01. Intro: Persona

01. Intro: Persona

Sinopse: This is the barometer of my direction I want to keep, the ‘me’ that I want myself to be, the ‘me’ that people want me to be, the ‘me’ that you love and the ‘me’ that I create, the ‘me’ that’s smiling, the me that’s sometimes in tears, vividly breathing each second and every moment even now.
Gênero: Ficção.
Classificação: Livre.
Restrições: Namjoon é fixo.
Beta: Rosie Dunne.

Intro: Persona

Capítulo Único

 

A doutora ajeitou os papéis em sua mesa e sorriu ao ouvir batidas na porta, olhando para o relógio e vendo que faltavam poucos minutos para sua próxima consulta, dizendo a quem estava do outro lado que poderia entrar. Seu sorriso aumentou ao ver seu paciente favorito passar pela porta — sabia que isso não era nada profissional, inclusive a amizade que mantinha com o rapaz fora de suas consultas, mas não pode evitar —, cumprimentando-o e indicando que se sentasse no pequeno sofá bege.

— Bom dia, Namjoon. — Ajeitou os óculos, levantando-se de sua cadeira e seguindo até a poltrona próxima ao rapaz. — Como passou a semana?

Ele sorriu, cruzando as pernas embaixo de si no sofá.

— Já estamos no modo doutora e paciente? É a ou a Doutora ? — Brincou, fazendo a outra rir. — Foi boa, eles me deram a semana toda de folga, já que logo começa a divulgação do comeback, e aí é direto, sem descanso, até o final da promoção. — Deu de ombros, era visível o quão ansioso estava para voltar aos palcos, o jovem praticamente brilhava ao falar da carreira, o que sempre fazia com que sorrisse ao o observar.

Namjoon havia evoluído muito desde o início do tratamento, a melhora sendo perceptível para qualquer um que o observasse com um pouco mais de atenção. Seus olhos tinham recuperado o brilho, tão diferentes dos olhos opacos que observavam o consultório de forma desconfiada nos primeiros encontros, e ele estava feliz. Verdadeiramente feliz. E nada poderia deixar mais feliz no momento do que isso, saber que seu trabalho e sua dedicação com o caso haviam tido efeito positivo no rapaz. O tratamento beirava os três anos e, visto o estado no qual o Kim havia buscado pelas consultas de forma emergencial, havia sido uma evolução rápida e estável. Claro que haviam existido momentos de recaída, momentos em que Namjoon pulara as consultas ou ligara para a mulher no meio de uma crise, envergonhando-se e pedindo desculpas no dia seguinte. Havia levado alguns meses até que ele se abrira verdadeiramente com ela, desistindo de manter a persona que apresentava nos palcos e entrevistas, permitindo a conhecer e ajudar ao verdadeiro Kim Namjoon, tentando se livrar da sombra que RM ainda fazia em alguns de seus encontros.

— Como você se sente? Como está se sentindo nesse momento? — Questionou, vendo ele respirar profundamente e passar os olhos pelo consultório, sorrindo ao ver o pequeno cacto que havia presenteado a doutora há alguns meses. A mulher riu ao ver o que o rapaz observava. — Ele cresceu, não é? Quando você trouxe, era só uma coisinha espinhuda, agora ele já se prepara pra dar flores. — Observou também a planta. — Ela me lembra você, sabe? Quando você chegou aqui na sua primeira consulta, só sabia olhar pras mãos, não abriu a boca a primeira consulta inteirinha, nem pra me falar o seu nome. Na segunda consulta, você me falou que era o RM do BTS

— E você disse que queria o meu nome de verdade, e não o de palco. — O homem completou, rindo e passando a mão pelos fios.

— Levou quase três meses até você me contar o motivo de ter começado a terapia, pouco mais de um ano até o tratamento ter efeito visível e, agora depois de três anos, você chega aqui sorrindo e todo animado. — Concluiu o pensamento. — Igualzinho aquele cacto.

— Você sabe que eu vou acabar usando isso em uma música um dia, não sabe? — Abriu um sorriso, fazendo a mulher rir. Suspirou, após refletir em silêncio por um tempo, voltando os olhos para a mulher. — Eu ‘tô bem, só um pouco desconfortável, no geral.

— E sobre o que especificamente você tem estado desconfortável?

