01. Falling in Love

01. Falling in Love

Sinopse: Um convite de casamento e os pensamentos começam a vagar pelo tempo, o que teria acontecido se ele tivesse se apaixonado?

Capítulo Único

Every day fells like a monday

Acordei mas não me mexi. Tinha dias que eu gostava de fazer isso: Ficar parado completamente imóvel, ainda de olhos fechados e ouvindo os sons do ambiente a minha volta enquanto pensava na vida e todas as decisões que eu havia tomado e que tinham me levado até ali. Às vezes os pensamentos não eram nada demais, às vezes eram. Às vezes tomavam proporções de intensidade que eram capazes de afetar todo o meu dia, fazendo com que o peso sob meus ombros fosse enorme e eu me visse obrigado a parar e lidar com ele, pois existiria um momento que eu sabia que não iria mais aguentar.
E hoje era um desses dias.
Não tinha mais nenhum vestígio de sono ou preguiça em meu corpo, meus olhos estavam muito bem abertos e limpos, mas ainda assim eu me mantinha deitado no quarto escuro ouvindo o barulho da respiração da mulher ao meu lado e com os pensamentos muito longe dali. O relógio não marcava nem cinco da manhã quando meus olhos se abriram. Eu havia tido uma noite de sonhos esquisitos e quando acordei não pensei nem em tentar voltar a dormir, minha mente estava agitada demais para isso. Não me dei conta do tempo que havia passado ali, em estado de total inércia, então senti meus músculos se contraírem assustados quando a voz baixa e simples de Melanie ecoou pelo quarto.— Insônia de novo? — A mulher ao meu lado perguntou e eu virei minha cabeça para encarar seus olhos parcialmente abertos e seu rosto coberto ainda pelos cabelos bagunçados. — Tá tudo bem?— Tá sim — Sorri balançando a cabeça e virei novamente olhando pro relógio de cabeceira que marcava 05:52 da manhã. — Só acordei antes do despertador. — Ela acenou a cabeça e coçou os olhos, esticando o pescoço pra olhar o relógio atrás de mim e afundou o rosto no travesseiro, bufando alto.— Não importa o quanto eu durma, tudo o que eu sei é me sentir cansada. — Ela resmungou ainda contra a peça e eu passei as mãos em seus cabelos, afagando o mesmo. Eu sentia um carinho muito profundo por Melanie. Ela era uma mulher doce, sensível, carinhosa e atenciosa. E por mais que eu soubesse o quão gentil ela era e o quanto eu tentava ser o mais sincero possível com ela sobre os meus sentimentos, ainda me sentia culpado por saber que o que eu sentia não era amor. — Vou levantar, antes que fique pior.— Ela saltou da cama de uma vez só, enrolando os longos cabelos em um coque antes de seguir pro banheiro, mas antes parou na porta — Quer que eu faça o café?

— Não precisa, como alguma coisa no escritório. — Joguei as cobertas de lado, me levantando da cama e acendendo a luz do quarto. A mulher permaneceu parada no mesmo lugar, me fitando curiosamente antes de se virar novamente pro banheiro e seguir para sua higiene matinal.

(…)
 

— Bom dia, — Cassie disse às sete em ponto, quando passei em frente a sua mesa, guardando assustada o espelho que usava para passar seu batom.

— Bom dia, Cassie — Falei arrastado entrando na minha sala e jogando minha pasta na mesa.

— Eu achei que por hoje ser sexta, você estaria mais animado. — Sua voz me seguiu pelo cômodo. — Mas tô vendo que não. Oficialmente cinco dias de mau— humor, o que está acontecendo? — Me joguei na cadeira giratória em frente a minha mesa e encarei Cassie que estava parada na porta. Ela tinha a sobrancelha erguida e um olhar acusador. — Você fez com que todos os dias essa semana parecessem segunda feira, de tão chato que você foi — Acabei curvando meus lábios em um sorriso e joguei a cabeça pra trás, afundando os dedos no cabelo e bufando alto.

— Eu quero terminar com a Melanie. — Disse e evitei encarar a mulher parada do outro lado da sala, pois sabia que seus olhos provavelmente estavam arregalados, mas na falta de uma resposta ou qualquer som que demonstrasse que ela tinha ouvido o que eu falei, ergui a cabeça novamente para ver seus olhos normais, sem nenhum sinal de surpresa. Ela permaneceu me olhando impassível por mais alguns segundos, até que sua boca se abriu e ela soltou um Ah. Parecia que ela tinha acabado de decifrar um mistério.

— E é por causa da correspondência que você recebeu na segunda, né? — Fiz careta, entendendo onde ela queria chegar, mas não entendendo de onde ela tinha tido essa percepção. E xingando mentalmente por ela ser tão perceptiva.

— Não, Cassie. — Voltei a me sentar reto e respirei fundo. Meus olhos bateram no envelope fechado no canto da minha mesa e eu tentei não relacionar minha mudança repentina de humor com ele, mas era impossível. — Eu quero terminar porque eu namoro uma garota foda pra caralho, mas não importa o quanto eu tente, o sentimento não evolui. Ela merece melhor que isso — Cassie sorriu e deu alguns passos para dentro da sala, fechando a porta atrás de si e seguindo para a cadeira vaga na minha frente.

