Mistérios do Destino

Mistérios do Destino

Sinopse: Uma mulher comum com uma perseverança extraordinária, um homem extraordinário com um emprego aclamado que o fez ser conhecido no mundo todo. Ela é independente, inteligente e descomplicada. Ele é gentil, desconstruído e tão descomplicado quanto ela. Isso faz com que tudo entre eles seja simples. Um celular estragado e uma gentileza fazem com que seus destinos se cruzem pela primeira vez em um contexto cotidiano. Alguns meios-sorrisos depois, e já existia uma afinidade adquirida quase que imediatamente.
E é nesse mesmo contexto cotidiano que ela conta toda a história clichê deles, todos os momentos que vivera com e sem ele, desde o dia que se conheceram, até fazerem planos que fizeram com que sua história tomasse um rumo que nenhum dos dois imaginaria. O que acontece com uma mulher comum quando ela se vê amiga do cara que era o pôster no seu quarto? O que acontece com o cara, que é ídolo de toda uma geração, quando percebe que aquela mulher comum é a mais extraordinária?
Qual foi o mistério que uniu dois destinos completamente diferentes? Eles não sabem, mas vão desvendá-lo juntos, ao mesmo tempo em que conhecem um ao outro profundamente.
Gênero: Romance; Comédia Romântica
Classificação: 14
Restrição: Harry Styles fixo
Beta: Donna Sheridan

Capítulos:

PROLÓGO – Wherever you are is the place I belong

MARÇO, 2019
Atualmente

– … E eu vou tirar férias por duas semanas, viajar para casa dos meus pais, visitar alguns familiares, essas coisas, sabe? A minha intenção é descansar, passear em lugares que eu costumava ir, ver meus amigos, fazer coisas mais tranquilas… – Parei de falar porque estava repetindo o que ia fazer, comecei a me atropelar nas palavras. Eu oficialmente estava gaguejando.
Era o que eu dizia para convencê-lo e talvez convencer a mim mesma, mas a verdade é que eu queria muito que ele fosse viajar comigo, mas não tinha as palavras certas e nem havia recebido uma brecha na conversa para fazer o convite.
– Eu vou sentir sua falta, darling… – Ouvi Harry pronunciar essa confissão mais uma vez.
A única pessoa que eu queria enganar era a mim mesma. Como pode alguém tentar convencer-se e enganar-se ao mesmo tempo? Fato é que estávamos conversando há alguns minutos sobre as minhas férias e eu já tinha recebido várias indiretas e brechas como essa. Eu estava mesmo era com medo de convidá-lo e ouvir o seu “não”, porque sabia que, além de diversos outros fatores, ele talvez nem pudesse ir. Talvez todos esses diversos fatores se unificassem em um só motivo que me impedia de dizer tudo o que eu sentia. Era como se ouvir o seu “não” para a viagem fosse também uma rejeição para todos esses sentimentos. Afinal, tínhamos uma amizade tão… sensacional, que vinha com o bônus de poder beijá-lo, dormir abraçada, de ser confortada e poder o procurar de madrugada depois da balada quando eu não tinha arrumado ninguém para ser o sexo casual da noite… o que eu menos queria na vida era perder tudo isso.
– … Quando você voltar, podemos ir naquele restaurante em New York que você queria, vemos um dia mais tranquilo e eu posso… não sei! A gente dá um jeito de não ser visto, tudo bem se nos virem também, né? Até porque estaríamos só jantando, podemos convidar alguns amigos para amenizar… – Ele dizia calmamente enquanto eu divagava em meus pensamentos, não prestando muita atenção no que ele estava dizendo. Àquela altura da conversa e, pela quantidade de vezes que tocamos no assunto da minha viagem, eu já estava sentindo minha garganta se fechar de nervoso, as palavras que eu tanto temia dizer estavam me sufocando.
Se eu não perguntasse agora, nunca saberia.
– Bom, você quer ir comigo? – Cortei sua fala em agudo esganiçado. – Digo, viajar comigo. – Tentei consertar, melhorando a voz. – Eu sei, sei que você tem uma agenda cheia e horários meio loucos, e é meio esquisito eu levar um cara que eu pego para viajar comigo para casa dos meus pais nas férias. É esquisito, não é? Mas antes disso somos amigos, certo? Mas também não quero que você fique achando que eu estou achando algo. – Parei de falar porque comecei a me perder nas palavras de novo. – Espero que isso faça sentido. É estranho, eu sei. – Eu repeti. – Porque você consequentemente conheceria meus pais. Mas somos amigos, não é? – Eu repeti. – Amigos conhecem a família de amigos. – Eu disse explicando para tentar ME convencer, porque toda a minha paranóia tinha a ver com o ato de conhecer os pais. Na minha cabeça, se você apresenta seus pais é porque quer algo sério.
– Sim, amigos conhecem a família de seus amigos… – Harry disse devagar com cara de quem estava tentando entender o modo como eu estava agindo.
– É só porque eu queria que você me conhecesse de verdade, conhecesse essa parte do meu mundo, assim como você me permitiu conhecer o seu. Seria legal ter você comigo. – Continuei um pouco afobada, brevemente me recordando de como Harry abriu sua casa, sua vida e seu coração para mim. – Além disso, onde eu moro é muito calmo, é quase interior, tenho certeza que ninguém vai te reconhecer e nem te incomodar, eu sei que você não se importa com os fãs, mas também sei que não é sempre que você gosta que saibam onde você está… Ah! Você me entendeu… Mas lá nós poderemos sair para onde… – Harry colocou os dedos nos meus lábios e me pediu em um gesto mudo que parasse de falar. – Quisermos. – Terminei a sentença em um sussurro, sentindo seus dedos quentes ainda em meus lábios, e os olhos verdes sustentando o meu olhar surpreso devido a interrupção.
Lá estava eu, mais uma vez, atropelando as palavras. Fiquei com medo de tudo ter soado muito pior do que eu ouvi. Só o que me faltava era que ele pedisse para repetir tudo porque não havia entendido nada. Eu não teria coragem de repetir tudo o que eu disse.
– Onde você morava. – Harry enfatizou com um sorrisinho de lado. – Você está falando demais.
– É o quê? – Meu olhar passou de surpreso para confusão total em segundos.
Eu podia jurar que Harry tinha nos lábios um sorrisinho presunçoso de quem segura uma gargalhada, e senti meus ombros cederem levemente. Se fosse em qualquer outra situação, essa atitude teria me feito relaxar instantaneamente. Mas eu estava falando sério, por isso tentei não dar tanta atenção, mantendo a postura que condizia ao quão séria eu queria transmitir estar.
– Você disse que onde você mora é calmo e eu te corrigi, porque você não mora mais lá, você mora aqui, babe. – O sorriso de Harry foi se alargando conforme falava, parecia que ele estava se divertindo com toda a situação, ao contrário de mim, que estava visivelmente angustiada.
Eu sempre amei o fato de ele me chamar de babe, desde que nos conhecemos. Nunca foi um apelido exclusivo meu, ele sempre chamava as pessoas assim, era um jeito dele de ser carinhoso. E, mesmo que não seja um vocativo exclusivo para mim, eu me sentia importante para ele, porque significava que ele queria ser carinhoso comigo, que eu estava inclusa nas pessoas que ele queria tratar com cuidado..
– Estou falando sério, Harry… – Eu disse, suspirando audivelmente.
Harry já me conhecia o suficiente para saber que eu odiava que ele fizesse palhaçadas quando eu estava falando sério. E aquele momento, para mim, era crucial. Ou ele dizia o tão temeroso “não” e eu entenderia como a rejeição que já previa, tal rejeição que significava que: por mais que ele realmente não pudesse, ele também não fazia tanta questão de estar comigo durante aqueles dias em que eu me ausentaria, já que eu estive com (e por) ele em mais dias do que posso contar, ou, ele diria “sim”. Simples assim!
– Tudo bem. Que dia vamos mesmo? – Sorri. Foi automático. Não pude conter o meu mais largo sorriso após ouvir essa simples sentença. – Como eu estava dizendo antes de você me interromper. – Continuou Harry. – Eu quero estar onde você estiver. Eu quero ir com você, . – E sorriu simples e leve.
Eu fiquei tão preocupada em ouvir uma resposta negativa, que foi a única pela qual me preparei. Claro que eu tinha uma pequena faísca de esperança de ele dizer “sim”, mas a parcela que não acreditava que isso fosse possível era muito maior.
Quando Harry e eu nos conhecemos, tivemos uma afinidade que foi instantânea, foi questão de tempo para que desenvolvêssemos intimidade, em todos os sentidos. Mas nesse caminho, junto com a química que descobrimos ter juntos, também criamos um laço de amizade muito maior do que qualquer coisa física. Havia muito carinho, acima de tudo.
– Tudo que estamos vivendo nesses últimos meses… é… eu não sei… – Harry fez uma pausa enquanto parecia escolher quais palavras utilizar para definir todos os momentos que tivemos juntos, e também separados, mas sempre em contato, desde que nos conhecemos.
Ele sempre agia assim quando queria contar algo sério sobre como estava se sentindo. Foi do mesmo jeito quando nos beijamos pela primeira vez.
– Harry Styles, você está me pedindo em namoro? – Eu sempre perguntava isso brincando diante de qualquer mínima demonstração de afeto que partisse dele.
– Não. – Me surpreendi. Era a primeira vez que ele negava aquela pergunta de forma séria. Ele sempre ria quando eu falava.
– Não? – Imitei depois de sua longa pausa dramática.
Aquele foi início da conversa mais sincera que já tivemos.
Toda a dificuldade de chegarmos naquele ponto de conversa que eu tanto evitara, por nunca dizer o que eu realmente queria dizer, foi o que abriu portas para o desenrolar de tantos outros assuntos sobre nós… E por isso, quando percebi, estávamos planejando mais uma viagem, e dessa vez, para minha casa.
Mas não foi aí que a nossa história começou e nem tudo saiu como planejamos.

1. Right now I’m looking at you and I can’t believe

MAIO, 2018
10 meses atrás
Parte 1

Eu estava morando em Los Angeles há pouco mais de um mês. Sempre tive vontade de viajar para tantos lugares que, claro, não saberia para qual deles o destino me levaria. Quem imaginaria que eu me mudaria para a cidade do pecado a trabalho?! Uma ironia. A cidade onde é possível encontrar tantos famosos. Logo eu, que desde que me lembro sou fã de alguém; cantores e, principalmente, bandas, como McFly, Jonas Brothers, Little Mix, One Direction; atores, como Brad Pitt, esses novos caras bonitinhos que vem aparecendo na Netflix… A minha lista é enorme! Claro que a maioria eu só admirava, eram poucos os que me consideraria fã mesmo. Mas eu não poderia estar vivendo um sonho mais louco.
Por estar em treinamento na empresa, não tive muito tempo para me enturmar e ainda não tinha feito nenhuma amizade, conversava com pessoas aleatórias: na padaria, por exemplo, ou nos vários coffee shops que eu havia visitado ao decorrer das semanas. Acho que posso dizer que eu sou viciada em tipos diferentes de café, mas que nenhum ganha do meu precioso chá gelado, e isso me faz ter bastante assunto nesses lugares. Havia uma cafeteria, perto de onde eu estava morando, que poderia ser definida como meu lugar preferido, por enquanto.
Durante as últimas semanas, muitas vezes eu trabalhava duas ou três horas além do meu horário, o que me deixava com tempo apenas para chegar em casa, tomar um banho, comer algo e organizar aos poucos a casa. Todos os dias da última semana eu havia recebido alguma encomenda de coisas que havia comprado, algumas para compor o apartamento e a maioria para a decoração do mesmo. Depois de concluir a faculdade de design de interiores, não tive oportunidade de decorar um imóvel por completo, seria a primeira vez. E era o “meu”, como eu sempre quis.
Eu gostava de ambientes com cores limpas e tons acinzentados. Para o meu quarto, escolhi a decoração toda em branco e tons de marrom acinzentado, o famoso “taupe”, paredes brancas com móveis mesclando o taupe e o próprio cinza, com prateleiras de vidro e alguns quadros decorativos, a maioria com alguns trechos de músicas que eu gostava, uma pequena coleção de livros e de dvd’s das minhas séries preferidas. Os itens eram discretos, pois a intenção não era que parecesse um quarto de uma adolescente, mas esses detalhes pessoais fizeram com que eu me sentisse em casa. Tudo que fizesse com que eu me acostumasse mais fácil, porque agora aquele seria o meu lar.
Após receber o restante das minhas coisas nos últimos dias, eu acredito que fiquei mais ocupada do que normalmente estive até então para organizar tudo. Eu não trabalho aos fins de semana, mas acontece que, naquele em específico, eu teria folga também na sexta feira que o antecederia, devido a quantidade de horas extras que havia feito desde que me mudei, por isso, na quinta-feira à noite terminei de arrumar tudo, já que não teria que trabalhar no dia seguinte, e decidi que usaria a folga para passear, pois já era hora de conhecer alguns lugares, e começaria por visitar o famoso Santa Mônica Pier e os seus arredores.
Eu me considero meio paranoica em relação a muitas coisas. Como dizem por aí: Todo mundo tem defeitos, mas é importante termos consciência sobre tais. Por isso digo que, uma das minhas maiores paranoias é ir em lugares desconhecidos e, por causa disso, fiz uma – pequena – pesquisa sobre como chegar até o píer, onde eu poderia parar o carro que alugaria, a quantidade de lugares que conseguiria fazer visitar com qualidade e quanto gastaria para esse passeio. Seriam por volta de apenas vinte milhas de distância; caminho, horário, tudo milimetricamente calculado por mim e minha paranoia.
Com tudo pronto, resolvi ligar para a minha mãe. Ainda estava naquela fase de adaptação em que ligava todos os dias pra não ficar com tantas saudades.
Alô. – Minha mãe atendeu do outro lado da linha.
– Oi, mãezinha. – Meus pais eram pessoas humildes de pouco estudo, não falavam inglês.
Tudo bem? – Ela perguntou, como sempre fazia.
– Sim, acabei de arrumar o apartamento todo hoje. Amanhã estou de folga, vou naquela praia que te falei muito tempo atrás, você lembra? E por aí, tudo bem? Cadê meu pai?
Tudo bem. Qual praia? Ele está aqui do meu lado, vou colocar a ligação no viva-voz. – Ela respondeu e eu esperei alguns segundos. – Pronto.
– Comentei com você há alguns anos, que tinha uma praia aqui, com um píer muito famoso. – Expliquei. – Pai, tudo bem?
Eu ‘tô bem, minha filha. Tudo bem aí? – Meu pai respondeu. Pais e suas manias de perguntar dez vezes se os filhos estão bem. Eu sabia que havia uma preocupação além do normal, acho que devido aquele ser um dia particularmente difícil para nós, mas sabia que não tocaríamos no assunto.
– Eu ‘tô, pai. Saudade de vocês. Mas aqui está tudo ótimo. – Eu disse suspirando. Apesar de tudo, eu estava muito feliz. Essa distância era um preço justo perto de tudo que eu estava construindo para a minha vida e, consequentemente, para a minha direta felicidade.
Ah, que bom que você está bem. – Minha mãe respondeu. – Depois me manda foto da casa.
Você ‘tá de folga amanhã? – Meu pai perguntou, mais como uma confirmação.
– ‘Tô sim. – Respondi de novo. – Horas na casa, sabe como é… – E continuamos conversando.
Todos os dias desde que me mudei eram assim. Eu falava com minha mãe um assunto e voltava a repeti-lo com meu pai, íamos e voltávamos em assuntos. Não tínhamos vastas novidades e falar sobre o cotidiano era reconfortante. Depois de bons minutos ao telefone, desligamos a chamada, pois devido ao fuso horário, eles já estavam prontos para dormir. Não demorei muito depois disso para ir dormir também, afinal, eu tinha boas expectativas para a sexta feira que estava para chegar.

*

Acordei cedo no dia seguinte, com todo o meu passeio programado com horários, não podia correr o risco de me atrasar. Ao já estar na estrada há alguns minutos, com o som ligado em uma rádio aleatória, abri a janela do carro e tentei relaxar apreciando a vista da rodovia, estava me sentindo um pouco ansiosa por estar dirigindo sozinha pela primeira vez naquela cidade onde não conhecia nada, por isso comecei a prestar atenção nos tipos de árvores em frentes as casas e também a observar as placas, nisso passei os olhos em uma em particular e acabei lendo em voz alta:
– West Hollywood. – Arregalei os olhos. – WEST HOLLYWOOD? – Disse novamente, dessa vez gritando. – Como eu cheguei aqui? Eu programei o GPS para passar pelo centro de Los Angeles. – Completei clicando no botão do meu celular. – E por que ESTA MERDA está com a tela apagada? – Continuei falando sozinha, um pouco exaltada após perceber que havia alguns minutos que a voz vinda do celular não indicava nenhum caminho e a tela do celular não acendia.
Respirei fundo, sentindo meu coração batendo na boca, olhei ao redor, percebendo que não estava mais na rodovia, entrei na primeira rua paralela que vi, para conseguir parar o carro e ver o que tinha acontecido com meu celular. Foi tudo muito rápido. Fiz a conversão à esquerda e adentrei no bairro, não sabia se estava entrando em West Hollywood ou se a placa estava apenas indicando que ali era um caminho para lá. Dobrei mais algumas ruas, parando. Me senti mais perdida do que já estava.
Peguei meu celular e vi que ainda estava conectado ao carregador veicular. Descarregado não estava, eu constatei. Pressionei o botão de ligar e nada apareceu na tela. Comecei a ficar desesperada de verdade. E se meu telefone estivesse estragado? Como eu ia para o píer? Pior, como eu voltaria para casa? Comecei a olhar ao redor reconhecendo alguns pontos e lojas das minhas várias pesquisas. Por fim, sabia que estava à algumas quadras da Sunset Trip e, consequentemente, de uma das rodovias que me levaria até o píer, porém não fazia a menor ideia para qual lado deveria ir ou como chegar até lá.
Um pouco mais calma com essa pequena localização, comecei a pensar que, como estava incomunicável e atrasada para o primeiro ponto de parada do meu passeio, não faria diferença em conhecer o café localizado na rua em frente onde eu me encontrava perdida e, certamente, aproveitaria para pedir informações. Deixei o carro na rua onde estava mesmo, próximo à esquina e atravessei a avenida rumando para a cafeteria, que parecia ser em uma região bastante “movimentada”, visto pelo tamanho da Marc Jacob que havia ao lado.
A cafeteria estava localizada no cruzamento, bem no meio do que formaria um “T” entre a rua que eu estava perdida, na vertical, e a avenida, na horizontal. Enquanto andava, pensava comigo mesma que ainda bem que havia desistido de parar o carro no estacionamento do café, pois não havia um, e eu provavelmente teria que fazer um retorno para chegar até a porta e, do jeito que estava perdida, eu sabia que poderia me perder mais, se tivesse tentado fazer aquilo.
Assim que pisei na calçada, ainda meio absorta em vários pensamentos incoerentes, percebi que eu estava nos fundos da cafeteria, pois não consegui visualizar nenhuma porta de entrada, e então vinha uma pessoa pela esquina da avenida com dois copos do café, já ia aproveitar para pedir informações.
– Oi, licença?! – Após ter caminhado alguns passos em direção à pessoa, para estar perto o suficiente para ser ouvida e visualizar melhor com quem estava falando, engoli em seco. Naquele momento eu já conseguia distinguir como um homem. Minha voz saiu um pouco trêmula.
– Olá! – O homem disse em um tom meio falso de animação enquanto sorria e me olhava com os olhos semicerrados. Acho que ouvir minha voz direcionada a ele foi meio súbito, já que ele me encarou enquanto eu caminhava em sua direção, mas virou o rosto ao pisar no meio fio e concentrou o olhar para atravessar a rua antes que eu pudesse chegar até ele.
– Desculpa te incomodar, mas eu estou perdida. Vi a cafeteria e parei para pedir informações, como vi você com esses copos, que supus serem daqui… – As mãos dele tampavam a logomarca dos copos transparentes – Pensei que conhecesse a região e pudesse me ajudar indicando como faço para chegar até o píer de Santa Monica. – Eu e minha fiel mania de falar demais e desnecessariamente. Poderia só ter dito o final da frase. Estava nervosa.
– Ah! Claro. Mas você está um pouco longe para ir andando. – O homem disse sorrindo mais simpático e, aparentemente, menos tenso.
– Eu estou de carro, está naquela rua. – Eu disse apontando para a rua em frente.
– Certo, então você vai precisar fazer o retorno… – Ele começou a me explicar e eu fixei meu olhar no dele, tentando controlar minha respiração sem ser percebida e absorver as direções que ele estava me passando. – … assim você vai chegar de frente para o estacionamento do píer.
Ele deu uma risadinha bem discreta, tenho certeza que não havia conseguido disfarçar minha cara de confusão.
– Desculpa, você pode me explicar de novo? Eu moro aqui há poucas semanas, ainda estou meio perdida, geograficamente falando. – E ele voltou a me explicar do começo, dessa vez mais devagar, com uma paciência e educação que me impressionaram. – Entendeu?
– Acho que sim, tenho um pouco de dificuldade de memorizar caminhos dessa forma, por isso sempre uso o GPS, mas meu celular morreu. – Eu disse com um olhar derrotado.
– Posso te emprestar um carregador e espero o celular carregar o suficiente para você usá-lo. – Ele disse prestativo.
– Obrigada, mas eu tenho. Não foi a bateria que descarregou, acho que meu celular estragou.
– Se quiser posso explicar de novo. – Me olhou com pena.
Respondi-lhe que não precisava, agradeci e em seguida comecei a andar em direção ao carro, me esquecendo totalmente que ia comprar um café. Notei que ele estava andando ao meu lado indo na mesma direção. Atravessamos a rua sem falar nada. Enquanto pegava a chave do carro, não pude deixar de notar que o dele estava estacionado logo atrás do meu, um carro preto luxuoso que eu não sabia dizer qual modelo, porque nunca tinha visto um igual. Lindo, inclusive. Depois acabei descobrindo que era um “tesla”.
Também não pude deixar de notar que ele tentava achar uma posição para colocar um dos copos em cima do carro, dei uma risadinha enquanto me aproximava e disse:
– Quer que eu segure o copo para você? – Ele me direcionou um olhar confuso e exclamou um “oh” ao entender.
– Sim, por favor. – E me entregou o copo, rapidamente pegando a chave do carro no bolso da bermuda de lycra. Estive tão concentrada em não esquecer como falar, que pela primeira vez notei o que ele estava vestindo. Parecia estar voltando da academia. – Obrigado.
– Por nada. Eu que agradeço pela ajuda. – Eu disse virando de costas e caminhando em direção ao meu carro.
– Ei! – Virei novamente para ele diante do chamado. – Você está indo ao píer sozinha?
– Sim. – Respondi. – Como eu disse, moro aqui há pouco tempo.
– Como você está perdida e tenho certeza que você não entendeu como chegar, posso te deixar lá, se quiser. Eu moro lá perto.
– Não precisa, além do mais, estou de carro. – Eu disse apontando a chave em direção ao veículo.
– É mesmo! – Ele disse dando um tapa leve na testa. – Certo! – Ele disse pensativo. – Então eu dirijo até lá e você me segue com seu carro. – Fiquei olhando para ele alguns segundos, um pouco desconfiada, enquanto ele aguardava em expectativa. Eu estaria no meu carro mesmo, não poderia ficar pior do que já estava. Suspirei de alívio, eu teria ajuda.
– Ok! Muito obrigada. – Soltei o ar pesadamente dos meus pulmões. – Eu estava mesmo achando que ia ficar mais perdida ainda. É muita gentileza da sua parte. – Olhei o relógio e vi que eram quase onze da manhã.
– Você se importa de esperar só um momento enquanto compro um café? – Perguntei apontando para os copos que ele segurava nas mãos.
– Toma. – Ele disse me estendendo um dos dele. Pela primeira vez na conversa eu dei um sorriso que não fosse por estar sem graça.
– Não precisa, eu compro. – Neguei também com a cabeça.
– Eu não vou tomar dois copos mesmo. Você toma chá gelado? Eu ia guardar um para mais tarde, mas eu malho aqui perto, passo nessa cafeteria quase todos os dias. – Ele insistiu, pegou a minha mão e colocou o copo nela.
– Eu amo chá gelado! Obrigada. – Dirigi um olhar brilhante a ele.

*

Desliguei o carro já no estacionamento do píer e desci dando a volta pela parte de trás, parando de frente para aquele que fora a primeira pessoa com quem conversei mais de trinta minutos naquela cidade.
– Chegamos. – Ele disse sorrindo.
– Jura? Eu nem notei. – Dei uma gargalhada. Não consegui evitar a resposta.
– Nossa, que mudança de humor, hein? Toda sarcástica. Espero que saiba ir embora, porque depois dessa vou te deixar aqui. – Ele disse gargalhando junto comigo.
– Você já ia me deixar mesmo. – Eu disse entre mais risos.
– Na verdade, eu ia perguntar se você quer companhia para o passeio. Eu moro aqui há anos e nunca fiz esses passeios que turistas fazem. – Ele disse parando de rir.
– Sério? – Eu arregalei os olhos. – Digo, eu agradeço a sua ajuda, mas não quero atrapalhar. Você está com cara de quem estava indo direto pra casa. – Discretamente olhei para suas roupas. – E eu sei que eu devo ter parecido bem louca te abordando daquele jeito na rua.
– Nah. – Ele negou. – Eu não vou fazer nada mesmo. Eu quero sua companhia, se você quiser a minha.
– Cla-claro! Quero sim. – Respondi mais rápido do que calculei. – Eu até gosto de sair sozinha, mas nesse caso não foi opcional. – Ri meio desengonçada, eu estava me saindo tão bem, tinha que gaguejar logo naquela hora. – Obrigada mais uma vez.
– Sem problemas. Meu nome é Harry, a propósito. – E estendeu a mão direita na minha direção.
. – Levantei a mão trêmula que tanto tentava esconder, e apertei a dele.
Agora era real, ele havia verbalizado quem era. Eu não estava alucinando.

