; ; ; ; ; ; ; ; ;

Real Stuff

Sinopse: A sua vida muda completamente depois de um acidente envolvendo um cara famoso que pode ser bastante persistente. Enquanto a vida dele parece um sonho, a sua é real até demais.
Fandom: Harry Styles
Gênero: Romance/Drama/Comédia
Classificação: 18 anos
Restrição: Linguagem imprópria, uso de substâncias ilícitas, sexo explícito
Beta: Thalia Grace

Capítulos:

PRÓLOGO – e o início de todas as outras coisas

.

— Acredito que seja isto, . Apreciamos o trabalho que você nos prestou enquanto cooperava conosco.

O homem, que tinha lá pelos seus trinta e poucos, porte másculo, alto e bem representado, assentiu numa postura cordial, mas sem muita simpatia.
A mulher a sua frente não escondeu o desprezo em seus olhos – que diziam muita coisa por si só – e muito menos na expressão, mantendo a postura irredutível e inabalável de sempre. Jamais demonstraria o quão profundamente frustrada e estarrecida realmente estava – sabia muito bem qual era o verdadeiro motivo de estar sendo demitida. , entendendo que seu tempo ali havia terminado, literalmente assentiu sem dizer mais nada. Não tinha mais nada para dizer. Ali, precisava ser profissional e aceitar o que lhe era cometido: uma demissão. Claramente injusta, mas uma demissão.

Retomou sua carteira de trabalho que estava na mesa, já assinada com a devolução, e não fez questão de, ao menos, apertar a mão do ex-chefe em agradecimento pelos quatro anos que havia trabalhado na empresa. Apenas pegou sua bolsa, sua dignidade e seu mau humor e saiu do majestoso e espelhado prédio da Kapplan & Co, que ficava em uma das avenidas mais estratégicas e movimentadas de toda Los Angeles. Enquanto caminhava para fora do prédio, repassou mentalmente os acontecimentos dos últimos dois meses:

— Levar um chifre, check;
Pegar o namorado no flagra junto com seus amigos de trabalho, check;
Terminar um namoro de dois anos e meio, check;
Ser demitida por um chefe incompetente, check;

pegou o celular, observando que o sinal estava fechado e clicou no contato fixado do aplicativo de mensagens – que era o grupo com seus dois melhores amigos – para mandar um áudio na força do ódio que amaldiçoasse até a vigésima geração de William Kapplan, mas não conseguiu terminá-lo: foi subitamente interrompida pelo impacto do que pareceu ser um carro baixo chocar-se fortemente contra a extremidade de sua perna, fazendo com que rolasse por cima do capô e caísse no chão, batendo a cabeça.

Tudo ficou escuro por um tempo. Conseguia ouvir barulho e vozes que pareciam estar chamando por ela, mas não usavam seu nome. Tudo doía. Suas pernas, sua cabeça, seu corpo, seus olhos.

“Acho que esse é o celular dela, mas está bloqueado”, a voz masculina que parecia estar muito muito longe ressaltou. Conseguiu abrir um pouco os olhos com a visão completamente distorcida e pensou ter visto um rosto conhecido – e estupidamente famoso – a sua frente, um cara que ela tinha certeza que sabia quem era, porém, ela jamais lembraria o nome naquele momento, e muito menos pararia para tentar. Os olhos verdes que a observavam com muita atenção e sua feição demonstrava nervosismo. O rosto mais próximo do que ela esperava.

Fechou de novo os olhos, inevitavelmente, se não bastasse o esforço que tinha que fazer para mantê-los abertos, tudo estava confuso demais, ela só poderia estar delirando. Ouviu alguém comentando que ela havia conseguido abrir os olhos, mas desistiu de lutar contra sua própria consciência.

Foda-se, pensou, amanhã me preocupo com isso.

E apagou de vez.

1.

Quando abriu os olhos naquele quarto branco e iluminado demais, piscou algumas vezes até se acostumar com a claridade. Observou o quarto. Era um hospital. Ok. Fazia sentido. Tinha dores por todo o corpo, sentia uma parte de suas costas meio raladas, alguns arranhões pelos braços e o que notou ser uma tala no joelho. Merda, pensou, era só o que faltava. Perguntou-se o que raios estaria fazendo na outra vida para que o Universo estivesse atacando tão forte contra ela (e marcando todos os gols, aparentemente): talvez uma espécie de líder nazista ou um serial killer – porque não havia outra explicação para tudo que havia lhe acontecido nas últimas semanas.

Qual seria esse hospital? Por quanto tempo estivera desacordada? Quem havia a trazido aqui? Deus do céu, quem pagaria a conta? Este parecia um hospital caro. se desesperou um pouco – receberia, sim, uma quantia de seguro desemprego, mas ela contava pra segurar por algumas contas até que encontrasse um outro lugar pra trabalhar. Estava sozinha em LA faziam alguns anos – minha mãe e Mark, ah não, pensou. Será que eles faziam alguma ideia do que havia acontecido? Será que estava preocupados? Onde estava seu celular? –, mas nem em sonho imaginou que algum dia passaria por alguma situação remotamente parecida com esta. Seus lábios estavam secos, o seu corpo estava fraco e queria, mais que tudo, apenas dar um jeito de sair dali e dormir em sua própria cama. Precisava falar com ou . Precisava mandar um áudio no grupo gritando por socorro. Avistou um copo de água na cabeceira, onde também tinha uma bandeja com iogurte e algumas frutas, mas ela não alcançava, porque sua perna direita estava imobilizada. Sentiu a frustração de uma vida inteira recair sobre seus ombros. Era isto. Aquela havia sido a gota d’água que faltava.

Pela primeira vez em semanas, quis chorar. Estava amargamente frustrada. Queria o colo da sua mãe e fingir que nunca havia se mudado para Los Angeles. Queria uma panela de brigadeiro e o seu box de Friends com os bloopers de todas as dez temporadas. Queria alguém pra fazer carinho no seu cabelo até que dormisse, acordando com o emprego dos seus sonhos e uma perna que funcionasse.

Engoliu o choro ao ver um rapaz cuja face não reconheceu entrar no quarto sem bater. Ela não estava nem aí para quem era, só queria alguém que pudesse tirá-la dali o mais rápido possível. Era de ótima aparência — lá pelos seus vinte e oito anos, tinha um rosto bonito, gentil e amigável. Não era o rosto que havia visto durante o acidente. Sorriu, meio sem graça para , que ficava mais confusa a cada passo que ele dava, porém uma faísca de curiosidade piscou na sua cabeça confusa. Entregou para ela um celular com a tela estraçalhada. E depois colocou uma sacola da Apple em cima da mesinha ao seu lado.

— Oi, . Finalmente você acordou!

— Ah, não… — ela recebeu o celular nas mãos, olhando pra ele com uma profunda tristeza. — Pelo menos você tá vivo.

