Anticipation

Sinopse: Eles se conheciam desde pequenos, mas haviam perdido o contato durante o Ensino Médio. Agora, se encontrando todos os anos da faculdade na mesma festa, talvez percebam que se verem apenas anualmente não seja o suficiente.
Gênero: Comedia Romântica
Classificação: 12
Restrição: Nomes utilizados na fanfic (alguns apenas uma vez) que não são interativos: Lana, Carl, Ethan, Kim, Evan, Mark, Benji
Beta: Bridget Jones

Capítulos:

 

13/06/2014 14:34
Contato: Lana

“Você vem para San Francisco, né?”

“Chego aí amanhã de manhã.”

14/06/2014 19:35
Contato: Lana

?”
!”
“Eu não acredito que está chegando, gente
e a minha melhor amiga não chegou!”
!”

“Segura essa emoção, Lana! Eu estou chegando.
Estou tentando achar um táxi.”

 

desceu as escadas da varanda de casa ainda tentando conseguir um táxi pelo telefone. Era sábado à noite e ela sabia que todo mundo devia estar tentando fazer o mesmo. Bufou de impaciência. Se Lana não tivesse inventado a festa em um karaokê seria só andar até o fim da rua.
Enquanto olhava na direção da casa da melhor amiga percebeu um carro se aproximando e parando em frente a ela. Caminhou até a calçada enquanto o vidro do lado do passageiro era abaixado. Pegou-se encarando . Há quanto tempo não o via? Desde a formatura, provavelmente. Franziu a testa.
? — ele perguntou, parecendo inicialmente estar tão confuso quanto ela, mas logo mudando a expressão para um sorriso animado. — Caramba, quanto tempo! Tudo bem?
Ela estava atrasada e não podia ficar de papo com o garoto, mas se sentiria mal se não fosse educada.
— Ééé… Quanto tempo! Tudo sim e você?
— Tudo bem! Deixa eu te perguntar… — começou. É lógico que ele não tinha parado ali só para ser legal com uma velha conhecida de infância.
— Você está indo para o aniversário da Lana também? Posso seguir o seu carro? Não sei onde esse karaokê fica.
Aquela cena toda só ficava mais estranha! Lana também tinha sido amiga de quando eles eram pequenos, mas como , haviam se distanciado com o tempo. Por que ele tinha sido convidado?
— Eu, é… Eu estou tentando chamar um táxi, mas… Mas eu acho que você pode ir seguindo ele, claro!
Ouviu imediatamente o barulho da porta destravando.
— Não. Que táxi? Entra aí! Eu te levo e você me ensina a chegar lá!
Um pouco contrariada, entrou no carro. Não era o caso de se sentir insegura, que algo ruim aconteceria ou nada assim. era filho da melhor amiga de sua mãe… Eles se conheciam desde sempre. O que ela queria evitar era o que estava mesmo acontecendo dentro do veículo.
Um silêncio constrangedor.
Eles não conversavam há anos… Não tinham assunto.
— No próximo semáforo você pode virar à direita. — ela falou pela primeira vez desde que tinha entrado no carro.
Com o sinal fechado, se virou para olhá-la e sorriu.
— Minha mãe me contou que você passou em San Diego. Era a universidade que você queria, né?
ficou surpresa que ele sabia. Ou se lembrava.
— Sim, é sim! Estou fazendo Enfermagem lá.
— É, foi o que eu pensei. E como foi o primeiro ano? Como é a cidade?
A garota percebeu que estava na defensiva por absolutamente nenhum motivo. Resolveu devolver o sorriso.
— San Diego é ótima! Eu acho que fui mais à praia esse ano do que na minha vida toda!
Eles riram juntos.
— Você está mesmo mais bronzeada do que eu me lembrava!
— E eu estava mais… Mas nos últimos meses as provas finais atrapalharam um pouco minha vida social.
— É, isso tende a acontecer… Esquerda ou direita?
tinha se esquecido de lhe dar instruções sobre como chegar ao karaokê.
— Esquerda. Vira aqui à esquerda e, na terceira esquina, à direita. E você? — ela perguntou. Sentiu-se um pouco envergonhada por não saber nada sobre .
— Estou fazendo Comunicação com foco em Mídia aqui em San Francisco mesmo…
— Legal! O que você pensa em fazer depois da faculdade?
— Eu quero trabalhar em uma estação de rádio. Minha mãe diz que eu devo ter sido vacinado com agulha de vitrola, que nunca calo a boca e que o curso parece perfeito para mim…
riu. Lembrava-se de exatamente assim: falante, conversando com todo mundo no intervalo entre as aulas. Ele não era o clichê do cara popular: não era jogador de futebol, não era musculoso ou besta. Estava sempre andando pelo pátio do colégio carregando um violão e puxando assunto com Deus e o mundo. Era mais ou menos por isso que haviam se distanciado. Ele tinha que dar atenção à escola toda e ela… Precisava estudar para passar na melhor faculdade de Enfermagem da Califórnia e conseguir uma bolsa.
Mas antes disso… Antes do ensino médio… se lembrava dos bilhetes na agenda e as observações no boletim sobre como ela era muito inteligente, mas passava metade da aula conversando com . Os dois precisaram ser separados em turmas diferentes já que o garoto não tinha a mesma facilidade que ela para acompanhar as matérias sem prestar atenção. Talvez o distanciamento entre eles tenha começado aí.
A atmosfera no carro pareceu, então, ficar mais leve. falou mais sobre o curso e as festas universitárias malucas que tinha ido. contou sobre os shows que havia entrado de graça trabalhando como técnico de som. Por um minuto foi como se eles nunca tivessem perdido o contato.
Assim que chegaram foram recebidos pela aniversariante com a mesma expressão de confusão que eles mesmos esboçaram minutos antes.
— Feliz aniversário, Lan! — disse, chegando primeiro e dando um abraço apertado nela. — Carl já chegou?
franziu a testa. Ele conhecia Carl, o novo namorado da melhor amiga, e ela não?
— Que bom que você veio! Ele chegou sim, vocês é que estão mega atrasados. Entra aí!
Assim que o garoto sumiu pela porta, Lana colocou as mãos na cintura, encarando .
— Onde a senhora estava? Onde a senhora estava com o ?
A amiga riu.
— Eu não consegui chamar um táxi e ele estava passando em frente à minha casa… — Foi a sua vez de copiar o gesto da amiga e colocar as mãos na cintura. — Desde quando vocês são íntimos assim e ele conhece seu namorado e eu não?
Lana a olhou como se não tivesse entendido a pergunta.
— Eu não te contei na época? Nós estamos estudando na mesma universidade, no mesmo campus! — explicou. — Ele e Carl são da mesma turma.
E, de repente, tudo fez sentido! Lana fazia jornalismo. Se eles estavam estudando na mesma universidade, é claro que se esbarravam sempre!
— E eu vou conhecer esse homem dos seus sonhos ou…? — perguntou.
Ela abriu um sorrisão.
— AGORA!

O espaço parecia pequeno demais para a quantidade de gente. não entendia muito bem como algumas pessoas pareciam estar bêbadas se a maioria ali não tinha idade para comprar bebida. Devia ter perdido não só o começo da festa, mas também o esquenta… E já havia um movimento para todos irem logo para a casa de um tal Mark para poderem infringir a lei mais um pouco.
A garota, porém, estava muito ocupada matando as saudades da melhor amiga e de outras pessoas que não via desde que tinha ido para San Diego. Além disso, amava karaokê tanto quanto Lana, por isso as duas já haviam dividido o microfone em três músicas seguidas e agora descansavam e colocavam o papo em dia em um sofá perto da porta. Ia ser divertido quando saíssem dali para beber, mas por enquanto não estava realmente entediada ou com pressa.
conversava com alguns colegas de curso perto da TV, mas seus olhos sempre acabavam voltando para . Era engraçado tê-la em seu campo de visão novamente depois de um ano sem vê-la. E parecia que mais tempo havia se passado porque ela parecia mais confiante, mais bonita… Mais feliz. Ele não se lembrava muito bem como acabaram mal se falando no Ensino Médio, mas era alguém de quem ele sempre se lembrava com carinho, alguém por quem ele torcia mesmo que inconscientemente.
levantou a cabeça e percebeu que o garoto a observava. Sorriram um para o outro.
! Você vai cantar? — Carl perguntou no microfone.
Ele terminou a latinha de energético que estava tomando e esfregou as mãos.
— Canta uma aí enquanto eu escolho a próxima. — ele respondeu, indo até onde o livrinho de músicas estava.
Lana passou pelo garoto, indo abraçar o namorado, e sentiu alguém parando ao seu lado.
— Já sabe o que vai cantar? — indagou.
— Ainda não… Eu adorei você e Lana cantando Britney Spears!
— Cantando E dançando!
— Isso! Grande performance! — Ele levantou os olhos do livrinho e os dois riram juntos.
— A gente sempre canta essa! Faz uns 10 anos…
— Parecia muito bem ensaiado mesmo!
— Obrigada!
sorriu e murmurou um “Já sei!” para si mesmo, indo colocar o número de sua música no aparelho.
— Que música é? — pediu os dois microfones assim que Carl terminou e os primeiros acordes de (I’ve had) The time of my life começaram. Ele forçou uma voz grossa nos primeiros versos, fazendo as pessoas em volta rirem.
Now I've had the time of my life. No, I never felt like this before…
O garoto então se virou, ficando de frente para e oferecendo o segundo microfone para ela que riu, negando o convite. Porém, em uma combinação de Lana a empurrando para frente e fazendo cara de pidão ainda cantando, ela acabou com o microfone em tempo para o verso de Jennifer Warnes.
'Cause I've had the time of my life and I owe it all to you…
Enquanto voltava a cantar ela se apoiou nos ombros dele e gritou “Duvido você me levantar no ar!” em seu ouvido, fazendo-o rir.
Quando chegaram ao refrão, já dividia o microfone com Lana e mais uma amiga e todo mundo cantava junto. De alguma forma, a garota se pegou achando graça de como aquele momento parecia sintetizar sua amizade com na escola, ela mal conseguia cantar o olhando, porque todos os convidados estavam dançando entre os dois. Mais uma vez, era difícil exigir exclusividade em sua atenção.
A música terminou em gritos e palmas, foi até ela com o braço levantado para um high five, enquanto a próxima dupla pedia os microfones de volta.
— Não deu para fazer a coreografia! — ele brincou.
— A gente ensaia para o aniversário do ano que vem! — respondeu e ele fez que sim, rindo.
— Vou ao bar, você quer alguma coisa? — perguntou, mas a garota balançou a cabeça e observou enquanto ele era imediatamente absorvido em outra conversa. Antes que pudesse interpretar o que era a bolhazinha de emoção que passeava por ela, sentiu Lana a abraçar por trás.
, daqui uns 15 minutos a gente vai para a casa do Mark. Você vai também, né?
Ela sorriu.
— Claro que vou! Já apostei uma keg com o Evan no beer pong! — Recebeu um beijo estralado na bochecha pela resposta. — Eu só não devo ficar muito. Nós ainda vamos para Carmel-by-the-sea amanhã?
— Claro! Já avisei o Carl que só volto semana que vem! Mas já fica avisado que vou estar insuportável e de ressaca.
Já era de se esperar... Lana era fraca para bebida e normalmente precisava ficar sóbria quando a amiga resolvia beber, mas sendo o aniversário dela, era justo que ganhasse esse passe.
— Tudo bem... Eu compro gatorade a mais e coloco umas sacolinhas no porta-luvas.
A amiga riu e a abraçou mais apertado.
— Igualzinho quando a gente estava na escola!
Viajar com Lana era uma aventura que sempre exigia planejamento e um toque de clarividência. não trocaria essa tradição por nada no mundo!
Realmente não demorou muito para os jovens indóceis começarem a se organizar para ir até a casa de Mark e, na divisão de carros, ficou com os anfitriões. Quando estava sendo puxada pela mão por Lana, percebeu que, ainda dentro do karaokê, olhava de um lado para o outro por cima das pessoas, parecendo procurar alguém. Quando seus olhos se encontraram, ele fez um “Ah!” e começou a andar em direção a saída.
Talvez as coisas não fossem mais exatamente como na escola.

