You and Me – Was it meant to be?

Sinopse: A garota focada se tornou uma arquiteta renomada e totalmente workaholic: sem espaço para família, amigos e muito menos para o amor.
Anos após o término do colégio e por péssimas circunstâncias, ela volta para sua cidade natal com o objetivo de organizar sua vida. Ao chegar, algo que realmente não esperava que acontecesse, era encontrar sua antiga paixão de colégio, que também parece estar procurando um novo rumo.
De forma abrupta começa a perceber que passou anos valorizando sua carreira e perdeu o que realmente importava.
Agora ela precisa fazer algumas escolhas e uma delas é dar espaço para o amor.
Gênero: Romance/Drama
Classificação: 16 anos
Restrição: Sem restrições
Beta: Donna Sheridan

Quando o táxi se aproximou de Holmes Chapel, meu sono pareceu desaparecer e eu colei o nariz na janela embaçada. Há quanto tempo não ia até lá… Entretanto, nada parecia ter mudado. Holmes Chapel, cidade onde nasci, sempre fora charmosa com suas construções antigas e tão acolhedora quanto uma cidade pequena pode ser.
Assim que o táxi parou, bem no centro, eu paguei o motorista e saltei do carro. O vento logo açoitou meu rosto, trazendo meus cabelos aos olhos. Agarrei com força a alça da minha mala que, na verdade, não era tão grande. Não para a temporada que eu pretendia ficar.
Atravessei a rua e lá estava: grande e rosada. A maior e mais famosa padaria da cidade: Beachwood Cafe.
Reprimi o riso. Mais tarde, talvez, haveria tempo para revisitar o passado. Talvez até fosse necessário.
Com a cabeça aparentemente em qualquer lugar que não fosse a rua onde me encontrava, acabei pisando em falso e caí, esfolando as palmas das mãos no chão frio. Mas meu contato com o concreto foi breve: mal senti a aspereza do chão arder em minhas mãos e fui erguida do tombo.
– Algumas coisas não mudam… – O rapaz reprimia, sem sucesso, o riso em sua voz. Me endireitei, tirando o cabelo do rosto e meus olhos foram de encontro aos seus. Verdes e calorosos. Aqueles olhos eu reconhecia e muito bem.
– Harry – Eu ofeguei. Mais por surpresa do que pelo susto do tombo.
– Bem vinda de volta, – Ele sorriu, aquele sorriso que qualquer paparazzi gostaria de fotografar. E eu estava perdida, não sabia se olhava para seus olhos, seu sorriso ou sua covinha. Era o ápice do meu eu adolescente.
– Vem, vamos dar um jeito nas suas mãos.
Eu franzi o cenho e demorei um pouco pra entender que ele se referia aos meus machucados.
– Ah… Isso não é nada. – Eu disse, mas ele já estava entrando na padaria e carregava minha mala.
Me apressei para alcançá-lo e não pude evitar: dei uma boa olhada em seu corpo de costas.
Ele sempre fora alto, mas agora eu praticamente precisava inclinar a cabeça para trás para encará-lo. Os cabelos castanhos estavam enormes e enrolavam nas pontas que batiam nos ombros. Harry era magro e suas pernas compridas estavam em uma calça skinny preta e botas da mesma cor.
– Olá, ! – Uma senhora de cabelos brancos e olhos muito azuis emoldurados por oclinhos meia lua me cumprimentou de trás do balcão.
– Martha! – Eu retribuí seu sorriso e Harry olhou para trás.
– Ela já volta, Martha – Ele disse, segurando aberta uma porta de vai-e-vem na lateral do balcão, me esperando passar – Ela tropeçou e machucou as mãos. – Harry deu de ombros e eu senti minhas bochechas esquentarem.
Passei por ele e fomos até uma porta fechada no final do corredor. Harry a abriu e esperou que eu entrasse.
– Você pode parar de rir de mim?! – Eu pedi, talvez de uma maneira mais ríspida do que pretendia.
– Desculpa, – Ele sorriu – Mas a maioria das lembranças que tenho de você envolvem algum tombo.
Meu eu adolescente se escondeu. Então era isso? Harry Styles se lembrava de mim apenas por minha habilidade em tropeçar?
Eu escolhi ficar em silêncio. Harry foi até uma estante, parecia estar procurando algo. Aquele provavelmente era seu escritório. Eu estava sentada em um espaçoso sofá de couro escuro. A estante na qual Harry estava era enorme e estava repleta de livros, cds e vinis. A mesa no centro da sala tinha um notebook aberto e vários papéis espalhados.
Ele voltou até o sofá, estava com uma pequena caixa nas mãos. Harry sentou-se ao meu lado e virou-se de frente para mim.
– Isso não é necessário… – Eu tentei protestar, mas Harry ergueu a sobrancelha e eu lhe estendi minhas mãos.
– Um simples obrigado já está bom, … – Ele sorriu e sua covinha ficou evidente. Harry molhou um punhado de algodão em um líquido transparente e começou a limpar minhas mãos.
– O que você está fazendo aqui? – Eu soltei as palavras antes mesmo de poder registrá-las.
Harry me encarou e depois voltou sua atenção para minhas mãos.
– Estou limpando seus machucados.
– Não – Eu revirei os olhos. – Em Holmes Chapel.
– Ah… – Ele ficou em silêncio por tanto tempo que realmente achei que não me responderia. Enquanto isso, depois de limpar a sujeira de minhas mãos esfoladas, Harry passou um remédio e assoprou. – Estou dando um tempo. – Ele disse por fim. – Pronto! – Ele sorriu, satisfeito com seu trabalho de enfermagem e devolveu minhas mãos ao meu colo.
– Obrigada. – Eu agradeci e, enquanto ele se levantava para guardar a caixa de primeiros socorros, pude vislumbrar seu sorriso mais uma vez.
– Olha só, ela tem boas maneiras, afinal… – Ele guardou a caixa na estante e depois apoiou as mãos no tampo da mesa, me encarando. – E você? O que faz aqui?
– Digamos que também estou dando um tempo – Eu dei de ombros e antes que ele pudesse falar algo, me levantei. – Obrigada pelo curativo – Eu agradeci mais uma vez e saí da sala.
– Espera! – Harry veio atrás de mim – Pra onde você vai?
– Para casa.
– Para sua casa?
Eu confirmei com a cabeça e mordi o lábio. Virei de costas antes que ele pudesse ver meus olhos marejados.
– Eu te levo lá – Harry disse e eu percebi a mudança em seu tom. Ele estava sendo gentil, como sempre fora.
Eu respirei fundo e me virei para ele.
– Tudo bem, Styles – Forcei um sorriso – Isso é algo que preciso fazer sozinha, sabe… Mas você pode passar lá depois.
– Certo. – Harry sorriu e me encarou. Antes que eu pudesse sair, ele me envolveu em seus braços e me deu um abraçado que até então eu não sabia estar precisando.
– Eu sinto muito. – Ele sussurrou no meu ouvido e por um instante eu inalei seu perfume.
Me afastei dele e saí apressada. Agradeci mentalmente quando percebi que Martha estava ocupada e não me vira.
Não estava em condições de conversar naquele momento.

 

O dia estava cinzento e o vento balançava meu cabelo. Fui caminhando apressada. Minha antiga casa não era longe da padaria. No caminho, as lembranças inevitavelmente me acompanharam.
Eu sou filha única. Sempre fui muito ligada ao meu pai, embora, do final da adolescência até a vida adulta, nós não parecêssemos concordar em nada. Acabei seguindo os passos dele e me tornei arquiteta. Talvez isso tenha sido um dos grandes motivos pelo qual discutíamos tanto: eu queria ser a melhor e ele sempre me mostrava que meu trabalho ainda não era perfeito. Talvez soubesse que tinha potencial para ir além, mas eu não levava bem suas críticas. Comecei a me empenhar muito cedo. O clichê da nerd se aplica a mim. Enquanto todos estavam tendo suas “primeiras vezes” na época da escola, eu estava sempre estudando. Passava os intervalos na biblioteca. Finais de semana, para mim, eram sinônimos de mais tempo para me aprimorar.
Terminei a escola e me mudei para Londres, onde me formei. Eu era, enfim, a melhor naquilo que fazia. Pelo menos na capital. Quase tão boa quanto meu pai. No começo da minha carreira, meu sobrenome me rendeu vários clientes. Mas logo eu tive minha própria fama. Deixei de ser , filha de Richard , para ser apenas . E eu adorava não ser mais comparada ao meu pai.
O trabalho me consumia tanto que passei a ver meus pais com cada vez menos frequência. E, quando nos víamos, sempre acabávamos discutindo. No começo, minha mãe tentava intervir. Mas depois ela abriu mão e deixou que as refeições de feriados ou datas comemorativas fossem o cenário de discussões minhas e de meu pai.
Em novembro passado, ela me ligou. Confesso que deixei o telefone tocar várias vezes e até pensei em não atender. Eu estava tão ocupada com um projeto novo, que não queria perder o foco nem para atender uma ligação. Mas atendi.
– Sim, mãe? – Nem tentei disfarçar a impaciência em minha voz.
, sei que está ocupada. Mas o que preciso te dizer é muito importante. – Minha mãe começou, mas eu ainda fazia anotações a lápis em uma planta. – Seu pai e eu vamos para Londres passar o Natal com você. Devemos chegar logo no início do mês. E eu quero que este Natal seja como o de uma família. Não quero que vocês ajam como dois rivais. ?
– Sim, mãe. Pode ser – Eu mal tinha registrado essas palavras…
, seu pai foi diagnosticado com câncer no estômago.
A ponta do lápis que eu escrevia quebrou, tamanha força que depositei nele.
– Por favor, vocês precisam se entender – Minha mãe sussurrou.
Depois dessa ligação, os dias passaram como borrões e minhas lembranças são uma bagunça. Eu não conseguia mais me concentrar no trabalho. Passei alguns dias preparando meu apartamento para a chegada dos meus pais. Me sentia péssima pela situação, por ter sido necessário uma doença grave para me fazer perceber o quanto eu os amava. Eu estava disposta a deixar minha rivalidade com meu pai no passado.
E, então, a outra ligação.
Eles estavam dirigindo a noite, a caminho do aeroporto. Chovia muito. A pista estava escorregadia…
Foi a primeira vez que não entreguei um projeto e me retirei. Foi a primeira vez que senti uma dor insuportável. Foi a primeira vez que não me senti capaz. Foi a primeira vez que realmente me senti o peso de ser sozinha. Então, aparentemente, eu havia tido uma primeira vez que nenhum dos meus colegas de escola tiveram.

 

Quando percebi, já estava parada em frente à casa da minha infância. Respirei fundo, observando os detalhes. Quando era criança, passava horas observando meu pai desenhar o projeto da casa. A grande reforma, como ele chamava. Pegava uma folha e tentava imitar seus movimentos. Quando cresci e comecei a entender de arquitetura, o projeto era motivo de discussão entre nós. Não conseguia entender como um arquiteto incrível como meu pai era capaz de fazer aquilo. Uma arquitetura americana. Achava um insulto à nossa pátria. Talvez eu estivesse um pouco viciada em Jane Austen na época… Mais tarde, meu pai me disse que o sonho da minha mãe era morar em uma casa americana: uma porta vermelha, cercas brancas. Uma varanda.
Agora eu observava esses detalhes e sentia meu coração se partir em milhões de pedacinhos.
Respirei fundo e pesquei a chave dentro da minha bolsa. Subi os dois degraus até à porta vermelha e tentei ignorar o tremor em minha mão. Abri a porta e entrei, fechando-a atrás de mim logo em seguida. Tudo o que eu não precisava agora era que algum vizinho viesse me prestar suas condolências.
Tirei o casaco e deixei em cima do aparador. Dei uma volta completa, sem sair do lugar: a sala à esquerda, a cozinha à direita. No fundo do corredor, um lavabo e a porta para o quintal. Me aproximei da escada e, agarrada ao corrimão, fui até o segundo andar. A primeira porta, fechada, era o quarto dos meus pais. Passei direto, assim como pelo escritório do meu pai, o banheiro e entrei na última porta do corredor, à esquerda. Meu quarto.
Estava do jeitinho que eu lembrava de ter deixado. Puxando na memória, fazia uns bons 2 anos que não entrava naquela casa. Minhas últimas visitas aos meus pais foram tão corridas que nos encontrávamos em algum restaurante e depois eu voltava para Londres.
A minha cama espaçosa estava encostada na parede oposta à porta. De frente à cama, estava minha mesa de desenho. Limpa, sem nada em sua superfície. A janela ao lado estava fechada e as cortinas amarelas também. O guardarroupa preto ficava de frente à janela. Tudo estava incrivelmente arrumado, mas isso não me surpreendeu. Minha mãe sempre fora organizada. Até demais. Talvez eu tenha puxado isso dela.
Então, eu me joguei em minha cama. O edredom amarelo claro, combinando com a cortina, pareceu me envolver em toda sua maciez e eu finalmente pude chorar o que estava guardado dentro de mim. Eu estava sozinha e a pior parte era saber que esta era minha vida agora.

Eu acordei com a campainha tocando alto. Meu coração batia acelerado e eu abri os olhos, me deparando com a escuridão do quarto. Encontrei meu celular no bolso e liguei a lanterna. Me levantei e saí do quarto, acendendo todas as luzes enquanto descia até a porta.
– Por favor, que não seja nenhum vizinho. Por favor… – Eu murmurava, descendo a escada. Abri a porta e meu coração deu um salto no peito.
– Eu trouxe comida – Harry sorriu, levantando algumas sacolas.
Eu dei espaço para que ele entrasse, ainda lesada de sono e surpresa.
– Eu estava dormindo… – Eu disse.
– Te acordei, né? Desculpe… Mas você disse que eu poderia passar mais tarde, então eu pensei em trazer comida – Ele se explicou e eu percebi que ele carregava um violão nas costas, envolto por uma capa protetora.
– Tudo bem – Eu sorri e senti meu estômago roncar. – Você pensou certo. – Fui para cozinha, Harry atrás de mim.
Eu ainda não tinha entrado na cozinha, em nenhum cômodo da casa, na verdade. A ilha no centro, os armários marrons contrastando com o tampo de mármore negro da pia. Os eletrodomésticos vermelhos. A cozinha destoada e tão amada de minha mãe. Engoli o choro e cocei os olhos furiosamente para espantar as lágrimas que estavam voltando.
– Ahn… – Me virei para Harry, que estava muito quieto – Tudo bem se a gente ficar no meu quarto? Eu… Eu ainda não me sinto preparada para estar em outros cômodos, sabe? – Eu dei de ombros, sentindo meus olhos úmidos.
– Claro – Harry assentiu.
Eu peguei talheres, guardanapos e, vendo que Harry estava com uma garrafa de vinho na sacola, peguei duas taças.
Nós subimos em silêncio.
– Uau, não acredito que estou no quarto de – Harry riu e eu revirei os olhos para ele.
Nos sentamos no chão e Harry começou a desembrulhar a comida. O cheiro estava maravilhoso.
– Me surpreendeu de novo – Ele disse e abriu a garrafa de vinho. Diante do meu olhar de indagação, ele continuou – Eu imaginava que seu quarto seria rosa. Com muitos unicórnios ou pôneis, ou sei lá qual animalzinho era sensação na nossa adolescência. – Ele observava as paredes que estavam pintadas num tom claro de amarelo. As paredes tinham fotos de edifícios famosos pelo mundo e algumas fotos minhas quando era criança, em férias com meus pais.
Eu soltei uma gargalhada alta.
– Desculpe te decepcionar… – Eu dei de ombros e aceitei a taça que ele me entregava.
– Isso não foi decepção nenhuma. – Ele sorriu, com aquela covinha enorme e brindou levemente sua taça na minha. Percebi pelo seu tom e seu jeito que aquela não era uma ocasião de comemoração, porém eu estava gostando mais do que poderia admitir de ter sua companhia.
Ele me serviu com um enorme pedaço de lasanha ao molho branco e brócolis. Dei uma garfada e gemi de prazer gastronômico.
– Maravilhoso! Você precisa me passar o telefone desse restaurante.
– Claro… – Harry baixou os olhos para o seu prato e sorriu furtivamente.
– Hum… Você vai me contar por que está de volta à Holmes Chapel? – Eu perguntei. Não queria voltar a ser o assunto principal.
Harry tomou um longo gole do vinho. Ele apoiou o prato nos joelhos. Estava parecendo um menininho sentado daquele jeito.
– Eu fiz parte da maior boyband da atualidade. Foi a melhor experiência da minha vida. Então, decidimos nos separar. Mas eu não queria parar de tocar. E minha carreira solo também deu certo. Fiz uma turnê mundial, sozinho. Eu não estava com meus amigos, fiz novas amizades. Eu não estava com a minha família. Minha mãe e minha irmã se encontravam comigo quando podiam. Quando a turnê terminou, eu senti que precisava de um tempo para mim, entende? – Ele me encarava com aqueles olhos tão verdes. – Eu precisava de um tempo do Harry Styles, ex membro do One Direction. Precisava de um tempo do Harry Styles que lotava arenas, mesmo se apresentando sozinho. Eu precisava ser o Harry, de Holmes Chapel. Que trabalhou na padaria da Martha. Que passava mais tempo com a família… – Ele deu de ombros e eu percebi que estava um pouco corado. – Então eu voltei. Comprei a padaria da Martha e agora passo muito tempo com ela, ajudando no que posso.
– É compreensível… – Eu terminei minha lasanha e Harry mal tinha começado a comer a sua. Eu estava realmente com fome. – A sua vida é incrível… – Eu servi mais vinho em nossas taças.
– Ah, é… É sim – Harry sorriu e eu pude perceber que havia verdade ali. E realmente era compreensível ele querer um tempo, mesmo amando o que fazia. Sua vida era insana e intensa.
– Eu poderia te fazer a mesma pergunta, mas acho que já sei a resposta… – Ele disse, enquanto cortava um pedaço de lasanha e eu brincava com os restos em meu prato. – , eu sei que nada que eu diga vai te ajudar e não posso nem imaginar a dor que você está sentindo. Sei que passamos pouco tempo juntos na época do colégio, mas você pode contar comigo agora, sabe… Você não está sozinha.
– Obrigada – Eu disse e terminei minha taça de vinho, sentindo minha garganta fechar.
Harry terminou de comer e enquanto eu juntava nossos pratos, ele pediu meu celular para anotar o número do restaurante.
– Qual o nome? Deve ser um lugar novo, né? – Eu disse, deixando os pratos em cima da minha mesa de desenho.
– Harry Styles.
– O quê?
– Fui eu quem cozinhou.
– Parabéns, Styles! – Será que existia algo que esse cara não sabia fazer? Ou pelo menos, não fazia bem?
– Eu queria tocar uma música pra você…
– Sério? – Eu senti minhas bochechas esquentarem. Eu não conhecia praticamente nada de sua carreira solo e estava envergonhada por isso.
Harry tirou seu violão da capa. Eu me sentei na cama e ele sentou na cadeira, de frente para mim.
Seu cabelo estava preso em um coque desgrenhado, a camisa social que ele usava estava com os primeiros botões abertos e era possível ver algumas de suas muitas tatuagens.
– Você foi a inspiração para essa música. – Ele abriu um sorriso gigantesco e eu me senti pior ainda.
– Harry, d-desculpa – Eu gaguejei – Eu não consegui acompanhar sua carreira solo, sabe? – Me sentia um pimentão – O One Direction eu até acompanhei, claro. Também era meio impossível não acompanhar, não é? – Eu ri, nervosamente – Não que você não seja bom sozinho, porque é claro que você é, você é ótimo! Eu lembro… Eu lembro. Eu apenas não tinha tempo e – Ele se inclinou para mim e me calou, com um dedo sob meus lábios.
– Só fica quieta e escuta,
Ele começou a tocar e, quando começou a cantar, não pude conter os arrepios. Ah, a voz dele… Que saudade eu tinha de ouvir essa voz.

Sweet creature
(Doce criatura)
Had another talk about
(Tivemos outra conversa sobre)
Where it’s going wrong
(Onde estamos errando)
But we’re still Young
(Mas ainda somos jovens)
We don’t know where we’re going
(Não sabemos pra onde estamos indo)
But we know where we belong
(Mas sabemos onde pertencemos)

No, we started
(Não, nós começamos)
Two hearts in one home
(Dois corações em uma casa)
It’s hard when we argue
(É difícil quando discutimos)
We’re both stubborn, I know
(Nós dois somos teimosos)
But, oh
(Mas, ah…)

De repente, eu tinha 17 anos de novo. Me lembrava perfeitamente do dia em que a professora de sociologia sorteou as duplas para um enorme trabalho de final de semestre. Harry era minha dupla e, até então, aquilo não dizia nada para mim. Como eu estava enganada…
Harry não desgrudava os olhos de mim enquanto cantava. Seus dedos deslizavam pelas cordas do violão em perfeita sincronia.

Sweet creature, sweet creature
(Doce criatura, doce criatura)
Wherever I go
(Aonde quer que eu vá)
You bring me home
(Você me leva para casa)
Sweet creature, sweet creature
(Doce criatura, doce criatura)
When I run out of rope
(Quando eu chego no final da linha)
You bring me home
(Você me leva pra casa)

Sweet creature
(Doce criatura)
We’re running through the Garden
(Estavamos correndo pelo jardim)
Where nothing bothered us
(Onde nada nos incomodava)
But we’re still Young
(Mas nós ainda somos jovens)
I always think about you
(Eu sempre penso em você)
And how we don’t speak enough
(E em como nós não falamos o bastante)

Depois das aulas, eu ia até a casa de Harry para fazermos o trabalho. Não me lembro exatamente qual era o tema, mas sempre discutíamos. Éramos tão teimosos. Foi naquela época que Harry decidiu que queria ser músico. Depois de fazermos o trabalho, eu o escutava cantar e tocar por horas. Ele tinha muitas dúvidas e inseguranças em relação ao seu talento, mas eu sempre o apoiava e o fazia seguir em frente, mesmo quando ele queria desistir. Quando não estávamos na casa dele, estávamos na padaria da Martha, onde ele trabalhava depois da escola.

No, we started
Two hearts in one home
And oh, it’s hard when we argue
We’re both stubborn, I know
But, oh

Sweet creature, sweet creature
Wherever I go
You bring me home
Sweet creature, sweet creature
When I run out of rope
You bring me home

I know when we started
(Eu sei quando começamos)
Just two hearts in one home
(Apenas dois corações em uma casa)
It gets harder when we argue
(Fica mais difícil quando discutimos)
We’re both stubborn, I know
(Nós dois somos teimosos, eu sei)
But, oh

Às vezes, discutíamos feio por causa do trabalho e Harry me lembrava que éramos jovens demais para nos preocupar com aquilo. Ele dizia que, dentro de alguns meses, aquele trabalho seria apenas uma lembrança. No fim das contas, foi a minha melhor lembrança do último ano.
Em uma tarde quente e ensolarada, saímos da padaria e fomos até o parque da cidade. Estava vazio, a maioria das pessoas estavam trabalhando e os adolescentes, aparentemente, preferiam ficar nas sorveterias.
Harry e eu brincávamos no grande jardim florido. Corríamos entre as flores. Até que eu tropecei e Harry caiu por cima de mim. Riamos muito, não tínhamos preocupação naquele momento.
Então ele me beijou. E eu percebi e acho que ele também. Estávamos apaixonados. As borboletas no meu estômago voavam enlouquecidas. As garotas da escola iriam pirar se soubessem. Mas ninguém soube. Uma semana depois, quando as aulas terminaram, ele foi para o X-Factor e eu fui para faculdade. E nunca mais nos falamos.

Sweet creature, sweet creature
Wherever I go
You bring me home
Sweet creature, sweet creature
When I run out of rope
You bring me home

You bring me home…

Ele terminou de cantar, o sorriso estampado no rosto. Eu me sentia tão vermelha, queria poder me esconder.
– Uau… É, linda… – Eu disse, mas na verdade estava contendo meus impulsos para não agarrá-lo – Obrigada.
– Sou eu quem devia agradecer, sabe… Pela inspiração.
– Você pode tocar mais? – Eu pedi e Harry assentiu. Ele levantou-se e sentou-se ao meu lado, na cama. As costas apoiadas na cabeceira. Ele começou a cantar, uma melodia lenta que eu reconhecia como uma das músicas de sua antiga banda. Eu deitei no travesseiro e fui adormecendo lentamente, ouvindo Harry cantar para mim.

