Albumfic: Heartbreak Weather

Sinopse: Eles são um casal por anos, mas terminam quando Niall se muda de San Francisco para Los Angeles a trabalho. Em LA, ele vive entre a dor da distância e do término e as descobertas da vida de solteiro e do novo emprego, que traz uma inesperada “amizade” com a popstar Maya.
Porém, lá no fundo, só existe uma pessoa que o faz se sentir diferente.
Gênero: Comedia Romantica
Classificação: 12
Restrição: Os nomes Carl, Lana, Maya, Rosa, Theo, Julian, Jojo e Wes estão em uso. Os nomes Barbara, Alex, Mark, Erick, Thomas, Johnny, Anthony e Lisa apareceram uma vez na história.
Beta: Bridget Jones


Para conhecer melhor os personagens desse albumfic, você pode ler Anticipation. Heartbreak weather começa 7 meses depois do epílogo.

“Feeling like I’m going crazy and I don’t know what to do. Cause on paper, you don’t break them, but it hurts so bad the way you bend the rules.”

Bend the rules

— Esse não era o combinado. Esse não era o combinado! — ela disse mais alto da segunda vez, para ser ouvida por cima do barulho da chuva que martelava as janelas do quarto naquele momento.
estava muito cansada depois de um plantão no hospital onde era enfermeira e esse parecia ser o pior momento para aquela conversa. Sentou-se na cama, observando o namorado andar de um lado para o outro.
— Sei que não era. Eu achei que fosse um curso, mas era uma entrevista longíssima de emprego e ontem eles me ofereceram o cargo.
havia passado o último mês todo em Los Angeles, era produtor de um dos programas da filial da iHeart Radio de San Francisco e tinha sido convidado para um “workshop” em uma das filiais de lá. Na época, o casal tinha comemorado a oportunidade mesmo que os planos da empresa fossem estranhamente urgentes. se perguntava se havia esquecido algum detalhe no email que o namorado recebera no mês anterior. Forçou o cérebro a buscar aquela memória, mas tudo o que se lembrava era a voz animada dele falando sobre o convite e como precisava estar em Los Angeles em dois dias.
Estava tão cansada! Seus olhos ardiam um pouco e ela não sabia se era sono ou se estava prevendo onde aquela conversa iria acabar. suspirou e se ajoelhou no chão, em frente a ela, dando-lhe um beijo terno na bochecha.
— Eu estava com tanta saudade! — disse, os braços a rodeando.
Ela estava também. Desde que haviam começado a namorar, nunca tinham passado mais de alguns dias sem se ver. E isso levava à pergunta óbvia.
— Você está pensando em aceitar? Até quando pode dar a resposta?
sentiu todo o ar do quarto desaparecer quando ele se endireitou e a encarou. Os olhos transparecendo algo como medo.
— Eu… Eu já aceitei. — respondeu baixinho, a voz cheia de culpa.
A informação era tão absurda, que ela demorou a processar.
— Você… Aceitou?
Não podia ser. não tomaria uma decisão séria assim sem conversar com ela!
— Eles não me deram tempo para pensar.
— Mas… Mas então você sabia que não era um curso?
— Eles chegaram a mencionar que podia acontecer, mas tinham tantos outros produtores que já trabalhavam em LA, que eu nem me importei. Resolvi que ia só aproveitar o treinamento mesmo. — Ele tentou explicar.
Aquilo só podia ser um devaneio devido ao seu cansaço. Ia acordar a qualquer minuto em um susto e perceber que havia cochilado em cima do seu jantar. Não seria a primeira vez. Tinha passado o dia todo esperando ansiosamente para encontrar quando chegasse em casa, imaginando os dois abraçados no sofá, pedindo delivery do restaurante favorito deles, zombando de todos os clichês de Hollywood que ele havia presenciado nos últimos dias. Mas aquela realidade, se é que era mesmo a realidade, não era nada do esperado. Era o oposto! A moça sentia um abismo se abrindo instantaneamente entre ela e o namorado.
A chuva ainda martelava as janelas, zangada, e era exatamente assim que se sentia. A confusão foi rapidamente substituída por um sentimento pior.
— Eu não estou entendendo, . Você está me dizendo que está se mudando para LA? — Ainda havia alguma chance daquilo tudo ser um grande mal entendido, mas os olhos aflitos dele não deixavam dúvida. A situação era mesmo essa.
, eu… Me desculpa! Eu não… Eu não pensei! Era uma oferta de emprego tão boa e…
Ela queria estar feliz por ele, por essa oportunidade, por ter sido escolhido em meio a tantos outros profissionais, mas isso só se tornava mais um motivo para ficar triste. Levantou-se da cama para se desvencilhar do abraço do namorado, ainda atordoada.

— Eu… Preciso tomar um banho. Eu… Esse não era o combinado. — Repetiu.
E eles tinham tantas coisas combinadas, tantos planos! Nenhum deles envolvia um dos dois se mudar de San Francisco. Entrou no banho, ainda esperando que acordasse a qualquer momento, mas isso não aconteceu enquanto tirava o shampoo do cabelo, quando se secou ou quando saiu para vestir o pijama e encontrou deitado com as pernas para fora da cama, cobrindo os olhos com o braço.
Não era um mal entendido e muito menos um pesadelo, precisava enfrentar aquilo. O problema era que ela não queria dizer em voz alta o que estava sentindo profundamente.
… — Tentou.
Na mesma hora seu celular tocou em algum lugar perto da porta da sala. Ninguém ligava a não ser Lana, sua melhor amiga, então ela precisava atender. Suspirou e saiu do quarto, o que de alguma forma chegava a ser um alívio.
— Alô?
! ! Amiga! — Lana estava fora de si. — Amiga, eu preciso te contar uma coisa! chegou? Vocês precisam vir para cá AGORA! — ela falava mil palavras por segundo, em um gritinho animado.
— Lan, eu… — o humor das duas estava em completos extremos naquele momento.
Você não faz ideia! Meu Deus, eu preciso te falar ao vivo! Carl e eu já pedimos o jantar, venham para cá agora.
— Amiga, eu cheguei cansada do plantão. Não pode ser amanhã? — Tentou. — Já estou de pijama.
Mas ela parecia nem escutar.
Não! Tem que ser hoje!
De repente tudo fez sentido para e ela soube exatamente do que se tratava.
— Ok. Chegamos aí em quinze minutos.
Venham rápido!
Aquela noite estava se tornando interminável.

e tinham ido o caminho todo sem conversar e agora, parados no corredor do apartamento de Carl e Lana, evitavam se tocar ou se encarar. Por mais que ele tentasse quebrar o clima, a namorada parecia decidida em seu voto de silêncio.
— Aaaah! Vocês chegaram! — Lana comemorou, abrindo a porta. Ela usava um vestido bonito e tinha um sorriso tão grande, que parecia estar acumulando em si toda a felicidade do mundo.
Cumprimentaram-se e, assim que guardou sua bolsa, foi surpreendida com a mão esquerda da amiga tomando toda a sua visão. Lá estava a versão real de uma imagem que Carl tinha lhe enviado algumas semanas atrás no Whatsapp, pedindo opinião: um anel enorme brilhava no dedo anelar dela.
Lana e Carl estavam noivos.
— Amiga! — exclamou, puxando-a para um abraço apertado. Percebeu as lágrimas escorrendo em seu rosto e, por mais que soubesse que havia um pouco naquele choro que não era relacionado à novidade, também não era assim a pior pessoa do mundo. Estava genuinamente feliz pelo casal, por seus melhores amigos. — Você e o Carl merecem toda a felicidade do mundo!
— Eu vou casar! Eu vou casar! — Lana repetia, dando pulinhos no mesmo lugar.
Depois de muitos abraços, fotos e mais gritos, os quatro se sentaram à mesa de jantar. Os recém-noivos estavam tão eufóricos que acabou absorvendo um pouquinho daquela alegria e resolveu deixar seu próprio drama de lado, pelo menos enquanto estivesse ali.
— Carl! Eu achei que você ia me contar quando comprasse o anel! — disse e ele riu.
— Fiquei ansioso demais e comprei naquele dia mesmo! Chegou hoje no tamanho do dedo da Lan e eu passei a tarde pensando em como pediria. Ia te ligar e tudo, mas quando cheguei em casa… — ele se virou para olhar sua agora noiva, os olhos brilhando mais do que o anel. —Eu pedi no meio da sala mesmo.
Houve uma sinfonia de “Aaaaawn”. As duas ficaram com os olhos marejados outra vez.
— Não precisava ser em nenhum outro lugar! — Lana respondeu, puxando-o para um beijo.
alcançou a mão de por baixo da mesa, segurando-a sobre o joelho da namorada. Porém, do jeito mais discreto possível, ela puxou a mão para mexer no cabelo, se soltando dele, e o rapaz voltou a própria mão para cima da mesa, sem jeito. Eles nunca brigavam, sempre resolviam suas diferenças de forma rápida e sem grandes discussões. Era desconfortável estarem naquela situação porque não sabia como reagir em um ambiente onde a pessoa que mais atraía seus olhares e gestos de afeto não estava interessada em nenhum dos dois. A culpa era 100% dele, ele sabia. Havia pensado mil vezes nas últimas duas horas que deveria ter contado logo a ela sobre essa possibilidade e falado que, se fosse chamado, iria aceitar. Era uma oportunidade incrível, única! E é claro que eles dariam um jeito.
— Como foi em Los Angeles, irmão? — Carl perguntou, chamando sua atenção. — Você chegou hoje?
Não havia a menor chance de contar ali, naquele momento, o que havia acontecido. Ele queria que abraçasse a ideia 100% antes de começar a espalhar a notícia mesmo que precisasse voltar definitivamente para LA em, no máximo, 10 dias. Infelizmente, o antigo produtor de um dos programas da KIIS FM havia descoberto uma doença e tudo estava sendo feito em caráter de urgência para que ele fosse substituído o mais rápido possível. apenas fez que sim com a cabeça.
— Cheguei hoje à tarde. Foi bem legal, aprendi bastante! — respondeu, omitindo informações, mas não mentindo. Resolveu manter a conversa no casamento para não se aprofundarem no assunto. — Mas e aí? Eu já devo começar a playlist da festa ou ainda é muito cedo? — perguntou, em tom de brincadeira.
— Uma playlist? Eu ia te pedir para levar um famoso! — Lana brincou.
queria não conhecer tanto quanto conhecia, não queria saber exatamente quando ela estava forçando a risada.
— Ah, claro!
— Não, não precisa de famoso, mas nós pensamos antes de vocês chegarem e… Queríamos te pedir uma coisa. — Carl começou.
— Um presente. — Lana completou, se virando para o noivo por um segundo, como se quisesse uma confirmação.
— Meu Deus, falem logo! Que jogral é esse?
— Você é a pessoa que mais acompanhou nosso relacionamento, desde o comecinho quando eu ainda me fazia de difícil para o Carl — Lan disse. — E você é todo metido a artista, né? Deus sabe quantas vezes eu te aguentei tocando aquele violão! A gente queria que você escrevesse a música da nossa primeira dança.
esperava muita coisa – incluindo um pedido real de trazer um artista direto da rádio para a cerimônia –, mas não aquilo. Ficou muito lisonjeado com a ideia e alcançou a mão de Lana sobre a mesa, afagando-a.
— Caramba, vocês dois! — Ele se arriscou a olhar para o lado e tentava secar uma lágrima em sua bochecha. Sem encará-lo, porém. — Eu… Vocês tem certeza? Nunca escrevi nada assim, pode ficar uma merda!
— Nós fazemos uma audição um dia antes. Se ficar uma bosta, apelamos para o clichê e usamos Thinking Out Loud. — Carl deu de ombros, fazendo o amigo rir.
— Eu aceito, então. Muito obrigado por me darem essa honra! Prometo me empenhar em uma letra bonita e deixar tudo de constragedor que sei sobre vocês de fora.
Lana riu, apertando a mão dele de volta.
— Tem mais! — ela disse.
— Mais?
— Sim. Nós obviamente queremos vocês dois como nossos padrinhos.
— Vocês são nosso casal preferido, nossos amigos preferidos. — Carl falou. — Não teria ninguém mais perfeito.
O sorriso de se alargou mais ainda.
— É claro que aceitamos! Certificar e dar fé no amor desse casal vai ser a parte fácil.
— Eu mal posso esperar pela vez de vocês! — Lana disse, batendo palmas. — Sem pressão, , mas, né? Se arranjem logo também!
sentiu o coração apertar. Ela estava transbordando de alegria pelos amigos, mas aquele comentário a trouxe de volta ao mundo real. Eles não se casariam tão cedo, não morariam juntos tão cedo. Depois de dois anos dando passos largos para frente, estavam rolando para trás, de volta para o começo de tudo. Ela tinha razão em estar decepcionada, não tinha? Ou estava ficando doida e exagerando? Sentia-se machucada de um jeito que nunca havia se sentido antes, muito menos por alguma atitude de . Queria poder sumir por uma noite e não ter que lidar com nada do que estava acontecendo. As lágrimas estavam outra vez escorrendo em seu rosto, irrefreáveis. Lana pareceu notar e franziu a testa.
? — chamou, em um tom preocupado. Era compreensível que a amiga estivesse chorando, mas não parecia ser um choro de alegria. Parecia intenso demais para isso.
— Sim, sim. Claro que eu aceito! — respondeu como se voltasse de um devaneio. — Me desculpa, gente, estou tão emocionada com tudo isso! Tão feliz por vocês dois! — Ela levantou o rosto para o teto e secou os olhos, fungando. — Mas também estou com um cansaço que não cabe em mim. Acho que eu estou 50% delirando e 50% com as emoções afloradas. — Brincou, dando uma risadinha.
— Você estava de plantão hoje, né amiga? Desculpa ter te tirado de casa!
sorriu e fez que não com a cabeça.
— Imagina! Eu viria aqui comemorar esse noivado com vocês em qualquer circunstância!
Incluindo “No meio de uma crise no próprio namoro”. colocou a mão nas costas dela, com o cuidado de quem já havia sido rejeitado uma vez em menos de quinze minutos.
— Você quer ir? Nós podemos continuar essa festa amanhã.
— Ótima ideia! — Carl disse. — Venham almoçar aqui amanhã!
se sentiu aliviada e grata pela compreensão dos amigos mesmo que não soubessem os motivos reais para ela querer sair quase correndo dali. A moça desejava celebrar aquela novidade com o entusiasmo que a ocasião merecia, sem nenhum outro “evento” tentando apagar o brilho que a data do noivado de Lana e Carl deveria ter. Ela queria estar no estado mental ideal para esse dia.

O silêncio no carro era ensurdecedor novamente. Estavam saindo da rua dos amigos quando se virou para a namorada.
— Vamos… Para a sua casa?
fez que sim com a cabeça.
— Sim. Nós… Precisamos conversar. — A voz dela saiu um pouco rouca, como se não a usasse por anos.
Aquilo soou como um mau presságio para o rapaz, que preferiu não puxar mais assunto até que estivessem lá. Ao chegarem, foi direto para o quarto e, ainda evitando encarar o namorado, começou a trocar de roupa. Ela não sabia como começar, não tinha certeza nem mesmo se sabia o que queria dizer dentre tudo o que estava pensando.
, me perdoa, por favor! — pediu, parado na porta. — As coisas em Los Angeles aconteceram muito rápidas e eu errei em não te contar antes que era como uma entrevista de emprego! Mas eu, de verdade, não esperava que fosse ser convidado.
— O problema não é só esse — ela respondeu.
— Qual é o problema então?
se endireitou, tomando coragem para confessar as coisas que vinham passando por sua cabeça desde que soubera que se mudaria de San Francisco.
— O problema é que eu preciso estar feliz porque você conseguiu um emprego maravilhoso, preciso ser forte e te dizer que vai ficar tudo bem com a gente, fingir que fiz parte dessa decisão ou que não estou decepcionada, preciso estar animada e te ajudar a encaixotar sua mudança e organizar sua vida em outra cidade. E não estou sentindo nada disso! Eu só estou me sentindo mal, com raiva e triste para caralho! — falou, de uma vez só. As próximas palavras, no entanto, saíram emboladas entre lágrimas e soluços. — Eu estou com muita raiva de você, . Nem sei se deveria, mas estou tentando controlar isso a noite toda e eu só sinto raiva e odeio sentir isso pela pessoa que eu mais amo no mundo, mas você não… A gente ia morar junto e ter nosso banheiro azul marinho! E agora você vai para Los Angeles.
atravessou o quarto e a abraçou forte. mantinha as duas mãos no rosto, tentando controlar seu choro.
— Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem. — Ele repetia, talvez para se convencer também.
— Como? — ela perguntou.
— Oi?
— Como? Me explica como vai ficar tudo bem, . Qual é o plano? O que nós vamos fazer?
— A gente ainda vai estar no mesmo estado. Eu posso voltar alguns fins de semana e você vai para lá em outros.
— Eu tenho os plantões. Nós vamos precisar fazer o orçamento dos custos dessas viagens todas.
— Se você ficar criando empecilho, realmente…
— Não é empecilho, é a realidade. Nós não somos mais jovenzinhos imprudentes, não somos ricos para viver na ponte aérea e não estamos em uma comédia romântica do Netflix. Ninguém vai vir e juntar as peças por nós para as coisas darem certo no final.
— Nós vamos dar um jeito, assim como todo mundo dá.
Aquela era uma promessa vazia. Eles não tinham um plano e não teriam tempo de traçar um, as coisas eram exatamente como a moça havia dito. Podiam passar por tudo fingindo que estavam ótimos e ver até onde isso os levaria, ou podiam… suspirou.
— Um relacionamento à distância exige que o casal esteja bem, na mesma frequência e… Eu não estou bem com isso… Com você. E não tenho tempo de me sentir assim, tenho? Não tenho tempo para digerir minhas emoções durante essas mudanças.
Ficaram em silêncio por alguns segundos.
— Eu sinto muito, disse. Dessa vez sua voz soava menos argumentativa e mais triste, como se ele tivesse compreendido algo só agora. — Por ter nos colocado nessa situação.
— Eu não… Eu não estava preparada para nada disso. Eu não… Sei o que pensar.
— O que a gente faz?
Ela levantou a cabeça para encará-lo e havia dor em cada linha de expressão do seu rosto porque ela não queria dizer o que eles deveriam fazer, não queria que nada daquilo fosse real. Doía imensamente mais ter o coração quebrado pelo amor da sua vida.

**

“Are you all dressed up but with nowhere to go? Are your tears falling down when the lights are low? Another Friday night trying to put on a show…”

Put a little love on me

— Feliz um mês de Los Angeles, novato! — Theo disse, lançando um cupcake embalado em papel celofane no colo de e fechando a porta da frente.
— Ah, obrigado pela lembrança! — ele disse, se ajeitando no sofá. — Julian ligou no telefone fixo atrás de você umas duas vezes.
— Eu sei. Não respondi o celular porque estava dirigindo, mas estou indo para a casa dos pais dele agora.
O volume da voz de Theo aumentava e diminuía à medida que ele entrava e saía dos cômodos, passando pela sala. Não fazia nada parado e, na maioria das vezes, não estava falando com ninguém específico. examinou o cupcake.
Um mês! Parecia mais tempo, mas também havia passado rápido o suficiente para dar a impressão que havia sido apenas 3 dias. O trabalho o ocupava durante a semana e, nesse começo, era exaustivo fisica e mentalmente. Nomes, caminhos, números de sala, protocolos para decorar. O treinamento de um mês aprendendo o que iria fazer não era o mesmo que ser o real encarregado pelo trabalho. Treino é treino e jogo é jogo! Mas não tinha do que reclamar, o trabalho era ótimo e a equipe também. Terminava o dia sempre naquele cansaço satisfatório.
Não podia reclamar de onde estava vivendo, tampouco. Tinha passado a primeira semana em um airbnb, mas logo recebeu um convite de Rosa, a co-apresentadora do programa onde começara a trabalhar. Ela morava com o irmão e o cunhado e eles tinham um quarto vago, o apartamento duplex ficava em Burbank, a uma distância razoável da estação de rádio onde todos trabalhavam. Theo, irmão de Rosa, era jornalista esportivo e Julian, o namorado dele, tinha o mesmo cargo de , mas trabalhava no programa da manhã. Os três haviam o acolhido tão bem e eles se acostumaram uns aos outros tão rápido que pareciam ser amigos por anos!
— Theo, vai sair? Quer carona? — Rosa gritou do andar de cima, abrindo a porta do quarto.
— Quero! Você espera eu tomar banho?
— Espero, mas vai rápido.
Ela desceu em direção à sala, ainda colocando os brincos. Estava bonita, em um vestido preto brilhante, mas ela própria era uma pessoa brilhante. Tanto nas roupas que usava, quanto na sua inteligência e personalidade. Era a mais velha dos três, devia estar perto dos seus quarenta anos, mas ainda assim era a mais bem disposta, tinha um ar maternal e era sempre calorosa e acolhedora, mas nada do tipo “já comeu seus vegetais essa semana?” porque, afinal, ela “não tinha filho desse tamanho”. Palavras próprias dela.
— Uau! — exclamou quando ela se sentou na poltrona ao seu lado. — Toda produzida!
— Segundo encontro — ela explicou. — Normalmente eu não me arrumo muito no primeiro porque nunca sei se o cara merece, mas esse até que está valendo minha base cara.
riu.
— Que bom! Espero que continue valendo a pena!
Ela então parou para analisá-lo. O rapaz estava vestido como se fosse sair, mas também parecia que tinha sido parafusado ao sofá.
— E você? Vai ficar aqui vendo TV em plena sexta-feira? Achei que o pessoal do trabalho estava combinando um happy hour.
Ele deu de ombros.
— Eu ia, mas quando vim para casa trocar de roupa, perdi a vontade.
— Tem certeza? O problema é chegar lá sozinho? Eu posso te dar uma carona, enrolar uns cinco minutos e depois ir para o meu encontro.
Era isso. Essa era a pessoa que Rosa era. sorriu, grato, mas fez que não com a cabeça.
— Meus amigos de San Francisco gargalhariam ao ouvir você supondo que eu sou tímido.
Ela riu.
— Quando você vai vê-los? Já está com saudade de casa?
suspirou. Rosa não sabia, mas o motivo dele ter perdido a vontade de sair tinha sido exatamente pensar em quando iria para lá de novo.
— Mês que vem. Eu sinto muitas saudades, mas acho que faz parte, né? Ainda mais tendo acontecido tudo tão rápido. Eu não… Não me despedi das pessoas direito.
Fazia um mês que estava em Los Angeles, então eram 40 dias que e haviam terminado. Aquelas palavras continuavam não fazendo sentido para ele, não eram mais um casal e doía tanto às vezes que parecia que doeria para sempre. O rapaz conseguia se distrair durante a semana, se enchendo de trabalho e de compromissos, mas quando chegava Sexta à noite, tudo parecia cessar e ele voltava a pensar em como havia a perdido por uma derrapada, em como a relação havia terminado com magoada com ele. Essa era a parte mais difícil.
A ex-namorada não tinha ido à festa de despedida na última semana de em SF. Ela havia se voluntariado para uma quantidade desumana de plantões e horas extras no hospital para evitá-lo, ou para evitar pensar. O que ultimamente vinha sendo a tática dele também, porque pensar demais gerava uma espiral de “E se?” e não fazia mais diferença, ele já estava em Los Angeles há um mês.
— É a primeira vez que você sai de São Francisco?
— Para morar, sim.
Rosa sorriu solidária.
— Logo você se acostuma com essa dualidade de ter duas casas.
queria contar a ela toda a história, mas aquele não era o momento. Por isso, apenas retribuiu o sorriso e assentiu, como se estivesse mesmo passando por um episódio de saudade aguda.
— Pronto! — Theo disse, se juntando a eles na sala. — Caramba, Rosa, você está linda!
Ela lançou um beijo no ar para o irmão.
— Obrigada! Vamos? — perguntou, já se levantando e indo conferir sua bolsa. — Novato? Última chamada. Vai ficar em casa assistindo golfe mesmo? Não quer nem mudar para um esporte mais alto astral?
Ele riu.
— Não, está tudo bem!
— Quer algo da rua? — Theo quis saber. — Pizza, outro cupcake, um sofá maior?
Theo e Julian tinham entre 30 e 35 anos, o que fazia de o mais novo entre eles. Desde que se mudara, era exatamente assim que se sentia ou era tratado: como o irmão caçula. Ele achava carinhoso.
— Eu vou pedir algo para jantar. Não esquenta!
— Se cuida! — Rosa disse, por fim, enquanto saíam.
— Você também! Boa sorte!
E então o único som da casa voltou a ser o barulho da televisão. tirou o celular do bolso e releu a mensagem que havia recebido uma hora atrás.

