Wildflower

Wildflower

  • Por: Vênus
  • Categoria: CALM | Especiais
  • Palavras: 5118
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Sinopse: Oito anos haviam se passado, e quanto mais olhava, mais Luke se dava conta de como Liberty havia desabrochado como uma flor silvestre: bonita e livre por natureza. E ainda que os anos houvessem privado-os um dos outros, e que obstáculos fossem quase intransponíveis, nada impedia Luke de se sentir tão apaixonado quanto quando ainda eram crianças.
Gênero: Romance.
Classificação: Livre.
Restrição: Fanfic não interativa.
Beta: Thalia Grace

Wildflower

— O que você está olhando, Hemmings? Michael está falando dos malditos Pokemons há cinco minutos e você ainda não o mandou calar a boca — Ashton estalou os dedos bem na frente dos olhos do amigo ao que não obteve resposta, e foi apenas dessa forma que conseguiu a atenção de Luke para si. — Está tudo bem, cara?

— Ah, claro, é só que… — voltou a olhar a garota. Os cabelos loiros com aquele aspecto despretensioso de quem não liga para a aparência e ainda assim é a pessoa mais bonita do quarteirão todo, a pele corada de quem passa muito tempo no sol, as roupas de quem viveu a vida toda no acampamento. — Aquela garota. Calum, aquela garota…

— Liberty Wilson. Sim, aquela Liberty Wilson. — Hood deu de ombros batendo nos bolsos à procura do maço de Lucky Strike que costumava carregar pra cima e pra baixo desde que desenvolvera o hábito de fumar.

— Você sacou assim que a viu? — o loiro perguntou novamente, virando-se e retirando o cigarro dos lábios do outro, para então jogá-lo no chão com desprezo e amassá-lo sob a sola da bota preta. Calum revirou os olhos.

— Tem como não reconhecer Liberty Wilson? — respondeu ríspido, lançando um olhar assassino para o amigo.

Calum fez menção de pegar mais um cigarro do pacote, mas, ao notar os olhares atentos de Ashton e Michael, desistiu já imaginando que este novo iria parar no mesmo lugar e eram caros demais para serem desperdiçados como o anterior: no chão. Terapia de choque para parar de fumar dos doutores Hemmings, Clifford e Irwin.

— Quem é Liberty Wilson? — Michael perguntou por fim, tão perdido quanto Ashton, seguindo o olhar do amigo Hemmings e encontrando a garota que capturava toda a atenção do mesmo. — Ex namorada?

— Bem que ele queria — Calum comentou. —, mas levou um belíssimo fora quando pediu uma chance para ela há alguns anos.

— Ela não se parece com alguém com quem Luke tentaria alguma coisa. — Ashton concluiu.

— Tá brincando? Ela foi nada mais, nada menos do que o primeiro grande amor dele.

Ah, o amor! Aquele conjunto químico em nosso cérebro que faz com que o coração acelere e as borboletas no estômago tentem fugir pela garganta ao que Liberty olha em sua direção e acena antes de chamar seu nome. Agora com seus 18 anos, a voz daquela garota soava ainda mais doce para seus ouvidos do que oito anos antes.

E tudo nela esbanjava esse amadurecimento, acentuava o fato de que ela havia desabrochado perfeitamente como… como uma flor silvestre. Luke podia apostar que seus olhos estavam brilhando com a visão dela caminhando em sua direção.

Liberty continuou acenando conforme se aproximava, olhando animadamente de Luke para Calum até parar a frente dos quatro garotos e abrir o sorriso de dentes perturbadoramente alinhados que Luke guardava nas lembranças de sua infância.

— Caramba, parece fazer uma vida inteira desde que eu vi vocês pela última vez! Calum Hood, como você cresceu! Era menor que eu… — abraçou-o com uma familiaridade tão inesperada que o moreno quase não teve reação, levando alguns segundos para corresponder desajeitadamente. Liberty então virou-se para Luke e o olhou divertida observando como este parecia desconcertado. — Lucas Hemmings.

