia. Era quase como se soubessem que cada risada poderia ser a última.
— Eu disse que ele está vivo, . Não que está bem. — respondeu, e os dedos da mulher apertaram com mais força o braço do sofá, arrancando o fio com força desnecessária — Armaram pra ele. Alguém de dentro.
— Ninguém seria louco de fazer isso, . — A mulher franziu o cenho, sua voz não passando de um murmúrio enquanto checava se permanecia sozinha dentro da sala — Não com ele.
— Muita coisa mudou desde que… — ele fez uma pausa, e correu os dedos pelos cabelos, sentindo a dor de saber a que ele se referia — O pai está morto. Ele é o chefe agora. — contou, e a mulher sentiu seu estômago se afundar um pouco mais: a sensação que tinha àquelas palavras era a de que o perdia novamente. O que poderia ter restado de agora? De seu ? — Estamos em Incheon. Viemos tratar de negócios no porto e…
— Por que você ligou, ? — A mulher apoiou a testa em uma das mãos, tendo um pressentimento cada vez pior com relação àquilo. Não queria ouvir mais nada.
— Os filhos da puta realmente pegaram ele dessa vez, . Eu já fiz o que podia… — As palavras fizeram morder os lábios até sentir gosto de ferro na ponta da língua — Tem… Tem tanto sangue. — suspirou, e ali a mulher percebeu o medo: e eram um. Ela podia imaginar um cenário trágico sem os dois sobre a face da Terra, mas jamais um em que apenas um dos irmãos vivesse — Levar ele pro hospital está fora de questão. — completou, como se lesse os pensamentos da mulher.
, eu não sei como eu posso… — começou, sendo prontamente interrompida.
— Nós precisamos de você, . — a voz de carregava um desespero que ela não se lembrava de já ter ouvido antes — Eu não queria ter que te pedir isso, mas você é a única pessoa em quem eu confio agora. Em quem ele confia. — completou, e as lágrimas formadas nos olhos castanhos da mulher escorreram, enquanto uma série de memórias preenchia sua mente: não importava quão fortemente tentasse se afastar daquele mundo, era sempre arrastada de volta para aquele caos. Para .
, eu não tenho como fazer isso… — ela podia ouvir o desespero na própria voz, enquanto sua mente trabalhava rápido desenhando os desfechos possivelmente trágicos que toda aquela história poderia tomar. A mulher era capaz de pensar em uma dúzia de princípios éticos que quebraria caso aceitasse aquele pedido, e a escolha seria fácil caso do outro lado da balança não pesasse a vida do homem que mais amara em toda a vida. Céus, que ainda amava.
, eu estou implorando. — tentou mais uma vez, e os olhos da mulher cerraram diante da sinceridade daquelas palavras. Os não imploravam. Ela se lembrava da única vez que o fizera, e a simples recordação ainda era capaz de lhe causar uma dor quase física: um pequeno lembrete, alertando-a para o que sentiria caso ele, de fato, morresse sem que ela movesse um dedo.
— Onde foi o tiro? — perguntou, e a mudança em seu tom era tão clara que demorou um segundo a responder — Onde foi o tiro, ? — voltou a perguntar, começando a cortar os corredores do hospital o mais discretamente possível até o almoxarifado, trabalhando ao máximo para não levantar suspeitas diante de seu comportamento.
— No peito. Ele não consegue respirar direito. E um de raspão. —respondeu, e pela primeira vez pensou ter ouvido um gemido no fundo da ligação — Fica firme, . Ei, olha pra mim… Não fecha os olhos, tá entendendo?
Merda… xingou em frustração quando a maçaneta não abriu na primeira tentativa, sentindo o desespero aumentar a cada minuto — Anota tudo pro leito 5, sim? — murmurou para a funcionária que tomava conta do controle de insumos enquanto pegava tudo o que imaginava que seria necessário: equipo de soro, jelcos, fios de sutura, dreno de tórax e analgésicos — Fala comigo, , de quanto sangue estamos falando? – completou, pegando o material de intubação que orava aos céus não precisar usar, ou teria um problema sem solução em mãos.
— Um litro, talvez… — o homem respondeu, depois de checar o estado do banco de couro onde estava o irmão — Ou um pouco mais. — completou, a voz cada vez mais tensa.
— Ele está consciente? — perguntou, apertando o botão do elevador uma dezena de vezes, assistindo à luz descer lentamente ao longo dos andares, fazendo com que buscasse as escadas, correndo pelos degraus como se sua vida dependesse disso.
De certo modo, dependia.
— Está. — respondeu, e acenou minimamente, agradecendo a Deus por aquilo.
— O mantenha acordado. — orientou, e naquele instante não tinha dúvidas de que os olhos de eram, sem dúvidas, a única coisa capaz de lhe acalmar o coração — Acabei de te enviar o endereço.
— Eu chego em dez minutos. — respondeu, francamente aliviado — … — começou, mas ela o interrompeu sabendo que o que quer que ele dissesse, traria as lágrimas de volta a seus olhos, e não choraria enquanto não tivesse de volta sobre as duas pernas.
— Ele vai ficar bem, . — a mulher respondeu, jogando tudo que tinha nas mãos dentro do carro, arrancando tão rápido que quase carregou a cancela do estacionamento consigo — Ele sempre fica. — suspirou, constatando que havia mais daquele mundo nela do que gostaria, enquanto avançava um sinal vermelho.
Por um instante, ecoaram em sua mente as palavras que ouvira tantas vezes na voz grave de , sempre coroadas de um sorriso que lhe causava arrepios: “eu preciso morrer antes, . Ou seria como morrer duas vezes.”
— Hoje não, … — murmurou para si mesma, acelerando enquanto cortava a noite em direção ao caos para o qual parecia ter sido criada — Hoje não.

DOIS

“You know I’m no criminal, but I can take your heart and go.”

precisava agradecer ao fato de ter chegado tão rápido ao consultório, ou ela provavelmente teria tido tempo de raciocinar sobre o que fazia: aquela história inteira era uma grande insanidade. Desde o fato de ter concordado em atender um baleado fora do hospital, até a questão crucial de quem era o paciente em questão.
não era apenas um ex namorado que a mulher tentava, sem sucesso, esquecer que um dia existira. Era o líder dos Vipers, gangue que detinha a maior parte do controle sobre o tráfico de drogas e armas em Seoul, e cujas víboras eram o símbolo devido a sua letalidade e falta de rastros. E experimentara tudo aquilo de camarote, de dentro do ninho das cobras.
Assim, no momento em que abria a porta do consultório, dando passagem para que carregasse para dentro o corpo ensanguentado do irmão, não apenas dava cobertura um criminoso conhecido em toda a península coreana: Ela destrancava um passado turbulento, colocando-se frente a frente com seus próprios demônios.
não disse uma palavra. Céus, ele não precisava. Qualquer um minimamente familiarizado com o primogênito dos poderia discordar, uma vez que ele era conhecido pelo olhar inescrutável sempre acompanhado de um sorriso que também não revelava o que se passava detrás daqueles olhos. Aquela, no entanto, era apenas mais uma das exceções em que se enquadrava: o olhar de sempre lhe disse muito, mais ainda que do que suas atitudes, bem como seus silêncios sempre lhe pareceram mais significativos que as palavras.
Talvez por isso, no instante em que os olhos dele se ergueram e capturaram os dela daquele jeito tão próprio, que não dava espaço para que escapasse, tenha sentido como se uma corrente elétrica percorresse seus nervos, dando-lhe certeza de que aquele diante dela ainda era o mesmo .
Naquele momento, ela se recordou das palavras da mãe que, anos atrás, havia lhe dado um conselho que, numa mostra de juventude e inexperiência, jogara no lixo: “nunca ame uma pessoa a ponto de esquecer a verdade sobre ela, criança.”
Ela não mais ignorava a verdade. Mas ainda o amava.
— Coloca ele na maca, . —pediu, e falar aquilo fez com que seus pulmões liberassem todo o ar que ela havia prendido sem perceber. A mulher quebrou à força o contato visual e usou as mãos para prender os cabelos, mantendo-as ocupadas para evitar que tremessem.
Quando voltou a observá-lo, seus olhos treinados buscavam os ferimentos e tentavam determinar a gravidade deles, mas a mulher não pôde deixar de notar o coração se acelerando por algo que não era tão somente a adrenalina do trabalho. Estar diante de pela primeira vez em três anos era um impacto para o qual não estava minimamente preparada, e precisou convocar todo o autocontrole existente em seu íntimo para se concentrar no que precisava
— Me ajuda a tirar isso, . — pediu, abrindo a camisa do homem para expor o tronco onde uma rede de tatuagens se desenhava, ainda mais intrincada do que sua memória seria capaz de contar. Mas, por Deus, se fechasse os olhos, ainda era capaz de reproduzir com a ponta dos dedos cada linha, ponto e traço que tivera tantas vezes sob a palma das mãos.
— Ele acorda e apaga, Moony… — passou as mãos sujas de sangue pelos jeans, olhando apreensivo para o modo como examinava o irmão, cujo tórax se movia de forma tão agonizante, em suas tentativas fracassadas de respirar.
— Ele perdeu muito sangue. — avaliou o modo como o vermelho vivo se misturava à pele tatuada, enquanto puxava para perto da maca uma bandeja de instrumental cirúrgico e calçava luvas para tocar o ferimento no lado direito do tórax dele, provocando um gemido de dor que não a impediu de continuar sua exploração, encontrando o local de saída da bala em suas costas. Menos mal. Mais abaixo, pouco além das costelas, encontrou um rasgo que já não sangrava tanto: esse era tão superficial que não causaria maiores problemas.
“Nada que dois pontinhos não resolvam”, costumava dizer sempre que voltava com algum ferimento e precisava de para fechá-lo.
Nesse caso, dois não bastariam. Talvez dez.
. — chamou, estranhando a forma como o nome soava depois de tantos anos guardado: era feito uma roupa antiga, que parecia estranha e fora de moda a princípio, mas ainda se mostrava familiar e confortável — Dói em algum outro lugar? — questionou, recebendo uma negativa breve, que atestava a dificuldade que ele tinha para respirar.
Certo. Fazia anos que não precisava lidar com um politrauma, mas ela ainda sabia suspeitar de um pneumotórax quando se via diante de um. A ausculta pulmonar felizmente concordava com sua hipótese, mas a mulher nunca desejou tanto na vida estar em um hospital. Situações extremas, contudo, pediam por medidas desesperadas, e ela não estava em posição de exigir muito, por isso pegou a maior seringa de que dispunha, com uma agulha tão grossa quanto.
— O que você vai fazer? — perguntou, erguendo as sobrancelhas em espanto quando limpou com antisséptico parte do tórax de .

— Tem ar fora do pulmão, é por isso que ele não consegue respirar. — explicou brevemente, tocando o ponto que pretendia puncionar com a agulha — , isso vai doer. — avisou, unindo as sobrancelhas para se concentrar no momento em que deixou que a agulha atravessasse a carne até chegar ao vazio, para finalmente liberar todo o ar que impedia o pulmão de se expandir.
respirou fundo uma vez, apertando os dentes e tornando seu maxilar mais proeminente, e só ao ver sua respiração retomando pouco a pouco o compasso, sentiu que podia, enfim, respirar também.
— Eu senti sua falta, doc… — beijou os cabelos da mulher, rindo brevemente para disfarçar o alívio extremo que apertava seu peito. Aquela era a primeira vez que ele parecia o garoto que conhecera, o pólo oposto de .
era da risada aberta e da fúria explícita. , dos sorrisos calculados e da animosidade velada. Tão diferentes quanto igualmente letais.
— Ainda não acabou, … — murmurou, checando os braços de por alguma veia proeminente, que puncionou para conectar ao soro, espremendo a bolsa para que o líquido corresse ainda mais rápido, repondo parte do sangue perdido.
— Mas você o tem sob controle, não tem? — perguntou, checando o celular e finalmente atraindo a atenção de Ela conhecia aquele olhar, aquela inquietação… Vira-a incontáveis vezes nos olhos de sempre que ele a deixava no meio da noite porque tinha ‘problemas a resolver’. Problemas que, geralmente, traziam-no de volta para casa com as roupas sujas de sangue e a alma um pouco mais quebrada.

