Teeth

Teeth

  • Por: Alexa Rodrigues
  • Categoria: CALM | Especiais
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Sinopse: Primos não se olhavam assim, não se importavam assim… nem mesmo os de terceiro grau.
Após seu pai ser preso ao final da Primeira Guerra Bruxa, ela é criada por sua avó, uma velha com tendências psicopatas e ideais extremistas demais. A velha Walburga sempre tentara afastar os primos, não queria mais um Malfoy tomando o que era seu; mas há certas coisas que simplesmente não podem ser evitadas… contudo, com o tempo, podem muito bem serem destruídas.
Gênero: Drama, romance.
Classificação: +10.
Beta: Sharpay Evans

>Epílogo
01 de Novembro, 1981 –
Largo Grimmauldi, número 12:
Com um cigarro na mão e uma xícara de café preto na outra, Walburga Black lia o Profeta Diário. Há anos ela se tornara uma mulher incapaz de surpreender-se com banalidades — já tinha visto e vivido todo o tipo de barbaridades imagináveis — contudo, o conteúdo da reportagem conseguiu realizar a proeza de chocá-la: “Sirius Black é preso na noite de Halloween de 1981, pelo assassinato de um bruxo e mais doze trouxas, além de associação comprovada com Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado”.
A mulher chegou até mesmo a se engasgar com a fumaça do cigarro de tamanha surpresa. Ela repousou a xícara sobre a mesa, ajeitou os óculos na ponta de seu nariz, descruzou e cruzou de novo as pernas, apenas para reler aquela manchete mais uma vez.
Não podia ser.
Talvez ela não pudesse ser considerada a mãe do ano quando se tratava de seu filho mais velho, afinal, havia deserdado-o e o removido da árvore genealógica da nobre família Black. Contudo, ainda assim, conhecia perfeitamente sua prole; e por isso sabia de certo que aquilo não podia passar de um grande mal-entendido.
De todos, Sirius sempre fora a ovelha negra — ou talvez a branca, alguns diriam… Era contra os ideais repassados por gerações da família Black, negando a pureza do sangue e sendo inaceitavelmente atraído por trouxas; era rebelde e acreditava ser uma pessoa melhor do que todo o resto por conta disso. Ele jamais se associaria com Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado e, ademais, não tinha uma sequer fibra violenta em seu corpo todo. Sirius Black jamais assassinaria alguém, e sua mãe sabia perfeitamente disso.
Aquela manchete não passava de um monte de inverdades.
E, apesar de estar mais que certa disso, a reação de Walburga não foi muito além de uma série de gestos para ler a manchete melhor. Ela não mexeria um dedo para reverter aquela situação, porque, além de suspeitar que o depoimento de uma mãe não teria grande valor, parte de si acreditava que Sirius merecia tal destino, mesmo que injusto.
Era o que ganhava por ir contra sua família e associar-se com pessoas erradas: trouxas e traidores do sangue.
Fria, sem coração, ruim… esses eram apenas uns dos adjetivos que Walburga passara a vida toda escutando; e talvez ela fosse mesmo tudo isso. Não, talvez não. Ela era de fato tudo isso.
Fizera coisas em sua vida que pareceram certas e até mesmo morais, dentro de sua inacreditável imoralidade, como por exemplo, riscar sem hesitação o filho insolente da árvore genealógica dos Black.
E tudo isso para quê? Para preservar sua família?
Apenas esse pensamento fez com que Walburga soltasse uma risada sarcástica.
Tudo que ela fizera, tudo pelo que ela lutara, tudo pela Mui Antiga e Nobre Casa dos Black… tudo em vão.
Eles estavam irreconhecíveis.
Seu marido? Morto. Seus filhos? Um deserdado e agora preso, o outro, morto. As filhas de Cygnus e Druella? Uma deserdada e as outras duas, casadas com sangue-sungas de famílias menos nobres que a sua.
Era o fim, tudo estava arruinado, deixado nas mãos de um Malfoy.
Maldito Malfoy.
Walburga, conforme chegava em sua velhice, assistia tudo aquilo pelo que mais prezava sendo lentamente destruído diante de seus olhos.
Sua família.
Muitos a apontavam como culpada pela ruína dos Blacks, e, às vezes, até ela mesma se pegava acreditando nisso; afinal, como as coisas poderiam ter sido diferentes se Sirius não tivesse sido expulso de casa… possivelmente teria se casado e vivido longe o suficiente de encrencas para lhe dar netos, talvez até mesmo, quem sabe, um homem para continuar com a linhagem da família Black.
Mas não. Ao invés disso, ele foi embora, foi morar com aqueles malditos traidores do sangue que era a família Potter, se envolveu com uma bruxa e teve uma filha.
Menina.
A senhora Black deu mais um longo gole de café, logo seguido por uma tragada generosa no cigarro. Perguntando-se o que seria da garota agora com a mãe a sete palmos abaixo do chão e o pai preso.
Marlene McKinnon havia sido morta em uma das batalhas estúpidas entre a Ordem da Fênix e seguidores Daquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Walburga podia apostar que a morte da mulher havia acabado com seu filho… Sirius sempre fora tão sentimental. Marlene, obviamente, não seria a primeira escolha da matriarca para a companheira de seu primogênito, é claro, afinal das contas, era uma traidora do sangue. Mas pelo menos tinha pureza que era prezada pela família Black, e isso, considerando as expectativas baixíssimas que tinha em relação a Sirius, já era grande coisa.
O fato de que sua neta, sua única neta, tinha o sangue puro era a única coisa capaz de trazer um resquício de alegria para o coração daquela velha amargurada.
A bebê já havia completado um ano e Walburga sequer fazia ideia de como a garota se parecia. Teria ela os cabelos negros característicos dos Blacks ou puxara o ruivo não tão nobre a família da mãe?
A mulher suspirou, batendo com a xícara de porcelana na mesa.
Apenas a ideia de que tudo que sobrara de sua família estava por aí, perdida, órfã, fez com que o que restava do instinto materno de Walburga se revirasse dentro dela. Sabia que não fora a mãe do ano e sabia mais ainda que suas escolhas duras e intransigentes em relação à família foram os fatores responsáveis pela extinção da própria. Mas talvez, apenas talvez, ainda houvesse a chance de salvá-la; e Walburga se agarrou a esse pensamento como um farol que a guiaria para fora daquele poço de solidão, amargura e autopiedade no qual se enfiara desde a morte de seu filho mais novo.
Ela ainda podia reconstruir sua família.
A Mui Antiga e Nobre Casa dos Black seria salva, nem que fosse a última coisa que Walburga fizesse em sua vida vazia e miserável.

>05 de julho de 1996 –
Wiltshire, Mansão Malfoy:
A propriedade da família Malfoy estava lotada de bruxos naquele sábado à noite, pessoas aparatando e desaparatando a todo momento. Sangue puros, obviamente, escolhidos a dedo por Narcisa Malfoy para compor a lista de convidados da festa de dezesseis anos de seu único filho, completamente ignorando o fato de que o aniversário do garoto já tinha se passado há um mês atrás.
A senhora Malfoy podia facilmente captar os olhares piedosos de seus convidados para com ela, todos se perguntando como é que a mulher era capaz de dar uma festa daquele porte enquanto sua família claramente estava por um fio, com seu marido tendo sido preso há tão pouco tempo. Mas ela não se importava, afinal, estava fazendo aquilo por ele:
Draco.
Walburga Black, ao adentrar a mansão, achou tudo aquilo de péssimo gosto. Não era nenhuma fã dos Malfoy e acreditava piamente que, apesar de serem uma das únicas famílias com as prioridades bem alinhadas, eles eram significantemente menos nobres que os Black. Por isso desaprovou quando sua sobrinha Narcisa resolveu casar-se com um; além de ter passado todos os quinze anos que tivera da guarda de sua neta evitando que a garota cometesse o mesmo erro.
— Lembre-se do que eu te falei, Alya…
Atrás de sua avó e segurando o presente de seu primo de terceiro grau, a garota revirou os olhos.
Draco é perigoso, mantenha a distância dele. — Ela rebateu com um tom de voz debochado, repetindo a série de palavras que escutara sua vida inteira. — E meu nome não é esse, vovó, eu já te pedi mil vezes para não me chamar assim…
Mas a matriarca Black sequer tratou de escutar a neta, ela já estava longe, tratando de socializar com os outros bruxos de linhagem pura, mesmo que não tanto quanto a própria.
revirou os olhos.
Walburga Black era uma senhora muito… intensa. Apesar de ter completa consciência de que sua avó estava longe de ser uma boa pessoa, não conseguia evitar sentir amor por ela.