— Hey! — cumprimentou, mirando para se sentar ao lado de , mas acabou sentada quase no colo dele, quando a almofada fofinha do sofá se mexeu. — Opa, desculpa! Erro de cálculo!
riu.
— Tudo bem aí? — perguntou, enquanto se ajeitavam.
— Tudo. Desculpa! Eu vim perguntar o que você está fazendo sentado aqui sozinho.
O garoto virou a tela do celular para ela, que estranhamente temeu ter que ler mensagens de outra garota.
— Estou vendo pedaços dos jogos da Copa de hoje mais cedo, que eu perdi.
— Os Estados Unidos jogaram?
— Não, só segunda-feira... — travou o celular e o colocou de volta no bolso, virando-se para . — E você? Está se divertindo?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Muito! Eu normalmente não bebo quando a Lana vai beber, mas perdi feio no beer pong.
sorriu. Lembrava-se de como as duas eram inseparáveis desde pequenininhas.
— E cadê ela agora?
— Com o Carl. — respondeu, levantando as sobrancelhas para indicar o que realmente queria dizer.
— Aah! Você está pronta para passar três meses segurando vela?
— Bom, eu espero dividir esse fardo com você! — A garota respondeu e depois ficou se perguntando se soou como uma cantada. Como um convite para um double date.
Mas não pareceu levar por esse lado e riu, fazendo que não com a cabeça.
— Eu vou para a Irlanda visitar meus avós, você vai viver essa experiência sozinha. — falou e bateu sua latinha de energético na garrafa de cerveja dela. — Boa sorte! — Ironizou, fazendo-a rir.
Era verdade, tinha esquecido. nunca passava o verão em San Francisco.
— Alguma dica?
— Não, eu estava brincando. Eles são tranquilos, nunca brigam ou se pegam em público. Você vai ficar por aqui, então? O verão todo?
Mas antes que pudesse responder, alguém colocou a cabeça para dentro da sala. Era Evan.
, o dobro ou nada!
se levantou do sofá.
— Preciso ir recuperar meu dinheiro... — ela explicou quase como se pedisse desculpas.
Mas o garoto sorriu e se levantou também.
— Evan fica com nojo quando a bolinha fica melada de cerveja. Esconde o copo d’água dele e ele vai perder com certeza!
Os olhos dela se iluminaram com a dica e abriu um sorrisão.
— Sério mesmo? Vou fazer isso!
Ele piscou e deu um aperto amigável no braço dela antes de sair para o outro lado. tinha a impressão de que havia perdido muito tempo colocando na própria cabeça que o garoto tinha mudado. Ainda era fácil se aproximar e conversar com ele, ainda era aquele garoto divertido que ela descrevia no Caderno de Perguntas como um de seus melhores amigos. Não era a aniversariante, mas também tinha ganhado um presente naquela noite, ou reencontrado um.

colocou a cabeça para dentro da sala e encontrou Lana em cima do sofá com outra garota cantando Dancing on my own e tentando organizar a bagunça do cômodo.
— E aí? — perguntou, chamando a atenção dela e começando a ajudá-la, juntando garrafas e copos vazios. — Achei que vocês já tivessem ido embora...
— Lana se recusa a ir embora cedo no próprio aniversário. — explicou, mas não parecia estar brava, só cansada.
se virou para olhar a amiga.
— A pilha dela não acaba! — exclamou, fazendo rir.
— E você?
— Eu estava indo agora. Entrei na sala para me despedir. — O garoto explicou e apontou para o saco de lixo. — Mas vou te ajudar antes. Como você vai voltar para casa?
— Carl foi embora de carona porque bebeu demais e deixou o carro. Acho que vou precisar levar o carro e a Lana.
— Pelo menos você sabe dirigir. — Ele franziu a testa. — Você sabe dirigir, né? Se não eu posso...
riu e o interrompeu.
— Não, eu sei. Fica tranquilo!
Eles terminaram de juntar o lixo da sala e saíram juntos até as lixeiras que ficavam no quintal da casa de Mark.
Pararam à porta da cozinha, como se fosse hora de se despedir.
— Foi bom rever você! — disse, de forma calorosa. — Espero que a gente ainda consiga se ver mais nessas férias, quando eu voltar.
sorriu, porque compartilhava desse sentimento.
— Digo o mesmo! — e então, em um pico de sinceridade, adicionou: — Quando você parou na porta de casa hoje, eu não achei que fosse voltar a... Voltar a te achar legal.
Ele abriu a boca, como se estivesse verdadeiramente ofendido.
— Você não me achava legal?
A garota revirou os olhos de brincadeira, mas corou.
— Não, você sempre foi legal. É só que, no Ensino Médio... — ela fez um gesto vago. — Você sabe... As coisas mudaram.
— Ainda bem que eu só sei disso agora que você mudou de ideia! Ia quebrar meu coração saber que você passou um tempo não gostando de mim. — respondeu, colocando a mão sobre o peito. — Eu sempre te guardei num lugar especial, mesmo depois que minha paixonite de criança passou...
Ela estava pronta para corrigi-lo sobre o "não gostar" (era um termo muito forte), mas foi totalmente distraída pela última frase.
— Oi?
— Ah, você sabia, vai? Eu ia mal nas provas porque só prestava atenção em você! — Ele lembrou, rindo.
não entendia porque saber disso só agora a incomodava, eles eram crianças e nada que começasse naquela época teria durado. E nem se lembrava de também gostar dele dessa forma. Por que isso importaria agora?
Pegou-se estudando o rosto de , como se o visse pela primeira vez. Ele fez o mesmo, ficando sério.
— Se você gostava de mim, por que acha que nos afastamos? — perguntou. Sentia-se um pouco sem ar, na intensidade repentina que aquele instante tinha tomado.
Porém, quando ele abriu a boca para responder, uma garota surgiu do nada e o abraçou por trás.
— Te achei! Você ainda vai me dar uma carona? — Ela tirou os olhos dele e sorriu para . — ? Lana estava te procurando.
ainda parecia estar preso no momento anterior.
— Você... — começou, direcionando a pergunta para , mas ela já estava desconcertada com a quebra do que quer que estivesse acontecendo antes e evitava os olhos dele.
— Ah, não precisa se preocupar comigo! — disse, tentando parecer relaxada, e se dirigiu à garota, sorrindo. — Obrigada por me avisar sobre a Lana!
As duas sorriram uma para a outra.
— E então? — A desconhecida, que parecia saber quem era, voltou a perguntar para .
— É, claro... Vou te dar a carona, sim! Você já quer ir?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Podemos ir. Vou pegar meu casaco.
Desvencilhou-se dele e saiu, deixando os dois sozinhos de novo.
— Eu... Você tem certeza que não quer uma carona? Eu... Posso levar vocês também e...
abanou a mão.
— Não se preocupa! Carl deixou a chave do carro comigo e, se a Lana está me procurando, talvez ela finalmente esteja ficando sem bateria.
colocou as mãos no bolso, não sabendo mais como prolongar a conversa.
— Até mais, então! Qualquer coisa... Lana tem meu telefone se vocês precisarem de qualquer coisa.
Até parece que fosse mesmo ligar enquanto ele estivesse com outra garota. Mas ela sorriu e fez que sim com a cabeça.
— A gente se vê...
O garoto acenou e estava quase na saída da cozinha quando se virou.
?
Ela levantou os olhos, mordendo o lábio.
— Você ganhou do Evan? No beer pong.
riu.
— Duas kegs! — contou orgulhosa. — Uma pena que você não vai passar o verão aqui.
concordou com a cabeça e deu um último sorriso terno, antes de sair.
— Uma pena mesmo...
pensou que aquilo só podia ser algo se desenvolvendo entre eles, que havia a possibilidade de se encontrarem quando ele voltasse da Irlanda, mas entre viagens e compromissos conflitantes, acabou nunca acontecendo. Voltaram às aulas em setembro da mesma forma que começaram o verão: como conhecidos da época de escola.

**
13/06/2015
Para compensar o último ano, dessa vez havia sido a primeira pessoa a chegar ao aniversário de Lana. Era um pouco mais fácil com a festa acontecendo há cinco casas de distância da sua.
Pensaram em encher bexigas e faz uma decoração legal, mas tinham certeza de que no final seria só mais lixo para recolherem e desistiram, acabaram só distribuindo copos pelos cômodos, tirando objetos frágeis de vista e organizando os salgados em tigelas.

13/06/2015 20:10
Contato: Ethan

“Como estão as coisas? Espero que a
festa seja ótima! Manda um beijo para a Lana.
Te amo! xx”

“As pessoas começaram a chegar agora.
Lana mandou outro. Chega logo, sábado!
Já estou com saudade! Te amo! xx”

sorriu para o celular. Queria que Ethan estivesse ali também, mas o namorado precisava trabalhar mais uma semana antes das férias. Era a primeira vez que namorava alguém oficialmente e ainda estava vivendo as emoções e inseguranças dos “primeiros”. O próximo acontecimento inédito seria apresentar um namorado aos pais, mas achava que eles se dariam bem sem problemas.
tinha passado a adolescência sonhando com amores à primeira vista, beijos na chuva e borboletas no estômago, mas com ele tudo tinha sido mais tranquilo, Ethan era primo de uma das garotas do seu dormitório e os dois se conheceram em uma festa. Trocaram telefones e mensagens, foram em um, dois, três encontros. Quando percebeu, o garoto já era parte da sua vida. Ele era divertido e sempre tinha uma aventura planejada ou uma ideia maluca de última hora. Ela gostava disso! Talvez borboletas no estômago nem existissem de verdade, o que eles tinham, sim, era real.
As pessoas começaram a chegar e a lotar a festa e logo se pegou ocupada entre ajudar Lana a fazer salada e colocar a conversa em dia com todos seus amigos. Sentia uma ansiedade estranha, que julgou ser pela animação de estar de volta, até notar que estava olhando para a porta pela quinta vez. Mesmo se não quisesse admitir, havia alguém que ela estava ansiosa para rever.
Com certa impaciência, resolveu dar uma volta pelos cômodos e não vigiar mais quem chegava ou não, porque não devia importar para ela tanto assim.

a viu primeiro. Ela parecia ainda mais bonita do que se lembrava da festa de Lana do ano anterior, havia certo magnetismo em que ele não sabia explicar, apenas se sentia atraído no segundo em que estavam no mesmo ambiente.
Tinha pensado na época que algo poderia florescer dali, porém os dois não se falaram pessoalmente depois que ele voltou da Irlanda. Adicionou-a no instagram e eles até chegaram a conversar por um tempo, mas a garota foi se tornando reticente e, algumas semanas depois, ele descobriu o porquê. Ela tinha começado a namorar.
Então qualquer coisa a mais estava fora de questão, mas eles ainda podiam ser amigos, não podiam?
Ela e Lana se aproximaram da roda em que ele estava. abriu um sorriso enorme ao vê-lo, mas assim que seus olhos absorveram a cena toda, a garota levou a mão à boca.
— Meu Deus, , o que aconteceu?
O garoto estava sentado à mesa da cozinha com a perna esquerda engessada e descansando sobre outra cadeira.
— Acidente de trabalho. — Mentiu.
— Ele ficou bêbado e rolou da escada. — Lana corrigiu e todos na conversa riram.
— Parece que você apanhou de uma escada! — exclamou, fazendo-o gargalhar. — Quando foi isso? Você está bem?
— Estou sim! Foi à alguns meses atrás. Mas não se preocupa, vou tirar o gesso segunda-feira já. Ah... — ele levantou a mão, cheia de canetinhas. — Você precisa assinar. Última chance!
— Eu ainda não acredito que Benji desenhou esse monte de pintos. Ele não cresce! — Lana reclamou, torcendo o nariz para os desenhos espalhados pela superfície branca.
balançou a cabeça, incrédula. Morar longe era como assistir um seriado pulando episódios, ela sempre sentia que perdia metade das informações.
Carl parou entre ela e a namorada, cumprimentando a amiga que não via há tanto tempo.
— Que saudade, ! Fez boa viagem? Quando Ethan chega?
— Sábado que vem. Ele já deve vir com o motorhome...
— Ótimo! — disse Lana, entrando no assunto. — A gente pode sair no domingo, então.
observou enquanto os três combinavam algo que ele não conseguia ouvir exatamente o que era, mas deduziu que Ethan era o namorado de . Queria se inteirar do assunto e participar, mas viajaria para a casa dos avós outra vez, ainda naquela semana.
Passar o verão em outro país era como assistir um filme todo e sair do cinema no final, ele tinha a impressão de que sempre perdia a melhor parte.

