12. Only the Brave

12. Only the Brave

Sinopse: Uma vez, quando apenas um garotinho, Louis Tomlinson leu uma frase num dos contos de romance que clandestinamente pegara emprestado de uma de suas irmãs: o amor é para quem tem coragem.
Poderia parecer bobo, pelo menos para a vasta maioria dos garotos da sua idade pareceria, mas aquela frase lhe marcou como poucas coisas conseguiram fazê-lo em sua infância. É claro que na época ele não foi capaz de entender o verdadeiro sentido por trás daquelas palavras e, céus, como desejava que tivesse continuado assim… porque, anos mais tarde, quando um misterioso garoto cacheado se muda para sua cidade e sua vida, Louis finalmente entendera o significado, da forma mais cruel e estarrecedora possível:
Na própria pele
Gênero: romance, drama
Classificação: +12
Restrição: violência, não-interatica
Beta: Sharpay Evans

Uma vez, quando apenas um garotinho, Louis Tomlinson leu uma frase num dos contos de romance que clandestinamente pegara emprestado de uma de suas irmãs: o amor é para quem tem coragem.
Poderia parecer bobo, pelo menos para a vasta maioria dos garotos da sua idade pareceria, mas aquela frase lhe marcou como poucas coisas conseguiram fazê-lo em sua infância. É claro que na época ele não foi capaz de entender o verdadeiro sentido por trás daquelas palavras e, céus, como desejava que tivesse continuado assim… porque, anos mais tarde, Louis finalmente entendera o significado, da forma mais cruel e estarrecedora possível:
Na própria pele.
Sendo filho do pastor, Louis tinha um lugarzinho muitíssimo especial e privilegiado reservado para ele nos cultos de domingo. Por ser um garoto de natureza curiosa, era sempre um deleite sentar-se de frente para a porta, podendo enxergar cada um que entrava e saia da igreja feita de pedras.
Ele jamais admitiria isso em voz alta, pelo menos não na frente de seus genitores, mas gastava mais tempo observando as pessoas nos cultos, do que de fato escutando os ensinamentos de seu pai.
E naquele dia não foi diferente.
Se o perguntarem hoje, Louis saberia descrever com precisão todas as milhares de sensações diferentes que percorreram seu corpo no momento em que viu um certo garoto de cabelos cacheados atravessar pela primeira vez a porta em arco da igreja da cidade.
Ele se parecia com um dos anjos pintados no vitral logo à sua frente, com seus cabelos cacheados e pele pálida.
À princípio, Louis sentiu-se curioso diante da figura desconhecida, que se sentou ao lado do que deveria ser sua família, no único espaço de banco de madeira que sobrara em todo templo. Foi quase como se o olhar insistente do filho do pastor tivesse acionado alguma espécie de botão na mente do cacheado, e o olhar dos dois se cruzaram no meio de todas aquelas cabeças alinhadas de frente para o púlpito.
O jovem Louis sentiu o ar fugir de seus pulmões. Não reparou a princípio como as roupas do desconhecido pareciam extremamente rebuscadas se comparadas às suas, — arduamente pechinchadas para que fossem compatíveis com o escasso salário do pastor — e muito menos quão dura parecia a figura paterna sentada à direita do garoto. Não. Do outro lado do templo, apesar de não conseguir enxergar com precisão os traços dele, Louis apenas pensou, como uma aposta silenciosa consigo mesmo, que os olhos dele deveriam ser brilhantes.
Não fazia ideia do porquê se sentiu daquela forma, alheio demais às suas preferências e principalmente às sensações do amor para se dar conta que se apaixonara à primeira vista. Mas também não teve muito tempo para refletir sobre o fenômeno inédito que ocorria em seu corpo, já que a voz de seu pai soou estrondosamente pelo templo, atraindo a atenção de todos, inclusive do garoto cacheado.
Prestar a atenção nas palavras do pastor Tomlinson nunca fora um desafio tão grande. Enquanto ele pregava alguma palavra sobre o livro de Salmos, o pensamento de seu filho estava muitíssimo longe.
Lembrava-se de ter rido uma vez ou outra quando seu pai soltava algum comentário bem humorado, ou até mesmo de dar um sorriso amistoso toda vez que o pastor citava carinhosamente seu nome em algum contexto da pregação, contudo, fora isso, Louis jamais saberia dizer do que se tratara a palavra daquela manhã de domingo.
Do outro lado do templo, o misterioso cacheado tampouco conseguia concentrar-se. Os comentários pouco pertinentes sobre as vestes das pessoas, cochichados pela sua mãe estavam tirando-o do sério, além de que não era exatamente um grande devoto.
Não que seus pais soubessem disso.
Não estava certo sobre a existência de Deus, ou de qualquer coisa que não podia ver ou sentir. Sentia-se culpado por isso, como se estivesse errado em questionar as coisas que lhe eram dadas como certo.
O garoto jamais se esqueceria quando, em algum momento de sua perturbada infância, perguntara ao seu pai sobre a veracidade duvidosa das coisas escritas na Bíblia — que era obrigado a ler incansavelmente antes de dormir — e, como consequência, levara um tapa na face.
Ele crescera assim… aprendendo a jamais questionar e, consequentemente, não pensar por si próprio, sempre aceitando as verdades que lhe eram impostas.
Desse modo, o culto daquele domingo demorou o que se pareceu como uma eternidade para acabar. Mas, quando acabou, parecia que um peso enorme havia saído de seus ombros.
