06. Walls

Sinopse: As lembranças da tragédia que levou sua família são vividas um ano após o acidente. E Harry precisa passar por isso sozinho.
Gênero: Romance
Classificação: Livre
Restrição: Sem restrição.
Beta: Sharpay Evans

2020

A chuva caía lenta e tristemente pela janela do quarto quando decidiu acordar naquela manhã. O clima estava mais frio que o normal, e precisou se enrolar na coberta para se esquentar, uma vez que tremia. De certa forma, era como se o próprio dia estivesse refletindo seu estado de espírito naquele momento. Triste, cinza e lento. Viu que tinha acordado antes das sete novamente e suspirou, cansado. Nada desperta mais rápido do que acordar sozinho. Olhou para seu anelar esquerdo, encarando a aliança dourada que se recusava a tirar. Era o seu porto seguro, e também era a sua pior lembrança.
Um ano havia se passado e não estava nem perto de superar o que tinha acontecido. Um ano sem a melhor coisa que aconteceu com ele. Um ano sem seu calor, sua risada, seu perfume.
Levantou-se da cama, descendo as escadas e chegando até a sala. tinha se planejado para esse dia. Tinha planejado o que faria quando ele chegasse e sabia que precisava passar por isso. Alcançou o pequeno pen drive em cima do painel e o encaixou na TV. Enquanto carregava, foi até a cozinha preparar um copo de leite quente.
Quando estava tudo pronto, deu play na televisão, e psicologicamente se preparou para a enxurrada de emoções que receberia naquele momento. A primeira foto era dele e com uma roupa de gala no baile de formatura do Ensino Médio. Seu cabelo estava mais curto e ela tinha pedido para ele tirar o piercing dos lábios. Ele não quis. O resultado foi uma foto muito engraçada de com um sorriso enorme e com uma adorável cara fechada. sorriu, lembrando dos acontecimentos que o tinham levado para aquele momento.

2011

estava sentado no banco da praça próxima à casa dos tios sentindo pena de si mesmo quando reparou em pela primeira vez. A garota de dezessete anos parecia divertida, como muitas garotas que ele conhecia, mas de alguma forma era a mais diferente dali. Seus olhos expressivos e risonhos chamaram a atenção do calado , que sinceramente não era de ter sua atenção fixada em algo por muito tempo.
era o que podia ser considerado um garoto problema. Seus pais haviam morrido em um acidente de carro quatro anos antes, transformando o garoto doce que todos conheciam em um rapaz ranzinza, violento, debochado e negligente. Mais de uma vez teve o carro confiscado por quase causar acidentes no estacionamento da escola, suas notas caíram drasticamente e o que mais o enchia de orgulho em seu péssimo comportamento estudantil foi o simulado do ano anterior: foi a única pessoa, na história do colégio, que tinha errado todas as questões.
tinha alguns amigos, mas os afastava sem perceber muitas vezes, principalmente quando se sentia mais quebrado por dentro. Perder os pais não tinha sido fácil para ele, que notou, talvez tarde demais, que tinha erguido uma parede ao redor de si para o resto do mundo, e nunca deixava ninguém se aproximar mais do que o necessário.
Por mais clichê que pudesse soar, isso mudou quando conheceu . Mas não foi tão rápido quanto poderia ter sido.
era o completo oposto de . Presidente do grupo estudantil, popular, estudiosa, bonita e educada. Sempre ia a todas as reuniões que o corpo discente propunha e era fácil o tipo de pessoa a quem os outros pediam conselhos e buscavam sugestões para resolver problemas.
não era o tipo de garota com quem se envolveria.
não era o tipo de garoto que escolheria para conviver.
Mas de um jeito muito estranho, o destino os colocou lado a lado.
Enquanto estava distraída com algumas amigas, Spike, o vira-lata segurado por , escapou de sua coleira, correndo logo em seguida. Desesperada, a garota abandonou seu posto para correr atrás do cão perdido antes que acontecesse algo de grave com ele. Suspeitava que a Sra. Button não iria gostar nadinha se perdesse seu cachorro e a garota não queria pagar para ver. É claro que, de todos os lugares possíveis que Spike poderia estar, pulou diretamente no colo de , que encarou o animal, surpreso.
Vendo que era correndo até ele, não conseguiu evitar que suas bochechas se colorissem de um claro tom de rosa, levantando Spike e o segurando para que não fugisse novamente.
sabia quem era, claro. O garoto alto de cabelos longos, duas imensas tatuagens no braço e vários piercings brincando pela sua face não eram exatamente algo que dava para ignorar. teria ficado com medo dele quando se aproximou, se não fosse a expressão tranquila que o garoto ofereceu a ela.
– Obrigada. – Agradeceu, tímida, pegando Spike no colo.
deu de ombros, sorrindo como se não se importasse.
– É, ele pulou em mim.
riu.
– Spike é simpático. – Falou sorrindo e acariciando os pelos amarelados do animal.
se levantou, era pelo menos trinta centímetros mais alto que ela, e passou a mão pelos cabelos.
– Presta atenção da próxima vez. – Sugeriu apontando para Spike e passando a língua pelo piercing que pendia em seus lábios. – Algumas pessoas não gostam de ser atacadas por cães.
nem teve tempo de retrucar, achando o garoto excepcionalmente ignorante.
– Quem não gostaria de ser atacado por uma coisinha que nem você? – Perguntou ao cachorro com uma voz fininha, devolvendo Spike seguro em sua coleira.
Olhou novamente por onde tinha saído e o encontrou na esquina da praça, apagando um cigarro. A garota revirou os olhos, torcendo para não precisar lidar com ele nunca mais.