, você não pode só largar ele aqui. — alertou, surpreendendo-se não com ele, mas consigo mesma e com quão ingênua fora de não prever aquele que era o comportamento tão clássico naquela família amaldiçoada.
— Eu preciso ir, . — ele respondeu, e a mulher conhecia o tom o suficiente para reconhecer uma batalha perdida. A questão é que aquilo abria feridas antigas demais para que ela aceitasse calada o fato de virar as costas para o irmão enquanto ajeitava no coldre a arma que ela finalmente se dava conta de que estivera ali o tempo inteiro.
— Seu irmão precisa de você aqui. — sussurrou, tentando conter que as lágrimas que se formavam em seus olhos, em vão. Limpou-as com raiva, arriscando um olhar machucado para o rapaz — Que inferno, o que você vai fazer? Matar meio mundo até descobrir quem foi?
— Se eu tiver que fazer isso. — ele murmurou já da porta, e o modo como seus olhos ardiam em uma determinação maquiavélica fez a mulher se arrepiar: ele eliminaria qualquer um que cruzasse seu caminho — Você, mais do que ninguém, deveria saber: ninguém arma pro meu irmão e sai vivo, .

Depois de fixar um dreno em selo d’água no tórax de , tinha os olhos ocupados demais com a forma como a agulha entrava e saía através da ferida que ela suturava com diligência para notar o modo os olhos do homem esquadrinhavam seu rosto. Por Deus, ela não tinha mudado nada. E, ainda assim, mudara tanto. A ruga de concentração entre as sobrancelhas trazia lembranças das muitas vezes em que ele se perdia no tempo apenas admirando o modo como a garota lia, sempre tão compenetrada, presa em um mundo próprio do qual ele não parecia fazer parte, mas que na companhia dela sempre tinha jeito de casa. Em um mundo de violência, era uma ilha de paz.

As mãos ágeis se moviam com a mesma segurança de que ele se recordava, contrastando com as feições tão jovens. Um pouco daquela juventude, no entanto, podia ver que se fora: era quase como se algo no olhar de houvesse endurecido. Como se tivesse visto tanto, passado por tanto, que parte da leveza e do brilho que sempre o atraíram estivessem extintos. E doía feito o inferno saber que a culpa era, inegavelmente, sua.

— Pelo que eu me lembro, crianças eram a sua especialidade… – murmurou, umedecendo os lábios para permitir que as palavras saíssem, e o pequeno sobressalto da mulher ao erguer o olhar para ele foi o suficiente para que seu coração golpeasse mais fortemente a caixa torácica, ignorando a dor pungente.

— Pelo que eu me lembro, você costumava ter mais cuidado ao falar com uma mulher apontando uma agulha pra você. – respondeu no mesmo tom, voltando a descer os olhos para o trabalho. Não foi, contudo, capaz de impedir os cantos dos lábios de se elevarem minimamente, sendo imediatamente acompanhados pelos dele: aquela memória era tão indelével quanto qualquer cicatriz, como a que ela criava naquele instante sobre a pele de .

SETE ANOS ATRÁS

— Meu bem, é melhor você chamar um médico de verdade.

Quem falava era um rapaz que não podia ter mais idade do que ela própria, olhando ansiosamente do homem sobre a maca para a entrada do pronto socorro, parecendo mais aflito do que deveria. respirou fundo, tentando não demonstrar o quão intimidada se sentia. Não era para menos: era seu primeiro plantão, e ela claramente já havia se metido em problemas. Tomou um instante para calçar as luvas estéreis e ganhar tempo para controlar o próprio nervosismo, antes de finalmente se voltar para o homem que guardava a entrada da sala.

— Eu sou a médica de verdade. – precisou se esforçar ao máximo para que sua voz não oscilasse, mas conseguiu seu feito – E se você for me atrapalhar, vou precisar pedir que saia. – completou, arrependendo-se daquelas palavras no instante em que o homem voltou os olhos para ela. Ele não precisava dizer nada para tudo estivesse subentendido naquele olhar: ela sabia com quem estava falando? Ela não tinha medo?

. – o outro censurou, e a tranquilidade no tom dele era surpreendente diante da quantidade de sangue vivo que vertia de seu supercílio, logo se misturando ao preto da camisa social – Qual o seu nome? – perguntou, esperando que o tom amigável não a assustasse ainda mais do que a animosidade do irmão.

. – a garota respondeu, limpando a área ensanguentada com uma gaze para ter uma visão melhor da extensão do ferimento – MoonNayeon.

— Você sabe fazer isso, não sabe, ? – perguntou, os olhos presos ao modo como ela parecia tão séria e concentrada no que fazia. Era curioso que ela permanecesse ali, apesar de tudo, especialmente de , com sua postura e visual tão desnecessariamente agressivos. Não passava de um moleque, e o mais velho já perdera as contas de quantas vezes havia lhe recomendado que fosse mais discreto. Nem mesmo a maldita arma o idiota fizera questão de esconder, e podia ver os olhos da médica fitando aflitos a direção do objeto, de quando em quando. Por isso, sim: era muito curioso que ela ainda estivesse ali.

— Você sabe respirar, não sabe? – respondeu num murmúrio, finalmente terminando o que fazia, e um sorriso discreto surgiu nos lábios do rapaz: ele ainda não decidira se ela era louca ou ingênua demais, mas estava certo de que gostava. Os olhos da jovem correram mais uma vez até a arma, captando a atenção de .

— Não se preocupe, ele não vai fazer nada. – avisou, encarando o irmão de forma quase despretensiosa, mas que foi o suficiente para que guardasse a arma na parte traseira da calça, longe da linha de visão da garota. Não que aquilo fosse tão tranquilizador. Algo na voz grave de , por sua vez, era.

, deviam chamar alguém pra cuidar disso… – insistiu, olhando desconfiado para a jovem, que preparava a seringa de anestésico. suspirou, inquieta: se ele não tivesse uma droga de uma .38 ela provavelmente já teria mandado que saísse dali.

— Não vai acontecer. O outro médico disse que não vai atender ‘gente como vocês’. – murmurou, começando a anestesiar a borda da ferida, amaldiçoando-se pela língua grande demais no instante em que as palavras deixaram seus lábios – Eu não sei o que ele quer dizer com isso e, honestamente, não é da minha conta. Mas ele precisa que alguém feche isso e, no momento, o alguém disponível sou eu. – terminou, e teria respondido ao atrevimento da mulher se não fosse pelo pelo sorriso quase debochado nos lábios do irmão: havia poucas coisas no mundo que admirava tanto quanto sinceridade e uma boa dose de brio, e MoonNayeon, inusitadamente, parecia servi-lo com uma revigorante dose de ambos. O mais novo dos revirou os olhos: se o maldito estava gostando daquilo, quem era ele para contestar? — Eu vou começar, sim? – a jovem avisou, demorando-se um segundo no sorriso que preenchia os lábios de , antes de focar no corte alguns centímetros acima.

— É melhor se concentrar, doutora… – ele murmurou, e algo naquele tom fez com que se sentisse de um modo que não podia nem mesmo ser certo – Você não vai querer estragar esse rosto. – completou, e quase teve êxito em esconder o pequeno sorriso que nasceu em seus lábios, antes de pegá-lo de surpresa, atravessando as bordas da ferida com a agulha, fazendo com que o rosto do homem se contorcesse em uma careta de dor.

— Então eu sugiro que se comporte.

terminou a sutura em silêncio, e a sensação de que tinha os olhos sobre ela o tempo inteiro provavelmente foi o motivo para que o processo tenha se demorado um pouco além do habitual – ela quase poderia desejar que ele estivesse desacordado. Quase.
Era curioso como aquele ato fora capaz de lançar luz sobre memórias há tanto tempo reprimidas, e o sentimento de reviver momentos em que tudo parecia tão mais fácil era igualmente nostálgico e doloroso: ao mesmo tempo que gostaria de voltar, desejava de todo o coração que seus caminhos nunca tivessem sequer se cruzado.
A mulher terminava de cobrir a ferida com curativos quando sentiu os dedos de tocando os seus, fazendo com que buscasse seus olhos num reflexo incontrolável, e o que viu ali foi muito mais familiar do que gostaria, pois não queria compreender o que ele sentia. Merda, não queria se sentir exatamente da mesma forma. Mas compreendia. E, por Deus, como sentia..

— Eu senti sua falta, Moony.

TRÊS

“He wore a smile like a loaded gun.”

… — a mulher murmurou, encarando suas mãos entrelaçadas por um momento, antes de se retrair ao toque que, tão breve, já era capaz de fazer com que sentisse demais. também tinha o olhar direcionado para as mãos dela, e se arrependeria eternamente disso. trazia na mão esquerda uma aliança tão delicada que não era justo que fizesse um estrago tão enorme no coração do homem que, anos antes, sonhou em ser quem colocaria o anel em seu dedo.
— Eu não disse isso porque esperava a mesma resposta, . — ele respondeu, engolindo seco e tentando ignorar a dor que oprimia seu peito, muito pior que o tiro. O rapaz abriu um daqueles sorrisos que sempre fizeram um ótimo trabalho quando o assunto era deixar o coração de em pedacinhos, mas aquela era a verdade: a única coisa que o havia impedido de procurá-la durante todos aqueles anos era a certeza de que ela estava melhor sem ele, de que havia encontrado sua tão almejada paz. De que o esquecera.
Ou era o que imaginava. Como ele poderia, afinal, saber que, de quando em quando, ela despertava no meio da noite com o coração apertado e a respiração acelerada, perguntando-se se ele estava bem? Se estava vivo?
Era como um velho hábito, arraigado demais em sua alma: preocupar-se com e temer pela vida dele, ao que parecia, eram parte do que era. Amá-lo, em sua essência, era parte dela.
— Não diz isso. — devolveu, mexendo no conta-gotas do soro apenas como desculpa para fugir da intensidade dos olhos de que, à meia luz do consultório, ainda eram capazes de enxergar cada detalhe de suas expressões, dificultando seu trabalho para escondê-las.
A mulher checou o celular, esperando alguma notícia de , e a ausência de mensagens foi o suficiente para que ela se lembrasse exatamente da sensação de estar sempre à espera.
— Eu disse pra ele não ir sozinho. — meneou a cabeça por um instante, notando a aflição da mulher — Mas você conhece o .
— Eu conheço vocês. — corrigiu, sentando de volta em sua poltrona — Você faria o mesmo se fosse ele no seu lugar. — revelou, e o desgosto daquelas palavras dividia espaço com uma pontada de admiração: ainda que abominasse os meios pelos quais os faziam justiça, havia algo extremamente admirável na forma como defendiam os seus. Era um paradoxo que sempre lhe tirara o sono, uma questão com a qual ela nunca aprendeu a conviver em paz, e a perseguiria por toda a vida.
— É meu sangue, . — ele concordou, e havia uma força em seus olhos que contrastava com a posição de debilidade que o sangue e as feridas lhe impunham — Eu tomaria dez balas por ele. — completou, olhando brevemente para o ferimento em seu tórax, e a mulher sentiu um arrepio percorrer sua espinha porque sabia que aquela não era uma figura de linguagem: ele morreria por , sem piscar.
— Ninguém vai morrer hoje, . Não aqui. — a mulher advertiu, sustentando o mesmo tom que ele usara, o que fez a sombra de um sorriso percorrer os olhos de : ali estava ela, sua — Eu vou estar aqui do lado… — ela completou, preenchendo o silêncio — Chame, se precisar de mim.
O rapaz anuiu, e um sorriso irônico delineou seus lábios no instante em que ela virou as costas, deixando-o sozinho com suas memórias: três anos, e não havia uma noite em que não precisasse dela.