A matriarca da família Black havia sido a única pessoa com quem crescera, lhe educando e ensinando-a tudo que sabia — o que quase sempre incluía seus ideais deturpados de pureza do sangue e superioridade da família. Aliás, se não fosse por Walburga, a garota muito provavelmente teria acabado num orfanato, sendo criada por trouxas e sem ter a consciência de quem realmente é e de toda sua história.
, como é bom ver você! — Apesar de tecnicamente serem primas de segundo grau, a garota tinha Narcisa como uma tia, por quem amava e se importava.
Tudo isso mesmo após ter descoberto toda a sombria história da família Malfoy e tudo o que eles fizeram com seu pai ao longo da vida, que agora estava morto.
Sem falar que ela sentia uma silenciosa gratidão pela mulher, por ser uma das únicas pessoas da família que aceitara seu novo nome, seu verdadeiro nome, e a chamava assim invés do nome tradicional Black que Walburga lhe deu quando a adotara.
— É bom ver você também, tia. A casa está linda, meus parabéns. — A garota sorriu amavelmente, com toda a educação que sua avó havia lhe dado. — Onde está Draco?
O sorriso no rosto de Narcisa vacilou por um instante, mas, como a boa Black que era, logo se recuperou, escondendo todo resquício de receio em sua expressão.
— Deve estar por aí se embebedando com os garotos. — Ela forçou uma risada.
Algo que tornava Narcisa tão legal aos olhos de , era o fato de que ela sempre fazia vista grossa para as coisas que os primos faziam na mansão, mesmo que estivessem longe de ter a idade adequada para tal.
— Se o vir, diga que estou procurando-o. — Narcisa deu um último beijo na testa da sobrinha e logo saiu dali, provavelmente para cuidar de assuntos relacionados à festa.
A garota correu os olhos pelo salão da Mansão Malfoy, procurando pelo primo. Avistou seus colegas sonserinos num canto; Vincent Crabbe, Gregory Goyle e Theodore Nott conversavam enquanto tentavam a todo custo disfarçar que bebiam escondido uma garrafa de whisky de fogo. deu risada de quão patéticos eles pareciam. E Draco não estava em lugar nenhum a ser visto.
Mas, felizmente, a garota conhecia-o suficientemente bem para saber exatamente onde ele se encontrava; então, ela adentrou a cozinha, roubou a primeira garrafa de bebida alcoólica que pode encontrar — completamente ignorando as represálias dos elfos domésticos que trabalhavam ali — e saiu em direção ao único lugar em que seu primo poderia estar: no telhado da Mansão Malfoy.
— Nunca pensei que fosse te encontrar aqui. — disse em seu clássico tom irônico assim que atravessou a janela do quarto de Draco, logo se pendurando e subindo no telhado.
Era perigoso e talvez por isso fosse o lugar preferido dos dois na casa.
O garoto Malfoy arrancou da mão dela a garrafa que trazia e torceu o nariz ao ler o rótulo.
— Hidromel, sério?
deu de ombros.
— Não seja ingrato, priminho. — Rebateu, se ajeitando ao lado dele. — Foi a única coisa que os elfos me deixaram pegar.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes, apenas admirando a opulência da propriedade dos Malfoy.
Ao contrário do que sua avó dizia, não era nem um pouco brega, era, na verdade, infinitamente melhor do que aquele muquifo no Largo Grimmauldi, onde moraram pela maior parte de suas vidas.
não conseguiu conter a risadinha ao ver pelo canto do olho Draco abrindo a garrafa e dando um longo gole de Hidromel.
— Pare de rir. — Ele conteve um sorriso. — Esse é o único jeito de sobreviver a essa noite.
— Você está sendo dramático demais, priminho…
— Estou? — Draco sequer deu chance para que ela completasse a frase; o sarcasmo característico de sua prima de repente aborrecendo-o. — Essa festa é uma piada; minha mãe quer passar essa imagem de que estamos bem, quando na verdade nunca estivemos pior! Ela só chora , todas as noites! Meu pai ter sido preso foi a pior coisa que já aconteceu com a gente…
Ela ficou em silêncio por alguns instantes, apenas absorvendo aquelas palavras.
— Sua mãe está fazendo isso por você Draco; reunindo seus amigos aqui… ela só quer te deixar feliz.
O garoto suspirou, correndo o dedo pelos cabelos loiros. Sabia que estava certa; aliás, ela quase sempre estava e isso fazia com que ele a achasse irritante demais.
— Eu sei, eu sei… — Ele deu mais um longo gole na garrafa de Hidromel. — É só que… essa gente… eles só estão aqui para comer e beber da minha bebida e comentar sobre a desgraça da minha família. Eles não dão a mínima para mim.
pensou por um instante. Podia simplesmente mentir, dizer a Draco que ele estava errado e que ele tinha sim amigos ali; mas isso não seria muito digno de sua parte. Só havia uma outra coisa a ser dita para animar o garoto:
— Eu dou a mínima para você… — Draco a encarou como se o maior absurdo do mundo tivesse acabado de sair de sua boca. — Bom, só a mínima.
Ele soltou uma risada fraca, então passou a garrafa para ela. Isso sim era muito mais digno de Jane Black.
Mesmo com as ressalvas de Walburga, os primos cresceram juntos, desenvolvendo, ao longo da vida, uma relação bem sólida de amor e completa admiração. Tudo bem que nenhum dos dois jamais foram a criança mais fácil de se lidar, ambos cresceram com personalidades fortíssimas e um senso muito grande de superioridade, e por isso muitas vezes acabavam se odiando quase tanto quanto se amavam. Mas isso não importava porque, no final do dia, um era tudo que o outro tinha, especialmente em Hogwarts.
Mas, para seu próprio terror, Walburga via além daquele companheirismo entre primos. Ela enxergava o que aquilo era de fato e que os dois eram imaturos demais para admitir: um amor que não tinha nada de familiar; e por isso tentava a todo custo manter sua neta o mais longe possível do garoto.
Não queria que, mais uma vez, um Malfoy roubasse tudo que tinha restado de sua família, por isso tentava a todo momento afastar Alya, ou melhor, , do garoto. Mas isso estava longe de ser uma tarefa fácil, ela era teimosa, tinha o mesmo espírito rebelde do pai, e às vezes Walburga a odiava por isso.
Draco finalmente tirou um momento para observar a prima. Ela estava linda, vestindo um vestido de seda verde e longo, com os cabelos negros presos num coque trançado. Era definitivamente uma Black, e parte dele às vezes achava difícil de aceitar que ela não era mais sua Alya, como sua avó designara na adoção, e sim , seu verdadeiro nome de batismo.
— Como você está? — Ele perguntou. O garoto Malfoy costumava ser tão autocentrado, mas jamais deixava de se preocupar com ela. — Ando tão absorto na minha própria merda que acabo me esquecendo que não fui o único que perdi o pai naquela noite no ministério.
suspirou.
— Eu não sei como eu estou, minha avó não me deixa falar sobre isso. — Respondeu com sinceridade, dando um longo gole na garrafa de hidromel que já se encontrava pela metade.
— Sem ofensas, mas às vezes ela consegue ser uma vaca.
— Estou bem ciente disso. — Ela riu sem humor. — Sirius, ele foi meu pai por tão pouco tempo… a gente mal se conhecia, mas eu amava ele.
Draco apenas assentiu.
É claro que quando descobriu que o infame Sirius Black era pai de sua prima, ele teve seus receios… Não gostava do fato de que isso aproximou-a do maldito Potter e seus amiguinhos, odiava aquela escória com todas as suas forças e sabia perfeitamente bem disso; até mesmo, às vezes, usava a animosidade entre os dois para provocar Draco, o que parecia ser um dos passatempos preferidos da garota.
Mas não era como se ele pudesse fazer algo… na verdade, apesar de tudo, Draco chegou a ficar feliz pela prima; fora bom saber que ficara extremamente contente ao descobrir a verdadeira história sobre seu pai — principalmente a parte sobre sua inocência.
Mas agora Sirius estava morto, e ele nunca havia visto a prima com o olhar tão triste.
— Ele não foi seu pai por pouco tempo, , ele foi seu pai por todo esse tempo; e por todo esse tempo ele te amou.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes.
— Que fofo, você tem um coração, quem diria? — se apressou em tomar um gole de Hidromel.
Draco sabia que ela estava tentando evitar derramar as lágrimas que se formaram no canto de seus olhos; a conhecia bem demais. Black era péssima em lidar com os próprios sentimentos, era quase como uma coisa de família.
Mas apenas escolheu ignorar tal fato, e a garota o agradeceu mentalmente por isso. Assim, Draco apenas soltou uma risada pelo nariz.
— Acho que é uma coisa de Black só deixar aparecer de vez em quando.
— Oh, definitivamente…
Ambos deram mais seguidos goles da bebida, o álcool começando a fazer efeito, embaralhando os sentidos dos primos.