A festa ainda estava barulhenta e cheia, longe de terminar, dentro da casa. , porém, havia se acomodado no sofazinho que ficava na varanda, com a perna engessada sobre a mesinha de centro. Estava começando a ficar com sono e dor.
Olhava se o preço dinâmico do Uber tinha baixado quando percebeu alguém parando de pé ao seu lado. Era .
— COMO você ainda está aqui com essa perna?
— É uma boa pergunta! O pior nem é isso, é não poder beber. Já estou desistindo.
Ela deixou o saquinho de lixo que carregava no chão e sentou-se de pernas cruzadas na mesinha de centro, ao lado da perna dele, pegando umas das canetinhas da mão de .
— Como você chegou?
— Dirigindo. — ele brincou, fazendo-a rir. — Benji me trouxe.
— Benji? Ele e Ursula acabaram de ir embora juntos.
— É. Eu vi também.
— Como você vai embora, então?
— Uber. Ou talvez eu fique por aqui até alguém sentir pena dessa pobre alma.
— Você quer uma carona? Eu estou te devendo. — ela disse, mas riu e fez que não com a cabeça.
— Você mora aqui do lado, . Seria um absurdo você ter que pegar seu carro para isso. — Ele a cutucou na perna com uma das canetas. — Mas obrigada por oferecer.
Sorriram um para o outro e ela voltou a prestar atenção no gesso dele e, dessa forma, teve tempo para admirá-la. A expressão concentrada, a língua para fora de um jeito adorável, o contorno do nariz, o pescoço... Parecia não haver nada nela que ele não gostasse.
— Quando você viaja? — ela perguntou.
— Terça-feira. Por quê? Quanto tempo você pretende passar desenhando na minha perna?
riu.
— Em primeiro lugar: não se apressa a arte, em segundo lugar: eu perguntei porque nós estamos planejando acampar em Yosemite no fim de semana que vem. — contou e levantou os olhos. — Ia perguntar se queria ir junto. Você tira o gesso na segunda, certo?
Ele fez que sim com a cabeça.
— Agradeço o convite! Infelizmente, quando vocês forem, estarei tomando Guinness e chuva, provavelmente ao mesmo tempo. — disse, sorrindo. — Yosemite é lindo! Fui quando era pequeno.
— Eu mal posso esperar! Abraçar uma sequoia é um dos itens da minha lista do que fazer antes dos 21 anos.
O coração de derreteu com aquela afirmação. Precisou fazer certo esforço para manter o rosto neutro quando só queria sorrir para ela feito um idiota.
— Você tem uma lista? — foi o que conseguiu perguntar.
sorriu e fez que sim com a cabeça.
— Eu e Lana fizemos uma quando tínhamos 15 anos e, vez ou outra, eu adiciono coisas novas, coisas mais maduras que não pensamos na época. — Ela se endireitou e enumerou: — Abraçar uma sequoia, acampar, entrar na Universidade de San Diego. Esses eram itens originais da lista. Ano passado eu adicionei conhecer a Europa e nadar sem roupa, mas eu ainda tenho um ano e meio para realizar tudo e acrescentar mais.
— E você pretende nadar sem roupa durante a viagem para a Europa ou...
sorriu de lado, voltando a desenhar.
— Esse é um item que já foi cortado. — falou, corando.
estava levando a garrafa d’água na boca e se engasgou.
— Eu não estava esperando essa informação. — Confessou. Como tiraria aquela imagem da cabeça agora?
A garota riu.
— Foi na praia em San Diego, uma noite. Ethan me desafiou. Estávamos apenas nós dois, então não foi realmente difícil. — ela disse, dando de ombros.
Ok, aquele era o balde de água fria mais eficaz possível para fazê-lo parar de pensar em entrando no mar sem roupa.
— Você é uma surpresa atrás da outra, . — O garoto se endireitou para ver a perna engessada e sorriu ao perceber que ela desenhava uma sequoia que ia do joelho até seu tornozelo. — Poxa, ficou incrível!
— Eu não terminei ainda. Fica aí!
Ele voltou a se encostar no sofá.
— Não é como se eu pudesse sair correndo. — Os dois riram. — Mas você não precisa ficar aqui me fazendo companhia e perdendo a festa.
— Você é a pessoa mais social que eu conheço. Tenho medo de te largar aqui e você secar igual uma plantinha sem água. — A garota zombou.
gargalhou, fazendo sorrir com o barulho que a risada dele tinha.
— É assim que você me vê? Uma pessoa que precisa de atenção toda hora?
Ela ponderou e fez que não com a cabeça.
— Não. Não é precisar de atenção, é só... As pessoas querem estar perto de você, não é um esforço. E você deve ter se acostumado com isso.
se lembrou da conversa que tiveram – ou quase – no aniversário do ano passado.
— E você acha que isso afastou a gente? — perguntou. — Na escola?
voltou a se concentrar no desenho e ficou em silêncio por alguns segundos.
— Acho que eu tentei me convencer disso por um tempo, sim.
— Mas não. Não foi uma decisão consciente, se essa é a sua dúvida. Me trocaram de sala, eu conheci mais gente, foi a época que comecei a tocar e eu queria carregar meu violão para todos os lugares possíveis e me exibir. Acho que só... Aconteceu. — Deu de ombros. — E aí, no Ensino Médio, nós não tínhamos mais as mesmas matérias e você era tão focada, tão séria! Acho que eu pensei que você me via como um crianção, o bobo da corte.
Ela levantou os olhos, surpresa.
— Não, de jeito nenhum! Eu... Eu só achava que você tinha feito muitos novos amigos e eu não era mais interessante o suficiente. Ou suficiente e ponto.
sorriu, tombando a cabeça para o lado.
— Sério mesmo, ? Depois que eu passei o Ensino Fundamental todo apaixonadinho? Eu nunca deixei de... De sentir algum tipo de afeto por você.
Ela corou, porém, não percebeu que a frase dele contemplava também o presente.
— Mas eu só soube disso ano passado. — Lembrou, fazendo-o rir.
— É, é verdade. De qualquer forma, eu... Eu devia ter tentado me reaproximar na escola, me desculpa por isso. Eu só não sabia como ou se você queria. Fui deixando passar.
se levantou da mesinha e afundou no sofá, ao lado de .
— Eu tenho um pouco de culpa nisso, então também peço desculpas. — A garota admitiu. — Foi tão estranho como a gente simplesmente voltou a se dar bem ano passado, né? Foi meio do nada, instantâneo, mas eu me senti... Eu me sinto... — Corrigiu. — À vontade para brincar com você, te procurar para conversar.
riu.
— Você voltou a me achar legal... — disse, repetindo as palavras dela, que rolou os olhos.
— Você vai me lembrar disso para sempre, não vai? Eu posso pelo menos alegar que estava bêbada?
— Pode, mas você acabou de dizer a mesma coisa com outras palavras. — Ele provocou, apenas para irritá-la.
cruzou os braços, em fingida irritação.
— Eu aqui tentando selar nossa nova velha amizade e você fazendo graça. — Resmungou.
— Está selada! — ele disse lhe oferecendo a mão, que a garota apertou. — E se vale de alguma coisa, eu senti o mesmo. Ano passado, eu digo. Foi meio que um alívio perceber que ainda havia uma chance de reaproximação.
Ela sorriu sincera ao ouvir aquilo.
— É, foi mesmo.
suspirou. Aquela porta já estava fechada, não? Então ele poderia confessar coisas que não fariam mais diferença.
— Eu... — tossiu para limpar a garganta antes de continuar. — Eu, inclusive, achei que... Poderia haver mais, sabe?
virou a cabeça para olhá-lo, mas ele não levantou os olhos.
— Mais?
— Na hora que estávamos na cozinha eu achei que, se você aceitasse ir embora comigo, nós poderíamos, sei lá... Ficar.
A garota se sentou direito, boquiaberta.
, tinha uma garota literalmente pendurada no seu pescoço! — Os dois riram. — Vocês, homens, são inacreditáveis!
— Não, eu sei! — Ele tentou consertar, ainda rindo. — Quero dizer, se eu não tivesse prometido uma carona para a Kim.
Ela ficou pensativa por um tempo.
— Eu não sei. Talvez. — sentiu um frio na barriga ao considerar a possibilidade. — Mas se tivesse acontecido, eu estaria namorando agora e voltaria a ser estranho entre a gente, então... Talvez tenha sido melhor assim.
sorriu e concordou com a cabeça, resignado. Poderia se chatear porque ela nem havia considerado algo duradouro entre os dois, mas o fato de que essa era a primeira vez que se viam desde então provava que estava certa.
Voltou a admirar o desenho em sua perna engessada.
— Não sei como vou fazer para carregar esse desenho comigo depois de segunda. Ficou perfeito, !
Ela sorriu e pegou o celular no bolso, tirando uma foto bem de perto.
— Eu te mando depois.
— Obrigado! — o garoto falou, apertando a mão dela. — Pelo desenho e também por me fazer companhia.
— Tudo bem. No aniversário da Lana no ano que vem, que provavelmente é quando nos veremos de novo, você me paga uma bebida. — Brincou, piscando.
Ele sorriu entre a expectativa e a dor de cotovelo que aquela frase o fazia sentir.
E estava certa. Não voltaram a se ver naquele verão ou depois dele. A vida seguiu outra vez entre emojis, likes em fotos e pequenos comentários superficiais sobre paisagens. A única evidência de que tinham um laço maior era a foto emoldurada no quarto dele, da sequoia desenhada de canetinha. A lembrança da conversa fácil, da risada fácil...
Das borboletas no estômago.

**
11/06/2016
abriu um pedacinho da cortina para espiar o lado de fora.
— Eles estão vindo, eles estão vindo! Todo mundo, se esconde! — disse, abanando a mão.
Mas então cerrou os olhos para a pessoa saindo do carro e franziu a testa.
— Não, calma. Não são eles.
Alguns segundos depois, abriu a porta da frente sob um sonoro “Aaaah”.
— Caralho, !
— Era para você estar aqui 15 minutos atrás!
— Carl me pediu para comprar esses tubos de confete! — ele explicou, já jogando alguns para pessoas aleatórias pela sala. — As bebidas vocês deixaram na cozinha?
— Shhh, agora são eles, mesmo! — sussurrou com urgência, ainda grudada na cortina. — Todo mundo se abaixa!
Ela se escondeu atrás do sofá e todos aguardaram em silêncio até ouvirem a porta se abrir.
—... Tanto carro na rua! Devem estar fazendo festa em algum vizinho. — Ouviram Carl dizer, antes que acendesse a luz da sala e todos os convidados saíssem, pulando de trás dos sofás ou vindos da sala de jantar, estourando tubos de confete e gritando:
— SURPRESAAAAA!
Lana cobriu a boca com as mãos, assustada e emocionada. Seus olhos passaram pelas pessoas presentes e então ela viu .
— VOCÊ! Você disse que só viria na semana que vem e por isso eu mudei a data da minha festa! — disse com a voz embargada, sendo abraçada pela amiga.
— Eu sei! E agradeço porque você mudaria a data da sua festa de aniversário LENDÁRIA para quando eu estivesse aqui!
— Claro que mudaria!
Lana então se virou para Carl, para abraçá-lo também, e depois começou a receber os parabéns dos outros convidados.
quase estragou tudo! — disse para irritá-lo, quando o garoto se aproximou para cumprimentar a aniversariante.
— Hey! Foi o Carl que me mandou mensagem pedindo coisas em cima da hora!
— Foi mal, cara! — O amigo disse, rindo.
— Eu até vim no carro da minha mãe para despistar! — completou, parando ao lado de .
— E o seu carro, ? — Lana perguntou. — O seu eu teria reconhecido, com certeza!
— Vim de Uber.
— Boa!
— Eu até poderia estacionar na rua de cima, mas planejo beber meu peso em vinho hoje. — Ela percebeu o olhar assustado de e riu. — Ok, o peso de um cachorro beagle.
Os três riram, mas apenas Lana lançou um sorriso solidário na direção da amiga.
e Ethan haviam terminado há alguns meses e só recentemente a garota parecia estar se recuperando. Mesmo quando estavam combinando a festa da semana seguinte que nunca aconteceria, contava para Lana como estava precisando se divertir entre pessoas queridas. Ela tinha seu grupo de amigos em San Diego, é claro, mas nada se comparava a como se sentia em San Francisco. Era sua casa, em todos os sentidos possíveis. Era uma pena que não passaria o verão com eles.
— Carl, a casa nova dos seus pais é linda! — comentou, para mudar de assunto.
— Você ainda não conhecia, né?
Ela fez que não com a cabeça.
— Era o único lugar onde Lana não desconfiaria. — contou e sorriu para ele.
— Obrigada por ajudar na organização, inclusive. — ela disse e o garoto deu de ombros, sorrindo também.
— De nada. Foi divertido!
O assunto entre os quatro mudou e mais gente se juntou a eles, mas vez ou outra se pegava olhando para mesmo quando não era ela quem estava falando. Era engraçado como todo ano esse portal parecia se abrir e ela emergia de volta em sua vida, mais avassaladoramente bonita do que nunca e inalcançável como sempre. Eles se viam no aniversário de Lana, ele passava dias com aquele sentimento não resolvido que parecia uma febre e depois tudo voltava ao normal quando a vida os colocava em universos paralelos outra vez.
tinha a impressão de que não estava mais namorando, pensou ter ouvido algum pedaço de conversa que sugerisse isso. E, naquele ano, ele não iria para a Irlanda no verão, então... Talvez dessa vez os planetas se alinhassem.
Third time is the charm. (A terceira vez é encantada).

estava sentada na bancada da cozinha, bebendo e conversando com um rapaz que havia acabado de conhecer. No último mês tinha passado para a fase pós término em que qualquer ocasião era uma missão para sair, beber e flertar/beijar/transar com um cara diferente. Ela persistia mesmo com a taxa de sucesso e satisfação não sendo das mais altas, sabia que era uma tática falha, mas isso logo passaria também, como as fases anteriores. Em algum momento, voltaria a se sentir como ela mesma e, bem... Teria aprendido algo novo sobre como navegar na vida de solteira.
O problema era que esse rapaz, em específico, era muito chato! E, infelizmente, esse empecilho era mais fácil de contornar em casas noturnas. Em uma house party a música não era alta o bastante para abafar a falta de papo dele.
Enquanto Brad dizia algo sobre si que não a interessava, o olhar perdido de acabou na porta que dava para a sala. Lá no fundo conseguia ver falando alguma coisa que fazia a roda toda gargalhar. Sorriu involuntariamente.
Vê-lo nos últimos dois anos havia sido ótimo, mas sempre parecia durar menos do que ela gostaria. Mesmo no ano anterior, quando estava namorando, ainda tinha sentido como se o tempo passado com ele não fosse suficiente.
Suspirou ao se dar conta de que era com que queria estar conversando e tomou mais um gole de vinho.

