The Fine Line Experience

The Fine Line Experience

Sinopse: Rosalie Hayes era uma colunista mensal da revista Rolling Stones que escrevia crônicas, divididas em várias partes, sobre as inspirações e histórias por trás dos álbuns de sucesso. A trabalho, e com tamanha descrença, a jovem teve que embarcar para Tóquio, para conhecer Harry Styles e sua banda. A jovens Hayes já tinha suas próprias conclusões sobre Fine Line e, por isso, acreditou que aquela seria uma viagem desnecessária. Mas em meio a viagens psicodélicas e passeios noturnos, Rosalie se deu conta de que ali nascia um romance.
— Eu amo essa música. — Ela disse baixinho, ainda com os olhos fechados.
— Foi por isso que aumentei o volume. — Ele respondeu com o tom de voz no mesmo tom que o dela. — O que acha que Michael Jackson estava pensando enquanto ele escrevia Liberian Girl?
— Não consigo pensar em apenas uma coisa. — Rosalie o encarou sorrindo. — Acho que ele estava tão apaixonado que a letra saiu sem fazer muito esforço. Não vê que ele expõe todo o seu amor por essa garota liberiana? Pode ser que ele tenha viajado para a Libéria e tenha se apaixonado de uma forma única. — Harry a ouvia em pleno silêncio, admirando aquela jovem de olhos amendoados. — É uma canção de amor. Eu apenas cantaria para alguém que eu amasse com todo meu coração.
O mais velho sorriu como nunca com aquela afirmação. — Então, um dia, cantará para mim?
Gênero: Romance
Classificação: 16
Restrição: insinuações de sexo, uso de bebidas e drogas
Beta: Thalia Grace

Capítulos:

  1. Prólogo

“Jamais passou por minha cabeça que eu embarcaria para o outro lado do globo, acompanhando minha supervisora, para escrever uma das minhas colunas mensais. O sonho de me tornar uma crítica musical reconhecida estava tão perto de ser realizado; eu tinha a minha maior oportunidade ali. Mas, de alguma forma, eu agi como se aquela fosse mais uma viagem a trabalho que me faria perder o sono, ir para lugares que eu não queria e ter que esperar as pessoas me contarem suas histórias. Ir para Tóquio foi um choque e eu queria voltar para casa, de verdade. Com o passar dos dias, eu percebi que se tornou agonizante ter que esperar para que Harry me convidasse para contar-me sobre as histórias por trás de suas músicas — eu o aguardava ansiosa, com meu interior inquieto de pura curiosidade. Depois de poucas semanas eu me vi presa a Fine Line e aos integrantes da banda. (…) Por agora, eu gostaria de agradecer pelo tratamento incrível que tive e pelos momentos em que eu chorei de rir, mas também, pelos momentos em que chorei de verdade ao ter que encarar meu próprio dilema. Agradeço, principalmente, a Clare por ter sido tão amável e paciente. Um eterno obrigada a Harry Styles por ter sido tão sincero e franco em todas as vezes em que passamos tempo juntos. Não sei se conseguiria sem sua ajuda. Obrigada por ter tirado sua capa, por ter se mostrado verdadeiramente para mim.” — Trecho retirado da coluna mensal da revista Rolling Stones, escrita por , auto intitulada “THE FINE LINE EXPERIENCY”.

O mais velho rolou o dedo mais umas poucas vezes pela extensão do ecrã de seu telefone celular, descrente de tudo o que havia lido. Soltou um suspiro pesado — carregado de dúvidas e, até, um pouco de alívio. Estava em uma sala cheia de repórteres e seus companheiros de banda ainda estavam naquele mesmo silêncio constrangedor de quando ouviram sobre a atualização da coluna. Era, realmente, uma surpresa e tanto. The Fine Line Experiency, um conjunto de crônicas escritas por , deveria ter vindo a tona assim que voltaram de Tóquio, há alguns meses atrás.

Não haviam palavras para que Harry Styles pudesse proferir, seu cérebro simplesmente não funcionava naquele momento. Havia sido atingido por uma bomba, e o estado de choque demoraria a passar. Ainda que com toda delonga, o pessoal não abaixou seus microfones e, vez ou outra, o flash de uma câmera o cegava. O cacheado estava tão confuso com tudo aquilo que seu maior desejo era sair dali correndo e esconder-se, todavia uma sensação crescente de felicidade crescia em seu interior e estava contente em saber que estava de volta. De certo modo era uma situação atípica, ninguém jamais havia sido tão gentil em uma coluna direcionada ao público que curtia a cultura pop. A maioria das revistas faziam matérias sensacionalistas e tremendamente mentirosas e, por mais que ainda não acreditasse plenamente que estava em sã consciência quando escreveu aquilo, estava grato pelas palavras gentis e os termos usados para se referir a ele e seus melhores amigos — a banda.

Harry apoiou o celular na bancada improvisada para aquela coletiva, limpou a garganta, e deu seu melhor sorriso para as câmeras.

foi uma das melhores pessoas que pude conhecer. — Disse, com o tom de voz ameno e sereno. Seu coração começava a disparar dentro do peito e ele poderia jurar que Clare, que estava sentada ao seu lado, poderia escutar seus batimentos.

— Então você confirma que houve mesmo uma espécie de relação entre vocês? — Uma mulher segurando um microfone com a logo da revista People questionou antes de qualquer outra pessoa. Houve burburinho e a mesma reformulou seu questionamento — Quero dizer, você e sua banda estenderam a estada em Tóquio por bastante tempo, e permaneceu com vocês mesmo sabendo que sua supervisora voltaria para Nova York.

— Não, não houve nenhuma relação entre nós dois. — Styles respondeu. Sua mente fez questão de lhe fazer lembrar das noites em que saíram daquela casa juntos para conhecer as ruas e as pessoas. Lembrou-se de segurar a mão de forte quando ela se viu cercada por fotógrafos. Lembrava tão bem da sensação de seus dedos pequenos e gentis penteando seu cabelo assanhado. — Somos profissionais e ela estava lá como uma entrevistadora.

— É realmente duvidoso. — Um homem resmungou no meio de todos. Harry já não sabia mais o que falar para fazer com que as pessoas acreditassem nele, mas se nem ele tinha certeza do que estava falando, como poderiam? — Tornou-se impossível não pensar que vocês eram um casal em uma viagem. — Clare segurou a mão de Harry por debaixo da mesa e fez um sinal com a cabeça para que ela respondesse. — Bem, não estava sendo uma tentativa para tapar o buraco que Camillie deixou?

— Achei que essa coletiva era para falar sobre os prêmios que conseguimos com o álbum. Vocês estão sendo evasivos e rudes. O que a vida pessoal dele tem a ver com tudo isso? — Clare questionou, indignada com toda aquela situação. Percebia que seu amigo estava tremendamente incomodado com toda aquela exposição e falar sobre o que escreveu não ajudaria em nada. Estavam tentando abrir, a todo custo, uma ferida que ele estava conseguindo cicatrizar.

— Tem tudo a ver. Fine é um álbum escrito para uma mulher que quebrou o coração de Harry Styles em mil pedaços, não é? Todo mundo está cansado de saber que Camillie é a malvada na história, por mais que Harry tente maquiar essa verdade. — Uma repórter do canal E! também se levantou. Ela era conhecida por ter os melhores furos do mundo dos famosos e quase nunca errava. — E quem foi nisso tudo? — Ela olhou em volta, instigando as pessoas a sua volta. — Apenas uma redatora novinha que lhe trazia uma sensação nostálgica de se sentir apaixonado novamente?

— Vocês distorcem tudo. — Foi a única coisa que Styles disse. Levantou-se de seu banco e guardou seu celular. — Lembram que eu disse que esse álbum era sobre transar e se sentir triste? Aí está a minha declaração sobre Fine Line, é sobre isso. Agora incluírem uma pessoa que não tem absolutamente nada a ver com a minha vida pessoal a isso é inacreditável. sempre vai ter um espaço no meu coração, mas por ter sido uma pessoa que não me importunava com perguntas sem nexo, como vocês estão fazendo. — Ajeitou a manga de sua camisa social e respirou fundo. — Nunca a usaria para esquecer outra pessoa. Jamais faria isso com ninguém.

— Mas e sobre o que ela escreveu? Sobre ter dito que jamais havia se sentido tão livre e feliz como se sentiu em sua companhia? — A mulher ergueu o microfone na direção de Harry e ele sorriu.

teve acesso a minha pior parte, na minha pior fase. Mesmo assim escreveu tudo aquilo. Como ainda podem pensar que eu faria qualquer maldade para ela? merece muito mais que um cantor amargurado, ela merece um homem que a faça sentir as nuvens. Eu não seria merecedor.

O cantor se distanciou em passos rápidos e saiu daquele lugar na primeira oportunidade que teve. Tinha a impressão de que havia sido muito vago em suas declarações, e que deveria ter dito algo mais convincente. Mas a quem estava tentando enganar? Quando uma das repórteres disse que a coluna de na Rolling Stones havia sido atualizada, o seu coração errou várias e várias batidas. Não poderia ignorar o fato de que se passaram meses desde a noite em que se viram pela última vez e que ele estava aguardando ansioso para saber o que ela tinha para dizer sobre ele. Foi uma longa espera e, durante todo aquele tempo, ninguém mais pôde dizer para onde havia ido. As visitas até o prédio onde ela morava se tornaram cada vez mais corriqueiras e nunca era ela quem atendia a porta quando a campainha era pressionada. Tiffy, sua melhor amiga, era vaga e inflexível. Não queria que Harry soubesse do paradeiro de sua amiga e pediu, inúmeras vezes, para que ele se afastasse. E acabou que ele se afastou, mas os fantasmas das lembranças que ela tinha deixado ainda o atormentavam durante a noite, quando estava em sua cama sozinho.

Era muito tarde para se dar conta de que estava apaixonado por ela? Bem, ele não sabia dizer. Pensar em como poderia ter sido diferente, se ele não tivesse sido tão estúpido aquela noite estava o matando aos poucos, e cada vez mais Harry Styles voltava ao fim do poço da solidão, onde Camillie o jogou e nunca mais quis saber. O sentimento de culpa pesava de uma forma sem igual e ele queria que soubesse que ele estava estupidamente enamorado por ela, de uma forma tão profunda quanto o oceano de águas mais escuras. Não havia mais escapatória; não tinha como lutar contra aquele sentimento.

Queria que ela soubesse. Queria poder encontrá-la e dizer-lhe que a viagem para Tóquio foi a melhor ideia que alguma vez já teve, e que desde a primeira vez em que conversaram sobre a vida foi impossível esquece-la. A vontade de a ouvir cantar as suas músicas favoritas era tão grande que fazia o coração de Harry queimar dentro do peito. Como pôde ter sido tão idiota a ponto de deixá-la partir depois daquela discussão? Tirou seu celular do bolso e abriu a conversa que tinham, no número que costumava ser dela. Ainda estava tudo lá, desde a primeira. E as últimas que ele mandou não foram sequer visualizadas. Eram mensagens triste de um homem com o ego ferido e com uma saudade imensurável.

Eu sei que você provavelmente quer me esquecer depois do que eu lhe disse, mas eu sinto tanto a sua falta, . Sei que deve estar magoada e que, talvez, tenha seguido sua vida.
E eu também queria seguir com a minha, mas não consigo. Não pensando em vocês todos os dias e ouvindo as músicas da playlist que criou para mim. Tem sido complicado, sabe?
[enviada. 23:46 p.m]

hey ,
queria que soubesse que eu consegui terminar aquela música. Ela ficou um pouco melosa demais, acho. Gemma me disse que eu deveria apagar seu número, mas sinto-me melhor quando venho aqui pra te mandar mensagens. Mesmo que você não as veja. Sinto muito por aquela noite. Espero que me perdoe algum dia.
[enviada. 11:17 a.m]

hoje eu bebi um pouco e chorei,
chorei porque sinto tanto a sua falta que meu coração dói

acho que chorei ainda mais quando percebi que você não quer mais nenhum contato.
Porque pediu para o Christopher me dizer que você não tem mais ligação com a Rolling? sei que ainda escreve para eles com outro nome. mas eu realmente espero que você esteja bem, de verdade
[enviada. 04:58p.m]

esta é a última que te mando, prometo
eu te amo…
me dei conta disso enquanto ouvia Scriface do Elton, porquê durante toda letra eu apenas pensava em você. eu te amo com todo meu coração, .
[enviada. 22:34p.m]
[lida. 07:46a.m]

 

Capítulo um

três meses antes.

calçou seu par de coturnos negros que, segundo ela mesma, lhe favoreciam alguns centímetros a mais em sua altura e saiu do apartamento que dividia com sua melhor amiga às pressas. Apenas carregava consigo uma bolsa grande, com seus documentos, seu notebook e uma garrafa térmica com uma boa quantidade de chá borbulhante. Seu cabelo castanho escuro ia sendo levado pela onda de vento forte que aquela manhã trazia, e ela tinha plena certeza de que chegaria ao lugar marcado aparentando nunca ter passado uma escova em suas madeixas. Tal dia era crucial, parte da carreira de , construída em grandes revistas do ramo da cultura pop, de alguma forma dependia do bom desenvolvimento da reunião para qual a jovem mulher estava indo. A tal havia acordado mais cedo do que o habitual, ensaiou diversas vezes o que diria na frente do espelho da farmácia do banheiro, e tinha bebido algumas — muitas — xícaras de chá.

Assim que avistou o prédio sede da Rolling Stones, onde trabalhava há algum tempo, prendeu a respiração imediatamente. Por mais que aquele fosse um lugar onde se sentia em casa, estava um pouco amedrontada. Sentia-se como uma novata. As portas de vidro giratórias deram passagem para um mundo diferente, que ficava contido dentro da propriedade adornada com lindos discos de ouro, platina e diamante — cedidos de bom grado por artistas mais íntimos. Pôsteres e um grande mural, com fotografias autografadas, também faziam parte da decoração. O Hall de entrada da Rolling tinha aquela lufada de exibicionismo. Os gerentes de arte, com certeza, queriam impactar.

Os funcionários da revista não poderiam ser mais felizes, pensava. Eram livres para escolher a vestimenta que preferissem para comparecer, poderiam ter quantas tatuagens quisessem e tinham um supervisor sênior que era amável e um pouquinho bobo. Christopher Wheeler, o supervisor, tinha trinta e cinco anos e ganhou o lugar de seu pai na direção da revista.

sentiu um calafrio percorrer sua espinha quando viu Christopher e Giselle, sua chefe, a sua espera. O fator surpresa não foi nem o fato deles estarem ali, mas a companhia com quem mantinham uma conversa fervorosa e íntima. Aparentavam ser amigos há muito tempo, o que era estranho porque Giselle não gostava muito do estilo musical que aquela pessoa tocava e Chris deveria ser novinho demais para fazer parte de uma conversa com ele. As orbes de estavam presas àquela cena, e uma vergonha crescente se instalou quando notou que estava sendo observada também. A mais nova acreditou que tudo, absolutamente tudo, poderia ter sido melhor do que ouvir as palavras de Christopher ecoarem por aquele Hall.

— Não precisa babar, não. — Aquela declaração a atingiu de uma forma que, de verdade, não tinha como se explicar. Naquele dia, mais tarde, quando voltou para casa, conseguiu assimilar aquelas palavras e percebeu que Christopher conseguia ser abominável quando queria. — Vocês terão bastante tempo para conversar ainda.

Tom Fletcher, um dos seus ídolos da adolescência, estava ali. A muito menos que cinco passos de distância, dava até pra sentir o seu cheirinho — que deduziu ser uma fragrância Rabanne. O cantor estava usando aquele mesmo corte de cabelo topetudo e estava com a barba por fazer. Seus olhos nutriam um castanho intenso e não queria, ou sequer conseguia, parar de olhá-lo como se fosse algo precioso. E, de certo modo, ele era. Assim que Tom mostrou suas covinhas em um sorriso simpático de cumprimento, a jovem mulher sentiu suas estruturas estremecerem.

— Já sabe da novidade? — Giselle questionou, séria, e sorriu amarelo para a mesma.

— Que novidade? — Replicou com uma voz cordial, jamais iria fazer a desfeita de criar uma cena na frente de um cliente tão íntimo da revista. Mas, lá no fundo, se imaginava em uma luta corporal contra Christopher.

— McFLY estará na capa do mês.

— Isso é incrível! — Vibrou animada. Tanto Tom quanto os outros integrantes da banda ainda tinham uma enorme influência no mundo musical e Dougie era um ícone fashion; a Rolling sabia bem como usar os dois fatores para fazer uma mistura perfeita. — Terceira vez?

— Isso mesmo, estou animado! É engraçado que a sensação não muda, estar na Rolling é uma experiência e tanto. — Tom respondeu com uma animação que se sentiu um pouquinho mais abobalhada. — Ouvi dizer que você vai fazer a crítica do novo álbum.

— Desculpe? — sentiu seu coração parar. Olhou para Giselle buscando por alguma afirmação e sua supervisora apenas abanou a cabeça em confirmação. — Giselle é a responsável pelas críticas, ainda estou em fase de aprendizagem.

— Desta vez você será parte importante na crítica, . — Giselle segurou o ombro da mais baixa e sorriu ao ver a animação de sua aprendiz. — Não acha que já escreveu colunas demais? Conversei com Christopher e acho que está na sua hora de fazer algo mais para essa revista, eu sei que você pode.

A sensação que sentiu era indescritível. Havia chegado a redação da Rolling Stones a pouco mais de quatro anos, como apenas uma aprendiz e, depois de tanto tempo e trabalho, era satisfatório demais ouvir aquelas palavras saírem da boca da mulher que lhe ensinou quase tudo. Giselle chegou na revista antes mesmo de Christopher, quando o pai dele ainda era diretor, e conseguiu levantar a revista e lhe tornar influente. Christopher poderia até ser o diretor sênior, mas nada acontecia sem que passasse pelo aval de Giselle.

— Oh, meu deus! Muito obrigada, Giselle! Eu não sei nem o que dizer. — A de cabelos castanhos ainda pensou em abraçar sua supervisora, mas sempre soube que Giselle curtia mais apertos de mãos, por isso se conteve. Se ajeitou em seu lugar e tentou se acalmar. — Eu acreditei que quem acompanharia Giselle seria Marcus. Estou feliz que não seja.

— Bem, depois daquela coluna que escreveu sobre as inspirações de Troye Sivan para o novo álbum, nós chegamos ao consenso de que não é mais aquela universitária que chegou aqui atrás de um estágio. — Christopher colocou as mãos dentro do bolso de seu jeans e sorriu amavelmente. Tom escutava aquela conversa com atenção e, vez ou outra, desviava o olhar para . — Você merece isso.

ia se preparar para dizer obrigada mais uma vez, mas a voz de Giselle a cortou no mesmo momento e ela se sentiu murchar.

— Mas tem um porém…

— Ah, estava fácil demais. — A mais nova resmungou e cruzou os braços. Seu sorriso tinha sumido e ela encarou Giselle curiosa. — E então?

— Terá que me acompanhar em uma viagem para Tóquio, onde encontraremos Harry Styles e sua banda. Minha última crítica será sobre o álbum Fine Line, e você terá que escrever sua coluna mensal sobre tudo o que contribuiu para que o álbum fosse escrito. — Giselle gesticulou um pouco. sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Um ex-cantor de boyband? Certo que Tom era quase isso, mas não era a mesma coisa. Já tinha ouvido boatos sobre o que aquele álbum abordaria, ou melhor, sobre quem ele falaria.

— Harry Styles? — repetiu o nome do cantor e olhou para Christopher, vendo que ele se divertia com toda aquela situação. Tentava agir de maneira mais natural e calma possível, mas não conseguia. One Direction nunca fez o seu tipo e, muito provavelmente, Harry ainda deveria ser o mesmo de quando estava na banda. — Como posso escrever sobre ele? O primeiro álbum até foi bom, mas só isso. Só havia duas ou três músicas que renderiam uma boa história por trás.

— Acho que está sendo pessimista, . — Tom se pronunciou depois de um tempo e ela sentiu-se envergonhada. — Harry é um cara espetacular, com muitas idéias boas, e o novo álbum deve estar cheio de boas canções.

— Para poder fazer a crítica do McFLY você terá que escrever sobre Harry Styles. — Giselle disse. — E sem mais.

Tom parecia não se importar com o clima que estava pairando entre eles. O de covinhas observava atentamente , e tinha visto todas as vezes em que ela revirou os olhos, por mais que tivesse tentado esconder. Acreditou que ela conhecia muito bem a banda, porque, apesar de todo aquele diálogo estranho, a mais baixa tentava a custo esconder seu descontentamento, mas Tom soltou um riso abafado e voltou a dar atenção a Giselle que, com seu Ipad, mostrava as idéias que tinha para a próxima capa. Acabou que Tom Fletcher teve pouquíssimo tempo para falar com , mas as poucas palavras que trocaram valeram para que ele ficasse animado com aquela jovem mulher de humor tão característico.

— Olha, eu sinto muito por você ter testemunhado essa conversa, de verdade. —disse, pouco depois de Christopher e Giselle subirem para o outro andar. Ajeitou sua franja e soltou um suspiro, seu coração estava disparado só de estar perto de Tom. — É que eu não consegui me conter.

— Não se preocupe. Essa é a primeira conversa “séria” que tenho com executivos depois da pausa. Ouvir uma breve discussão é cem por cento melhor que estar numa sala de reuniões discutindo ideias em slides. — Tom sorriu. — Eles foram muito gentis com você. Confiam em você o suficiente para lhe dar a oportunidade de escrever crônicas sobre o álbum mais esperado do ano.