— O que há de errado com a gente, hein? — Draco questionou usando um tom de voz bem humorado, embora a pergunta fosse profundamente séria.
Havia mais coisas de errado com aqueles dois do que podiam ser contadas.
— Tudo, — riu, bebendo mais um gole de Hidromel. — mas pelo menos nós somos bonitos.
— Você me acha bonito, é?
— Você é um gato, priminho, não finja que não sabe disso. — Ela revirou os olhos.
Estava ciente de que Draco sabia de sua boa aparência, sabia tanto que chegava a irritá-la.
— Deve ser só porque eu sou seu primo…
— Obviamente, porque você vai me desculpar, mas seu pai é feio demais!
Ambos riram.
Era de fato estranha a relação entre os dois. Em um momento se amavam como ninguém e em outro, conseguiam se odiar na mesma proporção. Ambos tinham traços que o outro amava e admirava, enquanto também tinham partes de si capaz de deixar o primo louco de raiva. Era certamente uma relação intensa, mais do que eram capazes de compreender.
Numa estranha e nada comum demonstração de afeto — provavelmente motivada pela considerável quantidade de álcool em sua corrente sanguínea — entrelaçou seu braço no esquerdo de Draco, se surpreendendo quando o garoto se esquivou, como se sentisse dor.
— O que há de errado com seu braço?
O garoto puxou para baixo a manga de seu blazer, como se tentasse esconder algo.
O silêncio pairou entre eles.
O que há de errado com seu braço?
— Não há nada, não sei do que você está falando.
— Malfoy, não minta para mim. — se ajeitou no telhado, de forma que pudesse ficar de frente para seu primo.
E, por Salazar, ela estava furiosa; jamais chamava o primo pelo último nome, a não ser que quisesse arrancar fora seus cabelos loiros estúpidos. A mente da garota corria a mil quilômetros por hora e, embora estivesse certa do porquê o braço de Draco estar dolorido, ela simplesmente não queria acreditar.
… — A voz dele saiu arrastada, quase como uma súplica.
Pronto, aquela era a única confirmação que ela precisava.
Nada o chateava tanto quanto ver que havia desapontado sua prima. Ver aquele olhar — que geralmente era brilhante e encantador — se tornar gélido e opaco para ele, cortava seu coração feito milhares de facas.
foi obrigada beber um gole de Hidromel, mais uma tentativa bem sucedida de evitar que as lágrimas escorressem de seus olhos.
— Eu não acredito nisso…
Sobre os ideais de pureza religiosamente compartilhado pela sua família, mesmo quando criança, quando apenas a pequena Alya, a garota não sabia ao certo no que acreditar… o único modelo que tinha em sua vida era uma avó desequilibrada, além de seus tios Narcisa e Lucio, que também compartilhavam as mesmas crenças…, mas todas as suas dúvidas caíram por terra após conhecer seu pai aos treze anos e ter uma conversa séria sobre quão deturpado eram os ideais da família Black. Assim, ela percebera que estava crescendo alienada pela avó e que estava na hora de tomar uma posição sobre questões fundamentais da vida, como preconceitos e injustiças.
podia ser uma Black, mas jamais seria uma vaca preconceituosa; apesar do pouquíssimo tempo em que estiveram na vida um do outro, era filha de Sirius no final das contas, mais do que era neta de Walburga… mesmo que agora ele estivesse morto.
— Ele me escolheu, , eu não tive escolha!
— Oh, faça-me o favor, Malfoy! — A garota se colocou de pé num pulo, perigosamente perto da beirada. — Voldemort te escolheu para se vingar de seu pai, isso sim!
— Não chame ele assim! — Draco escolheu ignorar a última parte da fala da prima, simplesmente por ser inconveniente demais.
Sabia que ela estava certa, era a verdade que ele estava relutando para aceitar todo aquele tempo…, mas ainda era exatamente do que aquilo se tratava: da verdade.
O lorde das trevas havia escolhido-o porque não acreditava que ele seria capaz de cumprir com o que lhe fora designado e, assim, após ter o filho morto, seu pai finalmente pagaria pela própria incompetência.
Voldemort, Voldemort! — Às vezes conseguia ser insolente demais, apesar de Draco ter certeza que o comportamento infantil servia apenas como um disfarce para toda a mágoa que ela sentia no momento.
— Uau, muito maduro da sua parte, , parabéns!
— Como é que você dorme à noite, sabendo que apoia um assassino, um torturador?
— A sua querida avó apoia ele também, o que você acha disso?
cruzou os braços na altura do peito, bufando uma risada sem humor.
— Esse com certeza é o argumento mais idiota que eu já ouvi na vida.
Foi a vez de Draco de se colocar de pé, meio mole devido a quantidade de Hidromel que bebera naquela noite.
— E que tal esse argumento: ele iria matar a mim e a minha mãe, a sua tia, .
— Clássica desculpa de um comensal da morte!
— É a verdade! — E de fato era, mas a garota estava com raiva demais para admitir aquilo no dado momento.
Ambos ficaram quietos por alguns instantes, apenas se encarando enquanto tentavam a todo custo pensar com clareza. Não estava dando muito certo.
— Você acabou de provar que é de fato tudo o que dizem sobre você na escola.
Draco fechou os olhos, como se aceitasse aquelas palavras como um soco, que, por sinal, doeria muito menos. Não respondeu uma palavra sequer.
costumava ser a única pessoa que o entendia e o aceitava… a ideia de que ela passara a enxergá-lo como todo o resto, todas aquelas pessoas que o desprezavam, era simplesmente insuportável.
— O que você esperava de mim? — Perguntou quase como um sussurro.
— Que você dissesse não, que você, pela primeira vez na sua vida, fosse homem e defendesse o que é certo! Mas você é um covarde, Draco… Harry sempre esteve certo, afinal, você é a porra de um covarde.
A garota girou nos calcanhares para sair dali, mas por estar nervosa e bêbada demais, acabou pisando em falso, o que fez com que ela quase caísse do telhado, se não fosse pelos reflexos ágeis de apanhador de Draco, a puxando pela cintura antes que algo possivelmente fatal acontecesse.
No susto, deixou a garrafa de Hidromel já vazia escapar de suas mãos, fazendo com que ela sofresse a queda de vários metros que o garoto acabara de prevenir que lhe acontecesse. O vidro se estilhaçou em milhares de pedacinhos e a tensão entre eles se tornou palpável.
As mãos de Draco firmes em sua cintura, a troca de olhares cheia de significados ocultos e a respiração dele batendo quente contra o rosto da garota: fatores que apenas deixavam o momento mais intenso.
Os olhos de Malfoy corriam por cada centímetro do rosto da prima, quase como se ele procurasse memorizar todos os detalhes, com medo de que a revelação daquela noite o impedisse de tornar a vê-la assim mais uma vez.
Os lábios rosados de estavam entreabertos em sinal de surpresa, e ela, completamente petrificada, sem saber o que fazer a seguir…
Naquele momento, Draco exalava uma aura sombria, protetora, praticamente sexual; e embora aquilo assustasse a garota, ela não queria se afastar nem por um segundo, quase como um imã que a puxava para perto, confundindo seus pensamentos e inebriando seus sentidos.
Ela nunca se sentira assim antes, sexualmente atraída pelo próprio primo, pelo menos não que estivesse ciente disso.
Mas para Draco, por sua vez, aquele momento era apenas a concretização de seus pensamentos mais insensatos.
era intocável, como as estrelas, embora isso não impedisse o garoto Malfoy de sonhar…, mas agora ela o desprezava, o achava um covarde; e ele não fazia ideia de como reverter isso.
Por Salazar, sequer sabia se aquele estrago era reversível!
Mas a expressão desejosa da garota não mentia; ali, naquele momento, ela o queria quase tanto quanto a recíproca era verdadeira, e Draco queria imensamente saciar a vontade de ambos, mas estava petrificado, com medo de que aquilo apenas a puxasse mais ainda para longe e ele a perdesse de vez.
Draco podia perder qualquer coisa, menos ela…
Então, como se compartilhasse daquele mesmo pensamento, finalmente desgrudou os olhos do primo, quebrando toda aquela aura de desejo que se instalara entre os dois. Ela pigarreou muitíssimo desconcertada, sentindo-se mais sóbria do que nunca e Draco fez o mesmo, enquanto coçava desajeitadamente a nuca.
Eles se afastaram e só então a garota pareceu lembrar-se de que carregava, a todo aquele tempo, o presente de seu primo. Então, sem dizer uma palavra sequer, ela colocou o embrulho e simplesmente saiu dali, se pendurando mais uma vez no telhado e entrando de volta na mansão, abandonando Draco na escuridão.