1. I’m exactly where I’m supposed to be now.

Parte 2
Ainda no mesmo dia

Quando avistei aquele homem virando a esquina da rua, eu jamais imaginaria que seria logo ele, entre todas as pessoas aleatórias em Los Angeles que eu poderia esbarrar. Estava longe, e quando cheguei perto o suficiente para reconhecê-lo, eu já não podia mais simplesmente desviar e sair andando, até porque eu já estava indo em sua direção para pedir informações quando percebi quem era. Eu não estava mesmo esperando conhecê-lo antes do show em julho. Eu havia comprado os ingressos para o último show da turnê antes mesmo de me mudar. Mesmo que assistir ao seu show não seja nada comparado a isso.
– Desculpa, Harry. O que você disse? – Com o rosto sustentado pelos cotovelos em cima da mesa, tentava, absorta com a confusão, assimilar que aquilo estava mesmo acontecendo, não percebi que o próprio motivo para eu estar incrédula falava comigo.
– Eu disse: “Então… Você mora aqui tem só um mês?” – Harry repetiu a forma que quebrou o silêncio após beber um pouco do seu refrigerante.
Assim que nos apresentamos, corrigindo: que eu me apresentei, afinal, eu já sabia quem ele era – apesar de não ter explicado isso – Harry perguntou se eu gostaria de almoçar antes de iniciar o passeio, concordei.
Harry estava certo do que comeria assim que nos acomodamos no local escolhido, e eu, como nunca havia ido lá, pedi o mesmo. Nem mesmo sabia o que era.
Enquanto esperávamos os pratos ficarem prontos, tomávamos refrigerante e não havíamos conversado depois de decidirmos sobre onde comeríamos. Eu não havia criado coragem para puxar assunto, definitivamente eu estava com dificuldades para assimilar tudo e tinha medo de falar alguma besteira, algo que denunciasse o ataque de fã interno que eu tentava controlar. E por isso, decidi ficar calada. Até Harry fazer a primeira pergunta.
– Tem pouco mais de um mês, na verdade. – Eu respondi, tentando não parecer que queria cortar o assunto, mas também não sabia o que falar ou como agir para rendê-lo.
Não queria deixar escapar algo que soasse com muita intimidade e revelasse meu surto, e eu também não poderia simplesmente perguntar sobre qualquer coisa, porque não saberia esconder minha expressão de “eu sei tudo sobre você”. Estava me sentindo sem saída, o que era estranho, porque sempre tive facilidade em me comunicar.
– E está gostando daqui? – Harry continuou. Graças aos céus por esse menino ser tão simpático, do jeito que eu estava agindo como idiota, podia presumir que sairia de lá sem falar nada.
– Sim, sempre foi meu sonho me mudar para algum país que fala inglês. Na verdade, minha primeira opção era Londres, porque sempre gostei muito da Europa.
Eu não ia falar que era porque achava que ia esbarrar com a One Direction por lá. Mas que ironia, eu esbarrei com 1/5 da banda e nem precisei ir para Londres para isso.
– Eu sou de Londres! – Ele verbalizou muito mais animado. Segurei um riso tentando não fazer uma cara de “você jura?” – Na verdade, de um lugar chamado Holmes Chapel, no condado de Cheshire… Manchester e tudo mais, sabe? Mas ainda adolescente me mudei para lá, e me considero londrino também. E de onde você é?
A forma pausada com que Harry pronunciava as sentenças e constantemente dizia “ahnnn” e “sabe?” ao fim de quase cada uma delas me transmitia calma.
– É, eu percebi seu sotaque britânico. Eu sou do Brasil. – Eu falava em um ritmo mais apressado, claramente pelo nervosismo. Eu costumava falar muito rápido quando estava nervosa. Já estava acostumada.
– Ah! Brasil! – Harry exclamou surpreso. – Você tem sotaque de Americana. Se passa por uma West Coaster fácil. “Ok! Respira, !”, eu pensei comigo mesma enquanto tentava não rir de nervoso. Foi impossível não cantar esse pedaço de Carolina na minha mente e foi muito difícil não verbalizar alguma frase com referência.
– Eu levarei isso como um elogio, para nós ter sotaque americano é o mesmo que “não ter sotaque”. – Eu ri. – Mas eu sei que não é bem assim, é porque nos falamos pouco ainda, depois você vai perceber meu sotaque brasileiro.
Harry pareceu não notar que eu presumi que conversaríamos muito ou que teríamos outras oportunidades para conversar, ou agiu com naturalidade diante disso.
– Eu nunca reparei no sotaque de ninguém que já conversei do Brasil, mas também, é como você falou, não pude conversar muito com nenhuma das f-a-ahn… você sabe…pessoas, ahn… – Vi que as pausas foram de hesitação em continuar a frase. Acho que Harry não queria ter que explicar que era famoso. Era uma graça ver que ele não era pretensioso ao ponto de achar que todo mundo o conhecia. Uma graça e uma ofensa. Afinal, em que mundo vive uma pessoa que nunca ouviu falar dele?
Mas eu sorri e mudei de assunto. Logo nosso almoço chegou e eu achei que levaria embora nossa conversa, mas Harry, antes mesmo de começar a comer, continuou a me fazer perguntas.

*

– Eu não acredito que você fez isso! – Eu disse enquanto gargalhava tentando não cuspir o que eu estava mastigando.
– É sério! E meus amigos corriam atrás de mim, gritando coisas como: “Harry, idiota, as pessoas vão te ver”.
Harry estava me contando sobre a primeira noite quando se mudou para Londres, “para trabalhar”, nas palavras dele, ele não mencionou nomes, mas pelo tom da história, eu aposto que eram os meninos. Eu não entendi muito bem o porquê, tendo ele apostado com os amigos que ia dar uma volta no quarteirão, pelado.
Apesar do assunto bobo, era muito divertido estar ali em frente a Harry contando uma de suas histórias de adolescência, ele era tão comunicativo, era tão fácil render o assunto com ele, que não havia parado mais de falar, conseguiu omitir os fatos da fama ao contar suas recordações e, mesmo assim, deixou todas as histórias bem coerentes, ainda que mostrasse apenas o lado “normal” de sua vida, um garoto que se mudou para longe dos pais aos 16 anos e nunca mais voltou, porque ganhou o mundo.
Harry engatara uma conversa leve e descontraída comigo. De forma aleatória, íamos de diálogos sobre o passado para o presente e passado de novo, sem complicações.
– E alguém te viu? – Eu perguntei, àquela hora já muito menos tensa do que no começo. Já estava conseguindo conversar normalmente sem a sensação de ter um ovo na garganta.
– Suponho que não, ou existiria alguma foto por aí. – Ele disse rindo, mas arregalou os olhos em seguida, após perceber o que tinha dito. – Ma-mas e você?
Foi fácil perceber, desde o primeiro contato, que Harry não era bom em disfarçar quando falava demais e nem era bom em contornar as situações também. Ele acabava só gaguejando e soltando algumas palavras aleatórias até que a outra pessoa desistisse e mudasse de assunto. Ele não precisou de fazer isso comigo, porque eu logo percebia ter entrado em campo minado e dava um jeito de voltar para trás.
Ele sempre conversa olhando nos olhos, como se quisesse mostrar que toda a sua atenção e concentração estão na pessoa que fala e isso dificultava a tentativa de disfarce. Toda a dissimulação que ele usava para agir nas entrevistas não existia ali. Era como se fossem duas pessoas totalmente diferentes. Era como se uma conversa fora dos holofotes desligasse o seu senso de atuar.
Eu não queria pressioná-lo a nada, esperava que aquilo já estivesse claro, eu não invadiria o limite dele. Se ele não se sentia confortável em falar sobre sua fama diretamente e não era pretensioso de afirmar que eu sabia com quem estava falando, eu respeitaria isso. Talvez ele só quisesse fingir que eu não sabia, já que também não toquei no assunto. Até porque eu mesma não havia dado muitos detalhes sobre mim, havia respondido somente o que ele perguntara. Eu estava um pouco paranoica, ou talvez fosse porque ele também não estava falando muito sobre ele. Era óbvio que eu estava em conflito por um monte de bobagens.
– Como assim “e eu?” – Respondi com um sorriso ladino.
– Como você chegou até aqui?
– Você também não contou como chegou até aqui. – Retruquei, afiada.
– Justo. – Harry pontuou. – Mas te contei como cheguei até Londres. Como cheguei até aqui foi… acontecendo. É uma longa história que posso te contar outra hora. – Harry disse contornando a situação de forma doce e meu coração bateu descompassado com a possibilidade de ter outro momento como aquele com ele. – Perguntei primeiro, hoje é sua vez. – Harry completou rindo implicante. – Como passou de “quero ir para Londres” para “morando em LA”?
– Eu recebi uma promoção. – Respondi indiferente.
– Simples assim? – Fui questionada. Claro que ele não me deixaria dar a resposta mais curta. Eu teria que falar sobre mim, então.
– É! – Dei de ombros. Pensei por alguns segundos e continuei: – Na verdade, não. Passei por muitas coisas para chegar até aqui, mas esse é o clichê que todos dizem, não é mesmo?
– É… – Ele respondeu pensativo.
– Pois é. – Tantas maneiras melhores que eu poderia ter contado a mesma coisa… Que vergonha
Uma pausa. Ficamos mudos por alguns segundos apenas encarando um ao outro. Enquanto eu pensava, já naquele momento, em como ele era lindo demais, mesmo de moletom, bermuda de lycra e com os cabelos bagunçados e até meio grudados na cabeça. Harry fixou seu olhar em algum ponto atrás de mim, quando ameacei me virar para olhar, ele chamou minha atenção.
– Mas com o que você trabalha? – Insistiu no assunto. Demorei alguns segundos para responder.
– Você quer mesmo saber sobre isso? Pode ser uma história beeeem chata. – Enfatizei. – Costumo me empolgar quando falo sobre isso, não quero te deixar entediado.
– Você parece ser bem inteligente, , pela forma como conversa. Inteligência nunca é desinteressante. – Harry respondeu, não percebendo a “saia curta” que estava se metendo.
– Eu sou formada em administração e trabalho em uma empresa multinacional. Eu já havia mudado da filial da minha cidade para a matriz brasileira da empresa, em São Paulo. Logo que comecei o mestrado em Logística, abriram uma vaga na filial de LA para supervisão de setor nessa mesma área. Meu antigo supervisor me indicou… E foi assim que cheguei aqui. – Ri. – Não é nenhum curso ou até mesmo uma área glamourosa, na verdade, é um pouco diferente. Não é o que eu “sonhei ser quando crescesse”, mas eu amo, de verdade. – Completei, falando mais séria.
Harry assentiu, atento. Em um sinal claro de que estava prestando atenção. Então continuei.
– E amo fazer várias outras coisas também, e não me sinto presa à ideia de ter que trabalhar para sempre naquilo que me formei, por isso não me importo de ter feito outra faculdade, apesar de nunca ter exercido a profissão. Fiz Design de Interiores porque acho incrível essa ideia de decorar lugar. E eu acho que conhecimento nunca é demais.
– Uau! – Foi o que Harry disse. Ri sem graça. – Você é bem inteligente mesmo. Tipo, supernerd. – Gargalhei da piada ridícula. Não acredito que ele tinha dito isso – Você tem duas faculdades? E está fazendo mestrado? Quantos anos você tem? – Harry perguntou em tom atrevido.
– Eu não sou tão nerd assim. Eu nem mesmo gosto de estudar. Mas eu gosto de aprender, entende? – Disse ignorando sua provocação.
– Acho que sim. – Harry expressou uma feição analítica.
– Eu também amo outras áreas, eu amo literatura, música, arte no geral. Apesar de ser péssima nisso tudo.
– Graças a Deus! Ia ser muito chato se você fosse perfeita, não é? Tira o pé pra fora do sapato, se for bonito, aí é demais. – De onde ele fez essa constatação? Louco.
– Eiiii! – Eu respondi ultrajada, mas descalcei um dos sapatos e levantei a perna em direção ao lado de fora da mesa, enquanto ele se inclinava para o mesmo lado para olhar.
– É, você tem o pé bonito. Desisto. – Gargalhamos. Que mentiroso.
Silêncio novamente. Harry se concentrou em olhar a comida e para o ponto fixo que olhara antes, visivelmente desconfortável, talvez receoso? Não soube dizer na hora. Mas hoje em dia, digo que era receio, definitivamente. Dessa vez não ousaria virar e ter minha cara estampada em algum lugar. Eu havia entendido o recado.
– Eu tenho 24. – Foi a minha vez de quebrar o silêncio.
– O que, darling? – Harry piscou algumas vezes enquanto tirava o foco do ponto atrás de mim e me olhava confuso.
Respirei fundo, em um surto interno pela maneira que fui chamada.
– Anos.
– Okay! Agora você realmente me deixou surpreso. Como você estudou tanto em tão pouco tempo?
Expliquei como eram as faculdades no Brasil e como havia feito um período de cada faculdade simultaneamente em um dos semestres, graças ao EAD.
– Uau! – Harry exclamou pausadamente. – Que chato. Você fez algo além de estudar nesse tempo todo?
– Há-há. – Fingi rir. – Muito engraçado. Eu sempre gostei de sair. A frequência diminuiu, claro, mas eu consegui conciliar bem. – Aquela era a minha verdade, meus amigos provavelmente discordariam.
– Interessante. – Harry colocou uma mão no queixo, como quem analisa algo.
– É, até que eu sou legal. – Disse mostrando língua.
– Voltando um pouco na conversa, em um ponto que não demos a atenção que eu queria – Harry foi dizendo enquanto eu assentia. – Então você entende de carros?
– Mais de caminhões, na verdade. – Eu ri – Também de carros, mas trabalho administrando coisas relacionadas a caminhões. Se é esse o seu ponto.
– Hum. É bem diferente mesmo. Nunca tinha ouvido falar de nenhuma mulher como chefe em um setor assim. – Harry respondeu interessado, colocando a mão no queixo novamente antes de puxar os lábios, em um gesto totalmente característico dele.
– Bom, no Brasil tem bastante mulheres. Mas em LA eu sou a primeira na história da filial. – Ri um pouco sem graça por contar isso. – Não sei se em outras empresas em Los Angeles é comum.
Outra pausa silenciosa. Havia terminado de comer e ele estava acabando. Por um breve momento em um devaneio completamente aleatório, esqueci de tudo o que estava acontecendo e comecei a me questionar como eu poderia falar tanto e comer ao mesmo tempo, visto que Harry havia falado muito no começo, mas no final fui só eu. Enquanto eu falava, ele me observava em vez de comer. É… na verdade, eu não me esqueci de tudo o que estava acontecendo nem por um breve momento, terminei constatando que meus pensamentos apenas tentaram enganar meu coração. Que loucura! Olha as coisas que eu tô pensando, para que tô gastando meu pensamento com isso, sendo que Harry Styles tá bem aqui na minha frente?
– Vou ao banheiro. – Anunciei após poucos minutos em silêncio. Harry balançou a cabeça em concordância. Havia bem pouca comida em seu prato, esperava que ao voltar do banheiro ele já tivesse terminado. Me lembro de ter visto umas sobremesas muito interessantes no cardápio.
Não demorou mais que cinco minutos, digo, usar o banheiro e olhar minha aparência no espelho. Que era enorme, por sinal, o banheiro e o restaurante em si. Caminhei de volta para nossa mesa e não encontrei Harry nela. Olhei para os lados, me perguntando se havia esquecido onde estávamos sentados, fiquei alguns segundos rodando em meu próprio eixo, enquanto olhava devagar para as mesas próximas, meu segundo pensamento foi que talvez ele também tivesse ido ao banheiro.
Fiquei, talvez, dois minutos naquela mesma posição. O que pareceram vários minutos a mais. Estava começando a entrar em pânico, seria possível que ele tivesse ido embora? Sem se despedir? Por que ele faria isso? Será que eu tinha falado algo de errado? Será que tinha acontecido algo? Peguei minha bolsa que estava no encosto da cadeira, me fazendo perceber que eu só poderia ser muito tapada, já que meu primeiro pensamento foi de, talvez, ter esquecido onde estávamos sentados, sendo que minha bolsa ficou o tempo todo no encosto.
Assim que comecei a caminhar em direção ao balcão para perguntar sobre o garçom que nos atendeu, Harry saiu através de uma porta de acesso somente de funcionários com o garçom que havia nos atendido, o que me fez notar que ele estava vestido diferente dos demais, possivelmente seria o gerente. Eles estavam conversando e rindo alegremente. Eles pararam a alguns metros de mim e Harry disse:
– Obrigado, Frank. – E pegou na mão do gerente.
– Volte sempre, Senhor Styles. – O outro respondeu.
Harry caminhou em minha direção.
– Vamos? – Olhei confusa para ele.
– Como assim “vamos?” – Agora foi a vez de Harry me olhar confuso.
– Fazer o nosso passeio?! – Ele disse soando óbvio.
– Mas eu não havia terminado, Harry. – Eu disse, ofendida.
– Como não, ? Você terminou primeiro do que eu.
– Mas eu ia pedir sobremesa. – Fiz cara de triste.
– Nossa, . Me desculpe. – Harry tinha os olhos culpados. – Eu posso pedir agora.
– Não, não precisa. – Sorri. – Deixa pra lá. Onde eu pago? Já que você nos expulsou da mesa. – Eu disse fazendo uma piadinha para não demonstrar mágoa.
– Eu já paguei. – Harry disse com naturalidade.
– O QUÊ? – Minha voz saiu muito mais aguda do que previ. Na verdade, foi uma reação automática, eu não previ nada.
– O quê? – Harry repetiu o que eu disse e me olhou confuso novamente.
– Como assim “eu já paguei”, Harry?
– Você já reparou que você pergunta muitos “como assim?”, você parece ter dificuldades de entender as coisas. – Harry riu, tentando parecer brincalhão.
– Estou falando sério, Harry. Eu não vou ao banheiro e você simplesmente some por dez minutos e volta com a conta paga, sem nem me deixar pedir sobremesa! – Eu falei num tom firme, mas baixo para não chamar atenção, com as mãos na cintura e um olhar fuzilante.
– Oh! Então isso tudo é porque você não me avisou que queria sobremesa? – Harry riu de novo, achando muita graça de toda a situação.
Revirei os olhos.
Paro pra pensar agora e imagino que cena icônica foi para Harry Styles ter uma mulher que ele nem conhecia o encarando, achando que intimidadora, praticamente soltando fumaça pelas narinas de tanta raiva, somente porque ele tinha pago a conta. As vergonhas que passamos… Eu gostaria de poder omitir essa parte da história, mas contá-la sem esse detalhe, não seria a mesma coisa. Eu preciso explicar tudo.
– É muito educado da sua parte, mas não tinha necessidade de eu te avisar que eu queria sobremesa, eu mesma ia pedir diretamente para o garçom quando voltasse do banheiro. Sobre fechar a conta sem a minha presença foi, sim, muito rude da sua parte. Mas agora pagar eu não admito. Cadê a conta? Como eu vou saber quanto gastei pra te pagar? – Respondi, rápida como uma bala.
– Não precisa me pagar, . – Foi a vez de Harry soar ofendido.
– Harry… – Eu suspirei fundo antes de continuar e coloquei as duas mãos em seus ombros, me dando apoio para me inclinar levemente em sua direção. – Eu não quero ser grossa com você, tudo bem? Eu agradeço a gentileza de me acompanhar, mas não faz sentido e não há motivos para você pagar a minha parte. Entende? – Tentei soar mais amigável.
– Me desculpe pela sobremesa, de verdade. Mas não entendo porque não posso pagar. – Bati a mão direita na testa, enquanto a outra continuava segurando seu ombro esquerdo. Percebi que estava tocando-o pela segunda vez. Senti meu corpo estremecer com essa constatação feita pelo meu cérebro. É, eu acho que meu cérebro faz muitas constatações atrasadas, principalmente após minhas ações.
– A gente nem se conhece. É comum por aqui pagar conta de desconhecidos? Não é como se você um amigo que me chamou para almoçar. – Por dentro derretendo, já por fora… direta como uma flecha.
Eu disse… Eu queria omitir essa parte. Fingir que nunca aconteceu.
Ouch! – Harry exclamou.
Argh, me desculpe. – Bufei um tanto quanto exasperada. – Não quero ser grossa. – Eu não queria mesmo, mas não estava conseguindo me expressar de maneira diferente, tudo que eu falava, soava muito grosseiro assim que saia pela minha boca. – E-eu não conheço muito a cultura daqui, aliás, eu nem sei se é comum isso aqui, já que você é britânico e pode estar agindo da forma que está acostumado. Mas eu não me sinto confortável com essa situação. É isso! – Percebi no mesmo instante. – Deveria ter falado dessa forma desde o começo, ao invés de ter me alterado primeiro e refletido depois. Me desculpe pela grosseria, você não merece. Sei que suas intenções foram boas. Mas eu quero pagar.
– Tudo bem. Me desculpe. Mas agora já não tem mais jeito.
Argh! – Foi minha vez de exclamar. Notei uma menina erguendo o celular em nossa direção. Sai bufando pela porta. Tinha que sair rápido antes que alguém fotografasse meu rosto, mas não podia deixar Harry achar que não estava mais brava, era divertido ver sua carinha de “boas intenções”.
Eu realmente fiquei muito chateada com o fato de ele ter fechado a conta sem saber se eu queria algo mais, por esse lado foi muita falta de educação. Ele ter pago a conta só me deixou mais nervosa. Talvez tenha sido uma reação exagerada, eu esperava ter conseguido perceber a tempo. Depois de ter dito a mesma coisa de mil maneiras (grosseiras) diferentes.
! – Harry chamou, já quando estávamos no estacionamento, eu estava andando devagar para não chamar atenção e acho que ele também, pois estava apenas a dois passos de mim, poderia ter facilmente me alcançado. Ainda bem que ele foi esperto, como eu, já que poderia ter alguém filmando. Por isso ele esperou chegar perto para me chamar em tom de voz normal.
Parei, me virei lentamente com os calcanhares, encarando-o.
– Como assim “”? – Questionei. Depois da primeira vez que ele me disse isso, nunca mais deixei de perceber que eu falava mesmo muitos “como assim”. – Eu nem te falei meu apelido e você já me chamou de dois jeitos diferentes. – Fiz uma pausa para rir. – Você é muito abusado: Fecha minha conta, não me deixa pedir sobremesa, some por trinta minutos e me deixa igual uma barata tonta andando no restaurante achando que você tinha ido embora e me largado lá. – Falei enumerando com meus dedos enquanto continuava rindo. Harry percebeu que eu não estava brava.
– Trinta minutos? Você é muito exagerada! – Harry riu também. – Não foram nem cinco minutos.
– Claro! – Estreitei os olhos, decidindo não render aquela conversa.
– E se seu apelido não for esse, é assim que vou te chamar. Achei que combina com seu nome. – Harry deu de ombros.
– As pessoas me chamam de . Mas tudo bem, pode me chamar do jeito que quiser, eu não ligo. – Pisquei sorrindo marota, virei para frente e continuei andando.

*

– O passeio foi muito agradável, Harry! Você é muito legal, apesar do excesso de piadas sem graça. – Revirei os olhos e disse ao parar entre aos nossos carros. Obrigada por tudo, pela ajuda, pela companhia… Menos por ter me privado da sobremesa.
– Ah, qual é! Vai jogar isso na minha cara para sempre?
– Se for possível… – Deixei a frase no ar ao mesmo instante que o lançava uma piscadela.
– Mas eu já me retratei te deixando pagar aqueles sorvetes enormes que tomamos. – Harry pontuou.
– Nah nah. – Neguei balançando um dedo na frente de seu rosto. – Você não me deixou pagar, eu consegui pagar depois de muito insistir. É diferente. – Finalizei, enfática.
– É porque eu não vejo necessidade pra isso, . Por mim você não pagaria mesmo, mas tive que concordar, porque você tinha um olhar de quem me mataria, se pudesse. Você nem ao menos me deixou tirar a carteira do bolso. – Harry respondeu enquanto puxava os lábios com os dedos.
– Pois espero que agora entenda como as coisas funcionam comigo. – Fiz o “joinha” que ele tanto gostava e ri meio maléfica.
– Com você, tudo é uma brecha para fazer uma piada irônica ou ser sarcástica, não é? Eu percebi que você parece ser muito séria, mas tem um humor bem… excêntrico as vezes. – Harry disse, me analisando.
– Obrigada! – Sorri com os lábios fechados ao entortar a cabeça para um lado.
– Tá vendo? Olha o que eu acabei de dizer. – Ele sorriu.
– Desculpa. – Ri voltando a cabeça ao normal – É involuntário. Eu costumo ter facilidade para me relacionar com as pessoas, e além disso, a sua presença me deixou confortável. – Respondi simplesmente.
Harry ficou calado, como se não soubesse o que responder.
– Mas enfim, obrigada mais uma vez. – Sorri verdadeiramente, coçando falsamente a cabeça, como um tique nervoso.
– Eu também agradeço pela sua companhia. – Harry decidiu encerrar assim.
Fiz a única coisa que achava que me restava, me aproximei para uma despedida e quebrando o espaço que havia entre nós, fiz, também, a única coisa que eu queria desde que o vi. O abracei.
Um turbilhão de sentimentos me atingiu ao perceber que eu estava fazendo algo que sempre sonhei. Claro que eu sabia que aquele abraço não havia significado para ele a metade do que significou para mim. Mas nenhum sentimento precisa ser recíproco para que o possamos sentir. É por isso que me lembro que o corpo rígido de Harry, demonstrando que foi pego de surpresa, ainda demorou alguns segundos para me abraçar de volta, assim, de início meio frio.
Mesmo sido pego de surpresa, Harry me abraçou de volta, e foi me apertando aos poucos, apesar da demora em retribuir, ele não desfez o abraço antes que eu tomasse a atitude. Me desvencilhei dos seus braços meio sem graça, em seguida acenando um breve “tchau” e virando as costas em direção a porta do carro.
– Ei, ! – Me virei instintivamente em sua direção. E ri.
– O que foi? – Ele perguntou, se referindo a minha risada.
– Você não percebeu? – Disse, me referindo à sensação de déjà vu.
Era a segunda vez que Harry me chamava da mesma forma, exatamente na mesma situação, eu indo em direção ao carro para ir embora e ele me impedindo para dizer algo antes. Mas Harry pareceu não perceber a coincidência, visto a grande interrogação que era possível notar em sua expressão.
– Toda vez que me viro para ir embora, você me grita. Só que dessa vez você sabe meu nome e não disse só “ei”. – Eu disse novamente rindo. Sua expressão se transformando em entendimento pôde ser vista.
– Só queria dizer que desejo que tenha um bom dia! – Ele sorriu já segurando a maçaneta do carro.
– Obrigada! Desejo o mesmo para você.