— Não, Tom, eles disseram que o seu álbum só vai ser depois do de Harry. — disse como se fosse óbvio e colocou as mãos na cintura. Fletcher a olhou com o cenho franzido, como se estivesse se perguntando se ela havia entendido o que ele falou. E, bem, ela não entendeu no começo. Quando se deu conta de que ele falava justamente de Fine Line a jovem sorriu amarelo, envergonhada. — Oh! Você acha que vai ser isso tudo?

O mais velho concordou prontamente. — Ele tem muito talento.

Mas ainda acreditava que Tom poderia estar errado, e que Fine Line seria um fracasso total, e ela não queria ter seu nome associado ao fracasso tão cedo. Colou as mãos dentro dos bolsos da frente do seu jeans e sentiu seu celular vibrar, mas não deu atenção. Ainda trocou algumas palavras com Tom e, na primeira oportunidade que teve, perguntou sobre os outros. O vocalista era tão doce e educado que não se importava em responder as perguntas dela.

— Se ainda estiver insegura com essa crônica, passe a vez para o Marcus. — Disse ele depois de tirarem uma selfie.

Antes dele se despedir, soltou um riso debochado. — Nem em meus sonhos mais loucos. Essa é a minha chance, Fletcher. Nos vemos em algumas semanas, se tudo der certo.

Assim que Tom saiu do prédio, a jovem se permitiu respirar um pouco e reformular as idéias. Até uns dias atrás ela não tinha nenhum plano para seguir, porque as coisas com Giselle aconteciam meio que de repente e ela tinha que se ajustar àquilo. O único serviço que ela sabia que era fixo, só seu, era a coluna mensal — que abordava as ideias e inspirações por trás de álbuns premiados e aclamados tanto pela crítica, quanto pelo público. Fora aquilo, todos os dias na revista Rolling era uma aventura inesperada.

pegou o elevador e subiu até o vigésimo quinto andar do prédio, e caminhou calmamente pelo corredor da ala administrativa. Encontrou Marcus, um dos colunistas, que tinha seus trinta e poucos anos e deu-lhe a notícia com tamanha animação. Ele tinha um sotaque forte inglês e a parabenizou com aquela voz radiofônica que só ele tinha, mas pediu também para que ela não perdesse a concentração visando apenas a crítica ao álbum do McFLY — que era uma coisa muito fácil de acontecer. Despediu-se do amigo e andou um pouco mais até a sala de Christopher, e, sem muita cerimônia, empurrou a porta de vidro.

Sentou em uma das poltronas muitíssimo confortáveis que ele havia escolhido, e esperou para que o mesmo voltasse. Aproveitou a oportunidade e pegou sua garrafa térmica dentro da bolsa, abriu a tampinha e bebericou um pouco do chá que, naquele momento, já estava morno. Não pôde evitar fechar os olhos com a sensação contrastante do ar condicionado terrivelmente gelado com o chá que tentava, a custo, manter seu corpo aquecido.

— Eu quase não acreditei que você fosse fazer cena na frente do Tom Fletcher. — Chris entrou em sua sala, olhando para o ecrã do celular, sem dar atenção a .

— Pensou que eu fosse engolir sapos só porque ele estava lá? — revirou os olhos dramaticamente. — Por que me castigar ao ponto trazer Tom Fletcher aqui para me dizer que serei a crítica do novo álbum da banda, e ainda me torturar fazendo com que eu viaje com uma banda que eu nem conheço?

— A banda do Harry é legal também. — Christopher lhe deu atenção pela primeira vez. Ele era bem bonito, ela não poderia negar aquele fato. Tinha cabelos negros cacheados e olhos em um tom de mel. notava tudo naquele homem, principalmente como ele era bem arrumado. Haviam dias em que a mesma se perguntava o porquê dele ainda não estar em um relacionamento ou construindo sua própria família. — É uma banda com mulheres inclusas.

— Eu amo representatividade feminina em bandas, mas Beyoncé já fez isso majestosamente. — Lhe disse e afastou sua franja, que já estava comprida demais, para o lado. — O que eu quero dizer é: por que fazer uma crônica sobre um álbum inteiramente dedicado a uma ex namorada?

— A Taylor Swift faz sucesso assim. — Ele deu de ombros.

— Ela já se tornou tão óbvia que se tornou uma exceção. Quero dizer, todos especulam que esse será um álbum depressivo, martirizado e com tanta melancolia que eu nem tenho mais palavras pra expressar o tamanho do meu desagrado.

— Alguém tem que fazer a crítica, e esse alguém é você.

— Verônica iria adorar!

— Ela quem fez a crítica do primeiro álbum, . Não tem o que fazer. — Christopher se debruçou sobre a mesa. — Você vai tirar isso de letra, serão apenas algumas semanas.

— Porque as críticas daqui demoram tanto para serem escritas? Digo, é só ouvir o álbum. E eu já sei que não vai ser animador.

— Você é uma crítica especializada e também colunista da revista. Tem que saber quais foram as inspirações. — Christopher girou sua cadeira e deu-a as costas. Ele tinha uma vista impecável do centro de Nova York. O vidro transparente permitia vislumbrar toda a cidade sem sair do lugar.

— Onde eu vou encontrá-lo? — Era normal os artistas recomendarem locais específicos para que a entrevista se tornasse mais confortável. Troye Sivan a convidou para a casa de sua família em Johanesburgo e tudo correu bem. acabou permanecendo na África do Sul por mais alguns dias.

Christopher soltou um riso. — Ele embarcou para o Japão hoje mesmo, pediu para avisar que estará frio.

— Japão?! — poderia matar Harry Styles naquele momento se ele estivesse por perto, mas ele estava sobrevoando metade do globo, possivelmente bebendo vinho e pensando naquela namorada francesa dele. A mesma pegou seu celular e abriu o site de viagens. — Se eu vou para o Japão por sua causa, é bom que seja de primeira classe. — E entregou o aparelho a Christopher, para que ele concluísse a compra. — Agora, sinceramente, que cavalheiro inglês esse Harry Styles. Sabia que eu seria sua crítica e me deixou para viajar mais de um dia sozinha. Ah, isso irá ter um peso enorme em sua crítica.

— Eu quem disse que você iria sozinha. — O de olhos acinzentados disse. — Você reclamou tanto que eu pensei que não seria boa idéia ir no mesmo jato que ele.

arregalou os olhos. — Droga, eles foram de jatinho?

— Sim, Giselle também recusou a proposta. Ela quer levar os filhos para conhecer o oriente e disse que ficará em um lugar diferente. — Ele explicou.

Houve silêncio enquanto Christopher navegava pelo site de passagens. nunca tinha viajado para tão longe e jamais imaginou que iria sozinha para um lugar com uma cultura tão diferente. Não contava com a companhia de Giselle, porque além dela estar indo para levar seus filhos, também não tinham muita comunicação fora da Rolling. Talvez fosse pela diferença de idades, ou talvez porque a supervisora não gostava das mesmas coisas que . A jovem formulou algumas ideias em sua cabeça e, estranhamente, pensou em sua família. O fato de ter saído do ninho de seus pais ainda muito cedo lhe trouxe muitas responsabilidades. Dividia um apartamento em Manhattan com um amiga e seus pais moravam em Atlanta, longe pra caramba. Sentia falta do sotaque acalorado de sua mãe todos os dias e da voz profunda de seu pai também. Mas sentia ainda mais falta de sua irmã mais velha, Rubi, que estava passando por maus bocados com suas tentativas de gravidez falhas. desejava estar por perto para fornecer apoio.

— Chris, você pode ficar com o Chico? — perguntou após lembrar-se de seu cãozinho.

— Não, obrigado! — O mais alto recusou no mesmo instante.

— Eu não posso deixá-lo sem companhia.

— Existem canis dispostos a cuidar do seu saquinho de pulgas.

— Não fale assim dele. Tenho certeza que ele é mais limpo que você. — olhou feio para o amigo.

— Então o leve com você.

— Posso levar meu cachorro de dezesseis quilos comigo? — Ela perguntou sem acreditar.

— É claro que sim. É como se fosse uma mala adicional. — Chris entregou o celular a de volta e sorriu. Ele tinha um pouco de apego a ela, não sabia bem o porquê. Gostava de saber que com ela poderia ser sincero sem medo de se expressar. — Chico vai adorar Tóquio. — Era engraçado ouvir Christopher falar Chico com um sotaque estranho, porque o nome do cachorro era pronunciado em português. o batizou assim depois de ter lido uma matéria sobre o cantor Chico Buarque, e o nome combinava tão bem com o filho peludo da jovem .

— Vai ser bom ter uma companhia conhecida. — disse sorrindo. — Estou um pouco animada. Já tive um sonho de ir para o oriente com alguém.

— Quando você voltar, eu vou estar aqui. — Chris levantou de sua cadeira e andou em direção a . Era muito mais alto que ela e conseguia escorar seu braço no topo da cabeça dela sem muito problema. — Se Harry Styles te irritar, me ligue.

 

Capítulo dois

voltou para sua casa pouco depois das cinco da tarde, porque teve que finalizar algumas coisas em sua coluna — que era publicada uma vez no mês. Seu trabalho não era difícil, mas conseguia tomar muito de seu tempo. A coluna necessitava de uma atenção extrema e, também, de uma oralidade especial. A jovem adorava ter o poder de levar o leitor a curiosidade ao escrever sua coluna em forma de crônica. Por conta do sucesso que fez com sua coluna de estréia na Rolling, a jovem prodígio assinou um contrato com Christopher. Tinha que escrever uma crônica, dividia em partes, para ser publicada durante algumas semanas em um mês específico. Haviam intervalos esporádicos entre cada um e o tempo de descanso que requeria era extenso. teve que acostumar-se a viajar com um dicionário pequeno dentro de sua bolsa, para que pudesse aprender mais palavras para usar como sinônimos e não tornar a leitura repetitiva e monótona. Lia livros e mais livros e se inspirava nos clássicos de Jane Austen para dar um pouco mais de magia as crônicas. De certo modo, tudo consistia para que fosse uma escritora. A coluna, as boas críticas recebidas e os grandes incentivos, mas a jovem acreditava firmemente que aquela não era sua praia, e estava bem longe de ser. Nas vezes em que tentou escrever uma história, percebeu o quão melodramático e romântico era e sentiu-se desmotivada a continuar, porque sabia que não tinha tamanha criatividade suficiente para criar todo um universo, assim como J.K Rolling havia feito.

Ao abrir a porta de seu apartamento, logo ouviu um latido alto de seu cachorro, que abanava o rabo com rapidez e constância. Chico era um Golden Retriever de dois anos, um bebê, que não suportava estar longe de sua dona sem que tivesse uma companhia agradável para lhe entreter. Era muito animado e arteiro, perdeu as contas de quantos sapatos ele mastigou ou de quantas blusas ele havia arrancado os botões, mas ela o amava com todo coração e Chico era o único ser o qual ela poderia considerar uma família.

ajoelhou para ficar á altura de seu cão e recebeu lambidas de carinho. Deu-lhe um beijinho na cabeça e fechou a porta atrás de si. O vizinho de cima ouvia Green Day nas alturas, e a jovem não evitou acompanhar a melodia de Boulevard Of Broken Dreams. Enquanto fazia o solo em sua guitarra imaginária, Chico a seguia pela casa. A de cabelos castanhos deixou sua bolsa pendurada numa das duas cadeiras de sua mesa e abriu a geladeira. Ainda tinha um pouco de lasanha da noite anterior e refrigerante; Não era nada muito nutritivo, mas nunca foi de dar atenção para aquilo mesmo. Colocou o prato no microondas e pegou seu celular, viu as mensagens que tinha respondido e navegou um pouco nas redes sociais.

Uma vontadezinha crescia em seu interior. Ela queria saber mais sobre Harry Styles. Um tipo de curiosidade de colunista, tipo quando você precisa de uma informação crucial e dá um google para obter ajuda. Não precisou fazer tal coisa quando esteve com Troye Sivan, porque ele era aberto e conversava como se fossem amigos há tempos, mas sabia que com Harry não seria desse jeito. Bem, todos costumavam comentar o quão gentil ele era, tinha até um bordão, mas não o conheceu pessoalmente quando ele esteve na Rolling. Os colunistas passaram dias falando sobre ele e sua banda, mas nada que fizesse a jovem se interessar muito. Mas, sim, tinha ouvido o primeiro álbum. Era bom. Tinha suas pérolas, mas só isso. Foi até a barra de pesquisa e digitou o nome dele com rapidez. Não havia nada novo. Ele não atualizava seu feed fazia muito tempo, mas postava algumas coisas para promover seus singles.

As fotos da tour passada eram incríveis, transmitiam uma ideia profissional. E, aos poucos, foi percebendo o estilo excêntrico do astro. Os ternos com adornos e de todas as colorações eram uma marca registrada e, de todos, o azul que ele usou no show com a participação da Shania Twain era seu favorito.

Ei, , não esqueça de me avisar quando for pegar o vôo! — Era uma mensagem de voz de Chris, recebida á alguns minutos. — Se quiser, posso ir com você fazer compras ou algo do tipo. ouviu o som característico da mensagem chegar ao fim e sorriu ligeiramente. Não merecia seu amigo.

— Chris, isso é muito gentil da sua parte, mas acho que vou às compras com a Tiffy. Você ainda não a conhece, não é? — falava enquanto pressionava o ícone do microfone. Tirou seu prato do microondas e o colocou na mesa, teve que afastar Chico com repreensão para que ele não devorasse sua lasanha. — Vou apresentá-la a você a assim que eu voltar… Espero que minha imaginação flua e essa viagem termine antes do esperado. Mas obrigada mesmo por se oferecer!

deixou seu celular em cima da mesa, pegou o prato, a garrafa de refrigerante, os talheres e andou até a divisão da sala. Seu apartamento não era muito grande, mas tinha espaço suficiente para acomodar todas as coisas que ela trazia de suas viagens. Era aconchegante e as janelas davam vista para o centro da cidade, ao longe, se fizesse um esforço maior, dava até pra ver o Central Park. A sala de estar tinha um sofá de três lugares azul — muitíssimo confortável —, uma mesinha de centro de vidro, a televisão, que estava presa à parede, e muitas plantas que conseguiam crescer apenas com água. Tiffany, uma das amigas de , sempre disse que o apartamento de sua melhor amiga se assemelhava com aqueles das fotos que vemos nas redes sociais e que a amiga deveria ter uma inclinação para o bissexualismo, porque os gays adoravam adornar seus apartamentos com plantas e cactos.

Certamente, Tiffy era aquela amiga meia fora de órbita. Era alta, com cabelos em um corte chanel charmoso, olhos esverdeados e pele beijada pelo sol. Trabalhava em uma das lojas da Gucci, situada no centro do Upper East Side e, todos os dias, reclamava sobre o quão cansada estava de servir champanhe para os clientes e o quão esnobes eram. Ganhava um desconto legal, por ser funcionária, usava os cintos e os perfumes — porque o desconto não era suficiente para uma bolsa de seis mil dólares. Mas Tiffy odiava quase todas as peças da marca e concordava plenamente.

estava no seu episódio favorito de Friends quando seu celular tocou. Não quis atender, por isso ignorou as duas primeiras chamas, mas o toque repetitivo não cessou. Bufou e foi buscá-lo. Era um número desconhecido, com um código de identificação estranho.

deslizou o dedo sobre o ecrã. — Alô?

? — A voz do outro lado perguntou. Estava embargada, e o som alto também abafava ainda mais.

— Quem fala? — questionou sem responder a pergunta anterior. Só podia ser um trote, alguém ligando de um presídio.

Oh, é a Clare Uchima. — A voz se tornou mais nítida. enrugou o nariz, tentando se lembrar de alguém com aquele nome.

— Sinto muito, mas acho que você discou o número errado. Não conheço nenhuma Clare Uchima. — A mais nova falou.

É claro que não. Sou uma amiga do Harry! — Uchima parecia tão animada, tão bêbada. começava a perder a paciência, o que ela tinha haver com aquilo? E quem passou seu número de celular? — Perdão por ter ligado essa hora, peguei seu contato com o Christopher. — Ela fez uma pausa. Dava para ouvir risadas e, também, uma música ao fundo. — Apenas para confirmar onde vamos nos encontrar.

— Oh, sim. Meu vôo sai hoje às onze da noite. — explicou, voltou para a sala e deu uma garfada em sua lasanha. — Tenho algumas conexões, não sei que horas chegarei em Tóquio, para ser sincera.

Nós ainda estamos no vôo. Harry quer que eu lhe deixe avisada sobre algumas coisas, se importa?

Sim, se importava. Faltavam poucas horas para ir para o aeroporto e Clare estava tomando seu tempo com aquela baboseira toda, o que custava mandar um e-mail com as cláusulas e restrições? Por Deus.

— Não, á vontade. — A mais nova disse.

Bom, vamos ficar em uma casa em Tóquio. Achamos melhor estarmos juntos, para que a experiência seja mais agradável. Você terá seu próprio quarto e total liberdade para ir e vir, mas pedimos que mantenha a descrição. Digo, estamos fazendo uma entrevista inédita sobre um álbum que fala muito sobre a intimidade de Harry, entende?

— Sim, perfeitamente. — realmente entendia. Não queria invadir o espaço de ninguém e muito menos chamar atenção. Harry Styles acabou de sair de uma turnê mundial, deve querer descanso imediato. — Mas, Clare, eu acho melhor eu ficar em um hotel.

Não se preocupe com isso, querida. A casa é gigantesca, tem espaço o suficiente. — Ela disse. A colunista já começava a imaginar como Clare era. Seu nome remetia ao japonês, então ela deveria ter traços orientais. Aquela viagem deveria ter sido ideia dela. — Já foi ao Japão?

— Primeira vez.

Perfeito! Vai ser uma oportunidade e tanto! — Clare disse, contente. — Vou passar o celular pro Harry, para vocês trocarem umas palavras.

Mas parecia que Harry estava bem longe dela, porque demorou um pouco para que ouvisse seu timbre rouco. Admirava homens com aquele tom de voz, os que tinha namorado não tinham aquele fator sensual — que era a voz. Mas a voz de Harry era preguiçosa e parecia se arrastar.

Hey, . — Ele disse. Imediatamente o imaginou acabando de acordar.

— Olá, Harry. — Respondeu-lhe no mesmo tom. Tinha os olhos fixados na televisão, enquanto assistia Rachel na sala de parto. A lasanha estava começando a esfriar. — Fico grata por me convidar para o seu… — procurou palavras. O que ela deveria chamar? Recanto de férias?

Lar. — Complementou Styles depois de alguns segundos. prendeu o fôlego e sentiu-se envergonhada. Então ele havia comprado a casa no Japão, para ser seu lar nas férias.

— Sim, isso mesmo. — Concordou. — Chegarei daqui a um dia e meio, acho eu.

Teria sido melhor se tivesse vindo conosco.

— Iria atrapalhar tudo, eu não tinha nada pronto. A intenção foi muito boa, obrigada. — A jovem disse com um tom calmo. Chico apoiou a cabeça em seu colo e ela afagou seu pelo. — Ansioso?

Houve um breve silêncio. — Na verdade, estou nervoso.

— Oh. — A resmungou. Tirou o celular do ouvido por um instante e olhou a hora. Tinha que começar a se organizar. — Harry?

Sim?

— Eu preciso mesmo desligar. Tenho que arrumar minhas malas.

Oh, perdão! Nos vemos daqui a pouco, então. Até mais!

Aquela ligação havia sido estranha e inesperada.

teve que pensar em mais alguma coisa para adicionar a lista, que levava o nome “coisas que Harry Styles deve ser”. Uma das coisas, a primeira, era que ele deveria ser um esnobe, simplesmente insuportável e intragável. Mas com apenas três ou quatro minutos de ligação, soube que não seria justo manter aquela ideia; Ele era gentil. O seu tom de voz permaneceu ameno e calmo durante aquele resquício de tempo e fez até com que acreditasse que, para além de Harry Styles ter a voz ridiculamente bonita, sua risada deveria ser uma melodia.

— Tudo bem, Chico. Vamos nos organizar! — A de cabelos castanhos disse para seu companheiro e levantou-se. Não tinham muito tempo e tudo precisava ser feito com agilidade.

arrumou duas malas bem grandes e uma mochila. Tinha em mente que não passaria mais de três semanas no Japão e tudo o que estava ali, nas malas, iria suprir suas necessidades. Seguindo a instrução de Harry, colocou mais calças jeans, casacos e sobretudos. Era dezembro, com toda certeza iriam acontecer eventos interessantes e a não queria perder o ano novo, porque era comemorado de uma forma magnífica no país. Chico também ganhou espaço na segunda mala, suas roupinhas estilosas teriam que ir.

Quando percebeu que já se passava das sete da noite, correu para seu banheiro. Tomou banho e lavou o cabelo, mas com tamanha brutalidade — para poupar tempo. Não esperou que os fios secassem, vestiu-se com eles molhados mesmo. Um vestido longo negro e de alças, que, infelizmente, varriam o chão por causa da pouca altura, e seu par de coturno. Interfonou para a portaria e pediu para que o porteiro chamasse um táxi. Desligou as luzes, fechou as janelas e, junto com Chico, saiu de seu apartamento. Tinha um frio na barriga estranho. Por mais que fosse uma pessoa segura de si, se sentiu um pouco fraca. Tinha ideias turbulentas na cabeça e memórias que queria esquecer também. Avisou que esperaria Tiffy no Pet Shop do shopping e guardou o celular dentro de sua mochila. Temia que aquela viagem se tornasse um pesadelo por causa de fantasmas passados.