O garoto fora o primeiro a se colocar de pé, deixando evidente a sua pressa de dar o fora dali, o que causou uma série de olhares duros vindo de seus pais.
Como de costume, a família do pastor Tomlinson se colocou atrás dele, após descer do púlpito, se colocando à disposição de qualquer um que desejasse trocar uma palavrinha com eles. E para a infelicidade do jovem Louis, que não era lá um grande conversador, essa parte muitas vezes poderia durar mais do que o próprio culto. Aparentemente, conversar com o pastor e sua família após a pregação trazia uma certa sensação de pertencimento para aquelas ovelhas perdidas.
Ele estava apenas fingindo participar de uma conversa entre sua mãe e a filha da senhora que costumava a assar bolos para vender na saída do culto, quando escutou alguém chamando por seu pai e até mesmo eles.
Se tratava de um homem baixinho, barrigudo e de nariz extremamente alongado; seu rosto era desprovido de qualquer traço agradável. Louis costumava chamá-lo de Feioso, apenas em sua própria mente, é claro… pastor Tomlinson e sua esposa jamais aceitariam aquela demonstração — não tão incomum — de malícia vindo do garoto.
Mas o fato é que o senhor Feioso também não era exatamente a pessoa preferida do garoto na igreja. O homem era intrometido demais, extremamente inconveniente, além de ser um baita fofoqueiro.
Louis detestava tais características.
Contudo, para a alegria do garoto, dessa vez Feioso não vinha desacompanhado, o que pelo menos significava que ele não desataria a falar ininterruptamente sobre como seus negócios com a pesca iam de mal a pior.
— Pastor, ótima palavra a de hoje, muito bem… — Começou dizendo, cumprimentando-o com tapas nada sutis no ombro.
O garoto segurou o riso ao se dar conta que seu pai se continha para não abrir uma careta. O pastor não era exatamente fã de contato físico com estranhos. Assim, o homem apenas sorriu em resposta, um sorriso nervoso e pouco convincente.
— Não quero tomar muito de seu tempo, preciso me adiantar pois deixei meu barco sem supervisão essa manhã, e você sabe como são aqueles moleques que circulam o porto… — Senhor feioso desatou a falar e Louis teve que segurar-se para não exteriorizar seu descontentamento com aquela conversa. — Só queria te apresentar a esse formidável senhor aqui. — Ele indicou um homem alto e de aparência muitíssima seria atrás de si, que parecia aguardar pacientemente para falar com o patriarca Tomlinson.
— Pastor, queria dizer que foi uma benção a sua palavra, minha esposa se emocionou do começo ao fim. — O homem começou a falar e estendeu a mão em um comprimento amistoso. — Styles, Desmond Styles.
— É um prazer conhecê-lo. — O pastor aceitou de bom grado o gesto. — Acredito que nunca tenha visto o senhor por aqui, é novo na cidade?
— Isso mesmo, cheguei aqui semana passada com a minha família, nos mudamos por conta do meu trabalho — E então ele deu um passo para o lado, revelando uma mulher alta de aparência aristocrática, além do garoto cacheado que roubou a atenção de Louis o culto todo. — Essa é minha linda esposa, Anne, e nosso filho Harry.
O estômago do filho do pastor se contorceu de maneiras que sequer sabia serem possíveis enquanto, neste momento, a senhora Tomlinson tomou a frente, logo tratando de se apresentar amigavelmente para a esposa daquele elegante senhor.
— Será um prazer tê-los aqui conosco.
Os dois casais desataram a conversar sobre o culto, além de como geralmente funcionava a agenda da igreja, enquanto os garotos pareciam estar mais desconfortáveis do que nunca.
Harry parecia prestar atenção em cada canto do lugar, invés de escutar uma sequer palavra que saia da boca dos mais velhos; e Louis, por sua vez, apenas manteve a cabeça baixa, absorto demais em seus próprios pensamentos, enquanto se esforçava para não deixar seu olhar ser atraído pelo cacheado.
Não queria que o garoto pensasse que ele era estranho.
Ambos estavam tão longe dali, que sequer se deram conta quando de repente viraram tópico da conversa.
— Harry, querido? — A senhora Styles disse entredentes, e algo dizia que não era pela primeira vez.
Talvez fosse a careta que seu filho conteve ao levar um beliscão escondido na base das costas.
— Esses jovens de hoje em dia… vivem no mundo da lua. — A mulher do pastor respondeu amavelmente, acariciando os cabelos lisos de seu próprio filho, que abriu um sorriso sem jeito.
— Desculpa, mãe… o que foi que a senhora disse?
— O pastor Tomlinson estava apenas dizendo como seria um prazer para o Louis te mostrar a cidade, mais tarde.
— Louis? — O cacheado fez uma expressão confusa, que logo deu lugar para mais uma careta de dor.
Provavelmente outro beliscão.
O filho do pastor, por sua vez, também se pegou surpreso com aquela fala. Não se lembrava de ter se oferecido para ser o guia de ninguém na cidade. Mas é claro que, como o bom garoto educado que era, apenas sorriu com timidez e fingiu que aquilo se tratava de uma verdade.
Era provavelmente apenas mais uma tentativa de seus pais de fazê-lo se enturmar com os garotos de sua idade.
