Red Desert

Red Desert

  • Por: Sarah
  • Categoria: CALM | Especiais
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Sinopse: As fantasias costumam nos colocar em um universo novo. Podemos nos apaixonar por uma noite e nunca mais encontrar esse alguém. No meio disso tudo, perdidos numa biblioteca, o caminho secreto para um castelo e novas memórias, o quê você escolheria? Continuar na segurança de um antigo amor… Ou se aventurar na incerteza de uma nova paixão?
Gênero: Romance.
Classificação: Livre.
Beta: Natasha Romanoff.

Capítulo único

Ashton não parava de sorrir, minha mãe parecia extasiada e meu pai os observava com cara de tédio; ele, assim como eu, não entendia o motivo de tanta felicidade apenas por um convite. O príncipe Calum atingiria a maioridade ao fim do mês e todos do reino estavam convidados para celebrar no castelo, não via o porquê de tanta alegria dentro de casa e nem me animava a ideia de ir a uma festa no palácio. Meu irmão mais velho dizia ter certeza de que tal baile era um pretexto para que o príncipe conhecesse a futura princesa, uma oportunidade de ter contato com todas as moças do reino e se apaixonar. Eu achava besteira, mas ele era um romântico incurável. O que me importava no momento era que ainda precisava ir para a aula e ao fim dos estudos poderia ir para o parque me encontrar com Luke; poder conversar com alguém que me entendia, que me apoiava, não tinha preço.
As horas se arrastavam, assim como toda vez quando era dia de nos encontrarmos: o tempo não passava para que nos víssemos logo, mas assim que a companhia do outro se fazia presente, as horas voavam e isso me parecia tão injusto. Meus pais não sabiam de nossos encontros e não aprovariam caso soubessem. Para eles, meu único foco deveria ser em meus estudos, estudar para ter uma vida melhor, subir de posição na sociedade. Nunca passou pela minha mente que fosse por maldade ou algo assim, eles só queriam que meu irmão e eu não passássemos por tantas dificuldades quanto eles.
Nenhum desses pensamentos era o mais importante do momento, só conseguia permitir que uma alegria aconchegante tomasse conta de mim conforme me aproximava mais e mais do parque. Não pude conter o sorriso que se formou em meu rosto no exato momento em que pus meus olhos nele, ainda de longe. Luke era o garoto mais bonito do reino, eu não tinha dúvidas. Ele era alto, tinha olhos cintilantes e um sorriso que fazia você pensar que não existia nenhum problema no mundo. E nos braços dele realmente não existia. Meu coração ainda batia mais rápido toda vez que ele sorria dessa forma para mim. Ele me olhava como se admirasse uma obra de arte, daquelas que as pessoas fazem fila para ver em museus.
— Não me olha desse jeito, eu não sei como reagir.
— Não consigo evitar. Você é a coisa mais linda que já vi na vida!
Ele me abraçou e depois segurou meu rosto com as duas mãos, me fazendo sorrir tanto que meus olhos quase se fechavam. E no segundo seguinte, seus lábios tocaram os meus e eu não conseguia pensar em mais nada. Não existia nada além de Luke e eu naquele momento. Apenas suas mãos nas minhas costas me puxando para mais perto de si e as minhas brincando com os cachos de seu cabelo. Nos afastamos e continuei sorrindo. Sentamos na grama, eu estava com as pernas por cima das dele e sentia o calor confortante do Sol em meu rosto.
— Você também recebeu a carta?
— Sim, , acho que todo o país recebeu. Será que cabe tanta gente assim no palácio? — respondeu com um tom de voz divertido e fingindo uma cara de surpresa.
— Um baile à fantasia, para todo o povo juntamente aos nobres, chega a ser cômico, não chega?
— Como assim?
— Em teoria, todos poderiam se misturar, todo mundo se sentiria à vontade sem distinção de classes, mas é óbvio, Luke, é muito fácil ver quais fantasias são mais nobres que as outras. Ashton acha que é uma ocasião para o príncipe conhecer alguém e se apaixonar. Se mais pessoas pensarem nisso, vão dar tudo de si nessas fantasias.
— Nossa… Você pensa em tudo, não é? Eu estava só encarando como uma oportunidade de diversão para todo o povo. Já pensou em qual fantasia vai usar?
— Não. E sinceramente, não sei se quero ir ao baile, ser um possível alvo do príncipe não está nos meus planos. Mas adoraria pensar em tudo caso você me dissesse que vai estar lá.
— Não acho que consiga, no fim do mês a minha escala na biblioteca é noturna. Mas acho que você não deveria perder a chance de ver a cara de seu irmão dentro do palácio… Ou até de tentar dar uma espiada na biblioteca de lá. Ouvi dizer que é seis vezes maior que a da cidade.
De repente, mesmo sem a companhia de Luke o baile não parecia tão horrível assim. Faria um esforço para acompanhar Ashton e me divertiria com suas reações que, com certeza, seriam exageradas — na melhor das hipóteses ainda conseguiria bisbilhotar a imensa biblioteca. Quando o fim da tarde chegou, voltei para casa e me sentei com minha mãe para planejar uma fantasia que fosse digna de uma festa no castelo, tentando pensar em algo que não fosse tão encantador e não atraísse a atenção do príncipe, nem de ninguém; a pessoa de quem eu queria atenção não estaria presente e não me importava com mais opiniões.

Três semanas depois, a festa.

