Maroon Bordô

Sinopse: Anu é uma mulher que cultiva um amor por Park Sungjin desde o quarto período da universidade de Biblioteconomia, porém o sentimento passou a ficar mais forte na época em que os dois estagiaram juntos em uma biblioteca. Nisso, a jovem começou a escrever poemas e textos dedicados a ele, e a deixá-los guardados em livros pouco lidos – ou nunca lidos – do próprio acervo. No entanto, o que ela nunca imaginou é que um dia ele leria alguns desses papéis.

Maroon Bordô é uma oneshot que traz como temas o amor pela literatura, pela profissão de Bibliotecário e sua participação na Biblioterapia, conceituada como o uso da literatura de maneira terapêutica e/ou catártica, e, acima de tudo, o amor entre amigos.
Gênero: Romance.
Classificação: 10 anos.
Restrição: Não.
Beta: Alex Russo.

 

❝Ah, se eu lhe contasse a minha história, você tinha material para mais de um romance!❞
(O romance da nossa vida, Raquel de Queiroz)

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De minha janela, entraram raios solares que colidiram com o vidro na lente dos óculos, deixando minhas pupilas comprimidas por detrás da nova armação preta. Os raios quando chegaram, pela diagonal, também ameaçaram preencher toda a caixa ocupada pelos DVD’s velhos, assim como desejaram banhar as plantas na varanda com tanta luminosidade — acredito que elas tenham agradecido por isso, visto que nos dias anteriores à minha mudança a cidade estivera fria e com muita chuva, e, portanto, as flores de muitas, com exceção aos cactos e suculentas, murcharam.
Encostei-me à parede daquele cômodo novo e vazio, cruzando os braços numa tentativa de abraço comigo mesma; podia até sentir o cheiro de lavanda bem fresco após a limpeza que eu fizera de manhãzinha. Da mesma forma, durante o abraço, pude sentir meu coração batendo ao léu, em paz, sem que eu soubesse exatamente o porquê — fazia semanas que não me sentia assim, em silêncio, acho que jamais existiu jeito melhor de se comemorar o aniversário além deste. Foi então que eu fiquei observando a movimentação das folhas das árvores lá de fora, as quais seguiam o ritmo da ventania num balançar da esquerda à direita, algumas vezes até de cima para baixo. Nos galhos, vi os passarinhos pousados prepararem vôo com destino ainda incerto; mesmo sendo incerto, pareceu-me bom de alguma maneira. Poder ir embora, assim, tão de repente, sempre que possível… Quão bom poderia ser?
Apenas virei o rosto por segundos e, do espelho, somente apoiado ao canto da sala entre a parede lateral direita e a frontal, formando um ângulo de noventa graus, meus cabelos de tom castanho claro refletiram uma espécie de coloração bordô por causa da iluminação do Sol, a qual sempre deixava meus fios mais avermelhados. E eu adorava essa tonalidade! Nas aulas de Leitura e Formação do Leitor na universidade me sentava sempre próxima à janela, pois dessa forma eu poderia ver meus longos fios bordô caídos sobre a mesa contrastando com a cor bege. E por isso, , que tornara-se meu amigo somente no quarto período do curso de Biblioteconomia, cutucava-me, inclinava seu corpo sobre a carteira, direcionava sua boca em direção a minha orelha esquerda, e dizia: “Eu nunca vi uma cor tão bonita quanto essa, , em seguida terminava selecionando uma mecha grossa dos meus cabelos para brincar de deixá-la cacheada.
Mal sabia ele que tais palavras mudavam meu dia, e de repente, passaram a mudar minha vida inteira, assemelhando-se a uma folia, apesar de estarmos longe do Carnaval. Não sendo suficiente, meu próprio coração começou a pedir por mais, mais gestos, mais cores, mais carinho, e eu tive de cessar os desejos com a imaginação, sozinha.
Retomei o rosto em direção à janela presente em minha frente e caminhei, aproximando-me dela. Já encostada na sacada me pus a observar a quantidade de prédios e fios que cortavam o céu até o centro da capital. Sorri sem querer ao me lembrar do trecho do filme Medianeras, assistido há três anos na própria capital da Argentina: <em<❝que gênios esconderam o rio com prédios, e o céu com cabos?❞ Eis a pergunta, mas eu não sei dizer agora, talvez eu conseguisse encontrar alguma beleza, fosse ela desgastada ou meio desértica, em tudo aquilo, especialmente se eu tentasse espiar, mansa e devagarinho, à volta de mim.
Aos poucos, com o passar da rotação terrestre, o céu alumiou-se em demasia e preencheu-se de nuvens grandes e espaçadas entre si, causando até o desaparecimento da sombra da Lua que estivera ali; com isso, o calor fez sua aparição na região, o Sol adentrou de vez no cômodo e pensei que deveria comprar ao menos uma cortina, só que antes mesmo de pensar naquilo que eu deveria fazer, naquele instante, apenas fechei os olhos e recebi o calor como se a Estrela recitasse para mim os seguintes versos de um poema do Reinaldo Ferreira:

❝E se a tarde vier, deixá-la vir
E se a noite quiser, pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas. ❞

Mas uma batida na porta logo me tirou de tal estado de aproveitamento. Abri os olhos, ajeitei os óculos no rosto com o dedo indicador e andei até a porta com o molho de chaves na mão direita. Aproveitei o olho mágico instalado na porta e vi que era portando uma mochila preta nas costas. Ele dissera que viria, portanto, não consegui evitar sorrir, apertando as chaves e seu chaveiro de raposa em crochê contra o peito. Senti-me boba, mas o que eu poderia fazer?
Livrei-me desse pensamento quando ele bateu à porta novamente e eu posicionei a chave correta no cilindro da fechadura e a girei para abrir. Puxei a maçaneta e, embora mal a tivesse aberto há poucos segundos, recebi, na pressa, um abraço que me fizera soltar uma risada abafada por cima do casaco preto do rapaz.
! — gritei em meio a risada, que agora se misturava com a risada dele também. E enquanto eu me acolhia em seus braços experimentei o cheiro de seu perfume adentrar pelas minhas narinas, suave como o cheiro de pinheiros e babosa. Eu poderia morar naquele abraço se ele abrisse caminho de seu coração e permitisse minha entrada.
— Estava com saudade de você, . Não nos vemos desde o fim de seu estágio lá na biblioteca — falou demonstrando seu entusiasmo natural, e em seguida desfez nosso abraço.
— Eu também estava com saudade de você. — Correspondi, direcionando-me à porta para, enfim, trancá-la à chave — E como estava… — acrescentei, prosseguindo com um sussurro que até mesmo eu achei difícil de ser escutado, enquanto ajustava os óculos bagunçados no rosto. O que escutei mais alto e melhor foram os passos de tornando-se cada vez mais próximos de mim. Ajustei a postura, deixando-a ereta como meu antigo fisioterapeuta havia recomendado a fim de evitar dores nas costas e ombros. Retornei meu corpo em direção à sala central e fiz um gesto com as mãos para que o rapaz me seguisse.
— Acabei de me mudar, como você pode ver. — falei com as mãos posicionadas na cintura, olhando a quantidade de caixas empilhadas ao redor dos quatro cantos da sala — Não achei que seria tão trabalhoso assim. — Um riso sem graça escapou da minha boca, agregando-se à fala, e logo ao silêncio que viera a surgir.
Minutos depois, quando eu já estava agachada, começando a retirar alguns livros das caixas, ofereceu sua ajuda para desencaixotar mais dos livros e utensílios pequenos da cozinha, dado que o restante das caixas fora organizado duas semanas antes à mudança de fato, e somente a sala continuava vazia porque eu havia vendido quase todos os móveis grandes, tendo de móvel apenas a prateleira de livros e revistas. Depois de organizar alguns dos livros por tamanho e idioma, do jeito que eu havia pedido, ele pronunciou-se quebrando o silêncio — o qual naqueles minutos não nos deixara desconfortáveis pois sabíamos que nosso momento mais íntimo era estarmos em silêncio um com o outro — que se formara anteriormente entre nós: — Ia dizer que está tudo muito vazio por aqui, mesmo que eu esteja vendo diversas caixas cheias DVD’s antigos, talheres, panos de prato, e principalmente livros, mas receio que você faça disso uma metáfora pessoal. — O rapaz então olhou em minha direção e recolheu o olhar em direção ao chão, sorrindo. E então adicionou, mordendo os lábios: — Te conheço bem, sabia?
— Que bom você ter se prevenido então. — levantei, deixando alguns dos livros, os quais estavam na caixa, ao lado dela no chão, e caminhei em direção ao garoto que esgotara minhas canetas simplesmente porque eu escrevi tanto sobre ele, e para ele, em alguns papéis colocados dentro dos livros que somente eu lia na biblioteca onde fiz estágio, fazendo com que ele fixasse bem seus olhos castanhos nos meus cor de mel. O mais admirável é que eu podia enxergar o próprio mar na escuridão daqueles olhos, no entanto a calmaria que eles exalavam era tanta como uma cantilena em noites não mais estreladas em épocas que perdemos o sono, e assim pude crer na existência de centenas de palavras soltas dentro de mim a ponto de não formarem um eu te amo, .
Na sua companhia tão próxima pude examinar cada parte de seu rosto e sentir meu coração querendo pular para fora a cada batimento. Eu não sabia se ele tinha noção de que eu o amava, muito mais do que como amigos, porém eu tinha mais do que motivos para que todas as reações dentro do meu corpo acontecessem só por observá-lo durante minutos. O relógio nunca tivera pena de mim, por isto podiam ser não mais que segundos para tudo acontecer. Como se não bastasse, continuei a tomar o espaço da fala: — Se me conhecesse bem mesmo já teria dito feliz aniversário, .
— Você acha que eu esqueci? — rebateu com um sorriso largo formado em seu rosto tão lindo. Virou-se de costas para mim e recolheu a mochila que antes estava no chão, perto do espelho, enquanto organizávamos as caixas. De lá ele retirou um kit de adesivos de azulejos, todos eles muito bem coloridos, todavia aquele que mais achei lindo fora o de linhas azuis com textura ornamental e fundo branco. De qualquer forma, sendo um presente um tanto inesperado, eu não sabia o que esperar mais de um garoto que já vinha me dando adesivos de azulejo desde que nos tornamos amigos na universidade. E o motivo, ele dizia, era porque eu merecia algo diferente, e que acima de tudo fosse lindo, mesmo que, de verdade, eu não utilizasse os presentes na decoração por serem especiais demais. Deslizei os dedos sobre a superfície do objeto, e uma voz em minha cabeça transformou em pensamento aquilo que meu coração falava a todo momento: tudo é especial se vindo de você. — Não tinha como esquecer, , não você sendo você — acrescentou e de meus olhos as lágrimas começaram a surgir. O mesmo homem que falava me puxou para um abraço apertado, e, a fim de roubar ao menos uma risada minha, disse: — É isso que você chama de zaluzejo?
— É, é sim, zaluzejo.
— Feliz aniversário.

