08. Interlude: Shadow

08. Interlude: Shadow

Sinopse: A vida nunca foi fácil para Yoongi, dificuldades e lágrimas fizeram parte do caminho que o levou até o reconhecimento mundial, à fama, ao topo. Entretanto, estar no topo era ainda mais assustador do que o caminho que precisou percorrer para chegar até ali. E em meio a tanta desconfiança em si mesmo, crises de medo e ansiedade, e pensamentos de desistência, Yoongi precisou ter uma conversa com duas pessoas principais em sua vida e trajetória: Sua maior fã e o seu eu do passado.
Gênero: Drama
Classificação: Livre
Beta: Thalia Grace

 

 

Interlude: Shadow

 

franziu o cenho assim que abriu os olhos, após se acostumar com a claridade repentina, e olhou ao seu redor. Aquele não era o seu quarto, não mesmo. As paredes claras, lisas, sem quadros ou retratos pendurados nelas, em nada pareciam com as paredes do seu quarto que ele mesmo quem havia decorado do seu jeito – assim como todo o resto de sua casa. A cama era menor que a sua, os móveis eram diferentes e não havia algumas de suas roupas largadas em cima da poltrona.
Aquele não era seu quarto, definitivamente.
E tão assustado quanto curioso sobre onde estava e, principalmente, como havia ido parar ali, tocou o chão gelado com os pés antes de calçar o par de chinelas que também não eram suas. Levantou-se e foi até a porta, segurou a maçaneta antes de girá-la.
Ele caminhou a passos incertos e curtos pelo corredor que continha outras três portas que estavam fechadas, enquanto estava atento a qualquer barulho ou movimento estranho. Cada minuto tendo mais certeza de que, apesar de ser tão parecida com a casa que alugara para passar uns dias, aquela não era a casa que ele alugou. Definitivamente. O imóvel era diferente apesar de parecido, a decoração estava longe de ser a mesma. Desceu os degraus da escada que o levara para o andar debaixo ao se convencer de que se seguisse o som – do que parecia ser de televisão – poderia encontrar alguma resposta para as tantas perguntas que tinha dentro de si. Entretanto quando chegou a sala e viu uma garota de cabelos sentada no único sofá do local, enquanto assistia à televisão, ficou ainda mais confuso, perdido, e outras perguntas surgiram em sua mente.
Olhou da garota para a televisão, tentando entender o que se passava na tela, franzindo o cenho mais uma vez ao ver certa semelhança no filme? Ou seria alguma série? Que a garota assistia. Enquanto tentava puxar alguma coisa de sua mente que o lembrasse de quem era aquela garota, acabou desistindo de pensar demais quando a dor de cabeça o lembrou de que ainda estava ali numa pontada aguda.
— Ah, você acordou. — a desconhecida percebeu que estava ali, pausou o que assistia e virou-se de frente para ele que a olhava confuso. — Está melhor? — questionou ao que procurava por alguma pista de dor no rosto dele.
— Sim, eu acho. — respondeu, colocando as mãos nos bolsos da frente do moletom preto que vestia a parte de cima do corpo enquanto a calça preta vestia a debaixo. — Onde estou? Como vim parar aqui?
— Em minha casa. — ela o respondeu simples, apoiou o queixo no joelho da perna dobrada, um sorriso beirando os lábios. — Eu te encontrei na praia, você não estava muito bem e desmaiou em meus braços. Então, eu te trouxe pra cá. Não consegui te deixar largado por lá, muito menos com a chuva que está por vir. — explicou com calma, apontou para a janela que tinha as cortinas balançadas pelo vento que passava pela brecha. Era vento de chuva forte. Chuva que começava a cair com gotas finas. — Não se lembra de nada disso?
— Não. — suspirou, coçou a nuca e mordeu o interior das bochechas, buscando em sua mente alguma pista do que havia de fato acontecido. Mas, ele não se lembrara de nada. Só que estava muito nervoso e ansioso sobre algo, inseguro também. Mais nada. Só isso. Sua mente não tinha lembranças de sua suposta ida à praia, desmaio ou qualquer coisa do tipo. — Por que me ajudou? — perguntou curioso, um pouco nervoso também.
Não estava acostumado a receber ajuda de graça, ninguém nunca o ajudara de graça. Nada em sua vida havia sido fácil, muito pelo contrário. Por isso não confiava facilmente e muito menos esperava que lhe ajudassem por nada, de graça. Sempre queriam algo de si. Sempre. E mesmo que odiasse ser tão desconfiado, já tinha se acostumado e preferia ser assim. O impedia de quebrar a cara no futuro. De sofrer tanto.
