Sign Of The Times

Sign Of The Times

Sinopse: Harry Styles era grato pela vida que tinha, mas, às vezes, desejava ficar sozinho. E foi esse desejo que o tirou de casa naquele dia. O que Harry não esperava era que, ao entrar em uma biblioteca que cheirava a café e livros, não conseguiria compôr, pois, toda a sua atenção ficaria presa na mesa próxima a janela. Na verdade, na garota que ocupou a mesa próxima a janela.
Iremos descobrir juntos, como a curiosidade de Harry Styles, o levou a ajudar uma garota a enfrentar um dos piores momentos de sua vida. E, em como, a garota da mesa próxima à janela foi a paz nos dias turbulentos de Harry Styles.
Gênero: Romance, Drama.
Classificação: Livre.
Restrição: Os nomes Lindsen e Anne são fixos.
Beta: Regina George.
Em andamento

Capítulos:

Capítulo um.

A chuva caia com força do céu de Londres quando a porta de entrada de uma das mais simples bibliotecas da cidade foi aberta.
fechou a porta atrás de si. E ainda parado sobre o carpete da entrada passou as mãos pelas roupas e cabelos, tirando de si as gotas da chuva que o molhou no curto caminho que fizera de seu carro que estacionou em frente ao lugar, até ali. Isso que dava esquecer o guarda-chuva em casa quando se mora Londres, que chove sempre.
O cheiro de cafeína tomava conta do ambiente que tinha um balcão com anúncios de vários tipos diferentes de café, sucos, sanduíches naturais e até mesmo sorvete. Duas mesas por perto ficavam perto da área do café, e outras ao redor das quatro prateleiras grandes de livros, próximas às janelas e paredes.
ficou curioso em olhar os livros que estavam nas prateleiras, mesmo que não tivesse ido ali atrás de um em especifico. Porém, antes de adentrar de vez o local precisou fazer um cadastro rápido com Lindsen, a recepcionista, que ficava atrás do balcão de atendimento e diante do computador de controle do público que frequentava o local.
O jovem cantor já tinha pisado em bibliotecas maiores que aquela, mais aconchegantes e com mais variedades de livro. Mas, aquela apesar de pequena tinha o que buscava naquele momento: Silêncio. só precisava disso, de silêncio. Sem ninguém o pedindo por uma foto ou vídeo, para uma pessoa que ele nem sabia se de fato existia, ou por um autografo. Aquele humilde ambiente poderia oferecer a o que ele mais precisava naquele momento e não estava encontrando nem em sua casa ultimamente: silêncio, paz e tranquilidade.
Antes de ir à procura de um lugar para se sentar, pediu um café atendente responsável pelas bebidas e lanches, que só reparou estar ali naquele momento. Enquanto esperava pela bebida, aproveitou para guardar sua identidade em sua bolsa de lado. Retirou dali o pequeno caderno de capa marrom que guardava, entre uma folha e outra, uma caneta para que nunca ficasse sem ter como escrever nas folhas. Pagou ao atendente pelo café, segurando o copo com o liquido quente com cuidado e rumou em busca de uma mesa afastada da entrada.
Observou os títulos dos livros que estavam nas estantes que passou ao longo do caminho até a mesa, e quase pegou um dos livros. Quase. Só não pegou o livro grosso de capa dura e que tinha um titulo atrativo, pois precisava anotar em seu pequeno caderno de capa marrom o que tinha em mente antes que a possível-nova-música fugisse de sua cabeça.
A mesa escolhida ficava próxima à janela e longe de todo possível barulho a entrada e o espaço do café pudessem fazer. colocou sua bolsa, o café e o caderno em cima da mesa, e sentou-se na poltrona que cercava a mesa de madeira escura. Respirou fundo, olhando para a janela, observando o lado de fora, a chuva ainda caindo e as poucas pessoas na rua, franzindo o cenho quando percebeu que era possível ver a London Eye ao longe.
Bebeu um gole do café, ainda admirando a paisagem tão simples e sem tanta atração, observou as gotas de chuva bater no vidro e deslizarem.
gostava da sensação de se sentir nulo em meio a tantas pessoas. Gostava quando tinha um tempo para si, um espaço. Quando não tinha ninguém o seguindo com alguma câmera ou celular em mãos, quando seu nome não era gritado várias vezes. E sentia-se um verdadeiro gênio quando encontrava algum lugar que dava a ele a certeza de que a mídia jamais o procuraria por ali.
Realizar seus sonhos de espalhar suas músicas e seu amor por aí, trouxe junto consigo a fama que dava a muitas coisas boas. Possibilidade de conhecer novos lugares e pessoas. De trabalhar com artistas que sempre sonhou, de saber que tem certa influencia em falar de assuntos que precisam ser discutidos e que os adultos ignoram. A vida que vivia era maravilhosa; cantar e saber que mudava a vida das pessoas era incrível, e sempre seria grato pela vida que tinha. Porém, ainda era angustiante se ver refém da exposição que a fama lhe causava. Sentir que não tinha mais direito a privacidade era sufocante, chegava a doer pensar que todos se aproximavam de si com algum interesse; fosse para um autógrafo, vídeo, foto ou favores que deveria fazer porque qual é, ele é famoso! Tudo deveria ser tão fácil para ele.
Aproveitando que estava ali sozinho, e permitindo-se acreditar que nenhum dos funcionários do local iria divulgar a sua ida até ali, ergueu um pouco as mangas de seu casaco que eram grandes o bastante para cobrir suas mãos. Passou as mãos pelos cabelos, bagunçando os fios, colocando-os de lado e jamais pensando em cortá-los. Iria deixar o cabelo crescer por um tempo, quando iria cortar? Não sabia, queria ver até onde os fios iriam. Abriu o caderno marrom, folheando até encontrar a última página em que escreveu alguma coisa, e releu as duas frases ali escritas. Segurou a caneta, pronto para começar a anotar todas as palavras que estavam em sua mente, mas foi interrompido antes mesmo que a caneta tocasse a folha.
– Boa noite. Licença, mas você não pode ficar aqui. – Lindsen, a moça que fez o cadastro de no computador, e que não parecia ter mais do que quarenta anos, parou ao lado da mesa que o cantor ocupava e o avisou.
– Não posso? – perguntou, erguendo a cabeça para encarar a mulher que sorria gentilmente. – Por quê? – insistiu ainda confuso. Afinal, não tinha nenhuma placa de “reservado” na mesa ou qualquer nome anotado.
– Essa mesa é reservada pra uma pessoa, e logo ela estará aqui. Então, por favor, se você puder ir para outra mesa… – a voz da mulher soou suave fazendo com que automaticamente se lembrasse de Anne, sua mãe. Sua mãe usava o mesmo tom suave quando queria que a obedecesse, e aquela semelhança incomodou a porque ele havia gostado daquela mesa e queria ficar ali.
– Mas não tem o nome de ninguém aqui. – argumentou tendo o olhar da mulher em si.
– Eu sei, não colocamos o nome dela. Mas… Por favor, me desculpe por isso, eu realmente preciso que você desocupe essa mesa. – Lindsen suspirou, olhando apreensiva para que suspirou. – Posso te dar outro café! De graça!
– Não quero outro café de graça, só quero ficar aqui. – , explicou, observando que a mulher não mudara a postura decidida a tirá-lo dali. Então, o cantor fechou os olhos por alguns segundos antes de começar a catar suas coisas para sair da mesa. – Tá, tudo bem. Eu saio. – bufou, obedecendo a sua mente que lhe dizia que não atender aos pedidos de Lindsen seria o mesmo que não atender a um pedido de Anne. E jamais negaria algo a sua mãe. – Posso ao menos ficar ali? – perguntou apontando para a mesa ao lado daquela que desocupava, mas que não tinha a visão da janela.
– Sim, sim. Qualquer outra mesa! – ela garantiu, sorrindo, assistindo o jovem pegar suas coisas e ir para a mesa ao lado, deixando aquela livre. – Muito obrigada, de verdade.
Lindsen o deixou sozinho após agradecer e receber um sorriso do cantor. Não percebendo a ruga de curiosidade que permanecia na testa do cantor, que ainda encarava para a outra mesa e se questionava o porquê dela ser tão importante assim. Se o lugar estava mesmo reservado deveria haver um papel avisando, certo? Esse era o correto, não é?
queria saber por que Lindsen estava tão apreensiva com a sua saída da mesa, dela querer tanto que ele desocupasse logo aquela mesa e aquela, sem nem se importar para qual outra ele iria.
O bichinho verde da curiosidade corroia por dentro.
Será que iria ter algum ensaio fotográfico ou gravação naquela mesa? Não, se fosse por isso a biblioteca estaria fechada para o publico e só abriria quando tudo fosse concluído. Será que a vista da janela tinha agradado alguém a ponto de reservá-la para si e pagar por isso? Será que…?
Tinha algo há mais ali… Algo além do dinheiro…
E não sairia dali enquanto não descobrisse.