Automaticamente o rapaz fora transportado ao passado, onde ele, Calum e alguns outros amigos (nesta época ainda não haviam conhecido Michael ou Ashton) atravessavam por um buraco na cerca do acampamento dos ciganos para brincar com as crianças. Liberty era sempre a líder de todos, quem criava as brincadeiras e basicamente decidia se os de fora do acampamento teriam permissão para se juntarem às crianças. “Luke é um nome tããão sem graça” sempre dizia olhando o pequeno Hemmings, com um sorrisinho de canto arteiro e braços cruzados. “Vocês podem brincar se pudermos chamá-lo de Lucas”. Luke odiava quando Liberty insistia em chamá-lo de Lucas. No começo, antes daquilo se tornar uma coisa só dela.

— … Oi, Liberty. — respondeu, sentindo as bochechas esquentarem. Podia apostar que estava vermelho feito um tomate.

— Liberty? Sério? Desde de quando precisamos dessa formalidade? — Virou-se para Calum com as mãos na cintura. — Somos amigos de infância, caramba! Eu ainda sou a Lib. Não esperem que eu chame vocês de Hood ou Hemmings, seria uma piada. — Voltou-se para o loiro — Que piercing maneiro, combina com você! Mas quem são vocês? Não se parecem com os outros garotos com quem esses caras iam para o acampamento, e eu raramente esqueço um rosto.

Liberty continuava falando muito rápido, muitas coisas e num espaço muito curto de tempo. Se não tivesse gasto anos de sua infância com a garota, provavelmente não acompanharia o raciocínio rápido e a mudança brusca de assunto.

— Não, não são. Este é Michael Clifford — Michael deu um tchauzinho. —, e este é Ashton Irwin. — Ashton lhe estendeu a mão e Liberty logo a apertou.

— Mas o que está fazendo aqui, Lib? — Calum perguntou, cruzando os braços e tomando a atenção dela para si.

— Oras, o que você acha que as pessoas fazem na escola? Estudar, é claro! — ela riu, e Luke sentiu todos os pelinhos de seu corpo se arrepiarem com o som.

— Mas vocês costumam estudar no acampamento, você sempre dizia isso.

O sorriso se fechou um pouco, a mente dela parecendo viajar para longe. Respirou fundo e puxou os cabelos para cima de um dos ombros como numa ação automática.

— Abriram uma exceção especial para mim. — falou simplesmente. Então seus olhos viajaram para onde estava antes de avistar os velhos amigos. Os quatro garotos olharam naquela direção também, encontrando um pequeno grupo de outros três garotos ciganos – dois garotos e uma garota – que os observava de longe. — Eu preciso ir agora. Nos falamos mais tarde? — não deu tempo para que qualquer um deles respondesse, apenas saiu correndo.

— Curioso… — Michael comentou. — Embora o mais curioso tenha sido o fato de que Lucas quase explodiu só de falar “oi” para ela.

Luke deu um soquinho no ombro de Michael, fazendo-o choramingar.

— Você ainda gosta dela? — Ashton perguntou por fim, ao mesmo tempo em que o primeiro sinal soou indicando que deviam se dirigir para dentro da escola e então para suas respectivas salas.

— Qual é, já fazem 8 anos desde que a gente se viu da última vez. Quem continua guardando esse tipo de sentimento? — respondeu dando de ombros como se não se importasse, mas acelerou o passo ficando bons metros a frente dos outros pois se conhecia bem demais para saber que se o pressionassem um pouquinho mais acabaria confessando a ansiedade que ainda borbulhava no fundo do estômago.

🌼🌼🌼
Luke não teve uma aulinha sequer com Liberty até o terceiro tempo, o que significava que só poderia vê-la durante o intervalo ou se tivesse sorte o suficiente para os tempos seguintes, e a ansiedade em descobrir se teria a chance de observá-la durante cinquenta minutos como um idiota o distraiu de todas as aulas até então.