Percebendo o que estava acontecendo ali, Harry deixou as sobrancelhas levantarem em surpresa, mas logo em seguida apenas deu de ombros, abrindo o mesmo sorriso tímido que Louis dera instantes atrás.
— Eu adoraria.
Depois de marcado o horário que os garotos se encontrariam — o que obviamente foi feito pelos pais, já que nenhum dos dois queriam aquilo o suficiente para tomar uma iniciativa —, a família Styles se despediu cordialmente e os Tomlinson retornaram a dar atenção ao resto dos membros da congregação.
A partir daquele momento, Louis não foi capaz de pensar em mais nada.
Tal nervosismo poderia ser facilmente explicado pelo fato de que o garoto estava longe de ser uma pessoa de natureza social, muito pelo contrário. Na verdade, Louis era facilmente taxado como o “esquisito” pelas outras pessoas de sua idade. A única coisa que o salvava de ser vítima da maldade intrínseca à maioria dos jovens, era o fato de que ele era filho do pastor; o respeito das pessoas daquela cidade pelo seu pai o tornava imune àquele tipo de atrocidade.
A vida inteira, seus amigos basicamente se resumiam à suas irmãs, seus pais e, é claro, seus cachorros; nada além disso. Não que ele sentisse falta, ou ansiasse por algo mais, é claro.
Por isso, Louis sentia o nervosismo tão forte, que mais parecia um órgão dentro de si. Como é que ele deveria casualmente levar um garoto que nem sequer conhecia, e que o fizera em segundos sentir mais sensações estranhas que já sentira a vida inteira, para conhecer a cidade e… céus, conversar?
O estômago do garoto se revirava só de pensar no tamanho do constrangimento que sentiria quando chegasse a hora.
Ansioso, praticamente afundado na própria fobia social, Louis caminhou arrastadamente até o endereço dos Styles, escrito caprichosamente num pedaço de papel pela mãe da família; e ao chegar lá, se pegou de boca aberta.
O garoto Tomlinson morara naquela cidade desde que se conhecia por gente, afinal, era onde tinha nascido; e em todos os seus anos de vida, nunca tinha visto por lá uma casa com tamanha opulência. Tão grande que chegava a ser assustadora. De repente, Louis sentiu aquilo como mais um peso em seu ombro, mais um fator fazendo-o se intimidar diante da figura misteriosa que parecia ser Harry Styles.
Louis respirou fundo mais ou menos dez vezes antes de decidir tocar a campainha; e assim que o fez, não demorou muito para que a figura alta de Harry saísse pela porta.
O garoto abriu um sorriso simpático, mas a falta de brilho nos olhos denunciava que estava tão desanimado para aquilo quanto o filho do pastor.
Ambos andaram lado a lado pelas ruas da cidade. Louis mantinha o olhar baixo e as mãos no bolso da calça, claramente desconfortável; enquanto Harry, por sua vez, olhava tudo em sua volta, como um recém-nascido que enxerga pela primeira vez o mundo.
Vez ou outra o cacheado tentava puxar algum assunto, que era rapidamente cortado pela timidez de Louis, que tinha total consciência de que estava apenas tornando tudo aquilo ainda mais doloroso.
Mas o que podia fazer? Conversar com garotos de sua idade estava longe de ser sua especialidade, ainda mais se tratando daquele garoto em questão, que o fazia se sentir de tantas formas diferentes.
— Você é meio esquisito, não é?
Os dois pararam de andar repentinamente, um olhando para a cara do outro com expressões surpresas. Harry não planejava deixar aquilo escapar e tampouco Louis esperava escutar tais palavras.
Após analisar a expressão do cacheado por alguns instantes, como se tentasse decifrar um significado oculto por trás daquelas palavras. Até que resolveu dar de ombros.
Felizmente, Louis Tomlinson estava ciente de seu desajuste em relação aos outros garotos de sua idade, além de estar cem por cento em paz com isso.
— Desculpa, eu… — Harry começou todo desconcertado, correndo os dedos pelo cabelo cacheado. — eu não deveria ter dito isso.
Louis deu de ombros mais uma vez, qualquer outra resposta possível fugindo de sua mente.
Mas Harry estava disposto a ter pelo menos um projeto de conversa com o filho do pastor. Não se deixaria dar por vencido apenas por aquilo.
— Para onde estamos indo?
O outro parou de repente e olhou em sua volta, só então se dando conta de que não fazia ideia para onde estava caminhando, absorto demais em seu próprio mundinho para prestar atenção em seus passos.
Mas, para o seu alívio, não tinha acidentalmente andado até um lugar desconhecido, ou pior, para a parte perigosa da cidade. Não. Graças a Deus, eles haviam aleatoriamente rumado pela avenida principal e pararam na grande praça, que ficava logo atrás da igreja.
Era pacífico, bem arborizado, onde passarinhos cantavam aos montes e crianças brincavam… era um dos lugares preferidos de Louis em todo o mundo.
Desconcertado, ele apenas coçou a parte de trás de sua cabeça e tentou dizer:
— Hmm… essa é a igreja.
Harry soltou uma risada nasalada.
— Eu sei, estava aqui hoje de manhã, lembra?
O filho do pastor voltou a abaixar a cabeça, apenas chutando uma pedrinha solta no asfalto como resposta. O constrangimento cada vez mais forte dentro de si.
Harry se amaldiçoou por ter sido inconveniente e feito o garoto entrar em modo introspectivo mais uma vez. Não que em algum momento ele tivesse saído, mas ao menos verbalizara alguma palavra além do “olá” de quando se encontraram.
