07. Dionysus

07. Dionysus

Sinopse: Duas irmãs finalmente conseguem fazer a tão sonhada viagem a Coreia e bem na primeira balada que decidem frequentar encontram algo praticamente impossível.
Classificação: +16
Gênero: Romance
Beta: Thalia Grace

O barulho na boate era tanto que eu não conseguia ouvir nada do que ele dizia. Tudo o que eu conseguia fazer era me concentrar nas covinhas marcadas e gravar o nome dele. Joonie. Num passado não tão distante eu acreditaria nas milhares de fanfics que havia lido e escrito sobre meu grupo favorito e dizer que meu conto de fadas finalmente estava se realizando e “Joonie” era abreviação de Namjoon. Mas estava bêbada demais, velha demais e surda demais para acreditar nisso. Mesmo com todas as semelhanças gritantes.
— Quer ir para outro lugar? — acho que foi isso o que eu vi os lábios dele dizendo.
Meu coreano não é dos melhores, mas talvez seja o suficiente para entender um flerte. Eu queria. Queria muito ir para outro lugar com ele. Entender se eu tinha ouvido direito seu nome e finalmente aquietar a fã dentro de mim que insistia em me empurrar memórias dos anos como fã do BTS. O grupo já tinha acabado havia algum tempo e cada membro agora trabalhava na própria carreira solo, alguns como produtores e compositores, outros como empresários e outros como solistas.
A verdade é que demorei demais para realizar o sonho de conhecer Seul. O dinheiro, a idade, o trabalho e, principalmente, o medo dificultaram muito e só depois de anos consegui comprar um pacote de viagem. A lembrança me fez olhar na direção do bar e vi minha irmã ali, conversando compenetrada com um cara que eu não sei dizer se é bonito ou não porque minha miopia não permite. Voltei minha atenção para o coreano a minha frente e ele ainda tinha aqueles olhos lindos, amendoados e esperançosos em minha direção. Fazia carinho de leve em meus dedos e, de onde eu estava, eu podia sentir perfeitamente o perfume suave dele. Trinta anos (acrescente cinco anos neles) nas costas para cair numa cantada aleatória, numa boate aleatória em outro país, você não toma jeito mesmo Valeria.
— Você precisa dizer que sim para eu poder te tirar daqui… — ele sussurrou contra meu ouvido. Meu Deus, que voz! Senti imediatamente minhas pernas virando paçoca só de sentir o hálito dele ali contra meu pescoço, os lábios roçando de leve o lóbulo da orelha, o perfume dele ficando mais intenso.
Minha consciência, no entanto, fazia sinal a distância de que era uma cilada. Digo a distância porque eu realmente estou bêbada demais para que ela se aproxime e sacuda a minha mente, colocando minha idade e meu bom senso no lugar. Não são mais os meus vinte e cinco anos, sabe? Quando eu dava uma escapadinha para algum lugar isolado e acabava transando com algum ficante. Não. São trinta e cinco, na Coreia, com um coreano que nunca vi na vida, só porque ele parece Kim Namjoon e sussurra obscenidades no meu ouvido. Mesmo assim, a calcinha molhada me denuncia e fingi não ver minha consciência desesperada por atenção.
Afastei o rosto, roçando minha bochecha na dele até poder olhar dentro daqueles olhos de novo, os narizes encostados. Exceto que eu não consigo olhar para os olhos, tudo o que eu vejo são os lábios próximos dos meus, num sorriso curto, de lado, marcando uma única covinha. Lá estão elas me traindo de novo. Senti as pernas fraquejarem e me vi obrigada a segurar nos dois braços dele — grandes, fortes, sarados — para não cair. Uma
mão pousou sorrateiramente na minha cintura e eu pude sentir o ar quente saindo dos lábios que se entreabriram.
Por favor, me beije logo assim eu não preciso dar a resposta óbvia! Eu te imploro, garoto.
— Eu…
— Você…?
— Ela tem que ir, moço. — a presença de minha irmã foi como o balde de gelo que eu precisava para segurar o fogo que me subia por entre as pernas. Por pouco, muito pouco eu não puxei o cara para o banheiro vazio mais próximo e fiz todo o serviço completo justificando com um óbvio “só se vive uma vez, ninguém aqui me conhece”. Mas Tereza me salvou disso. De novo. Ela vivia me salvando dos meus próprios impulsos. Não é a toa que é essa a imagem mental que tenho da minha consciência. Senti a mão gelada dela fechar em meu pulso e me afastar daquela geladeira, digo, daquele homem grande, alto, gostoso demais. Tereza, me deixa pegar esse homem!