— Você me deixaria por lá se fosse ao contrário? — a desconhecida perguntou de volta, calando por alguns instantes que não soube o que responder por que ela era desconhecida para si, disso ele tinha certeza absoluta, mas a pergunta feita por ela tinha uma resposta negativa e ela parecia saber disso. Era como se a mulher soubesse que não seria capaz de deixá-la sozinha caso a visse no estado em que ela o viu. Ok, era fácil fazer suposições e a pergunta dela poderia ser apenas isso; suposição. Mas… Ela tinha aquele olhar de quem sabia do que estava falando, de quem estava certa. conhecia aquele olhar, pois parecia um pouco com o mesmo que surgia em seus olhos quando ele falava sobre algo em que tinha certeza. — Está com fome?
— Não, obrigado. — agradeceu tanto pela pergunta quanto pela ajuda em si, puxou o lábio num sorriso fraco e forçado. Ainda estava confuso e com perguntas demais a serem feitas, não conseguia sorrir naquele momento.
— Você pode sentar, se quiser. O sofá não morde. E nem eu. — ela brincou, rindo, observando olhar dela para o espaço vago no estofado. — A propósito, me chamo . — se apresentou ao tê-lo sentando ao seu lado, talvez se soubesse seu nome ele se sentisse um pouco mais a vontade, confiasse um pouquinho nela quem sabe.
. — ele se apresentou de volta, sem saber ao certo se era mesmo preciso, se ela já o conhecia ou não. Mesmo em dúvida preferiu ser educado aquela que o ajudou.
— Eu sei. — sussurrou, mordeu o canto do lábio antes de olhar a televisão e voltar a assistir o que assistia antes da chegada de .
Ainda confuso e perdido, tentou acompanhar e entender o que assistia e mesmo não tendo pegado desde o começo do que descobriu ser uma série, sabia de que se tratava de uma história sobre superação, confiança e amor próprio. estava bem concentrada ao seu lado enquanto assistia o desenrolar da história que acontecia ao decorrer dos episódios que tinham trinta minutos cada, e tentava não pensar nas tantas semelhanças entre si e o personagem principal.
O garoto da série era mais novo que , parecia ter a mesma idade que ele tinha quando saiu em casa em busca de seus sonhos e objetivos. O personagem também queria ser músico, arriscava algumas rimas e estava atrás de alguém que acreditasse em si. Também saiu de casa em busca de seu sonho, disposto a lutar com tudo e com todos para conseguir o que queria. Passou fome, dormiu na rua em algumas noites, teve o caminho cruzado com os de pessoas ruins e fora enganado, roubado e humilhado vezes demais — Vezes o suficiente para fazê-lo desistir, mas, aparentemente, pelo o desenrolar da história, ele não iria. E que conhecia aquela história tão bem, sabia que o personagem não desistiria. Não até que conseguisse o que buscava e acreditava merecer.
— Você mora aqui sozinha? — perguntou no exato momento em que o personagem principal levou um soco de um dos homens que o enganara, pigarreou e nem percebeu quando fechou as mãos em punho ainda dentro dos bolsos do casaco.
— Não moro aqui, só vim passar uns dias. Me dei folga dos dias puxados, cheios de trabalho e estresse. — o respondeu, o coração apertando quando o garoto da televisão teve o rosto esmurrado mais uma vez. — E você?
— Também precisava de folga. — afirmou. Passou a língua pelo interior da bochecha, sentindo um gosto que estava guardado em sua mente junto com tantas outras coisas de seu passado.
O vento lá fora agitava a folhagem das árvores, entrava pela brecha da janela aberta e balançava a cortina da sala enquanto refrescava o ambiente. não se importava com o vento, com as cortinas se mexendo ou com a chuva forte começando a cair de vez enquanto o céu escurecia ainda mais, as horas passavam anunciando a chegada da noite. Porém, estava atento a cada um desses detalhes mesmo que também estivesse prestando atenção a série que assistia junto com a garota.
poderia ter ido embora antes que a chuva tivesse ficado mais forte, mas no fundo ele não queria ficar sozinho mais uma vez. A casa alugada por si era confortável e do jeito que ele queria, mas voltar para ela era o mesmo que voltar a ficar sozinho. E mesmo que tivesse ido até aquele lugar em busca de paz, sossego, o pensamento de ficar a sós consigo mesmo mais uma vez o assustava. Por isso, continuou no sofá da casa de e continuou assistindo a série.
Assistir aquela série com uma história tão semelhante a sua o deixava com o coração um pouco mais acelerado. Talvez porque já soubesse ou imaginava como tudo terminaria; com o personagem principal sendo famoso como si, ou com o personagem principal fracassando pela busca de seu objetivo. Seja como fosse, iria doer. E sabia disso porque havia descoberto, há um tempo, que a fama e o fracasso podem te fazer sentir as mesmas coisas com intensidades e em momentos distintos.