— Bom, pelo menos agora eu sei que você fala… — O cacheado tentou brincar, empurrando Louis levemente pelo ombro, o que fez com que ele abrisse um sorriso tímido. — Olha só, ele sorri também… ponto para o Styles!
Eles ficaram ali por alguns minutos, apenas sentindo a brisa boa das árvores e ouvindo os passarinhos cantarem, a paz sentida naquele lugar era indescritível; até mesmo Harry, que vinha da cidade grande, era obrigado a admitir isso.
Vez ou outra ele fazia algum comentário besta e bem humorado apenas para provocar uma reação em Louis, ficando feliz toda vez que percebia um progresso. Aos poucos o filho do pastor ia se soltando e até chegaram em um ponto em que era o próprio que começava uma nova conversa. Gradativamente o nervosismo dentro de si ia diminuindo, e ele passava cada vez mais a sentir-se confortável na presença do garoto Styles.
Depois disso, os dois garotos deram mais algumas voltas pela cidade; Louis finalmente fazendo aquilo pelo que realmente estavam ali para e apresentou a cidade para Harry. Passaram pelo colégio onde ambos estudariam após o fim do verão, além de uma sorveteria e voltaram a sentar-se na praça atrás da igreja.
Afinal, era uma cidade pequena, não havia muito a ser mostrado.
Quando o sol começou a se pôr, ambos voltaram para suas respectivas casas.
Ao longo do verão, os dois passaram a sair com uma frequência cada vez maior. Harry não conhecia mais ninguém na cidade e, bem, também era o único amigo de Louis. O laço que estabeleceram era lindo de se ver, com o tempo, tornaram-se basicamente a pessoa preferida um do outro no mundo.
Para o filho do pastor, o garoto Styles representava tudo que um dia queria ser: amigável, engraçado e uma pessoa de energia contagiante, além das inúmeras borboletas no estômago que sentia quando estava ao lado dele — fato que mesmo depois de todo aquele tempo, ainda não conseguia explicar. Já para Harry, Louis era como seu paraíso pessoal, a fuga de sua dura realidade.
Tudo bem, ele era um garoto rico, privilegiado, mas o cenário em sua casa estava longe de ser o ideal. Seu pai era grosseiro, autoritário… e não via problema algum em usar a violência para impor sua verdade. Já a sua mãe era secretamente uma mulher doce, mas tal característica era constantemente ofuscada pelo materialismo exagerado e pela submissão cega ao marido, do qual também não era raro apanhar.
Definitivamente não era fácil para um garoto de sua idade viver em um ambiente como tal; e por isso, Louis se tornara tão importante na vida de Harry, por ser sempre gentil, compreensivo e estranhamente maduro para sua idade.
Numa tardezinha de sábado, o garoto Styles saia mais uma vez para encontrar com seu novo melhor amigo, até que foi interrompido antes mesmo de alcançar a porta.
— Querido, onde é que você vai? — Harry respirou fundo ao escutar a voz de sua mãe atrás de si. — Já está muito tarde para sair.
— Não é nada demais, mamãe, só estou indo tomar um sorvete com o Louis.
Ele precisou se conter para não sair correndo dali quando ouviu o barulho de algo se movendo contra o couro. Depois de todos aqueles anos, aprendera a reconhecer o som como seu pai levantando de sua poltrona.
— Você não vai. — A voz dura de Desmond Styles pareceu repercutir por todos cômodos da casa, fazendo com que o garoto automaticamente se encolhesse.
— O que o senhor disse?
— Você não vai!
— Querido… — A senhora Styles, conhecendo bem o marido que tinha, tentou intermediar antes que aquilo saísse do controle.
— Não, ele não vai! — E então se virou mais uma vez para Harry. — Você anda saindo muito com esse viadinho do filho do pastor.
O garoto arqueou as sobrancelhas, por algum motivo aquelas palavras despertaram nele uma das maiores fúrias que já havia sentido em sua vida. Estava acostumado a ser xingado por seu pai, ver sua mãe recebendo o mesmo tratamento…, mas agora, uma alma tão boa e pura quanto Louis? Aquilo já era inaceitável.
O filho do pastor era o único motivo pelo qual Harry estava gostando de ficar naquele fim de mundo que chamam de cidade, não poderia aceitar vendo seu pai diminuí-lo dessa forma.
— Desmond!
— Cala a boca!
Tudo bem, o garoto poderia até estar acostumado a ver seu pai tratando sua mãe da forma mais bizarra e grotesca que um ser humano poderia ser tratado, mas isso nem por um segundo tornava menos difícil presenciar tais abusos.
— Não fala assim com ela! — Ele gritou.
O tapa na cara não demorou para vir, e Harry engoliu aquilo como quem engole um remédio de gosto ruim, tentando deixar para segundo plano o choro copioso de sua mãe. E então respirou fundo uma, duas vezes… afinal, era preciso coragem, muita coragem para fazer o que estava prestes a fazer.
Lá para a quarta respiração, ele apenas beijou a senhora Styles no rosto, pegou seu casaco — que provavelmente custava mais do que um dia poderia imaginar — e saiu dali. Ignorou os berros furiosos de seu pai, o pedido de sua mãe para que voltasse, e simplesmente deu o fora.