“We were both young when I first saw you. I close my eyes and the flashback starts:
I’m standin’ there on a balcony in summer air, see the lights, see the party, the ball gowns. See you make your way through the crowd and say, “Hello”. Little did I know…” Love Story, Taylor Swift.
Nunca estive tão certa em uma suposição quanto na de que Ashton ficaria maravilhado com o palácio, só não pude prever que eu estaria tão embasbacada quanto meu irmão. Toda a iluminação fazia com que os adornos parecessem ainda mais nobres e eu cheguei a me sentir num conto de fadas por um instante. Olhando ao redor, pude ver pessoas com os mais variados estilos de fantasia. Alguns usavam vestes de festa e apenas uma máscara para cobrir seus olhos. Havia também garotos vestidos como guardas e soldados, algumas garotas com decotes de tamanhos que eu jamais cogitaria o uso e colares bonitos — elas pareciam confiantes, admirava isso. E outras com tiaras e adereços de todos os animais imagináveis combinando com seus vestidos.
Eu usava um vestido acinturado branco de um tecido extremamente leve (acho que ouvi mamãe chamar de chiffon), com um decote em formato de V e mangas, feitas do mesmo tecido, que chegavam a ser transparentes e esvoaçavam. A saia era igualmente leve e suavemente rodada. Por todo o colo e na cintura o vestido tinha detalhes de pequenas folhas douradas, que podiam ser vistas novamente no adorno que eu usava em meus cabelos, parecido com uma coroa de flores, porém todo constituído pelas pequenas folhas douradas e para completar e dar o toque final à fantasia, eu usava asas também brancas.
De início não gostei muito da ideia, me parecia chamativa demais, mas assim que Ashton me lembrou que Julieta Capuleto também se vestiu de anjo para um baile, eu fui convencida. Ele me conhecia bem e sabia que bastava uma referência literária para me convencer de algo. Meu irmão usava uma toga branca, feita de um tecido bem mais grosso que o do meu vestido, amarrada à sua cintura com um cinto marrom que parecia uma corda. Apenas um de seus ombros era coberto pela fantasia e neste havia um adorno dourado combinando com a linha fina da mesma cor que se fazia presente na parte de baixo da roupa. Ele também usava um adorno como o meu em sua cabeça, porém com folhas maiores e mais grossas. Estava fantasiado de deus grego, que combinava perfeitamente com seus cabelos encaracolados, sua pele dourada e ainda ouso dizer que realmente tinha a beleza necessária para isso.
O salão de festas do palácio era enorme, mas tinha certeza de que grande parte dos convidados não compareceram à comemoração por conta de vários espaços vazios ao longo do mesmo. Todos ali presentes já comiam, bebiam e dançavam confortavelmente, Ashton e eu chegamos relativamente tarde e todos os que chegaram antes já haviam tido o momento de observar e apreciar a beleza do local, a prioridade agora era desfrutar da diversão que aquela noite poderia oferecer. Meu interesse, porém, era outro. Só conseguia me lembrar de Luke falando sobre a biblioteca gigante daquele local. Esperei para que Ashton se distraísse por um momento e olhei para conferir se as pessoas estavam bem ocupadas com suas próprias diversões e então subi as escadas. Havia algumas portas abertas revelando mais salões, todos vazios, e no fim do corredor, ao lado de mais escadas, duas portas imensas com maçanetas compridas e douradas. Só podia ser ali. Apertei os passos e achei que conseguiria ser rápida o suficiente, mas aparentemente não fui discreta o suficiente já que não estava tão distante de meu objetivo quando ouvi uma voz atrás de mim.
Ai, Julieta! Em teus olhos há maior perigo do que em vinte punhais de teus parentes. Olha-me com doçura, e é quanto basta para deixar-me à prova do ódio deles.
— Eu não me lembro de Romeu usar uma coroa como essa e levar uma caveira em mãos, esse é Hamlet. Errou a peça, bonitão, deveria estar dizendo: Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?
— Clichê. Até mesmo os que não conhecem a história conhecem tal frase. Mas pelo visto a senhorita é uma ávida leitora, já que, se me permite deduzir, estava procurando a biblioteca. Mesmo sabendo que o baile acontece apenas no salão do andar de baixo. Consegue imaginar o que poderia acontecer caso alguém com um humor não tão bom quanto o meu a encontrasse aqui?
— Acredito que a família real esteja ocupada demais com a diversão da festa para reparar em uma única garota subindo à procura apenas de matar sua curiosidade sobre o tamanho da biblioteca. — Disse meio indiferente e ele me olhou com desdém.
— Sinto te informar, mas a coroa não faz parte da fantasia, docinho.