— Você não acha interessante? Como mesmo sendo roubado e humilhado, ele não desiste? — quebrou o silêncio quando outro episódio já estava quase na metade, à cena do personagem principal sentado banco do ponto de ônibus enquanto rabiscava algumas palavras no pequeno bloco de folhas que carregava consigo desde o começo, passava na televisão. — Ele não para de escrever, compor, mesmo com toda dificuldade.
— Isso é o que o dá forças para continuar. — respondeu, pigarreando e mexendo no cabelo que foi para frente de seus olhos. — As mesmas dificuldades que o machuca são as que o fortalece. Ele tira uma lição de cada uma delas, um sentimento, e transforma em rap, música. Se ele parar de fazer isso, vai acabar desistindo.
— Talvez seja por isso que ele não consegue, então? Porquê só está escrevendo coisas raivosas?
— Escrever sobre as dificuldades não quer dizer, necessariamente, que escrevemos sobre o ódio que sentimos quando algo dá errado. Ele pode estar escrevendo sim sobre a raiva que sente sobre toda a situação, assim como pode estar escrevendo sobre o que o faz não desistir que é a vontade de vencer e mostrar a cada uma dessas pessoas que ele é capaz. — explicou, assistindo o garoto da série sorrir grato a uma senhora que lhe deu algumas notas baixas após ele tê-la ajudado a descer do ônibus. — Ele vai escrever sobre ela.
— Porque ele não escreve apenas sobre coisas ruins. — sorriu para a televisão e logo para quando olhou para ele. — Você acha que ele vai conseguir? Ou, que em algum momento, ele vai cansar e desistir?
— Ele vai conseguir. — afirmou, esperando realmente que o garoto conseguisse. — Ele não vai desistir. — assegurou, orando para que o personagem não desistisse.
Os episódios foram começando um atrás do outro, e mesmo que não fosse muito fã de séries ele estava assistindo aquela com bastante concentração. Vez ou outra ele e trocavam comentários, pensamentos ou exclamações sobre situações vividas pelo personagem. Ficavam angustiados quando algo não dava certo, os corações apertavam quando a dificuldade lhes parecia maior que a vontade daquele jovem, e sorriam quando algo dava certo para ele — mesmo que fosse algo tão pequeno. Um passo de cada vez, uma conquista de cada vez. Esse era o lema do personagem principal da série, e que e começaram a sussurrar toda vez que ele o dizia em voz alta.
A primeira pausa aconteceu quando espirrou e decidiu que precisavam comer algo para que ele tomasse algum remédio. Ele disse que estava bem e que poderia ser algo só por causa da mudança de tempo, mas não convenceu a garota que o respondeu com “já que está tão bem, me ajuda a fazer alguma coisa”.
ajudou e juntos cozinharam lámen com carne, comentavam sobre a chuva que observaram pela janela da cozinha que assim como a da sala precisou ser fechada. Compartilharam receitas e algumas dicas culinárias, estavam bem. Para era estranho estar se sentindo confortável ao lado de alguém que, apesar de tê-lo ajudado e estar ajudando, ainda era desconhecido para si. Mas, parecia tão fácil e tão certo estar com , cozinhando, e logo comendo e assistindo série ao lado dela.
Certo e novo.
— Eu acho que no final da série, ele vai subir no palco de uma premiação muito famosa. Algo grandioso. — comentou esperançosa sobre o futuro do personagem, colocando outro pedaço de carne dentro da boca. — Ele merece estar no topo.
— Eu espero que ele aproveite o caminho até o topo, e mesmo que queira tanto estar lá em cima… — suspirou, sentindo o coração acelerar e apertar com aquele assunto e com a ideia de estar no topo. — Que ele não chegue lá. — completou, apertando a lata de refrigerante que segurava para beber um pouco do líquido.
— Como assim? — questionou assustada com o pessimismo do outro, deixando de observar o personagem da série conseguindo finalmente comprar um alimento para olhar o garoto ao seu lado. — Por que?
— Porque estar no topo é assustador. — sussurrou, mas mesmo assim o escutou e continuou quieta porque sabia que ele falaria um pouco mais. — Quando se está no lugar mais alto, tudo que você enxerga é a distância entre você e o chão. E pensar que a qualquer momento você pode cair, que algo pode dar errado mais uma vez, é assustador.
— E por que devemos pensar no que pode dar errado ao invés de aproveitarmos a brisa das alturas? — ela questionou fácil demais, exibindo um sorriso que não passou despercebido por que suspirou. — Se lutamos tanto para estar no topo, lá em cima, por que devemos pensar só no que pode dar errado?
