Mist of Deserving

Sinopse: Dizem que o tempo é a única dimensão que só tem uma direção: frente.
Também falam que não é possível alterar o passado, apenas aprender com ele.
Pessoas que crêem nisso, são as mesmas que procuram soluções mágicas para seus problemas enquanto se negam em acreditar na magia.
Por azar —ou sorte— , os seres que se encontravam todas as noites nas catacumbas da cidade de Grimmville estavam determinados a desmentirem essas duas afirmações.
Os vilões se revoltaram, não querem mais serem antagonistas, decidiram que chegou a hora de serem ouvidos, serem a voz principal da história.
Estão dispostos a tudo para chegarem em seu objetivo, pelo seu orgulho e pelo futuro de seus filhos.
E, agora, cabe a esses adolescentes escolherem de que lado da história vão estar.
P.S. Não aceite as maçãs.
Gênero: Fantasia e Romance
Classificação: 14 anos.
Restrição: Os sobrenomes são fixos.
Beta: Natasha Romanoff

Capítulos:


Prólogo

“Escute, fique quieto” disse a esposa do estalajadeiro, “muitas pessoas curiosas já perderam suas vidas, seria uma pena e um pecado que olhos tão lindos como os teus não pudessem nunca mais ver o sol nascer.”
― A história do jovem em busca de saber o que é medo.

Grimmwood é o lar de todos os contos já contados. Uma cidade que tem como principal linha de divisão o colégio Epílogo, que fica no centro da cidade, com uma grande floresta ao seu redor.
Além do colégio, Grimmwood é dividida entre Norte e Sul, separando os heróis dos tão mal falados vilões.
Norte, chamado popularmente de Nevoeiro, é onde os malfeitores das histórias vivem, lugares com uso restrito de magia, um único castelo que se encontra abandonado e alguns moradores proibidos de atravessarem a fronteira. Estranhamente, está em harmonia nos últimos tempos.
Não possui um comandante denominado, Hades cuida do subsolo do lugar, assim como Úrsula e Gancho ficam ao porto e redondezas do mar. Cada lugar possui um responsável.
O Sul, denominado Lar dos merecedores, é um lugar de harmonia para quem vê de fora, comandado igualitariamente pelo conselho real, uma espécie de távola redonda dos considerados nobres. Não se sabe quem realmente os nomeou assim, mas é o suficiente para gerar atrito com os do outro lado.
Rainha de Copas, apesar de sua pequena trégua com a irmã, não vive no lar dos merecedores, muito menos Vossa Alteza Real Miranda, já que ambas estão no País das Maravilhas.
Entretanto, o colégio Epílogo está de braços abertos para todos os tipos de alunos, desde os súditos da Rainha Branca até os moradores de Oz. Fada Madrinha não é uma grande fã da inclusão dos adolescentes do Nevoeiro, mas o diretor Merlin acredita que não há nada mais injusto do que pagar pelos erros de seus antecessores.
O local é enorme, com uma porta de entrada de madeira de baobá e janelas tão limpas que a água do lago das lágrimas ficaria com inveja. Tendo uma barreira de magia para não provocar quedas ― ou fugas ― utilizadas em volta do colégio, que Merlin jura ser segura.
Seu jardim é imenso e de grande apreço pelos alunos, também possui um aquário vivo para o estudo das espécies e Sereiês.
Os alunos podem chegar pela grande escadaria (que faz passagem com o vilarejo das lagartas), por carruagens, veículos-não-catalogados ou até sob aves de galopes — grandes pássaros, capazes de suportar o peso de até 57 anões, que o colégio disponibilizara para a circulação dos alunos, já que os dragões haviam sido banidos depois do pequeno incidente com a décima terceira fada.
O diretor respirou fundo, Merlin estava uma pilha de nervos por conta do início do ano letivo. Desde os últimos acontecimentos, o colégio voltar ao seu funcionamento era um alívio para ele.
— O que acha, grilo? — perguntou ao amigo, que encarava sua mais nova bengala. O meio-homem-meio-inseto apenas encarou o mago de volta, confuso. — O que acha que teremos nestes tempos?
— Venho passando por alguns livros, senhor Merlin. — Arrumou os óculos, encaixando em seu narizinho esverdeado. — Os herdeiros estão prontos, devem aprender a coexistir se quisermos que sejam melhores que seus progenitores.
— Certamente. — O velho fechou a porta de entrada, se encaminhando para o jardim do colégio. — Espero que tenha tomado a decisão certa, o conselho foi realmente duro.
— Eu também espero, professor.

