09. Black Swan

09. Black Swan

Sinopse: Enquanto trabalha como temporária num evento de premiação musical, o medo e a timidez a impedem de perceber o interesse de Taehyung em si. Numa versão completamente nova, ele mostra que o sucesso pode ser tóxico também.
Classificação: Livre
Gênero: Romance
Beta: Rosie Dunne

Claro que ele foi a primeira coisa que ela viu assim que entrou naquele salão gigante cheio de
gente importante. Claro também que ela reparou nos seguranças. Sua função era entregar os pequenos
presentes destinados aos convidados especiais. Ou melhor, SEGURAR a bandeja onde estavam os
presentes. A presidente do evento era quem entregaria e apertaria as mãos de todos os sete, podendo
ter a sorte de receber um beijinho ou um tapinha no ombro. Ela não, ela ficaria ali, com cara de
paisagem, ciente de que teria o rosto borrado quando a transmissão fosse exibida na tv, enquanto sua
chefe sorria e tirava foto com eles.
Tentou fingir normalidade e parou ao lado dele, aguardando o momento para pegar a bandeja
com as miniaturas em pelúcia do mascote do evento. Olhou para os próprios pés, completamente
consciente de si mesma, deixando o cabelo esconder seus olhos e parte do rosto para não cair na
tentação de olhar para os lados.
“Não olhe para eles! Não tente conversar! Muito menos fazer contato. Eles são importantes,
você não é nada. Entendeu?” – podia ouvir claramente a voz da chefe falando em sua cabeça. Sabia
que ela a observava, podia sentir um par – ou vários – de olhos furando sua pele por onde fosse cada
vez que tentava desviar de mais gente importante. Os flashes piscavam de todas as direções, mas ela
continuou olhando para o chão, constrangida, aguardando o momento certo para cumprir sua função e
finalmente desaparecer.
Chegava a ser sufocante como estar na presença daquele homem e de seus seis irmãos mexia
com ela. Desejou não ser tão simplória, não ter o rosto tão comum ou se vestir tão humildemente.
Mas, uniforme era uniforme e ela estava ali apenas pelo dinheiro. Não podia se dar ao luxo de
levantar os olhos e perder mais aquele emprego temporário. Calhou de ser um emprego perto de seus
ídolos, mas essa era a única sorte que teria em sua vida por umas seis gerações.
Alguém decidiu que era uma boa idéia colocar uma música deles para tocar e,
coincidentemente, escolheram sua favorita. Toda fã que se preze tem uma música em meio a tantas
outras que faz com que perca um pouco o controle e saia cantando e dançando por qualquer lugar.
Sabe? Aquela música? Então, foi essa que escolheram. Fez uma careta discreta, fechando um pouco
os olhos e gemendo baixinho de frustração. “Controle-se” – pensou, já balbuciando algumas palavras
da música. Sentiu seus pés quererem mexer, então apenas mudou a posição das pernas, se apoiando
hora em uma, hora em outra, para não correr o risco de dançar. Mas não conseguia parar de balbuciar
a música baixinho. Até que os flashes ficaram mais fortes e ela levantou o rosto, achando que o
momento de pegar sua bandeja houvesse chegado.
Foram míseros dois segundos. Dois segundos que pareceram durar uma vida inteira.
Enquanto ela afastava o cabelo dos olhos para procurar a chefe em meio a tanta gente, seus olhos
cruzaram com os dele e ele também estava tirando o cabelo do rosto. Muito lenta e discretamente, ele
sorriu de lado, como se soubesse exatamente tudo o que se passava na mente dela naqueles dois
segundos. E então o mundo voltou a se mover na velocidade normal e ele desviou os olhos para os
jornalistas e seus microfones e câmeras, enquanto ela ficou ali, meio paralisada, meio derretida,
sentindo que o coração havia fugido e deixado um espaço oco em seu lugar. Se fizesse um esforço
tinha certeza que ouviria o vento passando pelo buraco.
E ela estava certa, era o momento de pegar a tal bandeja e segurar as pelúcias enquanto sua
chefe os distribuía entre os sete integrantes do maior grupo musical do ano. Focou os olhos o bichinho
do meio, um ursinho polar delicado. Tinha certeza de seu destino, mas não se atreveu a levantar os
olhos. Acompanhando a outra mulher, ela dava um passo e parava. Flashes. Risos. Pés se ajeitando
para se curvarem. Outro passo. Flashes. Risos. Até chegarem ao último, ao dono do ursinho polar.
Foi fácil identificar o timbre grave no riso dele ao receber o bichinho. Agora ela não tinha
mais para onde olhar a não ser os pés dele, incomodados com os sapatos – como sempre. Sentiu seu