— Porque quando se acostuma com tudo dando errado vezes demais, é difícil acreditar que algo deu certo e que não vá dar errado novamente. — falou o que conhecia e sentia tão bem dentro de si, aquele medo que o corroia a cada nova conquista em sua carreira, a cada passo dado para um degrau mais alto. Estar sempre tão perto do chão havia feito com que tivesse medo daquilo que ele tanto buscava: o topo.
— E porque devemos nos acostumar apenas com as coisas ruins? — ela perguntou, deixando de lado a pequena refeição, ainda olhando que deixou de encará-la para olhar a série que passava na televisão. — Hein? Você mesmo disse que as dificuldades nos fortalecem para o sucesso, por que elas não podem ser apenas isso? Algo que nos fortalece? Por que devemos nos acostumar e fazer morada nelas?
— Eu não disse que devemos morar nas dificuldades, só que é difícil acreditar que não enfrentaremos mais nenhuma. — pontuou, olhando para que assentiu com a cabeça, entendendo-o.
— E você está certo, não deixaremos de ter dificuldades em nossas vidas. Iremos enfrentar muitas outras ao longo da vida. Pode ser que tenhamos uma dificuldade por dia, duas ou várias. Mas — respirou fundo, encarando que esperou pelo término. — será que é justo focarmos apenas nesse pensamento? Lutamos tanto para chegarmos até o topo, passamos por tantas e tantas coisas, conhecemos e nos decepcionamos com tantas pessoas, tivemos que buscar forças quando achamos que já não tínhamos mais nenhuma, então… Será que é justo só pensar nisso tudo quando estivermos lá no topo? Não podemos aproveitar o momento e dizer que poxa, eu consegui! — exclamou, sorrindo para ele que a olhava atento ao que sentia cada palavra penetrar seu coração. — Não podemos nos parabenizar por não termos desistido? Que graça vai ter se pensarmos só nas dificuldades que vivemos e que ainda vamos viver? Lutamos tanto pra que então?
— Pra provar que somos capazes. — assegurou com a voz baixa, sentindo tanta coisa dentro de si e pensando em tantas outras. — Mas, é difícil. É tão fácil falar. — respirou fundo, o ar entrando e saindo mais pesado. — O topo assusta. — repetiu.
— Se você chegou nele, é porque é merecedor dele. — comentou ao ver que todo aquele assunto mexia com que continuou olhando-a, mesmo quando a garota voltou sua atenção para a refeição e a série.
Os episódios não eram grandes e a história era comovente o suficiente para prender a atenção de e . Mesmo que o sono estivesse chegando aos poucos para ambos, o céu se tornando cada vez mais escuro conforme a madrugada aparecia, a chuva caia molhando tudo e todos que estivessem desprotegidos, os dois continuavam assistindo um episódio atrás do outro. A aflição sempre presente diante da história que lhes era contada, o coração apertado, palavras de frustração descrevendo o que sentiam e palavrões vez ou outra quando sentiam raiva da maldade que o personagem principal precisava lidar. sentia-se muito íntimo do personagem da série, era quase como assistir a própria história na tela da televisão enquanto ainda pensava nas palavras ditas por horas antes. Cada palavra dita por ela reluzia na mente dele, fazendo-o pensar cada vez mais, se questionar se ela não estava certa. Se, talvez, ele não estivesse ocupado demais pensando qual seria a próxima dificuldade que apareceria ao invés de aproveitar a brisa que lhe tocava o rosto enquanto observava a vista do topo.
tinha passado por tantas coisas na vida, tantas. Experiências que moldaram sua personalidade, seu jeito de demonstrar seus sentimentos e pensamentos, que o fizera erguer cinco muralhas grossas em volta de si, no mínimo. Era difícil acreditar nas pessoas depois de ter sido enganado vezes demais, era difícil acreditar em contos de fadas quando conheceu de perto o lado ruim das pessoas e da vida, era quase impossível acreditar que estava tudo bem quando teve que dormir com receio se acordaria no dia seguinte do mesmo jeito que se deitou num canto qualquer. Era tão difícil acreditar que estava tudo bem e que poderia aproveitar a brisa, a vista. Era tão difícil que chegava a doer, o fazia duvidar de si mesmo. E essa era a pior dor: a falta de fé em si mesmo.
O grito e as lágrimas que molharam o rosto de quando o personagem foi aprovado numa grande empresa de entretenimento fizeram sorrir. Ele achou graça como a felicidade dela pelo personagem foi tão genuína, ela vibrava como se ele fosse alguém real e não apenas um personagem. E enquanto chorava e torcia para que o garoto estreasse logo como artista, sorria e sentia um quentinho no coração que o fazia esquecer todo o medo que sentira. O mesmo quentinho que sentiu quando foi ele a ser aprovado numa empresa.