01 de setembro de 1996 –
Expresso Hogwarts:

Pela primeira vez em anos, Black não estava nada ansiosa para o começo de um ano letivo em Hogwarts. Costumava acreditar ser uma pessoa muito intuitiva, sempre que tinha uma sensação esquisita sobre algo, as coisas acabavam dando errado; e sobre aquele ano, tinha todos os tipos de sentimentos ruins.
Primeiro que ela não estava nem um pouco afim de lidar com todo aquele drama que pairava sobre todos a respeito da confirmada volta de Você-Sabe-Quem; ela havia acabado de perder o pai por conta disso, pelo amor de Deus, só de imaginar um bando de adolescentes idiotas falando sobre o incidente no Ministério, podia sentir um nó formando-se em sua garganta.
E segundo: Draco.
Eles não se falavam desde o que se passara no telhado da mansão Malfoy; passaram a festa inteira fugindo um do outro, e as recorrentes cartas que costumavam trocar através da coruja da família Black nunca mais foram escritas.
Por isso, não estava nem um pouco ansiosa para dar de cara com o primo, além do fato de que ele se juntara ao fã clube da aberração que era a maior responsável pela morte de seu pai.
Contudo, apesar do contragosto, a garota enfim embarcou no Expresso de Hogwarts. Estava determinada a atravessar o vagão onde seus companheiros sonserinos se encontravam, torcendo para que eles não a vissem e requisitassem sua presença, e procurar por um lugar menos inabitável para passar as próximas horas.
Mas é claro que a sorte não estava ao seu favor naquele dia.
Antes que pudesse alcançar a porta do vagão, foi interrompida pela voz irritante de Blásio Zabini.
— Hey, Black, está indo para onde? — O moreno abriu aquele seu típico sorriso galanteador que deixaria qualquer apreciador do sexo masculino de pernas bambas. — Não está fugindo da gente, está?
Normalmente, a garota não teria problema nenhum em flertar de volta com o garoto, afinal, o recente sexto ano da Sonserina era famoso por sua libertinagem — em outras palavras, todo mundo dormia com todo mundo —, mas no momento, ela realmente não estava com a cabeça.
Mas antes que pudesse responder, seu olhar inevitavelmente buscou por um certo loirinho e, para seu desgosto, foi encontrá-lo deitado no colo de ninguém menos que Pansy Parkinson, que corria seus dedos magricelas pelos cabelos sedosos de Draco.
As duas não se gostavam… ou melhor, , por algum segredo oculto do universo, não suportava ver Pansy nem pintada de ouro e, assim, impedia qualquer tentativa de aproximação da morena.
Quase como se tivesse sofrido um Petrificus Totalus, a garota cessou imediatamente as carícias em Malfoy, que também se retesou diante do olhar da Black.
Mas ao contrário de Pansy, a hesitação de Draco nada tinha a ver com medo e sim com puro nervosismo, ansiedade, além de muita, muita tensão sexual.
— Na verdade estou, estou sim. — respondeu num tom irônico, mas sem muito humor, o que não impediu Blásio de mostrar mais um de seus sorrisos maravilhosos.
Ele simplesmente não conseguia evitar, era um galanteador nato, principalmente quando se tratava de Black, a garota por quem tivera uma queda declarada desde o primeiro ano.
— Para de graça e vem sentar com a gente… você sabe que eu só mordo se você pedir.
Sem ânimo para se opor, a garota simplesmente se jogou no banco entre Zabini e Gregory Goyle — figura que ela achava particularmente detestável —, ficando de frente para o casalzinho mais patético de Hogwarts.
Embora a prima sentisse um ódio declarado por Pansy, Draco jamais cortou relações com a garota, o que deixava louca de raiva, quase tanto quanto ele ficava quando presenciava mais um dos flertes baratos entre ela e Zabini.
Aquele em particular não deixou Draco nada feliz, que não pode evitar ficar tenso. Antes que pudesse se dar conta, ele já havia se levantado do colo de Pansy e retesado cada músculo de seu corpo.
— Enfim… — Parkinson começou tentando afastar o clima pesado que repentinamente se instalara entre os sonserinos. — O que você estava dizendo, Draco, sobre se dedicar a coisas maiores e melhores?
O olhar de pesou em cima dele feito um saco de areias e, de repente, Malfoy não se sentiu mais à vontade para compartilhar com entusiasmo a possibilidade de um futuro ao lado do Lorde das Trevas.
Quem ele queria enganar?
Nem sequer sabia se se sentia assim… tudo que sabia é que estava apavorado, milhares de vezes mais do que entusiasmado. Seu senso de autopreservação gritava dentro de si, praticamente impedindo que o garoto sentisse alguma coisa além de completo desespero em relação ao que estava por vir.
, por sua vez, se antes não queria estar ali, agora queria menos ainda. Não estava nem um pouco afim de ouvir seu primo idiota se gabar para seus amigos idiotas sobre algo tão idiota quanto isso.
Draco pigarreou e se ajeitou em seu banco.
— Eu estava falando sobre me dedicar mais em poções esse ano, já que, vocês sabem, o professor não vai mais ser Snape…
Black franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça em clara desaprovação.
Aquilo fora patético
Nenhum dos sonserinos pareceram muito convencidos com a improvisação de Malfoy, mas apenas sabia ao certo do que ele realmente falava. Com isso, ninguém o contestou e voltaram a falar sobre o encontro requisitado por Slughorn, o novo professor de poções.
Sendo descendente dos Black, uma das casas mais poderosas e influentes do mundo bruxo — e não ter um pai preso em Azkaban, se é que me entende —, a garota obviamente fora convidada para comparecer, contudo, realmente não estava com cabeça para aguentar puxa-saquismo de ninguém; então resolvera simplesmente ignorar o convite.
Eles passaram as próximas horas conversando sobre futilidades que definitivamente não estava com saco para suportar, principalmente sendo obrigada a presenciar uma troca de carícias nojenta entre Malfoy e Parkinson; contudo, toda vez que fazia menção de sair dali, Zabini segurava-a pelo braço, a impedindo.
Até que finalmente Draco disse as palavras que ela tanto esperava:
— Já estou vendo Hogwarts; é melhor trocarmos de roupa.
Quando Goyle esticou-se para pegar seu malão, teve certeza de que escutara um gemido vindo do bagageiro, então enrugou a testa, ainda mais quando percebeu que não era a única, Draco também parecia ter ouvido.
Aquilo só podia significar uma coisa…
Eles trocaram de roupa e assim que o trem finalmente parou, levantou-se num pulo, como se tentasse antecipar o que o primo faria a seguir.
Goyle foi o primeiro a sair do vagão, sendo acompanhado por Crabbre e Zabini. Pansy estendeu a mão para Draco, como se esperasse que ele apanhasse para que os dois pudessem sair juntos do trem, não evitou revirar os olhos.
— Podem ir, eu já encontro vocês… — Disse primeiramente para Parkinson, que logo deu de ombros e saiu andando, e depois virou-se para a prima. — Você também, .
Como a perfeita teimosa que era, a garota simplesmente cruzou os braços e ergueu as sobrancelhas em forma de desafio.
Draco encarou-a com tal intensidade, que fez com que ela perdesse aos poucos a pose de durona.
— Beleza, foi escolha sua. — Então ele caminhou lentamente até a porta do vagão e desceu a cortina, para que as pessoas que atravessavam o corredor não pudessem espiar para dentro.
— Malfoy, o que você está… — Mas antes que ela pudesse finalizar a frase, Draco sacou sua varinha e apontou para o bagageiro.
Petrificus Totalus!
Em câmera lenta, algo rolou ali de cima e caiu no chão em um baque, algo pesado, e, como suspeitara, ali estava Harry Potter, o Eleito, caído, paralisado nos pés dos primos Black.
— Sua mãe não ensinou que é feio bisbilhotar os outros, Potter? Ah é, ela estava morta antes que você pudesse limpar a baba do seu queixo. — Draco sibilou feito a cobra venenosa que era, e os olhos de Harry viraram-se para , como se pedisse socorro. — Ah não, não olha para minha prima não, nem ela vai poder te ajudar agora.
Aquela frase foi o suficiente para despertar a garota do transe em que o susto causado pela queda de Harry ao chão lhe colocou e ela apanhou sua varinha.
— O que você está fazendo seu grande idiota? Se acha que eu vou deixar você machucar ele na minha frente você não me conhece mesmo. — Então, antes mesmo que Draco pudesse se dar conta, lançou-lhe um Expelliarmus, que fez sua varinha voar para o outro lado do vagão.
Draco riu com escárnio.
— Tudo bem então. — E, dito isso, pisou com força no rosto de Harry, quebrando seu nariz e fazendo com que sangue jorrasse para todo lado.
— Isso foi pelo meu pai.
E antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, Malfoy simplesmente saiu dali, sem nem sequer olhar no rosto da prima.