 

2. Welcome to the final show

JULHO, 2018
8 meses atrás

– Obrigada pelas fotos, Harry. – Eu agradeci depois de passar por pelo menos quinze imagens minhas no seu celular.
– Você gostou de todas essas? – Perguntou atencioso.
– Sim! Você tira fotos muito bem. – Ele sorriu.
– Me passa seu e-mail que eu vou te enviar todas.
No meio do nosso passeio, depois de alguns comentários sobre como eu tinha visto tantas vezes certos lugares específicos através de fotos de outras pessoas e a minha descrença de que eu estava finalmente ali, Harry oferecera para tirar algumas fotos minhas. Me prometeu enviá-las pelo e-mail, me pareceu um gesto muito educado, uma vez que eu estava sem o meu aparelho.

Naquele dia seria o show, e era impossível não me lembrar de cada detalhe, da maneira bem improvável que nos conhecemos e passamos aquela tarde juntos. Apesar de todas as vezes em que me repreendi por algo que achava que não deveria ter feito, se eu pudesse repetir o momento cem vezes, tenho certeza que nada sairia exatamente igual, mas eu seria a mesma em todas.
No mesmo dia, eu recebi as fotos de um endereço que ninguém desconfiaria que pertencia ao real Harry Styles, provavelmente era o seu e-mail pessoal.
From: [email protected]
To: Me
Olá, !
Espero que goste das fotos. Love, H.

Esse era o conteúdo do e-mail. Breve e impessoal. É claro que você cria toda uma fanfiction na própria cabeça depois de passar um dia com Harry Styles. Mas eu não estaria sendo sincera se eu dissesse que ele foi algo além de educado. É isso. Ele foi educado, ao extremo. Sem espaços para imaginações. O máximo que me permiti pensar, foi ter achado que nos demos super bem. Pelo menos foi o que eu achei e, por isso, eu também achei que depois de responder o e-mail ele fosse me mandar outro em seguida. Mas isso não aconteceu.
E tudo bem.
Sério.
Eu não tinha ambição daquilo dar em algo, e quando digo em “algo”, o máximo que penso é: meia dúzia de palavras trocadas e nunca mais conversaríamos. Mas isso em respeito ao fato de termos nos dado bem (na minha cabeça).
E pensando bem agora, acho que não tínhamos lá o que conversar. Eu era uma estranha que ele sequer tinha se interessado. Sem espaço para imaginações!
E tudo bem.
Eu era grata pelo que aconteceu e tenho consciência que soube apreciar o momento, certa de que este passaria. Assim como também aproveitaria o show mais tarde naquele dia.

*

Na época do último show da Live On Tour, eu já estava morando em LA há pouco mais de três meses. Conversava com colegas no trabalho, mas nada em que eu pudesse confiar em alguém o bastante para revelar meu segredo. O ingresso comprado para o show, antes mesmo de me mudar, já estava em minha posse há algumas semanas. E eu sairia sozinha, novamente. Quando eu soube que me mudaria e seria dois meses antes dos shows no Brasil, eu sabia que tinha que ir no show em LA.
A expectativa era grande, apesar de já tê-lo visto, não perdi nem um pouco da ansiedade de assistir ao seu show. Havia comprado uma moto, para me ajudar na locomoção até estar estável o suficiente para comprar um carro. Não sabia se aquela ansiedade toda era pelo show, ou pelo medo de me perder novamente, eu ainda não havia saído para muitos lugares diferentes, além dos quais eu me acostumei a ir todos os dias ou dos que eu fui acompanhada primeiro. Um pouco dos dois, mas eu não ia me perder de novo. Dessa vez não teria nenhum Harry para me ajudar. Eu ri sozinha. Seria pedir demais esbarrar com o Harry de novo?
E foi pensando nisso que cheguei à arena “The Forum”. Inglewood é um pouco longe de onde eu estava morando, quase uma hora de distância. Mas nada que eu não pudesse fazer por Harry Styles. Cheguei cedo, pois eu não tinha passes VIP e queria assistir ao show de perto – se possível, da grade. – Era o que eu almejava, e apesar de ter planejado tudo, estava um pouco cheio e mesmo correndo muito quando os portões se abriram, eu fiquei quase na metade da pista premium.
Okay! Confesso que fui um pouco exagerada no drama, na verdade, talvez, eu tenha ficado na quinta ou sexta fileira depois da grade do palco e, mesmo que tenha considerado relativamente longe, eu estava na ponta da minha fileira, ou seja, na grade que Styles passaria para o Stage B, o palco improvisado aos fundos da arena.
Ainda demorou, o que pareceram eras, para o show começar. Tivemos o show de abertura, que não acho relevante relatar, mas é legal dizer que fiz bastante “amizades” na pista. Havia uma menina a minha frente, talvez de uns 17 anos, que estava com um buquê de flores enorme que esperava conseguir entregar a Harry. Ela era meio histérica, achei engraçado.
Quando o vídeo começou a passar no telão, todo o local foi à loucura, sendo muito difícil não acompanhar os gritos. Mas foi quando a estrutura do telão se levantou aos primeiros acordes de Only Angel e eu já conseguia ver Harry posicionado em frente ao microfone, é que percebi que tudo aquilo era real, que eu estava mesmo no último show da Live On Tour.
Puta que pariu!” Foi tudo o que consegui balbuciar, sem ter palavras em inglês que descrevessem o que eu sentia no momento. Toda aquela energia, a excitação, euforia, me atingiram em um baque. Eu já havia visto muitos vídeos das performances de Harry durante essa turnê. Mas nada se comparava a vê-lo ao vivo, logo nos primeiros momentos já acenando, para todos os lados, sorridente, agradecendo mais vezes do que seria possível contar.
Eu queria gravar os meus próprios vídeos das músicas, para guardar de lembrança e, um dia, quando eu duvidasse que aquilo havia acontecido de verdade, eu pudesse assistir e lembrar que EU fiz as gravações, que EU estava naquele exato espaço, o vendo daquele ângulo. E que aquelas eram as MINHAS lembranças e de mais ninguém. E em meio a um turbilhão de pensamentos misturados, ficava me perguntando se Harry não falaria algo no início do show, como outros artistas fazem, mas me distrai quando Woman começou a tocar e a única coisa que se passava pela minha cabeça era: Se Harry Styles não foi quem criou o conceito de big dick energy, ninguém mais criou.
Foi, então, nos últimos acordes da segunda música, que Harry se pronunciou pela primeira vez.
– E aí, Califórnia! Como vocês estão se sentindo essa noite? – E se afastou do microfone para pegar o primeiro dos três violões a serem usados.
Eu não pensei que pudesse estar com saudades de sua voz, falada, até ouvi-la novamente. Mais ainda quando Harry se aproximou novamente para continuar em seu pseudo monólogo.
– Boa noite, Los Angeles! Bem-vindos ao último show. Meu nome é Harry, é legal conhecer vocês e é um prazer estar aqui tocando para vocês hoje. Obrigado por virem, por escolherem passar essa noite assistindo ao show. Esse é o último show da turnê… É especial… Temos um trabalho aqui hoje, que é entreter vocês e eu prometo que vamos nos divertir hoje. E vocês tem um trabalho hoje e é ter o momento da vida de vocês. Se você quer cantar ou dançar, por favor, sinta-se à vontade para fazer o que quiser fazer. Essa é Ever Since New York. – Harry finalizou o discurso de abertura do show anunciando a próxima música e em seguida sussurrando a contagem que sempre fazia para que comecem a tocar de forma sincronizada, o número um sendo quase inaudível. – Two, three, four
Essa música é simplesmente maravilhosa e quando Harry trocou as letras, já no último verso antes do último refrão e cantou “I’ve been praying ever since Los Angeles”, fez com que a calmaria que havia se instalado para ouvir a música, retornasse, e daquela vez mais potente. E quando achei que não fosse possível que gritássemos mais alto, Harry falou no microfone.
– Cantem comigo “Oh, tell me something that I don’t already know”
Insano! É como eu descreveria tudo. Depois ele trocou de violão para cantar Two Ghosts e Carolina. E que momento icônico, digo, nessa última música. A quantidade de beijos que Harry mandava para Mitch era enorme. Ao final dessa última música, Harry voltou a falar com o público.
– Los Angeles, Califórnia, façam barulho! – Harry pediu e foi possível ouvir mais gritos. – Podemos ter um pouco de luz aqui? Olá. Olá. Como estão se sentindo? – Harry perguntou ainda no meio do palco. – Como estão se sentindo desse lado? – Apontou para a sua direita – Como estão se sentindo desse lado? – Apontou para a esquerda. – Como estão se sentindo no fundo? – Harry, que até aquele momento havia usado o braço direito para apontar os lugares, soltou a guitarra que segurava com a esquerda, mas ainda pendurada em seu ombro para apontar mais longe à sua frente. – Como estão se sentindo nesse fundo? – Voltou a segurar a guitarra com a mão direta e apontou para o fundo à suas costas com a mão esquerda. – Okay…. Okay! Espero que estejam se divertindo hoje, espero que dancem comigo. Eu tenho somente dez músicas… Obrigado por virem hoje… – Harry interrompeu seu discurso para agradecer pela milésima incontável vez. – Tocaremos as dez músicas, tocaremos novas músicas e algumas músicas que vocês possivelmente já ouviram antes. Por isso, se souberem a letra de qualquer música, por favor, juntem-se a mim e torne tudo muito mais legal para todos. E se você sabe a letra dessa, junte-se a mim.
Os primeiros acordes de Stockholm Syndrome soaram e eu tive certeza que fui a primeira a gritar, essa música é muito envolvente e, apesar da temática pesada, tem um ar de sensualidade muito enigmático. E é lindo como o Harry consegue incluir a plateia para cantar em todas as músicas e é mais lindo ainda ver seu olhar brilhando em admiração.
Então, quando a música foi finalizada em coro por nós e ele, eu já sabia o que estava por vir.
– A próxima música que vamos tocar, eu escrevi a muitos anos atrás e eu a dei a uma mulher maravilhosa. – Harry começou dizendo. – E para essa música, eu tive um novo violão e o cara que o fez para mim está aqui essa noite. Então, obrigado. Isso é maravilhoso. Muito obrigado, essa é Just a Little Bit Of Your Heart.
Se havia alguma água no meu corpo, aquele era o momento para perdê-la. Em forma de lágrimas. Como eu já disse antes, eu sou uma fã. Ariana Grande está inclusa na minha lista, e eu amo essa música mais ainda por ela ter sido escolhida e escolhido cantá-la.
Logo em seguida, Harry deixou o violão e com apenas um simples aviso: “Essa se chama Medicine”, a icônica música foi tocada e eu posso jurar que a famosa big dick energy voltou a aparecer. A mistura das cores no jogo de luzes dessa música deixou o ambiente ainda mais sensual. O tom rosa meio avermelhado, é algo que nunca conseguirei descrever apropriadamente em palavras.
Então tivemos Meet Me In The Hallway e eu ainda estava com as vistas um pouco embaçadas pelas lágrimas, enquanto o último verso era finalizado e um Harry eufórico descia correndo por escadas posicionadas em frente ao seu microfone – que eu não havia nem mesmo visto sendo colocadas – em direção ao palco B. Eu não estava nem um pouco preparada para aquela súbita passagem de Harry antes do fim propriamente dito da música, e acredito que ninguém próximo a mim estava, pois por estar há uns dois metros de distância do fim da escada, quando aqueles que estavam nas primeiras fileiras conseguiram reagir com a proximidade de Harry, ele já havia passado.
Com Styles já no palco B, posso dizer que tudo ficou mais emocionante, a onda de músicas soft que se seguiram, criou um ambiente mais intimista e, mesmo estando um pouco mais distante desse palco, parecia que eu estava em um pocket show acústico.
Harry cantou Sweet Creature quase toda de olhos fechados e eu desejei saber o que ele estava pensando.
Logo em seguida, ele pegou o que seria o último dos três violões da noite, um todo preto, enquanto a banda, Adam, Claire, Mitch e Sarah, desciam do palco improvisado.
– Essa música em escrevi em 2015 e será maravilhoso se cantarem comigo. – Harry disse anunciando If I Could Fly.
Se a água do meu corpo não tinha acabado ainda, eu tinha certeza que aquele seria o momento. Harry fez praticamente uma “a capela” dessa música, somente ele e nós cantando. Foi até difícil para Harry nos fazer calar quando chegou a nossa parte de cantarmos sozinhos. Ele precisou pedir silêncio com suas sutis exclamações de “shiu” e pedidos que diziam “é a vez de vocês”, enquanto tocava a melodia no violão somente para que a voz da plateia fosse ouvida e em seguida pudesse nos acompanhar.
Com um “obrigado” no final, Harry trocou de violão novamente e pediu para que a banda retornasse ao palco e, com todos em pé, formando um roda, é que Harry pediu silêncio sutilmente mais uma vez antes de começar a dedilhar as primeiras notas de Girl Crush, que encerrou a temporada de músicas melancólicas no palco B.
Nisso a banda desceu para voltar ao palco principal, enquanto Harry começou mais um discurso em que dizia que aquela seria a última vez que ele estaria perto dos fãs por um tempo e, por isso, ele queria agradecer a cada um que estava lá. Em seguida, se preparou para atravessar o longo corredor que sempre divide a pista, dessa vez bem menos eufórico e, consequentemente, me dando tempo para processar que em segundos ele passaria ao meu lado.
Claro que o fato de as coisas estarem invertidas dessa vez e eu estar ao final e não ao início da passagem, foi essencial para que meu raciocínio se acertasse e me forçasse a esticar os braços por cima da grade, para, quem sabe, tocá-lo. Loucura pensar que mesmo tendo conversado, tocado, abraçado, eu ainda era a mesma fã de antes, como outra qualquer. Essa poderia ser classificada como a ação/reação primitiva de qualquer fã. Claro que o que eu não contava era que minha colega-histérica-de-16-anos – ou sei lá que idade ela tinha -, numa tentativa, falha, de encostar no braço de Harry para chamar sua atenção, puxaria o blazer de seu terno com força, fazendo com que ele voltasse cambaleando alguns passos para trás, e enquanto eu que olhava a tudo horrorizada, ele habilmente lançava um olhar de “calma” para o segurança que já queria o tirar de lá.
Mesmo assim Harry parou, pegou o buquê dela e com um olhar gentil tocou seu ombro, mas ao virar-se pela primeira vez para onde ele estava parado, seu olhar cruzou com o meu, e eu rapidamente sorri. E Harry, com uma transformação no olhar, pareceu me reconhecer.
– Tudo bem? Tudo ok? – Harry perguntou rapidamente. – Você está passando mal? – Harry chamou um segurança e disse: – Acho que ela está passando mal. Dê uma olhada, por favor. – E após acenar positivamente com a cabeça, Harry pisou no primeiro degrau da escada, e ainda virado de lado olhando para mim, ele voltou a sussurrar algo para o segurança, dessa vez inaudível. E eu, sem ter tido a chance de responder, fiquei sem entender nada, enquanto via Harry retornar ao palco principal.
Como se absolutamente nada tivesse acontecido, ele pegou o violão todo preto novamente e anunciou a música Anna como sendo uma das novas que ele havia mencionado no início do show. E eu não consegui prestar muita atenção nessa música, ainda um pouco atônita pelo que tinha acontecido. Ele tinha me reconhecido ou não? Que história tinha sido essa de “passando mal”? Consegui me abstrair um pouco quando a música terminou, pois Harry iniciou, o que posso dizer, como sendo meu momento preferido de todos, devido a ser quando ele interagiu verdadeiramente com o público.
– Los Angeles, façam barulho! – Harry pediu gritando. – Como estão se sentindo? Estão se divertindo? Estão tendo um bom momento? – Harry perguntava enquanto andava de um lado para o outro no palco. – Eu estou soando nos olhos. – Harry disse passando os dedos nos olhos para limpar o suor. – Está bem quente, beeeeem quente. – Ele brincou com a voz um pouco afetada. – Como vocês estão, LA? – Ele parou em um determinado momento parecendo ver algo ou alguém num canto longe que eu não conseguia enxergar de onde eu estava. – Você veio do Brasil? – Ele simplesmente perguntou do nada. – Então eu posso te dizer… – Fez uma pausa, parecia pensar. – Boa tarde. – Falou em português e minhas mãos começaram a suar. – Beleza. – Outra palavra em português e eu já não tinha mais dúvidas de que ele se lembrava de mim. – ahnnn, eu não sei mais… ahn… – Harry voltou a falar em inglês enquanto balbuciava mais alguns “ahns” antes de dizer a última palavra em português. – Obrigado… Brigadô? Brigadu? – Disse testando a pronúncia. Logo em seguida, continuou conversando com todos, mas eu não consegui prestar atenção em mais nada.

– Eu aprendi algumas palavras em português da última vez que fui para o Brasil. Mas tem uma que não consigo me lembrar. – Harry me falava, com suas mãos nos bolsos do moletom, e alternando seu olhar entre mim e o chão, enquanto caminhávamos para o píer.
– Qual? – Olhei para ele.
– Aquela que usa para dizer quando faço *assim*. – Harry fez um “joia” com a mão desocupada.
– Você quer saber qual palavra se usa para esse gesto? – Perguntei meio em dúvida.
– Sim. Eu fazia isso lá o tempo todo e todos retribuíam com o mesmo gesto, seguido de uma palavra, e essa palavra que não lembro.
– Ahn… – Murmurei pensando. – Joia? – Perguntei em tom de dúvida. – Quando você usa esse gesto você está “fazendo joia”. – Me expliquei. – Era quando as pessoas perguntavam se você estava bem?
– Não, não era essa palavra. Era diferente… – Ele ponderou. – …E difícil.
Enquanto Harry tentava me explicar, sem saber nem uma letra ou som da palavra, vasculhei em minha mente o que poderia significar “joia”, mas que não era “joia”, sendo difícil e diferente, sendo que todas as palavras brasileiras são diferentes e difíceis para um gringo. E com esse pensamento redundante, percebi.
– Ohhh! Já sei! – Eu disse, agora que parecia bem óbvio. – Por acaso é “beleza”? – Perguntei ao mesmo tempo em que fiz um “joia” com a mão para ver se ele sentia familiaridade.
– ISSO! – Harry disse alto. Quase gritando. – As pessoas faziam isso para mim. – Harry fez o símbolo de “joia”. – E falavam “beleza”. – Completou. – E eu dizia “beleza” também.
– Fofo! – Eu ri me referindo ao seu jeito de explicar.

Voltei a prestar atenção a tempo de ouvi-lo perguntar a alguém se ele poderia ler o que estava escrito em um cartaz. E com um inspiro profundo, Harry leu em voz alta:
– Eu sou gay e eu te amo. – Acho que o cartaz era de uma menina. – Eu também te amo. Obrigado por vir, e, quero dizer, nós todos somos um pouco gays, não é mesmo? Somos todos um pouco gays. – Foi o que Harry respondeu. E diante de muitos gritos, ele riu e completou. – Agora vamos cantar outra música, mas antes quero agradecer…
E como isso Harry agradeceu mais uma vez antes de cantar e dançar aos pulos What Makes You Beautiful. E eu, como se tivesse voltado a adolescência, cantei a música aos berros enquanto pulava no pequeno espaço que me pertencia, sentindo o cheiro das melhores memórias que vivi sendo uma directioner.
Após largar a bandeira LGBTQIA+, Harry soltou: – Okay! Ficando emocionado. Um pouco de luz aqui no palco… Bom, essa é a parte que eu agradeço. – “Mais uma vez”, pensei. – Canto a próxima música, saio do palco e todos vão fingir que acaba o show, mas então eu voltarei para cantar mais algumas músicas. – Eu ri, esse homem era bobo demais.
E então, com emocionantes finais agradecimentos direcionados aos fãs, Harry pediu para que ligássemos as lanternas dos celulares para Sign Of The Times. E eu, que achava que não poderia chorar mais, me emocionei novamente com o poder desse fandom. E o pior era que a música seguinte seria From The Dining Table, me deixando impressionada cada vez que me lembro dessa música e em como todos se calaram para ouvi-la, essa música impacta e todos sabem disso.
Logo após esse momento emocionante, Harry apresentou a banda. O ambiente ficou totalmente animado novamente e nos últimos acordes de The Chain, eu posso jurar que me senti em um show de rock. E, infelizmente, sabia que estava chegando ao fim, Harry agradeceu em cada canto do palco, e eu sei que se ele pudesse agradeceria pessoa por pessoa.
Eu estava feliz e realizada no último verso de Kiwi, mas imagina a minha surpresa – e de todos – quando ele voltou ao primeiro verso da música sem pausar. A arena foi à loucura e eu não conseguia cantar, sem fôlego de tanto que gritava. E gritei mais ainda, quando, do nada Harry desceu correndo pelo corredor na pista e foi até o palco B, nem os seguranças esperavam por isso, pois não conseguiram segui-lo a tempo.
E foi ainda mais engraçado quando Harry trocou as letras e cantou “And now she’s all over me, and I’m exhausted, I’m exhausted” e em seguida gritou “cantem”, enquanto voltava pulando e correndo para o palco principal. E quando eu achei que ele fosse fazer sua famosa performance de cuspir água pra cima, ele voltou ao microfone para dizer:
– Vamos fazer isso mais uma vez. – E ele começou a cantar a música de novo, mas antes de terminar o primeiro verso, era visível que ele não tinha fôlego. – Cantem. – Harry riu, ao virar o microfone para a plateia, com uma mão na cintura e respirando fundo, numa clara demonstração de exaustão.
Dessa vez, a última vez, no final de verdade, Harry agradeceu e fez seu famoso “cuspir água para cima”, porque eu simplesmente não sei como chamar isso, e quando achei que fosse encerrar de vez, ele pegou o microfone mais uma vez e disse:
– Sempre me perguntam e muito se especula sobre quem ou o que foram inspiradas as minhas músicas, e como esse é o último show, dessa turnê, é claro, eu quero dizer que, boa parte do álbum foi inspirado por uma pessoa que conheci… – Harry falava bastante entrecortado, num claro sinal de que estava enrolando. – O que quero dizer é que, se é importante para vocês saberem, esse álbum foi escrito, vocês sabem, depois que essa pessoa, sobre os momentos que vivi com ela e alguns que não vivi também… ahn… Então, Sophie, se você está vendo isso, você sabe o que eu quero dizer, mesmo que eu saiba que você não sente o mesmo. É isso pessoal. Obrigado.
Minha boca formou um “o” perfeito, conforme meu queixo pendia solto.
Por essa eu não esperava.
Vasculhei em minha mente se havia alguma modelo da Victoria’s Secret com quem Harry tivesse saído e que tivesse esse nome.
Nada.

Enquanto isso, Harry rapidamente já tinha chamado a banda no palco para um abraço e com uma reverência, eles acenaram e saíram.