03/05/2019 18:22
Contato: Lana

Aaaaaa, que saudade de você! Como estão as coisas?
Espero que esteja tudo bem no seu trabalho.
Posta mais fotos. Quero ver onde você mora!
Te avisando um mês antes porque não quero desculpinhas:
A minha festa de aniversário esse ano é dia 08/06. Você vem, né?

A festa de Lana era onde havia se reencontrado, apaixonado e ficado com pela primeira vez. Significava demais para ele e o garoto esperava que para também, por isso ainda não sabia se seria bom ou ruim rever a ex-namorada logo nessa data. Porém, também se tratava do aniversário de uma de suas melhores amigas e seria uma grande desfeita se não fosse. Respirou fundo e a respondeu, sentindo-se de repente muito nervoso.

03/05/2019 19:40
Lan! Morrendo de saudade também!
Sobre seu aniversário, eu jamais perderia esse evento!
Meus pais talvez já tenham ido para a Irlanda,
então reservem o quarto de hóspedes de vocês para mim.
Vamos combinar logo a chamada de vídeo
para eu mostrar minha casa para você e o Carl.

Jogou o celular na poltrona e voltou a assistir a partida de golfe, sem realmente prestar atenção.
Será que também se sentia assim? Será que também estava em casa, incapaz de se divertir ou distrair? queria poder ligar para ela, perguntar como tinha sido a semana, contar da rádio, de Rosa, Theo e Julian, saber sobre o hospital e rir de como Lana devia estar a atormentando, se tornando a bridezilla mais engraçada de San Francisco. Queria ouvir a voz e a risada dela. Talvez o que mais doesse fosse exatamente isso. Na velocidade que tudo aconteceu, ainda não havia aprendido como não compartilhar sua vida com .

**

“Nice to meet ya! What’s your name?”

Nice to meet ya

O programa da tarde da KIIS fm, apresentado por Jojo Wright e Rosa Perez, sempre recebia uma infinidade de artistas da música. Naquela quinta-feira a convidada era a cantora Maya, que estava lançando o lead single do seu segundo álbum. Programas com artistas pop geralmente significavam uma equipe grande na rádio, gravações de conteúdos extras e milhares de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Eram os dias que realmente faziam suar e terminar o expediente exausto. Por isso, ele não estava presente quando ela chegou para começar a entrevista com Jojo. Precisava conferir se estava tudo certo com a live que iriam fazer e com o espaço onde mais tarde gravariam uma sessão acústica.
Faltando apenas um minuto para irem ao ar, correu o andar todo em direção ao estúdio e aproveitou o intervalo comercial para entrar e sentar de volta em sua mesa. Acenou para alguns conhecidos rapidamente, colocou seus fones e só então percebeu que era observado. Se deu conta de que nunca tinha se encontrado com Maya pessoalmente enquanto trabalhava em São Francisco. Com certeza se lembraria.
A cantora tinha cabelos longos, escuros e volumosos que pareciam dançar em volta dela mesmo sem nenhum vento no ambiente. Tinha traços que enfatizavam sua descendência latina e um olhar confiante e divertido de quem não se levava a sério demais. E esse olhar, que parecia um redemoinho, fazendo as coisas girar ao seu redor até serem sugadas, ia e voltava para enquanto ela era apresentada.
— Seja bem vinda, Maya! Um prazer ter você aqui de volta! — Jojo disse, sorrindo. — Quanto tempo!
— Oi Jojo, oi Rosa! Eu estava com saudade de vocês! — cumprimentou, sorridente. — Faz tanto tempo que eu até não conheço mais metade da equipe do programa! — Brincou, os olhos se fixando em como uma câmera dando zoom no objeto desejado.
O apresentador riu.
— É, verdade! Você não conhece nosso novo produtor, né?
— Não. Prazer! — ela disse sorrindo e acenando.
acenou de volta. Sentiu o rosto todo corar e ele não era de ficar constrangido facilmente.
— E por onde você andou no último ano? — Rosa perguntou, trazendo o assunto de volta para a pauta. Olhou de relance para o amigo e precisou apertar os lábios para não rir.
— Eu tirei o último ano para descansar um pouco. A turnê do “Eternity” foi bem longa, o que foi ótimo e muito gratificante, mas precisei de um tempo recarregando as energias antes de entrar em estúdio para o novo álbum — explicou.
— Você também passou um tempo na América do Sul, certo?
Maya fez que sim com a cabeça.
— Passei uns meses na Colômbia, onde minha mãe nasceu, e foi uma experiência muito maravilhosa! Revi meus familiares e explorei bastante o país!
— Você acha que essa viagem influenciou o som do seu novo trabalho?
— Com certeza! Influenciou a música, as cores da capa e do clipe, até o título. Que é… Será que eu conto? — falou, fazendo um suspense.
— Conta! A gente não espalha. — Rosa brincou.
— O meu segundo álbum foi nomeado “¿Cómo te llamas?”.
— “¿Cómo te llamas?”, que significa… — Jojo perguntou.
— “Como você se chama?” — Maya respondeu, os olhos passeando pelo estúdio até pararem em outra vez. — Eu me lembro de dar autógrafos enquanto estava em Cartagena e falar isso muitas vezes enquanto escrevia as dedicatórias ou conversava com os fãs. Achei que era um nome legal. Me apresentei no meu primeiro álbum e agora sou eu perguntando o nome deles.
— Adorei o conceito! — O apresentador exclamou. — Muito atencioso com sua base de fãs.
— Obrigada! Eles é que são extremamente carinhosos comigo!
— E o novo single…
— O novo single se chama The Sea. Para mim, ele é a música perfeita para o verão! Eu espero que as pessoas escutem na praia, nas festas na piscina, ao ar livre. É uma música feita para se ouvir em ambientes externos, o mais alto possível!
— Vocês ouviram a Maya! Se estiverem nos escutando no quarto ou no escritório, saiam no quintal. — Rosa disse.
— Na janela, na sacada. Escutem a música do lado de fora! — a cantora completou, rindo.
— Fiquem agora com The Sea, o novo single da Maya, e nós voltamos já, já com datas de lançamento, de turnê e… Uma supresa! — Jojo falou, antes de começar a música.
Assim que os microfones foram mutados, a moça deu um gritinho animado e trocou high fives com sua equipe, que a rodeava. Alguém entregou o celular a ela, que logo começou a fazer Stories, se filmando enquanto ouvia a música que agora saía das caixas de som. Jojo se debruçou sobre a mesa.
— Querida, você prefere tirar nossa foto agora ou no fim da entrevista?
Ela se virou na cadeira giratória, vendo que Rosa conversava com o novo produtor do outro lado do estúdio.
— Pode ser agora. — disse. — Rosa, você vem? — perguntou, chamando a atenção dos dois.
— Claro!
Maya sorriu ao perceber o rapaz vindo também e a co-apresentadora passar o celular para ele. Assim que tiraram as fotos, ela pediu para conferir se haviam ficado boas.
— Fiquei bonita? — perguntou.
— Ficaram todas ótimas! — ele respondeu, meio sem jeito.
— Qual é o seu nome mesmo? Faz tempo que você começou aqui?
— Sou , prazer! — respondeu, lhe estendendo a mão. — Não, eu comecei faz uns dois meses.
— Seja bem vindo, ! — Maya exclamou, dando um sorriso que era tão charmoso que devia ser contra a lei.
— Ma, 30 segundos! — Alguém da equipe a alertou.
Ela soltou sua mão da dele, ainda sorrindo, e foi se sentar novamente. O final da entrevista passou como um borrão de tempo para o rapaz, assim como o resto da tarde. Era muito difícil se apegar a horas quando se estava tentando nadar para longe de um redemoinho.

descia as escadas do seu quarto para o primeiro andar, pronto para a sessão cinema que tinham planejado naquela noite. Foi então que ouviu a risada alta de Rosa.
— Olha aí, se não é o novo namorado da Maya. — ela zombou da cozinha. Não tinha parado de atormentá-lo sobre isso desde a hora que saíram da estação.
! — Julian, fazendo a pipoca, estava boquiaberto. — Uma superstar! No seu segundo mês em Los Angeles, que sucesso!
— Quem é Maya? — Theo perguntou. Seu conhecimento do mundo pop adolescente/jovem adulto era praticamente nulo.
— Aquela cantora, amor. — o namorado tentou. — Uma bem bonita que a gente viu no Nobu uma vez. Vai sempre à KIIS.
— Não faço ideia. — Theo deu de ombros, mas pareceu interessado e se virou no sofá para entrar na conversa. — O que tem ela?
— Estava dando em cima do novato. — Rosa explicou. — E ele estava retribuindo!
— Eu shipo! — Julian provocou, fazendo a cunhada gargalhar.
— Nada disso aconteceu. Ro está vendo coisa onde não tem. — respondeu, incomodado. Toda a energia que ele tinha gastado desviando seu olhar do de Maya durante a sessão acústica naquela tarde dizia o contrário.
— Não sei porque você está nessa negação toda. Ela é uma das artistas mais lindas e bacanas que eu conheço. Ela só, talvez, te coma vivo.
Julian riu enquanto desligava o fogo e despejava a pipoca recém-pronta em um balde. Os três se juntaram a Theo em frente à TV.
— Maya é uma força da natureza. — Ele ponderou, antes que ficassem em silêncio e o filme começasse.
E ela parecia ser mesmo. Bonita e caótica como um furacão. A última coisa que poderia querer na vida dele naquele momento.

**

“Did I miscalculate this? Let’s just go back to basics, forget about what’s come and gone.”

Still

Carl e Lana tinham um novo integrante na família. Um cachorrinho branco e cinza que era pequeno e energético – como Lana – e agora tentava comer a pulseira do relógio de . O rapaz veio de Los Angeles para a festa de aniversário dela, para onde iriam assim que comessem algo. Lana se juntou a ele no sofá, acarinhando o filhote enquanto Carl ia até a cafeteria.
— Como você está? — ela perguntou.
sabia o que ela queria dizer, mas tentou evitar o assunto.
— Estou bem. Acho que agora já posso dizer que me adaptei à rotina nova.
Ela sorriu.
— Que bom! O pessoal que mora com você parece ser gente finíssima!
— Eles são! Ainda preciso promover esse encontro em algum momento. Vocês irem me visitar ou eu trazer eles para cá.
— Ou no meio do caminho. Vamos todo mundo para Carmel!
gargalhou.
— Carmel não é o meio do caminho, Lan, é aqui do lado!
— Ah, mas Los Angeles é muito longe. E muito quente!
O amigo balançou a cabeça e achou melhor não discutir.
— E você? Tudo certo com os preparativos do casamento?
— Mais do que certos! — Lana respondeu. — Vai ser dia 9 de novembro, reserve a data!
— Desse ano?
— Sim. O salão do hotel que nós queríamos tinha essa data livre e a próxima era só no final do próximo ano. Não tinha porque esperar.
Ela parecia estar tão tranquila que nem a reconheceu. Devia ser a confiança de que qualquer coisa funcionaria se no fim do dia ela estivesse se casando com Carl. Sabia mais ou menos como era esse sentimento, essa certeza.
— Bom, então eu preciso me apressar com a música, né? — Brincou, fazendo a amiga rir.
— Por favor! — ela então suspirou e colocou a mão sobre a dele. — E como você está em relação a ? Devo me preocupar hoje à tarde?
— Você não deve se preocupar com nada hoje à tarde. É seu aniversário!
.
A voz na cabeça dele, que falava como , riu e gritou “Evasão!”.
— Eu não vou forçar minha presença para ela, nem forçar uma aproximação. — falou. Havia passado a semana toda pensando nisso. — Não se preocupa, não quero gerar climão nem na festa de hoje e nem no casamento. Também não vou fazer vocês terem que escolher entre eu ou ela e duvido que faria algo assim. No que depender de mim, eu…
— Minha preocupação não é essa. Jamais achei que algum de vocês fosse ser qualquer coisa que não fosse civilizado. Eu estou mesmo preocupada é com os dois, com cada um separadamente, com o seu coração e o dela nesse reencontro.
— Você não precisa se preocupar. — ele repetiu, incapaz de dizer mais do que aquilo.
— Eu não entendo, .
O rapaz se mexeu, desconfortável, no sofá.
— Você provavelmente conversou com a mais do que eu desde o fatídico dia do seu noivado, Lan. E as razões são todas dela.
Os dois haviam terminado naquela mesma noite e, no dia seguinte, apenas apareceu para almoçar com os recém noivos, como havia sido combinado. Estava abatido, triste, sem dormir, falando coisas desconexas sobre o término e contando que iria se mudar para LA em menos de duas semanas. Era compreensível que Lana não entendesse.
Mas ele acreditava que as duas tinham conversado depois disso porque, quando os amigos surgiram com a festa de despedida surpresa, Lana já parecia um pouco mais conformada e apenas informou que não compareceria porque estava emendando um plantão no outro.
— Eu sei. Entendo porque aconteceu, eu só… Vocês dois… — Ela levantou o rosto. — Eu não devia estar falando nada disso, né? Como se você já não tivesse que lidar com tudo, eu ainda quero te transferir minha tristeza.
Ele sorriu, meio derrotado.
— Como está?
Lana deu de ombros.
— Triste, trabalhando muito e se fazendo de doida quando eu puxo esse assunto também.
achou graça naquilo. Agora ela era uma evasora também.
— Vai ficar tudo bem, não vai? — perguntou e, pelo jeito como Lana o olhou, percebeu que seu coração também estava partido com a situação. — Eventualmente?
— Claro que vai.
— Eu prometo me esforçar para ser antes do seu casamento!
Lana riu e puxou o amigo para um abraço meio de lado, tentando não acordar o cachorrinho que agora cochilava entre eles.
— Não precisa me prometer isso. Eu só… Quero a minha música mesmo.
gargalhou e fez que sim com a cabeça.
— Justo!
Ele se manteve aplicando táticas avançadas de evasão até Carl voltar, porque não queria mais falar sobre . Em algum lugar de seu íntimo havia uma esperança que ele deixara crescer durante os dias que precederam sua viagem para San Francisco, de que talvez os dois pudessem se entender durante a festa e voltar. Mas se Lana não demonstrava nenhum tipo de otimismo… Se estava, na verdade, com medo que precisasse passar seu aniversário consolando um dos dois… Então deveria colocar essa ideia de lado também. Era difícil, porque era como perdê-la outra vez e ter que passar por tudo de novo.

A festa de Lana, sempre o acontecimento mais esperado do verão, naquele ano tinha ganhado ainda mais importância. logo descobriu que era um dos únicos que já sabiam a data do casamento, que os amigos pretendiam anunciar durante o aniversário.
O tempo, porém, parecia não ter sido avisado da grandiosidade do evento que acontecia no quintal da casa dos pais de Carl, nuvens escuras ameaçadoras cobriam o céu. Mas ninguém parecia se importar com aquilo, então devia haver alguma previsão da qual não estava ciente sobre nenhum risco de chover. Além disso, havia outras coisas mais próximas do solo para tomar a atenção do rapaz.
estava linda! Ele não duvidava que estaria, tampouco tinha esquecido seu rosto naquele curto espaço de tempo. Revê-la, no entanto, ainda doeu como pisar descalço em uma pecinha de Lego.
Cumprindo o que havia prometido a Lana, tentou manter distância e não alarmar ninguém. Como o espaço era aberto, conseguia se movimentar de forma que sempre estivesse no extremo oposto de onde estava. Já era incômodo o suficiente que vez ou outra alguém olhasse de um para o outro com um ponto de interrogação no rosto ou que pessoas cochichassem rápido, indicando-os com a cabeça, achando que estavam sendo discretas. não queria fazer uma cena, mas seus olhos a seguiam involuntariamente, como sempre acontecia desde a escola. Era como uma realidade paralela que estivessem ali, logo em um aniversário da Lana, e ele precisasse evitá-la.

estava fechando a porta do banheiro no segundo andar quando ouviu outra porta batendo no corredor. Seu coração disparou ao perceber que era . Duas horas dançando pelo quintal para não ficarem muito perto ou para não se olharem por muito tempo. Na ânsia de parecerem cordiais e maduros, haviam até posado, cada um de um lado, para a mesma foto. Depois se misturaram e se camuflaram outra vez entre os convidados, em uma partida estranha de pique esconde. E para quê? Para acabarem ali, do mesmo jeito de sempre: se encontrando sozinhos em algum momento da festa, como a mágica que acontecia em todo aniversário da Lana. A mágica que já tinha acontecido naquele mesmo corredor, inclusive.
— Já vi essa cena antes. — ela disse, chamando a atenção dele. Sorriu tímida, sem saber se estava fazendo o certo ou se devia ter corrido e se trancado no banheiro até que ele sumisse de novo.
sentiu um alívio que nem ele mesmo esperava sentir ao perceber que a voz dela era amigável. Talvez porque não houvesse ninguém ali os vendo, então podia ter certeza que aquela cordialidade era real e não parte do teatro em que estavam encenando juntos no quintal. Sorriu de volta.
— A gente devia saber que aconteceria, com essa coisa meio Dia da Marmota que rola nos aniversários da Lana. — Brincou.
riu e foi caminhando devagar até ele. Queria dar tempo suficiente para impedí-la, se não quisesse conversar.
— Está fazendo o que aí? — perguntou.
— Vim conferir se Snoopy estava bem.
Os olhos dela se iluminaram.
— Snoopy está aqui?
Ela já devia conhecer o filhotinho de Lana e Carl, porque assim que ouviu seu nome, andou mais rápido para chegar até onde estava e, quando ele abriu a porta, ela imediatamente se sentou no chão, pegando o cachorro no colo.
— Hey, bebê, te esconderam aqui no quarto do seu pai?
— Lana achou que seria difícil não perdê-lo pelo quintal. — O rapaz explicou. — Ele teria que ficar na coleira, seria complicado.
— Faz sentido.
podia deixá-la ali e voltar para a festa, mas tinha um compromisso com o destino. Se tudo havia conspirado para colocá-los outra vez sozinhos naquele corredor, ele só devia acatar. Sentou-se no chão ao lado dela, com os joelhos dobrados e os braços esticados sobre eles. Ficaram um tempo em silêncio, o único som vindo das patinhas de Snoopy no assoalho.
— Você…
— O que…
Perguntaram ao mesmo tempo e riram. Havia tanto para se perguntar!
— Pode ir primeiro. — disse.
— Você chegou hoje?
Ele virou o rosto para olhá-la. De onde estava podia sentir o perfume que usava e teve a cabeça inundada por memórias. Esse era o perfume de “ocasiões especiais”, tinha cheiro de festas de aniversário, jantar com os pais dela quando oficializaram o namoro e do réveillon de 2018 para 2019. Fazia se lembrar de estarem bêbados e embolados um no outro, de pegar no sono com o nariz no pescoço dela.
— Cheguei. Hoje de manhã. — respondeu. Parecia estar engasgado em tudo o que queria dizer, mas acabou perguntando apenas o básico. — Como… Como estão as coisas?
levantou o rosto e os olhos deles se encontraram. Estavam perto demais, ela notou. Podia examiná-lo com cuidado, tentar achar qualquer sinal do que havia mudado no ex-namorado nos últimos meses. Por um tempo, se pegou imaginando o que faria se uma versão de bronzeada artificialmente e todo afetado pelas manias “de LA” aparecesse no aniversário. Talvez então fosse mais fácil não sentir o nó na garganta que estava sentindo apenas por olhar para ele. Para o de sempre, que ela amava tanto.
A resposta padrão seria “Tudo sim e você?”, mas ela se pegou desesperada para dizer mais, para não caírem em uma conversa impessoal e formal, para não deixar que a distância entre os dois fosse esse abismo, que nem conseguissem ser eles mesmos.
— Trabalhando. Muito. Existe um movimento real de pessoas querendo transformar uma sala desocupada dentro do hospital em minha casa. — contou, brincando.
Mas franziu a testa, preocupado.
— Se você está fazendo plantōes um atrás do outro desde que eu fui embora,
Mas ela o interrompeu.
— Ah não. As pessoas acham mesmo que eu comecei nisso quando nós terminamos, mas a verdade é que eu estou fugindo da Lana.
A expressão no rosto dele se suavizou e ele riu.
— Ela já está te infernizando?
— Bom, me diz você quantas mensagens já recebeu sobre a música.
— É sempre em tom de brincadeira! — Ele disse, exasperado. — Eu nunca sei se é pressão ou piada.
Foi a vez de gargalhar.
— Eu amo essa mulher de paixão desde que tinha 7 anos de idade, mas ela é MALUCA! Um casamento em 5 meses!
— Mas Lana parecia calma com isso.
Agora ela está calma.
balançou a cabeça, sua alma parecia estar leve como uma pena com aquele diálogo. Eles ainda eram capazes de conversar normalmente.
— É um pouco insensível que eles ainda queiram que eu escreva uma música de casamento, não é? Quando eu estou na fossa.
concordou.
— Eu pensei nisso algumas vezes. Difícil falar de amor eterno nessa situação, né?
O rapaz a olhou de relance. Ela brincava com Snoopy, mas seu olhar parecia vago.
— Eu… Me desculpa. É muito cedo para falarmos sobre isso.
Mas fez que não com a cabeça
— Não, é bom conversar. — Levantou os olhos para encará-lo. — Eu não acho que exista alguém no mundo que entenda o que eu estou sentindo como você.
Ficaram um tempo em silêncio, mas tinha algo que queria dizer desde a primeira semana dele em LA e essa parecia ser a hora certa.
— Eu sei que já pedi desculpas, mas naquele dia eu acho que nem sabia direito pelo que estava me desculpando — falou. — Me desculpa, . Por ter feito uma escolha tão egoísta!
Ela deu de ombros.
— Você não sabia que estava fazendo uma escolha quando aceitou o emprego. Você só… Achou que dava para ter tudo ao mesmo tempo.
assentiu. Era exatamente o que tinha pensado no dia em que tudo desandou.
— Mas mesmo ter essa certeza era egoísta. A gente devia ter conversado sobre isso no meu primeiro dia em Los Angeles. Porque, mesmo não acreditando que aconteceria, eu vislumbrei a ideia quando soube do cargo.
—Você é TÃO bom no que faz, tão dedicado! É claro que iriam te chamar. Se você me contasse, eu teria essa certeza.
Ele sorriu.
— Enfim, eu só… Eu entendo onde errei. E queria te pedir perdão outra vez.
fez que sim com a cabeça.
— Eu preciso me desculpar também. — falou, limpando rápido uma lágrima que caía em sua bochecha. — Eu… Te disse coisas horríveis! Estava tão fora de mim, tão zangada! Era por causa dos nossos planos, pelas coisas que iam acontecer, coisas que nunca mais vão acontecer. Eu não deveria ter ficado tão puta com algo que ainda estava tão fora do nosso alcance. — Explicou. Ela nem percebeu o que havia dito, mas foi o “coisas que nunca mais vão acontecer” que realmente doeu em . — Eu não acredito que te falei que precisaria fingir que estava feliz pelo seu novo emprego!
— Não foi isso que você disse.
— Mas de alguma forma foi isso que eu quis dizer. E foi tão errado! Eu fui tão egoísta também. – O rapaz fez que não com a cabeça.
abaixou o rosto e abriu sua bolsa, procurando por algo nela. Tirou um quadradinho azul e entregou para . Era um pedacinho de azulejo azul marinho, com uma sequoia desenhada em tinta branca. Ele passou o dedo com cuidado sobre a árvorezinha e sentiu seu coração apertar.