O restaurante de Branca ficava ainda mais bonito de noite, os grandes lustres e as diversas flores distribuídas pelo local deixavam daquele ambiente único.
O cardápio de comidas fazia Ariel pular de alegria, enfim havia tirado um tempo do mar e rezava para Poseidon que De Neve não tivesse cozinhado bacalhau como no último encontro.
O cheiro ainda lhe dava náuseas, pobre peixinho!
— Está na hora! — Bela bateu palminhas, feliz por encontrar-se com as amigas depois de tanto tempo apenas em bailes e festas da elite.
— Vamos ao assunto principal, como andam as alianças? — Aurora questionou, bebericava as entradas que foram servidas.
— Alianças? — Rapunzel franziu o cenho. — Estamos longe de recuperar os reinos, quem dirá preparar suas divisões e nossos filhos.
— Diria que não tão longe quanto pensávamos…
Cinderela deixou no ar, jogando uma frase enigmática e um olhar superior para a amiga. Pararam de falar assim que Jasmine sentou-se à mesa, todas ali sabiam o quanto a princesa era contra qualquer tipo de casamento arranjado e como ficava nervosa ao ver as companheiras tomarem decisões por seus filhos.
— Branca está empolgada demais, acredito que a comida será magnífica.
— Se gostarmos muito do prato, poderemos encomendar para o chá — Catarina comentou com ternura enquanto acariciava a própria barriga, esperava pelo seu segundo filho, porém a euforia se igualava à primeira gravidez.
— Talvez não esteja empolgada pela comida. — Mérida ergueu as sobrancelhas, deixando Aurora com os olhos arregalados e as expressões estupefatas. Esperava não ter entendido direito, com aquele sotaque carregado não era difícil de se confundir.
— Modos, ursinha, modos — Dorothy disse, mesmo que estivesse rindo e dando um sorriso acolhedor para a amiga. Ela e a ruiva haviam se tornado inseparáveis depois de algumas conversas e passeios a cavalo.
— Meninas, meninas!
Todas se viraram para a janela da cozinha, vendo Branca chamá-las.
— Espero não ter mariscos… — Ariel fez uma careta, comentando baixinho.
A arqueira riu enquanto olhava para a outra ruiva do grupo, encarando-a com um olhar cúmplice.
— Espero que ninguém vire urso…