Harry correu feito um foguete pela avenida principal, estava atrasado para encontrar Louis, além da necessidade de manter sua mente ocupada o suficiente para não ceder às suas pressões internas e voltar correndo para a casa.
Seus pulmões começavam a queimar, e as lágrimas acumuladas no canto do rosto embaçavam a sua visão, além de que a bochecha esquerda — que havia sido acertada pelo pai — começava a dar sinais de ardência.
Mas Harry ignorou tudo aquilo e só foi desacelerar quando finalmente enxergou o filho do pastor parado atrás da igreja — local onde geralmente se encontravam —, com as mãos caracteristicamente no bolso e o olhar atento a todos os detalhes da praça, que, por algum motivo, estava vazia naquele final de tarde de sábado.
O cacheado se permitiu sorrir, achando lindo de se ver a curiosidade dele para com o mundo.
A reação de Louis ao vê-lo poderia facilmente ser classificada como encantadora. De início, ele apenas apertou os olhos, como se não estivesse certo do que via: os olhos marejados, a respiração ofegante e a vermelhidão na bochecha esquerda estava longe de serem fatores característicos do garoto Styles. E então, o filho do pastor aproximou-se a passos lentos, como quem chega perto de um filhotinho assustado: com toda a cautela do mundo.
Harry tentou conter o choro que lhe subia com determinação à garganta, mas falhou ao se dar conta de como o outro o olhava com tamanha preocupação e ternura.
Louis não precisou perguntar, as poucas vezes que estivera no mesmo ambiente que Desmond Styles foram o suficiente para que ele percebesse como o patriarca não era o mais amoroso dos pais. Ao chegar perto o suficiente para tocá-lo, o filho do pastor levou a mão em forma de concha até a parte agredida do rosto de Harry, usando toda a delicadeza existente dentro de si.
Ele sempre fora um garoto delicado.
O cacheado aceitou o carinho de bom grado, fechou os olhos em resposta e se permitiu sentir a ternura do gesto, pendendo a cabeça para que ficasse apoiada na mão de Louis. Ele não fora tocado com tamanha gentileza desde sua infância; aqueles dedos em seu rosto fez com que sentisse como se pertencesse a algum lugar.
As lágrimas caíram silenciosa e copiosamente pelo rosto pálido de Harry, que sentia gradativamente a angústia, o medo indo embora e dando lugar para a calma e todos os outros tipos de sensações boas.
Afinal de contas, o filho do pastor tinha esse efeito nele.
Ao tornar a abrir os olhos, percebeu o rosto de Louis significantemente mais perto do seu. O garoto o encarava com um misto de sentimentos, dentre eles preocupação e carinho. Harry encarou cada tom de azul naquelas írises e foi obrigado a conter uma risadinha ao perceber que ele ficava cada vez mais constrangido à medida que o cacheado insistia em encará-lo.
De repente, o garoto Styles relembrou as palavras de seu pai:
Esse viadinho do filho do pastor
Aquilo não era verdade, era? Digo, estaria seu pai certo, sendo o filho do pastor realmente… “viadinho”?
Apenas a recordação do desprezo presente na voz de seu pai foi o suficiente para ressuscitar a raiva que apenas Louis foi capaz de apagar dentro dele. Era melhor não pensar nisso, se bem que a possibilidade da veracidade daquelas palavras fez com que o estômago de Harry se embrulhasse em nervosismo. Eles estavam tão perto um do outro, compartilhando um momento tão doce…
Sentindo-se repentinamente constrangido, Louis fez menção de desfazer enlaço entre eles, mas o cacheado não permitiu. Da mesma forma com que ele se afastou, Harry o puxou de volta e, dessa vez, num contato mais íntimo do que nunca.
Surpreso, Louis soltou o ar com força pela boca, antes que ela fosse colada com a do outro, embora não tenha rejeitado o gesto. Seu coração batia com tanta força contra a caixa torácica em seu peito, que ele se pegou fazendo uma breve oração para que Harry não ouvisse.
Não queria parecer patético.
Tímido e desajeitado seriam dois adjetivos precisos para descrever o primeiro beijo entre aqueles dois garotos. Louis nunca havia beijado ninguém antes, enquanto Harry era um estranho ao contato masculino, já que o máximo que outro homem chegava perto de encostar nele, era seu pai para lhe dar bofetadas.
Podia até ser triste, mas, naquele momento, apenas tornava tudo ainda mais lindo.
O sentimento e o laço entre os dois após aquele acontecimento na praça da cidade apenas se fortaleceu. Foi como se tudo ficasse mais leve e claro.
Dali em diante, os dois passaram a se encontrar com mais frequência e os encontros se tornaram cada vez mais secretos, já que o senhor Styles parecia extremamente desconfiado e, bom, Louis era filho do pastor da igreja da cidade…
Seria melhor para os dois se aquilo continuasse como um segredo.
Era a madrugada de um sábado, e ambos haviam fugido de suas respectivas casas para se encontrarem atrás da igreja. Alguns meses atrás Louis jamais faria uma coisa dessas, era incrível como aquela relação estava transformando os dois garotos em todos os sentidos.
Eles estavam deitados na grama, encarando as estrelas de mãos dadas. Era encantador o amor que havia crescido entre eles… eram melhores amigos, amantes, tudo em um só.
— Não podemos demorar muito para voltar para casa hoje, temos que acordar cedo para a igreja amanhã. — Louis disse assim que se separaram de mais um da série infinita de beijos.