 

Eu acordei com um forte barulho de chuva batendo na janela. Me espreguicei. Harry estava dormindo, a boca ligeiramente aberta. Eu sorri ao me lembrar da música que ele tocara para mim na noite passada. Nosso contato, na época da escola, foi breve. Talvez um mês antes do ano letivo acabar.
Agora eu o observava dormir, me perguntando porque nunca fomos atrás um do outro. No meu caso, a faculdade me consumiu: eu finalmente estava vivendo meu sonho. Harry com certeza não iria se interessar em ir atrás de uma paixão de colégio, sendo que o mundo inteiro, literalmente, estava aos seus pés.
Um trovão forte me assustou e ele acordou.
– Bom dia… – Ele disse com a voz rouca e deitou de bruços.
– Bom dia. – Eu me levantei e prendi os cabelos. Peguei alguma roupa na mala e fui tomar um banho rápido.
– Quer sair para comer? – Escutei Harry perguntar, enquanto me trocava.
Olhei meu reflexo no espelho e me senti exausta, muito mais emocionalmente do que fisicamente. Eu tinha tanta coisa para fazer: precisava esvaziar a casa e depois decidir o que fazer com ela. Claro, também precisava passar no mercado e comprar algumas coisas. Eu abri a porta e encontrei Harry olhando a chuva cair pela janela. Ele se virou para mim e sorriu. Aquele sorriso estava começando a aquecer meu coração e não sabia se era algo bom.
– Eu tenho muita coisa para fazer…
– Eu sei… – Harry se aproximou de mim – Mas você não precisa fazer nada agora, sabe… hoje – Ele deu de ombros, e ficou muito parecido com o Harry da minha adolescência. – Não acho que você esteja pronta para isso, . Você… não teve um sono tranquilo, sabe? – Harry parecia extremamente envergonhado – Você gritou bastante enquanto dormia. – Ele falou mais baixo.
Eu ergui as sobrancelhas. Talvez fosse por isso que eu estava me sentindo tão cansada, afinal.
– Olha, por que não vamos para minha casa? Essa chuva parece que não vai passar tão cedo. A gente come alguma coisa, você descansa… Você não precisa fazer tudo isso agora, e eu to aqui para te ajudar.
Eu senti algo no meu estômago, algo que eu queria muito que fosse apenas fome. Mas não era. Eram as malditas borboletas esvoaçantes. Eu me surpreendi comigo mesma: estava tão acostumada a ser independente, a fazer tudo sozinha. Mas senti um alívio enorme ao ouvir as palavras de Harry. Eu não precisava fazer tudo aquilo sozinha.

No caminho para casa de Harry, ele parou na padaria e pegou algumas guloseimas para nós.
– Como funciona isso? – Eu perguntei, enquanto me servia de um muffin de chocolate – Você comprou a padaria e agora trabalha lá?
– Bom… Eu comprei mais para ajudar a Martha. Na verdade, ajudo com a parte administrativa. – Harry entrou com seu SUV preto em um bairro aparentemente novo e seguiu para um condomínio fechado.
– Uau – Eu me admirei, enquanto passávamos pela segurança. – Vendeu sua casa?
– Não, minha mãe e minha irmã ainda estão lá. Acredite: eu preferia estar lá também. Mas, às vezes, algumas fãs mais obcecadas aparecem por lá. Esse condomínio é seguro, mas bem solitário. De qualquer forma, as vezes é bom ficar sozinho.
Ele entrou em uma garagem subterrânea e estacionou o carro. Reparei que haviam apenas mais três carros ali. Entramos no elevador e Harry apertou o botão da cobertura.
Assim que entramos, minha atenção foi capturada pela enorme parede de vidro, com vista da cidade, que iluminava o ambiente.
– Caramba… – Instantaneamente fui até a parede. Harry deixou as sacolas na cozinha e depois se juntou a mim.
Era possível ver grande parte de nossa pequena cidade. Lá embaixo as pessoas se moviam como pequenas formiguinhas.
– A noite é melhor ainda – Ele disse, olhando para mim – Com as luzes acesas… Realmente bonito.
Aparentemente eu estava realmente cansada. Depois do café da manhã, eu me lembro de deitar no espaçoso sofá de Harry e, quando acordei, já estava escuro.
– Harry? – Eu chamei. E chamei de novo. Sem resposta.
Ele havia jogado uma manta azul escura sobre mim, e eu fiquei feliz por isso. A noite estava fria e ele se preocupou em me manter aquecida. Sorri com o pensamento.
Me levantei e percebi que havia uma folha de papel em cima da pequena mesa de madeira, no meio da sala.

Tive que ir até a padaria. Não devo demorar. Me espera. H.

Eu li o bilhete duas vezes. A letra pequena e miúda de Harry não tinha mudado em nada.
Me sentei no sofá e, ainda me sentindo sonolenta, me forcei a levantar. O apartamento era bem espaçoso e eu não sabia se gostava ou não da decoração clean, que combinava com a cozinha toda de inox. No longo corredor, uma porta aberta me chamou a atenção e eu entrei. O lugar era uma espécie de estúdio: havia uma mesa de som, um microfone daqueles retrô e algumas guitarras e violões. Na parede oposta, uma estante agrupava alguns prêmios de Harry. Enquanto eu encarava um deles, a realidade me bateu como um golpe de chicote: meus pais jamais veriam os prêmios que já tinha ganhado, porque nunca tive tempo de mostrá-los a eles. E agora, eu estava fugindo dos meus problemas, escondida na casa de um cara que não via há anos. Eu precisava encarar minha vida.

Saí apressada para sala e peguei minha bolsa. Eu precisava começar por algum lugar e já sabia onde.
Já na rua, continuei andando apressada. A chuva havia parado. Até pensei em chamar um uber, mas a cidade era tão pequena que não havia motoristas cadastrados e eu não tinha o telefone de nenhum taxista. Depois do que pareceu uma eternidade andando e depois de ter pedido informações duas vezes (sim, me perdi na minha cidade natal, uma cidade pequena), eu finalmente cheguei na casa dos meus pais. Sem nem parar para respirar, peguei na sala duas pequenas caixas de som do meu pai e desci até o porão. Conectei meu celular às caixinhas e botei Aerosmith para tocar no último volume. Amarrei meu cabelo num coque alto e bagunçado.
A música parecia reverberar no meu cérebro, e era exatamente o que eu precisava: algo para bloquear meus próprios pensamentos.
Por outro lado, as lágrimas insistiam. Mas fui mais forte. Respirei fundo, peguei alguns sacos de lixo e comecei.
Por alguns segundos, meus olhos ficaram presos na antiga mesa de desenho de meu pai.
Separei os livros, a maioria de arquitetura, iria doar para alguma biblioteca na cidade. Os materiais, tudo que estava novo ou em bom estado, iria para doação. Só precisava arranjar caixas depois.
Mas, por ora, eu estava me dedicando completamente àquela tarefa. Já estava quase acabando, a música ainda no último volume. Peguei uma escada de três degraus e subi até o último para conseguir alcançar uma prateleira alta.
– AAAAAHHH!!!! – Eu gritei quando senti alguém encostar na minha perna. Me desequilibrei e caí para trás.
Mas não caí no chão duro e acarpetado.
– Aiai… – Harry gemeu embaixo de mim. Eu estava em cima dele, mas de costas. Meus cotovelos apoiados desconfortavelmente em suas costelas.
– Que merda foi essa, Harry?! – Perguntei, me levantando o mais rápido que consegui. Harry ainda ficou no chão mais alguns instantes.
– Eu toquei a campainha e te chamei várias vezes – Ele se justificou. Seus cabelos longos estavam soltos. Eu ainda não havia me acostumado com esse seu novo estilo, mas me surpreendi quando percebi que aprovava. E gostava muito.
– Você não estava em casa… – Ele continuou, dando de ombros.
– Não. – Eu concordei e voltei para a escada e a prateleira. – Eu disse que tinha coisas para fazer.
– Você podia ter esperado.
– Harry! – Eu disse em tom de censura, bem quando uma música terminava. – Eu preciso terminar isso… – Sussurrei, sentindo minha garganta fechar e os olhos marejarem.
– Eu vou te ajudar. O que preciso fazer?
– Eu preciso de caixas para organizar as coisas da doação.
Harry saiu sem falar nada.
Estava me sentindo a pessoa mais ingrata do mundo. Talvez eu fosse. Dizia uma voz na minha cabeça. Harry estava sendo tão gentil e prestativo. Talvez eu não estivesse acostumada com esse tipo de comportamento.
Vinte minutos mais tarde, eu já tinha terminado de esvaziar o porão e estava carregando o último saco cheio de coisas para doação para o andar de cima, quando Harry voltou com várias caixas de papelão desmontadas e fitas adesivas.
Enquanto ele arrumava os livros e materiais nas caixas, comecei a esvaziar a cozinha.
Eu tinha um falso pensamento de que, à medida que fosse esvaziando a casa, meus sentimentos também me deixariam. Mas eu estava enganada.
Aproveitei que Harry estava concentrado nas caixas e me deixei chorar baixinho, enquanto esvaziava o armário de louças da minha mãe.
Não sei ao certo quanto tempo passamos em silêncio. Mas, quando percebi, todo o andar de baixo já estava encaixotado.
– Vamos… – Harry me chamou. – Amanhã a gente continua. A gente precisa comer alguma coisa.
E, como se fosse uma ordem, meu estômago roncou.
– Você ta sempre me alimentando.
– Eu sou bom nisso.
– Acho que eu devia ficar por aqui hoje.
– Não vou te deixar dormir aqui – O tom de Harry foi tão inflexível que eu nem tive como retrucar.
Subi até meu quarto e peguei minha mala.
Parte de mim, a que não estava acostumada a receber esse tipo de atenção, estava achando tudo aquilo muito estranho, quase um absurdo. A outra parte, aquela que não suportava a ideia de ficar sozinha, estava respirando aliviada.

Embora eu estivesse cansada fisicamente, eu não consegui dormir logo.
Harry também estava cansado, então fez sanduíches para o jantar. Eu passei longas horas acordada, apenas observando-o dormir e em determinado momento, percebi que minha mão estava brincando com seu cabelo.
Só podia imaginar quantas garotas (e garotos) ao redor do mundo dariam tudo para estarem no meu lugar.
Harry disse que dormiria no quarto de hóspedes e eu protestei. Mas na verdade, o que saiu foi um pedido para que ele dormisse comigo novamente.
Fechei os olhos, ainda enrolando seu cabelo entre os dedos e tentei organizar a bagunça que estava minha mente.
Foi preciso uma tragédia para que eu começasse e entender o que realmente importa na vida. Perdi meus pais, as duas únicas pessoas que me amavam incondicionalmente, mesmo com todas as minhas falhas. E agora, por pura ironia do destino, eu estava sendo consolada por Harry Styles. Não o Harry Styles popstar internacionalmente conhecido, mas o garoto que tinha me feito sentir borboletas no estômago na adolescência. Mesmo que brevemente. Me peguei desejando ter passado mais tempo com Harry. Porém, ele não se mostrava muito diferente do garoto que eu havia conhecido.
E eu nem sabia se acreditava em destino…
Quando acordei, Harry continuava dormindo, mas agora de bruços. Me espreguicei demoradamente e tive uma ideia.
Ainda havia muita coisa a ser feita na casa dos meus pais. Mas antes teríamos um café da manhã digno de filmes. Eu me sentia culpada por toda atenção que recebia de Harry, precisava recompensá-lo.
Levantei silenciosamente para não acordá-lo. Depois de fazer a higiene matinal, fui para cozinha.
A cozinha de inox de Harry era completamente equipada e abastecida.
Comecei fazendo as panquecas. Depois os ovos mexidos e bacon. Suco de laranja, café e chá. Realmente não sabia qual era sua preferência, mas assim não tinha como errar.
Estava começando a arrumar a mesa quando a campainha tocou. Esperei um momento, mas como Harry não deu sinal de ter acordado, eu fui atender.
Abri a porta e me deparei com um rapaz lindo. Os olhos claros se misturavam entre azul e verde e se destacavam pelo cabelo escuro, propositalmente bagunçado. Seus ombros largos estavam marcados pela blusa preta e justa. E ele estava de mãos dadas com um menininho loiro, que tinha seus olhos.
– Ahn… O Harry está? – Ele perguntou. Era visível o esforço que fazia para manter o olhar em mim e não nas minhas pernas. Só então percebi que estava usando apenas uma camisa de Harry. Na noite passada, com preguiça de procurar um pijama em minha mala, Harry me emprestara uma camiseta. E lá estava eu: com as pernas de fora atendendo à sua porta.
Minha vida era um clichê.
– Sim! Sim, ele está. Está dormindo, mas…
– Papai, eu preciso fazer xixi – O menininho disse.
– Entrem! Ahn… Eu vou acordá-lo.
Só no caminho para o quarto eu percebi a merda que tinha feito: deixei um desconhecido com uma criança entrar na casa de Harry.
Bom, mas o condomínio era super seguro. Eles deviam ter autorização para entrar, ou não estariam aqui.
Era nisso que eu pensava enquanto tentava acordar o Harry.
– Ei! – Eu chamei suavemente – Harry, acorda… Harry! – Chamei mais alto. – Você tem visitas! – Eu o sacudi de leve e ele despertou.
– Hum… Bom dia, – Ele sorriu. Ele e aquela bendita covinha que fez meu estômago revirar e eu esperava que fosse de fome.
– Harry, eu fiz uma besteira. Deixei um cara com um menininho entrar aqui.
– Um cara com um menininho… – Harry repetiu enquanto se levantava. Ele esfregou os olhos e se espreguiçou. – Relaxa, eu sei de quem você ta falando.
Ufa! Eu fiquei aliviada. Só me faltava um escândalo desses para completar a onda de desastre e clichê que minha vida estava passando.
Quando nós voltamos para cozinha, o desconhecido estava saindo do banheiro com o filho.
– E aí, Tommo – Harry cumprimentou. Tommo? Aquele nome me era familiar…
– Tio Hazzaaaa! – O menininho saiu correndo e abraçou as pernas de Harry.
– Bom dia, Freddie – Harry sorriu e pegou o menininho no colo.
– Eu não queria atrapalhar… – O tal Tommo começou a se justificar e lançou um olhar nada discreto para mim e depois para Harry.
– Você não tá atrapalhando nada… – Harry disse. – Aliás, vocês não estão se reconhecendo?
– Deveríamos? – Eu perguntei.
, esse é o Louis. Louis Tomlinson. – Harry disse e depois, virando-se para Louis, ele me apresentou – , lembra?
Senti meu rosto esquentar muito, com certeza devia estar parecendo um tomate de tão vermelha. Queria me esconder em qualquer lugar.
– Que cheiro bom – Freddie quebrou o silêncio.
– Alguém fez panquecas… – Harry disse e nos conduziu até a mesa de jantar.
… – Louis começou a falar – Nossa, você tá muito diferente.
Talvez eu estivesse, um pouco. Abandonei o cabelo liso e assumi meus cachos. Na época da escola, eu costumava usar o cabelo sempre preso e, por bastante tempo, eu os tingia de vermelho. Depois de adulta deixei o castanho escuro natural e me acostumei a usar meus óculos em público. Passava horas com dor de cabeça na escola por vergonha das piadinhas que ouvia. Eu usava aparelho fixo, então pelo menos os óculos eu tinha como evitar. Já o aparelho, devo confessar, foi um alivio quando finalmente pude tirar. A minha puberdade foi um pouco tardia, já que só no primeiro ano da faculdade eu desenvolvi peitos e bunda: na escola eu não tinha praticamente nada.
– Obrigada – Eu respondi, mas soou mais como uma pergunta.
Enquanto Louis cortava as panquecas em pequenos pedaços para o filho, lançava-me olhadelas nada discretas. Harry estava com um sorriso frouxo no rosto, mas estava ocupado com seus ovos mexidos.
– Você tem cachorro? – Freddie me perguntou, de boca cheia.
– Ei – Louis o repreendeu – Precisa engolir a comida antes de falar, rapazinho…
Freddie engoliu e então repetiu a pergunta.
– Não tenho – Eu respondi e então ele começou a tagarelar sobre seu cachorro, Bicky, um husky siberiano.
Eu me esforçava pra prestar atenção, mas minha mente estava em outro lugar, em outra época.
Louis era o melhor amigo de Harry. Os dois eram os mais populares do colégio e todas as garotas eram apaixonadas por eles.
Por vezes, enquanto estava estudando na biblioteca, ouvia as garotas conversarem sobre eles. Quem era o mais bonito? Quem já tinha par para o baile? Eu achava engraçado. Mas internamente concordava com elas: os dois já eram lindos naquela época.
E agora eu estava aqui, na casa de Harry, tomando café da manhã com os dois e filhinho lindo de Louis.
– Você também vai com a gente para Ice Montain? – Freddie perguntou.
– Ice Montain? – Olhei para Harry. Não tinha ideia do que aquilo significava.
– Siiiim! – Freddie subiu na cadeira de tanta empolgação e Louis o segurou pelas perninhas.
– É um parque de inverno – Harry disse – E fica nas montanhas – Ele sorriu e eu me perdi naquela covinha por um segundo a mais.
– Vamos, . Vai ser divertido – Louis me convidou, enquanto tentava fazer o filho sentar-se novamente.
– Quando vocês vão?
– Hoje! – Freddie respondeu.
– Vamos passar o final de semana em um dos chalés na montanha – Harry explicou.
E mais uma vez eu fui tomada por aquela sensação de não estar vivendo minha vida, de estar fugindo de todos os problemas.
– Você precisa mesmo se distrair… – Harry disse, segurando minha mão por cima da mesa.
Eu percebi quando a sobrancelha de Louis ergueu e deixou suspensa a colher com panquecas cortadas que levava à boca de Freddie.
– Paaai! – O garotinho protestou e Louis voltou a prestar atenção no que fazia.
– Harry, eu tenho tanta coisa para fazer. Você sabe…
– Sei sim, mas também sei que você precisa relaxar e se divertir. E segunda podemos terminar – Harry deu de ombros e no fundo eu já sabia que iria antes mesmo dele insistir. E isso me assustava, me deixava irritava comigo mesmo.
– Com licença – Eu disse para Louis e fiz um gesto para que Harry me seguisse até seu quarto. – O que tá acontecendo? – Eu perguntei, encostando a porta.
– Como assim?
– Harry… – Eu suspirei e passei as mãos pelo rosto. Me sentei na beirada da cama e Harry ficou de frente para mim. – Olha, não quero atrapalhar seus planos. Vocês claramente planejaram esse passeio e não sei se me encaixo nisso.
– Hey… – Harry agachou na minha frente, suas mãos apoiadas em meus joelhos. – Você não está atrapalhando nada e é claro que você se encaixa nisso. Senão, não te convidaria. – Eu fiz menção de falar, mas ele me calou e continuou – , eu sei o que vai dizer. Você realmente tem que fazer muita coisa em relação à casa. Mas não acho que é necessário fazer tudo correndo. Sei que já tem quase um ano do acidente, mas isso não significa que você precisa agir como se fosse forte o tempo todo, como se não precisasse de ajuda.
Eu mordia o meu lábio para controlar as lágrimas. Nunca fora uma pessoa emotiva mas, nestes últimos dias, eu me sentia mais sensível. Tudo era intenso, principalmente com Harry.
– Eu to aqui por você… – Nós nos levantamos e Harry me abraçou.
É surpreendente a forma como nos encaixamos num abraço, sem precisar dizer nada. Apenas sentindo tudo. Encostei meu rosto em seu peito, inalando seu cheiro suave e amadeirado. Fechei meus olhos por um instante e permiti que um pouco da tensão que eu vinha carregando no último ano se dissipasse.
Harry apertou os braços ao meu redor e pela primeira vez em muito tempo eu me senti em casa.

 

A estrada à nossa frente estava livre. A minha janela estava com o vidro um pouco aberto e a brisa gelada me fazia sentir viva. Afinal, eu estava. De uma forma que, arrisco me dizer, nunca havia me sentido antes.
No banco detrás Louis passava os dedos por entre os cabelos loiros do filho, que dormia tranquilamente. Vez ou outra eu o pegava me observando pelo espelho. Realmente não sabia o que pensar. Involuntariamente, eu sustentei seu olhar. Louis sorriu e eu retribuí. Ele e Harry sempre foram amigos e participaram da mesma boyband. Quando decidiram se separar, soube que Louis deu continuidade à sua carreira de jogador de futebol. A vida deles parecia uma enorme loucura, para dois garotos de uma cidadezinha.
Não podia ignorar minha curiosidade. O que havia acontecido com Louis nesses anos?
Harry dirigia cantarolando alguma música que eu não reconhecia. Às vezes me olhava de soslaio, como se para garantir que eu ainda estava lá.
Mais rápido do que eu esperava, estávamos estacionando no hotel. A fachada era toda de madeira, bem rústico.
Louis carregava Freddie no colo. Fomos até a recepção fazer o check-in e pegar nossas chaves.
– Bom, nos vemos mais tarde? – Louis perguntou. – Não vou acordar esse carinha aqui, tenho certeza que ele quer guardar toda energia possível para o parque.
Eu sorri e fiz um carinho de leve nos cabelos de Freddie.
Quando Harry abriu a porta de nosso quarto, eu realmente soltei um assobio. A vista era incrível. Estávamos no alto, muito alto. Era possível ver o parque no canto direito. Tudo estava salpicado de branco, mas neste momento a neve não caía.
Largamos nossas malas e Harry abriu uma garrafa de vinho. Por muito tempo ficamos em silêncio, apenas observando aquela vista incrível.
– É inspirador, não é? – Harry perguntou, depois de um longo gole. Ele mantinha os olhos perdidos lá fora. – Olhando para essa imensidão, me dá uma vontade de continuar, sabe? – Eu me virei para ele. – Quero dizer, olhe tudo isso! – Harry virou-se para mim. – Somos parte de algo muito maior, . E estamos aqui, agora.
O olhar de Harry era tão intenso que senti minhas bochechas esquentarem. Queria muito que fosse por causa do vinho.
– Não faz sentido, né… – Ele riu pelo nariz e balançou a cabeça. Virou-se e foi até o aparador onde estava a garrafa de vinho.
– Eu entendi o que você quis dizer, Harry. – Eu fui até ele. – É realmente inspirador.
Ele sorriu e terminamos nossa garrafa de vinho em silêncio. Observando e absorvendo a vista.

