Os Diários.

Sinopse: Julia é uma mulher de 20 anos que vive nos anos 2090, ansiosa e depressiva (mas medicada!) e que acaba de ingressar na faculdade em São Paulo. Destemida, forte e aventureira, Julia acreditava estar apaixonada por um garoto, até conhecer Sofia. Além de estar se descobrindo em relação a sua sexualidade, Julia perde sua avó (você!) no incio da faculdade e, ao arrumar as coisas dela, ela encontra os diários desta, de quando ela morava em Londres nos anos 2000’s, descobrindo a relação da avó com um famoso cantor britânico da época. Agora a menina de cabelos azuis mergulha na vida não conhecida de sua avó, enquanto tenta enfrentar a sua própria.
Fandom: Harry Styles
Gênero: Comédia romântica, drama.
Classificação: + 18 anos.
Restrição: Cenas explícitas de sexo, palavrões.
Beta: Sofia Alonzo.

Capítulos:

PRÓLOGO – PROPRIEDADES DE

Nunca pensei que demoraria tanto para eu conseguir alcançar meu objetivo do momento. Fiquei dois anos tentando lutar contra a ansiedade e a depressão e conseguir entrar na faculdade. Cada dia não indo para o cursinho, cada dia que eu não conseguia levantar da cama, cada dia que eu não consegui estudar, não foi totalmente perdido. Eu estava lutando bravamente para poder aceitar o meu estado atual e assim conseguir viver e superar esses problemas. Não ir para o cursinho por um semestre foi uma das melhores e piores escolhas que eu já fiz, perdi o contato social, mas ganhei disciplina. No fim, consegui o que eu queria.
Consegui.
Mas a felicidade não é algo constante, ela é algo que te aparece em alguns momentos, para te dar ânimo para continuar a experimentar viver até que o seu fim chegue. Foi aí que eu recebi a notícia de que minha avó, por parte de mãe, tinha falecido.
A minha história não é exatamente muito interessante, ela é igual a todas as histórias de pessoas da classe média brasileira, só diminui a semelhança quando eu só tenho a minha mãe.
Minha mãe conheceu meu pai dando aulas para ele no último ano da faculdade de medicina. Meu pai é dez anos mais novo que minha mãe e, quando minha mãe me teve, assim como ela, ele tinha planos para o seu futuro que não incluíam um bebê – pelo menos não por enquanto. Bom, o resto vocês já devem imaginar: ele deixou-a assim que descobriu que ela estava grávida, se mudando para Goiás, enquanto minha mãe tinha que lidar com o fato de que outro ser humano estaria dentro dela crescendo por alguns meses. Ela já tinha quarenta anos, sabia se virar, mas ela não queria exatamente uma criança na sua vida. Minha avó foi uma mulher muito maravilhosa, ela ajudou a minha mãe, que é incrível também, a cuidar de mim. Nunca conheci meu avô também: parece que a minha família era amaldiçoada em relação ao outro que ajudou a fazer o filho.
Éramos nós três: minha avó, , minha mãe, Débora e eu, Julia. Nosso sobrenome era bem comum também: . Era da minha avó, que passou para minha mãe e depois para mim. A gente era bastante próxima, posso assim dizer. Inseparáveis, desde o momento que eu nasci. Não tenho uma lembrança que não esteja nós três juntas. Até agora.
Minha avó estava já muito idosa, ela tinha 93 anos quando ela não acordou naquele dia do ano de 2093. Eu que a encontrei, tinha ido chamá-la para acordar para tomar o café, tinha achado estranho que ela não tinha levantado antes de mim, mas também eu estava de pé desde às quatro, porque o cão do vizinho passou a noite latindo. Eu não tinha conseguido dormir, portanto acordei e fiquei desenhando, esperando o horário para ir para faculdade. Quando deu seis horas, ouvi o despertador da minha avó tocar, logo fiquei atenta para ouvir os passos dela indo para o banheiro.
Mas isso não aconteceu.
Aguardei por uma hora, até que resolvi levantar da cadeira e me arrumar para o meu dia. Aproveitei e fui até o quarto dela, para chamá-la, mas ela não se mexeu.
Achei estranho, e quando a toquei para se levantar, senti sua pele gélida. Chamei minha mãe com muito medo e ela veio correndo para o quarto. Minha mãe era médica, mas não era preciso ter feito seis anos de medicina para constatar o óbvio: minha avó já não respirava mais.
Choramos muito, eu me senti completamente desolada, abandonada, longe de alguém que eu amava demais e que nunca mais iria voltar para mim.
Os dias seguintes eu faltei na faculdade, conversei com a coordenadora do curso e ela me deu essa licença de no máximo duas semanas, pois era o que ela conseguia deixar eu faltar, sem eu repetir em absolutamente todas as matérias. O velório foi no dia seguinte do ocorrido.
Era sábado quando eu e minha mãe estávamos arrumando a casa que era da minha avó. Minha mãe morava lá desde que nascera, assim como eu. Então tirar as coisas da vó era algo que estava a matando. Eu disse para ela descansar, enquanto eu terminava o trabalho daquele dia.
Voltei para o escritório e comecei a empacotar tudo que era da minha avó, e minha mãe tinha ido para o quarto dormir um pouco. Eu estava na metade do trabalho quando eu descobri uma caixa que estava no topo do armário. O armário era muito alto chegava quase até o teto, então eu nunca tinha notado aquela caixa ali.
