Painted by the Numbers

Painted by the Numbers

Sinopse: Anos depois de quebrar a promessa de se mudar com seu melhor amigo para Londres, para que ambos possam ir atrás dos seus sonhos, ele está de volta à cidade natal que os dois sempre odiaram. Será que, após tanto tempo, os sentimentos continuam os mesmos? Será que vale a pena deixar as diferenças de lado e, finalmente, se entregar ao amor sufocante que existe desde quando eram pequenos?
Fandom: Harry Styles
Gênero: Romance
Classificação: 18
Restrição: Conteúdos de sexo.
Beta: Bridget Jones

Capítulos:

 

1.

“Hope my tears don’t freak you out, they’re just kinda coming out.”
Mother – Kacey Musgraves

5 anos atrás

— Malas prontas! — diz com um sorriso no rosto. Havia semanas que ele não falava em nada que não fosse aquela viagem. A Grande Viagem, como ele a apelidou. — Não entendo por que não vem logo comigo. Para que adiar?
— Você sabe o motivo. — Censuro-o com os olhos enquanto o ajudo a levantar a mala pesada e colocá-la no porta-malas do carro. — Além disso, são só algumas semanas sem mim, . Sei que consegue sobreviver até lá.
Ele se aproxima de mim, rindo e me envolve com um dos seus braços, dando um beijo no topo da minha cabeça.
— Sabe que ela está em boas mãos, não sabe? Meus pais não vão sair de perto dela enquanto ela não estiver se sentindo melhor. — Escolho não dizer nada e apenas assentir, com medo de ter outra crise de choro e acabar deixando meu melhor amigo preocupado antes da viagem. Suas íris , perfeitas e tão familiares me dizem silenciosamente que vai ficar tudo bem e, por algum motivo, já me sinto um pouco mais calma. — Você não vai deixar de ir, vai?
— Para Londres? Claro que não! — respondo, tentando me recompor. — Não vou deixar que você ganhe o mundo sozinho, garoto. Quero estar lá, bem na frente do palco torcendo por você em cada um dos seus shows.
Ele abre um sorriso e posso sentir meu coração acelerar quase que imediatamente. Envolvo sua cintura com meus braços e a aperto em um abraço. Ele é tão lindo.
— Então vai ser minha fã número um, é? — ele pergunta com um pouco de malícia, arqueando as sobrancelhas.
— Sempre vou ser sua fã número um, seu idiota.
— Assim como eu sou o seu — ele responde, fazendo minhas bochechas corarem.
, hora ir! — Escutamos seu pai falando, já dentro do carro.
Eu sabia que ficaria apenas algumas semanas longe dele, mas sempre odiei despedidas e ainda era doloroso vê-lo partindo. Dou um beijo em sua bochecha e o abraço novamente, enfiando meu rosto em seu pescoço, tentando guardar seu cheiro em minha memória para quando eu estivesse com saudades.
— Você vai ser um artista incrível, . Nunca duvide disso.
Escuto ele fungar entre os meus cabelos.
— Eu te amo, .
— Eu te amo, também.
Antes de entrar no carro ele para a fim de me observar mais uma vez e diz:
— Ei, ela vai ficar bem.
— Eu sei — respondo com um sussurro e o vejo ir embora, levando uma parte de mim junto com ele.