*

Eu estava esperando que a arena se esvaziasse um pouco, para que eu conseguisse sair, enquanto isso a-menina-louca-do-buquê tagarelava em meu ouvido em como o Harry tinha olhado para ela, e como ele tinha sido simpático e fofo e… Eu parei de ouvir o resto.
Só conseguia pensar na declaração que Harry havia acabado de fazer e eu NUNCA esperava por isso, mesmo. As vozes e a bagunça do local foram ficando em segundo plano, e de repente, tive uma epifania: alguns meses atrás surgiram alguns rumores que Styles estaria saindo com uma das diretoras de uma revista muito famosa de Londres. No entanto, ela estava namorando publicamente um dos cantores da Emblem3, uma banda que, pasmem, não conheço muito. E conforme mais pareciam ser amigos, os rumores se esfriaram tão rápido quanto surgiram.
– Senhorita? – Um segurança se aproximou me arrancando dos meus pensamentos, o mesmo que Harry tinha conversado quando me viu. – O Sr. Styles disse que viu a senhorita passando mal e pediu que te levasse até a enfermaria. Você está com mais alguém?
Eu olhei para a menina com cara de confusa e, voltando a ficar atônita, balancei a cabeça negativamente para o segurança.
– Por favor, me siga. – Foi o que ele disse, e eu o segui, incapaz de falar qualquer coisa, ou simplesmente explicar que Harry devia ter se confundido e eu não passara mal em nenhum momento.
Passamos por trás do palco e fomos adentrando a arena, chegamos em um corredor com diversas portas e quando o segurança bateu em uma que não tinha nada escrito que pudesse a identificar com a porta da enfermaria, meu coração gelou. Antes que eu pudesse reagir, escutamos a voz de Harry que disse “pode entrar” e eu me lembro bem como balbuciei “não pode ser, não pode ser, esse não é o dressing room dele”. Porém, para confirmar o que eu temia, o segurança abriu a porta e levantou a mão em um gesto pedinte para que eu entrasse no enorme cômodo. Mas assim que encostei no batente da porta, visualizei Harry andando de um lado para o outro com passos pesados e minhas pernas travaram. Foi lá mesmo que eu fiquei.
Harry nos olhou parados na porta, caminhou até um sofá na lateral do cômodo e jogou o corpo, deitando-se. Em seguida disse ao segurança:
– Obrigado, Fred. Pode nos deixar a sós. Ela é uma conhecida. – Vestia somente com a camisa branca que estava em baixo do terno e a calça.
E com um aceno de cabeça, o grandão saiu da sala fechando a porta atrás de si e eu me movi para dentro sem perceber.
– Oi, tudo bem? – Harry cumprimentou com a voz caracteristicamente calma e um sorriso fechado.
– Oi? – Minha resposta saiu mais como uma pergunta ao espalhar seu gesto. – Estou bem, sim. E você, Harry? – Forcei um tom de voz mais seguro ainda que estivesse retraída atrás da porta agora fechada.
– Estou ótimo, obrigado. – Respondeu se sentando no sofá. – Por favor, sente-se. – Pediu polido ao apontar com a mão para o lugar em que suas pernas estavam.
Sem responder nada, saí do canto e me sentei no local indicado.
– Estou surpreso em te ver aqui, . – Harry começou dizendo mais devagar do que normalmente fala. – É , não é? – Completou depois de um tempo.
– Sim. – Concordei com a cabeça.
– E então… gostou do show? – Por que eu tinha a sensação de que ele estava enrolando?
– Sim, você foi ótimo. A banda é sensacional. – Respondi também com a voz polida, agindo da mesma forma que ele.
– Que bom. Fico feliz. – Balançou a cabeça positivamente.
Harry cruzou as pernas e se ajeitou no sofá, me encarando mais de frente. Ficamos em silêncio por alguns segundos.
– Você… você sabia quem eu era? Digo, no píer. Você já me conhecia? – Harry perguntou o óbvio quando eu achei que o silêncio desconfortável já não fosse mais suportável.
– Sim, eu sabia. – Abaixei a cabeça, de repente me sentindo envergonhada.
– Por quê… – Harry parecia pensar nas palavras que iria usar. – Por que você não falou nada?
– Por que eu falaria? – Devolvi a pergunta.
– Você veio com alguém? Ou você é… assim, minha fã? – Também devolveu a pergunta.
– Eu vim sozinha. – Revirei os olhos e ele entendeu.
– Então, eu acho que ser fã é um forte motivo para ter falado algo. – Respondeu em um deboche velado. – Você sabia que eu estava ali? – Voltou a usar o tom de voz normal. Até mesmo puxou os lábios com dois dedos, gesto que lhe era tão característico.
– O quê? – Perguntei um pouco alterada. – Claro que não, Harry. – Respondi ofendida.
– Claro que não. – Ele repetiu pensativo, puxando mais os lábios. – Eu tinha ido à academia e depois ao Alfred, não tinha como… – Ele falava um pouco mais baixo, como que consigo mesmo. – A não ser que… – Voltou a dirigir a fala para mim.
Alfred Coffee and Kitchen, a cafeteria que eu ia pedir informações quando me perdi.
– A não ser que, o quê? – Perguntei pendendo a cabeça para o lado.
– Não, nada. – Negou com a cabeça, como se para dar mais veracidade na resposta que não me convenceu nem um pouco. – Desculpe. Eu não deveria ter pedido para que te trouxessem aqui. Mas é que… – Suspirou e deixou a frase morrer.
– Você está me acusando de ter te perseguido… – Eu disse quando a verdade me atingiu, em um tom de voz tão calmo quanto o dele.
– Eu não disse isso. Você quem está dizendo. – Harry rebateu rápido demais com certo sarcasmo no riso que antecedeu a fala.
– Não! – Eu levantei do sofá abruptamente. – Na verdade, é exatamente isso que você está dizendo. Me desculpe, sabe, Harry? Que eu fiquei perdida. Que eu fiquei perdida justo ali onde você estava.
– Não, não, não. – Harry balançava as mãos na frente do rosto. – Você me entendeu totalmente errado. – Ele falou num tom de voz um pouco mais agitado.
Eu fiquei com vergonha novamente, estava agindo impulsivamente da mesma forma que fiz no píer, quando ele pagou a conta. Me sentei novamente.
– Olha, Harry. Eu estava indo ao píer, meu celular estragou, e, ter sido você a primeira pessoa que vi quando desci do carro para pedir informações foi coincidência. Eu já tinha ingressos para o show naquela época.
– Seu celular, é verdade, tinha estragado. – Ele falou parecendo se lembrar disso ao notar pela primeira vez o objeto, meu novo celular, na minha mão.
– Me desculpe, okay? Eu não quis mentir. Eu só… – Suspirei. – Eu realmente não te reconheci num primeiro momento, sabe? Digo, quando você estava de longe. Só percebi que era você quando já estava muito perto. Como eu simplesmente viraria as costas? Ou sei lá? – Comecei a rir meio sem graça. – Te pediria uma foto? Eu estava numa situação ali e você: puff! – Harry deu um risinho quando fiz o barulho com a boca. – Ter surgido na minha frente não ajudou em nada, entende?
– Mas depois… Você fingiu que não me conhecia. O tempo todo. E agora está aqui, no meu show. – Harry deu de ombros.
– Harry, o que você quer? Eu não estou entendendo qual o intuito dessa conversa. – Rolei os olhos, impaciente.
– Eu só quero entender. Você me abordou na rua, pediu informação, depois passou o dia inteiro comigo, e ainda fingiu que não me conhecia. Depois apareceu no meu show. Eu quero entender! – Riu sem humor.
– Você se ofereceu para fazer o passeio comigo. Você! – Enfatizei. – Eu não falei nada que te conhecia, mas você também agiu como se não fosse famoso!
– Como, exatamente, um famoso deve agir? – Perguntou num tom de voz um tanto quanto sarcástico.
Okay. Péssima escolha de palavras, a minha. Seria muito estranho se ele fizesse isso.
– Eu não sei? Comentar sobre algum show? – Dei de ombros.
, isso não faz sentido. – Ele riu de verdade pela primeira vez na conversa
– Eu SEI! – Concordei imediatamente. – Mas eu não sei o que te dizer.
– Eu provavelmente não me ofereceria para o passeio se você tivesse agido como os fãs agem quando me encontram…
– Tá vendo? Esse é o meu ponto! Eu precisava de ajuda, porque eu estava perdida. – Voltei no assunto, redundante. – Mas isso sequer te interessa, também não faz sentido você me chamar aqui.
Harry levantou do sofá e voltou a andar de um lado para o outro, como estava fazendo quando cheguei.
– Foi impressão minha ou… – Hesitou. – A gente se deu muito bem aquele dia? – Harry perguntou subitamente.
– Não foi impressão sua. – Eu respondei meio carrancuda, não queria dar o braço a torcer.
– Foi por isso que te chamei aqui. – Harry concluiu. – Eu-eu gostei de você, você pareceu ser uma pessoa legal. Mas eu achei que nunca mais fosse te ver. E depois de tudo o que aconteceu… Você aparece no show, é uma fã.
Depois de tudo o que aconteceu?
– O que aconteceu? – Não contive minha curiosidade, embora soubesse que ele não falaria, por bem o conhecer.
– Eu tive pessoas no meu ciclo de amizade que não eram confiáveis.
Arregalei os olhos, era mais do que eu esperava do feitio dele contar. Aproveitei a deixa para perguntar mais.
– E qual o problema em eu gostar do seu trabalho?
– Em você gostar? Nenhum. – Deu de ombros.
Eu estava pronta para retrucar com outra pergunta quando ele continuou
– Havia uma pessoa que dizia ser fã e se tornou minha amiga. E eu não posso passar por isso de novo, não duas vezes seguidas. – Harry disse em um momento que pareceu de completa vulnerabilidade. – Você tem que entender que você causou um padrão aqui.
– Eu? – Perguntei desacreditada. – Harry, se você passou por alguma coisa, eu sinto muito, de verdade. Mas você ter assimilado uma coisa à outra, não significa que realmente são um padrão, não só porque você viu um.
Harry pareceu pensar por um momento.
– Você tem razão. – Harry concordou sem me olhar, voltando a se sentar no sofá, a cabeça apoiada nas mãos, pensativo. – Eu acho que isso me deixou paranoico, não é? – A voz saiu um pouco abafada.
Eu franzi a testa, Harry Styles não fazia o tipo que desabafava com estranhos.
– Você não é paranoico por ser cauteloso, Harry. – Falei com doçura, da mesma forma que eu falava sobre ele antes de o conhecer. Como se falar com ele fosse tão familiar quando sobre ele. – Não é como se eu tivesse algo para vazar sobre você por causa de uma tarde de passeio. – Dei de ombros quando ele me olhou de novo.
– É verdade. Mas pareceu que a gente se deu tão bem, não é? Foi horrível pensar que não tinha sido real, que tinha alguma coisa combinada para ser daquele jeito. – Eu sorri. – Que de alguma forma eu tinha sido… Que eu tinha me enganado, de novo.
– Agora sim você está me dando conteúdos que podem ser vazados. – Falei tentando descontrair. Era bizarro imaginar Harry se abrindo e contando coisas como se… como se eu fosse sua amiga?
Harry de uma gargalhada verdadeira.
– Seria muita ironia que depois de todo esse discurso de convencimento, você fizesse exatamente isso.
– Você acha que é bem improvável, por isso está me contando, não é?
– Até que você é boa observadora. Em captar as coisas e tal. – Ele disse em uma concordância muda ao que eu havia perguntado.
– É, eu acho que sim. – Sorri.
Nesse momento uma leve batida na porta seguida da maçaneta se mexendo, anunciava que uma Hélène de 1,58m passaria pela mesma.
– Oh, Harold! Desculpe, não sabia que tinha alguém aqui com você. – Hélène rapidamente se desculpou voltando a fechar a porta.
– Hélène! – Falei alto a fazendo parar com a porta metade fechada. – Harry, ela te chama de Harold, que fofoooooooooo. – Falei a última parte baixo só para ele, como se confiasse um segredo.
– Pode entrar, Hélène. – Harry disse.
– Desculpa. – Sussurrei rindo fraco para ele, que revirou os olhos.
– Ei! – Chamei sua atenção – Essa mania é minha! – Ele riu, já bem mais descontraído.
– Acho que já te vi fazendo isso mil vezes só hoje. Sai de perto de mim. – Me empurrou de leve, brincando. – Estou sendo contaminado.
Incrível como a presença de Hélène no cômodo mudou totalmente o clima do ambiente.
– Eu vim aqui para fazer umas fotos pós show, já que é o último. Nada demais, você com a banda, alguns amigos, só para termos de recordação. Tudo bem? – Hélène nos interrompeu.
– Claro, Darling! – Harry respondeu prontamente.
– Harold. – Cutuquei o braço dele ao sussurrar o mesmo apelido.
– O quê? – Harry sussurrou também.
Eu ia aproveitar a presença dela para ajudar meu lado fã.
– Podemos tirar uma foto? – Emplaquei o meu melhor sorriso, como se eu precisasse de tudo para convencê-lo.
– Claro. – Respondeu sem hesitar e ignorando a minha tentativa de convencimento que, claramente, não era necessária. Se virou para a fotógrafa dizendo: – Hélène, você faz esse favor? – Eu entreguei para ela meu celular.
Harry se aproximou de mim passando um dos braços pelo meu ombro e fazendo o seu famoso “joia” com a mão, olhando para a câmera. Nesse momento, olhei para ele, que estava sério, diria que até um pouco carrancudo, então passei meu braço por cima da sua mão, levando a minha própria mão para seu ombro, fazendo com que seu braço escorregasse para minha cintura, e disse baixo:
– Sabe aquele seu sorriso lindo, aquele que há muito tempo não sai em nenhuma foto? Eu queria um sorriso daquele. Você pode sorrir assim? – Sorri como incentivo e Harry sorriu de volta da mesma forma, meio forçado. Eu comecei a rir.
– Ah, que sacanagem. Pode ficar sério de novo.
Ele riu e o sorriso permaneceu verdadeiro. Encostei a cabeça em seu ombro, enquanto ele se virava para a câmera, mantendo o mesmo sorriso. E eu fiz o mesmo.
Hélène saiu rapidamente após esse momento, com a justificativa que esperaria lá fora. Olhei a foto no celular e tinha uma da hora em que fiz Harry rir, abraçados de lado, eu olhava para ele e ele numa risada olhava para algum ponto à frente. Ali, parecíamos mesmo amigos.
Eu estava me perguntando que tipos de fotos Harry faria pós show, sendo que estava suado, amassado e com uma cara péssima de cansaço, quando fomos interrompidos novamente pela porta, mas dessa vez quem passou por ela, não me agradou tanto assim.
– Ei, Harry! – A modelo Kendall Jenner apareceu no vão da porta. – Tudo bem? – Disse entrando e o cumprimentando com um abraço e um beijo no rosto. – Encontrei com sua fotógrafa e ela disse que vocês vão fazer umas fotos com a banda e tudo mais, antes de irmos embora para a comemoração de fechamento da turnê. – Ah, oi! – Ela disse para mim, sorrindo.
– Sim, Kendall, vamos fazer umas fotos. Hélène acabou de vir me avisar. – Essa é a , uma amiga. – Harry me apresentou, ao passo em que estendi minha mão e disse um “oi”.
– Oi. – Ela disse de novo, sorrindo. Até que ela parecia simpática, com uma voz mansa e educada. – O Shawn também está aqui. Vou pedir para perguntarem se ele quer ir também. – Ela completou e eu me remexi por dentro com essa informação. Se não fosse o Harry ali, eu sairia correndo pelo backstage para tentar encontrar Shawn Mendes. – Você vai? – Ela perguntou se direcionando para mim. Mas antes que eu pudesse abrir a boca para negar, Harry disse:
, só um minuto. – E puxou Kendall até mais próximo da porta.
Eles trocaram algumas palavras e eu só ouvi alguns fragmentos, como “você não me contou isso” “Sophie?”, vindas de Kendall, com respostas de Harry como: “estou cansado” “não é bem assim”, antes de Kendall concordar triste com um aceno de cabeça, balançar uma das mãos me dando tchau e sair da sala. Harry caminhou de volta até mim.
– Agora que estamos esclarecidos, eu já vou indo. Não quero atrasar suas fotos, para não atrasar sua comemoração. – Eu sorri.
– Eu só vou fazer as fotos e vou pra casa, estou cansado. Já havia falado com todos que eu não iria, aposto que eles mandaram a Kendall para tentar me convencer. – Meu estômago embrulhou num pequeno acesso de ciúmes de fã. Será que Harry voltou a ter algo com ela? Ele parecia apaixonado por outra. Ou eram só amigos que ficavam as vezes? Os relacionamentos do Harry eram muito esquisitos, toda vez que eu tentava entender, ficava mais confusa do que já estava.
– De qualquer forma, não quero te atrapalhar e, quanto mais cedo eu chegar em casa, melhor. Estou sozinha e você já conhece como sou ótima com direções. – Falei divertida. Eu não tinha nem a desculpa de que trabalharia no outro dia. Afinal seria domingo. – Eu só não sei se consigo achar a saída, eu vim tão nervosa que nem ao menos olhei para os lados.
– Claro, sem problemas. E eu sei sim. – Harry concordou rindo, se referindo a minha péssima habilidade de localização. – Só me espera trocar de roupa que vamos juntos.
Harry voltou quinze minutos depois, de banho tomado, cabelo molhado, com uma t-shirt branca vintage com uma estampa que eu não conhecia, de tamanho pelo menos dois números maior, um blazer bege pendurado nos braços, uma calça social preta e um vans branco todo manchado. Parecia pronto para ir embora.
– Você vai tirar fotos assim? Não tinha que ser com o terno do show ou algo do tipo? – Não me contive e perguntei.
– Hélène me mandou uma mensagem enquanto eu estava no banheiro, com mais detalhes, e era aquilo que ela falou, vamos só tirar umas fotos com a equipe técnica, algumas fotos nossas, algo basicamente para recordação. Nada demais. Além do mais, já tiramos fotos antes do show também.
– Ah, agora tudo fez sentido. – Concordei com um balançar de ombros e virei de costas, comecei a andar em direção à porta e Harry me chamou.
– Ei, ! – Eu sorri, aquilo sim era um padrão. Me virei de frente para ele.
– O quê?
– Podemos começar de novo? – Sorriu ao perguntar.
– Por favor. – Caminhou em minha direção ao ouvir minha resposta.
– Olá, eu sou o Harry! – Disse e estendeu a mão direita.
– Oi, Harry. É um prazer te conhecer, gosto muito do seu trabalho. Eu sou a , mas pode me chamar de . – Sorri e peguei a sua mão, cumprimentando-o
– Ou . – Ele completou sorrindo e soltou minha mão.
– Só você me chama assim. – Revirei os olhos.
– Ótimo, meu lado narcisista gosta de ser exclusivo. – Disse debochado.
– Aí, cala a boca. – Revirei os olhos de novo e ele gargalhou.
– Vamos? – Ele perguntou.
– Vamos. – Sorri, enquanto pensava comigo mesma “Com você? Para qualquer lugar”
Harry, então, como se pudesse ouvir meus pensamentos, abriu a porta e disse:
– Você primeiro.

3. I’m so glad you came into my life

AGOSTO, 2018
7 meses atrás

Eu estava no escritório sentada à mesa de Caroline, a compradora, acertando detalhes do novo caminhão que estávamos comprando para renovação da frota, quando Charles, o CEO, apareceu no batente da porta da sua sala e gritou meu nome.
, por favor, venha aqui. – Meu coração gelou mesmo que eu não tivesse feito nada de errado. Ele tinha o costume de gritar pelas pessoas no escritório, mas nunca era coisa boa.
Antes que eu pudesse responder, voltou para dentro de sua sala.
– Sr. Stein? – Chamei-o parando no batente antes de entrar na sala. – Posso ajudar em algo? – Perguntei parando em pé em frente sua mesa.
– Como estão as coisas lá em baixo? – A minha sala ficava no andar de baixo, ainda assim, não sabia exatamente o sentido da pergunta. Não entendi se era no sentido literal, ou se queria saber do setor como um todo.
– Estão caminhando bem. – Me limitei a responder de forma generalizada.
– Bom, já fazem quatro meses que você está conosco e, como não é novidade para ninguém, o último supervisor deixou muitas pendências a serem resolvidas.
– Sim, senhor. Acho que nas últimas semanas consegui colocar tudo em ordem. Vai demorar mais um tempo para alinharmos tudo de vez, mas acredito que o pior já passou. – Ele balançou a cabeça confirmando enquanto eu falava.
– Quando mandamos o supervisor embora, também perdemos o estagiário do setor junto com ele, mas não pelo mesmo motivo, o contrato já estava acabando, acredito que deva já até ter se formado à essa altura.
Assenti e esperei que ele continuasse falando.
– Por esse motivo, decidi por não contratar outro estagiário até ter um novo supervisor. Agora que o seu período de experiência chegou ao fim, quero que você peça ao RH para abrir a vaga para estágio no setor de logística. Eles vão fazer as primeiras entrevistas e selecionar os melhores perfis e passar para você. Eu quero que a escolha final seja sua, afinal, você quem vai treiná-lo para o mercado de trabalho, e nada mais justo que você decida com quem vai dividir a sua sala.
Meu querido, por que não me ofereceu um estagiário antes? Eu precisava muito mais.
– Claro, Sr. Stein. Obrigada. Vai ser de grande ajuda.
Mas também, como eu ia ensinar alguma coisa a alguém sendo que eu tinha acabado de chegar e ainda precisava aprender? Agora era sim, o melhor momento. Eu já tinha muito mais domínio da minha função. Esse homem sabe das coisas. Não é à toa que ele é o CEO, não é mesmo?
Eu saí de sua sala e no caminho passei em frente a sala do supervisor de vendas, Henry Campbell. Ele olhava para fora no momento em que passei, acenei e dei um sorriso aberto. O cara era uma perdição. Senhor, dai-me foco para não me perder no caminho de volta até a mesa de Caroline. Eu havia feito o mesmo caminho na ida, mas estava tão nervosa que nem me dei ao luxo de olhar para dentro de sua sala. Sentei novamente em frente à Caroline e, por hábito, cliquei no botão home do celular que eu havia esquecido em sua mesa, nas notificações o nome de Harry parecia se destacar.
Havia se passado somente um mês depois do show, mas Harry e eu conversávamos com certa frequência. Era legal, porque pudemos nos conhecer melhor, as vezes até falávamos por ligações e a facilidade que ele tinha para pegar intimidade com as pessoas era invejável. Eu também já me sentia com certa intimidade com ele, mas aquilo não acontecia com todas as pessoas, pelo menos não na intensidade que acontecia com ele.
Aquele primeiro momento de surto de fã que conhece o ídolo havia passado, pelo menos a maior parte, porque foi estranho perceber que Harry havia realmente se simpatizado por mim, tanto quanto eu me simpatizei por ele. E eu já tinha liberdade para tomar a atitude de ligar para ele só para jogar conversa fora ou falar sobre meu dia.
Harry é bastante divertido e engraçado, mas não conversávamos sobre coisas muito pessoais, eu sempre entendi que ele é uma pessoa sociável, que cria amizades fácil, mas que tem cautela porque sabe que nem todas as pessoas se associam à outras com pureza no coração.
Poucos dias depois do último show, Harry passou no set de gravações da nova série que ele estava produzindo, que estrearia em outubro, Happy Together. Sei disso porque conversei com ele desde o dia seguinte ao show, mas saberia de qualquer forma, porque saíram fotos dele lá. Mais tarde naquele mesmo dia, ele voou para Londres e por lá ficou o resto do mês de julho e metade de agosto. O que havia impedido que nos encontrássemos de novo. Não que ele havia sugerido algo, e eu, mesmo já me sentindo super amiga dele, não me atrevi a pensar na possibilidade. Uma coisa era trocar mensagens e conversar por ligação algumas vezes, outra totalmente diferente era chamar para sair, não é?!