O mais engraçado era que ele não era o único. A novidade sobre ter quatro crianças ciganas no colégio se espalhou tão rápido quanto contar de 1 a 2, todos ansiosos para ver Liberty em toda sua espontaneidade. Era um pouco estranho que as pessoas agissem assim, mas raramente tinham a chance de ver alguém do acampamento fora do acampamento, então ter quatro ali na escola era realmente uma atração.

Claro que sabia que a garota e os amigos não gostariam nem um pouco da atenção extra — lembrava-se perfeitamente de como Lib reclamava sobre a forma que as pessoas a olhavam quando tinha de ir ao centro da pequena cidade em que viviam, como se fosse um animal que saiu pra um desfile —, mas até entendia seu colegas de escola.

Eles pareciam tão diferentes, de uma forma que se sobressaiam aos demais onde quer que fossem. Para Luke, especialmente Liberty. Sua pele era dourada de uma forma especial, como se beijada com carinho pelo sol. Os cabelos loiros levemente queimados também eram bonitos de uma forma tão despojada, repleto de finas trancinhas escondidas entre os fios. A blusa branca e leve junto da saia longa e floral destacava-se em meio aos jeans e moletons que abarrotavam os corredores da escola. Isso sem contar os pulsos abarrotados de pulseiras, assim como o pescoço que ostentava algumas correntes e os brincos de moedas douradas que tilintavam baixinho quando mexia a cabeça.

— Você anda com a cabeça nas nuvens hoje, em? — sentiu um cutucão no ombro que o despertou do devaneio. Virou-se, deparando-se com Michael olhando-o curioso. — Vamos cara, a aula acabou.

Levantou-se apanhando apenas a jaqueta do encosto da cadeira, visto que sequer havia aberto a mochila, e seguiram para fora, metendo-se na multidão de adolescentes a caminho do refeitório.

— Você está estranho desde que viu Liberty Wilson. O que tá rolando? — o amigo de cabelos rosa perguntou. Luke deu de ombros.

— Nada, é impressão sua.

— Cara, te conheço desde os 12, não tenta se fazer de sonso comigo — Michael apertou seu ombro, o fazendo olhá-lo.

Hemmings cogitou explicar o que sentia. Mordeu o lábio nervosamente, sentindo o geladinho do piercing, mas não queria começar um assunto como aquele no meio do corredor. Já tinha algumas pessoas os observando disfarçadamente — ou assim elas pensavam — e não queria um boato sobre si correndo pela escola. De novo. Já bastava acharem que ele e Michael tinham um caso secreto. Era assim desde que ficaram populares com a banda.

— Isso é coisa de sua cabeça — fez um movimento mínimo com as sobrancelhas como um sinal de “conversamos sobre isso depois” e Michael parecia entender, acenando de leve com a cabeça.

— É, deve ser mesmo. — o rosado deu de ombros, enfiando as mãos nos bolsos enquanto bocejava, finalmente chegando no refeitório.

Dirigiram-se à fila da cantina e logo estavam com suas bandejas em mãos. Não demorou para encontrarem Calum e Ashton já em sua mesa — uma mesa praticamente reservada ao 5 Seconds of Summer, a banda de garagem que os quatro possuíam e que era bem popular na cidade e redondezas. —, sentando-se e logo mordiscando algumas pequenas porções de sua torta de carne.

— Precisamos pensar na nossa setlist para o baile — Calum disse, quebrando o silêncio estranho ao que ficaram encarando o mais novo por alguns minutos, tentando entender seu interesse repentino em tirar pedacinhos de alguma coisa de sua torta. — A Melanie me parou no meio do corredor para dizer que estamos atrasados e, acredite, ela não foi nem um pouco discreta ao descrever nossa “irresponsabilidade”.