— O que está fazendo, Tereza? — perguntei com um sorriso falso nos lábios, em português para que o novo “possível futuro pai dos meus filhos” não entendesse que aquilo era uma DR entre irmãs.
— Te puxando para beber, Val. — respondeu ela abrindo bem os olhos, também em português. — Ainda é cedo para irmos embora com os caras lindos que nos abordam. Esse é só o primeiro, Valéria! Daqui dez minutos você vai se apaixonar pelo próximo do mesmo jeito. Todos eles são lindos!
Ela tem um ponto aí. Olhei para o lado e Joonie não olhava diretamente para nós duas. Na verdade, tive a ligeira impressão de que ele tentava dobrar o corpo de um jeito menos esquisito para esconder a ereção enorme que teve. Sorri satisfeita. Se só a conversa gerou isso, então ele também vai ficar se eu ficar.
— Mas e o mocinho que estava conversando com você?
— Esse aqui? — perguntou ela apontando para o lado e meu sangue esqueceu de abastecer meu cérebro por alguns segundos. Ele era idêntico a outro membro do BTS. Assim como Joonie, ele olhava para outra direção, as mãos enfiadas nos bolsos frontais da calça jeans escura e um sorriso brincando nos lábios, como se soubesse exatamente o que estávamos falando. Como se soubesse o surto mental que eu estava prestes a ter.
— Mana, é o…
— Não surta. — falou ela revirando os olhos. — Não é ele. Acha mesmo que a gente ia dar a “cagada” de encontrar dois membros do BTS aqui? — o nome do grupo fez os dois se entreolharem, como se se conhecessem. Suspeito, muito suspeito.
— Como ele chama? — perguntei baixinho, ainda observando os dois olhando cada um para um lado como se não se conhecessem. Continua suspeito.
— Yoon.
— Mana!
— Não é! O resto do nome não bate.
— Qual é o resto do nome?
— Não posso falar, ele vai entender. Como chama o seu bonitão?
— Jota oh oh ene ih eh. — soletrei para ele não entender também. — Ele não parece com o coisinho? — perguntei exasperada. Droga, agora eu quero que seja mesmo uma das minhas fanfics e que os dois sejam quem eu acho que são.
— E o sobrenome?
— Aquele mais comum para eles…
— O que começa com K?
— O próprio.
Ela finalmente encarou os dois por mais do que dois segundos. Yoon olhou esperançoso para ela, pronto para irem embora. Joonie continuava preocupado em esconder a ereção e acabou se afastando tanto que trombou em um garçom. Desastrado e gostoso. Oh Deus, faça que sejam eles. Olhei para ela como quem diz “mana, são eles” e ela me olhou ainda incrédula.
— Eu preciso beber mais. Chama sua geladeira que eu levo o gatinho. Vamos fazer eles beberem até confessarem.
— Mas e se não for eles?
— Se não for eles, pelo menos a gente vai ta bêbada e feliz com dois caras gatos na nossa primeira balada coreana.
A música alta voltou a tomar conta e agora eu já não conseguia nenhum espaço para voltar ao canto onde havia sido abordada por Joonie. Como Tereza havia previsto, outros caras igualmente lindos se aproximaram várias vezes. De nós duas. Pelo jeito ser brasileira tem mesmo um apelo maior. Ali dentro éramos as mais diferentes. Cabelos armados, pele escura, sorriso fácil e facilidade para fazer amizade.
Já te contaram como soju é forte? Já te fizeram virar shots de soju como se fosse tequila? Bem, como pessoa que já bebeu das duas coisas, acho que isso não muda muito. A loucura é a mesma. Nossa rodinha começou com quatro pessoas, e a noite terminou com quase a festa inteira dançando conosco. Foi I N S A N O. Em dado momento me vi sozinha
porque a traidora da Tereza tinha sumido com Yoon para fazer exatamente o que eu quis fazer desde o começo da festa. Peguei o celular para procurá-la e já tinha uma mensagem bem óbvia.
Tere: já volto. Não vá embora sem mim.