— O que tinha no envelope, .?

— Nada.

— Então o que ta acontecendo?— Ela perguntou com ar curioso, mas eu sabia que ela estava preocupada — Você recebeu uma promoção foda, . Vai pra uma sala maravilhosa, um aumento gordo no salário, mas ainda assim você não parece feliz. Então você recebeu um envelope da tal Josie na segunda e parecia que você tinha visto um fantasma e então ficou a semana inteira estranho e agora me diz que quer terminar com a Melanie, sendo que até semana passada tava tudo bem? Anda,desembucha? Recebeu algum convite de casamento e no cantinho no verso estava rabiscado: Tô casando mas o grande amor da minha vida é você? — Ela posicionou os braços cruzados sobre a mesa e me encarou séria. Quase sorri com a pergunta, já que aquela simples frase fez com que minha cabeça voasse para alguns anos atrás.

— Não aconteceu nada. Cassie. Só tô pensando na vida. Eu não nasci pra esse negócio de relacionamento. Só isso. — Sorri para tranquilizá— la e ela deu de ombros se levantando.

— Já que você tá dizendo, to voltando ao meu humilde posto de sua simples secretária — Ela fez uma careta engraçada — Você tem uma reunião às 07:30 Com o John, vou aproveitar esse horário para arrumar as suas coisas e começar a levar para a sua nova sala, ok?

— Ok. — Acenei com a cabeça e vi a mulher sair da sala, e então finalmente consegui o que queria: ser deixado sozinho com meus pensamentos.

 

10 anos antes.
“Abre a porra da janela, ! Ou eu vou ser obrigado a arrombar” Digitei irritado e nem trinta segundos depois ouvi o click na janela, o que significava que finalmente eu poderia entrar. Pulei dentro do quarto da garota que estava com a cara emburrada e uma toalha envolvendo seu corpo. Britney Spears tocava na radio e ela ignorou totalmente minha presença, se voltando pro guarda roupa, abrindo e começando a procurar alguma coisa ali.

— Você poderia me explicar ao menos o que eu fiz? — Perguntei parado ainda na janela e soltei um palavrão baixo quando percebi que arrancar algo dela seria mais complicado do que eu pensava. — Você vai ficar sem falar comigo? — Me joguei na cama impaciente, mas ela continuou me ignorando, parando de olhar o guarda roupa apenas para ajeitar a toalha que tinha sobre o corpo. A única coisa que me fazia saber que ela não estava nua era a alça do sutiã. — Bom, você não vai falar e eu não vou sair — Cruzei os braços atrás do pescoço e tirei o tênis que usava, me acomodando na tão conhecida cama de .

— O que você tá fazendo aqui? — Ela se virou emburrada, soltando a toalha que tinha na cabeça e deixando seus cabelos caírem sobre os ombros. — Levanta da minha cama — Ela jogou a toalha na minha direção e andou para o outro lado do quarto.

— Que bicho te mordeu, posso entender? De manhã na escola estava normal, tudo normal. Até me chamou pra avisar que vai sair com o Chase, se lembra? — Perguntei e ela se virou ainda me olhando com a cara enfezada. Eu conhecia a 18 anos, o mesmo tempo de minha existência. E se existia algo que eu sabia muito bem sobre ela, era que ela só fazia aquela cara para mim, ninguém mais no mundo tinha o dom de irritá— la tanto quanto eu, intencionalmente ou não. Nossos pais eram melhores amigos que se mudaram para casa vizinhas e planejaram engravidar juntos. Eles nos criaram para que tivéssemos o mesmo tipo de relação que eles tinham, mas em dado momento as coisas meio que se desviaram do caminho.

— Johnson? — Ela finalmente soltou e eu quase vi chamas saindo de seus olhos. — Você tinha que chamar pra ir pro baile com você a Johnson? — Ela quase gritou tirando a toalha que envolvia seu corpo e tacando em minha direção com força, começando a subir então um short por suas pernas.

Você que começou com isso. Você que disse que não queria que fossemos ao baile juntos — Apontei o dedo em sua direção — Você que disse que queria ir com o Chase, eu só segui o fluxo — Me sentei na cama me defendendo e ela cruzou os braços me fuzilando com os olhos. Eu estava irritado por ela ir com Chase, queria que ela fosse comigo, mas nunca iria dizer isso. Era escolha dela, e tínhamos um combinado de não nos metermos as escolhas do outro, apenas apoiarmos. Era assim a anos e eu não conseguia lembrar de algum momento em que quebramos esse acordo. era minha melhor amiga, e eu não conseguia pensar em nenhum momento importante de nossas vidas em que não estivéssemos nós dois. Ela estava lá quando quebrei o braço jogando futebol e quando falhei a primeira vez no exame de motorista por estar nervoso demais. Ela havia sido a primeira a saber sobre minha paixão secreta por Sarah Anderson na 6° série e a única a saber o quanto eu havia detestado beijar a menina. Havia sido a primeira que corri pra contar quando dei meu primeiro beijo e havia sido eu o primeiro beijo dela, quando ela insistiu que eu deveria ensiná— la antes dela sair com Clark, sua primeira paixão do ensino médio. Acho que era exatamente essa parte que nossos pais nunca haviam contado: Nós dois nos envolvemos fisicamente. havia sido a primeira garota com quem eu havia transada e a única com quem eu continuava fazendo isso. Não importava com quem estivéssemos saindo,sempre voltávamos um para o outro. Era mais interessante daquela forma. Era mais gostoso com ela, havia algo sobre a intimidade que havíamos criado que fazia com que tudo fosse melhor entre nós, nos conhecíamos bem demais.