xxxx

Quase duas horas tinha se passado desde que fora para a outra mesa, e graças à interrupção de Lindsen o cantor não lembrava mais de nada que iria anotar em seu caderno. As frases tinham sumido, puff, evaporado. , frustrado por ter esquecido tudo, ficou todo aquele tempo, desde que trocara de mesa, se perguntando o porquê daquela mesa ser tão importante. Ela nem era de ouro!
batucava a ponta da caneta na mesa, seu rosto apoiado na sua mão direita, enquanto sua mente criava diferentes motivos que explicassem a importância que a mesa ao lado da janela possuía. Pensando, principalmente, na tal pessoa que Lindsen mencionara quando pediu que ele deixasse a mesa. Fechou os olhos quando passou a mão no rosto, largando a caneta em cima da madeira, bufando frustrado por estar perdendo seu tempo pensando em algo que não mudaria sua vida, ao invés de estar compondo.
– Sim, pai, eu sei. Sim, mas… Tá. Beijo. Também te amo. – A voz baixa acompanhada com uma risada fez com que abrisse os olhos e virasse seu rosto, encarando a recém-chegada que estava de costas para si.
moveu a cabeça, procurando algum jeito de encarar o rosto da garota que ocupava a mesa que ele ocupava anteriormente. Ela deixava bolsa, celular e computador em cima da mesa, sentando-se no mesmo lugar que havia sentado.
E se tinha esperado por uma mulher muito bem arrumada, com saltos agulha, um notebook em mãos e bolsas pesadas que devessem guardar documentos importantes, ele se enganou. Se ainda esperava por algum ensaio fotográfico, filmagem ou o que quer que seja nesse sentido, se enganou em dobro. Porque a garota que ocupava a mesa reservada deveria ter a mesma idade que .
O cantor franziu as sobrancelhas, agora ainda mais curioso do que antes, observando a garota que ligava o notebook, abria e tirava algumas coisas de dentro da bolsa. Ela não vestia nada além de calça jeans, tênis pretos, um casaco de moletom que tinha o capuz na cabeça e as mangas longas cobrindo suas mãos.
Ela não parecia em nada com alguém que precisava daquela mesa só para si a ponto de não conseguir ficar em nenhuma outra caso aquela estivesse ocupada.
– Mas… – sussurrou sozinho, para si mesmo, virando o rosto antes de concluir o pensamento, quando a passou no espaço entre as duas mesas e sumiu de seu campo de visão indo para as estantes de livros.
Ela voltou com um livro grande e de capa dura em mãos, o colocou em cima da mesa, sentou-se abriu e folheou algumas páginas antes de se perder na leitura que só era interrompida quando bebia um pouco do que quer que tivesse no copo, que só percebera naquele momento. Em algum momento, a garota tirou o capuz do casaco da cabeça e foi aí que viu as mechas em azul claro no meio dos fios escuros. O azul não era tão claro quando está de dia ou tão escuro como a noite, mas, ainda assim, era um azul notável. E bonito.
continuou encarando a menina que não o olhou de volta nem por um segundo, esquecendo-se completamente do que queria quando saiu de casa em busca de paz e encontrou aquela biblioteca. A curiosidade que corroia o cantor por dentro era tão grande que já tinha até mesmo, se aproveitado que a menina tinha saído, para esticar um pouco o pescoço, o máximo possível para conseguir ver duas das páginas do livro que a menina lia. Era um livro de geografia.
Ela estava estudando para alguma prova então? Nah, se fosse só isso ela não precisaria daquela mesa em especifico só para si, certo?
Talvez a garota só tivesse algum TOC e como tinha começado suas anotações de geografia naquela mesa, vai ver ela só pudesse terminar ali. Ou, talvez ela gostasse daquela mesa por causa da janela com vista para a London Eye. Ou, quem sabe, talvez aquela mesa tivesse algum valor sentimental, algo importante pode ter acontecido ali e por isso ela não conseguia lagar aquela mesa. Seu namorado a pediu em namoro enquanto bebiam café ou chá sentados naquela mesa? Ou seu último relacionamento acabou naquela mesa e ela ainda não tinha conseguido superar? Ou, teria sido naquela mesa que seu pai a ensinou um pouco de geografia antes de sair de casa e deixá-la sozinha com sua mãe porque vivia uma paixão com a secretária?
– Merda. – a garota grunhiu, usando a borracha para apagar alguma coisa no caderno.
E a encarou mais uma vez.
Seja lá qual fosse a razão que prendia a garota naquela mesa, iria descobrir. Nem que fosse preciso perguntar diretamente a menina. Não porque tinha seu ego ferido naquele momento, e sim porque curiosidade não deixaria o cantor em paz enquanto ele não a sanasse.

xxxx

Depois que a garota de mechas azuis no cabelo e paixão por livro de geografia, ninguém mais adentrou o local. Lindsen não apareceu para pedir nenhum outro favor, e não conseguiu retornar a sua escrita que nem chegara a ser realmente iniciada. Ele não conseguia se concentrar para se lembrar do que precisava e queria escrever, e estava tão frustrado com isso que poderia fazer um bico e choramingar por horas. Enquanto a menina da mesa sagrada, naquele momento, ria baixo de alguma coisa que via em seu celular e deixava ainda mais curioso.
– Desisto. – Murmurou para si mesmo, decidindo que tentaria novamente quando chegasse em casa e se trancasse em seu quarto. Guardou o caderno junto com a caneta na bolsa, e abriu o aplicativo de táxi no celular e solicitou um.
olhou para a mesa ao lado quando percebeu uma movimentação e, mais uma vez, a garota teve toda a atenção do cantor que a observou guardar as coisas na bolsa e devolver os livros as prateleiras.
Ela também estava se arrumando para ir embora.
A garota pendurou a alça da bolsa em um dos ombros, colocou o capuz na cabeça e ficou alguns segundos de costas para e de frente para a janela. Observando a chuva que ainda caia e batia no vidro, a rua molhada e o céu mais escuro. Respirou fundo, fechou os olhos quando a visão começou a ficar turva e decidiu que era hora de ir embora. E tão rápido quanto se levantou e arrumou suas coisas, deu as costas para mesa e a janela, indo em direção à única porta da biblioteca.
se levantou o mais rápido que conseguiu, pegando sua bolsa e seguindo a garota que andava a passos largos. Assistiu ela acenando um tchau para o mesmo rapaz que fizera o café de , e também para Lindsen que a desejou uma boa noite e lhe deu um sorriso. também acenou para os dois e também foi correspondido com acenos. E quase, por pouco, não conseguiu alcançar a garota antes que ela saísse da biblioteca.
A mão de segurou o pulso da garota quando a outra mão dela tocou a maçaneta da porta, assustando-a o suficiente para que ela se virasse para trás com os olhos arregalados.
– Desculpa. – pediu, pois não tinha medido a força que usou para segurar a menina que recolheu o braço para próximo do seu corpo.
Ela assentiu com um movimento rápido de cabeça, tirando do rosto alguns fios do cabelo que, com o movimento de se virar para trás, acabaram indo para sua face.
E ao contrário do que pensou não era capaz de ser direto e questionar sobre a importância daquela mesa. Agora que tinha a atenção da garota, e tinha o olhar dela em si, sentia-se sem jeito e até envergonhado.
Os olhos dela deixaram sem jeito. A falta de brilho neles. E as lágrimas já visíveis neles.
– Me desculpe, não quis te machucar ou assustar. – se desculpou novamente, se sentindo um idiota por ter abordado a garota daquele jeito tão brusco e desrespeitoso. Tudo porque era fofoqueiro e queria saber de algo que, com toda certa do mundo, não tinha nada a ver consigo. Maldito bichinho verde da curiosidade.
– Tudo bem. – ela o respondeu baixo, tão baixo que quase não ouviu.
– Eu sou o , prazer. – se apresentou, estendendo a mão.
Ela olhou para a mão estendida do cantor e pareceu pensar milhões de vezes se deveria ou não deixá-lo no vácuo, antes de segurar a mão dele e apertar levemente e rápido com a sua.
, prazer.
E querendo ou não, ficou surpreso quando ela não esboçou nenhuma reação de surpresa ou fanatismo diante dele. Era tão raro ter momentos como aquele, em que as pessoas não surtavam ou sorriam de um jeito que dizia eu te conheço, meu bem. E era tão bom quando momentos como aquele existiam, porque fazia com que se sentisse uma pessoa qualquer. E ele amava ser tratado como uma pessoa qualquer, quando davam a ele a chance de viver sem o peso da fama nas costas.
Ambos ficaram em silêncio, sem notar que tanto Lindsen quanto o rapaz do café os observavam disfarçadamente. havia desistido de perguntar sobre a mesa enquanto encarava os olhos de que, por algumas vezes, tentou desviar seus olhares. Fazer essa pergunta seria tão grosseiro quanto o jeito que segurou o pulso da garota, por isso ficou quieto e continuou a encarando e tentando encontrar alguma pista ou alguma coisa no olhar lacrimejado da garota.
tinha os olhos castanhos mais escuros que já viu. Mas não era isso que impressionava o cantor, era o brilho que faltava. Por ser alguém que sempre acreditou fielmente na frase “os olhos são os espelhos da alma” sentia-se incomodado e levemente triste ao ver aquele olhar tão cansado, vago.
E se antes queria saber sobre a importância da mesa, agora ele queria saber o porquê da alma de estar tão triste e vazia.
– Preciso ir. – ela murmurou não dando tempo para que a respondesse.
virou-se de costas para o cantor e deixou a biblioteca rapidamente. nem teve chance de segui-la ou a desejar uma boa noite.
E enquanto ainda olhava para a porta por onde tinha acabado de passar, se assustou quando uma buzina soou e o lembrou do táxi que tinha pedido no aplicativo.
cumprimentou o motorista quando entrou no veículo, deu o endereço de sua casa, afivelou o cinto e observou a rua molhada do lado de fora. Notando a ausência de pessoas por ali e, principalmente, a ausência de que não estava andando pelas calçadas. E isso deixou o cantor preocupado, um pouco assustado também com a falta da menina. Mas, a preocupação e o susto ocuparam sua mente por pouco tempo. Porque assim que o táxi virou a próxima rua e parou em um sinal fechado, virou o rosto para o outro lado e viu dentro do carro que estava ao lado do seu.
Ela estava encolhida no banco detrás do veículo, a cabeça apoiada no vidro da janela e os olhos fechados. suspirou de alivio ao vê-la dentro de um carro, aquecida, fora da chuva e do vento frio.
E ele quase sorriu ao vê-la protegida, quase.
não sorriu porque a mão de passando pelas suas bochechas, e o jeito que ela escondeu o rosto nas duas mãos logo depois, deu ao cantor uma nova onda de preocupação e angustia.
Saber que chorava dentro do carro depois de parecer tão empolgada na biblioteca com os livros que pegou das prateleiras, fez com que sentisse um aperto no coração. Uma angustia o tomou, deixando um gosto amargo na boca.
sentiu-se pequeno.
E ele só não desceu do carro e foi até porque o sinal abriu, e o motorista que a levava avançou primeiro que o de . Tirando a garota do campo de visão do cantor, que não conseguiu parar de pensar em até a hora de dormir.