— Ah, certo. Ótimo. Droga. Você não vai mandar me prenderem, não é? Quer dizer, é seu aniversário, não seria legal desperdiçar tempo da sua festa com um incômodo desses, não é, alteza? — começava a me desesperar, quando foi que invadir o andar superior do palácio à procura da biblioteca havia parecido uma boa ideia? Como eu não havia prestado atenção em quem conversava comigo à ponto de ignorar um grande detalhe como esse? O príncipe riu anasalado e algo na situação me irritou. — E não me chame de docinho!
Ele parecia pronto para me responder à altura quando a música foi bruscamente interrompida e sua expressão mudou. Soltou um suspiro forte e voltou a me olhar, dessa vez olhava fundo em meus olhos me deixando estranhamente presa em olhá-lo de volta.
— Não vou mandar te prenderem, pode ficar tranquila, querida. E ficaria extremamente feliz se me concedesse essa dança, já que temos que descer de qualquer forma. — Involuntariamente fiz cara de desgosto, não era muito boa dançando. — Ah, vamos lá, você mesma disse: é meu aniversário, não é um presente muito difícil e você pode considerar como uma agradecimento por fingir que não vi seu passeio por andares fechados do castelo.
Me dei por vencida com um suspiro e assenti com a cabeça, indicando que concordava. Ele me ofereceu seu braço e eu o segurei. Descemos as escadas lado a lado e só então pude reparar no príncipe de perto. Ele era bonito. Sua pele tinha um tom bonito por natureza, não era como se ele fizesse algum esforço para ter aquela cor. Seu cabelo tinha pequenas ondas e a maneira como estava arrumado parecia desenhar seu rosto com delicadeza.
Seus olhos brilhavam, podia ver o quanto estava feliz com a comemoração e, em minha opinião, esse detalhe era sua maior beleza; era como se sorrisse com o olhar também. Seu sorriso era tão bonito quanto o de uma criança, ele sorria com verdade e sinceridade. As roupas pretas do Príncipe Hamlet pareciam na verdade ter sempre pertencido ao príncipe Calum, caíam extremamente bem nele. Poderia facilmente dizer que ele parecia uma pintura, uma obra de arte.
— Sabe, você deveria tirar uma foto. Dura mais.
Chegamos no salão e antes que eu pudesse responder, a música começou a tocar e de repente havia duas filas, as garotas estavam de um lado e os garotos do outro. Calum estava à minha frente, estávamos virados um para o outro e fizemos uma reverência para dar início àquela dança tradicional. Nossos olhares, porém, permaneciam direcionados um ao outro. Ele logo se aproximou novamente e trocamos de lado, cruzando os braços esquerdos no ar, as mãos quase se tocavam e agora estávamos girando no centro do salão. Os braços trocaram de posição, sua esquerda agora esticada encontrava a minha em minhas costas enquanto a minha direita fazia o mesmo caminho nas suas. Nossos ombros se tocavam e podíamos, novamente, nos olhar nos olhos. Ainda estávamos girando quando ele sorriu e de repente meus pés pareciam tão leves quanto o tecido de meu vestido.
Mais uma vez trocamos de posição ficando um de frente para o outro, suas mãos em minha cintura e as minhas nos ombros dele, próximo ao pescoço. Foi entre um giro e outro que consegui ver meu irmão que também dançava com uma garota linda, fantasiada de fada. Ashton me olhou de volta e sorriu, surpreso. E foi com sua surpresa que eu caí na real, eu nem queria estar ali; não devia estar me deixando levar tanto, pensei em Luke. E de repente a música pareceu durar uma eternidade, só queria sair dali o mais rápido possível. Quando ela finalmente acabou, o príncipe parecia muito mais confortável com a situação que eu. Segurou uma de minhas mãos e, por um segundo, pude jurar ver um pouco de timidez em sua expressão.
— Então, senhorita… — fez uma pausa e me olhou com uma sobrancelha arqueada, só então percebi que ele ainda não sabia meu nome.
. Irwin.
— Senhorita , será que gostaria de voltar outro dia desses para, de fato, conhecer a biblioteca? Ou então poderia me apresentar à de sua cidade…
— Ah. Infelizmente não vai ser possível. — Me soltei de suas mãos e vi que meu irmão se aproximava. — Eu… Não estou afim. Sinto muito, alteza. Preciso tomar um ar.
Não estava tão longe ainda quando consegui ouvir Ashton tentar consertar a situação.
— Sinto muito por isso, alteza. Aparentemente minha irmã não está em seu melhor humor hoje, mas sempre está bem humorada quando se encontra na biblioteca de nossa cidade. E ela sempre passa as tardes de sexta lá.
Dito isso, veio atrás de mim, deixando, mais uma vez, o príncipe para trás e com cara de confuso. Não consegui ficar com raiva da ação de meu irmão, ele estava apenas sendo gentil, como realmente era todos os dias. Só pude pedir para que fossemos embora, com a desculpa de estar cansada, e torcer para que o príncipe ignorasse o ocorrido e não estivesse disposto e nem interessado em aparecer na biblioteca.

