Lonely Heart

Lonely Heart

Sinopse: 1. Um apartamento com varanda; 2. Um gato chamado Batman e um cachorro chamado Robin; 3. Viver de escrita; 4. Casar com o amor de sua vida.
Aqueles eram os quatro principais sonhos que cultivava desde os quinze anos. Agora aos vinte e quatro, precisou riscar e modificar dois deles, já que não teria tempo de cuidar de Batman e Robin porque seu relacionamento tinha chegado ao fim. Queriam coisas diferentes da vida e romper o compromisso era a melhor opção. Precisavam trilhar seus próprios caminhos e tendo plena certeza de que aquilo era o melhor, não pensou que fosse sentir tanta saudade do que tiveram, já que esperava se acostumar e seguir em frente. Será que poderiam sentir aquele amor de novo ou seu coração seria solitário pelo resto de seus dias?
Gênero: Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: A história é livre de gênero.
Beta: Regina George.

Capítulo Único

Términos não são a coisa mais fácil do mundo. O ser humano tende a se acostumar e acomodar, mesmo com pequenos costumes, como o de preparar um almoço especial aos finais de semana, e quando uma ruptura acontece, é normal que as pessoas se sintam estranhas. É normal sentir falta, mesmo quando o motivo da saudade não é bom ou saudável. No caso de , não sentir falta de nem era uma opção.
Não havia sido um término ruim, longe daquilo, não tinha espaço para brigas e rancor em meio a tanto amor. Tinham decidido seguir rumos diferentes em suas vidas, já que sempre tiveram pensamentos e metas de vida distintas, mas tinham se apaixonado e aberto mão de certas coisas para manterem aquele relacionamento. Enquanto o sonho de era ter uma varanda no apartamento, que pudesse decorar com plantas, colocar um sofá confortável para ter sossego e criar diversas narrativas – escrever era sua maior paixão desde a infância, queria viajar e conhecer o mundo. A curiosidade sempre havia sido um traço seu e mesmo que tivesse adiado seus planos por alguns anos, ainda mantinha uma pequena esperança de que um dia mudaria de pensamento e se apaixonaria pela ideia de conhecer o mundo ao seu lado. Não havia acontecido e depois de uma conversa madura e sensata, principalmente onde admitiam para si que não estavam na mesma sintonia, o relacionamento chegou ao fim. Em um dia ainda dividiam o pequeno apartamento no centro e no outro, tinha recolhido suas coisas e voltado para a casa dos pais, apenas por tempo o suficiente para se organizar e iniciar o mochilão com o qual sempre sonhara.
Tinha sido difícil. No primeiro dia, sentiu-se tão mal que precisou buscar auxilio do Google para ter certeza que aquela dor no peito era apenas coração partido e não um ataque cardíaco. era seu primeiro e único amor, nunca tinha experimentado qualquer tipo de decepção amorosa e não sabia lidar com a dor que sentia. Precisou da ajuda de suas amizades para não sucumbir a vontade de ligar para e deixar seus sonhos de lado para viver os de . Mas estaria sendo sua própria toxina, então guardou a saudade dentro de seu coração e esperou que as coisas melhorassem.
Do outro lado da cidade, não vivia dias maravilhosos. Nem havia esperado se sentir bem, com o término tão recente para assombrar sua felicidade. Mas tinham tomado uma decisão e sabia que voltar atrás faria muito mais mal do que bem. Alguém teria que ceder e odiaria acordar um dia no futuro e sentir qualquer tipo de culpa ou magoa. A culpa por ter atrapalhado os sonhos de ou magoa por ter deixado seus próprios de lado para continuar aquele relacionamento. O amor era sim o bem mais importante e necessário dentro de um relacionamento, mas antes de serem um casal, eram duas pessoas, com suas individualidades e que tinham metas e sonhos dispares. Não podiam resumir toda suas vidas naquele relacionamento ou acabariam se desgastando. E aquele amor era bonito demais para ser manchado por qualquer sentimento ruim.
Dessa forma optaram, em um acordo sem qualquer comunicação, por não se procurarem. bloqueou os perfis de nas redes sociais por um tempo, apenas o suficiente até que se sentisse um pouco melhor, enquanto se afundou nos planos de viagem para evitar pensar em quem tanto fazia bagunça em seu coração, fosse com felicidade ou então com saudade.
E os dias seguiram, o mundo continuou a girar, mas aquele sentimento não foi embora.