Capítulo dois.

voltou à biblioteca no dia seguinte.
Mesmo que sua cabeça estivesse doendo tanto pela noite de sono muito mal dormia quanto pelas horas em que ficou no estúdio fazendo as melodias das músicas que já tinha composto, não pensou, nem por um segundo, ir direto pra sua casa descansar. Pelo contrário, ele foi direto para a biblioteca. Sentia que precisava ir até ali. Estar ali. Ver mais uma vez.
Conhecê-la melhor.
ainda não sabia o porquê, mas, ele precisava saber o que incomodava a ponto de tirar o brilho de seus olhos.
Deu boa noite a Lindsen e pediu por uma garrafa de água no lugar do café, e foi para a mesma mesa que usou no dia anterior. Observou que havia outras duas pessoas em uma mesa um pouco mais afastada de si, por isso abaixou a cabeça que estava coberta com o capuz do casaco e rezou para que não fosse reconhecido. Abriu seu caderno de capa marrom, rabiscou algumas palavras numa tentativa ridícula em disfarçar a ansiedade que sentia pela chegada de . Olhou o relógio que tinha no pulso, e nunca pensou que os minutos demorassem tanto a passar. Foi até as prateleiras de livro, procurou pelo livro que viu com no dia anterior e, após minutos andando e analisando a maior quantidade de exemplar possível, suspirou frustrado para a mesa após não encontrar o que queria.
Naquele dia, foi para sua casa depois de ficar quatro horas dentro da biblioteca esperando por que não apareceu.

xxxx

As duas semanas seguintes foram tão cansativas para que ele quase chorara de cansaço mental. Seu álbum ainda estava na fase de produção, muitas coisas ainda deveriam ser concluídas e decididas, que só esse trabalho por si só seria o suficiente para cansá-lo. Mas, ainda tiveram as reuniões com produtores, seu empresário, sua banda, e algumas entrevistas e ensaios fotográficos para revistas. não tivera tempo nem de respirar direito ou tomar um banho demorado durante aqueles, e muito menos para ir ate a biblioteca. Por isso, suspirou de alivio e olhou para o céu agradecendo a Deus quando se viu parado em frente à porta do local, concluindo que ainda sim, ele ainda se lembrava do caminho até ali.
sentiu um quentinho no coração ao passar pelo portal de madeira, feliz que ali ainda era o seu lugar de paz recém-descoberto. Acenou para Lindsen que retribuiu o aceno, concentrada na ligação em que estava. Caminhou para o balcão e pediu um café forte. Precisava se manter concentrado na música que não saia de sua mente e que iria, e deveria, parar em seu caderno ainda naquela noite. sabia que aquelas palavras quando muito bem organizadas poderiam lhe dar uma música que poderia, quem sabe, ser o single ainda não definido e nem feito de seu álbum.
Aqueles dias foram tão cansativos e ocuparam tanto a mente de , que ele até se esquecera de . Mas, acabou se lembrando dela e da curiosidade que sentia sobre ela, quando ouviu a voz de e levou um susto.
Ela não usava o capuz do casaco como da última – e primeira vez – que se viram. Estava de touca, uma camisa de gola alta branca por debaixo da jaqueta preta que usava, calça jeans e all star na mesma cor da peça de couro. A alça da mochila estava em um dos seus ombros, o celular em mãos e tinha um leve sorriso no rosto enquanto falava com Lindsen.
parecia adorável, completamente diferente da outra vez em que a vira. E por achá-la tão adorável e gostar daquele sorriso nos lábios dela, mesmo que pequeno, que a observou sem conseguir desviar o olhar, ficando envergonhado quando o cara do café o chamou e colocou seu pedido na sua frente, o pegando no flagra e sorrindo para ele.
– Obrigado. – agradeceu ao garoto que acenou com a cabeça, ainda sorrindo para si. Tirou uma nota da carteira e o entregou, bebendo um pouco do café enquanto aguardava o troco.
– Ei, ! – O garoto do café a cumprimentou, entregando o troco para que quase se engasgou com o pouco de café que tinha na boca. – Tudo bem?
– Oi, Brad. Tudo e com você? – ela o respondeu, perguntando de volta, ainda com o sorriso pequeno nos lábios.
– Tudo ótimo.
E mesmo que estivesse com sua cabeça um pouco abaixada, ele conseguira ver a piscadela que Brad dera para . Foi impossível não revirar os olhos para a atitude do garoto.
– Vai querer o mesmo de sempre? Frapuccino com chantilly? – Brad perguntou e tudo o que e ele ouviram foi um “uhum” de .
pediu licença, saindo dali e indo em direção as mesas e cadeiras. Sentou-se em qualquer uma, colocou suas coisas na madeira da mesa e observou ir para a mesa próxima à janela. Assim como ele, ela também colocou suas coisas em cima da mesa antes de ir buscar para as estantes de livros e voltar com um livro de geografia e uma revista de viagens.
Na capa da revista era possível ler “Ásia Ocidental”, e esse interesse de dificultou o processo de escrita de que ficara, novamente, curioso sobre a garota. As palavras sumiram de sua mente e se xingou por isso. Ser curioso era uma merda. Foi essa breve irritação por si mesmo que motivou a ir falar com . Uma ideia surgiu em sua mente, como uma lâmpada sendo acessa, o iluminando.
Ideia que só pareceu bem idiota quando ele já estava em pé, próximo à mesa de , com o celular em mãos e a chamando pelo nome.
– Oi. – ela o respondeu, levantando a cabeça, olhando-o debaixo para cima.
– Uh, desculpa te incomodar. Eu só… Hm… Posso tirar uma foto da janela? Não da janela em si, é claro. Da vista da janela! Isso! Da vista da janela! – se atrapalhou, sentindo-se um imenso idiota por isso. Talvez tivesse sido um erro não pensar melhor planejar melhor a ideia de executá-la. Talvez não, com certeza havia sido um erro.
– Tudo bem. Eu vou…
– Não, você ficar. Tudo bem. Me sento aqui e serei rápido, prometo. – interrompeu que ia se levantar para não atrapalhá-lo em sua foto.
se sentou do outro lado da mesa, na poltrona, recebendo o olhar de que o observou por alguns segundos antes de voltar sua atenção para o livro aberto em cima da mesa. Abriu a câmera de seu celular e começou a tirar fotos do lado de fora da janela, através do vidro, e mesmo que aquela visão fosse bonita e amasse as ruas de Londres, não era como se ele quisesse e precisasse de verdade ter diversas fotos da rua da cidade em seu celular. Mas, aquela fora a única ideia que tivera para se aproximar de , e se xingou mais uma vez por sentir-se um idiota – de novo – em menos de cinco minutos. Tirou mais algumas fotos, e quando achou que já tinha enrolado tempo demais, e não conseguira pensar em nada de útil para falar e puxar assunto com , que se mantinha concentrada em seu livro, viu as fotos que tinha tirado e apagou as que ficaram tremidas ou fora de foco.
– Obrigado. – agradeceu, após excluir algumas fotos.
– De nada. – o respondeu, olhando-o e recebendo um sorriso envergonhado do cantor que se sentia um idiota naquele momento. – A London Eye apareceu?
– Hã? – se virou para , fitando-a e parando no local que estava.
– Nas suas fotos. Ela não apareceu? – ela o perguntou, e permaneceu em silencio, sem entender como a London Eye poderia ter aparecido em suas fotos. Ele nem tinha visto a imensa roda gigante dali.
– Não. Dá pra vê-la daqui? – perguntou, confuso.
– Sim, olha. – se moveu na poltrona, se aproximando da janela, encostando seu dedo no vidro. – Se você olhar reto aqui, vai ver conseguir ver as cabines e a parte debaixo dela. Claro que não dá pra ver por inteiro, por causa dos prédios, mas dá pra ver uma parte. – explicou, sorrindo para a visão que tinha descrito.
prestara atenção nas palavras dela, e se surpreendeu quando seguiu as instruções e viu as cabines e a parte inferior da London Eye lá na frente, no final da rua. Era uma visão muito bonita, a rua em si, os prédios, a parte da montanha russa, tudo. não demorou em abrir sua câmera novamente e tirar outras fotos.
– Obrigado. – agradeceu a que ainda observava a rua, ficou ainda mais vidrado no rosto dela que sorria. sabia que o sorriso de não era para ele, mas não conseguiu para de observá-lo e sorrir junto.
– De nada. – ela o respondeu depois de um tempinho, fitando-o e se afastando da janela, voltando-se para seu livro como se nada tivesse acontecido.
Mas acontecera, e sabia disso. Tinha percebido.
– É por isso que você gosta de ficar aqui? Por causa da London Eye?
– Você não acha que é uma bela vista? – ela o respondeu com uma pergunta, sem encará-lo, ainda olhando para as páginas de seu livro.
– Sim, eu acho. – afirmou, observando anotar algo em seu caderno. – Mas, também acho que você não se senta aqui apenas pela vista.
– Não? – ela questionou, rindo baixinho de um jeito que identificou como triste. Aquela risada não fora espontânea e nem feliz, isso fora óbvio.
– Não, acho que existe um motivo maior.
– E que motivo seria esse? – o perguntou, erguendo o olhar para que não gostou do que viu.
Aquela foi a segunda vez que olhava nos olhos e e os encontrava sem brilho. Tristes.
– Eu não sei.
o encarou por mais tempo, não falou e nem perguntou mais nada para . Ela apenas respirou fundo, voltou para sua leitura e anotações.
entendeu que aquela era sua deixa para sair dali. E foi isso que ele fez; a deixou sozinha, e voltou para sua mesa.
Foi de sua mesa que assistiu guardar suas coisas dentro de sua mochila, devolver o livro e a revista aos seus lugares e deixar o local com passos apressados. Foi dali que ele também a assistiu passar a mão no rosto, e sumir do seu campo de visão.
Foi sentado em sua mesa que ficou encarando o lugar onde ocupava minutos atrás, repassando toda a pequena conversa que tiveram e se perguntando o que tinha feito de errado.
se odiou ao pensar que sua curiosidade fora o que provocou a ida de . Se odiou pela ideia que teve e por tê-la colocado em prática. Por ver sair dali praticamente correndo. Se odiou, principalmente, por ser tão intrometido. E, se odiou ainda mais, quando se lembrou do dia em que viu chorando dentro do táxi. Será que ela estava chorando de novo naquele momento? Não saberia, pois ela não estava mais em seu campo de visão, por perto.
E como na primeira noite, aquela em que conheceu , não dormiu mais do que duas horas durante a madrugada que se tornou longa.