Ela destravou o celular, na intenção de mandar mensagem para a amiga, até que o rapaz começou a falar:

— Sinto muito, mas atendi o seu celular por você. Sua amiga, , está vindo pra cá. — o rapaz se explicou. deu de ombros e assentiu, respirando fundo, se preparando mentalmente para entender o que havia acontecido. — Você passou um bom tempo desacordada, pude até te comprar um celular novo, visto que destruímos o seu. Tivemos que mexer na sua bolsa pra conseguir seus documentos também, me desculpe. Você não é daqui, não é? Sua mãe, pelo visto, também não mora aqui…

Ele se sentou ao lado da garota, na poltrona da visita, olhando-a nos olhos, sem tirar o sorriso no rosto. Ofereceu-a, também, a bandeja com a comida, em que ela resolveu pegar só o iogurte e a colher, e assentiu em agradecimento, desconfiada. Não era o rosto que ela tinha visto ao abrir os olhos durante o acidente. Será que estava mesmo delirando? Que diabos de horas eram?

Ela tinha acabado de ganhar um celular novo? Conteve-se para não abrir a sacola com o celular novo na hora como uma louca desesperada. Muitas informações ao mesmo tempo – não estava conseguindo raciocinar. O que deveria fazer agora? Aceitar o celular? Agradecer? Por que ou não haviam chegado ainda? Quem era aquele cara?

— Não, não sou. Quem é você? — ela respondeu, por educação, uma das dúvidas do rapaz e perguntou, direta. Tomou uma colher de seu iogurte, sentindo-se cansada e com muita dor, tudo seu corpo doía. Sua cabeça também doía. Estava desconfortável e julgava um péssimo horário para ter que fazer sala com estranhos, mas decidiu que precisava saber o que estava acontecendo e ele parecia ter as respostas. — Você que passou por cima de mim? E bom… Obrigada? Eu não sei o que fazer. Não precisava ter feito isso.

O rapaz sorriu de lado, parecendo sentir-se mais aliviado que a garota tinha assumido uma postura mais tranquila.

— Por favor, não se preocupe com isso, é o mínimo. — O rapaz respondeu. — E, bom, não fui exatamente eu, na verdade. Eu vim representando o…

— Cantorzinho famoso? — interrompeu-o. Lembrou-se do rosto que havia visto ao abrir os olhos. Fechou os olhos com força, quase se lembrando de onde o conhecia… — O carinha da boyband, né?

Ele soltou uma risadinha simpática, jogando seu charme. Era esperto, tinha notado, era bom no que fazia: conquistar pessoas. A garota apenas o encarou, desconfiada.

Passou a se sentir irritada.

— Isso. Meu nome é Aaron Hart. Eu sou o representante do ex carinha da boyband; — ele disse sorrindo, simpático. — . Ele sente muito. E gostaria muito que você aceitasse o celular novo.

— Claro que sim. — destilou cada gota de ironia que conseguiria e revirou os olhos ao sentir a irritação tomar conta do seu corpo com as informações. — Entendido o recado. Você poderia ir embora?

Aaron arregalou um pouco os olhos. Pareceu um pouco confuso com a reação súbita da mulher ao seu lado. Não que tivesse demonstrado muito, apenas era boa em notar essas coisas.

— Na verdade… Eu tenho que conversar com você. — arqueou uma sobrancelha, ainda sem responder nada, muito menos fazer questão de parecer cordial. Tomou mais um pouco do seu iogurte, observando cada detalhe de seu rosto: era boa com linguagem corporal. Pode notar que por dentro ele estava meio nervoso apesar da postura impecável, eloquência perfeita e carisma que não dava para negar nem por um minuto. Estava na aura dele. Em cada palavra que dizia. — Nós realmente sentimos muito pelo acontecido. Eu te peço desculpas por tratar disso com você num momento tão delicado, mas espero que você entenda a situação das agendas superlotadas e toda a burocracia. Viajaremos amanhã bem cedo. está bem no meio da produção do seu próximo álbum.

Um pequeno momento de silêncio enquanto o rapaz esperava que respondesse e esta não fez questão. Ele continuava tentando fazer daquele momento o mais informal possível, por mais que a mulher soubesse que ele estava prestes a tratar de assuntos, sim, formais.

— Nós arcamos e arcaremos com tudo relacionado ao hospital e ortopedistas, visto que você sofreu uma lesão no joelho e vai ter que se submeter a mais algumas consultas, medicamentos, ressonância magnética, bem como seu telefone e qualquer prejuízo que você venha a ter que possa ter sido causado pelo acidente. — ele iniciou, e assim que ia argumentar, ele pediu com a mão que ela o deixasse terminar. — Nós fazemos questão. Já está tudo pago. Não é passível de ser retornado.

Ele sorriu com complacência, assentindo. nem sabia o que pensar. Estava cansada, mal humorada e com raiva.

— Eu não pedi isso.

— É o mínimo que poderíamos fazer.

Por mais que quisesse, se sentiu fisicamente fraca para confrontá-lo, então apenas respondeu:

— Enfim… — ela fez um gesto com a mão, pedindo para que ele falasse de maneira mais objetiva.

A verdade é que se sentiu bem ofendida. Primeiro porque não fazia nem cinco minutos que ela tinha acordado de uma possível concussão e já estava tendo que lidar com um desconhecido falando de processos burocráticos; segundo que nem tinha sido ele que havia gerado o acidente. Tudo que ela queria naquele momento era ser tratada como uma pessoa – e que a pessoa que realmente havia feito aquilo tomasse responsabilidade pelo que havia feito e demonstrasse o mínimo de respeito com a situação em que a havia colocado.
O rapaz suspirou, parecendo sentir-se um pouco culpado.

— É o justo, . Por mais que ambos estivessem distraídos, está bem e você está aqui.

— De alguma forma você está implicando que a culpa é minha de o seu cliente ter atropelado uma pessoa ao ultrapassar o sinal vermelho? — soltou. Era exatamente por isso que odiava gente rica. Eles sempre davam um jeito de se eximir da culpa. — E achou uma ideia boa conversar comigo sobre isso agora? Nesse momento?

Ela precisou colocar pra fora. O rapaz não pareceu assustado, mas surpreso.

— Eu jamais faria isso. — levantou as duas mãos pra cima em rendição, mas ainda sem dar-se por vencido. A postura simpática como se fossem melhores amigos conseguia deixar ainda mais irritada. — Como disse, sinto muito pelo que aconteceu. Mas acho que podemos trabalhar com isso de um jeito em que ambos saiam satisfeitos. — encarou-o, cética. Piscou algumas vezes. Incrédula. — O que eu posso fazer por você?

— Fazer por mim? — perguntou, fechando os olhos com força, pensando se aquilo não seria um pesadelo ou um delírio coletivo ou algo relacionado ao Efeito Mandela. Não poderia ser possível que o tal Aaron achasse a situação minimamente digna.

estava muito puta.

— Sim, como uma maneira de te recompensar. — assentiu, usando uma conotação usual, como uma boa conversa de fila de supermercado. Mas as entrelinhas estavam bem claras para .

— Você quer dizer, garantir que eu não vou falar merda na internet.

O rapaz piscou pra ela, com um sorriso esperto.