Ótimo, então eu vou ao baile com o Chase e por isso você resolve ir com a garota que eu mais detesto na minha vida? — Ela começou a bater os pés no chão e eu comecei a rir.

— Ciúmes? — Provoquei me levantando e ela revirou os olhos. era a típica garota popular do colégio que atraia quem queria. Ela ficava com quem ela queria e aproveitava muito bem isso. Se existia algo que eu sempre admirava nela era seu jeito livre de viver as coisas e isso era até mesmo conosco.

As coisas entre nós surgiram de uma forma espontânea, como se fosse natural seguirmos para o rumo do físico começamos ficando em festas aleatórias quando ainda tínhamos quinze anos. No inicio ficamos com medo disso estragar a amizade, mas não, tudo permanecia exatamente do mesmo jeito. Eu fui meio resistente no inicio, em continuar com aquilo, mas ela tirou de letra. Lembro a primeira vez que nos pegamos de verdade e eu percebi que estava com uma ereção com a minha melhor amiga, foi ela quem riu e disse que era normal, que ela se sentia da mesma forma, só não tinha um pau que pudesse ficar duro. Quando começamos a evoluir nas nossas ficadas e acabamos fazendo sexo oral um no outro enquanto nossos pais jantavam no andar de baixo, foi ela quem riu e disse que aquilo era bom demais para não repetirmos. Quando transamos a primeira vez foi ela que disse que deveríamos incluir os benefícios na nossa amizade. Ela sempre foi aberta e tranquila quanto a nós e eu sempre pensei que se um dia eu me apaixonasse, ela olharia na minha cara e diria: tá maluco ? Somos só amigos. Mas graças a Deus isso nunca aconteceu.

— Nos seus sonhos. É só uma questão de lealdade.Eu sou sua melhor amiga e você vai sair com a minha maior inimiga — Ela deu um tom teatral a frase e foi minha vez de revirar os olhos.

— Você já ficou com pessoas que eu não gosto e nem por isso eu fiz cena. É só um baile, . — Ela me olhou nos olhos. — Quem te garante que vai ser também pra mim? — Ela desafiou, empinando o rosto.

— Os fatos. — Afundei meu rosto em seus ombros e comecei a distribuir beijos por ali. — Eu sei que ele não conhece seu corpo que nem eu — Beijei a região do seu pescoço que eu sabia que ela era sensível e subi o rastro de beijos por ali. — Eu sei que quando você beijou ele, não foi tão gostoso quanto me beijar — Prendi a pele de seu pescoço entre os dentes e comecei a vê— la ceder. Se tivesse sido bom, ela teria me contado — E que enquanto ele te beijava você não sentiu vontade nenhuma — Falei baixo em seu ouvido, colocando minha mão por baixo da camiseta que ela usava e a segurando firme pela cintura, sentindo o calor da sua pele — você não sentiu vontade nenhuma que ele tirasse sua roupa, como eu sei que você quer que eu faça agora. — Parei meu rosto — E que tudo o que você está fazendo agora é só charme, já que você assim como eu sabe que não importa quem a gente leve para aquela porra de baile, no final da noite vamos estar nós dois em cima dessa cama, pelados, suados e rindo do quão entediante aquele lugar foi e planejando todas as coisas que vamos fazer quando metermos o pé daqui. Eu sei que pra você é só diversão porque ninguém nesse mundo te conhece como eu. — Puxei sua blusa pra cima e ela não argumentou,apenas me empurrou alguns centímetros e me olhou com os olhos cerrados antes de acrescentar:

— Odeio o fato de você me conhecer tão bem. — Ela disse antes de colar seus lábios aos meus, me empurrando para a cama, me fazendo sorrir. Aquela ali era , minha melhor amiga e não havia absolutamente nada que eu não soubesse sobre ela.


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— Essa sala é simplesmente maravilhosa! — Falou colocando alguns livros no lugar. Ela estava tão empolgada com minha nova sala que havia conseguido me contagiar com sua empolgação. Cassie sempre conseguia fazer isso comigo, algo nela sempre trazia algo bom em mim, pois sempre me dava uma sensação boa de casa. Eu me via forçado a admitir pra mim mesmo, que ela me dava essa sensação porque me lembrava , o jeito espontâneo de dizer as coisas, sem se importar realmente com o que eu ia pensar, apenas sabendo que era aquilo que eu precisava ouvir. — Essa vista daqui é divina — Ela parou em frente a minha grande janela e olhou maravilhada o parque que conseguíamos ver através dos vidros. — , sei que você anda meio deprimido, mas isso é uma coisa boa. Você tem 28 anos e acabou de receber uma tremenda promoção, coisa que qualquer um na sua idade ia estar vibrando. Você realmente não está feliz? — Ela me olhou preocupada.