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Naquele dia completava dois meses que estava indo para a biblioteca, tanto para aproveitar o lugar calmo e se concentrar em suas músicas quanto para encontrar com .
Depois da noite em que ela o mostrou uma parte da London Eye da janela e não o respondeu sobre o que a fazia querer aquela mesa, eles nunca mais se falaram. Nunca mais trocaram nada além de comprimentos e, às vezes, nem isso. Agiam como verdadeiros estranhos, o que não era de se espantar já que, de certa forma, eles eram. Meias palavras e uma conversa bagunçada sobre a vista da rua não era o suficiente para torná-los amigos.
e não eram amigos. Mas, queria ser.
Depois de se sentir culpado por ter feito a garota chorar e ir embora da biblioteca, e também por não gostar da tristeza que havia nos olhos de , sentia vontade de ajudá-la na dificuldade que enfrentava. Fosse ela qual fosse. Ele queria, pelo menos, ouvir o que afligia , dizer que tudo ficaria bem e, quem sabe, lhe dar um abraço de conforto. Pagaria um frapuccino, o seu preferido, com alguns cookies, a ouviria com atenção e ficaria ao lado dela. queria mostrar a que ela não estava sozinha, que não precisava se isolar do mundo naquela mesa próxima a janela. Que ela poderia desabafar.
O que sentia já deixara de ser curiosidade há algum tempo. Era preocupação em sua forma mais pura. Ele não aguentava ver de longe, observá-la em silêncio e não poder dizer a ela tudo que ele pensava. Aquilo o angustiava.
Sua angústia aumentou naquela noite quando ele foi até a biblioteca, e desejou não ter ido.
jamais conseguiria colocar em palavras o tamanho e força do aperto que sentiu em seu coração quando chegou à biblioteca chorando, com lágrimas grossas molhando seu rosto enquanto ia para a mesa que sempre ocupava. fechou suas mãos em punho, e sentiu seus pés se moverem nervosos debaixo da mesa, ao mesmo passo em que fora para as estantes de livros e sumiu do seu campo de visão por alguns instantes.
Meses atrás quando procurava por um lugar escondido e que ninguém o reconhecesse ou falasse com ele, não esperava encontrar aquela biblioteca e se deparar com . Ficou feliz por ter um lugar que ninguém o pedia por foto, vídeo ou autógrafo, por ter encontrado um lugar que poderia ficar em silêncio. Que poderia ser tratado como uma pessoa normal, um estranho. Mas, naquele dia, vendo chorar sem parar em sua mesa, detestou ter encontrado aquela biblioteca e se deparado com a garota. Porque era horrível vê-la daquele jeito e não poder fazer nada.
nunca detestou tanto ser um estranho para alguém quanto naquele dia.

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Depois de ter visto chorar na ultima quarta-feira, decidiu que iria começar a se aproximar dela. Dessa vez, sem a história de fotos – que fora ridícula por sinal. Iria se aproximar de , sem assustá-la ou ser grosseiro, é claro, ficaria ao lado dela e a ajudaria a estudar sobre a Ásia Ocidental.
Por isso, decidido e com essa ideia fixa em sua cabeça, foi direto para o balcão de café quando chegou à biblioteca. Pediu um café americano e um frappuccino com chantilly.
Enquanto esperava as bebidas ficarem prontas, olhou diversas vezes para a única porta do local, querendo estar atento a chegada de . Atendeu a uma ligação de Jeff que o avisou ter conseguido uma folga de alguns meses para que pudessem viajar, agradeceu ao seu agente, e encerrou a ligação assim que Brad lhe entregou os dois copos. Pagou pelas bebidas, e se caminhou com cuidado até a mesa em que estava acostumado a ocupar.
Saber que havia conseguido a viagem para fora de Londres, que serviria para conseguir mais inspirações para finalizar seu álbum, deixava feliz e tranquilo. Ele sentia que precisava sair de Londres por alguns dias, sair das vistas dos paparazzis que o seguia até quando ele ia para a academia (como aconteceu naquele dia pela manhã). precisava parar de sentir pressionado, vigiado. A biblioteca era seu lugar de tranquilidade, mas já tinha percebido que não conseguiria compor um álbum inteiro ali. Ele precisava de um tempo longe da cidade. Um tempo para sua mente e coração.
Colocou as bebidas em cima da mesa, ocupou a poltrona macia e esperou. Abriu o aplicativo de mensagens de seu celular, respondeu algumas mensagens de sua irmã que o mandara fotos dela com o namorado. Olhou seu twitter por algum curto tempo, e estava pensando, se questionando, se tweetava algo para seus milhões de seguidores quando viu passar ao seu lado e ocupar a mesma mesa de sempre. Ela logo foi para as estantes, ficando lá por algum tempo antes de voltar com um livro grosso e ocupar a poltrona.
esperou até que se acomodasse melhor, pegasse seu caderno, notebook e estojo de dentro da mochila que sempre a acompanhava. Então, quando ela fez isso, ele se levantou.
– Frappuccino com chantilly. – descreveu a bebida quando colocou o copo em cima da mesa, próximo ao livro aberto.
ergueu o rosto para encarar que sorriu.
– Obrigada, mas…
– Recusar algo dado é falta de educação. – a interrompeu, sentando-se de frente para ela quando continuou: – E eu tenho certeza que você tem educação.
, eu real…
– Por favor. – a interrompeu mais uma vez, usando um tom de voz pedinte. O mesmo tom que sempre funcionava com sua mãe e irmã. – É só um café, nada demais. E é o seu preferido.
– Meu preferido? – ela perguntou, erguendo as sobrancelhas sem nem perceber, olhando do corpo colocado em sua direção para o cantor.
– É. Bom, outro dia eu ouvi o Brad te perguntando se você iria querer o mesmo de sempre, que é esse, e já que você sempre pede esse… Ele deve ser o seu preferido. – explicou a lógica que usou para pedir aquela bebida para , segurando o copo de seu próprio café enquanto esperava que ela aceitasse o dela.
– Obrigada. – agradeceu de vez, sorrindo de lado e recebendo um sorriso maior do cantor. – Mas, não vou beber tudo de uma vez então…
¬– Tudo bem, sem pressa. Tenho tempo.
Afirmou, sorrindo para que continuou encarando-o por mais algum tempo tentando ler na face de , naquela expressão feliz, o que ele queria com ela afinal. Mas, não encontrara nada demais naquele sorriso, nas covinhas e no brilho do olhar. Nada.
bebeu um golo do frappuccino, voltando então sua atenção para suas anotações e pesquisa. a observou quieto por alguns poucos minutos, logo desistindo de ficar ali parado e se levantando. Ele foi atrás de folhas brancas, que encontrou na impressora que ficava no lado oposto a mesa que agora ocupava junto com . Procurou por um livro como dela, de geografia, e a pediu uma caneta emprestada quando voltou para a mesa. leu por cima as anotações que fazia naquele momento, procurou por aquelas informações no livro que ele tinha pegado e sorriu quando, já quase no final do livro, encontrou um capítulo inteiro sobre a Coreia do Sul.
E mesmo que não tivesse lhe pedido ajuda ou dito o porquê de estar pesquisando a notando coisas sobre o país da Ásia Ocidental, anotou o máximo de coisas possíveis sobre aquele lugar em suas folhas brancas. História, geografia, demografia, política e governo. Anotou tudo. E entregou as folhas para quando ela o avisou que precisava ir embora.