CINCO ANOS ATRÁS

Não eram raras as vezes em que acordava no meio da madrugada e perdia incontáveis minutos apenas observando o homem ao seu lado. Havia algo extremamente hipnótico na forma como o tronco inteiramente tatuado se fundia aos lençóis e seu rosto parecia mais relaxado do que quando acordado, fazendo com que ela se perguntasse constantemente o que se passava naqueles que eram os bons sonhos. Os maus eram inconfundíveis: começavam com ele murmurando seu nome, e terminavam com se revirando na cama em agonia. Quando o acordava, ele a abraçava como se o mundo inteiro dependesse disso.
Por vezes, no entanto, a mulher despertava apenas para encontrar o vazio da cama – nunca falhava em surpreendê-la com o quão silencioso podia ser – e essas eram as ocasiões em que seu coração se apertava dentro do peito enquanto ela percorria cada cômodo da casa que dividiam até enfim encontrá-lo, naquelas que eram as boas noites.
Nas más, a busca era em vão e passava a noite em claro até que ele retornasse na manhã seguinte, eventualmente sujo de sangue e, não raro, precisando de seus cuidados. Ela o fazia e, no princípio, as lágrimas costumavam correr livremente por sua face sob a voz controlada de e suas tentativas falhas de consolo. Ele era dolorosamente sincero quando respondia às perguntas dela, fossem quais fossem. “Alguém morreu?” “, o que você fez?”.
Anos depois, a cena já era tão frequente que não provocava em mais do que um morder aflito de lábios, numa tentativa de refrear questionamentos: a verdade, ela havia aprendido, podia ser dolorosa demais.
Aquela, no entanto, era uma das boas noites.
deixou o quarto, coçando os olhos para melhorar o estado de alerta, mas não precisou ir longe para se deparar com a cena que fez seu coração, aos poucos, retomar o ritmo: ele estava em casa. fumava encostado ao parapeito da janela, e a brisa que invadiu a sala fez com que a mulher sentisse a pele se arrepiar sob a camiseta dele que usava para dormir. Aproximou-se em silêncio, mas o modo como o homem segurou seus braços imediatamente, no instante em que enlaçou sua cintura pelas costas, sem o menor sobressalto, denunciava que a ouvira chegar.
Ele apagou o cigarro contra a parapeito, virando-se para envolver em um abraço enquanto corria mãos pelos braços dela até que cada poro se esquecesse do frio, e sorriu de canto para a forma como a mulher se aninhou em seu peito, exigindo ainda mais contato, que ele não falhou em oferecer.
— Eu já disse pra me chamar quando acordar assim… — murmurou contra o pescoço do homem, segurando-o pelos ombros. Odiava quando ele perdia o sono: isso era, na maior parte das vezes, presságio de problemas.
— Eu tentei. — o sorriso de canto nos lábios de denunciava a mentira, e se abriu em riso franco quando a namorada se afastou para encará-lo, estreitando os olhos. Por Deus, como ele amava aquela mulher… — É verdade… —defendeu-se, descendo as mãos para a cintura da médica e sorrindo para o modo sonolento como ela se entregava ao seu toque, cerrando os olhos. Tocou a boca dela com a sua por um momento, e teria intensificado o beijo caso ela não houvesse quebrado o contato, sussurrando entre seus lábios.
— Você é um mentiroso, … — tinha um meio sorriso nos lábios, sabendo que ele só brincava para dispersar sua atenção do ponto que realmente importava: o que vinha tirando seu sono.
— Pro resto do mundo, talvez. Pra você, não. — ele deu um sorriso quase preguiçoso, e sentiu cada célula em seu corpo se aquecer, ainda que as verdades de fossem duras demais.
— Então não minta pra mim. — ela murmurou, espalmando o lado direito do rosto dele e assistindo atentamente ao modo como os olhos de se fecharam, desarmado como ela gostaria que ele fosse durante todo o tempo — O que aconteceu? — questionou, e daquela vez ele não retrucou de pronto, e tomou seu tempo acendendo um novo cigarro.
— Os tailandeses. — respondeu, e naquele instante seu tom assumia um caráter que lançava arrepios pelo corpo de : ali quem falava era , o Viper, o lado sombrio do homem que amava — As coisas estão prestes a… Prestes a ficar feias, Moony. — ele meneou a cabeça, sacudindo seus próprios pensamentos antes de encará-la — Eu apenas sinto.
— Tailandeses? — ela perguntou cautelosa, e viu o namorado acenar brevemente — Eu achei que eles não fossem, você sabe… Grandes como vocês. — completou, sem saber ao certo como se expressar como sempre que se atrevia a conversar com ele sobre aquele assunto.
— Não são. — respondeu de pronto — Mas esse filho da puta… — ele coçou os olhos, num gesto que transparecia o quanto aquele assunto o levava ao limite — O líder deles saiu da cadeia, e o que estão dizendo na rua é que lá dentro ele conseguiu o apoio da Yakuza.
O que?! — a voz de saiu uma oitava mais aguda pelo modo como a garganta da mulher de apertou diante da informação: Yakuza, a máfia japonesa, era provavelmente uma das organizações mais sujas e violentas de que se tinha notícia. Estar contra eles era feito encarar o diabo de frente. Ou pior.
— Está tudo sob controle, . — ele segurou as mãos da mulher entre as suas, fazendo um carinho que não foi capaz de acalmar o coração de — Não é uma certeza, ainda, e mesmo se for…
… — ela começou, sem saber ao certo o que dizer: implorar para que ele saísse daquele mundo, não fora necessário muito para perceber, era inútil — Por favor, toma cuidado. —implorou, sabendo que aquilo era tudo o que poderia fazer — Prometa que vai tomar cuidado.
contornou com o polegar o lábio inferior da mulher, admirando aquela curva antes de tomá-la entre os lábios, sentindo o gosto de sal que as lágrimas de davam ao beijo.
Amar alguém de sua família, um Viper, era uma sentença, e não eram raras as vezes em que se sentia culpado demais por arrastá-la para seu caos. Naquela noite, no entanto, ele não queria pensar naquilo. Há um dizer antigo que promete que um pensamento feliz apaga dois tristes. E seria sempre seu pensamento feliz.
— Eu prometo. Você está segura. — assegurou, e aquela era uma verdade crua: o mundo inteiro queimaria sem que ele deixasse que uma só chama tocasse .
Não era por si própria que ela temia, no entanto, por isso murmurou, deixando escapar naquele lamento toda a dor em seu coração.
E você?

QUATRO
“Cross my heart and hope to die
To my lover, I’d never lie
He said “be true”, I swear I’lltry
In the end, it’s him and I”

checou a tela do celular pela décima vez, encontrando-a livre de notificações. Ela não sabia bem o que esperar, mas de alguma forma desejava saber o que se passava do lado de fora, tanto em casa quanto com – onde quer que estivesse.
Como se lesse sua mente e sentisse a aflição de seu peito, o celular vibrou em suas mãos, mostrando o nome do ex cunhado e amigo.
— Como ele está? — perguntou, no instante em que atendeu a ligação.
— Vivo. — respondeu, apoiando a testa em uma das mãos. Aquilo deveria ser o suficiente, certo? — E você?
— Inteiro. — disse, e havia em seu tom um sorriso inconfundível. Aquela arrogância juvenil permanecia intacta, e se pegou quase sorrindo pela nostalgia — Ele pode falar?
, acho melhor não. — a mulher baixou a voz para checar se continuava adormecido na sala de exame.
— Diz pra ele que está feito. — completou, inconsciente do modo como aquela informação encriptada fazia o estômago de revirar em aversão — Eu não vou demorar, só tem mais uma coisa que preciso fazer.
… — disse o nome dele feito um lamento, sendo interrompida antes que pudesse, de fato, implorar.
— Eu prometo, . — terminou, e com isso a mulher quase permitiu que seu corpo relaxasse na cadeira: havia poucas coisas tão certas no mundo quanto o fato de que um Viper cumpria suas promessas.
deixou de lado as reflexões que sua mente tentava provocar a todo custo, e buscou se ocupar de coisas que conseguia fazer no automático: checou os sinais vitais de , alterou a velocidade em que corria o soro, e se preocupou em vasculhar o consultório em busca de algo com que cobri-lo, já que a madrugada trazia consigo um frio inesperado para o meio de junho. Ela tinha acabado de ajeitar o cobertor sobre ele, quando a visão de abrindo os olhos de forma preguiçosa, exatamente como ela se lembrava de vê-lo fazer todas as manhãs, lhe atingiu feito um soco no estômago.
— Eu não achei que algum dia acordaria com essa visão de novo. — comentou, e o mesmo sorriso triste que assombrara durante toda noite surgiu nos lábios dele.
“Nem eu”, ela gostaria de responder. O que fez, contudo, foi baixar os olhos por um momento, recompondo-se do impacto que aquela visão tivera sobre sua mente, saudosa daquele homem.
— Seu irmão ligou. — mudou de assunto, mexendo na barra do cobertor apenas por não saber onde colocar as mãos. Era realmente inacreditável como as coisas podiam ir de extremamente familiares a absolutamente desconfortáveis em segundos — Disse que ‘está feito’. — completou, vendo acenar uma vez em compreensão — O que isso quer dizer? — ela murmurou, encarando os olhos dele apenas para vê-los se escurecendo e endurecendo notavelmente.
… — não era a primeira vez que ele usava seu nome naquela noite, mas nem por isso deixava de fazer uma verdadeira revolução dentro da mulher que, diante dele, parecia a mesma de anos atrás.
— Esquece que eu perguntei. – ela maneou a cabeça, compreendendo o olhar dele: se ela mantivesse a pergunta, ele responderia. Sempre respondia, não importava o quanto doesse.
E, por Deus, como doía.
— Eu não minto pra você, sabe disso. — completou, e aquela informação era tão dolorosamente verdadeira que teve de controlar uma vontade absurda de chorar.
— Às vezes eu gostaria que tivesse mentido. — foi a vez de deixar que um sorriso repleto de melancolia preenchesse seus lábios — Merda, … As coisas teriam sido mais fáceis se tivesse mentido. — foi a primeira vez na noite em que o apelido escorreu dos lábios de , e também a primeira em que as lágrimas escaparam de seus olhos.
Ela levava as mãos até o rosto quando interrompeu o movimento, como se pedisse que ela deixasse o choro correr. E deixou, os olhos cerrados e as mãos sentindo o toque conhecido de , até que teve coragem de encará-lo novamente, deparando-se com a forma como ele travava o maxilar, tentando conter o mesmo que ela.
— Você foi a única coisa que eu já tentei fazer direito, Moony. — a voz dele não soava mais alta que um murmúrio, mas no silêncio em que se encontravam, aquilo era o bastante para ressoar dentro de , partindo seu coração — Eu sinto muito, por tudo.
Um riso amargo escapou de seus lábios, enquanto se recordava da noite em que soube que era a mulher da sua vida, a detentora de todas as suas verdades mais cruéis. A noite em que selaram seu trágico destino.