Duas semanas desde o baile, biblioteca.

Era uma tarde de sexta e, como de costume, estava na biblioteca, mas não conseguia me concentrar no livro em minhas mãos. Luke tinha estado estranho desde alguns dias antes daquele baile. O baile… Ainda esperava que o príncipe tivesse ignorado o conselho de meu irmão, ou que apenas não estivesse interessado o suficiente para aparecer. Desisti da missão impossível que era me concentrar na leitura e observei Luke indo em direção às estantes próximas à janela e decidi segui-lo. Não aguentava a agonia de não ter uma resposta decente quando perguntava o que havia de errado, mas não custava nada tentar de novo.
Ele estava distraído e mal percebeu quando me aproximei. Olhava além da janela e só aí percebi um certo alvoroço do lado de fora, mas o que realmente me chamava a atenção era o modo como a luz do sol da tarde parecia deixar Luke ainda mais bonito. Não consegui conter o sorriso e acho que um suspiro escapou, pois minha presença foi notada naquele momento. Ele sorriu meio amarelo e eu estava pronta para uma discussão até que ele me dissesse a verdade do porquê estava tão estranho e distante, mas fui surpreendida com um abraço e qualquer outra ideia foi para bem longe de mim.
Poderia passar o resto do dia ali, mesmo depois de perceber que os olhos de Luke estavam marejados, naquele momento só o nosso silêncio já era suficiente para mim. Rápido demais. Me permiti ficar feliz rápido demais. De repente o meu momento de paz foi interrompido por uma voz que eu já conhecia, mas com certeza não queria ouvir naquele momento.
— Finalmente te encontrei, docinho! Infelizmente parece que estou interrompendo algo, hm? —Me soltei de Luke num pulo pelo susto. Sua expressão indicava o tamanho da surpresa e eu me sentia culpada por não ter contado a verdade sobre o baile. Do outro lado, o príncipe nos encarava com uma sobrancelha arqueada.
— Pensei que tivesse desistido, já quase pulava de felicidade com a ideia.
— Alguém pode me explicar o que tá acontecendo aqui? por que você está falando desse jeito com o príncipe?
— É, , por que você tá falando desse jeito com o príncipe?
— Eu não te dei liberdade para me chamar por nenhum apelido, alteza. Luke, olha, eu posso explicar. Não é nada que você está pensando — Disse voltando para perto dele, que se afastou como resposta.
— Eu não estou pensando nada. Só preciso de ar para processar essa confusão. Vou… Vou deixar vocês conversarem a sós. — Disse já saindo.
— Não! Luke! —Tarde demais. Revirei os olhos e voltei a encarar o príncipe que agora tinha os braços cruzados e a sobrancelha ainda arqueada.
— Você tem ideia do quanto foi difícil te encontrar? Seu irmão nem mesmo me disse qual era a cidade de vocês e você, bom, saiu correndo.
— Sim, como já te disse não estava afim. E ainda não estou.
— É, agora eu ao menos vejo o porquê. Mas não me dou por vencido facilmente —eu nem valia tanta persistência. Ri, achando graça do pensamento do príncipe. — Qual é? Estou sonhando tão alto assim?
— Você não entende, não é? Toda essa coisa de palácio, realeza, ascensão social não significa nada para mim, alteza. Eu só quero ser verdadeiramente feliz, ser amada. E já sou feliz aqui.
— Bom, não posso mudar nada disso por você, querida. E gostaria muito que se desse a chance de enxergar além disso, me desse a chance de mostrar que não sou só um rostinho bonito em uma coroa — ri mais uma vez. — Olha só, aposto que já me acha engraçado, é a segunda vez que ri! Mas, se não quer me dar a chance de levá-la um encontro, tenho outra proposta para você. Temos algumas aulas no Castelo para um pequeno grupo de pessoas, na verdade… Somos só minha prima e eu. Gostaria de convidá-la para participar, você me parece determinada e, bom, já pude notar o quanto gosta de estar entre livros. Infelizmente não estudamos apenas literatura, também há aulas sobre a história de nosso jovem país, biologia, matemática… Enfim, é realmente um ensino completo. Pela distância de sua cidade até a Capital, teria que passar a semana conosco e voltar para cá apenas nos finais de semana. Eu… Particularmente acho que é um pequeno esforço que vale a pena.
—Eu… Eu não sei. Primeiro: eu não sou sua querida. E segundo: preciso pensar. Quanto tempo me dá?
— Ficarei na cidade até a noite de domingo e durante a tarde visitarei a feira local. Pode me encontrar por lá para responder, até então tome seu tempo e, por favor, pense com carinho.
— Esteja certo que irei. Hm… Obrigada? Se não se importa, preciso tomar um ar. Muita informação de uma vez só e…
— Não precisa disfarçar que quer ir procurar seu namorado. — Disse e riu.
Saí de lá confusa, pensando na proposta, mas pensando mais ainda em encontrar Luke. Pensava em recusar, realmente não me importava com o palácio e a realeza, estava indo bem estudando na pequena biblioteca local. Depois de andar uma distância considerável, finalmente encontrei Luke. Sabia que ele estaria ali, no nosso lugar, como sempre. Mas dessa vez ele não sorriu de volta para mim. E ainda havia lágrimas em seus olhos.Quando ele finalmente ergueu a cabeça e me encarou de volta, um calafrio passou por todo o meu corpo. Eu sabia o que estava por vir. Tentei explicar tudo, mesmo sabendo que não era essa a razão, ele me ouviu pacientemente e soube que acreditava em mim, fomos melhores amigos por anos. Luke não desconfiava de mim, sabia que nunca seria capaz de fazer algo que o magoasse.
Ele só não se sentia mais da mesma forma. E quando finalmente disse as palavras que eu não queria ouvir, todo o som à minha volta parecia ter se transformado num zunido em meus ouvidos. Alto e insuportável. E doía. Eu sempre soube que as coisas têm fases, sempre soube que existe um começo, um meio e um fim, para tudo. Era o ciclo natural das coisas. Mas naquele momento eu quis que tudo mudasse, que não existisse um fim, não para nós. Ele me envolveu mais uma vez num abraço, diferente dos que me dava semanas atrás, um abraço de amigos. Me permiti chorar tudo o que senti, tirar a angústia de dentro de mim. E foi assim que a gente acabou.
Cheguei em casa exausta naquela noite, nem mesmo sentia fome. Tomei um banho e estava a caminho do meu quarto quando meu pai me chamou para a cozinha, onde o resto da família se encontrava. Ashton tinha um sorriso imenso nos lábios e pareceu derreter em alegria quando começou a contar: o príncipe tinha o encontrado assim que deixei a biblioteca e contado a ele sobre a proposta. Meus pais ficaram falando o quanto seria bom, uma oportunidade única e irrecusável. Cansada demais para argumentar, me dei por vencida e deixei que minha mãe começasse a fazer minhas malas imediatamente.

Centro da cidade, feira local, domingo.

Algumas crianças corriam no meio dos adultos que olhavam as barraquinhas de flores e alimentos. Estava distraída observando os pequenos se divertirem e me deixei esquecer toda a situação por um momento. Não percebi quando ele chegou, quando me dei conta já estávamos frente a frente enquanto ele me observava fitar as crianças curioso. Certamente aguardava sua resposta.
— Bom, eu pensei, mas antes de te responder eu tenho uma pergunta. Por quê? Por que quer fazer isso por mim?
— Sendo sincero, eu não sei. Eu só senti que devia e… — Foi interrompido por uma menininha de não mais que quatro anos, que esbarrou em nós dois e abriu a boca surpresa. Ela puxou minha mão e me abaixei para falar com ela.
— Moça, eu trombei em você e no seu namorado, des… — ela parou no meio da palavra, imaginei que para lembrar como se falava o resto. — Desculpa!
— Tá tudo bem, foi um acidente, não é? E ele não é… — Interrompida.
— Não tem problema, fofinha! — ele disse se abaixando também. Segurou uma das mãos da criança e olhou em volta. — Você sabe onde estão seus pais? Precisa de ajuda para encontrar?
— Nanão, mamãe trabalha ali ó. — A criança levantou o outro bracinho e apontou para uma barraca de flores. Calum assentiu, a pegou no colo e levou de volta para a mãe.
Quando ele voltou tinha uma rosa amarela nas mãos e entregou para mim.
— Uma última tentativa de te fazer mudar de ideia caso a resposta seja negativa. A rosa é clichê, mas a cor a faz diferente. — Eu sorri.
— Sinto em te decepcionar, mas a resposta já era positiva. A ideia da rosa foi desnecessária, mas eu gostei mesmo assim.