— Então, — Tiffy retomou a conversa depois de ambas terem perdido a atenção quando um homem engravatado passou por perto. — Você não vai cometer nenhuma loucura ilícita nessa viagem, não é? Sabe, essas bandas adoram ter viagens psicodélicas.

gargalhou. — Tipo, com cogumelos?

— Sim, a repreendeu e olhou para os lados, se certificando que ninguém tinha ouvido aquilo. — Vou fazer como no filme Comer, Rezar e Amar, vou fazer meditações e aproveitar a cultura do país. Tenho que fazer um detox, os últimos meses foram pesados demais pra mim.

— É, com certeza. — Tiffany fez aquela cara de quem diz “Ah, mas eu te avisei sobre isso”, e bebeu um pouco do seu cappuccino. — Quem sabe não encontra um japonês boa pinta?

— Não estou interessada em romances.

— Mas não precisa ser! — Tiffy viu sua amiga suspirar. — , você merece.

— Podemos mudar de assunto? — pousou sua xícara em cima do pires e soltou um suspiro. Era uma mania que tinha, às vezes suspirava tanto que parecia uma asmática. — Acha que eu devo comprar mais alguma coisa pra levar? Tenho medo de precisar de algo e não saber me comunicar.

— Em que século você vive? Inglês é um idioma universal. — Tiffany pegou seu celular e olhou atentamente para o ecrã. — Sabe como vai ser?

— Não sei. Mas não estou nervosa por ter que me encontrar com o pessoal da banda.

Tiffany poderia até ser aquela amiga que te faz dar a volta por cima e te incentiva a ser melhor, mas estava se cansando de sempre tentar ajudar a esquecer seu passado mais recente. Lhe dava fadiga e um pouco de raiva ver sua amiga choramingar pelos cantos por causa de uma coisa que acabou não vingando.

— Olha, , vou ser sincera com você… — A de cabelos aloirados a encarou firmemente. — Você é uma mulher de vinte e três anos que tem uma vida dos sonhos. Você tem o trabalho dos sonhos, o chefe dos sonhos e quase o salário dos sonhos. Tem amigos que te amam infinitamente e uma família, que mesmo de longe, se importa com você! Eu não entendo o porquê de tanta amargura, sabe? Certo, quem não quer viver um amor? Mas a vida não se resume a isso, ! — A de cabelos curtos segurou a mão da amiga. — Eu sei que vocês planejavam conhecer o oriente. Sei que deve ser estranho ir para lá sem a pessoa com quem você criou esse sonho, mas é assim mesmo. É o Japão, mulher, aproveita!

não conteve as lágrimas grossas que rolavam por sua bochecha. Ter Tiffy como amiga era incrível, porque, apesar de tudo ocorrer de uma forma errada, ela sempre ia arranjar uma forma de dar apoio.

— É só uma sensação de infidelidade, entende?

— Vocês terminaram à meses. Não tem nada a ver ser isso o que você está dizendo. Está se sentindo assim porque vai cumprir uma meta que era dos dois, só que sozinha. Sua vida não pode ficar estagnada nesse homem.

sorriu um pouco. — Você tem razão. Fizemos uma decisão juntos e essa é a hora de seguir em frente.

Depois de um breve momento de silêncio, adornado pelo cheirinho de café e pelo ar frio do shopping.

— Bom, querendo ou não, está na hora de ir! — disse com um sorriso. Levantou-se e recolheu sua mochila, ainda precisava pegar coragem. — Nos vemos em alguns dias.

— Não esquece de me trazer uma lembrancinha! — Tiffy disse ao abraçar a amiga com força.

Após um chek-in parcialmente demorado, conseguiu embarcar no avião. Nunca tinha viajado de primeira classe e estava atônita com o conforto e regalias oferecidas. Certificou-se de que Chico também estava confortável no compartimento próprio para animais e deixou-lhe seu brinquedinho favorito com ele. Uma pelúcia em forma de cenoura, que costumava ficar entre os travesseiros da de cabelos castanhos. Chico o adorava, mordiscava e babava — acabava sendo o cão mais feliz do mundo, enquanto tivesse sua cenoura. deitou-se em seu assento e zapeou com o controle remoto pequeno a procura de um filme que conseguisse lhe entreter. Demoraria bastante até o momento do pouso e, até lá, teria tempo o suficiente para descansar.

Ao contrário do que pensou, apenas houve uma escala, e o lugar era incrível. Teria três horas livres em Xangai e pensou que seria uma boa idéia sair do aeroporto e andar pelas redondezas. O aeroporto era exuberante e o conflito de idiomas começava a deixar a jovem confusa. Avistou um grupo de meninas, mais ou menos dezessete anos, vestidas com roupas combinando — mais pareciam ter saído da escola a pouco tempo. Com os fios tingidos de tons distintos, elas chamaram a atenção da jovem latina. Continuou caminhando, sempre olhando ao redor para não se perder, até que seu celular vibrou em seu bolso. Graças a Deus tinha adquirido um bom plano de internet.

De: Desconhecido
Acredito que já esteja no oriente uma hora dessas!

Para: Desconhecido
Quem é?
De: Desconhecido
Harry 🙂

Para: Desconhecido
Oh
Estou em Xangai. Acabei de chegar, na verdade.

De: Desconhecido
Então está bem perto…

Para: Desconhecido
Aparentemente..

De: Harry Styles
Chris pediu para que eu perguntasse
se deseja que alguém vá encontrá-la no
aeroporto

Para: Harry Styles
Absolutamente, me perderia se seguisse
apenas as instruções que me enviaram pelo
email

então, sim, eu preciso que alguém
me encontre no desembarque

🙂

De: Harry Styles
Tudo bem, então
Boa viagem até aqui,

Para: Harry Styles
Bom descanso em sua bela
casa tradicional japonesa, Harry.

guardou seu celular e olhou ao redor.

Não se recordava mais das placas que tinha visto. Merda!

— É isso mesmo, Chris. É um ultimato. — disse autoritária. Olhou pela pequena janelinha do avião e suspirou sentindo uma dor de ouvido estranha. — Eu não quero que você fique espalhando meu número pessoal por aí.

Ele pediu de um jeito tão educado, não tive como dizer não.

— Ah, me dê um tempo. Ele deve ser, no máximo, educado no mesmo nível que nós. — A mais nova disse e espreguiçou-se. Faltavam pouco menos de uma hora para aterrizar e não poderia estar mais grata por aquilo. Por mais que estivesse na classe executiva, odiava ficar deitada por muito tempo. — Penso que será uma viagem breve, Chris. Ele aparenta ser uma pessoa amigável, realmente.

Eu não estou pensando tanto nisso. Sei que você vai se sair bem. — Chris disse simples e pôde ouvir seu amigo suspirar pesadamente do outro lado da linha. — Estou cheio de trabalho, mas não consigo me concentrar em nada. Aquela mulher me jogou uma bruxaria, , é sério.

— Não seja tolo. Você apenas gosta dela. — sabia tanto da vida pessoal de Chris quanto ele sabia da sua. — Por que não aceita que aquela linda mulher irlandesa fisgou você? Vocês conversam a tanto tempo e-

— A questão não é essa, . Mais parece que ela gosta de fazer esses joguinhos, eu não sou desse tipo. Quero dizer, por que as mulheres preferem caras que brincam com elas e as deixam de coração partido? — quase soltou um gritinho de animação por ver seu amigo declarando seus sentimentos.

— Bem, nem todas. Laura é mais independente que muitas mulheres que conheço, digo, ela pode apenas não estar te esnobando. Deve ser o jeito dela mesmo. Você sabe como a Tiffy fala dela, ela diz que Laura chegou a Manhattan para poder sair com o máximo de executivos que ela puder. E eu não a julgo! Ela é solteira, sabe? Não adianta forçar uma mulher a gostar de você da mesma forma, isso é muito ruim. — faria tudo pelo bem estar de seu amigo e faria tudo para vê-lo bem, mas ela era mulher e aquela situação lhe incomodava. O machismo enraizado na sociedade garante que os homens podem esnobar, trair ou ficar com quantas mulheres desejarem, mas quando uma mulher com as mesmas atitudes surge no cenário, tudo muda. — Acho que você tem apenas que respeitar a escolha dela. Aceitar que você gosta dela, mas não pode tê-la.

Isso foi doloroso.

— Você aprende a se acostumar.

conversou um pouco mais com Chris até que as comissárias de bordo começaram a passear pelos corredores do avião. A classe executiva estava silenciosa e todos pareciam dormir, exceto por uma criancinha, de pouco mais de um ano, que engatinhava sobre o carpete acinzentado. As luzes davam um tom de dourado a aquele pequeno espaço luxuoso e o bebê parecia estar extremamente interessado em saber o que tinham por debaixo dos assentos que se transformavam em camas. abriu a portinha de seu compartimento e, silenciosamente, acompanhou as passadas vagarosas do bebê.

E, por Deus, como ele era lindinho.

Um bebê com traços orientais e muitíssimo cabeludo. Suas madeixas escuras caíam sobre seus olhinhos e suas bochechas tinham um tom carmim fofo. Foi quase impossível lutar contra a vontade de apertar. quis se aproximar, mas teve medo que ele se assustasse. Por isso, sentou-se no carpete, entre um compartimento e outro, e pôs-se a brincar com o bebê pelo tempo que lhe restava naquele avião.

Quando pousou em Tóquio, sentiu um frio em sua barriga, como o frio na barriga que sentia quando ouvia suas músicas favoritas. Viu-se entrando em um looping de euforia quando percebeu as luzes coloridas e toda aquela decoração característica. Após buscar Coragem e sua bagagem, empurrou seu carrinho, inteiramente imersa em seus próprios pensamentos sobre aquele país, até chegar ao portão de desembarque. As pessoas que tinham pegado o mesmo vôo já estavam saindo e seguindo seus caminhos, mas parou, cessou seus passos e permitiu-se pensar um pouco.

Não posso deixar que um fracasso amoroso me tire a oportunidade de viver uma aventura como essa, pensou para si mesma. Tinha a mania de se automotivar quando se sentia amedrontada. Aprendeu de uma forma estranha, com sua irmã mais velha, no ensino médio. Percebeu que seu cãozinho estava inquieto naquela gaiola grande e saiu de sua bolha. Pobre Chico, deveria estar faminto.

— Okay, não tem mais como voltar atrás. — Disse ao vento e empurrou seu carrinho. Passou pela porta automática e pela contenção, olhando para todos os lados possíveis. — Que porra, não tem ninguém aqui!

praguejou em todas as línguas que conseguia falar e, quanto mais procurava, mais caia na realidade que, realmente, não havia ninguém conhecido no meio daquele amontoado de pessoas. Enfurecida, a moça foi andando sem rumo pelo aeroporto, passou por diversas lojas de lembrancinhas e comidas, e sentiu um pouco de fome também. A jovem de franja quase sentiu sua cabeça entrar em colapso quando viu aquelas falas todas se misturando.

— Senhorita ! — Ouviu seu nome ser pronunciado com tamanha altura e olhou para trás. Avistou uma mulher tão baixa quanto ela correr em sua direção. Tinha os olhos puxados e o cabelo ridiculamente liso, usava uma saia que chegava a altura de seus joelhos e uma blusa de manga longa. — Senhorita , eu vim buscá-la.

— Desculpe, quem mandou você aqui? — questionou usando seu perfeito inglês. A mulher abanou as mãos e a chamou para que a acompanhasse. um pouco, sentiu como se tivesse indo para uma emboscada japonesa. — Poderia me responder?

— Sou a governanta da casa onde o Sr. Styles está hospedado. — Ela disse educadamente. Também tinha um inglês impecável, mas ainda com o sotaque estranho. — Meu nome é Mina, me pediram para acompanhar a senhorita até a casa.

sentiu-se aliviada. — Isso é ótimo. Achei que teria que ir sozinha, Mina. — A jovem disse e segurou a coleira de seu cachorro mais forte por causa da movimentação. Mina fez sinal para que a seguisse até um carro preto que estava estacionado em frente ao aeroporto e colocou suas malas para dentro. — Mina?

— Sim, senhorita?

— Tem muita gente nessa casa? — A pergunta denunciava o desconforto que ainda estava sentindo ao ter que dividir moradia. A governanta entrou no carro e sentou no banco da frente.

Mina olhou para , como se perguntasse se podia confiar nela. Analisou bem aquela jovem moça e concluiu que ela não iria falar nada para ninguém. — Uns seis ou sete, mais ou menos. Eles são um pouco barulhentos, mas respeitosos.

— Oh, isso é bom. — resmungou e abanou a cabeça em confirmação. Tirou seu celular da bolsa, abaixou-se um pouco para ficar na altura de Chico e tirou sua primeira foto no Japão.

O carro deu partida e se moveu por, mais ou menos, quarenta minutos até entrarem em uma área mais afastada da cidade. Era um condomínio luxuoso, em uma parte alta, com vista para um parque com bonsais e árvores de cerejeiras. A casa de Harry era uma das últimas do bloco e, nossa, era de tirar o fôlego. Tinha um muro de pedras logo na frente e, depois de entrar, havia um jardim muito bem cuidado, com muitas flores e sombra. As paredes da casa tinha um cinza com alguns detalhes vermelhos e tinha aquele ar de casas da antiga dinastia japonesa do século passado. Era tudo muito lindo e inspirador.

Dava para ouvir um som alto tocar dentro a casa, um pouco afastado. O grave da música fazia com que tivesse a impressão de que o chão estava estremecendo. Mina levou as malas para dentro e, com seu inglês carregado de sotaque, disse que se quisesse, ela prepararia um bom chá de ervas; A moça aceitou de bom grado. Chico ainda estava preso a coleira e a jovem percebeu que seu cãozinho estava exausto e precisava descansar urgente. Sentou em um dos degraus de entrada e deixou sua mochila de lado, tirou a coleira de Chico e o mesmo foi dar uma rápida explorada por aquele jardim.

Também estava cansada demais, mas sua cabeça estava em um turbilhão. Aquela conversa com Tiffy, antes do embarque, fez com que ela pensasse sobre suas convicções; tinha conseguido seguir em frente depois de todo aquele drama que passou? Ela não tinha certeza. Mas estar naquele lugar lhe aflorava um sentimento estranho, como se estivesse fazendo algo proibido. Afinal, ela vivia um sonho com outra pessoa e agora estava fazendo aquilo sozinha.

— Ah, mas se ele quisesse estar aqui comigo não teria dormido com sua melhor amiga! — disse para si mesma. Tóquio estava esfriando e uma brisa fria beijou seu rosto com gentileza. — Não tenho culpa se você não está aqui agora. — Ela conseguia ver a feição de seu ex-namorado ali na sua frente, mas ele não estava sozinho. Aquela melhor amiga, que ele jurava de pés juntos que respeitava os limites da relação, estava com ele. Ou melhor, em cima dele. Por mais que quisesse, não conseguia esquecer aquela cena.

Ouviu o som de uma cadeira ser afastada e viu alguém sair pela porta. Ali estava Harry Styles, com seu cabelo cacheado amarrado em um coque e segurando uma taça com marguerita. Ele usava uma roupa estranha, uma espécie de calça boca de sino masculina e uma camisa com os primeiros botões abertos. Mais parecia que tinha acabado de sair de um filme dos anos setenta.

De um charme único, Rosalie pensou.

— Então fala sozinha? — Ele questionou com um sorriso simples, e colocou a mão livre dentro de seu bolso. não se deu ao trabalho de se levantar, apenas virou-se um pouco para o olhar melhor.

— Às vezes. — Respondeu. Viu seu cão se aproximar de Harry e o mais alto logo se aproximou do animal. A taça de vidro foi deixada bem ao lado de e ela não pode deixar de reparar no cheiro de hortelã e álcool que ele exalava. — Pensamentos inquietantes.

— Eu sei como é. — Ele afagou o pelo de Chico, que já estava se derretendo e sorriu. — Mas o diálogo solitário nunca funciona comigo, então eu preparo uma bebida refrescante. — gostaria de ter entendido mais sobre o que ele havia dito, mas naquele momento não conseguiu. Harry sentou ao seu lado e a olhou. — É um prazer conhecer a mulher que irá fazer com que eu reabra feridas já fechadas.

— O prazer é meu. — Ela afastou sua franja e bocejou. — Japão é bem longe da Inglaterra, não acha? — disse com um ar de riso, mencionado a tamanha distância que teve que percorrer para escrever aquela crônica. — É um lugar distinto, devo dizer.

— Sim, é. Os europeus não estão me trazendo muita felicidade ultimamente. — O de olhos verdes pegou sua taça novamente e bebeu um pouco daquele líquido meio amarelado. — Servida?

— Não, obrigada. Tudo o que eu quero agora é um banho e uma cama confortável.

— Vai gostar da sua cama, Mina disse que é bastante confortável. — Os anéis em seus dedos chamavam atenção, e a forma calma que ele falava também. Estava sendo um diálogo fácil. Ambos ficaram em silêncio por um instante. Chico deitou ao lado de sua dona e apoiou sua cabeça no colo dela, atrás de mais carinho. Ele estava cheirosinho por causa do banho recém tomado. — Como você vai trabalhar?

— Bem, eu vou seguir vocês para os lugares em que forem e, vez ou outra, vou ter que falar com você sobre os fatores e acontecimentos que te levaram a escrever suas músicas. — A colunista explicou com cautela e viu o vocalista abanar a cabeça em confirmação, enquanto isso. Harry respirou fundo. — Eu creio que a parte com Giselle será mais invasiva, porque ela vai ser a crítica. Mas eu vou apenas escrever sobre o famigerado Fine Line. — Havia, sim, um pouco de ironia na forma como ela falava. Estava tão claro em seus olhos que ela acreditava que aquele álbum não era nada demais, nada para causar tanto alarde nas mídias.

— Já escutou o álbum?

— Não. — Disse prontamente. — Penso que será melhor escutar com calma, para tentar absorver a energia da letra.

— Espero que não absorva a energia errada. — Ele divagou e sorriu amarelo. — Escuta, , Fine Line é um álbum íntimo e se caso você vier me fazer perguntas e eu não estiver muito no clima, eu peço que espere até eu tomar alguma coisa. — A forma como ele cuspiu aquelas palavras fez pensar. O que de tão íntimo e pessoal tinha naquelas músicas? Aquele homem não aparentava ser vulnerável, muito longe disso.

— Oh, tudo bem. — Disse e se levantou. — Mas espero que você esteja a disposição, Styles. porque o Japão não está nos meus planos por muito tempo.

— Isso só o tempo vai dizer, senhorita .

— Nós dois podemos trabalhar juntos para que o tempo nos dê respostas o mais rápido possível. — Ela sorriu e deu as costas. — Já que o álbum ainda não está disponível, eu gostaria de ter acesso á um CD ou áudios de celular, se possível.

— Como quiser. — Harry disse, ainda sentado no degrau. — Mina o deixará no seu quarto.

— Obrigada. — Ela assobiou para que seu cão a seguisse para dentro. Mas antes de entrar olhou para trás por um segundo. — Sinto que conversar consigo mesmo não resolva um pouco de sua aflição, mas acho que não deva abusar da bebida.

— É gentil da sua parte se preocupar, , mas não tem nada que faça eu deixar isto aqui. — Ergueu a taça no ar. — Tenha uma boa noite.

— Você também.

Ao entrar na casa, , mais uma vez, surpreendeu-se com a decoração tão típica do país, porém com um toque moderno e muito aconchegante. No hall de entrada havia uma espécie de cabideiro para os casacos e também uma pequena cesta metálica para guarda-chuvas recém usados. Os tons de cinza e um azul ameno se misturavam e a luz meio alaranjada dava um charme especial. O som alto estava bem pertinho, na sala de estar, uma música de ritmo frenético tocava agora e duas mulheres, segurando copos, dançavam enquanto dois outros homens conversavam entre si. Aqueles eram os integrantes da banda, CHASM.

— Ei, aí está você! — Pela voz, soube que aquela era Clare. Mas ela era diferente do que a jovem colunista pensou, tinha cabelos loiros e uma franja simpática. Usava uma blusa de botões e um jeans cigarrete lindíssimo. — Estava comentando com Sarah agora mesmo sobre a sua chegada. Como foi de viagem?

Sarah se aproximou e sorriu para .

— Eu tenho vinte e três, prestes a completar vinte e quatro. — disse. — Como ainda estão tão animadas com esse fuso-horário? Acho que vou passar a viagem toda com jet lag. — A mais nova soltou a coleira de seu cão, que estava inquieto demais querendo sentir o cheiro do pessoal. — Espero que não se importem com o Chico, ele é bastante animadinho.

— Chico? — Sarah repetiu o nome de forma engraçada. — Soa diferente quando você fala. Mas ele parece ser adorável! Ei, Mitch, teremos um cãozinho!

Aquele era Mitch Rowland, guitarrista em ascensão e conhecido de . Ou melhor, ela conhecia ele, porque ele costumava trabalhar em uma pizzaria na Times Square que tinha uma de pepperoni incrível. Tinha um estilo meio grunge sofisticado e, nossa, que olhos lindos. Quando Mitch chegou ao pé de , abriu um sorriso e levantou o dedo no ar, como se acabasse de se lembrar de alguma coisa.