Hoje

As memórias do dia em que foi embora me atingem de uma vez só enquanto encaro o caixão à minha frente. Eu teria que aceitar, mais cedo ou mais tarde, que minha vida não passava de uma coletânea de despedidas.
— Você precisa dormir um pouco. — Escuto dizer ao meu lado e sei que ela está certa. Não durmo direito há semanas, desde que mamãe piorou.
É estranho pensar em como as pessoas reagem de maneiras diferentes a enterros. Eu achei que no dia em que a perdesse não conseguiria parar de chorar nem por um minuto, mas ainda não chorei. , por outro lado, nem é filha dela e me encara com os olhos inchados e vermelhos. O dia está quente graças ao início do Verão e quase todas as pessoas da nossa minúscula cidade no interior da Pensilvânia estão aqui.
— Vou levá-la para casa — diz, mas desta vez está falando com seus pais enquanto pega a chave do carro.
Paramos em frente à casa onde morei minha vida inteira e noto que minha melhor amiga não pretende me deixar sozinha pelo resto do dia. Faço uma careta quando a vejo entrar comigo, mas ela não parece se importar. Jogo meus pertences em cima da mesa e me deito no sofá, ligando a televisão e deixando claro que não estou a fim de conversar. Ironicamente, o sorriso dele e dos outros integrantes de sua banda aparecem na tela. Não deixo de sorrir junto com ele e cantarolar um pouco da música que estão tocando, mesmo me sentindo um pouco patética ao fazer isso.
— Ele sabe? — senta ao meu lado, colocando meus pés em seu colo e me entregando uma long neck de cerveja, já bebendo a dela.
— Não falo com ele há anos — digo, com um sorriso triste. — Acho que nem sei mais como entrar em contato com ele.
Ficamos em silêncio assistindo a apresentação dos meninos. estava lindo como sempre foi, mas parecia diferente. Além de estar mais forte, cheio de tatuagens e com um corte de cabelo diferente, também parecia muito mais confiante e sua voz estava muito mais potente do que eu me lembrava. Não consigo deixar de sentir uma pontada de orgulho. “Eu sempre vou ser sua fã número um, seu idiota.”
— Os mandaram flores — digo de repente, quando a música acaba. — Não assinaram o nome dele, então acho que ainda não sabe ou que ainda está com raiva.
— Não acho que um desentendimento bobo faria com que ele não se importasse com a morte da sua mãe. — Não estou olhando para , mas sei que ela está revirando os olhos. Ela está certa no fundo, eu sei disso.
À noite, vou ao quarto da minha mãe. Entro em seu closet, que ainda tem um pouco do seu cheiro, e procuro pela caixinha que ela mantinha escondida desde os meus sete anos. Dentro dela há alguns botões, ingressos de cinema, pequenos bilhetinhos de amor e a foto de um homem. Olho para a foto quase sem piscar, percebendo todas as semelhanças físicas entre nós dois e sou tomada por um arrepio.
Respiro fundo, decidindo ignorar a vozinha na minha cabeça dizendo que aquilo era uma má ideia e vou dormir na cama da minha mãe, me enrolando em seus lençóis. Em uma mão seguro a foto do meu pai; na outra, aperto com força o pingente da correntinha que abre e tem “Love you to the moon and to Saturn” escrito em letras cursivas, pensando na outra pessoa que tem um pingente igual a este, pendurado em seu chaveiro em alguma parte do mundo, seguindo seu sonho.
Solidão. Despedida. Saudade.
As palavras passeiam por minha mente antes mesmo que eu possa evitar. Pego meu celular e mando uma mensagem para , que foi embora depois de muita insistência minha.

“Ainda bem que sempre teremos uma a outra.
Obrigada por hoje e desculpe meu mau humor.
Te amo!”

Finalmente me permito chorar por tudo que estou sentindo, e choro até cair no sono.

Acordo no susto, com o toque alto do meu celular perto do ouvido e acabo rolando para fora da cama, caindo no chão e xingando o mundo inteiro quando sinto uma dor aguda atingir as minhas costas. Bom dia!
Atendo o telefone, ainda sentada no chão, sentindo minha cabeça latejar graças ao estresse do dia anterior.
— Seja lá quem for, é melhor ser importante — digo irritada, esfregando meus olhos.
— Você não vai acreditar em quem está aqui. — Antes mesmo que me conte, já posso imaginar quem seja… e nem ao menos sei como me sentir em relação a isso.

 

Nota da autora: Oi, oi. Espero que tenham gostado do primeiro capítulo e que continuem acompanhando a história desses dois comigo! Se puderem, me digam o que acharam 😉

 

 

2.