Dia 7
Ainda doía. Muito, de forma profunda e sufocante. Infelizmente não era mais pré-adolescente e tinha responsabilidades e uma vida para tocar, mas tudo o que desejava era ficar em sua cama, debaixo das cobertas, ouvindo músicas tristes e comendo uma barra de chocolate atrás da outra. Seus dias de fossa não eram nada saudáveis, mas não se lembrava de ter passado algum dia ruim sem o abraço acolhedor e o beijo cuidadoso de , que sempre eram o melhor remédio para afastar os sentimentos desagradáveis de seu coração e mente. Sempre que acordava sentindo-se mal, ia dormir com a esperança e positividade de dias melhores porque era como seu Sol particular e via o lado bom mesmo nas piores situações.
Mas agora era um planeta solitário, seu Sol tinha ido embora e precisaria encontrar e construir sua própria galáxia por si só. Aquilo lhe causava medo e aflição, mas sabia que era a melhor – e única – opção.
Seu dia não tinha sido dos melhores, precisava sempre manter a sinceridade. Não gostava de seu emprego, mas eram raros os dias onde as tarefas se acumulavam e não conseguia tempo nem para almoçar direito. Sempre fora uma pessoa metódica e apesar de não parecer, procrastinação não era um mal que lhe afligia. Nunca deixava para depois o que podia fazer no mesmo dia e por isso seu trabalho se tornava menos caótico e conseguia tempo, entre uma planilha e outra, de escrever suas narrativas e dar seguimento a sua meta de escrever um livro por mês – ou há cada dois meses, dependia muito de como sua criatividade tomava espaço.
Sempre trabalhara melhor com prazos e metas e ter estipulado para si mesma aquela missão não soava como uma obrigação. escrevia porque amava e por amar tanto a escrita, queria um dia, poder viver apenas daquilo. Como viveria de suas palavras se não escrevesse? Por isso tinha criado para si aquele desafio e cada livro escrito, era enviado para a revisão contratada e então publicado como e-book, de forma gratuita e prática. Ao longo dos últimos três anos, havia conseguido publicar cinco livros, mas o que recebia de royalties pelas obras ainda não era o suficiente para pagar suas contas mensais. Precisava aumentar seu lucro e para isso, além de planejar divulgações criativas nas redes sociais em busca de mais leitores, precisava sempre ter algum lançamento para manter aqueles que já liam suas obras. Em um ano teria um total de dezessete obras e esperava ter algum retorno financeiro estável que não fosse de seu emprego assalariado.
Estalou os dedos e movimentou a cabeça para aliviar a tensão em seu pescoço, seu olhar batendo no relógio e constatando que faltava menos de meia hora para o fim de seu expediente. Salvou o arquivo do livro e fechou o Word, focando em adiantar a primeira planilha do dia seguinte nos minutos que lhe restavam antes de juntar seus pertences, tirar os eletrônicos da tomada e seguir para fora do escritório, desejando um bom final de semana para os colegas por quem passava. O ponto de ônibus ficava próximo da empresa, há uma quadra de distância, e todos os dias seguia ao lado de , já que moravam no mesmo bairro e pegavam o mesmo ônibus. era uma de suas amizades mais antigas e fora por sua indicação que tinha conseguido aquele emprego.
– E aí, planos pro final de semana? – indagou e torceu os lábios.
– Nenhum – respondeu. – Não tô no clima. Talvez eu visite os meus pais, mas não acho que vou ter disposição.
– Vai demorar um pouquinho pra você se acostumar , mas eu tenho certeza que logo as coisas vão deixar de parecer tão ruins. A gente se acostuma, só precisa de tempo – abriu um sorriso reconfortante e assentiu, sem realmente acreditar naquilo.
– Valeu.
– Se quiser companhia, me liga. Podemos fazer bolo e assistir filmes.
– Qualquer coisa eu ligo, mas acho que vou optar pela solidão. Tô precisando me acostumar a ser impar e não par outra vez – suspirou e assentiu, acariciando o braço de em um gesto de cuidado.
A viagem de ônibus demorou mais que o normal por conta do trânsito e quando chegou em casa, a noite já tinha caído e sentia a preguiça dominar todo seu corpo. Não encontrou na cozinha preparando o jantar e o apartamento se afundava em um silêncio nada acolhedor sem a playlist favorita que ouvia para cozinhar.