Harry bufou, correndo os dedos pelos seus cachos bagunçados.
— Igreja…
Louis tombou a cabeça como quem não entende algo.
— Eu só não vejo sentido em tudo isso.
Como o grande devoto que era, o filho do pastor não podia evitar em se sentir levemente magoado ao ouvir o outro expressar seu descontentamento com as coisas relacionadas ao reino de Deus, mas o que podia fazer? A única opção possível era respeitá-lo.
— Eu não te julgo por isso…
Mas apesar da clara compreensão vinda de Louis, Harry parecia disposto a discutir.
— Me desculpa, mas eu só não consigo acreditar em algo que não dá para ver e nem sentir…
O filho do pastor pensou por alguns instantes naquelas palavras, até que uma realização lhe atingiu em cheio e ele abriu um sorriso.
— Mas quem disse que não dá para sentir Deus?
Harry abriu a boca para contestar, quando um barulho vindo da igreja soou estranhamente alto, atraindo a atenção dos dois, que levantaram num pulo.
— Tem alguém ali.
— Será que alguém viu a gente? — De repente, a voz de Harry ficou absurdamente embargada.
Era apenas o completo pavor de imaginar a possibilidade de seu pai ficar sabendo daquilo. Ele não fazia ideia do que Desmond Styles seria capaz de fazer se descobrisse que seu filho também era um “viadinho”.
O aperto que exerciam os dedos de Louis entrelaçados aos de Harry se intensificou quando ambos se depararam com uma figura baixa e desagradável deixando a igreja no meio da madrugada.
Senhor Feioso interrompeu sua caminhada aparentemente despretensiosa para dar uma boa olhada nos dois jovens; e bem quando o filho do pastor estava certo de que ele diria alguma coisa, o homem apenas girou nos calcanhares e retomou seu rumo incerto.
Ao serem deixados sozinhos mais uma vez, Harry soltou com tudo a respiração que sequer tinha se dado conta que segurava. Gotas geladas de suor escorreram por sua testa repleta de marcas púberes.
— Você acha que nós fomos vistos? — Ele soprou entre os lábios semiabertos, chocado demais para pôr qualquer tipo de esforço em sua fala.
Louis correu os dedos nervosamente pelos seus fios lisos de cabelo, que, naquela altura, também já começavam a ficar ensopados de suor.
— O que você acha? — Rebateu com uma raiva que não lhe era característica, embora também não fosse uma total estranha.
Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, apenas absorvendo a ideia de que tinham sido pegos, além de sua desgraça iminente.
Somente os grilos cantavam, ambos corações batendo forte demais.
Como se fizessem um acordo silencioso, decidiram voltar para casa e, no dia seguinte, enfrentar as prováveis consequências daquela noite.
Por Louis ser o que morava mais perto da praça, Harry deixou-o em casa e em seguida tomou seu próprio rumo… magoado, desesperançado e nem um pouco ansioso para o que aconteceria no dia seguinte.
A noite foi longa, não houve como negar.
Contudo, como todo domingo de manhã, lá estava a família Tomlinson na igreja, antes mesmo do relógio marcar oito horas. Não muito tempo depois, lá estavam os Styles também; com a mesma disposição e sorrisos falsos de sempre.
Prestar atenção naquele culto fora tão difícil quanto naquele do dia em que se conheceram. Louis, pela primeira vez, não observava atentamente as pessoas, de seu lugarzinho especial em cima do palco; e Harry estava tão nervoso, balançando a perna de forma tão frenética, que já começava a irritar seu pai… algo que ele definitivamente não queria fazer.
Assim que o pastor Tomlinson terminou de dizer suas últimas palavras, Louis correu para o bebedouro que ficava num canto mais reservado da igreja e Harry foi atrás. Era ali que costumavam se encontrar sempre que queriam conversar no meio do culto.
— Você não devia ter vindo aqui… — Louis cochichou assim que viu a figura cacheada virando o corredor.
— Do que você está falando? Nós sempre nos encontramos aqui pra conversar.
— Talvez hoje eu queria só tomar água… já parou para pensar nisso?
Harry correu os olhos pelo outro e arqueou as sobrancelhas ao constatar algo.
— Mas você não está bebendo água.
Louis suspirou, correndo as mãos pelo rosto, até chegar nos cabelos.
— Desculpa, é só que… eu estou nervoso.
O garoto Styles assentiu, entendendo perfeitamente o que estava se passando na cabecinha do filho do pastor; afinal, ele mesmo encontrava-se um poço de nervosismo. Mas não deixou isso transparecer naquele momento.
Louis sentiu todo o medo e angústia se esvair momentaneamente do seu corpo quando foi envolto pelos braços compridos de Harry, que, abraçando-o, passou a acariciar seus cabelos.
— Vai ficar tudo bem, você vai ver. — Algo no tom do cacheado fazia parecer que estava tentando mais convencer a si mesmo do que o outro.
— Eu não quero voltar para lá. — Louis cochichou.
Harry bufou uma risada.
— Não podemos beber água para sempre.
— Nós podemos fugir! — O filho do pastor se desvencilhou do abraço e disse como se tivesse feito a maior descoberta do universo.
— Lou…
O garoto murchou como uma flor que resseca com o tempo; era quase como se sentisse que não, eles não ficariam bem. Contudo, Louis não deixou transparecer esse pensamento trágico demais, apenas crispou os lábios e assentiu, decidindo que estava pronto para encarar seja lá o que aconteceria nos próximos minutos.