Mais tarde, naquele mesmo capítulo…

As catacumbas de Grimmwood eram de difícil acesso, o caminho mais viável era o oceano de almas que Hades possuía em sua casa e é este que os vilões usam para se encontrarem.
As paredes eram gastas e o chão rangia a cada passo que eles davam, viver daquele jeito já estava fazendo a cara de Jafar ficar ainda mais carrancuda.
— Vocês precisam se perguntar o quão longe estão dispostos a ir — Darquil comentou. Estava de pé, ao lado da lareira que Herpel tinha feito questão de colocar ali. Não se encontrava de pé por querer, ele apenas não era considerado importante o suficiente para ter uma cadeira na mesa redonda. Não ainda>/i>.
— Dispostos a ir? — um riso de escárnio saiu da garganta de DeVil. — Alguém tire essa criança daqui, não temos tempo de educar ninguém.
— Muita calma, pelúcia, muita calma — Lady Tremaine proferiu, enquanto encarava com nojo a bola de pelo no colo de Cruela. — Se vamos educar alguém aqui, seria você com esses modos terríveis. Começou a usar pele e então a agir como um cachorro.
A careta de Cruela foi formada e quase como se as palavras de Lady Tremaine fossem uma profecia, sentiu um rosnado sair de sua garganta pela pura e repentina descarga de raiva.
— Garotas, garotas. — Malévola colocou as mãos nos ombros delas, tentando mantê-las em suas cadeiras, seu tom era calmo. — Fiquem quietas ou serei obrigada a afogar ambas naquele rio.
As duas estremeceram na medida que o toque fora ficando cada vez mais apertado.
— Precisamos de toda a ajuda que tivermos, ao menos até conseguirmos encontrar um jeito de trazer de volta os do outro lado e convencer Copas. Quem sabe a mal falada de Oz…
Suspiros foram ouvidos, um silêncio pairou pelo cômodo durante um tempo.
— Agora, de volta ao plano… — Gancho pediu, farto de dramas, já lhe bastava todas as situações que passava com os adolescentes de sua mais recente… hm, família?
— Sim, meus caros companheiros, nosso objetivo é simples. — Um sorriso se instalou no rosto da bruxa, um em que todos seus dentes ficavam à mostra, tão brancos quanto papel. — Iremos apagar qualquer registro de nossas histórias.
Eles se encararam, a dúvida estampada no rosto, o que a bruxa falava não tinha nenhum cabimento. Apagar histórias requeria recursos e níveis de magia que eles não estavam nem perto de ter e, caso isso sequer fosse uma possibilidade, desapareceriam junto. A maldade não era um buraco fácil de tapar e a Malévola não era de aturar tapados.
Respirou fundo antes de prosseguir, já farta da incompetência de seu time. Teria que lidar até conseguir uma equipe melhor.
— A história não será apagada. Será reescrita.
Úrsula encarou Gaston, um olhar cúmplice que não foi notado pela maioria.
— Achei que autores fossem um mito. — A bruxa do mar arriscou a soltar a voz.
— Todas as lendas que já ouviu são verdadeiras, Seaquake — Malévola explicou.
— Assim como as profecias? Se está falando a verdade, então o livro de profecias também está certo e há grandes chances de sermos…
Sua voz foi cortada por um olhar cheio de raiva. A antagonista do conto de Aurora caminhou lentamente até o lugar em que Úrsula estava sentada. Sua longa capa preta de veludo arrastava pelo chão, entretanto não podia ligar menos, estava familiarizada com a sujeira.
— Se abrir sua boca para falar algo assim novamente, será o prato principal da próxima reunião. — Seus olhos cerrados, tomando uma coloração roxa extremamente forte. — De qualquer maneira, derrota não é uma possibilidade. O plano já está em andamento.
— E qual é o plano, exatamente? — Darquil questionou e a bruxa pensou em ignorar, mas sabia que era uma dúvida em comum.
— Saberão o que fazer quando a hora chegar, apenas deverão esperar pelas ordens.
— E quem a nomeou líder? — DeVil franziu a testa e Malévola quis esganá-la, o conflito de egos era grande, mas não o pior de seus problemas, então voltou ao discurso.
— Querem dragões que falam? Os terão. Castelos com móveis que andam? Façam-nos se mover! Quem sabe, transformar merecedores em moscas? Que venham os insetos. Pois é a nossa vez de ditar o destino. Meus caros amigos, é a nossa vez de segurar a pena e a tinta.
Gritos preencheram o lugar, ovacionando e celebrando o grande discurso.
Um estouro na porta foi escutado, o barulho era incessante. Gaston girou a maçaneta, abrindo-a e logo colocando os braços em torno do rosto.
O corvo entrou no pequeno covil, batendo as asas em direção à sua “dona”. Malévola sorriu, sentindo todo seu corpo entrar em euforia ao ver o pequeno pergaminho enrolado em uma de suas patas. Abriu o papel.
A história estava apenas prestes a começar…

“Quando ela fez isto, ele acordou e gritou: “Oh, o que me faz sentir tanto medo assim? O que me faz sentir tanto medo assim, minha querida esposa? Ah, agora eu sei o que é ter medo!””


 

Capítulo 1 – Era outra vez…

“Quando se aproximaram, eles viram que a casinha era feita de pão-de-ló e coberta de calda, o telhado foi feito de açúcar e as janelas de jujuba.”
― Joãozinho e Margarida.