— Sendo muito franco, , eu não conheço você. — ele deu um sorriso cúmplice, tentando, a todo custo, manter um clima minimamente agradável, forçando a garota a baixar guarda. — Já passei por todo tipo de gente na indústria que eu trabalho, se é que você me entende. O álbum do está prestes a ser lançado e eu preciso cuidar da imagem dele no momento. Eu realmente sinto muito que tenhamos que conversar assim, mas achei melhor do que por telefone, ou até mesmo de maneira mais hostil, que seria através de um advogado. Não posso ser displicente. Espero que me entenda.

— Não entendo.

— É só me dizer o que quer. Não tem nada nesse mundo que eu não possa te dar.

Ah, Aaron Hart. Se apenas o senhor soubesse que certas coisas não podem ser compradas.

— Eu quero que você saia daqui agora. — o pedido, dessa vez, soou mais como uma ameaça, enquanto a mulher a sua frente olhava bem nos olhos dele com um desprezo invasivo. não desviou o olhar nem por um segundo.

Ele assentiu, se rendendo.

— Espero que se recupere bem, . Nós mandaremos notícias.

Como um bom entendedor de relações interpessoais, Aaron Hart entendeu que não seria tão fácil assim de contornar como a maioria das últimas pessoas com quem tinha conversado para limpar a bagunça que fazia (coisa que ele era muito bom em fazer), mas algo dentro dele o dava a certeza de que ela não faria nada de estúpido por enquanto. Um bom marketeiro sabe a hora de entrar e a hora de sair.
Naquele momento, era a hora de sair.

.

— Ela não quis? — o cantor perguntou, sem acreditar. Cacete, pensou, mais um b.o, ele não queria nem pensar na repercussão que aquilo poderia ter, principalmente depois de Aaron ter ido falar com a garota e ela ter dispensado ele. Já conseguia ver as manchetes: tenta subornar vítima de acidente causado por irresponsabilidade no trânsito e é dispensado.” —Como assim?

— Não querendo, , não dá pra comprar todo mundo pra você. — Aaron revirou os olhos.

sabia que Aaron estava puto, e com razão – era uma espécie de assistente pessoal, que trabalhava para Fletcher, seu real empresário. Aaron era o cara com o maior poder de convencimento que já tinha conhecido – cuidava de toda a parte midiática e relacional de , bem como organizava as agendas e o acompanhava por onde fosse, apagando os incêndios que acendia.

Em outras palavras, uma babá, por mais que odiasse afirmar: — Eu nem cheguei a mostrar um contrato pra ela. Achei que ela fosse me bater ou qualquer coisa do tipo pelo jeito que me olhava.

Encararam-se. deu um sorriso amarelo e desconfortável, enquanto Aaron continuava com a mesma expressão repreensiva e irritada.

Sabia que aquilo poderia dar um escândalo sem precedentes, porque estava mesmo errado, e tudo que não precisava era de mais um escândalo depois de Camille. Já podia pensar em toda a merda que escutaria de Fletcher, em como a imprensa faria o possível para se aproveitar da situação tão próximo do lançamento do seu álbum. O pior é que ele havia mesmo sido um irresponsável: não viu a garota, não viu o sinal vermelho, e apesar de o carro não estar numa velocidade muito alta – bom, depende do referencial –, ele sabia que a culpa era única e exclusivamente dele. Por sorte, já estava com Aaron no carro, o que facilitou muito as coisas. Ambos estavam no celular, no entanto. Nem pararam pra pensar: de maneira muito rápida, saíram do carro e, antes que se começasse algum tumulto, carregaram a menina para o banco de trás e a levaram para o hospital, acreditando que seria mais rápido e menos turbulento que uma ambulância. Não havia sido uma batida muito forte, no entanto – não havia sangue no chão e a menina tinha pulso, apesar de estar desacordada. foi com ela no banco de trás, nunca antes estado tão nervoso na vida, e nem visto Aaron tão explosivo também.

”Você tava com merda na cabeça?”, ouviu apenas a primeira coisa que ele disse durante os dez minutos até o hospital mais próximo, porque nas outras, tudo que ele conseguia pensar era se tinha ou não matado alguém por sua própria irresponsabilidade. Era só uma mensagem que ele tinha recebido de Fletcher que já o havia ligado três vezes por conta do atraso. Foram cinco segundos que estragaram tudo.

Enquanto segurava a mulher no banco de trás de seu carro, perguntou-se qual era o seu nome. Quem ela era. De onde vinha, o que fazia, se estava tendo um dia importante. Para onde ela iria. Onde estariam seus pais e como ela reagiria ao acordar – e por favor, por favor, que ela acordasse. tentou dar alguns tapinhas na cara dela, mas a mulher não se movia. Seu coração ia a mil e ele nunca achou que pudesse ficar tão preocupado assim com alguém.

Ao chegar no hospital, ambos lidaram com as burocracias necessárias. Passaram à tarde lá até ter mais notícias, mas só conseguiu relaxar quando o médico lhe assegurou que ela ficaria bem, só precisava repousar e esperar o efeito do remédio passar. Decidiram que o melhor era que ele voltasse pra casa enquanto Aaron ficaria e esperaria que a garota acordasse para conversar com ela – afinal, não sabiam como ela iria reagir, ou até mesmo se ela lembrava que havia sido ele que estava dirigindo o carro. Muita coisa podia ser sondada e evitada. Fora a parte de estar nervoso demais para lidar com a situação.

Ele queria falar com ela, desde o início. Mas Aaron conseguiu convencê-lo do contrário.

Ela estava bem – o médico que a estava acompanhando os garantiu de que ela poderia, até mesmo, ter alta no dia seguinte, depois de um tempo em observação. Ficaria em repouso por uma semana ou duas semanas e, depois de alguns exames e poucas sessões de fisioterapia, seria como se nada tivesse acontecido. Fisicamente, pelo menos.

— E agora? — perguntou. Aaron foi para o seu apartamento assim que saiu do hospital, umas duas horas depois dele. Dois amigos da garota haviam chegado e ela não estaria mais sozinha no hospital.

— E agora que a gente vai precisar atrasar a ida pra Flórida. Amanhã, você vai lá.

x
No outro dia de manhã, estava nervoso. Primeiro porque chegaria na Flórida um dia depois do combinado com Fletcher, perderia a primeira passagem de som e chegaria apenas duas horas antes do show. Confiava na sua banda e sabia que, quando chegasse, estaria tudo certo – mas nunca havia perdido uma passagem de som antes, pelo menos não como artista solo, e toda essa situação era uma merda.

Segundo porque precisava que a conversa com a garota fluísse exatamente como esperado – um contrato assinado. não precisava de mais um problema naquele momento e tudo que queria era resolver aquela situação logo. Talvez ela se sentisse mais confortável com ele. Talvez fosse uma fã? Talvez a conversa com Aaron – que era a pessoa mais convincente que ele conhecia na vida – tivesse sido muito cedo e ela precisasse de um tempo pra processar o que tinha acontecido.