Estranhei e subi em cima da cadeira para a pegar. Vários cadernos estavam jogados ali dentro, com algumas outras coisas que pareciam ser souvenires de outro país. Sentei-me na própria cadeira e coloquei a caixa em cima da escrivaninha. Passei a vasculhar tudo, cada objeto presente naquela caixa. Havia alguns cartões postais, um colar, uns cinco cadernos e mais algumas outras velharias. Todos os cadernos estavam com um cadeado. Eu logo deduzi que poderiam ser diários, mas porque minha avó guardaria esse segredo de mim?
Não tinha a chave para eles, então procurei no meu quarto um grampo. Não sabia se isso daria realmente certo, tinha visto na televisão várias vezes eles utilizarem o grampo para abrir cadeados e fechaduras. Mas não tinha nada a perder.
E deu certo, abri todos os cadernos.
Joguei o grampo em cima da mesa e comecei a folheá-los, dando certeza para a minha dúvida: eram diários sim. Agora, descobrir a cronologia deles foi outra tarefa difícil. Mas assim que eu consegui, os separei em ordem.
Peguei o primeiro caderno e abri na primeira página.

“Propriedade de
– Hum. – Eu soltei e virei a página.
Tinha no canto direito uma data: 12 de julho de 2019. Minha avó tinha uma letra muito bonita, mas ali no diário conseguia estar ainda mais. Aconcheguei-me na cadeira e comecei a ler.

CAPÍTULO I: VAMOS REPETIR ISSO ALGUM DIA.

“Querido diário,
É estranho para mim começar a escrevê-lo, mas meu pai, que era professor de inglês, me inspirou a ter o meu próprio registro de vida. Não sei exatamente até quando eu vou manter isso, mas eu sinto que está sendo estritamente necessário no momento.
Por onde começar?
Essa é uma pergunta muito difícil. Como decidir qual momento da história seria plausível colocar aqui para que eu futuramente entenda onde que tudo começa? Acho que podemos começar quando eu me mudei para Holmes Chapel, em 2009.
Eu era uma criança de apenas nove anos, quando meu pai me levou para a Inglaterra. Ele tinha conseguido um novo emprego na escola Holmes Chapel Comprehensive School como professor. Eu era muito nova para entender que mudar de país nessa idade poderia deixar marcas na minha própria personalidade, mas para mim, naquela época, era como se tudo fosse uma grande aventura.
Eu era a única brasileira na minha escola. As pessoas não ligavam muito para mim, mas ao mesmo tempo os professores, sim. Eles se importavam tanto para que eu não me sentisse excluída que obrigaram um dos alunos a ser meu amigo, Charles. Eu achava que estava apaixonada por ele, tinha até escrito um cartão para o dia de São Valentim, decorado com várias lantejoulas e purpurina. Um desenho de mim dando a mão para ele em um parque com um arco-íris no fundo. Eu tinha achado que estava um máximo. Desci as escadas de casa, passando pelo escritório de meu pai, que deveria estar corrigindo algumas provas, e corri para fora.
Andei até o fim da rua, não era muito longe da minha casa, e coloquei na caixa de correio. Eu estava muito nervosa, mas achava que eu iria conseguir conquistá-lo com o meu desenho. Então voltei saltitante para minha residência, quando eu vi um garoto andando em direção a uma casa. Ele não era exatamente o garoto mais bonito do mundo, Charles era mil vezes mais, porém ele era mais velho. Ah, bem mais velho. Deveria ter uns quinze anos, enquanto eu só tinha meus humildes nove.
Ele não chegou a olhar para mim, mas eu fiquei o observando até ele entrar em sua casa. Foi aí que eu soube que estava apaixonada. Droga, não devia ter mandado o desenho para Charles!, pensei.
Eu não fazia ideia de quem ele era, então tentei arrancar isso de meu pai. Acabei descobrindo que meu pai era professor dele, e que seu nome era Harry.
Harry.
Já soa apaixonante, não? Era o nome do príncipe. Isso fez com que meu coração acelerasse ainda mais.
Bom, Harry nunca descobriu quem eu era. Nem chegou a falar comigo, mesmo quando meu pai convidou a família dele para jantar na minha casa. Ele era bem mais velho, então porque ele iria olhar para uma criança de nove anos, não é mesmo? Não o culpo. Mas vê-lo ainda de mais perto era simplesmente magnífico.
Um ano se passou e eu me sentia mais adulta. Harry tinha uma banda que eu adorava ficar ouvindo tocar. Eu me encostava na janela, escondida atrás das cortinas, e escutava eles que tocavam do outro lado da rua. Eu amava a voz dele. Eu amava tudo nele.
Charles se mudou e eu nunca mais o vi. Tive que arranjar um novo amigo para que eu não me sentisse completamente sozinha, e essa pessoa foi Georgia. Ela também era aluna de outro país, Itália. Ficamos inseparáveis, e eu nunca contei a ela sobre a minha paixão secreta, mesmo quando ela foi em casa e eu me encostei na janela para escutar a banda dele tocar. Agora pensando, ela provavelmente desconfiava de algo, mas não queria me perguntar nada.
Descobri mais tarde que Harry estava participando de um Reality Show, chamado The X Factor. Eu torcia para ele conseguir ser aceito e passar das fases. Mas quando ele se juntou a outros garotos que eu nunca tinha visto, eu me desanimei um pouco. Como seria possível as pessoas apreciarem a música dele, se agora ele tinha que dividir o palco com mais quatro rapazes?
Tudo estava até que bem, então eu descobri que ele estava tendo um caso com uma mulher mais velha. Isso me deixou tão arrasada que resolvi nunca mais saber de Harry Styles de novo. Meu pai até chegou a perguntar para mim o que estava acontecendo, por que eu não estava mais assistindo meu Reality Show favorito, mas eu respondia sempre que tinha perdido o interesse. Ele não sabia que Harry estava lá, e muito menos da minha paixonite por ele.