saía do quarto de Carl, onde tinha ido buscar sua jaqueta. Estava com certa dificuldade em fazer o malabarismo de passar os braços pelas mangas segurando uma garrafa e estando ligeiramente bêbada. Sentiu duas mãos a ajudando e se virou assustada.
— Dá a garrafa aqui, que facilita. — sugeriu, segurando o riso.
— Como você aparatou aqui?
Ele apontou para trás.
— Eu estava no banheiro.
Quando terminou de colocar a jaqueta e ajeitou a gola e o cabelo, pegou a garrafa de volta.
! Você viu o tamanho dessa casa? Os pais do Carl são muito ricos! — Exclamou numa voz em um tom mais baixo, como se estivesse contando um segredo. O garoto riu.
— Sim. Você foi até o quintal? — Ele continuou, usando o mesmo tipo de sussurro que ela.
— Não. Meu Deus, o que tem lá?
— Piscina, quadra de tênis, jacuzzi...
levou uma das mãos à boca.
— A casa que eu conhecia era grande, mas essa... — então ela arregalou os olhos, como se acabasse de ter uma ideia que não tinha a menor chance de ser boa. — Eu PRECISO ver o closet da mãe dele!
— O quê?
, deve ser enorme e lindo, igual o de uma artista de cinema!
O garoto não teve muito como escapar, já estava segurando uma das mãos dele e o puxava para o fundo do corredor.
— Onde você acha que é?
, eu acho melhor...
— Eu não vou fazer nada maluco, prometo! Eu só quero olhar...
Depois de abrirem e fecharem algumas portas, eles encontraram o maior quarto que já tinham visto na vida.
— Cabem dois campos de golfe aqui dentro! — falou, admirado. — Carl é doido de deixar destrancado.
Mas não escutou porque já estava andando em direção às duas portas do lado direito do cômodo. A porta mais ao fundo era do closet e ele era exatamente como ela esperava que fosse: parecia uma dessas lojas chiques! Roupas e sapatos por todos os lugares, separados por cores, prateleiras com pequenas luzes e uma ilha no meio com acessórios. Nada entulhado, nada amassado. Lindo!
, corre aqui. Olha esse banheiro! — chamou.
Os dois pararam por alguns segundos para admirar a beleza de cada centímetro, a bancada e o contorno da banheira em mármore, o box enorme com dois chuveiros, as torneiras e demais detalhes metálicos em dourado e os azulejos da parede da pia em azul marinho.
— Eu nunca tinha me apaixonado por um banheiro antes — ela disse.
— E eu não me sinto adequado para estar aqui sem estar usando um terno! — completou e a garota riu.
— A mãe do Carl é minha nova pessoa favorita no mundo!
— E ela é arquiteta, provavelmente foi ela que planejou tudo!
colocou a mão sobre o coração.
— Será que dá tempo de mudar de curso? — perguntou. — Melhor, será que dá tempo de ser adotada?
riu e eles ficaram mais um tempo admirando o banheiro, sentindo o cheiro dos shampoos e sais de banho quando ouviram a porta do quarto bater. Arregalaram os olhos um para o outro e foi até a porta ver o que tinha acontecido. Colocou metade do corpo para fora, mas voltou correndo e trancou ambos para dentro, virando-se como se tivesse visto um fantasma.
— O que foi? — perguntou.
— Então, nós estamos meio presos aqui.
Quando o garoto fez menção de alcançar a porta para ver o que era, ela o puxou de volta.
— Rome e aquele namorado dela estão aí.
— Putz! Não tem como a gente sair de fininho? Se eles estão ocupados, talvez nem nos vejam.
fez que não com a cabeça, mas seu semblante preocupado se transformava em um riso preso.
— Eles estão... Hum... Contra a porta... — explicou.
— Ah!
— Pois é. Pelo menos estamos presos no banheiro mais bonito do mundo! — Ela levantou um braço. — E tem vinho.
sorriu. Ele poderia mandar uma mensagem para Carl e pedir que viesse os salvar, mas a situação passava longe de ser crítica.
— Você disse que moraria nesse banheiro. Olha no que deu! — Brincou.
— Você está colocando muita pressão no namorado da Rome se acha que a gente vai ficar aqui mais do que quinze minutos.
E isso foi o suficiente para cair em uma gargalhada enorme, daquelas de doer a barriga.
sorriu de lado, se sentindo vitoriosa. Havia poucas coisas que traziam mais satisfação na vida do que fazer rir.

Algum tempo depois, estava descalça e semi deitada dentro da banheira com as pernas sobre , que estava sentado na perpendicular em relação a ela, com as pernas para fora.
— E como está sua lista de coisas para fazer antes dos 21? — ele perguntou.
A garota deu de ombros.
— Faltaram algumas. Visitar a Europa, colocar um piercing, ir a um show do Justin Bieber... — falou, contando nos dedos e fazendo-o rir da última.
— Essa definitivamente é de quando você tinha 15 anos!
— Entrou na lista mês passado. — Brincou, rindo também. — Mas tem algumas que talvez eu precise revisitar. Eu tinha riscado “ter um namorado legal”, mas acho que me afobei.
levantou os olhos, mas havia desviado o olhar e observava os azulejos bonitos da parede da pia, tomando o último gole do seu vinho.
— O... O cara de San Diego? O que houve?
— Ethan me traiu — disse, ainda sem fazer contato visual. — Com uma amiga da moradia estudantil.
— Que merda, . Sinto muito — falou, fazendo um carinho sem jeito na perna dela, que estava sobre ele. — Você está bem?
O gesto fez a garota finalmente voltar a olhá-lo e ela sorriu.
— Eu estou melhor. Faz parte da vida, né? No começo é difícil digerir a informação, mas depois percebi que a culpa não era minha. Não aconteceu porque eu deixei a desejar.
Partia o coração de saber que Ethan tinha feito aquilo com , que ela havia chorado e sentido como se não fosse o suficiente para alguém.
Às vezes, normalmente nas semanas pós-aniversários da Lana, que era quando acabava pensando mais nela, o garoto se perguntava se tinha criado uma imaginária em sua cabeça. Ela era boa demais para ser verdade, mas então se viam de novo no ano seguinte e sempre era um choque perceber como ela era bonita. O cabelo brilhante, sempre preso, deixando seu rosto e pescoço em evidência, os olhos vibrantes, vivos, e o sorriso que era a parte do rosto dela que ele mais gostava. Havia pequenos maneirismos na forma como ela se expressava que tornava tudo mais adorável e, por achá-la doce, de vez em quando se surpreendia com as coisas que contava ou dizia. E era mais adorável ainda como ela ficava toda orgulhosa de si quando percebia que havia o surpreendido. Isso sem falar em sua determinação e inteligência, que a fizeram ganhar a bolsa da universidade que cursava.
Não, definitivamente não havia criado em sua cabeça uma versão melhorada dela. Do contrário! A que carregava em seus pensamentos nunca chegava aos pés daquela em carne e osso. Então, como alguém poderia tê-la tratado tão mal?
— Aconteceu porque ele era um merda. — Ele completou, fazendo-a rir e concordar com a cabeça.
— Exatamente! Eu entendo isso agora. — A garota respondeu, o olhando com carinho. Puxou a manga da camiseta dele algumas vezes. — E você?
— Eu o quê?
Ela riu.
— Larga de ser cínico! Me fala da sua vida amorosa.
corou de um jeito que julgou ser extremamente fofo e inédito.
— Não tem muito que contar.
— Ah, não vem com essa! Você está sempre cercado de gente, tocando violão, encantando uns corações, distribuindo caronas.
Ele riu.
— Um cavalheiro nunca conta — falou, fazendo rir e rolar os olhos. — Eu não tenho do que me gabar, mas nem do que reclamar também.
— Você já namorou?
O garoto fez que não com a cabeça.
— Não. Já fiquei com algumas garotas de quem eu gostei bastante, mas acho que nunca me apaixonei de verdade. — E então sorriu de lado e a cutucou perto da barriga. — A não ser por você, na sexta série.
riu.
— Eu tenho certeza que foi real e duradouro!
cerrou os lábios para não dizer que ainda durava. Sabia que não era apaixonado por ela, iria assustá-la sugerir que sim, mas havia algo ali. Algo sobre ela que ele ainda não conseguia superar.
— Eu também era apaixonado pela Misty, de Pokémon, nessa época. — Resolveu levar na brincadeira, dando de ombros. — Então “real” não é bem a palavra que eu usaria.
riu, observando-o com atenção.
— Sabe que você dizer isso me faz pensar que eu já te contei sobre minha lista de Coisas para Fazer antes dos 21, sobre nadar sem roupa e ter sido traída. — enumerou. — E tudo que eu sei sobre deve ser mais ou menos de quando estudamos juntos!
— Você quer que eu comece a falar de mim em terceira pessoa também, como se não estivesse aqui, ou...?
Ela cerrou os olhos.
— Admiro as técnicas de evasão, mas elas não vão colar comigo, rapaz. — respondeu.
Começava a perceber que havia muito nele que era sobre conversar em volumes de cachoeira, mas fornecer informações íntimas em conta-gotas. O que era, sem dúvidas, um talento útil quando se conhecia tanta gente. Ela era totalmente o contrário! Havia acabado de contar para alguém que só via uma vez por ano que tinha se sentido insuficiente por conta de uma traição, simplesmente porque ele lhe parecia familiar de alguma forma.
— Touché. — sorriu de lado. — O que você quer saber?
— Hmm... — Assim, no susto, era difícil pensar em todas as coisas que queria perguntar e colocá-las em ordem de prioridade, então se lembrou de algo que o garoto havia lhe contado dois anos atrás. — Você ainda trabalha em shows como técnico de som?
— Você está querendo saber se eu posso te conseguir um ingresso para ver o Justin Bieber de graça?
apontou para ele, fazendo-o gargalhar antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa.
— EVASÃO!
— É involuntário! — retrucou, rindo. — Não tem nada demais na resposta!
— Ia ser um inferno interrogar você!
Quando os dois pararam de rir, ele finalmente respondeu.
— Não, foi só no primeiro ano, quando eu estava precisando de dinheiro.
— E você gostou?
— Gostei sim. Aprendi bastante também. Talvez seja útil para o meu futuro trabalho na...
Ouviram uma porta bater ao longe e levantaram as sobrancelhas juntos. Haviam se esquecido do que estava acontecendo além do banheiro.
— Você deve desculpas ao namorado da Rome... — disse.
— Eles cochilaram depois, certeza. — rebateu, não querendo dar o braço a torcer.
Nenhum dos dois queria realmente ir embora, mas agora tinham perdido a desculpa que estavam usando para ficarem escondidos ali. Com certa relutância e dando um suspiro sonoro, a garota se levantou e saiu da banheira, mas se sentou no tapete fofinho para calçar os sapatos.
— Quando você vai para a Irlanda?
— Eu não vou esse ano — respondeu, empolgado. Ficaria em San Francisco e eles poderiam se ver mais nesse verão! Aproximou-se e apoiou os braços na borda da banheira, perto de onde estava encostada do lado de fora, deitando a cabeça no braço. — Comecei a estagiar na Wild FM semana passada.
— Hey, que máximo! — ela exclamou genuinamente feliz por ele. — Como é o estágio? Mais do tipo fazer o café de todo mundo ou realmente colocar a mão na massa?
Ele riu.
— Por enquanto só café, mas pelo que já me contaram, eles realmente te colocam para aprender. A Wild faz parte da iHeart Radio, então...
Enquanto dizia algo sobre a rádio, se pegou pensando em como o incômodo que tinha sentido durante todo o Ensino Médio com relação a ele era esse sentimento confuso de perda, por não se falarem mais. Desde então, tinha sempre pensado no garoto como seu “crush de amizade”, um conceito que ignorava certos picos de frio de barriga que sentia quando estavam juntos ou aqueles 10 segundos, no penúltimo aniversário de Lana, quando tiveram algo estranho acontecendo na cozinha da casa de Mark.
Ela adorava conversar com , adorava o jeito como mil assuntos se misturavam ainda que ele fosse, talvez, o extrovertido mais reservado que conhecia. Adorava como ele se expressava com muitos gestos e expressões faciais, principalmente com as sobrancelhas. Adorava o som da risada dele, adorava fazê-lo rir.
Uma coisa que ainda não tinha tentando nessa fase “Furacão” pós-término era ficar com alguém que realmente gostasse de ter por perto. A oportunidade parecia perfeita!
Guiada pela nova ideia, encostou a cabeça na borda da banheira também, ficando a poucos centímetros do rosto dele. Ele não era seu tipo fisicamente, mas o que rapazes que faziam o tipo dela tinham acrescentado em sua vida nos últimos tempos? A verdade é que assim, de perto, a garota podia reparar que os olhos dele brilhavam quando a olhavam e quando dava um sorriso que era tão bonito e contagiante, uma covinha tímida surgia do lado esquerdo do seu rosto, mas ele precisava dar o sorriso certo para revelá-la. Também havia as pintinhas na bochecha e no pescoço, além do cabelo, que sempre parecia estar pedindo por um afago. Ser ou não atraída por ele era mais um caso de estar ou não prestando atenção.
parou de falar ao perceber certa intenção no modo como o encarava. Será que estava alucinando?
— O que foi? — perguntou.
— Eu nunca tinha reparado que você tem covinha.
— Ahn?
— Eu sempre gostei da covinha do seu queixo, mas você tem uma do lado esquerdo também que só aparece quando você dá um tipo de sorriso.
— Eu não sei como responder a isso, . — ele riu, sem graça, ainda sem entender. — Mas se a intenção era me deixar autoconsciente... Deu certo!
— Eu só... Estava reparando. Em você.
Os dois se olharam por alguns longos segundos e, consciente ou não, sorriu para ela do jeito que fazia sua covinha aparecer. Como se estivesse testando a água, ele moveu o rosto para mais perto do dela. Seus narizes estavam quase se tocando agora.
— Você é a coisa mais bonita que existe nesse banheiro e, em algum momento, eu realmente cogitei levar aquele porta papéis higiênicos dourado para casa.
Ela riu baixinho.
— São duas afirmações vexatórias, .
— Eu não sinto vergonha de nenhuma delas.
Ela mordeu o lábio inferior, ainda o encarando, como se estivesse lhe dando permissão, pedindo silenciosamente que ele tomasse a atitude. O rapaz chegou mais perto e mais perto, se desencostando da borda da banheira para colocar as mãos uma de cada lado do rosto dela. pode não só ver, como sentir o sorriso dele antes do beijo.
foi pego de surpresa com a curva que aquela aventura no banheiro tinha dado, mas jamais reclamaria. Queria que acontecesse algo entre eles, é claro, mas se achava sortudo demais em estar ali e dava mentalmente um high Five através do tempo com seu eu de 11 anos. Sentia-se eufórico e precisava fazer um esforço deliberado para se manter calmo, aproveitar cada segundo e perceber cada reação: a mão de mexendo em seu cabelo, a maneira como a pele dela era incrivelmente macia, a respiração descompassada de ambos.
Estavam sentados em uma posição completamente desconfortável, mas só se deram por vencidos quando a barreira física começou a realmente atrapalhar seus movimentos. Soltaram uma risadinha quando se desvencilharam.
— Passa para cá. — ela pediu. — Eu vou virar um oito tentando te beijar com essa borda entre a gente.
Ele riu e se levantou, saindo da banheira. Sem saber bem o que fazer, se levantou também. Ficaram um tempo se olhando, incertos, como se tivessem perdido a espontaneidade nessa manobra. se aproximou e fez carinho na bochecha dela.
— Tudo bem? — perguntou. — Você quer continuar aqui? Voltar para a festa?
A garota sorriu, abraçando-o pela cintura. Talvez dissesse mais sobre os caras com quem vinha dormindo do que sobre , que estivesse completamente derretida pela gentileza dele em perguntá-la como estava. Elevou o rosto e deu um beijinho de leve nos lábios dele. E depois mais um e mais outro, até convencê-lo de que queria estar ali e não lá fora.
Assim, de pé, podiam finalmente se abraçar e ficarem colados, o que só amplificava toda e qualquer sensação que estavam causando mutuamente. se sentia aquecida de um jeito bom. Não era um calor melado e sufocante, era mais como o quentinho confortável de se usar o moletom favorito no primeiro dia frio do outono.
Havia algo no jeito como a beijava, como ele a fazia se sentir adorada em gestos sutis, a maneira que a segurava, que tomava cuidado com ela. E isso poderia soar morno ou sem graça, mas era intenso. Intenso e delicado e, de alguma forma, ela sabia exatamente como retribuir. havia se esquecido de como era a sensação inebriante de querer se perder para sempre em um momento como aquele. Sabia que seria diferente ficar com porque se importava com ele, só não esperava sentir tanto!
E ela nem queria sentir nada, para início de conversa. Só queria que fosse legal, para variar. Como se para desfazer a bolha de ternura em que se encontrava, começou a puxar a camiseta dele para cima em um gesto frenético que o fez rir.
— No meio do banheiro? Você tem certeza? — perguntou, ainda com o rosto muito próximo do dela.
— Bom, a gente está numa suíte... Que agora está vazia. — respondeu, se afastando um pouco para olhá-lo e levantando as sobrancelhas, mas logo depois fez uma careta. — Não, não... Pais do Carl, Rome e o namorado...
riu e coçou a nuca.
— A gente pode ir para a minha casa.
quis beijar cada pedacinho da carinha sugestiva que ele fazia.
— Ok, mas então vamos descer. Eu fico um pouquinho com a Lan e depois a gente vai. Se eu sumir de uma vez ela vai querer saber onde eu estava. E com quem.
O garoto pensou ter entendido que ela não queria que Lana soubesse sobre os dois, mas achou melhor não confirmar a suspeita. Sorriu e fez que sim com a cabeça.
— Pode ser.
Se desgrudarem e realmente voltarem para a festa, porém, parecia um pouco mais difícil na prática. Sempre que tentavam, de algum jeito misterioso, acabavam envoltos um no outro. Mãos entrelaçadas viravam abraços e beijos longos, que faziam o banheiro parecer um corredor sem fim.
Por fim, saíram com certa prudência, temendo terem escutado errado e encontrarem cenas que não queriam ver pelo caminho, mas felizmente estava tudo vazio. Andaram os corredores e as escadas de mãos dadas, mas ao chegarem ao andar de baixo, sutilmente as separou. olhou para o espaço que agora existia entre eles e de volta para a garota, que sorriu sem jeito.
— Lana vai surtar se nos vir juntos. — Tentou justificar. — É melhor ela não saber sobre isso por enquanto. Vai ser uma pressão só!
Não era para ser sério, ela pensou, afinal, estava de partida em breve. Mas se Lana e Carl soubessem, se tornaria o único assunto por semanas, seria uma pressão imensa e estragaria o que deveria ter sido um ótimo momento.
concordou, apesar de contrariado. Sabia que ela estava certa. A intromissão precoce dos amigos atrapalharia mais do que ajudaria.
— Me fala quando quiser ir, tá? — pediu, sorrindo.
quase se arrependeu do combinado. Queria beijá-lo bem ali. Piscou para ele e os dois se separaram, entrando em cômodos diferentes. foi buscar uma bebida e encontrou a aniversariante na sala, em quem deu um abração de surpresa.
— Onde você estava? — Lana indagou.
— Explorando a mansão do seu namorado. Não conta para ele!
Aceitou a bebida que a amiga lhe ofereceu.
— Brad estava te procurando.
franziu as sobrancelhas.
— Sem chance, Lan!
— Ele é gato!
— É sim, mas é uma porta.
— Até o fim da festa a gente encontra alguém melhor.
A garota tentou esconder o sorriso e a felicidade radiante que sentiu ao pensar que já tinha encontrado.
— Sem pressa, estou mais preocupada em aproveitar com você. Está se divertindo?
— Muito! Ainda não acredito que vocês conseguiram me enganar! — Lana exclamou. — Carl geralmente fala demais. No dia dos namorados, ele me contou uma semana antes que tinha comprado um passeio romântico surpresa para nós dois.
riu.
— Ele deve ter aprendido a lição depois disso.
— E você, xuxu? Fez boa viagem? Está bem? Está feliz? — Lan era talvez a pessoa que mais tinha escutado sobre os altos, baixos e baixíssimos do pós-término.
Mas sorriu e fez que sim com a cabeça. Estava se sentindo nas nuvens, comparado aos dias mais sombrios do último ano.
— Bem melhor agora! Feliz que vou ter um fim de semana aqui antes de viajar.
— Seu voo é terça? Você mentiu para mim quando vinha, agora estou confusa!
— É sim. Eu não menti, só falei tudo uma semana atrasado. E foi por uma boa causa!
Lana riu.
— Justo! Mas então eu vou disputar com a sua mãe e seu pai quem fica mais grudado em você até lá! — disse, apertando a amiga, que riu.
Ficaram um tempo por ali e depois descobriu que haviam montado um karaokê na sala de cinema (sim, uma sala de cinema!). Se existia um jeito de se distrair e parar de pensar em por cinco segundos, com certeza era cantando músicas cafonas com a melhor amiga.
De qualquer forma, eram tantas emoções boas que estava sentindo no momento, que se agradeceu mentalmente por ter decidido ir pra San Francisco antes de voar para o Peru. Aquela noite era exatamente o que estava precisando!