— Eu ia pedir para a Lana te entregar, mas é melhor ainda que possa ser pessoalmente. É para a sua casa nova. Quero que saiba que estou feliz por você, que fez a escolha certa mesmo… Mesmo que não fosse uma escolha.
a encarou, incapaz de responder o que quer que fosse. Secou com o polegar uma das lágrimas descendo no rosto dela. encostou seu rosto delicadamente na mão dele, como se quisesse aumentar a superfície de contato entre os dois.
— Obrigado pelo presente. — ele disse, por fim. A voz saindo com dificuldade. — Significa muito para mim saber que você não me odeia.
Ela deu uma risadinha de deboche.
— Como se isso fosse possível!
— Você tentou bastante no ensino médio.
riu abertamente dessa vez e sorriu ao vê-la assim.
— A gente já discutiu isso quinhentas vezes! Eu nunca cheguei a te odiar. Era quase o oposto, na verdade. Eu te idolatrava.
— Era mútuo.
Ainda era.
Sorriram um para o outro e ficaram mais uma vez em silêncio.
— Onde você conseguiu esse azulejo? — perguntou, ainda admirando o presente.
— Eu roubei do banheiro dos pais do Carl quando vim aqui com a Lana no começo da semana. — contou, apontando para trás. — Puxei com uma faquinha, mas é bem no canto, não dá para ver.
Ele arregalou os olhos.
— O quê?! , ficou maluca?
Mas a moça riu.
— Estou brincando. É uma amostra grátis que pedi em uma loja.
O rapaz colocou a mão sobre o peito, rindo também.
— Eu não sei por que achei, por um segundo, que pudesse ser verdade, mas foi um puta susto! — Se pegou olhando de novo para a peça. — Já estava com medo de ter que devolver.
Ela sorriu e balançou a cabeça.
— Não. Essa é só sua.
poderia ficar ali pelo resto da tarde – e da vida –, mas checou o relógio e achou que era melhor voltarem para a festa.
— Vai indo. — disse, levantando-se depois dele. Snoopy já tinha ido deitar na própria cama há algum tempo. — Vou precisar ir ao banheiro antes, para lavar o rosto.
Era melhor que não aparecessem no quintal juntos também. Ficaram um tempo sem saber como se despedir, mas ela optou apenas por apertar o braço dele de um jeito carinhoso e acenar quando continuou o caminho no corredor. O rapaz ainda tirou o azulejo do bolso uma última vez aos pés da escada e o examinou, aquele pedacinho frágil de cerâmica representando tudo o que ele não queria mais perder ou deixar quebrar.
Ao sair, percebeu uma claridade que não estava ali quando tinha entrado na casa. O céu agora tinha pedaços em azul e raios de Sol perseverantes atravessando as nuvens cinzentas. Lembrava um pouco a sensação de quando você respira fundo e se acalma depois de chorar por muito tempo. Era como algo que definitivamente podia ser melhor, mas que era o melhor que se podia ter naquele momento.

**

“I’m hoping you get her out of my mind… I need a new angel.”

New Angel

sorriu para o celular. tinha respondido com um emoji fofinho na foto do fim de semana que ele havia postado com ela, Carl e Lana. Mesmo que aparentemente nada tivesse mudado e eles não tivessem voltado, dentro do rapaz tudo estava diferente. Dificilmente seriam melhores amigos, era verdade, mas estava conformado em serem amigáveis. E mais do que isso! Saber que a ex-namorada havia o perdoado e que o apoiava na decisão de se mudar para Los Angeles tirava dele algo que nem percebeu que estava fazendo: havia se colocado de castigo em LA.
Recusava-se a se divertir como se isso, de alguma forma, o livrasse da culpa de ter se mudado. Era irracional e não fazia diferença, ele sabia, mas tinha sido um jeito involuntário de se punir pelo término, por ter feito sofrer. Entretanto, não sentia esse peso sobre os ombros mais. É claro que escolheria mil vezes o universo paralelo em que os dois não tivessem terminado, mas essa não era uma opção possível.
— Vocês acabaram de ouvir The Sea, com a Maya. — Rosa disse quando a música acabou, fazendo-o se assustar, guardar o celular rápido e voltar ao trabalho. — Maya, que vai se apresentar no Wango Tango semana que vem, e nós estamos sorteando ingressos lá no nosso site!
A opção possível para era viver inteiramente o universo em que ele estava.

Trabalhar em uma filial da iHeart Radio também consistia de… Não trabalhar na rádio. Ou trabalhar, mas não na rádio. E durante os fins de semana. E era por isso que , Rosa e Jojo estavam bem vestidos e testando microfones e pontos eletrônicos na sala de imprensa de um estádio, em pleno sábado. Eles iriam entrevistar os artistas que se apresentariam no Wango Tango, um festival de música organizado pela rádio. As maiores estrelas da noite conversariam com Ryan Seacrest, é claro, e eram responsabilidade dele e do Julian, mas o time da tarde da KIIS FM estava encarregado de receber as primeiras atrações.
Tudo seguia tranquilo e eles já estavam no meio do lineup quando ouviram vozes e risadas altas vindas do corredor. aproveitava o intervalo para tomar água quando Rosa sorriu de lado, olhando para ele, e apontou para a porta com a cabeça. Maya parecia flutuar pela sala. Seu sorriso era enorme e havia nela essa aura de que sempre estava no único lugar do mundo em que queria estar. Usava um vestido colorido e uma sandália de salto muito alta, se sobressaindo em meio às pessoas presentes no ambiente. Era impossível não admirá-la, não era o único observando cada movimento dela.
A primeira coisa que fez ao se aproximar dos apresentadores foi elogiar a roupa que Rosa usava. Não havia um pingo de falsidade em nada do que ela falava.
— Ro! Como você está? Meu Deus, que saia mais linda! Que grife é?
Enquanto elas conversavam, parou ao lado de Jojo para perguntar algo, então os olhos dele se encontraram com os de Maya e o rapaz se lembrou do que Rosa havia lhe dito. Sim, a cantora iria comê-lo vivo. E ele não se importaria.
— Hey, produtor! — disse sorridente, dando dois passos em sua direção para cumprimentá-lo. sentiu os lábios dela em sua bochecha, as mãos apertando de leve seu ombro. — Ih, te manchei, desculpa! — Maya riu, passando os dedos com cuidado no rosto dele, limpando o batom que tinha ficado ali.
— Ah… Tudo bem. — Ele respondeu.
Os dois trocaram olhares outra vez, mas assim, tão perto, era quase insuportável. se sentiu queimando em brasa. Rosa virou o rosto, tossindo para disfarçar a risada, e até Jojo pareceu ter percebido o clima dessa vez.
— Pronta? Podemos começar? — ele perguntou num ato solidário, para dar um respiro ao amigo.
E, em um segundo, ela se virou e foi se posicionar entre os dois apresentadores, ajeitando o cabelo como se nada tivesse acontecido. O que só fazia ter certeza de que estava 1) delirando, ou 2) em uma pegadinha planejada pelos colegas da rádio. Maya era tão fora do alcance dele que os dois nem deviam habitar o mesmo planeta. Não fazia o menor sentido que houvesse algum interesse da parte dela.

Rosa passou os copinhos de tequila para e mais alguns colegas de rádio que estavam em volta do balcão do bar. Depois de um dia intenso de trabalho, eles mereciam beber e comemorar o sucesso do festival. Estavam na área reservada de uma balada em West Hollywood, onde as equipes da estação, pessoas envolvidas em entretenimento e até alguns artistas terminavam aquela noite de sábado.
olhou em volta, tendo um daqueles momentos em que você não acredita mesmo que aquela é a sua vida. Havia passado 10 minutos conversando com Diplo e sido apresentado ao The Weeknd. Não era por isso que ele trabalhava com rádio, mas era um lado positivo inacreditável!
— Que seja só o primeiro de muitos Wango Tangos, novato! — Rosa falou, batendo o copinho no dele e virando a tequila.
Ela havia trocado de roupa e estava no seu habitat natural, brilhando como um diamante no Sol. Era admirável como parecia completamente inteira depois de um dia todo entrevistando pessoas em cima de um salto, fazia se lembrar de Lana. As duas deviam ter descoberto o hack da vida para a bateria infinita.
— O primeiro de muitos! — Ele repetiu e também virou sua tequila, sendo surpreendido pela amiga, que já lhe passava o segundo copinho. — Opa! Vamos com calma, Ro!
— É a primeira vez que saímos juntos! — Rosa lembrou. Aquela era, na verdade, a primeira vez que saía em Los Angeles. — Eu preciso saber se você consegue me acompanhar ou não.
riu.
— Já te aviso com antecedência que eu acho que não.
— Se você durar mais que o Theo e o Julian, eu já estou no lucro!
— Inclusive, cadê eles?
E como se estivessem só esperando a deixa, os dois surgiram, contornando o bar e desviando das pessoas ao redor de e Rosa.
— A gente já vai indo — Theo disse.
Ro levantou as sobrancelhas, como se dissesse “Não falei!?”.
— Nós chegamos não tem meia hora! — Ela retrucou.
— Está muito cheio. — Julian reclamou, entrelaçando seus dedos ao do namorado. — Nós vamos comer alguma coisa e voltar para casa.
— Fazer o que, né? Nem discuto mais. Até amanhã, então — a mulher falou, inclinando o rosto para receber um beijo do irmão.
— Até amanhã! — Theo disse. Ele foi se despedir de e também deu um beijo na bochecha dele, mas fingiu que tinha o sujado de batom. — Opa, te manchei, desculpa! — Provocou, passando o dedo na bochecha dele teatralmente, fazendo Rosa quase cuspir a cerveja que estava bebendo.
— Você contou para eles! — a acusou enquanto ela ria. Acabou rindo também porque, de alguma forma, era tudo muito absurdo.
— Novato, essa foi a maior risada do meu dia. Obrigado! — Julian falou, dando tapinhas nas costas dele. — Mas ela está por aí, viu, a Maya. Eu iria atrás de outras marcas de batom.
— Eu ainda não sei quem ela é, me mostra! — Theo falou, olhando em volta.
— Vocês dois não estavam indo embora? — perguntou, ironicamente, fazendo Rosa rir mais.
— Nossa, que grosseria! — Julian respondeu, se despedindo dos dois. — Até amanhã. Juízo!
O casal saiu acenando e o produtor ainda se virou uma última vez, apontando por cima da cabeça para a parte de trás da área reservada. Não foi preciso ler os lábios dele para saber sobre o que, ou quem, era. Maya estava sentada em uma das mesas encostadas na parede, rodeada de pessoas que deviam ser da sua equipe. Tinha uma taça de um drink rosa na mão e ria de algo que um rapaz alto e forte dizia. Havia trocado de roupa, mas continuava deslumbrante. se sentiu engraçado. Foi a primeira vez, em dois anos, que desejou, realmente desejou, outra garota que não fosse .

Rosa tinha desaparecido. Era possível que tivesse ido embora com o jogador de baseball bonitão com quem estava conversando na última vez que a viu de relance. Ele tinha emendado em conversas com o pessoal da KIIS e perdido completamente a noção da hora, a quantidade de tequilas que havia tomado naquela noite contribuiu para a sensação de apagão.
Por isso, depois de revirar a área reservada procurando pela housemate, sem sucesso, decidiu chamar um Uber e ir embora também. Estava esperando no estacionamento atrás da casa noturna, tentando focar no celular para ver onde seu carro estava no mapa, quando alguém parou ao seu lado. Maya não estava sóbria tampouco, cantava baixinho e ria sozinha, dançando no mesmo lugar, descalça, com o cabelo preso em um co que e usando um moletom tão grande que cobria seu vestido. O segurança ao seu lado carregava a bolsa e os sapatos dela.
— Olha quem está aqui — ela falou quando o viu.
sorriu, o álcool o deixando um pouco menos tímido.
— Oi! E aí? Já indo embora?
Ela abriu os braços, como se quisesse que o rapaz notasse como ela estava.
— Normalmente quando eu chego nesse estado, me mandam ir dormir.
Os dois riram.
— Seu show no festival hoje foi incrível! — ele disse. — Sua voz é linda!
Maya balançou a cabeça.
— Obrigada, . — falou, enfatizando o nome dele. Até bêbada ela era, ao mesmo tempo, carismática e sexy. — Você já vai indo também? Para casa? Um after?
— Para casa. Fazia muito tempo que eu não bebia, estou destreinado.
Sentiu-se destreinado de conversar com mulheres em quem tinha interesse, também. Com , estranhamente, era só… Conversar. Bom, para começar, não ficar pensando na ex-namorada ajudaria bastante.
— Maya, seu carro. — O segurança disse, apontando para uma van preta estacionando perto deles.
A cantora fez uma cara bonitinha de quem queria continuar conversando.
— Eu preciso ir, mas me passa seu telefone. — Pediu, já destravando a tela do celular e pegando de surpresa. — A gente pode sair e treinar seu fígado para beber mais enquanto eu estiver na cidade.
O rapaz ajeitou o cabelo, nervoso, e falou os números, rezando para não cometer nenhum engano por conta da embriaguez.
— Ma… — O segurança chamou de novo.
— A gente se vê, produtor! — ela disse, lançando um beijo no ar e entrando na van.
O Uber chegou assim que o carro dela saiu e passou o caminho todo meio atordoado. Talvez não fosse uma pegadinha ou um delírio, talvez Maya gostasse de caras comuns e era isso. Talvez ele realmente estivesse diante de uma chance real de viver algo extraordinário.

**

“Tell me what you want because you know I want it too. Let’s skip all the small talk and go straight up to your room.”

Small talk

23/06/2019 14:11
Contato: Desconhecido

Ressaca?

23/06/2019 14:12
Ah, é a Maya.

piscou para o celular sem acreditar. Ele e Rosa estavam deitados em cada sofá, sofrendo as consequências da noite anterior. Tinham fechado as cortinas da sala e se revezavam para encher a garrafa d’água na cozinha e reclamar de dor de cabeça. Theo e Julian, que estavam ilesos, haviam saído para passear.

23/06/2019 14:14
Eu estou naquela fase do “Nunca mais eu vou beber!”. E você?

23/06/2019 14:14
Contato: M.

Em um estado parecido. Andando de óculos
escuros dentro do meu quarto.

Onde você fica quando está em Los Angeles?

Em um hotel, infelizmente. Eu nunca fico tempo suficiente
para alugar uma casa, mas é sempre tempo demais em um hotel

Deve ser esquisito mesmo. Onde você chama de casa?

Quanto tempo você tem? Haha
Resumindo: minha família mora na Florida, então lá. Talvez.
Ou em NYC, que é o meu lugar favorito no mundo
E você? É daqui mesmo?

De San Francisco. Me mudei quando
consegui o emprego na KIIS

Eu amo San Francisco! Acho que
mais do que eu gosto de LA…

Não era uma pergunta, mas essa
definitivamente é a resposta certa!

; )

Ficaram conversando pelo resto da tarde, e no dia seguinte, e no outro dia também. Nunca era nada sério ou com segundas intenções, mas fazia sorrir ao ver uma notificação dela. Até a noite de quinta-feira.

27/06/2019 19:37
Contato: M.

Produtor, quais seu planos para amanhã à noite?
Perguntando para uma amiga…

Sem planos. O que sua amiga tem em mente?

Festa de um conhecido. Queria te ver.
Digo, minha amiga. Minha amiga queria te ver.

O rapaz mordeu o lábio. Estava relendo a conversa, admirado, quando Rosa entrou na cozinha.
— Seu frango está queimando, campeão — ela disse, dando dois passos para além dele, mas voltando para olhá-lo outra vez com atenção. — Que cara é essa? — perguntou, franzindo a testa. — Está falando com quem?
não respondeu, mas deu um sorriso enorme e balançou a cabeça como se dissesse “sim, com ela mesmo!”, fazendo a mulher arregalar os olhos.
— Não! ! Nããão!
Ele riu.
— Eu também não acredito, para ser sincero. Estou esperando ser chamado para o meu próprio episódio do Catfish!
Rosa soltou uma risada alta.
— Claro que não. Ela não parou de te olhar todas as vezes que estavam no mesmo lugar!
— Isso é completamente fora da realidade — ele falou algo que havia pensado pelo menos 20 vezes por dia naquela semana.
A amiga deu dois tapinhas no ombro dele.
— Então aproveita enquanto está acontecendo!
concordou, voltando a encarar a tela do celular. Rosa tinha razão, seria loucura dizer não para o que quer que aquilo fosse.

27/06/2019 19:41
Quero te ver também. Onde é a festa?

Para que não fosse sozinho, Maya estendeu o convite a quem mais quisesse convidar. Pediu que chamasse Rosa e Julian e, quando soube que os dois eram cunhados, ordenou que o rapaz convidasse Theo também. Os três, porém, depois de muita provocação, avisaram que não conseguiriam ir, porque já tinham compromisso. acabou chamando outros amigos da KIIS para irem juntos. Por um lado, sentia-se menos nervoso em saber que conheceria mais pessoas lá e não dependeria da atenção da cantora, ele ainda não entendia bem que tipo de convite era aquele e tinha medo de estar criando expectativas erradas.
Apesar de achar que a festa fosse acontecer em uma casa pelo modo como Maya havia falado, o endereço na mensagem dela os levou a um bar parecido com o que estiveram no sábado anterior. O dono tinha um cargo de importância na gravadora e, por isso, o local possuía um camarote reservado aos artistas do selo.
Quando chegaram, sorriu ao vê-la os esperando perto da entrada. Usava um vestido preto e uma peruca de cabelos longos rosa. Talvez quisesse se disfarçar para não ser reconhecida ou talvez só estivesse usando porque qualquer coisa ficava bem nela, é claro que estava belíssima. Dizer que Maya era/estava linda com certeza constituía um pleonasmo.
— Achei que vocês pudessem se perder — explicou enquanto os cumprimentava, sorrindo e se apresentando aos amigos do rapaz. Como se fosse necessário. — Nós estamos lá em cima.
Depois de uma semana trocando mensagens, estava mais à vontade perto dela, mas ainda assim teve aquela sensação de formigamento no corpo todo quando Maya segurou sua mão para levá-los ao camarote.
— Fiquem à vontade, tá? O bar fica ali no lado direito — falou aos quatro e soltou a mão de , mas se virou para falar perto do ouvido dele. — Vê se não some.
O estilo de música que estava tocando não era bem o favorito dele, mas era difícil ligar para isso quando, por causa do barulho, eles precisavam se encostar e falar tão perto um do outro.
— Vou estar por aqui — respondeu. — Esperando você me apresentar sua tal amiga. — Brincou e ela riu.
— Eu volto para conversarmos sobre isso. — Prometeu, arqueando uma das sobrancelhas.
Quando Maya se distanciou, Barbara, Alex e Mark – os colegas de rádio que o acompanhavam – olharam atônitos para ele, curiosos sobre aquela proximidade toda dos dois, mas o rapaz apenas deu de ombros. Também não sabia explicar. Eles logo se dispersaram. O camarote não era grande, mas era espaçoso o suficiente para se perderem um do outro e acabou se enturmando com outros conhecidos e voltando ao bar mais algumas vezes para doses homeopáticas de coragem líquida, para a sorte ou para o azar. Com certeza iria precisar naquela noite!