— Vamos tocar nossas autorais, caras— Michael sugeriu. — Todo mundo conhece e é bom para divulgação.

— Uau, você não foi um pouco confiante demais agora? — Ashton riu, as covinhas se aprofundando um pouco. — “Todo mundo conhece”…

— Ah, qual é! A gente já tocou na maioria dos eventos dessa cidadezinha desde que a banda foi criada, até nas rádios nós já tivemos. Vamos transformar esse baile numa coisa nossa, que tal? — Michael cochichou a última parte. Fez uma careta em seguida. — Mas me recuso a tocar Never Be e Wrapped Around You Finger.

— Você consegue odiar as músicas favoritas dos fãs… — Luke finalmente comentou. — O que você quer tocar então?

— Want You Back — Michael sorriu grande.

— An, Luke Hemmings?

Os quatro garotos se viraram, percebendo que não só todo o refeitório estava observando-o curiosamente, como a amiga de Liberty — que Luke reconheceu e se tratava de Florence, que costumava brincar com eles quando crianças — estava parada ao seu lado.

— Florence… — disse. — An, quanto tempo?!

— Sim, já faz muito tempo… — Florence olhou um pouco além, para a mesa onde os dois garotos ciganos estavam sentados encarando-a com as sobrancelhas apertadas. — Você… Você por acaso viu a Liberty?

Luke finalmente saiu de sua cabeça o suficiente para olhar ao redor e não encontrar os cabelos dourados da garota.

— Eu apenas vi ela antes do começo das aulas, lá fora… — começou a dizer.

— Ah, claro, tudo bem. Tudo bem. — Florence parecia realmente nervosa. — Obrigada.

Virou-se para sair dali, mas foi impedida ao que Luke segurou seu pulso. Olhou-o sem entender.

— Você não sabe onde ela está — falou calmamente.

— Sei, sei, agora que parei para pensar…

— Eu não perguntei, eu afirmei — ele disse. — Qual é, Florence, você sempre foi uma péssima mentirosa. — lembrou-se da infância quando Calum e ele perguntavam se Liberty não gostava mesmo de Luke e Florance mordia a bochecha antes de responder que não.

Ela fazia o mesmo quando Calum lhe perguntava se gostava dele, mas aquilo estava guardado pras lembranças do próprio Hood.

— Não se preocupe. Ela deve ter saído para respirar — Soltou-se calmamente e voltou para a mesa onde os dois rapazes aguardavam.

Luke a seguiu com o olhar e esperou até que todos — literalmente todos — voltassem sua atenção para outras coisas antes de se levantar e sair andando sem dizer uma só palavra para fora do refeitório.

🌼🌼🌼
— O que você está fazendo aqui sozinha?

Liberty pulou com o susto, olhando por cima do ombro com uma mão sobre o peito. Luke viu-a respirar, acalmando-se, antes de virar totalmente para ele.

— Eu precisava de um tempo — respondeu simplesmente. — Esse lugar me sufoca, e não param de olhar para mim e de me fazer perguntas idiotas como se eu tivesse vindo de outro planeta.

— Você é como uma celebridade agora, mas logo isso passa.

— Sei… — disse ela, puxando a saia que se abriu como um leque antes de se sentar na grama debaixo da arquibancada.

Luke havia procurado-a por longos minutos por todo o colégio. Tanto que o sinal para a retomada das aulas já havia tocado a algum tempo, mas não relaxou até ver de relance um pedacinho da estampa floral sumindo por detrás do espaço da arquibancada do campo de esportes e xingou-se mentalmente por não ter procurado-a do lado de fora primeiro.

Por fim, sentou-se ao lado dela com um pouco de dificuldade devido a calça preta apertada. Mantiveram esse silêncio, ele se limitando a olhá-la de rabo de olho e ela a arrancar pedacinhos de grama com a mão só para ter algo para fazer.