sentiu que tinha bebido um pouco demais nas últimas horas e foi buscar um copo d’água. Ainda tinha o resto da noite com , precisava ficar relativamente sóbria.
Nem precisou procurá-lo, porém, porque o avistou encostado na pia assim que entrou na cozinha. Era bom que Carl e Lana não estivessem por ali, porque eles não enganavam ninguém com o jeito que se olhavam.
— Oi, gatinho, você vem sempre aqui? — ela brincou.
— Uma vez por ano. — o garoto respondeu, fazendo-a rir. — Você está bem?
— Estou sim, só me hidratando. — contou, levantando o copo vazio.
se aproximou, parando de frente para ele e o tocando exageradamente enquanto o contornava para alcançar a torneira.
— Está cansada? — perguntou, combinando o timbre da voz ao movimento de segurá-la discretamente pela cintura. A garota sentiu a pele toda arrepiar.
— Você me levaria embora se eu estivesse? — Queria que soasse como brincadeira, mas as palavras pareceram tropeçar de sua boca, tamanha ansiedade.
Ele riu.
— Claro! Quer ir agora? — indagou se desencostando da pia.
terminou de tomar água e foi buscar sua bolsa. Podia ver mexendo distraidamente no cabelo e parado na porta da casa dos pais de Carl enquanto descia as escadas. Mordeu o lábio, se perguntando porque tinha demorado tanto tempo para enxergá-lo daquele jeito, ele era tão bonito! Ele sorriu ao vê-la e saiu, já que o combinado era se encontrarem do lado de fora.
Assim que bateram a porta, pulou nas costas do garoto para ser carregada de cavalinho, fazendo-o rir. Qualquer pretexto para abraçá-lo e manter o rosto perto do dele parecia válido. Sentiu uma alegria quase infantil ao se dar conta de que, dessa vez, era a pessoa recebendo a carona e não a que ficava na festa se perguntando “e se?”. Pensou estar realizando o impossível por finalmente ter vencido as “multidões”. era só dela agora.
Talvez nunca tivesse reparado que, sem qualquer esforço, tinha a atenção indivisível dele sempre que estavam no mesmo lugar. Desceu das costas dele quando chegaram ao carro e entrou no banco do passageiro.
— Você ainda mora naquela casa que eu conhecia? — perguntou. Era mais uma daquelas coisas que não sabia sobre ele.
— Meus pais ainda moram lá, sim. Mas eu moro na Bay area agora, com alguns amigos, porque é mais perto da faculdade. Vai ser mais perto da rádio também.
sorriu, era palpável como ele estava animado com o estágio. Iam conversando sobre a vida e tinha esse hábito adorável de aproveitar todos os sinais vermelhos para fazer carinho nas mãos dela ou dar um beijinho em sua bochecha. se sentia tão feliz e confortável que se perdeu em pensamentos enquanto passavam por uma área de casas muito bonitas.
Abriu os olhos, assustada, quando o carro parou. Olhou em volta e o cenário era estranhamente conhecido. Levou alguns segundos para reparar que estavam na porta da casa dela. Virou-se para encarar , ainda confusa.
— O que houve? Achei que iríamos para o seu apartamento.
, você estava dormindo. — ele respondeu, rindo e repousando a cabeça no encosto do banco. — Você deve estar cansada, achei melhor te trazer para a sua casa.
Ela sentiu um aperto no coração. Era a primeira vez que a chamava pelo apelido.
— Mas...
O garoto segurou a mão dela.
— Não tem problema. Eu não vou viajar esse ano, nós temos o verão todo!
Ai, poxa. Por que tinha que ter bebido tanto? Sentiu-se culpada por ter estragado algo que tinha tudo para ser perfeito.
— Na... Na verdade, não temos. Eu é que vou viajar esse ano. Meu curso de Enfermagem tem um intercâmbio obrigatório que resolvi fazer nessas férias. Eu viajo para a América do Sul na terça-feira.
Ela podia ver murchando diante dos seus olhos e era exatamente assim que se sentia também.
— Eu... Eu não sabia.
— Me desculpa por não ter contado enquanto estávamos presos no banheiro. Eu devia ter dito alguma coisa.
Ele sorriu. Um sorriso triste, mas de quem aceitava a derrota.
— Não, está tudo bem! — Se apressou a dizer. — A gente sempre tem o próximo aniversário da Lana. — brincou.
se aproximou, encostando seus lábios nos dele. não deixou que ela se afastasse, aprofundando o beijo. Se tinha sido difícil se separarem no banheiro, agora parecia impossível. Foi uma luz se acendendo na varanda da casa dos vizinhos que os trouxe de volta à realidade.
A garota suspirou ao destrancar a porta do passageiro.
— Boa viagem. — disse, repousando os dois braços no volante. — E que seja uma experiência incrível!
— Obrigada! Para você também, na rádio. — respondeu, sorrindo e saindo do carro.
Acenou, observando-o partir, se sentindo decepcionada consigo mesma. Não era nada daquilo que imaginava para o seu fim de noite. Queria algo leve, divertido, e agora se sentia deixando parte do coração para trás. Em um momento de delírio entre o álcool, a frustração e o sono, ela se pegou divagando se não era uma visão esquisita, uma projeção da sua cabeça, que tinha todo ano naquele mesmo sábado de junho. Por que eles não pareciam existir juntos em qualquer contexto que não fosse a festa da Lana? Riu sozinha do quanto a ideia era ridícula, já que todo mundo o via e, bem, sabia que estava lá desde a sua infância.
Caminhou derrotada para dentro de casa, se lembrando das palavras do garoto: pelo menos tinham o aniversário do ano que vem.