No fim, Harry e sua boyband não ganharam o reality, ficaram em terceiro, mas acabaram fazendo mais sucesso que os outros vencedores. Eu tinha, já com meus doze anos, esquecido completamente dele – ok, não completamente – até que minhas amigas da escola apareceram cantando uma música chamada What Makes You Beautiful. Eu tinha amado essa música e quando eu fui pesquisar de quem era, quase caí de costas: lá estava Harry novamente.
Bom, a partir daí, tentei ignorar o máximo possível a One Direction, foi uma tarefa difícil, eles estavam por toda parte. A memória de Harry me deixava um pouco mal, lembrar que ele estava morando perto de mim e que eu era só uma criança, além dele ter tido um caso com aquela mulher, tudo, todas as lembranças que eu tinha me deixavam um pouco abalada.
Foi com 15 anos que eu me mudei para Londres e oficialmente eu tinha esquecido de tudo isso. Eu estava longe dessas notícias, estava mais concentrada em viver minha vida do que naquela boyband. Foi ótimo por um tempo, cresci bastante, amadureci bastante. Sofri um pouco de bullying na escola no ensino médio, eu era muito magricela e tinha uma cabeça maior, nada proporcional com o meu corpo.
Gostava muito de estudar, mas meus colegas achavam isso muito estranho, combinado com a minha aparência. Meu apelido era “estranha ” e eu odiava muito esse apelido, só consegui me libertar dele quando eu me formei na escola.
Entrei em Oxford para Psicologia, e foi o ano mais intenso e legal da minha vida.
Encontrei um namorado que era ótimo para mim, seu nome era Steven. Ele amava as mesmas coisas que eu: andar de bicicleta, filé à parmegiana e Beatles. Não tinha como ser mais perfeito do que isso.
Eu e Stevie éramos inseparáveis. Todas as minhas primeiras vezes foram com ele, desde as mais simples e fofas, até as mais…hã…pessoais.
Durou pouco, nos separamos no começo desse ano de 2019, eu voltei para Londres e me transferi para a faculdade King´s College London. Meu pai me recebeu de braços abertos e ele sempre dizia que foi a melhor decisão que eu já tinha tomado.
Acontece que em Oxford eu tinha muita liberdade, mas ter que ver Steven todos os dias estava me deixando muito mal.
Eu estava de férias, no mês de julho, e passeava pela cidade que eu mais amava no mundo. É verdade que eu não tinha as melhores memórias de lá, mas estar junto do meu pai, e poder ter um recomeço, era maravilhoso.
Parei em uma sorveteria em uma das esquinas e pedi o meu sabor favorito: cookies. Esperei para que o moço pegasse meu sorvete e enquanto isso fiquei batucando de qualquer jeito na bancada.
– Você até que tem ritmo, hein.
Uma voz disse ironicamente isso atrás de mim, e eu logo a reconheci.
Harry Styles.
Eu fingi demência, obviamente, e o ignorei completamente. Não era possível, eu estava vivendo alguma fanfic por acaso? Deus, eu gostaria muito que a minha vida ficasse normal, por favor. Bom, também eu já estava emocionada demais, pensando que essa única frase poderia mudar a minha vida toda. Era óbvio que não, pensei. Eu não iria me casar com ele só porque ele disse que eu não tinha qualquer senso de ritmo e essa frase não era um pedido de casamento. O que me fez pensar se ele estava solteiro ou não.
Peguei sorrateiramente o celular e busquei por seu nome no Google. Várias informações inúteis estavam lá. The X fator, blá, blá, blá, One Direction, blá, blá, blá… Espere. One Direction acabou?
Cliquei em uma matéria que falava sobre isso e fiquei absolutamente chocada. Fazia anos que eles tinham se separado. O quê, Zayn saiu primeiro? Ele disse que não era amigo deles de verdade? Nada me surpreende, sempre o achei meio na dele mesmo. Vejamos, Harry está agora em uma carreira solo, já lançou um álbum, seu maior hit é Sign Of The Times. Cliquei para ver a letra da música, e enquanto isso o sorveteiro estava com dificuldades para pegar o meu sorvete.
Um piano começou a tocar bem alto do meu celular, e a voz de Harry na música apareceu. Eu estava com o coração acelerado demais, tentando desligar aquela música de todas as maneiras. Pude ouvir uma risada debochada dele, o que me fez sentir ainda mais ódio por ter clicado sem querer para tocar a música.
– Aqui, senhorita. – O sorveteiro estava com o meu sorvete na mão. – Cuidado, está derretendo um pouco. Tome, pegue esse pote e coloque nele. Isso, assim.
Eu coloquei o sorvete no pote enquanto a música ainda tocava, então eu só desliguei meu celular e tudo parou.
– Obrigada. – Eu disse, e corri para fora de lá.
Meu Deus, que VERGONHA.
Não quis nem olhar para trás, eu estava apressada demais. Procurei meu celular que eu tinha deixado no bolso. Meu sorvete derreteu muito, então eu parei de andar e me sentei em um banco na rua. Respirei fundo e tentei controlar a menina de dez anos dentro de mim.
Não encontrei em nenhum dos meus bolsos o meu celular e entrei em pânico. Ótimo, além de tudo eu agora tinha o perdido.
– Maldito Harry Styles.
– Ei, calma aí, eu só vim devolver seu celular.
Virei rapidamente para minha esquerda de onde tinha vindo a voz e lá estava ele de novo, com óculos de sol no rosto e um sorvete de um sabor aleatório na mão – a cor era amarela. Na outra mão ele tinha meu celular e estava com um sorrisinho no rosto.