*

Naquele mesmo dia eu fiz a solicitação de abertura da vaga. Em uma semana o RH já havia me mandado quatro pessoas para entrevistar e dentre elas encontrei minha alma gêmea: Lucy Schulz. Foi tão fácil e rápido encontrar alguém que eu nem mesmo estava preparada. Pensei que precisaria entrevistar pelo menos meia dúzia de pessoas. Quando Lucy entrou na minha sala, a entrevista que deveria durar vinte minutos se estendeu por uma hora. Eu me identifiquei imediatamente com ela, nossa sintonia foi incrível. E para parecer mais coisa do destino, ela tinha um currículo impecável, notas excelentes. Eu não tive motivos para entrevistar mais ninguém depois dela.
Lucy trabalharia sempre às tardes, pois estudava pelas manhãs. Ela já havia começado a trabalhar na segunda feira seguinte à entrevista e a cada dia que eu passava convivendo com ela tinha mais confiança de que havia escolhido certo. Nesse pequeno tempo convivendo com ela, descobri que o cabelo extremamente loiro e os olhos azuis eram da descendência alemã por parte de pai, sua mãe era americana e que ela morava na Alemanha com eles, mas havia vindo para os Estados Unidos para cursar administração na UCLA.
Ela era tão comunicativa, e nossa conversa fluía de modo tão extraordinário, que eu já sabia todas as histórias das festas, garotos e amigas da sua universidade. E eu já até havia me acostumado a chamá-la de “lindinha” em português. Foi super difícil ensiná-la o som do “nh” na palavra, mas ela aprendeu rápido e até eu já arriscava algumas palavras em alemão.
– Boa tarde, ! – A loira me cumprimentou ao chegar para o seu horário.
– Oi, lindinha! – Eu a abracei. Era ótimo não ter aquela formalidade de chamar por sobrenomes com ela. – Como foi a aula hoje?
– Foi um porre! O professor de contábeis ficou passando aqueles slides de sempre e falando com aquela voz de foca dele que ninguém suporta mais. Não entendo pra que ele ainda nos dá aula, se tudo o que ele fala podemos achar no Google. – Lucy tinha vinte anos, mas as vezes parecia uma típica adolescente americana. O que me causava muitos risos, ela era a diversão das minhas tardes.
– Não acredito! Mas você não dormiu na aula dessa vez, dormiu? – Ela estava no segundo ano da faculdade e dormia na aula desse professor com frequência.
– O que você acha? – Ela riu.
– Eu acho que eu ainda tenho esperanças de você melhorar. Ou de eu descobrir como suas notas são tão boas se você só dorme. – Eu ri também.
– Você sabe que eu só durmo nessa aula, eu juro que presto atenção em tudo. – Ela respondeu com um sorriso maroto. Essa garota era muito esperta e inteligente, só assim para acompanhar tudo.
– E as outras aulas? Como foram?
– Foram normais. – Ela deu de ombros, sem querer falar mais disso. – Ah! Tenho um convite para te fazer.
– Pois sou toda ouvidos.
– A prima da Charlotte está vindo de Londres para ficar uns dias na casa dos tios, no caso, pais da Lottie. Parece que a garota vem com uns amigos também. Ou namorado, algo assim.
– Espera, a Charlotte é a sua colega de quarto? – Eram tantos nomes de amigas que as vezes eu ficava confusa.
– Isso! A que os avós são britânicos.
– Ok. Já processei essa parte. Pode continuar. – Ela riu.
– Então, eles chegam hoje à tarde, aliás, já devem ter chegado. – Ela parou para pensar. – Enfim, combinaram de ir num boliche aqui perto à noite. A Lottie me convidou e disse para te levar, porque ela quer muito te conhecer.
– Ai, Lucy, eu não sei.
– Ah, qual é, . Hoje é sexta-feira. Para de agir como velha. – Fechei a cara diante da ofensa. – Vamos nos encontrar cedo e prometo que vai acabar cedo.
– Tudo bem, sua abusada! Que horas encontro vocês? – Ela deu pulinhos de felicidade e eu acabei rindo.
Por incrível que pareça o dia passou rápido e quando eu percebi já estava arrumada e saindo de casa para encontrar Lucy, sua amiga e os agregados. Eu sempre tinha que sair mais cedo do que todos, considerando que eu era a que morava mais longe de West Hollywood, o lado bom da história é que eu não ficava mais tão perdida como antes, então parei de sair exageradamente mais cedo.
Tanto que quando eu cheguei já estavam todos lá e mandei mensagem para Lucy me encontrar na porta.
– Vem, vou te apresentar à Lottie. A prima dela é uma fofa, você vai ver.
– Temos que pegar meu sapato. – Eu falei puxando de volta o meu braço que ela estava puxando.
– Eu já peguei para você quando chegamos.
– Como sabe quanto eu calço? – Eu arregalei os olhos.
– Eu sou sua estagiária, sei tudo sobre você. – Começamos a rir.
– Esquisita.
– Vem! – Voltou a puxar meu braço e só soltou quando paramos em frente a duas garotas morenas extremamente parecidas. – , essa é a Charlotte. – Ela apresentou apontando para a garota mais alta.
– Oi, é um prazer. – Ela disse e me deu um abraço. Espontânea. Gostei.
– E essa é a Sarah. – Apontou para a mais baixa.
– Sarah Jones. – Eu acabei soltando sem querer enquanto estendia a mão.
– Vocês se conhecem? – Charlotte e Lucy disseram ao mesmo tempo em que Sarah arregalava os olhos.
– Não, mas eu fui no show do Harry no mês passado e eu devo dizer que você toca muito bem! – Eu me expliquei.
Havia dois homens conversando atrás das meninas que mal nos olharam quando ouviram o nome “Harry”. O dono do nome estava ali, junto com…
– Esse é o meu namorado, Mitch. – Sarah falou estendendo o braço na direção de Mitch, que apenas acenou com a cabeça.
– É o que eu sempre digo, cara. Parece que a banda é da Sarah, só elogiam ela. – Harry reclamou se virando de vez para olhar a pessoa que havia chegado, no caso, eu. – ? – Veio na minha direção e me abraçou. Pegando a todos de surpresa. – Como você está?
– Vocês se conhecem? – As três garotas perguntaram ao mesmo tempo, mas de forma dessincronizada, o que ocasionou risos.
– Desculpa, Harry, por ferir seu ego narcisista. – Eu ri. – Estou ótima e você? – Eu respondi ao desfazer o abraço.
– Eu estou bem. Você nem tinha me dito que gostou do show. – Demonstrou uma feição triste e muito falsa por alguns segundos antes de se recompor e responder à pergunta feita para nós.
– Claro que falei que gostei, no seu dressing room. Lembra? – Arqueei uma sobrancelha como se dissesse: “mas você deve ter se esquecido, porque estava ocupado me interrogando”.
– Ela é a amiga de quem te falei, Mitch.
– Ah sim, eu me lembro. – Ele respondeu discreto.
Amiga de quem Harry falou? Como assim?
– Como? Como estamos aqui? – Harry me perguntou confuso.
– Lucy é minha estagiária. – Eu disse.
– E a Lottie é minha amiga. – Lucy respondeu.
– E ela é sua prima, certo, Sarah? – Harry confirmou.
– Isso mesmo. – Sarah balançou a cabeça concordando.
– Uau, isso é… Que coincidência. Uau, ahn… Estou muito feliz em te ver, . – Eu sorri com a confissão e com o apelido usado na frente de todos.
– Como assim você é amiga de Harry Styles e não me conta? – Lucy me puxou dois passos para longe de todos e falou baixo, mas de modo que todos ainda puderam ouvir seu tom de brincadeira.
– Bom, se eu soubesse que ele estaria aqui, talvez eu tivesse lhe falado. – Eu sussurrei de volta, dando um beliscão leve no seu braço.
Ouch! – Choramingou esfregando o braço. – Você é uma chefe horrível. – Falou olhando para todos, que gargalharam.
– Não seja mentirosa, garota. – Eu revirei os olhos e só Harry pareceu notar, pois riu imediatamente.
– Não serei. Você é a melhor de todas. – Disse e me abraçou, ocasionando, então o riso de todos.
Harry veio para o meu lado e passou um braço pelos ombros. Eu estava um pouco retraída, não é que eu não tivesse gostado, só que era estranho presenciar o jeito de Harry pessoalmente. Eu não esperava que ele fosse cheio de toques e sorrisos na frente dos outros, como se me conhecesse há anos. A intimidade, , ele pegava intimidade muito fácil.
– Então, qual vai ser a ordem de jogada? – Charlotte perguntou.
Eu não opinei em nada, pois nunca havia jogado boliche, só sabia o conceito de arremessar a bola nos pinos, porque bem… todo mundo sabe isso. Enquanto estavam decidindo, Harry acabou deixando de participar para falar comigo, um pouco mais baixo para não atrapalhar os outros.
– Que bom que você está aqui, . Eu ia te chamar para sair quando chegasse em LA, mas olha, nem precisou.
– Pode me chamar mesmo assim. – Pisquei marota e sorri. – Precisamos colocar os assuntos em dia.
– Não é? Era por isso mesmo que queria te chamar. Nem conversamos esses dias. Olha só, eu nem mesmo sabia que agora você tem uma estagiária. – A última vez que conversamos foi quando Stein solicitou que eu contratasse alguém.
– Vamos marcar e eu te conto tudo. – Sorri.
– Harry, você vai depois de mim e vai em seguida, okay? – Lucy nos informou, visto que somente nós dois estávamos absortos do restante da conversa.
Sarah foi a primeira e nas duas jogadas da sua vez, deixou para trás somente três pinos.
– Ela é boa, não é? Derrubou quase todos os pinos. – Falei baixinho com Harry que riu.
– Isso porque você não me viu jogando ainda.
– Meu Deus, como você se acha. – Revirei os olhos.
– Ei, eu achei que você gostava de mim, sabe? Você como fã devia me apoiar.
– Quem é fã do que aqui? – Lucy que estava ao nosso lado, mas prestando atenção no jogo, perguntou. Era a vez dela agora.
– Fã de boliche, é claro. – Eu apertei o braço de Harry e fiz uma cara feia para que ele ficasse calado. Ele só riu. – Cala a boca. – Sussurrei pra ele. – Ninguém precisa saber que eu fico cantando suas músicas enquanto faxino a casa.
– O Mitch já sabe e provavelmente deve ter contado para a Sarah. – Riu debochado e eu me limitei a suspirar. Os amigos eram dele, ele falava o que quisesse com eles.
– Então vai, é a sua vez. – Eu falei e usei a mão que segurava o seu braço para dar um impulso e o empurrar para frente e, consequentemente, longe de mim. Ele saiu meio tropeçando, meio escorregando e rindo, é claro.
– Você foi muito bem, Lucy. – Ela também havia deixado três pinos para trás, mas eles estavam muito longe um do outro, o que descobri ser pior do que deixar todos juntos, igual foi o caso de Sarah.
– Vai lá, Harry! – Mitch gritou e Harry arremessou a bola. Sobrando dois pinos em um lado e um no outro. Pegou outra bola, fez algumas gracinhas e mirou no lado com maior quantidade, deixando apenas um pino solitário para trás.
– YEAH! – Ele gritou e bateu nas duas mãos de Mitch que estavam estendidas no alto.
– Agora é a sua vez, darling. – Harry falou me entregando uma bola e parando no lugar em que estava antes. – Eu te falei que era bom.
Peguei a bola de sua mão sem falar nada e me posicionei atrás da linha.
– É assim? – Perguntei a ninguém específico me virando de costas.
– Isso! – Sarah respondeu e Harry me lançou um “joinha”.
– Ok. Lá vai. – Inclinei o braço para trás e joguei a bola.
Era perceptível que eu não tinha dimensão da força que precisava usar, pois quase no final a bola caiu na canaleta, não atingindo nenhum pino. Eu fiquei um tempo calada apenas olhando o lugar onde a bola sumiu.
– Essa merda é pesada. Que droga! – Comecei a gargalhar e minha risada acabou por contagiar a todos. Em menos de dez segundos todos estavam rindo.
– Você é horrível nesse jogo, florzinha. – Lucy falou e eu tive que concordar.
– Tudo bem. Próxima chance. Falei retirando outra bola do lugar indicado e me posicionando novamente.
Dessa vez usei mais força e abaixei mais o tronco, a bola acertou o meio, sobrando quatro pinos.
– UHUL! – Dei um grito e fiz uma dancinha com os braços levantados no alto. – Acertei, acertei. – Disse causando mais gargalhadas.
– Ok, agora sou eu. – Charlotte falou e foi toda concentrada para o lugar indicado. Houve um pequeno momento de tensão enquanto ela ensaiava jogar a bola, com muita destreza, arremessou-a e conseguiu o primeiro strike do nosso jogo.
– UAU! – Gritamos em uníssono. Harry assoviou com os dedos na boca e eu fiquei rindo do modo como todos pulavam comemorando, nem parecia que estávamos concorrendo uns contra os outros.
– Acho que a Lottie é melhor que você, Styles. – Eu falei alto, precisava esnobá-lo.
– Na próxima também vou conseguir um strike, você vai ver. – Levantou uma sobrancelha, determinado.
Mitch só não era pior que eu no jogo. Mas também comemoramos os pinos que ele conseguiu acertar.
O próximo strike só aconteceu na terceira rodada, e para o bem ou para o mal, foi de Harry, que ficou insuportavelmente convencido. Eu fingia que achava ruim e sempre esnobava, mas quem eu queria enganar? Era o Harry, eu estava adorando vê-lo assim.
– Eu te falei que eu era bom. – Chegou perto de mim de braços cruzados e me empurrou de leve com o ombro.
– Sim, mas a Charlotte é melhor. – Eu dei de ombros
– Sabe quem é melhor que a prima da Sarah? – Harry perguntou do nada.
– Quem?
– Uma amiga dela que também chama Charlotte e agora é minha nova tecladista. – Piscou para mim e foi para o lado de Mitch torcer por Sarah.
Eu abria e fechada a boca sem acreditar. Como ele me soltava uma bomba dessas que qualquer fã morreria pra saber só por implicância e saia de perto?
– Espera. O QUÊ? – Eu gritei no ouvido dele ao chegar perto. – Você não vai me contar uma informação dessas e depois sair andando como se nada tivesse acontecido. – Mitch desviou o olhar de Sarah e olhou para mim.
– Vai ver as meninas jogando, não era de boliche que você é fã? – Harry fez um barulho de indignação com a boca e mexeu os braços que estão cruzados, nunca pose de durão. Eu comecei a gargalhar.
– Não acredito que você me contou isso só porque eu não quis deixar você falar que eu sou sua fã. – Abaixei o tom de voz conforme a frase ia terminando.
– O que você contou para ela, cara? – Mitch perguntou curioso.
– Falei da nova tecladista.
– Isso foi golpe baixo, não foi, Mitch? Dado o meu histórico. – Mitch começou a rir.
– Você nem sabe se ela vai fechar o contrato ainda, Harry. E se ela mudar de ideia?
– Não vai. Já está tudo combinado, só faltar formalizar. – H respondeu confiante.
– Meu Deus, não acredito que você me instigou por uma informação que nem é verídica.
– Ainda.
… – Mitch me chamou. – Então é verdade que o Harry fez uma cena no dressing room com você no dia do show? – Ele fez uma voz afetada, para provocar Harry.
– Sim! – Eu confirmei enfática. E contei a minha versão da história, sobre o ingresso que eu tinha comprado há meses.
Mitch era tão calado, que era até estranho quando ele brincava ou fazia alguma interação descontraída.
– Seu amigo – Completei depois de finalizar a história, apontando para Harry e colocando a mão para tampar a boca antes de sussurrar mais próxima dele. – está com mania de perseguição.
Mitch gargalhou e Harry fechou mais ainda a cara.
– Achei que você estava do meu lado, Mitchell. – Harry revirou os olhos e eu o repreendi em silêncio. Ele sabia que a mania era minha.
– Isso foi antes de conhecê-la… – Mitch disse, mas cortei sua fala.
– Eu não acredito, sabe? Que você falou mal de mim para os seus amigos. – Falei fingindo estar brava.
– Não foi bem assim, contei que no final acabei pedindo seu número. – Ele riu descaradamente.
– Cara, você mandou buscarem a garota na plateia e levar para o backstage para interrogá-la como se ela tivesse cometido um crime. – Mitch balançava a cabeça de maneira negativa enquanto falava. – Olha para a cara dela. – Ele apontou a mão para mim. – Ela não tá nem aí para você. – Eu concordei com a cabeça tentando segurar o riso. – A prima da Sarah contou que a amiga dela, Lucy, certo? Está trabalhando numa empresa enorme e super séria aqui em LA. Você acha mesmo que a supervisora de uma empresa assim ia perder tempo te stalkeando? Eu estou achando que você fez isso como desculpa para conversar com ela.
Ouch! – Harry choramingou pelo ataque de Mitch. – Eu não preciso de desculpas para conversar com alguém, eu realmente fiquei assustado.
Não era bem verdade que eu não stalkearia Harry, afinal, eu seguia algumas contas de updates, mas eu acompanhava assim todos os outros artistas que eu gostava, então nada que ele precisasse se preocupar. Lógico que eu não admitiria isso.
– E no final, você ainda a deixou ir embora. Foi por isso que você não foi na comemoração de fim da turnê?
– Então você não foi mesmo! – Eu me intrometi. – Eu bem achei que a Kendall ia conseguir te convencer.
– Você a conhece? – Mitch perguntou surpreso.
– Mitch, ela é minha fã. É claro que ela sabe quem é a Kendall. – Harry respondeu atrevido e revirou os olhos de novo, dessa vez eu bati em seu braço.
– Para de revirar os olhos. – Sentenciei, mas fui ignorada. – E ele perguntou se eu conhecia, não se sabia quem era. – Sai em defesa de Mitch e ele me ignorou mais uma vez.
– Você sabe o motivo pelo qual não fui e não tem nada a ver com a ou com a Kenny.
Posso fingir vomitar de ciúmes pelo apelido?
Pausamos o assunto, porque foi a vez de Harry e depois a minha. Assim que voltei, Harry e Mitch estavam falando do mesmo assunto, mas em um tom que não era mais tão de brincadeira quanto antes, decidi quebrar a tensão voltando no tópico anterior.
– Pelo visto a Lucy contou a minha vida inteira para a Charlotte que, por sua vez, fez a minha ficha completa para vocês. – Foi o que eu comentei.
– A própria Lucy fez a sua ficha no caminho para cá. – Harry respondeu rindo. – Ela não parou de falar um minuto.
– Não acredito, aquela garota adora me expor. – Eu falei rindo.
– A Charlotte falou primeiro sobre o emprego super legal da amiga, que tinha uma chefe mais legal ainda. E que estava ansiosa para te conhecer. E depois disso, a Lucy fez a sua fama por si própria. – Harry me explicou. – Ela falou tanto que quando chegamos e você não, pensamos até que você não existia. – Riu. – Brincadeira. Mas pensamos na possibilidade de você não vir.
A noite seguiu na mesma animação. Às vezes eu acertava os pinos, as vezes a bola caia na canaleta, Charlotte e Harry muito competitivos um com o outro e a terceira melhor pessoa naquele jogo era Sarah, sem dúvidas. No fim foi muito divertido, ficamos com fome e pedimos pizza para comer jogando. Na hora de ir embora, fomos para o estacionamento, todos entraram no carro e Harry como sempre dirigia. Em todos esses anos eu nunca havia visto Harry sair com amigos e não estar no volante.
– Você precisa de uma carona, ? – Ele perguntou quando eu continuei andando mais para o fundo do lugar.
– Não, vim de moto. Obrigada. – Gritei sem parar de andar. Sentei no banco, liguei a minha imponente Honda 250cc, que não era nenhuma Harley Davidson como a que Harry tinha, mas era uma moto consideravelmente grande para os tipos usados em Los Angeles, e parei ao lado da Range Rover. – Então, até mais, galera. Obrigada pela noite, foi muito divertida. E Lucy, te vejo na segunda.
Todos se despediram de mim e pela fração de segundos que levou para que eu pudesse encaixar o capacete que já estava na minha cabeça, eu ouvi Mitch, que estava sentado ao lado de Harry, dizer mais especificamente para ele.
– Cara, eu gostei dessa garota. Ela parece ser foda. Posso ser sincero? Parece ser uma das melhores que já vi com você e também…
E então o capacete acabou de abafar o som que já não estava muito audível pelos motores ligados. Eu acenei e acelerei a moto, deixando todos para trás.

 

 

4. Thank you for letting me in

AGOSTO, 2018
7 meses atrás

Faltava pouco mais de meia hora para Lucy chegar, mas eu já tinha me cansado dos afazeres da manhã, eu geralmente só parava quando ela chegava, que era quando íamos almoçar, mas dessa vez resolvi matar aquele tempo rolando feed de redes sociais. Vi algumas fotos no Twitter e resolvi enviar uma mensagem para Harry, depois do boliche, ele não passou muitos dias em LA e foi para a Itália para “trabalhar”. Algo com a Gucci, eu suponho, mas ele não quis me contar sobre o que era sua ida, ele gostava desse mistério. Depois disso não conversamos mais e eu nem sabia onde ele tinha se metido, até então.

11:24am: Ei! Como você está hoje? – Digitei algo casual não esperando que fosse ser respondida na hora.

11:27am: Ei, ! Tudo bem, tudo bem.
Estou no Canadá com uma família de amigos.
11:28am: E por aí? O que está fazendo?

11:32am: Eu estou ok, é segunda feira, estou trabalhando.

Eu havia visto fotos, Harry estava em Muskoka almoçando com a família Gerber, como eram três horas de diferença, ele devia ter acabado de almoçar há pouco tempo. Eu não falei que sabia com quem ele estava, não queria provar ser uma louca – barra – perseguidora. Mas é impossível não saber dessas coisas quando nas suas redes sociais só têm tópicos sobre seus ídolos. Mitch estava tão errado, eu era mais stalker do que pensava.

11:33am: E quando você vem para LA? – Eu estava com saudades, mas isso era outra coisa que eu não falaria.

11:38am: No próximo fim de semana é
aniversário de um amigo meu, o James,
vai ser em sua casa de praia no México.
Depois disso não tenho nada programado,
mas não sei ainda.

11:45am: James Corden? – Perguntei meio desacreditada só para confirmar.

11:48am: O próprio.

11:49am: Legal!

11:49am: Mas você vai para onde no México? – Perguntei um pouco curiosa.

Harry não me respondeu mais naquela hora, mas Lucy havia chegado e fomos almoçar. Coincidentemente o supervisor de vendas, Henry, estava lá também. E não era só eu que o achava extremamente bonito.
Lucy era mais cara de pau que eu, e fez com que nos sentássemos próximas a ele no refeitório e puxou assunto durante o almoço todo.
– Por favor, vamos sentar lá! – Juntou as mãos, praticamente implorando. – Você é da gerência, é normal almoçar com ele e não com o resto do staff.
– Você só quer que eu vá para ir junto e ficar rindo igual boba para ele.
– É claro, eu sou só a estagiária, eu não posso sentar perto dele do nada, preciso estar de baixo das suas asas. Por favor, !
Por causa dela, aquele foi o máximo que eu havia conversado com ele naquele tempo todo, falamos de coisas triviais, mas foi interessante me aproximar mais de outra pessoa naquele lugar.
Eu não sei exatamente o porquê, mas antes de Lucy chegar eu não tinha muito interesse em conversar com ninguém da empresa, almoçava sozinha e só procurava alguém quando precisava falar sobre o trabalho. Não era à toa que eu não tinha nenhuma amizade sólida. Mas ela, que era super comunicativa, já conversava com todo mundo e aos poucos me introduzia às pessoas. Eu até tinha ido em um Happy Hour com os assistentes do escritório outro dia.
O dia passou incrivelmente rápido, ter a companhia de Lucy na sala causava esse efeito. Tão rápido o dia passou, eu já estava em casa. Antes de entrar para o banheiro, vi que havia recebido a resposta de Harry enquanto estava no caminho.

05:12pm: Ah, eu não sei muito bem onde é.
Só sei que é no México hahaha

Às vezes, eu não podia acreditar que Harry era do tipo que mandava “hahaha” por mensagens, ele finge ser tão “cru” com tecnologias, mas na verdade sabe todas as gírias da internet, ainda que não seja muito adepto aos emojis e stickers. A minha idealização por esse garoto era destruída mais a cada dia, não de uma forma ruim.

05:13pm: Desculpa ter parado de falar do
nada, fui embora do restaurante naquela hora.
O que está fazendo agora? Que horas são aí?

05:26pm: Acabei de chegar em casa. São quase 05:30pm.

05:26pm: Você como sempre péssimo com os fusos. Hahahaha :p

Já eu? Era totalmente adepta a qualquer tipo de meme.

05:30pm: Está ocupada? Posso te ligar aí?
05:45pm: ?

05:55pm: Oi! Pode sim!

Mas que demora para me responder! – Harry falou brincando assim que atendi a chamada no quarto toque. Eu ri.
– Desculpa! Estava no banho. – Ele riu também
Achei que você tinha sido abduzida. – Ele era um palhaço mesmo.
– Você não vai se livrar de mim assim tão fácil, darling. – Brinquei também.
Ahhhhh! – Harry expressou de forma prolongada. – Até que você é legal, por enquanto não quero me livrar de você, não.
– Ainda bem, porque também te acho legal, seria muito triste se você não gostasse de mim. – Rimos. – Mas, espera. Como assim “por enquanto”? – Perguntei divertida.
Nossa amizade ainda está em fase de testes. – Revirei os olhos mesmo que ele não pudesse ver.
– Paranóico. Cadê o Mitch para me defender em uma hora dessas?
Eu passei por coisas nos últimos meses que me obrigaram a ser menos ingênuo. – Harry falou simplesmente. Eu já havia perdido as contas das vezes em que ele ficava refletindo sobre esse assunto do nada. E eu sempre dava a mesma resposta.
– Mas, Harry, o que aconteceu? Você pode me contar. Eu me considero sua amiga, sabe? – Harry ficou calado, como quem processava o que eu dizia. – Se você precisar de algo, eu vou fazer o possível e o impossível para te ajudar, assim como eu faria com qualquer outro amigo meu, como eu faria com meus amigos do Brasil.
Eu sei, – Harry suspirou. – Eu prometo te contar… – E ele respondeu o que sempre dizia.
– Quando você estiver pronto, Harold. – Interrompi sua fala. – Não quero te forçar, tudo bem? Quando você quiser. Só quero que saiba que sempre que precisar, pode contar comigo. Okay?
Okay. Obrigado.
Com isso não tocamos mais no assunto.
– Mas me diz, como você vai para um lugar que não sabe exatamente onde é? – Eu gargalhei para quebrar o clima meio tenso. – Você é inacreditável, Harry.
Ah, não quero me gabar, mas eu tenho pessoas pra resolver tudo isso para mim, então eu não me preocupo. – Ele respondeu em meio aos risos.
– Eu te entendo completamente, eu logicamente faria o mesmo.
Eu senti falta de chegar do trabalho e ter conversas do cotidiano com Harry. Sempre que conversávamos era dessa forma; assuntos leves, cheios de risadas e brincadeiras. E isso tudo ficou mais intenso, mais frequente, depois do boliche. Harry é um bom ouvinte, se você fala, ele te escuta com atenção. Se você divide um problema, ele realmente se envolve para te ajudar.
Comecei a contar algumas coisas sobre meus amigos do Brasil e a conversa com Harry rendeu bastante, eu fui dormir de madrugada naquele dia. Era muito louco pensar nessa amizade que estávamos criando.

*

Após ter feito todos os deveres do dia, deixei Lucy na sala com seus próprios afazeres e fui para o pátio da empresa. Estava um dia lindo, o céu azul brilhava em contraste com o verde das palmeiras. Era a penúltima terça feira de agosto e faltava uma hora para encerrar o expediente. Aquele cenário trouxe muita paz e gratidão para o meu coração. Eu havia parado no meio do caminho e olhava para o céu com uma sensação de estar no lugar certo. Tudo estava indo bem, apesar de tudo. Os últimos meses antes da minha mudança foram uma loucura, no sentido bom e ruim. Mas isso é assunto para outra hora.
Era estranho conversar com Harry quando ele não estava em Los Angeles. Eu sabia mais sobre ele pela internet do que por ele mesmo. Apesar de conversarmos bastante, acabávamos demorando horas entre uma mensagem e outra, um oferecimento do fuso horário. Depois de almoçar com a família Gerber no Canadá no início da semana, os próximos conteúdos sobre ele foram da comemoração do aniversário de James no fim de semana seguinte, isso ele havia me contado. Eu havia conversado com Harry pela última vez um dia antes da festa de James, quando ele já havia chegado ao México. Isso parece que foi há bastante tempo. A festa deve ter durado até o domingo. Enquanto eu passei o fim de semana estudando para uma prova que tive na segunda feira. Realidades.
Harry não tinha me mandado mais nada desde então, e eu não tive tempo também, mas aquela penúltima terça feira de agosto – que ao levantar da cama, julguei como sendo mais uma comum em que não teria nenhum motivo para ser lembrada meses depois – se tornou um dia com lugar especial no meu coração, tudo desencadeado por uma ligação inesperada de Styles.
– H? ‘Tá tudo bem? – Atendi com receio na voz, ele nunca me ligava sem antes mandar uma mensagem. Saí do meio do pátio, pois um caminhão estava chegando.
Na verdade, está tudo bem sim. E você, , tudo bem? Está trabalhando? – Harry respondeu com animação do outro lado da linha. Ele deve ter ouvido o barulho.
– Estou sim. Daqui a pouco já estou indo embora. E a festa, como foi? Se divertiu?
Foi ótimo! Tomamos muitos drinks! Até aprendi a fazer margueritas. – Uma pausa. – Me desculpa te ligar do nada, mas é porque estou em LA…
– Sério? E você chegou quando? – Cortei sua fala, me animando mais ainda.
Cheguei ontem durante a tarde. Estou te ligando pra saber se você quer ir tomar um café comigo. O que acha? Estava te devendo um convite, lembra? Também quero te contar como foi a festa.
– Agora? – Fiquei alarmada pelo convite em cima da hora. Ainda bem que por ligação ele não conseguiria ver meus olhos arregalados.
Não exatamente agora. – Rimos. – Quando você sair do trabalho. Me manda o endereço que vou te buscar aí.
– O quê? Espera. Eu venho trabalhar de moto, Harry.
Ah é! A moto, eu me lembro. Mas podemos fazer o seguinte: Eu te busco aí, vamos em algum lugar, depois te levo de volta no seu trabalho, você pega a moto e vai embora. – Harry propôs.
– Era mais fácil se eu te encontrasse onde você quer ir.
Com seu senso de direção? Duvido muito… – Harry riu debochado e eu bufei.
– Agora vai ficar me ofendendo? – Rolei os olhos, mesmo que ele não pudesse ver.
Você sabe que é verdade.
– ‘Tá bom, Harry. ‘Tá bom. Mas saiba que você consegue ser bem chato quando quer, esse seu rostinho bonito não me engana mais. – Ele gargalhou.
Antes enganava? – Perguntou divertido.
– A mim e a milhares de garotas espalhadas pelo mundo.
Uma hora depois, eu saí pela grande porta do prédio, pontualmente no meu horário. Caminhei pelo estacionamento à frente da entrada que era externo para visitantes, foi fácil avistar Harry encostado do lado de fora de um lindo carro que supus ser seu, de óculos escuros e com a cabeça virada na direção que eu havia saído. Fui ao seu encontro sorrindo, ao passo em que dei um abraço apertado quando a distância entre nós era mínima.
Nossa! Eu estava com mais saudades do que pensei.
– Uma Ferrari Califórnia, Harry? – Eu dei uma boa olhada no carro, reconhecendo o modelo imediatamente. – Você não poderia ser mais discreto? – O carro era naquele tom vermelho tão famoso e eu não pude conter a brincadeira após romper o nosso abraço. Harry nunca era o primeiro a desfazê-lo. Ele sorriu de lado e apenas uma covinha apareceu.
– Esse é meu único carro “novo” em Los Angeles. E eu não queria parecer tão old school para você, já vamos para uma cafeteria, se fossemos com um Jaguar de 1972, o que você pensaria de mim? – Foi a minha vez de sorrir. Harry tinha uma paixão por carros antigos, eu sentia que ele gostava de compartilhar sobre isso comigo, principalmente porque ele sabia que eu entendia mais de carros do que a maioria das mulheres.
– E aquele carro do dia que nos conhecemos? E a Range? Você é realmente um narcisista. – Enquanto soltava espontaneamente uma breve gargalhada, ele se desencostou do carro para abrir a porta para mim.
– Qual? O New Tesla? Ah, eu quis variar desses e entrar no clima Californiano, sabe? – Harry piscou divertido. – Vamos? – Perguntou retoricamente como um pedido para que eu entrasse no carro.
– Pelo menos fecha essa capota, eu não quero estar nos jornais amanhã. – Eu fiz aspas com os dedos ao falar a palavra “jornais” olhando para Harry que se acomodava no banco do motorista.
– Você está com vergonha de ser vista comigo? – Harry fez uma falsa expressão de ofensa. Mas apertou um único botão no painel, que fez com que o teto do carro se fechasse.
– Ah, cala a boca. Você sabe muito bem do que eu estou falando. – Ele gargalhou de verdade depois disso.
– Isso não vai acontecer, fica tranquila. Eu tenho um plano. – E com outra piscadela, Harry deu partida no carro nos levando para fora do estacionamento e ao encontro das badaladas ruas de Los Angeles.