Ano letivo –
Hogwarts:
Infelizmente, a missão designada pelo Lorde das Trevas a Draco não viera com um manual de instruções e, por isso, estava demonstrando ser infinitamente mais difícil do que o garoto jamais sonhara. Chegava a ser ridículo, realmente. Contudo, Malfoy não poderia se dar ao luxo de se aprofundar em tal pensamento, caso contrário, acabaria se afundando, desesperando-se com sua potencial falha e com o destino fatal que resultaria disso.
É claro que o fato de que a única pessoa que precisa ter por perto em tempos como aquele estava mais longe do que nunca apenas tornava tudo ainda mais difícil. parecia dispor de toda sua energia evitando o primo e o que piorava a situação era que Draco não fazia ideia do motivo, se era pelo quase-beijo no telhado de sua casa, ou se era porque ele tinha se juntado ao seleto e infame grupo de comensais da morte.
Provavelmente era uma séria combinação dos dois fatores.
E o que o deixava ainda mais irado com tudo isso, era a aproximação de sua prima do querido Trio de Ouro. Não estar falando com Draco, além da morte de Sirius, trouxe mais perto do que nunca de Potter e sua laia, ela estava cada vez mais parecida com eles, tornando-se praticamente irreconhecível.
Eles atendiam a aula mista de DCAT e Snape desatava a falar sobre como as artes das trevas eram variadas, inconstantes e eternas, e tudo que , sentada ao lado de Daphne Greengrass — uma das poucas sonserinas que não a desprezava —, conseguia pensar era no tanto que Draco deveria estar interessado naquela matéria, agora sendo lecionada pelo seu professor preferido que também era questionavelmente interessado no assunto.
Seu primo, um bruxo das trevas… nem era tão inesperado assim, ele sempre fora um imbecil de cabeça fraca e isso, misturado com seu contexto familiar, podia ser fatal.
O garoto Malfoy certamente não era como a prima, que preferia a morte a ter alguém lhe influenciando a cabeça, ele era, em muitos sentidos, fraco e facilmente manipulado.
Afinal, não se pode esperar muito mais de um homem como ele…
estava tão absorta em seus pensamentos, que mal se deu conta quando Snape começou a separar as duplas para praticar feitiços mudos, por isso quase deu um pulo de surpresa quando teve seu nome citado.
E da pior forma possível.
— Malfoy e Black…
Os primos sempre faziam as atividades juntos, assim não foi surpresa para ninguém quando Snape chamou seus nomes.
— Na verdade, professor… — Ela tentou argumentar. — Eu gostaria de fazer com a Daphne hoje, se não for um problema.
Ela tentou não olhar para algumas fileiras à frente, onde Draco remexia-se desconfortavelmente em sua cadeira.
— É um problema. Não seja petulante, Black, você vai praticar com seu primo.
soltou um ruído incrédulo e pode ver alguns alunos balançando a cabeça, diante da injustiça.
Era frustrante saber que o tratamento privilegiado de Snape em relação aos alunos da Sonserina, não se aplicava a ela.
Após todas as duplas serem designadas, colocou-se de pé, bufando e se preparando mentalmente para o que viria a seguir.
— Olha só, parece que alguém vai ter que falar comigo agora… — Draco começou, mais uma tentativa de quebrar o gelo do que de realmente afrontar a prima.
Ele sentia-se inseguro, mas preferia morrer a deixar que ela soubesse disso.
— Se fosse para falar, o feitiço não seria mudo, priminho.
Então, sem aviso prévio algum, murmurou baixinho um Estupefaça, que fez com que Draco fosse aos ares e caísse num monte de carteiras amontoadas no canto da sala.
De rabo de olho, a garota pode ver Harry soltar uma risadinha.
— Você está lembrada que eu disse para praticar feitiços não verbais, Black?
Como a perfeita cínica que era, apenas ergueu os ombros e murmurou “desculpa, professor”, juntamente de um sorriso irônico.
Snape fingiu não ver esse ato de atrevimento e saiu para inspecionar — ou torturar — outros alunos.
Enquanto isso, um Draco muitíssimo raivoso colocava-se de pé e caminhava pesadamente até a prima.
— Você não pode me ignorar para sempre, , uma hora vamos ter que conversar sobre isso!
— Eu não faço ideia do que você está falando…
— Você consegue ser uma completa vaca quando quer, sabia disso?
— Acho que é de família. — Ela sorriu irônica e, com raiva, Draco murmurou um Expelliarmus, que fez com que a varinha dela voasse para longe.
Mas é claro que dessa vez Snape pareceu ouvir absolutamente nada, clássico.
— Vai pegar.
— Não mesmo. — Draco sorriu satisfeito com seu pequeno trunfo, por mais mesquinho que tenha sido.
— Malfoy, vai… pegar!
— Não me chame de Malfoy.
Malfoy.
— Vai se foder, !
— Me desculpa, eu não fui informado de que estava dando aula para o primeiro ano… — Snape chegou e interrompeu o que deveria ser a briga mais patética que já existira.
Black não relaxou a postura petulante, enquanto Malfoy apenas encarava-a como se houvesse algo nos olhos da prima que ele não era capaz de reconhecer.
Isso era tão injusto… não sabia ela que Draco estava fazendo isso por sua família?
Ao final da aula, o garoto simplesmente saiu sem falar com ninguém. Apanhou sua mochila da carteira e foi embora como se precisasse desesperadamente sair dali e, bom, ele precisava.
sentiu o coração pesar feito pedra dentro do peito.
Ela parecia sempre fria, insensível demais, mas a verdade é que ter se afastado da pessoa mais importante da sua vida estava afetando-a grandemente; até um ponto que ela não conseguiu mais continuar.
Foi no dia do primeiro passeio a Hogsmeade no trimestre, que a garota decidira fazer alguma coisa.
O dia tinha amanhecido tempestuoso e estupidamente frio, por isso, tratou de se vestir com o sobretudo mais grosso e consequentemente mais caro que pode encontrar no meio de seus pertences; então, saiu para encontrar Draco.
Contudo, como já havia se passado da hora do café e seu primo poderia estar em qualquer lugar, pediu ajuda a Harry para encontrá-lo, olhando no Mapa do Maroto.
É claro que a princípio O Eleito não ficou muito contente com o pedido, contudo, pensou melhor e decidiu em seu íntimo que era uma ótima desculpa para vigiar Malfoy, mesmo que fosse por poucos segundos.
Curiosamente, a dupla foi encontrá-lo vagando pelo sétimo andar, e , após agradecer e se despedir de Harry com um beijo na bochecha, agilizou-se para encontrar o primo, antes que o perdesse mais uma vez.
tinha uma política muito séria sobre jamais correr — fazia com que ela parecesse desesperada, além do suor que a deixava fedida e feia —, mas naquele dia abriu uma exceção.
Estava tentando a todo custo não pensar no que estava prestes a fazer, caso contrário, seu orgulho acabaria falando mais alto, como sempre.
— Draco! — Ela gritou ao alcançá-lo antes que ele pudesse pegar uma das escadas para sair dali.
Malfoy parou subitamente, como se estivesse surpreso; mas a expressão vulnerável sequer durou segundos, já que ele logo recobrou a postura arrogante que lhe era característica.
Definitivamente um Black.
— O que você quer?
O sorriso que a garota abriu em seguida lhe conferiu um ar tímido, mas Draco não soube dizer se fora natural, ou mais uma das tentativas de manipulação de Jane Black.
— Estava pensando se você não queria ir para Hogsmeade comigo? — Balançou o corpo para frente e para trás feito uma garotinha. Era isso, ela definitivamente estava tentando manipulá-lo. — A gente poderia ir até a Madame Puddifoot e jogar cubos de açúcar naqueles casais patéticos, como nos velhos tempos.
— Como nos velhos tempos? — Draco questionou e a prima assentiu. — Então suponho que você, como nos velhos tempos, vai voltar a me tratar como gente?
respirou fundo.
Fora tola demais por pensar que Draco não iria querer discutir a relação. Por Merlim, às vezes ele se parecia com uma garotinha.
A verdade é que ela não queria falar sobre. Não queria conversar sobre o quase-beijo que deram naquela noite e muito menos o fato de que seu primo agora era parte um fazia do clube Amigos do Voldy.
defendia até demais seus princípios e não queria traí-los ao fazer Draco acreditar que estava tudo bem ser um maldito Comensal, porque não, não estava, mas… ela simplesmente não podia mais suportar ficar sem ele.
— Me desculpa.
— Pelo quê? Pelo fato de que a meses você anda fingindo que eu não existo, ou pelo fato de que você quase me beijou aquele dia na minha casa?
Eu quase te beijei?
— Você quase me beijou, .
Ela bufou uma risada incrédula. Draco decidiu que mais se tratava de uma tentativa de negação do que qualquer outra coisa.
— Como se você também não quisesse…
— Eu nunca disse que eu não queria.