Namjoon passou todo o tempo da consulta falando sobre como a pressão da carreira às vezes tornava-se demais para si, sobre sentir que carrega o peso do mundo nas costas e que, mesmo tendo com quem dividir, ainda era sufocante. Ainda se questionava sobre seu valor e se realmente era merecedor de tudo o que recebia, se havia verdadeiramente conquistado algo em toda a sua vida ou se havia recebido tudo de mão beijada. Era um cachorro? Um porco? Alguma outra coisa? Ainda pensava no discurso que Na Hyang-wook, ministro da educação, havia feito em 2016, questionando em qual categoria ele se encaixaria. Contou sobre não saber qual conselho seguir, deveria ouvir aqueles que o mandavam parar ou os que diziam para que continuasse correndo? Deveria enxergar o plano maior, e olhar para a floresta, ou focar nas pequenas flores no caminho, que lhe traziam felicidade?
Precisava se lembrar constantemente sobre o motivo pelo qual iniciara a carreira, sua paixão pela música e o caminho que trilhou. Tinha plena consciência de sua influência e como suas palavras ecoavam e causavam impacto não só na Ásia e sim no mundo todo — o que às vezes o fazia se sentir como o super-herói, que costumava ser em suas brincadeiras infantis, mas também o fazia pensar diversas vezes e escolher as palavras certas antes de qualquer pequena frase que deveria ser dita.
Acordava todos os dias se questionando sobre quem deveria ser, deveria torna-se o ‘eu’ que sempre desejou? Ou tornar-se aquilo que esperavam dele? O ‘eu’ que os outros amavam e que ele havia criado, aquele que estava sempre sorrindo? Ou poderia também ser o Namjoon verdadeiro, aquele que tinha sonhos menores e mais reais do que ser parte do maior boy group da atualidade? Poderia ele, um dia, se desvincilhar completamente do RM, o idol perfeito, e viver apenas como Kim Namjoon, o homem imperfeito e que cometia erros?
Sabia que era privilegiado diante amigos de outras empresas, possuía muito mais liberdade do que eles, seja sobre seu processo criativo ou sobre sua figura pública, mas ainda assim haviam regras a serem seguidas e padrões a serem obedecidos, havia nuances de sua personalidade sobre a qual nunca poderia falar, traços de sua personalidade que nunca poderia mostrar. Ele nunca poderia mostrar aos seus fãs quem era completamente, apresentar toda a sua verdade e sentar e discutir sobre sua opinião em alguns assuntos, assim como seus planos para o futuro. Não que isso significasse que não conheciam nada sobre si, conheciam sim, mas somente o seu melhor lado, uma versão melhorada de si, e isso o assustava. Milhares de pessoas haviam construído uma figura e estabelecido expectativas que Namjoon não sabia se poderia, ou se queria, atender.
Mas havia também a parte boa da carreira, da fama. Agora possuía importância o suficiente para causar um impacto positivo no mundo, poderia ajudar a tornar o mundo um lugar melhor, finalmente possuía voz ativa para algo. Esperava e torcia que, através de sua música, pudesse atingir e ajudar, mesmo que minimamente, a melhorar a realidade de seus fãs.
Havia conhecido mais países do que sonhara um dia, visitara mais museus do que poderia contar nos dedos, teve contato com culturas tão diferentes da sua, o que considerava um fator crucial e necessário para seu crescimento pessoal. Havia conhecido seis outros garotos, a quem considerava sua família, seis novos irmãos para lhe fazer companhia, para implicar, brincar e apoiar, para dividir um sonho e um teto.
Estava vivendo de sua música, de versos que ele mesmo escrevia e, às vezes, produzia, lotava estádios e mais estádios de pessoas que queriam ouvi-lo, que o admiravam. Realizava o sonho pelo qual lutava desde os catorze anos, ou até mesmo antes.

— E você é feliz hoje? — A doutora questionou, ao ver que caminhavam para o fim da consulta e que o rapaz já havia falado sobre tudo o que inundava seu peito naquele momento.

Namjoon sorriu, um sorriso lindo e que preencheu seu rosto inteiro, fazendo as covinhas aparecerem.

— Dizer que eu sou feliz talvez seja um pouco demais, afinal de contas, eu ainda nem mesmo descobri quem eu sou. — Riu. — Mas se eu estou feliz? Com toda a certeza, eu tenho rido bem mais do que antes, e pra mim isso já é o suficiente. Não preciso saber como o Namjoon de amanhã, da semana que vem, mês que vem, ano que vem, vai estar ou quem ele vai ser. Não preciso mais pensar sobre isso, sobre o futuro. Eu estar feliz agora, nesse momento que eu estou vivendo, é tudo o que eu preciso.