Um tempo depois, castelo.

Já haviam se passado sete semanas desde que eu começara a estudar no castelo e eu jamais poderia imaginar que a minha vida mudaria dessa forma. Foram cinco semanas sem notícias de Luke e por incrível que pareça, não sentia falta dele da maneira que imaginei. Acabei por perceber que éramos realmente melhores como amigos e sentia sua falta nesse aspecto, ele sempre foi meu único amigo até então.
Essa era uma das coisas que a convivência no castelo havia mudado, agora eu tinha mais amigos. Michael era apenas alguns anos mais velho, mas era quem nos dava aulas de literatura e história do país. Ele era amigo do príncipe desde a infância e havia se tornado meu melhor amigo por ali, também. Sunny era a prima de quem Calum havia falado e ela era literalmente o Sol daquele lugar, mas infelizmente não estava sempre presente, por ter suas próprias coisas para administrar.
O rei e a rainha eram o completo oposto do que eu havia imaginado. Não tinham torcido o nariz para o fato de eu estar praticamente morando ali, como se fosse uma deles. No começo apenas eram educados e formais, mas com o passar dos dias foram se abrindo mais, principalmente a rainha. Foi ela quem me contou que todos ficaram, na verdade, felizes com a notícia de que eu passaria a estudar lá. Segundo ela, o príncipe se sentia muito solitário desde que a irmã saiu do país e nem mesmo Sunny e Michael podiam estar ali o tempo todo, visto que tinham suas próprias obrigações.
Minha opinião a respeito dele também havia mudado nas últimas semanas. Tanto que me assustava. Passei a reparar nas pequenas coisas a respeito dele e eu sabia que não devia fazer isso, mas me parecia tão certo. A forma como ele demonstrava carinho e preocupação com todos a sua volta, a maneira como posicionava suas mãos no colo quando estava sentado, da maneira como fechava seus olhos sorrindo até como franzia a testa e travava o maxilar quando estava irritado.
— Acho que o Calum vai te chamar pra sair. — Michael disse me tirando dos meus pensamentos.
— Quê? Ficou doido? Por que você acha isso?
— Não se faz de boba, Irwin. Você sabe desde o começo o quão interessado em você ele é, mas você nunca deu brecha nenhuma pro coitado. E além disso tem toda a história do seu namoradinho…
— Mike, você sabe que não tem nenhuma história de namorado, eu te contei tudo que aconteceu, lembra?
— Eu sei, eu sei. Mas o Calum não sabe. Acho que ele vai falar só pra tirar o peso da consciência, entende? Ele não acredita de verdade que tem alguma chance, mas conviver com a dúvida deve ser horrível pra ele. Só estou te dizendo isso para não parecer tão surpresa quando ele criar coragem, o que deve ser logo.
— Como você pode ter tanta certeza?
— Simples: somos melhores amigos desde crianças. E, além disso, eu contei pra ele que vi você encarando de volta, reparando demais e sorrindo meio boba. — Ele disse mostrando a língua.
— VOCÊ O QUÊ? Michael! Você não pode fazer uma coisa dessas.
— Posso sim, e já fiz. Você é quem não pode ficar gritando, estamos em uma biblioteca; mesmo que não tenha mais ninguém aqui, esse castelo é cheio de eco. Agora, se minha querida amiga me dá licença, eu gostaria de ir tirar um cochilo antes de preparar a próxima aula e acredito que você também vai ter com o que se ocupar agora. — Disse ao sair e acenar com a cabeça indicando para o outro lado da sala, onde vi que o príncipe se aproximava meio… inseguro?
— Oi, eu… Queria de te levar para um lugar. Na verdade é aqui dentro do castelo mesmo, mas… é um lugar. Se não quiser não tem problema, mas…— Ri soprado, achando sua confusão um tanto quanto fofa. E, não sei de onde ela surgiu, mas só consegui pensar em uma resposta possível.
— Eu adoraria, docinho.
Foi o suficiente para que ele criasse coragem o suficiente para me pegar pela mão e me guiar pelo castelo, por corredores onde nunca havia estado. Subimos tantas escadas que pensei que chegaríamos na lua, mas era ainda melhor. Finalmente chegamos no último andar do castelo, o terraço, e era como um jardim; o mais lindo que já tinha visto em toda a vida. Havia um grande portal de ferro, coberto pelo verde das plantas e algumas pequenas flores rosa-claro e brancas.
No centro, havia um canteiro com tantas flores que nem conseguia identificar todas, na parede havia mais verde e algumas orquídeas de cores exóticas que nem imaginei que existiam. No parapeito, haviam alguns girassóis e uma grande luminária. Fui até lá, ainda embasbacada com a beleza do local, mas, olhando tudo de lá de cima, fiquei ainda mais surpresa. Percebi que o príncipe observava as minhas reações com um sorriso e sorri de volta. Ele se aproximou e se apoiou no parapeito ao meu lado.