— Garota da pizza de pepperoni? — Questionou com os olhos semicerrados. Clare e Sarah ficaram confusas e olharam para esperando por uma resposta.

— Pensei que não fosse lembrar! — A de olhos castanhos disse sorrindo. — Você sumiu, eu e a Tiffy fomos na pizzaria por dias e você não estava lá.
— Agradeça ao Harry por me tirar de lá.

— Não posso o perdoar por ter tirado o melhor atendente da pizzaria.

— Espera, vocês se conhecem da pizzaria que o Mitch trabalhou? — Sarah perguntou com uma cara de confusão e Clare riu baixinho.

— Isso é tão aleatório, não é? — Clare colocou a mão na cintura.

— Sim! Ela e amiga meia doida dela iam lá quase toda noite. — Mitch virou para as duas mulheres para poder explicar. — Era briga para poder escolher o sabor, tinha que ter uma paciência... Mas animava muito, não posso mentir. Como vai a Tiffy, esse é o nome dela mesmo?

— Sim! Ela ainda está no mesmo emprego e você já deve ter escutado as reclamações dela sobre aquele lugar. — estalou os dedos para Chico se aproximar. Tirou o celular do bolso e abriu a conversa com a amiga. — Se importa se tirarmos uma foto? Ela vai pirar quando te ver e vai ser bom pra que ela saiba que eu já cheguei e estou segura.

— Ela achou que você não estaria? — Sarah perguntou rindo do que a mais nova falou.

— Ah, você precisa conhecer a Tiffy. Digam X! — E, assim, todos se posicionaram para foto. ergueu os dedos no símbolo da paz e os outros fizeram caretas diferentes. — Minha primeira foto no Japão. Meu plano é fazer uma espécie de book da memória, sabe?

— Fazemos em toda viagem que fazemos, querida. — Clare deu uma piscadela. — Vocês acham que eu devo chamar ele agora?

— Não, vamos dar um tempo pra ele agora. — Mitch disse baixinho, como se estivesse contando sobre um plano secreto. Chico latiu alto e foi ao seu encontro. Mina, A governanta, a esperava para mostrar o seu quarto. — Mas acho bom arranjarmos uma forma de entreter ele. — ainda ouviu aquele pedacinho antes de seguir Mina pelo corredor.

Pouco depois de um pequeno corredor havia uma escada que dava acesso ao primeiro andar da casa. As janelas grandes de vidro estavam fechadas mas, por entre o vidro, conseguia ver como a vizinhança era bonita e acolhedora. Casas tão bonitas e luxuosas quanto estavam espalhadas em fileiras precisamente separadas, e árvores e arbustos complementavam todo o visual de subúrbio chique. Mina parou em frente a uma porta grande com duas maçanetas, e abriu as duas, dando passagem para um aposento sem igual.

, em toda sua vida, nunca esteve hospedada em um lugar tão sofisticado como aquele: Uma cama grande, forrada com lençóis com tons de rosa bebê e uma colcha branca tomava conta do centro do quarto; Uma cômoda com alguns objetos de decoração encima chamou a atenção da jovem por aparentar ser uma relíquia do tempo do império japonês.

— Acho que esse quarto combina melhor com você, senhorita . — A de cabelos negros disse e esperou que a mais nova fizesse o mesmo. colocou sua bolsa em cima da cama, visto que suas malas já estavam lá, e soltou Chico para que ele pudesse, finalmente, descansar.

— Me chame de Rosalie, por favor. Não precisa de tanta formalidade. — A colunista sentou na cama e prendeu o cabelo num coque. — Ah, meu Deus, essa cama é incrível.

— Vou deixar você descansar. — A governanta foi até a porta. — Colocarei o café na mesa ás oito.

— Mal posso esperar! — Sorriu antes da porta fechar-se. Chico pulou na cama e se aninhou na parte de baixo. — Tudo bem, hora de um banho merecido e depois cama!

se despiu e foi até a suíte do quarto, e ligou o chuveiro. A água estava morna e os jatos do chuveiro molhava todas as partes de com tamanha gentileza. Lavou o cabelo e aplicou uma máscara hidratante, mas deixou para que o enxágue ficasse para o dia seguinte por quê o sono estava tomando conta de si. Vestiu um pijama fresquinho, pegou seu celular e apagou as luzes.

De: Tiffy
OMG é o Mitch da Times Square?

Mal posso acreditar, ele está muito bem

Como foi sua viagem? Espero que se alimente bem

Já estou com saudades 🙁

O seu apartamento está em boas mãos

[Enviada.19:59 P.M]

Para: Tiffy
Sim, é ele mesmo
Eu tive as minhas primeiras impressões
com o pessoal
🙂
[Lida. 20:01 P.M]

De: Tiffy
Merda, Rose

Sabe que existe um fuso-horário né?

São tipo sete da manhã, num sábado

NA MINHA FOLGA VOCÊ ESTÁ ME
MANDANDO MENSAGENS EM PLENA
MADRUGADA

mas, sim, quais foram as impressões?
[Lida. 20:05 P.M]

Para: Tiffy
As garotas são demais
e os rapazes também

A casa parece um palácio japonês e nossa
estou doida pra conhecer tudo

[Lida. 20:06 P.M]

De: Tiffy

E o harry?

[Lida. 20:07 P.M]

Para: Tiffy
Ele é simpático

Falamos pouco, mas ele não
parecia estar em um bom momento

Cheirava a álcool

[ Lida. 20:10 P.M ]

De: Tiffy
Então foi uma péssima impressão

Eu te conheço

Sei o quanto você odeia bebida

😛

[Lida. 20:12 P.M]

nem sequer respondeu a última mensagem, porque adormeceu. Mas seu consciente martelava perguntas sobre como aquela viagem ocorreria, estando no meio de uma banda que, visivelmente, aprecia muito bebidas alcóolicas. Tinha péssimas lembranças com pessoas que também amavam beber, e, de certa forma, tais experiências causaram traumas irreversíveis. De modo algum queria que Tóquio se tornasse um pesadelo, não naquela altura. Seu maior desejo é terminar a crônica com sucesso, se despedir do pessoal e pegar o primeiro vôo para o encontro do McFly.

 

Capítulo três

Na manhã seguinte, acordou por causa das inúmeras mensagens que estavam chegando em seu aparelho celular e emitiam uma vibração contínua que lhe agoniava. Não conseguiu lembrar da última vez que havia dormido tão bem nos últimos meses, aquela cama era mesmo de outro mundo. O edredom rosa bebê que estava cobrindo seu corpo tinha a consistência de uma nuvem macia; articulou um plano em sua mente para poder levá-lo para casa quando fosse a hora de ir. Talvez valesse a pena pagar por uma mala a mais, aquele edredom valia muito. O ecrã iluminado do seu celular mostrava as notificações de sua rede social e a maioria delas eram mensagens de Christopher.

Nas mensagens ele falava do quão preocupado estava e que queria que a colunista tomasse cuidado com sua saúde, porque o ar do Japão não era dos melhores. Ela sorriu sozinha já sentindo falta de seu chefe bobo. No meio de tantas notificações, havia uma em especial que fez com que o coração de parasse por um segundo.

Um número desconhecido. Poucas palavras. Muito impacto.

De: Desconhecido

Hey, aqui é o Leon!

A de olhos cor de mel não conseguia pensar em uma maneira dele ter conseguido seu número de novo. Havia trocado o anterior por causa de Leon e seus pedidos exagerados de desculpas, não precisava de mais aquele drama em sua vida. Como ele conseguia ser tão cara de pau? Tinha plena noção de que o término aconteceu por incompatibilidade de ambos, e ele mesmo frisou tal ponto. Aquele homem era inacreditável. bloqueou aquele contato sem pensar duas vezes. Chico já estava animado e roía o solado do coturno que a moça usava na noite anterior. Aquilo bastou para que saltasse da cama para tomar seu calçado da boca de seu cão. Fez cara feia para o animal e logo enrugou o nariz; havia um cheiro característico pairando pelo ar e, por causa da porta e janelas, mais parecia que o cheiro tinha sido abafado.

— É brincadeira, não é? — Inquiriu a de franja, olhando para o animal de pelos dourados parado rente a si com a língua para fora, ofegante. Olhou em volta, mas não encontrava o cocô, não estava no chão do quarto e muito menos na suíte. respirou fundo e foi até sua calam olhar a hora, oito e quarenta. Não poderia chegar depois de Giselle, mas também não poderia deixar aquele tesouro escondido por mais tempo. — Okay, você fez e vai ser você quem vai mostrar onde está. Não estou brincando, rapaz.

Chico latiu, crente de que aquilo era mesmo uma brincadeira, ele não iria ajudar muito. Então, lembrou do que sempre fazia quando Chico era menor e fazia esse tipo de coisa com recorrência. Resolveu seguir o cheiro. Não era agradável, mas tinha que ser feito. Andou em círculos algumas vezes até seu cérebro mandar sinais de que aquilo estava mais perto do que parecia. se aproximou de sua mala de mão, agachou e, cuidadosamente, olhou. Por entre algumas peças limpas estava o grande tesouro de Chico.

— Seu filho da- — Ela nem terminou de falar, pegou a mala e correu para a suíte. Tirou a sujeira com papel higiênico, mas ainda parecia estar lá. Aquela mala tinha poucas peças, um pouco na parte mais funda da mala e um pouco na parte de cima; carregava sua câmera, perfumes e maquiagens ali. Por sorte – ou não -, apenas a primeira camada de roupas foi arruinada. Chico se enroscou nas pernas de sua dona. — Eu não vou falar com você hoje, juro.

O cão latiu manhoso. pensou em alguma alternativa. As roupas nem estava tão fedidas assim, só um pouco para se tornar quase irritante. Tirou tudo que estava na mala de mão e apenas deixou as peças sujas. Lavou as mãos e escovou os dentes. Tinha que descer para o andar debaixo.

— Vamos, mocinho. — Chamou Chico.

Ambos desceram e tentava fazer o mínimo de barulho possível. Não queria encontrar com ninguém pelos corredores, não vestindo pijamas. A lavandeira ficava depois da grande cozinha e tinha duas máquinas de lavar, e outras duas para secar. colocou tudo dentro da máquina, porque não eram peças frágeis, e ligou o aparelho. Foi para fora da cozinha e viu Mina colocando a mesa, sorrindo para a mesma com simpatia.

A governanta era muito bonita, com cabelos negros em um corte que ficava na altura de seu pescoço, olhos castanhos claros e aqueles traços típicos de seu país. Ela tinha cara de ser uma tia amável, que mima os sobrinhos. Apesar de estar usando um pijama que não era revelador nem nada, sentiu-se um pouco desconfortável. Sabia como a cultura Japonesa era e não queria desrespeitar.

— Eu vou me aprontar. Desço em alguns minutos, sim? — A colunista disse.

— Não tem problema, pode ficar. — Mina puxou uma das cadeiras para que sentasse. — Acho que os outros não vão levantar tão cedo. Foram dormir bastante tarde. — O tom que a governanta usava era severo, como se desaprovasse aquelas ações. Mina era rígida, estava tão nítido em seu olhar que ela desejava que a estada da banda fosse curta.

prendeu os lábios numa linha. — Eu realmente não escutei mais nada depois que entrei naquele quarto. — Mina colocou mingau de aveia na mesa e o cheirinho do leite misturado com aquele grão envolveu em uma nuvem doce de nostalgia. Costumava comer muito daquilo com sua irmã mais velha, porque era a única coisa que sabiam fazer na cozinha. Minha colocou uma tigela para e deixou um pouco de mel para que ela colocasse a gosto.

— Sorte a sua. — A mais velha murmurou. — Pude perceber ontem o impacto de uma ligação na vida de uma pessoa. — A afirmativa de Mina foi vaga e deixou perguntas no ar, mas não queria bancar a Sherlock Holmes. — Está bom?

— Sim, está. Posso arriscar que esse mingau é um pouco melhor do que o da minha irmã. — Ambas riram. — Você serve os pratos que te convém ou segue algum tipo de cardápio? — Já era de se esperar que fosse uma jovem simpática e que gostava muito de conversar. Qualquer coisa rendia um bom assunto com ela.

— Bem, o pessoal me mandou uma lista de exigências antes de pousarem em Tóquio. Então eu só peço para cozinharem o que eles gostam. Aqui não somos de tolerar muito estrago em alimentos, por isso eu acho que é bom terem uma preferência.

— Oh, entendo. — A colunista assentiu e resolveu dar atenção ao mingau. Comia com calma, se deliciando na sensação de sentir os grãos grossos em sua língua, quando percebeu que Harry estava na mesa com ela. Com o rosto amassado, olhos pequenos e vermelhos. Usava um robe azul de listras e parecia estar mergulhado em pensamentos.

— Bom dia, senhor Styles. — Mina o cumprimentou educadamente. — O que vai querer?

— Eu vim pelo mingau de aveia. — Ele disse. Sua voz rouca fez com que os cabelos na nuca de arrepiassem. — Bom dia, . — Ele a encarou e sorriu de lado. quis saber o que fazer, era péssima quando estava envergonhada.

— Bom dia, Harry. Teve uma boa noite? — Indagou a fim de não dar espaço para um silêncio estranho entre os dois. Ela precisava agir de forma sábia com Harry, para que ele pudesse se abrir mais rápido. Ouviu Mina falar com alguém e sair do campo de vista dos dois. Harry soltou um riso abafado. — O que foi?

— Tenho a impressão de que Mina não gosta de baderna. — Ele disse e deu uma colherada em seu mingau. “E quem gosta?”, se perguntou internamente. Não respondeu ao vocalista e olhou para sua tigela de porcelana com mingau. — O pessoal não costuma levantar cedo. Podemos dar uma volta, para você escrever.

sorriu como nunca antes. — Podemos?

— Claro. Giselle só aparecerá por volta das cinco da tarde, e até lá não tem mais nada pra fazer. — Deu de ombros. bebeu um pouco de água com cautela. Olhou de soslaio para a figura à sua frente e sentiu uma pontada de humor crescer em seu interior. Harry segurava uma xícara com tamanha formalidade. Seu dedo mindinho estava levemente levantado, assim como as pessoas super chiques faziam. — Acho que hoje podemos arriscar usar roupas mais frescas. — Olhou para a porta francesa que dava para o quintal da casa. — O sol hoje deu o ar da graça.

Mina recolheu as tigelas e xícaras da mesa, afagou o pelo de Chico por um segundo e pediu licença. lembrou de suas roupas na máquina de lavar e foi buscá-las, deixando Harry ainda na mesa, mas ele não parecia se importar. Teclava a tela do celular freneticamente e em completo empenho. A colunista suspirou, teria que dar um toque para que ele fosse atento às suas perguntas.

— Eu vou me arrumar. Lhe espero no hall?

— Sim, te encontrarei lá. — Disse sem dar atenção a de cabelos castanhos.

Antes da colunista subir para seu quarto Harry a viu falar com Mina algo sobre a ração que tinha trazido para Chico. Segundos depois o cãozinho estava com o focinho enterrado numa tigela vermelha de alumínio. O vocalista olhou para o ecrã do seu celular mais uma vez e notou que sua última mensagem tinha acabado de ser respondida, suspirou pesadamente.

Eu não acho boa ideia, Harry. Ele releu alguma vezes para ver se conseguia pensar em outra alternativa, mas sua cabeça não funcionava. Seu estômago embrulhou e ele quis alguma bebida por perto. Seu humor havia ido embora. Ouviu passos atrás de si e virou-se para ver quem era.

— Bom dia! — Sarah cumprimentou alegremente, como sempre fazia. Harry se limitou a sorrir. — O quê? — Inquiriu a baterista sem entender o desânimo de seu amigo. Desceu o olhar para o celular que, naquele momento, estava na mesa e entendeu tudo. — Puta merda, Harry… Você tinha melhorado com isso.

— Não consigo. — Ele respondeu com a voz baixa.

— É claro que consegue. — A loira disse e colocou a mão na perna nua de seu amigo. — Nunca vai sair disso se ficar revivendo o passado todos os dias. Eu sei que você sabe disso. — Sarah conseguia ver a tristeza tomar conta do corpo de Harry e aquilo a deixava com medo. Não era mais aquele homem com tanta vida e felicidade. Mais parecia apenas um corpo. Sem vida e sem espírito algum. Sarah era muito atenciosa e sabia que aquele poço sem fim poderia ser a ruína de Harry Styles. — E se nós trocarmos seu número?

— Nunca me esqueço do número dela. — Tornou a falar e levantou o olhar para a baterista. — Eu quem não quero sair disso, Sarah. Não quero ter a certeza de que ela não precisa mais de mim para nada.

— Bom, se quer viver numa mentira, tudo bem. — Ela deu de ombros. — Eu vou sempre te incentivar a esquecer tudo isso e seguir com sua vida, mas só depende de você.

Sarah deu as costas para colocar seu café da manhã, Harry levantou e deu-lhe um beijo em seu ombro. Aquela era sua forma de dizer obrigado, em situações como aquela ele não costumava ser tão racional, mas sabia que todos só queriam o seu bem. Lembrou do que Adam disse, sobre dar atenção á novas pessoas, abrir o leque e viver uma aventura nova em Tóquio. E porquê não? Bebidas e sexo sempre tiveram um lugar na biografia de um astro, estava na sua hora. Mesmo que aquilo não fosse melhorar nada.

Harry tomou banho e vestiu-se como se o dia estivesse ensolarado. Uma bermuda jeans, que mal chegava aos joelhos, e uma camisa de botões amarela. Estava bom. O reflexo do espelho mostrava
um homem jovem saudável, com cabelo bem penteado e barba feita.

Harry preferiu acreditar que o espelho estava dizendo a verdade.

Colocou sua carteira no bolso e pegou os óculos escuros. Antes de sair do quarto, o vocalista resolveu que iria sair sem seu celular e o deixou dentro da gaveta da mesa de cabeceira. Trancou o quarto antes de ir. Desceu as escadas e quando chegou ao hall notou que ainda não estava lá.

Na sala de estar os outros membros da banda conversavam entre si de pijamas. Na primeira oportunidade que teve, Harry sentou ao lado de Mitch e deitou a cabeça em seu ombro. Amava a relação deles dois, por mais que parecesse que Harry era o irmão mais novo insuportável de Mitch. Clare comentou sobre a roupa que o vocalista havia escolhido e todos riram, Harry fez cara de diva e mostrou o dedo do meio.

— Pensei que íamos sair todos juntos. — Adam disse e as meninas concordaram. — Estou ofendido que você não nos convidou.

— Nós só vamos falar sobre o álbum, vocês já sabem disso. — O cacheado revirou os olhos. — Sem falar que vocês terão que estar prontos quando chegarmos, por que Giselle estará aqui para a crítica.

— Quase esqueci disso. — Sarah confidenciou. Continuaram conversando mais um pouco até ouvirem os passos de ao descer as escadas. Ela estava tão entretida na conversa que tinha ao celular que não notou que todos na sala só tinham olhos para ela. — Oh, nossa…

— O que foi? — A mais nova perguntou e sentiu suas bochechas arderem. usava um vestido de linho de botões, que chegava á altura de suas coxas e um par de tênis iguais aos de Harry. Seu cabelo longo estava ondulado, caindo por um de seus ombros e emanava um cheiro de primavera.

— Tive uma idéia para uma música! — Mitch levantou do sofá rápido, fazendo com que Harry caísse para o lado. — Você está muito bonita, .

— Então é por isso que vocês estão com essa cara? — Inquiriu com humor. — Bem, eu sabia que eu era bonita, mas não tanto assim. — Ela colocou a mão no peito como se estivesse lisonjeada.

desceu o restante dos degraus e se despediu de Christopher, que estava ao telefone com ela. Ajeitou sua bolsa no ombro e esperou que Harry fizesse ou dissesse alguma coisa. Sabia que ele já tinha visitado Tóquio antes, então ele seria o guia do passeio. O vocalista levantou e fez um sinal para que o seguisse, e após se despedirem dos outros eles saíram da casa. A câmera fotográfica estava dentro da bolsa marrom, esperando para registrar lindos momentos.

A jovem colunista acreditava fielmente que o sol havia saído de trás da nuvens para que ela pudesse conhecer a cidade e ter certeza que não havia nada de errado em seguir em frente. Era inverno. Dezembro. Mas mesmo assim o sol quis fazer com que se sentisse especial; e ela agradeceu por aquilo. O condomínio onde estavam não ficava muito longe do centro da cidade, segundo o Maps, por isso entendeu o fato de Harry não ter chamado um táxi ou, sequer, ter alugado um carro para poderem se deslocar. Ela pensou no que falar para ele, porque não queria ser invasiva.

— Então, porquê Golden? — Inquiriu com um sorrisinho. Seus olhos castanhos fitaram o de cabelos cacheados e fez mais uma nota mental: Harry Styles ficava ridiculamente bonito sob a luz do sol.

Ele devolveu aquele olhar e limpou a garganta. — Essa foi a primeira música que toquei para o pessoal da banda e eles me olharam como se eu tivesse escrito o maior hino de todos os tempos. Estávamos no estúdio e eu estava tocando violão num canto.

escutava tudo com tamanha atenção, buscando sempre entender a essência daquilo. Lembrou-se de ter ouvido a primeira faixa do álbum enquanto se arrumava para aquele passeio, a idéia de ouvir uma de cada vez era interessante, despertava uma curiosidade crescente. Andaram em silêncio por algumas quadras, acabou pegando seu celular para adicionar idéias ao seu bloco de notas. Mais parecia que a melodia de Golden tocava no fundo, e tudo parecia propenso a ser o cenário de um videoclipe.