— Eles foram para uma salinha lá no fundo. — Joonie apareceu por cima do meu ombro olhando o celular. Fiquei em choque, porque a mensagem estava em portugues e parecia muito que ele tinha lido.
— Eu… — lá estavam as covinhas de novo, derretendo meu cérebro apenas por existirem.
— Não se preocupe, não sei ler sua língua. — explicou com as mãos cruzadas nas costas, sorrindo inocentemente. — O Yoon me contou.
— Vocês já se conheciam, não é? — perguntei estreitando os olhos.
Em resposta ele sorriu mais abertamente e deu de ombros. Vou entender isso como um sim. Senti os braços dele em minha cintura e logo meu corpo estava colado naquele homem, com os lábios dele perigosamente perto demais do meu pescoço.
— Quer conhecer um lugar legal sem sair daqui de dentro? — perguntou com a boca colada no meu ouvido por causa da música. Talvez eu precise trocar de calcinha, porque a minha está ensopada.
— Meu Deus, eu vou para o inferno. — respondi em português, afastando meu pescoço daqueles lábios para olhá-lo nos olhos. Pior merda que fiz, senti que não ia aprender a andar nunca mais se não sentasse. E por sentar vocês entendem o que eu quero dizer.
Entrelacei meus dedos nos dedos dele e deixei que ele me guiasse.
O lugar era um labirinto. Enquanto na frente ficava a balada, nos fundos havia outro bar! Olhei em choque para duas portas que levavam para ambientes diferentes, um sem música alta e o outro com luzes piscando como um grande cassino clandestino. Me senti num filme de espionagem. Ele passou reto das duas portas, indo cada vez mais fundo na propriedade. Aos poucos a música foi ficando cada vez mais distante e difícil de ser compreendida.
— Que lugar é esse? — perguntei em choque.
— É de um amigo meu e do Yoon. — respondeu ele olhando para trás e deixando as covinhas se destacarem. Ele sabe que me conquista com elas e as usa de propósito.
— Então vocês se conhecem!
Ele soltou um riso rouco, do fundo da garganta, me deixando de novo perdida nos próprios pensamentos. Subimos uma escada e finalmente paramos diante de uma porta
com palavras que eu ainda não conheço do coreano. Consegui apenas decifrar os caracteres, mas sem entender o real significado. Em baixo dela, no entanto, havia uma etiqueta minúscula escrita RM.
— PUTA MERDA. — gritei cobrindo a boca com as mãos e parando no mesmo lugar. Apontei para a etiqueta e depois para o rosto dele. Agora que havia mais luz eu conseguia reconhecer perfeitamente as covinhas, os olhos caídos nos cantos e fechando para sorrir e me deixar sem rumo apenas por existir. — O Cara com a minha irmã….!
— Não vamos poder entrar se continuar assim. — falou com calma.
Eu continuava em choque. Era Kim Namjoon.
— O outro…
— Sim.
— Era o…
— Era. E sua irmã sabe. Não sei porque ela não disse a verdade. Nós dois só seguimos o fluxo. — explicou dando de ombros.
Fiquei em silêncio, ainda absorvendo que tinha passado a noite inteira com Namjoon e Yoongi sem me tocar que eram os dois. Nunca mais eu bebo. Senti os dedos dele segurando minha mão levemente. Como eu não resisti, ele entendeu como um convite para cobrir minha mão com a dele e se aproximar de novo. Droga. Ele sabe o poder que tem sobre mim.
— Não quer mais…? Achei que estivéssemos nos divertindo. — falou. — Te incomoda eu ser quem eu sou?
— De jeito nenhum, eu só…
— Eu continuo sendo o mesmo cara que queria te levar para outro lugar no começo da festa… ainda quero. — falou passando uma das mãos de leve em meu rosto. — Mas vou entender se estiver insegura.
Minha cabeça girou e todo o soju da noite assumiu meu corpo nas ações seguintes. Só se vive uma vez. Só existe uma chance de um sonho desse acontecer na vida real. E daqui uma semana tudo não passará realmente de um sonho.
Olhei fundo naqueles olhos amendoados, naquele sorriso maldito, nos ombros largos e no peitoral forte (amém academia) e deixei minha consciência finalmente ir embora.
— Só se vive uma vez. — murmurei colocando os braços ao redor do pescoço dele e sentindo de novo os braços enlaçando a minha cintura e me puxando contra a ereção evidente.
Hoje, só hoje, Kim Namjoon é meu.
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