Duas semanas se passaram e por mais que tenha notado na escola várias vezes, não pensou muito no assunto. Estava em sua aula de história, prestando uma atenção mínima ao que o professor dizia. O assunto era Segunda Guerra Mundial, assunto que dominava, embora não levasse muito a sério. Até Josh Lynch decidir que defendia Hittler, o que chamou atenção do garoto, que tirou os olhos do desenho que fazia para encarar o colega de turma.
– Quer dizer. – Ia dizendo Josh. – Hittler não estava errado. Não deixamos qualquer um entrar nos Estados Unidos.
– E por isso – Começou , com sua voz rouca e baixa. – está tudo bem matar milhões de pessoas?
As pessoas tinham medo dele, mas Lynch parecia não ter noção do perigo. O rapaz loiro sorriu, virando-se de frente para .
– Estou dizendo que admiro ele ter feito o que fez para defender seus ideais.
riu, debochado, sem acreditar no que ouvia.
– Essa foi a coisa mais estúpida que já ouvi. – Murmurou uma garota atrás de Lynch.
– Não foi? – Concordou , levantando-se.
– Sr. , por favor, sente.
– Então você está me dizendo que apoia Hittler e tudo que aconteceu na segunda guerra? – Questionou , ignorando as súplicas do professor.
Lynch parecia ter notado o que fez, e muito embora tenha ficado pálido, continuou defendendo publicamente o nazismo. não era apenas um cara que repudiava aquele comportamento, ele era filho de pais judeus e para ele aquela afirmação foi para o lado pessoal.
– Se as pessoas tivessem sido obedientes nada daquilo teria acontecido.
– Eu não vou repetir, Sr. ! – Guinchou novamente o ignorado professor.
– Se os judeus não tivessem sido tão burros, quem sabe. – Continuou Lynch, rindo.
O sorriso debochado de sumiu de seu rosto, e avançou em Josh tão rápido que o mesmo não teve tempo nem de se defender. Atingiu um soco na cara do colega, que esfregava a face, olhando lívido para o miúdo professor de história em busca de repreensão.
– Desculpe. – Falou , massageando o punho. – Estava apenas defendendo meus ideais.
– Sr. ! – Gritou o professor, com autoridade. – Para diretoria, por gentileza. Você também, Lynch, esse tipo de discurso não é compatível com a minha sala de aula.
– Mas eu levei um soco! – Murmurou Lynch, enquanto saia da sala o mais depressa possível, provavelmente com medo de levar outro.
– Não concordo, mas foi merecido. – Cochichou o professor para quando este saiu da sala.
O garoto sabia muito bem o caminho para a diretoria. Era uma rota conhecida por ele, por todas as vezes que tinha sido mandado para lá. Aguardou, longe de onde Josh estava, sua vez de conversar com o diretor Milles. Quando foi chamado, o diretor já estava com cara de exausto.
– Ouvi as queixas do Sr. Lynch. – Começou o educador, coçando a cabeça. – Você socou ele?
– Sim, senhor.
– Na cara?
– Sim, senhor.
– Na sala de aula?
arqueou as sobrancelhas, assentindo mais uma vez.
– Sim, senhor.
– Só porque a opinião dele era contra a sua?
sorriu.
– Bom saber que defender o nazismo é considerado uma opinião. Pensei que era um discurso incompatível com os ideais da escola.
– Mesmo assim, o senhor está errado. – Murmurou o diretor, encostando suas costas na cadeira. – Parabéns, ganhou mais uma detenção.
prendeu o cabelo em um coque, olhando com tédio.
– Legal. Posso ir agora?
– Sra. Dott, pode pedir para a Srta. entrar, por gentileza? – Disse o Sr. Milles no telefone. – Você nunca mais vai se meter em confusão depois dessa, Sr. .
bufou, aguardando quem quer que fosse. Poderia ser qualquer pessoa, mas era , claro. abriu a porta com um sorriso afetado, sorriso que sumiu quando deu de cara com .
– Mandou me chamar, diretor?
– Ainda está precisando de ajuda, pelo que eu soube. – Disse Sr. Milles, sorrindo para ela.
olhou discretamente para , que voltou a sorrir debochado para a garota.
– Sim, estou.
– Aqui está seu ajudante. E ele vai fazer tudo direitinho se não quiser ser expulso.
– Expulso? – Perguntou , sem acreditar.
– Vai por mim, tenho material o suficiente para justificar sua expulsão. Então é bom me relatar que está fazendo tudo direito! Dispensados.
Os dois saíram da sala e foram até o corredor juntos, sem dizer nada. não sabia o que era, mas não queria ajudar, tampouco ser expulso.
– Então, o garoto que não gosta de cães. – Começou ela, desconfortável.
– Não enrola, o que preciso fazer?
cruzou os braços, olhando para o chão.
– Você vai me ajudar na organização do baile de formatura do ano que vem. Isso inclui venda de itens para aumentar nossa verba, regular orçamentos e, claro, mão de obra.
grunhiu.
– Tenho escolha?
– Não. Entro em contato com você para começarmos. Enquanto isso, boa aula.
não teve tempo para questionar. Nem precisou. As semanas vieram e passaram, e os dois não estavam mais perto de terminarem do que de se entenderem. achava que era metida, mandona e superficial. achava rude, misterioso e folgado. A parceria estava muito longe de dar certo, mas pelo menos isso mantinha tão ocupado que não tinha mais tempo para se meter em confusão. queria saber mais sobre o rapaz, quem sabe assim poderiam ter uma conexão e trabalharem melhor juntos. Mas era intransponível, ela não sabia nem onde ele morava.
Só sabiam de uma coisa: interagindo o mínimo possível, eles tinham que dar um jeito de fazer dar certo.