A lua já brilhava no céu, amarela e gigante. Harry e eu estávamos completamente agasalhados, assim como Louis e Freddie. Nos encontramos no hall do hotel e fomos até o parque. Mesmo com o frio, o garotinho não deixava de estar animado. Cada vez que ele ria, os olhos de Louis brilhavam. A relação deles era linda e era possível sentir o amor que os dois emanavam.
Quando chegamos ao parque, Freddie literalmente deu pulinhos de animação e saiu correndo com Louis para a área infantil dos brinquedos.
Harry e eu acompanhamos. Eu estava maravilhada com todas aquelas luzes brilhantes, estava me sentindo uma criança também.
O primeiro brinquedo que Freddie quis ir foi o carrossel. E eu só posso dizer que adorei. Depois paramos para um rápido chocolate quente e então seguimos para a fila do tiro ao alvo.
Louis e eu fomos péssimos, mas Harry conseguiu ganhar o carrinho de controle remoto para Freddie, além de um binóculos de visão noturna que o garotinho ganhara por conta própria.
Seguimos para a montanha russa que, para meu total alívio, era bem tranquila. Quando o carrinho chegou no topo, fizemos pose para a câmera e depois pegamos nossa foto estilo Polaroid.
Quando estavamos quase entrando na cabine da roda gigante, Freddie pediu para que Harry fosse com ele. Então fui com Louis.
Inevitavelmente, o brinquedo parou e, para meu desconforto, bem no alto. Não tinha medo de altura, mas preferia ficar com os pés bem apoiados no chão.
Eu tentava me distrair com a vista que, a noite, era ainda mais bonita por conta da lua e de todas as luzes.
– Ahn, … – Louis começou. – Eu sinto muito por seus pais… – Ele me olhou. – Eu não sabia, Harry me contou.
Eu sorri e apertei sua mão, soltando logo em seguida.
– Seu filho é lindo, Louis. Lindo mesmo.
– Freddie é incrível – Louis não conseguiu segurar o sorriso e eu senti meu coração se aquecer com aquele afeto todo.
O afeto de pai para filho. Algo que eu jamais sentiria novamente e havia sido totalmente displicente quando tinha.
Tossi para evitar a queimação na garganta e me remexi no assento quando percebi meus olhos marejados.
– Como ta a sua vida agora, depois da banda? – Eu perguntei a primeira coisa que veio à minha mente. Só queria me distrair.
– Eu voltei a jogar futebol… – Me surpreendi ao ver o sorriso tímido que Louis tinha. Aquele não era nada parecido com o Louis confiante que conheci na época da escola. – Sempre gostei disso, você lembra.
Eu assenti. Lembrava mesmo. Louis sempre carregava uma bola pra cima e pra baixo. Eu não entendia nada de futebol, mas estava torcendo por ele. Ele era bom e apaixonado pelo esporte. Posso dizer que foi uma surpresa quando soube que ele fazia parte da banda com Harry. Eu realmente não sabia que ele também era tão talentoso para música.
A roda gigante deu mais duas voltas e quando parou de novo, estávamos embaixo. Suspirei aliviada.
– Já vi alguns projetos seus. Você é ótima. – Louis disse e eu me surpreendi por ele saber qual era minha profissão.
– Obrigada… Eu realmente gosto bastante do que faço. – Eu sorri, enquanto o brinquedo ia parando lentamente.
Finalmente apoiei meus pés no chão e respirei aliviada. Senti a trava de segurança subir.
Louis segurou a minha mão e permanecemos sentados, enquanto todos os outros saiam.
– Eu adorei te reencontrar – Ele sorriu, acariciando minha mão, e eu retribuí o sorriso.
Antes que pudéssemos dizer mais alguma coisa, ouvimos a vozinha de Freddie gritando pelo pai.
– Isso foi ótimo! – Ele dizia, enquanto pulava na nossa frente – Tio Hazza tirou uma foto nossa, papai!
Eu olhei para Harry, que estava completamente maravilhado pelo sobrinho.
– O que vamos fazer agora? – Freddie perguntou, enquanto Louis o pegava no colo.
Então fomos ao carrinho bate-bate, ao pula-pula e terminamos a noite assistindo à uma peça de teatro.
Antes mesmo de chegarmos ao hotel, Freddie já estava completamente adormecido nos braços de Louis.
– Ele realmente aproveitou. – Eu comentei, ajeitando o capuz de Freddie.
– Querem tomar algo no bar do hotel? – Harry perguntou, quando entramos no hall.
– Não posso deixar meu bebê sozinho – Louis disse e senti vontade de abraçá-lo. – Mas vão vocês! – Louis chamou o elevador.
– Tem certeza? – Eu perguntei – Podíamos ficar no seu quarto… – Eu sugeri mas, ao olhar para Harry, percebi que ele não estava a fim de ficar no quarto.
– Não tem problema, – Louis sorriu. – Eu também to cansado. Nos vemos amanhã.

Harry e eu subimos e tomamos um banho rápido. Logo estávamos no bar do hotel. O lugar era enorme e a luz ambiente era baixa, o que tornava a atmosfera aconchegante e quente.
Estava lotado: jovens casais e grupos de amigos, recém casados em lua de mel e famílias inteiras.
Até conseguirmos encontrar uma mesa, Harry teve que parar umas 5 vezes para tirar fotos com fãs. Ele sempre era muito gentil com todas.
– Harry, ela é sua namorada? – Perguntou uma garotinha. Ela devia ter uns 8 anos e olhava para mim de soslaio.
Harry abriu um sorriso gigantesco e se agachou em frente a garotinha, pegando suas mãos.
– Essa moça aqui é muito especial – Harry falou baixinho e os olhos da garotinha se arregalaram – Mas você é mais – Ele sussurrou e ela se derreteu.
– Desculpa por isso – Ele deu de ombros quando, finalmente, conseguimos sentar em um reservado no canto direito do bar.
– Isso foi incrível, sério – Eu encontrei sua mão por cima do tampo da mesa e apertei de leve. Soltei rapidamente quando percebi o que tinha feito.
Um garçom veio anotar nossos pedidos e logo estávamos sentindo o álcool esquentar nossas entranhas.
Confesso que, secretamente, fiquei feliz por não sermos mais interrompidos. Sei que era um pensamento egoísta, aquelas garotas talvez jamais teriam a chance de encontrar Harry pessoalmente de novo mas, felizmente, ele parecia já ter atendido todas as fãs no local então pudemos aproveitar o resto da noite.
Talvez fosse o efeito do álcool, mas logo já não estava mais sentindo frio. Na verdade, eu me sentia realmente bem e era a primeira vez em muito tempo que isso acontecia.
Conversamos por horas. O assunto nunca morria e nunca perdíamos o contato visual. Por vezes seguramos a mão um do outro e, às vezes, esquecíamos de soltar. Eu tentava ignorar a sensação da pele de Harry contra a minha, o formigamento que eu sentia e tinha certeza que nada tinha a ver com o álcool.
Lentamente, o bar foi esvaziando. Estiquei o pescoço e olhei ao redor: só restávamos nós e uma mesa de jovens bêbados.
– Acho que é melhor a gente ir… – Eu disse, verificando as horas no celular. Já passava das três da manhã – Ou seremos expulsos.
Harry chamou o garçom e, com muitos protestos meus, pagou a conta sozinho.
Quando nos levantamos, senti o mundo rodar e perdi o equilíbrio.
– Wow… – Eu me apoiei em Harry.
– Você está bem? – Ele perguntou e eu ouvia o sorriso em sua voz. Ergui os olhos para confirmar.
Passei o braço ao redor da sua cintura e lentamente fomos saindo do bar, em direção ao elevador no hall do hotel.
– Eu to ótima! – Eu falei, talvez um pouco alto demais, já que o recepcionista atrás do balcão levantou os olhos para nos encarar. – Shiu! – Eu fiz e Harry riu alto, mas entramos no elevador antes que pudéssemos levar uma bronca.
… – Harry segurava minha mão, nossos braços estavam esticados e estávamos encostados em paredes opostas do elevador.
– Harry Styles… – Meu sorriso estava tão grande no rosto que sentia meus músculos repuxando. Já fazia muito tempo que eu não sorria assim.
Harry mal havia aberto a porta do quarto e eu já estava tirando meu casaco.
– Você não ta com calor? – Eu perguntei, jogando o casaco em cima da poltrona – Eu to morrendo de calor!
Tirei minhas botas e a blusa de frio que usava. Quando percebi, estava apenas de meias, jeans e sutiã preto rendado.
Harry estava parado na minha frente e ele nem disfarçava seu olhar.
De repente, meu coração disparou. Mesmo há metros de distância de mim, Harry tinha o poder de me causar essas coisas.
Senti toda minha inibição ir embora. Harry se aproximou um pouco, ainda mantendo certa distância entre nós.
Eu desabotoei meu jeans e o escorreguei pelas pernas, depois chutando-o com as meias. E então eu estava apenas de lingerie na frente de Harry. Me senti muito sóbria. Consciente de tudo ao meu redor, mas focada apenas nele.
Os olhos de Harry eram uma tempestade verde enquanto ele se aproximava de mim. Ele segurou minha mão, ainda distante e, lentamente, passeou os olhos por meu corpo. Foi como se ele estivesse tocando cada parte de mim e ainda assim, ele só me observava.
… – Ele sussurrou e finalmente, finalmente, se aproximou de mim. Acabando com a distância que estava me matando.
Harry me envolveu em seus braços, as pontas dos dedos deslizando por minhas costas e me fazendo arrepiar por completo.
Nossos olhos não se desgrudavam e, num movimento rápido, me livrei da jaqueta de couro e da blusa branca que ele usava.
Por um momento, minha atenção foi toda para as tatuagens dele. Eram várias. Uma borboleta no meio da barriga forte e rígida. Dois pássaros acima do peito. Outras muitas espalhadas pelos braços.
Não me contive e, com as pontas dos dedos, tracejei as tatuagens em seu tronco. Senti Harry se arrepiar. Eu ergui os olhos e sua cabeça estava inclinada para trás, sua garganta totalmente exposta pra mim.
Continuei deslizando os dedos por sua barriga, até os ossos do quadril. Harry ergueu a cabeça e encontrou meus olhos. Passeei meus dedos pelo cós de sua calça e derreti com o sorriso torto que apareceu em seus lábios.
Soltei seu cinto e então abri sua calça. Harry tirou a bota e depois a skinny preta.
Eu não aguentava mais ficar longe dele e, na verdade, também não queria. Me aproximei e nos abraçamos. Me encaixei perfeitamente em Harry. Ele baixou a cabeça e inspirou o cheiro do meu cabelo.
Fiquei na ponta dos pés e beijei sua clavícula. As mãos de Harry apertaram minha cintura. Lentamente subi os beijos para seu pescoço, minhas mãos brincando com seu cabelo. Ainda segurando minha cintura, Harry mantinha nossos corpos grudados. Seu calor emanava para mim e me deixava cada vez mais quente.
Mordi seu queixo de leve e Harry me encarou, enquanto soltava meu sutiã. Ele passou o nariz por minhas bochechas, sempre inspirando fundo.
– Meu Deus… – Ele sussurrou com a voz rouca – Seu cheiro…
Eu mantive os olhos fechados e inclinei a cabeça para que ele explorasse meu pescoço. Os lábios de Harry eram quentes e me beijavam devagar. Minhas mãos estavam indecisas entre seus cabelos e ombros.
Harry me segurou pelo queixo. Seus olhos eram a vista mais linda naquela noite. O toque dos seus lábios nos meus me fez sentir como se tivesse tomado um choque. Aquela era a melhor sensação que já havia experimentado. Harry manteve uma das mãos na parte de baixo das minhas costas, a língua acariciando a minha sem pressa alguma. Não me contive e soltei um gemido baixo durante o beijo. Harry mordeu meu lábio e sorriu com a boca ainda na minha.
– A gente não precisa fazer nada… – Ele disse, agora com os lábios no meu ouvido. Eu tentei ignorar o volume dentro de sua boxer pressionando a parte de baixo da minha barriga.
– Eu preciso de você. – Eu disse e me surpreendi com a verdade naquelas palavras.
Harry me encarou mais uma vez e me beijou de novo. Mas dessa vez, era um beijo com urgência, com desejo. Ele deslizou as mãos pelas minhas coxas e me pegou no colo, me fazendo enlaça-lo com as pernas. Sem quebrar o beijo, ele foi andando comigo no colo até o quarto. Antes de entrar, ele me apoiou na parede ao lado da porta e deslizou os lábios por meu pescoço, meu colo. Harry gemeu antes de mordiscar o lóbulo da minha orelha e eu sentia algo crescer dentro de mim, minha pele parecia pegar fogo. Harry me botou no chão e pressionou o corpo contra o meu.
Abri a porta e entramos no quarto. Harry encontrou meus lábios e, quando caímos na cama, ele ficou por cima de mim. Harry quebrou o beijo e se afastou para me observar novamente. O peso apoiado nas mãos que estavam ao lado do meu corpo. Eu o beijei e deslizei minhas mãos por dentro da boxer, sentido o tamanho e a rigidez de sua excitação. Ele gemeu meu nome, enquanto eu o acariciava e eu tirei sua boxer. Harry logo tirou minha calcinha. Ele me deu um beijo rápido e então começou a deslizar os lábios pelo meu pescoço, meu colo, por entre meus seios e antes que ele chegasse a seu destino final, eu já estava arfando. Engoli em seco, segurando o lençol. Mordi meu lábio com força quando senti a língua de Harry em mim. Inclinei a cabeça para trás e naquele momento só Harry e eu existíamos. Só nossos corpos importavam, as sensações que proporcionávamos um ao outro. Quando achei que não iria mais aguentar, Harry parou. Rapidamente ele abriu a gaveta do criado mudo e então vestiu a camisinha com movimentos hábeis.
Ele se posicionou em cima de mim, estava me acostumando a sentir seu peso.
Harry entrelaçou nossos dedos e segurou minha mão no travesseiro ao lado da minha cabeça. Ele manteve a testa junto a minha e eu fechei os olhos quando senti ele dentro de mim. O ritmo do nosso beijo diminuiu, à medida em que eu me acostumava com a sensação maravilhosa que Harry causava em mim. Ele começou a se movimentar, minhas coxas apertando Harry contra mim. Aquilo só era melhor que o beijo dele. Eu queria viver naquele momento para sempre. Nos movimentávamos juntos, meu suor se misturando com o dele. Harry apoiou o queixo no meu ombro, minha mão livre deslizando por suas costas.
E então aconteceu. Eu explodi em milhares de pedacinhos. Arqueei as costas, só para senti-lo mais e mais. Harry gemia meu nome e aquilo me fazia arrepiar, meu couro cabeludo completamente eriçado. E então foi a vez dele entrar em êxtase.
Aos poucos Harry foi parando, nossos dedos ainda entrelaçados. Por um breve segundo ele soltou o peso em cima de mim. Eu o abracei mais apertado. Quando Harry saiu de dentro de mim, eu reprimi um gemido de frustração.
Ele encaixou o corpo no meu, me abraçando de costas. Eu nos cobri com o edredom que estava embolado aos nossos pés e adormecemos logo depois.

 

Um feixe de luz entrava pela janela do quarto. Eu me espreguicei antes de abrir os olhos. Quando o fiz, me deparei com Harry. Ele dormia de bruços, um dos braços sobre a minha barriga. A boca ligeiramente aberta, o cabelo completamente bagunçado. Eu sorri e passei a mão por seu rosto. Ele não se mexeu.
Eu me sentia diferente. Meus músculos estavam doloridos, mas era uma sensação boa. Sorri ao me lembrar da noite passada. Da sensação do corpo de Harry junto ao meu. Arrepiei só de lembrar e então decidi tomar um banho.
Quando voltei para o quarto, Harry já estava acordado. O cabelo estava preso em um coque alto e ele vestia o roupão vinho e felpudo do hotel. Sorriu ao me ver.
– Bom dia – Ele se aproximou e me beijou, como se fosse a coisa certa a fazer. Por um momento eu congelei, mas então retribuí.
Não havia pensado em como seria o dia seguinte, mas ele fez parecer natural.
– Tudo bem? – Ele perguntou, segurando meu queixo. Os olhos esquadrinhando meu rosto. Senti algo se revirar em eu estômago. Malditas borboletas.
– Sim – Eu respondi e não consegui conter meu sorriso. Ele retribuiu meu sorriso e então mordeu o lábio. Eu não conseguia tirar os olhos dele e nem estava corando por causa disso.
Meu Deus, o que estava acontecendo comigo?!

Encontramos Louis e Freddie na mesa para o café da manhã. Freddie estava muito empolgado porque naquela manhã iriamos esquiar.
Bem, eles iriam. Eu ficaria no café, no topo da montanha, esperando.
– Mas eu posso te ensinar – Freddie dizia.
– Tenho certeza de que você é um ótimo professor, Freddie – Eu disse – Mas eu realmente não sou boa com nenhum tipo de esporte. – Eu dei de ombros e Harry e Louis riram. Com certeza estavam lembrando do meu desempenho nas aulas de educação física. Vergonhoso. Fiz cara feia para eles e terminamos o café.
Subimos a montanha pelo teleférico, que comportava duas pessoas por cadeira. Não era muito alto, mas usei isso como desculpa para agarrar o braço de Harry. Ele não pareceu se importar: durante todo o pequeno trajeto ele foi com a cabeça deitada em meu ombro.
Assim que chegamos, Freddie pegou a mão do pai e saiu correndo para a pista. Harry virou-se para mim.
– Pode ir – Eu disse e dei um tapinha na minha bolsa, indicando o livro que havia lá dentro – Eu trouxe companhia.
– Tem certeza que não quer tentar?
– Já tive minha cota de tombos nessa vida, Styles – Eu ri junto com ele.
– Até já – Ele se inclinou e me deu um selinho. E sim, eu me surpreendi. Parece que teria que me acostumar com isso. Não que eu estivesse reclamando, porque não estava mesmo.
Me acomodei em um dos reservados do café, que estava vazio, contando comigo e com um senhor ao fundo.
Já estava lendo há uns quarenta minutos. Minha xícara de chocolate quente quase acabando, quando senti alguém sentando ao meu lado.
Levantei os olhos bem a tempo de ver Louis tirando a touca preta que usava. Ele passou a mão para ajeitar o cabelo e sorriu.
– Ah. Oi, Louis! – Eu disse e me virei em direção à porta – Cadê os meninos?
– Ainda estão brincando – Ele respondeu, tirando as luvas – Eu precisava tomar algo quente.
Louis chamou o garçom e fez seu pedido. Eu coloquei meu marca página no livro e o fechei.
– Não acredito que você já cansou de brincar na neve! – Eu disse e ele riu.
– Tudo bem… Confesso que também queria um momento a sós contigo. – Ele deu de ombros e eu ergui as sobrancelhas, sentindo os cabelos da minha nuca se arrepiarem.
O café de Louis chegou e ele pegou a xícara com as duas mãos, para aquecê-las. Louis tomou um grande gole e eu aproveitei para acabar com meu chocolate quente que já estava morno.
– Como você está? – Louis perguntou e virou o corpo para mim, de modo que podíamos nos encarar. – Digo, com tudo isso que anda acontecendo na sua vida.
– Hum… – Eu respirei fundo. – Com certeza é a pior fase da minha vida. Mas acredito que tudo vai entrar nos eixos. – Por reflexo, olhei pela janela do café.
, sei que não somos próximos, mas queria que você soubesse que gosto muito de você. E te ver agora, depois de tanto tempo, parece ter despertado sentimentos em mim… – Louis deu um sorriso suave e pegou minhas mãos. As suas eram grandes e quentes. – Eu to aqui para você, sabe? – E dito isso, ele se aproximou o tanto que o espaço reduzido do reservado permitia. Os olhos azuis tão próximos, revezando entre minha boca e meus olhos. Engoli em seco.
O que estava acontecendo ali?
E então Freddie pulou no banco em frente ao nosso, nos fazendo dar um pulo. Harry olhava para mim com a expressão impassível e acho que isso foi pior do que qualquer outro sentimento que ele pudesse demonstrar naquele momento.
Parece que algumas coisas nunca mudam. Louis era o garanhão na época do colégio. Pensei que ele tivesse percebido que algo estava rolando entre mim e Harry, mas, pelo visto, ele achou melhor tentar a sorte.
Os quinze minutos seguintes que ficamos no café pareceram se arrastar. Eu só queria voltar para o quarto e conversar com Harry.
O trajeto de volta no teleférico foi dolorosamente silencioso. Aquilo era extremamente perturbador.
– Vou tomar um banho… – Harry disse, assim que entramos no quarto.
– Harry. – Eu chamei e botei a mão em suas costas. Ele se virou para mim – E-eu não sei o que aconteceu no café… – Eu comecei a falar, mas minha voz sumiu.
Ele me olhava com tanta intensidade que me deixava desconcertada. Harry balançou a cabeça e foi para o banheiro.
Enquanto ele tomava banho, a sensação de não pertencer a lugar nenhum se apoderou de mim.
O que eu estava fazendo? Não deveria estar ali. Viera até Holmes Chapel para encarar a situação horrorosa que a minha vida se transformara e, ao invés disso, estava brincando de me apaixonar por Harry Sytles.
Comecei a juntar minhas coisas. Era melhor voltar logo para cidade. Resolver o que precisava ser resolvido. E então o quê? Voltar para Londres, provavelmente. Seguir a vida. Sozinha. Como sempre fui.
– O que você está fazendo? – Harry perguntou, saindo do banheiro. Ele estava novamente com o roupão vinho e felpudo. Enxugava o cabelo molhado com uma toalha, mas parou ao me ver mexendo na minha mala.
– Eu acho melhor voltar para cidade… – Eu disse, dando de ombros. Como se não fosse nada demais. Dobrei uma blusa e botei dentro da mala.
… – Ele suspirou e eu senti meus olhos encherem-se de lágrimas. Harry parou na minha frente, pegando minhas mãos. – Me desculpa por ter agido feito um babaca. – Harry me olhava nos olhos e eu tive que usar toda minha força para não deixar as lágrimas escaparem.
– Eu não sou seu dono. Mas… fiquei sim incomodado com a situação no café. Me desculpa.
A minha vontade era dizer tudo o que estava se passando na minha cabeça. Que a noite passada tinha sido incrível, a melhor em muito tempo. Que os momentos que passávamos juntos me faziam ver que a vida ainda era boa. Mas simplesmente não podia. Não podia jogar esse fardo nas costas de Harry.
– Por favor… – Harry me abraçou, apoiando o queixo no topo na minha cabeça. Eu envolvi sua cintura com os braços. – Não me surpreende que o Louis tenha tentado se aproximar de você… Eu não contei a ele sobre nós. Achei que talvez você não gostasse… – Harry me apertou e eu inalei seu cheiro de banho recém-tomado.
De uns tempos para cá, minha vida só me surpreendia. Mas, desde que cheguei à Holmes Chapel, as surpresas eram boas. Eu nunca imaginei que meu lugar preferido seria nos braços de Harry.
Eu encontrei seus lábios e Harry me beijou da forma que eu gostaria de ser beijada naquele momento: lenta e demoradamente.
Passamos a tarde no parque de diversões e Freddie nos fez ir à todos os brinquedos. Harry não se esforçou para esconder que estávamos juntos: segurava minha mão e me abraçava nas filas para os brinquedos.
Em determinado momento, quando Freddie e eu estávamos comprando cachorro quente, percebi que Louis e Harry tinha se afastado de nós e conversavam com as expressões sérias. Fiquei curiosa, mas teria de esperar para saber o conteúdo da conversa.

Nós mal havíamos carregado o carro com as malas e Freddie já dormia pesadamente em sua cadeirinha no banco de trás.
A viagem de volta foi silenciosa, mas era um silêncio tranquilo. Quase que recompensador.
Quando chegamos, Harry insistiu para que Louis e Freddie passassem a noite no apartamento, mas Louis explicou que tinha uma coletiva na manhã seguinte, por isso precisava ir.
Harry ajudou Louis a passar as malas de seu carro para o dele e Freddie só acordou para se despedir da gente, logo depois voltou para sua cadeirinha e dormiu de novo.
– Ahn… – Louis me chamou. – Eu queria me desculpar por hoje mais cedo. – Ele passava a mão pelo pescoço. – Eu fui totalmente invasivo. Não tinha ideia de que vocês estavam juntos… – Ele olhou para Harry, que tentava, sem sucesso, acordar Freddie. – Mas o que eu disse é verdade: eu estou aqui, sempre que precisar. Você ganhou um amigo.
– Obrigada, Louie. – Eu sorri e o abracei. Aliviada por termos resolvido aquela situação constrangedora.
Não queria que as coisas ficassem ruins entre Harry e Louis, mas pela forma como eles se despediram, logo imaginei o conteúdo da conversa que tiveram mais cedo e percebi que estava tudo bem.
Assim que entramos no apartamento de Harry, senti o cansaço do dia e da viagem caírem sobre mim. E acho que Harry também. Só tivemos energia para um banho rápido e depois fomos dormir.