— Eu tô feliz, Cassie. De verdade. Isso aqui é tudo o que eu sempre sonhei. — Sorri de verdade, parando ao seu lado na janela e olhando pra fora. Havia um cachorro e uma criança brincando ali.

— Que bom — Ela bateu palminhas — Sei que você não quer sair com ninguém do escritório para comemorar e que a Melanie tá trabalhando hoje, mas ainda acho que você deveria comemorar essa promoção. Quando você sonhava com isso, quem é que estava ao seu lado? Talvez você devesse ligar para algum amigo antigo e chamar pra comemorar, não deveria deixar isso passar em branco. Até toparia tomar uma cerveja com você, mas você sabe, é sexta, dia de dar atenção pro boy.

— Fica tranquila. Vou ficar bem — Ela acenou com a cabeça.

— Ok. A propósito — Ela olhou pra minha mesa e pro envelope que ela tinha deixado bem ali em cima do meu computador. — O envelope tá ali, caso você fique curioso pra abrir, sabe? — Ela me lançou uma piscadinha antes de sair da sala.

10 anos antes
— Você errou totalmente na sua previsão. — chamou minha atenção e eu a encarei. Ela estava deitada de bruços ao meu lado e eu conseguia ver as gotículas de suor que se formavam em suas costas.

— Eu disse que terminaríamos o baile na sua cama né? — Ela riu e sacudiu a cabeça. Estávamos nus e deitados no banco do meu carro, parados em alguma rua deserta que provavelmente não saberíamos dizer o nome.

— Foi melhor ou pior do que você imaginava?

— Nenhum dos dois. Eu não ligo pra baile. E pra você? Como é ser a rainha do baile? O centro da atenção de todo mundo? Supriu suas expectativas? — Ela revirou os olhos.

— Não sou o centro da atenção de todo mundo — Ela mordeu os lábios — E eu não tinha expectativas quanto a isso. — Ela ficou em silêncio abruptamente e percebi a mudança na sua respiração.

— O que foi?

— Tenho pensado muito no futuro . E em tudo o que a gente tem pensado e planejado. Você pensa sobre isso ou já repensou isso alguma vez?

— Não — Respondi simples, porque era verdade. — Sei lá, Pra mim sempre foi isso: terminar a escola, ir pra uma faculdade longe, dividir um apartamento com você e viver a vida. Em algum momento vamos conhecer alguém, vamos nos apaixonar, vai se difícil pra caralho ver você com outro cara e saber que realmente não vou poder mais me aproximar — Fiz um sinal com as mãos indicando nós dois — E então, quando você tiver filhos adolescentes, eu vou tirar onda com eles dizendo que na idade deles eu comia a mãe deles — Ela me deu um tapa forte no peito e eu segurei sua mão reclamando e alisando o local.

— Você nunca vai poder contar pro meu marido as merdas que a gente já aprontou. — Ela falou como se fosse óbvio.

— Você nunca vai conseguir ser você se viver com alguém sem poder contar sobre as merdas que a gente já aprontou — Ela fez uma careta, já que aquilo era muito óbvio.

— Mas e se você se apaixonar primeiro? — Eu ri debochado.

— Duvido muito que isso aconteça. Mas se acontecer a gente dá um jeito.

 

— E se a gente nunca se apaixonar por ninguém? E se eu nunca me apaixonar e encontrar alguém com quem eu queira passar minha vida? — Ela indagou me olhando bem séria. Ela parecia realmente estar pensando sobre aquele assunto. — Sei lá, eu quero casar, construir uma família. Você não pensa nisso?

— Se nenhum de nós dois se apaixonar por ninguém até os trinta, a gente casa. — Falei como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Não vai ser diferente de agora, ou de quando tivermos morando juntos. Acho que a única diferença vai ser que todo mundo vai saber que a gente transa, não vai ser mais escondido. — Ela riu.

— Ai não vai ter graça. O que me dá tesão é a aventura.

— Nós dois sabemos que isso não é verdade. — Outro tapa.

— Então tá bom. Vou adicionar às minhas imaginações futuras, que daqui a daqui a 10 anos, se não tivermos ninguém a gente casa e eu engravido. Vai ser assim que eu vou imaginar o plano B da minha vida agora.

— Não concordei com a parte de filhos, mas ok. Pago tudo pra ver você com aquele barrigão sem conseguir cortar as próprias unhas dos pés.

— E você, como se imagina? — Ela deitou no meu peito e eu comecei a acariciar suas costas. — Daqui a dez anos, quando você para pra pensar nisso, o que vem na sua cabeça?