Red, red desert, heal our blues
I’d dive deeper for you
What a blessing to feel your love
Twilight moments with you

I’ve been asleep so long, I’m so far away
Visions I see are strong, I hear what they say
Won’t you leave all your fears at the edge of the world?
I’ll tell you again like I told you before
I’ve been asleep so long, wasting away

— É lindo, não é? E olhando aqui de cima, tudo parece tão diferente…
— É realmente muito lindo. Tudo aqui. Olhar pra baixo é certamente diferente… Com tanto verde aqui todo o resto parece um grande deserto. Tudo parece tão pequeno, mas é uma vista tão forte.
— Esse é meu lugar favorito do castelo. Venho aqui quando preciso abrir meus olhos para algo, quando quero abandonar meus medos aqui, no meu topo do mundo particular. É como se estar aqui curasse minha tristeza e me trouxesse paz.
— Você não tinha medo de subir aqui quando criança? É tão bonito, mas tão alto. Acho que fiquei um pouco zonza pensando nisso. —Levei uma mão à testa e ele riu.
— Na verdade, quando criança estava mais ocupado aproveitando os locais onde podia brincar por aqui. Não faz muito tempo desde que subi aqui pela primeira vez e foi como se tivesse acordado depois de dormir por muito, muito tempo. Como se realmente voltasse para casa depois de passar um longo tempo distante. Minha mãe é quem escolheu todas essas plantas e começou o cultivo, era o local de escape dela, passou a ser o meu e pode ser o seu também se quiser.
— Faria isso por mim? Dividir seu lugar favorito comigo?
— Eu faria várias coisas por você… — Ele disse sorrindo. Se aproximou um pouco mais e continuava me fitando.
— Tem algum problema com meu rosto?
— Não. É só que… Você fica tão linda à luz do pôr do Sol. Em qualquer luz, na verdade, mas aqui e nessa luz parece até algo etéreo — sorri verdadeiramente, sentindo meu rosto esquentar e ficar vermelho. — Não acredito que consegui te deixar envergonhada!
— Não estou envergonhada!
— Está sim, mas continua linda se quer saber.
— Sabe, já faz quase dois meses que comecei a ter aulas aqui e ainda tem tantas coisas que não param de me surpreender.
— Me daria a honra de saber o quê?
— Nesse momento, a principal é o tom avermelhado do crepúsculo refletindo lá embaixo; desse jeito a cidade e a estrada me lembram um grande deserto vermelho e isso estranhamente me conforta, parece me lembrar de que cada coisa tem seu lugar e cada lugar. Também me surpreende que passamos tanto tempo juntos e bom, parece que você estava certo desde o início: é muito mais do que um rostinho bonito com uma coroa. Tem tanta coisa bonita em você, por dentro e por fora, e eu nem sei quando comecei a reparar e ficar surpresa com isso, pra ser sincera. Mas o que mais me surpreende é que mesmo passando a semana toda juntos, quando volto para a minha família nos fins de semana, ainda assim, algo em mim faz com que sinta saudade como se não nos víssemos a anos. — Percebi tudo que tinha dito e me repreendi por um segundo, até reparar na maneira como ele sorria. E aquele sorriso aqueceu tudo dentro de mim.
— Você não pode me falar essas coisas se não quer que eu me apaixone, docinho. Já é difícil o suficiente evitar sem uma declaração dessas…
— Talvez eu queira… — disse rindo e pisquei para ele. — Mas um passarinho me contou que me trouxe aqui para perguntar algo, não para me ouvir dizendo que detalhes em você me encantam…
— Como você? — Pensou por um instante e pareceu cair em sí. — Michael! Ok, você tem razão. Mas eu não sei se consigo sobreviver a uma segunda rejeição então aceite, mesmo que por caridade, ok?
— Pare de ser tão dramático!
— Só paro se me disser que não é um dos detalhes que a encantam.
— Diz logo!
— Ok, ok. Acho que depois desse tempo todo já dividimos muitas conversas e momentos que se tornaram boas memórias, mas ainda assim, gosto de algumas formalidades, e queria saber se gostaria de ir a um encontro de verdade comigo.
— Eu adoraria. O que tem em mente?
— Ah, na verdade, eu achei que você fosse dizer não, então não pensei em nada além de reclamar com Michael como ele estava errado. — Calum disse coçando a cabeça e eu gargalhei.
— Então já sei exatamente aonde iremos. Vou te apresentar ao meu antigo lugar favorito.
— Antigo?
— Sim, esse com certeza é o favorito agora; com a companhia e tudo.

Sexta-feira seguinte.