Na manhã seguinte, quando acordei, Harry não estava na cama. Eu me revirei e então ouvi sua voz em algum lugar do apartamento. Lentamente eu me levantei e fui até a cozinha. Harry não estava lá, mas havia feito café. Eu me servi de uma xícara e saí à sua procura.
Encontrei-o em seu escritório. Ele estava sentado na cadeira, falava ao celular. O cabelo estava preso em um coque e Harry sorriu ao me ver.
Eu me aproximei e lhe dei um beijinho rápido. Enquanto Harry conversava ao telefone, eu passeei por seu escritório, bebericando meu café.
Estava maravilhada com a quantidade de prêmios que haviam ali naquela sala.
– Bom dia. – Harry disse ao meu ouvido, envolvendo minha cintura com os braços. Já tinha terminado sua conversa ao celular.
– Olá. – Eu me virei e sorri ao encarar aqueles olhos lindos e claros. – Tudo bem? – Eu perguntei, me referindo ao celular que agora estava em cima da mesa.
– Ah, sim… – Harry pegou minha mão e fomos para a cozinha. – Era meu empresário.
Eu sentei ao seu lado e Harry pegou uma torrada. – Eu tinha esquecido completamente da minha agenda desse mês.
– Agenda?
– Sim… – Harry suspirou, mordendo sua torrada. – Tenho uma mini turnê nos Estados Unidos.
– Sério?! – Meu tom pareceu decepcionado demais e eu me repreendi mentalmente por isso. – Por quanto tempo?
– Três semanas, inicialmente. – Harry me encarou e eu pude ver nos olhos dele que ele sentia o mesmo que eu.
Três semanas longe dele.
Meu estômago revirou, mas não foi de fome. O lado racional do meu cérebro estava gritando comigo por parecer uma adolescente apaixonada. Mas a verdade era que, depois de tanta dor e sofrimento, eu finalmente estava voltando a ser eu mesma e isso era graças a Harry. Ele estava me mostrando que a vida valia a pena e eu estava me acostumando com sua presença mais rápido do que gostaria de admitir.
Harry entrelaçou seus dedos com os meus e beijou minha mão.
– Quando você embarca? – Eu tentei parecer despretensiosa e então mordi um pedaço de torrada.
– Amanhã de manhã.
Senti meu coração quebrar um pouquinho, mas forcei um sorriso.
Afinal, aquela era a vida dele: sempre viajando, meses e meses longe de casa. Mas Harry amava o que fazia, e eu tinha certeza disso.
– Me desculpa por isso. – Ele começou, mas eu o interrompi.
– Ei, você não precisa me pedir desculpas por nada. É o seu trabalho e eu sei que você ama isso. São três semanas, vai passar rápido.
Dei o melhor sorriso confiante que consegui naquele momento e Harry me retribuiu. Eu queria falar várias coisas para ele, mas ainda sentia que não era o momento certo. Por uma fração de segundo, ao olhar aqueles olhos que tinham se tornado minha paisagem preferida, eu podia jurar que Harry também queria me dizer algo a mais.

Foi como se até o clima estivesse ao nosso favor: choveu o dia todo e fez um friozinho delicioso. Harry e eu usamos isso como desculpa para ficarmos em casa e, claro, não desgrudamos um do outro.
Eu o ajudei a arrumar a bagagem, ele iria levar apenas uma mala grande, e ele deu um telefonema para Martha, avisando-lhe da viagem.
– Mas e o seu cabelo? – Eu perguntei e ele franziu o cenho.
– O que tem o meu cabelo?
– Você não precisa levar todos os seus produtos? – Eu reprimi o riso e Harry revirou os olhos, sorrindo logo em seguida.
– Eu nem uso tanta coisa assim, ta? E o pessoal da produção cuida disso. – Ele deu de ombros e corou um pouco.
Era realmente estranho pensar na proporção do sucesso dele. Mundialmente conhecido. Do jeito que ele sempre quis.
– Eu tenho muito orgulho de você, sabia? – Eu disse, antes que pensasse demais e resolvesse ficar quieta. – Você conquistou tudo o que sonhou. Você merece todo esse sucesso, Harry.
Harry ficou mais vermelho ainda. Ele me abraçou, escondendo o rosto na curva do meu pescoço. Eu tentei ignorar o arrepio que ele me fez sentir.
– Vem comigo. – Harry pediu e eu senti meu coração disparar.
Por um momento, eu imaginei como seria. Três semanas viajando com Harry pelos Estados Unidos. Assistindo à todas suas apresentações de um lugar privilegiado.
– Eu não posso… – Respondi, meio chorosa. Ainda precisava resolver muita coisa e tinha uma reunião com os advogados do meu pai.
– Você vai esperar por mim? – Harry perguntou e senti um pouco de insegurança em seu olhar.
– O tempo que for necessário. – Ele sorriu com minha resposta e passou o polegar por minha bochecha, me fazendo fechar os olhos ao sentir seu toque.
– Eu sei que você voltou para Holmes Chapel pelo pior motivo possível, mas eu fiquei muito feliz de te reencontrar. Agora que você voltou para minha vida, , não vou te deixar ir embora. Nunca mais.
– Você promete?
– Prometo.

Eu odiava despedidas.
Meus olhos estavam marejados desde que o despertador tocou naquela manhã, às 05H00 em ponto.
– Ah, eu não quero ir! – Harry choramingou, me abraçando pela cintura.
– Eu sei, eu sei… – Eu disse, enquanto me aconchegava mais nele. A cama estava tão quentinha e estávamos tão sonolentos que parecia um crime ele ter que levantar.
Mas foi o que aconteceu.
E agora estávamos na garagem do prédio dele, prolongando o momento em que teríamos que nos despedir.
– Precisamos nos apressar… – Mark, o seu empresário, nos disse pela terceira vez.
– Merda… – Harry xingou baixinho e me abraçou com mais força. – Vou fazer essas três semanas passarem voando, você vai ver.
– Eu sei que vai. – Eu sorri, sentindo meus olhos ficarem embaçados.
Então era isso.
O que havia começado como um desastroso retorno à minha cidade natal para cuidar dos assuntos inacabados dos meus pais falecidos, acabou se tornando a melhor coisa da minha vida.
Eu estava apaixonada por Harry Styles.
– A gente vai se falar sempre que possível. – Harry prometeu, me dando vários selinhos.
– Vai encantar o mundo, Styles. Eu estarei aqui quando você voltar.
O beijo de despedida foi o melhor de todos, até aquele momento. E assim que os lábios de Harry separaram-se dos meus, eu já estava com saudade.
Merda.

Quando Harry saiu, eu voltei para cama. Abracei o travesseiro dele, sentindo seu cheiro, e logo adormeci de novo.
Acordei com a luz forte do sol batendo no rosto e demorei para levantar.
Estava cansada de me sentir culpada por estar feliz. Uma coisa horrível havia acontecido em minha vida, mas isso não significava que eu deveria ser triste até o final dos meus dias. Pelo contrário.
Em tão pouco tempo Harry havia me mostrado que havia vida, e que ela podia – e devia – ser linda. E ser bem vivida. E eu estava disposta a fazer isso. Mesmo que eu tivesse recaídas, eu não ia desistir da minha felicidade.
Harry havia insistido tanto para que eu ficasse no apartamento e, sendo sincera, eu não queria mesmo ficar na minha antiga casa.
Porém, eu ainda tinha muita coisa para resolver por lá. Finalmente consegui levantar e, depois de um banho rápido e um café mais rápido ainda, fui caminhando até a casa.
No caminho pensei em passar na padaria e perguntar à Martha se ela conhecia alguém para me ajudar a terminar de embalar as coisas. Mas a ideia de ter algum desconhecido comigo enquanto eu, provavelmente, estaria chorando, não me pareceu das melhores.
Harry já havia providenciado caixas e plástico bolha e fitas o bastante para que eu terminasse o trabalho. E foi o que fiz. Assim que cheguei, conectei meu celular nas caixinhas de som e deixando no modo aleatório, consegui terminar. É claro que eu estava motivada, mas isso não significa que não quis desistir pelo menos umas dez vezes.
Quando peguei os nossos álbuns de família, pensei que não aguentaria. Peguei uma foto do casamento dos meus pais e fiquei admirando por alguns momentos.
Se eu soubesse que teria tão pouco tempo com eles… Mas eu não sabia, e nada do que eu fizesse agora mudaria o que aconteceu.
Respirei fundo e levantei.
Finalmente havia acabado. Toda a minha casa estava em caixas. A minha infância toda e a vida dos meus pais reduzida a cubos de papelão.
Terminei de carregar o carro que havia alugado com todas as coisas que iriam pra doação e, pela última vez, tranquei a porta.

No caminho para a biblioteca da cidade, liguei para o advogado do meu pai. A secretária atendeu e me informou que o doutor Greene estava em um congresso na Alemanha, mas seu filho, Trevor, me encontraria no dia seguinte no almoço, para resolvermos as questões legais. Ela me passou o endereço do restaurante e eu agradeci.
Chequei meu celular mas ainda não havia nenhuma mensagem de Harry. Ele ainda não devia ter pousado em Nova York. Ou talvez já estivesse muito ocupado.
Me repreendi mentalmente por já estar sentindo tanta falta dele. Não havia nem 24 horas que estávamos separados e eu só pensava no momento em que ele retornasse para casa.
Eu realmente precisava me manter ocupada. Tudo isso era novo para mim e eu não sabia como agir. Todos esses sentimentos me atingiam de uma vez. O luto, a tristeza, o desespero. Tudo sumia quando Harry estava comigo. E agora ele não estava. Não era justo que eu descarregasse todo esse fardo nele, mas não podia negar que tudo era mais fácil quando ele estava comigo.
Estacionei em frente ao prédio da biblioteca e, antes de descer, prometi para mim mesma que essa situação não me tornaria uma pessoa carente e dependente. Eu jamais seria assim.

Estava sentada no sofá incrivelmente macio de Harry, tomando uma taça de vinho. Já passava das nove e eu me sentia extremamente cansada. Doei todos os livros que meu pai mantinha em casa, assim como as mesas e os materiais para desenho. Alguém faria bom uso daquilo.
Estava lutando contra o sono quando meu celular tocou. Era Harry, em chamada de vídeo. Rapidamente passei os dedos por entre meu cabelo e ri sozinha da minha atitude. Tão patética.
– Hey! – Ele sorriu para mim e eu retribuí. – Desculpe não te ligar antes. Mas já saí do avião para uma entrevista por telefone com uma rádio e então a gravação de um programa de auditório.
– Tá tudo bem, não precisa se explicar. – E não precisava mesmo. Eu tinha consciência de que as coisas seriam assim daqui em diante. – Eu terminei de arrumar as coisas lá em casa… – Eu dei de ombros.
– Sério? Poxa, eu deveria estar com você… – A expressão de Harry mudou e eu me senti culpada.
– Não, Harry. Você está exatamente onde deveria estar. Eu to bem, e precisava acabar com aquilo o quanto antes.
Harry sorriu.
– Eu já estou com saudade…
– Eu também. – Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, alguém chamou Harry do outro lado da sala em que ele estava.
, eu preciso ir. Te ligo assim que conseguir, ok?
– Tudo bem, beijo.
Ele me mandou um beijo e desligou. Eu terminei minha taça de vinho e finalmente fui dormir.

O restaurante que iria encontrar Trevor Greene era na avenida principal da cidade, o que facilitou bastante para encontrar. Eu cheguei adiantada, mas agora o senhor advogado já estava 15 minutos atrasado. Nada me irritava mais do que atrasos. E eu estava com fome, então meu humor não era dos melhores.
Desisti de esperar e pedi uma salada para o garçom e, assim que ele saiu, o advogado chegou.
– Senhorita , me perdoe pelo atraso. Sei o quão desagradável é isso, infelizmente fiquei preso em uma reunião. – Trevor Greene disse num fôlego só, enquanto eu levantava para cumprimentá-lo e ele sacudia minha mão freneticamente.
– Tudo bem, sr. Greene. Tudo bem… – Eu tentava soltar minha mão, mas ele levou um segundo a mais para perceber o que estava fazendo. Quando finalmente soltou minha mão, nos sentamos. O garçom trouxe minha salada e anotou o pedido do senhor Greene.
– Novamente me desculpo por meu pai não poder assumir seu caso. Ele não poderia faltar à esse congresso, mas já me passou todos os pontos do seu caso. Não é nada muito difícil, devo dizer. – Trevor dizia, enquanto tomava grandes goles de água.
– Okay… Quanto mais rápido resolvermos isso, melhor. – Eu disse e só então ele me encarou.
Trevor devia ser um pouco mais velho que eu. Os cabelos pretos muito bem penteados para trás, formando um leve topete. Olhos castanhos escuros. Um terno azul bem escuro, que caía muito bem em sua estatura alta e forte.
– N-não me leve a mal – Eu gaguejei – Mas nunca vai ser bom discutir sobre as posses de seus pais falecidos… – Minha voz foi sumindo e eu tomei um gole do meu suco de laranja.
– Eu imagino. – Trevor me lançou um meio sorriso simpático e então nossos pratos chegaram.
Enquanto nós almoçávamos, fiquei me perguntando por que não tinha marcado um horário com ele em seu escritório, invés de aceitar um almoço. Era uma situação totalmente desconfortável!
Trevor pareceu ler meus pensamentos, porque começamos a conversar trivialidades. E só depois da sobremesa é que, de fato, fomos aos assuntos legais. Ele começou me dando seus pêsames, e eu achei bem atencioso de sua parte.
Eu já sabia que a casa seria minha, mas não queria ficar com ela. Trevor iria cuidar da venda para mim, assim como o chalé que tínhamos próximo às montanhas. Aposto que todos os vizinhos ficariam escandalizados com a minha pseudo frieza. Mas eu não me imaginava morando naquela casa e muito menos passando férias no chalé. O melhor era vendê-los.
Resumidamente, todas as posses dos meus pais passaram para mim. E nada daquilo importava.
– Bom, isso é tudo, senhorita .
– Por favor, me chame de . – Era muito estranho alguém da minha idade me chamando de senhorita. Formalidade demais, até para uma fã de Jane Austen.
– Okay, … – Trevor sorriu e então tirou uma pasta fina e transparente de dentro da maleta. – Ah, sim. Ainda temos isso. Foi o último documento que seu pai adicionou ao testamento. São algumas anotações para um projeto.
– O quê? – Eu abri a pasta e peguei as folhas. Eram apenas anotações. E o endereço do terreno que meu pai havia comprado para construir aquele projeto. – Meu pai deixou um projeto para mim?
– Parece que sim. – Trevor sorriu novamente, enquanto eu olhava dele para as folhas em minhas mãos. – Bom, realmente agora é tudo. Vou arranjar a papelada das vendas dos imóveis e entro em contato com você.
– Ótimo! Ótimo… – Eu levantei junto com ele e, dessa vez, ele não chacoalhou minha mão compulsivamente – Obrigada, sr. Greene.
– Por favor, me chame de Trevor. – Ele pagou a conta e saiu, me deixando na mesa ainda admirando as anotações.

Eu estava no apartamento de Harry, admirando a vista que ele tinha da cidade. Tentava não pensar no projeto inacabado de meu pai, mas era em vão.
Derrotada pela curiosidade, peguei a pasta e sentei no sofá. Examinei as medidas do terreno e, se eu não estivesse enganada, o endereço não era tão distante do apartamento. As medidas do terreno seriam ótimas para o projeto que meu pai tinha em mente. O que só provava que ele era mesmo muito bom no que fazia.
Tirei uma das folhas de anotações de dentro da pasta e um papel dobrado caiu no chão. Ao desdobrar, reconheci a letra de meu pai:

Querida ,
Este é o projeto da minha vida.
Por isso gostaria que a melhor arquiteta que conheço termine-o.

Minha garganta fechou e eu senti as lágrimas embaçarem minha vista. Apertei a folha entre os dedos.

Quero que você saiba que eu tenho muito orgulho de você, filha.
Nunca duvide de seu talento.

Com amor,
Papai.

Não sei por quanto tempo eu fiquei largada no sofá, deixando minhas lágrimas escorrerem livremente.
Mas eu senti quando passou. E foi diferente de todas as outras vezes em que eu havia sofrido a perda deles. De alguma forma, eu sabia que precisava seguir em frente. Eles esperavam isso de mim. E era o que eu faria.

A primeira semana sem Harry passou rápido. Nos falamos bem pouco, mas ele sempre me mandava pelo menos uma mensagem todos os dias.
Eu continuava procrastinando o início do projeto. Estava cheia de dúvidas e inseguranças. Queria que tudo fosse perfeito, perfeito a nível de meu pai.
Por algum motivo, não contei a Harry sobre o presente que havia ganhado. Apenas dias mais tarde, quando estávamos em uma vídeo chamada, foi que lhe contei.
Ele ficou muito animado por mim e então, todos os dias, me perguntava como estava meu progresso.
– Na verdade, não fiz nada ainda… – Eu disse e tomei um gole do meu chá de camomila com erva doce. Eram três da manhã e eu estava sem sono algum. Harry havia acabado de chegar ao hotel, depois de uma apresentação em Chicago.
– Você já foi ver o terreno? – Harry perguntou e, pela minha expressão, ele soube a resposta. – Queria estar ai para ir com você… – Ele sorriu, evidenciando sua covinha.
– Só mais duas semanas! – Minha esperança era de mudar o assunto, porém era bem verdade que eu já estava louca de saudade.
– Na verdade, eu preciso te falar uma coisa… – Harry disse e coçou a nuca. Na fração de segundo em que ele demorou para voltar a falar, eu consegui imaginar os piores cenários possíveis. – Mark adicionou mais uma semana na agenda. Alguns shows venderam muito rápido, então vamos precisar de datas extras. – Ele deu de ombros e sorriu envergonhado, enquanto eu soltava o ar lentamente, agradecida por não ser nada de ruim.
Conversamos por mais um tempo e Harry me fez prometer que iria conhecer o terreno no dia seguinte.
Então, para cumprir minha promessa, assim que amanheceu, eu me levantei e tomei um longo banho quente revigorante e dirigi até o local do terreno.
Era na área rural da cidade e haviam poucas casas por ali. Logo encontrei o lugar e estacionei o carro, observando o terreno vazio em minha frente.
Peguei meu bloco de anotações e um lápis e deixei minha mente trabalhar. Já havia memorizado a maior parte das anotações iniciais que meu pai fizera e já conseguia praticamente visualizar a casa que ocuparia aquele espaço.
Estava perdida em meu mundo particular quando alguém tocou meu ombro e eu pulei, me assustando de verdade.
– Me desculpa, ! Pensei que tivesse me escutado te chamar! – Trevor Greene estava parado em minha frente. O cabelo preto estava mais despojado do que em nosso primeiro encontro oficial e ele usava moletom e camiseta.
– Trevor! – Eu disse, me encostando no capô do carro. – Você me assustou de verdade.
– Me desculpa, você está bem? – Ele perguntou, tocando meu ombro. Eu respirei fundo e assenti. – Estava me perguntando quando você viria. – Trevor disse e indicou o terreno atrás de nós com a cabeça.
– Como assim? – Eu franzi o cenho e guardei meu bloco de anotações.
– Conhecer o terreno… Eu cuidei da compra dele para o seu pai e ele me disse que iria deixar o projeto para você. – Trevor deu de ombros. Ele parecia envergonhado. Não era algo tão estranho. Afinal, Trevor e o pai eram advogados de meu pai e também eram amigos. Como se lesse meus pensamentos, Trevor acrescentou: – Espero que isso não seja estranho, de alguma forma.
– Não! Não é… Eu demorei um pouco para vir porque ainda estava esvaziando a casa, então… Isso levou um tempo. – Eu expliquei e coloquei as mãos nos bolsos do meu jeans escuro.
– Você quer tomar um café? – Trevor perguntou. – Eu moro ali na frente. – O terreno ficava entre duas casas e a da esquerda, de um azul muito vivo, era a de Trevor. – Conheço uma equipe que pode servir para sua mão de obra.
– Claro, vamos lá. – Eu tranquei o carro e fomos até a casa de Trevor.
Assim que nos aproximamos do portão, três enormes golden retrievers vieram nos receber.
– Você tem medo de cachorros? – Trevor perguntou, antes de abrir o portão.
– Não tenho, não. – Ele então abriu o portão e eu me abaixei para brincar com os cachorros. Eles eram lindos e estavam perfumados.
– Eles acabaram de tomar um banho. – Trevor disse, abaixando-se ao meu lado e brincando com os cachorros também. – Essa é a Tayla, a mais velha. E esses dois são Kripke e Peanut. – Trevor me apresentou e assim que ele disse Peanut, o cachorro lhe deu uma lambida na bochecha.
Nós seguimos para a casa. Reparei que era térrea e bem espaçosa. A sala de visitas estava à esquerda do hall, à direita, a sala de jantar. Por um longo corredor, chegamos à cozinha e pude vislumbrar o quintal na parte de trás de casa. Havia uma piscina em forma de gota do lado direito do quintal e um portão baixo para separar o gramado que reconheci como sendo o cantinho dos cachorros.
Eu me sentei enquanto Trevor preparava um café.
– Seu pai sempre falava muito bem de você. – Trevor disse. – Ele tinha muito orgulho da filha que se tornara arquiteta.
Trevor sentou-se à minha frente, com duas xícaras de café fumegante.
– Eu não consigo nem imaginar pelo o que você está passando. Mas se eu puder te ajudar com alguma coisa, pode me dizer.
Eu sorri e tomei um gole do café. Se essas palavras tivessem chegado a mim algumas semanas atrás, eu provavelmente já teria fugido, para que ele não me visse irromper em lágrimas.
Hoje eu me sentia uma pouco mais forte, então aceitei suas palavras.
– Obrigada. – Eu agradeci e, antes que Trevor pudesse falar mais alguma coisa, os cachorros passaram correndo e trombaram na porta da cozinha.
Eu não contive o riso e Trevor levantou para abrir a porta para eles.
– Eles não param um segundo!
Pegamos nossas xícaras e terminamos o café na varanda que dava para o quintal dos fundos.
Foi uma manhã muito agradável. Trevor me deu dicas sobre a equipe de mão de obra, que era a mesma que havia feito a reforma em sua casa.
Tomamos duas xícaras de café, observando a festa que os cachorros faziam no quintal.
Quando o sol começou a esquentar, eles deitaram para descansar e eu levantei para ir embora.
– Obrigada pelo café. – Eu agradeci, já na porta da casa.
– Imagina. Vamos fazer isso mais vezes. – Trevor sorriu e eu segui para o carro.
Estava me sentindo incrivelmente bem e otimista. Cheia de ideias, assim que cheguei ao apartamento de Harry, comecei a trabalhar no novo projeto.