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Na quarta-feira seguinte, as pesquisas e anotações foram feitas em dupla. perguntou a o que exatamente ela gostaria de saber da Coreia do Sul, ela o respondeu que “tudo” e então dividiram o que cada um pesquisaria.
Então, criaram um hábito juntos.
Porém, mesmo que passassem horas sentados na mesma mesa, conversando sobre a Ásia Ocidental e tomando café, e as vezes comendo cookies, ainda era cedo demais para dizer que e se tornaram amigos íntimos e que se conheciam como ninguém. Apenas deixaram de serem completos estranhos. Mas, mesmo que não se conhecessem infinitamente, sabia que não era de se atrasar mais de uma hora.
Eles não tinham combinado um horário para se encontraram ali, mas sabia que sempre aparecia em determinado horário porque o mesmo que o dele. Em nenhum outro dia tinha sido diferente, as vezes dez minutos mais tarde, mas nunca mais de uma hora. Por isso, ele estava verdadeiramente preocupado com a garota enquanto pesquisava sozinho sobre a Coreia do Sul. Olhava para a janela ao seu lado, observando a rua do lado de fora, em busca de que não apareceu pela próxima hora. estava aflito. Pensou em parar com a pesquisa e anotações, já que não conseguia se concentrar tamanha era sua preocupação, mas sabia que seu nervosismo só pioraria se ficasse parado.
continuou o que estava fazendo, concentrando-o o máximo possível a respeito da Coreia do Sul. Ficando interessado a ponto de se assustar quando Lindsen o chamou parada em frente à mesa, o avisando que havia ligado para a biblioteca e pedido que avisassem a que ela não iria para lá naquela noite. Lindsen reforçou que pediu desculpas pela demora em avisar.
sabia que deveria ficar aliviado em saber que estava, pelo menos, viva. Mas, saber que ela não iria para a biblioteca o preocupava ainda mais.
Aquela pesquisa sobre a Coreia parecia importante demais para que ficasse um dia sem fazê-la por um motivo bobo. tinha a certeza de que ela não fora para a biblioteca por um motivo forte. E era isso que o deixava ainda mais preocupado: não saber que motivo era esse. Não saber se esse motivo faria chorar mais uma vez.

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Na quarta-feira seguinte, apareceu e sentou-se na poltrona da mesma mesa de sempre. Acenou para que a esperava, agradeceu o copo de café que ele a ofereceu junto com todas as anotações que ele tinha feito na semana anterior.
mostrou a as pesquisas e anotações que ela fizera em casa, conversaram sobre o que tinham anotado e juntos decidiram que estava na hora de focarem no turismo da Coreia do Sul.
Eles se aprofundaram nos pontos turísticos. Lugares lindos, incríveis, com tanta história e beleza que fora impossível não se desligarem do mundo. Nem viram a hora passar, o céu escurecer a hora de irem embora chegar. Lindsen que os chamou, avisando que precisava fechar a biblioteca.
e se despediram na porta da biblioteca, com sorrisos e uma conversa baixa ainda sobre a Coreia. Cada um esperou pelo seu táxi, e quando o de chegou, ela prometeu a – que a perguntou – que iria para a biblioteca na próxima quarta-feira.
disse que, se caso precisasse de alguma coisa, poderia contar com ele. Ela o agradeceu e desejou boa noite antes de entrar no táxi.
O cantor desejou que a garota tivesse entendido que ele não se referia a continuar ajudando-a na pesquisa, mas, sim a ajudá-la na vida.

xxxx

– Repete, por favor.
– Seul. É a capital e maior metrópole da Coreia do Sul. – respondeu, observando abrir o navegador de busca na internet e começar a pesquisa do dia.
– Nossa, é lindo. – suspirou, encantando com as fotos de alguns pontos de Seul.
– Sim, muito. – mordeu um sorriso, encarando as imagens com que abria outra e outra, e depois outra e outra…
e ficaram minutos e mais minutos encantados com as imagens da metrópole, onde arranha-céus, metrôs de alta tecnologia e a cultura kpop se misturava com templos budistas, palácios e mercados de rua. Ficavam boquiabertos quando encontraram fotos do futurista Dongdaemun Design Plaza muito mais do que que já tinha feito aquela pesquisa meses atrás. Também viram fotos de um saguão de convenções com arquitetura curvada, que tinha um parque no telhado. O Palácio Gyeongbokgung que já tivera mais de sete mil quartos e o templo local, Jogyesa, que abrigava: leguminosas e pinheiros antigos. O Museu Nacional da Coreia e o memorial de guerra Jeonjaeng Ginyeomgwan, dedicados à arte e história do país. Lotte World, o grande parque de diversão localizado próximo ao enorme arranha-céu Lotte Word Tower. Pesquisaram também sobre bairros, e se surpreenderam novamente ao ver imagens de Gangnam, e o badalado Hongdae que tinha como foco a vida noturna. Itaewon era mais voltado para os expatriados, e Insa-dong que parecia um vilarejo que tinha desde lojas locais, restaurantes de lámen e churrasco coreano até casas de chá. Era tudo muito lindo, rico de detalhes, história e valor.
estava encantado, e parecia ainda mais.
tinha entendido que todo aquele interesse de pela Coreia era algo além, muito mais do que uma simples pesquisa de estudos. O brilho que ela tinha nos olhos enquanto via aquelas imagens, o sorriso puxado de lado e como sempre falava tão cheia de amor pela Ásia, a Coreia… Não, não era apenas uma pesquisa. Por isso, ele aguardou até que ela voltasse para a mesa com as últimas imagens que fora imprimir, para perguntá-la:
– Você vai viajar pra lá? Seul. – questionou, observando-a juntar e guardar as imagens em um envelope que tirou de dentro de sua mochila.
– Sim.
– Quando? – desligou o notebook, sabendo que logo estariam indo embora, esperou a maquina desligar por completo antes de fechá-la e entregar para a dona.
– Ainda não sei bem. Acho que daqui uns sete ou oito meses. Vai ter o show de um grupo de lá, do kpop, a volta deles. – explicou, sorrindo, e sorriu de voltar. Ouvir falar de volta de grupo o fazia se lembrar da sua antiga banda e de seus ex-companheiros, senti falta. – Já comprei os ingressos para o show.
– Ingressos? Não vai sozinha? – estava confuso. Se levantou e colocou seu celular no bolso, também se arrumando para ir embora.
– Não, vou com a minha melhor amiga.
Aquele foi a primeira vez que viu um brilho nos olhos de , bem diferentes daquele que surgira durante a pesquisa. Era mais intenso, bonito. Também fora a primeira vez que a viu sorrindo de um jeito que não parecia forçado. Era um sorriso largo, mostrando os dentes, extremamente bonito, e que o fizera sorrir de volta.
sabia que jamais iria se esquecer daquele sorriso e daquele olhar iluminado de . Pensou em tirar uma foto da garota naquele momento, mas confiou em sua memória para guardar aquela cena.
Juntos caminharam para fora do local, se despediram do lado de fora e daquela vez foi embora andando. permaneceu ali, esperando seu táxi, observando a garota sumir do seu campo de visão… Enquanto desejava que ela tivesse uma excelente viagem com a melhor amiga.

Capítulo três.