– Ah. – Eu disse e estiquei a mão para receber meu pertence. Ele me entregou e eu enfiei o celular no bolso da calça jeans. Pude ouvi-lo respirar fundo e então ele se sentou ao meu lado no banco. Minha boca começou a ficar seca e meu coração estava disparado.
– Eu estava esperando um “Obrigada pela gentileza, Harry”. Ou quem sabe “Valeu, camarada!”. Não, essa última ficou muito comunista, não acha? – ele disse e eu me mantive quieta, não porque queria, mas porque se eu abrisse a boca não iria conseguir falar absolutamente nada. Harry esperou alguns segundos e riu. – Caramba, minha aparição te deixou mesmo sem palavras.
Eu olhei para a minha direita e tentei ignorá-lo o máximo possível. Pigarreei e tentei molhar os meus lábios passando a língua por eles, mas nem isso estava fazendo com que minha boca voltasse ao normal.
– Ok, vou embora. – Ele disse e se levantou. Eu o olhei começando a caminhar, até que ele olhou para atrás. Harry Styles sorriu de lado e parou de andar. – Tudo bem?
– É… Hum… – eu tentei dizer, mas nada saía. Fale alguma coisa, sua anta!, foi o que eu pensei.
– Uau. Poético.
– Olha, você está atrapalhando meu momento. – Eu consegui dizer atropelado depois de muito esforço. Ele estranhou.
– Poxa, desculpa. Só achei que você era mais uma fã e que ficaria feliz em me acompanhar nesse sorvete.
– Querido, como você bem viu, eu tive que pesquisar no Google para saber quem era você. Acho que eu não sou uma fã. – Menti essa última parte. Eu era fã dele desde que eu o ouvi pela primeira vez, do outro lado da rua.
– Você me é muito familiar. – Ele disse e deu um passo para frente, meio incerto. – Qual é o seu nome?
. – Eu disse, sem acreditar que ele poderia mesmo se lembrar da pirralha que eu era.
– Ok, e o sobrenome?
Fiquei em silêncio. Então respondi.
.
Harry bateu na perna e sorriu.
– Sabia que te conhecia! Você é a filha do meu professor de inglês do colegial, não é? – Ele voltou a se sentar do meu lado. Fiz que sim e até a minha respiração estava trêmula. Não estava acreditando que isso estava acontecendo. – Você…
– Com licença. – Uma garota que parecia ter uns dezessete anos parou na nossa frente. – Você é o Harry, não é?
– Esse sou eu! – ele disse sorrindo para ela, um sorriso amigável. Ela esticou a mão com o celular para mim.
– Você poderia tirar uma foto nossa, por favor? – ela se virou para ele. – Eu sou muito a sua fã. Caraca, tô muito feliz de ter te encontrado!
Harry olhou para mim e arqueou a sobrancelha, como se dissesse “Viu, só?”.
Eu me levantei e tirei a foto para eles. Harry abraçou a menina e ela disse obrigada, muito emocionada. A garota seguiu seu caminho e eu peguei meu sorvete que tinha deixado no banco. Voltei a tomá-lo, agora de pé, e ele deu uma lambida no seu.
– Então – ele começou – Você e seu pai estão morando agora em Londres?
– Sim. – Respondi.
– Legal. – Ele deu outra lambida. Harry olhou para distante de mim e continuou a tomar o sorvete.
– Você está morando aqui? – Perguntei dando alguns passos para direita. Ele voltou seu olhar momentaneamente para mim.
– Nah, eu moro no mundo. – Ele respondeu, agora andando para a sua direita, e percebi que estávamos começando a andar em círculo. Ficamos em silêncio a partir daí. Eu estava terminando meu sorvete quando olhei para distante dele, o mesmo local que ele olhou anteriormente, e vi um homem atrás de um arbusto com uma câmera. Dei risada e virei de costas rapidamente. – O que foi?
– Paparazzo. – Eu respondi e ele deu de ombros.
– Qual o problema?
– Nada, eu só não quero ficar famosa. – Respondi, e ele e eu andamos em círculo de novo.
– Fique tranquila, eu converso com todo mundo o tempo inteiro e nem por isso todos ficam famosos. – Ele disse meio debochado e eu involuntariamente olhei para ele com os olhos semicerrados. Esse não era o garoto que eu me lembrava de gostar quando eu era pequena.
Terminei meu sorvete e joguei o pote no lixo ao lado do banco. Harry me olhou de relance.
– Você está com o queixo sujo. – Ele disse e eu não sabia aonde enfiar a minha cara de tão envergonhada que eu estava, acredite. Passei a mão no queixo e limpei o sorvete de lá.
– Bom, a conversa foi muito legal. Vou indo. – Eu disse e sorri amarelo para ele. – Boa sorte aí.
– Ah, obrigado. – Ele disse e eu comecei a sair de lá. – Ei!
Eu me virei para ele.
– Qual é o seu nome mesmo?
. – Disse com ar indiferente.
. Legal. – Ele deu uma última mordida na casca do sorvete. – Vamos repetir isso algum dia. Foi maneiro.
E assim foi meu reencontro com Harry Styles. Vamos repetir isso algum dia. Ah, você não sabe o quanto que eu fiquei repetindo essa conversa na minha cabeça, diário. Muitas vezes. Tipo, muitas, mesmo.”

 

CAPÍTULO II: NÃO SABIA QUE VOCÊ LEMBRAVA DESSA MÚSICA ASSIM.
Terminei esse primeiro dia e virei a página. Harry Styles não era aquele cantor que morreu ano passado? Minha avó tinha conhecido ele? Caramba, e ela nunca me contou isso. Consigo até ver ela se vangloriando dessa história… Bom, não deve ter passado disso, pois ela realmente não mencionou isso em nenhum momento.