A garota encarou o sol nascer pela grande janela de seu quarto, sentada no banco acoplado à parede, cansada. Estava pela terceira noite consecutiva sem conseguir dormir direito e o cronograma de seu dia não se importava com isso.
Escutou o tintilar de xícaras no andar de baixo e decidiu seguir para o banheiro, implorando baixinho para que uma banheira de água quente a acordasse. Olhou para o relógio que ganhara de Lady Bela, ele fazia caretas engraçadas e murmurava algo sobre concentração e privacidade. não ligou, voltando ao início de sua rotina.
Após colocar a muda de roupa separada no dia anterior, desceu as escadas, trajando um vestido rosa de mangas curtas e um decote quadrado. Além de uma pulseira de prata, também tinha em mãos uma carta.
— Bom dia. — Caminhou até a mesa e sentou-se de frente para a mãe e ao lado do irmão. — Alguma novidade na manhã de hoje?
Sorriu para a mãe, que abaixou a xícara de chá e devolveu um sorriso ainda mais carinhoso.
— Nada muito importante, querida.
— Deveria contar a verdade — Philip disse, casualmente, enquanto terminava de ler uma das páginas do jornal diário. Apesar das ocasionais charadas e de notícias muito questionáveis, Rider sabia escrever boas matérias para uma alma fofoqueira e curiosa como a dele. Sem contar que era muito bem organizado, o papel era de boa qualidade e ainda havia uma seção apenas para anúncios dos leitores!
— É a volta dela em Epílogo, não é bom para uma garota começar o primeiro dia de aula com notícias tão pesadas em seus ombros! — respondeu o marido, logo olhando para o filho, em busca de apoio e recebendo um balançar de ombros.
— Mãe, descobrirá de uma maneira ou de outra.
— Vocês dois são rosas do mesmo jardim.
— Será que poderiam dar uma explicação para toda essa discussão? — se intrometeu. Não era alguém curiosa ou sem modos o suficiente para atrapalhar uma conversa, mas estava sendo na sua frente! Era sobre ela!
Os três ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas o resmungo do relógio era ouvido e a garota já começava a ficar cansada de tantas reclamações.
Aurora procurava as melhores palavras para contar a novidade à filha.
— Meu bem, o que aconteceu é que…
— O filho Dela vai estudar em seu colégio.
Depois da frase, uma sequência de fatos ocorreu rapidamente.
parou com o biscoito de melado na boca, a massa de repente parecendo grudenta demais, quase como se colasse em sua garganta, mandando-a fechar.
Aurora queimou a língua com o chá, se assustando com o ardor e assustando o próprio marido ao apertar seu braço.
Philip deixou o jornal cair e, pela lei de que um fato ruim acompanha vários, o papel mergulhou no bule.
Nighton colocou a mão na boca, pensando no quão rude seria se soltasse uma gargalhada naquele momento.
— O mordomo pediu que os nobres acordem, mas só geraram desordem — cochichou o relógio.
— Argh! — resmungou, deitando a cabeça na mesa com uma força desnecessária.

O vilarejo das Lagartas fica dentro de uma vila em Grimmwood. As ruas de paralelepípedos coloridos possuíam um sistema de coordenadas, mas apenas utilizava três delas: a trilha laranja, que lhe indicava o caminho até o Sul, para casa, o caminho de tijolos vermelhos para a avenida principal, onde comprava doces na confeitaria do Sr. Lobo e a última delas, pedras azuis, que indicava a caminhada até o colégio.
Nunca foi alguém que gostasse de voar, preferia fazer seus passeios a pé e, quando necessário, por carruagens sem asas.
Tentava ao máximo se controlar, não queria ficar ansioso demais pelas inúmeras possibilidades que o início do ano letivo lhe concedia. Porém era complicado não ficar nervoso quando a única coisa que pensava era nos novos colegas, novas matérias, rever amigos e… .
Ah, como estava empolgado em revê-la!
Foi tirado de seus pensamentos ao sentir um braço ao redor do seu pescoço.
!
— Bom dia, Vossa Graça — o mais novo companheiro brincou, assistindo o outro rolar os olhos.
— Você sabe que não está falando certo. — arqueou uma das grossas sobrancelhas e recebeu apenas um levantar de ombros despojado como resposta.
— Você sabe que não importa.
O garoto ponderou. Realmente, títulos não importavam mais. Desde a queda da magia e a junção dos reinos, príncipes e princesas haviam perdido qualquer poder de comando e direito ao trono.
Não chegou a mais afirmações ou perguntas sobre a nobreza, e mesmo que tivesse alguma, não acreditava que Thropp fosse a pessoa certa para respondê-las.
— Como anda Oz? — questionou, já conseguindo enxergar o colégio melhor.
— Como sempre.
E lá estava o garoto de poucas palavras. Às vezes Hebert gostaria de entrar na cabeça dele e tirar dúvida por dúvida. Como se fosse capaz de apagar qualquer pergunta um dia já escrita.
— Achei que estudaria por lá.
— Parece que Glinda fez algum tipo de acordo com o velho mago. — pegou uma pedra azul. — De qualquer jeito, é bom ter um pouco mais liberdade. Se eu ficasse mais alguns dias em exílio com minha mãe, iria acabar jogando uma casa em cima de mim.
riu, não era de seu feitio fazer piadas com os vilões de sua história. Entretanto, era o vilão, então não achava que eram situações tão parecidas.
Olhou o parceiro, uma jaqueta de couro de carta que ele tinha quase certeza ter visto na loja de penhores do Pan, alguns anéis na mão, a mandíbula bastante marcada e a cicatriz característica no canto direito do rosto, que iniciava no meio da testa, cortava a sobrancelha e terminava pouco centímetros depois do olho.
Ele não parecia um vilão de qualquer história.
— Vai convidá-la para o baile de boas-vindas? — A pergunta lhe tirou de seus devaneios.
virou a cabeça rápido o suficiente para ver passar, acenou freneticamente recebendo um sorriso e acenou de volta.
— Não tenho nem certeza se o baile acontecerá.
— Não se preocupe, qualquer coisa, vamos juntos. Como da última vez, hm? — sorriu, queria dizer que nada mais era como antes, porém apenas sorriu e confirmou enquanto passavam pelos outros alunos e andavam até a entrada.
— Vou contar com você, Thropp.
— Nós dois somos verdes, Hebert, isso é amizade.