— Eu vou me casar — Foi com essa notícia que Liberty quebrou o silêncio, fazendo Luke se engasgar com a própria saliva.

— O quê? Se casar? Mas você só tem 18 anos, não é cedo demais?

Liberty sorriu, mas era visível que não tinha a menor graça ou animação sincera ali.

— A tradição é que as garotas se casem entre os quinze e dezessete anos. Estou com 18 agora, consegui adiar por mais tempo que qualquer mulher da minha família, sabia? — disse ela. — Quando disse que abriram uma exceção especial para mim, quis dizer que esse foi meu último pedido ao meu pai antes de pertencer ao meu marido. Oficialmente estou noiva desde os 11, Luke.

Luke, não Lucas. Engoliu em seco.

— Mas… com quem…? — Mal conseguiu formar a frase.

Liberty respirou fundo.

— Lembra-se de Marko?

Ele lembrava. Marko era um garoto mais velho que não gostava quando ele e os amigos entravam no acampamento para brincar com as crianças ciganas. Algumas vezes havia expulsado-os de lá aos gritos, mas na maioria das vezes estava ajudando os homens do acampamento e apenas lançava olhares desaprovadores para eles. Lembrava-se também que Liberty não gostava dele. Não que ele fizesse algo para ela, apenas o achava chato e “burucutu”. De repente uma luz se acendeu na mente de Luke.

— Ele está aqui também, não é?

— Sim, junto com o marido de Florence. — O queixo do Hemmings caiu. Lib riu baixinho. — Nem todas as garotas têm a sorte de ter um pai como o meu, Luke.

Ela respirou fundo e deitou-se na grama. Luke ainda a encarava desconcertado, seu peito se apertando de uma forma quase dolorosa.

— Você… está satisfeita com isso? Quer dizer, você vai se casar…

— Estou totalmente aborrecida. É tão frustrante, eu simplesmente não posso falar disso com ninguém. A única vez que tentei expressar minha opinião sobre não querer me casar, os olhos de Florence quase saltaram das órbitas. Se ela, minha melhor amiga, reagiu assim comigo, imagina qualquer outra pessoa do acampamento? Eu tenho que odiar toda essa situação sozinha e por dentro, fingindo que eu acho tudo bem, que estou adiando o casamento por capricho… — chacoalhou a cabeça. — Marko não para de me pressionar, e eu nem posso culpá-lo! Ele é muito correto, me respeita, eu acho até que ele gosta de mim pra valer! — Pequenas lágrimas começaram a se formar nos cantos dos olhos da garota. — Ele está apenas seguindo a tradição. Ele me espera a anos…

— Lib…

— Mas eu não gosto dele. Só de pensar que se eu me casar vou ter que viver com ele pelo resto da minha vida, argh! Tentei fugir para a escola para evitá-lo pelo menos por algumas horas do meu dia e não ter que me deparar com aquele olhar decepcionado e cheio de expectativas, mas nossos pais decidiram que o melhor seria ele vir comigo para assegurar-se da minha segurança… Mas que diabos poderia acontecer? O ônibus escolar para na frente do acampamento. Consegui convencer Florence a vir comigo, mas o presente de Deus dela veio de brinde.

— Por que você não termina o noivado? — Luke sugeriu, vendo-a sorrir enquanto lágrimas teimosas escorriam.

— Não existe nada mais sagrado para nós do que uma promessa. Meu pai prometeu minha mão a Marko, recusar o noivado seria o mesmo que jogar a honra de minha família na lama.

— Você não deveria ter que cumprir uma promessa que não fez. Puxa, eu entendo Marko, você é tão… Tão você! Tão bonita — Luke estava se espancando mentalmente. Porque diaboa estava dizendo essas coisas do nada como um adolescente burro?! Alguém precisava calar sua boca imediatamente! —, seu jeito tão único, você parece ser capaz de fazer o sol brilhar com mais força só com um sorriso. Você é tão esperta e divertida… Eu também não gostaria de terminar um noivado com você. Só que… Você parece tão infeliz que parece impossível você conseguir esconder isso o tempo todo. Eu me amaldiçoaria pela vida toda se fosse o motivo de te fazer murchar.