— Eu me imagino parado olhando pela vista do meu escritório. Tem um parque lá embaixo e tem uma criança correndo junto com um cachorro. Eu sempre imaginei que seria seu filho e você estaria me esperando pra comemorarmos minha nova promoção. Você deixaria a criança com o pai e então nós dois iríamos pra um bar encher a cara e comemorar o fato de que eu sou o solteiro mais cobiçado e inteligente do mundo. — Ela gargalhou alto. — Mas já que você quer casar, então vou imaginar que a criança correndo é o nosso filho. — Ela me olhou sorrindo carinhosa. — Ele é lindo que nem eu, e ele não tá correndo com o cachorro, mas o cachorro tá correndo atrás dele. Tem meleca escorrendo do seu nariz e ele grita e faz pirraça se jogando no chão. Você tenta correr atrás dele, mas não consegue, pois sua barriga de trigêmeos te impede de correr e você tem que empurrar o carrinho da nossa menina mais nova. Então você começa a gritar com o menino e o cachorro no meio do parque e todo mundo fica olhando pra você achando que você é louca e eu fico te olhando da janela e sorrindo, pensando: Bem feito. Sempre disse que eu não era pra casar. Tá bom pra você? — Ela ria alto e eu me virei de lado, voltando a encaixar nossos corpos.

— Por mim tá perfeito. Você sempre me avisou, eu to caindo nessa porque quero. — Ela falou me olhando nos olhos e eu beijei seus lábios.

— Exatamente, mas nossos filhos serão lindos. — Mordi seus lábios e ela repousou sua mão em meu peito.

— Com nossos genes? Eles serão maravilhosos. — Ela concordou com a cabeça e eu me senti o cara mais sortudo do mundo por tê— la ao meu lado para compartilhar sua vida comigo, mesmos nas nossas ideias mais malucas.

— Então o plano é esse,não importa o que aconteça a gente nunca sai um da vida do outro.— Ela me encarou séria, mas um sorriso brincando em seus lábios.

— Você não vai se ver livre de mim, . — Ela mordeu meu lábio.

— Espero que não, Porque eu te amo, e uma via sem você nela seria muito estranha — Eu beijei seus lábios e brinquei com seus cabelos.

— Eu também te amo, . Ela segurou meu cabelo e suspirou e aquele foi um daqueles momentos que eu queria que durassem pra sempre.

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! Você ainda esta parado olhando pro nada e com cara de babaca! — Cassie bateu a porta atrás de si e eu saltei. Estava com o computador aberto fingindo olhar pra ele, mas pensava em . Durante todo o dia tudo o que eu havia feito foi pensar em .

— Eu estou trabalhando — Apontei o computador e Cassie revirou os olhos e me mostrou que eu estava parado na tela de caixa de entrada do computador, mas ainda não tinha conectado o mesmo ao wi— fi.

— Me diz quem é ela. Por favor, não vou aguentar ir pra casa e passar o final de semana inteiro sem saber porque esse maldito envelope mexeu tanto com você. — É ela nessa foto? — Ela apontou pro porta— retrato que eu tinha na minha mesa. Na foto estávamos , seus pais, meus pais e eu no dia de nossa formatura.

— Uhum — Acenei com a cabeça. — Ela foi minha melhor amiga por 18 anos.

— Ok. E o que aconteceu?

— A gente seguiu caminhos diferentes. Só isso. E acabamos nos afastando.

— A quanto tempo vocês não se falam?

— Como amigos, 8 anos. Cinco anos. Nos reencontramos no aniversário de casamento dos seus pais, mas ela estava com um namorado e eu estava com alguém e para evitar qualquer tipo de problema eu preferi ficar afastado.
— Você era apaixonado por ela? — Sorri com a ironia daquela pergunta.

— Não — Suspirei.

— Mas vocês se envolveram romanticamente?

— Mais ou menos.

— Você sente falta dela?

— Sempre

— Ela ainda tá com o mesmo cara, do aniversário de casamento dos pais?

— Não faço ideia. Nossos pais não entenderam nada quando nos afastamos, mas perceberam o quanto falar um do outro magoava a gente, então com o tempo pararam de fazer essas trocas de informações. Eu não sei mais nada dela, e acho que ela também não sabe mais nada de mim.

— Já pensou em tentar um reencontro?

— Acho que vai acontecer mesmo sem eu ter planejado — Peguei o envelope branco e abri, finalmente mostrando à Cassie o motivo da minha mudança de humor. A reação de Cassie ao encarar o conteúdo do envelope me fez rir. Ela parecia um boneco de desenho animado.

— Ai meu Deus — Ela levou a mão ao rosto — Você está apaixonado por ela e ela vai casar. — Seus olhos se encheram de água ao ver o convite em cima da mesa e eu ri.

— Eu não estou apaixonado por ela, Cassie. Hoje, talvez se nos reencontrássemos eu poderia até me apaixonar, mas não estou e nunca estive apaixonado por ela. Eu só sinto falta dela. — Dei de ombros — Ela foi minha melhor amiga por anos, compartilhei tudo da minha vida com ela, e esse momento que eu to vivendo hoje, era com ela que eu queria compartilhar. — Olhei pra sala ao meu redor. — É como se não fizesse sentido viver isso sem contar pra ela.E então eu recebo o convite do seu casamento e percebo que não sei nada mais sobre ela e que não era assim que as coisas deveriam ser. Eu nem sei com quem ela vai casar. Eu deveria aprovar esse cara, sabe?