“I think your house is haunted. Your dad is always mad
and that must be why.”
seven – Taylor Swift

15 anos atrás

— Trégua! — grita com uma cara de nojo. Ela está jogada no chão, cheia de lama. Paro de correr e vou andando até ela, rindo e balançando a cabeça. Ela sempre acaba caindo em uma dessas poças quando estamos brincando de pique-pega.
— Você desiste fácil demais — digo e estendo a mão para ajudá-la a levantar, mas também sou puxado para a poça de lama e caio ao lado dela. — Ei!
— Ninguém mandou você dizer isso! — ela responde, empinando o nariz e levantando do chão com suas tranças balançando de um lado para o outro, respingando mais lama em cima de mim.
Argh — resmungo com um pouco de nojo, pensando em todos os bichos que podem ter feito cocô naquela lama e tentando inutilmente me limpar. — Tudo bem, eu vou para casa tomar um banho.
— Não! — grita. — Por favor, , não me deixe aqui sozinha.
— Sabe, você também está precisando de um banho — respondo olhando para minha melhor amiga toda suja. — Por que não vai para casa também?
— Não quero voltar agora — ela diz, abaixando os olhos grandes e cheios d’água. Não preciso nem perguntar o que aconteceu, mas ainda assim confirmo:
— Seus pais estão brigando de novo? — Assente. Vou até ela e pego sua mão, tentando acalmá-la. — Vem, você pode ficar na minha casa até a hora do jantar. Vamos fazer um lanche, ver TV ou sei lá.
Ela olha para mim sorrindo e enxuga as lágrimas com uma das mãos, sujando quase todo o rosto de lama e me fazendo rir.
— Obrigada, .
Eu não entendia o porquê, mas vê-la sorrindo de perto daquele jeito, mesmo quando estava suja de lama, sempre me dava um nó esquisito na barriga. Era como se eu estivesse enjoado, mas de um jeito bom.
Talvez seja por isso que sou tão bom em fazer parar de chorar. Uma vez quebrei sua Barbie preferida sem querer e a fiz se esquecer de tudo apostando com ela que tinha coragem de comer uma minhoca viva. No fim das contas eu realmente comi a minhoca e foi bem nojento, mas valeu a pena fazer com que ela risse o dia inteiro daquilo e se esquecesse da maldita boneca.
— Sabe — digo enquanto estamos indo para minha casa —, quando formos mais velhos você podia vir morar comigo e deixar de ficar triste por causa dos seus pais o tempo todo. Aposto que os meus vão adorar te receber.
— A gente também podia ir embora. Ir para bem longe, sabe, que nem… o Peter Pan que fugiu para a Terra do Nunca.
— A Terra do Nunca não existe, . Aquilo é só uma história — digo, tirando os sapatos do lado de fora da casa para não deixar rastros de lama mesmo sabendo que ainda vamos sujar tudo. — Além do mais, o Peter vive lá sozinho, lembra? Todos os Garotos Perdidos voltaram para casa no final do filme.
— Eu sei que é só uma história, , mas nós não vamos para nenhuma Terra do Nunca e também não vamos voltar.