Estava na frente da porta do quarto da mulher, . Respirou fundo. Durante esse meio tempo, pensava nas coisas que diria: precisava muito pedir desculpas. Queria que ela soubesse que ele não era um cuzão irresponsável que havia posto o assistente para ir resolver uma situação tão delicada como esta. Queria que ela soubesse que ele não era uma pessoa ruim – só desligada e meio desatenta. E que queria, de alguma forma, compensá-la pelo que havia acontecido. Não fazia ideia de como diria essas coisas, mas tinha certeza que, no final, a garota ia acabar aceitando. As pessoas sempre acabavam concordando com ele. As pessoas sempre acabavam fazendo o que ele queria.

Bateu na porta, que estava fechada, antes de entrar. Quando virou os olhos pra ela, ela estava rindo, meio sentada e meio deitada na cama do hospital, que parecia ser bem espaçosa. O quarto era amplo, tinha espaço, duas poltronas, a cabeceira do lado da cama e uma tv em frente. Ela parecia estar tranquila enquanto conversava com a amiga, sentada na poltrona do lado – mas sua expressão logo mudou ao olhar para . Ficou um pouco mais séria e meio confusa.

Os traços dela não pareciam ser muito americanos – o rosto estava sim, pálido pelo acidente e pelo tempo no hospital, e a boca ressecada, mas ainda sim, era muito bonita. Não se lembrava de ter pensado sobre isso durante toda a correria da primeira vez que havia posto os olhos nela. Só conseguia pedir aos céus que ela estivesse viva e bem.

— Oi. , né? Posso entrar? — perguntou, com o rosto entre a porta e a parede. A garota suspirou e a amiga prontificou-se em responder:

— Claro que sim! — a loira, que agora falava, olhou de soslaio para a amiga como quem diz algo com os olhos e o deu um sorriso frouxo. — Eu sou a .

. — ele apertou a mão da mulher, sorrindo de volta. Parecia ser muito simpática. tinha uma estatura mediana, cabelos loiros e olhos muito curiosos, sua expressão era leve e usava um vestido longo e florido que deu a uma impressão vívida e alegre. Ela parecia muito mais feliz em vê-lo do que a amiga, mas ele poderia imaginar os motivos. — Você parece ser nova demais pra ser a mãe da . — fez uma piada, tentando quebrar o clima de tensão; ela riu um pouco, dando de ombros.

— À uns, a vida dá fama e grana. À outros, o encosto da . — ela fez piada também e o cantor não conteve uma risada frouxa, pegando a referência, mas não soube muito bem como reagir. Não havia sido uma alfinetada, mas ainda assim, se sentiu um pouco constrangido pela falta de intimidade. Voltou seu olhar para a outra mulher em sua frente, que revirava os olhos e arqueava uma sobrancelha para a amiga. — Larga de ser chata e tira essa carranca da cara. Vou ali, comprar um café pra gente. Quando eu voltar, eu espero encontrá-la com um sorriso no rosto e lábios hidratados. O lipbalm tá aí na cabeceira.

E quase implorou com os olhos, por favor, que ficasse. Mas quando notou, ela já havia saído pela porta deixando-o sozinho com , a carrancuda.

Tudo bem. Ele a havia atropelado. Ela estava com uma tala no joelho. Ela não havia gostado de conversar com o seu agente. Ele tinha licença poética para uma carranca.

— Então…

— Eu — ele começou, e primeiro, olhou para todos os ângulos do quarto, menos os olhos dela, que o encarava como quem não tem medo de nada. — sou o . — foi o que ele conseguiu explicar. Nervoso demais. Nervoso como não ficava em muito tempo.

Era óbvio que sabia quem ele era, mas não parecia estar intimidada com toda a pompa de . Na verdade, ela nem ao menos parecia estar chateada com ele. Só realmente demonstrava não estar interessada no que quer que ele estivesse fazendo ali, e essa era uma reação que não recebia havia algum tempo.

— Massa. — ela respondeu ironicamente, no automático. O rapaz soltou uma risadinha infame, sem saber muito bem como reagir à alfinetada, em pé ao lado de sua cama, completamente perdido. , que costumava ter um dom nato para o entretenimento, não fazia ideia de como conquistar seu novo público.

— E você é a .

A mulher a sua frente encolheu os ombros, fazendo uma expressão de quem o acha bizarro e riu pelo nariz, porém sem simpatia alguma: sua risada era de completa ironia.

— Eu sinto muito, . De verdade mesmo. Eu não sei o que te dizer. A culpa foi toda minha e eu queria muito poder voltar atrás…

Encarou-o por alguns segundos, parecendo tentar decifrá-lo. sentiu o estômago revirar um pouco ao se encontrar completamente intimidado pelo jeito que a garota o olhava – como há muito tempo não ficava. Como se estivesse completamente vulnerável. Como se ela pudesse ler seus pensamentos, ver através de suas roupas.

Não era um olhar de ódio. Não era um olhar de desejo. Não era um olhar de admiração. Não era um olhar de escárnio. Não era um olhar confuso. Não era um olhar de desgosto.

As pessoas não costumavam ter reações mínimas quando se tratava de . Era sempre algo grande, a sua presença sempre causava um impacto. Mesmo que um impacto ruim.

Ali, ele não se sentiu . Não havia perspectiva, não havia peso, não expectativa.

Ele era só mais um cara.

— Você sente muito pelo que, exatamente? — a mulher a sua frente perguntou, num tom minimamente curioso, cruzando os braços, recostada na parte de trás da cama. — Por estar dirigindo e mexendo no celular ao mesmo tempo? Por ter me atropelado? Por mandar seu representante vir aqui cinco minutos que eu acordei de uma concussão me oferecer dinheiro para não falar bosta na internet? Ou por ter assumido por si mesmo que eu falaria bosta na internet sem nem trocar duas palavras comigo? Pelas semanas que eu vou ter que ficar mancando? Ou por não ter tomado responsabilidade pelo que você fez?

Ai. arregalou os olhos um pouco, sem ter a mínima ideia do que responder. Todas as opções? A primeira, principalmente?

Como diabos ele havia conseguido ser uma pessoa tão ruim num período de mais ou menos vinte e quatro horas?

Quer dizer, sabia que não estava sendo a melhor das pessoas nos últimos meses, mas, de maneira geral, as pessoas demoravam um pouco mais para descobrir essa sua faceta.

— Cinco minutos? — foi o que conseguiu responder, meio desacreditado. A consciência de pesou alguns bons quilos a mais na hora. Ao se colocar na situação dela também ficaria muito puto, e até quis explicá-la, mas lhe faltavam as palavras e ele não soube o que fazer. ficou nervoso. — Eu realmente não sabia… Foi um dia complicado pra gente também. Eu fiquei muito preocupado e a gente só tentou resolver as coisas de um jeito em que ambos se saíssem bem nessa situação. Você não sabe o alívio que senti ao saber que você estava bem. Eu realmente espero que você me perdoe. E perdoe o Aaron, também. Tentamos lidar com tudo da melhor maneira possível.

— O que, exatamente, é se sair bem dessa situação pra você? — perguntou-o, direta.

As íris que não desgrudavam das dele nem por um segundo e nem baixavam a guarda.

Ele quis fazer uma careta de desgosto, mas poupou-se. Pensou por um segundo. Bom, para ele, sair bem seria algo do tipo que isso não se tornasse um escândalo e que não fosse muito enfatizado na mídia.