— Acho que você deveria ligar pra ela. — Cassie encostou em minha mão. — Se você sente tanta falta dela, você deveria ligar pra ela e dizer isso. E perguntar sobre a vida dela e contar sobre a sua. Eu não sei o que aconteceu com vocês, mas se ela teve toda essa importância, talvez ela deva saber disso. — Cassie sorriu encorajadora — Agora vou te deixar pensar nisso enquanto faço uma saída estratégica. Ela se levantou da cadeira e me deixou mais uma vez, sozinho na sala com meus próprios pensamentos.

 

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— Tá devendo? — Perguntei quando bati a porta do quarto de e ela saltou na cama com os olhos arregalados.

— Não — Ela falou ofegante, embora estivesse sentada. Parei na sua frente olhando pro rosto da garota que eu jurava que conhecia melhor até do que eu mesmo, mas eu estava enganado. Eu poderia até não conhecê— la tão bem quanto eu achava, mas ela me conhecia bem o suficiente pra saber só de olhar nos meus olhos saber que eu estava puto. E se eu estava puto era porque eu sabia. Só de me olhar ela já sabia que eu sabia. — , eu posso explicar. — Ela se levantou, e eu tentei fingir que não estava puto e agir normalmente me jogando em sua cama como se nada tivesse acontecido, mas eu não conseguia. Eu estava magoado. Muito magoado.

— Não precisa, . A vida é sua. Você faz dela o que você quer, segue o caminho que quiser. — Não consegui ficar deitado. Eu estava ansioso demais pra isso, então me levantei e comecei a andar pelo quarto. — Só me tira uma dúvida, aquela ideia de que um dia a gente poderia construir nossa própria família também morreu ne? Eu não preciso mais ser a porra do seu plano B né? Na verdade não sei nem se vamos fazer parte da vida um do outro mais, mas quer saber, foda— se. Aparentemente você não se importa, porque eu deveria fazer isso? — Dei de ombros, sentindo ódio de mim por sentir aquela repentina vontade de chorar. Eu me sentia traído. Não era tão indiferente assim, eu não conseguia imaginar minha vida sem aquela garota. Quinze dias atrás havíamos tido nossa formatura da escola. Nós dois fomos aprovados na mesma universidade, a cinco horas de distância de casa. tudo estava bem. Então imagine a minha surpresa ao acordar e descobrir pelos meus pais que não ia pra mesma faculdade que eu, muito pelo contrário, ela iria pra uma faculdade do outro lado do País e seus pais estariam viajando com ela pra que ela pudesse conhecer a cidade e conhecer sua colega de quarto antes de precisar se mudar oficialmente.

, não é assim.— Ela se posicionou na minha frente e eu conseguia ver o quanto ela estava nervosa. Não havia nada de muito diferente em sua expressão, mas seu olhar, eu sabia reconhecer tudo do seu olhar. Ou até aquele momento em que eu descobri que quase tudo.

— Tá tudo bem, você ter planos diferentes pra vida, . Você não precisa me seguir, ou ficar com medo de dizer que você não quer fazer o que eu sugeri, ou até mesmo planejar comigo se você não quiser. Somos amigos, sempre fomos, nunca mentimos um pro outro e prometemos respeitar as escolhas — Eu senti minha voz embargar — Eu só não queria ter que descobrir pelo meu pai que você vai pra outro lugar. — Foi um enorme bolo na minha garganta quando falei aquilo em voz alta. Eu nunca havia pensado minha vida sem por perto. — Era só você ter me dito: , não quero ir com você. Essa sua ideia de morarmos juntos, de irmos pra mesma faculdade é retardada e eu não quero isso. A gente dá um jeito de manter contato mesmo estando em lados diferentes do país e pronto.

— A ideia de irmos pra mesma faculdade foi minha e não sua. — Ela acrescentou e percebi que começou a respirar mais forte.

— Então por que você se inscreveu para um lugar tão longe? — Eu quase gritei pela frustração. Nada fazia sentido pra mim, e então ela começou a chorar. Ela nunca chorava independente da intensidade da nossa briga, e já havíamos tido muitas. Em uma delas, ficamos 16 dias sem nos falar. Me aproximei dela e segurei seus ombros — amor de Deus, fala comigo. Você estava com medo de não passar? Eu poderia ter me inscrito na outra também. — Pela primeira vez em 18 anos eu vi fugir do meu olhar e vi ali uma coisa que eu raramente precisei identificar: vergonha. — , por favor, fala comigo. Não me deixa no escuro sem saber o que tá acontecendo. Isso é novo pra mim. Não importa o que esteja acontecendo, você pode falar comigo. Eu vou ouvir e só ser eu. O que tá sempre aqui com você, ok? — Ela acenou com a cabeça e voltou seus olhos marejados pra mim, acariciei seu rosto, colocando uma mexa de seu cabelo atrás da orelha.