2020

chorou com a lembrança, olhando com carinho para todas as fotos do baile. não convenceu a contar tudo sobre seu passado, mas ele percebeu que era realmente importante para ela que tudo desse certo e, pelo menos quatro meses antes do grande evento, começou a cooperar de verdade. O baile tinha ficado exatamente da forma que ela queria, e decidiram ir juntos, como anfitriões da festa. As outras pessoas que ajudaram durante o processo também foram aos pares e por mais que não fosse o tipo de cara que ia para bailes, se divertiu naquele dia. Suas notas subiram novamente e graças ao seu trabalho final na aula de Artes, tinha conquistado uma bolsa na faculdade, para a alegria de seus tios, que já tinham declarado como um caso perdido. Ficaram tão felizes que custearam toda a moradia dele no campus da faculdade e ainda o deixou levar o carro para a universidade.
e não se aproximaram tanto depois disso, mas ela pelo menos não tinha mais medo dele, e acabou que se tornaram bons colegas, na medida do possível, até o fim do ano letivo.
A surpresa foi se reencontrarem no campus da faculdade, cinco meses depois, sem saberem que tinham escolhido a mesma. A amizade vinha crescendo de forma lenta, e mesmo que não tivesse as barreiras que erguera ao redor de si mesmo, conseguia perceber como parecia mais animado que antes. Ainda era ríspido, um bocado mal-educado e de vez em quando cedia para a violência. Mas já não tinha a aparência medonha de antes, além de ter feito grandes amigos no campus. e eram muito próximos, iam juntos para muitas festas. ensinou a beber, ser mais solta, mais livre. Ensinou a ela que tudo bem sair no sábado à noite ao invés de estudar, porque relaxar também fazia parte da experiência da faculdade. ensinou a o valor de ser honesto, entregar as atividades dentro do prazo e que mesmo sendo divertido quebrar regras de vez em quando, elas existiam para serem seguidas. Ensinou sobre responsabilidade e diplomacia, o que reduziu suas crises de raiva que durante muito tempo foram um problema.
Eles eram perfeitos um para o outro, e se amavam. Começaram de uma maneira tão simples e se tornaram os melhores amigos que poderiam existir. Isso até o final da faculdade, no dia do luau de despedida. Desde o começo já estava predestinado, não tinha como evitar.
se emocionou quando viu a foto dos dois juntos deitados lado a lado protegidos por uma manta na noite do luau. Um amigo próximo havia registrado a foto, que foi tirada momentos antes de eles, por fim, se beijarem pela primeira vez.