Mesmo muito feliz com o personagem, desejou boa noite a quando o sono estava forte demais e a fazia quase cochilar no sofá. Ela pediu que ele ficasse a vontade antes de deixá-lo sozinho na sala. estava sozinho mais uma vez, mas não pensou demais sobre isso. Continuou concentrado na série e assistiu mais alguns episódios. Os olhos ficaram atentos a cada cena da série até que o sono ficasse forte demais para si também, até que as pálpebras se fechassem e adormecesse numa posição não muito boa no sofá macio.

se espreguiçou devagar quando ouviu seu nome ser chamado, a mente ainda nebulosa pelo sono, os olhos fechados apertados enquanto todo o corpo era esticado. Respirou fundo antes de levantar as pálpebras e perceber que tinha adormecido no sofá, já era dia e que a televisão estava com um aviso do aplicativo de streams que perguntava se ainda tinha alguém assistindo a série. Porém, quando se sentou no sofá que ele percebeu outra presença na sala da casa de . E levou um susto quando viu a si mesmo do outro lado da sala, olhando-o.
O coração batia acelerado pelo susto e medo que tomava conta de seu corpo, a boca seca, os olhos arregalados, as mãos fechando em punho enquanto a mente agitada estava em busca de alguma explicação. Mas não havia explicação para aquilo que seus olhos viam.
Era a si mesmo. Existia outro bem diante de si.
Um mais novo, mais magro, com roupas surradas e o cabelo curto demais no tom natural. Nos pés estavam o par de tênis que se lembra de ter usado por anos a fio, mesmo com tantos furos e rasgos.
Aquela era a sua versão mais nova. Era o que saiu de casa para ir em busca de seus sonhos, objetivos. Que havia saído de casa para provar ao mundo que poderia fazer tanta coisa, que tinha voz e queria ser ouvido. Que queria ser alguém. E que seria.
— C-Como? — perguntou para si e para o seu outro eu, perguntou para quem quisesse lhe explicar como aquilo era possível. — Como? — repetiu, levantando-se enquanto olhava receoso para o seu eu mais novo. Com medo. Com um aperto no peito também.
— Não está me reconhecendo? — o outro perguntou em deboche, a sobrancelha erguida e fazendo um barulho com a boca quando puxou o ar entre a língua e os dentes. — Fala sério. Fecha a boca, a baba vai pingar no chão. — instruiu ao passar por e tocar o queixo dele, deixando-o de pé enquanto se sentava no sofá. — Nós precisamos conversar.
— O que? — perguntou olhando para o mais novo que o encarava de volta.
— Ficou velho e surdo? — resmungou detestando ficar repetindo a mesma coisa tantas vezes. Não é possível que ficaria com problema de audição e entendimento quando ficasse mais velho era? Fala sério, ainda nem tinha chegado aos trinta anos. — Anda, eu não tenho muito tempo.
— Pra que? — estava curioso, com um leve medo, era tão estranho ver a si mesmo bem diante dos seus olhos. Pior, ver a si mesmo mais novo.
— Pra te perguntar, que porra você está fazendo? — pergunto indignado, não acreditando que o seu eu mais velho estava pensando tanto em si quando não deveria. — Você se lembra do que vivemos para que você chegasse até aí? O que eu vivi para que você estivesse aí? Famoso? Rico? Levando sua mensagem para todo o mundo? Chegando ao topo?
— Claro que lembro! — respondeu ainda confuso, o cenho franzido, a mente trabalhando a mil por hora. — Eu não me esqueci de nada!
— Não mesmo?
— Que porra… — respirou fundo, tentando entender o que estava acontecendo ao que começou a listar: — Eu me lembro das noites frias em que dormi na rua, de como minha barriga doía de fome e das pouquíssimas pessoas que me ajudaram! Nos ajudaram! — apontou para si e para o seu mais novo. — Eu me lembro perfeitamente das risadas que ouvi toda vez que faziam piadas do nosso objetivo! Sonhos! De quantos socos levei quando cobrei pelas músicas que nos roubaram! Dos chutes também! Eu me lembro da quantidade de lágrimas que derramamos e de como sempre foi foda parecer ser forte quando estávamos tão fracos!
— Você se lembra do que nos fortalecia? — mais novo perguntou ao mais velho, vendo-o respirar fundo mais uma vez e passar as mãos pelo rosto. — Lembra?
— Claro que sim. O que nos fortalecia era a vontade de chegar ao topo, de mostrar que somos capazes. De que sou capaz. — afirmou, sentindo um nó subir em sua garganta ao ver seu passado tão perto de si. Tão presente. — As histórias que eu inventava a noite antes de dormir que me fortalecia. Histórias em que eu era o protagonista, o dono de toda atenção, famoso com milhares de fãs que amavam a mim e, especialmente, a minha música e mensagem. Era a certeza de que tudo ficaria bem que me fortalecia. Era pensar que a fase ruim iria passar que me fortalecia.