SEIS ANOS ATRÁS

— Eu pensei que você tivesse dito uma reunião de família… – murmurou, rindo nervosamente ao adentrar a enorme mansão da família . Mesmo estando com há quase um ano, era a primeira vez que pisava ali.
Havia algo próximo a cinquenta pessoas no local, cuja opulência era quase opressora: era como se tudo ao seu redor fizesse questão de lhe dizer que não pertencia àquele lugar. O único elemento familiar era a mão de em sua cintura, e foi nisso que se concentrou enquanto colocava um pé diante do outro, sem abaixar os olhos ou a guarda.
Era conflituoso aquele sentimento, mas ela jamais se esqueceria do quão visceral era a certeza que tinha de que mesmo no mais hostil dos cenários, onde estivesse, seria o seu lugar.
— Eu venho de uma família grande… — O rapaz se voltou para ela com um sorriso quase apologético, e riu desacreditada, revirando os olhos. Àquela altura, ela já tinha conhecimento de quem estava ao seu lado: , o nome tão conhecido quanto impronunciável na cidade. Raramente pensava naquilo, contudo, já que o nome dele soava para ela como uma canção sobre o amor.
— Bem conveniente deixar esse detalhe de fora, . — ela murmurou, deixando-se abraçar a fim de receber uma injeção de segurança e autoconfiança, atributos que lhe faltavam quando se via colocada à prova pela primeira vez diante das víboras de Seoul. Dizer que estava apavorada era o mínimo, mas havia, curiosamente, certo fascínio no modo como encarava tudo aquilo.
E nunca se perdoaria por isso, por se deixar encantar morbidamente por um amor trágico.
, . — ele corrigiu, passando o polegar pelo rosto da mulher com um meio sorriso, e havia algo em seus olhos que o relacionamento nascente ainda não dera à mulher as ferramentas necessárias para decifrar. No futuro, no entanto, ela reconheceria como ninguém aquela melancolia — Aqui é .
— Ah, certo. — acenou, sentindo pela primeira vez o sabor da dualidade que seria tão presente na vida deles: era o homem por quem se encantara. Era inteligente, interessante, e capaz de revirar o mundo em troca de um sorriso seu. Quanto a , esse ainda era um desconhecido, e a mulher estaria mentindo se dissesse que aquilo não lhe enchia de apreensão — .
— Vamos fazer um trato? – segurou uma das mãos de , beijando-a e a mantendo entre eles — Eu prometo nunca mentir pra você, Moon … Se você me prometer suportar todas as minhas verdades. — jurou, e havia em seus olhos aquela sinceridade cortante à qual se acostumaria no futuro. Ela acenou minimamente com a cabeça, sem compreender a dureza daquela promessa. abriu um sorriso secreto, despejando sobre ela sua primeira verdade — Eu sinto muito. — ele murmurou, beijando os cabelos da mulher e segurando firme em sua mão, e jamais chegou a saber pelo que se desculpava: pela vida para a qual a arrastava, ou por antecipar o encontro que se deu a seguir.
— Ora ora, o que temos aqui? — a voz se assemelhava a um silvo e fez com que sentisse sua nuca se arrepiar. Não havia nada racional naquilo, como também não há no instinto das presas que percebem a aproximação de um predador. No instante em que se virou, a imagem da mulher a sua frente completou perfeitamente o timbre da voz: o vestido vermelho escorria pelo corpo dela com fluidez sanguínea, mas era ao redor de seu pescoço que estava a atenção de , de onde uma serpente de ouro com olhos de rubi lhe encarava, tão venenosa quanto sua dona — , que gentil da sua parte… Trazendo o jantar! — ela sorriu, e havia no gesto uma perversidade velada e aterrorizante.
A médica sentiu o corpo de enrijecer ao seu lado e, ao se voltar para o namorado, o que viu foi um desconhecido: naquela noite, conheceu .
— Yuri. — a voz dele também soava diferente, com um tom metálico que, de algum modo, assemelhava-se ao da mulher de vermelho. Os dois tinham posturas antagônicas: enquanto ele parecia pronto para o bote, a mulher tinha os braços cruzados sustentando o mesmo sorriso de antes. Não baixara a guarda, contudo. Era como se estivesse pronta para um conflito. Como se ansiasse por ele. deu um passo à frente, colocando-se entre as duas jovens, e tinha os lábios abertos para sua resposta quando foi interrompido por uma voz, que fez todos se curvarem imediatamente.
— Yuri… — a voz rouca vinha de um homem corpulento e cuja figura inspirava respeito e temor. Havia no tom dele uma dose de afeto, quase como se divertisse com uma traquinagem infantil — Não é assim que tratamos nossos convidados. — completou, e o sorriso da jovem se tornou menos peçonhento enquanto ela se movia para ladeá-lo pelo lado esquerdo, enquanto fazia o mesmo à direita.
— Pai. — se curvou ainda mais quando o homem parou diante dele, e mimetizou seu gesto. Ela podia sentir a tensão que emanava do rapaz pela forma como os movimentos dele pareciam rígidos e calculados, acentuando as semelhanças com o mais velho.
— Então essa é a garota de fora. Sua fama a precede, Moon . — o pai de e tomou um minuto para analisar , e a mulher recrutou toda a sua determinação para sustentar o olhar especulativo e desdenhoso por aqueles longos segundos.
Algo naquele gesto fez com que se recordasse do dia em que se conheceram, no pronto socorro, e ele se perguntou mais uma vez se o que havia naquela mulher era coragem ou insanidade. O que quer que fosse, fazia seu coração golpear o peito mais forte. Céus, como era louco por aquela mulher…
— A sua também. — falou antes antes que pudesse intervir, e os lábios de HaJoon demoraram alguns segundos para enfim se erguerem em um meio sorriso, repetindo os gestos do filho no primeiro encontro com a mulher, tão intrépida quanto inconsequente — Senhor.
— Seja bem-vinda, doutora Moon. — ele acenou uma vez com a cabeça, voltando o olhar para o filho, onde se demorou outros tantos segundos e, quando falou novamente, não havia como saber a quem se dirigia – Espero que saiba o que está fazendo.
O alerta, anos depois, ainda ecoava na mente da mulher. Na ocasião, ainda acreditava que não havia nada o que saber além do amor. Hoje, ela só sabia o quão doloroso o mesmo amor podia ser.
— Ela deveria participar dos Dez Segundos, ajusshi… — a voz de Yuri era cortante quando ela levou uma das mãos ao colo, acariciando a cobra em torno de seu pescoço, plenamente ciente da discórdia que plantava com aquelas palavras — Não acha?
Não. respondeu de imediato, com uma ferocidade que fez com que se colocasse em alerta — Ela não tem nada a ver com isso. A tradição é para membros, ela não é uma de nós. — ele abrandou o tom, e sabia que o fazia por ela, porque seus olhos ainda carregavam uma fúria mal disfarçada.
Não? fez coro à mulher na ideia, já que não era segredo a ninguém o fato de não concordar com o relacionamento do irmão com alguém de fora daquele círculo obscuro — Eu pensei que quisesse fazer dela parte da família.
… — o tom de fez com que a mulher se arrepiasse dos pés à cabeça, não da forma como costumava. O olhar do mais jovem vacilou discretamente sob a ameaça implícita do irmão, e só podia supor que aquilo se devia ao fato de que sabia do que era capaz.
— O que é isso? Dez segundos? — ela perguntou, segurando o braço de para chamar sua atenção.
— Você não vai participar. — o rapaz meneou a cabeça, afastando a ideia sem sequer cogitá-la, aumentando a curiosidade da mulher.
“Os dez segundos” começou a explicar, a postura se tornando imediatamente mais solene — é a nossa tradição mais antiga. Você não é um de nós se não for aprovada pela Mamba.
— Pela… — a boca de secou, antes mesmo que compreendesse por completo o que aquilo significava.
— Mamba Negra, doutora. — o rapaz esboçou o sorriso arrogante de quem passara por aquilo e estava vivo para contar a história — Olhos vendados, e a serpente mais letal do mundo sobre os ombros. Você só precisa sobreviver por dez segundos. — terminou, e a mulher sentiu seu estômago se afundar diante da imagem que ele pintou com frieza — Faça isso, e terá meu respeito. De todos nós… — indicou aqueles que os cercavam e que assistiam à cena.
— Pai, por favor, isso é absurdo. — buscou apoio no mais velho, a voz trêmula de raiva e pavor, principalmente quando HaJoon demorou até dar sua sentença.
— Seu irmão tem razão. Ou ela está nesta família, ou não está. — disse, e quando completou seus olhos prenderam os de causando um desconforto proposital, antes de abrir um sorriso que não lembrava em nada os filhos — A escolha é sua, Moon.
— Você já dorme com uma serpente todas as noites, que mal isso pode fazer? — abriu um sorriso maldoso, que foi arrancado se seus lábios de súbito no instante em que o punho de foi de encontro ao seu rosto, num rompante tão incomum que causou um alvoroço nos presentes.
HaJoon ergueu a mão direita, impedindo que qualquer um interferisse, mas seu domínio não se estendia até a mulher diante deles, que se colocou no meio dos dois.
! — exclamou, empurrando-o pelo peito e vendo seu próprio reflexo nos olhos tempestuosos do rapaz — Por favor, não. — implorou, porque sabia o quanto aquilo lhe partia a alma. Sabia, porque não fazia muito tempo desde que o rapaz abrira para ela toda a sua vida, como o fato de que HaJoon sempre foi um líder e mentor, mas nunca um pai. Como, desde muito jovens, ele e aprenderam a ser um pelo outro, e contra todo o mundo.
Até a chegada de , o irmão era tudo o que tinha na vida, e ela não estava disposta a ficar entre os dois.
— Ela não é uma de nós, . — grunhiu, limpando o sangue que escorria do canto dos lábios, dando menos importância ao soco do que dava ao gesto e seu significado — E nunca vai ser, se não passar por isso —completou, lutando contra as palavras que vieram a seguir, num sussurro para que o irmão fosse o único a ouvir — Deixe ela fazer isso, ou nunca estará segura aqui dentro.
Taehyung tencionou o maxilar, abominando a própria vida, e foi nos olhos do irmão que finalmente compreendeu: não tinha escolha. Enquanto vivesse, não havia como deixar de ser quem era.
— Eu faço, ok? — as palavras escaparam dos lábios de , a racionalidade nublada pelo sentimento, mais uma vez.
… — respirou fundo, mas a mulher tinha nos olhos uma determinação que ele aprendera a respeitar.
— Você ouviu seu pai. — usou o único argumento possível na ocasião, enquanto segurava as mãos dele — A escolha é minha.
— Você não entende… Não precisa fazer isso. — murmurou, seus olhos parecendo enfim as fontes inesgotáveis de calor que conhecia tão bem, mas dessa vez eles queimavam. — Não foi por isso que eu te trouxe aqui… — a frase soou como um lamento — Você pode morrer.
— Ei… — a mulher engoliu seco, abrindo um sorriso vacilante e otimista, pelo qual ele era perdidamente apaixonado, mas que odiava naquele momento. —Você vai estar lá comigo, não vai? — perguntou, assistindo-o massagear as têmporas antes de concordar à contragosto, como se aquilo lhe arrancasse um pedaço. – Vai ficar tudo bem, .
Um grupo pequeno os acompanhou enquanto caminhavam pela mansão até uma sala no andar de baixo, e o que viu ali voltaria a lhe assombrar por noites a fio. Eram dezenas de serpentes de diferentes espécies, acumulando-se em aquários que iam do chão ao teto. Yuri logo abriu um dos viveiros que abrigava uma cobra coral, colocou a mão para dentro e aguardou pacientemente que sua moradora se enrolasse em seu pulso feito um animal de estimação, para então exibi-la feito uma jóia. O resto era tão hipnótico quanto repugnante, assim como a figura da mulher.
— Quem é ela? — perguntou baixinho, e pela ruga entre as sobrancelhas dela conseguiu identificar, incrédulo, uma nota de ciúme.
— Você está prestes a deixar uma serpente se enrolar no seu corpo, e está preocupada com Yuri? — o riso dele trazia notas de puro desespero, logo antes de abrir um sorriso amargo. Talvez ela estivesse convivendo demais com ele, e perdendo a noção do que era realmente o perigo. — Precisamos urgentemente rever suas prioridades.
— O que? — deu de ombros, quase enrubescendo diante da preocupação que sabia ser fútil, mas era isso, ou pensar na ação do veneno da mamba negra e no quão rápido morreria se tudo desse errado. — Estou tentando lidar com um problema de cada vez…
— Ela não é um problema. Não pra você. — parou diante da namorada, ajeitando seus cabelos com um sorriso cansado, enquanto se preparava para revelar mais uma de suas verdades. — Yuri é meu passado, . Você é meu futuro.
— É melhor eu sobreviver, então. — ela tentou fazer uma piada, que só arrancou um olhar torturado do rapaz — Ei, eu posso fazer isso. — garantiu, ignorando a presença de todos quando passou os braços em torno de , abraçando-o tão apertado que podia sentir o coração dele, tão acelerado, fazendo eco dentro de si.
Falar em futuro ao lado dele era quase utópico. Quando o tinha bem ali, no entanto, era feito ter a eternidade inteira em um instante. E, por ora, isso bastava.
— Olha pra mim. — segurou o rosto dela entre as mãos, e poderia jurar que nunca vira algo próximo de medo em seu rosto, até aquela noite — Nada vai te acontecer, você me entendeu? — prometeu, examinando o rosto dela em busca de qualquer sinal de hesitação, que faria com que mandasse tudo aquilo pelos ares. Não foi surpresa quando suportou seu olhar sem oscilar, num presságio de todas as vezes em que seria ela a rocha na qual ele se apoiaria. — , me escuta… — pediu, controlando a própria voz para não assustar a mulher além do necessário para mantê-la alerta. — Ela não vai atacar se você não se mover, mas precisa ficar absolutamente imóvel, você me entendeu? Ao menor movimento… — respirou fundo, coçando os olhos naquele gesto tão típico de seus momentos aflição. — Só não se mova, ok? — pediu, vendo a mulher acenar uma vez, engolindo seco. O rapaz cerrou os olhos, sentindo uma culpa pungente no instante em que beijou a testa de , deixando ali parte de si — Eu amo você.
deixou que aquelas três palavras ecoassem em sua mente enquanto colocava um pé diante do outro, buscando ignorar os olhares ofídicos que vinham de dentro dos aquários e do pequeno grupo que aguardava por ela no fim do corredor, em uma sala oval com um único banco no centro. Por um momento, deixou que o olhar corresse por todos aqueles que tinham os olhos nela, e o pensamento que a atingiu foi o de que todos haviam sobrevivido àquilo.
O que não tinha como imaginar, era quantos outros haviam sucumbido no processo, pelo beijo da mamba.
A mulher caminhou até o centro da sala, sentando-se no lugar que lhe fora reservado, e os dois irmãos tomaram seus postos a seu lado. As palavras de HaJoon soavam distantes para , como se viessem de um universo paralelo, e ela só voltou a sentir o próprio corpo no instante em que sentiu o toque familiar da mão de em seu ombro. Durou pouco, já que no instante seguinte HaJoon trazia até ela uma serpente negra que fez todos os presentes estremecerem em apreensão.
se afastou apenas para se agachar diante de , até que estivessem na mesma altura e pudesse fitar os olhos dela, implorando para que permanecesse congelada naquele olhar.
— Dez segundos. — HaJoon anunciou o início da contagem, segurando o animal com luvas de couro, no instante em que a transferiu para os ombros desnudos de .
A primeira coisa que a mulher percebeu foi o som pavoroso da serpente enquanto deslizava por sua pele.
Nove.
O toque era asqueroso, e o primeiro impulso de foi gritar, sendo protegida pela própria voz, que falhou.
Oito.
O rabo do animal fez uma sombra a sua esquerda, mas antes que pudesse cerrar os olhos as íris de sobre ela lhe puxaram se volta, forçando-a a ficar imóvel. A sobreviver.
Sete. Seis. Cinco.
respirava tão superficialmente que era como se não o fizesse, e pelos instantes seguinte, os mais longos de sua vida, sua mente se concentrou no suor que escorria pelo rosto de , quase como a mamba fazia por sua pele, até alcançar o ombro oposto.
Quatro. Três. Dois.
A cobra começou a se enrolar em seu pescoço, e cerrou os dentes no instante em viu lágrimas verterem dos olhos abertos de .
Um.
cerrou os olhos no instante em que as mãos enluvadas de avançaram sobre a cabeça da cobra, segurando-a com as presas expostas. Ela não ouviu quando Hajoon declarou, quase surpreso, que agora fazia parte da família, e não viu atirar a mamba diante do pai, os olhos flamejando de ódio profundo. Foi só quando os braços de a envolveram, que finalmente despertou do estado de choque em que se encontrava, desabando com cada fibra de seu corpo, que tremia como se lhe assegurasse de que sobrevivera àquele inferno.
a carregou para fora, ignorando todo o resto da solenidade, e dali em diante tudo o que a mulher se recordava não se passava de flashes: seu corpo imóvel no banco carro, apavorada demais para se mover. tirando suas roupas e a colocando na banheira, chorando enquanto lavava seu rosto manchado de lágrimas. Gritos de pânico durante toda a noite, e os sussurros na voz grave de , garantindo que tudo estava acabado. Que sentia muito. Que a amava.
Que a amaria por toda a vida, e além.