 

As nuvens cinza no céu escuro anunciavam a chuva forte que ainda não tinha caído em Londres, o vento frio só confirmava ainda mais. Por esse motivo, se agasalhou o máximo possível antes de ir à biblioteca. E dessa vez, também levara consigo o guarda-chuva preto que comprara recentemente.
também estava agasalhada, tão bem agasalhada que sorriu quando se aproximou da mesa que ela ocupava – aquela que antes era apenas dela, e agora é dos dois, e a viu parecendo ainda menor por causa da touca e o casaco grande que usava.
– É seu. – ela o surpreendeu ao empurrar um copo de café na direção de , bebericando um pouco do próprio copo que naquele dia continha chocolate quente.
– Obrigado. – agradeceu, se sentando de frente para a garota e pegando o copo oferecido, o café americano estava tão quente que atingia a mão de que segurava o copo. Café americano, seu preferido. Quando foi que descobrira isso? – O que iremos pesquisar hoje? – perguntou, engolindo a curiosidade a respeito do seu café.
– Você pode me ajudar com hotéis? Eu tentei pesquisar sozinha em casa, mas, hm… Acho que não sou a melhor pessoa para saber sobre hotéis. – sorriu de lado, tirando seu caderno, o notebook e o estojo de sua mochila. – Da última vez em que viajei com a Mayh, acabei escolhendo um hotel que o banheiro ficava do lado de fora do quarto. Hm, não era bem um hotel, mas tinha quarto e cama, pensei que fosse ser legal. E foi. A viagem foi muito legal. Mas, a parte do banheiro do lado de fora… Não foi muito legal, sabe? Principalmente depois de comer chocolate demais.
explicou, parecendo lembrar perfeitamente da tal viagem quando riu. riu junto porque conseguira visualizar muito bem a imagem e sentir o desespero que elas devem ter sentido, acabou acenando positivamente com a cabeça.
– Vamos encontrar os melhores hotéis da Coreia do Sul! E com banheiro dentro do quarto. – piscou, sorrindo para que riu mais uma vez e piscou de volta para ele.
e não apenas pesquisaram sobre diversos hotéis em Seul, como também imprimiram imagens de cada um deles, com detalhes dos quartos e de todas as áreas a disposição dos hóspedes.
Após pesquisarem hotéis, desafiou a falar algumas palavras em coreano com a ajuda do google tradutor, o que resultou em algumas gargalhadas de ambos, tapas dela no braço dele, também tentando falar em coreano e se atrapalhando todo.
O celular de começou a tocar quando tentava falar “obrigado” em coreano, errando grosseiramente a palavra que ele nem sabia como começar a falar igual à mulher do tradutor. Sendo educado e dando a ela a privacidade necessária para falar ao celular, se levantou e avisou que estava indo comprar alguns cookies com Brad.
Então, ele foi. nem se sentou num dos bancos em frente ao balcão, esperou de pé enquanto Brad colocava dividia seis cookies simples com gotas de chocolate em dois pratos. O cantor aproveitou para pedir por outro café e chocolate quente. Olhou para a porta de entrada que tinha um vidro na parte superior, e viu a chuva começar a cair do lado de fora.
A chuva começara calma, fina, mas em questão de segundos ficara grossa e barulhenta. Dali de dentro, mesmo com o barulho interno, era possível ouvir o barulho forte da chuva. conseguia ver a folhagem da arvore que ficava em frente à biblioteca, balançando com certa violência.
não era muito fã de chuvas como aquela, que, geralmente, sempre trazia notícias ruins junto.
Brad chamou por que sorriu para ele, pagou o pequeno lance e equilibrou os dois pratos e copos em seus braços e mãos. Caminhou devagar com cuidado para não derrubar nada, e paralisou com a cena que viu quando chegou próximo à mesa que dividia com .
Por ter saído da mesa para dar privacidade a para que atendesse a ligação, ter ido comprar cookies, café e chocolate quente, não estava lá quando atendeu a ligação que tirou o mundo debaixo de seus pés e o jogou em cima de sua cabeça de uma vez. Ele não lá quando ela ouviu as duas palavras que congelou todo o sangue de seu corpo, quebrou seu coração em pedaços e a fizera cair num choro dolorido.
não estava por perto quando soube que seus planos não se tornariam realidade.
Ele não estava lá quando ela desejou não estar. Ele não estava lá quando desejou não estar mais viva.
– Ei, ei. – a chamou, apressando os passos para se aproximar, colocando os pratos e copos em cima da mesa. Ele se sentou de frente para a garota, esticou as mãos até que tocassem os braços de que tinha o rosto coberto com suas mãos. – O que aconteceu?
Coração de errou diversas batidas ao que acelerou quando ergueu a cabeça querendo olhar o teto, como quem quer parar de chorar, segurá-lo, e não consegue. Ver o rosto dela molhado pelas lágrimas já derramadas, e a expressão dolorida que tinha, fizera com que mordesse seu próprio lábio inferior e acariciasse de leve a mão de .
– Não precisamos mais pesquisar sobre a Coreia do Sul. Nós não…
não conseguia falar com clareza, e foi quase impossível para entender essas poucas palavras. O choro agressivo que não permitia ser preso junto com os soluços dificultava a comunicação.
A dor que sentia era tão palpável que não conseguiu permanecer onde estava, precisou se arrastar na poltrona até que parasse sentado do lado dela.
passou o braço ao redor de enquanto ela cobria seu próprio rosto, numa tentativa falha de cobrir as lágrimas que molhavam sua pele. Ele a puxou para si, num abraço quente e acolhedor, querendo protegê-la do mundo e de todo mal. A apertou contra seu corpo, colocando sua mão na cabeça de quando ela a encaixou perfeitamente próxima ao seu pescoço.
Ele sentia as lágrimas da garota molhando o pequeno pedaço de pele descoberto pelas roupas de frio, e também sentira o leve puxar que seu casaco levou quando o segurou com força demais. Ela só queria um lugar para se apoiar. E ele não se importava com nada disso, apenas com a dor que ela sentia. A dor que fazia tremer em seus braços enquanto tentava formar frases que nunca eram finalizadas.
– Você precisa se acalmar um pouco, . Lembre-se de respirar, por favor.
Ele pediu, balançando-a levemente de um lado para o outro, deixando um beijo na cabeça da garota. fechou seus olhos, perguntando ao mundo o porquê de tanta dor ter sido colocada em cima de . Ele não a conhecia por inteira, mas, sabia, sentia que ela não merecia aquilo.
– E-Eu a quero de volta, . Ela! – a voz de saiu totalmente embargada e dolorida, um pouco abafada quando ela se virou um pouco seu rosto e tocara ainda mais na pele de . – Eu não quero respirar, eu quero que a Mayara volte a respirar! Quero a minha melhor amiga de volta! Quero a única pessoa que me entendia nesse mundo! A única pessoa que ficava! Que sempre ficou! Eu quero que o infeliz que bateu no carro dela apodreça na cadeia! Que ele sofra como a minha garota sofreu nesses cinco meses de internação! Eu quero que o mundo pare de rodar! Porque dói! Eu quero a Mayara de volta! Eu quero voltar no tempo e ser capaz de convencê-la a não ir para aquela festa! Eu não quero nada… Eu só quero a Mayara de volta. Por favor, me traz ela. Traz a Mayara de volta pra mim, . Por favor.
não soltou nem mesmo quando no momento de raiva, ela começou a dar socos no peitoral do cantor. Ele não a afrouxou o abraço quando ela gritou ao que o pedia pela volta da melhor amiga. Pelo contrário, deixou que desabafasse do jeito que quisesse. Que se apoiasse nele e chorasse ali com ele.
Minutos antes daquele choro, recebera a informação de que Mayara havia falecido após cinco longos meses de internação. A garota tinha sofrido um acidente de carro quando voltava de uma festa meses atrás, e agora não tinha muito que fazer. Não tinha nada a ser feito, a não ser chorar pela morte tão precoce.
Mesmo sem conhecer Mayara, desejou que ela não tivesse morrido. Que ela tivesse sido forte e sobrevivido ao acidente, e se recuperado de todas as complicações que devem ter aparecido em sua saúde. pediu baixinho, que tudo aquilo não passasse de um mal-entendido.
Ele continuou abraçado a menina, dando beijos na cabeça dela de segundo em segundo, cantarolando baixinho uma música que sua mente inventara na hora e que tinha como objetivo acalmar a garota que continuava a chorar agarrada a si. A mão de subia a descia nas costas de , acariciando a garota que estava encolhida como se o mundo fosse pesado demais para suportá-lo.
A chuva ainda caia lá fora, as árvores tinham seus galhos balançados pelo vento, e não via as luzes da London Eye acessas quando olhou para a grande estrutura de ferro como um dia o ensinara. talvez não fosse a única triste com a morte de Mayara.
estava concentrado em acalmar com caricias e cantarolando baixinho, que não ouviu quando uma buzina soou do lado de fora em frente a biblioteca. Mas, ouviu. E por isso ela se afastou de tão rapidamente, pegando o celular em cima da mesa.
. – ele a chamou, vendo-a guardar o aparelho no bolso detrás da calça jeans, colocar o capuz do casaco em sua cabeça e colocar uma das alças da mochila em seu ombro. – , espera.
– Eu preciso ir. Não posso mais ficar aqui. Olhar pra essa mesa e saber que a Mayara nunca mais vai estar aqui comigo, dói… Dói como nunca antes. Olhar pra essa janela e saber que não terei mais as teorias e explicações dela… De como a vida fica muito mais bonita quando observamos os pequenos detalhes… – suspirou, passando a manga do casaco no rosto molhado. – Dói de um jeito que eu espero que você nunca saiba como é. Eu preciso ir, . Preciso ir porque não posso mais ficar aqui em sem a minha melhor amiga. – respirou fundo, tentando controlar o choro que a fazia soluçar. – Me desculpa por qualquer coisa e obrigada por tudo. Mas, eu preciso ir. Eu preciso me despedir da minha melhor amiga que… – deu uma risada baixa, fraca, sem humor. Fazendo com que tivesse sua visão turva pelas lágrimas que surgiram seus olhos. – Já se foi.
assistiu correr para fora da biblioteca, e pela janela que ficava ao lado da mesa a viu entrando num carro preto que saiu acelerado.
Então, era aquilo… Aquela era a história que fazia com que não tivesse brilho nos olhos. O acidente com Mayara, a internação por todos esses meses, e agora… A sua morte. Então, aquele era o motivo. sabia que deveria ser algo sério, só não imaginou que fosse tão doloroso e tivesse um final tão trágico.
permaneceu sentado na mesa olhando para o lado de fora da janela esperando alguma coisa que nem ele mesmo sabia o que era. Talvez uma explicação da vida, do destino ou de Deus. Uma explicação coerente sobre a partida de Mayara. queria saber por que as pessoas boas tinham que ir embora tão depressa desse mundo. E porque a vida é realmente um sopro quando ela pode ser um arco-íris que sempre nos leva a finais felizes com um pote de ouro.
olhava para os pratos de cookies e os copos de café e chocolate quando sentiu seu celular começou a tocar no bolso de sua calça. Ele pegou o aparelho e viu na tela o nome de seu agente, o que o deixou com vontade de ignorar a ligação e retornar, quem sabe, somente no dia seguinte.
Ou, nos dias seguintes.
Mas, sabia que não podia deixar de falar com Jeff. Afinal, deveria ser algo importante sobre sua carreira. E mesmo sentindo um vazio, que não sabia explicar com palavras, em seu peito, sabia das responsabilidades que possuía. Por isso, apenas por isso, que ele atendeu a chamada de Jeff e deixou que o homem lhe contasse que a viagem que pediu havia sido agendada para dali duas semanas. Jamaica. Eles iriam para a Jamaica. Um lugar que sempre quis conhecer. Um lugar onde a mídia não o encontraria e nem o perturbaria, onde suas fãs jamais desconfiariam que ele estaria e onde a paz finalmente seria vivida.
Paz.
riu ao ouvir essa palavra. O mundo não parecia em paz naquele momento. Pelo contrário, parecia um ambiente onde uma imensa e importante baralha fora perdida. Uma batalha extremamente dolorosa e desnecessária, em sua humilde opinião.
Depois de horas sentado naquela poltrona sem tocar no cookie ou no café que comprou, se levantou para ir embora e viu o notebook de aberto em cima da mesa. Ela havia esquecido o aparelho ali.
Quando foi fechar o computador, sentiu o coração apertar quando viu o site do google tradutor aberto com algumas palavras escritas no espaço de texto para tradução. Ele se sentou de novo e clicou no botão que fazia a mulher falar, e nunca se sentiu tão mal por ouvir uma palavra em coreano.
Doeu.
Porra, doeu.
fechou o site e pela primeira vez, viu a foto de fundo da tela do computador de que sempre o entregava com a janela da internet aberta.
Era uma foto de com uma menina que com certeza tinha a idade da menina. A garota ao lado de sorria olhando fixamente para a foto, enquanto sorria olhando para a menina de cabelos de cor roxo escuro ao seu lado. Mayara. A menina ao lado de era Mayara, sentiu isso.
A vida seria realmente mais fácil se ao invés de um sopro fosse um arco-íris.
viu perto da barra de tarefas do computador um documento chamado “Coreia do Sul – viagem”, sua curiosidade e certeza do que se tratava o incentivou a abrir o documento que de certa forma o pertencia. Não se surpreendeu quando viu todas as anotações que ele e fizeram juntos enquanto organizavam a viagem da garota e de sua melhor amiga. Tudo estava tão bem organizado que o deixou boquiaberto com o jeito com que as imagens, textos e dicas estavam arrumados. leu todo o texto mesmo já sabendo de tudo, observou as fotos com cuidado e sentiu um vazio quando leu o pedido escrito por no final:

“Fica bem logo.
Precisamos conhecer todos esses lugares. Inclusive a trilha que não coloquei pra não assustar seu sedentarismo.
Eu sei que você ficará surpresa quando conhecer o garoto que me ajudou com toda essa pesquisa. Ele é bem legal. Então, acorda logo e venha na biblioteca para conhecê-lo, e para termos nossa vida de novo.
O mundo está escuro sem você aqui fora. Sinto sua falta todos os segundos de todos os dias. Eu te amo. Amo com tudo que há em mim.
Com amor,
. xx”

fechou o documento da viagem, abrindo um novo de forma automática. Colocou a fonte no tamanho e formato que julgava ser o melhor, e então, começou a escrever. Precisava deixar ali um conselho para , um pedido quem sabe.

“Às vezes a vida nos dá uma rasteira tão forte que parece ser um sinal dos tempos, pensamos que não vamos suportar tamanho buraco que se cria em nosso peito e o peso do mundo que é jogado em cima de nós. A vida gosta de testar a força que temos e nem sabemos que possuímos. Então, ela nos olha como quem diz bem vindo ao show final, espero que esteja usando suas melhores roupas. O problema é que nunca estamos preparados para o show final. Nunca. Parecemos tão bem aqui neste mundo, tão donos de nós mesmos e do nosso tempo que esquecemos que não somos donos de nada. Nunca fomos e nunca seremos.
Não importam quantas perdas tenhamos ao longo da vida, nunca estaremos acostumados ou preparados para perder alguém que amamos. Mesmo que já tenhamos passado por isso algumas outras vezes. Então, só pensamos em fugir. Fugir do mundo e de nós mesmos. Da dor que é esmagadora. Pensamos: ”Temos que fugir daqui” para um novo mundo, onde as pessoas boas ficam e as ruins se tornam boas. Onde não perdemos quem amamos, e não precisamos fugir de nada. Onde a vida é um arco-íris com um belo final feliz e não um sopro com dor.
Os mais velhos dizem que tudo vai ficar bem e que o fim está próximo para todos nós, e que um dia nos encontraremos com as pessoas queridas em algum mundo muito melhor que este. Então, eles dizem “aproveite o tempo da sua vida” como se fosse fácil viver depois de ter um buraco cavado em nosso peito, mas, eles entendem mais da vida do que nós, não é verdade? Os anos de experiência contam nessa hora.
Eu sinto muito, . Eu sinto muito. Mas, algumas pessoas foram feitas com porções de bondade em excesso e por isso não podem permanecer a este mundo por tanto tempo. Infelizmente, nós, os meros mortais ignorantes, não possuímos uma sabedoria grande o suficiente para lidar com anjos que caíram aqui por engano. Eu sinto muito pela partida da Mayara, e, por saber que logo não terei mais você neste mundo. E eu já sinto a sua falta. Eu espero que… Antes da sua partida, nós possamos nos encontrar novamente em algum lugar… Algum lugar longe daqui. Porque eu quero ver o brilho que eu sei que seus olhos têm, quero ver seu sorriso e ouvir sua risada mais uma vez. Eu quero poder estar novamente ao lado de quem me aceitou ao seu lado em momentos que não usei minha fama. Você foi o meu ponto de lucidez em meio a essa vida que vivo. Você me fez lembrar como é ser uma pessoa comum e alcançável. Você trouxe de volta o verdadeiro . Fazendo-me esquecer de quem é . Você foi o meu ponto de luz verdadeira em meio a tantos flashes de câmeras fotográficas.
Se você quiser, eu posso fugir com você. Eu seguro a sua mão, faço sua dor passar e te faço feliz como eu sei que Mayara queria que você fosse. Porque assim como eu, tenho certeza de que ela sabia que a melhor e mais incrível amiga dela merecia toda a felicidade do mundo.
Vou deixar meu numero de celular aqui no final. Não pense sobre o que vai me dizer quando me ligar ou escrever quando for me mandar mensagem. Mande-me duas frases que eu vou até você em um segundo:
Temos que correr… Temos que fugir.
Fica bem. Eu sempre vou estar aqui para você, não importa para onde a música ou vida me leve. Um pedaço do meu coração sempre vai estar com você.
.”

Epílogo.

A Olympic Gymnastics Arena estava completamente lotada. Todos os ingressos haviam sido vendidos e sabia disso desde o dia em que foi comprar as duas entradas para o show e ficou horas na frente do computador tentando acessar ao site de compras.
Um mar de fãs coloria o lugar com objetos que acendiam e emitiam a cor azul perolada. conseguia ver tudo com muita perfeição e beleza de onde ficava sua cadeira na arquibancada. Seu braço também estava erguido, balançando de um lado para o outro a lightstick que comprara antes de entrar no local do show que começara há trinta minutos.
Há oito meses jamais pensaria ir aquele show. Não sem que fora quem a apresentou aquele grupo coreano, o tal do Kpop. Por isso, pela ausência da melhor amiga, era tão difícil para estar ali. Ela só conseguia pensar que se não fosse por um homem embriagado ao volante, ainda estaria neste mundo, ao seu lado, segurando sua mão e gritando todas as músicas daquele grupo que agitava aquele mar de fãs.
não estava com sua melhor amiga, estava sozinha. E esse fato apertava um pouco mais seu coração desde que chegara a Coreia do Sul, país que combinou visitar com , mas, que agora visitava sozinha. Era tão difícil e doloroso estar ali sozinha. Mas, sendo a pessoa que mais conheceu em vida, sabia que a garota ficaria com raiva e brigaria consigo se soubesse que deixou de visitar a Coreia depois da imensa pesquisa que fizera.
E, sendo estranho ou não, mesmo em meio a tanta dor e saudade, conseguia sentir a presença de consigo naquele show. Na verdade, sentia consigo desde a semana após sua morte; desde que tivera um sonho em que lhe dizia que estava bem e que agora a protegeria dos céus. Agora a acompanharia sempre, para todos os lugares possíveis e imagináveis. Porque anjos não possuem passaportes que limitam suas viagens.
Quando o grupo começou a cantar a música preferida de , riu sozinha lembrando-se do dia em que a apresentou aquele grupo com aquela música, gritando a letra da canção com todo ar que havia em seus pulmões. nunca foi uma cantora maravilhosa. E sempre a amou mesmo assim.
cantou a música junto com o grupo e os fãs ali presentes. Cantou porque a voz de soou em seu ouvido a lembrando da promessa que a fizera; que cantaria com todo o ar que existia em seu pulmão quando fossem ao show de volta do grupo.