Mais uma semana sem Harry havia se passado. As chamadas de vídeo agora eram bem raras, mas as mensagens diárias continuavam e esse era o melhor momento do meu dia.
Eu estava tão absorta no trabalho que conseguia passar o dia inteiro sem lembrar dele. A construção começaria na próxima semana e eu estava muito ansiosa. Não via a hora do projeto ganhar vida.
Era noite de sexta e mais uma vez eu estava na companhia de uma taça de vinho. Resolvi ligar a tv, talvez algum filme chamasse minha atenção. Harry ainda não havia aparecido e eu não me lembrava em qual cidade ele estava.
Passando de um canal a outro, o rosto de Harry apareceu na tv. Era um programa ao vivo e ele estava respondendo a alguma pergunta do apresentador.
Aumentei o volume, dando um gole no meu vinho branco.
– E como você se vê daqui a dez anos, Harry? – O apresentador perguntou. Harry passou os dedos por entre os cabelos longos. Eu quase podia sentir o cheiro de seu shampoo através da tela.
– Essa é uma pergunta complicada… Eu estou feliz com a minha vida atual. Mas, em dez anos, gostaria de diminuir o ritmo, talvez. Ficar mais tempo em casa. Aproveitar as pessoas ao meu redor.
– Então você tem uma pessoa especial em Holmes Chapel?
– Eu definitivamente tenho uma pessoa especial em Holmes Chapel. – Harry disse e sorriu abertamente, deixando a covinha aparecer em seu rosto.
Meu coração disparou. Eu realmente me sentia uma adolescente vendo aquilo.
O apresentador pediu a Harry que cantasse e assim ele fez.
Eu era a pessoa especial de Harry. Eu era pessoa especial de Harry? Ah, meu Deus. E se eu não fosse a pessoa especial de Harry? Ele podia estar falando de qualquer uma! Podia estar falando de sua família, podia estar falando da Martha!
É claro que ele não estava falando de mim… Por que ele estaria falando de mim?
Só quando a garrafa de vinho esvaziou que eu percebi que estava surtando. E sem motivo, talvez.
Desliguei a televisão. Não queria mais ouvir Harry cantando. Cantando para sua pessoa especial.
Fui para a cozinha e abri outra garrafa. Fiz uma nota mental que eu precisara repor a adega de Harry antes dele voltar. Para ele desfrutar de bons vinhos com sua pessoa especial. Estava na segunda taça da segunda garrafa, quando meu celular começou a tocar. O barulho estridente no silêncio me assustou e eu acabei derrubando a taça cheia. Ela se espatifou em milhares de pedacinhos no chão da cozinha.
– Merda! – Eu corri até o sofá, onde estava meu celular e atendi sem olhar o visor. – Sim?!
! – A voz de Harry soou alta em meu ouvido. – Ei, não to te vendo… – Só então eu percebi que era chamada de vídeo e posicionei a tela em meu rosto. – Você estava dormindo?
– Não, eu não estava dormindo. Eu estava em casa, digo, na sua casa, porque eu não tenho uma casa. E ai eu liguei a tv e lá estava você: lindo e sorridente cantando para sua pessoa especial! – As palavras saiam da minha boca sem filtro algum e no final da frase, eu já estava estridente.
Harry franziu o cenho, reprimindo o riso.
, você está bêbada?
– Talvez eu esteja. E talvez eu tenha quebrado uma taça sua. E talvez a cozinha esteja uma bagunça. E talvez você tenha uma pessoa especial!
Finalmente Harry deixou a gargalhada sair.
– Você viu o programa então, hã… – Ele passou a mão pelos cabelos, jogando-os para trás. – , olha para mim.
Harry pediu e depois de um segundo de relutância, eu olhei. Ele estava sorrindo.
– Você é a minha pessoa especial.
– Eu sou? – Talvez fosse todo o vinho que eu tomara, mas senti meu rosto esquentando de repente.
– É claro que é! – Harry suspirou, ainda sorrindo. – Não tem mais ninguém além de você.
Aquelas palavras me deixaram sóbria. E então eu fiquei extremamente envergonhada por ter pensado o contrário.
Nós conversamos por quase meia hora, até alguém da equipe de Harry ir buscá-lo. Antes de se despedir, ele disse que mais uma semana fora adicionada à agenda. Eu respirei fundo e assenti.
– Eu estarei aqui quando você voltar. – Eu disse, antes de Harry desligar.

A obra do projeto finalmente havia começado e eu estava adorando esse retorno ao trabalho. A minha vida esteve tão bagunçada que eu me esqueci o quanto gostava de trabalhar e eu realmente era boa naquilo.
Eu via Trevor com frequência mas, como ele estava sempre correndo de uma reunião para outra, mal tínhamos tempo para conversar.
O dia havia sido tão corrido que não consegui nem parar para almoçar e já passava da hora do jantar, então resolvi passar na padaria da Martha e pegar algumas das delicias de lá.
Assim que desci do carro, uma das funcionárias estava fechando a porta da padaria.
– Ah, não! – Eu pensei alto demais e a garota virou-se para mim. – Desculpa! Eu me apressei em dizer.
A garota apertou os olhos, me encarando e então se aproximou.
! – Ela jogou os braços ao meu redor. – Ah, meu Deus. A Martha me falou mesmo que você havia voltado. Eu não via a hora de te encontrar! – A garota me soltou e se afastou, ainda me encarando com os olhos bem abertos. – Você não lembra de mim, né? – Ela riu, enquanto eu balançava a cabeça.
– Pamela Allman, do primeiro ano. – Ela sorriu e então eu lembrei.
Pamela e eu estudamos juntas no primeiro ano, mas ela se mudou para Liverpool quase no final do semestre. Ela era uma das poucas pessoas com quem eu conversava e era super agradável.
Mas estava completamente diferente. Na adolescência, Pamela usava os cabelos longos e loiros e agora eles estavam curtíssimos e tingidos de preto azulado, o que só destacava seus olhos azuis. Ela sempre fora mais desenvolvida do que eu e acabou ficando mais alta também.
– Pamela! Oi! Nossa, você está muito diferente.
– Estamos as duas! – Ela riu e deu um tapinha no meu braço. – Você queria alguma coisa daqui? – Ela indicou a padaria com a cabeça.
– Ah, não tem problema. Eu peço alguma coisa em casa.
– Não mesmo! Temos muita conversa para colocar em dia. – E assim Pamela abriu a porta da padaria e me puxou para dentro.
Pamela me contou que havia estudado gastronomia com especialização em pâtisserie, assim como sua mãe – e se eu me lembrava bem, os bolos e doces delas eram os melhores que já havia provado! – E que estava de volta à Holmes Chapel há alguns anos, já que Martha tinha lhe oferecido um trabalho.
– Meu Deus, me desculpa! – Pamela disse, limpando o canto da boca com um guardanapo. Estávamos sentadas em uma das poucas mesas que haviam na padaria e eu devorava meu prato enquanto ela falava. – Eu estou falando aqui sem parar, você deve estar cansada.
Eu neguei com a cabeça, já que a boca estava cheia.
– Desculpa, eu estava morrendo de fome. Obrigada por me salvar!
Eu ajudei Pamela a retirar os pratos da mesa e insisti para lavar a louça. Estava prestes a entrar no carro, quando ela me chamou.
– Eu sei que você já deve ter ouvido isso um milhão de vezes, mas eu sinto muito por seus pais.
Eu sorri e agradeci. E então me ocorreu que minha decisão de ficar em Holmes Chapel estava certa. Do contrário, as pessoas sempre lembrariam do acidente dos meus pais quando me vissem de passagem pela cidade. Mas, ficando por aqui, logo isso seria superado.
Era o que eu esperava.

No dia seguinte, eu estava fazendo uma pesquisa em uma loja de material de construção, quando esbarrei em Trevor.
– Oi, vizinha! – Ele me cumprimentou.
– Trevor! – Eu retribui o sorriso. – Pensando em reformar?
– Na verdade, eu queria fazer casinhas para os cachorros. As deles já estão ficando pequenas…
– Eu posso te ajudar, se quiser.
– Sério? Isso seria ótimo!
– Claro. Eu passo na sua casa mais tarde. Pode ser?
– Certo! Muito obrigado! – Travis me agradecia, quando seu celular tocou. – Nos vemos mais tarde, então. – Ele sorriu e atendeu a ligação, saindo da loja.
Depois de verificar tudo o que queria na loja, eu voltei para a obra. A equipe que Trevor havia me indicado realmente era boa e estávamos em dia com o calendário estimado. Mas alguma coisa parecia errada. Por isso, dispensei a equipe pelo dia para que eu pudesse entender o que estava faltando no projeto. As anotações de meu pai eram a base de tudo e eu não queria fugir muito daquele conceito.
Passei a tarde toda fazendo retoques e novos rascunhos e só percebi que já era tarde quando começou a escurecer.
Estava indo em direção à casa de Trevor, quando meu telefone tocou. Era Harry, por vídeo chamada. Eu já estava sorrindo, mesmo antes de atender e ver seu rosto na tela.
Depois de um mês e meio longe de casa, paramos de contar os dias. E agora a Ásia também havia sido incluída na agenda.
– Onde você está? – Harry perguntou, depois de me cumprimentar. Eu disse que estava na obra e virei a tela do celular para que ele pudesse ver. O sol estava se pondo e alguns raios iluminavam a paisagem.
– Tudo bem? – Eu perguntei. – Você parece cansado…
– E eu estou! – Harry passou a mão pelo rosto – Só dormi duas horas a noite passada. Mas estou indo para o hotel e hoje consigo descansar.
Eu me preocupava com a saúde de Harry, mas ele me garantia que estava acostumado e que se cuidava para não ficar doente ou entrar em exaustão.
– To com tanta saudade… – Ele fez biquinho e juro que senti meu coração derreter. – Queria você aqui comigo.
– Eu também. – Eu já estava segurando o choro, quando o sinal de bateria baixa soou em meu celular. – Droga, vou ficar sem bateria. Eu vou ajudar o Trevor e aviso quando chegar em casa.
– Ajudar o Trevor? – Harry levantou a sobrancelha.
– Sim, o Trevor. Advogado do meu pai. – Eu o lembrei. Já falara de Trevor para Harry antes. – Ele precisa de ajuda com as casinhas de cachorro que quer montar.
– Ah, certo… Parece divertido. – Harry disse e piscou pesado. Ele realmente estava cansado.
– Você ta morrendo de sono. Espero que consiga descansar de verdade hoje. – O alerta de bateria baixa soou novamente. – Preciso ir. Nos falamos depois.
E antes que Harry pudesse me responder, meu celular desligou.

Tayla, Kripke e Peanut, os três golden retrivers hiperativos de Trevor, me receberam no portão da casa. Em meio a latidos e lambidas, Trevor apareceu para abrir o portão.
– Ei, deem um tempo pra ! – Trevor disse, enquanto eu entrava e Peanut apoiava as patas no meu peito e quase me jogava para trás.
Conseguimos entrar na casa. Trevor estava se desculpando pelos cachorros quando entramos em seu escritório.
– Preciso dizer, eu adoro sua casa. – Eu me sentei em um sofá de veludo preto e ele sentou-se ao meu lado.
Trevor me mostrou os materiais que havia comprado para construir as casinhas e depois eu fiz um rascunho para ele, de como poderia ser a ideia final. Trevor foi bem participativo e deu bastante dicas do que queria. No final, eu tinha certeza que aqueles três cachorros eram super sortudos.
– Fica para o jantar? – Trevor perguntou, enquanto eu me levantava.
– Não, não quero te atrapalhar.
– Você não está atrapalhando, . Adoraria sua companhia.
Nós fomos para a cozinha e ajudei Trevor a preparar o jantar: macarrão com queijo. Os três cachorros estavam por ali, esperando para ver se ganhariam alguma porção de comida.
– Sexta-feira eu vou em uma festa, na casa de um amigo… Se você não estiver ocupada, poderia ir comigo.
Meu primeiro pensamento foi agradecer e recusar. Mas fiquei sem jeito. Trevor estava sendo tão gentil comigo.
– Nossa, nem me lembro da última festa em que eu fui… – Eu disse, tentando mudar de assunto. Mas era verdade. Realmente não me lembrava da minha última festa. A vida em Londres era tão focada no trabalho que, provavelmente, a minha última festa deve ter sido no lançamento de algum projeto.
– Sério? Mesmo morando em Londres? – Trevor perguntou.
– Sim… Eu acho que sempre fui mais de ficar em casa. – Eu dei de ombros.
– Bom, a festa de sexta não deixa de ser em casa… – Trevor deu de ombros e eu ri.
– Tudo bem, eu posso passar por lá.
Quando fui embora, já passava das nove da noite. Meu dia havia sido incrivelmente agradável e produtivo, como não era há tempos. Eu me sentia bem.
Entrei no quarto e encarei a cama vazia.
Se Harry estivesse aqui, tudo estaria completo.

Era noite de sexta feira e eu estava na casa de um desconhecido, com um copo de cerveja na mão.
Aparentemente Trevor e Pam se conheciam e os dois passaram a semana toda me chamando para essa tal festa. Eu estava cansada, mas depois de tanta insistência, resolvi ir.
Pam e eu estávamos nos falando todos os dias e era bom ter uma garota por perto. Eu estava acostumada a ser sozinha e, por trabalhar tanto, quase não sentia falta de ter amigas e sair com elas. Mas isso também estava mudando. O ritmo de vida que eu levava em Londres não tinha nada a ver com a vida em Holmes Chapel.
– Se divertindo? – Pam sentou-se ao meu lado e bridou seu copo no meu. Estavamos lá há alguns minutos e ela fez questão de me apresentar à todos os seus conhecidos enquanto entrávamos na casa. Infelizmente, eu não lembrava o nome de nenhum deles, o anfitrião incluso.
– Olha, sei que você ta cansada. Mas acho que tem mais coisa aí… – Pam me olhava incisivamente. Eu revirei os olhos e terminei minha cerveja. A verdade é que não falava com Harry há três dias e estava incomodada com isso. E ainda não havia contado sobre ele para Pam. – , isso não tem a ver com seus pais… Tem?
– Não! – Me apressei em dizer. Porque realmente não tinha. Aos poucos eu estava me curando e sabia que precisava seguir minha vida.
Dois copos de cerveja depois e Pam já sabia todos os detalhes de minha história com Harry. Podia ser efeito do álcool, mas eu me sentia mais leve por compartilhar essa parte da minha vida com ela. Sim, estava me sentindo mesmo uma adolescente apaixonada e agora, para completar, eu tinha uma amiga para quem contar minhas inseguranças.
– Harry Styles, hã? – Pam ergueu a sobrancelha, terminando seu drink. – Eu sempre soube! – Ela soltou, me empurrando de leve. – Harry sempre teve uma quedinha por você, !
– O quê?! Não!
– Você nunca percebeu porque estava ocupada demais estudando.
– E não é para isso que o colégio serve?
– Não! Serve para gente se apaixonar perdidamente! – Pam riu e suspirou depois. – Parece que sua paixão arrebatadora chegou agora.
– Olha só quem eu encontro aqui… – Trevor disse e nos viramos para ele. – Olá, meninas! – Ele estava bonito. Era a primeira vez que eu o via sem os ternos de trabalho ou as roupas confortáveis para ficar em casa. Eu conseguia perceber que o cabelo preto estava recém cortado e o topete super bem arrumado. Ele vestia uma camiseta preta lisa e por cima uma camisa xadrez verde com os botões abertos. Nas mãos segurava uma garrafa de cerveja e brindou com a gente.
– Que bom que você veio, .
– Eu disse a mesma coisa! – Pam me abraçou pelo ombro. – Essa garota só trabalha, precisa de um pouco de diversão.
– Um brinde à diversão da ! – Trevor propôs e mais uma vez, brindamos nossas bebidas. Trevor estava prestes a dizer alguma coisa, quando um grupo de caras passou e o levou para fora da casa.
– Eu acho que você devia fazer uma surpresa para ele… – Pam disse. Estávamos indo para cozinha, pegar refil para nossas bebidas.
– Como o quê? Pegar um vôo para Bali? – Eu ri, tomando um gole.
– Isso! – Pam praticamente gritou. – Sim! , você tem que fazer isso!
– Eu não vou fazer isso…
– Fazer o quê? – Trevor apareceu em nossa frente de novo. A camisa xadrez tinha sumido e eu não pude deixar de reparar em seus braços. Além de fortes, ele tinha tatuado no braço direito duas listras pretas na horizontal, que davam a volta em seu bíceps. – Me desculpem, os caras da faculdade chegaram em grande estilo.
– Ou você pode ficar por aqui com nosso amigo advogato – Pam sussurrou para mim e eu ri alto.
Trevor apertou os olhos em nossa direção.
– O que você está sussurrando, Pamela?
– Nada… Nada. Na verdade, estava falando para nossa querida aqui que ela merece uns dias de férias. O que você acha, Travis?
– Não me chama assim! – Ele revirou os olhos, encostando-se à bancada da cozinha. – Mas sim, acho que você merece alguns dias de férias, .
– Talvez em algum lugar quente, com praias. Quem sabe Bali? – Pam propôs e Trevor assentiu em concordância.

Quando me vi sentada dentro do avião com destino à Bali, na noite seguinte, comecei a me questionar se fora a decisão certa. Afinal, eu havia comprado as passagens com o efeito do álcool correndo em minhas veias.
Se Pam não tivesse surgido com essa ideia, eu jamais pensaria em fazer uma surpresa para Harry. Estava sim com muita saudade, mas não queria atrapalhar sua agenda. Aquele era seu trabalho e eu entendia. Precisava entender.
Quando cheguei em casa, depois da festa, havia uma ligação perdida dele e uma mensagem de texto. Me senti mal por não ter conseguido falar com ele e confesso que isso também me fez querer ir em frente com o plano de Pam.
E agora fazia check-in no hotel em Bali. Falei com Harry durante o voo, mas não contei que estava indo vê-lo. Agora que já estava tão perto, queria continuar com a surpresa.
Harry teria uma pequena apresentação a noite e eu pretendia surpreendê-lo quando aparecesse por lá. Consegui o telefone de seu empresário e ele me ajudaria a entrar no local. Já que, obviamente, não haviam mais ingressos disponíveis.
Aproveitei o spa do hotel e relaxei com uma massagem maravilhosa. A noite eu me sentia muito bem e ansiosa para encontrar Harry.
Assim que recebi a mensagem de Mark, seu empresário, me dizendo que eu já podia ir até o local da apresentação, meu coração disparou.
Só o pensamento de encontrar Harry já me deixava com as pernas bambas. Eu nunca havia sentido nada como aquilo a minha vida toda. E confesso que estava adorando.
Eu cheguei a tempo de ouvir as duas últimas músicas. A voz de Harry era deliciosa. Mark me deixou no camarim dele e eu entrelacei meus dedos, na esperança das minhas mãos pararem de tremer.
Alguns minutos depois, Harry abriu a porta do camarim. O cabelo, mais comprido do que nunca, grudava no pescoço com o suor. A camisa preta e dourada já estava com todos os botões abertos. Harry me viu e congelou na porta.
– Surpresa! – Eu disse e mordi o lábio.
Harry chegou até mim com dois passos largos. Suas mãos envolveram minha cintura e nossos lábios se encontram ao mesmo tempo.
Meu Deus, como eu sentia falta dele! Suas mãos subiram para meu rosto e ele me fitou.
– Você está aqui! – Ele disse, os lábios ainda grudados aos meus.

Fomos para o hotel em que ele estava hospedado com a equipe. Durante o trajeto, Harry tentava negociar uma folga com Mark.
– Qual é, Mark. Por favor…Não vai atrapalhar em nada se eu tirar o dia de folga amanhã.
– Não sei, Styles… Precisamos analisar a proposta pra campanha da Calvin Klein.
– Olha, você pode fazer isso. Eu confio totalmente no seu julgamento. Sem contar que amanhã não temos nada marcado. Nem shows, nem ensaios, nem entrevistas. Não vou decepcionar ninguém se por apenas um dia eu ficar trancando no quarto do hotel com a minha namorada.
Namorada? Harry estava se referindo a mim como sua namorada?! Involuntariamente, as borboletas que habitavam meu estomago quando Harry estava por perto, começaram uma revoada.
– Tudo bem! – Mark suspirou alto. – Pode tirar o dia de folga amanhã. Mas não desliga o celular, se eu precisar, vou te ligar.
– Fechado, chefe! – Harry olhou para mim e piscou.
Finalmente estávamos a sós em sua suíte. Mal havíamos fechado a porta e Harry já estava tirando minha roupa. Os botões da camisa que ele usava caíram com um baque surdo no carpete do quarto. E enquanto Harry se ocupava com o fecho do meu sutiã, eu tirava seu cinto.
Fomos para o banheiro e minha lingerie pousou no chão de mármore branco junto com a boxer dele. Harry beijava meu pescoço, enquanto abria o chuveiro. A água, quente como nossos corpos, escorria entre nós. Harry me pegou no colo e eu entrelacei minhas pernas em sua cintura. Quando o senti dentro de mim, reprimi o gemido mordendo seu ombro.
– Eu estava com saudade… – Harry sussurrou no meu ouvido, minhas mãos passeavam por suas costas. Eu queria dizer que também estava com saudades, mas não conseguia pronunciar as palavras. Naquele momento eu era apenas as sensações que Harry me proporcionava. Sentir sua pele junto a minha, seu coração batendo no mesmo ritmo que o meu e nossa respiração ofegante era tudo o que eu conseguia pensar. Queria que houvesse uma forma de guardar aquela sensação para sempre comigo.

– Acho que você devia dormir… – Eu disse, passando delicadamente meu dedo indicador pela extensão de seu nariz. – Você está caindo de sono. – Estávamos deitados na cama, nossas pernas entrelaçadas por debaixo do lençol.
– Não… – Harry resmungou e se aconchegou mais em mim. – Eu quero ficar com você.
– Tudo bem, temos o dia inteiro amanhã. Porque você conseguiu uma folga para ficar com a sua namorada.
– Minha namorada. – Harry ecoou, me puxando pela cintura e me beijando lentamente.
Se eu contasse para o meu eu do ensino médio que isso aconteceria, tenho certeza que ela não acreditaria.
De alguma forma, estar com Harry parecia fazer sentido. Parecia certo e natural. Mesmo sabendo que nossas vidas eram tão diferentes, eu não mudaria nada. Porque estávamos juntos agora e era tudo o que eu precisava para saber que ficaria tudo bem. Ele me deixava segura e até então eu não sabia quanta falta ele me fazia.
Enquanto adormecia, o pensamento de ter que deixá-lo em breve, me ocorreu. Não era o que eu queria, não mesmo. Talvez essa questão de nossas vidas serem tão diferentes não seria tão fácil assim.