Tínhamos acabado de chegar em minha casa; o Calum e eu. Tinha enviado uma carta para meu irmão, contando que faríamos uma visita e pedindo para que preparasse nossos pais, para que não ficassem nos enchendo de perguntas. A cena de estarmos todos sentados à mesa da copa tomando café era um tanto quanto estranha, mas reconfortante. Meu coração errava o compasso a cada vez que ouvia sua risada no meio de uma conversa com meus familiares. Não conseguia mais negar que tinha me apaixonado pelo príncipe. Que clichê, não??
Não soube como evitar, não soube quando aconteceu. Mas era intenso. Não sabia se ele tinha percebido, tentava demonstrar em todas as minhas atitudes. Quando contei a Michael, ele disse que já sabia, que eu era a única que não sabia ou não aceitava antes. Sunny disse o mesmo. Será que Luke concordaria? Fazia tanto tempo que não nos víamos, que ao menos pensava nele. Aparentemente não havia demorado muito para me curar e seguir em frente, mas cedo ou tarde teria que encontrá-lo; ainda éramos amigos e essa lembrança implorava para permanecer viva.
— … E o que você acha, ? — Perguntou minha mãe.
— Ahn? Sobre o que?
— Por Deus, filha! Estou há dez minutos falando com você e sequer ouviu?
— Ah, mamãe, até parece que não se acostumou. Ultimamente ela anda avoada mesmo, sorrindo feito boba e perdida no próprio mundinho… Sintomas de paixão, não concorda, alteza? — Ash disse com um sorriso sugestivo.
— Ok, chega né, irmãozinho. A conversa tá ótima, mas temos compromisso. Vamos?
Disse e estendi a mão para Calum, que segurou sorrindo, sem hesitar. Ashton continuou sorrindo sugestivo, mas indicou com a cabeça para onde estava a cesta com as coisas que pedi (também na carta) para que ele separasse. A noite já começava a cair e o clima era agradável, mesmo que o vento bagunçasse meus cabelos. A sensação de caminhar com nossas mãos entrelaçadas me dava espasmos de felicidade, tinha certeza que estava sorrindo e nem precisava olhar para conferir: sabia que ele também estava.
Fizemos o caminho que eu conhecia tão bem até o parque, mas não nos sentamos no lugar onde eu estava acostumada. Andamos mais para dentro das árvores, onde eu sabia que havia um balanço. Sorri, satisfeita com a localização. Paramos e soltei sua mão, pronta para começar a arrumação. Abri a cesta que estava pendurada em meu braço, tirei a grande toalha vermelha de dentro e a estendi no chão. Tirei também algumas frutas, lanches e sucos; quando a cesta estava quase vazia notei que lá no fundo havia duas velas. Balancei a cabeça pensando na cara que meu irmão fizera quando teve a ideia de colocá-las ali, mas o agradeci mentalmente já que eu mesma não tinha pensado nisso.
— Um pique-nique noturno?
— Sim, não gostou?
— Adorei. Achei genial e inesperado, assim como tanta coisa em você. Mas quem deveria ter montado todas essas coisas era eu, não acha, querida?
— Tudo bem, na próxima vez você fica responsável por todo o planejamento e eu pelo convite.
Seu rosto se iluminou, seus olhos brilhavam mais que as estrelas e não pude deixar de me encher de felicidade por sua reação ao saber que eu esperava por uma próxima vez. Comemos e conversamos entre trocas de olhares e sorrisos. Quando já estávamos satisfeitos, deitamos lado a lado sobre a toalha, para observar as estrelas. Era confortável estar assim com ele, me sentia flutuar.
— Você já teve a curiosidade de ir até o céu?
— Sendo sincero, não estava no topo da minha lista de desejos — disse rindo. — Mas adoraria ir até o céu com você. Já teve a curiosidade de ir bem fundo no mar? — Respondeu com simplicidade, se virando para olhar para mim.
— Não. Eu não sei nadar. Mas… Eu iria até o fundo do mar com você. — Mais uma vez o rosto dele se iluminou e pareceu ter uma ideia.
— Eu… Preciso fazer uma coisa, vi algo no caminho e preciso ir até lá. Te ajudo a guardar as coisas e você me espera nos bancos próximos ao começo do parque, tudo bem? — Assenti.

[…]
Calum demorava mais do que imaginei e estava distraída com meus pés, quando uma voz conhecida apareceu por perto. Mas não era a dele.
!
— Luke? O que faz aqui?
— Turno da noite na biblioteca, estava voltando para casa e decidi caminhar por aqui. O que você faz aqui? E sozinha??
— Eu… Tive um encontro; na árvore com balanço no fim do parque. Não estava sozinha.
— Um encontro? Soube que está tendo aulas e passando a semana no palácio, ainda sobra tempo para conhecer pessoas? A não ser que… — me olhou contendo o riso e minha expressão me denunciou. — Não acredito! Isso é tão clichê que daria um livro!
— Luke você tá me deixando com vergonha, para!
— E não é pra isso que os amigos servem? Para te fazer passar vergonha? Ah, Deus, quem diria!! Isso quer dizer que vou ser convidado para um casamento Real? Espero que você escolha ter dois padrinhos ao invés de um, porque esse cargo é meu e acredito que Ash também o quer. Falando nisso, seu irmão te contou que está namorando?
— Você fala demais, meu Deus! — disse rindo. — Senti sua falta; do meu melhor amigo.
— Também senti a falta da minha melhor amiga, . Algumas coisas são mesmo como tem que ser, não é?
E ali estávamos nós, agindo como antes. Antes de tudo, melhores amigos. Não contive o sorriso ao ser abraçada por ele depois de tanto tempo, era bom ter meu amigo de volta. Me sentia leve até ouvir o barulho de algo caindo no chão. Nos separamos e vi o que tinha causado o barulho. Um buquê de rosas amarelas. Calum.
— Parece que não sou tão observador quanto imaginei. Reparei na pequena floricultura aberta, mas não reparei que a biblioteca ainda funcionava. E cheguei a esquecer do pequeno detalhe que você tem um namorado, acho que devo me acostumar a chegar quando vocês estão assim. Eu… Por um momento achei que gostasse de mim. Por que dizer todas aquelas coisas se eram mentiras? — Respirou fundo. — Parece que Michael estava mesmo errado no fim das contas. Vou voltar para casa ainda hoje. Para minha casa.
— NÃO! Calum, você entendeu errado. Não é o que você tá pensando, deixa eu te explicar.
— Eu já ouvi essas palavras saindo da sua boca antes e não eram para mim.
Ele virou as costas para mim e saiu andando rápido. Eu estava sem reação, não acreditava que num piscar de olhos tudo havia desabado e dado tão errado. Senti um peteleco em minha testa.
— Tá fazendo o que aqui parada? Vai atrás dele consertar as coisas. Ele não vai acreditar em mim. Deixa suas coisas pra trás, depois eu entrego na sua casa. Vai logo!
E então eu corri e chamei seu nome, sem sucesso, ele continuava andando como se não me ouvisse. Apertei o passo até que conseguisse ultrapassá-lo e parei em sua frente.
— Não tem… — estava ofegante. — Não tem namorado nenhum, Calum. Luke é meu amigo e nada além disso, você entendeu tudo errado. Não tudo; eu realmente gosto de você. Não sei quando aconteceu, mas é intenso e é difícil expressar com palavras. Sabe, você me disse que eu deveria enxergar além das aparências e agora eu vejo. Vejo sua essência, sua alma e eu não consigo esconder, não consigo negar para mim mesma; estou apaixonada por você, docinho. Eu tô toda bagunçada aqui por dentro e só você consegue arrumar isso, só o seu sorriso. Tudo que eu te disse, antes e agora, é verdade. Você tem que acreditar em mim, não sei se consigo sobreviver a uma rejeição. — Levei uma mão à testa dramatizando e imitando sua fala. Ele sorriu e eu soube que estava tudo bem. Se aproximou e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. Manteve a mão em meu rosto.
— Você é dramática demais.
— Aprendi com o melhor, sabia?
— Shakespeare?
— Shakespeare não é nem de longe tão dramático quanto você!
“Serei teu à tua ordem, apenas chama-me de amor.”
Ele citou Romeu e Julieta mantendo seus olhos fixos nos meus e se aproximou quebrando a distância entre nós, colando nossos lábios. Um beijo nascido de uma intensa conexão, lotado de sentimentos, esperado por muito tempo. Quando o ar finalmente se fez necessário, continuamos colados um ao outro, as testas se tocando, os olhares fixos e os sorrisos iluminando a noite. O puxei de volta para mim. E de novo. E de novo. E de novo. E quando a coragem finalmente se fez presente, sussurei alto o suficiente para que ele ouvisse.
Amor!
A visão mais linda que tive em toda vida foi a de seu sorriso naquele momento. Ele me beijou mais uma vez e me levantou no ar, girando nossos corpos em conjunto. Percebi que faria tudo por esse sentimento, faria tudo por ele. Iria até o Norte sem agasalhos; iria ao céu, ao topo do mundo, sem olhar para baixo; iria fundo no oceano, mesmo sem saber nadar. Ele era o único por quem faria isso.