Aquela resposta provavelmente pegou de surpresa, já que ela não conseguiu formular uma resposta.
— Draco, eu…
— Mas você não consegue admitir, não é? — Ele abriu um sorriso, mas este não chegou até os olhos. — Esquece, .
O garoto girou nos calcanhares para sair dali, mas foi impedido por ela, que o segurou pelo braço.
— Não dê as costas para mim.
Draco riu sem humor.
— Por que? Por acaso você é especial demais para isso?
balançou a cabeça com um certo pesar, como se já se arrependesse do que faria a seguir. Antes que o primo pudesse tentar se desvencilhar de seu toque, ela puxou-o para mais perto e o beijou.
A princípio, Draco ficou sem reação, completamente petrificado. Não podia acreditar que aquilo realmente estava acontecendo, bem naquele maldito dia, e que ele ainda estava agindo feito um apalermado sobre isso.
— Você vai me beijar de volta, ou o que? — se afastou, finalmente acordando o garoto do transe em que ela o colocara.
Ele riu, levemente tímido e, antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, agarrou-a pela nuca e colou seus lábios nos dela.
O que eles estavam fazendo?
Eram primos!
De terceiro grau…
Ainda primos.
Não importava, não naquele momento. Draco afastou o monólogo irritante que se formara em sua cabeça e se concentrou ali, nela.
Eles viveram a vida inteira juntos, cresceram juntos… quem diria que acabariam virando isso?
Bom, Walburga diria.
E não é como se Draco pudesse dizer que também não imaginava, porque, sim, ele imaginava. Todos os dias. Mas ali, com ela em seus braços, com a boca na dela, e suas línguas entrelaçadas, ele mal podia acreditar. Era como se sua vida inteira tivesse sido direcionada àquele momento.
Mas tinha um problema: ele ainda era um Comensal e ainda tinha um trabalho a cumprir naquele dia.
Com muito pesar, Draco quebrou o beijo lentamente. Sentiu seu coração dar cambalhotas ao ver a prima ali, de olhos fechados e lábios semiabertos, levemente inchados por conta do beijo.
— O que foi isso?
— Não estraga o momento, priminho… soltou uma risada.
Éé, nunca mais me chame assim. — Draco riu de volta.
— E então… o que me diz, vamos perturbar casais chatos na Madame Puddifoot?
Draco soltou um suspiro e correu os dedos cheios de anéis pelo rosto.
— Hoje eu não posso, tenho um negócio para fazer…
A garota franziu o cenho.
— Mas é sábado…
Ele engoliu em seco, sem uma desculpa suficientemente boa para dar. era esperta, até demais, não engoliria qualquer coisa que saísse da boca dele.
— É, eu sei, mas hoje não dá. Podemos deixar para próxima? — Draco abriu um sorriso fraco e assentiu, mesmo que incerta.
Então ele girou nos calcanhares para sair dali, mas a garota o impediu novamente.
— Hey, — Ela começou. — Nós estamos bem, não estamos?
Dessa vez, o sorriso que o garoto abriu foi grande o suficiente para iluminar o dia inteiro dela.
— Melhor do que nunca.
Assim, sozinha, caminhou contra o frio até o Três Vassouras, na tentativa de se aquecer um pouco e tomar uma cerveja amanteigada. Ao abrir a porta do estabelecimento, um sininho anunciou a sua chegada, e a garota deu de cara com o famoso Trio de Ouro. Eles discutiam calorosamente sobre algo, mas se calaram no exato momento em que deram de cara com ela.
— Ah, . — Rony cumprimentou com um sorriso. — Sente-se com a gente!
Black não pode deixar de reparar na expressão um tanto incerta de Hermione ao lado do ruivo. A princípio, ela pensou que fosse apenas ciúmes bobo — afinal, qualquer idiota com meia célula nervosa era capaz de dizer que eles eram afim um do outro —, no entanto, chegou à conclusão que era mais que isso.
Embora fosse praticamente a única sonserina que tratasse os nascidos-trouxas da forma correta, a garota sentia que Hermione tinha um certo receio em relação a ela. Não sabia dizer o porquê, mas algo a dizia que era em partes por conta de sua aproximação com Draco.
E, sinceramente, ela não a culpava.
Por isso, sentiu-se insegura sobre se deveria aproximar-se ou não, e, provavelmente percebendo isso, Hermione lhe abriu um meio sorriso, encorajando-a.
Assim, apanhou sua própria garrafa de cerveja amanteigada e se juntou a eles, sentando-se ao lado de Harry.
Os quatro passaram a conversar sobre várias amenidades, até que terminaram suas bebidas e decidiram voltar para a escola, mas não antes de se enrolarem bem em seus casacos e ajeitarem os cachecóis e luvas, é claro.
Eles subiram a rua principal em silêncio, até que algo logo a frente lhes chamou a atenção: duas garotas grifinórias — uma delas reconheceu como Katie Bell — pararam subitamente de andar e passaram a discutir alto até demais, para quem quisesse escutar.
Ela apertou os olhos para ver melhor seus vultos indistintos e se deu conta que as duas brigavam por algo que Katie levava consigo.
— Não é da sua conta, Liane!
Geralmente, não costumava se interessar pelos dramas alheios, mas algo dentro de si dizia, ou melhor, gritava que algo não ali não estava certo.
A tal da Liane tentou agarrar o pacote que Katie segurava, mas ela resistiu e então derrubou o embrulho no chão.
O que aconteceu em seguida se passou rápido demais para o cérebro de acompanhar; quando se deu conta, Katie estava suspensa ao ar, com os braços estendidos formando uma cruz. A quase dois metros do chão, a garota soltou um grito que fizeram com que os pelos do braço de Black se eriçassem; ela tinha os olhos arregalados e então passou a gritar sem parar.
Liane, desesperada, agarrou a amiga pelos tornozelos, tentando puxá-la para o chão, sem sucesso. Os quatro foram até elas para ajudar, mas na hora que pegaram nas pernas da garota, ela desabou sobre eles, e, felizmente Harry e Rony conseguiram apará-la e a colocaram no chão.
Katie se debatia, contorcia e fazia movimentos que tinha certeza não serem normais. A cena toda era insuportavelmente pavorosa, e enquanto isso, Harry foi buscar ajuda, voltando em poucos minutos com Hagrid em seu encalço, que logo tratou de levar a garota de volta para o castelo.
— Ela foi… — Rony começou, como se tentasse achar as palavras corretas.
— Azarada. — Foi quem completou.
Liane explicou para os quatro o que se passou, e Black não pode evitar ter uma pulga atrás da orelha com tudo isso.
Ela analisou o pacote onde o colar estava embrulhado com cuidado e distância suficiente, finalmente fazendo as conexões mentais para decifrar o que realmente tinha acontecido.
A voz de Draco mais cedo ecoava em sua mente:
“Hoje eu não posso, tenho um negócio para fazer…”
Não, não era possível…

Eles voltaram para o castelo, Hermione, alguns passos à frente, conversava com Liane. A cada metro que andavam, o frio aumentava, assim como a desconfiança de .
— Malfoy conhece esse colar. Estava exposto na Borgin & Burkes há séculos… — Harry começou, incapaz de guardar seus pensamentos para si. — Era isso que ele estava comprando naquele dia em que o seguimos!
— Harry… — Rony disse num tom soturno, como se soubesse que não era uma boa ideia falar de Malfoy na frente de sua prima.
E de fato não era.
— Não seja estúpido. Um monte de gente vai à Borgin & Burkes… — foi tão ríspida que O Eleito chegou a se encolher.
Se Harry também suspeitava de Draco, isso queria dizer que a garota não estava criando paranoias em sua cabeça.
A história toda era estranha demais, e ela podia apostar que tinha um dedo — ou uma mão inteira — de seu primo nisso.
Eles reportaram à professora McGonagall o que aconteceu, e na primeira oportunidade que achou, saiu feito furacão da sala da professora, indo atrás de quem deveria ser o verdadeiro responsável pela tragédia.
Ela foi encontrá-lo, mais uma vez, vagando de forma suspeita pelo sétimo andar. Mas por estar raivosa demais, nem se atentou a esse detalhe. O puxou pela capa e jogou-o para dentro da primeira sala que encontrou, fechando a porta atrás de si.
A primeira reação de Draco foi abrir um sorriso malicioso, mas fechou a cara assim que percebeu que a prima não estava para brincadeira.
— O que você fez?
— O que eu fiz?
— O… que… você… fez?
Draco suspirou.
— É o final da tarde, , já fiz várias coisas hoje. Você vai ter que ser mais específica.
— Ah, sim… me lembro bem de você ter dito que precisava fazer uma coisa. — Ela abriu um sorriso irônico, e o garoto ficou tenso de repente. — Como é que foi?