– Qual é o seu plano, Styles? – Perguntei com a mão no queixo, analisando o lugar que havíamos acabado de entrar.
A cafeteria antiga era uma dessas locais bem simples que existiam aos montes espalhadas pelos bairros nos Estados Unidos. Harry sabia muito bem ser anônimo. Em um bairro mais doméstico e menos central, as possibilidades de ser reconhecido ou fotografado eram mínimas.
As mesas dispostas ao longo de toda a extensão das grandes janelas que deixavam o ambiente sem nenhum ponto escuro, estavam meticulosamente abastecidas com um kit de cardápios, guardanapos e molhos, e ao fundo do local, como habitualmente, havia um balcão que cercava as máquinas. E para cada banco em frente ao balcão, havia um kit desses também.
O lugar estava particularmente vazio. Não sei se era o horário, mas somente uma mesa estava ocupada por um homem mais velho.
– Esse é o seu plano, Styles? – Perguntei novamente modificando a pergunta.
– Você gostou do lugar? – Ele perguntou em expectativa
– Eu amei. Adoro lugares assim. E você não estava brincando quando falou sobre ser vintage. Estou me sentindo em uma comédia romântica. – Dei voz aos meus pensamentos.
– Que bom que gostou. Apesar de ser um lugar simples, pode ter certeza que vamos ter tranquilidade aqui.
– Claro, H. – Toquei seu ombro com uma das mãos em sinal de compreensão. – Eu também prefiro assim, não quero me arrumar confusão e menos ainda te colocar em alguma situação desagradável.
Eu sabia que assuntos como sua fama o deixavam desconfortável, mas eu queria que ele soubesse que eu sabia o nível de proporção que as coisas podem tomar sem o devido cuidado.
– Vamos sentar ali? Perto da janela? – Eu pedi como uma criança apontando para os fundos da cafeteria.
– Você gosta mesmo desses lugares, hein?
– Você não faz ideia. – Sorri
Já acomodados e com os pedidos feitos, Harry e eu conversamos sobre a festa de James, sobre o que fizemos desde o show, também contei como contratei Lucy. No boliche não pudemos conversar tanto, pois havia mais pessoas conosco, agora era realmente o momento das atualizações.
– E você acredita se eu disser que descobri que o meu trabalho fica à poucas quadras de distância de onde você me encontrou perdida?
– Eu percebi hoje quando me mandou a localização. Depois você não quer que eu diga que você armou tudo isso para me perseguir. – Harry sorriu torto. – ESTOU BRINCANDO! – Se apressou a dizer, eufórico. Eu sorri também, decidida a provocá-lo.
– Eu estou começando a achar que é você quem tem um imã com fãs. – Sorri debochada em um ataque defensivo, antes de continuar minha teoria. – Primeiro aquela que veio da Carolina do Sul, depois a diretora da revista e agora eu. Seja para amor, ou amizade, você gosta de estar perto de nós.
– Na verdade… Harry começou sério. – “Aquela que veio da Carolina” e “a diretora da revista”, são a mesma pessoa. – Pisquei devagar enquanto processava essa informação. – E eu nunca disse se era do Sul ou do Norte.
Whatever. – Balbuciei antes de processar a primeira informação dita. – Espera! – Levantei uma sobrancelha. – O quê? Você escreveu essa música para ela? – Harry assentiu positivamente, envergonhado. – Bom… Então, duas pessoas não são o bastante para classificar isso como uma fixação ou algo do tipo. – Voltei a usar um tom de brincadeira na tentativa de agir como se aquela nova informação não fosse uma grande coisa, pois Harry parecia meio tenso, como se estivesse esperando o julgamento de ter revelado um grande segredo. – Mas em certos aspectos que você descreveu sobre ela, somos bem parecidas. A única diferença é que, quem disse para mim “better swim before you drown”. – Cantarolei desafinada. – Foi eu mesma.
Harry começou a rir, menos tenso. Talvez pela cantoria ou pelo comentário todo.
– MEU DEUS! – Exclamei alto enquanto Harry ainda ria. – Eu queria dizer isso desde aquele dia no almoço em que você comentou que eu tinha sotaque americano. Mas eu tive que me segurar, porque não queria dar um ataque de fã e te assustar. – Levantei os braços para cima, como se aquilo fosse um peso e eu estava aliviada em não o carregar mais.
– Não pense que não está me assustando agora. – Harry riu. – Nessas horas o Mitch não está aqui para ficar do meu lado nessa história.
– Ah! Qual é! – Disse em tom de ultraje. – E você acha mesmo que eu vou me entregar assim tão fácil na frente dos seus amigos? – Pisquei divertida.
– Você canta muito mal. – Harry riu mais alto.
– De tudo o que eu disse, foi ISSO que te assustou? – Fiz cara de ofendida. – Cretino.
– Isso e o fato de você ter falado que vocês são parecidas… – Harry arregalou os olhos em uma falsa expressão de espanto.
– Nos aspectos que você descreveu na música sim. Ela não deve ser tão ruim assim, afinal, você mesmo disse que ela era boa. – Rebati depressa, ainda provocativa.
– Sim, mas eu também enfatizei que tinha a visto só uma vez. Hoje vejo que ainda não a conhecia o bastante… – Harry deixou a frase morrer, numa clara expressão envergonhada.
– Okay, Harry! – Eu me ajeitei na cadeira – Corta essa. Me conta logo, o que foi que aconteceu?
As horas que se seguiram passaram tão rápido que mal pudemos notar. Harry me contou que conheceu a mulher em uma festa privada de um famoso, pouco antes do hiato com a One Direction, e que ficou interessado logo de cara, ela era linda, tinha uma desenvoltura muito articulada e era engraçada. Palavras dele! Me contou também que, por mais que ela fosse uma espécie de repórter na festa, eles concederam uma entrevista de boa vontade e, quando a entrevista foi ao ar no site da revista, ele não teve dificuldades de conseguir o número do telefone da sala dela, ligar e chamá-la para sair.
Em meio a muitas piadinhas da minha parte, claro que tive que alfinetá-lo no por que de não ter tido dificuldades para conseguir o número dela. Mas Harry ria brevemente e voltava a ficar sério. Por isso, em seguida ele também contou que escreveu a música logo no primeiro encontro e que confiou nela facilmente a partir disso. E esse foi seu grande erro.
– Eu contava coisas pessoais, meus anseios. Se eu ia me encontrar com alguém para falar sobre o álbum, eu contava casualmente enquanto estávamos deitados na cama ao acordar depois de termos passado a noite juntos. Eu sabia que ela trabalhava para uma revista que se mantinha por meio de informações como as que eu dava para ela. Mas eu simplesmente não acreditava que ela seria capaz de usar essas informações para seu próprio benefício. – Harry suspirou tomando mais um gole do seu café preto antes de continuar a falar. – E depois ela começou a namorar…
– O cara daquela banda, não é? – Harry balançou a cabeça confirmando. – Vai saber se ela não está fazendo isso com ele agora. – Dei de ombros.
– E então começamos a nos afastar. Bem, eu sabia que quando ficávamos, antes de ela namorar, era porque ela se sentia fisicamente atraída por mim, mas eu tinha me apaixonado, sabe? – Comecei a rir. – O que foi? Do que está rindo?
– É claro que ela se sentia atraída por você. Quem não se sente atraído por você? – Eu falei quase que automaticamente. – Você é muito bonito. – Eu tentei corrigir de uma maneira que não parecesse que eu estava o sexualizando. – Mas mais do que uma beleza física, nesse tempo em que temos contato, posso afirmar que seu interior é múltiplas vezes mais belo. – Eu disse ficando mais séria. – E olha que você é lindo, garoto! Pensa numa beleza duplicada. – Ri de novo ao vê-lo ficar envergonhado com os elogios. – Sem querer me intrometer, mas eu não acho que você precisa e muito menos merece algo desse tipo, quero dizer, não precisa se não for isso que você estiver procurando. Sei que para você é mais difícil de conhecer alguém, mas eu tenho certeza que você vai achar alguém que espere de você a mesma coisa que você espera dele… – Sorri.
– Obrigado, . O que você disse foi ótimo. Mas… Eu não sei… Eu sou do tipo que prefere ter o que a pessoa pode me oferecer do que não ter nada, mesmo que eu queira algo diferente.
Just a little bit of your heart is all i want, just a little bit of your heart is all I’m asking for… – Cantarolei baixinho
I heard a little love is betten than none… – Harry forçou um sorriso e abaixou a cabeça, encarando a mesa. – Às vezes me esqueço que… que você sabe todas as minhas músicas e essas coisas. – Riu fraco.
– Desculpa. Isso te incomoda? – Eu perguntei e coloquei a mão por cima da sua que estava na mesa. – Eu posso fingir que nada do que você fala me associa a uma música sua, mesmo que seja difícil. – Eu dei uma risadinha para quebrar o clima.
– Não! Eu gosto disso em você. Digo, gosto de que mesmo que você não esteja em uma determinada posição, você consegue visualizar as coisas de forma mais geral. Todos os lados da moeda, sabe? E eu gosto muito que você se preocupa com os efeitos das suas atitudes, mesmo que não sejam maldosas, isso é muito nobre. – Harry levantou o olhar. – Eu não me importo que você faça essas referências. Eu já convivi com muitas pessoas que sabiam muito sobre mim, que conviviam no mesmo meio que eu e todas sempre fingiam que não ligavam para nada disso, só para parecerem mais legais. Eu gosto da sua espontaneidade. É autêntica. – Harry puxou minha mão que estava pendendo por cima da sua e passou a segurá-la. Sorri com esse gesto de cumplicidade.
– Eu estaria mentindo se não dissesse que penso exatamente a mesma coisa sobre você. Você sempre olha o lado da outra pessoa… – Fiz uma pausa. – De qualquer forma, obrigada por confiar em mim e ser tão honesto. E me desculpe cortar nosso momento, mas eu estou muito curiosa. – Dei uma risadinha. – Se não for muito abuso perguntar, como você descobriu exatamente o que ela fez com você? – Harry deu uma pequena gargalhada seguida de um sorrisinho torto antes de me responder.
– Você se lembra quando me apresentei no Victoria’s Secret Fashion Show?
– Claro! – Concordei imediatamente, antes que ele pudesse continuar falando. – Como esquecer aquele terno cinza com a camisa verde? – Suspirei. – Simplesmente lindo. – O olhei enquanto me deixava ser envolta pela lembrança.
– Você interrompeu meu drama para fazer um comentário sobre a minha roupa? – Riu incrédulo.
Hello! Fã aqui? – Eu disse como se fosse óbvio.
– Enfim. – Harry retomou o assunto me ignorando. – Ela estava lá não sei para o que e me viu saindo do palco após a gravação. Fui atrás dela para conversar, eu ia contar que estava apaixonado, porém ela se esquivou e foi embora rapidamente. Logo depois a notícia de que eu me apresentaria foi vazada pela revista que ela trabalhava.
– E VOCÊ AINDA SE DECLAROU NO SHOW? – Eu disse com a voz alterada e Harry me olhou feio depois de olhar para os lados para ver se tínhamos chamado atenção de alguém.
! – Fui repreendida.
Ouch! Você nunca me chama pelo nome. Me desculpa, foi sem querer. – Rimos. – Eu só não consegui processar de forma mais amena o fato de você ter sido traído e ignorado e mesmo assim ter falado tudo o que falou em frente à tanta gente. – Eu falei em tom de revolta.
– Uns dias depois, quando eu estava na Itália, lembra? – Assenti. – Depois de meses de silêncio, ela me mandou uma mensagem com os simples dizeres “sinto muito” e logo depois eu vi um vídeo do cara chegando na casa dela com flores.
– Hm. – Murmurei. – Então acho que essa mensagem foi uma clara resposta a sua declaração. Ela o escolheu. – Pontuei.
– Sim. – Harry me olhou triste.
– Ah, mas não tem problema. Agora você tem a mim. – Pisquei marota.
– O-o quê? – Harry gaguejou. E eu gargalhei
– Bom, eu também sou sua fã, Harold. Assim como ela, isso que eu quis dizer. Agora você pode me contar as coisas. Fazer de mim sua nova fã-amiga. Sem a parte de eu vender suas informações, é claro. – Suspirei teatralmente e a expressão em seu olhar suavizou e ele forçou um sorriso.
– Nós nunca conversamos desse jeito. Às vezes parecia que ela só queria saber quando se tratava de uma novidade exclusiva. Ela dizia que gostava do meu trabalho, mas não… eu não sei. Ela foi a primeira amizade que tive que começou pela pessoa ser fã, eu não tinha algo que podia chamar de parâmetro para saber, só que agora, comparando com você, parece tão diferente, sabe? Não me parece mais que ela era realmente uma fã, o conceito que você vem me mostrando é outro. Não quero falar mal dela, entende? Mas eu acho que ela se perdeu nesse mundo da mídia.
– Espero que isso seja um ponto positivo ao meu favor. Não que estejamos competindo, é óbvio. Mas eu não tenho onde me perder. Eu nem faço parte desse mundo e mesmo que tivesse onde me perder, eu sei onde estou agora e sei onde quero chegar e, pra isso, eu tenho certeza de quem eu sou. E eu não sou como ela. Eu sei também que eu vou te mostrar que sou digna da sua confiança. – Puxei a mão dele que ainda estava segurando a minha e dei um beijo na palma, soltando casualmente em seguida para tomar um gole do meu latte.
– Eu sei que vai. – Sorriu.
Tudo o que Harry me contou, além de outros detalhes, me fizeram entender muitas coisas que estavam acontecendo com ele ultimamente. Principalmente que, o fato de eu ser fã, o remetia a uma pessoa que se dizia fã e se aproximou somente para o prejudicar. Não era de se estranhar que ele estivesse cauteloso quanto a se abrir.
– Ei, quer ouvir uma piada? – Harry perguntou subitamente interrompendo meus pensamentos.
– Ah nãoooo! – Choraminguei e ele fingiu um olhar triste. – ‘Tá, Harry. Fala.
Harry coçou a garganta.
Knock Knock (Toque toque). – Falou seguido de uma risadinha.
Who’s there? (Quem é?). – Revirei os olhos ao responder em contragosto.
A broken pencil (Um lápis quebrado). – Harry dessa vez segurou a maldita risadinha.
A broken pencil who? (Um lápis quebrado quem?). – Eu perguntei entredentes, quase rosnando.
Nevermind, It’s pointless (Deixa pra lá, não é importante).
Harry imediatamente explodiu em uma gargalhada alta enquanto eu olhava para ele com a minha melhor cara de tédio, segurando o riso, a risada dele era contagiante, mas não queria que ele achasse que eu estava rindo da piada horrível. Em inglês era uma bosta, mas se traduzisse não faria sentido nenhum, o que perdia mais a graça ainda para mim, que sabia as duas línguas.
– Você é um idiota, essas piadas são horríveis. – Acabei sorrindo. Ele sempre insistia em contar piadas e eu não vou mentir, fossem péssimas ou não, eu as adorava.

Nota da autora: Eu tenho outras fics que você pode acessar aqui:
The Spaniards’ Girl
Just Another Hotel Room

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5 – Tastes like strawberries on a summer evenin’

SETEMBRO, 2018
6 meses atrás

Era a primeira vez que chovia nos quatro meses em que eu morava em LA. O clima era sempre tão ensolarado que foi uma surpresa acordar de manhã com a temperatura em onze graus e ver o céu jorrando grossas gotas de água. Eu era a única pessoa na terra que sabia como eu própria odiava o incômodo de ter de chamar um uber, ainda mais tão cedo. Definitivamente não dava para ter ido trabalhar de moto.
Eu sei, eu sei que eu deveria agradecer por ainda ter a possibilidade de ir de uber, era apenas após o almoço, mas quanto mais a hora de ir embora do trabalho se aproximava, e eu ia na porta de entrada e via que ainda chovia tanto, se não mais que de manhã e que a chuva havia perpetuado por todo o dia, mais eu ficava de mau humor por não poder sair pela porta seca, montar na moto e ir embora.
Eu odiava pedir favores, mas eu preferia pedir uma carona que já estivesse me esperando quando eu saísse, do que pedir um uber. Harry estava em LA e estava à toa até onde eu sabia. Eu ia ligar para ele.
Alô? – Harry atendeu no segundo toque. Ele era até rápido para responder ao telefone, em vista da sua fama de nunca entrar nas redes sociais. Quem não o conhecia nem imagina que a verdade é que ele fica com o celular o tempo todo nas mãos, o que ele faz? Eu não sei.
– Ei, H! Está ocupado? Pode falar agora? – Eu tinha conversado com ele na noite do dia anterior, então não era como se tivesse motivos para ligar.
Estou deitado no meu sofá prestes a assistir uma nova comédia romântica da Netflix. Muito ocupado, eu diria. Mas com você sempre posso falar. – Harry disse rindo do outro lado da linha.
– Então… Como você está? – Eu sentia que deveria conversar um pouco antes de pedir de cara um favor.
Eu estou ótimo, . E você? Já almoçou?
– Eu estou bem e acabei de voltar do almoço… Ahn… – Eu enrolei um pouco para falar e Harry acabou me cortando sem perceber.
E essa chuva, hein? Há meses não chove tanto em LA. Você foi trabalhar como? Não foi de moto, foi? Ia se molhar muito.
– Não, eu vim de uber… E é… bem, parece que não vai parar de chover. E eu, é… – Droga, como era difícil pedir favores.
Ah! – Harry exclamou como se tivesse acabado de se lembrar de algo, cortando minha fala de novo. – Você quer que eu te busque na hora que você for embora? Eu ia te mandar uma mensagem mais tarde perguntando, mas já que estamos nos falando agora, melhor que eu não me esqueço de perguntar depois.
– Seria ótimo! Mas eu, de verdade, não quero te incomodar, fazer você dirigir até West Hollywood só para me buscar no trabalho. – Quando eu pensei em pedir não parecia uma má ideia, mas agora que ele havia oferecido, me deixou um pouco sem graça.
Ah, ! Que isso! Somos amigos, não somos? Não é todo dia que eu estou em Los Angeles, não me custa absolutamente nada te dar uma carona para casa. E não é como se eu não tivesse feito esse caminho várias vezes para sairmos, é? O tempo está horrível e eu não estou fazendo nada. Te busco no horário de sempre?
– Sim, por favor. – Ele não podia ver, mas eu sorria.
Pizza para o jantar?
– Sim, por favor! – Dei a mesma resposta, com tom de voz mais animado. Harry riu do outro lado da linha.
Combinado. Para sua infelicidade, nada de capotas abertas hoje. – Dessa vez eu que ri.
– Harry? – Eu chamei antes que ele desligasse a chamada.
Sim?
– Obrigada!
Não por isso.
– Por tudo. Você é demais! Beijos!
Até daqui a pouco, . – E desligou.
Harry chegou quinze minutos mais cedo e me ligou perguntando como fazia para parar o carro dentro da empresa, o mais próximo possível de onde eu saia, isso tudo porque eu havia comentando em uma mensagem que eu não tinha levado guarda-chuva.
O porteiro não quer me deixar entrar, . – Harry disse bufando do outro lado da linha. E eu acabei rindo da sua frustração fingida.
– Qualquer veículo que não seja de funcionário só entra na empresa com a minha autorização, H. – Eu sorria enquanto falava, era bonitinho vê-lo daquele jeito.
Então, por favor, diz para ele que eu posso entrar?
– Ok. Espera na linha. – Respondi e peguei o meu telefone fixo, discando o ramal da portaria. – Oi, George. É você quem está na portaria aí hoje? Tem um cara alto com um cabelo bagunçado te atormentando aí, não tem? – Eu ri com a resposta do porteiro. – Pode deixá-lo entrar sim, ele veio me buscar. Obrigada. Não, não, você está certo, eu sei que ele disse que me conhecia, mas você tem que confirmar comigo, sim. Ok. Obrigada! – Desliguei e voltei a falar com Harry. – Pronto, manhoso. Pode entrar. É só seguir reto e parar logo na segunda entrada, embaixo do toldo fixo.
Obrigado, . – Ouvi Harry quase gritar. – O porteiro acabou de abrir o portão. – Voltou a dizer com a voz normal.
– Ótimo, agora para de provocar o porteiro, você não tem cinco anos. – Eu ri e desliguei o telefone, eu estava com essa mania sem educação de não me despedir para finalizar as ligações também, exatamente como eles faziam. Peguei minhas coisas e saí da sala em seguida, após trancá-la. Lucy ia embora trinta minutos antes de mim, já devia estar no seu dormitório na faculdade, que ficava à menos de vinte minutos da empresa.
Harry e eu paramos na pizzaria próxima ao meu apartamento, ele quase sempre pedia alguma vegetariana ou sabor marguerita, estava numa onda de parar de comer carne, o que eu achava muito legal, então sempre que estava com ele tentava não comer também. Levamos duas pizzas, porque uma ele comia sozinho. Por isso esse garoto acorda tão cedo para correr, tem que queimar esse monte de calorias.
Dividimos a viagem do elevador com a vizinha da porta ao lado, ela parecia vir do supermercado com a filha de uns dez ou onze anos. Harry carregava nossas pizzas e, por fim, minha bolsa, quando paramos em frente à porta e eu precisava destrancá-la. Tinha um truque irritante na fechadura que eu ainda não havia aprendido, eu deveria ter vergonha na cara e substituir por uma nova, sem esse problema.
– Sabe, eu já estou cansada dessa moto e depois de hoje, eu não posso mais adiar a compra de um carro. – Eu dizia para Harry parada na entrada, ainda tentando abrir a porta. – Essa semana, se você estiver à toa algum dia, você pode ir comigo olhar um?
– Claro, . Eu conheço uma agência muito boa aqui. – Ele respondeu prontamente. – Você quer… quer que eu tente abrir?
Argh. Que ódio dessa fechadura! – Eu reclamei pegando minha bolsa e as pizzas e trocando pela chave com Harry. – E pelo visto não é só a minha fechadura. – Completei ao ver a vizinha com o mesmo problema.
– Essas fechaduras sempre tiveram esse problema. – Para a minha surpresa, ela respondeu. Eu nem sequer sabia o seu nome.
– Pois é. Você sabe se podemos trocar? – Eu respondi, me sentindo uma péssima vizinha. A filha dela estava vidrada nos encarando sem falar nada, sem nenhuma expressão no rosto. Um pouco esquisita, eu diria.
– Acho que precisamos ver com o síndico.
– Consegui! – Harry quase gritou. A vizinha abriu sua porta em seguida.
– Hm, ok. Obrigada e até mais. – Eu falei quando Harry pegou as caixas das minhas mãos e entrou para dentro após se limitar a dizer um simples “tchau” com um aceno para elas.
Harry colocou as pizzas na mesa de centro da minha sala e eu fui até a cozinha pegar um prato e talheres para mim, ainda não havia me acostumado a comer pizza com as mãos, não havia nem mesmo me acostumado com aquela pizza em si. No Brasil nunca conseguiria pegar uma fatia com as mãos sem deixar o recheio todo cair, essas pizzas dos Estados Unidos não tinham um recheio digno. Sim, eu estou sendo exagerada e reclamona.
– Sabe aquela rom-com que eu disse que ia assistir mais cedo? – Harry perguntou quando eu voltei para a sala.
Ele já tinha tirado os sapatos e colocado os pés para cima do sofá, e estava com o controle na mão, havia acabado de ligar a SmartTV e a página principal da Netflix aparecia na tela.
– Hum, sim? – Confirmei.
– Bom, já que acabamos combinando a pizza e eu vim para cá, pensei que podíamos assistir juntos. – Harry sugeriu despreocupado.
– É claro que sim. – Eu sorri. – Só vou tomar um banho antes. – Eu virei as costas para sair do cômodo. – Ah! Eu esqueci de pegar as bebidas na cozinha. Você pega lá, por favor? – Eu pedi.
– O que você quer beber? – Harry perguntou colocando os pés para fora do sofá, sem se preocupar em pisar no chão com as meias brancas. Ainda bem que eu tinha limpado a casa.
– Bom, tem refrigerante, suco e cerveja na geladeira. E vinho no armário. Pode escolher e eu bebo o mesmo com você. – Falei e fui para o banheiro.
Deus! Como eu precisava de um banho. O dia havia sido como qualquer outro, bem corrido. Era bom poder relaxar os músculos na água quente, e apesar de estar frio, lavar o cabelo. O bom das casas nos Estados Unidos era que tinham aquecedor junto com o ar condicionado, mesmo numa cidade quente como Los Angeles.
O alto-falante do meu celular soava alto com a voz de Ed Sheeran cantando Little Bird, e eu cantava junto em uma performance improvisada no banheiro, uma mão acabando de enxaguar o cabelo e a outra segurava o shampoo como um microfone, quando a música foi interrompida pelo toque clássico de chamadas do iPhone, alguém estava me ligando.
Coloquei a embalagem de volta no lugar e fechei o registro, abri um pouco o box do banheiro e havia tanta fumaça que eu só via a tela embaçada, tive que sair e só assim vi que era minha mãe.
– Boa noite, dona Anne. – Eu falei ao atender, abrindo a porta do banheiro e indo ao guarda roupas.
Já te falei para parar de me chamar assim! – Ela chamou minha atenção do outro lado da linha.
– Oxi! Mas esse é o seu nome. – Fingi inocência e ri em seguida. – Espera aí, fica na linha, acabei de sair do banho, vou vestir roupas. – Coloquei o telefone no autofalante.
‘Tá bom. – Ela respondeu e começou a falar com alguém, provavelmente o meu pai.
Eu vesti um conjunto moletom cinza que havia trazido do Brasil. O moletom era de gola careca e liso e a calça tinha um elástico nos calcanhares e calcei um par de meias brancas novinho. Se minha mãe visse isso me mataria.
– Pronto. – Falei ao pegar o telefone de novo em cima da cama e abrir a porta do quarto para ir para a sala.
Tudo bem? – Ela perguntou.
– Sim e vocês?
Nós também. Só liguei para saber como você está. – Parei no batente da porta da sala penteando os cabelos, Harry virou para me olhar.
– Eu acabei de chegar do trabalho. Comprei pizza e Harry e eu vamos assistir um filme.
Harry pendeu a cabeça levemente para o lado direito ao conseguir identificar seu nome na conversa. Minha mãe sabia que eu era fã dele e recebeu updates logo nas primeiras horas em todas as primeiras vezes que vi Harry. Quando andar com ele se tornou um hábito, eu parei de contar cada passo que dávamos juntos e cada mínimo detalhe do que tínhamos conversado.
– É a sua mãe? – Harry sussurrou apontando para o telefone e eu só balancei a cabeça concordando.
Ele sabia que eu conversava sempre com a minha mãe, mas eu nunca tinha recebido uma ligação dela ou ligado para ela enquanto estivesse com ele, então nunca tinham se “falado”.
– Mãe, o Harry quer dizer oi. Vou te ligar por vídeo. – Falei desligando em seguida e fazendo uma chamada de vídeo pelo whatsapp.
Sentei ao lado de Harry no sofá e em seguida ela atendeu.
Oi, Reuri. – Ela falou e começou a acenar. Eu ri do jeito que ela falava o nome dele e Harry sorriu conquistador acenando de volta.
– Oi, Anne. Too-do baim? – Harry respondeu em português dizendo uma versão inglesa com sotaque britânico do nome dela. – Você tem o mesmo nome da minha mãe. – Ele voltou a falar em inglês.
– Ele disse que você tem o mesmo nome da mãe dele. – Eu traduzi.
Sério? Que coincidência. – Ela respondeu rindo, toda feliz. – Seu pai também quer dizer oi. – Disse e passou o telefone para a mão dele.
Oi, . – Meu pai disse alterando o olhar entre mim e Harry, que dividíamos a tela.
Fala oi pro menino, esse é aquele cantor que ela gosta, o Reuri. – Eu ouvi minha mãe dizer antes de seu rosto aparecer de novo na tela, junto ao meu pai.
Eu segurava uma risada. Por mais que não tivesse nada engraçado por ali, o jeito que minha mãe falava me dava vontade de rir.
Oi. – Ele disse direcionado a Harry e acenou.
Boa noite, Sr. William. – Harry respondeu um pouco mais sério e sorriu ao acenar de volta.
– Ok! É isso. Estão bem mesmo? – Perguntei para meus pais que acenaram e murmuraram que sim. – Então tá bom, vou desligar porque vamos assistir um filme agora. E já são dez da noite aí, daqui a pouco vocês vão dormir.
– Você é a cópia da sua mãe. – Harry disse quando desliguei o telefone.
– Eu poderia dizer o mesmo de você e a sua. – Retruquei e rimos.
Uma taça de vinho e uma fatia e meia de pizza depois e acabei dormindo com a cabeça nas pernas de Harry na primeira meia hora de filme. Por que não podíamos ter bebido refrigerante? Eu tinha certeza que teria ficado acordada.
Só acordei quando o filme acabou, com Harry me chamando.
– Ei… vai dormir na sua cama. – Ele sussurrou tirando o cabelo do meu rosto.
– Hm? Quanto tempo eu dormi? – Perguntei ainda sem me mexer.
– O filme todo. Eu vou embora. – Ele disse e eu me arrependi mais ainda de ter dormido.
– Não! Fica aqui. – Pedi sonolenta e abracei as pernas dele, dormindo novamente em seguida, vencida pelo cansaço.