Maya saiu do banheiro e viu conversando com o guitarrista e o baterista da banda dela. Ficou surpresa ao vê-los interagindo, mas sorriu satisfeita, era um pouco por isso que havia se interessado por ele. parecia amigável, carismático, um cara de fácil aproximação. Estava querendo mesmo dar um tempo de bad boys, de drama. Queria algo descomplicado. Quando o rapaz deixou os dois músicos e foi até o bar, a cantora andou até lá e parou ao lado dele.
— Oi, gatinho.
Ele se virou, sorrindo e brincando com uma mecha do cabelo rosa.
— Ficou bom em você. Está pensando em adotar?
Maya riu.
— Não, foi só uma brincadeira do pessoal que trabalha comigo. Inclusive, não sabia que você conhecia o Erick e o Thomas! — disse.
— Nos conhecemos na rádio, no dia da sua entrevista. Lembra?
— Ah, é verdade! Como eu poderia me esquecer? — falou daquele jeitinho sedutor que parecia ser tão natural e sorriu quando lhe entregou uma garrafinha de cerveja sem que precisasse pedir. — Você tem que conhecer o resto da banda agora.
— Estão todos por aqui?
— Sim, a gente resolveu sair junto para comemorar essa temporada em Los Angeles, então todo mundo da equipe veio: os músicos, dançarinos, minhas assistentes pessoais.
O rapaz franziu a testa para a informação que ela havia dado, sem perceber que era estranha.
— Você está indo embora?
— Amanhã. Preciso voltar para Nova Iorque e terminar umas coisinhas no meu álbum.
Mas então…
— Aaah, que pena — ele falou. — Achei que fosse passar mais tempo por aqui.
— Não fica triste, produtor! — Maya zombou. — Eu sempre volto. E nós ainda temos hoje — disse, piscando.
Uma música começou a tocar e pareceu despertar algo nela.
— Eu amo Mad Love! — falou, já o puxando para longe do bar. — Vem dançar comigo!
— Eu… Eu não danço.
— Ah, dança sim!
Mas ele não precisava realmente fazer muito, Maya estava cantando a letra com os braços para cima, os cabelos se movendo conforme dançava. colocou a mão que não segurava a cerveja na cintura dela, que abriu os olhos, o encarando. Sentiu os braços dela envolverem seu pescoço.
You’re the one I like like like like, come put your body on mine mine mine mine… — cantou, a boca bem próxima ao ouvido do rapaz.
O quadril de Maya se mexia perigosamente perto do dele, mas em vez de se afastar, deixou a garrafinha na mesa ao lado e a trouxe ainda mais para perto.
— Viu como você sabe dançar? — A cantora brincou enquanto os dois se moviam ao mesmo tempo. — Nós somos bons nisso.
estava tão perdido no momento que precisava focar para formar frases coerentes.
— Quando disse que ainda tínhamos hoje, você quis dizer a noite toda, certo? — perguntou, se surpreendendo com a própria audácia. Maya deu uma risadinha, o som fazendo-o se arrepiar ainda mais, mas era mútuo. Ele podia ver no braço e pescoço dela.
— Quer sair daqui? Eu não… Eu não gosto de dar motivos para matérias clickbait.
— Claro! — respondeu, se sentindo um pouco estúpido em parecer tão desesperado, mas não havia nenhuma outra maneira de responder àquilo.
Maya se virou, procurando alguém, mas seu segurança – aquele mesmo da festa anterior – já estava por perto. Concordou com o sinal que ela fez com a cabeça, indicando a porta, e digitou algo no celular enquanto se aproximava.
— Já chamei o carro — contou.
A cantora sorriu para antes de dizer:
— Vamos?
A saída do camarote foi como uma espiral de cores e sons para o rapaz, mas não era uma tontura de bebida. Pensou ter visto Barbara e Alex perto do bar e, bom, pelo menos os dois saberiam que não precisavam procurar por ele quando quisessem ir embora. Assim que entraram em um corredor deserto, Maya entrelaçou sua mão na dele, puxando-o mais rápido em direção à garagem. O fato dela também estar ansiosa era absolutamente nonsense, achava. Entraram no carro, só os dois na parte de trás.
— Hotel, Ma? — O segurança perguntou do banco do carona, pelo sistema de som.
— Isso, Johnny, por favor!
Ela tirou a peruca e soltou os próprios cabelos em um movimento que manteve olhando-a sem piscar. Maya sorriu de lado quando percebeu.
— Não me olha assim. Não tem mais nada que me impeça de te atacar agora. — O alertou e o rapaz riu.
— Eu provavelmente vou acordar de um sonho assim que você tentar.
A moça mordeu o lábio. Ele era tão bonitinho!
— Vamos fazer um teste — falou, sentando-se no colo dele com uma perna para cada lado, o vestido subindo pela coxa. Pegou uma das mãos dele e colocou na altura da barra do vestido. — Acordado?
Os olhos de passearam de onde a mão dele estava até o rosto dela vagarosamente, como se estivesse gravando aquela imagem para nunca mais esquecer. Quando estavam se encarando, fez que sim com a cabeça.
— Uhum.
Maya tinha planejado provocá-lo por mais um tempo, mas não resistiu quando inclinou a cabeça na direção dela. Segurou o rosto do rapaz com as duas mãos e uniu seus lábios, a respiração falhando quando ele a trouxe mais para perto. Os cabelos dela caíram como uma cascata sobre ele, o escondendo do resto do mundo.
não sabia em que hotel Maya estava ficando e sequer reparou no caminho, estava completamente arrebatado pela beleza dela, os sons que fazia, o gosto que tinha. Nem mesmo se sentiu constrangido pela ideia de que ali atrás do vidro escuro havia outras duas pessoas. Quando o carro parou, ela se sentou ao lado dele, ofegando, ajeitou o cabelo e o olhou de relance. Estava com o rosto todo corado, a cabeça apoiada no encosto do banco.
— Eu vou precisar de uns segundinhos aqui antes de sairmos. Para não passar vergonha — falou.
Maya gargalhou.
— Não! Que segundinhos? Já viu atleta dar tempo do corpo esfriar?
Foi a vez dele de soltar uma risadinha.
— Olha, se você está esperando um esportista, eu vou precisar jogar água no seu otimismo.
— Ridículo — ela disse, ainda rindo, e segurando a mão dele. — Vem logo!
Maya parecia disposta a aproveitar cada corredor vazio e cada segundo no elevador, mas era um pouco mais difícil abstrair de tudo quando o segurança dela era alguém de carne e osso dividindo o espaço apertado com eles. Por isso, assim que a porta do quarto bateu atrás dos dois, se sentiu como a presa fácil de uma leoa. Não que ele tivesse qualquer intenção de fugir ou não ser devorado.
Beijaram-se em um desespero que não tinha razão de ser, a não ser pela vontade de fazer cada segundo valer, cada centímetro do quarto até a cama não ser em vão. Despiram-se e se admiraram antes de tudo ficar confuso e embaçado, o rapaz ainda incrédulo de ter sido dado à ele a chance de beijar cada pedaço dela e adorá-la como a uma deusa.
Como a moça desconfiava, tinha a intensidade e o cuidado das pessoas que se apaixonam, perguntava múltiplas vezes se ela estava bem, distribuía beijos pelo seu rosto quando os dois estavam ofegando e se recuperando do último orgasmo. Dormiu sorrindo, abraçando-a e mexendo distraidamente no cabelo dela. Maya, pelo contrário, não se apaixonava. Não queria nada sério com ninguém, adorava ter “um amor em cada porto”, mas naquela noite aceitou ser o ápice do clichê casalzinho e se ajeitou confortavelmente ao lado do seu garoto de Los Angeles. Um sorriso sereno, parecido com o dele, brincando nos lábios dela antes de pegar no sono.

acordou quando, ao se virar na cama, sentiu a claridade da janela deixar o interior dos seus olhos laranja. Percebeu um toc toc toc de sapatos de salto constante pelo quarto e abriu os olhos, ainda meio desorientado até de onde estava. A noite anterior veio toda de volta em um flash ao vê-la. Maya já estava vestida e andava pelo quarto, entrando e saindo do banheiro enquanto digitava rápido no celular.
— Bom dia — falou meio em dúvida, sentando-se na cama. — Você já levantou!
A cantora abriu um sorriso e colocou o aparelho na mesinha, perto da porta, antes de vir se sentar em frente a ele.
— Bom dia, produtor. Dormiu bem?
— Como um anjo. E você?
— Como uma rainha! — Brincou. — Eu já estava de saída, ia te deixar um bilhete.
— Mas… Mas já?
Ela riu, o achando ainda mais adorável com o cabelo todo arrepiado e a carinha de sono.
— Já. Meu voo é daqui a pouco, mas pode ficar à vontade, ainda é bem cedinho. Dorme mais um pouco, toma um banho. Eu já pedi para trazerem o café às 10h.
não sabia o que dizer. Muita informação para um cérebro que ainda estava ligando.
— Eu… Obrigado! Não precisava, eu…
— Eu te ligo quando estiver na cidade, ok?
Ele fez que sim com a cabeça e Maya sorriu, se aproximando para dar um último beijinho nele.
— Boa viagem! — foi só o que o rapaz teve tempo de dizer, antes que ela desaparecesse, acenando pela porta.
Assim, como uma visão, como algo que nunca tivesse realmente existido. nem sabia em que região de Los Angeles estava!

**

“Dear Patience, ‘cause the last time that we talked seems like forever…”

Dear Patience

Acostumado com verões em San Francisco e Dublin, as temperaturas de julho em Los Angeles estavam castigando . O rapaz estava estirado em uma das cadeiras da varanda ao lado de Rosa, tentando aproveitar qualquer sinal de brisa daquele comecinho de noite quando seu celular vibrou.

26/07/2019 20:13
Contato: M.

Oi oi! Já saiu da rádio?
Eu chego em LA amanhã. Tenho uma
reunião à tarde e um evento à noite, mas estou
livre nesse meio tempo. Podemos nos ver? xx

Eles vinham conversando diariamente, mas aquela seria a primeira vez que Maya voltaria a Los Angeles depois que eles tinham ficado. A conversa no último mês nunca tinha desenvolvido para nada muito profundo, mas era sempre divertida. Ela tinha mania de digitar textos enormes, contando histórias sem ápice, e mandar áudios de poucos segundos, falando simplesmente “ah, eu sei sim! Gostei desse filme também!”.
Os diálogos favoritos de eram os que os dois trocavam quando ela estava no estúdio. Era nítida a paixão que Maya tinha pelo processo todo. Porém, de volta à mensagem, franziu a testa, se perguntando que tipo de date poderia planejar assim, meio sem horário fixo.
— Ro? — chamou.
Rosa tirou os fones de ouvido e se virou para ele.
— Que houve?
— Uma pergunta: Maya chega em LA amanhã. Como alguém que mora aqui há mais tempo e conhece mais lugares, onde eu poderia ir com ela?
A amiga inclinou o pescoço, meio sem entender.
— Ir com ela?
— Ela tem dois compromissos marcados, mas falou para a gente se ver entre eles. Não sei bem como planejar um encontro assim, sem horário, ou onde seria legal para irmos, sei lá, 6h da tarde.
estava procurando sugestões no Google, por isso não viu a expressão facial que Rosa lançou em sua direção.
, eu não… — Coçou a cabeça. — Por tudo que você me contou e as coisas que eu sei da Maya, não acho que ela está esperando um encontro.
Ele levantou os olhos, parecendo confuso.
— Como assim?
— Bom, primeiro que ela é famosa. Não pode ficar saindo publicamente com um cara, né? E eu acho que ela não quer nada que envolva encontros, sabe? Que vá se desenvolver em algo mais. Pelo que eu sei, das coisas que escuto, Maya nunca quis se prender a ninguém.
Aquilo fazia total sentido e se sentiu estúpido por não ter pensado nisso antes. Nenhuma conversa deles ia para o lado romântico, embora fosse, às vezes, para outros lados, e ela tinha deixado LA com um simples “quando eu voltar, a gente se vê”. Maya não estava sendo vaga por não saber quando voltaria, estava sendo vaga porque o que teriam seria casual.
— Ah, sim. Você… Você tem razão. — respondeu, envergonhado. — É que estou meio enferrujado e meu último relacionamento não é muito parâmetro.
Rosa tomou um gole de sua cerveja.
— Como foi com a sua namorada de San Francisco?
sorriu.
— Eu precisei exercitar um tipo diferente de paciência com a , eu acho. A gente passou 3 anos tentando alinhar nossas rotas.
Rosa arregalou os olhos.
— Três anos?
Ele riu da surpresa dela.
— Sim, mas não 3 anos inteiros. Nós nos encontrávamos todo ano na mesma festa, nos aniversários da Lana, aquela que vai casar no final do ano, sabe? — perguntou e a amiga fez que sim com a cabeça. — Apesar de ter uma quedinha pela desde a escola, nós dois demoramos para… Não sei, para levar a sério a atração que sentíamos um pelo outro.
Rosa não quis comentar porque o assunto não era sobre ela, mas havia algo que mudava completamente em quando ele falava sobre . Um sorriso que não saía do rosto dele, que persistia durante toda a conversa.
— Se você esperou todo esse tempo, então exercitou a paciência bem demais! — ela disse, sorrindo.
— É, mas quando finalmente aconteceu, quando não existiu mais nenhum empecilho e nós dois sabíamos que queríamos ficar juntos, nós viramos um casal assim que nos beijamos. Eu não precisei calcular meus passos ou ficar nervoso com encontros porque… Porque já era para valer, entende?

Flashback
15/07/2017

Um mês havia se passado desde o aniversário da Lana e finalmente tinha encontrado um novo apartamento para se mudar e morar sozinha. Era pequeno, apertado, mas ficava perto do hospital e o aluguel era razoável. entrou, trazendo a última caixa da mudança e a encontrou deitada no chão da sala, exausta.
— Agora acabou mesmo. Você lembra o que tem aqui?
Ela se sentou, encostando-se na parede, e fez um esforço para tentar reconhecer a caixa ou ler seu próprio rabisco que deveria descrever o conteúdo.
— Acho que utensílios de cozinha. Na dúvida, coloca lá mesmo, só vou abrir amanhã.
O rapaz desapareceu pela porta e voltou logo depois alongando os braços. o olhou com pena, tinha passado o dia todo ajudando-a.
— Obrigada por hoje — falou, sorrindo para ele. —Teria sido mil vezes mais difícil se meus pais tivessem que vir também. Na ânsia de serem solícitos, eles iam me deixar maluca!
fez que sim com a cabeça.
— Eu sei, porque minha mãe me ajudou com a mudança para o meu apartamento e foi… Doloroso, vamos dizer.
riu e indicou o chão ao seu lado.
— Senta aqui. Vem apreciar minha nova mansão por esse ângulo! — Brincou.
Ele a obedeceu e os dois ficaram em silêncio por um tempo, de mãos dadas. Havia algo de precioso em compartillhar esses momentos com ela.
— Você também está pensando em pizza? — perguntou de repente, fazendo-a gargalhar.
— O senhor só pode ler mentes, !
O rapaz se virou para olhá-la e sorriu. Às vezes o assustava o quanto aquele rosto o fazia sentir. Estavam juntos há apenas um mês, mas parecia ser muito mais tempo! Aproximou-se para beijá-la, sendo envolto em um abraço. Não demorou muito para terem esquecido a pizza e estarem deitados no tapete, trocando carinhos e se perdendo um no outro.
— Você vai ficar toda marcada — ele disse algum tempo depois, se apoiando nos cotovelos e levantando o tronco. virou o braço já “carimbado” com os detalhes do tapete para mostrar a ele e os dois riram.
— Você vai dormir aqui comigo?
— Hmm, não vai dar. Minha mãe pediu para eu jantar com ela nos fins de semana em que meu pai estiver na Irlanda.
observou o rosto dele, procurando por sinais de que aquilo pudesse ser uma desculpa. Estavam há apenas um mês juntos, deveria ter pedido a ajuda dele para fazer a mudança? Deveria estar pedindo que ficasse e dormisse lá? Era muito cedo para estarem “brincando de casinha”?
, se eu estiver apressando as coisas… Eu não… Eu não quero te forçar ou acelerar nada.
Ele a encarou, sério, porque a ideia de não estarem exatamente onde estavam era completamente absurda.
— Nós podemos ir mais devagar se você quiser, mas para mim está perfeito do jeito que está.
Ela sorriu, aliviada. Levantou uma das mãos para fazer carinho no cabelo dele.
— Para mim também. E é estranho, não é? Ter essa… Certeza.
deu uma risadinha porque era exatamente assim que se sentia: certo. De que estava apaixonado, de que era com que queria viver dias assim. Abaixou o rosto para dar um beijinho nos lábios dela.
— Eu volto depois de jantar.
, não precisa.
— Se você não abrir a porta, eu vou embora.
Ela riu e aprofundou o beijo, impedindo que ele se afastasse.
— Vou ficar te esperando.
Fim do Flashback

Rosa fez que sim com a cabeça.
— Entendo — falou e deu de ombros, resolveu amenizar a situação. — Bom, não sei também, né? Eu posso estar errada sobre a Maya. Às vezes vai ser diferente dessa vez, mas na dúvida, eu iria devagar. Por você mesmo, para não se machucar.
concordou.
— Pode deixar. Eu vou ser cauteloso.
Voltou os olhos para o celular e suspirou. Pelo visto, a temperatura de Los Angeles não era a única coisa à qual ele precisaria se adaptar.

26/07/2019 20:22
Claro, me fala quando estiver livre e
me manda o endereço do hotel… xx

**

“Barefoot and a bottle of wine. You can stay with me tonight…”

No Judgement

Aquele verão definitivamente não se parecia com nada que já tivesse vivido na vida: ele tinha aprendido – ou quase – a surfar com Theo, participado de um campeonato de karaokê com Julian – que tinha se revelado extremamente competitivo e um péssimo perdedor –, entrado de penetra em uma festa que contava – ou não – com a presença de uma Kardashian junto com Rosa e passado noites em claro na presença – e por causa – de uma certa cantora pop famosa.
Fazer o esforço consciente de não se apegar a alguém com quem ele gostava de ficar ainda era uma novidade, mas como Maya estava sempre pulando de um lugar para o outro e nunca passava muitos dias em LA, acabara se acostumando àquela dinâmica. Falavam-se esporadicamente, ela contava quando chegaria e então os dois se encontravam no hotel dela para beber, rir e não dormir. Era leve, descontraído. Era como a letra de uma dessas músicas que vira hit de verão.

Maya estava de volta na cidade naquele sábado e já se arrumava para ir encontrá-la quando recebeu uma mensagem. Normalmente ela confirmava o endereço do hotel e como ele faria para subir até o quarto, mas o conteúdo dessa vez não era o de sempre.

07/09/2019 18:25
Contato: M.

Hey! Você ainda não saiu, né?
A Rosa e os meninos não estão mesmo na sua casa?
Posso ir praí? xx

franziu a testa.

07/09/2019 18:25
Oi! Não. Eles foram para a casa dos pais do Theo e da Rosa.
Pode vir, claro. Aconteceu alguma coisa?

O rapaz tinha contado a ela, por acaso, que os três tinham viajado no fim de semana enquanto falava sobre os planos de assistir TV o resto da noite sem precisar disputar o controle com ninguém, no dia anterior. Maya nunca tinha pedido para se encontrarem em outro lugar que não fosse o hotel dela.

07/09/2019 18:26
Contato: M.

Nada demais, eu só não queria ficar no hotel.
Chego aí umas 20h, ok?

Me avisa quando o carro chegar
e eu destravo o portão.

colocou o celular na mesinha de cabeceira e olhou em volta, se perguntando se o quarto estava arrumado o suficiente para receber alguém. Dobrou algumas camisetas e trocou a roupa de cama, meio afobado. Depois desceu, guardou os controles do videogame e checou se as louças na cozinha estavam todas lavadas. Foi só quando estava arrumando nervosamente as cadeiras da mesa de jantar que percebeu porque estava com na cabeça, era a ex-namorada quem tinha mania de arrumação. Sorriu ao se lembrar dela andando pelas festas da Lana, em anos diferentes, com um saquinho de lixo na mão. Fazia tempo que não sabia dela e isso era tão esquisito!
Enquanto devaneava sobre , a campainha tocou e foi trazido de volta para Los Angeles, deu uma última olhada rápida pela casa e abriu a porta. Maya usava um boné cobrindo o cabelo, óculos escuros, camiseta preta larga, shorts e all star.
— Agente do FBI disfarçado? Eu posso explicar! — O rapaz brincou, levantando os dois braços, e depois ofereceu a mão para trazê-la para dentro. A cantora riu enquanto entrava e tirou o boné, colocando na cabeça dele.
— Preso em nome da lei! — disse, entrando na brincadeira, depois levantou o outro braço, que escondia atrás do corpo. — Eu trouxe vinho.
— Muito obrigado! — respondeu, indo pegar taças na cozinha. — Seja bem vinda!
Ela o seguiu e se apoiou no balcão.
— Era exatamente disso que eu precisava! — Exclamou. — De um lugar com cozinha, objetos pessoais, coisas fora do lugar.
— Bagunça — disse e ela riu.
— Com bagunça também. Um lugar que tem cara de que é habitado.
Ele a encarou, preocupado.
— Está tudo bem? Saudades da sua casa?
Maya deu de ombros.
— De qualquer casa, para ser sincera. Às vezes essa vida de hotel cansa. — Recebeu a taça que ele oferecia e sorriu. — Mas como eu não estou te pagando para ser meu terapeuta, essa sessão se encerra aqui!
riu.
— Você pode falar comigo se estiver precisando conversar. Eu não… Eu não vou achar que nós estamos namorando só por causa disso — falou. — Somos amigos, ou o que quer isso seja. Eu posso ser o que você quiser.
Maya mordeu o lábio inferior, achando-o fofo como sempre. Colocou a taça no balcão e se aproximou, passando os braços pelo pescoço dele, seu humor melhorando em 100% ao beijá-lo.
— Posso conhecer seu quarto? — perguntou quando se desvencilharam.
— Claro! Mas você precisa se lembrar de que me avisou que vinha há uma hora e meia atrás!
Ela balançou a cabeça.
— Eu duvido que esteja bagunçado.
— Você queria ver coisas fora do lugar? Eu vou te mostrar coisas fora do lugar! Vem, é no segundo andar.
O rapaz entrelaçou seus dedos e subiram as escadas. Maya ficou descalça assim que chegaram, como se precisasse se sentir o mais livre e à vontade possível, depois andou até a janela e parou para olhar o varal de fotos que ele tinha ali, sorrindo para algumas. se sentiu estranhamente superprotetor quando ela pegou o pedacinho de azulejo azul marinho que ficava na prateleira mais alta da sua estante, nas mãos.
— Que lindo! — disse. — Quem fez?
— Aaahn… Uma amiga. Ela me deu de presente quando me mudei.
— É lindo! — Maya repetiu e voltou o objeto para o lugar. Olhou-o de relance e sorriu de lado. — Porque você está tão nervoso, parado aí na porta feito um dois de paus?
riu e entrou, acompanhando-a com os olhos.
— É estranho ver alguém observando sua vida, eu não sei o que você está pensando.
— Eu não estou pensando nada que já não achasse de você antes.
— Isso é bom ou ruim?
Maya riu e não respondeu.
— Você toca? — perguntou, pegando o violão e sentando-se na cama. — Me ensina?
sorriu enquanto ela dedilhava o violão, concentrada.
— Achei que você já soubesse, está tocando violão no clipe de My Soul.
A cantora levantou os olhos para encará-lo.
— Tem acompanhado minha carreira então? — indagou debochada.
Ele deu de ombros, rindo.
— O Youtube me indicou. — Mentiu.
— Aprendi quando era pequena, mas não pratiquei. — ela explicou. — Só sei o básico.
— Bom… Eu também. Eu sou aquele cara que pega o violão e toca Wonderwall.
Maya cerrou os olhos.
— Você era TÃO o cara da escola que andava com o violão para cima e para baixo tentando impressionar as menininhas!
gargalhou, sentando-se ao lado dela e acertando seus dedos no braço do violão.
— É… Eu era um pouco assim mesmo.
— E eu ia te odiar porque você não ia nem olhar para mim.
Ele fez que não com a cabeça.
— Você seria a garota que eu queria impressionar.
A moça rolou os olhos exageradamente, mas seu sorriso sempre entregava quando ela estava gostando do ouvia.
— Para de papinho furado! Me ensina como fazer o Mi maior.