Para ela, uma grana a mais, talvez, uma foto com ele? Que ele a seguisse no Instagram? Um contato para um emprego melhor? Estava disposto a conseguir qualquer uma dessas coisas. Mas a cada palavra que ela dizia parecia estar mais errado, e as suas opções, se esvaíam como água caindo pelos dedos.

— Que a gente esquecesse o que aconteceu ontem, virasse melhores amigos e risse dessa situação daqui a alguns meses? — deu de ombros, respondendo com um sorrisinho de canto de lábio, apesar de não ser exatamente o que ele estava pensando. Mas jamais diria o que ele estava pensando.

O que ele estava pensando estava mais para: que você aceitasse a merda da grana e eu nunca mais tivesse que olhar na sua cara. Mas ela não pareceu ser muito adepta à esta ideia quando apresentada da primeira vez.
piscou algumas vezes, realmente surpresa dessa vez.

— Você acha que eu sou otária? — o tom, dessa vez, foi mais ácido e menos contido do que os outros. havia perdido total controle da situação e estava ciente disso, portanto, só seguiu agindo sem pensar, se utilizando de uma outra abordagem.

— Você não é daqui, né? De onde você é? — parecia ter perdido completamente a paciência, porque ela respirou fundo, com um sorriso carregado de sarcasmo, sem respondê-lo. — Quando você sai daqui? Você vai precisar de alguma coisa? O médico deu novas notícias sobre o seu joelho?

— Por que você não se poupa o trabalho e vai, sei lá, fazer uma boa ação pra ver se passa esse seu peso na consciência? Que tal cantar na praça, gravar um show beneficente, uma viagem em um dos países da África? — ela respondeu, por fim. — Com certeza esquecem essa história de acidente em cinco minutos. É assim que funciona para caras como você.

— Eu não quero me poupar o trabalho, eu quero consertar as coisas com você. Eu realmente acredito que posso fazer isso. Se você deixar…

tentou continuar, mas foi interrompido pela voz rouca e rude de .

— Eu acho que faz algum tempo que ninguém te diz umas verdades porque você é tipo o sonho americano — ela começou, revirando os olhos. —, mas se ninguém te diz, tudo bem, eu posso te falar: o mundo não gira ao seu redor, infelizmente. Eu não sabia que você existia até outro dia. Eu não tô nem aí pro que você quer ou deixa de querer. Eu não ligo se você fez merda e quer consertar as coisas, eu não ligo se você ficou preocupado, e eu não ligo pra nada que você fale ou venha me falar porque eu não acredito em você. Você deixou bem claras as suas intenções pelo modo como você agiu. Eu não quero o seu dinheiro. Eu tô cagando pra se você é o ou o Barack Obama, eu não tenho interesse em manter contato com você, porque eu não gosto de você, porque você não foi uma pessoa legal comigo. — ela assentiu, com uma expressão bem mais tranquila. — E você poderia ter sido mais expressivo em Dunkirk. É isto.

O cantor estava muito mais do que chocado. Sua boca até tinha se aberto um pouco. Escutou com atenção cada palavra que a garota tinha dito e, de todos os jeitos que ele pensou que essa conversa pudesse terminar, esse não era um deles. Piscou algumas vezes pra mulher a sua frente, antes de suspirar fundo e abrir a boca algumas vezes, em que nada saía. Sua mente nunca trabalhou tão lentamente assim antes numa discussão com uma desconhecida. Ficou completamente travado. Ela mantinha a expressão lúcida e mais leve no rosto, sorrindo com a boca fechada, como se tivesse acabado de dizer pra ele que o dia estava ensolarado hoje, enquanto tentava processar tudo que havia que escutado. Depois de alguns segundos de um silêncio que não era desconfortável, mas compreensível, ela resolveu continuar:

— Mas pode ficar tranquilo, eu não vou falar nada na internet. Vai ter que confiar em mim, cara.

Ela disse, por fim, e o cantor achou melhor dar a conversa por terminada, porque ele estava começando a ficar puto. Mais expressivo em Dunkirk?

Havia recebido elogios de Nolan pela interpretação!

Tudo bem que ele tinha sido um merda, mas pelo menos estava tentando consertar as coisas e ser uma pessoa melhor. Tinha adiado a merda da sua viagem para Flórida só para conversar ela e estava aqui, totalmente exposto a uma desconhecida, colocando sua carreira em risco, investindo seu tempo, para que no final, ainda tivesse que ouvir um sermão de alguém com quem nunca tinha conversado na vida antes. Por favor. Mais expressivo em Dunkirk? Quem raios ela pensava que era, afinal? A porra da Meryl Streep?

Era só a merda de uma tala no joelho por duas semanas, caralho, não poderia ser tão absurdo assim, e ela poderia ter morrido ou sei lá, e pelo que parecia, estava viva e com a língua bem afiada. Ele estava tentando se desculpar, afinal, até quis recompensá-la. Quem é que nega dinheiro, pelo amor de Deus?

Respirou fundo, engolindo o sapo e saindo da sala do hospital, encontrando uma sentada nas cadeiras ao lado do quarto, na recepção do andar, com seu copo de café da cafeteria do hospital. Ela sorriu pra , solidária, e o estendeu o outro copo de café que tinha na mão.

— Esse é frappuccino, é o que a Isa mais gosta. Mas você pode beber, parece estar precisando. — ela disse, enquanto o cantor se sentava ao seu lado, olhando para um ponto específico em frente, sem acreditar na conversa que tinha acabado de ter. — Eu imagino que ela não tenha sido a pessoa mais simpática do mundo.

riu.

— Ah, que é isso, a sua amiga é bem agradável. — tomou um gole do café que ela tinha oferecido e quis xingar o seu bom gosto. — Me recebeu com abraços e flores.

— Olha, me desculpa, não dá nem pra julgar. Mas você já deve ter ouvido bastante lá dentro, então não vou te dar mais um sermão. — deu um meio sorriso, compassiva. — Eu estava odiando você até olhar na sua cara, também, mas aí você me cativou com toda essa aura de e eu esqueci que estava com raiva de você.

O cantor riu, sentindo-se mais confortável com a garota ao seu lado e respirou fundo.

— A sua amiga é um pouco mais rancorosa, no entanto.

— É. Não foi de mim que você passou por cima com um carro. — retrucou, piscando, e deu de ombros, vendo-o fazer uma careta. — Na real, vocês foram mesmo uns babacas. Você, porque precisa atentar no trânsito, mocinho, algo mais grave poderia ter acontecido. E o seu cara por ser um filho da puta insensível. De todo jeito, que bom que você pelo menos tentou fazer a coisa certa agora. Talvez um pouco atrasado.

— Eu ando sempre atrasado, ultimamente. — desabafou, respirando pelo nariz. — Ela me falou um monte. — riu de nervoso ao se lembrar das palavras de . — Eu não sei mais o que eu posso fazer. O Aaron não fez por mal, nós realmente ficamos muito preocupados com ela, mas a gente precisava resolver as coisas logo porque a minha vida em si é uma burocracia sem fim e eu tenho que dar conta pra muita gente. Nós fizemos tudo o que pudemos para que ela tivesse o melhor cuidado e tratamento.