Eu senti o cheiro antes mesmo de acordar. Me espreguicei, sentindo todos os músculos do meu corpo contraírem nos lugares certo. Que saudade dessa sensação. Lentamente abri os olhos, o cheiro de café fresco me inebriando.
– Bom dia. – Harry deitou sobre mim e pousou seus lábios nos meus. – Dormiu bem? – Eu assenti, enquanto segurava seu rosto com ambas as mãos. Seus olhos pareciam mais claros do que nunca, o que combinava com a luz do sol que entrava pela janela do quarto.
A sensação de que nosso tempo estava cronometrado me invadiu. Cada olhar, cada gesto, cada toque… tudo iria acabar em breve.
Algo me dizia que nossa segunda despedida seria muito pior que a primeira. Nos encontramos há pouco tempo, estávamos nos descobrindo quando ele teve que sair em turnê. Apenas três meses haviam se passado e agora parecia uma década. Ainda havia muito há ser descoberto. Tantas conversas que ainda não tivemos a oportunidade de ter. Antes que a melancolia tomasse conta de mim por completo, resolvi levantar e desfrutar daquele café da manhã maravilhoso que nos aguardava.
Eu imaginei que Harry iria preferir passar o dia todo no quarto do hotel, por isso me surpreendi quando ele me chamou para ir à praia.
– Sério? – Eu perguntei e tentava me lembrar da última vez que usara meu biquíni. Não era nada de mais. Até porque, morando em Londres e trabalhando todos os dias da semana – por escolha, diga-se de passagem – quase nunca me sobrava tempo para alguma atividade relaxante que envolvesse o uso de biquíni.
– Bom, tá um dia lindo. Isso é muito raro de onde eu venho. – Nós rimos e eu aceitei seu convite.
Enquanto me trocava no espaçoso banheiro todo decorado em mármore branco, me lembrei da última vez que usara meu biquíni preto básico. Era um domingo atipicamente quente para a primavera Londrina. Eu trabalhava num projeto de prédios comerciais para um cliente que estava me tirando do sério. Por isso resolvi trabalhar da varanda de meu apartamento. O cabelo preso num coque, óculos escuros e uma garrafa de cerveja me acompanhavam junto com meu notebook no colo. O que eu não esperava era que o tal cliente fosse me ligar por vídeo chamada. A notificação me assustou tanto que eu derrubei a cerveja no computador. O resultado foi um atraso de três dias na entrega do projeto. E essa foi a primeira e última vez eu eu trabalhei de biquíni em casa.
Enquanto estávamos no elevador, descendo os 10 andares até a praia que ficava em frente ao hotel, contei para Harry minha última aventura com o biquíni que usava.
– Poderíamos nos mudar para algum lugar quente. Assim você usaria biquíni mais vezes. – Harry se aproximou e sussurrou no meu ouvido – O que eu totalmente acho que você deveria fazer.
Eu arrepiei e corei, sem querer. Mesmo sabendo que não devia me ater às palavras dele, a menininha que acreditava em contos de fadas que vivia dentro de mim já estava imaginando como seria morar com Harry em uma praia paradisíaca, como essa em que estávamos agora.
Ele estendeu duas toalhas na areia e antes de nos deitarmos, passamos protetor solar um no outro. Eu dediquei atenção especial às várias tatuagens que Harry tinha espalhadas pelo corpo todo. Ele se demorou um instante a mais no meu quadril.
Para nossa sorte, a praia, que era área particular do hotel, estava vazia. Além de nós havia um casal de idosos e uma família e todos estavam bem distantes de onde estávamos deitados.
– Você vai voltar para Londres? – Harry perguntou. Ele estava com um chapéu de palha protegendo o rosto e eu usava meu braço como escudo.
– Eu não sei… Talvez quando acabar minha licença. Mas acho que não faz sentido agora.
– Agora?
– Sim… Bem, estou no meio de um projeto. E… Não é como se eu tivesse algo que me segurasse em Londres. – Claro, eu tinha meus clientes. Mas poderia continuar trabalhando para eles de Holmes Chapel, meu chefe não teria nenhum problema com isso.
Antes que eu pudesse perguntar a Harry qual seria o próximo passo para ele, uma pergunta que eu estava ansiosa para saber a resposta e ao mesmo tempo postergando o momento, ele se levantou e me puxou junto com ele para o mar.
A água estava numa temperatura ideal e caminhamos contra as ondas até que a água batesse acima da minha cintura. Harry colou o corpo ao meu e sua testa na minha. Fechei os olhos, inalando a maresia.
– Na minha fantasia de vida perfeita, o dia de hoje seria apenas uma terça-feira normal…
Eu abri os olhos e passei meus dedos por entre o cabelo de Harry. Ele sorriu, deixando sua covinha em evidência.
– Me conta mais sobre sua fantasia de vida perfeita.
– Hum… – Harry fazia carinho nas minhas costas. As ondas quebrando preguiçosamente ao nosso redor. – Poderíamos morar numa casinha na beira do mar… Caçar nossa própria comida?! – Ele ergueu as sobrancelhas e eu ri.
– Ok, não precisa ser tão rústico assim.
– Minha fantasia de vida perfeita seria em qualquer lugar, na verdade. Desde que fosse contigo.
Eu senti meu peito se aquecer. De repente, eu estava consciente de todas as terminações nervosas do meu corpo. E todas elas pareciam estar em chamas.
As três palavras subiram até minha garganta, mas eu as fiz ficarem presas lá.
Antes do almoço, voltamos para a suíte e com certeza eu sempre terei boas lembranças naquele banheiro.
Nosso tempo juntos estava quase acabando. Era o que eu pensava enquanto me arrumava para o jantar. Na manhã seguinte, eu pegaria um vôo para Londres e Harry iria para Los Angeles.
O pensamento de deixá-lo fazia meus batimentos cardíacos aumentarem. Precisei respirar fundo três vezes e me lembrar de que ainda tínhamos algumas horas.
– Tá tudo bem? – Eu perguntei. Estávamos no elevador, indo para o restaurante do hotel que ficava na cobertura do prédio.
– Tudo bem. – Harry sorriu e me deu um beijo na testa. Eu ergui a sobrancelha. Harry não parecia bem. Eu podia sentir que estava tenso. Cheguei a abrir a boca para insistir que me contasse o que estava acontecendo, mas assim que o elevador parou e abriu as portas, eu esqueci de qualquer pensamento que estava na minha cabeça.
A vista era impressionante: o oceano se estendia à nossa frente, a lua cheia brilhava alto no céu. Harry e eu fomos até o parapeito e ele tirou uma foto nossa.
Logo o garçom chegou e nos levou até a nossa mesa. O restaurante, diferente da praia daquela manhã, estava bem cheio. Mas a maior parte dos clientes eram locais. E pessoas mais velhas, o que significava que poderíamos aproveitar nossa noite sem nos preocuparmos com fãs ou paparazzis.
Eu ri sozinha olhando o cardápio. Jamais pensei que fosse me preocupar com fãs e paparazzis.
– O quê? – Harry perguntou.
– Nada… – Dei de ombros. – É só essa noite… Tá linda. – Harry encontrou minha mão por cima da mesa e entrelaçou seus dedos nos meus.
Aguardávamos a sobremesa chegar quando eu percebi que a expressão de Harry mudara. Mais uma vez eu podia sentir a tensão que emanava dele.
– Tenho outro contrato assinado com a minha gravadora. – Harry começou a falar. Ele girava o copo de seu drink, fazendo o gelo bater algumas vezes.
– Isso é bom, não é?
– Sim, sim… É ótimo! – Harry sorriu, mas seu sorriso não era totalmente sincero. – Mas com isso vem os prazos, entende? E depois do lançamento do álbum vem a tour mundial… – Harry engoliu em seco e pousou seu copo no tampo da mesa.
Eu permaneci em silêncio, encarando aqueles olhos claros que eram, sem dúvidas, minha paisagem preferida no mundo.
, vem comigo. – Harry disse, mais uma vez entrelaçando nossos dedos, dessa vez com mais firmeza.
– Harry…
– É que seria tão mais fácil se você estivesse comigo.
– Harry, eu tenho minha carreira. Não posso simplesmente deixar tudo para trás. – Por mais que eu soubesse que não encontraria problemas me mudando de Londres para Holmes Chapel, seria uma situação totalmente diferente se eu aceitasse a proposta de Harry. Eu não sabia levar o tipo de vida que ele levava. Eu não tirava férias há anos. Mesmo quando meus pais morreram, eu voltei a trabalhar em menos de uma semana. Um dos motivos pelo qual resolvi voltar para Holmes Chapel foi porque meu chefe havia me dado 5 meses de licença e mesmo assim eu estava trabalhando no projeto de meu pai. Minha vida era monótona, regrada, simples e entediante. Eu estava acostumada com isso, era confortável e familiar.
– Eu sei disso, eu entendo. Só não queria ficar tanto tempo longe de você.
– Ei, nós vamos ficar bem. Ficamos até agora, não foi?
Eu não estava acostumada com aquela situação. Ficar na posição da pessoa que era a otimista era realmente novo para mim.
Ao mesmo tempo, uma vozinha dentro da minha cabeça dizia que conseguimos dar um jeito até porque fazia apenas três meses e tudo ainda era novo.
Eu sentia como se aquele momento fosse o começo do fim.
Harry suspirou e passou as mãos pelo rosto.
– Você tem razão… Eu to exagerando. Só não quero que você se sinta sozinha.
– Eu sei… – Eu passava o polegar por sua bochecha. – Vamos ficar bem.
O trajeto de elevador de volta à nossa suíte foi desconfortavelmente silencioso. Eu queria saber o que Harry pensava mas, ao mesmo tempo, minha cabeça estava a mil por hora com tudo que tinha acontecido.
Assim que chegamos à suíte, Harry foi até a varanda e acendeu um cigarro. Ele estava apoiado no parapeito e seu olhar perdido no oceano à frente. Eu o observei por um momento.
Tinha que me convencer de que estava fazendo a escolha certa. E, afinal de contas, nós estavámos juntos há pouquíssimo tempo. Um dos dois tinha que ser o realista. Por outro lado, Harry tinha se tornado parte essencial da minha vida. Ele fora a primeira pessoa com quem eu me conectara de verdade. Não queria perder aquilo.
Troquei o vestido que usava por uma camisola de cetim preta. Fui ao banheiro tirar a maquiagem e, quando voltei, Harry já estava na cama. O quarto em total escuridão. Eu me deitei ao seu lado e, por um instante, ele não se moveu. Mas logo pude sentir sua respiração em meu pescoço e seu braço sobre minha barriga. Eu me encaixei em seu abraço e deixei que o momento se prolongasse o máximo possível.
Os lábios quentes de Harry encontraram os meus e suas mãos passeavam por minha cintura, acabando com qualquer possibilidade de espaço que pudesse haver entre nós. Eu girei meu corpo, ficando por cima dele, sem quebrar o beijo. As mãos de Harry desceram para minhas coxas.
– Vamos ficar bem… – Harry sussurrou, soa voz soou rouca e eu não pude conter o arrepio.
E eu me agarrei àquelas palavras com todas as minhas forças. Eu precisava acreditar e acho que Harry também.

As gotas de chuva caiam grossas e geladas sobre mim. Eu estava ensopada e o cabelo molhado grudava em meu rosto e pescoço. Mesmo com os punhos cerrados eu os sentia tremer.
Dei um passo a frente e percebi que estava em uma estrada vazia. Apenas a luz do luar iluminava as pistas. Eu tentei gritar, mas minha voz não saía.
Ao longe, uma luz se aproximava. Eu tentei caminhar, mas não conseguia. Me virei e outro feixe de luz se aproximava. Sentia meu coração martelando contra o peito. A chuva parecia piorar, atrapalhando minha visão. Estava no meio da pista em uma estrada e as luzes que se aproximavam eram carros. Eu não conseguia me mexer e os carros se aproximavam. Eu não conseguia gritar por ajuda. De um lado, um sedã e do outro, o SUV dos meus pais. Eu estava entre eles. Os carros se aproximavam e eles não conseguiriam parar a tempo.

Eu acordei sentindo a garganta a arder. Estava tão suada que a camisola de cetim grudava em meu corpo.
– Ei, tá tudo bem. – Harry me olhava preocupado, passando a mão pelo meu rosto. Eu ainda arfava pelo pesadelo. – Foi apenas um sonho ruim… – Harry me puxou para si e me abraçou e eu fui me acalmando lentamente. – Você que falar sobre isso? – Ele perguntou, olhando nos meus olhos. Por um instante eu senti como se minha voz não fosse sair.
– Eu… Eu não lembro. – Eu menti.
– Você gritou bastante. Eu tentei te acordar.
A verdade era que não queria falar sobre aquilo. De alguma forma sabia que Harry se preocuparia demais e ele não precisava se preocupar comigo. Após a morte dos meus pais, eu comecei a ter esse sonho. E ele durou alguns meses. Pensei em começar uma terapia, mas então o sonho parou e pensei que não voltaria mais. Até agora.
Harry não demorou a adormecer de novo. De acordo com o relógio do meu celular, ainda tínhamos duas horas até que o despertador tocasse.
Eu havia perdido o sono, me sentia inquieta. Mas não queria acordar Harry, nem sair de perto dele. O observei por alguns instantes, fazendo carinho suavemente por seu rosto. Ele dormia profunda e tranquilamente. Eu o abracei e fechei os olhos, sentindo nossos batimentos cardíacos sincronizados.
Queria ficar naquele momento por muito mais do que duas horas.

Nossas malas já estavam arrumadas. Incrivelmente a camareira não teria tanto trabalho, já que o quarto estava praticamente organizado.
Harry e eu tomávamos café da manhã na varanda, a brisa matinal soprando suave entre nós. Ele estava quieto e eu podia sentir uma tensão entre nós. Não sabia quando nos veríamos de novo e ter que ir embora sentindo isso era horrível.
– Tá tudo bem? – Eu encontrei sua mão por cima da mesa e entrelacei nossos dedos. Mal conseguia tocar na minha comida.
– Sim. – Harry sorriu e meu coração derreteu um pouquinho. – Estou pensando em como esse final de semana foi ótimo. E como vou sentir falta disso.
– Eu também vou.

Eu pegaria um voo para Londres e Harry, para Los Angeles. Aparentemente ele iria começar a gravar o próximo álbum em um estúdio americano.
Estávamos grudados feito imãs, tentando ao máximo memorizar a sensação de ter o corpo um do outro assim tão perto.
Meu voo foi o primeiro a ser chamado e eu soltei um gemido de desaprovação.
– Foi tão rápido! – Eu bufei. Segurei Harry pela cintura e olhei em seus olhos. Estavam mais verdes do que nunca.
– Assim que eu chegar em L.A. vou pedir ao Mark um calendário do próximo mês da minha agenda. Então a gente pode combinar nosso próximo encontro, tudo bem?
– Já estou ansiosa!
Eu sorri quando senti os lábios de Harry contra os meus. Quentes, macios, tão familiares.
Muito relutantemente eu quebrei o beijo e fui para meu portão de embarque. Todas as vezes que olhei para trás, Harry estava olhando para mim.

Eu literalmente havia acabado de me jogar no sofá do apartamento de Harry em Holmes Chapel, quando a campainha tocou.
Nos três segundos que demorei para levantar, pensei realmente em fingir que não tinha ninguém em casa.
– Bem vinda de volta! – Pam disse, assim que abri a porta. Ela carregava uma torta nos braços e entrou no apartamento. – Eu trouxe comida e espero que você mate minha curiosidade contando todos os mínimos detalhes desse final de semana.
Eu ri e a acompanhei até a cozinha, enquanto ela colocava a torta em cima da mesa. Era muito bom ter alguém para compartilhar essas coisas.
– Prometo que te conto tudo, mas eu acabei de chegar e quero um banho. Então você vai ter que esperar mais alguns minutos.
Três horas, uma torta e duas garrafas de vinho depois, Pam já estava a par de tudo que havia acontecido no meu final de semana romântico, como ela insistia em chamar. Ela era uma ótima ouvinte, suspirava nos momentos certos e não hesitava em fazer perguntas.
– Essa história parece coisa de livro! – Pam esvaziou sua taça. – Estou tão empolgada para o próximo capítulo!
– Eu também… Eu também… – Eu abri mais uma garrafa de vinho.
Pam ficou por mais algum tempo e assim que ela foi embora, eu me larguei na cama. Pressentia uma ressaca chegando e estava cansada do voo e com jet lag.
Estava quase dormindo quando uma mensagem de Harry chegou. Ele me avisava que tinha acabado de entrar no hotel.
Eu sorria feito uma colegial enquanto digitava uma para ele. Não consegui esperar a resposta, dormi antes disso.
Porém, na manhã seguinte, a resposta ainda não havia chegado. Ignorei o frio na minha barriga. Afinal, eu sabia que ele era o mais ocupado de nós dois. E eu teria que me acostumar com isso, ainda mais agora que as gravações começariam.
Já estava na hora de me ocupar também, precisava passar na obra e verificar como estava tudo. Assim que levantei, senti a cabeça latejar.
– Bom dia, ressaca! – Eu disse, entrando no banho.
No caminho para a padaria, tomei um remédio para dor de cabeça e dirigi o mais rápido possível. Precisava de café.
Ao me ver entrar na loja com o cabelo preso e de óculos escuros, Pam rapidamente encheu uma xícara com café preto.
– Bom dia, raio de sol! – Ela sorriu, colocando a xícara na mesa à minha frente.
– Como você consegue estar tão bem? Você bebeu o mesmo que eu! – Tomei um gole do café.
– Ah, são anos e anos de prática. – Pam riu e voltou para trás do balcão. – Hum, nosso amigo Trevor sentiu sua falta esse final de semana…
– É? – Eu passava geleia em um pãozinho, sem prestar muita atenção no que Pam dizia.
– Sim… E ele pareceu muito decepcionado quando eu disse que você estava com seu namorado.
– Para com isso. – Mas só então me ocorreu que eu nunca havia falado para Trevor que estava com Harry. Até porque nunca surgiu um assunto do tipo.
– É sério, ele não sabia que você não estava disponível.
– Pam, Trevor e eu somos apenas amigos. Na verdade, nosso relacionamento é quase que apenas profissional. Você sabe, ele é meu advogado.
– E tenho certeza que ele gostaria de ser mais do que isso!
– Tchau, Pamela! – Eu terminei meu café e deixei uma nota em cima da mesa.
Quando cheguei no terreno em que ficava a construção do meu projeto, fiquei espantada com o avanço que a equipe havia feito.
Eu não aparecia por lá há quatro dias, mas parecia muito mais já que o projeto agora estava 60% concluído.
Entrei para conversar com o chefe da equipe, além de parabenizá-los pelo ótimo trabalho. Ele me contou que, se continuassem no ritmo em que estavam, a casa deveria ficar pronta em um mês e meio.
Fiquei muito satisfeita com o avanço do projeto. Tenho certeza que meu pai aprovaria. Peguei meu bloco de notas e fiz algumas pequenas anotações, coisinhas simples que precisavam de um ajuste.
Estava saindo quando encontrei Trevor. Ele estava vestido para trabalhar: um terno cinza escuro impecável, assim como o cabelo preto. Usava um óculos escuro que tirou ao me ver.
– Olha quem já está de volta à terras inglesas. – Trevor sorriu e eu me aproximei. Me surpreendi quando ele me deu um beijo no rosto. – Pam me contou que você tinha viajado.
– Sim, sim! – Eu passava a mão pelo cabelo. – Foi algo de última hora, não estava planejado. – Eu dei de ombros, tentando ignorar o sentimento de que parecia que eu estava dando uma satisfação a Trevor.
– Espero que tenha se divertido. – Trevor sorriu.
– Ah, sim. Foi ótimo… As praias eram realmente lindas e a paisagem melhor ainda. – Claro que nada disso se comparava ao fato de estar com Harry, mas Trevor não precisava saber disso.
– Você está bronzeada. Ficou muito bem. – Ele tocou meu ombro e eu baixei o olhar, percebendo que realmente estava com a marquinha do biquíni.
– Se você não tiver planos para hoje a noite, poderíamos terminar nosso projeto. O que acha? – Trevor perguntou, apoiando os óculos escuros na cabeça.
– Nosso projeto?
– Sim. – Ele sorriu – As casinhas de cachorro…
– Ah! Sim, claro! – Eu dei um tapinha na testa, do qual me arrependi prontamente. A dor de cabeça ainda persistia. – Eu passo lá a noite.
– Ótimo! Farei o jantar! – Trevor sorriu e, com uma piscadela, se afastou em direção ao seu carro.

Passei o dia todo na obra, o que acabou sendo bom por dois motivos: primeiro porque me mantive ocupada e só me lembrei do fato de que Harry ainda não havia aparecido quando peguei meu celular, na hora de embora. E segundo porque o chefe da obra me disse que uma nova rede de supermercados estava procurando uma arquiteta, então passou meu contato para eles.
Voltei para o apartamento e tomei um banho. Felizmente a dor de cabeça passara, então eu me sentia mais disposta.
Estava terminando de aplicar o rímel, quando meu celular tocou. O barulho me assustou em meio o silêncio do apartamento. O resultado foi uma mancha preta no meu nariz. Peguei o telefone e vi que era Harry, em chamada de vídeo.
– O que é isso no seu nariz? – Ele perguntou. Eu posicionei o celular no espelho, de modo que ele podia me ver enquanto eu limpava a sujeira.
– É rímel. Eu me assustei com o telefone tocando e borrei.
– Você ta bonita – Harry sorriu. – Vai sair?
– Vou. Na verdade, vou até a casa do Trevor. Ele precisa de ajuda na montagem das casinhas para os cachorros.
– Você tem passado muito tempo com ele.
– Ele tem sido um bom amigo. – Eu finalmente limpei meu nariz e voltei a atenção ao olho que faltava. – Tudo bem por aí? Onde você está? – Dei uma olhada para a tela do celular. Só então percebi que Harry estava deitado e sem camisa. Meu coração deu uma cambalhota. Maldita distância.
– Estou no hotel, finalmente vou descansar um pouco. Amanhã tenho uma sessão de fotos pra nova campanha da Calvin Klein. E depois já vou para o estúdio. – Harry suspirou. Eu terminei minha maquiagem e voltei minha atenção a ele.
– Eu já estou com saudade.
– Eu também. O Mark já me passou a agenda do próximo mês. Vou te enviar e então podemos nos programar.
– Ótimo, adoro trabalhar com prazos! – Eu fiz graça e Harry riu.
– Então… Preciso me preocupar com esse tal de Trevor?
– O quê? Não mesmo, Styles!
– Só verificando. – Harry deu de ombros e então ouvi um barulho de batidas na porta dele. Pude ouvir a voz de Mark bem distante.
– Merda, é o Mark. – Harry levantou. – Preciso atender. Nos falamos mais tarde? E você não se divirta muito com esse cara, por favor.
Harry me mandou um beijo e nos despedimos.
De uma maneira quase infantil, eu gostei de saber que Harry sentia ciúme de mim. Era tudo tão novo e sentir-se querida, ainda mais por ele, era realmente muito gostoso.
Saí de casa com um sorriso radiante e, aparentemente, ainda estava sorrindo quando cheguei à casa de Trevor.
– Uau, você está feliz! – Ele me recebeu na porta.
– Onde estão os cachorros? – Eu perguntei, para mudar de assunto.
– Eu acabei de servir o jantar deles, só assim para eles não ficarem tão curiosos com o portão.
Eu tirei meu cardigã e o deixei em cima do sofá, junto à minha bolsa. A noite estava clara e, surpreendentemente, a brisa que soprava era leve.
Trevor e eu fomos até o quintal, na parte dos fundos da casa. Os materiais que iriamos usar já estavam espalhados pelo gramado.
– Preciso te confessar, antes que você perceba sozinha. – Trevor disse e eu voltei minha atenção para ele. – Eu sou um completo desastre com trabalhos manuais! – Ele riu.
– Ah, não acredito em você…
– É verdade, eu não sei montar nada, não sei usar nenhuma ferramenta.
– Bom… Para sua sorte, eu sei! – Eu peguei uma viga de madeira e um martelo e comecei o trabalho.
E realmente, Trevor não estava brincando: ele mal conseguia martelar um prego. Então ele ficou com a tarefa de me passar os materiais, assim terminaríamos mais rápido.
Logo Tayla, Kripke e Peanut se juntaram a nós e o trabalho ficou um pouco mais lento, porém bem mais divertido.
Em meio à martelos, pregos, madeiras e lambidas, as casinhas foram tomando forma. Trevor me perguntava sobra minha vida em Londres. Eu não gostava de ser o foco da conversa, então começamos a falar sobre ele.
Enquanto eu estava começando a minha faculdade, Trevor estava terminando a dele.
Trevor era o mais velho de 3 irmãos. Ele e a irmã mais nova seguiram os passos do pai, ao se tornarem advogados, enquanto o irmão do meio foi para medicina, cursando fisioterapia. Pela maneira como Trevor falava, eu pude perceber que eram uma família muito unida e grande. O irmão dele tinha dois filhos e Trevor adorava os sobrinhos. Ele me mostrou rapidamente algumas fotos das crianças no celular e então e senti minha garganta fechar.
Aquilo seria mais uma parte da vida que eu não dividiria com meus pais. Até então eu não havia pensado em ter filhos, mas a certeza de que meus pais não veriam seus netos me atingiu com força.
E logo eu estava realmente sentindo aquela dor, já que me distrai e acabei martelando meu dedo.
– Merda! – Eu gritei, soltando o martelo e botando o dedo na boca. Antes mesmo de o martelo pousar no gramado, Trevor já estava ao meu lado. Os cachorros que, até então, estavam deitados no deck da piscina, levantaram a cabeça aos nossos movimentos bruscos. Tayla veio até nós, ela olhava de Trevor para mim.
– Você está bem?! Deixa eu ver seu dedo. – Ele pediu.
– Ta tudo bem… Eu só… Me distraí. – Mostrei meu dedo para Trevor e com a outra mão fiz carinho na cabeça de Tayla. – Ta tudo bem, garota. Essa humana aqui só é um pouco desastrada.
– Acho que podemos parar por hoje. – Trevor sugeriu.
– Jamais! Só falta uma!
– Bom, me deixa pelo menos fazer um curativo ai. – Então Trevor entrou na casa e, segundos depois, voltou com uma caixinha de primeiros socorros.
A situação me fez lembrar do meu primeiro dia de volta à Holmes Chapel. Harry cuidando dos meus machucados. Harry cuidando de mim. Harry tão atencioso. Meu Harry.
Quarenta minutos depois, os três cachorros já inspecionavam suas novas moradias. Kripke realmente gostou, pois foi o primeiro a entrar na casinha. Tayla preferiu curtir a noite bonita que fazia e deitou em frente a porta, enquanto Peanut não ligou muito. Estava mais preocupado em brincar com o grande osso que Trevor jogava para ele.
– Todo esse trabalho me deixou morrendo de fome! – Eu disse, enquanto me sentava em uma das banquetas que ficavam na cozinha de Trevor.
– Ótimo, isso eu posso resolver! – Trevor sorriu e, antes de começar a cozinhar, ele ligou o som e Shawn Mendes começou a tocar.
– Eu realmente não sou muito boa na cozinha… – Eu observava Trevor cortar o filé de peixe que seria nosso jantar.
– Eu precisei aprender a me virar sozinho na época da faculdade. – Ele explicou. – Quer alguma coisa para beber? Tenho cerveja e vinho.
– Ah, hoje eu passo. A Pam me embebedou ontem e eu ainda estava sofrendo hoje de manhã com a ressaca.
– Realmente não é fácil acompanhar o ritmo da Pam. – Nós rimos e eu peguei uma cerveja para Trevor. Preferi ficar na água mesmo. – Por falar nela, nos falamos esse final de semana. Eu ia chamá-las para irmos até o pub.
– Ela comentou algo comigo…
Trevor terminou o peixe e então começou a trabalhar com babatas.
– Ela me disse que você foi encontrar seu namorado.
– Sim, sim… – Eu terminei meu copo de água. Me sentia bem desconfortável. De repente me lembrei das insinuações que Pam fizera a respeito de Trevor. Talvez ela estivesse só exagerando, de qualquer forma, achei melhor ser sincera com ele. – A agenda de Harry é bem complicada, então temos que aproveitar o nosso tempo junto. E ele tinha uma folga nesse final de semana, então eu fiz uma surpresa.
– Que romântica! – Trevor sorriu, antes de tomar um gole de sua cerveja. – Espera, você disse Harry… Styles?
– Sim. – Eu senti minhas bochechas esquentarem. – Nós estamos… namorando.
Era a primeira vez que eu falava de meu relacionamento com um astro da música e era para um cara que, segundo minha amiga, tinha interesse em mim. Então, sim. Me sentia bem desconfortável. Odiava ser o centro das atenções e falar da minha vida pessoal com Trevor parecia ser muito para assimilar.
Por outro lado, eu não tinha experiência alguma em relacionamentos. E, caso, Trevor tivesse mesmo algum interesse, falando de Harry eu tenho certeza que ele entenderia o recado.
– E como é namorar um popstar? – Ele perguntou, temperando a salada de batatas.
Solitário. Incerto, muitas vezes. Era o que eu gostaria de responder.
– Para mim ele não é apenas um popstar. Nos conhecemos no colégio então tenho outra imagem dele. – Eu dei de ombros. E era verdade.
– Espero que ele te faça feliz. – Trevor sorriu e serviu o jantar. Bem a tempo, já que meu estomago estava roncando.