Assim que parou de falar, mordeu o lábio e fechou os olhos com força. Caramba, às vezes parecia que a boca funcionava independente do cérebro. Surpreendeu-se ao ouvir uma gargalhada baixa vir da garota. Liberty sentou-se e aproximou-se um pouco mais de si, de forma que seus braços se encostaram e o garoto pôde sentir o calor da pele dela mesmo sobre a jaqueta.

— Em momentos como esse me arrependo de tê-lo dispensado quando éramos crianças — O coração do loiro pareceu ter errado uma batida. — Se eu tivesse te amado mais naquela época, talvez as coisas fossem diferentes agora. É tão mais fácil amar você, Lucas… — Ela disse de uma forma tão natural que Luke duvidou que ela tivesse se dado conta do que havia acabado de dizer. Mas ele estava bem ciente do que ouviu, tendo boca seca imediatamente e as borboletas no estômago voando mais loucamente.

Liberty apenas encostou a cabeça em seu ombro e fechou os olhos. E aquilo parecia tão estranho, como se oito anos nunca houvessem passado e na verdade sempre estiveram assim, juntos. Liberty ainda era aquela pequena Liberty sem preocupações com noivo e casamento, apenas focada em inventar mais uma brincadeira maluca, e Luke, o pequeno Lucas, com seus olhos de esmeralda completamente encantado pela garotinha, ocupado em acatar todas as suas regras e fazer bobeiras só para vê-la rir.

— Por que você nunca mais voltou para brincar? — ela perguntou, por fim.

Luke demorou alguns segundos, mas respondeu.

— Acho que estava grande demais para passar pelo buraco da cerca.

— Fecharam o buraco pouco tempo depois, quando vocês não voltaram. Foi como se tivessem fechado minha única possibilidade de fuga, prendendo do outro lado toda a minha infância. Só me dei conta daquilo quando as coisas começaram a sair do meu controle.

Silêncio novamente.

— Você pensava em mim? — Liberty novamente.

Luke sorriu com a curiosidade dela. Haviam feito parte da vida um do outro demais para evitarem esse tipo de pergunta.

— Todas as vezes que eu vi uma flor silvestre eu lembrei de você — respondeu.

Liberty levantou a cabeça, olhando-o nos olhos.

— Você se lembrava de mim olhando mato, Lucas?

Luke olhou ao redor procurando por algo. Encontrou a alguns metros de onde estava sentados, bem ao lado de um dos pilares de sustentação da arquibancada. Foi até ali e apanhou a florzinha branca, quase arroxeada, e retornou até Liberty.

— Para mim, você sempre foi como uma flor silvestre. Crescendo tão livre, independente de todos e ainda assim tão bonita e capaz de ser mais especial que qualquer outra — agachou-se na frente dela, encaixando o caule da florizinho na orelha da garota e prendendo-a ali. — Você nunca precisou ser semeada para florescer, fez isso com sua própria força. Ainda faz, segurando tudo isso nas costas, Lib.

Ela riu e tocou uma pétala com os dedos.

— Isso foi tão clichê, Hemmings. — comentou.

— Pensei que você tivesse dito que não ia me chamar pelo sobrenome.

— Pensei que você odiasse Lucas.

— Não quando é você quem chama.

🌼🌼🌼
— Deixa eu ver se entendi — Ashton balançou as mãos de forma que Luke parasse de falar. — Você pretende chamar uma garota que está noiva para o baile, e acha que o noivo dela, que, diga-se de passagem, é um touro cheio de músculos, não pensou no mesmo que você.

Luke brincava com os dedos nervosamente enquanto assentia sem parar, tentando convencer a si mesmo de que era uma boa ideia.