2015

escutou dois socos na porta do seu quarto no alojamento do campus, já sabendo quem era.
– Estou indo! – Gritou a garota, passando uma última camada de batom nos lábios grossos. Mais socos. – , para de me apressar, eu já disse que estou indo!
Abriu a porta do guarda roupa para verificar se estava pronta de verdade e, despedindo-se de Lizzie, a caloura aplicada com quem dividia o quarto, abriu a porta do mesmo. estava com uma calça skinny preta e sua camiseta favorita xadrez vermelha de botões. Usava uma bandana para prender o cabelo para trás, e carregava o inseparável sorriso debochado. fingiu não notar que Lizzie espichou o pescoço quando ele apareceu, soltando um suspiro bem bobo. Estava acostumado com aquela reação, então apenas a cumprimentou novamente antes de fechar a porta, olhando torto para ele.
– Você sabe que alimenta as esperanças dela fazendo isso. – Reclamou, seguindo em direção a porta de saída.
– Eu não tenho culpa se sou um gato. – Retrucou , dando de ombros.
O luau de fim de semestre acontecia todos os anos, mas e estavam tristes porque seria o último luau deles. A festa em si era ilegal, claro. Acontecia na orla da floresta que cercava o campus, onde os professores fingiam que não estavam olhando e os alunos fingiam que estava tudo dentro do regulamento. Quando e chegaram na clareira, se depararam com uma grande fogueira em um dos cantos. Já haviam trago um barril de cerveja em cima de uma caminhonete, e muitas pessoas já circulavam pelo local. Uma roda tinha sido formada por ali por uma galera mais nova, calouros, provavelmente, e a nostalgia envolvia os amigos, que estavam realmente emocionados com a última festa universitária.
– Olá, veteranos! – Gritou Gil chegando perto dos dois, trazendo Calum com ela. – Que demora, hein.
empurrou de brincadeira.
– Reclama com a sua amiga.
– Eu não demorei, para com isso, .
Bryan chegou na roda, deixando a ex automaticamente desconfortável.
– Hey, Bryan. – Disse . – Quer ir ensaiar uma última vez?
Bryan encarou , que por sua vez encarou o chão. Em seguida sorriu.
– É, pode ser.
Os dois amigos saíram em direção a fogueira, deixando com Gil e Calum.
Nem sempre se envolver com um amigo acaba de uma maneira boa, e percebeu isso quando resolveu que namorar com Bryan seria uma boa ideia. Ele parecia certinho o tipo de cara que ela pensou com quem se casaria e que futuramente teriam uma casa no subúrbio e duas crianças adoráveis. Poderia ter funcionado, se esse também fosse o plano de Bryan. Não era o caso, e resultou em um término não saudável. Para piorar, os amigos não tomaram partido, porque teoricamente ninguém estava errado. foi obrigada a conviver com Bryan como se nada tivesse acontecido nos últimos meses, mas fingia que não se importava mais com isso.
, Bryan e Charles não eram parte de uma banda, mas sempre tocavam em festas para animar as pessoas. Era muito mais divertido que só ouvirem um CD remixado e naquele ano era bem importante que participasse.
Depois de se apresentarem, se divertirem, comemorarem e dançarem, notaram que já passava das duas da manhã e o clima tinha esfriado. Quando o show acabou, procurou por , que conversava baixinho com Calum em um canto da clareira.