– Mas e você? – Eu perguntei, enquanto dava uma garfada no jantar. Estava desesperada para mudar o foco da conversa. – Tem namorada?
– Eu saí de um relacionamento longo há alguns meses… – Trevor deu de ombros e, quando pensei que não falaria mais nada, continuou. – Nos conhecemos na faculdade e ficamos juntos por quatro anos. Estávamos pensando em nos casar, mas então ela pensou melhor e quis explorar as opções, especialmente com um colega de trabalho. – Trevor olhou para mim e sorriu, percebi que ele estava corado.
– Eu sinto muito por não ter acontecido como você queria, Trevor. Para falar a verdade, eu não tenho muita experiência em relacionamentos e com certeza não é fácil manter um relacionamento a distância, como o meu. – As palavras simplesmente fluíram da minha boca. Mas me senti muito aliviada por estar sendo completamente sincera com Trevor. Realmente não tinha experiência com relacionamentos. Durante a faculdade tive um namorinho breve e depois me encontrava com frequência com um rapaz do escritório, porém não era nada sério. – De qualquer forma, tenho certeza que você vai encontrar alguém especial.
Antes que Trevor pudesse responder, um barulho chamou nossa atenção: os cachorros conseguiram puxar a panela que estava o peixe e agora se deliciavam com o resto do nosso jantar.
– EI! – Trevor gritou e eu fui ajudar a limpar a bagunça enquanto ele expulsava os três ladrões peludos e trancava a porta que deva acesso ao quintal dos fundos.
– Desculpa por isso. – Trevor se abaixou e me ajudou a limpar o chão.
– Não tem problema. – Eu estiquei o braço para colocar um pouco da comida que peguei do chão na pia mas um pouco caiu no ombro de Trevor.
Minha boca se abriu lentamente enquanto ele olhada da mancha em sua camisa para mim.
Sem dizer nada, Trevor pegou uma batata e a amassou no meu cabelo.
– Eu não acredito que você fez isso! – Eu levantei, de olhos fechados. Quando abri, Trevor estava parado na minha frente, segurando o riso.
– Foi você quem começou!
– Ah, é mesmo? – Antes que ele pudesse de mexer, eu alcancei a jarra de água e joguei todo o conteúdo em cima dele.
– Ah… !
Eu saí correndo e fui para o quintal. Os três cachorros, ao nos verem correndo, começaram a correr com a gente. Trevor tropeçou em Peanut e então o cachorro começou a lamber a gosma de comida que havia em sua camisa.
– Para com isso! – Trevor tentava se livrar do cachorro. – Peanut! Para de me lamber! – Ele finalmente conseguiu levantar e então tirou a camisa.
– Chega, eu não aguento mais correr! Vamos parar com isso, por favor. – Eu disse, já voltando para a cozinha.
– Tudo bem, mas ainda não me vinguei completamente.
– Agora eu fiquei com medo! – Eu fiz careta e ele riu. – Bom… Acho que já vou.
– Não, fica mais um pouco. – Trevor pediu. – Eu só vou me trocar e você pode dar um jeito no seu cabelo.
Eu até havia me esquecido do purê que virara meu cabelo.
– Obrigada. Mas eu realmente prefiro me arrumar em casa. – Fui até a sala pegar minha jaqueta e minha bolsa e Trevor me acompanhou. – Obrigada pelo jantar e pela noite. Me diverti muito!
– Obrigado você pela ajuda. Sabe que gosto da sua companhia.
Trevor me deu um abraço e só voltou para casa quando eu entrei no carro e dei partida.

Voltei para o apartamento e fui direto para o banho. Lavei o cabelo e estava enxugando-o com uma toalha, quando sentei no sofá e peguei meu celular. Digitei para Harry uma mensagem avisando-o que já estava em casa. Instintivamente meu olhos foram até o relógio, que marcava 23H37. Cedo, até.
Nunca fui muito de ficar em redes sociais. Na verdade, só quase no final da faculdade resolvi me render aos encantos da internet e fiz meu perfil no Facebook e Instagram. Era necessário e maior parte dos meus contatos eram profissionais.
Eu ainda estava sem sono, então abri o Instagram. E a primeira postagem que vi, foi uma foto de Harry. A foto era em preto e branco e ele estava no batente de uma porta. Ao fundo, era possível ver uma cama e a silhueta de uma mulher. Harry estava apenas de boxer preta. O cabelo comprido estava solto, caindo pelos ombros.
Me lembrei, então, da nova campanha que ele faria e entrei no Instagram da marca para ver as outras fotos.
Eram todas muito boas, obviamente. Todas em preto e branco, Harry sempre em destaque e sua colega, uma modelo alta, esguia e loira de lingerie branca. As fotos de jeans eram apenas duas.
Antes que pudesse entrar no perfil da modelo, eu me freei. Não fazia sentido ficar com ciúme daquela mulher, nem podia me comparar à ela.
– É apenas o trabalho dele… apenas o trabalho dele. – Eu disse. E repeti isso algumas vezes.

Na manhã seguinte, acordei decidida à pedir transferência para Homes Chapel. Precisava ligar para o meu chefe, mas tinha quase certeza que ele não teria alguma objeção. O projeto para qual o chefe da obra me indicara iria levar algum tempo, mas eu estava adorando saber que ficaria ocupada.
E eu fiquei. Fiquei ocupada a semana toda. Conversei com meu chefe e ele pediu que eu fosse até o escritório na próxima semana. Eu dividia meu tempo entre o projeto do eu pai e o projeto do supermercado. Eu fiquei ocupada e, aparentemente, Harry também. O e-mail dele com a agenda do próximo mês ainda não havia chegado e não falava com ele há três dias. Gostaria muito que isso não alterasse meu humor, mas, infelizmente, alterava. Ignorei ligações de Trevor e Pam porque não estava a fim de socializar e não queria que eles percebessem que não estava bem. Resolvi passar no café e falar com Pam pessoalmente.
Quando cheguei, ela e Martha estavam ocupadas, então sentei-me à uma mesa vazia e esperei um pouco. Logo Pam veio até mim, já trazendo uma xícara de café e um croissant.
– Então você já viu, não é? – Pam perguntou. Ela sentou-se à minha frente e empurrou o café para mim. – É por isso que tem me ignorado? Poxa, amiga… Não fica assim. Não é nada demais, eu tenho certeza!
Eu olhei para ela, franzindo o cenho.
– Do que você está falando? – Deu um gole no café.
– Oh… – Pam mordeu o lábio. – Merda.
– Pam, o que foi?!
– Achei que você estava me ignorando por causa do Harry…
– Por quê?
Ela pegou o celular do bolso do avental e deslizou o aparelho pelo tampo da mesa. Na tela, havia uma foto de Harry, tirada por um paparazzo. Ele estava chegando ou saindo de algum lugar. Usava óculos escuro, o cabelo preso e um cachecol azul. Ao seu lado estava a modelo da campanha da Calvin Klein. Harry estava com a mão apoiada na parte de baixo de suas costas e os dois pareciam estar sorrindo.
Eu engoli a seco. Deslizei a tela e vi que era um site de fofoca de celebridades. O nome da modele era Samirah Whitman e eles estavam chegando à um restaurante em Nova York.
Eu engoli a seco e devolvi o celular para Pam. Nem terminei de ler a matéria.
– Pam, isso não é nada demais. – Eu forcei um sorriso e dei uma mordida no croissant, que desceu parecendo pedra.
– É verdade, isso não é nada. Me desculpa! – Pam guardou o celular e pegou o resto do meu croissant.
– Você não deveria ler esses sites, você sabe…
– Eu sei, eu sei…
– De qualquer forma, eu vim avisar que preciso ir para Londres por alguns dias. Tenho algumas coisas para resolver por lá.
– Você ta bem mesmo, garota?
– Pam! – Eu dei um tapinha de leve em seu ombro. – Eu estou ótima, sério. Até pedi transferência para cá. Isso significa que você vai ter que me aturar por um bom tempo. – Eu sorri.
Parte de mim estava feliz por isso. Parecia o certo e era o que eu queria fazer. Queria estar em Holmes Chapel, estava finalmente me sentindo em casa.
– Isso é ótimo! – Pam me abraçou forte, muito forte e tive que pedir que me soltasse.
Assim que saí do café, comecei a ligar para Harry. Na verdade, fui o trajeto todo, do café até a obra, ligando para ele.
Quando cheguei, estava quase desistindo, mas Harry atendeu. Fiz chamada de voz porque estava com medo da minha expressão me entregar.
– Ei, desculpa te ligar assim. – Eu comecei, assim que ele atendeu.
– Não tem problema! Sei que sumi, mas ta tudo uma loucura… Muitas horas compondo e gravando e…
– Eu vi suas fotos da campanha pra Calvin Klein – Eu o interrompi. – Ficaram ótimas.
– Que bom que você gostou. – Senti que Harry sorria do outro lado da linha e por um momento, me arrependi por não estar em chamada de vídeo.
– Você já conhecia a modelo?
– Samira? Não… Não, foi nosso primeiro trabalho juntos.
– Eu preciso ir até Londres por alguns dias. Conversei com o meu chefe, ele aceitou em me transferir para Holmes Chapel.
– Jura?! – A ligação começou a ficar ruim. – Isso é incrível!
– Harry? Não estou te ouvindo direito…
– Quan… vai… dres?
– Harry?! A ligação ta ruim! Fala de novo?
– Alô? ?!
A ligação caiu e depois não consegui retornar.
– Porra! – Eu abaixei a cabeça no volante o que acabou acionando a buzina. Só parei quando uma batida na janela me assustou.
– Tudo bem? – Trevor perguntou, quando eu abaixei o vidro.
– Ta sim… – Eu engoli o choro e então saltei do carro. – Desculpa pelo barulho.
– Tentei falar contigo esses dias. – Trevor disse, remexendo em sua pasta de couro preto e tirou de lá alguns papeis.
– Sim… Hum, desculpa por isso. Eu ia te retornar… – Deixei as palavras sumirem, realmente não tinha uma boa desculpa para o meu sumiço.
– A sua casa foi vendida. – Ele sorriu, me entregando os papeis. – Agora só falta o chalé.
– Sério? Uau… Isso foi rápido.
Desde que terminara de guardar as coisas da casa, nunca mais havia voltado lá. Não pretendia voltar e sabia que seria vendida. Mas parecia uma ideia longínqua, não achei que aconteceria tão rápido. Me encostei no carro.
, ta tudo bem? – Trevor tocou meu ombro e eu voltei à realidade.
– Sim, sim… Ta tudo bem! – Forcei um sorriso. – Desculpa, tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Mas obrigada, Trevor. Você tem me ajudado tanto.
– É só o meu trabalho. – Ele deu de ombros.
– Por falar em trabalho, pedi transferência para o meu chefe. Vou para Londres essa noite.
– Sério?! Que ótima notícia! Espera, então você vai estar em Londres esse final de semana.
– Vou sim.
– Bom, eu tenho um coquetel de um dos meus clientes. Quer ser minha acompanhante?
Claro que meu primeiro pensamento foi negar. Mas pensei mais um segundo e decidi que merecia, sim, um final de semana bom na companhia de um amigo.
– Sim! Eu adoraria.
– Ótimo! – Trevor me abraço, e isso parecia estar se tornando um hábito. – Te mando os detalhes por mensagem.

Trevor até tentou me convencer a ir de carro com ele, mas eu menti e disse que já tinha comprado passagens e não conseguiria trocá-las. Precisava de um tempo sozinha para sentir pena de mim, oras. Não sou de ferro. Então passei o voo todo me comparando à tal Samirah Whitman. Minha curiosidade finalmente venceu e eu entrei no perfil de seu Instagram.
Impecável. Era a palavra certa para descrevê-la.
A pele bronzeada destacava seu cabelo loiro platinado, os lábios carnudos eram chamativos. Tinha quase certeza que aquela moça era uma Kardashian perdida.
Sim, aquilo estava acabando com minha auto estima. Mas nada disso se comparava ao que eu sentia toda vez que lia a legenda que ela escreveu para uma das fotos do ensaio que postou com Harry:
Finalmente tive a oportunidade de conhecer este incrível rapaz. Que alma linda você tem, @harrystyles. Espero que este seja o primeiro de muitos trabalhos que faremos juntos <3.
A legenda fazia meu estômago revirar e os três corações que Harry havia postado como comentário não ajudavam muito.
Senti um alívio enorme ao chegar ao meu apartamento. Pude finalmente respirar fundo. Por hábito, chequei meu telefone e meu coração deu um pulo ao ver que tinha uma mensagem de Harry: estou com saudade.
Respondi dizendo que também estava e me demorei um pouco olhando para a tela. As vezes o pensamento de estar fazendo a coisa errada me invadia. E se aquela fosse a chance da minha vida? Eu deveria aceitar abrir mão da minha carreira para ficar com Harry? Por outro lado, eu havia batalhado tanto para chegar aonde cheguei e sabia que ainda existiam muitas coisas a serem conquistadas.
É claro que Harry era, agora, parte fundamental de minha vida. Eu sabia que já o amava, mesmo em tão pouco tempo. Apenas queria que as coisas fossem um pouco mais fáceis. Tomei um banho rápido e depois me joguei no meu sofá. A diarista havia arrumado o apartamento naquela manhã, então eu não precisava me preocupar com a limpeza. Eu não tinha me dado conta do quanto sentia falta da minha casa, até então. O apartamento de Harry era lindo e enorme, mas sem ele por lá, era muito solitário. Ao voltar para Holmes Chapel, precisaria resolver essa questão…
Acabei dormindo no sofá e acordei com o barulho de notificação de mensagem no meu celular. Fiquei decepcionada ao ver que não era Harry e sim Trevor. Ele me dizia aonde seria o coquetel e pediu meu endereço para vir me buscar às 19H00.
Dei um pulo do sofá e me lembrei que precisava sair para comprar um vestido decente. Eu tinha muitos vestidos, afinal eu acabava tendo que comparecer a muitos lançamentos de projetos e coquetéis também. Mas eu merecia me mimar um pouquinho.
Por fim, decidi por um frente única preto. O vestido era longo e tinha uma fenda até o joelho na lateral, nada muito chamativo.
Fiz uma maquiagem, aplicando sombra cinza escura para combinar com o vestido e arrumei o cabelo, de modo que ficasse caindo pelo ombro. Calcei um salto, e disso eu não sentia falta nenhuma e, às 19 horas em ponto, meu interfone tocou. Peguei minha pequena bolsa de mão prateada e desci pare encontrar Trevor.
– Boa noite. – Ele sorriu ao meu ver – Você está linda, . – Trevor me elogiou, mas eu tive certa dificuldade em registrar suas palavras, já que estava assimilando o que via: ele estava realmente maravilhoso. O terno preto tinha um caimento perfeito em seu corpo e o colete que usava por baixo realçava sua silhueta. O cabelo era com um corte diferente, mais curto nas laterais e o topete jogado de lado.
– Nossa, Trevor. Você está ótimo! – Senti minhas bochechas esquentarem quando ele se aproximou e me deu um beijo na bochecha.
Ele abriu a porta para mim e entrei em seu carro.
– Quer escolher a música? – Trevor perguntou, quando sentou-se ao eu lado.
– Hum… Vamos ver o que você tem aqui.. – Enquanto eu escolhia uma música em sua playlist, Trevor deu a partida e saímos deslizando no trânsito de Londres. Por fim, escolhi Amy Winehouse.
A noite estava calma, assim como a brisa suave que soprava. Lentamente a lua subiu e o céu ficou salpicado de estrelas.
Trevor me pedia para mostrar o caminho, não estava acostumado a dirigir em Londres. O clube onde seria o evento não era tão longe do meu apartamento, mas o trânsito nos fez gastar uns vinte minutos a mais.
Quando chegamos, Trevor entregou a chave do carro ao valet e apoiando sua mão em minhas costas, entramos.
O lugar estava bem iluminado e uma banda tocava blues ao canto. Um garçom passou por nós e pegamos taças de champagne. Trevor me apresentava à todos com quem conversava e até reconheci um ou dois de seus colegas de faculdade que estavam na festa que fomos, há algumas semanas.
O cerimonialista anunciou que o jantar estava servido e nos dirigimos até a sala lateral. As mesas estavam dispostas em formato de meia lua, de frente para um pequeno palco com púlpito no meio.
Nos sentamos à mesa junto com o dono do escritório que era cliente de Trevor, sua esposa e o casal de sócios.
As duas mulheres não paravam de comentar sobre uma viagem à Dublin. Vez ou outra me perguntavam alguma coisa, mas como nunca havia ido à Irlanda, eu não era de grande contribuição à conversa.
– Trevor te contou que vai receber um prêmio hoje? – Paul, seu chefe, me perguntou. Eu estava me deliciando com a sobremesa, algo de chocolate.
– Sério? – Olhei para Trevor. – Um prêmio?
– Ah, sim. Graças a este jovem nosso escritório fechou um ótimo negócio! – Paul sorriu, fazendo seu espesso bigode grisalho tremular.
Trevor parecia estar envergonhado com toda a atenção que estava recebendo e, quando foi chamado para receber o prêmio, ficou muito vermelho. Em meio à uma salva de palmas, Trevor subiu ao palco e fez um pequeno discurso agradecendo a confiança de seus superiores e a colaboração de todos com quem trabalhava.
Quando ele voltou à mesa, eu me inclinei e disse ao seu ouvido:
– Para um advogado, o senhor é bem tímido.
– Eu nunca disse o contrário.
Paul ofereceu um brinde à Trevor e todos na mesa brindaram suas taças.
Depois da premiação, voltamos ao salão principal. A banda agora tocava um jazz animado e várias pessoas dançavam.
– Vamos? – Trevor perguntou, me oferecendo sua mão.
– Ah, não… Eu realmente não sei dançar. – Eu cruzei os braços.
– E quem disse que eu sei? Aliás, quem disse que alguma dessas pessoas sabem o que estão fazendo?
Eu observei as pessoas dançando e elas realmente estavam apenas se divertindo. E mais uma vez me peguei pensando em qual fora a última vez que eu havia dançado.
– Por favor. – Trevor se aproximou e eu aceitei sua mão.
Nos misturamos com as outras pessoas dançando. Na verdade, copiávamos os movimentos um do outro. Em determinado momento, Trevor pegou minhas mãos e começamos a girar.
– Ah, chega! – Eu praticamente gritei. – Já estou tonta! – Eu parei de girar e Trevor parou na minha frente, rindo.
Ele pegou mais uma taça de champagne e eu praticamente terminei a minha em um único gole.
Dançamos mais um pouco e nessa altura, eu já havia perdido a conta de quantas taças já tinha tomado.
Trevor leu meus pensamentos quando me perguntou se já queria ir embora e eu aceitei. O álcool já estava querendo fazer efeito.

– Onde você está hospedado? – Eu perguntei. Estavamos parados em um sinal vermelho. Nos alto falantes, a voz de Freddie Mercury nos acompanhava com Don’t stop me now.
– No Barns.
Barns era um hotel que ficava bem no centro de Londres.
– Não, fica na minha casa.
Trevor me olhou e então deu partida quando o sinal abriu.
– Não precisa, .
– Claro que precisa. Não faz sentido você ficar em um hotel sendo que eu tenho um sofá disponível. A menos que você tenha algo contra dormir em sofás… – Trevor gargalhou alto e eu sorri ao ouvir sua risada. Era muito gostosa.
– Não é isso. Eu só não quero te atrapalhar.
– Você não atrapalha em nada, Trevor.
Então passamos no Barns e ele pegou sua mala. Logo estávamos chegando em meu apartamento e, como minha rua é sem saída e sempre ta vazia, Trevor não encontrou dificuldade para estacionar o carro.
– Boa noite, srta. . – Kamar, o porteiro me cumprimentou. Ele não estava na portaria quando saí. Kamar era um indiano de meia idade, muito simpático e solicito. – Tem um rapaz esperando a senhorita.
– Um rapaz? – Eu franzi o cenho e antes que pudesse me virar para o hall, meu coração disparou.
– Surpresa. – Harry disse.