— Se na fase ruim você se agarrou na fase boa, na certeza de que tudo ficaria bem mesmo sem saber se de fato ficaria… — o mais novo respirou fundo, encarando o seu futuro, perguntando-se quando deixara de acreditar em si mesmo. — Por que agora que está na fase boa, chegando ao topo, está tão agarrado a fase ruim? Porque está deixando de lado toda a nossa luta pra chegar até aí, de lado? E tudo que aprendemos? E toda a força que adquirimos ao longo desse caminho tão escuro e molhado de lágrimas? — se levantou e aproximou do mais velho, olhou nos olhos escuros que tinham aquilo que o mais novo sentia em si: medo. O mais puro medo. — Por que está se agarrando ao ruim quando está, finalmente, vivendo o bom?
— Porque assusta pra caralho. — confessou, sentindo a pele de seu rosto molhar quando não conseguiu mais segurar o choro apertado, o nó na garganta. — Porque nada nunca foi tão bom antes. E quando foi, sempre vinha acompanhado de algo ruim.
— E você está deixando esse medo te proibir de viver de verdade aquilo que você sempre correu atrás? Depois de todas as noites em claro, as lágrimas derramadas e tudo o que mais ouvimos e vivemos. Depois de tudo que eu vivi para que você chegasse aí… Você está desistindo por medo?
— Eu não estou desistindo! — se defendeu, gritou, com a respiração agitada e o coração apertado. — Não estou.
— Não está? Tem certeza? — o seu eu mais novo o questionou, olhando-o seriamente diretamente nos olhos, esperando de si alguma resposta verdadeira. Mas, droga, doía admitir para si mesmo que aquele medo que sentia o fazia querer desistir de tudo. — E acha que está sendo justo? Com a sua história? Comigo?
mais velho, do presente, recuou um passo tamanha foi a porrada que sentiu ao ouvir a última pergunta do seu eu mais novo. Aquilo sim era dor. Sentir medo de desistir não era nada perto do gosto amargo que sentia em sua língua, do aperto que diminuiu seu coração de tamanho. Decepcionar o seu eu do passado era muito mais doloroso do que tudo aquilo, reduzia a pó toda e qualquer outra coisa.
— Eu acreditei em você e por isso, eu dormi pelas ruas por várias noites enquanto sentia frio e fome. Eu pedi comida, ajuda às pessoas porque acreditei que um dia você teria conforto e poderia comer o que quisesse a hora que quisesse. Eu engoli cada deboche em forma de piada ou risada porque sabia que um dia você calaria todas aquelas pessoas. Eu fui chutado para que você não fosse. Eu fui roubado para que no futuro você pudesse cobrar o valor que quisesse por suas músicas, seus trabalhos, para que você pudesse ser valorizado. Eu chorei para que você pudesse ser feliz, para que o sorriso não saísse da sua cara e a tristeza ficasse bem longe de você. Eu fui forte para que você pudesse respirar aliviado. Eu sofri para que você aproveitasse a parte boa, a brisa e a vista que tem em cima do topo. — mais novo pontuou cada coisa, o indicador tocando o ombro do seu eu mais velho a cada frase. As palavras pesando, sendo como flechas certeiras no coração do mais velho que engolia em seco, sem palavras para rebater. — E agora eu tenho que ouvir você dizer que sente medo? Tenho que saber que você pensa em desistir de tudo por medo? — questionou, o cenho franzindo, os lábios sendo molhados pela ponta da língua antes que uma risada baixa saísse dentre eles. — Isso não é justo. Não é justo comigo, com a minha história que também é a sua história. Não é justo com você mesmo.
— Eu… — respirou fundo, as lágrimas escapando sem qualquer controle, sentindo o chão sumir debaixo de seus pés. — Eu… — tentou mais uma vez.
— Eu e você somos um só. Você está aí porque eu tentei, e eu tentei porque eu sabia que você estaria aí. Eu não me arrependo de nada que passei, foram todas aquelas situações que me tornaram mais forte e não me fizeram desistir. Que tornaram você mais forte. — continuou, sem muito tempo mais. — Não seja injusto com a minha história, com tudo que eu passei. Eu acreditei em você quando você ainda nem existia, e a acredita em você desde que te conheceu. Eu e ela estamos com você, sempre estivemos e estaremos. Não desista de tudo porque sente medo do amanhã. Não se agarre ao ruim quando está, finalmente, vivendo o bom. Isso não é você. Não somos nós. — afirmou, aproximando-se um pouco mais do mais velho que assentiu lento.