— O que te faz pensar que Marko não vai quebrar sua cara na porrada? Ele já não gostava de você antes, imagina se souber que você ainda é afim da garota dele. — Calum acendeu o cigarro que estava entre os lábios a algum tempo, esperando o momento em que os outros três estivessem distraídos o suficiente.

— Ela não é a garota dele. — Agora Luke ficara um pouco irritado, apanhando o cigarro com certa brutalidade e esmagando-o.

— Irmão, vamos ser realistas, ok? — Michael interviu ao observar como aquilo estava deixando o amigo bravo. — Sem gracinhas. Você pode gostar da Wilson, nós entendemos mesmo, pode ser que ela goste de você também, mas isso não muda o fato de que ela está noiva e que o noivo dela é enorme e vai bater na gente.

— Olha, não quero saber. Liberty é quem vai dizer se isso é boa ideia ou não. Cansei de vocês! Estou indo embora. — Luke se levantou do sofá em que estava sentado e saiu da garagem, indo a caminho do sedã de sua mãe.

— Embora para onde, Luke? A casa é sua! — Ashton gritou ao que o loiro bateu a porta do carro com força.

O garoto ignorou os protestos dos amigos e se limitou a sair dali. Logo não estava mais em seu bairro, e mesmo que estivesse funcionando no automático, sabia exatamente onde aquela estrada o levaria. Não demorou mais do que 5 minutos para que chegasse na rodovia principal, onde suas margens eram fechadas por bosques densos dos dois lados. Mas do lado esquerdo de quem saia da cidadezinha havia uma cerca simples de arame que se estendia por alguns poucos quilômetros e se perdia em meio às árvores. O acampamento.

Luke parou o carro a bons metros de distância para não chamar atenção de ninguém e se apressou em se embrenhar na mata que conhecia tão bem, indo direto para aquele exato ponto. Quando estava próximo da cerca, abaixou-se o suficiente para ficar oculto nas sombras — não esquecendo-se mentalmente de agradecer por ser noite. Assim como Lib havia dito, o burado da cerca fora fechado com arame. Pensou em desfazer a amarração para entrar, mas mesmo que conseguisse sem ninguém notar, era grande demais para passar E também, se conseguisse atravessar, como explicaria que havia invadido para procurar por Liberty?

— Lucas?

Assustou-se de tal forma que deu um passo em falso e caiu de bunda no chão. Virou-se rapidamente deparando-se com dois pares de olhos encarando-o.

— Lib! Florence! — levantou-se rapidamente.

— O que você está fazendo aqui? — a loira lhe perguntou sem entender.

— Eu… Vim te ver. — respondeu. O queixo de Florence caiu.

— O que ele quer dizer, Lib? — Olhou alarmada para Liberty.

— Não é o que você está pensando, Flora. — Liberty respirou fundo e entregou para a amiga uma espécie de tecido muito rosa e brilhante. — Volte para o acampamento, vou conversar com Luke e logo te encontro.

Florence olhou de um para o outro com uma desconfiança visível.

— Vocês vão ficar aqui sozinhos? Isso não é bom, amanhã você…

Florence — Liberty repetiu. — Eu já vou. Por favor, me espere no acampamento.

A garota ainda não parecia convencida, mas decidiu fazer o que a amiga havia pedido. Quando finalmente estava a uma distância boa, Lib pegou Luke pela mão e guiou-o mais para dentro da mata, o que o alarmou um pouco, afinal a Austrália não era conhecida por sua vida selvagem à toa. Andaram pelo que pareciam minutos infinitos antes da garota parar. Haviam saído sob uma espécie de viaduto, ouvindo os carros passando sob a construção de cimento sobre suas cabeças.

— Você está doido? Se alguém o tivesse pego todo sorrateiro olhando pro acampamento, provavelmente teria sido espancado antes de te perguntarem o que estava querendo!