*

Acordei no outro dia na minha cama ao ouvir meu celular despertar na sala. Andei até lá ainda meio sonolenta e dei de cara com Harry dormindo no sofá todo encolhido debaixo do edredom que tinha levado para assistir ao filme e abraçado a uma almofada. Uma cena fofa, para dizer o mínimo. E ele dormia pesado, né? O celular gritava na cara dele e ele nem se quer se mexeu.
Fui até a cozinha e fiz um café preto do jeito que ele gostava, passei um pouco do creme de abacate nas torradas porque também sabia que ele gostava e, para falar a verdade, eu só tinha aquilo por causa dele. Coloquei duas xícaras com café para nós e as torradas num pratinho e levei para a sala, deixando em cima da mesa antes de chamá-lo.
– Harry? Harry! – Sussurrei passando a mão esquerda em seu ombro meio descoberto pelo edredom.
– Hm. – Ele murmurou exatamente como eu fiz na noite anterior.
– Acorda, eu preciso trabalhar. – Eu falei com a voz mansa e ele abriu os olhos e se levantou devagar. – Eu fiz café.
– Bom dia! – Ele sorriu olhando para mim e para as torradas em seguida. – Obrigado.
– Por nada. – Sorri de volta. – Como eu fui parar na cama? Eu me lembro de ter dormido no seu colo.
– Você é meio doida, não é? – Ele perguntou rindo enquanto mastigava. – Eu assisti mais dois ou três filmes com você dormindo e já estava bem tarde e eu fiquei com medo de te acordar e você não conseguir dormir de novo, porque você me disse aquele dia que às vezes acordava de madrugada e não conseguia dormir mais, lembra? – Eu assenti. – Então, eu meio que escorei a cabeça aqui no encosto do sofá e dormi também.
– Você tá falando sério? – Eu perguntei rindo. – Nossa, mas você deve ter ficado com as costas doendo.
– Então, a parte de você ser doida é que, pouco tempo depois, eu acordei com você levantando, aí te perguntei “onde você vai?” e você me respondeu com voz de bêbada “vou no banheiro.” e saiu andando do cômodo, eu aproveitei para deitar direito no sofá e fiquei te esperando. E eu acabei dormindo de novo, ou seja, passaram mais de dez minutos e você não voltou. – Eu comecei a rir.
– Nossa, eu devo ter ido ao banheiro e voltado direto para a cama, meio dormindo, é claro. Eu não devo ter lembrado que tinha dormido na sala.
– Por isso eu disse: doida. – Ele riu junto comigo. – O café estava uma delícia – Ele elogiou se levantando para levar o prato e as xícaras na cozinha.
– Pode deixar que eu levo. – Eu falei e peguei da sua mão.
– Você quer que eu te leve para o trabalho de novo? – Ele gritou da sala. E eu olhei pela janela da cozinha.
– Não, não está chovendo mais. Eu vou de moto. – Eu respondi ao voltar para a sala. Eu estava atrasada, não ia dar tempo de tomar banho, só troquei de roupa e saímos.
– Se chover à tarde me liga, eu te busco. Eu vou estar dormindo depois de ter acordado tão cedo. – Harry disse rindo e saindo com o carro que estava estacionado em minha vaga no prédio, eu saí em seguida com a moto que estava na minha outra vaga.
A única pessoa, além da minha mãe, que eu contava sobre Harry era minha melhor amiga, . Ela odiava me ouvir falando dos artistas que eu gostava, tanto, ou mais do que a minha mãe. Um pouco antes de Lucy chegar para trabalhar, eu liguei para ela para conversarmos. Eu adorava Lucy, e ela sabia que eu já conhecia o Harry, mas eu preferi não entrar em detalhes sobre isso, porque ela estava ali, perto. O tempo todo. E eu não sei, tinha medo de expor Harry de alguma forma. estava no Brasil e só sabia quem era Harry Styles por minha causa, então não era como se ela fosse contar para alguém que eu tinha ficado amiga dele.
– Oi, Florzinha! – Ela disse ao atender a ligação.
– Oi, Docinho!
Juntas, sempre nos chamávamos de “As Meninas Superpoderosas”, sempre fomos só eu e ela, unidas, e nunca tivemos uma terceira amiga muito próxima para completar o trio. E ela, mesmo tendo demonstrado ciúmes no começo, gostou de saber que agora eu tinha uma versão dela em LA, e que eu até chamava-a de Lindinha.
A que devo a honra da sua ligação neste fim de tarde? – Isabella perguntou debochada. Ela provavelmente também estava trabalhando.
– Sabe que aqui não são nem meio dia, né?
E daí? Eu não tô nos States não, minha filha. – Ah! Educada como uma porta.
– Ah, cala a boca. – Rimos. – Eu tenho que te contar uma coisa antes que eu fique doida.
Então fala logo, inferno.
Contei que Harry tinha dormido na minha casa e eu estava estupidamente emocionada.
– Aí, . Ele é tãooooo lindo, sabe? Eu tinha que contar para alguém que Harry Styles dormiu no meu sofá. – Eu ri depois de sussurrar seu nome. – Parece surreal quando eu digo isso, uns meses atrás eu nem sabia como era ver aquele rostinho perfeito de perto. E hoje eu acordei com ele na minha sala, dormindo igual a um anjo, os cachos caindo pelo rosto… – Suspirei nostálgica, embora a lembrança ainda fosse fresca em minha memória. – Caralho, sabe? Esse garoto não tem um defeito, porra. Que raiva. – Era ótimo poder me expressar devidamente na minha língua.
Aí, . Você é nojenta com esse garoto. Parece que tem quinze anos. – Ela riu entediada do outro lado da linha.
Eu sabia que não era para tanto e, no geral, eu conseguia ser bem equilibrada quando o assunto eram os meus ídolos. Mas, às vezes, eu não sei o que acontecia comigo… Uma coisa tão simples como um amigo adormecer no seu sofá, eu conseguia falar como se parecesse querer transformar numa coisa grande. Eu não queria. Até porque eu sei que parece muito idiota fazer um alarde desses por causa de algo tão casual. Mas eu simplesmente não conseguia evitar.
– Me deixa ser fã? Você que não viu ele ainda, você tem que ver. Ele é um fofo e, puts, gato pra caralho. – Suspirei de novo – Você tem que conhecer ele, sério.
Por falar em conhecer… Eu marquei minha entrevista do visto. disse como se não fosse nada demais.
– Você tá falando sérioooooooo? – Gritei no telefone. – Meu Deus!!! É quando? Você já comprou as passagens? Você tinha me dito que nem sabia quando ia tirar férias ainda, idiota!
Pois é, eu consegui as férias. Mas infelizmente não vão ser para dezembro, não vou poder passar o natal com você. O máximo que consegui foi para a segunda semana de novembro, mesmo ficando o mês todo com você, eu vou ter que voltar no máximo dia 14 de dezembro.
– Aí que merda! Que chefe horrível, por causa de dez dias vou ficar sozinha. – Dramatizei. – Mas ainda assim ‘tô muito feliz que você vem mesmo. – Depois falei animada.
Calma, , não emociona não. Eu ainda preciso do visto. disse com voz de tédio e eu tenho certeza que ela revirou os olhos, porque eu peguei essa maldita mania dela.
– Táaaaa! Nossa, garota chata. Não me deixa nem ficar feliz. Quando é sua entrevista?
Mês que vem, ainda. Mas já estou olhando as passagens, vou te contando.
Conversamos mais um pouco e logo Lucy chegou e fomos almoçar. O dia transcorreu normalmente. Choveu um pouco depois do almoço, mas nada como no dia anterior e já havia passado quando fui embora.
Eu estacionei a moto na minha vaga e subi pelo elevador sonhando com o banho que me esperava em casa. Assim que as portas se abriram no meu andar, eu já torcia para que a chave não me fizesse raiva de novo. Quando eu coloquei a chave na fechadura, a porta da vizinha ao lado da noite anterior se abriu, e a menina, filha da mulher, olhou para mim parada na porta.
– Oi. – Eu cumprimentei educada, abrindo a porta na primeira tentativa.
– Oi. – Ela respondeu de volta olhando para os dois lados do corredor e depois fechando a porta novamente.
Crianças!
Esqueci desse fato quando entrei para casa indo direto para o banheiro, dessa vez a playlist que tocava era um mix de todas as músicas já lançadas da One Direction na carreira solo e nenhuma ligação interrompeu meu show particular.
Demorei no banho mais do que previ e acabei tendo que me arrumar correndo para ir à aula. É, infelizmente eu ainda tinha um mestrado para concluir.

*

Sexta feira e nada de Happy Hour para mim. Fui direto para casa trabalhar no meu projeto. Havia tantas coisas para fazer e eu tinha marcado aplicação com o meu orientador para dali duas semanas. Eu amava pesquisar, mas não era nada fácil. Eu já estava lendo e cruzando informações da leitura com a minha pesquisa há umas três horas. Não aguentava mais! Levantei da mesa, alonguei um pouco o corpo e peguei o celular ligando a internet para ler as notificações que tinha recebido.

05:30pm: Ei, ! O que acha se formos olhar seu carro hoje?

Ih! Foi mal, Harry. Mas agora já era.

08:08pm: Oi! Desculpa. Não vi sua mensagem, estava estudando. Podemos deixar para amanhã?

Respondi e fui até a cozinha para fazer um lanche, um misto quente, talvez. Era horrível esse hábito americano de lanchar no almoço e fazer uma refeição completa na janta. Eu não sabia acompanhar. Mas também não aguentava mais comer pizza à noite.

08:10pm: Amanhã eu não posso. Vou
para o estúdio.

08:11pm: Okay! Sem problemas. Semana que vem?

08:13pm: Combinado! Como foram
os estudos?

08:15pm: Cansativos. Parei agora porque preciso comer algo. #fome

Eu ainda estava em pé na cozinha em frente aos armários enquanto digitava as mensagens.

08:15pm: Que tal jantarmos fora?
Restaurante Mexicano. Por minha conta.

08:16pm: Você é um sonho!

08:16pm: Sou mesmo, haha. Passo aí em
meia hora.

Larguei o celular na bancada da cozinha e saí correndo para o quarto, tomando uma ducha rápida, pois já tinha tomado banho ao chegar do trabalho.
Harry como o britânico incurável que era, chegou na hora exata. Com uma camisa de botões branca totalmente amassada por cima de uma camiseta também branca.
– Garoto, você foi perseguido por alguém antes de chegar aqui? – Eu perguntei assim que abri a porta e vi seu estado.
– Muito engraçada. Sério! – Fingiu rir. Bem sarcástico. – Mas não. Eu só fiquei com preguiça de passar essa camisa depois de pegar da pilha de roupas não passadas que estava na lavanderia. A mulher que arruma a casa e passa as minhas roupas só volta segunda.
– Você tem milhões de camisas, Harold. – Eu balancei a cabeça negando e rindo.
– Mas eu queria vestir essa, . – Deu de ombros e fez um bico.
– Okay, vamos lá no quarto que eu vou passar para você. – Eu falei largando a porta aberta e indo para dentro.
– O quê? Não precisa, babe. – Eu parei e virei para trás.
– Você acha que eu vou sair com você usando essa camisa toda amassada? É claro que não, meu querido. – Falei brincando – Anda, vem cá.
Harry obedeceu fingindo ultraje e, enquanto eu passava a peça, ficava tentando me alfinetar dizendo que eu tinha vergonha de sair com ele. Era o drama usado sempre que eu pedia para que ele fosse discreto quando estávamos juntos. Um carro menos chamativo, menos conversa fiada nos restaurantes, que ele sempre conhecia o dono ou gerente… Não era pedir demais, era? Não queria meu rosto estampado em nenhum site.
Harry colocou uma playlist para tocar no caminho até o restaurante. Era uma bela noite de verão. Nem parecia que havia chovido uns dias atrás. O gosto musical dele era impecável, o que tornava o clima ainda mais agradável. Enquanto ele dirigia cantarolando junto com a música, eu escutava em silêncio e de olhos fechados, para apreciar melhor sua voz.
– Adorei essa música. De quem é? Tem um ar meio anos 70. – Eu perguntei assim que uma música em específico terminou.
– É do álbum novo de uma artista chamada King Princess. – Harry respondeu. Então era uma música nova, concluí. – Estou pensando nela para abrir alguns shows da minha próxima turnê.
– Hmmm, então vai ter uma próxima turnê? – Eu perguntei com um sorriso de lado.
– Mas é claro! Isso não é segredo. – Harry me respondeu sem tirar os olhos do trânsito.
– Vai ter Brasil? – A fã dentro de mim gritou para que eu perguntasse isso.
– Provavelmente, sim. Não é como se pudesse deixá-los de fora. – Deu de ombros.
Eu tinha que aproveitar momentos como aquele. Harry não era muito de falar sobre o trabalho, não sabia se era por causa da desconfiança e medo de algo vazar, ou se era simplesmente porque ele não gostava de ficar falando sobre, mesmo. De qualquer forma, eu aproveitava momentos como aquele. Era fácil de ler suas expressões de quem não estava incomodado em responder. Ele falava tão naturalmente quanto era possível enquanto dirigia atento.
– No próximo show dela em Los Angeles, você quer ir comigo?
– Claro! – Eu respondi animada. – Se você não estiver namorando de novo até lá e a sua namorada me odiar.
Eu não sei de onde esse comentário idiota saiu, mas fez com que Harry risse.
– Vamos nós três, nesse caso.
– Tomara que seja um namorado, porque homens não tem tendência de odiar as amigas dos namorados.
Harry me olhou imediatamente com os olhos meio arregalados e eu só dei de ombros, com uma expressão de inocência no rosto.
. – Me chamou depois de alguns segundos em silêncio. – Eu queria te contar uma coisa, mas eu não sei se é apropriado.
Oxi!
– O quê? – Perguntei curiosa. – Pode me contar. Somos amigos, você pode me contar o que quiser.
– É que, bem… eu- eu tive um encontro ontem. – Falou depois de muito gaguejar.
– E isso é muito legal! Por que não seria apropriado? – Eu coloquei uma perna cruzada em cima do banco e virei levemente para seu lado, dando lhe completa atenção.
– Eu não sei se você ficaria confortável comigo te contando algo assim, entende? Uma coisa é eu te contar algo que aconteceu, está no passado. Outra é contar algo atual.
– Não, não há problema algum. E como foi?
– Foi a primeira pessoa que eu tive um encontro de verdade, depois de… bem, tudo o que aconteceu.
Uau, que revelação. Faziam meses desde que a turnê tinha acabado, isso porque eles não se viam há um bom tempo antes.
– E como foi? – Perguntei de novo. – Você gostou? Onde foram?
– Sim, eu gostei. Ele é muito legal. Eu pedi um delivery na minha casa. – Harry terminou de responder rindo.
– ELE? – Eu falei um pouco mais alto do que o normal. – Senhor, por favor, que venha um namorado em vez de uma namorada. – Eu falei de olhos fechados enquanto juntava as mãos e as levantava para o alto, em uma oração dramatizada.
– Para de graça, . – Ele tirou uma das mãos do volante para abaixar as minhas. – Não é como se eu fosse namorar com o cara.
– Por que não?
– Porque eu nem conheço ele, por isso.
– Droga. – Fingi estar triste. – E ele é bonito? – Olhei com uma expressão de malícia.
– Ele é muito bonito. – Harry sorriu de lado, meio envergonhado.
– Não precisa fazer essa cara de tímido para mim não, porque eu sei que você é um sem vergonha.
! – Harry me repreendeu, agora gargalhando.
– O quê?
– Essa… essa não é a reação que eu esperava.
– O quê? – Perguntei de novo. – Você achou que ia me contar que pegou um cara e eu ia ficar chocada? Até parece.
– Bom, não é como se eu saísse por aí comentando sobre o meu interesse nas pessoas. Então não sabia bem o que esperar da sua reação.
– Bom… – Eu repeti sua fala. – Não é porque você não sai por aí comentando que a gente não saiba. – Eu disse me referindo aos fãs.
– Ahn, okay?
– Okay! Agora me conta mais sobre.
– Eu não sei, foi legal. Mas eu ainda me sinto… preso? – Harry me olhou brevemente enquanto falava.
– Você ainda gosta dela, isso é normal. – Dei de ombros.
– Eu não quero criar nenhum vínculo com ninguém, porque agora isso pareceria falso, como se eu só quisesse enganar a pessoa.
– Menos mal. Achei que você ia falar que parecia que estaria enganando a ela.
– Não! Eu não sou idiota. – Eu pendi a cabeça para o lado e levantei uma sobrancelha. – Eu não sou tão idiota. – Ele revirou os olhos. – Não é como se eu achasse que a devo alguma lealdade.
– Ufa! Isso prova que você é aquariano. – Eu estourei uma bolha com o chiclete.
– Sabe uma coisa que eu não gosto em você? – Harry fixou o olhar em mim assim que parou num sinal vermelho.
– Hm? O quê? – Eu perguntei rindo, eu já sabia o que ele ia dizer.
– Você é uma sarcástica insuportável. – Ele riu também. – Ainda mais quando masca esse chiclete e revira os olhos. Parece uma versão de mim, só que com um humor muito mais ácido.
– Você está me culpando de quê? Essa mania de mascar chiclete o tempo todo eu peguei de você! – Eu disse apontando para sua boca, que também tinha um chiclete.
– Que mentira, você já ficava com chiclete o tempo todo desde que nós conhecemos. – Replicou acusatório.
– Claro, Styles! – Eu revirei os olhos. – E eu não te acompanho desde que você usava aqueles sneakers roxos horríveis no pé, não é mesmo?
– Ah! – Ele coçou a cabeça, rindo sem graça. – É verdade, não é?
– Você é meio lerdo às vezes, não é? – Debochei.
– Eu sempre me perguntei de que gosto é o seu chiclete. – Comecei a rir pelo comentário avulso e, talvez, um pouco sugestivo.
Então coloquei a língua para fora, tirando a atenção de Harry do trânsito que virou imediatamente a cabeça para me olhar.
– É de morango. – Dei uma piscadela antes que ele voltasse a olhar para frente.