— Eu sou completamente apaixonada por você — Foi como se alguém tivesse acabado de dar um soco no meu estômago e cortado toda minha respiração. Eu sentia meus olhos saltados das órbitas mas minha boca era incapaz de produzir qualquer som. — Desde sempre. No primeiro beijo, na primeira transa. Desde que eu me lembro sobre o que é se sentir atraída por alguém eu sou apaixonada por você. Eu já cheguei a pensar que não era por você, que era pela gente. Pelo que a gente é, por como somos e ficamos. Pelo que a gente tem, mas não. É por você. Mesmo quando eu saio com outras pessoas, continua sendo por você. E quando a gente briga, e quando fazemos as pazes. É sobre querer compartilhar tudo com você. Você é a primeira pessoa que eu penso pra tudo. Eu juro que eu tentei e ainda tento esquecer, eu tento disfarçar. Eu nunca nem disse isso em voz alta, porque eu tenho tanto medo, , Tanto medo de tudo o que eu posso perder dizendo isso em voz alta. Eu tenho tanto medo, mas tanto medo. — Ela soluçou e eu continuei imóvel, com a mão no seu rosto ainda tentando assimilar tudo o que estava sendo falado. — Eu não posso planejar ir pra faculdade com você e continuar vivendo da forma que a gente vive porque de um tempo pra cá começou a doer. E eu não sei se dói porque eu nunca escondi nada de você, ou porque não é recíproco. Eu só sei que dói. E então vieram as inscrições e eu percebi que se nesses 18 anos aqui, nada mudou,e então eu não deveria tentar viver mais 4 ou 5 na faculdade na esperança de que fosse mudar. Eu precisava tentar coisas novas.Mesmo sabendo que você pode nunca me perdoar por não ter te dito,só ter escolhido ir pra outro lugar e pronto. — Ela soluçou mais alto e então eu finalmente me movi. — Eu te amo , mas eu também estou apaixonada por você e eu preciso deixar de ser apaixonada por você pra que eu possa continuar te amando. Por favor, não me odeie.

— Tá tudo bem. Eu não tô com raiva — A puxei pra me abraçar. Ainda estava anestesiado pela informação. Era novo pra mim. Nunca, em hipótese nenhuma eu havia imaginado aquilo, sonhado com aquilo ou pensado aquilo. Tudo sobre nós era genuíno, era natural, era explícito. Nunca achei que ela pudesse guardar sentimentos dessa forma, assim como eu mesmo nunca havia pensado nela dessa forma. Muito pelo contrário, havia falado varias e varias e varias vezes sobre como eu nunca havia me apaixonado ou encontrado alguém que despertasse em mim o sentimento que fosse me fazer querer ficar com a pessoa pra sempre. — Me desculpa — Ela sabia no que eu estava pensando, ela sabia a culpa que eu estava sentindo por tantas vezes tê— la magoado, mesmo sem nenhuma intenção.— Ta tudo bem — Eu falei mais pra mim mesmo do que pra ela. — — Eu não sei o que eu vou fazer sem você. — Confessei de modo totalmente egoísta. — Me perdoa, .Eu nunca...

, não precisa falar nada. — Ela sorriu, enxugando as lágrimas.Eu conheço você com a palma da minha mão. Eu sei todas as suas intenções. Eu nunca fui a romântica, nunca pensei que eu fosse me declarar pra você e você fosse fazer isso de volta, ou perceber que era apaixonado por mim, porque eu te conheço. Eu conheço a gente. Tá tudo bem, eu só não consigo controlar esse sentimento e começou a me fazer mal, eu preciso me afastar.

— O que você estava pensando em fazer agora? O que você estava planejando? No que você pensou?

— Eu vou viajar pra conhecer minha colega de quarto. Vou conhecer a cidade e ver se acho um lugar por lá pra passar o verão, queria me adaptar antes das aulas começarem, procurar um emprego,conhecer novas pessoas. — Ela se afastou alguns centimetros — Eu preciso tentar criar uma nova vida sem você por perto — A minha primeira lagrima escorreu quando ela falou aquilo porque realmente doeu. Era estranho. — Tentar descobrir quem é a quando ela não está apaixonada por .

— Eu aposto que ela é um ser humano incrível, com um coração enorme e que vai deixar um monte de gente encantada e enlouquecida — Enxuguei meus olhos. — Você vai se sair bem. Tenho certeza disso.

— Me desculpa por não cumprir a promessa de deixar Britney tocando até as 3 horas da manhã e te atrapalhar de estudar.

— Eu vou sobreviver — Tentei sorrir e ela aproximou nossos rostos, selando nossos labios. Não sei quanto tempo ficamos assim, próximos, apenas respirando. Eu sentindo um bolo na minha garganta e me controlando pra não deixar sair tudo na frente dela. — Eu vou sentir sua falta. — Abri meus olhos, mas ela ainda tinha seus olhos fechados. — Mais do que você pode imaginar. — Ela finalmente os abriu — Quando você vai?

— Em 3 dias. — O bolo na minha garganta ficou mais pesado. Eu queria lhe perguntar se eu poderia leva— la no aeroporto, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que ali, naquele momento era a nossa despedida. — Você não vai esquecer de mim, né?