coração ameaçar voltar para seu peito, mas a ilusão acabou assim que as pontas dos sapatos
caríssimos que ele usava se viraram em sua direção. “Não olhe para cima, não olhe para cima. Você
está proibida de olhar para cima” – era isso que sua chefe lhe diria se pudesse dizer qualquer coisa ali,
em frente aos convidados; também eram exatamente as palavras que sua mente insana repetia
enquanto ela esperava um sinal para sair logo dali e voltar a respirar.
Mas nem os sapatos caros da chefe ou os sapatos escuros do convidado se moveram e só
então ela entendeu que ele estava falando alguma coisa a ela. Levantou os olhos, mas não se atreveu a
olhar na direção dos sete, olhou para a chefe, confusa. Ela exibia um sorriso engessado no rosto
maquiado e cheio de botox. Pelo olhar ela soube que estava mentalmente sendo espancada, mas a
mulher continuava sorrindo e indicando o convidado com os olhos. Estava autorizada a olhar. Mas e o
medo?
Seu coração já não existia, então não corria risco dele bater tão alto que todo mundo ali
ouviria. Mas já não sabia respirar e só Deus sabe como continuava de pé ali. Sorriu sem jeito e
lentamente seus olhos foram de membro a membro até chegar ao último. Ele a olhava interessado,
daquele jeito matador, perscrutando sua alma até a vida anterior. Rimou! Sabia tudo sobre ela?
Provavelmente estava descobrindo ali. Sentiu o rosto arder e desviou os olhos de novo para a chefe,
sem saber exatamente o que ele havia dito, apenas se inclinando numa breve reverência e sorrindo
sem jeito, concordando com alguma coisa que não sabia bem o que era.
Voltou a sentir o próprio coração apenas duas horas depois, ao receber pelo trabalho daquele
dia. As vans já haviam ido embora com seus membros ilustres havia muito tempo. Não deu ouvidos
às ameaças que a chefe fez, sabia que ela a contrataria de novo porque o envelope estava bem mais
gordo do que o normal. Inclinou-se num ângulo de noventa graus e agradeceu pela oportunidade,
emendando um pedido de desculpas aleatório no meio, apenas para agradar o ego da mulher.
— Não demore para usar o número. Esse celular vai ser desligado amanhã cedo.
Olhou confusa para a mulher, mas ela já havia lhe dado as costas para que se virasse sozinha
com aquela informação sem nexo. Seu envelope começou a vibrar, forçando-a a abri-lo antes de
chegar em casa para conferir o pagamento. Havia um celular desses caríssimos entre as notas altas do
pagamento — maior do que nunca — e ele vibrava com um número oculto.
— A-alô?
— Finalmente atendeu.
Ela reconheceu a voz de novo. Assim como seu coração, seu pulmão e suas pernas, todos
reagindo involuntariamente.
— Oi?
— Espero que ela tenha dado dinheiro suficiente. Onde posso mandar o motorista te pegar?
— Motorista?
— É.
Tirou o celular do ouvido e o encarou por alguns segundos, ignorando os “alô” ditos do outro
lado da linha. Tinha entendido direito? Aquele pagamento a mais era para o que ela achava que era?
— Desculpa, mas acho que peguei o telefone de alguém sem querer.
— Não, era para você mesmo. Vi quando me olhou.
— Mas eu não…
— Vai perder uma oportunidade dessas?
Voltou a olhar para o aparelho, dessa vez se sentindo insultada. Suja. Não podia ser a mesma
pessoa. Encerrou a ligação e abriu a porta para seguir sua chefe e devolver o envelope. Mas o celular
voltou a vibrar em sua mão, dessa vez com um número identificado como “V”. Atendeu.
— Alô?
— Fique aí.
— Eu… o que?
Mas ele já havia desligado e ela sabia que ia obedecer qualquer coisa que ele dissesse. Mesmo
que fosse por telefone. Ficou. Enfiou o aparelho no bolso de trás da calça jeans surrada e esperou. E
os minutos viraram horas, até que uma van parou em frente à porta de acesso dos funcionários e por
ela passasse V, todo de preto, o cabelo escuro ondulando conforme ele andava. Mais lindo e perigoso
do que nunca. Quando ele parou em frente a ela, dividido entre o curioso e o furioso, ela percebeu que
não devia ter ficado. O que ele estava esperando dela, não era exatamente o que ela poderia oferecer.
Colocou a mão no peito dele, não se reconhecendo naquela mulher decidida.
— Seu celular. Você esqueceu.
— Não queria uma chance com V, do BTS?
— Não. Queria com Kim Taehyung, mas acho que ele se perdeu no personagem. – respondeu
antes de passar por ele e sair pela mesma porta por onde ele havia entrado. Todo o encanto quebrado.
Assim como o ego dele ao perceber o quão babaca tinha sido e nem mesmo sabia o nome dela para
poder se desculpar.