02/07/2016 17:12
Contato:

Hey , como estão as coisas?
Eu não quis te mandar mensagem
antes, porque sabia que você estava se
instalando e se adaptando à vida nova.
Você chegou bem? Como é o Peru?
Espero que esteja tudo bem. xx

10/07/2016 04:50
Oi ! Mil desculpas na demora da resposta.
Eu e minha equipe estávamos trabalhando em uma
vila afastada e que não tem acesso à internet,
voltamos para Lima agora. Eu estou amando
tudo aqui, nunca aprendi tanto em tão
pouco tempo! Espero que você esteja bem também. Xx

11/07/2016 09:33
Fico feliz que você esteja gostando!
Não vou ficar te atormentando, porque
você deve estar bem ocupada. Até mais! Xx

28/08/2016 20:45
Contato:

Oi, como você está?
Desde o aniversário da Lana, eu tenho pensado muito
em duas coisas: Uma é você... e esse é o pensamento
fácil. Mas eu também fico pensando em como minhas
intenções naquela noite eram erradas. Eu ainda estava
na fase inconsequente pós-término, focando em one-night
stands
e tentando escapar a todo custo de sentimentos.
Eu acho que só percebi depois que nada disso funcionaria
com relação a nós dois, porque eu não quero nada que seja
só uma vez ou sem nenhum tipo de sentimento com você.
Obrigada por me levar para casa aquele noite... E eu espero
que algum dia a gente possa tentar fazer as coisas direito.
Desculpa por esse texto gigante do nada, mas eu
bebi um pouco na festa que estamos e precisava
falar agora, antes que perdesse a coragem. Xx

28/08/2016 20:45
Contato: Lana

Amiga, sabe aquele japonês que você ama
em San Diego? Abriu um em SF!! Estamos indo agora.
Eu, Carl, e a menina com quem ele está ficando.
Queria te contar, estou animada!
Saudades! Espero que tudo esteja bem aí no Peru. Te amo!

28/08/2016 20:46
Contato:

Mensagem deletada

Hey! Desculpa, fui mandar mensagem para um contato
que estava embaixo do seu nome e cliquei errado.
Espero que você esteja bem. Xx

28/08/2016 20:58
Hey, ... não tem problema!
Como você está? Como estão as coisas no Peru?
Engraçado você mandar mensagem, estou saindo
agora para encontrar Carl e Lan. Vamos em um
restaurante japonês que a Lana disse que você ama!

Sim! Ela me mandou mensagem contando.
Depois me diz o que achou!

Pode deixar! xx

**
10/06/2017
olhou em volta, satisfeita com a decoração da casa. Normalmente teriam descartado a ideia de pendurar coisas nas paredes e no teto, mas aquela não era só uma festa de aniversário, era também uma festa de formatura. A maioria dos amigos de infância de Lana haviam se formado nas últimas semanas e, como , estavam de volta à San Francisco. Definitivamente de volta.
Por esse motivo, a data parecia memorável demais para ser uma simples house party. Lana decidiu então reunir os amigos mais próximos na sua cidade favorita do mundo: Carmel-by-the-sea, em uma casa de frente para a praia, onde pudessem passar o fim de semana juntos.
Era uma tarde de sábado quente e ensolarada quando os convidados começaram a chegar, mas já estava ali desde o dia anterior para ajudar com os preparativos. Lana, usando um chapéu preto de formatura como parte da sua vestimenta, atravessou a sala para cumprimentar os recém-chegados.
— Judy! Benji! Fizeram boa viagem?
— Fizemos, sim! Nos atrasamos um pouco porque eu me distraí em uma das lojinhas do centro! — ela respondeu.
— Atraso nenhum, foram os primeiros a chegar.
— Carl ainda não está aqui? — Benji indagou.
— Ainda não, mas já estava na estrada. Não conseguiu sair do jornal mais cedo.
— E o ? Encontrei com ele no começo da semana e ele disse que não vinha.
, que estava de costas para os três distribuindo copos pela mesa de jantar, se endireitou ao ouvir o assunto.
— Não. — disse Lana, parecendo desapontada. — Ele não conseguiu trocar de turno na rádio.
Aquela informação acertou em cheio. Ela se sentiu um pouco ridícula por ter pensado tanto em reencontrá-lo, pela ansiedade que passou a semana toda sentindo, por ter comprado um vestido novo só para aquele momento e não ter feito o óbvio: perguntado ao garoto se ele iria.
A verdade era que, depois dos últimos anos – e especialmente o ano passado –, ela não julgou que fosse necessário e deu por certa a presença dele. Tinha ficado mal acostumada, já que a vida se encarregou de tudo nas festas anteriores, mesmo os dois não sendo bons em manterem uma conversa fluindo por WhatsApp ou Instagram.
A garota terminou o que estava fazendo e também foi dar oi para Judy, Benji e os outros amigos que estavam chegando. Não iria adiantar ficar emburrada ou perder a festa por isso, por mais decepcionante que fosse. E não era o fim do mundo também. Ela estava voltando para San Francisco e haveria outras ocasiões para eles se virem, valeria a pena esperar para ouvir aquela risada outra vez. Sua frustração era maior porque já tinha essa história de se encontrarem no aniversário da Lana e ela imaginou que, se fossem finalmente se acertar, seria em uma dessas festas. Afinal, foi onde se reconectaram, onde riram juntos de novo e onde enxergou com outros olhos pela primeira vez.

A voz do GPS o avisou que tinha chegado ao destino e observou a casa gigante ao final da rua e os muitos carros parados no gramado que dava para a porta da frente. Com certeza era o lugar certo! Estacionou por ali também e saiu distraído, ainda desligando o GPS e pegando sua mochila no banco traseiro. Foi só quando a viu que realmente parou tudo o que estava fazendo.
A cena toda parecia um sonho: podia ver o Sol se pondo atrás da casa verde claro e ouvir as ondas do mar que quebravam em um muro de pedras ali perto e, de costas para ele, observando a praia enquanto falava ao telefone, estava .
O vestido branco com pequenas flores azuis balançava com a brisa leve do fim da tarde aos pés dela, parecendo ondas que ele podia escutar. Era como andar de encontro a uma pintura, o que ele, hipnotizado por ela e por todas aquelas cores, fez.

— Mãe? Eu não ouvi o que você falou por último — disse, aproximando mais o celular do ouvido.
— Eu vou precisar desligar, filha, suas coisas de San Diego chegaram.
— Pode deixar tudo na garagem. Eu levo as caixas para o meu quarto quando voltar.
— Ok! Tchau, aproveita a festa e manda um beijo para a Lana!
— Mando e...
De repente, duas mãos tamparam seus olhos. Sua primeira reação foi achar que era a melhor amiga, mas ao levantar a mão que não segurava o celular e tocá-las, sentiu um frio na barriga. Ela não costumava ter essa sensação com ninguém, por isso soube imediatamente quem era. Virou-se rápido e encarou , boquiaberta. O celular piscou, indicando o fim da ligação com a mãe. Ele abaixou os braços.
— Hey! — Cumprimentou, sorrindo com a boca e os olhos.
— Oi! O que... O que você está fazendo aqui? — perguntou enquanto se abraçavam brevemente. — Lana disse que você não viria...
— Eu não tinha conseguido trocar meu turno até hoje de manhã. Foi tudo de última hora, eu... Eu não queria perder... A festa.
entendeu que havia mais no que ele estava dizendo e sentiu a expectativa crescer e tomar conta de todo seu peito.
— Lana não sabia, né? Ela estava super triste que você tinha ficado em San Francisco. Estava... realmente contando que você estaria aqui.
Os dois estavam tendo duas conversas simultaneamente: a falada e a que acontecia no modo como se olhavam enquanto as mensagens na entrelinha dançavam entre eles. Era como se precisassem se admirar por todo o tempo que passaram longe e dizer muito, colocando bem pouco em palavras.
— Eu sei, foi por isso que fiz de tudo para vir. Mesmo chegando atrasado.
Ela sorriu.
— Você chegou na hora certa.
Por mais que tivesse passado um ano imaginando o reencontro entre eles das mais diversas formas, a vozinha ranzinza no fundo de sua cabeça constantemente a lembrava de que poderia ser tudo diferente e pior, na realidade. poderia estar namorando (ele realmente tinha ficado com a garota do restaurante japonês por um bom tempo) ou apaixonado por outra, poderia ter se cansado daquela dinâmica deles ou ter se decepcionado com o modo como as coisas terminaram na última festa. A possibilidade de que ainda houvesse uma esperança, às vezes, parecia minúscula.
Era, de certa forma, um alívio que ele estivesse ali sendo o sorridente de sempre. Mesmo se nada mais acontecesse e ela estivesse delirando o subentendido em suas falas, pelo menos tudo indicava que permaneceriam amigos. O garoto levantou os olhos e assobiou.
— Esse lugar é lindo demais. Que pôr do Sol insano!
Ela se virou de costas, para observar o horizonte também, e aproveitou para olhá-la enquanto sua atenção estava em outro lugar. O vestido branco era um contraste gritante com as cores do céu, mas de alguma forma parecia ser proposital para que ele fosse obrigado a apreciar as duas imagens justapostas igualmente.
— Não é? Talvez seja o meu favorito de todos os que já vi — ela respondeu e, quando virou o rosto, sorriu ao perceber que ele não estava realmente olhando para frente.
A coisa que mais gostava em era como ela podia, ao mesmo tempo, transmitir serenidade enquanto seus olhos faiscavam, como um relâmpago. Ele sempre acabava preso na atmosfera que se criava entre os dois, como se as diversas ramificações do raio fossem bracinhos, o segurando ao redor dela. Ele não tinha intenção nenhuma de se soltar, pelo contrário, ansiava pelo dia em que não precisaria mais habitar qualquer lugar que não fosse aquele. Vinha desejando ano após ano, em vão, que o momento não acabasse de repente.
— Vocês sempre vêm para cá, né?
fez que sim com a cabeça.
— Não para essa casa. Essa a Lana alugou especialmente para o fim de semana, mas os avós dela moram aqui. Eu venho para Carmel com ela desde criança, nós somos obcecadas por essa cidade!
— Eu entendo o porquê.
— Você já conhecia? — ela perguntou.
— Não. Só Monterrey. Você me mostra a cidade amanhã?
Os olhos de se acenderam.
— Claro!
Sorriram um para o outro e, no silêncio que se seguiu, ela se virou para olhar mais uma vez para o pôr do Sol. precisava entrar, guardar suas coisas e... Bem... Anunciar sua presença para a aniversariante, mas ficou mais alguns minutos do lado de fora, preso em uma pintura perfeita, com a companhia perfeita.

Em algum momento da festa, acabou rindo da própria sorte. No passado, tinha sido tão fácil e espontâneo que ela e acabassem sozinhos em algum lugar, conversando sobre tudo por um tempão sem serem interrompidos.
Mas, naquela noite, parecia impossível! O número reduzido de pessoas podia dar a impressão de facilitar a aproximação, mas acabava sendo mais fácil para as pessoas darem falta umas das outras também. Em uma tentativa de criar a oportunidade, a garota foi até a varanda “ver se estava frio” como quem não queria nada, enrolando um pouco antes de entrar. Em menos de um minuto pôde ouvir a voz alta e bêbada de Lana perguntando:
? Onde ela foi?
Às vezes paravam um ao lado do outro em um grupo conversando e era quase doloroso que não pudessem se tocar. havia colocado as mãos nos bolsos para evitar que a abraçasse pela cintura sem perceber. Não era realmente absurdo, só conseguia pensar nisso por todo o tempo que estiveram lado a lado. Seus olhares se seguiam pela sala e, quando se encontravam, criavam sorrisos tímidos em resposta. Era como se reconhecessem o próprio sentimento de frustração estampado na expressão facial do outro. Pelo menos estavam passando por isso juntos, de alguma forma.