Pediram pizza para o jantar e Maya fez questão de se sentar à mesa para comer. Era exatamente desses hábitos cotidianos que estava com saudade. Depois subiram de novo e terminaram a segunda garrafa de vinho que pegou na geladeira, prometendo repor no dia seguinte.
A atmosfera parecia mudar de amigável para sexual naturalmente entre eles, estavam conversando sobre assuntos aleatórios, moviam-se para mais perto um do outro, um toque inocente no braço virava um carinho, que virava um beijo, que se transformava em roupas no chão, suor, algumas palavras inteligíveis e outras que só faziam sentido no momento. Maya podia ter quem quisesse e não desperdiçava esse “poder”, mas não era sempre que podia confiar em alguém para vê-la assim, nua em mais de um sentido.
Havia algo de imperturbável no rapaz que a relaxava para mostrar a ele sua forma mais… Normal. Por isso ainda o avisava quando chegava à cidade, por isso esperou até estar em LA para confessar que andava de saco cheio de quartos estéreis de hotel. Sabia que não seria julgada. E ela gostava de ter essa opção.

Maya estava deitada ao lado de , passando o dedo pela tela do celular, procurando por algo na conversa dos dois. O rapaz tinha enviado uma foto alguns dias antes, da capa de um álbum que ambos gostavam, e eles agora discutiam qual era a cor do título.
— Quando você mandou mesmo? Semana passada?
— Acho que sim — ele falou, involuntariamente virando-se para a tela do celular dela. Franziu a testa ao ler seu “nome”. — Você me salvou nos seus contatos como “Los Angeles”?
Ela puxou o aparelho para longe do alcance dele.
— Hey! Por que você está olhando meu celular?
riu.
— Meu Deus, você não sabe meu nome! É por isso que me chama de produtor.
Maya soltou uma gargalhada.
— Claro que não, Anthony… — Zombou e depois se virou rápido para puxá-lo pelo braço quando ele fingiu que iria se levantar. — ! ! Eu sei que é , volta aqui! Eu te chamei de no dia que pedi seu telefone, besta!
— Mas então…
— Eu conheço mais de um , tá? E eu realmente não lembrava seu sobrenome no dia.
— Mas nem meu nome você colocou!
— Eu estava bêbada, aí ficou assim.
Havia outros contatos salvos como nomes de cidade na agenda dela, mas Maya preferiu não trazer o assunto à tona. Ele continuou a observando de rabo de olho, apenas para provocá-la.
— Vou deixar essa passar.
— Procura aí a foto do álbum e para de me encher o saco, Los Angeles.
O rapaz soltou uma risadinha e pegou o próprio celular na mesa de cabeceira, abriu o instagram e, antes de conseguir entrar no Explore, as fotos do feed se atualizaram e a primeira passou a ser uma publicação do Carl. Ele estava no que parecia ser a festa de aniversário de alguém com Lana e, é claro, . sorriu ao ver que ela parecia genuinamente alegre, mas seus olhos logo tomaram ciência da foto toda e ele percebeu que o cara parado atrás da ex-namorada estava abraçando-a pela cintura. Não como o normal de pose para fotos, mas com os dois braços, as mãos dela sobre as dele.
— Achou? — Maya perguntou.
— O quê? Ah, não. Me distraí, desculpa — falou rápido, indo procurar a foto, mas sem conseguir tirar aquela imagem da cabeça.
Seria hipocrisia demais pensar qualquer coisa sobre aquilo quando ele mesmo estava deitado na própria cama com outra mulher, mas não achou que fosse doer tanto. Queria não ter descoberto assim, queria saber o que fazer com todos aqueles sentimentos conflitantes dentro dele, queria correr até San Francisco e pedir desesperadamente que eles voltassem, que esquecessem aquela realidade paralela em que estavam cada um com um novo parceiro. Será que uma hora iria acordar ao lado de e perceber que tinha apenas sonhado com todo o surrealismo que sua vida tinha se tornado?

**

“I swear it’s hard to think, it’s hard to breathe when you’re in the air. I try to run, but you’re everywhere I go…”

Everywhere

Era o aniversário de e ele estava chegando em casa depois de um dia de expediente para tomar banho e sair de novo com os colegas de rádio. Rosa tinha ido antes, de carona com Julian, enquanto o rapaz terminava de acertar alguns detalhes do programa de segunda-feira. Abriu a porta, distraído, e foi surpreendido por uma gritaria, confete e pessoas vindo em sua direção abraçá-lo.
— Você não desconfiou de nada! — Theo disse rindo enquanto colocava um chapeuzinho de festa nele.
— Eu achei que fossemos para o karaokê! — respondeu.
E então algumas pessoas saíram de sua frente e ele precisou olhar duas vezes para ter certeza do que estava vendo. QUEM estava vendo. estava parada perto da janela da sala, usando um vestido verde que ele adorava. Sorria de um jeito sereno. Como se nada mais existisse na casa, caminhou em direção a ela.
— Você veio! — falou. — Não sabia que Rosa tinha seu telefone.
A moça deu de ombros.
— Nem eu, mas… Eu estava com tanta saudade! Feliz aniversário!
O rapaz sorriu e deu mais um passo à frente, mas então se lembrou de que ela agora estava com outra pessoa.
— Seu namorado não veio?
— Eu não estou namorando. Eu… Ainda amo você.
Aquilo era tudo que precisava ouvir, tudo o que queria saber. Terminou de andar a distância entre eles e a abraçou pela cintura.
— Eu ainda amo você, ! Queria que houvesse um jeito de ficarmos juntos.
Ela fez que sim com a cabeça e o beijou, mas assim que seus lábios se tocaram, sentiu como se estivesse vendo a cena de fora, como se algo estivesse o puxando dali.
e a festa foram ficando turvos e desaparecendo enquanto um barulho rítmico ia aumentando de volume e chegando mais perto. piscou e de repente estava deitado na própria cama encarando o teto. Sozinho.
O celular despertava perto da sua cabeça e ele suspirou antes de desligá-lo. Passou a mão pelos cabelos, exasperado, e leu a mensagem que havia recebido durante a madrugada.

13/09/2019 03:12
Contato: M.

Já é seu aniversário em Paris!
Espera… Aí em LA também! Ótimo, assim
eu mando uma mensagem só!
Joyeux Anniversaire, producteur!
Nos vemos em breve! xx

sorriu e respondeu rápido, agradecendo. Levantou, fez a barba, tomou banho e terminou de se arrumar, mas a visão de iluminada pela luz que vinha da janela continuava impregnada em sua cabeça, como se tivesse mesmo acontecido. Não era justo que agora também fosse perdê-la em seus sonhos.

13/09/2019 10:25
Contato: Tina

Feliz aniversário, querido!
Saudades de você! Quando estiver em San Francisco,
venha me ver com a sua mãe.
Beijinhos e aproveite bem o dia!

O coração do rapaz disparou ao ler o sobrenome, mesmo sabendo que não havia salvado o nome completo da ex-namorada. Sempre tinha gostado muito da mãe dela e era bom saber que o carinho era recíproco. Suspirou enquanto digitava a resposta, pensando sobre uma vez que tinham ido, as duas famílias juntas, para Carmel. Talvez nunca mais conseguisse ir para lá, a cidade tinha 100% a cara de .
— Tudo bem aí, aniversariante? — Rosa perguntou, estalando os dedos perto de , que levantou os olhos da tela.
— O que foi?
— Pronto para a reunião de pauta?
— Opa. Nasci pronto! — ele disse, voltando os pensamentos para o trabalho.
Levantou-se de sua mesa e pegou o laptop, acompanhando-a até a sala de reuniões.
— Tudo bem? Você está meio aéreo hoje. — Ela quis saber, o examinando.
— Tudo sim. Fico um pouco emotivo com mensagens de aniversário, mas é só.
Rosa riu e o abraçou pelos ombros.
— Ah, novato! Você é tão bonitinho!
riu também e os dois se sentaram, esperando Jojo chegar. A nova estagiária, Lisa, entrou logo atrás deles e pegou a cadeira vazia ao lado do rapaz. Assim que se sentou, ele foi acertado em cheio por lembranças tão vívidas de que pensou estar sonhando novamente. O que é que estava acontecendo?
Foi preciso um ou dois segundos de total confusão para perceber que o que estava lhe trazendo todas aquelas memórias era o cheiro do shampoo de Lisa, que era o mesmo da ex-namorada. Que tipo de presente de grego era aquele do universo? Parece que tudo tinha se agravado depois de ver a foto em que ela estava com o novo namorado/ficante/amigo com benefícios, seja lá o que fosse.
pensou ter visto uma moça muito parecida com na academia, no começo da semana. No dia anterior, enquanto zapeava pelos canais de TV, havia passado por um que exibia Dirty Dancing e o filme estava bem na cena final. (I’ve had) The Time Of My Life era a música que tinham cantado juntos no karaokê, no aniversário de Lana em que se reencontraram, e agora sonhos, cheiros de shampoo…
Precisava finalmente e definitivamente seguir adiante, mas tudo parecia trazer seu pensamento de volta para . Como mais poderia ser sabotado?

estava deitado no sofá, violão no colo, esperando Theo chegar do trabalho para saírem todos juntos para jantar e comemorar seu aniversário.
— Nada ainda? — Rosa perguntou, juntando-se a ele.
— Parado no trânsito. — respondeu, checando as últimas mensagens que tinham trocado.
Enquanto estava olhando para o celular, o aparelho vibrou, anunciando uma ligação. O rapaz ficou encarando o nome na tela, pensando que só podia estar sonhando de novo. Mas que inferno! Era melhor acabar logo com aquilo.
— Alô?
? — A voz de soou incerta e nervosa do outro lado, fazendo-o achar que dessa vez, talvez, fosse real. As pessoas nunca estão nervosas em sonhos.
— Hey, . Tudo bem?
Tudo e com você? Feliz aniversário! Eu não… Não sabia se ligava ou mandava mensagem, mas… Faz tanto tempo que a gente não se fala!
Ele sorriu, o coração apertando com uma saudade que já não andava sendo capaz de esconder.
— Obrigado! Fico feliz que você tenha ligado. Como estão as coisas? Eu meio que parei de ler o grupo do casamento para continuar gostando da Lana.
riu e o som derreteu qualquer defesa que estivesse tentando manter.
Eu percebi que você abandonou, mas fica tranquilo, está tudo sob controle! E você? Tudo bem no trabalho? O que vai fazer para comemorar?
— Tudo, sim. Jojo me deu parabéns no ar hoje. Foram meus quinze minutos de fama! — Os dois riram. — Eu e o pessoal aqui de casa vamos sair para jantar daqui a pouco, nada muito radical.
Em plena sexta-feira? Você está ficando muito velho mesmo… — zombou.
— Daqui há dois meses nós conversamos sobre ficar velho. — Ele retrucou. A moça faria a mesma idade que ele no fim de novembro. — E o hospital? Já terminaram seu quartinho?
Ela riu, satisfeita que ele se lembrava da brincadeira.
Ainda não. Insisti que precisa ser uma suíte. — Brincou. — Mas falando em hospital, eu… Eu vou participar de um congresso de Enfermagem Geriátrica no final de setembro que vai ser aí em Los Angeles.
O coração de parou e ele se ajeitou no sofá. Rosa o olhou de canto de olho.
— Sério?
Sério! E eu… Estava pensando se a gente podia se ver. O congresso dura a semana toda e vai ser bem pesado, mas a última palestra é na sexta à tarde e meu voo de volta é só no sábado. Será que…
— Sim, claro! — ele respondeu, sem nem esperar que ela terminasse. — Onde é? Você… Você tem onde ficar? Pode ficar aqui, se quiser.
Vai ser na Escola de Enfermagem do UCLA. E não se preocupa, eu já reservei um hotel lá perto com uma amiga, mas… Vai ser legal, não vai? A gente se ver?
— Vai, sim! Eu não tenho um horário certo para sair da rádio, mas podemos ir nos falando.
Claro! Eu te aviso quando estiver mais perto.
podia ouvir na voz dela que estava sorrindo. Ele também estava.
— Combinado!
Eu… Não quero atrasar seus planos para hoje, liguei só para te dar feliz aniversário e desejar todas aquelas coisas clichês de sempre. Você merece a maior felicidade do mundo, !
Ele apertou o celular nas mãos, como se aquilo fosse trazê-la mais para perto.
— Obrigado por ligar!
Não bebe muito, hein? Sabe como é a ressaca assim perto dos 30, né?
— Eu queria responder algo muito perspicaz, mas a minha ressaca realmente tem durado pelo menos dois dias.
Os dois riram juntos.
Tchau, .
— Tchau. A gente se fala.
A moça encerrou a ligação e ele continuou em silêncio, esperando pelo fatídico fim do sonho, mas o despertador nunca tocou. Iria mesmo revê-la no fim do mês em Los Angeles.
— Essa vozinha doce… — Rosa zombou. — Certeza que era a Maya.
riu.
— Não. Era a .
A amiga arqueou as sobrancelhas.
— “A” ?
— A própria. Ela… Ela vem para cá a trabalho no final de setembro.
— E isso é bom?
O rapaz deu de ombros.
— Eu acho que sim. Quero muito revê-la.
— Que bom, então! — Rosa sorriu. — Theo disse que chega em cinco minutos.
Mas já estava perdido em pensamentos. Colocou o celular no sofá e voltou a dedilhar o violão. Pela primeira vez desde março, se sentiu inspirado a começar a música do casamento de Carl e Lana.

**

“It’s easy to pretend that I’m not caught up, but when you get hot and bothered, I can’t give up the fight.”

Cross your mind

abriu a geladeira pela terceira vez em cinco minutos.
— Sossega, ! — Julian falou, levantando os olhos do celular.
— Ele está assim porque o amor da vida dele está na cidade. — Theo contou, sem tirar os olhos da TV.
— Maya?
— Não, a moça de San Francisco.
— Rosa está me saindo uma ótima de uma fofoqueira! — O rapaz resmungou, mas se deu por vencido e foi se sentar ao lado de Julian na sala.
— E você está fazendo o que aqui então? Vai lá ficar com ela! — O produtor falou, dando um empurrão no ombro dele.
— A gente combinou de sair amanhã, quando o congresso que ela está participando acaba. — explicou.
— Ah bom!
— Espero que vocês se acertem! — Theo falou, desviando os olhos do jogo rapidamente para sorrir para ele.
não queria perder tempo explicando que não se tratava dos dois se acertarem porque nem ele sabia exatamente o que seria esse encontro do dia seguinte. Só estava maluco para vê-la de novo.
Pensava que ansiedade era o que sentia antes dos aniversários de Lana, quando sabia que iria rever , mas nada se comparava a como estava agora. Não conseguia pensar em nada que não fosse ela, o estômago doía como se fosse digerir cada borboletinha que ameaçasse voar por ali e sentia as mãos formigarem, como se tivesse acabado de tocar algo eletrizado. Seriam as 24h mais longas de sua vida!

27/09/2019 17:53
Contato:

Oi! Me atrasei, desculpa! Peguei
um trânsito horrível vindo para cá.
Posso ficar te esperando na recepção mesmo?
Tem um Café aqui na frente, qualquer coisa
.

quase derrubou o celular no nervosismo de responder o mais rápido possível. No fim, tinha sido bom que ela se atrasasse, porque ele não conseguiria trabalhar sabendo que o esperava.

27/09/2019 17:53
Pode sim, já estou descendo! xx

Desligou o laptop correndo e foi até o banheiro ver se ainda estava apresentável. Passou pela mesa de Rosa antes de sair.
— Estou indo. — Avisou, porque ela saberia o que significava. A amiga levantou os olhos e sorriu abertamente.
— Boa sorte!
fez que sim com a cabeça e acenou, pegando suas coisas. O elevador pareceu levar horas para chegar ao térreo e ele tentou ajeitar o cabelo pela milésima vez. Quando as portas se abriram, viu que estava sentada em uma das cadeiras, mexendo no celular. Andou em direção a ela sentindo-se zonzo, mas tudo entrou em foco outra vez quando a moça se virou e sorriu. Como amava o sorriso dela!
Tinham ficado meses sem ver, meses sem se falar. Ele havia conhecido Maya e, bom, sabe-se lá Deus o que era aquilo que tinha com Maya. também estava ficando com alguém, então por que ainda sentia como se estivesse chegando a superfície depois de passar muito tempo submerso? Por que ainda era ela que o fazia se sentir vivo e enxergando em cores novamente?
— Está aqui há muito tempo? — perguntou, para preencher o espaço.
— Nada! Cheguei na hora que te mandei a mensagem.
Quando se levantou, reparou que ela usava o mesmo vestido que havia usado no aniversário de Lana em Carmel: branco com florzinhas azuis, que balançava próximo aos pés dela, como se a moça carregasse as próprias ondas do mar onde quer que fosse.
— Bom te ver — ele disse, quando ficaram frente a frente. Tinham evitado se tocar na última vez que se encontraram, mas dessa vez não vacilou, dessa vez o cheiro dela vinha dela mesma e era ainda melhor do que se lembrava.
, da mesma forma, o abraçou o mais forte que conseguiu. Se ela soubesse que não o abraçaria mais, teria passado horas naquela posição no dia que o ex-namorado voltara de Los Angeles. Agora, abraçá-lo era tudo o que tinha, era o mais próximo que podia chegar dele. Precisava aproveitar antes que ficasse esquisito.
Havia passado a semana toda pensando nisso, pensando nele, em como seria “assistí-lo” no lugar que agora chamava de casa. Enquanto os dois caminhavam para o estacionamento e conversavam amenidades, olhava em volta, tentando absorver o novo mundo dele. Queria ter certeza de que tudo era bonito, que as pessoas o tratavam bem, que estava feliz.
O plano, porém, tinha algumas falhas. A moça não esperava se sentir estranhamente triste e nostálgica por estar no carro do ex-namorado sem ter os pequenos gestos de carinho que ele costumava demonstrar a cada sinal vermelho, sem se sentir à vontade para trocar de música, como antes. Estava começando a se arrepender de ter sugerido aquele encontro, de ter propositalmente comprado uma passagem no sábado para ter tempo de vê-lo quando disse:
— Você está com fome? Eu queria te levar em um lugar antes.
Ela fez que não com a cabeça.
— Não estou não. Aonde vamos?
— Um lugar meio clichê, mas muito bonito. Prometo que da próxima vez penso em algo menos turístico. — respondeu enquanto o carro entrava em uma área muito arborizada. — Espero que não tenha ido lá ainda.
sorriu pelo “da próxima vez” e por ele ter gastado tempo pensando em lugares para mostrar a ela.
— A única coisa que vi essa semana foi o interior de um anfiteatro. Qualquer lugar que você me levar para ver será um clichê inédito.
— E como foi o congresso?
— Muito bom. Me deu vontade de voltar a estudar, sabe? Algumas palestras foram tão fodas, fiquei com saudade de ter aula de novo, de aprender e… O que foi?
Ele balançou a cabeça.
— Você é TÃO nerd!
— Hey! — ela exclamou, mas os dois riram.
— Quem fica com saudade de ter aula?
— Mas seria sobre um assunto que eu gosto.
— Então você estudaria por hobby?
— Desculpa, nem todo mundo é compositor, multi-instrumentista e jogador de golfe nas horas vagas.
gargalhou.
— E agora guia turístico.
cruzou os braços, fingindo estar brava.
— Vamos ver sobre isso.
Estacionaram onde ainda havia vagas e continuaram o caminho a pé. Ela sorriu ao perceber onde estavam.
— Griffith Observatory, check. Por do Sol, check. Letreiro de Hollywood, check. — O rapaz foi contando nos dedos. — Visão de cima de Los Angeles… Check!
Os olhos de faíscaram daquele jeito bonito que faziam às vezes, quando a moça ficava fascinada. deixou que ela andasse na frente, tirando fotos e se virando para tentar captar tudo de uma vez só, como uma criança em uma loja de doces.
Los Angeles combinava com ela. Ambas eram solares, quentes, felizes. Ou talvez qualquer lugar combinasse. Lembrou-se de ter pensado o mesmo em Barcelona e em Florença no ano anterior quando passearam pela Europa. Era como se o mundo se moldasse a , a fim de amplificar a beleza dela. não podia falar pelo mundo inteiro, mas tinha que admitir que o dele com certeza sim. Ela estava linda naquele vestido, iluminada pelo Sol se pondo e Los Angeles parecia mais bonita do que nunca agora que estava nela.