— Ela tem dessas, mesmo. — a amiga riu, olhando pra cima, parecendo imaginar o que havia dito. — Mas não se preocupe. Ela é uma das pessoas mais honestas que eu conheço, nunca faria algo pra te prejudicar.

— Eu achei que ela foi um pouco mais honesta do que o necessário. — respondeu, rindo um pouco, ao terminar de tomar o seu café. — Você pode me passar o numero dela? E o seu, também. Só para o caso de acontecer alguma coisa. Eu vou deixar o meu com você e você pode me dar notícias. Eu realmente quero saber como ela vai estar nas próximas semanas.

Normalmente, nunca passaria o seu número pessoal e sim o de Aaron, mas não queria que Aaron se envolvesse muito mais nessa situação. Iria tentar ir melhorando as coisas aos poucos, e por isso, decidiu assumir o risco que, naquele momento, lhe pareceu justo.

— Claro. Eu coloco meu número aí, você me dá um oi, e eu te mando o contato dela. — e foi exatamente o que a garota fez, assim que deu a oportunidade. — Pronto. Qualquer coisa, pode falar comigo.

— Muito obrigado, . Foi muito bom conhecê-la. — sorriu, sincero, e assentiu, sorrindo de volta. — E se a precisar de qualquer coisa, por favor, não deixe de me avisar.

— Tá tudo bem, , fique tranquilo. Se preocupe apenas em parar no próximo sinal vermelho.

 

2.

.

Aquela havia sido uma semana difícil para .
Era mais fácil não pensar nas coisas quando se estava muito ocupada o tempo todo – e era exatamente essa a sua rotina na Kapplan. As oito horas que deveria trabalhar se transformavam em pelo menos doze, entre responder mensagens, anotar ideias aleatórias e resolver problemas dos outros. Por um lado estava triste, porque sentia falta de trabalhar, de pôr a mão na massa, era muito boa no que fazia e gostava de sua equipe de trabalho. Por outro, se sentia livre – sabia que não queria passar o resto da vida trabalhando numa agência publicitária, por mais influente, reconhecida e mundialmente requisitada que fosse.

De todo jeito, ficar em casa parada, com a perna pra cima e assistindo Brooklyn Nine-nine não parecia mais conseguir distraí-la, depois de alguns dias. Deitada na cama, repassava certas cenas na sua cabeça – De William Kapplan a Travis Foster e de Travis a e de ao seu assistente mequetrefe e até mesmo chegando ao seu próprio pai, só conseguia pensar em como odiava homens e em como eles eram seres impassíveis de confiança.

Nos primeiros dias, a raiva parecia consumi-la – foram os dias do choro. Assistiu com todos os filmes ruins e tristes que conseguia pensar e comeu muito sorvete e brigadeiro. Xingou-os de todos os nomes que conhecia, inclusive em português. Ela não fazia nada além de passar raiva, comer e dormir. Escreveu um milhão de textos raivosos em seu bloco de notas e desenhou uma série de coisas bizarras e sinistras. Até que chegaram os dias de tristeza, negação, e os de completa apatia.

No meio de um desses, decidiu que deveria ligar para sua mãe contar logo sobre o acidente. Atendeu na primeira ligação, mesmo que fosse uma quinta feira a tarde.

— Oi, mãe. — disse, dando um tchauzinho pra tela. — Cadê o Gus?

Gus era o meio irmão de , de cinco aninhos.

— Não me venha com “Oi, mãe” depois de uma semana inteira sem falar comigo. — a mulher reclamou. — Não acredito que ligou pro Mark e não ligou pra mim.

Patrícia era belíssima, a típica mãe bonita e rica de um seriado adolescente. A aparência sempre impecável, os olhos castanhos com cílios longos, os cabelos soltos em ondas escovadas e perfeitas, e o rosto, na maioria das vezes, maquiado. Patrícia era uma mulher classuda e de nome importante onde moravam, Long Island, na parte litorânea do estado de Nova Iorque, e estava sempre muito bem ocupada – trabalhava com produção de eventos, de casamentos a festas de empresas importantes, onde costumavam morar antes de se mudar para Los Angeles.

poderia, sim, ter ligado para a mãe antes, mas havia sido uma conversa difícil contá-la sobre a demissão da Kapplan, e como não quis entrar em detalhes, apenas ouviu a mulher dialogar sobre a oportunidade que estava perdendo, mas que sabia que encontraria algo novo rápido. Era exaustivo contar coisas difíceis para Patrícia , porque, apesar de ser uma mãe (minimamente) compreensiva, ela era do tipo de pessoa que fazia qualquer coisa dar certo. E nos últimos meses, tudo parecia estar dando completamente errado para .

— E o Gus tá na natação. O seu irmão vive perguntando de você, Isa. Bem que você podia pegar uns dias pra nos visitar já que não tá trabalhando. O que você acha? Eu posso ver as passagens agorinha! — viu sua mãe sorrir e sorriu também, um sorriso chocho e amarelo e fracassado, já cansada e arrependida de ter ligado.

Amava sua mãe, meu Deus, como amava, mas ela era, provavelmente, a pessoa mais acelerada que havia conhecido.

— Eu já vou no aniversário do Gus que tá na porta, mãe. — fez com a mão para que ela se acalmasse. — Vai com calma, Patrícia .

— Você não tem saudades da sua mãe?

— Eu tenho muitas saudades, mas Long Island é tão, tão distante quanto o castelo da Fiona.

— Engraçadinha. Quando eu te ver, vou te dar um abraço e muitas palmadas. — respondeu e riu. — Que tal fazermos um facetime em família, amanhã à noite? Hoje não, porque tenho que acompanhar o Mark num jantar.

— Tudo bem, mamãe, fica marcado. Mas tenho que te contar uma coisinha antes.

— O que você aprontou agora, ?

— Antes de tudo, eu ESTOU BEM, certo? Tá tudo bem — assegurou, enquanto a mãe arqueava a sobrancelha. — Mas sofri uma lesãozinha no joelho porque… Eu fui… atropelada.

— O QUE? , O QUE ACONTECEU? Eu estou indo para Los Angeles agora! Como você me conta isso assim? Como você está se sentindo? Aconteceu algo além da lesão?

Patrícia ajustou a postura, olhando para os lados, como se realmente fosse arrumar suas coisas a qualquer momento e voar para Los Angeles. O que fez entrar num desespero mínimo.

— Não, não, mãe, calma! Tá tudo bem. Eu só tô com essa tala no joelho e vou ter que ficar em repouso por alguns dias. — tirou da câmera frontal e mostrou a sua perna imobilizada. — Já já tiro esse trambolho e volta tudo ao normal.

— Você está bem mesmo, então? Onde está o ? Ele tem cuidado de você, não tem, depois que terminou com o traste?

Patrícia AMAVA .

— Tem sim, mãe. E eu estou bem sim. O cara assumiu todo o b.o e tá tudo resolvido. E você nem acredita quem foi o imbecil que me atropelou.

— Quem? Eu conheço?

— O , mãe. Aquele da boyband que a Yas amava.