Atravessaram as ruas e caminharam pelas calçadas até chegarem ao centro da cidade. conseguia ver, ao longe, a torre de Tóquio e não pôde deixar de esconder sua animação. Aquele seria o primeiro lugar que iria visitar, mesmo se Harry não quisesse a acompanhar. O cacheado andava tranquilamente com as mãos no bolsos, sempre olhando para as vitrines das lojas por qual passavam. tomou a iniciativa de tocar o braço de Harry por um segundo, para chamar sua atenção. Já que estava ali queria aproveitar o quando pudesse. Tirou sua câmera da bolsa e tirou o protetor de lente dela.

— Se não se importar, eu vou fazer algumas fotos durante o passeio. — Ela explicou. Levantou a câmera na altura de seus olhos para poder ver a paisagem na sua frente. Harry estava em frente à torre, com um olhar distraído e aquele foi o primeiro clique. Ele estava tão bem usando aquela camisa que não se limitou a fazer apenas uma foto.

Quando Harry percebeu que estava sendo fotografado, abriu um sorriso amarelo envergonhado. — Estou atrapalhando a visão, não é? — Inquiriu e se moveu rapidamente para sair da frente. soltou um riso anasalado e olhou para as fotos que tinha tirado no rolo. Se juntou a Harry e sentiu a pele e seu braço tocar na pele do braço dele. Sentiu um arrepio com o contato. — Ficaram boas! — Disse em surpresa e pegou a câmera das mãos da colunista. — Sua vez.

concordou animada e ficou de costas para a torre. Colocou uma das mãos em sua cintura e com a outra fez o sinal da paz, aquele era um vício seu. A jovem colunista ouviu uma risada partir de Harry e também sorriu. Mudou de pose, dessa vez esperou que o vocalista se aproximasse o suficiente. Mas, em um segundo, ele estava perto demais e ela não soube como reagir.

— O quê? Estou apenas fotografando. — Ele disse numa tentativa de fazer com que ela voltasse a animação de antes. Harry tirou mais uma foto, do rosto dela bem de perto e abriu o rolo de câmera novamente. — Você tem jeito para fotos, .

Ela se sentiu envergonhada. — Mesmo? — No mesmo momento ele passou para a última fotografia e ela sentiu seu estômago revirar por um instante. Estava perto demais, mas de um jeito que lhe deixava estranhamente espontânea. Seu sorriso fez com que seus olhos quase fechassem… parecia ser um moça muito feliz.

Harry balançou a cabeça em confirmação. — Definitivamente.

— Me diz uma coisa que ninguém saiba sobre Golden. — Ela disse em meio á aquela troca de elogios, pegando Harry de surpresa. Ambos voltaram a andar e teve a sensação de que aquele passeio estava sendo muito fácil. Tinha imaginado que Harry Styles era perseguido por todos os lugares que ia.

— Me imagino como um astro dos anos setenta quando a canto. — Ele confidenciou e seus olhos sorriram. concordou.

— Sim! Me imagino indo para uma das praias de Los Angeles, mas numa época diferente. — Chegaram a Torre e se depararam com uma fila para poderem entrar. — É uma música que te transmite uma sensação de euforia, mas a letra mescla com isso. É um agridoce musical do triste com o feliz.

Pagaram uma taxa para poderem subir nos dois observatórios e pegaram o elevador. fazia fotos de tudo, em todos os ângulos. Harry a seguiu enquanto ela tagarelava sobre o quão alto estavam e sobre como a queda dali poderia ser um desastre histórico. Ele riu das piadas infames que ela fazia.

— Sabe, você parece saber muito sobre música. — Estavam encostados ao vidro de contenção, olhando ao redor da cidade. , que era muito mais baixa que Harry, estava nas pontas dos pés para poder ver o monte Fuji, que estava coberto de neve.

— Só porque eu acho que Golden tem uma pegada de soft rock, usada nos anos setenta? — Replicou. Será que ele pensava que ela se limitava às colunas na Rolling? Riu internamente com aquele pensamento. O silêncio do vocalista fez com que ela seguisse em frente. — Bebi de uma fonte, quase inesgotável, de músicas dessa época. Sei a maioria dos sucessos e, pode acreditar, eu sei quais são os gêneros delas.

— Não quis ofender.

— Não ofendeu. — pegou seu celular na bolsa e anotou mais um pouco. — Mas sei que as pessoas devem me reduzir a mulher que escreve sobre as mais lindas canções do momento e eu gosto, não posso mentir. Mas sei mais que isso.

Harry sentiu falta do seu próprio celular, para poder fingir que estava fazendo qualquer outra coisa e não responder aquilo. Ficaram em silêncio, mas não se importava. A americana estava fascinada com a beleza daquela cidade e não queria estragar as chances de dialogar com Harry, preferiu se abalizar as perguntas objetivas. Viu Harry se sentar no chão de vidro transparente e fez o mesmo.

— Quem é ? — Aquela pergunta ficou no ar por um tempo. Tempo suficiente para que assimilasse aquilo. Cruzou as pernas e notou a forma como eles estavam combinando.

respirou fundo. — é uma mulher sonhadora, que saiu de uma realidade que não a pertencia a pouco tempo e está tentando trilhar uma nova rota. É uma mulher forte, mas às vezes nem tanto. Tem algumas manias estranhas; gosta de ouvir músicas que quase ninguém ouve mais e adora ler sobre fantasia. Acho que posso dizer que ela é bem bonita e doce… — Ela ouviu Harry rir com sua fala. — … Brincadeira.

— É uma descrição interessante. — Estava tão claro nos olhos dela que tinha algo mais por trás daquelas palavras, ele conseguia perceber. — Não vou te dizer quem é Harry Styles porque no decorrer dessa viagem você vai saber. Espero que não se decepcione.

— Desde que não se decepcione comigo, tudo bem. — Ela deu de ombros. — Eu estou surpresa com a qualidade do ar daqui. Meio ruim, não é?

— Bem ruim. Esqueci que temos que usar máscaras aqui. — Harry divagou. — Pode me passar as fotos que tirou?

— Claro, vou enviar pro seu celular.

deixou-se levar pela rápida edição das fotos que tinha tirado e, enquanto isso, Harry pensava seriamente em como seria bom beber uma boa cerveja puro malte. Sua boca estava salivando por aquilo. Olhou de relance para a colunista e concluiu que ela não era o tipo que bebia assim, de supetão, a qualquer momento. Por isso, se limitaria a responder qualquer pergunta feita pela colunista de olhos cor de mel.

Quando pegaram o elevador para descer da torre se ofereceu para pagar uma bebida refrescante e Styles e o mesmo , tremendamente agradecido, aceitou de bom grado. No térreo havia um restaurante bonito e requintado. O bar tinha uma espécie de balcão comprido com banquinhos giratórios. sentou e varreu o cardápio atrás de um tira-gosto que deixasse seu estômago satisfeito até a hora do almoço.

— Eu quero um chope, por favor. — Harry disse ao barman enquanto batucava com os dedos no balcão. riu para si mesma.

— Não são nem dez horas, Styles! — Indagou com surpresa. Girou seu banco para ficar rente ao vocalista e, por trás da lente de seus óculos escuros, fixou seu olhar no dele, numa espécie de busca, sem precedentes, para saber o que se passava em sua cabeça.

— Tem hora certa? — Inquiriu com um sorriso travesso.

devolveu o mesmo sorriso. — Bom, eu não posso deixar que você beba sozinho. Enquanto isso, você pode me dizer o que eu devo esperar desses dias acompanhando vocês?

— Você quer que eu conte o que você quer ouvir ou o que não quer? — O de cabelos cacheados perguntou. Os copos de vidro foram entregues e os dois puderam ver o quão gelada a bebida estava. Harry sentiu sua boca salivar no mesmo instante.

— E se você for franco comigo a todo momento enquanto eu estiver aqui? — Replicou a pergunta. Não perdeu muito tempo e bebericou um pouco da cerveja estupidamente gelada. — Forte demais.

— É puro malte. — Ele respondeu e também bebeu, mas já estava mais familiarizado com aquele sabor. — E sobre ser franco, lamento dizer-te que não posso te assegurar de nada. Tenho tendência a mentir sempre que preciso.

O restaurante estava pouco movimentado, para dizer a verdade. Haviam poucas pessoas visitando a torre e aquilo era bom. tinha que ser discreta, como um fantasma. Uma vez, durante a viagem para a África com Troye, ela cometeu o deslize de ser fotografada ao lado do cantor diversas vezes. Iam para pubs e para os shoppings da cidade sempre que podiam e Giselle odiou aquilo. A chefe de lhe deu um belo sermão sobre ser profissional e a jovem colunista não poderia cometer o mesmo erro de novo.

— Todo homem tem tendência a ser mentiroso, Harry. Isso não é novidade. — A de franja assobiou e lembrou de seu ex namorado e de como ele costumava mentir bem. Era como um esporte pra ele, estava sempre ficando melhor em suas técnicas. — Mas acho que a verdade é sempre melhor. Você vive mais livre.

— Sem esse papo de coach pessoal, . — O cacheado revirou os olhos e bebeu o resto da cerveja de uma vez só. Levantou o dedo indicador para o barman que logo entendeu o gesto.

— Certo. Então eu não posso acreditar em tudo o que eu ouvir na faixas do álbum?

— Uh, sim e não. — Deu de ombros, indiferente. — Eu escrevo para o meu público e eu sei o que eles querem ouvir. Se estou escrevendo uma música de amor, eles irão querer ouvir sobre um fim feliz ou algo do tipo. Tenho licença poética para adicionar alguns fatos que não aconteceram nas minhas composições.

— Woah, isso é mesmo interessante. — se lembrou da música Too Close For Comfort do McFly e pensou se os rapazes tinham sofrido um amor daquele alguma vez, porque, certamente, aquela canção fazia o coração doer. — Todo cantor faz isso?

— Seria antiético se eu confirmasse isso? — Styles semicerrou os seus olhos verdes. riu baixinho e abanou a cabeça em confirmação. — Então, não. Só eu faço isso.

A ironias era sua aliada, concluiu.

Passaram alguns minutos até que eles perderam a conta de quantos copos já haviam ido e voltado. conseguia ouvir a voz severa de Giselle em sua cabeça lhe dizendo o quão irresponsável ela estava sendo, mas não estava cem por cento sóbria para poder dar atenção. Harry parou de contar assim que o terceiro copo de vidro foi levado pelo barman, e aquilo não era importante.

O vocalista sentia seu estômago esquentar ao pensar que já poderia ter recebido uma resposta em seu celular. Arrependeu-se de tê-lo deixado, mas estava aproveitando aquele tempo, para ser sincero consigo mesmo. Estar longe da vibe da banda e das conversas que tinham era bom. Conversar sobre qualquer coisa com era bom. Ela parecia ser uma jovem boba, que fazia qualquer assunto render e aquilo lhe agradava. Ela não parecia se importar com o fato de estar com um dos maiores astros da música.

— Droga! — Ela balbuciou com a voz baixa. Não aparentava estar bêbada nem de longe. Seu celular tocava em um ritmo frenético e não parava. Estava perdido por entre as coisas dentro de sua bolsa e quando foi finalmente achado, fechou os olhos com força ao ver o ecrã. — Mas como ele consegue?

A pergunta ficou no ar e a ligação foi atendida. arregalou os olhos por um segundo e voltou a sua postura de antes. Parecia ansiosa.

— Sim, eu estou muito bem. — Seu tom de voz mudou do doce e simpático para o duro e sem qualquer resquício de simpatia. — Olha, eu não estou em Nova York e eu não me importo se você já me procurou não sei quantas vezes, senhora. Eu já lhe disse o que eu pensava sobre essa situação. — Outro momento de silêncio se sucedeu. Harry olhou para os lados e suspirou entediado. — A senhora, melhor do que ninguém, sabe como foi. Não há necessidade de voltarmos a isso novamente. Tenha um bom dia!

— Problemas? — Harry, com suas unhas pintadas de preto, questionou. Seu olho começava a tomar um tom mais avermelhado, assim como seus lábios.

— Uma sogra que não consegue me esquecer. — Respondeu-lhe com um sorriso amarelo. — Isso acabou com o meu dia, de verdade.

— Sinto muito por isso.

— Não sinta. — Ela desceu do banco e pegou sua bolsa. — Vou ao banheiro, com licença.

Ela saiu de seu campo de vista com passos rápidos. Harry se contentou em negar mais um copo de cerveja e pedir uma pequena porção de batatas fritas para viagem. Bateu os pés no chão ao som de uma música antiga, provavelmente dos anos oitenta, animadamente. Poderia ter certeza que era o Esteve Tyler por causa das notas extravagantes.

— Maybe tomorrow the good lord will take you away… — O cacheado acompanhou o último verso da canção. Claro que ele conhecia aquele hino do Aerosmith. — Sing with me, sing for the year, Sing for the laughter n’ sing for the tear!

— Dream On é uma música que me deixa com vontade de lutar pelos meus ideais. — disse assim que voltou. Mas a música já havia terminado e Harry a olhou confuso. — Tem caixas de com embutidos no banheiro.

— Oh, faz sentido. — Harry fez menção para que o barman viesse dizer o valor de todos os copos de cerveja que haviam tomado. — O que quer fazer?

ficou quieta por algum tempo. — Podemos apenas andar por aí, se quiser.

Harry se atreveu a levantar o celular da colunista e, assim que a tela acendeu, ele olhou a hora. — Ainda temos um tempo antes de Giselle chegar. Clare iria adorar te mostrar os bairros daqui.

— Já veio muitas vezes aqui?

— Eu vim algumas vezes, sim.

— E qual foi o motivo do retorno?

— Shows e, não ria, mulheres. — O cacheado colocou seus óculos escuros. Aquelas orbes escondiam mais do que um coração partido, certamente.

— Entendo, juro. — A mais nova disse e olhou para a calçada enquanto caminhavam. — Sexo é uma coisa que faz as pessoas se sentirem menos solitárias, minha amiga Tiffy costumava me dizer isso.

— Ela não mentiu.

— Sem dúvida alguma.

Eram dois adultos em uma conversa de adulto. Não havia resquícios de vergonha ou constrangimento. gostava de papear sobre sexo. Era um assunto leve, que levantava pautas interessantes. A jovem colunista era bem resolvida demais para que pudesse se restringir a aquilo; dava graças á Deus quando alguém iniciava uma conversa sobre. Não era atoa que sua mãe foi chamada na direção do colégio algumas vezes durante o ensino médio. era conhecida por ser a garota que incentivava suas amigas a conhecerem seus próprios corpos e, em um colégio religioso, aquilo não era tolerado.

E por mais que aparentasse ser inocente demais, não era.

— Acho que tenho que levar uma dessa para Tiffy. — disse enquanto segurava a camiseta amarela que dizia “Eu amo o Japão” em inglês. Estavam caminhando por um bairro movimentando, ainda próximos a torre e encontraram uma loja de bugigangas gigantesca. vestiu a blusa por cima do seu vestido e entregou uma a Harry. — Tire a foto, Harry!

Harry obedeceu ao pedido. Virou a lente da câmera para que a mesma pudesse captar a imagem dos dois e sorriu mostrando suas covinhas. se aproximou e tirou uma foto dele sozinho, mas ele abaixou a cabeça e o que ficou mesmo em evidência foi o amarelo chamativo daquela camiseta. Tiffy diria que está se deixando levar, como nas outras vezes, mas era ela louca e via uma paixãozinha em tudo. Aquilo não era possível, já havia aprendido.

Almoçaram em um restaurante que Harry garantiu ser bom e comeram com vontade. Aquela cerveja havia dado-lhes uma fome sem igual, mas a grande ironia era que não era uma grande fã de shushis e pediu por um prato com carne de pato, bastante típico, e estava tão bom que a mesma prometeu a si mesma que voltaria a aquele restaurante antes de ir embora. Harry revezava entre momentos de conversação e silencio contínuo, mas entendia. Ele só estava sendo simpático, também queria que a coluna lhe favorecesse, de certa forma.

— Golden é um sucesso pra mim. Está no meu top cinco. — A mais nova disse antes de chegarem ao portão da casa onde estavam hospedados. — Tenho que dar os parabéns ao Mitch por ter ajudado a escrever essa.

— Os crédito são meus, .

— Não seja ganancioso. — Ela riu. — O que devo esperar de Watermelon Sugar? Quer dizer, eu sei que você tocou um pedacinho dessa salada de frutas no programa Saturday Night Live, mas não ouvi tudo.

— É… Dançante? — Se arriscou a dizer.

— Eu gosto de dançar.

— Não tem história por trás dessa. — Ambos entraram pelo portão.

— Não seja mentiroso. — A colunista parou de subir os degraus para o encarar.

— Pergunte ao Mitch se não acredita. — Ele cruzou os braços como uma criança emburrada.

— Pois eu vou mesmo. — tirou seu par de tênis e os deixou no lado de fora, em um compartimento especial, á pedido de Mina. Calçou umas sandálias e entrou na casa, sendo seguida por Harry. — Mitch, qual a história por trás de Watermelon Sugar?

O de cabelos compridos a olhou com as sobrancelhas arqueadas. — Nenhuma.

— Essa música é sem sentido, . Pode pular para a próxima! — Sarah disse com um sorriso travesso, viu o vocalista da banda mostrar o dedo do meio para ela. — Como foi o passeio?

— Agradável. — Ambos disseram ao mesmo tempo e todos na sala riram.

— Que sincronia bizarra! — Sarah abraçou por cima dos ombros. — Ainda bem que vocês pouparam energia, porque, depois que Giselle sair, vamos á uma casa noturna no centro da cidade.

— Em dia de semana? — A colunista estava surpresa.

— Japoneses amam uma curtição, vai por mim. — A baterista disse.

— Vai ser bom vocês saírem depois da visita de Giselle, mesmo. — A colunista franziu e sentiu vontade de rir da cara de medo que os integrantes da banda fizeram. — Ela vai pegar pesado.

Com isso subiu para o seu quarto, onde encontrou Chico deitado ao lado de sua cama. Afagou o pelo do mesmo e notou que seu pote de água e ração estavam cheios, Mina havia passado ali.

Seu celular tocou e na mesma hora ela atendeu, sem dar a mínima atenção ao número.

? — Aquela voz fez com que o coração da jovem colunista parasse por um segundo. A sensação de ansiedade começou a ameaçar se alastra e a colunista sentiu sua garganta trancar. — Não desliga essa ligação, não quero fazer com que você me perdoe.

— O que você quer, Leon? — Perguntou tentando manter sua voz firme, mesmo que sentisse que iria falhar.

Tentei te mandar email-s e mensagens, para evitar essa ligação, mas você nunca respondia. — Ele fez uma pausa e fungou. Aquela era uma mania que ele não conseguia deixar pra trás. — Eu sei que nosso término foi um desastre e que pessoas normais buscam seguir em frente sem ter contato com seus ex’s, mas-

— Mas? — Ela o cortou, numa tentativa de fazer com que ele falasse mais rápido.

Eu quero que você esteja presente no momento mais feliz da minha vida, . — Após aquelas palavras serem ditas, viu um filme passar em sua cabeça e, mesmo lutando contra, suas lágrimas ameaçaram escorrer por suas bochechas. — Achei a mulher da minha vida e vou me casar com ela em quatro meses.

— Isso é estranho.

Não, não é. Amanda sabe de nossa história e acredita que você foi o elemento que faltava para que a gente se conhecesse melhor. — Leon falava como se tudo fizesse sentido, mesmo não fazendo. — Só quero saber se posso mandar o convite para o seu endereço.

— Sim, claro! — Replicou com ironia. — Vou estar lá.

O coração de doía por saber que, mesmo depois de quase dois anos, ele havia seguido em frente. Lembrou das vezes em que conversou com Tiffy sobre nunca mais lhe dar uma chance para se redimir e percebeu que a pior mentira é aquela que se conta para si mesmo. Esteve se enganando quando dizia que não pensava mais nele, quando o que mais queria era voltar para os braços dele. O quão cruel a vida poderia ser? E o quanto iria se foder na vida?

— Inferno! — A de cabelos castanhos desbravou aos quatro ventos dentro de seu quarto. Não se importou com quem pudesse ouvir, só precisava tirar aquele sentimento dolorido do seu peito. Pegou seu celular e abriu a conversa que tinham com Tiffany.

Para Tiffy:

Aquele desgraçado me convidou
pro casamento dele

COM A MULHER COM QUE ELE ME
TRAIU

??

 

Capitulo quatro

Giselle chegou pouco antes das cinco da tarde, porque costumava ser muito pontual. Levo também seus dois filhos — Que eram gêmeos. Hannah tinha a mesma feição de sua mãe, com traços ainda mais delicados, e Peter era sua cópia. Eram idênticos, apesar do cabelo de Peter ser azul. Os membros da banda estavam animados, mas, ao mesmo tempo, levemente amedrontados. O olhar da crítica caiu sobre o grupo algumas vezes, por cima da armação de seus óculos de grau, e mais parecia que ela estava os julgando, assim como Mina havia feito. estava junto com Sarah e Clare num canto da grande sala de estar e ouvia tudo o que sua chefe dizia com tamanha atenção. A admiração que tinha por Giselle era sem igual e a jovem colunista queria ser tão boa quanto ela.