– Querida? – Minha mãe apareceu na porta do escritório. Eu fechei o diário e olhei para ela.
– Oi. – Respondi.
– Vou pedir o almoço, tudo bem? Não consegui descansar. Pode ser comida chinesa?
– Claro. – Eu disse e ela lançou um sorriso solidário para mim, logo saindo dali.
Eu estava pronta para começar outro dia do diário, mas meu celular apitou. Era uma mensagem de Diego.
Como explicar quem é Diego? Diego era meu melhor amigo do momento. Meu ficante. Meu amigo colorido. Eu o conheci no cursinho e ele entrou na mesma faculdade que eu, então nos mantivemos muito próximos um do outro. Quando teve a primeira festinha universitária, eu fui com ele e mais alguns amigos, e, aleatoriamente, nos beijamos. A partir dai toda vez que a gente se encontra, nós ficamos. Mas não somos nada um do outro, além de amigos que se beijam.
“Como você está? ☹”
Olhei para os diários em cima da escrivaninha e suspirei. Comecei a digitar.
“Tentando. Está difícil. :´(“
Esperei alguns segundos e logo a resposta estava lá.
“Qualquer coisa eu estou aqui, você sabe.”
Sorri. Outra mensagem.
“Quer que eu vá até a sua casa te ajudar?”
“Estou te esperando.”
Resolvi tomar um banho e passar um perfume para tentar tirar aquele ar de cansada e acabada que eu estava. Estava jogada no sofá quando ele me manda mensagem dizendo que chegou. Vou até o portão da minha casa e abro para ele. Lá estava Diego, cabelos encaracolados. Barba. E aquela barriguinha que era uma delícia de apertar.
Ele se aproximou para dar um abraço em mim e eu aproveitei e apertei sua barriga.
– Ei! – Ele reclamou, mas eu sempre fazia isso, então apenas nos abraçamos e o convidei para entrar. Minha mãe estava também no sofá da sala lendo um livro, enquanto esperava a comida chinesa chegar. Ela desviou o olhar do livro para Diego e sorriu.
– Ah, oi, querido! Puts, acabamos de pedir comida! Ainda bem que eu e Julia não conseguimos comer tudo – minha mãe riu e ele a acompanhou.
– Fica tranquila, Débora! Eu já almocei! – Ele disse e eu o puxei para o corredor.
– Estaremos no meu quarto! – Eu disse por cima do ombro.
– Porta aberta! – Minha mãe respondeu.
Ele logo se sentou na minha cama, enquanto eu me sentava na cadeira giratória da bancada. Liguei a caixa de som da JBL e escolhi uma playlist aleatória do Spotify. Só você do Dennis DJ, uma música dos anos de 2010, começou a tocar, e eu e Diego nos olhamos rindo.
– Não acredito que você tem salvo essa música. – Ele disse e eu girei a cadeira para de costas à ele.
– Não é minha a playlist, é uma qualquer do aplicativo.
– Ah, tá. E é coincidência a música que a gente se pegou naquela primeira festa estar no seu celular? – ele disse e pude ouvi-lo sorrir.
– Não sabia que você lembrava dessa música assim. – Eu respondo me virando para ele e Diego revira os olhos. Eu já tinha dito a ele que essa era a música que me lembrava dele, mas ele estava bêbado demais para se lembrar disso. Aparentemente, ele não estava.
Diego puxou a minha cadeira de rodinhas para perto dele, segurando na base entre as minhas pernas e pegou o celular da minha mão. Ele trocou a música para outra e a brincadeira terminou. Eu estava gostando dessa tensão sexual que estava se formando entre mim e ele, mas parece que ele não estava muito afim hoje disso.
– Então… Como está sendo para você desmontar a casa e vasculhar todas as coisas da sua avó?
– Ah – suspiro. – Não sei… Estranho, eu diria. Caramba, você não vai acreditar! – me lembrei rapidamente da caixa que eu encontrei no escritório. – Minha avó morou na Inglaterra.
– Você já tinha me dito isso.
– Eu sei, mas agora eu sei das histórias dela por lá! – eu disse e ele me olhou estranho. Balancei a cabeça. – Eu encontrei os diários da minha vó de quando ela morou por lá.
– Sério? Caceta, deve ser muito legal! Ela escreveu em português?
– Claro, besta! – Eu bati no seu braço. – E tem mais. Sabe aquele artista que faleceu ano passado?
– Qual deles?
– Harry Styles. – Eu disse e ele arqueou a sobrancelha. – Ele e minha avó foram vizinhos, acredita?!
Ele começou a rir.
– Tem certeza que você não está lendo uma fanfic? – Diego disse e eu fiz que não.
– Tenho! Quer dizer, não sei… Agora você me deixou em dúvida.
Arrastei a cadeira para longe dele e me apoiei na mesa. Diego manteve silêncio comigo por um tempo. Será que aquilo não são diários, são apenas histórias inventadas por minha avó? Ela não é de mentir, nunca foi. Mas se for verdade, por que ela escondeu isso de mim?
Diego se levantou e me abraçou por cima dos ombros, me dando um beijo no topo da cabeça.
– Eu estava brincando. Pode ser real, sim. – Ele disse e eu assenti. Levantei-me e ele me abraçou direito. Comecei a chorar. Estava sendo muito difícil de viver sem ela por perto, sem ela me dando carinho, sem ela me dando conselhos… Minha avó é uma pessoa incrível. – Chore, bota para fora.
Foi o que ele disse. Já estava molhando a manga da sua camisa quando eu ouvi os passos da minha mãe. Tentei me recuperar rapidamente, mas apenas me virei de costas para a porta, deixando para ele falar com ela.