Hoje
Acordo com a cabeça latejando por conta da ressaca. Quando consigo abrir os olhos, olho de lado e percebo que não estou sozinho na cama, tampouco sei quem está ali comigo. Esfrego minhas têmporas tentando despertar e me lembrar do sonho que estava tendo.
Era um sonho nostálgico, cheio de saudade… um sonho bom.
Eu tinha sonhado com ela de novo.
Antes que possa me lembrar de qualquer outro detalhe, entra no quarto fazendo muito barulho, seguido de um que parece muito cansado, irritado e provavelmente também foi acordado pelo nosso amigo e colega de banda.
A garota ao meu lado dá um gritinho agudo e se esconde atrás dos lençóis, fuzilando com os olhos, parecendo furiosa.
— Desculpe interromper, querida, mas precisamos dele — fala, dando uma piscadinha em sua direção.
Visto logo minhas roupas, aliviado por ter uma desculpa perfeita para dispensá-la logo e vou em direção ao estúdio do grande apartamento que estamos dividindo enquanto gravamos o nosso próximo álbum. já nos espera com uma garrafa enorme de café e não parece estar de bom humor.
— O que está acontecendo aqui? — pergunto ainda com sono mesmo não querendo saber da resposta.
não diz nada e apenas joga algumas revistas em cima da mesa, ao lado do café. Vejo meu rosto estampado na capa de todas e pego uma para ler.
começa uma briga física com paparazzi ao sair de um bar no fim da madrugada.”
— Em minha defesa eu apenas empurrei o cara porque não queria me deixar passar. Ele que saiu dando socos no ar tentando me acertar. — Dou de ombros.
— Não é só isso.
é flagrado dirigindo bêbado na madrugada deste domingo.”
é flagrado trocando ofensas com seu pai em um restaurante.”
entra em hotel acompanhado por 3 mulheres depois de um de seus shows e acaba chamando a atenção de alguns fãs que estavam presentes.”
Respiro fundo, me preparando para o sermão.
— Nosso agente não está feliz, cara. — começa, com uma expressão séria. Viro-me para olhar para os outros, mas nenhum dos dois parece mais tranquilo.
— Olha, todos nós gostamos de uma festa, sim? — fala ao meu lado. — A verdade é que ele não estaria nem aí se estivéssemos fazendo a porra do álbum direito.
— Acho que nunca tivemos um bloqueio tão grande. A gravadora está no nosso pé, temos um prazo e não conseguimos compor nada que preste há meses.
— Principalmente você. — acrescenta. — Sem ofensas.
— Esperem aí. E o que isso quer dizer? Vocês não podem estar falando que… — por um momento, acho que vou vomitar. — Eles vão cancelar o meu contrato? É isso? — pergunto um pouco alto demais.
— Não! — os três respondem ao mesmo tempo.
— A gravadora só acha uma boa ideia que você passe um tempo em casa. — explica. — Fuja um pouco da correria, dos holofotes, das distrações…
— Tudo bem. — Consigo me acalmar sabendo que não perderia a banda. Não posso perder. — Estou em casa agora, não estou?
— Não, responde. — Sua casa, na cidade de onde veio.
De repente o estúdio é tomado por um silêncio desconfortável. Os três evitam olhar diretamente para mim, com medo da minha reação. Estavam comigo depois da gritaria que houve no telefone com ela e nos meses seguintes a briga.
Depois de alguns minutos digerindo aquela informação, finalmente consigo falar:
— Eles não podem me obrigar a voltar, podem? — olho desesperado para os olhos dos meus amigos.
— Está no contrato, cara. Se for parar a produção do álbum eles podem te mandar para onde quiserem. — me passa um amontoado de papéis e percebo que ele mesmo estava procurando alguma brecha ali que pudesse me ajudar. Agradeci a ele por isso, mas vi que não tinha jeito.
— Olha, poderia ser pior. — tenta me acalmar — Eles têm o direito de te expulsar da banda se quiserem…
— E nós não queremos isso…
— Eles só estão pedindo para que você tome um tempo para pensar, clarear a cabeça e voltar a compor como antes.
— E veja pelo lado bom, — conclui otimista. — você vai ter a chance de rever seu cavalo e seus amigos. — e olham para ele como se fossem matá-lo por ter dito aquilo. apenas sussurra um “foi mal”, dando de ombros como resposta.
Rever meus amigos. As palavras ecoam pela minha cabeça, me deixando enjoado e não do jeito bom que costumava ser.

 


3.