Mas ele não estava.
E, bem, de fato coisas aconteceram.
Assim que ambos pisaram de volta no templo, aquilo que puderam avistar fez com que os dois pares de pernas começassem a tremer.
Senhor Feioso, cercado pelos pais dos dois garotos, contava uma história com a maior expressão de pesar já vista na história.
Eles sabiam perfeitamente do que aquilo se tratava.
Louis encarou Harry, seu olhar cheio de significados sombrios que o outro não soube bem decifrar. Era quase como se ambos soubessem que aquele era o fim da linha para eles e sua história de amor fugaz.
Mas eles ficaram ali, parados como pedra, não ousaram se aproximar. Foi apenas quando senhor Feioso se deu conta da presença deles do outro lado do templo que as coisas de fato começaram a acontecer.
Desmond Styles foi o primeiro a tomar uma atitude, voando em direção dos dois garotos, e o que aconteceu, se passou como um borrão diante dos olhos dos membros da congregação, que acabaram se tornando espectadores VIP daquela cena.
O homem era gigantesco e colocou sua força para uso ao pegar o filho pelo pescoço. Harry soltou um grito rouco.
— Desmond, para com isso! — Berrou a senhora Styles.
Louis deu alguns passos para trás, em completo choque. Tinha plena consciência de que o patriarca não era exatamente a pessoa mais amável daquela cidade, já havia visto o rosto de Harry machucado por conta dele mais vezes do que podia contar.
Mas ver de fato o homem fazer aquilo com o filho não foi nem um pouco sequer mais fácil por conta disso.
— Larga ele! — Apenas a voz desesperadamente estridente da senhora Styles foi capaz de acordar Louis do transe em que se encontrava.
Ele precisava fazer alguma coisa.
— Seu covarde! — O filho do pastor gritou; tentando a todo custo ignorar o choro que queria subir-lhe à garganta.
Louis tentou empurrar o homem, mas foi inútil. Desmond Styles parecia possuído e nada seria capaz de fazê-lo afrouxar o aperto que dava no pescoço do filho.
— Olha só para ele, você está matando-o! — O desespero era quase palpável em sua voz quando se deu conta de que o rosto de Harry assumia uma coloração arroxeada. — Alguém faz alguma coisa!
Mas quem poderia tomar uma iniciativa? Todos estavam estáticos demais diante daquela cena inacreditável.
— Papai, por favor! — Louis chorou para o pastor, que parecia tão atônito quanto qualquer um ali.
O homem não tinha uma fibra violenta sequer em seu corpo, jamais seria capaz de conseguir fazer com que Desmond Styles soltasse o filho.
Mas não foi preciso.
Escutando as preces de Louis e da esposa, ele largou o pescoço de Harry, fazendo com que o garoto caísse feito um saco de batatas no chão, tentando desesperadamente recobrar o ar.
Mas o pior ainda estava por vir.
A senhora Styles fez menção de correr para ver se o filho estava bem, mas o marido não lhe deu chance. Antes que qualquer um pudesse se dar conta, ele estava mais uma vez em cima de Harry, dessa vez, desferindo socos sobre seu rosto.
Louis desatou a chorar, em completo horror.
Em algum momento no meio da ação, o filho do pastor captou uma figura baixinha saindo de fininho pela porta dos fundos do templo.
— Olha bem o que você fez, isso é tudo culpa sua! — Ele gritou, mas o senhor Feioso nem sequer fez menção de interromper sua saída.
Ao olhar Harry ali, deitado no chão, tendo seu rosto socado repetidas vezes, sem poder fazer nada, Louis sentiu o chão abrir sob seus pés e seu mundo cair. Ele mal podia enxergar, a visão comprometida por conta das milhares de lágrimas que saiam de seus olhos ao mesmo tempo.
Só então ele se deu conta de que, às vezes, não são as borboletas no estômago que indicam quando você está apaixonado, e sim a dor.
Porque aquilo doía, doía como se fosse ele quem estivesse levando a surra.
Ele caiu de joelhos e gritou. Gritou para tudo e gritou para o nada; implorando para que alguém fizesse alguma coisa. Chegou até mesmo a tentar rezar, mas já estava longe demais para isso…
— Ele não fez nada de errado! Você é um covarde! — Vez ou outra Louis reunia um resquício de força e gritava algumas palavras desconexas, como se houvesse algo que pudesse dizer para livrar Harry daquela situação.
Mas não havia… para ele, aquele lugar nunca mais seria o mesmo; agora não passava de uma igreja de romances queimados.
Harry, por sua vez, já não era capaz de sentir mais nada; perdia e voltava à consciência rápido demais para conseguir processar algo. A única coisa que vinha a sua mente, que não conseguia de forma alguma deixar em segundo plano eram os berros desesperados de Louis.
Seu coração estava sendo quebrado de um milhão de pedacinhos.
O que de tão errado eles haviam feito para merecer isso?
Harry não sabia.
Ele estava quase se entregando, aceitando seu fim iminente, quando, de forma repentina e inexplicável, sentiu seu coração encher-se de paz. Entre um soco e outro, o garoto encarou o vitral da igreja e viu anjinhos, figuras que nem sequer sabia se acreditava na existência, mas, naquele momento, pode jurar que viu Deus.
Então se lembrou das palavras do filho do pastor na noite anterior:
Quem disse que não dá para sentir?