Dia 23
Sentia que ainda era muito cedo para sair de casa com os amigos. Nem mesmo tinha tido coragem de continuar assistindo Anne With Na E, mesmo que faltasse apenas dois episódios para o final da série. Mas como poderia, se tinha começado a assistir por influência de e aquele era o programa que faziam todas as sextas-feiras à noite? Era algo de e , assim como a pipoca doce com leite condensado e o amor pela discografia de Anavitória.
Não conseguia deixar de se perguntar o que estaria fazendo caso ainda estivesse ali ou mesmo o que estaria fazendo na casa dos pais. Será que já tinha planejado toda a viagem? Talvez tivesse partido e nem sabia. Ainda não havia desbloqueado os perfis nas redes sociais e os amigos que tinham em comum não diziam nada. Um novo grupo no WhatsApp havia sido criado, já que saíra do antigo e admitia que trocava poucas mensagens com os amigos. Em comparação ao que era antes, todos poderiam entrar em concordância de que um pouco da vitalidade de havia ido junto de quando deixara o apartamento.
Não era como se não pudesse viver sem . Claro que podia, mas faziam pouco mais de vinte dias desde o término e não haviam tido um namorico qualquer. Não foram dois meses e sim quase dez anos. Sabia que era normal se sentir mal daquela forma e também sabia, que em algum momento, as lembranças com iriam deixar de ser tão vividas e se lhe causariam um riso frouxo e pequeno ao invés de um bolo na garganta e a inevitável vontade de chorar. Se parasse de procurar por nas pequenas coisas e tentasse criar uma nova rotina e substituir as lembranças que tinha com por novas lembranças, talvez as coisas andassem mais rápido.
Mas quem disse que conseguia?
Ainda dormia ao lado esquerdo da cama. Ainda preparava mais torradas pela manhã do que seria capaz de comer, sem se dar conta de que estava desperdiçando comida, já que não estaria em casa para comer. Ainda tomava banhos rápidos demais e quase conseguia ouvir reclamando da torneira aberta quando estava escovando os dentes. Havia tanta coisa de sua rotina com que lhe fazia falta. Era fácil ver o lado bom das coisas quando tinha tanto amor em casa e agora tudo parecia vazio e solitário demais.
Suspirou, se jogando no sofá e zapeando pelos programas da Netflix em busca de algo novo para assistir. Sem sucesso, acabou optando por rever Brooklyn Nine-Nine. Já estava na metade do segundo episódio quando seu celular começou a tocar e precisou respirar fundo e tomar coragem para atender a ligação da mãe. Estava evitando contato com a família, já que não se sentia pronta para falar do término, mas sabia que mais cedo ou mais tarde sua mãe a procuraria. E preferia que fosse por ligação do que em um encontro.
– E como você está? – sua mãe indagou, após alguns minutos de conversa. – Sobre .
– Melhor do que estive dias atrás. Acho que vou me acostumar com o tempo, mas ainda tem tantas lembranças nesse apartamento e só… parece coisa demais para ser digerida.
– Já pensou em se mudar? – sugeriu e estalou os lábios, indicando que estava ouvindo. – Era o plano de vocês, não era? O seu plano. O apartamento com a varanda na sacada. Acho que faria bem pra você realizar esse sonho e se lembrar do porque vocês terminaram.
– É… parece uma boa ideia.
– Vou procurar apartamentos amanhã e mando pra você os anúncios – sua mãe soou animada e abriu um sorriso pequeno.
– Tudo bem – concordou por fim.
Talvez estivesse mesmo na hora de parar de se sabotar e buscar viver sua vida sozinha.