“Are there still beautiful things?”
seven – Taylor Swift

Acordo com uma música country qualquer tocando na rádio do carro. A dor em meu pescoço denuncia o estresse da longa viagem de avião de volta aos Estados Unidos e as várias horas de sono no carro rumo ao interior da Pensilvânia. Tiro os óculos escuros, me endireitando no banco do passageiro e penso em perguntar ao motorista se estamos perto, mas o cenário rural que vejo pelas janelas já me responde.
Decido abaixar um pouco o vidro e deixar que todas as sensações de familiaridade tomem conta de mim: o cheiro das árvores e da grama molhada, o frescor das folhas balançando e o som da famosa cachoeira que ficava bem perto dali. É como se a natureza gritasse “Bem-vindo de volta, ”.
Ao estacionarmos em frente à grande casa que morei minha vida inteira, não posso deixar de notar que ela continua com uma boa aparência. A grama está aparada, as flores regadas e a tintura branca ainda longe de estar gasta. Agradeço mentalmente minha mãe, que fez questão de contratar funcionários para mantê-la daquele jeito enquanto estivéssemos fora, e dispenso o motorista com uma gorjeta bem gorda por ter me ajudado com as bagagens. Depois de me acomodar, almoço e tento, inutilmente, compor. Aceito que não sei mais o que fazer quando estou em casa.
— Os produtores acharam que eu teria o quê? Uma fonte inesgotável de inspiração quando chegasse aqui? — Resmungo sozinho enquanto termino de desfazer as malas. — A única coisa inesgotável que vou conseguir nesse lugar é o tédio.
Como se os garotos pudessem ler meus pensamentos, as notificações do grupo da banda disparam, uma atrás da outra:

: Update do processo de composição por aqui: um fracasso.
: Como estão as coisas por aí, cara? @
: Já se encontrou com ela?
: Diga oi ao Eddard por mim!

Ai, meu Deus! Eddard!
Como posso ter me esquecido de visitar meu próprio cavalo? Eu costumava cavalgar o tempo inteiro quando morava aqui. Estou pensando em como devo ser um péssimo pai de pet quando decido visitá-lo, ainda na esperança de que um pouco de ar fresco possa me trazer alguma inspiração ou sei lá. Não era isso que os produtores tinham em mente, afinal?
Então, lembro havia o deixado sob os cuidados de antes de viajar. Pego o celular, com as mãos já suadas graças ao nervosismo, e respondo no grupo:

: Ainda não a vi, mas tudo indica que vamos nos encontrar daqui a pouco.