📖

foi embora duas horas depois. Porém, antes de ir, ele deixou um presente a mais em minhas mãos, disse que preferiu deixá-lo por último, e ainda pediu que eu abrisse apenas depois que ele saísse pela porta, algo que eu realmente não esperava vindo dele por ser uma pessoa tão direta em todas as ocasiões. Assim, eu tinha em mãos outra caixa de tamanho semelhante à dos azulejos, de embalagem azul-claro com detalhes rosados que logo fora retirada. Aconteceu que depois do descarte da embalagem dei de cara com um livro de poesia que eu lera, no último semestre, durante o estágio e eu jurava tê-lo escondido bem, ainda que fosse um livro tão desconhecido e escasso no acervo, ficando apenas na última sessão disponível de livros totalmente estrangeiros.
Então ele viu o papel que eu escrevera, pensei, afinal de contas eu colocava declarações em quase todos os livros desconhecidos para que, no fim do estágio, quando a reorganização dos livros fosse feita, algum leitor curioso de livros desconhecidos pudesse saber que ali esteve alguém que amou uma vez. Mesmo tendo desejado que encontrasse alguns deles antes deste tempo em que estagiamos juntos, a sensação vivida corria em meu corpo de maneira assustadora, esquentando-o por completo desde as pernas até a testa.
Deslizei os dedos sobre a capa vermelha do livro, abri-o e lá estava uma das minhas tentativas de ser poeta, um papel cheio de dobraduras e inúmeras palavras riscadas, as quais não me impediram de enxergar o poema principal:

Para :
18/7/2019
#800000 (Bordô)

De todas as cores no mundo
Acredito não ter visto nenhuma tão bonita
Quanto essa que está inundada em teus olhos pequenos.
Se você pudesse ao menos adivinhar
Que alguém neste lugar te amou
O que faria?
Porque o vento que sussurra lá fora é
A voz que te chama aqui dentro.
Porque o medo que atravessa a Linha do Equador
Logo some no Paralelo que corta teu rosto.
Entre Norte e Sul
Nossos hemisférios talvez se completem no mapa
Você sabe, era capaz de atravessar o mundo
Sem explicação geográfica nenhuma
Dizem que é tão simples dizer que se ama
Mas por que um monte de palavras corta a minha goela abaixo?
Neste deserto tudo é sem cor, disseram
Mas ainda vejo o tom da areia.
Ainda que num instante
Permaneço em sua busca
E da cor vermelha que colore tuas maçãs
Te vejo entre espelhos quebrados da alma e mentes em erupção
Nem um mapa mental é capaz de organizar
As reações física, química e biológica acontecendo aqui dentro.
Além de tudo só queria inventar coisas por aí
De tudo, você.