Silêncio era uma dádiva no primeiro dia de aula. A curiosidade sobre novas normas e a saudade que os alunos tinham se expressava em vozes altas e gritos de felicidade.
Adella, uma sereiana, tagarelava sem parar nos ouvidos de , mesmo que ela estivesse apreensiva, pouco demonstrava, não queria evidenciar a apreensão que tinha diante da presença Dele.
E foco em apreensão, porque medo era um sentimento muito diferente.
Porém, todo seu discurso em frente ao espelho foi por água abaixo quando o viu entrar no corredor, as conversas não pararam, contudo, seus olhares ficaram estagnados.
Por alguns segundos, teve certeza de ver a íris do garoto tornar-se roxa.
Para ela, levou o tempo de um capítulo inteiro, mas acreditava não ter durado tanto assim visto que, ao voltar seu olhar para a amiga, Adella estava somente a alguns passos de distância.
— Isso não é incrível!? — A ruiva se voltou para a amiga. não tinha ideia do assunto, mas concordou.
— Com certeza. — Sorriu, procurando no corredor algo para tomar a atenção das duas, não queria ter de ouvir mais perguntas e acabar revelando que não tinha escutado nem sequer uma palavra.
— Devemos acompanhar seus irmãos? — Ambas encararam Delphine e Dominic conversando com Gregory Gale.
— Até poderíamos, mas isso nos faria passar por ela. — E apontou para alguém que Rose demorou a reconhecer.
Sabia quem era, pois na casa de Ariel havia inúmeras provas e documentos sobre os acontecidos de sua família, inclusive uma foto de Úrsula transformada em humana. Para quem conhecia sua mãe, não era difícil a reconhecer. Filho de peixe, peixinho é.
Seaquake estava folheando um dos livros de boas-vindas que tinham sido deixados na entrada. também olhou se aproximar da bruxa e soltar algumas frases empolgadas. apenas devolveu um sorriso fraco, não falando nada.
A Beauty franziu o cenho e voltou a caminhar, confusa pela situação.
— Introdução a Princesologia, não podemos nos atrasar — Adella disse e segurou no braço de , a direcionando para a aula.