– Oi. – Disse, se aproximando com uma manta.
Calum disse que iria procurar mais bebida, deixando-os a sós. sentou-se ao lado da amiga, passando a manta ao redor dos ombros dela, que sorriu, demonstrando sua gratidão.
– Obrigada. – Falou, com uma voz arrastada de quem tinha bebido muito, deitando nos largos ombros dele. – Obrigada por tudo, . Eu acho que minha experiência universitária teria sido uma droga sem você.
deu um sorriso genuíno, mesmo que não pudesse ver.
– Eu também acho que teria sido. – Murmurou. – Quer dizer, você teria passado a faculdade toda igual a… Lizzie.
riu, concordando.
– Sinto muito pelo Bryan. – começou, em algum momento. – Sabe, as vezes as coisas não dão certo por algum motivo.
– Ah, que lindos! – Gritou Calum, quando voltou. – Não se mexam!
O amigo sacou o celular para o registro dos dois no gramado, que sorriram para a foto. instantaneamente recebeu a foto no celular, fazendo uma careta para ela.
– Ficou estranha.
riu, e Calum se afastou de novo, procurando por Gil no meio da multidão. Quando olhou para de novo, ela estava sorrindo para ele.
– O que foi?
, tem alguma coisa, qualquer coisa que você sentiu vontade de fazer e não fez?
olhou para frente, pensativo. corou violentamente por conta da pergunta ousada. Ela não sabia porque tinha dito isso, mas estava levemente bêbada e estava mesmo muito lindo. Para ser sincera, em seu coração, ela sempre o achara atraente.
O rapaz se aproximou de , segurando o rosto dela.
– Eu acho que já quis fazer algo e não fiz. Há muito tempo, na verdade.
– É mesmo? – Perguntou ela, rouca. Notou que tinha entendido o recado, uma vez que se aproximava dela. – Não é por nada. Só uma leve… curiosidade.
– Curiosidade. Sim, sou bem curioso. – Retrucou ele, se aproximando ainda mais.
– Acho que vamos fazer isso. – Sussurrou, os olhos brilhando.
– E eu acho que você está bêbada. – riu baixinho.
– Mas eu não vou viver em paz comigo mesma se não souber como é beijar .
O amigo pela primeira vez percebeu que estava sendo sincera. E francamente, ele também queria.
– Se eu fizer isso… não tem volta. Já era. – Avisou , colocando uma mecha de cabelo dela atrás da orelha.
– Eu sei.
respondeu da melhor forma que pode. Colou seus lábios nos dela, esperando se sentir estranho, esperando que ela se separasse na mesma hora e que o olhasse com cara de nojo, rindo. Esperava que se sentisse beijando uma irmã, ou uma prima.
Mas essas indagações pareceram ridículas porque o beijo era tão bom e tão certo, como se estivesse esperando por eles durante todos esses anos. e realmente não sentiam nada pelo outro romanticamente falando, o que estavam fazendo era puro resultado de álcool e nostalgia.
Um beijo que não deveria ter acontecido não era para ser tão bom, era?
sentiu que a última camada da barreira que ele criara se desmoronou naquele momento. Percebeu quando se sentiu livre, pela primeira vez em muito tempo. Sentiu seu coração batendo depressa, a felicidade que ele há muito não experimentava.
era a mulher da vida dele, e sentiu isso naquele beijo.