Dia 58
Tinha sonhado com naquela noite e não sabia o que aquilo poderia significar. sempre dizia que todos os sonhos eram importantes e muitas vezes carregavam avisos, mas para aquilo era apenas um sinal de que ainda sentia muita falta de .
A mudança de apartamento tinha ajudado, já que não revivia uma lembrança do relacionamento em casa pedacinho de onde vivia. Tinha contado com a ajuda dos amigos para a mudança e descoberto que tinha conhecimento do que estava fazendo. Ninguém havia lhe contado, mas sem querer tinha ouvido os amigos brigando por alguém ter comentado no outro grupo sobre a mudança e dessa forma, informado sobre os acontecimentos. E não sabia se aquilo era bom ou ruim. E se pensasse que já tinha superado e estava completamente bem? E se aquilo acabasse com todas as chances de ainda voltarem a namorar? Sabia que estava pensando tolices em ainda cultivar aquelas esperanças, mas era do amor de sua vida que estava falando e sobre as coisas sempre seriam diferentes.
Era sábado a noite e as coisas estavam estranhas demais. Fora o tempo frio fora de época, seu celular não estava vibrando há cada segundo por causa do grupo com os amigos. Era costume jogarem Among Us quando não tinham planos de sair e o acumulo de mensagens era algo inevitável, mas naquela noite tudo estava calmo demais. Silencioso a ponto de fazer sentir falta de brigar por ter seu celular travado e em busca de respostas, abriu o Instagram, sentindo que encontraria nos Stories dos amigos o motivo de tanta calmaria. E se tivesse um sexto sentido teria evitado a pontada no peito que sentiu ao ver a pequena festa de despedida que seus amigos tinham organizado para , que embarcaria para seu mochilão no dia seguinte.
Por um lado sentiu-se feliz. Afinal, aquele era o maior sonho de e tendo as condições – já que vinha de uma família de boa condição financeira e seu trabalho com tradução lhe rendia um bom salário, não havia um motivo plausível para adiar a viagem. Tinha demorado, provavelmente por causa da burocracia, mas finalmente estaria indo de encontro aos seus sonhos e apesar da tristeza por sentir tanta falta de em sua vida, de seu amor e seus carinhos, conseguia sentir um resquício de felicidade. Queria que fosse feliz, independente de qualquer outra coisa e desejava que ela tomasse cuidado.
Se antes as chances de tudo voltar ao que era antes já eram ruins, agora tinham se tornado nulas. visitaria países ao redor do mundo por um longo tempo e tinha noção de muitas coisas podiam mudar. Novas experiências causavam mudanças e talvez quando voltasse, fosse uma pessoa completamente diferente da pessoa por quem tinha se apaixonado. E tudo bem, as pessoas mudavam e a vida continuava.
precisava continuar também.

Dia 76
Sair para beber pela primeira vez em mais de setenta dias. Não que fosse viciada em álcool ou algo do tipo, na verdade, odiava bebidas amargas e tendo preferências por drinks mais doces, acabava se embriagando rápido demais e era quem costumava cuidar para que não fizesse nada vergonhoso ou acabasse se machucando de alguma forma. sempre fora muito mais resistente para bebidas, mas agora estaria apenas com seus amigos, em busca do primeiro porre de sua vida longe de .
Estava experimentando novamente tantas coisas sem que a pontada em seu peito não doía mais com tanta intensidade. Mas isso não diminuía a saudade que continuava sentindo., principalmente porque tinha desbloqueado os perfis de nas redes sociais alguns dias atrás e agora podia ver todas as postagens de e acompanhar de longe as aventuras e as mudanças que estava vivendo. tinha se proibido de stalkear, então via apenas fotos e posts quando estava matando tempo em algum aplicativo e o algoritmo resolvia brincar com sua cara. Não era fácil ver sorrindo naquelas fotos, seus mil Stories falando sobre os lugares que estava visitando e não se deixar abater pela saudade. Sabia que estava bem e feliz, mas aquilo não parecia tão real. Todo mundo era feliz no Instagram e por isso tinha decidido que iria sondar os amigos. Não queria vasculhar a vida de , apenas… matar um pouquinho da curiosidade que sentia.
já estava no quarto copo de vodca com energético, enquanto bebia seu segundo drink colorido e conversavam sobre coisas banais do trabalho. O resto dos amigos estava espalhado pela casa noturna e pista de dança. Conversa vai, conversa vem e então acabou fazendo um comentário que envolvia e sorriu pequeno, decidindo que aquela era sua deixa.
– Eu finalmente desbloqueei nas redes sociais – comentou. – Achei que ia doer mais do que está doendo, então dê certa forma, parece que estou me acostumando. Mas ainda é estranho – deu de ombros e assentiu.
– Claro que sim, vocês estiveram nesse relacionamento por quase dez anos – sorriu em compreensão. – não fala muito, mas a gente sabe que também está estranhando. É visível sua felicidade por estar viajando e conhecendo tantos lugares, mas às vezes parece que só fala com a gente no grupo para sondar sobre você – riu e quase engasgou com a bebida. – É até engraçado as pistas nada sutis que solta, mas todos fingimos que não entendemos e comentamos sobre você. E não é como se você não fizesse o mesmo – riu e deu de ombros.
Não teria e nem queria negar aquilo. jamais cairia em seu papinho mentiroso.
Dia 105
Não deveria se iludir ou criar uma fanfic em sua cabeça, achando que ainda sentia algo por si e que estava sentindo sua falta da mesma forma que sentia falta de . Mas era impossível evitar aqueles pensamentos ilusórios, principalmente quando tinha postado uma foto em Londres, na Inglaterra, e tinha adicionado Trevo, de Anavitória, como trilha sonora. Aquela era a música que tinham escolhido para si, como tema de seu relacionamento. Sem falar que Londres era a única cidade que realmente gostaria de conhecer, já que seus livros favoritos eram ambientados na cidade e gostaria muito de visitar todos os pontos turísticos que acabavam sendo mencionados naquelas narrativas.
Apesar dos fortes indícios de que sim, estava postando algum tipo de indireta para/sobre , não poderia acreditar nas vozes de sua cabeça e tratar aquilo como uma verdade. Não impediu o sorriso largo que tomou seus lábios e menos ainda a vontade de ouvir Trevo e relembrar bons momentos daquele relacionamento. Amava , não acreditava que algum dia poderia deixar de amar, talvez não na mesma intensidade, mas o sentimento sempre iria existir. Tinha se acostumado e estava gostando de viver solo, mas tinham momentos em que batia a saudade do cheiro e do toque de .
E por isso não se impediu de pegar seus objetos pessoais, trancar o apartamento e chamar um Uber para visitar, depois de tanto tempo, a cafeteria favorita de , localizada no bairro antigo onde moravam. Pediria um cappuccino junto de uma fatia de torta de limão e ficaria observando o pequeno jardim em frente ao estabelecimento. Não teria a mão de sobre a sua, mas poderia reviver as boas lembranças que tinham compartilhado e sentir aquele quentinho no coração que andava lhe dominando sempre que pensava em .
Enfim o sentimento de estar sufocando tinha ido embora e restava apenas uma saudade gostosa.