— Você vai comer isso?
Lisa Goldenlocks perguntou, ao ver o prato de Beauty. A morena negou, empurrando a bandeja na direção da amiga.
— O treino foi tão difícil… — Sua voz carregada de uma autopiedade — Estou com tanta fome que poderia comer por três ursos.
riu, deixando o livro de lado para prestar atenção na loira.
— Corrida atrás de dragões? — questionou, rindo pela rapidez que a menina engoliu o mingau.
— Não, foram apenas voltas e mais voltas. — Girou a colher no ar, demonstrando o percurso. — Estou tão tonta que poderia sair voando.
— Acho isso difícil de acontecer.
— Para alguém tão no mundo da lua, você anda muito pé no chão, querida .
A morena balançou os ombros, não sabendo o que responder.
— Sei que deve ter todo esse negócio de segredos por você organizar e blá, blá, blá. — Lisa colocou os joelhos no banco, ficando mais próxima. — Mas você pode me contar algo sobre o baile?
Antes que sequer pudesse responder, as duas foram interrompidas.
— Claro que ela pode… — disse Catherine.
— Dizer que o baile está cancelado — complementou Cameron.
Aqueles eram os gêmeos Cheshire, filhos do gato risonho. Tão traiçoeiros quanto.
— O que precisam? — meneou seu olhar entre os dois.
— Uma rosa seria um pedido razoável? — Tentou a gêmea.
— E uma redoma, por favor — Cam afirmou.
— Se pudesse, adoraria que tirasse todas as pétalas — Cat continuou.
— De que serve uma rosa sem pétalas? — Lisa ficou confusa.
— Ainda lhe sobra um caule de espinhos — Cameron a respondeu, colocando o dedo no nariz da menina.

estava completamente irritado com aquela fonte. Seu rosto já tomava uma coloração vermelha.
Mais cedo, havia se sentado na pedra de marfim que adornava a fonte, em prol de aproveitar a aula vaga que tinha para aparar algumas flechas e deixar as asas respirarem. Nunca esteve tão enganado.
A água da fonte parecia ter algum tipo de magia e cada gotícula parecia odiá-lo por um motivo diferente. Foi molhado e depois jogado para fora das pedras.
— Que situação deprimente. — Analisou ao perceber que estava discutindo com as pequenas ondas que se formavam.
— Achei que o amor fosse paciente.
Virou sua cabeça para trás, encontrando alguém que não conhecia. O que não era necessariamente difícil, não conhecia quase ninguém.
— E ele é. Apenas não é um grande fã de água. — Virou-se novamente para a água mostrando a língua.
A adolescente riu, não acreditando no que via.
— Estão me incomodando desde que cheguei.
— Onde há água, há lei. Talvez você esteja incomodando-as desde que chegou.
Ele a encarou, pensativo. Logo notando outras coisas que não reparou da primeira vez que a viu.
Sua pele era em tom roxo escuro e os cabelos eram platinados, uma cor tão branca que suas asas gastas haviam invejado.
Soube que ela deveria usar alguma magia de camuflagem, afinal, aquelas cores eram apenas visíveis aos seus olhos.
No seu pescoço tinha um colar de sino, tão preso à garganta que ele se perguntou se não a sufocava.
— Você é , certo?
Ela apenas confirmou com a cabeça. a encarou nos olhos, mas ela não fez o mesmo, o que o impossibilitou de ver o que gostaria.
Sentiu uma gota de água cair em seu ombro, mesmo que pensasse que fosse apenas mais uma das acomodações da fonte, ele olhou para o céu.
— É melhor entrarmos.