Sarah perguntou baixinho o porquê de a crítica ser feita numa espécie de domicílio e pacientemente lhe respondeu que as coisas na Rolling funcionam de outra forma. Christopher quis manter o costume de seu pai, o antigo diretor, de criar um vínculo com os artistas. Aquilo era bom, de certa forma. Acrescentava às críticas um pouco de sentimento de familiaridade, como se você estivesse lendo uma crônica escrita por um membro de uma família. Peter, o de cabelos azuis, conhecia e sorriu para ela assim que a viu. Tinham quase a mesma idade, com apenas um ano e meio de diferença, e sabia que o filho de sua chefe tentava, de forma singela, lhe fazer sair com ele. Ele era um rapaz amável e tinha um belo par de olhos castanhos.

— Creio que Fine Line foi, de alguma forma, superestimado pelas mídias durante os meses de espera. — Giselle disse depois de beber um pouco de água. Seu cabelo estava preso em um coque bem feito. — E essa espera toda só serviu para deixar todos sedentos por seu álbum, senhor Styles. — Sua voz carregava muita elegância. Harry se sentiu intimidado.

— Isso foi muito bom para nós. Saber que as pessoas estavam esperando para ouvir as canções foi incrível. — O vocalista respondeu com um pouco de lentidão. segurou o riso, se ele continuasse falando daquele jeito demoraria muito para que a crítica fosse embora. Mas isso é bom, pensou. O sotaque inglês é muito forte e se Harry falasse rápido demais ninguém iria compreender. — Estou feliz com toda a repercussão que está tendo.

— Sim. — Giselle fez um sinal para que Hannah, sua filha, lhe entregasse seu Ipad. — Fizeram uma coisa bastante incomum, não? — sentiu seu braço ser apertado por Sarah. — Lançar o álbum depois de saber o que os críticos acham. Isso é bastante sugestivo. Um pouco oportunista, mas foi uma jogada ousada.

— Pensamos que se fizéssemos isso e as críticas não favorecessem poderíamos abortar o lançamento. — Mitch disse com seu humor e todos riram na sala, até mesmo Giselle. — Sabemos o peso que uma crítica tem sobre um álbum, principalmente depois do álbum anterior ter sido tão bom quanto.

— Particularmente, gosto mais desse. — A loira disse com um sorriso. — Consigo sentir o amadurecimento de vocês, principalmente nos vocais. As letras trazem o tipo de história que as pessoas querem ouvir, entendem? É o que as pessoas querem ouvir. — Assim que Giselle terminou sua fala, Harry olhou para sorrindo, porque ele tinha dito aquilo a ela.

O clima na sala de estar tinha mudado drasticamente. Os integrantes pareciam estar mais relaxados com a presença de Giselle e tudo estava correndo muito bem. Vez ou outra Mina aparecia para servir as taças de vinho, que estavam se tornando secas muito rápido. A governanta servia somente a uma xícara de chá de limão, a jovem se sentiu mimada e sorriu em agradecimento. Hannah sentou perto da colunista e a chamou para ir para o seu lado.

Com um belo sorriso nos lábios Hannah deixou em apuros. — O que eu faço para ter uma conversa com ele? — Inquiriu a moça de vinte e dois anos. Seu cabelo não era tão longo quanto o de , mas nutria uma beleza única. A colunista sorriu amarelo.

— Eu não sei, Hannah. — Respondeu na tentativa de fazer a moça esquecer aquilo. — Realmente não sei sobre o que ele gosta de conversar.

— Ah, para! Você está escrevendo sobre ele. Você tem que saber conversar com ele. — não gostava do modo que Hannah agia em quase toda a parte do tempo em que passavam juntas. Ela era um pouco agressiva demais em suas ideias. Às vezes o momento nem lhe rendia nada, mas Hannah sempre arranjava um jeito de conseguir o que queria. — Me diz o que eu tenho que fazer…

— Tente sozinha para ver o que consegue. — Sarah incentivou. agradeceu a Deus por ela ter escutado e percebido que ela não tinha mais o que dizer. — Mas acho que você não faz o tipo dele. Harry gosta de mulheres mais velhas.

O rosto de Hannah se contraiu por um segundo. — Isso é sério? — Questionou descrente e Sarah abanou a cabeça em confirmação. — Pois bem. Eu irei tentar.

e Sarah se olharam cúmplices e puderam ouvir um risinho partir de Clare. A colunista passou as unhas em seu jeans claro e se sentiu ansiosa, porque estava sempre se lembrando do que ocorrera mais cedo, em seu quarto. Estava abalada, não poderia dizer que não. Como Leon pôde lhe trocar por Amanda? Ela era tão fora de si e sem nenhum escrúpulo que se tornava quase impossível de suportar, mas mesmo assim ele jogou tudo o que tinham construído, por quatro longos anos, no lixo.

Ir naquele casamento não seria má ideia, serviria para que mostrasse que não guardava rancor.

Mas ela guardava.

— Você está bem? — Ouviu Sarah perguntar. Harry e Giselle estavam em uma conversa agradável ao longe e as vozes deles preenchiam o espaço. Hannah estava na poltrona ao lado do sofá onde o vocalista estava sentado. Ela continuava jogando todo charme que tinha para ele.

— Estou sim, mas minha cabeça está cheia de ideias e eu estou mergulhada em um sentimento que eu não deveria nutrir. — A de franja se limitou a sorrir amarelo para a baterista. Sarah a abraçou de lado.

— E qual sentimento é?

— Rancor. — Disse simplesmente. Sarah soltou uma exclamação.

— Sabe que não se pode ter esse sentimento guardado, não é? Ele nos corrói. — A forma como a baterista costumava falar era interessante. Sarah mais parecia uma jovem Buda sabia. Ela era muito cuidadosa com suas palavras, também. — Por que não se liberta disso?

— Eu já tentei, Sarah. Para mim não é fácil.

— Eu costumo meditar quando me sinto assim. E eu sei que todo mundo passa por um momento ruim na vida, mas meditar torna tudo melhor. — Bem, Sarah estava mesmo no caminho para ser uma Buda meditadora. — Podemos começar uma rotina de meditação, o que acha?

— Prometi para Tiffy que faria isso. — Ambas riram. — A hora é essa. Comer, rezar e amar!

— Comer? — Mitch escutou a conversa e olhou para as garotas na mesma hora. — Se forem pedir comida, eu quero!

— Quem aqui está disposto a amar? — Sarah perguntou e todos abanaram a cabeça em negação. — Vocês são péssimos mesmo. Pois eu quero amar, tá bom?

— Fique à vontade. — Mitch divagou com a voz carregada de ironia. pensou o mesmo. — Ninguém está doido de passar pelo o que nosso amigão está passando. — Dessa vez, sua voz se tornou mais baixa que antes e concordou. Harry estava um caco. Hannah olhou para o pequeno grupo com uma certa curiosidade e voltou para perto de Harry. — Se bem que o filho de Giselle só tem olhos para uma pessoa aqui…

Todos olharam para e fizeram uma espécie de coro ao mesmo tempo. A colunista sentiu suas bochechas arderem. Peter ainda a olhava de soslaio com aqueles olhos que mais pareciam mel. Seu cabelo azul era só mais um charme adicional. A colunista não poderia deixar de achá-lo lindo, mas tinha medo do que Giselle diria se descobrisse.

— Uh, ! — Sarah vibrou baixo e sorriu, apertando os braços da colunista. — Ele é um doce. Olha esses olhos, porra!

— Lindos mesmo. — Clare resmungou olhando para a tela do seu celular. — Que horas iremos para o pub? — Questionou. — Parece que vamos nos encontrar com o pessoal da gestão da banda The 1975. — sentiu seu coração parar por um instante. Okay, aquela viagem não poderia ficar melhor. — Você conhece a banda, ?

— Eu os adoro! — disse animada. — Sério, vocês têm muita amizade com bandas?

— Acho que sim. Conhecemos essa através do Harry, que já conhecia o Matty. — Sarah explicou. — Matty escreveu uma música para o álbum Four.

— Eu conheço essa história. — colocou as mãos na cintura. — Deu em alguma coisa, no final das contas?

— A internet denuncia como plágio e os fãs da The 1975 não perdoam, mas eles não dão a mínima para isso, se quer saber. — Sarah olhou para Harry, que fez um sinal para que a banda toda se aproximasse. permaneceu ao lado das escadas, com os braços cruzados, esperando.

Giselle, aparentemente, estava perto de terminar. Pousou seu Ipad na mesinha de centro e olhou para os membros da banda sob um olhar crítico. sabia que ela estava estudando o estilo de cada um e como se comportavam, como uma professora de etiqueta. Harry, que trajava uma bela camisa de botões, permanecia sério em seu canto.

— Gostaria de saber como a minha aprendiz está se saindo. — A loira silabou com calma, fazendo com que saltasse em surpresa. Como ela era imprevisível! — Quero dizer, é uma mulher muito inteligente e sabe o que faz, mas o que eu quero mesmo saber é se vocês acham que ela tem o olho crítico e a capacidade de filtrar o que realmente importa nas descrições que vocês dão.

Houve silêncio. queria que alguém falasse logo.

— Eu acho que… — Harry começou a falar, mas logo se perdeu em suas palavras. Pensou em algo que pudesse dizer para não comprometer a colunista. Mitch, que estava ao seu lado, tocou seu braço, como se perguntasse o que viria a seguir. — é muito capaz de escrever, sim, as crônicas. Ela tem uma forma única de abordar os membros da banda para obter respostas e nós sentimos como se ela estivesse aqui faz muito tempo. Está longe de ser uma pessoa incômoda, ela sabe respeitar os limites.

— Ela é uma pessoa muito agradável, Giselle. Nunca viajamos com uma pessoa tão boa de se trabalhar. — Sarah saiu em defesa da colunista e deu-lhe um sorriso. — sabe bem filtrar as coisas.

— Graças a Deus por isso. — Adam disse logo depois e todos riram.

— Pois bem. — O olhar da crítica caiu sobre . — Vejo que está cada vez mais perto do sucesso, . Isso é bom, huh?

— Sim, senhora. Fico feliz em saber que estou fazendo a coisa certa. — Aquela fala era quase automática, mas caía bem.

Giselle sorriu para sua aprendiz. — Bom, o que eu tinha para dizer eu disse. Creio que a crítica escrita sairá no site oficial da revista daqui a uns dias, fiquem atentos. Permanecerei em Tóquio por mais algum tempo e caso queiram tirar alguma dúvida pendente é só me procurar. — A mulher de cinquenta e poucos anos disse e se levantou. — Esses são Peter e Hannah, meus filhos. Deixei para os apresentar por último porque Hannah o admira muito, Harry. — Pela primeira vez ela o chamou pelo nome. Hannah saiu da sombra de sua mãe e se colocou de frente para o vocalista e sorriu com seus lábios pintados de vermelho.

— É um prazer lhe conhecer, Harry. Sou uma grande fã. — Ela disse. Sarah olhou perplexa para , notando a mudança da garota. Aparentava ser mais doce do que realmente era. Harry sorriu em agradecimento e engatou uma breve conversa com ela. — O que uma banda faz depois de uma reunião assim?

— Saímos para dançar um pouco. — O vocalista respondeu e toda a sala pode ouvir Mitch bufar alto. Styles não deu muita atenção, aparentemente a filha de Giselle estava flertando com ele. Como ela já era adulta o suficiente, a sua mãe também não parecia se importar, muito pelo contrário. — Se quiser pode nos acompanhar.

— Tudo bem para você, mamãe? — Inquiriu e Giselle deu de ombros, totalmente desinteressada. — Iremos eu e Peter, se não se importar. — Ele não se importava nem um pouco.

Para o vocalista, Hannah era apenas mais uma com quem ele flertaria. Aquilo era como um esporte para os homens e, entre todos os outros esportes masculinos, Harry se saía muitíssimo bem no flerte. Reparou no vestido justo que Hannah usava e como as suas pernas longas eram atraentes. Teve que umedecer seus lábios, pois havia deixado sua mente ir longe demais. Ficar com Hannah não seria um problema para ele.

— Estão todos prontos? — Mitch indagou ao pé das escadas. Todos, exceto Hannah e Peter, subiram para os seus quartos para se aprontarem para irem ao pub. A responsável por aquele passeio era Clare, que conhecia Tóquio com a palma de suas mãos.

foi a primeira a descer de seu quarto, usando um vestido preto transpassado que tinha alguns pontos de transparência. Estava belíssima usando um par de plataformas beges, que lhe davam a altura que ela tanto sonhava em ter. Clare desceu junto com Sarah; a baterista usava um macacão pantalona enquanto Clare usava um jeans rasgado com uma camiseta simples. Todas de saltos altos, prontas para curtir a noite que Tóquio tinha para oferecer.

Harry desceu logo depois, usando um lindo blazer com riscas de giz. Estava tão elegante que era dificílimo não olhar para ele. Dava para notar a satisfação nos olhos de Hannah ao vê-lo daquele jeito. Juntos eram mais bonitos que Angelina Jolie e Brad Pitt. Era como algo quase sobrenatural a forma como conseguia ver casais perfeitos em todo mundo; tinha assistido filmes demais. O olhar do vocalista se perdeu em por um tempo, seus orbes cor de esmeralda varreram toda a extensão do corpo dela. O olhar fixo de Harry Styles era pesado, carregado por uma tensão sem precedentes e fazia com que a pele de queimasse a cada novo pestanejar. Deixou que sua língua úmida e quente viajasse por toda a extensão de seu lábio inferior, ainda observando como um leão pronto para atacar a presa. Era homem e necessitava de um pouco de atenção e tinha plena certeza de que Hannah era colegial e grudenta demais. Mas era um espírito livre, uma carta para deixar na manga, caso as coisas ocorressem de outra forma.

— Harry! — A voz de Mitch tirou o vocalista de vinte e poucos anos de seu transe. Estavam num pub que Clare os levou, e todos já tinham se espalhado pelo salão. Não haviam vestígios de uma jovem de cabelos longos e franja, Harry mordeu o interior de sua bochecha. Estava pensando demais. — Não vai beber nada? Você parece tenso.

— Tenso? — A pergunta estava carregada de ironia. Mitch olhou para o seu amigo com um sorriso sapeca, como se conhecesse aquele tom. Harry levantou o dedo para o barman e apoiou seu peso em seus cotovelos, que estavam em cima do balcão de vidro do bar. Uma música muito alta tocava e as luzes frenéticas e neon eram capazes de deixar qualquer um cego. — Se tem uma coisa que eu não estou hoje é tenso, meu amigo. — O barman olhou para os dois homens como se não se importasse. Tinha um cabelo que chegava à altura de seus ombros, em um dourado perfeito, mas não aparentava pertencer a aquela cidade, muito menos ao país. — Um Martini com gelo.

Mitch, que já estava servido com uma taça de Sex On The Beach, se permitiu soltar um riso arrastado, virando seu corpo para as mesas. — Bebida de gente grande, hein? — Inquiriu sarcástico. — Espero que não tenha que te tirar daqui carregado, Styles.

— Eu ainda tenho um resto de dignidade, porra. — Harry sorriu e bebeu sua bebida. Ardia e queimava em sua garganta, mas era bom. Olhou em volta e não viu nenhum sinal dos cabelos loiros de Hannah. — Você a viu?

— Não. — Deu de ombros desinteressado. Mitch estava longe de ser um gentleman inglês, assim como seu amigo. Pro inferno o “Trate as pessoas com gentileza”, que seu amigo tanto pregava. Mitch sabia dosar tudo igualmente, sem usar nenhum filtro. — Acho bom ela ter ido para longe, em todo caso. Estava se tornando insuportável aguentar aquele falatório sobre desfiles de moda e afins. Você já conseguiu arranjar melhores.

Styles o olhou descrente. — Está maluco? Já olhou para ela? — Duas perguntas em uma, mostrava o grau de interesse do vocalista. — Não é como se eu fosse me casar com ela, Mitch!

Adam chegou-se ao lado dos amigos com os lábios vermelhos e levemente inchados. — Estou decepcionado com vocês dois, cadê o espírito de viagem? — Ele olhou para os dois rente a si como se dissesse “Em que mundo estão?”. Harry riu anasalado vendo o estado de Adam e bebeu o restante de seu Martini. — É esse espírito que eu falo! Bom ver você, Styles. Pensei que queriam levar o “drogas, sexo e rock n’roll” a sério.

Aquela era a forma que os três tinham de se divertir durante as viagens. Quando não estavam com as meninas, conversando sobre qualquer coisa, crescia a vontade masculina de sair para bares de strip e beber todas. Adam, geralmente, era o cabeça de tudo. Ele era o espírito da festa e também a pessoa que sempre arranjava os melhores clubes para visitarem. Harry não se importava tanto com a exposição, já tinha acontecido antes e aquilo apenas endossava seu currículo de astro. Era como se fosse um Mick Jagger mais novo, com um pouco mais de ousadia e um leque aberto a todas as possibilidades.

Dark Necessities, do Red Hot, tomou conta do salão como um estrondo. Os caixas altos emitiam o solo do baixo e aquilo fez com que Harry saísse do bar, indo em direção à pista de dança. Ninguém ali se importava, era um pub muito reservado e blindado contra qualquer olheiro indesejado. O vocalista encontrou Hannah dançando com Clare e Sarah e se juntou a elas. Não era um dançarino nato, longe disso, mas conseguia sentir cada nota da música invadir seus músculos e os relaxarem. Certamente era um admirador daquela banda, desde a adolescência. Hannah encostou seu corpo magro em Harry e rebolou. O cacheado prendeu os lábios numa linha, sentindo a fricção da bunda de Hannah em contato com o tecido de sua calça. Era assim que começava, como ele tomava o controle da situação.

Foi apenas o começo de uma dança, quase pornográfica, sob as luzes do pub. Quando as luzes se apagavam, o vocalista apalpava uma parte diferente do corpo de Hannah e ela ria vitoriosa. Não havia nada que fizesse com que ele voltasse atrás, nem mesmo um coração partido. O teor de álcool do Martini corria por suas veias liberando uma carga de adrenalina sem igual. Harry puxou a loira pela cintura e a olhou nos olhos, logo seus lábios cobriram os lábios vermelhos dela. Tinha gosto de álcool misturado com canela, não era uma combinação agradável. Mas ele não parou. Quando o ar se tornou escasso para ambos e abriram os olhos, de frente para Harry e de costas para Hannah, estava quase beijando o garoto de cabelos azuis.

Sarah também parou para olhar a cena e vibrou em felicidade. — Eu disse que ele a queria!

Ao contrário do que Harry pensou, quando Hannah viu seu irmão colocar um fio da franja de atrás de sua orelha, ela sorriu. — Ele a quer faz tanto tempo, você nem imagina.

Harry deu de ombros, puxou Hannah pela mão e a levou para um canto do pub. Peter que perdesse seu tempo com a colunista, ele tinha coisas melhores para fazer.

estava se deixando levar pela sensação de comodismo que aquele momento trazia. Peter lhe tratava como se ela fosse uma pérola preciosa. Os olhos dele varriam qualquer resquício de hesitação dela, como se fosse um anjo protetor. Ela gostava daquilo, como se acontecesse todos os dias e não queria que parasse. A colunista envolveu o pescoço do rapaz com seus braços e o viu sorrir genuinamente. Seus olhos cor de mel se misturaram com o castanho dele; era perfeito. Por que não tinha dado uma chance a Peter antes? Aquela parecia ser a melhor coisa que lhe tinha acontecido em meses. Quebrando a pouca distância entre os dois, Peter a beijou. Seus lábios tinham gosto de marguerita, e gostava daquele contraste. Abriu um pouco a boca, afim de deixar tudo melhor, e quando o de cabelos azuis massageou sua língua soube que era como ir ao céu. tinha acabado de beber os últimos goles de sua marguerita, por isso sua língua gelada combinava tão bem com a morna e convidativa de Peter. A temperatura subia a cada vez que suas cabeças se moviam para os lados, sentia que a qualquer momento poderia sufocar — Por falta de ar. —, mas não dava a mínima. , carinhosa como era, deu vários e vários beijos rápidos nos lábios de Peter depois de pararem para respirar. Sentia como se tivesse alcançado, finalmente, a liberdade.

Sentia-se livre, porque a meses atrás não conseguia beijar nenhum outro cara.

— Isso foi bom… — se permitiu dizer. Soava como uma criança de cinco anos que aprendera a andar de bicicleta sem rodinhas. O rosto de Peter se contraiu em um sorriso lindo. A quem estava tentando enganar? Ah, sim… Seu próprio corpo, que mandava ondas de hesitação. — Aceita mais bebida? — Aquela era sua forma de sair dali sem deixar tudo na cara, sabia que Peter era esperto.

O rapaz assentiu a observando. — Por favor.

Era difícil andar em cima daquelas plataformas quando se estava quase bêbada e com uma umidade estranha na calcinha. andou até o bar com passos precisos, evitando esbarrar nas pessoas ao seu redor. Sentou em um dos banquinhos do bar e viu o barman loiro parecido com o Kurt Cobain chegar perto. O mesmo abriu um sorriso galante, digno de um comercial de pasta de dente, e a olhou de cima a baixo.

, com as pernas graciosamente cruzadas, também sorriu. — Duas margueritas, por favor. — Aquele pavor à bebidas alcoólicas não tinha sumido, mas ela tinha o escondido em um canto qualquer de seu interior. Ela não conseguia fazer metade do que fez hoje sem a ajuda de uma boa bebida.