I’d dive deeper for you
(Dive in deeper for you, dive in deeper for you)
What a blessing to feel your love
Twilight moments with you
(All these moments with you, all these moments with you)
Pack up all your bags, stay true to North
You’re the only one I’d do this for

Epílogo.

Três anos depois.

“Love me tender, love me sweet, never let me go. You have made my life complete and I love you so. Love me tender, love me true, all my dreams fulfill for my darling I love you and I always will. Love me tender, love me long. Take me to your heart for it’s there that I belong and will never part.” Love me tender, Elvis Presley.
O terraço estava mais bonito do que nunca. Tecidos brancos moldavam o caminho até um pequeno altar ao lado do canteiro central; onde ele estava parado em pé, me olhando com o sorriso mais lindo de todo o universo. Seu terno azul escuro com alguns detalhes dourados contrastava com o tom vermelho do pôr do sol e deixava sua pele num tom ainda mais bonito. Era difícil desviar o olhar, mas meus olhos já se enchiam de lágrimas sem nem reparar em todo o resto. Respirei fundo e olhei em volta. Meu irmão chorava junto de minha mãe no canto do pequeno altar e meu pai tinha uma das mãos no rosto, como se também tentasse se segurar. Do outro lado, Luke, Michael e Sunny sorriam orgulhosos e próximo a eles estavam o rei e a rainha que também tinham feições alegres, ainda que mais contidas.
Andei tentando manter a calma e o ritmo que me foi instruído, mas estava ansiosa demais para me controlar direito. Apertei forte o buquê amarelo em meus dedos; reparei nas mais diversas flores em vários tons da cor — não queria o convencional padrão de uma cor e uma flor. Tentei me concentrar em meu próprio corpo para que o percurso parecesse mais fácil; e então a ficha pareceu cair. Era O grande dia.
O longo vestido branco se arrastava pelo chão, as alcinhas caiam sobre meus ombros e a grinalda brilhante adornava meus cabelos; era algo relativamente simples. Eu gostava assim, não fazia questão de luxos e nem nada; tudo o que importava é que ele estivesse me esperando no altar. E, bom, ele estava. Se fosse possível, meu sorriso seria maior que o meu próprio rosto e ainda assim não expressaria metade da minha felicidade.
Cheguei ao fim do caminho e Calum segurou minha mão enquanto olhava nos meus olhos e se aproximava para depositar um beijo em minha testa, mandando todo o nervosismo para longe. Apertei sua mão com mais força antes de nos virarmos para o padre que aguardava para iniciar e cerimônia.

[…]
— Antes de terminar os votos eu gostaria de dizer uma coisa, todos de acordo? — perguntou Calum com as mãos trêmulas tirando um pedaço de papel do bolso e o desdobrando. Sorri já sentindo as lágrimas voltarem aos meus olhos e assenti com a cabeça. — Ao longo da vida, ouvi várias vezes que os melhores presentes sempre aparecem de maneira inusitada, porém no momento certo. E um tempo atrás eu passei a acreditar e agradecer por essa teoria, quando encontrei um anjo bisbilhotando o castelo à procura da biblioteca na minha festa de aniversário. Vim a descobrir que o tal anjo era a mulher mais bonita, por dentro e por fora, em todos os sentidos, que eu poderia conhecer. A pessoa que mais confio na vida, por quem eu iria do topo do mundo até o ponto mais profundo dos oceanos, com quem quero passar toda essa vida e as outras que virão. Nem Shakespeare, nem os melhores poetas vitorianos seriam capazes de imaginar e criar alguém tão incrível quanto você, . Quero roubar as palavras de Elizabeth Barrow Browning por um momento e direcioná-las para você, que gosta tanto dessas citações;

“Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh’alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser; a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.”
“Por toda a vida. Depois dela, o que quer que seja que aconteça, vou te amar para sempre, docinho.

As lágrimas caíam sem que eu conseguisse controlar e tudo em volta parou de existir naquele instante. Éramos eu e ele e seríamos para sempre. Formando a nossa família. Vivendo as nossas vidas entrelaçadas. E era tudo o que importava, o final. Não esperei nem mais um instante antes de abraçá-lo e o envolver num beijo, selando ali mais um de nossos inícios; no nosso lugar favorito; com as nossas pessoas favoritas. Do começo até o final, era tudo sobre nós.