— Bem… eu acho.
Então foi aí que ocorreu a que ele ainda não sabia do que acontecera. A notícia do acidente de Katie Bell ainda não havia se espalhado.
— O que você fez, Draco? — O garoto ficou em silêncio. — Tudo bem, eu digo o que você fez: você comprou um maldito de um colar amaldiçoado na Borgin & Burkes, trouxe ele, Merlim sabe como, para dentro de Hogwarts e usou a maldição Imperius numa garota para entregar o colar para alguém que eu ainda não sei…
— Uau… e você descobriu tudo isso sozinha? — Draco foi irônico, mas no fundo ele temia pelo que viria a seguir.
VOCÊ TEM IDEIA DO QUE VOCÊ FEZ, SEU GRANDE IMBECIL? finalmente perdeu o controle. — Você não só usou uma imperdoável numa ALUNA, como ela agora está na enfermaria por sua causa!
— O quê?
— É, é exatamente isso que você ouviu… e piora: provavelmente vão ter que transferir ela para o St. Mungus.
Atônito, Draco deu alguns passos para trás, caindo sentado numa carteira.
— C-como?
— O embrulho rasgou, gênio, e ela acabou encostando no colar… — Respondeu ríspida e o garoto carregava a expressão de quem vira um fantasma. — O embrulho nunca foi entregue para seja lá quem você quer matar… seu plano falhou, Draco.
Ele a encarou, em seus olhos havia um misto de emoções que não soube decifrar.
Culpa, medo… alívio?
— Você tem sorte de que ela está viva. Você estaria num problemão se não estivesse, Harry já compartilhou a suspeita de que você está envolvido nisso para a McGonagall e o Snape.
Draco não falava, tampouco se mexia. encarava-o de longe, apenas analisando suas reações. A respiração dele foi ficando mais e mais pesada, até que explodiu em lágrimas.
O choro foi tão intenso, que até mesmo a garota sentiu seus olhos marejarem; não aguentava ver o primo dessa forma. Não o via chorando desde que Lucio resolvera castigá-lo pela primeira vez na vida, por importunar seus pavões aos nove anos.
— O que ele te mandou fazer, Draco? — Ela perguntou, sua postura muito menos severa naquele momento.
O garoto soluçou, e levou involuntariamente a mão até o coração, como se o segurasse.
— Eu não posso te dizer, ele vai me matar! — Mais um soluço.
Naquele momento, a garota se deparou com a inegável e dolorosa verdade: não havia nobreza alguma nas atitudes do primo, ele era fraco e covarde…, mas, ainda assim, estava fazendo tudo aquilo como uma forma de salvar a si mesmo e sua família.
Voldemort não hesitaria por um segundo matar os Malfoy se a missão não fosse cumprida.
se abaixou aos pés do garoto, apoiou o queixo em suas pernas magras e segurou com firmeza suas mãos.
O olhar que ela lhe dirigiu no momento foi o suficiente para que Draco se sentisse mais seguro do que em muito tempo, desde que seu pai fora preso, mais precisamente.
Ele fungou e respirou fundo numa tentativa de segurar o choro.
— Está tudo bem, Draco, eu estou aqui.
— Não, , isso não é uma detenção da McGonagall, ou uma briga com o meu pai… Você não pode me salvar dessa vez.
sentiu uma lágrima escorrer por seu rosto. O olhar que ele lhe dava naquele momento foi o grande responsável por lembrá-la que ela tinha, sim, um coração.
Então a garota abriu e fechou a boca uma série de vezes, atrás das palavras certas, mas tudo que acabou saindo foi:
Eu tenho que tentar.
Malfoy sorriu fraco e a puxou para cima, de forma que ela sentasse em seu colo.
— Sinto muito por te colocar numa situação em que você tem que escolher entre mim e seus princípios.
— Então não me faça escolher, Draco! Nós podemos ir até Dumbledore, explicar para ele a situação; ele vai te proteger, proteger sua mãe…
— Você não pode estar seriamente achando que essa é uma boa ideia…
— É a única que eu tenho! — se colocou de pé num pulo. — E pela forma como você está conduzindo as coisas, presumo que você também não tenha uma…
— Ir até o Dumbledore não é uma opção, , acredite.
— Por que? Você já tentou?
Draco suspirou e foi a sua vez de se colocar de pé.
— Não, e nem vou tentar.
— Como é que você espera que eu fique do seu lado, Draco, se você não está fazendo nada para sair dessa situação? — A forma com que falou lhe conferiu um ar manhoso, quase infantil, o que apenas dificultou tudo para o garoto.
— Eu sinto muito, , mas não dá.
Não dá? Ou você não quer?
Ele respirou fundo.
— Só não dá…
sentiu o coração pesar feito uma pedra. A angústia estava tão presente dentro de si que mais se parecia com um órgão. Ela derramou mais uma lágrima e balançou a cabeça com pesar.
— Então quem sente muito sou eu. — E saiu dali.
A partir desse dia, as coisas se tornaram muito, muito difíceis para Draco e . Se antes, como primos, eles já tinham uma relação muito intensa de amor e ódio, o que eles estavam vivendo naquele ano beirava a loucura.
No dia-a-dia, eles mal se olhavam na cara; passavam a maior parte do tempo se evitando e toda vez que podia, a garota fugia para a mesa da Grifinória para ficar com o Trio de Ouro. O único contexto em que a situação entre eles mudava era em um dos, cada vez mais recorrentes, surtos de Draco, ou quando os sonserinos resolviam dar uma festa clandestina em seu salão comunal, noites regadas principalmente a whisky de fogo e poções fervidas pelos alunos do sétimo ano que tinham como principal efeito inebriar os sentidos.
Já não era mais um segredo entre os sonserinos o tipo de relação que os dois vinham levando, por isso, em noites de festa, todos já sabiam o que aconteceriam: um deles iria acordar no dormitório errado no dia seguinte. E quando acordavam, era briga na certa.
Por meses eles ficaram nessa situação: não sabiam se se amavam, ou se queriam o outro morto. Um dia implorava para que ele ficasse mais um pouco, depois o afastava de uma forma que se tornava irreconhecível.
Draco tinha o coração dela e sabia disso, mas o problema é que, na verdade, ele vinha acompanhado de dentes, que o mordiam e machucavam sem dó nem piedade.
Um dos episódios mais feios foi quando atendeu a festa de Slughorn acompanhada de ninguém menos que Blásio Zabini. Quando eles não estavam fazendo a social como bons sonserinos influentes que eram, estavam se agarrando na escuridão dos corredores de Hogwarts, enquanto Draco se esgueirava pelos fundos da festa.
A briga, como de costume, não fora nada bonita… quando eles se amavam, era lindo, mas quando brigavam era feio, era sujo… chegou até mesmo a sobrar para o pobre Blásio, que estava apenas realizando o sonho de ter um encontro com a garota Black.
Mas as coisas foram mesmo ficarem feias quando, acidentalmente, por mais um erro grosseiro de Draco, Rony acabou sendo envenenado ao beber a garrafa de Hidromel que Slughorn guardava para Dumbledore.
ficara tão possuída que chegara esbofeteá-lo na cara.
VOCÊ NÃO PODE SAIR POR AÍ COMETENDO ERROS COMO ESSE! — Ela se permitiu gritar, mas não sem antes colocar o feitiço Abaffiato sobre seus colegas sonserinos. — É a segunda vez que você quase mata um inocente, Draco!
Malfoy já não era o mesmo de meses atrás. Estava mais magro, mais pálido, assumia uma aparência quase doente; e ver o primo dessa forma partia o coração de , mas não tanto quanto observá-lo lentamente se tornando algo que provavelmente não teria volta.
À medida que as coisas pioravam entre eles, e Draco sofria mais e mais consigo mesmo e principalmente com a quase impossível tarefa que o Lorde Das Trevas havia lhe incumbido, ele ia ficando mais doente.
As coisas estavam uma bagunça em sua vida, e ele já tinha há muito tempo perdido o controle de tudo.
Um dia, seguido de uma festa extremamente hardcore no salão da Sonserina, acordou em seus braços. Draco não conseguiu evitar sorrir, principalmente quando percebeu que, milagrosamente, ela acordara de bom humor.
Eles se beijaram e acabaram transando de novo. Era raridade as vezes que isso acontecia, por isso precisavam aproveitar. Foram tomar café da manhã juntos e acabaram virando a pauta de fofoca entre os sonserinos.
Não que eles já não estivessem acostumados…
Assim que saíra para sua aula de Astronomia, Draco resolveu dar uma volta pelos terrenos de Hogwarts. Faziam meses que ele não via a luz do dia, e sua pele precisava urgentemente de uma dose de vitamina D.
Ele caminhou um pouco, pensou muito… não deixava sua mente nem por um segundo sequer.