Só de cogitar ir até a casa dela e olhá-la nos olhos, sou tomado por uma onda de medo. Sim, medo. Medo de não saber o que posso sentir ao estar perto dela novamente, de não aguentar o fato de que não vou poder correr para abraçá-la como antes, de que ela esteja com tanta raiva de mim que não consiga nem me olhar nos olhos. Eu não a culparia.
Passo alguns bons minutos pensando no que fazer quando tomo a decisão que qualquer adulto maduro de 23 anos tomaria: corro para o andar de cima e vou espiar a casa dela pela janela. Sentindo-me algo entre um adolescente patético e um espião da CIA, fico observando a movimentação na casa ao fim da rua por um tempo. Está tudo parado, ninguém entra e ninguém sai, todas as luzes apagadas. Sua mãe nem ao menos está na varanda, como costumava ficar antigamente.
Chego à conclusão de que as duas saíram e aproveito para ir, praticamente correndo, em direção aos fundos da casa, onde fica o pequeno estábulo improvisado no grande quintal que costumávamos brincar quando éramos pequenos. Sinto um arrepio tomar conta de mim e tento afastar os momentos que vivemos juntos da cabeça, pelo menos enquanto estou ali.
— Eddard? — digo ao me aproximar do cavalo marrom que não havia mudado nada. — Como vai, garotão? — Como se me entendesse, Eddard relincha, mas não de um jeito muito amigável. — Eu sei, eu sei. Faz algum tempo, não faz? Sinto muito por isso — explico, pensando em como alguns dos meus amigos de Londres me achariam ridículo por estar dando satisfações a um cavalo. Tento não pensar muito nisso e o solto, montando nele logo em seguida. — Vem, vamos dar um passeio e voltar para casa.
Cavalgar depois de tantos anos me trouxe uma sensação de liberdade que eu não experimentava desde que entrei para a banda. Amo o que faço. Amo fazer parte daquilo e tenho sorte por ter conhecido colegas de banda que hoje considero minha segunda família, mas ainda há certa saudade. Fazer algo que foi parte da minha antiga rotina por tanto tempo, fez com que eu me sentisse um pouco mais completo mesmo que não saiba explicar como.
Volto para casa depois de algumas horas e deixo que Eddard beba um pouco d’água antes de colocá-lo de volta no estábulo que ficava na parte de trás da minha pequena fazenda. Estou cantarolando alguma das minhas próprias músicas, com o humor bem melhor do que antes, quando ouço os passos rápidos e nervosos vindo em minha direção, fazendo com que eu perca o controle da minha própria respiração. Tomo coragem para me virar para trás lentamente, já sabendo o que viria a seguir, e tenho a estranha sensação de que tudo acontece em câmera lenta.
Engulo em seco quando nossos olhares se cruzam. O seu trazia um pouco de raiva, como previ, mas também trazia mágoa, o que considero ainda pior. A ideia de que eu havia a machucado é insuportável e quase peço para que ela me bata e xingue ao invés de ficar triste. Começo a reparar nos detalhes dos quais tanto senti falta. Seus cabelos estão um pouco mais longos do que costumavam ser, soltos e caídos em seus ombros. Suas bochechas estão um pouco coradas, tanto pela caminhada de sua casa até aqui quanto pela raiva que deve estar sentindo de mim. Ela tem um ar de amadurecimento do qual eu ainda não estou acostumado, fazendo com que eu finalmente entenda que ela é uma mulher independente agora, não a adolescente que eu deixei para trás há alguns anos, e isso lhe cai muito bem. Ela está linda como sempre, talvez até mais.
Nem percebo que não estou respirando quando ela abre a boca para falar as primeiras palavras ditas à mim em tanto tempo.
— Roubou o meu cavalo? — Sua voz canta em meus ouvidos e tento disfarçar o sorriso que quer sair a todo custo dos meus lábios.
— Oi para você também. — Viro de costas, voltando a arrumar o estábulo de Eddard. — E não, não roubei porque ele é meu cavalo.
Estou decido a não discutir com ela. Já está mais do que na hora de ficarmos bem um com o outro, penso. Por mais difícil que seja, eu não vou discutir com ela.
— Você só pode estar brincando — ela responde, cruzando os braços, ainda com uma expressão severa em seu rosto delicado. — Não vem visitá-lo há anos, acho que perdeu o direito de chamá-lo de seu. — Algo em sua voz me diz que Eddard não é mais o tópico principal da nossa conversa.
— Estive ocupado — foi tudo que me limitei a dizer. Não vou discutir com ela.
— Você nem ligou para saber como ele estava!
Mais uma vez, sinto que ela não está se referindo apenas a Eddard.
— Você teria atendido? — pergunto, olhando novamente para seus olhos. Agora os meus carregam a mesma quantidade de mágoa e não tenho tanta certeza se quero saber qual seria a resposta.
— Não — ela diz, depois de alguns segundos, e sinto uma dor que chega a ser física me atingir. — Sabe que não. — Ela puxa Eddard pelas rédeas e vai em direção à saída. — Vamos, Eddie.
— O que está fazendo? Ele não vai a lugar nenhum. — Puxo as rédeas de volta para mim. — Olha, muito obrigado por ter cuidado dele, , mas estou de volta agora e ele fica.
Ela para de andar, de repente, e fita meus olhos com uma expressão confusa por tempo o suficiente para me deixar um pouco incomodado. Deus, quase me esqueço de como ela é linda.
— O que… — Sua voz falha. — Como assim está de volta? — Antes que eu possa respondê-la, larga as rédeas de Eddard e se afasta, quebrando o contato visual entre nós dois como se também não quisesse realmente saber qual seria a minha resposta. — Quer saber? Tudo bem! Cuide dele.
… — digo, sentindo meu coração afundar com sua fácil desistência no assunto e sei imediatamente que tem algo de errado com ela, que sempre foi bastante teimosa. Estou prestes a segui-la, quando ela faz com que eu pare.
— Não, . — Ela me olha novamente e não deixo de notar seus olhos vermelhos. — Já me acostumei com o fato de que tudo tem que ser do seu jeito. Só me deixe sozinha.
Depois que ela vai embora, passo o resto da noite me sentindo um grande de um filho da puta.

Nota da autora: Finalmente esses dois se encontraram, agora, vamos à luta hahaha comentem o que acharam!<3