Quando começou a escurecer, eles decidiram ir embora do observatório para jantar.
— Pizza ou japonês? — perguntou enquanto dirigia.
— Eu comi pizza por três dias seguidos. O japonês é tão bom quanto o de San Francisco?
— O do seu restaurante favorito da vida, que você faz propaganda de graça e compara todos os outros restaurantes do mundo à ele?
gargalhou.
— Isso!
— Não, não é tão bom. — O rapaz respondeu, acompanhando-a nas risadas.
— Mas pode ser japonês, mesmo. Prometo não te lembrar que existem sushis melhores na Califórnia.
Os dois estavam rindo e brincando quando passaram por um banner gigante na estrada divulgando o segundo álbum da Maya. , que estava semi-virada no banco, olhou do outdoor para , mas ele continuou olhando para frente, estático, tentando não criar qualquer motivo para aquela conversa.
Compartilharem os mesmos melhores amigos tinha essa pequena desvantagem. Mesmo sem querer, acabava descobrindo, por exemplo, que o ex-namorado estava saindo com uma cantora famosa linda de morrer. Poderia puxar assunto e fazer a linha amigona, como quem já tinha superado e também estava seguindo com a vida, mas preferia não fazer perguntas às quais não queria ouvir as respostas.
Ficaram em um silêncio estranho no carro e ela se virou para frente, quase como se recolhendo ao seu lugar. apertou o volante, se arrependendo de ter falado o quer que fosse para Carl. Deveria ter previsto que contar a ele significava contar para Lana e também.
Em uma tentativa de quebrar aquele clima, alcançou a mão dela e a segurou, como sempre fazia quando estava dirigindo. Lembrou-se do dia do noivado dos amigos, de como a ex-namorada havia puxado a mão quando ele tentou se aproximar e teve medo que acontecesse de novo, mas apenas retribuiu o gesto e entrelaçou seus dedos aos dele.
— Eu estou feliz que você esteja aqui — disse, se virando rapidamente para olhá-la.
— Estou feliz em estar aqui também — ela falou, apertando a mão dele. Apoiou a cabeça no banco e sorriu. — Me conta sobre seus housemates.
As coisas voltaram a ficar amistosas entre os dois enquanto o rapaz falava sobre Rosa, Theo e Julian. Queria tanto poder apresentá-los! Queria que presenciasse ao vivo como Theo era engraçado e Rosa, assertiva. Queria levá-la para uma noite de karaokê com Julian. Então se virou para ela, parecendo muito animado de repente.
— Vamos a um karaokê? Depois de jantarmos?
Ela se endireitou.
— Um karaokê?
— Sim! Tem um lá perto de casa. Eu e Julian entramos em uma competição e foi a coisa mais ridícula que eu já fiz na vida! Mas me deu uma entrada vitalícia.
— Vocês ganharam?
— O campeonato? Não, mas conheci o dono e ele foi com a minha cara.
gargalhou. É claro que tinha ficado amigo do dono!
— Me parece um bom plano. Vamos!

— EU NÃO POSSO BEBER, ESTOU DIRIGINDO! — gritou, tentando se fazer ouvir por cima de Time After Time, que era cantada por uma senhora muito bem vestida.
— Nós não estamos perto da sua casa? Deixa o carro aí e a gente volta de uber. — deu de ombros, segurando dois copos de mojito. As bebidas eram “duas pelo preço de uma” até a meia-noite.
O jantar tinha sido divertido, sem mais tropeços como o causado pela imagem – gigantesca – de Maya. Estavam agora no karaokê e a moça achava que não conseguiria cantar na frente de desconhecidos totalmente sóbria.
pegou um dos copos da mão dela, fazendo-a comemorar.
— Está feliz? — perguntou, se dando por vencido.
— Que você vai ficar bêbado e chorar cantando The Scientist? Feliz demais!
Ele riu. Às vezes se esquecia de como se conheciam, o quanto da vida tinham compartilhado em dois anos. Porém, seria incapaz de cantar The Scientist olhando para ela agora, já que havia escutado a música mil vezes nos meses em que o pós-término era recente. Acabaria chorando mesmo sem um pingo de álcool no sangue.
— E você, espertinha? Qual música da Britney vai cantar?
— Sem a Lana? Nenhuma.
— Justo. Qual vai ser então? Listen to your heart? Me lembro de você dar um show com essa!
— Eu vou precisar de mais um double mojito para isso.
deu de ombros.
— Nós temos até meia-noite.

voltou para perto de o puxou para lá.
— Com performance ou sem? — perguntou no ouvido dela enquanto a introdução tocava.
— Com performance, claro!
E lá foram os dois.
Don’t go breaking my heart. — Ele cantou, colocando teatralmente a mão no peito.
I couldn’t if I tried! respondeu. Estava rindo e olhando para o bar, mas quando se virou para cantar sua parte e olhou para , percebeu que talvez a ideia de fazerem um dueto não fosse ser das mais inofensivas. Estavam bem em frente a um refletor que parecia deixá-lo ainda mais bonito e o sorriso dele mais iluminado.
Oh, honey, if I get restless.
Baby, you’re not that kind.
Enquanto cantavam exagerando versos e gestos, o rapaz a girava algumas vezes, fazendo-a rir. A moça percebeu que não se divertia daquele jeito há meses, um tipo de felicidade que só sentia quando estavam juntos.
You take the weight off of me.
Estavam cantando um de frente para o outro e, durante a parte instrumental, não conseguiu quebrar o contato visual e se virar. Era aquele olhar de relâmpago que ela possuía que tinha sido sua fraqueza desde sempre. Constatou que a queria de volta de qualquer jeito, por uma noite ou por um segundo, mesmo se resultasse no próprio coração quebrado novamente.
Oh, you put the spark to the flame.
I’ve got your heart in my sights.
Quando a música acabou, eles pareceram se lembrar de que não estavam sozinhos. Agradeceram o “público” e desceram do palco de mãos dadas. não sabia o que fazer com a confusão que estava sentindo, os dois ainda estavam muito perto, os dedos entrelaçados como se a vida deles dependesse disso. Queria continuar ali pelo resto da noite, da vida, mas se fosse um pouco responsável, então...
— Já está ficando tarde, né? — ela falou, tentando arrumar o cabelo em um movimento nervoso. — Eu deveria ir embora.
— Seu hotel fica longe daqui, não fica? Dorme lá em casa, . — pediu, procurando os olhos dela. — Eu... Você dorme no meu quarto e eu durmo na sala. Juro que não estou tentando criar um climão estranho, mas não queria que você fosse sozinha.
Ela levantou o rosto e o encarou. Não conseguiu evitar sorrir ao perceber como ele a olhava com atenção, genuinamente preocupado.
— Merda. Não devia ter te incentivado a beber! — falou brincando e arrancando um sorriso dele. — Perdi minha carona.
— Se você vier comigo, eu canto The Scientist no carro. — O rapaz sugeriu, levantando uma das sobrancelhas e andando para trás, os braços se esticando na distância criada.
— É para convencer ou para me fazer fugir? — Ela zombou.
Don’t go breaking my heart... — cantou em resposta e rolou os olhos, sorrindo e se deixando ser levada por ele.

28/09/2019 00:26
Oi Ro, te avisando para você não se assustar
quando chegar. A vai dormir no meu quarto
e eu vou dormir na sala, ok? Até amanhã!

voltou o celular no bolso e olhou para , que parecia cochilar. Estavam no uber, indo para a casa dele.
— Cansada?
— Acordei cedinho por causa do congresso. — explicou, abrindo os olhos. — Obrigada por hoje. Eu não ria tanto assim há muito tempo!
Ele sorriu.
— Eu também!
deu uma risadinha debochada e se virou para a janela.
— Ah tá! — falou, com ironia.
— O quê? Você não acredita em mim?
— Você não pode me dizer que não se diverte aqui em Los Angeles e esperar que eu acredite, . — respondeu, voltando a encará-lo. Ela não continuou a frase porque não queria falar sobre Maya. Não estava em posição de pedir satisfação, tampouco.
— E eu não disse. Só concordei que não me divertia tanto quanto me divirto quando estou com você — ele explicou. — Também tenho direito de sentir saudade de nós, .
A última coisa que queria era que acabassem a noite brigados, por isso não trouxe à tona que, apesar de ter cometido erros, não era ele quem tinha terminado o namoro. Achava que tinha mais direito de sentir saudades, inclusive, mas sorriu de lado.
— Eu não disse que sentia saudades. — Seu tom de voz, porém, era de brincadeira, o mesmo que fazia parte de metade das conversas deles. Dessas discussões bestas que tinham e que faziam os dois serem os dois.
— Mas você sente, porque está aqui — ele falou, repousando a cabeça no encosto do banco, bem próximo ao rosto dela.
Os dois se observaram por longos segundos. precisou reunir toda sua força de vontade para não beijar, assustar ou fazê-la repensar sobre ir para a casa dele. O uber parou em frente ao prédio onde o rapaz morava, fazendo-os desviar o olhar. sentou-se direito e mordeu o lábio. Mais um segundo e teria tentado beijar o ex-namorado, o que estragaria tudo. Caminharam lado a lado até o apartamento, desconcertados e quietos.
— Meu quarto fica lá em cima — disse, quebrando o silêncio. sorriu, olhando em volta.
— Que casa linda!
Ele fez que sim com a cabeça.
— Rosa fez toda a decoração. Eu queria tanto que você a conhecesse!
— Quem sabe na próxima — a moça disse, repetindo uma promessa que ele mesmo tinha feito.
Quando chegaram ao quarto, o rapaz foi até o closet pegar algo confortável para ela dormir e um travesseiro e edredom extras para levar para a sala. Na volta, encontrou-a perto da janela, observando as fotos do varal. Ela caminhou até o violão, distraidamente passando os dedos pelas cordas, e sorriu para o azulejo exposto como a peça de arte que era. Estranhamente, não se sentia tão invadido como quando Maya estivera ali. Talvez porque já fosse a alma dos objetos mais pessoais que tinha.
— Eu achei sua camiseta favorita — falou, entregando-a uma camiseta promocional da iHeart que a ex-namorada amava por ser 3 vezes o tamanho dela.
— Obrigada!
— Eu... Eu vou estar lá embaixo se você precisar de qualquer coisa. Theo e Julian viajaram hoje mais cedo. Rosa deve voltar quando estiver amanhecendo e vai dormir até a hora do almoço, então não precisa ficar com vergonha de descer quando acordar.
Ela sorriu e fez que sim com a cabeça. Estava pensando exatamente que não sairia do quarto até ir até lá de manhã.
— Você só pode ler mentes, — disse, fazendo-o rir. Era algo que ela falava com frequência, mas que só funcionava entre os dois.
— Só a sua. E só de vez em quando — respondeu. — Boa noite, .
— Boa noite, .
Ele fechou a porta e precisou soltar o ar antes de descer as escadas. Havia algo pesando nele, um tipo de arrependimento que não tinha muito onde ser colocado. Talvez fosse só decepção. O dia tinha acabado, assim como sua chance, e ele não tinha ficado com . Arrumou o sofá e tinha tirado os tênis e a camiseta quando ouviu um grito. A porta do quarto dele se abriu e a voz estridente de soou do segundo andar.
!
Ele se levantou e correu até lá.
— O que foi? O que aconteceu?
A moça estava colada na parede, ao lado da porta.
— Uma barata! — falou, apontando para onde ficava a mesa de estudos dele.
O rapaz teve vontade de rir.
... Sério?
— Não ri, ! Tira esse bicho daqui, por favor!
Prendendo o riso, ele analisou a parede, mas não viu nada. Será que tinha sido só uma desculpa para ele subir?
— Não tem nada aqui. . Eu...
Mas assim que se virou para dizer que também queria que o dia não acabasse, ela deu um berro e algo passou voando pela orelha esquerda dele. Foram 20 segundos de puro caos. A barata parecia ter um radar para voar atrás de e não queria matá-la, mas também não conseguia bater nela para fazê-la sair. Por fim, a barata pareceu se cansar e voou pela janela aberta. A moça desabou no chão, meio chorando e meio rindo, e sentou-se ao lado dela, arfando.
— Como você morou um mês dentro da Floresta Amazônica com medo de insetos? — perguntou.
— Passando muita vergonha e sofrendo traumas para a vida toda. E não é medo de insetos, é medo de barata!
Ele riu, mas fez um carinho desajeitado no braço dela.
— Desculpa tirar sarro de você.
— Tudo bem. Eu teria feito o mesmo se fosse o contrário.
Os dois riram e a ajudou a se levantar.
— Quer que eu cheque tudo uma última vez antes de descer?
Ela não respondeu. Não queria que ele descesse, mas não queria pedir que ele ficasse. O rapaz engoliu em seco quando o encarou. Precisava falar, implorar, se fosse preciso. Era sua segunda última chance. Passou os dedos com cuidado na alça do vestido dela.
— Você está usando o vestido de Carmel.
Ela olhou para baixo, parecendo surpresa. Não tinha sido de propósito.
— Como... Como você se lembra?
— Como eu esqueceria?
Contornou a cintura dela com os braços. Só precisava ouvir que queria também, mas ela suspirou.
— Nós não... Nós estamos saindo com outras pessoas — disse. Não estava preocupada com Wes, o rapaz com quem estava ficando. Tinham se resolvido por um relacionamento aberto, o que ela – e Lana – julgava ser muito moderno e descolado. Na verdade estava pensando especificamente em e Maya. Talvez ele finalmente tivesse encontrado uma garota disposta a manter um namoro a distância. Não queria se entregar por completo àquilo para depois ouví-lo dizer que tinha sido um erro, culpa do álcool, nostalgia.
— Não precisa significar nada, não precisa ser mais do que só o que vai ser. — ele respondeu. Já tinham ido muito longe naquilo e agora estava disposto a oferecer qualquer coisa para que não precisasse voltar para a sala e isso incluía passarem a noite juntos e depois vê-la voltar para San Francisco, para outro cara. Soltou a cintura dela, caso quisesse mesmo que eles parassem.
sabia que, com , sempre ia significar muito, mas quando estavam assim tão perto, quando tudo que sentia por ele borbulhava e ameaçava vazar pelas bordas... Não parecia haver nenhuma outra opção. No dia seguinte, em casa, teria tempo de remontar qualquer caquinho que caísse de seu coração remendado.
— Eu não quero que você durma na sala — confessou, por fim. Ele sorriu aliviado e se aproximou.
— Eu não preciso ir — falou a abraçando de novo. O movimento, dessa vez, foi correspondido e ela o abraçou de volta.
levantou a mão e fez um carinho leve na bochecha de com o polegar. Inclinou o rosto e deu um beijo de lábios fechados nela, que se contraiu e o abraçou ainda mais forte. Pareciam ter chegado nesse acordo mudo de que não precisavam apressar nada. Já que tinham apenas aquela noite, podiam estender cada sensação ao máximo, esperar que o efeito de cada beijo e toque se propagasse pelo corpo todo.
Ela distribuiu beijos pelo pescoço e ombros dele, que estavam expostos. Uma mão constantemente afagando a nuca do rapaz, se perdendo no cabelo dele. Deitaram-se na cama e ele a ajudou com o vestido, o atirando pelo quarto sem se importar muito com onde cairia. sorriu para o teto, os lábios dele na curva do seu pescoço, sentindo-se feliz, completa. levantou o rosto e os dois se encararam, sorrindo um para o outro, os narizes se tocando.
— Eu não disse no carro, mas... Eu senti saudades, sim. De cada pedacinho de você — a moça falou.
a beijou outra vez, o peito próximo de explodir com tantos sentimentos que carregava por ela. O que sentia por parecia ser um oceano inteiro feito de memórias das noites que passaram fazendo planos e sonhando juntos, de conhecê-la o suficiente para “ler” a mente dela, de rirem das mesmas coisas. Era beijá-la e saber exatamente como queria falar de amor na música que deveria escrever para o casamento dos melhores amigos. Talvez fosse amá-la assim para sempre e nunca houvesse outra.

desceu as escadas e se assustou ao encontrar Rosa tomando café. Ela sorriu de lado ao vê-lo.
— Bom dia! — falou, com certo divertimento na voz.
O rapaz riu e deu um beijo estalado na bochecha da amiga quando passou por ela para entrar na cozinha.
— Bom dia, Ro!
— Como foi ontem?
Ele ligou a cafeteira e se apoiou no balcão.
— Perfeito! O que a senhora está fazendo acordada sábado de manhã?
— Não voltei muito tarde ontem, aí perdi o sono agora cedo. Estava com fome — explicou, dando de ombros. — Mas e aí? Me conta como...
, onde você jogou meu vest... — parou ao ver Rosa e acenou, meio sem jeito. — Ah, oi. Desculpa!
— Oi, ! — Ela devolveu, sorrindo. — Eu sou a Rosa. Já ouvi falar bastante de você.
A moça corou.
— Igualmente. Prazer em conhecê-la! Falei para o ontem que achei a casa linda!
Rosa se virou para olhá-lo. Ele observava a ex-namorada como se estivesse sob um encanto.
— Obrigada pelos créditos, novato!
O rapaz balançou a cabeça.
— De nada! Fico feliz que tenha dado tempo de vocês duas se conhecerem.
Elas sorriram uma para a outra e foi até a cozinha. Rosa percebeu que a moça também olhava para como se só existisse ele no mundo. Os dois riram do que quer que estivessem falando e era um pouco como assistir uma comédia romântica.

Os três ficaram tomando café e conversando, até que olhou em volta, procurando um relógio.
— Que horas são?
Ro checou o celular.
— 10h30.
A moça quase cuspiu a torrada.
— Meu Deus, eu achei que fosse mais cedo! Eu... Eu tenho que ir embora, vou perder meu voo!
se levantou também.
— Para que horas está marcado?
— 13h30, mas eu preciso voltar no hotel e pegar as minhas coisas!
— Fica calma, eu te levo.
— Você está sem carro, lembra?
Rosa franziu a testa.
— O que houve com o seu carro?
Ele se virou rápido.
— Eu explico depois.
— Foi um prazer te conhecer, Rosa! — disse, já andando até as escadas. — Desculpa sair assim.
— Imagina! Espero te ver de novo.
Mas a moça não respondeu e foi atrás dela.
— Ok, o Uber chega em 4 minutos e eu não acho meu vestido.
Os dois procuraram em volta, embaixo da cama e nada. Ela colocou os sapatos e pegou a bolsa. Ainda usava a camiseta enorme da iHeart.
— Eu vou assim mesmo e me troco no hotel.
...
— Você leva o vestido quando for para San Francisco?
Eles não teriam tempo de conversar sobre o que tinha acontecido ou se havia qualquer chance para os dois e aquilo consumia .
— Levo — respondeu, derrotado.
Desceram as escadas e ele foi com ela até o elevador. pensou em dizer algo antes que a porta se fechasse, mas só falou: — Vai me dando notícias de que conseguiu chegar a tempo.
Ela balançou a cabeça e desapareceu. Voltou para dentro e se deitou no sofá, que ainda estava do jeito que ele havia deixado na noite anterior. Era como se tivesse aceitado algo sem ler as letras miúdas. Sabia que não duraria, mas não esperava ser tão dolorido.