2020

As fotos da faculdade deixaram feliz. Lembrar que eram amigos antes de tudo realmente faziam as coisas serem mais especiais. Em todo caso, voltaram para a cidade natal depois da faculdade, sem tocarem no assunto do beijo. Não se beijaram mais, sequer falaram sobre isso. Voltaram a ser os amigos que sempre foram culpando, principalmente, a bebida e a curiosidade pelos acontecimentos do luau. , bem mais maduro, continuava tranquilo e não quis continuar morando na casa dos tios. Conseguiu alugar um apartamento no centro dois meses depois de voltar, e tinha até adotado um lindo cachorro caramelo para fazer companhia. Achou engraçado a reação de quando contou que o cachorro se chamava Spike.
Entretanto, nada na vida acontece por acaso. Com o passar dos meses, sentiu um vazio, que era muito parecido com o que sentia e um dia, quando os dois estavam no apartamento de assistindo um filme, as emoções e os sentimentos falaram mais alto que a razão. Entregaram-se um para o outro, e sentiram-se sortudos por serem correspondidos.
levou ao cinema no dia que pediu ela em namoro. Claro que ela aceitou e tiveram lindos momentos. Encontros, passeios românticos, viagens internacionais. Alguns passeios envolviam a presença de Spike, que já fazia parte da família, e dois anos depois passava mais tempo na casa de do que na própria, muito embora não tivesse se mudado oficialmente.
Foi quando viu a foto do pedido de casamento. estava tão linda e ele estava tão nervoso. Depois ela confidenciou que já sabia todo plano, e teve que aplaudir sua atuação em fingir surpresa. Na foto exibia seu lindo anel, que combinava com o sorriso radiante que ela exibia. O vestido branco escolhido exclusivamente para a ocasião a deixou elegante e séria, sem perder sua aura divertida.
O sim aconteceu mais ou menos um ano depois do pedido. As fotos do casamento tinham ficado ótimas e parava em todas as fotos que aparecia vestida de noiva, sem conseguir mensurar o quanto sentia sua falta. Como toda boa festa, as fotos do final eram as mais engraçadas, com sua noiva um pouco mais alegrinha do que deveria e a cara séria dos pais dela, que eram extremamente conservadores. Seu relacionamento com os sogros demorou para ser construído, mas hoje em dia eles já o viam como um filho querido. os amava, e se sentia acolhido quando pensava neles. Eram as únicas pessoas que poderiam entender o que estava passando.
As lágrimas já tinham parado de se verter em algum momento enquanto olhava as fotos do casamento, mas voltaram com toda força quando o primeiro ultrassom apareceu na tela. Foi uma surpresa de para e para a família toda, ter engravidado pouco tempo depois de se casar. Ela organizou um jantar com os pais dela, os tios de e os dois irmãos mais velhos, que também já eram casados, e no final do jantar anunciou a gestação, trazendo alegria para a noite.
O bebê foi amado instantaneamente por , que passou os dias seguintes bajulando de todas as maneiras que podia. As fotos da gestação iam mostrando o tempo conforme a barriga de crescia, com a pequena crescendo feliz e saudável.
não podia mais controlar suas lágrimas nem sua tristeza quando chegou a última foto do documento. Ele sabia que era a última, porque não houve mais nenhuma depois dessa. , ainda grávida, estava fazendo pose na frente de um carrinho cheio de itens para bebê. Foi o dia do enxoval. Tinham falado tanto sobre naquele dia. Seus planos para a primeira filha, como seria adequado sua forma de criação, se dariam ou não doces a ela antes do segundo ano de vida.
Os planos para o bebê foram a trilha sonora do dia. Naquele dia tudo tinha sido tão leve, tão lindo. Chegaram em casa e mesmo cansada quis guardar tudo que compraram no quartinho de , o que achou muito engraçado. A barriga de quase oito meses estava grande demais, mas a mulher não se deixou por vencer, indo descansar apenas depois de ver o quarto pronto.
apertou o botão para avançar a tela, mas não tinha mais nada. Era a última. Era sua última lembrança com . Tornou a chorar, sabendo que precisava daquilo, precisava manter a imagem de viva dentro de si, principalmente se ela era a responsável por fazer dele o homem que ele era agora.