Eu senti o cheiro de Harry antes mesmo de vê-lo. Meu coração batia tão forte e rápido e eu me sentia zonza, sem saber se era efeito de todo o champagne ou a surpresa em ver Harry parado na minha frente.
Meus olhos ficaram marejados e Harry abriu um sorriso para mim. O sorriso que eu mais gostava, destacando sua covinha.
Ele se aproximou de mim e no mesmo segundo, encontramos os lábios um do outro ao mesmo tempo.
– Espero que essas lágrimas sejam de felicidade. – Ele disse, limpando com o dedão uma lágrima intrusa que escorria pela minha bochecha.
– É claro que são, Styles! – Eu dei um tapinha em seu peito e Harry riu.
Só então eu me lembrei que Trevor estava atrás de mim.
– Harry, quero te apresentar uma pessoa. – Eu me virei, de modo que fiquei entre os dois. – Esse é o Trevor, meu advogado. E Trevor, esse é o Harry. Meu namorado.
E as borboletas que habitavam meu estômago quando Harry estava por perto se manifestaram.
– E aí, cara. – Harry apertou a mão de Trevor. – Ouvi falar de você.
– É mesmo? – Trevor olhava de Harry para mim. – Espero que ela não tenha inventado muitas mentiras.
Harry e Trevor riram e nesse momento o olhar de Harry recaiu na bagagem que Trevor segurava.
– Bom… Então eu já vou. Espero que possamos marcar alguma coisa um dia desses. – Ele se dirigiu à Harry.
– Claro, claro… Eu ia adorar.
– Trevor, você não precisa ir. – Eu disse e senti o olhar de Harry em mim, como uma fogueira.
– Obrigado, . Nos vemos em casa. – Trevor piscou para mim e saiu.
Assim que entramos no elevador, Harry me abraçou.
– Você está muito bonita.
– Trevor me convidou para acompanhá-lo em um coquetel de um de seus clientes. – Eu comecei a explicar. – Eu não sabia que você viria. Eu o chamei pra ficar aqui em casa. É claro que eu quero ficar sozinha com você. – Me antecipei. – Mas fiquei sem jeito, eu já tinha o chamado…
Harry respirou fundo, inalando o cheiro do meu cabelo.
– Relaxa, eu te entendo… Mas confesso que realmente fiquei aliviado quando ele recusou.
O elevador parou no quinto andar e eu fui com Harry até a porta do meu apartamento: 504.
Assim que entramos, Harry me encostou na porta. Seu corpo pressionando o meu. Minhas mãos foram até os seus cabelos, que estavam soltos. Ele me beijou com vontade, me fazendo arrepiar. Desci minhas mãos para seus ombros e então seus braços.
– Agora você é só minha… – Harry falou em meu ouvido e mordeu a pontinha da minha orelha. Eu sorri, sentindo cócegas. Encontrei seus lábios e reiniciei o beijo, o guiando para o quarto. Harry mordeu meu lábio e desceu seus beijos para meu pescoço enquanto suas mãos passeavam por minhas costas expostas, me fazendo arrepiar ainda mais. Esbarramos no sofá, derrubamos o bowl de chaves do aparador. Paramos no corredor e eu tirei sua blusa, arrancado um dos botões, acidentalmente, tamanha a minha pressa.
Harry me virou de costas e levantou meu cabelo, beijando minha nuca. Eu abri a porta do meu quarto e entramos.
Quando me virei para ele, seus olhos verdes ardiam de desejo. Harry arfava. Ele se aproximou de mim, me dando um selinho. E então, lentamente, foi abaixando os lábios. Primeiro meu queixo, minha garganta e depois o meu decote. Harry se agachou, segurando minha cintura. Ele começou a beijar minha perna, pela fenda do vestido. Meus dedos passeavam por seus cabelos. Meus olhos estavam fechados e eu estava completamente entregue àquelas sensações.
Ele subiu com seus beijos até minha coxa e depois minha virilha. Harry puxou minha calcinha para o lado e eu mordi o lábio, esperando o que estava por vir. Me apoiei na porta que estava atrás de mim e, quando senti sua língua em mim, deixei escapar um gemido alto. A mão de Harry que estava em minha cintura, deslizou para minha bunda e agarrou com força. Eu imitei o movimento, puxando seu cabelo. Harry movimentava sua língua dentro de mim e meus gemidos cresciam. Minhas pernas estavam bambas e, se não fosse pela porta atrás de mim, eu temia desabar no chão.
Meus pensamentos se resumiam a ele, e aquela sensação maravilhosa que eu estava experimentando. Seu nome escapou de meus lábios em um gemido baixo e quando eu pensei que não fosse mais aguentar, Harry levantou e me beijou com urgência.
Sem quebrar o beijo, com ajuda de Harry, eu tirei sua calça e ele logo se livrou do meu vestido. O jeito que ele me olhava, normalmente, me fazia corar muito e desejar me esconder. Porém, naquele momento, eu me sentia a mulher mais maravilhosa do mundo. E, saber que Harry me deseja, deixava tudo melhor.
Ele deitou em minha cama e me puxou para cima dele. Eu me posicionei, apertando seu corpo com minhas coxas e me movimentando lentamente. Cada pedacinho do meu corpo pertencia a ele e eu não trocaria aquela sensação por nada.

Eu me remexi na cama e meus músculos protestaram. A lembrança da noite anterior me fez sorrir, ainda de olhos fechados. Porém, quando os abri, Harry não estava na cama ao meu lado. Então eu senti o cheiro de torrada e bacon e, automaticamente, meu estômago roncou.
– Bom dia. – Eu o abracei por trás, ficando na ponta dos pés e lhe dando um beijo no pescoço. Harry sorriu, virando-se e me dando um beijo na testa.
– Dormiu bem? – Ele perguntou, me servindo o café da manhã.
– Muito bem! – Eu estava feliz e não conseguia esconder. Na verdade, não queria esconder.
Mais tarde, enquanto Harry estava no banho, seu celular começou a vibrar insistentemente. Eu desviei minha atenção de um e-mail que redigia sobre o projeto do mercado e o que vi na tela do celular de Harry fez meu estômago revirar.
A notificação mostrava uma foto de Samirah Whitman. Ela estava em um iate. O oceano azul brilhava atrás dela. E ela usava um micro biquíni branco que não deixava muito espaço para imaginação.
Queria que você estivesse aqui!!! Tenho certeza que em Londres você não tem essa vista!!! Xxx
Era a mensagem de texto.
– Podemos ir à um pub hoje à noite… – Harry entrou no quarto. Ele secava o cabelo, mas parou ao me ver. – O que foi?
– Hum?
– Você ta pálida. Ta tudo bem? – Ele sentou-se ao meu lado e pegou seu celular. Eu apenas assenti e então Harry voltou sua atenção para seu celular.
Ele levou apenas um segundo para ligar os pontos.
– Hey… Isso não significa nada.
– Relaxa. – Eu consegui dizer, sem tremer a voz. A verdade era que eu realmente não fazia o tipo namorada ciumenta. Porém era muito difícil me sentir segura sabendo que minha concorrência era uma modelo impecável.
– Não, . É sério. Ela me chamou para ir com ela para Itália. Mas eu disse que viria para Londres. Que viria te ver.
– Tudo bem, Harry. De verdade. – Eu forcei um sorriso e ele se aproximou de mim, juntando nossos lábios.

Com muito esforço eu decidi que não deixaria uma ameaça quase invisível quanto Samirah Whitman estragar meu final de semana com Harry. Cada vez que um pensamento nocivo me invadia, eu me obrigava a lembrar que ele estava ali comigo. Comigo.
Estávamos um pub que Harry gostava e o lugar estava lotado, abafado e barulhento. Harry já estava alto e eu tentava ir com calma.
Levantei para pegar mais cerveja para nós e quando me virei do bar para voltar até a mesa, alguém esbarrou em mim e derrubou cerveja na minha regata branca. Em segundos o tecido grudou no meu corpo e meu sutiã ficou em evidência.
– Puta que pariu! – Eu gritei e então levantei meu rosto.
– A gente pode trocar de camisa? – Trevor disse e então gargalhou. Gargalhou a ponto de fechar os olhos.
– Seu idiota. – Eu tentei ficar brava, mas não consegui. O sorriso dele era contagiante. Trevor insistiu e me deu sua camisa xadrez. Eu coloquei por cima da minha regata molhada e fechei os botões.
– Desculpa, . Eu realmente não tenho habilidades manuais, já te disse isso.
– Sim, comprovei na prática!
– Um brinde a isso! – Trevor bateu sua caneca na minha e bebemos. – Onde você está sentada?
– Numa mesa lá no fundo com o Harry. Quer sentar com a gente? – Assim que fechei a boca, me arrependi. Lembrei da situação constrangedora da noite anterior.
– Eu estou com alguns amigos…
– Tudo bem, chama eles. – Talvez assim a situação não ficasse tão estranha.
Então fomos até a mesa que Trevor e os amigos estavam, do outro lado do pub e depois fomos para o fundo, onde Harry me esperava. Ele conversava com duas mulheres e eu as reconheci de sua equipe.
Quando me viu chegar na mesa com Trevor e mais dois amigos, Harry levantou a sobrancelha para mim e eu abri um sorriso. Fiz as devidas apresentações e sentei-me ao seu lado. Automaticamente Harry colocou o braço em meu ombro.
Para o meu total alívio, a situação na mesa não ficou nenhum pouco constrangedora: os amigos de Trevor eram super engraçados e logo se entrosaram com as moças da equipe de Harry. Inclusive, o próprio Harry e Trevor conversavam amigavelmente.
Em certo momento, um dos amigos de Trevor foi embora com uma das moças da equipe de Harry e outro estava muito bêbado mesmo.
– Acho que está na hora de encerrar a noite. – Trevor disse, colocando o braço sobre o ombro de seu amigo, que mal conseguia manter os olhos abertos.
– Vamos também? – Harry me perguntou e eu assenti.
Já fora do pub, Trevor chamava um uber e Harry acendeu um cigarro, se afastando um pouco da gente para que a fumaça não nos incomodasse.
– Ah, sua blusa! – Eu disse, já tirando a peça para devolvê-la.
– Nada disso. – Trevor recusou. – Fica com ela, ta frio. Depois você me dá. Além disso, ela vai ficar com seu cheiro. – Ele piscou para mim e eu senti meu rosto corar, tentando atribuir este fato ao volume de álcool em meu sangue.
De repente, a voz de Pam me dizendo que Trevor tinha interesse em mim, entrou em minha mente. Felizmente o uber chegou logo em seguida, então não tive muito tempo para pensar na questão.
Harry acenou um tchau de longe. Trevor ajudou seu amigo a entrar no carro e então voltou para se despedir de mim.
– Vou embora amanhã. – Ele disse, se aproximando. – Então nos vemos em casa?
– Claro. – Eu sorri. – Nos vemos em casa.
Trevor sorriu e me deu um beijo no rosto, entrando no uber logo em seguida.
Só quando chegamos em casa que Harry percebeu que eu usava a camisa de Trevor. Então eu contei o que havia acontecido. Ele ficou em silêncio por um instante, apenas balançando a cabeça.
– Que bom que ele cuida de você. – Harry tentou sorrir e eu pude ver o esforço que ele fazia para não ligar para aquela situação.

Na manhã seguinte, quando acordei, Harry não estava em casa. Fui até a cozinha e encontrei na porta da geladeira um bilhete dele dizendo que havia saído para resolver algumas coisas com o Mark e logo voltaria.
Tomei um banho quente e relaxante. Depois fui preparar meu café da manhã e estava fazendo torradas com abacate, quando Harry chegou.
– Bom dia, linda. – Harry se aproximou e me deu um beijinho. E foi o que bastou para que meu dia já ficasse completamente melhor. – Tenho uma novidade.
– Me conta! – Eu pedi e nos sentamos à mesa para tomar o café da manhã.
Harry virou-se para mim e segurou minhas mãos.
– Eu consegui convencer o Mark a transferir o processo de gravação aqui para Londres. Na verdade, ele estava querendo apressar tudo e eu não funciono assim. Disse para ele que precisaria escrever algumas letras, então… Parece que vamos ficar juntos por algum tempo.
– Sério?! – Antes mesmo de Harry terminar de falar, eu já sentia meu coração batendo acelerado.
Harry aproximou-se mais de mim e deixou seus lábios junto aos meus.
– Sim, sim, sim… – Ele confirmou e eu o beijei.
Meu celular começou a vibrar e, como estava mais próximo a Harry, ele o pegou para mim. As notificações eram de Trevor e Harry ergueu as sobrancelhas.
Eu desbloqueei o celular e li as mensagens. Trevor já estava em casa. Ele me mandou uma foto dos cães e disse que o chalé que meus pais tinham próximo as montanhas havia sido vendido. Eu sentia o olhar de Harry fixo mim.
– O que ele quer? – Harry perguntou e eu o encarei, estranhando seu tom.
– O chalé foi vendido. – Eu digitei uma rápida resposta a Trevor e deixei o celular de lado. – Você parece incomodado com ele.
Harry passou as mãos pelo cabelo e depois levantou-se.
– Sim… Talvez ele me incomode. Acho que ele está sempre muito próximo.
– Harry, você sabe que não precisa se preocupar com isso, não é mesmo? Trevor é meu advogado, mas acabou virando meu amigo.
– Sim… Eu sei.
– Sabe também que eu sou toda sua. Certo? – Eu joguei meus braços em volta de seu pescoço e fiquei na ponta dos pés, lhe dando um beijinho.
– Toda minha. – Harry deixou suas mãos em minha cintura e sorriu para mim.

Os dias seguintes foram, sem dúvidas, os melhores da minha vida. Ter uma rotina com Harry foi algo que aconteceu sem muito esforço.
Eu adorava ficar observando seu processo criativo. Cada vez que ele rabiscava um rascunho de letra ou dedilhava uma nova melodia no violão, eu me sentia a pessoa mais sortuda do mundo.
Encontrei com meu chefe no prédio comercial em que o escritório ficava, no centro da cidade e fui surpreendida com uma festa de despedida.
A reunião foi agradável, porém tudo de forma bem mecânica. Meu contato com as pessoas ali era estritamente profissional, então não podia dizer que realmente sentiria falta deles e sabia que era recíproco.
Harry me pediu que o encontrasse em uma loja de instrumentos musicais no centro mesmo e eu estava quase chegando, quando me deparei com uma multidão em frente a loja. Peguei o celular e liguei para ele, que atendeu no terceiro toque.
– Harry? Não sei se estou no lugar certo. Tem muita gente na frente da loja…
– Sim, eu sei. Tivemos um pequeno imprevisto. Você pode dar a volta no quarteirão e entrar pela porta dos fundos. Tem um funcionário te esperando.
– O que aconteceu? – Eu perguntei, já caminhando para dar a volta no quarteirão.
– Nada demais, eu te explico quando você chegar.
– Okay. Até já.
Eu desliguei e logo encontrei a porta dos fundos da loja. O funcionário que estava me esperando perguntou se eu era e eu confirmei. Nós entramos e ele me guiou até o local em que Harry estava. Mas eu fiquei parada no lugar. Não conseguia mover meus pés.
Harry posava para algumas fotos perto de baterias. E, apoiada nele, estava Samirah Whitman.

Samirah estava toda de branco: cropped realçando sua barriga chapada, calça de moletom e tênis plataforma. O cabelo platinado estava preso em um rabo de cabelo alto e os lábios fartos brilhavam com um batom vermelho sangue.
Fiz um check list mental das roupas que eu usava: blusa listrada de manga comprida, jeans escuro e sapatos Oxford. A maquiagem que eu usava se resumia a uma leve camada de rímel.
Perto dela eu sumia, completamente.
Harry me viu parada e um sorriso brotou em seu rosto. Ele pediu licença às pessoas que o cercavam e veio até mim.
– Ei, você ta aqui. – Ele me deu um beijinho e me abraçou. Sentia os flashes das câmeras pipocarem ao nosso redor. Era a primeira vez que essa situação acontecia. Eu não sabia como me comportar, mas Harry parecia não se importar.
– O que ta acontecendo? – Minha voz saia num sussurro.
– Samirah acabou me encontrando aqui… – Harry dava de ombros. – Ela disse que seria bom para nossa campanha se fizéssemos algumas fotos aqui. – Ele estava completamente desconfortável. – Me desculpa por isso.
– Tudo bem. – Eu apertei suas mãos nas minhas. Não era culpa dele, eu sabia.
– Então você é a famosa senhora Harry Styles! – Samirah disse, colocando a mão em meu ombro. Ela era uns bons vinte centímetros mais alta do que eu.
– Olá. – Eu tentei sorrir, mas tenho certeza que a expressão em meu rosto beirava enjoo. Samirah se inclinou e fingiu me dar beijos em cada lado do rosto.
– Harry fala tanto de você!
– Ah… – Eu olhava dela para Harry, que entrelaçou seus dedos nos meus. – Ele é um amor.
– Ele é sim. – Samirah sorriu e tocou o queixo de Harry.
– Podemos ir? – Eu sussurrei para Harry.
Mas antes que ele pudesse responder, fomos interrompidos por uma comoção na loja. E, pela porta da frente, entrou um rapaz alto e musculoso. Ele usava a mesma roupa que Samirah e seus lábios brilhavam com um batom dourado.
– DARLING! – Ele gritou, ao avistar a modelo.
– JOHNNY! – Ela respondeu no mesmo tom e se adiantou até ele. Os dois se abraçaram e ele chegou a tirá-la do chão.
Eu olhei para Harry e ele respondeu minha pergunta mental.
– John Boyd, um blogueiro. Ele e Samirah são muito amigos.
As vezes eu sentia que vivia em outro mundo, como uma bolha ou uma caixa. Me sentia tão alheia a cultura pop. Até então nunca ouvira falar de Samirah Whitman e John Boyd. Mas, julgando pela euforia da multidão lá fora, eu era a única.
– Vejo que você conseguiu trazer o nosso bebezinho para cá. – John disse, olhando para Harry.
– Ah, você sabe… – Samirah deu de ombros. – A Itália não tem graça sem ele.
Olhei novamente para Harry, mas ele já estava cumprimentando John.
Infelizmente meu dia não fora nada como o planejado. Depois da chegada de John Boyd, ele, Samirah e Harry fizeram mais fotos. Eu fiquei sentada no fundo da loja, preocupada com a multidão que não parecia dispersar, pelo contrário, parecia aumentar.
Quando finalmente Samirah e John se deram por satisfeitos de tirarem tantas fotos, vários seguranças nos escoltaram pela porta dos fundos das loja até SUV’s pretas.
Harry segurou minha mão o tempo todo, até entrarmos no carro. Sentei-me ao seu lado e Samirah e John sentaram-se à nossa frente.
Eu estava muito desconfortável com tudo aquilo. Todas aquelas pessoas, a gritaria. Flashes explodindo por todos os lados. Como Harry aguentava aquela vida?
Quando entramos no carro, tinha esperanças de que iríamos para casa, mas eu estava enganada.
Samirah foi bem convincente aos nos convidar para jantar. Na verdade, não tivemos muita escolha. Fomos a um restaurante japonês e eu fiquei a refeição toda remexendo em meu prato.
– Não está com fome? – Harry me perguntou.
– Hum… Eu não gosto de comida japonesa. – Eu disse, praticamente num sussurro. Já estava com dor de cabeça de tanto que John e Samirah gritavam.
– O QUÊ?! – Samirah gritou, do outro lado da mesa. – Como é possível alguém não gostar de comida japonesa?!
– Apenas… Não gosto. – Dei de ombros e tomei um gole da minha Coca-cola. Ela estava prestes a dizer algo, mas Harry levantou-se.
– Sammy, precisamos ir. – Ele sorriu, deixando sua covinha em evidência. Samirah derreteu-se. Eu engoli em seco.
– Ah, bebezinho. Tem certeza? Estávamos nos divertindo tanto! – Ela levantou e foi até Harry, abraçando-o.
– Sim, estamos cansados.
– Eu adorei te conhecer, Julia! – Samirah sorriu, passando seus braços por meu pescoço.
. – Eu tentei sorrir de volta.
John mandou beijos para gente do lugar em que estava sentado e finalmente, finalmente, Harry e eu fomos para casa.

Harry passou todo o caminho de volta até o meu apartamento no telefone com Mark. Aparentemente ele estava levando uma bronca, já que sua cara não estava muito boa.
– Ta tudo bem? – Eu perguntei, quando estávamos no elevador.
– Ta sim… – Harry passou as mãos pelo rosto. – Samirah gosta de toda essa exposição e o Mark não.
– E o que você acha?
– Bom… Eu acho que preferia ter passado o dia apenas com você. – Ele sorriu, me puxando pela cintura. Harry me deu um beijinho.
– Ela é… demais. – Eu disse, abrindo a porta. – Muito exagerada. Eu estou com dor de cabeça! – Me joguei no sofá e Harry sentou-se ao meu lado.
– Eu entendo. Mas ela é uma boa pessoa. Só gosta de ser o centro das atenções. – Ele deu de ombros e eu ergui a sobrancelhas.
– Não sabia que vocês eram tão íntimos. – Eu disse, tirando os sapatos e apoiando os pés na mesinha de centro.
– Não somos. – Harry respondeu depressa.
– Bom, ela pareceu ter voltado de viagem por sua causa.
– Qual é, ? – Harry levantou-se e foi até a geladeira, pegando uma cerveja.
– Foi o que pareceu…
Eu dei de ombros. Harry sentou-se novamente ao meu lado e, antes que falasse alguma coisa, meu estômago roncou alto.
– Hamburguer? – Harry me perguntou, segurando o riso.
– Hamburguer, sempre!

A chuva estava extremamente gelada. Minhas roupas estavam grudadas no corpo. O vento sussurrava nos meus ouvidos. Olhei ao redor e minha respiração foi aumentando, eu arfava. A chuva aumentava, assim como os faróis dos carros que se aproximavam.
Eu estava parada no meio da pista, precisava sair de lá. Eu precisava me mexer, mas não conseguia. Estava presa no mesmo lugar. Os faróis se aproximavam. Eu precisava sair de lá antes que me alcançassem.
Eu fechei os olhos e me preparei para o impacto. Um grito saiu do fundo da minha garganta.
– Ei! – Harry estava apoiado no cotovelo, a mão em meu ombro me segurando com firmeza. – Ta tudo bem, . Ta tudo bem.
Eu olhei para ele e senti minha garganta arder. Me lembrei do sonho e tive certeza de que o grito acontecera de verdade. Meu coração batia rápido.
Antes que eu pudesse perceber, as lágrimas já corriam silenciosas por meu rosto. Harry me puxou para si e eu me aconcheguei em seu peito.
– Vai ficar tudo bem… – Ele passava os dedos por meu cabelo. – Eu to aqui, você não ta sozinha.
Chorei até adormecer novamente.
Eu estava à minha mesa trabalhando em um orçamento de projeto. Harry estava sentado no sofá trabalhando em uma letra. Entre rabiscos em seu caderno de anotações e dedilhadas em seu violão, ele me dava olhadelas.
– O quê? – Eu perguntei, tomando um gole do meu cappuccino. Harry olhou para mim e ergueu a sobrancelha. – O que você tem?
– Nada.
– Harry, eu sei que tem algo te incomodando.
– Bem… – Ele levantou-se e veio até mim. A mesa ficava no canto oposto da sala, ao lado da janela. Harry encostou-se ao parapeito. – Você teve outro pesadelo. – Ele começou, parecendo constrangido.
– Sim, eu sei… – Engoli em seco e voltei os olhos para meu notebook.
– Tudo bem se você não quiser me contar, mas eu fico preocupado. Você acordou gritando, .
Eu fechei a tampa do notebook, soltando a respiração pesadamente.
Antes de começar a falar, me recordei brevemente de todas as vezes em que tivera o mesmo sonho. Não entendia porque ele tinha recomeçado. Agora minha vida estava começando a voltar pros eixos.
– Depois do acidente dos meus pais, eu comecei a ter esse sonho… Nele eu estou parada na pista e está chovendo. Eu vejo os faróis se aproximarem e eu sei que preciso me mexer, mas não consigo. Bom, sempre acordo antes que algo aconteça… – Eu dei de ombro e tentei sorrir para que Harry percebesse que não era nada de mais, mas não tive sucesso.
– Você deveria conversar com alguém sobre isso. – Sua expressão estava carregada de preocupação.
– Eu até pensei em começar uma terapia ou algo do tipo. Mas eles pararam. – Eu levantei e fui até a geladeira. Abri e fechei sem pegar nada e depois sentei no sofá.
– Só que o sonho voltou, não é? – Harry sentou-se ao meu lado no sofá.
– Mas eu to bem. – Eu olhei para ele e peguei suas mãos nas minhas. – De verdade. Não precisa se preocupar.
Antes que Harry pudesse falar algo, eu o calei com um beijo que foi interrompido pelo toque de meu celular.
Eu atendi. Era o chefe da obra em Holmes Chapel. Ele me atualizou sobre a obra, que acabaria ainda naquela semana. Então eu precisaria voltar para verificar tudo.
– Você pode ir comigo. – Eu disse a Harry.
– Acho que não. Mark me passou minha agenda dos próximos dias. Ele preferiu usar toda a exposição da Samirah e marcou várias aparições para gente.
– Ah… – Vários comentários passaram por minha cabeça. Aquela mulher me incomodava mais do que eu gostaria de admitir. Em algum lugar da minha cabeça eu sabia que se reclamasse, daria abertura para que Harry reclamasse de Trevor. E eu não queria isso. Não queria brigas e também não queria me afastar do único amigo de verdade que tinha. Por outro lado, sabia que o relacionamento de Harry com Samirah era profissional e eu tinha que entender.
– Ei… – Harry me colocou sentada em seu colo. – Você sabe que eu iria, se pudesse. Odeio ficar longe de você… – Ele começou a beijar meu pescoço e logo todas as incertezas que eu tinha foram se dissipando graças aos seus lábios.