Dia 167
Odiava bloqueios criativos. Não sofria aquele mal há meses – mais especificamente, antes de seu relacionamento com chegar ao fim – e da última vez que tinha passado por aquilo, ficara semanas sem conseguir produzir qualquer coisa. Nem uma misera página e para , aquela era a pior coisa que poderia lhe acontecer. Afinal, tinha um projeto em andamento e agora que não tinha para dividir o aluguel consigo, precisava da renda extra que seus livros lhe forneciam.
Suspirou, deixando que a exaustão tomasse conta de si e fechando o notebook enquanto sua mente zunia. Estava há mais de duas horas encarando o rascunho daquela nova narrativa e um de seus personagens principais não conseguia se encaixar dentro da trama. Mas precisava e não queria abrir mão da existência daquele personagem, mesmo que ele causasse muito mais dramas e intrigas dentro da narrativa do que tinha se acostumado a lidar. Buscou o celular em cima da mesa de centro e acessou o Twitter, descarregando todas suas frustrações nas redes sociais e esperando que um milagre acontecesse e encontrasse a solução para aquele problema. Às vezes seus amigos acabavam palpitando sobre suas divagações e conseguia uma nova visão sobre a questão e aquilo realmente a ajudava a continuar escrevendo.
Esperou mais tempo do que o normal, mas quando a notificação chegou, simplesmente não conseguiu acreditar no que estava lendo.
Era a primeira vez que estabelecia um contato direto desde o término e simplesmente não sabia o que fazer.
| Talvez seu personagem apenas esteja arrependido pela decisão que tomou e não saiba como se desculpar. Você nunca soube como pedir desculpas e por isso está sofrendo de bloqueio, eu sei que consegue.