xxxx

Aquele foi o melhor show da vida de .
Voltando para o hotel onde tinha reservado um quarto, dessa vez com banheiro dentro, resolveu mudar de caminho e ir até o Myeongdong comer alguma coisa que fosse diferente da comida do restaurante do hotel que já estava hospedada há uma semana.
Caminhou pelo lugar que estava lotado por pessoas que falavam diferentes idiomas. Ouvia um idioma diferente cada vez que pedia licença a alguém ou que passava entre uma pessoa e outra. Comprou um waffle de chocolate e um chá. E enquanto esperava que o senhor simpático lhe entregasse seu troco, olhou ao seu redor e pensou em ficar por ali algum tempo, mas, acabou desistindo da ideia tão rápido quanto ela veio. não era boa em fazer novas amizades e sua cabeça estava começando a doer.
Foi para o hotel comendo seu pequeno lanche nada saudável pelo caminho. Brincou com um menininho que não deveria ter mais de três anos que estava no colo de sua mãe e, que sorriu para quando passou ficou na sua frente.
Quando chegou ao quarto do hotel, tirou os sapatos e as peças de roupas deixando tudo espalhado pelo quarto antes mesmo de entrar no banheiro. Ligou o registro de água quente do banheiro e respirou fundo.
E chorou.
Chorou porque era de noite que a saudade apertava mais que o normal.
Chorou porque tinha dias em que a morte de parecia um pesadelo que logo chegaria ao fim, enquanto em outros parecia que a menina estava fazendo uma viagem e que logo voltaria. Chorou porque queria sua melhor amiga ali com ela, fisicamente. Queria tocar na garota, abraçá-la apertado, e dizer mais uma vez o quanto lhe amava.
chorou porque é isso que acontece quando a dor é demais para se aguentar dentro de si… Ela transborda pelos olhos.

xxxx

No dia seguinte, acordou tarde e ficou enrolando na cama até o horário do almoço que foi quando teve que levantar para se arrumar e foi almoçar no restaurante do hotel. Voltou para o quarto depois de comer a arrumou a pequena bagunça que fez na noite anterior.
Tomou banho quando viu que estava anoitecendo e decidiu que seria hora de ir para o lugar que estava mais empolgada de conhecer e que seria o último que ela iria antes de voltar para Londres na tarde do dia anterior. Colocou uma calça jeans com rasgos em cada joelho, um par de botas de saltos grossos e baixos, um suéter preto que era maior que o seu tamanho ideal. Penteou seu cabelo o deixando solto e admirando novamente a franja que tinha cortado mês passado em um ato que julgou ser de coragem. Passou os dedos dentre os fios que estavam todos no tom castanho escuro e fez uma maquiagem tão leve que mais parecia que estava sem nada no rosto. Pegou sua bolsa, guardou o cartão da porta do quarto dentro da bolsa e colocou seu celular no bolso detrás da calça.
andou até o Dongdaemun Design Plaza que não ficava tão longe do hotel onde estava. Aproveitou para admirar o lugar e as pessoas com traços que ela julgava tão lindos e delicados.
Chegou ao seu destino cerca de vinte minutos depois, e não se sentia cansada e nem com sono e mesmo se estivesse, sabia que tudo isso desapareceria no momento em que colocasse seus olhos no grande Dongdaemun Design Plaza e admirasse a beleza do lugar.
Era ainda mais bonito e fascinante pessoalmente do que nas imagens que encontrou na internet.
não se arrependeu de ter escolhido deixar o local como último passeio que faria na Coreia.
Tirou algumas fotos do monumento que era imenso diante de seus olhos. E como boa turista queria tirar uma foto em frente a gigante arquitetura que ela sabia que tinha um parque no teto e mal podia esperar para conhecer. tirou algumas selfies e criou coragem para pedir que alguém tirasse uma foto dela de corpo inteiro em frente ao lugar.
Olhou ao seu redor procurando por alguém que lhe parecesse disposto a tirar uma foto de uma turista boba e optou pelo cara que estava de costas para si com as mãos na frente do corpo.
se aproximou devagar para não assustar ao homem mais alto que ela e tocou lentamente no ombro dele ao que o chamou:
– Licença, boa noite. Você pode tirar uma foto minha, por favor?
Perguntou rezando para que ele soubesse falar inglês e não a achasse inconveniente.
O que não esperava era ver um rosto tão conhecido quando o homem se virou de frente para ela e olhou em seus olhos.
teve a respiração perdida quando o viu ali, na sua frente.
estava ainda mais bonito do que da ultima vez em que se viram. Seu cabelo estava escondido em uma touca o que deixava mais a mostra os traços de sua face. Sua roupa lhe deixava absurdamente elegante e despojado. O garoto tinha uma barba rala no rosto o que despertou em uma vontade de tocá-lo, perguntar se ele estava mesmo ali.
Fazia meses que eles não se viam ou tinham qualquer contato. tinha parado de ir à biblioteca que ficava há três ruas de sua casa. Da ultima vez que fora lá foi para buscar seu notebook que esqueceu na noite que soube da partida de . E um mês depois de ter buscado seu notebook ela leu a carta que a escreveu em um documento do Word. A carta que a fez chorar e sentir um pouco de paz por saber que mesmo com a morte de , ela não estava sozinha de um todo. Que tinha alguém consigo. E que o menino não tinha ficado ao seu lado todo aquele tempo somente porque queria algo para fazer enquanto não estava recebendo atenção da mídia.
Ela sentiu a falta de todos esses meses. Não sabia quando, mas tinha se acostumado a encontrar o menino uma vez na semana em todas as semanas desde que se conheceram.
E agora tê-lo na sua frente, era demais para suportar sem chorar.
Ela estava vendo .
Ele que estava há pouquíssimos passos de distancia dela.
Ele que a viu em um dos momentos mais frágeis de sua vida. Ele que a abraçou, beijou sua cabeça diversas vezes, a fez carinho e cantarolou uma música que parecia canção de ninar em seu ouvido. estava de frente para . que mesmo sem saber a distraia todas as quartas-feiras quando ela ia para a biblioteca após passar o dia inteiro no hospital com .
pensara nele desde que leu a carta e, principalmente, desde que pisou na Coreia do Sul. Sempre pensava em ligar para ele ou lhe mandar uma mensagem, mas, nunca criara coragem o suficiente.
A menina estava tão sem reação diante da aparição de que não sabia o que fazer ou como reagir. Encara-lo lhe parecia o certo.
Mas, não para .
Por isso, ele quebrou a distância entre os dois corpos e a puxou para um abraço que lembrou a qual era a sensação de estar protegida da maldade do mundo.
Sensação essa que só sentiu todas as vezes que abraçou . E quando foi abraçada por dentro da biblioteca.
Eram sensações diferentes.
Com , se sentia acolhida e entendida. Com , ela sentia que não precisava carregar sua dor sozinha porque ela não estava sozinha. E a prova disso, era o coração do garoto que batia tão acelerado quanto o seu.
– Eu te encontrei. Meu Deus, eu te encontrei. – Ele sussurrou e suspirou de um jeito que entendeu sendo de alivio.
– C-Como você… .
A menina queria perguntar como ele havia chegado até justamente na mesma época que ela. Mas, as palavras não saiam dos lábios de que sentia as mãos e os braços de a apertando contra o corpo do garoto que sempre fora mais alto que ela e que estava incrivelmente cheiroso. apertou o tecido do suéter que ele usava, como da última vez que se viram. Respirou fundo e ficou de olhos fechados sentindo a presença do garoto.
– Você disse que viria em oito ou nove meses… Pesquisei a data de algum show de retorno de grupo, e encontrei o show de ontem. Eu estou aqui há um mês, venho aqui todos os dias porque sempre soube que você não conseguiria vir até a Coreia e não visitar este lugar.
– Mas, e se eu não viesse? E se eu tivesse desistido de vir?
– Eu continuaria a te esperar… A te procurar. Eu não vou te deixar ir embora de novo, … Eu vou com você. Pra onde você for… Eu vou com você.
respondeu a menina ao que a apertou ainda mais contra si. sentiu lágrimas se formarem em seus olhos. Ela respirou fundo e continuou abraçada a ele.
E jura a quem quer que seja que ela ouviu a voz de lhe sussurrar no mesmo tom de voz que ela usava quando contava algo sorrindo: “eu te cuido daqui, e ele te cuida daí”.
E pelos próximos – looooongos – meses deixou que a cuidasse do céu e a cuidasse na terra.

Fim.