separava as garrafas vazias das cheias, na cozinha, quando percebeu alguém se aproximar e encostar na soleira da porta. Sorriu ao ver que era . Ninguém podia dizer que eles não estavam tentando. A cozinha em estilo americano, porém, não os dava realmente muita privacidade.
— Precisa de ajuda? — ele perguntou.
— Por favor.
O garoto se aproximou, olhando em volta.
— Do que você precisa?
Ela pegou uma taça limpa no lava louças e colocou o resto do vinho branco de três garrafas diferentes.
— Esvaziar as garrafas para eu levar todas para fora já ajuda.
— Poxa, se eu soubesse, tinha oferecido uma mão antes! — Ele exclamou, rindo, e aceitando a bebida, então franziu a testa. — Você não está bebendo?
deu um sorriso sem graça.
— Não. Hm... Se eu bem me lembro, beber demais na festa passada meio que estragou tudo.
deu uma risadinha.
— Não estragou, vai. Ainda foi uma festa muito legal.
Ela levantou os olhos e sorriu, concordando.
— Tem razão. Eu só... Não quero perder nada dessa vez.
Estavam de volta a esse jogo de colocarem mais significado na conversa do que só o que estava sendo dito. sentia o coração acelerar, meio desesperado sempre que ela fazia alguma referência ao ano anterior. Tinha passado bastante tempo pensando em cenas muito específicas daquela noite, uma experiência quase de cinema 4D porque seu cérebro parecia ter guardado bem a sensação dos lábios e das mãos dela. Ficar com outra garota tinha prejudicado um pouco a experiência, mas não a apagado completamente. No fim, ele só queria muito saber se aquilo entre eles podia dar certo. Se estivesse disposta também, claro. O que era sempre um grande “Se” até se encontrarem de novo, diálogos como aquele acontecerem e ter sua esperança renovada. Ele se sentou à mesa e apontou a cadeira da ponta com a cabeça.
— Vem aqui, depois eu te ajudo a terminar com isso.
A garota fez que sim, colocou uma última garrafa vazia na caixa de papelão e se sentou, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo na mão.
— Muito bem, então. Como você tem passado, ? — perguntou, como se o entrevistasse.
Ele imitou a pose, trazendo seu rosto para muito perto do dela, e respondeu:
— O de sempre. Rádio, aula de piano, assinar os papéis para ser adotado por Carl e Lana. Mas eu não passei 3 meses no Peru ou consegui um emprego no UCSF Medical Center, então acho que a pergunta aqui é: Como VOCÊ tem passado, ?
A garota riu. Às vezes se esquecia de que ele tinha acesso a informações privilegiadas através de Lana.
— Nós vamos começar cedo assim com a evasão? — Acabou perguntando, desafiando-o.
Ele abriu e fechou a boca, sem conseguir retrucar.
— Ok. Hm... Eu fui efetivado na rádio. Trabalho lá de verdade agora.
sorriu.
— Que ótimo! E o que você faz? Realizou o grande sonho da sua mãe de virar uma vitrola?
riu, o som que ela sentido tanta falta, e fez que não com a cabeça.
— Infelizmente, não, acabei desistindo da carreira de apresentador. Eu gosto mais de trabalhar nos bastidores — contou. A garota fez menção de falar algo, mas ele foi mais rápido. — Chocante, eu sei! — disse, fazendo-a rir. — Sou um dos produtores do show vespertino da Wild. Ajudo com o roteiro, as participações especiais, resolvo qualquer imprevisto que aconteça no ar.
— Parece ser divertido.
— É bastante! Talvez agora eu consiga os ingressos do Justin Bieber para você mais fácil do que antes!
gargalhou, balançando a cabeça.
— Agora que eu já fiz 21, o JB acabou não passando para a lista atualizada do que fazer antes dos 25. Uma pena!
— Uma pena, mesmo. — E então ele a cutucou no braço, fazendo-a sentir um arrepio. — Pronto, já falei sobre mim, agora me conta do Peru, sobre como é ser um gênio da Enfermagem.
— Eu não fiz mais que a minha obrigação.
— Você é a prima bem sucedida que acaba um pouco com a graça do Natal dos outros.
riu e empurrou o braço dele. segurou a mão dela ali, fazendo o ato de respirar se tornar um pouco mais trabalhoso.
— Larga de ser tonto! Eu só queria conseguir um emprego em San Francisco.
Calhou de ser no melhor hospital da cidade.
Ela rolou os olhos.
— Foi indicação de uma das professoras de San Diego com quem eu trabalhei.
— Falando sério agora, . Parabéns mesmo! Estou muito orgulhoso de você! — ele exclamou, dando um aperto carinhoso na mão dela. Os dois sorriram.
— E o Peru... Foi incrível! A experiência mais... Eu nem sei que palavra usar. Desafiadora, mais reveladora da minha vida. Me fez amar minha profissão de um jeito que eu não amava ainda.
— Deve ser sido maravilhoso mesmo! Mas muito cansativo, imagino.
— Era muito trabalho, muito desgastante. A vantagem foi que eu aprendi em três meses o que não aprendi em 4 anos de faculdade.
— Você deve ter dormido três dias seguidos quando voltou!
— Foi mais ou menos isso. — respondeu, rindo. E então, depois de pensar duas ou três vezes, tomou coragem e disse. — Eu... Te mandei uma mensagem quando estava lá, em um dos poucos dias que saí à noite.
— Eu sei, eu me lembro. — respondeu, sério. O estômago da garota afundou.
— Você... Leu?
Ele fez que não com a cabeça, ainda a encarando, e percebeu que não era mentira.
— Mas eu não dormi naquela noite pensando no que poderia ser.
— Você não caiu no velho truque do “Desculpa, foi engano” então?
riu.
— Não. — Mordeu o lábio, o olhar curioso. — O que dizia?
Carl parou no balcão que separava a cozinha da sala, fazendo ambos cortar o contato visual e se distanciarem, sem jeito, para encará-lo.
! Você trouxe seu violão, cara?
— Caramba! Não. Eu passei em casa tão rápido, saindo da rádio, que esqueci.
Carl se virou para trás, falando com alguém fora das vistas dos dois.
— Ele não trouxe.
Ouviram um “Aaaah!” em uníssono vindo da sala e logo Lana estava parada ao lado do namorado.
— Se eu ligar para o meu avô emprestar o dele, você toca?
— Lan... — checou o relógio do celular. — São 10 horas!
— E você não conhece o Sr. Nguyen? — a amiga respondeu. — Ainda deve estar acordadíssimo!
Mas , talvez antes de garota ao seu lado, enxergou a brecha que precisavam. Ele sorriu para Lana.
— Claro, Lan! Mas liga perguntando se tudo bem antes. — E então se virou para , tentando manter a voz calma e sem nenhum sinal da excitação que borbulhava em seu estômago. — Você sabe chegar lá daqui? Pode ir comigo?
Os olhos dela se iluminaram quando tudo fez sentido. O garoto percebeu o esforço que ela fez para manter o sorriso neutro.
— Sei sim!
— Você pode ir dirigindo então, já que não está bebendo. — Os dois sorriram um para o outro, compartilhando o momento como uma piada interna.
Lana levantou os olhos do celular.
não está bebendo?
— Não. — ela respondeu, sem mover sua atenção de . — Eu sabia que seria útil, em algum momento da festa, permanecer sóbria.
— Garota esperta! — a amiga murmurou, distraída. Então balançou o celular para eles. — Tudo certo com o meu avô. Ele disse que está esperando vocês!
Os dois se levantaram, mal contendo a agitação em que se encontravam.
— Nós já voltamos! — disse, dando um beijo no topo da cabeça de Lana.
Andaram o mais rápido possível, sem correr, em direção à porta da frente, fazendo inveja a qualquer competidor de marcha atlética. Se fossem um pouco mais discretos, teriam saído gritando “Enfim sós!”.

Lana tinha razão. O Sr. e a Sra. Nguyen pareciam ainda mais acordados do que e estavam. Não era à toa que a amiga parecia um brinquedo de bateria infinita. Devia ser genético.
— Nós traremos o violão de volta amanhã, antes de irmos embora. — O garoto ia dizendo enquanto se despediam.
— Não se preocupem! — O senhorzinho sorridente disse, acenando. — Se não estivermos aqui, Lana tem as chaves.
jogou beijos aos dois antes de entrar no carro e se sentou no banco do passageiro, com o violão no colo.
— Eles são tão legais! — ele comentou e a garota concordou com a cabeça, sorrindo.
— São sim! Os maiores contadores de história que eu conheço.
— De repente eu entendo completamente a personalidade da Lan!
Ela riu, porque era verdade. Tinha sorte de ter convivido com os Nguyen desde pequenininha.
Era uma noite de céu claro, com a Lua Cheia grande e iluminada, e a temperatura amena. teve a sensação de que poderia passar horas dirigindo sem rumo. Tentou fazer o caminho mais longo para casa, ziguezagueando pelas ruas, mas havia algo de relaxante em dirigir pela orla da praia. Talvez fosse o cheiro do mar.
— É estranho que eu não queira voltar para a festa? — perguntou, como se estivesse lendo os pensamentos dela.
— Não. A noite parece perfeita demais para ficar em um lugar fechado. — O olhou de relance. — Está com fome? Será que devíamos aproveitar e levar umas pizzas?
— Se ainda encontrarmos algum lugar aberto.
— Ainda não é meia noite, deve ter pelo menos uma.
decidiu estacionar o carro em uma das vagas de frente para a praia. tirou o celular do bolso para procurar alguma pizzaria aberta e ligou para uma, que parecia ficar perto de onde estavam.
— Meia hora. — disse, desligando o telefone. Virou-se para olhar para a garota. — Se você já não tivesse cortado “nadar sem roupa” da sua lista, agora seria o momento ideal!
Ela riu, destrancou a porta, e fingiu que ia sair correndo.
— Quem chegar por último termina de arrumar a casa depois da festa! — Brincou, assustando , que deu risada da cara que ele fez. — Vem, vamos esperar essas pizzas do lado de fora.
Os dois saíram e encostaram-se ao capô do carro. Não precisavam mais restringir nenhum movimento ou gesto de carinho, por isso estavam parados lado a lado, colados um no outro como se fossem imãs. Ficaram um tempo em silêncio, ouvindo o mar, observando o céu e absorvendo aquele momento.
— Você ainda desenha? — perguntou.
— Às vezes. Não tive muito tempo no último ano. — Virou o rosto para ele. — Como você lembra que eu desenho?
— Eu tenho a foto da sequoia que você fez no meu gesso, em um quadrinho na parede do meu quarto.
sorriu, com o coração dobrando de tamanho em afeto por ele.
— Imagina quanto vai valer quando eu for receber meu Nobel de Melhor Enfermeira do mundo?
Ele riu.
— Vão inventar essa categoria só para te premiarem!
— Exato. Você promete tocar quando eu for receber?
— Claro! Vou escrever uma música só para a ocasião! — Franziu a testa. — A gente não faz ideia de como uma cerimônia do Nobel funciona, né?
deu de ombros.
— Se não for igual à premiação de música, eu nem quero ir. — Os dois riram, mas então ela voltou a pensar seriamente sobre o assunto. — Tem tanta coisa que eu pausei na minha vida por causa da universidade, principalmente nesse último ano. Eu quero voltar a desenhar, a sair com os meus amigos, aprender coisas novas que não tenham nada a ver com Enfermagem.
— Eu sinto muito que você tenha deixado tanta coisa para trás por isso... Mas valeu a pena, certo?
Ela fez que sim com a cabeça. O que sentia não era arrependimento, era mais como uma nostalgia por todas as coisas que abriu mão para estar no caminho que desejava.
— Sim, eu alcancei todos os meus objetivos. Entrar na universidade, terminar o curso e logo conseguir um emprego na minha cidade natal. Nem todo mundo tem essa sorte e agora eu posso ir atrás de todas essas outras coisas que eu quero. — se virou para olhá-lo. De todas as opções que de repente se abriam para ela, era a única coisa que queria muito, muito ter. — Tem alguma coisa específica que você deseje conquistar? Na sua profissão?
— Hm... — Enquanto pensava, talvez sem perceber o que fazia, o garoto mexeu distraidamente no cabelo de , colocando uma mecha que caía pelos ombros, para trás. — Acho que qualquer pessoa que trabalhe na iHeart Radio deseja trabalhar na filial de Los Angeles.
— Eu consigo te ver morando em LA.
— Tomando suco detox e fazendo hot yoga?
— Ficando amigo das Kardashians.
Os dois riram. ainda tinha o olhar perdido no rosto dela.
— Nah. Eu gosto de San Francisco, não planejo me mudar de lá.
ergueu os olhos, o encarando. Sorriu ao perceber que podia ver nos olhos dele tudo o que estava sentindo também.
— Que bom! — disse. Havia muitas coisas que queria diz para completar aquele pensamento, mas todas pareceriam demais, significariam demais. — Seria uma grande perda.
se desencostou do carro, ficando de frente para . O ar parecia carregado e ambos precisaram respirar fundo. Ele levantou uma das mãos para contornar a linha do maxilar dela com os dedos.
— O que a mensagem dizia? — perguntou baixinho. Estava cortando o assunto, mas de alguma forma, parecia que era exatamente sobre isso que estavam conversando desde sempre.
— Por que você não me perguntou na época?
Ele deu de ombros.
— Qualquer suposição que eu fizesse ia soar pretensiosa. Você disse que era engano. — explicou e depois sorriu de lado. — Não tenta usar técnicas de evasão comigo.
deu uma risadinha, se perdendo logo em seguida nos olhos dele.
— Eu te escrevi sobre a festa de aniversário da Lana, mas logo em seguida ela me mandou uma mensagem falando que estava saindo com você e a garota com quem você estava ficando. Eu não achei que fosse justo, com nenhum de nós dois, se você lesse.
fez que sim com a cabeça, não só compreendendo, mas concordando.
— É, talvez aquela não fosse a melhor hora. — falou. — Mas agora é.
Ela sabia que ele estava certo. Sentiu o sangue se concentrar em seu rosto ao pensar que teria que dizer tudo pessoalmente, mas era só porque podia vê-lo. Podia ver tanto do que estava escrito naquela mensagem em , que se sentiu pronta para finalmente compartilhar tudo com ele.
— A mensagem dizia que eu andava pensando muito em você, que me sentia mal pela forma como tinha acontecido porque ainda estava em uma fase estranha do pós-término, não querendo nada sério com ninguém. — Ela molhou os lábios antes de continuar, atraindo os olhos de para a sua boca. — Mas foi diferente com você. Eu não queria... Não quero nada que não possa durar com você. Eu também te agradecia por ter me levado para casa e dizia que esperava que tivéssemos outra chance.
Ele sorriu e se aproximou mais dela. passou os braços pelo pescoço de e foi como se voltasse a um lugar que já conhecia e adorava.
— Eu também espero que a gente tenha outra chance. Não! Eu espero que essa seja a outra chance. Já chega de desencontros!
segurou o riso, os ombros se encolhendo.
— Será que a gente finalmente se alinhou?
— Hm... Me deixa testar um negócio.
capturou a risada que ela deu com os próprios lábios, o que o fez sorrir também. Seria embaraçoso se a garota soubesse como seu corpo reagia ao dela, o coração tão acelerado que talvez fosse possível ver externamente em seu peito. Seu cérebro se desligava completamente, uma pane geral. Talvez fosse possível que qualquer um percebesse que suas mãos tremiam de nervosismo e que cada pedaço de pele dele se arrepiava com o toque das mãos de . Abraçou-a mais forte, fazendo ela se desencostar do carro também.
Mas aquele beijo era diferente, ambos estavam sóbrios e sem pressa alguma, sabiam que era apenas o começo de tudo que ainda viveriam juntos. E, ao mesmo tempo, já tinham certa intimidade, tinham feito confissões um ao outro, sabiam que o sentimento existia e que era recíproco. Não precisavam mais esconder, fingir ou brincar sobre o que sentiam.
— Eu não quero ir buscar a pizza, não quero voltar para a festa. Eu só quero ficar aqui. — disse, distribuindo beijos pelo rosto de quando se separaram.
Sentiu a garota se apertar mais a ele, como se dissesse “Eu também” e beijar a curva do seu maxilar.
— Já deu meia hora? — ela perguntou.
— Não, ainda temos uns minutinhos.
— Então volta aqui. — pediu, trazendo o rosto dele outra vez para perto do dela.
Mas os minutinhos se passaram e eles precisaram se desvencilhar e voltar para o carro. colocou o violão no colo e começou a afiná-lo.
— Lana vai dizer que sempre soube. — Ela chutou.
O garoto riu e fez que sim com a cabeça.
— Lan brincou uma vez que sempre que você sumia nas festas, ela sabia que nós estávamos juntos.
— Merda! Então ela sempre soube mesmo!
— Antes de nós dois, provavelmente.
Eles riram. tocava uma melodia suave no violão, testando as cordas, e sorriu. Sentiu uma espécie de paz, que a fez querer apertar os dedos no volante e tentar capturar aquela memória com todos os sentidos que conseguisse. Poderia se acostumar àquilo, dirigir a noite com o vento no rosto, o som do violão, o sentimento que tinha em relação a . Tudo era confortável, leve e feliz.