CINCO
“It’s a frightening thought, that in one fraction of a moment you can fall in the kind of Love that takes a lifetime to get over”

“Eu sinto muito, por tudo.”
deixou que as palavras se assentassem por um momento, porque havia simplesmente coisas demais envolvidas naquele sentença tão simples: não era apenas sobre os anos em que estiveram juntos, mas também sobre os que vieram depois destes, cujas cicatrizes ainda eram visíveis em ambos. Havia tanto pelo o que se desculpar. E não só , ao contrário do que ele parecia acreditar. Por isso, quando falou, foi para expurgar parte da culpa que também cabia a ela, e que não passava um dia sequer sem lhe assombrar.
— Eu também sinto, . — sussurrou num tom carregado de sofrimento em cada nota, e o rapaz se assustou menos com o uso do apelido do que com o fato de que segurou a mão dele entre as suas por um momento breve, deixando escapar um soluço que ela logo conteve, soltando-o novamente.
Por Deus, ela sentia tanto.
O modo como cobriu os lábios para impedir o choro deixou evidente pela segunda vez na noite a aliança que cintilava em sua mão esquerda, e dessa vez sentiu algo próximo da dor física do tiro. Só que pior.
— Você é feliz?
A pergunta veio seca, e fez forçar a saliva por sua garganta, engolindo seco. Algo no modo como construiu a questão, contudo, quase lhe fez sorrir: ainda que fosse clara a razão de sua curiosidade, ele era incapaz de perguntar se “ele” a fazia feliz. Porque apesar de toda a problemática do rompimento, sempre respeitou sua decisão e nunca se colocou numa competição depois do fim. E o conhecia pelo que era – um filho da mãe masoquista, às vezes – e sabia que vê-la sendo amada por outro lhe machucava enormemente, mas não mais do que ele pensava merecer.
Ao contrário da pergunta, a resposta não era tão direta. tinha muitas alegrias no trabalho, onde conseguia participar positivamente da vida de tantas pessoas. E também no casamento, tendo encontrado em Jisung um companheiro carinhoso e leal. Felicidade, contudo, era um estado de espírito do qual ela abdicara com resignação.
E, por Deus, como gostaria muito de responder no ato e proclamar uma alegria sem ressalvas. Mas era ali. E mentir para ele ainda era o que mais odiava fazer em todo o mundo.
— Às vezes.
Sua resposta veio com um sorriso triste, e pela primeira vez soube o que era ver nos lábios de quem se ama um daqueles sorrisos quebrados que sempre preenchiam os seus.
Céus, como doía.
Acenou uma vez, compreendendo aquele sentimento mais do que gostaria, mas desejando que fosse diferente para ela: contentava-se com uma vida de alegrias fugazes, porque era para isso que fora feito. , não. Ela merecia a paz de uma felicidade plena, que pode não ser movida por paixões, mas que deixa o coração em festa. Ela era felicidade, até onde sua compreensão do sentimento alcançava.
Como se movidos por uma força externa, ou talvez por ainda partilharem daquela inquietante conexão de almas, o silêncio que se seguiu fez com que submergissem pouco a pouco, afogando-se nos caminhos da memória até um momento de felicidade extasiante, mas que hoje os arrebatava em ondas de uma dor irreparável: a lembrança do dia em que foram tão felizes como jamais voltariam a ser.

CINCO ANOS ATRÁS

— Nós estamos comemorando algo?
O sorriso que talhava a voz de , moldando-a numa melodia gostosa, fez com que os cantos dos lábios de se erguessem antes mesmo de seus olhos seguirem o som.
Quando o fizeram, encontraram o namorado recostado ao batente da porta, munido daquele sorriso que a desconcertava e que aparecia tão raramente que ela sentia vontade de guardá-lo no relicário de suas memórias mais preciosas. E, de fato, aquela era uma que guardaria por toda a vida.
— E desde quando nós precisamos estar comemorando algo pra comermos bem? — devolveu a pergunta com um gracejo, desligando o fogão para se virar na direção de , tirando os pés dele do lugar, pois estes sempre o levavam a ela.
O rapaz se livrou da camisa social que usava, deixando-a sobre o encosto de uma cadeira, para então caminhar até a namorada, sem conter um sorriso enviesado ao vê-la umedecer o lábio inferior com a pontinha da língua inconscientemente. Era quase curioso como o fato de ele não usar uma camisa a impactava tanto quanto ela usando uma peça idêntica…
— Não está mais aqui quem falou. — ergueu os braços em rendição no momento em que sentiu o abraço de em sua cintura, apenas para deslizar as mãos por toda a extensão das costas da mulher em seguida — Como foi seu dia? — perguntou, trilhando o caminho de volta até os cabelos de , colocando-os detrás das orelhas com delicadeza num gesto que era tão seu: queria sempre o rosto dela livre de qualquer empecilho que o atrapalhasse a admirá-lo em sua totalidade. Era quase como se seu inconsciente trabalhasse para gravar cada segundo, temendo que fosse o último.
— Intenso. — ponderou na resposta por um momento, desfrutando da sensação de inquietude que tomou conta de seu estômago, antes de abrir um sorriso que foi incapaz de decifrar de pronto. Qualquer que fosse a determinação em fazê-lo, no entanto, desapareceu quando ela aproximou aquele riso de seus lábios, deixando que ele morresse em um beijo.
Os primeiros segundos foram guiados por ela, que se colocou nas pontas dos pés para enlaçar o pescoço dele com os braços, aprofundando o que antes era um roçar suave de suas bocas. Com um suspiro entre os lábios partidos do namorado, sentiu as mãos de em suas costas, arqueando-a apenas o suficiente para que moldasse o corpo dela ao seu e terminando com qualquer distância que ousasse se colocar entre eles. A mulher cerrou os olhos ainda mais apertado diante da sensação que estremeceu suas fibras, porque a verdade é que poderia beijá-lo por uma vida inteira, e nunca estaria verdadeiramente pronta para a sensação de ter os lábios de nos seus. O toque dele era tão familiar, e ainda assim ela sempre acabava suspensa na expectativa do próximo gesto, do modo como ele moveria a língua contra a sua: sensual ou romanticamente, devorando-a com a maestria do instinto ou saboreando-a com leniência e cuidado.
Daquela vez, foi o equilíbrio entre ambos o que – literalmente – tirou do chão. a pegou facilidade, fragmentando o beijo com um sorriso quando sentiu a mulher se segurar em seu tronco, e a colocou sobre a bancada da cozinha, apoiando as mãos nas coxas nuas da namorada, que o trouxe para perto ao enlaçar sua cintura com as pernas. era uma bagunça de suspiros sob os dedos experientes de , mas bastou que seus olhos se encontrassem mais uma vez para que ele parasse o progresso de suas mãos, capturando como por intuição o que a mulher trancava nos lábios, mas gritava em seu coração.
— O que você está escondendo? — ele perguntou, os olhos se estreitando discretamente com curiosidade, e se afastou apenas o suficiente para tocar os lábios dela com a ponta do indicador, admirando com um meio sorriso quão avermelhados e inchados eles pareciam agora. Conhecia-a tão bem quanto ao seu reflexo, e a pequena falha na respiração da jovem fez com que sorrisse, confirmando que não se enganara.
— Vamos comer antes, sim? — ela mordeu o lábio inferior em um misto de prazer e ansiedade, e se preparava para descer do balcão quando o celular de fez com que o sorriso desaparecesse tão rápido quanto surgia sempre que estava na presença dele – , não atende… — pediu, baixinho, segurando o punho da mão na qual ele já segurava o aparelho onde brilhava o nome de seu pai.
… — o suspiro cansado era provavelmente mais doloroso do que se ele gritasse com ela. Porque a resignação de quanto à vida que levava era o que lhe tirava o sono, ainda mais do que a vida em si.
— Por favor. — implorou, dessa vez, porque precisava dele naquele momento, mais do que nunca. Precisava que ele lutasse por eles dessa vez, mesmo que fosse um primeiro e pequeno passo. Quando voltou a falar, as palavras verteram de seus lábios num ato de desespero, contrariando tudo o que planejara para aquele momento, num presságio do que viria a ser o restante da sua vida ao lado dele. — , eu estou grávida.
Por alguns instantes, foi como se as palavras flutuassem entre eles, organizando-se lentamente diante de até que ele pudesse de fato compreendê-las: esperava um filho seu, e o primeiro pensamento que cruzou sua mente foi o pavor. Trazer ao mundo uma criança que compartilhasse de sua sina apenas porque amava aquela mulher de toda a sua alma – se é que ainda lhe restava alguma – não era apenas egoísta, mas cruel.
E era exatamente aquilo que se preparava para dizer quando foi arrebatado pelos olhos de , que liam os seus como se pudessem enxergar seu interior quebrado, e transbordavam em lágrimas de expectativa, e alívio, e medo, e a mais pura alegria.
Os lábios dela se partiram em um sorriso largo, daqueles que detinham o poder inacreditável de fazê-lo acreditar que o mundo era bom e que a felicidade estava ali, ao alcance de um toque. E então, por um momento – só por um momento – ele deixou que aquela paz tomasse conta de seu corpo pouco a pouco, sem se colocar em alerta como sempre que algo bom acontecia, parecendo bom demais.
Desligando o celular – e todo o mundo lá fora – ele trouxe para dentro de seus braços, cobrindo seu sorriso com beijos temerosos e absolutamente deslumbrados de amor e gratidão – porque ela o amava, e amava o filho em seu ventre.
Naquela noite, não atendeu ao chamado dos Vipers. Naquela noite, eles perderam três homens. Naquela noite, ele amou como nunca antes, e foi o homem mais feliz do mundo.