**

“Now I'm looking in the eyes of a stranger, just trying to get over you…”

Arms of a stranger

Rosa passou pela sala, onde jogava videogame no sofá.
— Ué, não vai sair?
— Não, a Maya está em uma premiação sei lá de que e vem para cá depois.
Ela franziu a testa. Tinha perdido algo?
— A Maya? Mas eu achei que...
O rapaz deu um pause e a olhou por cima do sofá, com um arzinho de decepcionado.
— Não. O que... O que aconteceu entre eu e a semana passada foi meio que uma abertura na fenda do tempo.
— Poxa. Que pena, ! — Rosa apertou o ombro do amigo ternamente. — Se te consola de alguma forma, a minha leitura de fora da situação é que ela ainda é tão apaixonada por você quanto você por ela.
Ele deu um sorriso triste.
— Não sei. E, de qualquer forma, eu já devia ter superado isso. — Depois, pensando melhor sobre tudo, se virou para Rosa de novo. — Você acha que... Você acha que é errado? Eu ainda ficar com a Maya?
A mulher deu de ombros.
— Eu acho que não. Vocês dois sabem a regra do jogo, ninguém está sendo enganado. Ela também não quer nada sério — disse e mordeu os lábios antes de continuar, ponderando se devia falar o que estava pensando ou não. — E, honestamente, eu acho que você prefere estar envolvido com alguém que não demande do seu emocional para continuar sendo apaixonado pela .
Ele voltou a encarar a TV sem dizer nada. Porque não era mentira.

estava descendo para abrir a porta quando avistou Julian entrando em casa de braços dados com Maya. Ela estava lindíssima – surpresa! –, ainda vestida como tinha ido à premiação.
— Olha quem eu encontrei no elevador! — o housemate falou. — Não sabia que o red carpet era aqui!
— Seu nome está na lista dessa after, Julian? — a cantora perguntou, divertindo-se.
— Está, mas meu camarote fica aqui embaixo e acho que o seu é lá em cima.
Encontraram-se no meio do caminho e deu um beijo sem jeito na bochecha dela, não sabia como cumprimentá-la “em público”. O casal deu as mãos e estavam prestes a subir, mas ouviram Theo abrir a porta do quarto, curioso.
— Ah... Oi. — Acenou quando os três se viraram para ele.
— Esse é o Theo, meu namorado. — Julian apresentou.
Ele veio até a moça com a mão estendida.
— Prazer, , ouvi falar bastante de você.
Silêncio. Dois pares de olhos arregalados se viraram para ele.
— Maya. — Ela corrigiu, mas ainda sorria como se nada tivesse acontecido. — Prazer, Theo! e Julian falam muito de você também.
O rapaz sorriu, corando e se encolhendo de volta. Julian iria morrer a qualquer segundo, de riso preso ou de vergonha. a abraçou pelo quadril e, achando que tentar contornar a situação seria pior, apenas disse:
— Vamos?
Eles se despediram e a conduziu para dentro do quarto sem falar nada, sendo pego de surpresa quando Maya o encostou na porta com uma certa pressa para beijá-lo. Pelo jeito havia passado ilesa pelo vexame de minutos atrás.
— Me empresta algo para vestir? — ela pediu, quando se separaram. — Esse vestido pinica.
Tirou os saltos e todos os muitos acessórios que usava e seguiu até o closet.
— Você quer só uma camiseta? Camiseta e uma samba canção? — Ele perguntou, mas não ouviu resposta. Maya estava, ela mesma, procurando algo. Enquanto passava os dedos pelos casacos, encontrou uma peça inesperada.
— E esse aqui, hein? — falou, pegando o cabide que segurava o vestido branco de florzinhas azuis. A peça havia sido encontrada por atrás da sua mesa de estudos. — O senhor, de bom moço não tem nada! Cheio de casinhos, trazendo um monte de donzela indefesa para casa! Me empresta para ir embora amanhã cedo? Acho que serve.
Mas parou de brincar quando percebeu que estava não só sem graça, mas um tanto incomodado.
— Não é... Não é um casinho. Minha ex-namorada deixou. É uma longa história porque o vestido está aqui, mas... — Ele passou a mão pelos cabelos, pensando o que deveria ou o que precisava explicar para Maya, mas ela o interrompeu.
— Ah, me desculpa, eu não queria te deixar chateado falando da sua ex. Achei engraçado, achei que era de alguém com quem você não se importava, como eu.
franziu a testa.
— Mas eu me importo com você!
A cantora sorriu, colocando o cabide de volta cuidadosamente. Depois, sem muita cerimônia, puxou o zíper do próprio vestido, que caiu sobre seus pés, tirou o sutiã e vestiu a primeira camiseta da pilha. Deu uma olhada rápida de lado para ver se ele ainda a observava, ficando satisfeita em ver sua cara de bobo.
— Vem, me prometeram uma after e eu quero uma!
O puxou do closet até a cama, onde ambos se deitaram enquanto se beijavam. a abraçou e se moveu para ficar por cima dela, parecendo decidido a provar o que havia acabado de dizer.
— Eu sei que você importa — Maya sussurrou em seu ouvido antes que o rapaz voltasse a beijá-la com certa urgência. Gostava quando ele era intenso.
tentava de qualquer jeito desviar seu pensamento do vestido, de , da primeira vez que a viu usando-o e do motivo porque a peça agora estava em Los Angeles, camuflada em meio aos seus casacos. Tentava se concentrar no momento, em Maya, em como tudo era perfeito e simples entre eles, mas aquele era um jogo perdido. O vestido era apenas um lembrete de que seus sentimentos pela ex-namorada também estavam todos ali ainda. Ele tentava guardá-los, escondê-los e, a todo o momento, era obrigado a confrontá-los outra vez.

— Está com fome? — perguntou quando, na manhã seguinte, Maya caminhava pelo quarto recém saída do banho.
— Um pouco, mas vou deixar para comer no hotel.
— Tem certeza? Podemos pedir alguma coisa antes de você ir.
— Obrigada, mas não precisa.
Ela se sentou na cama ao lado dele, de pernas cruzadas, penteando os longos cabelos.
— Eu não sou nenhum Sherlock Holmes, mas é a sua ex, dona do vestido. Certo?
colocou a mão no rosto, apertando os olhos.
— Maya, a gente não precisa falar sobre isso.
— Ela esteve aqui recentemente? Vocês vão voltar?
— Não, não vamos. — o rapaz respondeu. As próprias palavras doendo nele.
—- Hmmm. Por que não?
Chegava a ser hilário que aquele diálogo estivesse acontecendo. Deu de ombros.
— É complicado. Nós terminamos porque eu fui transferido para cá, o que não vai mudar tão cedo.
— Ela é de San Francisco?
fez que sim com a cabeça.
— É sim. Nos conhecemos desde a escola.
Maya sorriu, colocou a escova na mesa de cabeceira e foi se deitar aninhada nele.
— Ela é bem bonita, uma pena que vocês não vão voltar.
— Bonita?
A moça se virou e apontou para uma das fotos do varal.
— É ela ali, não é?
Curiosamente, Maya estava mesmo apontando para . franziu a testa.
— Como você sabe, Sherlock?
Ela riu.
— Sua carinha olhando para ela, o jeito que vocês estão de mãos dadas. Fofinhos — disse por fim e depois se virou para encará-lo. — Você ainda gosta dela?
achou que era um pouco demais falar sobre seus sentimentos por outra assim. O Capitão Evasão entrou em cena.
— Nós não precisamos conversar sobre isso, Maya. — Repetiu. — Você não me contou como foi a premiação. The Sea ganhou o prêmio de Hit do Verão?
Mas a moça fez que não com a cabeça.
— Não vem com essa. Você pode falar comigo se estiver precisando conversar — disse, imitando algo que tinha dito a ela tempos atrás. — Somos amigos.
Ela levantou as sobrancelhas, fazendo-o rir.
— Mas uma coisa é falar sobre sentir saudade de casa e outra é sentir saudade de outra mulher.
— Então você sente saudade dela.
O rapaz virou os olhos, tentando pensar em como escapar daquela situação.
— Sinto, mas... É natural que eu sentisse, não? É algo que vai passar eventualmente.
— Você disse para ela que ainda a ama?
— Ela sabe.
— Mas você disse?
riu.
— O que você está fazendo, Maya?
Ela se sentou na cama de novo.
— Lembra que você me disse que se importava comigo ontem? — Deu de ombros. — Acredite se quiser, eu me importo com você também.
devia ser um entre cinco ou seis rapazes com quem Maya estava saindo ao mesmo tempo. Porém, ele era o único com quem ela tinha esse tipo de relação, o único por quem nutria certo sentimento de proteção, um carinho genuíno. Não se importaria de continuar falando com mesmo se os dois não estivessem transando mais.
— E eu me sinto lisonjeado por isso, mas...
— Você devia dizer a ela como se sente. Devia estar com quem realmente ama.
— Eu estou fazendo você se sentir como a minha segunda opção? Porque não quero que você se sinta assim. Ainda mais você, que é... Bom, você é você, né? Eu não sei se conheço ou se um dia vou conhecer alguém tão estonteante!
Maya sorriu e segurou o rosto de com as duas mãos, trazendo-o mais perto para dar um beijinho nele.
— Não, não é sobre isso. Eu não querer amor romântico na minha vida não significa que não queira para as pessoas de quem gosto. Como você acha que eu escrevo? As pessoas com quem eu convivo precisam estar apaixonadas para eu continuar fazendo música!
riu porque aquilo não fazia sentido nenhum. Como basicamente tudo que envolvia essa passagem do furacão Maya pela sua vida.
— Você vai escrever uma música sobre mim?
— Vou. Vai se chamar Los Angeles.
Os dois riram e ela se levantou da cama, juntando suas coisas.
— Mas de qualquer forma. Você ganhou ou não o prêmio ontem? — o rapaz perguntou e ela saiu do closet, de volta no vestido da noite anterior.
— Claro! — respondeu, convencida. — Eu sou o verão, .
E ela era. Mas já estavam em outubro e até o melhor verão de todos precisava acabar. Desceram de mãos dadas e se despediram. Ele se apoiou no batente da porta e sorriu de lado.
— Então você está me dando um pé na bunda?
Maya riu.
— Não, eu estou te dando um conselho. — retrucou e voltou até onde ele estava. — Se não funcionar você me liga, San Francisco. — Brincou.
E, depois de dar um último beijo em , desapareceu pelo elevador.

**

“I might show up on your doorstep, soaking wet. Say I'm done running from the one that I want so bad.”

San Francisco

Uma semana antes do casamento, estava de volta a San Francisco para a despedida de solteiro de Carl. Mas também havia outra missão que ele precisava cumprir.

02/11/2019 16:34
Oi , tudo bem? Eu estou em SF esse fim
de semana, será que a gente podia se ver amanhã?
Meu voo de volta para Los Angeles é no fim da tarde.
Podemos almoçar juntos e eu te devolvo o vestido. xx

Leu e releu a mensagem algumas vezes, para ter certeza de que não estava soando muito desesperado ou como um daqueles “preciso te falar uma coisa muito importante, mas só amanhã”. sentia como se tivesse voltado três anos no tempo, como se estivesse diante de outro aniversário da Lana e fosse rever depois de passarem um ano em conversas rasas pela internet.
— Você deveria ter tirado a semana de folga e ficado aqui até sábado que vem — Carl disse, colocando uma garrafinha de cerveja na frente do amigo.
— Seria mais fácil e mais barato, mas só consegui a sexta-feira mesmo. Falta um mês para o Jingle Bell Balls começarem, temos reunião todo dia na rádio. Você já está de férias no jornal?
Ele fez que sim com a cabeça.
— Começando ontem.
— E onde vão passar a lua de mel? Da última vez que eu perguntei para a Lana, vocês ainda não tinham resolvido.
— Havaí. Mal posso esperar!
O celular de vibrou e ele sorriu para a mensagem.

02/11/2019 16:40
Contato:

Hey! Você vai embora amanhã para voltar sexta?
Podemos almoçar juntos, claro! Você está
ficando na casa do Carl e da Lana? Eu passo para te pegar
e te levo para comer comida japonesa de verdade.
Até lá! xx

? — Carl perguntou.
— Sim. Vamos almoçar juntos amanhã.
O amigo o olhou de rabo de olho e balançou a cabeça.
— É muito difícil entender vocês dois.
— Por quê?
— Vocês claramente ainda se amam e ficam se envolvendo com outras pessoas, como se fosse mais fácil ficarem se enganando do que se acertarem de uma vez.
não respondeu. Em vez disso, tomou quase todo o conteúdo da garrafinha em um gole. Se fosse passar o dia ouvindo esse tipo de verdade dolorida, teria que ficar bêbado. Estava tão desconcertado que preferiu não responder a mensagem imediatamente, sob o olhar julgador de Carl.

A noite evoluiu para um pub crawl, já que os colegas de trabalho do noivo logo se entediaram com o primeiro bar. havia perdido a conta do quanto tinha bebido e já se arrependia, pensando na ressaca que teria que aguentar no dia seguinte. Por volta de 23h, quando estava tentando ficar um pouco mais sóbrio para voltar para a casa dos pais, onde iria dormir, foi puxado pelo pescoço por Carl, em uma espécie de mata leão.
— Você é meu melhor amigo, cara! Estou tão feliz que você está aqui! — ele falou meio choroso.
Pelo visto não era a pessoa mais bêbada entre eles. Abraçou-o de volta.
— Você também é meu melhor amigo, Carl, e eu estou muito feliz por você e pela Lan!
Mas ele estava embalado em um discurso.
— Estou prestes a me casar com o amor da minha vida, vou dividir esse momento com os meus melhores amigos e acho que nunca fui tão feliz! — falou. — Sabe? Esse tipo de felicidade que dá medo de acabar um dia? E eu amo tanto a Lana, tanto! Desde o dia que a gente se beijou pela primeira vez. Eu lembro que roupa ela estava usando! — Nesse ponto, ele já estava em lágrimas. — Eu quero ficar velhinho com ela e contar para os nossos netos que o nosso casamento foi o mais bonito do mundo.
— E você vai! — falou, com a voz embargada também. Deu um tapinha amigável no ombro dele. — Eu mal posso esperar pela semana que vem e para ver vocês dois casados!
— Você já se sentiu assim, ? Você já sentiu que encontrou o amor da sua vida?
— Você sabe que sim, Carl.
— Então por que vocês não estão juntos, irmão? Por que você e a não estão juntos?
— Não depende só de mim.
— Eu sei, eu sei. Mas se vocês conversassem, falassem as coisas abertamente...
— Nós vamos, prometo!
Alguém então os interrompeu para avisar que estavam se mudando para o próximo bar. Caía uma chuva forte em San Francisco e eles se aglomeraram embaixo do toldo para esperarem os ubers. ficou pensando no que Carl havia dito e em como ele estava certo. Maya estava certa. E Rosa estava certa.
Todo mundo parecia compreender a situação muito melhor que ele e , parecia ver o que os dois não viam. Não tinham tido uma conversa franca desde o dia em que terminaram, sempre acreditando que o implícito era claro o suficiente e ele morria de medo de falar tudo o que queria e ter que ouví-la dizer que não sentia o mesmo, mas cada vez mais acreditava que não seria o caso, que ainda se amavam, que ainda era recíproco e que só precisavam pôr para fora. Só precisavam conversar direito. Sem pensar muito, saiu andando para fora do toldo. A casa de não era tão longe, não precisava esperar até o dia seguinte.

02/11/2019 23:23
? Estou aqui embaixo.
Podemos nos falar agora?

Alguns minutos depois, ela apareceu na porta de vidro do prédio e o portão vibrou e abriu, para que ele entrasse. franziu a testa quando se aproximou.
, o que houve? Você está todo molhado! — falou, puxando-o para a parte coberta.
Ele mexeu no cabelo e tentou organizar os pensamentos, apesar do grau alcoólico em que estava.
— Eu... Eu não posso esperar até amanhã! Eu precisava vir e te falar. Te falar tudo! Que eu ainda amo você e que eu ainda quero ficar com você. Eu fiz um monte de coisa errada, , me desculpa, mas a gente ainda pode fazer dar certo. Não pode?
A moça parecia confusa e um pouco assustada com a ideia de que estava exasperada por ele não ter esperado até a manhã seguinte, como tinham combinado.
— Eu também quero que a gente converse e se acerte, , mas você...
— Podemos subir? Eu estou meio congelando aqui.
— Eu... Eu acho melhor não. Wes está lá em cima, eu precisava falar com ele antes. Nós iríamos conversar só amanhã, .
— Wes? Quem é... Ah!
Ele deu dois passos para trás, piscando para fazer o mundo entrar em foco de novo.
— Nosso combinado era amanhã. — ela repetiu como se pedisse desculpas.
E não havia porque pedir desculpas, pensou, ele é quem tinha tomado decisões sem comunicá-la outra vez. A decisão de que deviam voltar, de ir até a casa dela tarde da noite e se humilhar daquele jeito.
— Você está certa, . Eu... Eu já vou indo. Me desculpa, de novo.
passou a mão pelo rosto, nervosa.
, está chovendo. Eu... Eu levo você.
— Não! Não precisa — o rapaz disse, andando para trás em direção ao portão.
— Você vai ficar doente!
— É rápido. Eu pego um ônibus.
— Quer que eu ligue para a Lana?
— Eu estou na casa dos meus pais. Não se preocupa, .
Ela veio andando atrás dele, parecendo triste com a situação toda.
— Nós ainda vamos nos ver amanhã?
Mas achava que não seria capaz de passar tanta vergonha assim no mesmo fim de semana.
— Eu te mando mensagem quando acordar — respondeu vagamente, já se distanciando.
...

03/11/2019 09:16
Me desculpa por ontem, .
Eu deixei seu vestido com a Lana, ok?

03/11/2019 09:18
Contato:

, eu ainda queria falar com você.
Passa aqui hoje? No horário que você viria mesmo
...

Adiantei meu voo. Já estou no aeroporto, voltando para LA.
Mas eu mereço a bronca pessoalmente, eu sei. A gente
se vê no casamento. Me desculpa mais uma vez...

**

“There'll never be another. I promise that I'll love you for the rest of my life.”

Black and White

Assim que desceu do uber, ficou olhando para a fachada do Fairmont San Francisco Hotel sem ter certeza se estava bem vestido o suficiente para passar na porta, quem dirá se hospedar ali. Mas diante daquela data mais do que especial, havia reservado um quarto não apenas por uma noite, mas para o fim de semana todo. Coisas que só faria pelos melhores amigos.
E não era realmente surpreendente que os dois escolheriam um dos lugares mais chiques de San Francisco. Eles mereciam, de fato, toda pompa e circunstância. fez o check-in e guardou sua mala, o violão e o terno que usaria no dia seguinte. Não fazia ideia se os outros convidados que ficariam no hotel já haviam chegado, mas tinha certeza absoluta que Lana estava por lá. Podia sentir o nervosismo no ar.

08/11/2019 14:22
Hey bridezilla, cheguei!
Você e Carl estão aqui no hotel?

08/11/2019 14:22
Contato: Lana

Carl está na casa dos pais e volta para o jantar.
Está desocupado? Desce aqui no Crown Room
para me dar uma mão
.

não seria maluco de desacatar uma ordem da rainha do fim de semana e foi ao encontro dela. Ao chegar, percebeu que a decoração já estava quase toda pronta e era linda! Havia um grande painel próximo à porta, mas não era uma foto de Lana e Carl. Era um desenho, feito por . Como tudo que ela desenhava, a imagem era em preto e branco. Os noivos não tinham rosto, o desenho continha apenas os braços e troncos deles. O foco eram as duas mãos entrelaçadas no centro, mas cada um estava representado de um lado do papel. Do lado esquerdo, o paletó escuro de Carl e, do lado direito, os contornos do vestido de Lana. Era perfeito!
E espantosamente complementar à música que havia escrito. Enquanto observava o desenho, Lana se aproximou. Ele a abraçou de lado e deu-lhe um beijo no topo da cabeça.
— Não é irritante que tudo que ela faz é perfeito? — a amiga perguntou, fazendo-o rir.
— Eu estava pensando exatamente na palavra “perfeito” — falou e então se virou para examiná-la. — Tudo certo para amanhã?
— Comigo, sim. Com todo o resto do mundo, ainda não.
— Me fala em que você precisa de ajuda e eu prometo me esforçar pelos meus quase 8 meses de ausência.
Ela riu com certo deboche.
— Você não tem braços suficientes para isso, . — depois se desvencilhou dele e saiu andando para o fundo do salão. — Vem, precisamos terminar tudo a tempo do meu banho relaxante antes do jantar.
— Se o banho tem horário marcado, não é relaxante, Lan.
— Shiu!

andou pelo que pareceu uma eternidade atrás de Lana, movendo coisas pesadas e depois trazendo essas mesmas coisas de volta para o lugar onde elas estavam inicialmente. Havia algo de libertador em saber que podia passar horas com ela sem que o ocorrido do último fim de semana viesse à tona, já que a amiga estava tão absorta no próprio casamento – o que era absolutamente compreensível. Talvez Lana nem se lembrasse mais que o rapaz tinha batido na casa dela 8h da manhã no domingo anterior.
Ele logo descobriu que também não esbarraria em tão cedo. A madrinha tinha uma lista que se assemelhava aos 12 trabalhos do Hércules para terminar antes do jantar, e talvez fosse melhor assim. Eles poderiam conversar no domingo, depois que tudo passasse. se sentiria estranho se o tal Wes também fosse um convidado do casamento, mas havia se preparado psicologicamente para o pior.
Choraria ouvindo The Scientist quando voltasse para Los Angeles, na segunda-feira de madrugada. Checou o relógio e procurou Lana pelo salão.
— Lan? — chamou. — Deu a sua hora.
A amiga veio até ele, riscando um caderninho. A carinha de quem trocaria aquele jantar por 8h de sono.
— Já? Falta muito para terminar aí?
estava enumerando as mesas conforme o mapinha que ela tinha lhe dado.
— Não, faltam só 5. Pode subir, eu me arrumo em 2 minutos.
Ela sorriu agradecida.
— Você é um anjo — falou, apoiando a cabeça no ombro dele.
— Eu estou tão feliz por vocês, tão ansioso para amanhã! — retribuiu o sorriso e a puxou para um abraço.
— Eu também, mas... Quero que chege logo, não aguento mais essa parte de arrumar, organizar, discutir sobre posição de velas.
— Vai tomar seu banho relaxante e, a partir de hoje à noite, você vai só aproveitar o seu momento.
Ela coçou os olhos.
— Eu espero que sim. já apareceu?
O coração do rapaz acelerou, como se ele fosse um adolescente ouvindo o nome de sua paquerinha.
— Não. Não que eu tenha visto.
— Ok! Ela deve ter subido direto, então. — Lana deu um beijo no rosto do amigo e o examinou uma última vez. se encolheu, já prevendo o assunto “último fim de semana” sendo finalmente abordado. — E a minha música?
Agora que a música estava pronta... Era um alívio que a pergunta fosse sobre isso.
— Só esperando a audição que você e o Carl exigiram. O violão está no meu quarto.
Ela riu.
— Faremos isso hoje. Em algum momento.
Lana ainda se distraiu mais um 10 minutos pelo salão antes que a expulsasse dali para ir descansar e se arrumar. Quando terminou, ele também subiu para o quarto, procurando com atenção por um sinal de . Mas pelo jeito, a sorte dos encontros inusitados só funcionava nos aniversários da amiga, não nos casamentos.