— A … Ela… — o mais velho sussurrou, confuso com a menção a garota que não tinha aparecido desde que ele acordara e encontra o seu eu do passado.
— Ela é a sua maior fã. Ela acreditou em você desde que te conheceu. — o mais novo respondeu, afirmou, sorrindo ao lembrar-se tão bem da garota. — Ela ama você e é grata a mim. E não existia ninguém melhor pra falar com você antes de mim. — assegurou ainda sorrindo, observando o seu eu mais velho e sentindo tanto orgulho de si mesmo. Sua luta não fora em vão.
— Eu sinto tanto orgulho de você. — prometeu, sentindo-se quente. — Você está exatamente onde eu desejei e lutei para que estivesse. Você é quem eu batalhei para ser. Você está aí porque eu enfrentei o mundo acreditando que você conseguiria. E você conseguiu. Então, por favor, — pediu baixo, quase implorou. — não desista da nossa história. Porque ela é foda. — tocou o ombro do outro com a mão de maneira leve, apertando ali num carinho que desejou sentir quando tudo estava escuro demais. — Você não está mais sozinho. Eu acredito em você mais do que todo mundo, na gente. Enquanto a acredita em você porque sabe tudo sobre mim e sobre você. Ela conhece o teu passado, o teu presente e te apoia e ama ainda assim. Se ela não desistiu da gente, não seja você quem vai fazer isso. Ou eu te soco da próxima vez. — ameaçou, sorrindo para o outro que o abraçou de imediato.
apertou o seu eu mais novo com toda força que havia em si, o guardou dentro de seu abraço e chorou como nunca antes. O coração batia acelerado, as mãos sempre tão frias eram esquentadas pela pele alheia, dos olhos saiam lágrimas grossas. Enquanto os lábios só conseguiam repetir uma palavra com tanto peso e significado:
— Obrigado.

Os pés tocaram a areia gélida da praia, os sapatos segurados juntos na mão direita enquanto a esquerda tirava do rosto os cabelos que bagunçavam com o vento. O mar diante dos olhos fizera respirar fundo, suspirar encantando pela obra da natural. Era perfeita a combinação entre o mar, a água que ia e vinha em pequenas ondas, o céu azul claro acima dele e o cheirinho de maresia que aquecia o coração do garoto. observou a cena diante de si por alguns minutos antes de dar passos pequenos em direção ao mar, olhou ao seu redor vendo poucas pessoas por ali. Respirou fundo mais uma vez.
Ele tinha ido até o local que aparecera no sonho que tivera há duas semanas, um sonho importante em que encontrou uma garota até então desconhecida por si e o seu próprio eu do passado. Um sonho que arrancara de a mais profunda reflexão sobre tudo o que ele foi, fez e estava sendo e fazendo em sua vida. Sentia tanto medo com o seu retorno com um álbum novo, que deixou a ansiedade e insegurança tomar conta de cada fibra de seu corpo. Fazendo-o duvidar de sua capacidade e esquecer que havia passado por coisas o suficiente para ser alguém forte. Que era alguém forte.
nunca acreditou muito que sonhos possam ter alguma influência em nossa realidade, mas após aquele… Era impossível continuar acreditando nisso. Afinal, fora aquele sonho que o mudara. Foi a conversa que teve com a tal e com o do passado que o fizera não desistir, que o lembrou de tudo que havia esquecido, da força que tinha e do quão longe poderia ir. Principalmente, que o lembrou de que não estava sozinho. Nunca estaria. Afinal, ele e o seu eu do passado eram um só, o que o garantia de que jamais estaria sozinho. Uma vez que não havia ninguém melhor para lembrá-lo o quão longe ele poderia ir, senão aquele que acreditou nele desde o começo de tudo: ele mesmo.
E ainda tinha que aparecera no sonho como alguém importante, alguém que segundo o seu eu do passado era quem acreditava no do presente porque conhecia a historia do do passado. Ela era especial, acreditava e amava . Bom, pelo menos em seu sonho. E, talvez, fosse a curiosidade para saber se existia ou não que levara a procurar por aquele lugar que aparecera em seu sonho. Por aquela praia, a casa pequena que ele havia alugado e a casa de .
A água fria tocou os pés e tornozelos de , fazendo-o dar um passado para trás e reclamar da temperatura baixa da água que o arrepiou. E enquanto um sorriso surgia nos lábios dele e uma leveza tomava conta do corpo dele, ouviu uma risada alta o suficiente para que o fizesse olhar ao redor curioso. Uma garota ria enquanto andava em direção à água e logo corria fugindo da mesma, os cabelos não tão grande eram balançados pelo vento. O som da risada alheia arrancou um sorriso de . Porém, foi só a menina tirar os cabelos da frente de seu rosto e prendê-los num rabo de cavalo alto que o sorriso deixou os lábios de .