– Pessoal, a comida chegou. Vamos comer? – ela disse e Diego assentiu. Minha mãe foi para a cozinha e ele se voltou para mim. Eu apenas fiz que sim e ele esticou a sua mão para mim, logo eu a segurei.
Almoçamos todos, contando histórias da minha avó, mas deixei de lado o que eu li no diário dela. Ainda não tinha certeza se era real aquilo ou não, mas eu logo descobriria.
Di e eu ficamos arrumando o resto do escritório, enquanto minha mãe estava na sala, organizando os CDs da vó . A noite chegou e minha mãe disse que ia tomar um banho. Ficamos eu e ele com a casa só para nós, mas eu não estava com vontade de safadeza no momento.
Conseguimos arrumar tudo, menos os diários, e ele se sentou na minha cama, comigo ao seu lado, eu com o primeiro dos cadernos na mão.
– Você pode ler para mim, se quiser. – Ele disse e eu o encarei. Não era algo muito pessoal da minha avó para compartilhar com ele? Bom, eu nunca menti para ele, nem escondi nada…
– Ok. – Eu respondi. Abri o diário.

CAPÍTULO III: SOCORRO
“Querido diário,
Você já deve ter percebido que eu não escrevo todos os dias, apenas os dias que eu considero que foram importantes, certo? Então vou atualizá-lo sobre tudo.
Desde aquele dia em que eu encontrei Harry, eu mantive segredo. Não contei para o meu pai, não disse para ninguém. Realmente, nenhuma foto foi publicada comigo, acho que o paparazzo não achou relevante. Eu achei ótimo. Mas…
Vamos repetir isso algum dia.
Como eu escrevi, isso ficou por muito tempo na minha cabeça. Eu andava sempre atenta pelas ruas de Londres, verificando se algum cantor famoso apareceria de repente para conversar comigo sobre o passado. Secretamente eu desejava que isso acontecesse, não podia esperar para esse “algum dia” acontecer, mas por duas semanas nada aconteceu.
Um dia estava chovendo muito, precisava comprar algumas coisas no supermercado, e meu pai estava muito cansado, então ele me disse para que eu fosse e tomasse cuidado. Consegui comprar tudo que faltava, então voltei para a casa, com o guarda-chuva na mão e as sacolas de papel na outra. Eu estava incrivelmente fazendo malabarismos para manter tudo equilibrado, até que eu deixei uma das sacolas cair no chão. Suspirei e desejei que não fosse a dos ovos e, por um milagre, não era, era apenas do pão.
Não sabia como fazer para pegar a sacola, agora toda molhada, sem largar o guarda-chuva. Equilibrei-o entre meu pescoço e ombro, e com a mão livre peguei a sacola do chão.
– Quer uma ajuda?
Tinha que ser ele, óbvio que tinha. Eu olhei para frente e lá estava Harry parado com um guarda-chuva transparente em uma das mãos. Eu realmente pensei em recusar, mas eu não estava exatamente em um bom lugar para fazer isso.
– Por favor. – Eu disse e ele pegou a sacola da minha mão. Eu me levantei e segurei o guarda-chuva normalmente. Arrumei a barra da minha blusa que tinha subido, e ele desviou o olhar.
– Onde que é o destino? – ele me perguntou e eu comecei a caminhar com ele ao meu lado. – Você me é familiar…
– Ah, não, isso de novo? – eu respondi e ele riu.
– O quê? Eu já disse isso? – ele perguntou.
– Harry. Eu não vou nem te responder.
– Estou brincando. , certo? – atravessamos a rua correndo e chegamos do outro lado, quase na minha casa.
. – Por que eu realmente achava que ele conseguiria se lembrar de mim, mesmo? Ele é muito arrogante para isso.
Minha casa estava na nossa frente e eu fechei o guarda-chuva assim que chegamos na varanda de casa. Ele fez o mesmo, e eu entreguei as outras compras para ele, procurando em seguida a chave no meu bolso. Ouvi alguma coisa e quando olhei para ele, Harry estava deixando as sacolas ao meu lado no chão.
– Bom, acho que é isso. Tenha um bom dia, ! – Ele disse e eu fiquei muito decepcionada que ele não iria entrar, mas orgulhosa do jeito que sou, não iria convidá-lo. Portanto, eu apenas fiquei olhando para o seu rosto e minha expressão devia estar muito engraçada porque ele deu uma risadinha. – O que foi?
– Eu é que te pergunto.
– Como assim?
– O que tem de tão engraçado? – eu disse e quando ele estava prestes a responder, meu pai abriu a porta, dando-me um grande susto. Olhei para ele que me devolveu o olhar e depois encarou Harry.
– Tudo bem, posso saber quem é esse aí? – Meu pai questionou. Harry sorriu.
– Sou eu, professor ! Harry, lembra?
Meu pai ficou alguns segundos processando, até que ele pareceu se lembrar.
– Ah, Harry Styles? – ele disse de repente e Harry fez que sim, ainda sorrindo. – Caramba, e a que devo a ilustre visita? Você não é um popstar agora ou algo do tipo?
Harry riu tímido.
– É, tipo isso.
– E como está a sua banda? Como chamava mesmo…?
– White Eskimo. – Harry respondeu.
– Não, não essa, a que te tornou famoso.
– One Direction. Mas eles não estão mais juntos. – Eu disse e meu pai me repreendeu com o olhar.
– Ah, certo. – Ele se aproximou de mim. – E você, vamos conversar mais tarde.
Juntei meus lábios em uma fina linha e assenti.