Nota da autora: Eu tenho outras fics que você pode acessar aqui:
The Spaniards’ Girl
Just Another Hotel Room

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7. Don’t say a word while we dance with the devil

OUTUBRO, 2018
5 meses atrás

Mal começou o mês e eu saía de mais uma das milhares de reuniões completamente exaustivas que estava participando nas últimas semanas. Henry Campbell (aquele bonitão que a Lucy gostava de almoçar junto) estava nessa reunião, que foi sobre planejamento entre o staff. Saiu da sala junto comigo resmungando sobre a dupla pressão que estava sofrendo.
– E além de ter que demonstrar os resultados das metas propostas para o Sr. Stein, ainda preciso lidar com esse cliente que ultimamente está sendo uma pedra no meu sapato! – Henry desabafava a caminho do refeitório para o almoço mais tardio que eu já havia feito desde que me mudara.
Todos os outros presentes na reunião haviam feito a pausa para almoço no horário certo, tendo voltado algum tempo depois, mas Henry e eu optamos por ficar montando a estratégia para atender a demanda desse cliente que realmente estava começando a afetar mais setores.
Henry era supervisor regional de vendas, um cargo parecido com o meu, a única diferença é que eu era supervisora de filial, ou seja, só era responsável por essa em que trabalhava, enquanto ele era responsável por essa e mais duas filiais da Califórnia. Mas vendas e logística são setores que andam juntos e por isso precisávamos resolver em conjunto.
– Por causa da limpeza das caixas de água, fizemos a comida com quantidade um pouco menor, porque era o que tinha disponível de água. Infelizmente acabou. Achamos que todos já tinham almoçado. – Kiara, a nutricionista da empresa disse assim que foi abordada por nós. Faziam essas limpezas de tempos em tempos, era algum padrão de qualidade para manter as certificações ambientais.
– Bom, tudo bem. Podemos almoçar em algum restaurante aqui perto. Obrigado! – Henry disse para Kiara e eu sorri, em seguida demos meia volta em direção a saída do local.
Assim que chegamos ao primeiro andar, eu planejei ir para a minha sala para pedir alguma comida, pois pensei que Henry havia dito no plural, eu e ele, apenas por educação, já que havíamos ido juntos até o refeitório. Não queria ser inconveniente e me auto convidar para o acompanhar.
– Bom, então vou para minha sala. – Eu disse apontando para a direção que eu deveria seguir no corredor.
– O quê? Você não vai almoçar comigo? – Ele perguntou surpreso.
– Você não me chamou para ir com você, não quis ser intrometida. – Dei um risinho.
– Ah, para. Vamos? Só sobrou nós dois sem comer. – Ele riu.
– Eu só vou até minha sala pegar minha bolsa. ‘Tô morrendo de fome. – Finalizei com uma risada.
Saí andando depressa antes que conseguisse ouvir sua resposta. Abri a porta em um baque surdo, assustando Lucy que estava concentrada escrevendo um e-mail.
– Onde você estava? – Ela me perguntou com a mão no peito devido ao susto. – Você quer me matar?
– Reunião com todos os supervisores. – Fui até o armário onde guardava minhas coisas. – Desculpe pelo susto, eu só vim buscar minha bolsa. Acredita que acabou a comida?
– Quando eu almocei, sozinha, sabe? – Enfatizou dramatizando. – Havia uma pilha de pratos na pia da lavanderia. Então eu imaginei que estavam fazendo limpeza. Você sabia que não podem lavar nada quando estão fazendo isso? A engenheira de segurança que me contou esses dias.
– Sabia. É porque a água fica retida em um outro reservatório, só liberam o suficiente para manter o funcionamento dos bebedouros e descargas. Não daria pra gastar lavando pratos, não é? – Respondi rindo. – Desculpa não ter respondido suas mensagens. O Sr. Stein estava no nosso pé. – Falei parando na porta.
– Aonde você vai?
– Almoçar fora. Com Henry. – Respondi pausadamente.
– Mentira! – Ela falou girando a cadeira de volta à frente do computador e depois de frente para mim de novo, a boca permanecia aberta em surpresa. – Mentira! – Repetiu de novo.
– Ficamos nós dois fazendo um planejamento enquanto todo mundo almoçava. Só nós dois ficamos sem almoço. – Dei de ombros, como se não fosse nada demais.
– Mentira! – Falou de novo, só que dessa vez pausadamente enquanto um sorriso nada inocente surgia em seus lábios.
– Para de colocar coisas na minha cabeça. – Censurei-a.
– Eu não falei nada. – No entanto ela já ria.
– Não falou agora.
– Só você que é cega e não vê que ele dá mole para você o tempo todo. Só falta latir quando você passa. Igual um cachorrinho.
– Você que está vendo coisas, Lucy. Ele só é educado.
– Educado? – Lucy bufou. – Você lembra aquele dia que cheguei atrasada e quando você ia se sentar sozinha, ELE te chamou? Como foi que ele disse mesmo? “Não vai sentar comigo hoje, ? Só porque sua cria não está aqui?” – Tentou imitar a voz de Henry. – Você mesma me contou quando eu cheguei!
– Tchau, Lucy. – Encerrei o assunto e fui embora batendo a porta, deixando minha estagiária rindo para trás.
Fomos no restaurante mais próximo da empresa e sem tempo para muita conversa devido à fome, fizemos pedidos simples que ficariam prontos mais rápido, pelo menos eu pensei dessa forma, a esfomeada.
Preciso falar um pouco sobre Henry. Ele era o tipo de cara inteligente, charmoso e esperto. Fora a polidez e elegância típica de uma pessoa que exercia um cargo como o dele. Tinha por volta de 40 anos e era muito bem-sucedido, ainda quando jovem, recém-formado, subiu rapidamente de cargo na empresa, e mais rápido ainda investiu bem seu dinheiro, atualmente tendo um capital digno de dar inveja, o qual o possibilitava de não trabalhar mais se não quisesse devido as várias rendas advindas de investimentos de alto nível. Pelo menos eram o que as más línguas falavam.
A fama dele o precedia, assim como os carros luxuosos, tão caros quantos os de Harry, as viagens com hospedagens em hotéis mais luxuosos ainda. Divorciado, um casal de filhos adolescentes e uma ex mulher tão extravagante quanto ele. Eu estaria mentindo se dissesse que ele nunca havia me interessado, mesmo que um pouquinho. Mas relacionamentos afetivos entre funcionários era extremamente proibido.
Eu descobri através de Henry que eu também tinha uma fama que me precedia. Algumas teorias sobre a minha chegada na empresa eram especuladas, mesmo depois de mais de seis meses. Alguns falavam que eu tinha parentes que eram amigos dos herdeiros e atuais donos da empresa e por isso tinha conseguido ir para lá, desmerecendo minha competência, talvez pela minha nacionalidade. Outros diziam que eu havia dormido com alguém, porque não tinha a “menor chance” de uma mulher estar à frente de um setor que era majoritariamente comandado e executado por homens, afinal, “mulher nenhuma entende tanto assim de automóveis e veículos”. Essas foram algumas das frases que Henry reproduziu para mim.
– Já tem um tempo que eu queria comentar sobre isso com você. Mas no refeitório até os garfos tem ouvidos. – Exalou uma risada.
– E o que você acha? – Eu perguntei para ele, me referindo às teorias.
– Eu acho que pode até ser que você não entenda tanto assim de mecânica, por exemplo, afinal, você não estudou isso, não é? – Balancei a cabeça negando. – E que você pode até ter dormido com alguém, ou conhecer os donos, mas não acho que isso sejam coisas que interfiram, porque se eu tinha alguma dúvida da sua competência plena para gerir aquele setor, esse almoço me fez ter certeza absoluta de que você sabe o que você está fazendo e está fazendo com louvor. – Ele concluiu e eu sorri. Mal sabia eu que ali ele tinha me ganhado.
– Obrigada. – Respondi um tanto sem graça, pois não estava sabendo como reagir diante daquilo.
– Você é uma das pessoas mais jovens entendidas da área de gestão que já conheci. Por isso digo que você até pode não entender de manutenção de veículos, mas você entende de liderança e planejamento para agir diante de qualquer situação. E pelas reuniões, você aprende estratégias muito fácil. – Henry continuou me elogiando. – Não querendo ser indelicado, mas quantos anos você tem?
– Faço 25 no final de janeiro.
– Você é bem jovem, tem um futuro e tanto pela frente, e bem promissor. Se me permite dizer, você me lembra um pouco a mim mesmo quando comecei também.
– Espero estar tão bem quanto você daqui dez anos. – Rimos.
– Aposto que sim. E com um plus que eu não tenho. – Ele falou misterioso.
– O quê? – Perguntei curiosa.
– Charme, simpatia. E beleza, claro.
Eu quase deixei meu queixo cair, porque isso não foi nem mesmo um flerte leve e despretensioso. Ele deu em cima de mim na cara dura. Meu coração deu um solavanco e discretamente coloquei a mão no peito. Aquilo foi realmente inesperado, eu acho que estava mesmo cega, como Lucy havia dito. Com o pensamento acelerado, torturada diante da ideia de algo proibido e que eu não deveria corresponder, crescia em mim a contraditória doce e azeda que era aquele jogo que eu definitivamente queria jogar.
Eu sorri exalando confiança antes de responder.
Eu poderia perder o meu emprego, mas eu também poderia fazer desse o nosso segredo. A escolha era minha. E eu decidi que queria dançar com o fogo.

*

Styles finalmente conseguiu um tempo para me acompanhar até a concessionária. Desde que me mudei, tenho juntado dinheiro para isso: um carro novo. Na verdade, tenho economizado desde antes de me mudar. Não sabia exatamente que carro queria, mas desejava um conversível, é um tipo de carro que eu nunca conseguiria comprar no Brasil, não era “popular” nos Estados Unidos, mas também não era um modelo considerado de extremo luxo que não pudesse ser comprado por uma pessoa que tinha um emprego como o meu. Eu estava indo bem, afinal. A vida estava sendo generosa comigo.
Eu estava descobrindo que Harry frequentava mais Malibu do que eu percebia. O fato não me surpreendeu, a surpresa foi por não ter pensado o quão isso era óbvio. Eu estava consciente 100% do tempo que Harry era uma celebridade, mas, às vezes, eu não percebia que certos estilos de vidas de famosos também era o mesmo que ele levava. Consegue me entender? Era como se eu estivesse consciente de que ele é uma celebridade e ao mesmo tempo o fato de Harry se encaixar nos estereótipos de “celebridade” não passassem pela minha cabeça. E eu, acostumada a frequentar somente o bairro para tudo que precisasse fazer, senti que a viagem de uma hora pareceu cinco minutos ao lado dele. Quando Harry disse que conhecia uma boa concessionária por aqui, mais uma vez questionei a minha inocência sobre obviedades. Eu nunca havia entrado em uma tão luxuosa quanto aquela.
Eu tive certeza que o vendedor até estava nos esperando quando vi ambos se cumprimentaram pelos nomes antes mesmo que eu pusesse meus dois pés dentro da imensa loja.
– Eu liguei para falar que precisava de um carro, gosto de vir na troca de funcionários. É mais vazio. – Harry me disse sussurrando quando questionei se o vendedor estava, de fato, nos esperando.
Eram duas da tarde de uma quarta-feira. Deixei Lucy cuidando de tudo com o aviso de que se surgisse algum imprevisto poderia me ligar. Era natural que Harry resolvesse toda sua vida nos meios das tardes dos meios de semana, afinal, como ele mesmo gostava de brincar, não tinha um emprego de verdade. E eu que me virasse para acompanhar.
É brincadeira, eu havia dito que conseguiria sair.
Mas Styles realmente falava sério sobre estar vazio. Havia somente duas vendedoras entre os carros expostos e um homem atrás de um balcão. Uma delas usava um Hijab e a outra, uma loira, ficou bastante agitada ao nos ver, quero dizer, ao ver Harry. Eu sabia que ela estava nervosa, por mais que ninguém mais pudesse notar, porque ela disfarçava bem. Mas eu também era fã, eu reconhecia os sinais. Eu não poderia pedir para que ela nos atendesse, porque aquele homem claramente era o vendedor fixo de Harry. Quem mesmo tem um vendedor fixo em uma agência de carros de luxo? Harry Styles, é claro. Tá aí o estereótipo celebridade.
O vendedor, Jordan, lembrava um pouco o cantor The Weeknd, numa versão engravatada. Será que só tinham pessoas bonitas em Los Angeles? Eu quis rir pensando sobre isso, mas disfarcei com uma tosse ridícula.
Jordan tagarelava sobre os modelos seguindo Harry igual à uma sombra enquanto este caminhava entre os corredores de carros, calado, apenas observando. Em algum momento me separei deles, ficando para trás ao gastar um pouco mais de tempo observando um Mercedes C-300 modelo 2019. Causava uma sensação estranha perceber que o vendedor claramente dava mais atenção para Harry, se preocupando em explicar tudo para ele, como se ele quem fosse escolher o carro. A dúvida era se isso acontecia por Harry ser o cara famoso e cheio da grana a ter que se agradar, ou por ele ser homem. Talvez um pouco dos dois.
Eu já estava acostumada com esse tratamento, sempre que eu ia às agências retirar algum caminhão comprado para a empresa e havia algum homem comigo, os vendedores homens sempre explicavam tudo olhando para eles. Era interessante observar que, quando era uma vendedora, eu era o foco da atenção.
– E o Tesla 2019 está chegando com tudo no mercado ano que vem. – Eu ouvi o vendedor falando quando Harry parou ao meu lado, eu havia agachado para olhar melhor as rodas.
– Jordan, não sou eu quem você tem que convencer. – Harry riu. – Como eu disse no telefone, o carro é para essa minha amiga aqui. Eu só vim trazê-la. – Completou apontando para mim, que me levantei.
– Oi. – Eu falei como uma resposta automática, nós já havíamos nos cumprimentado quando chegamos. Dei um sorriso de lábios fechados, como se dissesse “sim, ainda estou aqui”
– E-então… – Gaguejou, um pouco sem graça. – Gostou de algum modelo? – Perguntou e eu confirmei positivamente com a cabeça, mas não era hora para dar respostas mudas.
– Esse Mercedes definitivamente parece ter me conquistado.
– Ah, sim. Esse é o modelo 2019 do…
– C-300, conversível. – Eu interrompi e dei uma batinha de leve no teto. – Eu não abri o capô, mas deve ser o modelo automático de 258 cavalos e vai de… – Parei para pensar. – E vai de 0 a 100km/h em 5,9 segundos. Estou certa?
– Sim, isso mesmo. – Concordou perplexo.
Eu poderia fazer uma breve ficha técnica de cada um dos veículos que estavam ali.
– Eu até gosto dessa dinâmica de altura e largura dos pneus serem diferentes nas traseiras e dianteiras, mas essa roda aqui não está muito bonita. – O tamanho dos pneus eu não sabia mesmo, tinha me agachado justamente para conferir, não que ele precisasse saber disso.
– Esse é o modelo de fábrica, mas temos outros quatro tipos disponíveis se você quiser escolher. Só um momento, eu vou buscar o iPad.
Harry estava de frente para o carro de braços cruzados, com um sorriso torto lateral. Mas não disse nada. Eu cruzei os braços também.
– Esse carro é incrível.
– Achei que não gostasse de conversíveis. – Harry replicou.
– Eu gosto, só não gosto quando eu estou num conversível com a capota levantada ao lado de um dos rostos mais famosos da atualidade. – Dei de ombros.
– Assim você me ofende. – Harry fingiu estar magoado colocando uma mão no peito. – Achei que você adorava andar de carro comigo.
– É a parte mais legal de sair com você. – Lancei uma piscadela.
Jordan já estava de volta na metade da conversa e me entregou um iPad com o site da marca aberto no carro que eu havia escolhido. Lá eu podia simular a personalização dos itens de acordo com a minha preferência. De cara troquei as rodas por de um modelo mais esportivo, o interior, incluindo os bancos, de bege e a pintura externa, num cinza.
Eu estava tão empolgada que nem havia visto quanto as personalizações custavam. Quando terminei, virei a tela para Harry ver, não que precisasse, já que ele estava grudado ao meu lado.
– Gostou?
– Você tem bom gosto.
– Sempre quis bancos bege.
– Parecem os do meu Tesla.
– É verdade! – Concordei. – Eu não estava me lembrando. Tem algum tipo de carro que você não tem, Styles? – Perguntei irônica.
– Você tem que ver a minha coleção em Londres. – Dessa vez foi ele quem lançou a piscadela.
Foi aí que eu olhei para a tela de novo e no canto superior direito estava o preço. Eu arregalei os olhos, estava quase sete mil a mais do valor que eu tinha. Teria que trabalhar mais quase dois meses para pagar aquele valor. Não daria para esperar. Puxei Harry para falarmos a sós.
– Meu Deus! – Exclamei baixo. – Eu acabei me empolgando e não vi o preço. Eu não tenho esse dinheiro todo. Vai faltar bem uns cinco mil. – Dois mil eu conseguiria se pagasse a outra metade do valor total na retirada.
– Você pode parcelar o resto. – Harry deu de ombros como se fosse simples.
– Harry, não é tão simples assim para um imigrante fazer um financiamento de veículo. Não se parcela tipo roupa, ou sei lá.
– Eu faço para você. No meu nome. – Ah, a generosidade inocente.
– Harry, esse valor é praticamente o meu mês todo de trabalho. Não dá. Ainda tem o emplacamento, as taxas. Fora que o carro teria que ir para o seu nome. Não, muita burocracia. Não dá mesmo. – Eu respondi e fui tirando algumas coisas.
– Eu pago para você. – Ele respondeu sem hesitar. Bufei ao revirar os olhos.
– Até parece que eu vou aceitar. – Cheguei até a dar uma risadinha. – As rodas eu posso trocar depois. – Só elas eram 1.600 dólares.
Voltamos para perto do vendedor sem falar nada. Continuei mexendo no iPad como se ainda olhasse as opções. Retirei mais algumas personalizações que não eram tão importantes, tipo porta-copos extras. Estava quase dando o valor que eu tinha e eu precisava escolher entre os bancos de cor bege ou a cor externa. Eu definitivamente não queria um carro prata, que era a cor de fábrica. Quase chorei ao retirar o interior bege, voltando ao preto padrão.
– É isso. Até que assim é bonito também. – Eu falei devolvendo o aparelho eletrônico na mão do vendedor.
Jordan então entrou para o escritório com meus documentos, para fazer o contrato e resolver todas as burocracias e eu lembrei da vendedora que possivelmente gostava do Harry. No tempo que estávamos lá havia entrado três clientes. O quarto estava agora com a vendedora do Hijab. Passei os olhos pelo local procurando a loira, ela estava próxima à entrada e olhava para dentro toda hora.
– Harry? – Chamei, pois ele olhava para outro canto.
– O quê? – Respondeu passando a olhar para mim.
– Eu tenho certeza que aquela vendedora é sua fã. – Apontei discretamente para onde ela estava.
– A loira? Eu já vim aqui várias vezes e ela nunca falou comigo.
– Deve ser porque não deixam. Mas eu tenho certeza que é. – Caminhei até o balcão, pedindo por um papel e uma caneta. O homem me emprestou um bloco. Voltei até Harry que me olhava confuso. – Você se importa de autografar para ela?
– Claro que não, . – Harry respondeu sorrindo. Não sabíamos o nome dela e fiquei com medo de perguntar para alguém e desconfiarem, podendo de algum modo a prejudicar. Ele escreveu: “Para minha fã da Malibu Car Agency. Com amor, H”. E em baixo assinou seu nome e sobrenome.
– Obrigada. Espera aqui, por favor. – Pedi e caminhei até ela.
– Oi, tudo bem? – Ela se assustou com a minha interação repentina. – Desculpa, eu não quis te assustar. Qual é o seu nome?
– Eu sou a Hilary. – Respondeu sorrindo, já recuperada do susto.
– Eu sou a . É um prazer. – Ela assentiu, concordando. – Você trabalha aqui há muito tempo?
– Há um ano e meio, mais ou menos. – Ela respondeu simpática.
– Eu imaginei que você trabalhava aqui há mais tempo. O Harry me disse que sempre te vê aqui.
– Ele disse? – Ela arregalou os olhos. Era a confirmação que eu precisava. – O Jordan já era o vendedor dele quando eu comecei a trabalhar aqui. Acho que essa é a segunda ou terceira vez que ele vem aqui esse ano. – Ela completou, tagarelando sem pensar. – Não que seja da minha conta. – Ela ficou vermelha. Eu dei um sorrisinho. Agora de perto, ela parecia ter a idade da Lucy.
– Você já o conhecia, quando ele veio na primeira vez que você já trabalhava aqui?
– Todo mundo o conhece. – Deu de ombros.
– Mas… – Hesitei, olhando para ver se havia alguém se aproximando. Harry nos olhava fixamente de longe. – Você gosta dele? É uma fã?
– Co-como? – Ela gaguejou. – Eu gosto. – Admitiu abaixando a cabeça. – Mas ninguém pode saber que eu te contei. – Pediu com olhar assustado. – Se isso chegar ao meu gerente, eu levo uma bronca. Não podemos pedir fotos para os artistas que vem aqui.
– Eu imaginei. – Sorri. – Mas sabe, precisa-se de uma fã para reconhecer outra. – Ela arregalou os olhos de novo. – Eu percebi no momento em que pisamos aqui. – Falei isso e estendi o papel na altura dos seus olhos. – Não sabíamos o seu nome, mas Harry queria te dar isso. – Entreguei-o a ela, que agora além dos olhos, também tinha a boca escancarada em um “o” perfeito.
– Ah meu Deus! – Ela exclamou e colocou a mão na boca. – Obrigada. – Ela olhou para trás na hora e Harry sorriu para ela.
– Ele tiraria uma foto, se não fosse te prejudicar. – Dei de ombros, como se pedisse desculpas.
– Não precisa. Meu Deus! – Ela não parava de exclamar. Eu meio que queria rir, porque acho que eu era igualzinha. – Obrigada mesmo. Você é a melhor namorada que o Harry já teve. Não que eu já tenha conhecido pessoalmente nenhuma delas, ele sempre vem sozinho ou com algum amigo, geralmente o Jeff, sabe? – Tagarelou de novo e eu não contive a risada.
– Eu não sou namorada do Harry. – Respondi com o tom ainda de riso.
– Aí, meu Deus! Me desculpe. – Ela ficou vermelha de novo. – Vocês parecem tão íntimos e o jeito que ele te olha, parece que os olhos brilham.
– Quê? – Eu ri mais ainda. – Não, ele não me olha assim. Somos muito amigos, mas é só isso.
– Ele não te olha assim quando você está olhando. – Eu arqueei uma sobrancelha. – Eu não queria ficar reparando, eu juro. – Falou sem graça. – Mas o tempo todo, quando você estava falando com o Jordan, ele cruzava os braços e ficava com aquele sorriso de lado dele, sabe?
– Nah. – Neguei. – Ele só estava em falso ultraje porque eu entendo mais de carros do que ele.
Ela ia me retrucar quando eu vi Jordan vindo na nossa direção.
– Bom, eu vou lá terminar a compra do meu carro. – Sorri. – Foi ótimo te conhecer, Hilary.
– Obrigada, de verdade. – Ela sorriu tão bonito que por um momento pensei que ela fosse me abraçar. Mas acho que ela definitivamente não poderia fazer isso.
Terminamos de acertar todos os detalhes e, como deixei muitas coisas no padrão de fábrica, eles conseguiriam me entregar o veículo num prazo menor, entre quinze ou vinte dias. E eu resolvi pagar tudo de uma vez, não queria correr nenhum risco, principalmente de mudar de ideia e querer gastar mais do que eu tinha.
Eu estava satisfeita. Claro que seria muito mais legal se eu pudesse comprar com todas as extravagâncias que queria. Mas não tinha problema. Eu estava feliz mesmo assim. Pelo carro e também por Hilary.
– Tchau, Hilary. – Me despedi da loira que ainda estava próxima da porta, falando seu nome alto para que Harry escutasse.
– Tchau, tchau, Hilary. – Harry repetiu, passando ao lado dela e pegando em sua mão. – Obrigado. – Ele disse como despedida. Ninguém acharia estranho, Harry sempre agradecia e cumprimentava todo mundo mesmo.
– Tchau, , tchau, Harry! – Acenou e falou um “obrigada” mudo.
Sorrimos ao mesmo tempo pelo agradecimento.
– Precisamos comemorar. – Harry disse enquanto dirigia para fora do estacionamento da agência. – Seu primeiro carro novo.
Estávamos de volta à nossa bolha particular. Eu gostava mesmo desses momentos no carro com Harry. Contando os segredos, ouvindo músicas boas, rindo das piadas mais aleatórias, éramos ele e eu, compartilhando o momento como se nada mais importasse. Às vezes nem parecia que um dia ele foi o rosto num pôster na minha parede. Aquilo ali era real, ele era real. Não a celebridade, mas ele. Uma pessoa como ele realmente existia. O que a mídia pintava positivamente para Harry Styles só captava metade da verdadeira essência. E eu não estava brincando. Não havia ninguém no mundo que eu gostaria de estar compartilhando aquela conquista, se não ele.
– Eu ‘tô muito feliz. – Eu disse rindo frouxo. – O que você sugere?
– Você ‘tá com fome, ?
– Não muito. – Respondi e ele levantou uma sobrancelha.
– Sério? Nossa. Quero dizer, você nunca disse não para comida. – Riu.
– Acho que é porque ‘tô agitada. Adrenalina, sei lá.
– Então já sei aonde vamos.
– Aonde?
– Na academia para liberar essa adrenalina. – Sorriu abertamente.
– Ah, não. – Choraminguei. – Você está falando sério?
– Mas é claro. Esqueceu que combinamos? – Maldita hora que falei que queria ser saudável.
– Harry, eu queria te contar uma coisa.
Eu não tinha visto Harry pessoalmente desde que havia ficado com meu colega de trabalho pela primeira vez e alguns dias já haviam se passado. Depois do almoço, Henry me mandou mensagens no whatsapp do meu celular corporativo, que ele provavelmente conseguiu no grupo de gestores que participávamos, não demorou muito para que eu passasse meu particular e ficamos a madrugada toda conversando. No dia seguinte, ele me chamou para ir à casa dele, assim, na cara de pau mesmo. E eu fui, na cara de pau também. Não poderíamos ter um encontro num lugar público, alguém poderia nos ver. Quando cheguei na casa dele, ele havia preparado um jantar maravilhoso. Que homão, eu tenho que dizer. Que homão.
– Mas não sei se é apropriado. – Eu completei a fala com uma risadinha quando ele desviou a atenção do trânsito para me olhar.
– Você pegou um cara? – Harry chutou imediatamente, fingindo choque.
– Era para você dizer: “O quê? Pode me contar.” – Revirei os olhos. E ele riu.
– O quê? Pode me contar. Ahn… Somos amigos. – Harry parecia tentar se lembrar do que eu havia dito para ele no mês passado. – Você pode me contar o que quiser? – Finalizou com um tom de dúvida, sem certeza de que havia reproduzido a fala de modo igual.
– Não, era uma garota. – Falei rindo.
– Sério? – Dessa vez ele realmente estava chocado, eu nunca havia comentado sobre a minha bissexualidade.
– Não, foi um cara mesmo.
Contei como havia sido a minha experiência e não demorou muito para chegarmos em West Hollywood e Harry parar na 3rd street. Eram quase cinco da tarde.
– Desce logo, se não a loja vai fechar. – Harry disse me apressando.
– Mas não íamos para a academia?
– Sim, mas antes vamos comer donuts. Doce você não vai recusar, vai?
Eu somente sorri. Aquela era a minha resposta.
– Eu conheço essa loja desde que inaugurou, em 2011. – Harry me contava enquanto atravessávamos a rua. – Ou talvez seja 2012. – Puxou o lábio. – Não me lembro direito mais. Faz tantos anos.
– Eu adoro donuts.
– Esses são veganos. – Harry me avisou.
– É claro que são. – Eu disse como se mais uma obviedade tivesse me ocorrido. – Donuts são donuts. Eu topo.
O local realmente estava quase fechando. Havia até mesmo algumas cadeiras empilhadas em cima de uma das mesas ao fundo, enquanto um menino limpava o chão lá perto. Não que isso fosse ser um problema, porque aparentemente Harry era um frequentador assíduo do lugar e fomos muito bem recebidos por todos os funcionários, que Harry conhecia por nome.
Era assim que Harry queria que fôssemos saudáveis. Compramos dez sabores de donuts diferentes e depois morreríamos na academia para compensar a culpa. Eu disse isso a ele, fomos de volta ao carro e atravessamos algumas quadras até a academia fazendo piadas sobre isso.

Nota da autora: Eu tenho outras fics que você pode acessar aqui:
The Spaniards’ Girl
Just Another Hotel Room

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