08/11/2019 19:20
Contato: Lana

Já está pronto? Sobe aqui na suíte Golden Gate.
Ah, traz seu violão. Isso é o The Voice San Francisco
.

riu e fez como Lana havia pedido. Uma música alegre vinha de dentro do quarto dos noivos e ele precisou bater algumas vezes para ser ouvido. abriu a porta, estava usando um vestido cinza escuro e escarpins que a deixavam ainda mais bonita, mas intimidadoramente formal. Ela sorria, porém, contrariando qualquer seriedade que o traje pudesse passar. Seus olhos chegavam a estar pequenos, tentando dar mais espaço no rosto para o sorriso. Encontrar na porta, felizmente, não pareceu diminuí-lo. O rapaz sorriu de volta, aliviado que ela não estava brava.
— Você está linda! — foi como acabou a cumprimentando, ainda um pouco impactado pela visão que ela era naquela noite. riu, sem graça.
— Você também está! — respondeu, analisando-o. usava uma calça social vinho e uma camisa branca, se sentindo um pouco mais digno de andar pelos corredores entapetados daquele hotel. — Entra. Eu não posso passar por essa experiência sozinha.
O puxou para dentro e ele logo entendeu o que queria dizer. A televisão exibia a conta de Carl no Spotify e eles estavam ouvindo uma playlist que se chamava “As melhores de casamento”. Os noivos pulavam um de frente para o outro cantando – berrando – Marry You, do Bruno Mars. Ou mais ou menos isso, já que eles só sabiam a letra em “Hey baby, I think I wanna marry you”.
— Uma experiência, realmente.
— Tem champagne aqui. — falou, enchendo uma taça para . Os dois pararam lado a lado, observando os amigos, mas sorriam. A cena era cafona e fofa e tudo o que se espera de um casal apaixonado prestes a se casar. — A gente tem sorte que Carl é o noivo e não o DJ.
riu, quase se engasgando na bebida, e o observou, sorrindo. A risada dele sempre a faria se sentir inebriada, independente do que acontecesse. A vida não era a mesma sem aquele som enchendo seus dias de alegria.
— Você não pode negar a um homem o direito de ser clichê na véspera do casamento dele!
riu e balançou a cabeça.
— Tem razão.
Quando a música acabou, Lana veio até ele. Usava um vestido branco de mangas longas, já parecendo a noiva magnífica que seria no dia seguinte. Não havia mais nenhum sinal em seu rosto da pessoa estressada e cansada de mais cedo.
— Ah, finalmente! Vem, a gente tem 10 minutos!
— Mas que pressão!
tirou o violão da capa e sentou-se na cama enquanto Lana e Carl dividiam uma poltrona e foi se sentar na outra.
— Como a música se chama? — o amigo perguntou.
— Black and White.
— Como a do Michael Jackson?
riu.
— A do Michael Jackson se chama Black or White.
— Ah é!
— Vai logo! — Lana o apressou, impaciente.
Os três riram e ele tossiu para limpar a voz.
— Como vocês me convenceram a fazer isso? Eu devo amar muito os dois! — Brincou. — Vamos lá!
Afinou o violão uma última vez e começou.
That first night, we were standing at your door... Fumbling for your keys, then I kissed you. Asked me if I wanna come inside, 'cause we didn't wanna end the night... Then you took my hand and I followed you. — Cantou, ainda um pouco nervoso em estar fazendo aquilo.
Lana deu uma risadinha da letra e olhou para Carl ternamente, lembrando-se do momento exato em que haviam se beijado pela primeira vez.
I see us in black and white, crystal clear on a starlit night, in all your gorgeous colours... I promise that I'll love you for the rest of my life. — Os olhos de vagaram das cordas do violão para e eles se encararam por alguns segundos antes de desviarem o olhar. Será que ela também conseguia captar a beleza que era os dois terem “descrito” os amigos da mesma maneira, cada um em uma forma de arte? Porque era nisso que ele havia pensado assim que vira o desenho que ela tinha feito. E não só isso, será que entendia que esse refrão era sobre ela, por mais que parecesse ser sobre Lana e Carl? — See you standing in your dress. Swear in front of all our friends. There'll never be another... I promise that I'll love you for the rest of my life.
Os amigos o olhavam com lágrimas nos olhos, o que fez ficar emocionado também e sua voz saiu um pouco embargada na parte seguinte:
Now we're sitting here in your living room, telling stories while we share a drink or two. And there's a vision I've been holding in my mind, we're sixty-five and you ask: “When did I first know?”, I always knew.
Quando se encontraram em junho, tinha dito a algo que ficara na cabeça dele: que era difícil falar de amor eterno quando se está na fossa. E talvez isso explicasse porque ele havia demorado tanto para escrever Black and White. Ou talvez fosse só porque, morando em Los Angeles, tinha parado de conviver com os amigos. Afinal, era impossível não acreditar em almas gêmeas vendo os dois juntos. Se existia um casal que tinha chance de durar até estarem velhinhos e, como o noivo tinha dito no sábado anterior, contando aos netos sobre os dias que estavam vivendo agora, esse casal era Carl e Lana.
And I want the world to witness when we finally say "I do". It's the way you love, I gotta give it back to you. I can't promise picket fences or sunny afternoons... But at night, when I close my eyes... I see us in black and white, crystal clear on a starlit night. There'll never be another, I promise that I'll love you...
Carl deu um beijo na bochecha da noiva. Eles estavam de mãos dadas e balançavam a cabeça como se já conhecessem a música durante o último refrão. olhou para e ela tentava segurar o choro, limpando com cuidado embaixo dos olhos.
And there'll never be another. I promise that I'll love you for the rest of my... Life... — ele cantou, encerrando a música, e os três bateram palmas.
— Meu Deus, , eu não tenho palavras! — Lana exclamou, levantando-se da poltrona.
— E então, eu ou o Ed Sheeran? — o rapaz perguntou, colocando o violão de lado, e foi surpreendido com um abraço duplo dos noivos, que quase o fez cair deitado na cama.
— Você! Você! Você! Você! Você!
Os olhos dele e os de se encontraram por cima do ombro de Carl e os dois sorriram de forma cúmplice. Por compartilharem a felicidade que estavam sentindo pelos melhores amigos, por sentirem algo tão forte assim um pelo outro também.

**

“You! That's what I've been missing. Was tangled up and twisted… Now all the clouds been lifted. Lately my heart's been so empty, but it feels different when you're with me.”

Heartbreak weather

tinha ido visitá-los algumas vezes com . Era impossível esquecer como o Sr. e a Sra. Nguyen faziam parte do começo história deles.
Apesar da quantidade de parentes e pessoas mais velhas que não conhecia, o “elenco jovem” do jantar era composto, em sua maioria, pelos amigos que ele não via desde o começo de junho.
— Agora eu sei como você se sentia quando morava em San Diego — falou para a ex-namorada, sentada ao seu lado.
— Por morar longe de todo mundo?
— Sim. É esquisito voltar e tudo ser tão diferente e igual ao mesmo tempo.
Ela fez que sim com a cabeça, olhando em volta.
— Mas você se acostuma. Por um tempo, parece que você foi deixado de lado das piadas ou que perdeu alguma parte muito grande de uma história, mas você também está diferente e igual para os outros e tem suas piadas, suas histórias. Às vezes é mais difícil para quem fica do que para quem vai — disse pensativa.
absorveu aquelas palavras, lembrando-se do que ela havia dito sobre não acreditar que ele não se divertia em Los Angeles. Nunca tinha pensado por esse lado, como aquele período tinha passado para ela. Vivendo e trabalhando no mesmo lugar, com as mesmas pessoas. Por um bom tempo, foram as novidades na vida dele que o distraíram do coração partido que tentava remendar.
— Você se mudaria de San Francisco outra vez? — perguntou, mais para evitar aquele assunto no meio do jantar do que qualquer outra coisa. Achava que jamais sairia da cidade de novo.
— Não sei. Pelo motivo certo, talvez — respondeu e deu de ombros. Os olhos dela, que passeavam pelos convidados, voltaram-se para e a moça sorriu, como se quisesse contar algo para ele por telepatia. Era uma pena que o rapaz não pudesse ler a mente dela de verdade.

O jantar já havia acabado e os convidados agora se espalhavam pelo salão, bebendo e conversando. estava em uma roda com ex-colegas de faculdade, mas seu olhar de tempos em tempos vagava até encontrá-la.
conversava com uma tia de Lana e, quando a senhora se despediu e voltou para onde estava sentada, a moça se levantou da mesa também. Os olhos dela involuntariamente o procuraram. Tinha planejado falar com o ex-namorado apenas depois do casamento, mas qual era a vantagem disso, se não conseguia parar de pensar nele e em tudo que precisava dizer?
Os dois se encararam e, sem pensar muito, a moça indicou a porta com a cabeça, indo naquela direção. deu uma desculpa qualquer aos amigos e a seguiu, quase correndo. Encontrou-a encostada à parede oposta à porta, estava tão bonita que chegava a doer!
— O que foi? — perguntou.
tinha uma expressão divertida no rosto.
— Que foi o que?
franziu a testa e olhou para trás.
— Você... Você não me chamou?
Ela prendeu o riso.
— Não.
— Ah. — corou. Será que já estava delirando? — Eu achei que... Vou voltar lá para dentro então.
riu e o pegou pela mão. sentiu os pelos do braço se arrepiarem com o toque.
— Hey, estou brincando. Eu te chamei sim. Você quer sair para beber alguma coisa? — Convidou.
— Fora do hotel, você diz?
Ela deu ombros.
— É, podemos ir andando até o... — mas não conseguiriam ir andando a lugar nenhum. Ao passarem por uma janela, perceberam que caía uma tempestade do lado de fora.
— Hm... Melhor não.
— Eu não queria voltar para o jantar... Preciso guardar minha energia social para amanhã. — falou e os dois seguiram caminhando em direção ao elevador. — Tem champagne no meu quarto. Podemos beber por lá.
— Lana e Carl não vão notar que nós dois sumimos?
— É possível que eles já estejam contando com isso...
riu. Qualquer um que os conhecesse estaria. Entraram no elevador e ficaram um tempo em silêncio.
— Você não me disse o que achou da música — ele comentou, apoiando-se em uma das paredes para olhá-la e fez o mesmo.
— A coisa mais linda do mundo, ! O modo como você traduziu o relacionamento, o amor deles — respondeu de um jeito carinhoso. Desejou poder colocar em palavras tudo o que havia sentido enquanto escutava aquela música. Sobre os amigos, sobre aquele fim de semana, sobre ela e . — Você reparou que...
— Combina com o seu desenho? Sim! — ele completou e a moça riu.
I see us in black and White… — Cantarolou, fazendo o coração dele dobrar de tamanho.
Quando chegaram ao quarto dela, tirou os sapatos e foi buscar a garrafa e as taças. Ele ligou a TV e colocou a playlist de Carl para tocar, fazendo-a gargalhar.
— Ah não!
— Você não está apreciando essa obra prima do jeito certo, .
abaixou a luz do quarto e aumentou o volume.
— Esse é o jeito certo? — ela indagou.
— O jeito certo é ficar mais bêbada. Vira esse champagne aí!
Ela riu, mas acabou dando o braço a torcer. Em um clima parecido com o do karaokê de Los Angeles, os dois se viram cantando e dançando Marry You também.
— Nunca mais vamos poder julgar Lana e Carl — disse, rindo.
— É um preço justo a se pagar pelo quanto estamos nos divertindo, você não acha? — respondeu, a tirando do chão em um giro.
Três músicas depois, os dois estavam sentados no tapete, ofegantes, e decidiram que era hora de parar e guardar as coreografias para a noite seguinte. deitou-se sobre as pernas dela e se virou, a encarando. sorriu e passou a fazer um cafuné preguiçoso nos cabelos dele. Seus olhos faíscaram daquele jeito que o fazia voltar 5 casas no Jogo da Vida e o rendia eternamente, girando em torno dela.
— O Wes vem amanhã? — perguntou, tentando manter o tom descontraído. Precisava saber, antes de passar o resto da noite completamente preso no magnetismo dela, antes de enxergar sinais onde não existia e entender errado o que havia entre eles.
— Não faz isso, .
Ele se sentou direito e franziu a testa.
— Não faz o que?
— Me pergunta o que você quer perguntar, fala o que você quer falar.
Mas o rapaz balançou a cabeça.
— A última vez que eu te disse tudo o que eu queria dizer, não deu muito certo.
o olhou por alguns segundos sem responder, parecendo triste.
— Onde foi que as coisas desandaram entre nós esse ano? Quando foi que viramos esse casal que não conversa, que faz as coisas de qualquer jeito?
Ele deu de ombros.
— Não sei. Eu nunca quis que nada disso acontecesse. E agora parece que tudo virou uma bola de neve e cada vez que eu tento fazer algo certo, de algum jeito dá errado.
— Você acha que ainda tem solução? Que ainda temos chance?
— Você quer que a gente tenha uma solução?
fez que sim com a cabeça, olhando-o nos olhos.
— Quero — respondeu, simplesmente, com convicção. suspirou, aliviado ao ouvir aquilo. Podiam consertar o que quer que fosse se estivessem do mesmo lado.
— Então vamos trabalhar nisso, , por favor. — Ele pediu, alcançando a mão dela. — Vamos conversar direito, dizer o que não foi dito.
A moça concordou.
— Vamos. Eu... Eu vou primeiro.
— Ok!
tomou mais um gole de champagne, juntando coragem, e se endireitou.
— Eu não deveria ter terminado com você, mas eu estava brava e agi sem pensar. Nós passamos 7 meses separados e não deixamos de nos amar, então eu estava errada sobre sermos ou não capazes de sustentarmos um relacionamento a distância. — Começou. sentia o coração pulsar na garganta. — Eu me envolvi em um relacionamento aberto, mas aparentemente relacionamentos abertos não significam ficar com alguém e esperar pacientemente que as coisas com o ex-namorado voltem ao que eram antes. Quem diria! — Ironizou e ele riu, encontrando similaridades na forma como ambos haviam lidado com o término. — Então, respondendo a sua pergunta: Não, o Wes não vem. Nós terminamos no sábado passado porque eu queria ir conversar com você no dia seguinte sem nenhum empecilho. O que aconteceu entre a gente em Los Angeles foi incrível, mas me matou saber que nós estávamos vendo outras pessoas ao mesmo tempo, que não era para significar nada. — Terminou, fazendo aspas com as mãos.
discordou com a cabeça e apertou a mão dela.
— Aquela noite significou tudo para mim. Eu só... Eu estava tão... Eu queria que a gente ficasse de qualquer forma aquela noite, , mesmo se não fosse significar nada para você.
Ela sorriu.
— Você nunca vai significar nada para mim, ! — Explicou. — Eu... Eu confesso que tive medo de fazer muitas perguntas aquele dia e descobrir mais do que eu gostaria.
— Eu também. Ia doer demais. — Era impressionante se darem conta de que tinham estado no mesmo lugar em tantas circunstâncias sem perceber. — Minha vez? — ele perguntou e fez que sim.
— Como a gente conversou no aniversário da Lana, eu aceitei o emprego sem te falar e isso foi a coisa mais egoísta e imprudente que já fiz. Na minha cabeça, isso nem era um problema, mas eu devia ter entendido que seria e porquê. Pagar o preço de perder você me ensinou mais do que qualquer outra coisa, não vai acontecer de novo. Eu sei que relacionamentos a distância são complicados e exigem planejamento, mas eu estou disposto a fazer o que for preciso, se você quiser.
— Sobre isso... — interrompeu.
— Só mais uma coisa. — o rapaz disse, levantando o dedo. — No sábado passado eu fiquei bêbado e acabei em uma espiral de pensamentos que me levaram até a sua casa sem avisar. Entendo agora o que aconteceu e porque eu devia ter esperado até o domingo. Me desculpa, de novo. Vou ouvir melhor daqui para frente, vou ser melhor.
— Digo o mesmo. — Ela concordou. Os dois sorriram e mordeu o lábio inferior. — E já que estamos nessa nova tática de sermos extremamente verdadeiros um com o outro, eu preciso te contar uma coisa.
O rapaz, que já estava lentamente se perdendo nos contornos do rosto dela, ficou sério outra vez.
— O que houve? — perguntou, o coração escapando uma batida. Estavam indo tão bem! Não se conformaria se houvesse um “porém” depois de tudo.
— Eu conversei com uma professora no congresso que participei em Los Angeles, que é a coordenadora do mestrado em Enfermagem Geriátrica no UCLA. Lembra que eu te falei? Sobre sentir saudades de ter aula?
— Sobre estudar por hobby?
Ela riu.
— Isso. Anteontem essa professora me mandou um email, me convidando para fazer o mestrado lá.
entendeu o que isso queria dizer, mas parecia bom demais para ser verdade. Decidiu verificar primeiro se estava certo.
— Em Los Angeles...
fez que sim com a cabeça.
— É uma possibilidade que eu já tinha pensando antes e poderia fazer aqui em San Francisco, mas... Agora eu também tenho essa opção. E se for significar morarmos na mesma cidade outra vez, então...
O rapaz estava estupefato.
— É um bom curso? Eu não... Eu não quero que você aceite se não for algo que queira muito.
— É um dos melhores.
riu.
— E você foi convidada pela coordenadora. Meu Deus, por que ainda me surpreendo?
ficou sem graça e deu um empurrãozinho nele com o ombro.
— E então?
— Eu te falaria para aceitar de qualquer jeito, se for bom para o seu futuro, mas somando a isso o fato de que você se mudaria para LA também.
— Não seria agora. O curso só começa em março.
— Eu posso esperar. — Mas então a olhou com atenção. — Nós podemos. Certo?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Se estivermos juntos, o tempo que for preciso.
desejou não ter abaixado a luz do quarto, para conseguir vê-la direito, mas não era assim tão necessário quando os olhos dela brilhavam daquela maneira. Mal podia acreditar que tinham deixado as diferenças de lado e que tanto dessas ditas diferenças eram só os dois sentindo e passando exatamente pela mesma coisa sem se comunicarem. Ele não estava mais nervoso. Não tinha porque estar.
— Acho que só me resta dizer o óbvio, então — falou, chegando mais perto e brincando com uma mecha do cabelo dela. — Eu te amo, , e nunca tive mais certeza, nnunca quis mais que nós ficássemos juntos do que agora.
fechou os olhos, se inclinando na direção da mão dele que mexia em seu cabelo. Do lado de fora caía uma chuva muito parecida com a do dia em que haviam terminado, mas ela não estava mais zangada daquele jeito. Era a primeira vez em muito tempo que não sentia uma nuvem cinza sobrevoando sua cabeça.
— Eu amo tanto você! Eu não deixei de te amar nem um diazinho sequer.
O rapaz a beijou brevemente. sorriu e levantou uma das mãos, fazendo carinho na bochecha dele. Ficaram um tempo curtindo o momento, com as testas juntas.
— Eu achei que o casamento da Lana não funcionaria como o aniversário, mas aparentemente...
Ela riu.
— Ainda bem! Imagina esperar até junho do ano que vem?
se juntou a nas risadas, que logo cessaram quando ela uniu seus lábios aos dele de novo. Ficavam revezando entre se beijar e olharem um para outro, como se precisassem se certificar de que estavam mesmo vivendo aquilo, tentando imprimir aquela memória com a maior quantidade de detalhes possível. Ainda que fosse quando estavam de olhos fechados que realmente criavam as sensações que iriam querer se lembrar para o resto da vida. A moça se moveu para sentar no colo dele, tateando pelos botões da camisa que usava.
— Eu vou ser cuidadoso com o seu vestido hoje. Prometo! — ele falou e sentiu a risada dela em seu maxilar.
— Acho bom! — se endireitou, encarando-o. — Essa cama não faz barulho — contou, erguendo uma das sobrancelhas de modo sugestivo.
A luz em seus olhos agora eram chamas e, se dependesse de , o quarto todo poderia pegar fogo. Ela se levantou e ofereceu a mão para puxá-lo para cima também. Ficaram um tempo rodando lentamente, dançando no mesmo lugar enquanto se despiam. Rindo à toa, às vezes, extasiados com a segurança de que ainda estariam juntos na manhã seguinte. E na próxima. Em San Francisco ou em Los Angeles. Sem nenhuma barreira de tempo ou espaço para atrapalhá-los. Não mais.
Naquela noite, quando estava prestes a dormir e conseguia sentir o perfume de ocasiões especiais dela na própria pele, teve ainda mais certeza de que era quem ele queria para sempre e a mulher que mais amaria na vida. Tudo, absolutamente tudo, era diferente quando estavam juntos.
Juntos. Ele gostava daquela palavra, ainda mais quando era sobre os dois. Ficavam bem juntos. Ficavam melhor juntos.

observando San Francisco pela janela. Ela usava um dos roupões do hotel e a luz de fora a envolvia, transformando-a em um contorno. O fez se lembrar do sonho de alguns meses atrás, mas dessa vez era a pura realidade.
— Bom dia! — ela disse sorridente, virando-se e percebendo que ele a olhava.
— Bom dia. Já está na hora de ir cumprir seus afazeres de madrinha?
A moça veio andando até a cama, em direção aos braços abertos dele.
— Não, ainda temos um tempinho.
— Que bom! — o rapaz exclamou, dando um beijinho na testa dela. — Está um friozinho bom para ficarmos abraçadinhos mais um pouco.
Ela sorriu e se aconchegou no peito do namorado. O silêncio confortável de não precisar dizer nada para ser entendido tomando conta deles. percebeu que a chuva da noite anterior havia passado, dando lugar para um dia azul, sem uma nuvem no céu. Aquela imagem era um pouco como a paz de espírito que sentia no momento. era uma constante luz solar e estava permanentemente de volta na vida dele. Os dias de tempestades, furacões e corações partidos haviam ficado para trás.

***
FIM!

Nota da autora: Já vou começar essa n/a fazendo a famosa autocrítica, porque eu passei o tempo todo que escrevi HBW me arrependendo de ter inventado de fazer um albumfic caber numa shortfic (e no fim não coube mesmo, mas eu já tava desgastada e não quis reescrever hahahahaha). Então se você achou que faltaram diálogos, background e profundidade nos personagens (principalmente os secundários)... Eu concordo! O que eu posso fazer aqui é sugerir que vcs vejam a fic não como um livro, mas como uma compilação do que seriam os clipes de cada música. O visual album de Heartbreak Weather hahahahaha De qualquer forma, eu sempre quis fazer um albumfic! Tem alguns álbuns em que é muito fácil colocar as músicas em ordem e formar a histórinha e nesse o mesmo já tinha dito que era a ideia, né? O trabalho já tava 50% feito.
Eu me apeguei bastante a esses personagens e eles se tornaram muito queridos pra mim, então espero que vocês gostem deles também! Anticipation só existe porque enquanto eu pensava na Maya, eu já comecei a adorar ela e eu sabia que precisava fortalecer os laços do casal principal, pro ship seguir forte mesmo com a passagem dela pela história hahahahaha... Sei que muita gente não gosta de triângulo amoroso, mas espero que esse tenha ficado leve.
Eu sempre fico pensando em mil coisas pra escrever na n/a, os “bastidores” de como foi escrever a fic e o que me inspirou e como algumas partes saíram totalmente do roteiro, porque os personagens, de algum jeito, criaram vida própria... Mas nunca sei se as pessoas estão interessadas ou o que exatamente contar, porque tudo é muita coisa. Então se você quiser bater papo sobre a fic, me grita lá no twitter ou no grupo do facebook.
Antes de me despedir, quero só agradecer a você que está lendo essa fic agora e a Thatha, que é meu anjo da guarda fanfictístico e passa pelo processo todo de escrever (que é sempre de muita insegurança) comigo. Eu espero que todo mundo que escreve tenha uma Thatha, pra confiar sua história e saber que só vai receber apoio e bons conselhos (e sugestão de músicas pra playlist hahahaha) <3 Espero que tenham gostado, não se esqueçam de ler e comentar! Até a próxima! LINKS
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