Rapidamente, após ter lido as palavras escritas por mim mesma, fiquei sem chão naquela hora por saber que ele tinha lido, e que realmente tinha lido, porque a parte inferior da folha apresentava um pequeno desenho — que não tinha antes — de um violão assinado, logo abaixo, com as letras P.S.
Observei aquele desenho por um momento e na minha cabeça surgiram certos momentos em que tocara violão nos eventos de Biblioterapia acompanhado da turma de Musicoterapia, e toda vez que o evento acabava ele vinha me abraçar dizendo que um dia ia montar uma banda com os meninos Musicoterapeutas.
Lendo o que escrevi percebi que nunca tive talento para a escrita, a literatura mesmo só esteve presente na minha vida através da leitura e do uso da Biblioterapia em algumas pessoas, todavia esse foi um dos últimos pensamentos que realmente me fizera sentir vergonha. Meu coração começou a palpitar desesperadamente, minhas mãos suavam, e eu só conseguia pensar no rosto do menino que fez morada em mim ao longo dos últimos anos. Ele ao menos sorriu enquanto lia? Porque a preocupação de que ele não tivesse sorrido podia ser maior, e só de pensar na possibilidade notei que um nó se formara em minha garganta ao mesmo tempo em que poucas lágrimas se manifestaram. De pé, olhei minha imagem pelo espelho: parecia alguém com o coração partido sem saber ao certo se estava com o coração partido. Contudo, o barulho de uma notificação vinda do celular me fez despertar. Peguei o telefone que estava no bolso direito da calça, sentei-me no chão da sala, encostada à parede, deixando o livro e o papel ao meu lado, pertos do rodapé, e, assim que desbloqueei a tela, vi uma mensagem recebida de pedindo que eu me encontrasse com ele em trinta minutos no parque em frente ao prédio. Creio que, após isso, experimentei meu coração bater como se fosse a agulha de uma bússola quebrada procurando o norte magnético da Terra a toda hora, mas sem encontrá-lo. Bloqueei a tela do celular e abracei minhas pernas contra meu corpo. Eu sabia que precisava ir, e o mais importante, eu queria ir, queria vê-lo, abraçá-lo, tê-lo comigo mais uma vez naquele dia.
Passado quinze minutos, levantei-me do chão com o celular em mãos e olhei, através da janela, a tarde que fazia. No prédio à frente vi uma moça dançando divertidamente ao som de The Lights Behind You da banda SURL, o que me fizera sentir tamanha alegria na alma porque eu amava aquela música. Aproximei-me, então, da sacada e a brisa da tarde fez meus cabelos esvoaçarem, bagunçando-os em meu rosto. Do alto, curvei meu pescoço podendo enxergar os diversos carros de cores semelhantes cruzarem a avenida e as diferentes pessoas atravessarem as ruas, algumas com pressa; outras tranquilamente, segurando apenas um picolé em uma das mãos.
Distanciei-me de onde estava instante depois de perceber que já se passaram trinta minutos. De repente, quando eu já estava no centro da sala, de costas em relação a janela, meu coração voltou ao seu estado anterior de euforia, como se chamasse pelo nome de a cada segundo. Olhei aqueles livro e papel em contato com o chão, e corri adiante em direção a porta. Girei a chave dentro do cilindro para destrancá-la. Mas algo me deixou surpresa; pois quando abri a porta, a primeira coisa da qual me dei conta era de que estava sentado no chão do corredor do prédio, com a cabeça encostada na parede ao lado do elevador. Com o barulho que a fechadura fizera, e meus passos também, ele se deu conta da minha presença naquele corredor estreito quando olhou para mim e sorriu. Cumprimentei-o com o aceno da mão direita, mal podendo evitar o tremor dela, deixando claro o quão envergonhada e nervosa eu estava. No entanto, ainda tive coragem para olhá-lo nos olhos e perguntar de jeito brincalhão:
— Você ficou esperando todo esse tempo por mim?
O rapaz então desencostou-se da parede e se levantou do chão, ajeitando melhor o casaco nos braços e a mochila nas costas. Aproximou-se de mim exalando aquele perfume delicioso que somente ele tinha, pôs-se a fazer um contato entre nossos olhares, o que me deixara cada vez mais encantada. No fim, escolheu uma mecha escondida atrás da minha orelha para, enfim, brincar de cacheá-la. Assim disse:
— Sempre estive esperando por você.