O clima mudou em um passe de mágica.
não teve tantos problemas em se adaptar a ele, acostumada com as loucas variações no País das Maravilhas, sempre andava com uma peça de roupa extra na bolsa. Fez uma nota mental de visitar Tempo na próxima visita, que ela torcia para ser em breve.
Era empolgante ter sua tia Miranda e a mãe em harmonia, Iracebeth conseguia ser um pouco… cabeça quente demais quando o assunto era poder.
Sentiu a cabeça começar a pesar, uma terrível dor surgir, como se três relógios cucos estivessem tocando contra seu crânio. Tirou as presilhas em formato de porcos da cabeça, falaram algo sobre a chuva e pés quentes, mas a atenção da garota havia sido tomada por outra coisa.
— Olá.
estava acenando para ela enquanto sorria.
— Como foram suas primeiras aulas? — Ele olhou ao redor.
— Boas.
— Teve mais sorte que eu. Até Poldo está no meu pé.
Mexendo em seu cabelo, murmurou um “uhum”.
— Você está agindo de maneira estranha, coração.
E aquele foi o ápice para a Copas.
— O que é estranho? Você esperava sair da vida de uma pessoa e quando voltasse tudo estaria igual? — Exasperada, gesticulava o máximo que podia, tentando dar ênfase em tudo o que falava. — As coisas mudam, você não pode ser o protagonista do livro de todo mundo.
As feições de não mudaram em nenhum momento, ele sabia o que iria acontecer, ele sabia desde o início e mesmo assim decidiu por seguir os tijolos amarelos.
O que ela considerou engraçado quando olhou por um lado mais histórico, a casa havia caído em cima dela e esmagado seu vários coraçõezinhos. Apostava que nem seus pés tinham ficado de fora do estrago.
Seu cenho franzido foi se suavizando ao passo em que sabia que era uma discussão desnecessária, uma batalha já perdida, uma cabeça já cortada.
— Não se preocupe, não importa de qualquer maneira. — Deu de ombros, olhando ao redor, certa de que estava esquecendo algo.
Thropp estendeu a mão para ela e, por um momento, Crims considerou a possibilidade de ele convidá-la para uma dança ali mesmo.
Mas se demonstrou tal decepção quando viu as presilhas de porco em sua palma, certamente ele não havia notado.
— Obrigada.
— Não há de que, Vossa Alteza. — Deixou um sorriso ladino surgir e depois levou sua própria mão de encontro aos olhos, a analisando. — Mas tenho certeza de que uma delas me mordeu.

Suas roupas eram uma mistura de branco e preto, o cabelo amarrado em um firme coque alto para não precisar se preocupar com fios enquanto dançava. Ela suspirou, encarando o espelho. Seu reflexo estava parado demais, copiando-a normalmente.
O clima úmido deixava as janelas e o espelho da sala de dança embaçados. Se aproximou da janela que dava vista para o jardim ensopado e desenhou uma boca feliz seguida de duas bolinhas em cima. Logo, uma gota de água desceu dos círculos.
Até seu rosto de mentira estava chorando.
— O truque é desenhar olhos de linha.
Deu um pequeno salto pelo susto, estava concentrada demais para perceber qualquer movimentação.
O príncipe se aproximou, desenhando um novo rosto no espelho, desta vez colocando dois traços nos olhos e uma coroa na cabeça.
— Uma coroa é muito previsível?
— Acho que não é tão importante preocupar-se com isso, desenhos no espelho não duram muito.
— O que importa é a memória. — ergueu suas sobrancelhas, não gostando do pouco caso que Swan fez.
Pela insistência do rapaz, notou que o bendito desenho era só uma maçaneta para entrar no verdadeiro assunto.
— É só um rabisco. Você deveria parar de procurar sinais e subjetividade em tudo.
E ela gostaria de trancar a porta daquele tópico.
— E você deveria procurá-los mais.
O silêncio que se seguiu depois da sentença foi curto, estava determinado a conversar.
— Ouviu sobre os passeios deste ano? — Ele estendeu a blusa no chão, encostada à parede, se sentando em cima dela e batendo ao seu lado para que a garota fizesse o mesmo.
— Merlin já deu a palestra? — Recebeu uma confirmação dele. — Devo ter perdido a noção do tempo.
— Acredito ser muito fácil perder a noção deste lado do espelho, mas discordaria de mim.
— E o cavalheiro não poderia suportar isso.
Eles se encararam tentando manter as feições, mas logo desataram a rir.
— Estou falando sério. O diretor encheu o ano de excursões. País das Maravilhas, Oz, o porto e até Brakel.
— Vamos para Brakel?
— Sim, Bela Catarina achou que seria divertido. — Deu de ombros.
o encarou, arqueando uma das sobrancelhas. Ao vê-lo encarar a parede, desconfortável, sabia que ele estava escondendo algo.
— Aonde mais nós iremos?
O príncipe bufou, aquela certamente não era a resposta que ela gostaria de ouvir.
— Hamelin.
— Hamelin? — A pergunta era para conseguir digerir a resposta, ela tinha escutado bem.
— Sim. — Ele esperava histeria, ou algum objeto sendo atirado no vidro. — Está tudo bem?
Swan apenas acenou positivamente, perdida na própria consciência.
— Achei que ficaria um pouquinho feliz, visitar sua casa e tudo isso.
— Não sei se quero minha mãe dando palestras… — Era uma meia verdade.
— Ah, vamos lá, senhora Odette não pode ser tão ruim assim. — A careta da herdeira o desmentiu. — Tudo bem, talvez um pouquinho.