e estranharam que as janelas do primeiro andar estivessem escuras quando chegaram. Caminharam, carregando as pizzas e o violão, trocando olhares de dúvida e curiosidade.
— Essa é a casa certa, né? — ele perguntou, olhando em volta, mas respondeu a si mesmo. — Ah, olha o meu carro ali.
— Será que ficaram sem energia?
Mas ao abrirem a porta da frente, se depararam com a sala vazia a não ser por Chris, uma garota que havia estudado com eles na escola, que estava sentada no sofá e mexendo no celular. Ela levantou os olhos, sorrindo.
— Oi, vocês voltaram!
— Cadê todo mundo? — perguntou, colocando as caixas de pizza na mesa de jantar.
— Lana passou mal e Carl foi dar banho nela. Acho que os dois acabaram dormindo. Aí o pessoal já estava meio cozido e foram para a cama também. Jane e Sam foram embora.
— É meia noite. — disse, franzindo a testa e rindo, meio confuso.
— Mas para quem estava bebendo desde as 3h da tarde... — explicou.
balançou a cabeça, também sem acreditar.
— Nós trouxemos pizza. Você quer?
Chris se levantou.
— Não, mas muito obrigada! — disse, apertando o braço da recém-chegada, carinhosamente. — Estava esperando vocês aparecerem para subir também, não queria deixar a porta destrancada.
Quando e ficaram sozinhos na sala, se olharam sem entender o que tinha acontecido.
— Quanto tempo nós passamos fora? — ele perguntou.
— Pelo jeito, umas cinco horas! — a garota deu de ombros. — Será que era tudo um plano para nós dois sairmos e parar de ficar andando com cara de velório pela festa?
— Nós não estávamos mesmo enganando ninguém, não é? — indagou, apoiando o violão na parede. — Eu nem tive tempo de impressionar todo mundo com meus dons musicais!
— Talvez eles tenham ido dormir para não te escutar. — brincou.
— Hey!
Os dois riram e taparam a boca ao mesmo tempo para não fazerem barulho. Sentaram-se no sofá, ela com a perna sobre , como na banheira dos pais de Carl, com uma das caixas de pizza aberta sobre a mesinha de centro. Tentavam manter as vozes baixas, mas às vezes era difícil segurar o volume das risadas. Embolaram-se no sofá por um tempo, aproveitando que podiam se beijar em um lugar confortável pela primeira vez. Quando a garota fez menção de começar a limpar a bagunça em que a casa se encontrava, foi interrompida.
— Deixa para amanhã, aspirador robô. — zombou, a abraçando pela cintura e a levando para longe da cozinha.
Ele a colocou de pé no primeiro degrau da escada que levava para os quartos, as mãos descansando no quadril de , que o abraçou.
— Onde você deixou suas coisas?
— Na salinha de TV do segundo andar. Como eu não viria, ia dormir no sofá que tem lá.
sorriu de lado, mexendo no cabelo dele.
— Hoje é seu dia de sorte.
— Sem dúvidas! — ele interrompeu, fazendo-a rir.
— Porque, como melhor amiga da aniversariante, eu estou no segundo melhor quarto da casa!
— E eu vou ser convidado para dormir nele?
— Só se você quiser.
— Eu posso pensar? — brincou, abraçando-a. — Você já está com sono?
— Não, mas isso não quer dizer que a gente não possa subir.
O garoto fez que sim com a cabeça e se deixou ser puxado por ela escada acima.
Começaram a se beijar ainda no corredor, entre a sala de TV e o quarto onde dormiria, mas assim que fecharam a porta, tudo pareceu mudar de intensidade e intenção. Os movimentos eram menos suaves e suas mãos e bocas buscavam por lugares que ainda não conheciam no corpo do outro. Ela se virou, para que ele a ajudasse com o vestido e sorriu, sabendo que aquela era exatamente a imagem que vislumbrara quando havia o experimentado pela primeira vez na loja. Aquele zíper tinha sido feito para ser aberto por .
Então o ajudou com a camisa e a calça, se esbarrando pelo quarto sem prestar muita atenção, até chegarem à cama. Assim que se deitou no colchão, trazendo consigo, a cama rangeu, fazendo um barulho metálico tão alto que pareceu se espalhar pelo silêncio que invadia a casa toda.
— Esse é o segundo melhor quarto da casa? — ele perguntou, ainda meio sem ar.
— Eu não tinha me sentado na cama antes.
tentou se ajeitar e o rangido voltou a encher o quarto. Escondeu o rosto no pescoço do garoto, abafando sua risada, e conseguiu sentir o corpo dele vibrando com a gargalhada sem som que também dava.
— Estava fácil demais. — disse, rindo, se apoiando nos braços para levantar. — Com a gente, tudo tem que levar três ou quatro tentativas.
— A sala de TV tem porta?
Ele fez que não com a cabeça.
— Acho que vamos ter que aceitar a derrota.
riu e, cuidadosamente, se deitou com a cabeça no travesseiro, puxando o edredom sobre si.
— Deita aqui comigo então. A gente pode, pelo menos, dormir juntinho.
Tentando fazer a menor quantidade de ruído possível, se deitou do outro lado da cama e a abraçou, trazendo para repousar sobre seu peito.
— Não é tão ruim assim — disse, dando um beijo no topo da cabeça da garota, que o abraçou mais forte.
— Não é nada ruim.
Havia algo de libertador em saber que haveria amanhã e o dia seguinte, e o dia seguinte. Não precisavam fazer nada sem pensar ou no desespero. Passaram um tempo conversando em sussurros e dormiram abraçados, aprendendo coisas novas um sobre o outro sobre terem sono leve ou pesado, sobre falar durante o sono e puxar o edredom, sobre como viravam e se separavam na cama, mas acabavam se tateando no meio da noite. Sobre como era acordarem juntos, dizer bom dia e o cheiro de banho, hidratante e loção pós-barba.
Quando desceram, tiveram que ouvir os “Eu sabia!” e os “Até que demorou...” dos amigos que, apesar da brincadeira, ficaram felizes em ver e de mãos dadas, trocando carinhos e olhares de ternura. Parecia ter demorado um século, mas também parecia que tudo tinha se encaixado perfeitamente para que estivessem ali, andando abraçados por Carmel-by-the-sea, tomando sorvete, quase sufocados naquele sentimento novo que só viria a expandir mais e mais.
Dizem que o melhor da festa é esperar por ela, mas às vezes, só às vezes, a expectativa não é nada quando comparada ao que ela está nos fazendo aguardar.

 

 

Epílogo
25/08/2018
e entraram em um Uber no aeroporto internacional de San Francisco, que os levaria para a casa dela. Depois de 15 dias passeando pela Europa em um mochilão que havia terminado na casa dos avós do garoto, na Irlanda, eles estavam de volta à cidade natal. Ele descansou a cabeça no ombro dela, que contornou seu pescoço com o braço e passou a fazer um cafuné distraído nos cabelos do namorado.
— Você vai ficar lá em casa? — perguntou.
— Você ainda não se cansou de mim? Achei que ia querer ficar sem ver a minha cara por uma semana.
Ela riu. A verdade era que estavam longe da fase do namoro em que enjoariam um do outro. No momento, estava mais preocupada em como iria se acostumar a distância da vida cotidiana depois de quase duas semanas tendo como sua única companhia.
— Nah, acho que vamos precisar seguir um esquema de nos separarmos aos pouquinhos, para não sofrermos de abstinência.
O garoto passou um dos braços pela cintura dela e fechou os olhos.
— Quando eu conseguir uma promoção e você um aumento, será que nós podemos começar a pensar em morarmos juntos e evitar esse problema?
— Você está falando sério?
levantou a cabeça para encará-la e fez que sim.
— O que você acha?
— Nós vamos ter um banheiro azul marinho e dourado? — perguntou e ele sorriu.
— Claro! E uma parede com todos os seus desenhos em quadrinhos coloridos.
— E quarto de hóspede, que também serve de estúdio para você.
— Perto do hospital e da rádio, ou longe dos dois, em um subúrbio legal com outros casais jovens.
— Ou um apartamento com vista para o mar.
— Aí depende de quanto vai ser esse seu aumento.
riu, voltando a fazer carinho na cabeça dele.
— A vista para o mar não precisa ser no nosso primeiro apartamento, então.
— Nós sempre podemos ter uma casa de veraneio em Carmel.
E seguiram fazendo planos até chegarem ao destino. Alguns eram grandiosos e inteiramente fantasiosos enquanto outros eram tão reais que causavam frio na barriga, como se estivessem falando em voz alta para contar ao Universo como queriam que o futuro acontecesse. Desde que estivessem juntos, porém, era certo que tudo se realizaria, era só dar tempo ao tempo e disso eles entendiam.

***
 

Nota da autora: Minha sugestão depois dessa fanfic açucarada em excesso é cortar a ingestão de doces por um mês para evitar o diabetes hahahaha.
A intenção de Anticipation era contar como e se conheceram, reencontraram e começaram a namorar (e também era que vocês, leitoras, conhecessem e gostassem dos dois hahahahaha). Isso é importante porque na continuação, Albumfic: Heartbreak Weather, eu vou voltar para a história deles, mas 7 meses depois do Epílogo. Enquanto eu fazia o roteiro de HBW, percebi que precisava dar mais base para quem está lendo sobre a relação dos dois e flashbacks não seriam suficientes. E assim surgiu Anticipation.
Ela foi inspirada em uma mistura de Ready to run, com Overlap, do Catfish and the Bottlemen, e Dress, da Taylor Swift (todas estão na playlist!).
Às vezes eu estou consumindo livros e séries enquanto escrevo e alguma coisa na essência deles acaba impresso no meu modo de escrever. Não como plágio, é claro, mas como outra forma de inspiração (como as músicas) e eu pensei que seria legal também compartilhar isso na minha n/a: A série Normal People, que tem muito isso de ser basicamente os dois personagens principais indo e voltando na vida um do outro e conversando muito sempre; e um livro chamado Beach Read (da Emily Henry). Enquanto eu lia Beach Read, eu fiquei um pouco admirada em como alguns detalhes aleatórios na história me lembravam do que eu já tinha escrito em Anticipation. Esse livro tem diálogos maravilhosos entre o casal principal, que me fizeram rir muitas vezes. E não tem nada que eu goste mais do que diálogos engraçadinhos (como vocês podem notar). Nos dois casos, os enredos são bem diferentes de Anticipation, mas fica a indicação de coisas que me marcaram durante a escrita.
Antes de terminar, eu quero agradecer a Thatha, que lê minhas histórias antes delas serem histórias, que descobre os personagens junto comigo e com quem eu divido todas as fases de tudo o que eu escrevo, sabendo que vou ser direcionada para o lado certo e que vou receber sugestões honestas, que só vão melhorar o que eu estou desenvolvendo. Obrigada também a Vivi Duarte, que vai ler Anticipation depois que eu já terminei, mas com quem eu compartilho devaneios (e áudios muito longos) sobre livros, trechos de músicas, séries, desenhos e todo tipo de arte e, por isso, eu sempre fico ansiosa para ela ler o que eu escrevo. Obrigada por serem maravilhosas!!
E, por fim, muuuuito obrigada você que está lendo aqui agora! Eu espero que você tenha gostado da história (e da e do ) e a gente se vê de novo em Heartbreak Weather! Não se esquece de comentar o que achou, por favor <3 Alimente uma autora de fanfic hahahahahaha
Até a próxima!

LINKS
Facebook
Twitter
Playlist no Spotify

OUTRAS FANFICS
When you’re ready
Flicker