— Duas margueritas para a mulher mais bonita do salão. — O loiro sorriu e deu às costas para a colunista, indo preparar o drink. Quando tornou a olhar para ela tinha um sorriso atrevido nos lábios, e mostrava aquilo para Peter. — Nunca vi uma chica como você por aqui.

sentiu sua nuca arrepiar com aquele sotaque espanhol. — Já disse isso para quantas hoje, cariño? — Ela havia tido aulas de espanhol no liceu e tinha a pronúncia tão boa quanto o homem. Também devia aquilo aos dias em que passou em Barcelona, com o traste do Leon.

— Apenas quando necessário. Mas, hoje, apenas para você. — Ele penteou seus fios dourados para trás com ajuda de seus dedos. Apoiou-se sobre a bancada de vidro e se permitiu encarar, com tamanha intensidade, o rosto de . Ela não estava intimidada, mas levemente irritada pela atitude do barman. Olhou para Peter de soslaio e pegou as duas taças de drink. — Antes de ir, me diga seu nome, señorita.

pensou duas vezes antes de lhe responder. — .

— Como uma linda latina de pele bronzeada. O nome lhe cai bem, delicada como uma rosa, mas com pequenos espinhos, prontos para lhe espetar o dedo. — Ele sorriu sedutor. — Juan, muito prazer, cariño.

— O prazer é meu, Juan. — Ela sorriu. — Tenho que ir agora, huh? — E com isso ela saiu, com seu típico rebolado natural. Seus pés doíam por causa dos saltos e tudo o que mais queria era poder tirá-los. Entregou a taça transparente ao de madeixas azuis e sentou ao seu lado. Harry se aproximara, segurando Hannah pela cintura. Tinha uma cara de quem acusava o teor alcóolico correndo por suas veias. — Já está cambaleando, Styles?

— Estou bem. — Disse com a voz arrastada, em sua habitual rouquidão. Hannah se sentou ao lado de seu irmão e confidenciou algo em seu ouvido, não conseguiu escutar, mas, também, não fazia questão.

— Acho que ele precisa voltar pra casa, pessoal. — Hannah, com sua voz afetada, disse. Ninguém realmente lhe deu atenção. Peter apertou a coxa descoberta de e, por um segundo, o seu corpo aqueceu. — Também me sinto cansada.

— Posso te deixar no táxi e pedir para que o leve para o hotel onde estão hospedados. — O vocalista da banda disse e arrotou baixinho, soltando o ar. Viu, então, Aimee, uma das pessoas do staff da The 1975 e sorriu para a mesma. Viu um vulto ruivo lhe abraçar pelo pescoço e seu sorriso apenas cresceu. Aimee era uma antiga amiga, já haviam trabalhado juntos. Ela era cabeleireira da One Direction. — Quanto tempo!

— Sim, faz muito mesmo. — Concordou a ruiva tatuada. — Finalmente chegamos ao Japão, já não aguentava mais as frescuras de Matty naquele ônibus. — Sem pedir licença, Aimee pegou a taça de Peter e bebeu o restante da marguerita. — Pena que chegarão ainda essa semana, eu acho.

— Incomum começarem um tour por aqui. — Hannah meteu-se na conversa. O rosto de Aimee se contraiu em uma careta. — Quero dizer, nunca vi acontecer.

— Hm, sim. — A ruiva resmungou. — Festinha animada, hein? Cheia de gente que eu não conheço. — Aquele era o jeito de Aimee, ela era ácida e dizia tudo na lata. Seus olhos cinzas transmitiam muita intimidação e sua postura prepotente, também. — Gêmeos, não é? — Observou olhando por cima, com o nariz empinado. — E sua namorada, como chama? — O olhar da mulher caiu sobre Peter que, sendo o bom moço que era, sorriu educadamente. Harry se permitiu soltar um riso, todos pensariam que estava bêbado, afinal.

— Não somos namorados. Sou Peter e essa é . — Proferiu calmamente.

— Ainda, não é? — Ela inquiriu com um sorriso sapeca. Mais uma vez ela pôde ouvir o riso abafado de Harry e virou-se para ele. — Do que você tanto ri, seu idiota?

Harry prendeu os lábios numa linha e percebeu o olhar de Peter sobre ele, sereno e totalmente desprovido de qualquer ironia. — De nada. Não pode rir agora? — Sua pergunta permaneceu no ar. — Peter, porque não leva sua irmã para o hotel? Estão ambos cansados, aparentemente.

Sarah percebeu o quão ardiloso Styles era. Percebeu tão bem a falta de gentileza em suas palavras, aquilo estava se tornando um jogo sujo. Aimee soltou uma gargalhada histérica, capaz de fazer qualquer um acompanhá-la. se mexeu desconfortável no sofá de couro, ainda conhecia o toque de Peter em sua cintura, não havia afrouxado, mesmo com a insolência do jovem vocalista.

— Sem problema algum. — O mais novo disse. Seus olhos procuraram os de , como se perguntasse se estava tudo bem e ela apenas sorriu para ele. — Vamos Hannah! — Sua voz subiu uma oitava e chamou atenção de sua irmã gêmea. O som estava alto demais. — Nos vemos por aí, pessoal. Obrigado pelo convite, Styles.

Harry acenou com a cabeça. Hannah virou para ele, esperando por um beijo e ele lhe deu. Sorrindo satisfeita, Hannah seguiu para fora com seu irmão. Aimee se sentou mais perto de e a olhou de cima a baixo, a analisando minuciosamente. A nova iorquina percebeu aquela olhada e a devolveu na mesma intensidade, Aimee estava lhe deixando irritada. umedeceu seus lábios carnudos e preferiu fingir que aquela ruiva não estava ali.

— Vão ao show na próxima semana? — Aimee interrogou. O som estava relativamente mais baixo que antes, para o alívio de Harry, que já tinha uma cabeça dolorida. — Posso arranjar algumas credenciais.

— Não sei, não. — Sarah fez bico e abanou a cabeça em negação. — Não terminou bem da última vez, lembra? Matty e Harry juntos são como fogo e gasolina.

— Por isso estou convidando. Estamos precisando de uma diversão. — Aimee assobiou. não pôde deixar de revirar os olhos por um segundo. — Acertarei tudo e, no dia, ficaremos na VIP. Com open bar, claro. Sei do seu apego por bebidas de graça, Adam. — A ruiva se levantou, ficando na altura de Clare. — Existia uma tensão no ar, percebeu? Quando Peter foi embora tudo passou.

suspirou, não queria que começassem a falar de Peter por suas costas. Por isso se levantou e andou em direção a pista de dança. Sua cabeça estava leve, mas seu coração pesado. Uma música antiga tocava e tinha o ritmo frenético. conhecia aquela, mas estava ocupada demais movendo seu corpo no ritmo da canção para se preocupar em cantar. Fechava os olhos enquanto a batida guiava seus movimentos. Mexia os quadris de forma majestosa e, vez ou outra, sentia alguns japoneses saidinhos chegarem perto demais.

Mi amore… — Ouviu a voz de Juan perto de seu ouvido, causando arrepios involuntários. — É perigoso dançar assim perto desses orientais conservadores. Dá pra sentir o cheiro da testosterona de longe. — Ele se movia com ela. Ele tinha pedido folga no expediente? O cheiro dele era delicioso, uma mistura de cítrico com amadeirado. — Mas consegui sentir seu perfume de longe, soube que era você.

— Rápido demais, Juan. — Ela o cortou e parou de dançar. Ele deixou sua mão no ar, esperando que ela a aceitasse. Quando o ela fez o homem de olhos esverdeados sorriu genuinamente. — Não o conheço, tenho princípios. — Ela se fez de recatada. Colocou seu cabelo todo preso em apenas um ombro. Os olhos de Juan queimaram em seu pescoço desnudo. — Mas gostaria de aprender mais do seu espanhol.

Juan riu alto. — Onde eu moro essas palavras têm outro sentido. — corou. O homem de ombros largos teve permissão para abraçá-la de lado. — Tudo bem, cariño. Não precisamos ir tão rápido, mas me diga se, alguma vez, irá voltar a esse pub.

Parecia uma cena de novela mexicana. — Eu voltarei, Juan.

Ela o deixou na pista de dança e foi até seus companheiros que já se organizavam para ir embora. O sorriso de Harry não apareceu uma vez sequer, mas ele tinha consigo uma amiga fiel: a taça de vidro cheia de bebida. A colunista preferiu ficar perto de Mitch, que estava embriagado, e o abraçou de lado. Sentia que o olhar pesado de Harry a julgava, não sabia porquê. Sarah tentou tomar a taça do vocalista, mas ele esquivou majestosamente de seus toques. O caminho dentro do táxi, de volta para a casa de Harry, fora silencioso. Mitch havia pego no sono encostado ao ombro de e Sarah escutava atentamente a colunista falar sobre como havia sido conhecer Juan, ou melhor, Don Juan, porque era um galanteador de primeira linha e tinha sotaque, o que deixava tudo melhor.

Quando finalmente chegaram, alguns foram direto para seus quartos. Clare estava distante e Harry estava deitado em um dos sofás. Quase toda casa estava escura, a não ser pela luz do hall acesa. se sentou no chão forrado por um tapete felpudo e respirou fundo. Ouvia Harry resmungar frases desconexas e sentiu vontade de rir.

Cariño… — A sua voz rouca se tornou ainda mais sensual do que a de Juan. O vocalista pronunciava aquela palavra com preguiça, a fazendo escorregar por seus lábios lentamente. Clare subiu as escadas sem desejar boa noite. Ficaram apenas eles dois sozinhos. — Cariño…

— A quem está chamando, Harry? — Questionou a colunista assim que se livrou dos saltos plataforma. Andou, de joelhos, até o pé do sofá e observou a figura bêbada à sua frente. Ele parecia estar afundando em um mar de pensamentos.

— Aquele barman te chamou disso, não foi? — Replicou a pergunta e seus olhos verdes tomaram um tom mais intenso. — Penso que seu tivesse chamado Camillie de cariño ela teria gostado. — Com certeza sim, pensou sozinha. Ele soltou um suspiro cansado. — Qual é a sensação?

— De quê?

— Ser admirada por todos à sua volta? — Ele perguntou estranhamente interessado na resposta. não soube o que dizer, ele estava bêbado demais. Ela não era obrigada a entender os enigmas dele. — Todos os olhos estavam em você, .

A forma como ele a chamou a fez fechar os olhos. — Não me chame assim.

— Porquê não?

— Não gosto. — Seu olhar feliz foi perdendo a cor aos poucos. — Espero que respeite isso.

— Claro. Como quiser, senhorita-sensibilidade. — Harry Styles bêbado era insuportável. A mulher revirou os olhos e o encarou mais de perto. Conseguia ver a intensidade em seus lindos olhos verdes, a forma como ele reprimia qualquer coisa. Os verdes e os castanhos em uma mistura uniforme e homogênea. — Espero que não tenha haver com seu ex-namorado estúpido.

— Não tem moral para falar de mim, sim? — Uma mecha do cabelo castanho de foi segurada por Harry. Ele brincou com aquela mecha, como um gato brinca com uma bola de lã. — Não tem nada a ver com Leon, se te importa tanto. — A mulher pensou em como ele saberia de sua relação com Leon, porque não tinha lhe contado nada sobre e nem iria. Harry sentou no sofá, e ainda estava mais alto que ela. Pousou seu corpo no carpete, muito próximo de onde estava e soltou um risinho. — O que há de errado com você, rapaz?

— Nada, não posso rir? — Fez a mesma pergunta que já tinha feito antes. — Se bem que combina mais com você. É mais doce. — Fez uma breve pausa. — Nunca coloquei um apelido em Camillie. Ela não gostava, achava infantil.

— Oh, isso não é um argumento plausível.

— Ela era chata. — Se pôs a rir. — Eu gostava de irritá-la. — Styles parecia um rapaz de dezessete anos contando sobre seu primeiro amor. Não parecia nada ser aquele homem elegante que era, quando não estava afundado em álcool. se acomodou. — Mas minha mãe a odiava com todo o coração. — não queria perguntar nada sobre, não queria invadir o espaço. Ele estava embriagado.

— Vou te levar para o seu quarto, Harry. — A colunista disse e se levantou. Harry permaneceu no mesmo lugar, deitado sobre o carpete. Seu paletó risca de giz estava completamente amassado e a blusa regata que ele usava por baixo estava levantada, dando visão das tatuagens em sua barriga definida. suspirou. Harry levantou os braços, como um bebê pedindo colo. — Não abuse da minha boa vontade.

— Não sou eu quem quer ir para o quarto, cariño. — Ele continuava a insistir naquele sotaque. Não ficava ruim, mas não combinava com ele. se deu por vencida. — Watermelon Sugar tem haver com Camillie. Ela gostava de um livro que fazia menção a isso, não sei, não cheguei a ler. Porra, como ela era controladora, queria que eu fosse um intelectual de todo jeito. — Mesmo falando mal de Camillie, os olhos de Harry não mentiam. Ele ainda estava balançado por ela. sentiu como se estivessem quites. — Não li, mas tive inspiração o suficiente para escrever sobre o sabor do beijo dela. — Tinha gosto de morangos, numa noite de verão. — A colunista sentiu seu estômago apertar.

— É lindo, Harry. — Disse sem pensar. — Pelo menos você a homenageou de alguma forma. — As palavras de não queriam dizer nada, ela já não sabia o que estava dizendo, queria um banho gelado.

Harry parou no tempo e a olhou. — Leon não te fez nenhuma homenagem?

— Ele não é um artista. — Deu de ombros.

— Que babaca. — Resmungou. — Poderia escrever sobre os seus olhos, que mais parecem um pote convidativo de mel fresco. Ou, quem sabe, sobre como você sabe ser gentil com as pessoas. — O cacheado levantou e ficou ao pé de . Sua respiração batia na testa dela e tinha cheiro de cachaça barata. A colunista estava em um transe sem fim. Podia ver os aspirais coloridos se formarem atrás de si, mas, ainda sim, tinha uma visão privilegiada dos olhos do vocalista. Engoliu seco, logo pensou que tudo aquilo era estranho demais. Em um dia normal ela jamais flertaria com dois homens em uma noite e, muito menos, conversaria com Harry Styles depois de uma noite de bebedeira. Mas não tinha pleno controle de seus pensamentos. — Ele poderia escrever uma carta confidenciando a você o quão linda fica quando está com vergonha e como é difícil tirar os olhos de você.

Haviam várias placas sinalizando em letras grandes que aquilo era perigoso, mas não as olhava. A cor intensa dos olhos do cacheado era suficiente para que ela mandasse para o inferno suas convicções. Aquilo era uma espécie de jogo? Seu cérebro, muito provavelmente, estava lhe mandando dicas de que não deveria cair naquele papo. voltou a pensar no que estava pensando assim que chegou a Tóquio, na sua lista de coisas que Harry deveria ser.

Todos os tópicos estavam passando por mudanças frequentes, todos os dias e toda hora.

1º Harry era gentil;
2º Ele sabia ter uma boa conversa;
3º Não era arrogante ou convencido demais;
4º Tinha lábios incrivelmente rosados.

prendeu o fôlego ao notar o quão perto estava dele. A forma que ele a olhava denunciava uma espécie de desejo curioso que crescia. O dedo indicador do vocalista foi ao encontro do queixo da colunista e o levantou, fazendo que o verde se misturasse com o castanho. Uma luz se acendeu no topo da cabeça de .

— Melhor eu ir para o quarto, temo que Chico tenha feito uma sujeira e tanto. — Aquela era melhor desculpa que poderia inventar. Recolheu suas plataformas no chão e caminhou até o primeiro degrau das escadas. Queria olhar para trás, mas evitou. — Boa noite, Harry.

— Boa noite, . — A voz dele soltou o apelido que ela pediu para não ser proferido. O vocalista colocou as mãos dentro do bolso de sua calça de alfaiataria. A viu subir os degraus e sumir do seu campo de visão. Sua cabeça estava a um turbilhão. Camillie ficaria enciumada se o visse, certeza. Tropeçou nos próprios pés e caminhou até o bar, que ficava na sala. Se serviu com uma dose fajuta de martini e sentou no sofá com comodismo.

Flerte era um esporte para Harry e ele se saía cada vez melhor em suas investidas. Rezou para que não se deixasse levar, por que não resultaria em nada.

 

Capítulo cinco

Fora impossível para o organismo de Harry Styles dissolver todo aquele álcool em tão pouco tempo. Sequer dormiu em seu quarto durante o resto da noite, o sofá da sala de estar parecia mais convidativo que nunca. Mas não tinha pregado os olhos durante aquele tempo, apesar de suas pestanas estarem exaustas; nem mesmo um banho gelado fez com que seus músculos tensos relaxassem por completo. Merda de cérebro que apenas sobrevivia para reviver memórias desnecessárias. Mais que nunca, naquela manhã de dezembro, o vocalista quis ter apenas de plena paz. Depois das três da manhã tudo se tornou calmo demais. O de olhos cor de esmeraldas não tinha nenhuma distração, nada que pudesse aquietar sua ansiedade constante. Em momento algum considerou pegar seu celular. O vício no aparelho tinha sumido quase que por completo, afinal, não haviam mais mensagens calorosas ou clipes de áudio confidenciando coisas. Era um aparelho morto; assim como seu dono.

Com a cabeça doendo como o inferno, o cacheado se arrastou até a cozinha, colocou água numa chaleira para ferver e aguardou. Era impaciente, não tinha como negar. Batucava na ilha de quartzo conforme via o vapor subir. Os raios solares fracos mal penetravam por entre as persianas que protegiam a visão das janelas. Que clima irônico, Harry pensou. No dia anterior o sol estava no topo do céu os abençoando com seu calor e no outro mal tinha coragem de se levantar além das nuvens. Aquilo soava familiar demais. Quando a chaleira começou a fazer aquele som característico, ele correu para buscar um pano de pratos, pois o apoio estava estupidamente quente. Derramou um pouco da água numa xícara grande e deixou o sachê de erva cidreira ser engolido pelo líquido borbulhante.

Fechou os olhos por um instante, após sentir um latejo tão forte quanto um trovão. Praguejou várias e várias vezes a pessoa que descia as escadas fazendo um barulho desnecessário para aquela hora da manhã. Mas era Chico, o cachorro da colunista. O mais cômico de tudo era que o cão usava uma espécie de sapatilha em suas quatro patinhas. Harry sentiu vontade de rir, mas sua situação miserável não permitiu. Limitou-se a afagar o pêlo desembaraçado da criatura e aceitar sua companhia. Ninguém acordaria, ainda nem eram sete da manhã.

— Tem fome? — Harry perguntou como se o animal pudesse o entender. Chico abanou o rabo e pôs a língua para fora. Harry deduziu que não estivesse faminto, mas, apenas, sedento por um passeio aos arredores do condomínio. Harry olhou para suas vestimentas e bufou. Teria que tomar um banho antes de sair com o animal para sua corrida matinal. Não que fosse um atleta, mas apreciava a sensação de se sentir realizado depois de um exercício qualquer. — Me espere aqui, sim? Não deixe bosta na cozinha, sua mãe iria odiar isso.

E Harry subiu para o seu quarto com tamanha rapidez, não queria correr o risco de encontrar com alguém no corredor. O seu ficava no final do corredor, perto de uma sala de música. Tinha paredes pintadas de azul marinho e um modelo francês de massa corrida. Odiava aquelas paredes, porque lembravam as paredes do quarto onde Camilie dormia, na casa de seus pais. Desnudo, o vocalista correu para a suíte e ligou a água fria. Seu corpo todo arrepiou com a temperatura cortante, como se estivesse mergulhando em um lago congelado. E conforme ele ensaboava seu torso, foi se sentindo ligeiramente mais lasso. O álcool estava indo embora junto com as bolhas de sabão no piso, diretamente para o ralo. Torceu para que aquela água também levasse sua memória e sentimentos por uma certa modelo francesa. Se sentia como um perdedor, de verdade. Todos naquela casa sabiam de sua situação, do quão fraco ele era quando se referiam a ela, mas ele não tinha nada o que pudesse fazer. Ele estava de quatro por uma mulher que, visivelmente, não dava a mínima para os seus sentimentos.

Apertou os olhos com força. — Pro inferno, Camille!

Uma onda de alívio o percorreu. Era aquilo, então? Apenas precisava mandar tudo para o inferno e recomeçar de uma vez. Como se uma porta no céu tivesse sido aberta e a porta do inferno, enfim, fora fechada. Como era tolo aquele Styles, pensando que tudo o que necessitava estava ali, de frente para os seus olhos. Era a hora de voltar a ser quem era antes; antes de Camille e antes de ter seu coração partido. Vestiu uma bermuda própria para corrida, uma camisa regata de tecido fino e um moletom. Estava bom.

Quando desceu para o piso inferior viu Chico deitado no lugar que ele ordenou, não pôde evitar sorrir. O animal correu em direção a ele e ambos saíram, em silêncio, da casa japonesa. O jardim ainda estava molhado do sereno e as flores se abriam uma por uma. Chico, previsivelmente, teve que parar para fazer cocô. Em meio a um arbusto bem aparado, perto de uma estátua qualquer. O vocalista estava com paciência apenas para a criatura de pelagem dourada. O condomínio era afastado do centro, mas não tanto. Uma caminhada, em passos rápidos, até lá não davam mais que vinte e cinco minutos. Era um aquecimento. Passaram pela Torre de Tóquio e ele lembrou da tarde anterior e do fim da noite, também.