Ao ver o corredor vazio, caminhou sem pressa até a sala de música. A acústica do lugar era boa, as paredes abafavam o som, não permitindo que pessoas de fora ouvissem.
Bateu quatro vezes na porta e apertou a maçaneta, logo escutando o trinco se abrir.
Uma garota apareceu na porta, analisando-o da cabeça até os pés.
— Pois não? — O filho de Malévola franziu o cenho. Ele sabia o código da porta, ela só poderia estar fora de si para não entender.
A moça deu de ombros, abrindo a porta e fazendo uma careta para a presença dele.
— Eu esperava alguém mais parecido com ela.
— E eu esperava alguém mais competente na porta — retrucou.
— Aí está o herdeiro da décima terceira. — Riu, pegando a bolsa que estava no chão. — Você atende por fada? Ou prefere o título de “mago”?
— Prefiro que não se refira a mim.
— Assim você magoa meus sentimentos, . — Colocou uma mão no peito dramaticamente.
No rosto dele não tinha necessariamente confusão, era talvez resquício de desentendimento ou curiosidade.
— Então esperava alguém com dedos de agulha, asas e chifres de veludo?
— Ouvimos falar muito de você, fiquei curiosa, apenas. — Ela estendeu a mão, em busca de cumprimentá-lo (e certificar-se de os dedos de agulha serem mentira). — Sou Crystal, do conto da b…
Cansado, ele bufou e apontou para a bolsa.
— Rude — Crystal resmungou baixinho, pegando o frasco e lhe entregando. — Não use muito, ou ela pulará logo para o final do livro…
Thirteen confirmou com a cabeça, saiu dali enfiando o vidro no bolso e caminhando até a outra sala de aula.
Com o artefato em mãos, sentiu uma dobra embaixo do frasco que recém pegou.
O pedaço de papel não deveria estar ali, mas se considerava importante e poderoso o suficiente para poder ler seu conteúdo.

“Quando a noite cair, o brilho do sol não reinará mais. – P.”
O começo da sentença não estava presente, o papel se rasgava no início da carta e no final, tirando o resto da assinatura. Apesar de forçar sua memória, não lembrava de nenhum escolhido que iniciava com P, além de que duvidava muito que algum vilão usaria um codinome, egos muito grandes para não serem vangloriados por qualquer coisinha.
— Está perdido? — Foi tirado dos seus pensamentos por uma garota morena questionando-o.
Seu cérebro demorou menos que treze segundos para juntar as peças e envolver-se na estratégia.
— Sim, para ser sincero, eu estou.
— Eu posso te ajudar, conheço tudo por aqui — ela disse, se aproximando dele e oferecendo uma mão enluvada como cumprimento. — Beauty, mas pode me chamar de .
Thirteen. — Viu a mão dela fraquejar, mas manteve firme.
— Bom, e no que posso lhe ajudar? — Sorriu.
— Sabe onde é a sala de confeitaria?
não queria ser mal educada, mas tem certeza que o encarou por tempo suficiente para o clima ficar estranho e ela sentir-se desconfortável.
— Confeitaria?
— Sim. — Ele acenou positivamente, algumas vezes mais do que o necessário.
Ainda vendo a descrença em seus olhos, sorriu e acrescentou:
— Achei que aceitavam todos os alunos.
A filha de Bela arregalou os olhos, incrédula por aquele garoto estar fazendo uma acusação daquele porte.
— E aceitam. — Devolveu um sorriso ainda maior, quase como se encarasse aquela interação como uma competição. — É só me seguir.
Andaram por algumas portas, plantas e relógios.
Ao chegar em uma sala perto do refeitório, apontou e colocou um folheto da escola em suas mãos.
— Vai achar tudo que precisar aí dentro — disse gentilmente e então saiu.
Ele amassou o papel, jogando-o no lixo e depois entrando na sala. Alguns cochichos foram gerados, mas o professor de gengibre apenas o mandou escolher um lugar vago.
se direcionou até terceira fileira. Sentando-se ao lado de Rose.

“Margarida desatou a chorar amargamente. Mas seu pranto foi inútil e teve de fazer o que lhe ordenava a perversa bruxa.”

 

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