SEIS
“a mind in love is a violent place to be”

— Você teve outros filhos, depois de tudo?
A pergunta veio tão inesperadamente que foi feito um golpe seco, atingindo em cheio e a deixando fora de órbita por alguns segundos. Os dedos da mulher se apertaram em torno do equipo de soro que segurava, ao mesmo tempo em que seu estômago se contraía em repulsa. Ela sentiu todas as suas fibras musculares também se contraírem, colocando-a em alerta, porque aquele assunto revirava seu interior como nenhum outro. E ele sabia.
, não. — A voz da mulher saiu fragmentada, quase como se também se recusasse a participar daquilo. Não era a resposta à pergunta dele, mas uma negativa à tentativa de entrarem naquele assunto, o ponto nevrálgico de suas vidas e que, era fácil perceber, ainda parecia um nervo exposto e doloroso feito o inferno — Nós não vamos falar sobre isso. — as palavras tinham potencial para serem incontestáveis, mas foram traídas por quão trêmulas soaram ao saírem de seus lábios.
, nós nunca mais falaremos sobre isso, mas… — ele começou a argumentar, mas o sofrimento nos olhos dela era tão palpável que ele não teve coragem de continuar. Não poderia. Já fora algoz de muitas das penas impostas àquela mulher, para penitenciá-la com mais uma — Me desculpa. — ele cobriu o rosto com uma das mãos, a mandíbula tensa enquanto tentava lidar com seus próprios demônios. E, céus, eles eram muitos — Eu espero que sim. — a voz dele vacilou, embargada pelo nó em sua garganta — Você é uma ótima mãe.
não soube ao certo o que a fez chorar.
O quão carinhoso soou dizendo aquilo, o quão maltratado por cada palavra ele parecia, ou o fato de usar o presente para falar do filho que nunca chegaram a ter juntos. O fato é que foi apenas depois de ouvir um soluço dolorido escapar de seus próprios lábios, que notou o choro copioso que lavava seu rosto, e também sua alma.
— Por favor, não faz isso. — havia raiva em seu tom, pois ele não tinha o direito de dizer aquilo, mas também uma dor imensurável. Porque não havia nada que pudesse reparar o passado, e mexer naquelas memórias trazia à tona sentimentos que ela precisava enterrar todos os dias de sua vida — Por favor,
— Eu sinto muito. — ele arfou, tentando dosar suas palavras para que elas saíssem como deviam, pelo menos uma vez — Porra. — silenciou, correndo os dedos pelos cabelos com força suficiente para fazer doer, e apertando os dentes para tentar manter o tom de voz estável, com muito esforço — Eu sei que dói. Mas eu também sou o único que sabe o quanto dói, Moony. — explicou, e aquela foi a segunda vez que o viu chorar, mas a primeira em que não tentou ocultar as lágrimas. era, de fato, o único que podia compreender sua dor, porque a sentia exatamente igual. — Eu perdi meu filho sem que ele tivesse nome.
Choraram em silêncio pelo que pareceu uma eternidade, separados pela distância de um toque – que naquele momento parecia intransponível. Naquela noite fatídica, perderam um filho. E também a si mesmos, e todo o sonho de uma família. De um futuro.
— Taeyang. – a voz de não passava de um murmúrio ao dizer o nome há tanto guardado, tal qual o enxoval que fizera outrora — O nome dele seria Taeyang.

QUATRO ANOS ATRÁS

— Dra. Moon, pode vir aqui um momento?
O olhar da enfermeira era carregado de tanta consternação que se colocou de pé no mesmo segundo, a despeito da barriga que já carregava o peso dos quase nove meses. Era uma quarta feira tranquila em que os ponteiros do relógio já corriam em direção às 19h, e não havia como prever tudo o que aconteceria dali em diante. revisitou aquela noite uma centena de vezes, e sempre se impressionava com o fato de o tempo, apesar de uma grandeza precisa, ser tão relativo: faltavam 47 minutos para seu turno terminar. Quarenta e sete minutos para ela ter sua vida terminantemente transformada.
— Alguma emergência? — questionou, prendendo os cabelos com o elástico que trazia no pulso, enquanto acompanhava a enfermeira Kang até um dos consultórios do pronto socorro.
— Não é bem isso… — a mais velha ponderou, baixando o tom de voz quando passaram pela sala vermelha, rumo à ala pediátrica. O alvoroço vindo dali fez com que os olhos de espiassem por uma fresta da porta, e eram tantos os médicos e enfermeiros em torno do paciente ela apertou os lábios em pesar. Isso nunca era bom sinal. — É o pai da criança. — Kang explicou, notando o interesse da médica na sala. — Ninguém sabe o que houve com ele, além do fato de que está morrendo. Acham que é algum tipo de intoxicação. A polícia o encontrou assim, com a filha de cinco anos no quarto… — contou, assim que chegaram ao consultório, na porta estavam dois policiais armados — A mãe está vindo de outra cidade. Ninguém sabe por quanto tempo ela ficou ali, … — um soluço impediu a mulher de continuar, ou talvez a outra tenha parado de ouvir no instante em que colocou os olhos na criança que, sentada na maca, tinha o olhar perdido e o rosto manchado das lágrimas que já não corriam mais de seus olhos.
Ela não parecia mais saber como chorar.
sentiu uma dor tão opressiva em seu peito que foi como se o ar lhe faltasse, não importava o quão desesperadamente tentasse respirar. Uma das mãos correu instintivamente até a curva que abrigava sua criança, e foi somente assim que a mulher reencontrou seu fôlego, acenando para a enfermeira enquanto colocava um pé diante do outro, rumo ao que era a parte mais dura de seu trabalho.
— Olá, princesa. — ela deixou que os cantos dos lábios se erguessem um pouquinho, tanto quanto foi possível, antes de se sentar diante da menina para que seus olhos se nivelassem. — Meu nome é . Como é o seu? — perguntou, aproveitando que a pequena erguera um pouquinho a cabeça para inspecioná-la por alto, em busca de qualquer sinal de que algo não estivesse fisicamente bem. Como não obteve resposta, precisou espiar a ficha que a enfermeira Kang lhe apontava sobre a mesa — Jisoo. É um nome lindo.
— Meu pai me chama de Soonie. — a voz da garota era tão baixa que precisou se aproximar um pouco para ter certeza de que a ouvira bem. Ela ainda não erguera os olhos, focando os joelhos magrelos com interesse, mas a médica pôde notar sua respiração perder um pouco do compasso.
— Soonie. — chamou com afeto, e precisou aguardar alguns segundos para que fizesse efeito, assistindo com alívio quando a pequena ergueu o rosto devagar, fitando-a com olhos em cujas íris retintas o medo ainda era quase corpóreo — Você está machucada? — perguntou, e desta vez a pequena foi rápida na resposta, negando várias vezes — Isso é bom, querida… Muito bom. — sorriu, dessa vez um pouquinho maior — Você sabe onde está, Jisoo?
— No hospital. — ela respondeu, voltando a encarar os joelhos, balançando uma perna e então a outra, atenta às articulações ossudas que se movimentavam. podia compreender: naquele momento, ela provavelmente buscava focar nas coisas que entendida. Nas que faziam algum sentido. Seu pai morrendo na sala ao lado não era uma delas.
— Isso mesmo. — concordou, tirando do pescoço o estetoscópio — Eu sou médica, cuido de crianças… —explicou, mostrando o aparelho à pequena — Posso usar isso pra ouvir o seu coração? – perguntou, recebendo um aceno breve em resposta — Obrigada, querida. Pode se deitar um pouquinho, sim? — pediu, e a pequena obedeceu como se agisse no automático. Não havia muita emoção em nada do que ela fazia, exceto pelo momento em que mencionou o apelido usado pelo pai.
a examinou cuidadosamente, avisando cada passo do que fazia para não sobressaltar a criança. Desta vez, as costumeiras brincadeiras que fazia com seus pequenos pacientes deram lugar a um silêncio que buscava confortar apenas com um sorriso e um desejo profundo de que Deus cuidasse daquele coração. Por fim, concluiu que de fato não havia nada de errado com Jisoo, até onde seus olhos, mãos e ouvidos podiam alcançar. O que não significava, de forma alguma, que estivesse bem.
— Unnie… — a voz da criança pegou de surpresa, e algo no tom dela fez com que o coração da mulher se apertasse antes mesmo do que veio em seguida. — O meu papai foi pro céu?
A pergunta forçou a apoiar as mãos nos joelhos para se manter de pé, para então encarar a pequena cujos olhos não lhe davam espaço para fugir.
Respirou fundo, concentrando-se em estabilizar a própria voz.
— Não, querida. — respondeu, orando fervorosamente para que aquela verdade se sustentasse futuramente. – E aqui tem muitas pessoas fazendo de tudo para que o seu pai melhore. — ela fez um carinho nos cabelos da pequena, e o modo como Jisoo se entregou ao gesto, fechando os olhos sob seus dedos, fez com que precisasse conter as lágrimas.
— O moço mau fez isso com ele, unnie… — o tom de Jisoo era secreto, como se soubesse, mesmo dentro de sua ingenuidade, que aquela informação era importante. — Fez o papai cair.
correu os olhos até a porta, vendo através do vidro os dois policiais que se mantinham em seus postos, e tudo fez sentido. Aquele era o tipo de informação que queriam, e era provavelmente por isso que estavam ali: não porque Jisoo era uma menor desacompanhada. Porque ela era uma testemunha.
— Quem, Soonie? — perguntou, no mesmo tom. Poderia ter chamado os oficiais, e talvez devesse ter feito isso, mas duvidava que a criança fosse continuar a falar caso alguém mais entrasse ali. — O que ele fez com seu pai?
— Espetou uma coisa assim nele. — a mulher precisou seguir o dedo que Jisoo apontava para ver uma seringa sobre a mesa de procedimentos. — Bem aqui. — desta vez ela apontou para o pescoço de , e a mulher sentiu um arrepio percorrer toda a sua espinha.
O que diabos acontecera ali?
— Onde você estava, querida? — perguntou, segurando o rosto delicado da menina entre as mãos, compadecida do horror que ela presenciara.
— Debaixo da cama. — ela contou, encarando os joelhos novamente. — O papai disse pra eu me esconder e não sair. E-eu… — a voz dela se quebrou, e só teve um segundo para notar o anúncio do choro e a abraçar apertado, antes que ela caísse em pranto pela primeira vez — Eu não saí, unnie… — as lágrimas caíram, molhando a blusa de em tempestade dolorosa — Eu não ajudei o papai…
— Shhh… — beijou os cabelos da menina, e nem mesmo sentiu as lágrimas que rolaram de seus olhos – Você fez muito bem, querida. Obedeceu ao seu pai, era perigoso sair… — consolou, sentindo as mãozinhas da menina se agarrarem em suas costas, o corpo pequeno se movendo silenciosamente em um choro tão atípico às crianças. Não era dor, ou fome, ou medo. Era tristeza. Pesar. — Você está segura agora, Soonie.
As palavras não deram fim ao choro, mas os soluços de Jisoo foram pouco a pouco se tornando menos frequentes. Demorou até que ela voltasse a falar, e quando o fez foi com um tom de apelo, como se quisesse se livrar de todo aquele assunto, e colocar para fora tudo o que atormentava seu pequeno coração.
— Ele tinha uma cobra bem aqui. — segurou o pulso de , e a mulher sentiu o chão falhar debaixo de seus pés no instante em que as palavras apunhalaram seus ouvidos, uma a uma, como se tivessem ciência do estrago que causavam.
— O que disse? — as palavras se atropelaram para fora de sua boca, soando roucas porque a boca de secara naquele instante, quando suas veias se banharam em pânico.
— O moço mau. — ela repetiu, destruindo inconscientemente cada pedacinho da mulher a sua frente. — Ele tinha uma cobra desenhada bem aqui.
só teve tempo de alcançar a lixeira, despejando com repulsa o conteúdo de seu estômago para evitar o grito de pavor que queimou sua garganta, rasgando-a quase tão intensamente quanto a mulher sentia em seu coração. Em poucos segundos, enquanto sentia o suor colar seus cabelos à nuca, as peças se encaixaram: uma intoxicação suspeita, uma seringa que não deixava rastros, uma morte dolorosa que deixava uma mensagem.
Aquilo era o método dos Vipers.
Uma tatuagem de cobra no pulso.
Aquele era .
Enquanto se arrastava para fora do consultório, apoiando-se nas paredes para manter os pés firmes no chão, se sentiu como Jisoo no momento em que a viu pela primeira vez. Como se não soubesse chorar. Dispensou a ajuda da enfermeira Kang, pedindo que cuidasse da criança, e enquanto rumava de volta para o conforto médico tentou pensar em qualquer coisa que fizesse sentido, mas que não significasse que tivera em seus braços a filha de um alguém morto pelo homem que amava.
Eram 18h49, ela notou ao pegar o celular dentro do bolso e ligar para . Não sabia ao certo o que queria dizer, até que disse.
— O que você fez?
? — era quase como se ela pudesse visualizar a expressão dele se transfigurando, e conhecê-lo também fazia com que odiasse a si mesma. — Do que está falando?
— Tem um homem aqui na emergência. Morrendo. — ela soltou um grito sussurrado. — Park Haedong. — soltou o nome que vira na ficha de Jisoo, e o som do outro lado da linha, o modo como a respiração de se tornou um tanto mais pesada, fez com que seu peito doesse pela certeza de que não estava enganada. —, a filha dele estava no quarto quando… Ela viu sua tatuagem quando… — ela não podia dizer. Não conseguia. E o lamento foi tão dolorido que atingiu o homem bem no peito, fazendo-o cerrar os olhos em pesar ainda que ela não pudesse vê-lo. — Por Deus, , o que você fez?
, você precisa sair daí. — a voz dele era quase irreconhecível, lidando com aquilo de uma forma quase técnica. Precisava afastá-la daquele caso, ou tudo poderia se tornar um risco. — Me espera aí, eu v-
— Ele é pai, ! Pai de uma criança, como você! — o interrompeu, a voz tremendo tanto quanto as mãos que seguravam o telefone. Ela sentiu vontade de vomitar assim que as palavras saíram de sua boca, porque era aquele mesmo destino cruel de Jisoo que talhava para o filho que carregava no ventre, ao concebê-lo em meio a tanta violência. — Meu Deus, meu Deus… — ela repetia incessantemente, num apelo desconexo por qualquer intervenção divina. — O que você usou? — a pergunta veio como forma de parar de pensar em si mesma, e transferir suas preocupações momentaneamente para aquele cuja vida estava de fato em risco imediato. — O que injetou nele? — dessa vez o tom de voz se elevou a ponto de precisar cobrir a boca com uma das mãos.
— Eu chego aí em meia hora. — a voz de buscou encurtar o espaço de resposta, mas ele conhecia o suficiente a mulher ao seu lado para não se surpreender quando ela insistiu, a voz soando ainda mais firme.
, o que você usou?
— Fique fora disso, Moony. — aquilo tentava ser uma ordem, mas soava feito um apelo desesperado.
desligou sem ter uma resposta, porque sabia que não a obteria. E não se deu ao trabalho de respondê-lo, porque ambos sabiam a verdade: ela gostaria, mais do que tudo no mundo, de estar fora daquilo. Mas não estava.
Quando invadiu a sala de emergência, tinha nos olhos uma determinação assombrosa. Aquele homem não morreria. Não agora.
— É um acidente peçonhento, Changsub, ele precisa de soro antiofídico. — despejou as palavras, sem perceber o quão pouco sentido elas faziam para os demais. — Iniciem hidrocortisona e anti-histamínico enquanto…
— Moon… — o médico responsável pelo caso se aproximou, estreitando os olhos como se buscasse compreender o que diabos a mulher dizia, enquanto outros eram menos respeitosos e riam sem se preocupar em disfarçar. — Não há nenhuma evidência de que…
— Só me ouve, por favor. — implorou, olhando o paciente na maca a sua frente e concluindo com facilidade que tudo o que dizia tinha sentido. Céus, como gostaria de estar errada. — Ele está anúrico, tem rebaixamento de nível de consciência e fraqueza diafragmática. Isto é, disfunção renal e neuromuscular, pode ser um veneno crotálico ou laquético… — enumerou para ele e para si mesma, fazendo Changsub franzir o cenho. — Peça soro bivalente.
— Moon, ele estava dentro de casa, não há ferida de inoculação… — o outro tentou argumentar, mas não tinha tempo ou estabilidade emocional para racionalizar por mais nem um segundo.
— SÓ FAÇA O QUE ESTOU DIZENDO! — sua voz saiu tão alta que calou todos os presentes, sentindo-se ruborizar de raiva diante do olhar que despertava de seus colegas ao verem a pediatra grávida e histérica gritando no pronto-socorro. — Por favor, confie em mim. — pediu a Changsub, que a observava com atenção e algo próximo de pena.
Ela sustentou o olhar dele com bravura, e foi apenas quando o viu concordar, bradando um eco das ordens que ela dera minutos atrás, que se permitiu desabar.
Cambaleando para fora da sala vermelha, enfiou-se no primeiro consultório vazio que encontrou, deixando ali todas as lágrimas que não derramara até então. O choro começou aflito, e terminou em um lamento desesperado, porque era chegado, enfim, o momento que sempre tentou evitar: o ponto de virada em que, ou se corrompia de vez ao mundo de , ou deixava tudo aquilo para trás. E foi encolhida sobre si mesma e se abraçando ao filho – tudo de concreto que tinha no mundo – que fez sua escolha.
O caminho para fora do hospital nunca foi tão longo, e ela podia se lembrar, mesmo anos depois, de como suas pernas pesavam feito toneladas enquanto caminhava pela garagem. Era como se quisesse adiar o imponderável, como fizera tantas vezes antes.
Dentro do carro, as lembranças eram bagunçadas feito a chuva que golpeava o vidro do carro, borrando sua visão. Ou talvez isso fosse culpa das lágrimas, que escorriam uma após a outra, molhando sua blusa tal qual as de Jisoo fizeram pouco antes. O toque do celular era incessante, e fez com que gritasse sozinha, esmurrando o volante como gostaria de fazer com . Porque o odiava. Odiava o homem que ele se tornava quando era uma Víbora. Odiava o que as mãos dele eram capazes de fazer, e toda a dor que provocavam. Odiava o veneno em suas veias, e o fato de que este mesmo sangue maldito corria pelas de seu filho. Odiava, acima de tudo, amá-lo de todo o seu coração.
tinha os olhos cerrados e, mais uma vez, estava ali a ironia da relatividade do tempo. Foi apenas uma fração de segundo, e naquele átimo ela pôde ouvir a tragédia antes mesmo de vê-la. O som de metal se chocando contra metal fez seus ouvidos doerem, e o timbre de sua própria voz em um grito de dor e desespero também veio antes do impacto do volante sobre seu ventre. Quando abriu os olhos, sentindo o sangue escorrer diante deles de onde havia batido a cabeça no vidro dianteiro, as luzes dos faróis a cegaram momentaneamente. Foi somente aos poucos que suas retinas passaram a captar cada frame daquele caos, como em uma câmera dolorosamente lenta.
Rostos desconhecidos na janela do carro e olhos nublados de preocupação ao se depararem com sua barriga de grávida.
Sirenes de ambulância manchando tudo de azul petróleo e vermelho sangue.
O nome de brilhando na tela do celular caído sobre o carona.
Tudo parecia lento e, ainda assim, nada fazia sentido.
Porque seu bebê não se movia mais.