Se sentiu sujo. Sabia que sua face alcoolizada era diferente, sem vergonha ou escrúpulos. Pensou que aquilo não teria resultado em nada, senão estaria deitada ao seu lado, em sua cama. Merda. Styles refletiu sobre o quão presunçoso era. Com toda certeza do mundo, ele sabia que não lhe daria uma chance. Nem sóbrio, quem dirá bêbado. Ela tinha Peter e o homem do bar. Ela era o cariño dele. Mas era impossível estar de frente para aquela Torre e não lembrar dela, ou melhor, de seus olhos cor de âmbar. Sentiu um flash, ofuscado pela luz fraca do sol, explodir contra ele e saiu de sua bolha.
Paparazzis. Meia dezenas deles, com suas câmeras apontadas para o astro. Harry se limitou a sorrir para eles e abaixar sua cabeça, puxando Chico pela coleira para que o passeio seguisse. Andaram sem rumo até chegarem ao centro e haviam mais de mil pessoas passando pelo cruzamento mais famoso de todos os tempos. Os sinais se fecharam, os carros pararam e Harry atravessou. Lembrou-se da vez em que esteve em Tóquio, com os rapazes da One Direction, e gravaram uma parte de One Way or Another naquele cruzamento. Sentia falta da vibe deles, às vezes.
— Em que posso ajudar, senhor? — Uma mulher de cabelos coloridos perguntou. Harry desceu os olhos para o cardápio em cima do balcão e viu a famosa logo da Starbucks. Ela parecia o conhecer e tinha um sorriso de rasgar o rosto.
— Um frapuccino e um pão com queijo, por favor. — Fez seu pedido e sorriu educadamente.
— Coloco Styles ou Harry no copo? — A de cabelo multicolorido perguntou, como se estivesse ajudando o vocalista a fugir de pessoas indesejadas. Ele soltou um riso sincero.
— Coloque Chico. — Ele já não pronunciava o nome do cão tão bem e a mulher o olhou com as sobrancelhas franzidas, como se perguntasse “Que merda de nome é esse?”. Ela deu de ombros e pegou as notas de dinheiro. Harry foi em direção a uma mesa que ficava bem perto a vitrine de vidro da longe e tinha uma visão perfeita da rua. — Sorte sua que essa loja permite que você entre, hein?

O cacheado passou as mãos por seu cabelo grande e pegou seu aparelho celular no bolso. Ponderou um pouco, mas não cedeu a vontade de olhar aquela conversa. Abriu a câmera de seu celular e bateu uma foto do cão, que lhe olhava como se estivesse sorrindo. A carregou em uma rede social e esperou seus amigos mais próximos responderem. As fotos que os paparazzis tiraram ainda não estavam circulando e ele agradeceu estar a salvo das pessoas.
Uma mensagem de Hannah chegou em seu celular e seu rosto se contraiu. Merda! Tinha lhe passado seu número quando estava quase consumando o ato no banheiro do pub? Suspirou. Espero que não esteja de ressaca. Podemos nos encontrar hoje? Ele leu aquela mensagem algumas vez e mordeu os lábios se sentindo em um beco sem saída. O nome de Chico foi chamado e ele não respondeu aquela mensagem. O pão estava macio e o queijo se derretia para fora. O cão ficou nervoso aos pés de Harry e ele pensou se queijo estava na lista de coisas para não dar para um cachorro comer. Deu de ombros e partiu um pedaço, colocando-o no chão.
Viu na grande tevê de plasma a imagem de Angelina Jolie, no filme Lara Croft e pensou no quão bonita ela ficava naqueles trajes justos. Assobiava baixinho, entre uma mordida e outra. Notou que haviam notebooks disponíveis para o uso no café e, em um segundo, pegou um para si. Entrou em seu e-mail, numa janela anônima, e olhou tudo o que tinha recebido. Convites e mais convites. Gucci predominava em sua caixa, com resumos sobre o que Harry poderia usar na nova campanha. Ele riu para si mesmo, mais ternos para sua grande coleção.
“´É com honra e prazer que convidamos ao Mr. Styles para nosso trigésimo baile de gala.
Visando a elegância e a riqueza dos anos dourados dos reis e rainhas ingleses, a temática será
A realeza e a plebe. Acontecerá em março, na casa de campo que pertenceu a rainha Victória. Esteja
preparado para surpresas e uma festa regada a luxo!”

No mais, o e-mail apenas dava mais algumas informações. Aquele era uma tradição, uma diversão para a alta sociedade londrina, e, de uns anos para cá, Harry recebia um e-mail desses todos os anos. Março ainda estava bem longe, sabendo que estavam no meio de dezembro. O vocalista de madeixas cacheadas ainda se lembrava da última vez que foi á aquele baile, no ano retrasado. Estava na companhia de Louis e Niall e tudo estava harmonioso. Ainda não existia um hiato e, de longe, uma espécie de mágoa pairando ar que eles respiravam. De todos, Louis e Niall eram os que lhe entendiam melhor. O Tema sempre girava em torno de acontecimentos e épocas grandiosas.

Harry estava usando uma espécie de armadura de metal, como um herói de guerra. Carregava para cima e para baixo o capacete metalizado, sempre à sombra do seu general, Louis. Era assim que funcionava, Louis sempre era o maioral — usando a desculpa de que era o mais velho. Na época da One Direction, Harry costumava ser mais reservado, sempre esquivando da mídia. Mas depois que tudo acabou, alguma coisa o corrompeu. Ele agora gostava de pintar as unhas e usar um crucifixo no pescoço para não tornar seus pecados piores. Era um típico astro, com um coração que não servia mais para nada, letras que tocavam o coração e solos de guitarra.

— Harry? — Uma menina de mais ou menos cinco anos chamou o nome do cantor. Ele a olhou de supetão e logo sorriu. Era uma japonesa simpática, com presilhas coloridas em seu cabelo liso. Ela abriu a boca algumas vezes para falar, mas olhou para trás, provavelmente para seus pais, e deu de ombros.

Sua provável mãe caminhou até eles. — Desculpe incomodar, mas minha filha é uma grande fã sua. Ela está fazendo aniversário hoje, não é, meu amor? — A garota confirmou prontamente. O sorriso de Harry se tornou maior. Adorava crianças.
A menina ergueu um celular na direção de Harry e ele o segurou sem pensar duas vezes. Abriu a câmera frontal e fez um gesto para que a de presilhas se aproximasse. Sua mão pegou o celular e capturou o momento. No colo de Harry, a menininha estava mais feliz que nunca. Ainda com ela no colo, o vocalista deu permissão para que um pequeno vídeo fosse gravado.
O pai, que não era japonês, estava em estado de choque.

— Hey, Samantha! Espero que esteja tendo um dia lindo, com muitos abraços e beijos. Peça ao papai uma caixa cheia de presilhas, por que você fica uma graça as usando. Os obedeça, também, huh? — Ele olhou para Samantha e ela o olhava como se aquilo fosse um sonho. Styles soltou um riso. — Foi muito bom te conhecer. Feliz aniversário! — A animação natural nos olhos dele era tão nítida, como se não estivesse vestindo uma máscara.

— Obrigada, obrigada! — A garotinha saltitava no chão. Notou que Chico os observava, ditadinho sobre suas patinhas. Os olhos escuros dela brilharam. — Esse cachorrinho é seu?

— É de uma amiga, estou apenas cuidando dele. — Ele agachou para igualar sua altura com a dela. — O nome dele é Chico e ele é mansinho.

Quando acordou se sentiu enjoada e indisposta, como se tivesse comido algo estragado. Permaneceu na cama por mais um tempo, numa tentativa falha de melhorar. Era muito fraca para bebidas, principalmente as que faziam sua garganta queimar. Seu cérebro não funcionava e ela não conseguia lembrar de quantos Martinis tinha bebido com Peter. Mas foram muitos, pelo visto. Seu estômago estava terrivelmente embrulhado e suas pernas mais pareciam papa. Que bela merda, .
Alcançou seu celular na mesinha de cabeceira e acendeu a tela de bloqueio. Eram quase onze da manhã. Tinha perdido totalmente a noção do tempo. Não tinham muitas mensagens, sem contar com os habituais de Tiffy e Christopher. Seu celular tinha uma espécie de conexão com o site do canal E! e tinham algumas novas notícias. Havia um Pop-Up pairando sobre a tela e a colunista não pensou duas vezes antes de clicar nele. Eram as notícias mais recentes, e no cantinho da tela estava rolando em um meio á outras fotos, Harry Styles correndo com seu cachorro. Sentiu vontade de rir, quem tinha coragem de correr tão cedo, no frio?
A colunista viu que na aba de notificações haviam duas chamadas perdidas de sua irmã mais velha, Rubi. Não se recordou de ter ouvido o toque do aparelho, mas como poderia? Seu celular era programado para não receber ligações depois da meia noite. Iniciou uma ligação e, enquanto ouvia o som da chamada sendo encaminhada, levantou da cama. A preguiça, certamente, iria reinar naquele dia. não sentia a mínima vontade de tirar seu pijama cor de esmeraldas.

— Eu te liguei um milhão de vezes, ! — Rubi não deu esperou nem que a conexão fosse estabelecida, já estava gritando. O Facetime era uma espécie de tradição para ambas. não evitou sorrir ao ver o rosto de sua irmã, já fazia tanto tempo que tinham se encontrado que o coração chegava a afundar dentro do peito. — Posso saber porquê a madame não pôde me atender? — A mais velha fez uma cara de atrevimento.

prendeu seu cabelo longo em um coque e ajeitou sua franja, que já estava crescida. — Se eu te contar o tanto que eu bebi ontem você vai acreditar em mim? — A colunista viu sua irmã balançar a cabeça em negação no mesmo segundo. — Pois acredite.

— O que aconteceu com a senhorita-odeio-bebidas-alcóolicas? — Os olhos da mais velha tinham o mesmo tom castanho mel de sua irmã, mas eram mais profundos e maduros. sempre ficava fascinada com o olhar que sua irmã tinha, era de tirar o fôlego de qualquer um. — Bastou viajar para o Japão para poder mudar conceitos, isso é interessante. Acha que a mamãe gostaria de saber disso? — De fato, Rubi tinha um senso de humor contagiante. Era normal, quando ainda moravam com seus pais, acontecer de Rubi contar um “segredo” de “sem querer”.

— Tem certeza que tem mesmo vinte e nove anos? — revirou os olhos e foi até o banheiro, para escovar os dentes e jogar uma água no rosto. Estava zonza, como se tivesse levado um soco no maxilar, e com o estômago tão revirado que era de total certeza que o restante daquele dia iria ser agonizante. — Foi pra tentar relaxar depois da visita de Giselle e eu nem bebi tanto assim, se quer saber. E, no quesito bebedeira, você não tem moral alguma para me julgar.

— Faz meses que não bebo nada, você sabe. — A irmã mais velha silabou. Rubi era dona de um lindíssimo cabelo castanho curto, estilo Chanel e lábios tão carnudos quanto os da Angelina Jolie. já tinha ouvido inúmeras histórias sobre como a primogênita da família era popular no colégio e na universidade, e sempre acreditou que maior parte do sucesso se devia a beleza que ela mantinha.

— Sim… — disse com a boca cheia de espuma. Segurou o cabelo com a mão livre e cuspiu tudo e enxaguou com água. — E como foi, dessa vez?

— Frustrante. — A voz de Rubi quebrou um pouco e sua feição mudou, como se uma onda de tristeza a invadisse. Era realmente triste toda aquela situação pela qual ela passava. — Gastamos quase três mil dólares em um novo tratamento. Mas estou sem esperança, .
não sabia o que dizer. Todas as suas palavras de conforto já tinham sido ditas tantas e tantas vezes que ela sentia que não seria capaz de consolar sua irmã. Rubi sonhava em ser mãe desde muito nova e quando conheceu David, seu marido, aquele desejo se tornou uma urgência. As primeiras tentativas foram bem aceitas, afinal, Rubi sabia que havia casos de pouca fertilidade na família. Mas ela não sabia que também tinha esse defeito. Quando descobriu foi um baque. Todos os planos e sonhos sobre aquele bebê foram tomados por uma névoa densa e escura de uma tristeza profunda.
Rubi estava casada com David a quase cinco anos. Cinco anos de tentativas, de esperanças e gastos incontáveis.
— David disse que está na hora de considerarmos uma adoção. — A mais velha disse tristinha. sabia que a qualquer momento ela desabaria. — Só que eu não consigo considerar essa ideia. Não por agora, me entende?

— Bom, porquê não tentar mais uma vez? — A mais nova deu um sorriso largo. Jamais iria fazer com que sua irmã sentisse que ela não estava ali, adorava estar presente na vida de sua irmã. Voltou para o quarto e sentou na beirada da cama. — Tenho certeza que quando esse bebê vir ele vai ser a coisa mais linda do mundo! E ele vai ter a melhor tia do mundo, também.

— Vai ser difícil competir com os irmãos do David, . —A mais velha soltou uma risada alta. Rubi era forte demais para se deixar vencer por conta de pequenos imprevistos. Quando se recompôs, varreu o quarto onde sua irmã estava hospedada com os olhos e assobiou. — Mas esse quarto é um luxo, mesmo!

— Ah, Rubi, tudo aqui é puro glamour. — respondeu com um sorriso abobalhado. — A casa tem todo esse aspecto moderno mas, ao mesmo tempo, mantém a tradicionalidade. Qualquer cômodo é inspirador, não faltam elementos para escrever e tudo parece ser mais fácil aqui.

— Opa! — Rubi chamou a atenção de e levantou o dedo indicador no ar, como se pedisse um tempo para pensar. — Você está deixando que o Japão aliene suas ideias, .

— Não estou, não.

— É claro que está. — Rubi prendeu uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha que era quase repleta por jóias. — Te conheço o suficiente para saber o porquê de estar bebendo e se deixando levar tão fácil. Você está querendo se livrar de um sentimento mas está o substituindo por outro. — Era óbvio que Rubi iria analisar sua irmã, é isso o que um psicólogo faz. mordeu o interior de sua bochecha e encarou a feição duvidosa de sua irmã. — É o Leon,outra vez?
— Não. — A colunista disse prontamente. — Não acho que tudo em minha vida gire em torno dele, sabe? Mas me vejo ancorada nas lembranças que criamos juntos, e é difícil pra mim colocar tudo numa pasta mental e deletar. Eu sinto que estou superando toda aquela merda, de verdade. Mas ando confusa.

— Esse é o grande problema dos . Nós não sabemos parar de remoer. — Aquela declaração servia para ambas, como se encaixasse nos dois problemas. Rubi estava vivendo para conseguir gerar um filho e vivia para manter lembranças dolorosas. — Não posso te dizer para deixar essa faceta de lado, mas eu posso te incentivar a progredir nesse processo.

— Tudo bem. Só para de usar esses termos comigo. — Ambas riram juntas. — Ontem eu beijei o filho da minha chefe e vi Harry Styles flertar comigo descaradamente.

— Puta merda, ! — A voz da mais velha ecoou por todo o quarto, riu mais ainda. — Eu achei que ele era simplesmente inalcançável. Quero dizer, acreditei que ele era do tipo que ia devagar com as coisas.

— O quê?

— Eu e David fizemos uma aposta em cima de você. — Rubi falava como se aquele fosse o assunto mais importante do mundo. franziu o cenho. — Ele me disse que você ia ficar caidinha por esse cantor e eu apostei cem dólares que isso não iria acontecer. Mas aparentemente…

— Vocês só podem estar malucos se acham que eu vou cair nas cantadas prontas dele. — Um flash passou diante dos olhos da colunista. Era a noite anterior, começando a assombrá-la. Lembrou-se do toque cuidadoso de Harry em seu queixo, que fez com que criassem uma conexão visual de outro mundo. Por Deus, estava fora de cogitação deixar com que um momento daquele acontecesse novamente. — Estou aqui para trabalhar e jamais colocaria minha mão no fogo por Harry. Ele é um mulherengo de primeira linha.

— Oh, não se faça de difícil agora. Ele é um pedacinho do céu. — Era o céu por inteiro, pensou consigo mesma. — Que cheiro ele tem?

— Que tipo de pergunta é essa? — colocou a mão no peito e fingiu estar afetada. — Mas é um mescla de menta com musk… O perfume dele é, realmente, muito bom. — A de franja ouviu duas batidas em sua porta e deixou o celular na cama. Ao abrir a porta se deparou com olhos tão verdes quanto o tecido de seu pijama. Deu um passo para trás. — Harry.

O vocalista sorriu. — Me desculpe por sequestrar seu cão. — Então, sem ao menos ser convidado, ele entrou no quarto. Na mesma hora ele pôde sentir o perfume doce que o cômodo tinha. — Espero que não se importe.

— De forma alguma.

?! — A voz de Rubi ecoou novamente. sorriu amarelo e pegou o aparelho celular. — Você não terminou de falar sobre o cheirinho dele e-

— Eu te ligo depois! — A mais nova encerrou a chamada de supetão. Harry a olhou de forma confusa. — Minha irmã adora falar besteira. — não deu muita atenção ao fato de ainda estar de pijama, mas se sentiu envergonhada pelo fato de se sentir estranha perdi dele. A colunista abraçou a si mesma e encarou o vocalista, a espera de alguma decoração, mas Harry parecia inerte em seus próprios pensamentos. — Então, como consegue ter disposição para acordar tão cedo?

O de cabelos cacheados riu e o som de sua risada ecoou por toda divisão do quarto. — Não dormi direito. — Deu de ombros como se aquilo não importasse. — Correr pela manhã é uma das minhas coisas favoritas do mundo, . — Os olhos verdes dela estavam com uma tonalidade mais escura, bastante diferente da cor opaca que nutria na noite anterior. Sentou-se na beirada da cama de e viu Chico o seguir até lá. Houve um silêncio desconfortável muito sério. Ambos não sabiam o que dizer e a tensão era palpável no ar. — Olha, , sobre ontem eu-

— Podemos fingir que não aconteceu, hm? — Ela o cortou imediatamente. não queria ser mais uma conquista, aquilo não era uma opção. Não que aquele flerte sem noção fosse resultar em alguma coisa, é caro. Mas era bom cortar o mal pela raiz de uma vez, para evitar transtornos maiores. A franja de estava consideravelmente maior do que o normal e seus olhos estavam quase sendo escondidos. — Estávamos aéreos. — Ela riu sem graça.

— Oh, sim, estávamos. — Parecia que ele tinha sido magoado, como uma criança que acaba de perder um prêmio. Se tivesse uma pedrinha no chão, com certeza, ele a chutaria. Não era aquilo que ele queria ouvir, mesmo. Seus orbes verdes seguiram a figura feminina cheia de curvas até a penteadeira. — Eu não quis que você se sentisse persuadida.

— Mas não me senti. — Foi como uma resposta automática. sentiu um frio em sua barriga quando suas palavras escaparam. Harry parecia surpreso. — Foi uma coisa aleatória que não vai se repetir, tudo bem?

— Claro. — A voz de Harry soou de forma arrastada. — Mas, ?

— Te falei pra não me chamar assim ontem. — Ela replicou com um olhar severo.

— Eu não lembro disso. — O vocalista levantou as mãos no ar. — Porquê não posso?

— Olha, Harry, eu não tenho que te dar explicações. É pessoal, cabe a você respeitar isso. — odiava que ficassem se metendo em sua vida. — Todo mundo tem sua bolha, não é? E eu odeio compartilhar meus dilema com outras pessoas. — Por mais que ela estivesse dando uma bronca nele, a voz de permanecia em um tom calmo e singelo. — O que rolou ontem foi coisa de momento. Sou muito fraca para qualquer bebida.

Então era aquilo, Harry entendeu que ela apenas se deixou levar por causa das bebidas que ela tinha ingerido. E, por mais que ele acreditasse que aquilo era mentira, ele abaixou a cabeça e assentou. O vocalista estava levemente vulnerável, mas não iria demonstrar.

— É eu fico fora da minha cabeça quando bebo, também. Perco total noção das minhas convicções. — O tom de voz calmo foi substituído por uma ponta de deboche.

— O que quer dizer?

— Jamais daria em cima de uma mulher como você. Não posso deixar que isso interfira no resultado final de sua crônica. — Foi como um baque. Ele tinha mesmo dito aquilo, sem rodeio nenhum.

— Está questionando o meu profissionalismo? — inquiriu incrédula. — Eu sou tão fiel ao meu trabalho que farei questão de ressaltar esse seu jeito de merda, Harry. O quê? Achou que eu iria falar mal de você depois que desse um pé na minha bunda?

— Está exagerando, . — Ele começava a se sentir culpado por suas palavras.

— Não, eu não estou. — Ela andou até a porta de seu quarto e a abriu. O vocalista entendeu aquela menção no mesmo segundo e rumou em direção a saída.

, eu…

— Está tudo bem, Harry. — Ela sorriu cínica. — Entendo que você não quer que eu manche sua imagem de bom moço. Vou ser o mais fiel que eu puder as suas características. Obrigada por ter levado meu cachorro para passear!

Após fechar a porta atrás de si, se sentiu desapontada. Aquela lista mental que tinha sobre Harry estava, mais uma vez, sofrendo mudanças. Os tópicos não eram mais os mesmo e, naquela altura, eram o oposto do que eram na noite passada. A colunista agradeceu por não ter caído na conversa fiada daquele vocalista de araque.

É, realmente, melhor passar vontade do que se arrepender.