– Harry já estava de saída. – Eu disse e Harry fez que sim, se preparando para virar as costas e partir. Meu pai o interrompeu levantando a mão.
– Imagina! Entre, Harry! Que tipo de reencontro seria esse se eu não te convidasse para entrar?
Harry olhou para mim e eu olhei para ele, os dois com uma expressão de “socorro”.”
***
– Querida, eu já saí do banho! – minha mãe apareceu na porta do meu quarto, me interrompendo. Ela olhou para o caderno nas minhas mãos. – O que é isso?
– Ah – eu olhei para Diego pedindo ajuda. – É só…
– Uma história que eu escrevi! – Ele respondeu.
– Não sabia que você gostava de escrever. – Minha mãe desencostou da porta e sorriu.
– É, pois é! Eu estou começando! – Ele passou a mão por detrás da cabeça e eu respirei aliviada. – Ju estava lendo para mim…
– Ele queria ver como estava soando, sabe? – Eu disse rapidamente. Minha mãe assentiu.
– Que legal! Eu vou terminar de organizar os CDs da sua avó, querida, e depois vou dormir, ok? Não fiquem muito tempo acordados! E, Diego, – ela se virou para ele – se você quiser dormir aqui, querido, pode sim, tá? Essa Julia aí, se depender dela, demoraria anos para fazer essa simples pergunta.
– Mãe! – Eu disse e ela riu, acenando.
– Ok, já estou indo. Até mais! – E assim ela desapareceu pelo corredor. Olhei para meu amigo e a mesma expressão de socorro que minha avó descreveu no diário tinha aparecido nos nossos rostos.
– Por que você não quer contar à ela? – ele perguntou, enquanto brincava com o cordão do casaco. Dei de ombros.
– Eu só acho que ainda não é a hora. – Eu respondi e ele assentiu. – OK, onde estávamos?

 

CAPÍTULO IV: CANTAR É UMA HABILIDADE SECRETA MINHA
“Harry, eu e meu pai jantamos sanduíches de atum, enquanto Harry contava sobre sua vida de famoso para nós. Ele parecia bem empolgado enquanto dizia quantos famosos se tornaram amigos dele, ele não mencionou as namoradas que teve – aliás, nota: pesquisar as namoradas de Harry Styles durante esses anos – e disse que sentia falta dos seus parceiros de banda, mas que estava adorando se aventurar sem eles.
– E ano que vem fazemos dez anos de banda – ele jogou o guardanapo amassado em cima do prato e juntou as mãos. – Não sei ainda o que vamos fazer, mas com certeza será algo bem especial.
– Ah, entendi – meu pai disse. Papai deu um gole em seu vinho e depois pigarreou. – E como anda a sua mãe? E sua irmã, Gemma, certo?
– Ah, elas estão bem. – Foi só o que ele disse. Ficamos em silêncio, eu chutei sua perna embaixo da mesa e ele continuou. – Muito contentes como eu, vendo aonde eu estou chegando.
– Certo. Que ótimo! – meu pai limpou o bigode no guardanapo. – E como você encontrou a minha filha, mesmo?
– A gente está em um relacionamento secreto já faz dois anos. – Ele respondeu e eu dei outro chute na sua perna.
– Claro que não, pai, ele está brincando. – Eu disse observando o rosto do meu pai mudar de preocupado para outra expressão não identificável. – Eu o vi passando por aí enquanto eu voltava do supermercado e ele só me ajudou a carregar as compras. Nada demais.
– Hum. – Ele olhou para Harry, que sustentou o olhar até se sentir intimidado e olhar para mim.
– Bom, foi um jantar maravilhoso! Adorei passar um tempo com vocês, revê-los, e ainda colocar o papo em dia, mas, ah, olha só, eu tenho que ir! – Ele disse arrastando a cadeira para trás, e eu fiz o mesmo, me levantando junto a ele.
– Ah, o que é isso, Harry, pode ficar mais tempo se quiser! – Meu pai respondeu e ele só sorriu.
– Eu realmente gostaria, senhor , mas eu tenho um compromisso. – Harry disse e eu assenti.
– É melhor assim, pai. – Eu disse. – Vou levá-lo até a porta.
– Claro. Obrigada, mais uma vez, senhor!
Meu pai apenas assentiu e eu puxei Harry, tomando essa liberdade, para em direção ao corredor que dava na porta de casa. Paramos em frente à porta, eu olhei para dentro da cozinha para ver se papai estava lá a espreita. Respirei fundo e voltei meu olhar para Harry Styles. Caramba, Harry Styles. Ele estava mesmo na minha casa, depois de dez anos.
– Bem, isso foi bem estranho – ele cantarolou a última palavra e eu só coloquei o dedo indicador na minha boca, dizendo para ele ficar quieto. Harry levantou as mãos. – Desculpe.
– Escuta, seria ótimo se você parasse de aparecer de repente e tentar participar da minha vida a todo custo… – eu comecei, mas foi ele que agora fez o sinal para que eu calasse a boca.
– Você está sedenta por atenção, não é mesmo, garota? – Ele me disse um pouco bravo.
– Ok, diga o que você quiser, só, por favor, não apareça mais aqui, e tente ficar o mais longe o possível de mim, tá? – Eu destranquei a porta. Harry arqueou a sobrancelha.
– Duas coisas: primeiro, esta cidade é grande, mas nem tanto. Talvez nos encontremos de novo, não há como saber. E segundo, qual é o problema disso? – Ele riu.
– Eu só não quero te encontrar, tudo bem? – eu respondi.
– Tá, mas isso não faz sentido. O que foi que eu fiz para você? Te ofendi de alguma forma? – ele parecia preocupado. Eu só balancei a cabeça e abri a porta.
– Não!