SETE
“In another life I would be your girl
We’d keep all our promises
Be us against the world”

QUATRO ANOS ATRÁS

— Moony… — a voz de chegou aos ouvidos de feito um lamento. Dolorido, profundo, quebrado. Ela não abriu os olhos de pronto, não poderia. Quando o fez, foi para se deparar com o mesmo olhar desolado naquelas íris que continham galáxias inteiras e que, naquele instante, refletiam explosões cósmicas de uma dor que fazia par à sua. — O bebê…?
fitava o vazio.
Não mais o vazio dos olhos de , mas o de seu ventre.
As palavras morreram na garganta da mulher em uma negativa sofrida, ela soube naquele momento que nunca conseguiria dizer as palavras, de fato. Não quando tivesse os olhos em , para ver o estrago que causariam. O choro que veio em seguida não foi como nenhum outro: era como se ela chorasse com o corpo inteiro. Como se cada fibra de seu ser sofresse da mesma dor. sentia os braços de em torno de seu corpo – e coração – vazio. E aquela foi a primeira vez em que não se sentiu abrigada por eles.
… — o apelido saiu como um sussurro, e na realidade ela pretendia dizer o nome inteiro, mas foi traída pelo fervor em sua garganta maltratada pelo choro. Quando ergueu os olhos para encará-lo, foi um daqueles momentos que, fosse outra a situação, os teria feito sorrir e atestar o fato de que eram mesmo feitos um para outro. Porque bastou aquele olhar, pesaroso e desesperado, para que soubesse exatamente o que precisava lhe dizer.
Era chegado o – tão abrupto quanto inevitável – fim.
pôde ver os músculos do maxilar do rapaz se tencionando sob a pele marcada de um pranto silencioso. Viu também quando ele engoliu seus sentimentos, um a um, tomando um tempo longo para estabilizar as cordas vocais e então responder o que, ela percebeu com um sabor agridoce na língua, não era exatamente uma surpresa. Havia tanto angústia ali, tanta culpa, que ela se perguntava se era mesmo real e possível que alguém pudesse sofrer tanto, e seguir vivendo.
Eu entendo.
Os dedos de se agarraram aos lençóis da cama do hospital, e ela cerrou os olhos e os dentes, contendo a vontade que tinha de gritar. Porque sabia que ele buscava facilitar as coisas, tornar mais leve o fardo dela de terminar tudo de vez. Mas isso só aumentava seu sofrimento em ver o quanto se martirizava por um amor cujo rascunho feito nos céus se perdera sobre a Terra.
— Não diz como se esperasse por isso. — ela grunhiu, sentindo a raiva preencher cada pedacinho de seu corpo numa tentativa de substituir a dor. Era uma raiva avassaladora e ardente, revoltada diante da impotência frente àquele destino cruel que foram forçados a enfrentar, e com o qual se conformava com a melancolia de quem fora, paradoxalmente, criado para a glória e a ruína.
— Vai ser o melhor pra você. – mordeu o lábio inferior com tanta força que arrancou dali gotas do sangue que o forçava a se afastar do que tinha de mais precioso em toda a vida. Segurando o rosto de entre as mãos, ele deixou que seus olhos varressem cada centímetro daquela figura, tentando gravar os menores detalhes e sofrendo intimamente por ter como última imagem dela o momento em que tinha seu coração partido – Eu sinto tanto, meu amor. — confessou, terminando ali de parti-lo de vez.
— Eu achava que… — soltou sob a respiração, no instante em que uniu sua testa à dela, porque não podia mais suportar o olhar da mulher que vasculhava seu interior, revirando-o para colocá-lo de cabeça para baixo. Do lado certo. — Merda, , eu achava que conseguiríamos…
gostaria imensamente poder concordar. Céus, daria sua vida por uma nova, ao lado dela. Uma em que pudessem viver aquilo pelo que seus corações imploravam. Mas não era verdade: aquele momento era uma dor tão profunda quanto aguardada.
E durante todos os anos que estiveram juntos, forjou sua carapaça para suportar aquele momento. Era uma pena que não tivesse conseguido.
— Shh… — ele cobriu os lábios dela com os seus por um instante em um último beijo, tão prematuro quanto aquele fim. Cerrando os olhos, forçou-se a quebrar o contato, pois sabia – merda, tinha certeza – que seria mais difícil a cada segundo. E aquela foi a primeira vez em que o ouviu implorar. — Por favor, não chore…
O carinho que fazia em seus cabelos fez chorar ainda mais intensamente, especialmente quando ele abriu um de seus sorrisos quebrados, prometendo a única coisa que ele acreditava ser capaz de remediar parte da dor que ela sentia, mas que só a faria sofrer, por prometer o impossível:
— Você nunca mais vai me ver, Moony. Vai ser como se eu nunca tivesse existido.