2019

se remexeu na cama pela vigésima vez, desconfortável, mesmo com os cinco travesseiros que colocou ao redor dela. A barriga estava grande demais e a deixava irritada, sem contar as contrações vindo fora de época, uma vez que ainda faltavam cinco semanas para nascer. Sabia que tinha feito muito esforço no dia anterior e queria não se sentir culpada por isso. Mas logo depois espantou o pensamento da cabeça, aquilo não parecia ter nada a ver.
Em algum momento da madrugada, porém, ela se sentiu culpada e estranha e resolveu que precisava ir ao hospital, mesmo se fosse por desencargo de consciência. Acordou o marido, que já tinha o sono leve desde que o terceiro trimestre da gravidez havia começado, e este a ajudou a se vestir e entrar no carro, para poderem seguir para o pronto socorro.
Estava tudo bem com e, para seu alívio, também estava tudo bem com o bebê, conforme o médico havia frisado, várias vezes. Foi só um susto, causado principalmente pelo esforço, mas nada que um repouso não resolvesse. tomou um soro para relaxar, e pouco mais de uma hora depois, com a cabeça e o coração bem mais tranquilos, o casal já estava de volta ao carro voltando para casa.
– Desculpe te acordar para nada. – Murmurou , sonolenta devido a medicação.
sorriu, sem tirar os olhos da rua.
– Não foi por nada. Não se desculpe por isso. – Respondeu, tranquilizando a esposa.
– Fico feliz por ter me casado com você. Se eu soubesse, no ensino médio, que tinha acabado de conhecer meu marido, eu não teria acreditado.
– Ok, você também era a última pessoa com quem eu pensaria em me casar.
– Ei!
– Mas só porque você era areia demais para o meu caminhãozinho! – Completou . – Você não me deixou terminar.
revirou os olhos para o homem, apoiando as mãos na barriga.
– Sei.
Eram cinco e meia da manhã, mas o dia ainda estava um pouco escuro. Escutaram, ao longe, um som muito alto de música, vindo de algum carro distante. bufou.
– E pensar que há quatro anos atrás a gente gostava disso. – Resmungou, referindo-se à música alta, que se aproximava.
– Espera aí. Você gostava? – perguntou, irônico, olhando para ela uma vez que tinham parado no sinal vermelho de um cruzamento. – Até hoje eu jurava que só fingia gostar porque era secretamente apaixonada por mim.
– Se você acredita mesmo nisso…
A música estava bem mais próxima agora, mas o casal não estava vendo de onde vinha o som. E nem poderia, uma vez que uma grande árvore impedia que eles vissem o que estava acontecendo na rua à direita, próxima ao cruzamento que eles estavam prestes a passar. A luz ficou verde, fazendo com que avançasse com o carro.
– Sabe, eu bem que… – Mas nunca concluiu a frase. nunca soube o que ele ia dizer.
O carro barulhento, ignorando o sinal vermelho do mesmo cruzamento, havia se chocado com toda a força na lateral do veículo, diretamente ao lado de .
O veículo rodopiou várias vezes na estrada vazia, e sentiu que perdia a consciência aos poucos, mas que já tinha visto de antemão o pescoço de pendurado em um ângulo esquisito.
Era algo horrível de se presumir, mas segundos antes de perder a consciência, teve a certeza que sua esposa não estava mais viva.

2020

Um ano desse dia. Um ano que e se foram. notou tarde demais que o leitei quente já tinha se esfriado e que encarava a TV desligada havia um bom tempo.
Tinha ignorado todas as lembranças e todas as fotos por um ano, mas teve que passar por isso, sabia que não podia mais adiar. Não podia esquecer de sua doce esposa, nem da filha que nunca chegou a conhecer. Da filha que nunca nem viu o mundo.
tentou. Ela tentou lutar, tentou chegar até seu pai. A luta da bebezinha pela vida foi visível por todo mundo. Ela viveu por um dia, mas seu pequeno coraçãozinho não aguentou, soprando sua alma tão nova para junto de sua mãe, onde quer que ela estivesse.
refletiu sobre sua vida, sobre sua adolescência problemática, os muros e paredes que erguera ao redor de si. Pensou sobre como , com um sorriso e toda sua tenacidade haviam derrubado algo que ele achou que fosse maior que si mesmo e assistiu, ao longo de toda sua vida, essas paredes desabarem por ela, revelando o verdadeiro que se escondia ali atrás. Mesmo estando destruído por dentro, sorriu.
Porque ele percebeu que nada daquilo estava certo. Precisou que o deixasse para sempre para que ele pudesse notar, pela primeira vez, que desde o começo só o ajudou a perceber que ele era mais alto que todas as suas barreiras. Que sem elas ele não seria o homem que se tornou, e não importava por quantas provações ele precisasse passar, as paredes nunca poderiam ser mais altas que ele. se encostou no sofá, com um sorriso triste pensando em sua família. Em seu pensamento, ele agradecia a , porque no fim das contas ela tinha razão.
As paredes dentro de si nunca foram o suficiente para destruir sua alma.