Dia 249
Tinha mudado o estilo de seu corte de cabelo e aquilo era sim um motivo para sair com os amigos e comemorar. Por muitos anos, nunca havia arriscado nada que comprometesse sua aparência física, pois tinha muito medo de não se sentir bem consigo, mesmo que vivesse lhe dizendo o quão incrível era e como ficaria sensacional com qualquer mudança que decidisse arriscar. E estava feliz por ter tido coragem de tomar aquela decisão por si e não por influência de outra pessoa, mesmo que nunca fosse ser qualquer pessoa em sua vida.
E em muitos aspectos, poderia afirmar que o término tinha lhe feito muito bem. Não apenas tinha aprendido a viver por si, mas tinha tirado muitos sonhos do papel e se tornado uma pessoa muito mais forte e independente. Cuidada de um apartamento sem a ajuda de ninguém, não tinha procrastinado – muito – com seu projeto pessoal e profissional de escrita, tinha melhorado a relação com sua família e amigos e podia dizer que sentia-se feliz. Vivia em satisfação e mesmo que ainda não tivesse alcançado todos seus sonhos, havia percebido que não conseguiria nada da noite para o dia e estava tudo bem sair para beber em uma sexta à noite ao invés de ficar em casa escrevendo e odiando todo o progresso que fazia.
Tinha mudado tanto ao longo daqueles meses sem que não mais pensava em como ficariam as coisas quando a viagem de acabasse. Sentia que era uma pessoa diferente e não esperava que ainda nutrisse paixão por si. Ainda sentia saudade do relacionamento, mas seu amadurecimento apenas provava que o término tinha sido uma sábia decisão e esperava que pudessem nutrir amizade com o passar do tempo. Não queria que fosse uma página virada de sua vida, mas também não sabia se o amor que ainda sentia poderia voltar a ser um amor apaixonado.
Mas aquilo também não queria dizer que tinha qualquer preparação para descobrir que estava voltando para a cidade. E quando lhe contou, deixando claro que vinha perguntando de muito mais vezes do que o normal, a cambalhota que seu coração deu não passou despercebida.

Dia 257
Não sabia se aquela era uma boa ideia. Na verdade, tinha certeza de que era uma péssima ideia, mas tinha deixado que lhe convencesse de que gostaria de que fosse em sua festa de boas-vindas e por isso estava usando uma roupa nova, tinha arrumado os cabelos e borrifado seu perfume favorito – e que também tinha sido o favorito de quando namoravam – no pescoço e nos pulsos. Carregava um presente e tinha sofrido a zoação dos amigos, o que não tinha ajudado em nada em seu nervosismo. Suas mãos suavam quando o Uber finalmente parou em frente a casa dos pais de e só saiu do carro porque ameaçou sua vida.
– Vou jogar o presente fora, acho que exagerei – disse ao impedir de tocar a campainha, recebendo um revirar de olhos em resposta.
– Agora você já gastou dinheiro e tenho certeza que vai amar. Pare de neura – reclamou e antes que pudesse retrucar, pressionou o botão da campainha. respirou fundo e engoliu em seco quando ouviu passos dentro da casa e assim que a porta se abriu, não conseguiu evitar o sorriso largo em seus lábios. A mãe de não tinha mudado nada e acolheu em um abraço apertado e caloroso. Tinha o mesmo sentimento de maternidade por e fora uma das pessoas que mais sofreu junto de com o término.
O pai de também se emocionou com a chegada de e enquanto conversavam sobre as novidades e ajudava na cozinha, como estava tinha se acostumado a fazer e também para evitar o nervosismo, subiu para ajudar com a roupa.
Não sabiam o que esperar daquele encontro e quando o restante dos amigos chegou e finalmente apareceu, sentiu que estava novamente, se apaixonando. Não porque estava completamente diferente, mas sim porque ainda era a mesma pessoa por quem tinha se apaixonado há muitos anos. Na verdade, parecia uma versão mais madura e apaixonante.
Não foi surpresa para ninguém que e passaram todo o jantar trocando olhares e sorrisos. Também não foi surpresa o abraço que deu em quando recebeu o presente – um álbum de fotografias para guardar suas fotos da viagem. E conforme as semanas e os meses foram se passando, ninguém ficou surpreso ao descobrir que estavam novamente namorando e tentando tirar seus planos do papel.
Em doze meses, não apenas morava em um apartamento com varanda. Mas também estava vivendo de sua escrita, tinha adotado Batman e Robin e tinha casado com o amor de sua vida, ao mesmo tempo que organizada viagens anuais que realizaria com e continuaria seguindo seu sonho de conhecer o mundo. Tinham descoberto que podiam alçar seus voos solo, mas com companhia as coisas eram infinitamente melhores.

Nota: Olá, tudo bem por ai? Espero que tenham gostado dessa história e que ela tenha casado certinho com a música. Há bastante tempo eu queria escrever algo com gênero neutro e espero ter conseguido, mas caso você tenha encontrado algum erro durante a leitura, por favor me avise para que eu possa corrigir! Um beijo e obrigada pela leitura <3