PRESENTE

— Você me prometeu que seria como se nunca tivesse existido… — murmurou, depois de longos minutos de um silêncio que só era interrompido pelo som eventual do choro de um ou do outro, quando não conseguiam se conter. estava a caminho, e restavam apenas alguns minutos daquele encontro que era feito uma fenda temporal, carregando-os de volta para um passado tão remoto quanto vivo em suas emoções.
— Eu s-
— Se disser que sente muito mais uma vez, juro que dou um soco na sua cara. — ela resmungou, limpando as lágrimas com o dorso das mãos e perdendo por pouco o sorriso que nasceu nos lábios dele. Mais uma vez, ele se via diante da garota que um dia colocou uma cicatriz em sua testa, minutos antes de roubar seu coração. — Isso foi tão egoísta… — continuou, desabafando o que tivera tempo de amadurecer em seus pensamentos durante todos aqueles anos. Ela podia ver nos olhos de que ele ainda não havia compreendido seu ponto, e se flagrou quase sorrindo para o modo como as sobrancelhas dele se uniam em curiosidade, parecendo exatamente como ela se recordava. — Eu nunca trocaria todas as outras lembranças para evitar uma dor que é minha. Eu vivi. Foi necessária. E eu não me esqueceria de nada, mesmo me dessem essa escolha.
meneou a cabeça uma vez, erguendo um cantinho dos lábios porque aquilo soava tanto como : havia mais força dentro dela do que ele jamais poderia supor. Ela não fugiria da dor, tal qual não fugiu do amor. O mesmo valia para ele, mas nesse caso o rapaz culpava sua tendência masoquista: rememorar os tempos felizes com ela provocavam uma dor tão intensa quanto as memórias do fim. E nem por isso ele deixava de fazê-lo, dia após dia, noite após noite.
— Você realmente acha que conseguiríamos? — a pergunta veio acompanhada dos mesmos olhos curiosos, e fez com que os olhos de se nublassem de algo que ele não reconheceu de pronto.
Quando ela se sentou ao seu lado, segurando seu rosto nas mãos tal qual ele fizera quando se viram pela última vez, ele compreendeu: era a melancolia de quem aceitara seu destino. Com um dos sorrisos que aprendera com ele, carregado de tanto afeto e tristeza, deixou que escorresse de seus lábios uma verdade dolorosa e reconfortante.
Em outra vida,
Aquilo soava como uma promessa.
Uma que, com alguma sorte, eles conseguiriam cumprir.

OITO
“Love is the most exquisite form of self-destruction”

está aqui. — atestou, no instante em que a mensagem do mais novo fez brilhar a tela de seu celular, iluminando a penumbra em que ela e se encontravam, usando das sombras para ocultar dos olhos o que, eles sabiam, não era possível esconder de seus poros, que se arrepiavam à presença um do outro. — Eu volto já. — avisou, saindo do consultório para abrir a porta que levava à sala de espera.
— Ei, doc. — o sorriso de era largo e a postura relaxada quando a trouxe para um abraço de urso, beijando seus cabelos. Era como se toda a tensão do encontro anterior houvesse se dissipado junto do sangue que ele fizera escorrer em algum beco escuro de Incheon, e agora ele agia como se a visse pela primeira vez. Aquilo fez do abraço um lugar hostil, e precisou respirar fundo para controlar a vontade que tinha de gritar o quão disfuncional era o comportamento de todos naquela família.
Calou-se, no entanto, porque aquele não era mais um problema seu. Afastara-se dos , correndo para o mais longe possível, até que suas pernas e seu coração doessem, até que convencesse a si mesma de que todo e qualquer laço fora quebrado. Seria o bastante, se não carregasse eternamente uma parte deles consigo.
— Ele está bem. — deu um passo para trás, esfregando o próprio rosto enquanto a verdade daquelas palavras crescia dentro dela: depois de uma noite de angústia, estava bem. — Você vai precisar levar ele ao hospital, em Seul. Viajar com esse dreno vai ser… Uma insanidade. — ela massageou as têmporas, odiando mais uma vez aquele cenário de improvisos perigosos em que fora forçada a agir por eles, mais uma vez. — Mas vai… Vai ficar tudo bem. — suspirou, sussurrando aquela verdade não para ele, mas para seu próprio coração aflito.
— Eu sei que sim. — abriu um sorriso de canto, mas que nem por isso mascarava sua alegria – Você sempre cuidou dele como ninguém, Moon. Esse idiota… Ugh, Deus! Você não imaginaria o tipo de merda que ele fez desde que… — ele parou, baixando os olhos um instante, e quando os ergueu novamente havia ali uma semelhança pálida com o olhar triste do irmão. , por sua vez, sentiu os seus queimarem com novas lágrimas e estava prestes a interrompê-lo, porque ouvir aquilo era dolorido demais para alguém que testemunhara tão de perto o quão auto-destrutivo Taehyung podia ser. — O que eu quero dizer é que ele realmente sente a sua falta. — exalou, com um sorriso, beijando os cabelos negros da mulher com tanto carinho, que seus braços se tornaram novamente aqueles dos quais ela se lembrava: feito irmão mais novo que, mesmo lhe ultrapassando no tamanho, ainda era um garoto.
— Eu posso te ouvir, sabia? — surgiu na soleira da porta, apoiando-se nas beiradas com cuidado para não as sujar de sangue. Não queria que precisasse olhar para aquilo depois. Um sorriso miúdo brincava em seus lábios como sempre que estava junto de , naquela simbiose assombrosa e magnética que fazia deles yin e yang. O sorriso do mais novo era o oposto, largo e aliviado, enquanto se aproximava do irmão, e chegou a iniciar o gesto de impedi-lo de pegar no colo – como ele parecia prestes a fazer – mas o rapaz se conteve um segundo antes.
— É melhor que você nunca mais faça isso, ou eu mesmo mato você. — prometeu, a rispidez dos lábios contrastando com o riso no olhar.
revirou os olhos, socando fracamente o ombro do caçula, e sentiu um lampejo de sorriso cruzar seus lábios: ela quase se esquecera do quão bela era a relação deles: um verdadeiro diamante, inestimável e indestrutível, tingido de vermelho por aquele rio de sangue.
— Está tudo certo para voltarmos a Seul. — a voz de adquiriu novas cores, um tom prático e conspiratório que fez o estômago de Naeyon revirar: eles eram as víboras, novamente. — Tem um jato esperando. — continuou, e acenou como se não prestasse realmente atenção, visto que tinha os olhos sobre a mulher que, a alguns passos de distância deles, naquele momento parecia tão distante, como num sonho tão real que era quase cruel. — Eu vou… deixar vocês. A sós. — coçou a nuca, voltando-se para a ex cunhada e sorrindo gigante no instante em que ela deixou escapar um suspiro de desistência frente a suas próprias barreiras, abrindo os braços para recebê-lo.
— Se cuida, por favor. — murmurou contra o couro da jaqueta de , implorando sem constrangimentos. — E cuida dele, .
— Foi pra isso que eu nasci, doc. — o rapaz piscou, beijando a testa dela com cuidado antes de se despedir.
E então restaram apenas os dois ali. , , e toda tensão tácita que pairava entre eles na iminência do adeus.
— Obrigado. — quebrou o silêncio, sua voz tão grave que a mulher a sentiu ressoar dentro do peito, bagunçando todos os sentimentos guardados ali.
— Não precisa agradecer. — ela maneou a cabeça, vacilando antes de dar o primeiro passo na direção dele, para então cobrir o restante da distância olhando para tudo menos para o rosto de : checou os curativos e a oscilação do dreno, fungando de quando em quando para conter as lágrimas que nublavam sua visão, protegendo-a da nitidez da verdade: era hora de se despedirem, uma vez mais.
… — chamou, sorrindo fraco quando ela respondeu um “hm” pouco convincente, mexendo no selo do dreno que, mesmo sem entender nada disso, ele sabia estar funcionando perfeitamente – Deixa eu olhar pra você. — pediu, e o instante que ela demorou para encará-lo pareceu longo demais, por isso levou uma das mãos até o rosto dela, e enquanto o polegar descansou sobre o queixo da mulher, os dedos alcançaram parte de seu pescoço, fazendo cerrar os olhos diante da sensação da mão dele ali, encaixando-se em seu corpo com a propriedade de quem ainda era o único.
controlava a respiração, como se aquilo fosse prolongar o tempo que tinha ali, em seu paraíso particular. Ele prestava atenção cada milímetro de sua pele em contato com a de , enquanto seus olhos decoravam os detalhes da cena aterradora que era tê-la sob seus dedos mais uma vez: os olhos fechados e a respiração falha, os cabelos que tocavam o dorso de sua mão com leveza o suficiente para lhe levar à loucura, lábios que faziam sua boca secar diante da vontade insana que o corrompia.
Para evitar adicionar mais um erro à sua lista, ele inclinou o rosto, pousando um beijo sôfrego na testa da mulher, que precisou engolir um soluço quando segurou a blusa dele com ambas as mãos, permitindo que as lágrimas que segurou até ali marcassem seu rosto como os lábios de faziam com sua alma. No instante seguinte, ele a envolvia no abraço mais apertado que se recordava de receber na vida, as mãos se enterrando nos cabelos dela enquanto a trazia para tão perto quanto era possível, para dentro de si. Permaneceram naquele abraço por um infinito que pareceu curto demais, mas quanto tempo é suficiente para aqueles que amam?
— A única coisa que eu consigo pensar em dizer… — ele murmurou contra a pele dela, a voz se partindo em um riso amargo. — É a coisa mais cruel que eu poderia fazer com você. — o murmúrio saiu feito um lamento contra a pele da mulher.
— Então não diga. — implorou num sussurro, porque ela sabia. Céus, sabia sem que ele precisasse dizer uma palavra, porque sentia o mesmo. Sentia tanto, que seus ossos doíam, seu coração se apertava, sua garganta ardia.
Quanto sofrimento cabe no amor?
As palavras proferidas por seus olhos nunca deixaram seus lábios. E quando se despediram, em um silêncio devastador, só o que se podia ouvir era o som de seus corações partidos.

EPÍLOGO

O Sol já despontava no horizonte quando criou forças para se colocar de pé, sentindo o corpo doer diante da lembrança de uma noite que parecia o resumo de toda uma vida. No caminho até seu apartamento, precisou parar o carro um par de vezes, entregando-se a um choro desesperado que precisava terminar ali, relegado ao passado como todo o restante.
Quando abriu a porta de casa, o silêncio era acolhedor e o cheiro familiar, evocando dos olhos dela um novo rio de lágrimas, estas repletas de culpa. O som baixinho que vinha do quarto fez um sorriso fraco se desenhar nos lábios da mulher: Jisung sempre dormia com a TV ligada quando ela não estava em casa.
Deixando os sapatos perto da porta, passou as mãos pelas bochechas, secando as lágrimas enquanto rumava até o corredor para fazer a única coisa no mundo que seria capaz de lhe manter sobre os dois pés, com as costas viradas para o passado: abraçar aquele que era seu futuro.
O quarto escuro não a impediu de reconhecer a silhueta que era tão conhecida como a melodia de sua canção favorita. Com um suspiro aliviado, se sentou na beirada da cama, inspirando aquele cheiro que agia feito um bálsamo para suas dores.
Céus, como o amava. E era esse o único amor capaz de suplantar o que sentia por . Um amor que a curava, simplesmente por existir.
Taeyang despertou bem devagarzinho, como se preparasse a mãe para rever aqueles olhos que eram réplicas tão perfeitas dos do pai – não carregavam, contudo, a mesma melancolia: eram feito o sol anunciado por seu nome. Bastou um olhar para que sentisse esmaecer toda a culpa que a destruía, por guardar um segredo de anos: faria tudo novamente, quantas vezes fosse necessário. Porque enquanto vivesse, protegeria o filho do destino ditado pelo sangue que corria em suas veias. E foi com um sorriso sonolento e repleto de amor que Taeyang fez o coração da mãe se inflar novamente, pulsando forte para lhe assegurar que havia um motivo muito maior para viver.
Tudo o que sempre quis foi proteger sua família, aquela que eles fizeram brotar de dentro de um amor impossível.
Ela também.

Nota da autora:

Eu não sei nem explicar o que significa pra mim ter escrito essa história. Justo eu, rainha da água com açúcar, escrevendo uma fanfic de máfia?? Nem nos meus sonhos isso seria possível!
Acontece que Vipers me acompanha há tantos anos… O plot foi criando espaço no meu coração e tudo porque eu tinha esse fim em mente. Era essa a história que eu queria contar. De um amor impossível, mas de um amor de mãe – mais forte ainda. Escrevê-la foi doloroso, eu acho que nunca chorei tanto escrevendo antes! Hahahaha Mas ao mesmo tempo foi recompensador encerrar, e ver nascer minha filha que mais foge da zona de conforto na escrita!
Muito obrigada por ter ficado comigo até aqui, e por ter acompanhado esse casal até o fim. Se puderem contar o que acharam, isso com certeza fará meu dia mais feliz!
Um beijinho, e até a próxima!