Ali, largado no chão, no entremeio tênue entre a vida e a morte, Harry sentiu Deus; e ele lhe dizia que a culpa não era deles.
Eles não haviam feito nada de errado.
Louis jamais saberia dizer com precisão, afinal, estava fora de si demais para ter convicção de qualquer coisa, contudo, em algum momento, pode ter certeza que viu Harry sorrir.
Quando Desmond Styles pareceu se acalmar minimamente, o pastor Tomlinson tomou a frente. Puxou o homem de cima de seu filho e lhe disse palavras que Louis jamais esqueceria:
— Eu não quero ver você nunca mais na minha igreja.
Após acordar de seu transe, a primeira coisa que o garoto fez foi praticamente voar para cima de Harry — que naquele momento se encontrava parcialmente consciente —, chorando feito um tolo.
Me desculpa, me desculpa… — Louis soluçou repetidamente, mesmo não estando certo pelo que exatamente estava se desculpando. — Você não merecia isso, me desculpa.
O rosto de Harry estava todo desfigurado, e apenas essa visão foi o suficiente para que Louis perdesse de vez o que lhe restava de racionalidade. Ver o seu amado naquele estado foi de longe a coisa mais difícil que teve que enfrentar em todos os seus anos de vida.
O garoto depositou um beijo nos lábios extremamente inchados de Harry e só isso teria sido o suficiente para Desmond ter outro acesso de raiva, se não fosse pelos membros da congregação o segurando firmemente.
Logo em seguida, a senhora Styles afastou delicadamente Louis do corpo inconsciente de seu filho, dizendo que precisava levá-lo para o hospital. Só assim ele foi capaz de deixar o lado de seu amado.
Após Harry ter sido levado, o filho do pastor correu direto para casa. Não tinha cabeça, e sequer sabia como, olhar para a cara de seus pais depois de tudo aquilo. Não saiu de seu quarto por dois dias, ficou sem comer e tendo para beber apenas a água da pia de seu banheiro.
Foi apenas capaz de encarar seus pais quando não pode mais suportar o buraco em sua barriga, resultado de quarenta e oito horas completas sem colocar um pedaço de comida na boca. Assim que abriu a porta de seu quarto, deu de cara com seus pais sentados na sala preocupados, quase como se estivessem esperando por ele aquele tempo todo.
— Filho… — A primeira coisa que aconteceu, foi sua mãe levantando para abraçá-lo. — Eu sinto muito que você tenha passado por isso.
A única resposta que Louis foi capaz de dar foi um aceno de cabeça, além das míseras palavras:
— Eu também, mamãe.
Foi a vez do pastor de colocar-se de pé e andar até ele.
— Nós te amamos, filho, independentemente de qualquer coisa.
Louis sentiu seu coração encher-se minimamente de alegria. Mal podia acreditar que tinha pais tão amáveis e compreensivos; mas o sentimento não durou muito tempo, já que logo se recordou de que um certo alguém não teve tanta sorte assim…
— Alguma notícia do Harry? — Perguntou assim que sua mãe o guiou até o sofá, fazendo com que ele se sentasse.
Ambos os pais trocaram um olhar receoso e Louis sentiu seu estômago dar uma cambalhota de medo e expectativa.
— Ele está bem, acabou quebrando a mandíbula e o nariz…, mas está bem, já recebeu alta. — A senhora Tomlinson forçou um sorriso, mas algo em seu tom dizia a Louis que ele não gostaria do que viria a seguir. — Eles deixaram a cidade hoje de manhã.
— O que? — Se ergueu num pulo.
— Sinto muito filho… — O pastor disse.
Ele sentiu mais uma vez como se seu mundo estivesse caindo, as lágrimas voltaram a se formar no canto dos seus olhos.
Antes que pudesse voltar a se trancar no quarto e passar mais dois dias lá, a senhora Tomlinson sacou algo de seu bolso que fez com que o garoto se sentisse menos no fundo do poço por um instante.
— A mãe dele me entregou isso, disse que é para você.
Era um envelope, onde na parte de trás estava escrito seu nome com uma letra cursiva que Louis imediatamente reconheceu como a de Harry.
O garoto encarou o papel por alguns segundos, completamente estático.
— Você pode voltar para o seu quarto se quiser, ler a carta, processar tudo pelo tempo que quiser… — Sua mãe começou a dizer. — Mas por favor, come alguma coisa antes.
Louis fez o que lhe foi ordenado e depois se trancou mais uma vez em seu quarto. Ficou encarando o envelope por tempo demais, tentando criar coragem para ler o conteúdo.
Ele estava certo em temer o que estava ali escrito, porque, apesar de lindo, terminou de vez de estraçalhar seu coração. Chorando feito um tolo e rezando silenciosamente a Deus por um pingo de misericórdia, Louis leu mais vezes do que poderia contar a carta, principalmente a última parte:
Você estava certo, no final das contas: Deus pode mesmo ser sentido.
Obrigada por tudo… você foi meu primeiro amor e, embora muito provavelmente não seja o último, tenho certeza que será o mais importante de todos eles.
Não fique triste por mim, eu ficarei bem, graças a você. Você me ajudou mais do que pode imaginar.
Eu sei que você é fechado e vai querer correr pro seu quarto, se esconder de todo mundo…, mas, por favor, não desista do amor; ele é só para os corajosos e você, meu amor, é o mais corajoso de todos.


— All The Love, H ”