Quais eram as chances daquilo acabar bem entre os dois?
Pouquíssimas, praticamente inexistentes.
Andando pelos terrenos, ele avistou algo um tanto extraordinário para Hogwarts: estranhamente, havia flores crescendo ali.
Flores nunca cresciam ali.
Draco pensou em apanhar uma para mostrar a . A garota sempre acharia curioso aquele fato e provavelmente adoraria ver; então ele o fez.
Provavelmente acabaria jogando fora antes que pudesse entregá-la; não queria se parecer com um tolo apaixonado.
Ele entrou de volta no castelo e foi até o salão principal atrás da prima; mas o que acabou encontrando foi algo muito diferente disso.
De um jeito péssimo.
Ali, diante dele, conversando com Potter, estava Katie Bell: viva.
Malfoy, sem ter como saber do que a garota se lembrava, sentiu um calor subir-lhe o peito e a respiração falhar. De repente, o ar ficou quente demais e o salão ficou pequeno… ele precisava sair dali.
Draco saiu correndo para o banheiro mais próximo, enquanto tentava a todo custo afrouxar sua gravata que parecia sufocá-lo. Entrou no banheiro da Murta Que Geme e correu até a pia.
Com os braços apoiados no mármore, ele se deu uma boa olhada no espelho: os cabelos que um dia já foram metodicamente arrumados, hoje assumia uma aparência mais selvagem do que nunca; debaixo de seus olhos, duas enormes bolsas acinzentadas que lhe conferiam a imagem de quem não dormia há dias.
Ele estava um caco… e não se reconhecia mais.
Não estava sendo um ano fácil, Draco havia se colocado em posições, feito coisas que jamais imaginaria ser capaz; e, bom, a julgar pelo estado que se encontrava, ele não era mesmo.
O garoto tentou controlar o choro que lhe subiu à garganta, mas a onda veio tão forte que não houve o que fazer. De cabeça curvada, ele chorava copiosamente, sozinho, no banheiro da Murta Que Geme, enquanto segurava uma flor.
Realmente patético…
Mas, aparentemente, nem mais chorar em paz ele era capaz de fazer naquela escola. Ao olhar no espelho rachado em sua frente, se deu conta de que estava sendo observado: Harry Potter o assistia como se não houvesse nada mais digno de assombro.
Draco virou-se para o eleito, puxando a varinha. Instintivamente, Harry fez o mesmo. A partir daí, não demorou muito para começar a série de azarações desferidas pelos dois para atingir o outro. Murta Que Geme gritava, implorando para que eles parassem.
Num impulso extremamente imbecil e mal pensado, Draco tentou usar uma imperdoável, Crucio, mas Harry escorregou e o que veio a seguir poderia ser considerado tão estupido quanto.
SECTUMSEMPRA! – Urrou Harry do chão.
Malfoy sentiu seu peito abrir quase instantaneamente, como se tivesse sido cortada por uma espada invisível e, quando se deu conta, sua camisa estava coberta de sangue.
Ele recuou, vacilante, e caiu no chão ensopado devido à série de feitiços que erraram e acabaram acertando nos canos do banheiro.
Ao se dar conta do que fizera, Harry caiu ao lado de Draco, que tremia descontrolado, em uma poça do próprio sangue.
— CRIME! CRIME! CRIME NO BANHEIRO! CRIME! — Murta Que Geme gritava ensurdecedoramente.
Malfoy sentia tantas coisas ao mesmo tempo que mal era capaz de sentir nada. As lágrimas escorriam de seu rosto e ele já não sabia mais se eram pela dor física ou emocional… porque, acredite, ambas eram insuportáveis naquele momento, embora fossem diferentes entre si.
A dor do feitiço que lhe atingira era fatal, medonha e tomaria sua vida em pouquíssimo tempo se algo não fosse feito.
Mas a emocional não.
Ao invés disso, a dor emocional era quase como um câncer: imperceptível aos olhos e acaba com o melhor de você lentamente, pouco a pouco te destruindo, te deteriorando. Você pode conviver com ele por anos — Draco já estava assim há meses — ou pode até mesmo vencê-lo…, mas, uma hora ou outra, ele sempre volta, como um recado, um lembrete, de que você nunca pode verdadeiramente superá-lo; ele sempre vai estar lá, apenas aguardado seu momento de voltar à tona e terminar de arrancar o que não conseguiu da última vez.
Malfoy estava quase se entregando, seus olhos pesados demais para continuar aberto, quando a porta se abriu violentamente. Ele ficou aliviado ao perceber que se tratava de Snape, mas seus olhos encheram-se de medo quando viu que, seguido por ele, vinha .
Fraco, sem conseguir pensar claramente e com a visão toda embaçada, a única coisa que Draco conseguiu pensar naquele momento era o quanto ela estava linda, e a julgar pela forma que o encarava, ele estava ferrado.
A flor ainda estava intacta na sua mão, o garoto a segurava como se fosse a coisa mais importante do mundo, o sangue em sua camisa… o olhava como se não o conhecesse.
Ah mas ela conhecia
E sabia perfeitamente que, atrás daqueles olhos perdidos, havia mais sofrimento que um garoto de 16 anos era capaz de suportar.
Ao perceber que Snape cuidaria daquilo, saiu voando de dentro do banheiro, esbarrando com alguns alunos que já se amontoavam na porta, para espiar o que havia acontecido.
Estava tão cansada daquilo tudo…
Antes de poder visitar o primo, a garota entreouvira sem querer uma conversa entre Harry, Rony e Hermione, onde O Eleito dizia que Draco tentara usar Crucio nele.
Ela já não sabia mais o que pensar.
Assim que Madame Pomfrey liberou o garoto para receber visitas, já estava lá na porta; mas não era a única, Pansy Parkinson também estava lá, doida para mais uma interminável sessão de puxa-saquismo.
— Vocês podem vê-lo agora.
entrou na sala e girou nos calcanhares para ficar de frente com Pansy.
— Volte mais tarde, querida.
— Você não é a única que quer falar com ele, Black.
A garota respirou fundo, tentando recobrar a paciência que não tinha naquele momento.
— Volte… mais… tarde.
E como ninguém ousava desafiá-la quando falava daquela forma, Parkinson apenas deu as costas e saiu dali.
Ao visualizar a prima, Draco abriu um sorriso fraco e tentou se sentar, mas a careta de dor que fizera comprovou que não seria uma tarefa fácil.
— Não, por favor, continue deitado. — pediu com calma, e ele a obedeceu. — Como você está?
Draco suspirou.
Em uma fração de segundos, ele procurou pela flor ao seu redor, mas se amaldiçoou ao se dar conta de que provavelmente ela havia se perdido no caminho do banheiro até a ala hospitalar.
— Como um pedaço de merda.
— É, bom, você deveria mesmo.
O garoto arqueou as sobrancelhas. Não podia acreditar que ela começaria mais um sermão ali, logo depois de ele praticamente ter sido picado vivo.
— Do que você está falando? Olha o meu estado!
— Você ia usar Crucio nele, Draco?
Draco imediatamente abriu a boca para responder, mas se surpreendeu ao se dar conta de que não sabia o que falar.
Era verdade, afinal.
— Da onde você tirou isso?
— Eu escutei eles conversando.
O garoto riu sem humor.
— Já era de se esperar que você acreditaria mais no Potter do que em mim…
— Não minta para mim, Draco. Eu posso dizer quando você está mentindo.
A falta de resposta que veio a seguir foi o suficiente para que decidisse que não aguentava mais.
— Eu não consigo mais inventar desculpas para o seu péssimo comportamento, Draco. — Ela balançou a cabeça cheia de pesar. — Eu estou cansada, eu não sei mais quem você é.
— Eu sou seu… — Ele se apressou em dizer, mas parou no meio da frase. — seu. Só seu. Por favor, .
— Eu não posso mais continuar assim, Draco. — O coração dela se quebrou em um milhão de pedaços por ter que estar dizendo isso. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. — Olha o tanto de merda que aconteceu esse ano, o tanto de merda que aconteceu comigo! Eu não me reconheço mais.
Foi a vez do garoto derramar uma lágrima.
— Eu sinto muito.
segurou sua mão.
— Eu sei que sente. — Depositou um beijo ali, depois nos lábios gelados e ressecados dele. — Eu também sinto.
E então, dito isso, ela girou nos calcanhares e saiu dali.
Foi melhor assim.
A partir dali, eles seguiriam caminhos contrários, machucados, no entanto inteiros — ou quase. Certamente estavam infelizes, embora estivessem certos de que não havia um fim diferente daquele para os dois… eles construíram aquele caminho todos os dias antes de ceder, com cada briga, cada palavra de ódio…
Assim, decidiram que os dentes em seus corações não eram compensados pelo resto. Era mais sujo do que doce.
E então cederam.