— Calma, me deixa pesquisar aqui no Google a cara dele. — ela pareceu concentrada por alguns segundos em que sua tela estava travada. E então, voltou. — MEU DEUS! Foi ele?

— Foi sim. E foi um otário.

— Não me digaaaa! E aí?

— Não pode contar pra ninguém, ok, mãe? Ninguém. Muito menos a Yas. Eu me comprometi legalmente que isso não cairia na mídia.

Foi mais um compromisso consigo mesma por pura questão de que queria torturá-lo, mas não deixava de ser um compromisso.

— Não vou contar, , eu sei manter um segredo — revirou os olhos. Mas é claro que não sabia. O sangue que corria em era um sangue fofoqueiro e ela sabia exatamente de onde ele tinha vindo. — Como assim? Ele não te tratou bem?

— Ele foi até menos pior que o assistente dele. Mas aí eu lidei da melhor forma possível.

— Aposto que você falou um monte pro menino.

— Ele atropelou a sua FILHA!

— Você não morreu, morreu?

— Eu me recuso a responder isso.

— Ainda bem que você falou umas poucas e boas pra ele. Tem que tomar muito cuidado no trânsito! Você tá vendo, quando eu falo pra você não correr com o carro…

— Como é que isso foi parar num sermão pra mim? Eu que fui atropelada!

— Se me escutasse, não era atropelada. Mas escuta, ele é bem bonito, né? Você não trocou telefones com ele?

— Que fetiche estranho, mãe, eu não vou ficar de papo com o cara que me atropelou!

E então, a mãe riu.

— Eu não sei mais o que te falta acontecer, . Me desculpe. Quando coloquei minha filha no mundo, não imaginava que ela fosse ter que passar por tanta doidice!

— Muito engraçado, Patrícia . Tô rindo horrores.

— Foi só um acaso, , aproveita a oportunidade, chama ele pra sair, conhece uns famosos bonitões, você passou tempo demais com o embuste. Você tá na sua melhor idade, Isa! Vai dar uns pegas num cara rico e gostoso e pelo menos dar um motivo pra esse acidente ter acontecido!

— Tá bem, mãe. Vamos falar de outra coisa. Tô só esperando tirar essa coisa pra começar a mandar os currículos. Soube que estão recebendo currículos na Netflix.

— Por que você não escreve um filme e lança de maneira independente? Você sabe que consegue.

arregalou os olhos e riu. Achava que estava sonhando alto quando pensou em conseguir um trabalho na Netflix, mas Patrícia conseguia ir até mais longe.

— Eu amo você, mãe, obrigada por ser a pessoa mais otimista de todas.

, você me ensinou a ser otimista. Quando estava tudo errado e éramos só nós duas num apartamento minúsculo em Recife, eu olhava pra você e via o quanto que você acreditava em mim.

— Mãe…

— É verdade, , e você sabe que consegue até um Oscar se você der na sua telha que é isso que você quer. Você não tem mais nada a perder. Esse é o momento pra você focar em você e se reconstruir. Seu namorado bosta foi embora, você foi saiu de um emprego que não te levaria aonde você quer e está presa em casa com um computador do lado. Pare de reclamar da vida, como sei que tem feito, e vá usar o tempo livre que você tem pra algo útil.

e sua mãe se encararam por um momento em que esa sentiu seu coração se aquecer e sua mente mudar de rumo.

— Tudo bem, Patrícia , entendido o recado.

— Eu amo você, Isa. Vamos ter que trabalhar essa coisa de você me chamar de mamãe, como as filhas normais fazem, mas fica pra depois. Me ligue amanhã de noite para conversarmos, ok?

.

Uma semana havia se passado desde o incidente com e não houve um dia só desde então em que ele não tivesse pensado na garota, e em como ela estava, e em todas as coisas que ela havia o dito. Ele não achava que era o centro do mundo. Pelo amor de Deus. Ela deveria conhecer outras pessoas da indústria musical antes de falar um ai sobre ele. Ele era um dos mais bonzinhos, se quisesse saber.

Tudo bem, ele esperava um tratamento diferente do que recebeu dela, mas não era porque ele era famoso ou porque tinha dinheiro, ou porque era . Mas porque… Bom, porque ele queria um tratamento diferente. Quando parou pra pensar melhor sobre, acreditou ser a falta de costume – fazia muito tempo que ninguém o confrontava daquele jeito. Nem mesmo Florence, sua mãe. Talvez sua irmã Leslie, mas ela era mais nova, então ele não dava muita atenção. De Fletcher e Aaron, já estava cansado de levar broncas, então nem mais levava a sério.

Como ela tinha a audácia de dizer todas aquelas coisas pra ele sem ao menos conhecê-lo quando ele estava tentando fazer algo legal pra ela?

Tudo aquilo o deixava puto, por mais que soubesse, lá no fundo, que estava errado. Não queria ouvir a voz da consciência. Queria encontrar com essa garota de novo e fazê-la escutá-lo e xingá-la até a última geração. Mas também queria que ela melhorasse logo. Também queria saber se ela estava sentindo muita dor. Queria saber se havia algo que poderia fazer para ela.

Ok. Tudo bem. Talvez se sentisse um pouco culpado pelo acidente. E talvez esse pouco se tornasse muito quando ele se prolongava nos pensamentos.

Viu no contato que o havia passado. . não era um sobrenome americano. Mal conseguia pronunciar esse nome. Procurou por ela no Instagram, ignorando as outras milhares de notificações, e depois de entrar em alguns perfis, pareceu identificá-la.

O seu perfil era aberto. Na sua biografia tinha que ela tinha 23 anos e algo chamado Recife que tinha uma seta para LA. Talvez fosse o nome da cidade dela, concluiu. A mulher tinha mais de mil seguidores e parecia ser muito ativa na rede social, na verdade, parecia ser uma especialista em Instagram: o tipo de feed organizado sem querer. Tinham alguns vídeos em compilação do que pareciam ser momentos que faziam sentido pra ela. Em um deles, alguns segundos ela mostrava a praia, e depois passava por sua Piña Collada e, então, um pequeno trecho de rindo com um outro cara. Tinham vários vídeos. Algumas fotos dela tiradas de ângulos aleatórios mas que pareciam se encaixar perfeitamente, fotos com amigos, com a família, mas de um jeito diferente. Parecia ela. Abriu a última foto que ela havia postado sozinha, e então parou pra notar o quanto a mulher era realmente bonita – ela estava sentada num banco alto de frente pra uma bancada do bar, com o braço apoiado no próprio banco e olhava pra foto de lado sem sorrir. Por trás, as bebidas, as luzes azuis, uma grande vitrola, os stickers e o ambiente escuro do bar, as milhares de coisas que davam uma ideia de estar numa discoteca dos anos 80. A pouca luz do ambiente refletia especificamente no seu rosto límpido e tão expressivo que poderia lhe contar uma história. Ele observou a foto, que não tinha nada além de em uma camisa de mangas preta, e tudo que conseguia pensar era que, se ele estivesse naquele bar, naquele dia, jamais a deixaria passar.