— Me desculpe. — disse sinceramente.

Fez-se silêncio por algum tempo, ambos se encarando.

— E então? — Disse ela.

— O que? — respondeu Luke.

— Você disse que queria falar comigo.

— Ah, você tem razão. O motivo pelo qual fui até o acampamento é que eu gostaria de saber se você… Gostaria de ir ao baile comigo. Minha banda vai tocar, e eu queria mesmo que você nos assistisse.

Luke então assistiu enquanto uma tristeza cresceu no rosto de Liberty e aquilo o desconcertou.

— Luke, eu gostaria muito, mas… — Ela não terminou a frase. Passou os dedos pelos cabelos e respirou fundo para segurar o choro que ameaçava irromper.

— Mas? — Insistiu ele, temeroso pela reação dela.

— Lucas, eu vou me casar amanhã.

Aquilo o havia acertado como um soco no estômago.

— Mas você disse que havia feito um acordo com seu pai! — Luke se aproximou um passo sentindo-se desolado. Liberty abraçou a si mesma.

— A culpa não é dele, fui eu quem decidiu adiantar a cerimônia.

— Por que diabos você faria isso?! Você sequer quer se casar, Liberty! — agora era ele quem tentava evitar o choro. Ele teve esperança, mesmo que sempre soubesse que era por sua própria conta e risco, que as coisas poderiam mudar e o casamento não acontecesse. Que de alguma forma ela se livraria daquela responsabilidade, mas naquele momento sua pontinha de esperança foi jogada bem longe num lugar inacessível.

— As outras famílias começaram a excluir a minha família, nos tratar como se eu houvesse desfeito o noivado por ter inventado de ir para a escola. Como se eu estivesse procurando uma fuga e fazendo Marko vê-la acontecer de pertinho. — Um soluço escapou de seus lábios. — Eu decidi fazer isso por minha família, Luke. Por favor, não me condene. Eu estou me sentindo horrível o suficiente.

Luke sentou-se naquele chão imundo, magoado demais para sequer se importar com onde estava encostando sua calça novinha. Liberty não se mexeu, apenas continuou ali, parada, olhando-o segurar a vontade de chorar.

— Lucas — Chamou ela, mas ele não olhou. — Luke, você gosta de mim de novo?

Ele riu sem achar graça realmente. Talvez achasse um pouco por seu papel de otário.

— Para ser de novo eu teria que ter parado de gostar de você em algum momento. Em todos esses anos eu apenas consegui internalizar esse sentimento até você voltar e fazer emergir novamente. Que droga, Liberty, eu gosto de você desde que tínhamos 8 anos.

Mais uma vez silêncio.

Luke viu de canto de olho quando Liberty pegou o celular de dentro da bolsinha que carregava a tiracolo e mexer por alguns segundos até a melodia que conhecia bem demais começar a soar.

— O que você está fazendo? — perguntou curioso enquanto ouvia a voz de Calum entoar os primeiros versos de Everything I Didn’t Say.

— Você veio me convidar para o baile. Estou criando o nosso próprio. Você quer dançar comigo?

Luke levantou-se e se aproximou com calma. Entrelaçaram os dedos antes que ele depositasse sua mãe na cintura de Lib e ela em seu ombro. Num ritmo lento, logo estavam dando alguns passos tímidos enquanto aproveitavam a proximidade e companhia um do outro. Ela, por fim, com a cabeça em seu peito e Luke apoiando a sua delicadamente sobre a dela. Aquele momento, aquela dança, seria tudo o que teria dela para sempre. Mais uma lembrança de Liberty Wilson. E então compreendeu que talvez as coisas devessem terminar assim. E ela continuaria sendo por tempo indeterminado exatamente o que Luke diria quando lhe perguntassem do que ele gosta, aquela flor silvestre, sua fantasia favorita, o amor fatal.

A única que o fazia…

Toda vez que…

Sua flor silvestre.