– Então o que foi? – ele perguntou e eu me exasperei.
– Olha, você não é exatamente a companhia que eu estou querendo para minhas férias.
– Calma! – ele soltou. Comecei a respirar calmamente e ele me acompanhou. – Assim está melhor?
Eu não respondi.
– Olha, eu posso te provar que eu sou uma pessoa boa, se você deixar. – Ele disse e eu o encarei com uma expressão de louca provavelmente, porque ele deu um passo para trás.
– Eu não quero.
– Vamos lá, que tal se a gente sair um pouco? Conversar e quem sabe tomar alguma coisa? – ele passou a língua entre os lábios.
– Você não estava de saída, Harry? – Meu pai apareceu e eu tomei um susto.
Harry olhou para mim e depois para ele, e disse que sim. Ele fechou a porta atrás de si e eu estava olhando para o chão, pensando que eu sempre quis que ele me notasse, sempre. Aquilo devia ser uma porra de um sonho, não era possível. Eu devia imaginar que ele só queria uma coisa de mim, provavelmente. E eu daria isso a ele?
– Pai, só um minuto, acho que eu esqueci um negócio lá fora. – Eu disse e abri a porta, fechando-a atrás de mim, sem dar chance para que meu pai dissesse algo. – Ei!
Vi Harry já com seu guarda-chuva em mãos, caminhando para o fim da rua. Ele parou e olhou para mim. Eu assenti para ele e Harry sorriu. Diário, aquele sorriso poderia matar qualquer um, eu juro. Mas eu me mantive plena e caminhei ao encontro dele, assim como ele fez também. Ficamos a dois passos de frente um para o outro.
Harry estendeu a mão para mim e eu não entendi.
– Celular. – Ele disse e eu procurei no meu bolso meu aparelho. Entreguei a ele e observei Harry Styles gravar seu número no meu celular, em seguida tirando uma foto com a língua de fora para provavelmente colocar no contato. Ele me devolveu o celular e entregou o seu junto. Olhei para o celular e coloquei o meu número no dele. – Foto.
Eu olhei para ele estranha, mas ele apenas fez com a mão para que eu continuasse. Abri a câmera e pude ver como eu estava horrorosa aquele dia. Deixei esse pensamento ir embora e sorri para a foto. Depois entreguei o celular de volta ao dono e ele sorriu, colocando-o no bolso de trás da calça.
– Espere eu mandar a mensagem, ok? – Ele disse e bagunçou meus cabelos com a mão. Eu empurrei a mão dele para longe como reflexo.
– Se você quer que eu te ache uma pessoa legal, não faça isso. Odeio que mexam no meu cabelo. – Eu disse e ele estava apenas sorrindo.
Harry foi embora e eu voltei correndo para casa. Deixei o guarda-chuva na varanda e assim que eu entrei, meu pai estava parado, me encarando.
– Encontrou o que você procurava? – ele perguntou e eu parei. Fiz que sim. Meu pai suspirou. – Ele é encrenca, . Se eu fosse você ficaria longe desse rapaz.
– Qual é pai, eu já sou bem grandinha, não acha? Além do mais, eu só o encontrei na rua, nada demais.
Meu pai ficou me observando mentir.
– Certo.
Depois disso corri para o quarto. Os dias que se seguiram foram os mais torturantes possíveis. É claro que eu estava criando grandes expectativas para essa mensagem, se ela acontecer mesmo. O que ele estava em mente? Tudo bem, eu sei que ele quer me levar para cama, e isso é só um joguinho besta que ele está fazendo, mas precisa me torturar dessa maneira?
Passei os dias sem saber como prosseguir sem pensar em Styles, uma tarefa muito difícil. Eu estava jogada na minha cama, olhando o facebook, quando eu me lembrei de pesquisar sobre as namoradas de Harry. Eu estava obcecada, queria conversar com alguém sobre, mas eu estava sem amigos naquele momento e não podia contar ao meu pai, pois eu tinha certeza que ele iria excluir o contato de Harry e o bloquear no meu celular. Abri o site de pesquisa e joguei ali, esperando as informações aparecerem.
Descobri que ele namorou Taylor Swift e Kendall Jenner, saiu com algumas outras famosas. Encontrei também várias fanfics sobre ele e um dos acompanhantes de banda, Louis. Eu acabei me distraindo com uma das fanfics, lendo-a, e pensando “quem era eu na fila do pão?”. Tanta gente mais bonita e mais interessante nesse mundo que ele já ficou e eu aqui, já planejando nosso casamento. Parei de ler a história e abri meus contatos do celular. Fui até a letra H, e encontrei-o ali. Olhei para a sua foto e pensei em como ele era simplesmente um sonho. Será que eu devia mandar uma mensagem primeiro? Lógico que não, Alice, se é ele que quer tanto te impressionar, deixe-o fazer. Mas como ele estava pensando em me impressionar, se ele já me impressionava desde meus nove anos?
Eu tomei um susto quando o celular vibrou e na parte superior apareceu uma notificação das mensagens. Cliquei e abriu na conversa com Harry.
“Lucky Voice. Sábado à noite. O que acha? Xx H.”
Meu coração batia muito rápido. Minha respiração estava pesada, e queria gritar, mas meu pai já estava dormindo. Tentei normalizar a minha respiração pensando na resposta.
“Karaokê? Esse é o jeito que você vai me provar quem você é: música?”
Por que eu achei que ele fosse responder essa mensagem? Era óbvio que eu o tinha ofendido, burra, burra, burra! Meu celular vibrou.
“Claro, cantar é uma habilidade secreta minha. E aí, o que me diz?”
Não preciso nem dizer para você o que eu respondi, não é?”