Em outra foto, com um vestido azul de alcinhas em que ela parecia estar correndo na Ponte de São Francisco, com toda a vista da cidade por trás. O vento levava a saia do seu vestido e ela ria, empolgada, com os cabelos bagunçados e os braços soltos, o corpo um pouco borrado. Bem diferente da garota que ele tinha conhecido, na verdade. Ou talvez tivesse sido só o momento.

se viu, mesmo sem entender direito o porquê, querendo participar daquele mundo, ver como é, lembrar do que é ser uma pessoa normal com seus amigos normais, ir num bar e passar despercebido. Era como se o perfil dela tivesse algo a dizer e gostava disso. Ficava mais curioso a cada foto que via: como se estivesse vendo duas pessoas diferentes, a pessoa antipática e pouco cordial que conheceu, e a que postava fotos com legendas aleatórias, respondia seus comentários de maneira espontânea, tão engraçada que ele até quis ser amigo dela.

Inconscientemente, buscou por alguma foto que minimamente desse a ideia de um namoro e não encontrou. Ela postava muitas fotos em polaroid com seus amigos, ou com efeito analógico, e em muitas dessas fotos, ele encontrou o cara do vídeo com , e a própria . Viu apenas algumas fotos em que eles estavam sozinhos, também, e por mais que parecessem próximos, as legendas não demonstravam um relacionamento: uma delas era uma selfie com seus rostos próximos à câmera, em que ambos estavam com o nariz e as maçãs brancos de protetor solar. fechava os olhos com força e ria, os cabelos molhados e o fundo de praia, e o cara do lado dela dava língua de olhos fechados também. Na legenda, tinha escrito “a gente aguenta os amigos insuportáveis porque eles nos levam na praia”. Depois, clicou numa foto que era sua mão segurando uma polaroid. Na primeira, estavam ela e , abraçadas, de pijamas grandes e engraçados, cada uma com uma toalha enrolada na cabeça.

abraçava de lado, aproximando seus rostos, e tinha a boca aberta, de olhos fechados e mão livre levantada. Já tomava algo num canudo de um copo de abacaxi, com um meio sorriso. E na do lado, uma selfie, em que aquele mesmo cara tirava, também de pijamas engraçados e também de toalha na cabeça – ele fazia uma careta, enquanto os abraçava sorrindo e estava a ponto de dizer alguma coisa, olhando pros amigos. Achou a foto engraçada e confortável.

A legenda dizia “eu vou me deixar ser brega por um momento e dizer que não sei o que seria de mim sem a (o acabou vindo no combo)”.

Entrou, então, no perfil desse cara. , o seu nome. Já o Instagram dele não parecia ser tão bem cuidado assim – ele postava desordenadamente fotos com efeitos meio psicodélicos (boa parte delas tiradas com o HUJI), tinha um pouco mais de seguidores que a , por volta dos cinco mil, muitas fotos de paisagem e sozinho, e algumas fotos com ela e com , outras fotos com seu cachorro, que era um Pit Bull chocolate com a maior cara de bobo. Ele cantava também, aparentemente, tinha alguns vídeos seus tocando violão e outros instrumentos e cantando que não se interessou muito em ver. Também tinham alguns anúncios do que pareciam ser pequenos shows em bares que ele tocaria.

Clicou na foto mais recente que tinha com ela. Estavam os três num ambiente com luz negra, tinha os lábios pintados em verde neon e alguns traços marcados de tinta neon rosa no rosto. A foto estava meio borrada, o tal tinha os braços relaxados ao redor das duas, sorrindo largo, enquanto ria abraçada olhando pra eles, e a estava de braços cruzados, com uma expressão emburrada, de quem não quer tirar a foto. estava ainda mais bonita naquela foto. Na legenda ele dizia: “eu disse pra que a era a minha melhor amiga de todas e essa foi a reação dela”. Alguns comentários de risada na foto e a brasileira, que colocou um emoji revirando os olhos, e continuou “você é o maior babaca de todos os tempos, ”.

Clicou em uma foto mais antiga, em que os três estavam vestidos de gala, num possível casamento – o fundo da foto era uma espécie de arco rústico da decoração do lugar, posicionados bem no centro, , com um terno preto clássico e uma gravata preta, as segurava pela cintura, e ambas estavam voltadas para ele, sorria sem mostrar os dentes e estava séria, com a boca entreaberta, e um vestido preto que deixava suas costas nuas e os cabelos soltos e bagunçados, como sempre. A legenda dizia “sim, se você está curioso, nós somos um trisal e eu seria o cara mais sortudo do mundo se elas não ficassem de tpm na mesma semana”. achou engraçado, indo ver os comentários, em que respondia com um “fuck u ” e respondeu “nos seus sonhos”.

Por um momento, sentiu uma ponta de inveja deles. Decidiu parar porque havia ido longe demais nisso de stalkear – o que era hilário, caso alguém parasse para descobrir. tinha tudo. Ele tinha tudo o que queria, tanto que, chegou num ponto, em que ele nem mais precisava se esforçar pra conseguir essas coisas. Tudo chegava nele e às vezes ele nem pedia.

Mas ele nem mesmo se lembrava do que era sair com seus amigos, digo, amigos de verdade, não lembrava a última vez que tinha tido coragem de postar uma foto com alguém que gostasse sem se preocupar com as especulações. Não se lembrava da última vez que tinha sido minimamente ele mesmo no Instagram ou em qualquer outro lugar, sem postar fotos de câmeras profissionais tiradas por Helene, sua fotógrafa oficial. Não se lembrava da última vez que tinha tomado um porre com os amigos e realmente se sentido em casa, ao invés de apenas estar tentando não ficar sóbrio com pessoas que pareciam ser seus amigos. Mas no fundo ele sabia que não eram.

Na verdade, se perguntou se tinha algum amigo realmente íntimo que não fosse da banda ou o Aaron e o Fletcher, que pudesse socorrê-lo no hospital, por exemplo, como aconteceu com . Não encontrou nenhum em quem confiasse de verdade.

Decidiu voltar pro perfil de e ver os stories. Ela havia postado uma foto com a caixinha de perguntas e já havia respondido algumas, com piadinhas internas e outras perguntando sobre o acidente.

”O que aconteceu com seu joelho? Vamo no Flip!” E ela postou uma foto da perna dela, com a tala envolta e a muleta que aparentemente ela ainda estava usando, recostada na mesa de centro de vidro, do que parecia ser a sua sala de estar. Na foto, ela escreveu, “eu sofri uma lesão no joelho e tô tendo que ficar de repouso essa semana pra poder ficar boa na próxima. Aproveita o festival por mim, mas vê se não vai dar pt, você não sabe lidar com essas coisas de open bar”. agradeceu mentalmente por ela não ter especificado nada sobre o acidente, riu pelo nariz e pensou se deveria fazer uma pergunta ou não. Riu do seu próprio pensamento um segundo depois. É óbvio que não.

Porém, seguiu-a no Instagram, de todo jeito. Estava interessado no que ela postava e não via problema em acompanhá-la.

E logo após tê-lo feito, teve uma ideia.

n/a: oi! Primeira vez que apareço por aqui. Meu nome é lica e essa é a minha história! Espero que vocês gostem <3