Era .
Ela existia. Era real.
E era igual ao sonho de , idêntica. A única diferença é que no sonho ela usava um conjunto de moletom, e naquele momento ela vestia um short jeans e uma camiseta preta com a arte do álbum recente de estampada bem na frente.
continuou olhando-a, sentindo o coração acelerado pela surpresa boa. Pelo reencontro. Enquanto olhou ao seu redor ao sentir que estava sendo observada, logo engolindo a seco quando encontrou quem a olhava e teve seus olhos presos aos olhos dele. Era . Ele era ainda mais bonito pessoalmente e, principalmente, era idêntico a como ele aparecera no sonho que tivera há alguns dias.
Se no sonho de ela o ajudou a pensar melhor sobre não sentir medo e aproveitar o momento, no sonho de ele foi responsável por ajudá-la a entender que obstáculos irão aparecer em nossas vidas e está tudo bem. Porque mesmo que a dificuldade exista sempre haverá um dia melhor pela frente, sempre podemos amadurecer e nos fortalecer nas dificuldades.
nem percebeu quando um sorriso surgiu em seus lábios, e muito menos quando retribuiu com um sorriso bonito.
As ondas tocavam os pés e tornozelos de ambos, o vento ainda balançava seus cabelos, enquanto os corações batiam acelerados em seus peitos. O ritmo acelerado e forte descrevia o que sentiam naquele momento enquanto se olhavam e trocavam sorrisos: gratidão.
Gratidão por terem se conhecido antes do sonho, no sonho e agora após ele. Por terem sido a força e o incentivo que o outro precisava. Por compartilharem aquele sentimento tão bom que muitos julgam e poucos entendem. Gratidão por terem se esbarrado nesse mundo tão grande. Gratidão por terem um ao outro e por serem eles, ela e ele, o apoio que o outro precisa.
Por serem, de certa forma, a sombra um do outro. E juntos serem um só. Afinal, o que ambos sentiam um pelo o outro era o que os uniu desde o começo de tudo: desde que conheceu o artista e pesquisou a história dele, e desde que soube de seu eu do passado que era a pessoa que mais acreditava nele mesmo desde sempre. e o do passado eram as duas partes que completavam e fortaleciam o do presente, enquanto o do passado e o do presente são as duas partes que inspiram, motivam e fortalecem em seus momentos de aflição.
Eles eram um só. Sempre foram e sempre seriam.
E isso era os que fortaleciam antes mesmo de descobrirem essa informação tão preciosa: Eles eram um só.
Enquanto fossem um só, eles sabiam que jamais estariam sozinhos nesse mundo tão grande. Não importa o tamanho da distancia que haja entre eles, pois o que eles sentem é maior que tudo.
— O personagem principal conseguiu chegar ao topo? — ela o perguntou quando estavam próximos o suficiente para que suas vozes fossem ouvidas com perfeição.
— O que você acha? — perguntou de volta, sorrindo e logo rindo baixo para ela que também riu. — Ele conseguiu, afinal, não estava sozinho. Tinha a melhor torcida consigo o tempo todo. — concluiu encarando-a, tão grato e feliz por tê-la em sua vida, pelo sonho e por ter reencontrado que sentia a mesma coisa que . — Quer assistir uma série comigo?
— Só se o final não for previsível demais — brincou, rindo junto com o cantor que concordou.
Eles eram um só, e isso era o que fazia tudo ficar bem: Eles eram um só e nunca deixariam de ser. E ser um só tornava tudo muito previsível para eles que sabiam que tudo daria certo porque estavam juntos.
Eram um só. E amaram ter descoberto isso.

FIM.
N/A: Um dia uma amiga me disse que a vida fica mais bela com altos e baixos, e eu concordo completamente com ela. E hoje eu quero completar dizendo que: a vida fica ainda mais bonita quando valorizamos quem fomos e o que fizemos para chegarmos até aqui, quando entendemos que antes do presente existiu um passado que deve ser valorizado e jamais esquecido. E, principalmente, que devemos valorizar quem acredita na gente e nunca esquecer que, em algum momento, a nossa história vai ser inspiração pra alguém.
Thatá, você é uma das minhas inspirações mais lindas. Obrigada por ser tão preciosa, transmitir tanta luz e força para aqueles que te cercam – que sorte a minha é ter você comigo nessa vida, nessa caminhada. Eu te amo infinito.
Bom, obrigada a quem leu. Me digam o que acharam, e desculpa qualquer coisa. Se quiserem me procurar estou no twitter como @loeykwon.