— Nem se eu quisesse.

— Talvez eu encontre algum velho rico, e a próxima vez que a gente se veja, seja depois que eu te mandar um convite do meu casamento riscado no canto que eu ainda amo você e você vá me ver entrando na igreja para dar o golpe do baú. — Sorri abertamente e selei nossos lábios de novo.

— Vou sentir sua falta, .

— Também vou sentir sua falta, . — Ela afastou nossos corpos e olhou pras nossas mãos entrelaçadas. — Ainda podemos nos casar se tivermos solteiros aos trinta?

— Sempre. — Beijei suas mãos juntas as minhas e me levantei. — A gente vai poder manter contato?

— Por enquanto não. — Ela disse e eu entendia. Eu realmente entendia. A abracei uma ultima vez e depositei um beijo no alto de sua cabeça — Eu te amo, . Disse antes de sair do quarto, em momento nenhum ao entrar ali minutos atrás eu imaginei que poderia ser uma ultima vez. E foi só fechar aquela porta pelo que eu sabia ser a última vez que o bolo preso em minha garganta desceu pelos meus olhos em forma de lagrimas. Eu não importei com Tia Peggy, mãe de que me olhou com pena quando me despedi dela chorando. Não esperei chegar em casa pra deixar toda lagrima cair, elas já estavam descendo com toda velocidade pelo meu rosto quando cheguei na rua. Eu sentia um misto de surpresa, choque, dor e falta. Ela ainda nem tinha ido e eu já senti mais falta dela do que havia sentido em qualquer coisa na minha vida. Eu era um idiota. Um idiota por não ter percebido ou correspondido. Idiota por não ter sentido o mesmo. Eu me sentia idiota por estar atravessando o quintal pra minha casa chorando, sabendo que minha melhor amiga estava sentada na janela atrás de mim fazendo a mesma coisa. Ela sempre fazia isso.E aquela era a última vez.

I could have fallen in love
 

Olhei pro convite na minha frente e respirei fundo antes de finalmente pegar meu telefone. Mesmo depois de todos esses anos eu ainda tinha o seu número. Minha mãe sempre fazia questão de me mandar seus números atualizados, na esperança que de uma hora para a outra retomássemos o contato. Respirei fundo e disquei o número, rezando internamente que ainda fosse dela e que eu pudesse ouvir sua voz do outro lado da linha.

5 toques e então ela atendeu. Eu reconheceria aquela voz em qualquer canto do planeta.

— Alô — Ela disse do outro lado da linha e instantaneamente eu sorri.

— Imagine a minha frustração ao receber uma promoção importante no trabalho, ganhar uma mesa de frente pra uma enorme janela de vidro que dá pra um parque e não ver você lá embaixo correndo atrás dos seus cinco filhos melequentos enquanto me espera pra gente comemorar num bar sujo bebendo cerveja. — Ouvi sua gargalhada do outro lado da linha e automaticamente sorri, me sentindo novamente como se eu tivesse dezoito anos. Como eu havia sentido falta dela.

, você está vivo! — Ela exclamou e se eu fechasse os olhos poderia lembrar perfeitamente da sua expressão e calcular que ela estava mordendo os lábios.

— Vivinho da silva. E pelo que consta, agora a procura de um par ideal, já que pelo que me acabou de chegar aqui — Menti,já havia recebido o convite a 4 dias. — Serei o único de nós dois que chegará solteiro aos trinta. Eu estou realmente feliz por você . — Falei sincero, embora não tivesse nem conseguido abrir o envelope lacrado na minha frente. Ouvi uma risada do outro lado da linha.

— Tá mesmo? O que achou do meu noivo? — Ela perguntou e pude ouvir um barulho de algo caindo no chão. Fiquei em silencio alguns segundos, até ouvir sua voz de novo. — Hein?

— Ele parece ser um cara legal — Respondi a primeira coisa que veio na minha cabeça e ouvi mais uma vez sua gargalhada, mas dessa vez não entendi o motivo.

, você abriu o convite?

— Não — Admiti rindo pra mim mesmo sem nem saber o porquê. — Ainda não digeri a ideia de você estar casando. Ele deveria passar pela minha aprovação antes, sabe? Sempre pensei que eu aprovaria seu futuro marido. — Ouvi mais uma vez sua gargalhada e era incrível como ela parecia música para os meus ouvidos. Eu poderia ouvir ela rindo pra sempre.

— Abra o convite, — Ela não esperou que eu respondesse. Ouvi o barulho do fim da ligação antes mesmo que eu pudesse abrir a boca pra contestar. Desliguei o telefone revirando os olhos e peguei o convite que estava a minha frente. Ao abri— lo, tomei um susto ao ver que por dentro havia apenas uma foto. Nela,havia uma montagem de e o personagem de Rumpelstiltskin abraçados. Foi minha vez de gargalhar alto e então no canto do cartão, pude reconhecer a inconfundível letra da minha melhor amiga, e foi impossível não abrir um sorriso, ao ler o que estava escrito ali.

"Não foi dessa vez. Ainda te espero nos trinta, parabéns pela promoção. Sinto sua falta".

 

Fim.