13. On

13. On

Sinopse: Numa sociedade onde o coeficiente de exaustão mental de todos é calculado para que se possa manter o controle de violência e mortalidade, as altas elevações nos níveis cerebrais podem te levar diretamente para a reabilitação, no mais grave ao “Centro de Autopreservação” — ou, popularmente chamado, canil. Mas o pior de tudo é ter seu óculos confiscado e ter que enfrentar a realidade com os próprios olhos.
História inspirada no anime Psycho-Pass.
Gênero: Ficção / Sci-fi
Classificação: +16
Restrições: Conteúdo sensível/gatilho
Beta: Thalia Grace

 

 

ON

 

Por: Vênus
Sarang só entendeu a gravidade de suas ações quando o visor escureceu e o Game Over surgiu brilhando em neon na frente de seus olhos. Seu coração saltou no peito com tanta força que doeu, já os pulmões se comprimiram tanto que o ar simplesmente não entrava mais, por mais forte que tentasse puxar para dentro das narinas. Encolheu-se contra a parede e abraçou-se com força tentando normalizar seu corpo, tentando desesperadamente convencer seu cérebro de que aquela não era uma situação de estresse, que seu coeficiente não precisava se alterar ao ponto de dar Game Over, que era, no mais, um simples pesadelo realista demais — mesmo que houvesse desabilitado essa função quando completou doze anos.

Forçou-se a retirar o óculos, ainda que fosse terminantemente proibido, e encarou o homem caído à sua frente. O estômago imediatamente embrulhou ao perceber a poça de sangue que se formava sob o tórax dele, coisa que até então fora só um borrão pixelado antes da função de seus visores escurecerem. Levou as mãos para cobrir a boca num ato inconsciente e um cheiro desconhecido a invadiu. Afastou as palmas para olhá-las, confusa, e se sentiu estremecer ao perceber que estavam cobertas de sangue, assim como alguns pontos de sua calça e camiseta. Naquele momento, nem a ardência dos cortes causados pelo vidro da garrafa eram percebidos. Sufocou um grito na garganta antes de se virar e vomitar todo o almoço ali do lado mesmo.

Enquanto seu organismo expulsava o que pareceu todo o conteúdo que havia ingerido nas últimas vinte e quatro horas, pode ouvir as sirenes dos robôs de segurança pública ficarem cada vez mais próximos, um aviso de que sua vida estava prestes a mudar, e era para muito pior. Tateou até encontrar o visor novamente e o vestiu desajeitadamente, sujando o rosto com o vermelho escarlate ainda morno, mas ela não queria mesmo pensar nisso.

Encolheu-se aceitando seu maldito destino, e deixou que finalmente o choro — coisa que nunca havia feito antes — transbordasse para fora do peito agoniado, com as lágrimas se acumulando no material do óculos que não era feito pensado nesse tipo de situação. Após isso, tudo aconteceu muito rápido. Os robôs soando ao seu redor, alguém falando com ela, mãos a levantando e sendo carregada para a “carrocinha”. Todo o processo fora feito com Sarang completamente imóvel, em estado de choque, apenas com os soluços altos escapando por seus lábios.

 

다 괜찮을 리 없잖아
Após a Grande Catástrofe, ON foi formada no que restou da Coréia como um todo. Não havia o que dividir, nem regimes convergentes para reger as poucas milhares de pessoas que haviam restado naquela parte da Ásia. No mais, apenas um objetivo em comum os unia, e era reerguer e restaurar o que pudessem, assim como o resto do mundo estava fazendo.

Porém, assim como o Japão, a Nova Coréia estava adotando um sistema diferente de controle governamental, pensando em como seria uma sociedade perfeita, uma utopia, claro, mas mais próximo do que se pode imaginar. O Sistema ON foi implantado cerca de cinquenta e dois anos após o restauro, e a cada cidadão foi entregue um óculos semelhante aos VRs anteriores a Grande Catástrofe, porém chamados de visor. Os visores monitoravam as ondas cerebrais, filtrando-as e estabelecendo um limite aceitável para a convivência em sociedade. Quando a primeira carrocinha fora a rua, todos entenderam a função daquele aparelho que deviam usar até o momento em que fossem dormir, todos os dias, até o fim de suas vidas: quem ultrapassasse o limite do coeficiente de exaustão mental, seria isolado.

Fora explicado que haviam duas formas de se lidar com o ultrapasse: a primeira era a Reabilitação, um tipo de hospital psiquiátrico onde as pessoas ficavam até que seu coeficiente se estabilizasse e pudesse voltar a sua vida comum. Quando voltavam, claro. O segundo era para casos mais graves, quando não havia forma de recuperar o coeficiente já que as alterações eram irreversíveis, o Centro de Autopreservação. Por mais que dissessem que funcionava como a Reabilitação com a diferença que dificilmente — sejamos sinceros, era praticamente impossível — alguém era reintegrado. Estas eram as formas de se manter a ordem, afinal ninguém gostaria de ir para nenhum dos dois lugares. Era o mesmo que ser condenado. Os crimes foram a quase zero, suicídios, violência e todo o tipo de coisa que alterasse minimamente a saúde mental praticamente não existia mais.

O próprio Sistema ON oferecia formas de se “tratar” para manter as ideias no eixo, a vida era linda através das lentes dos visores. Chegou uma altura em que sequer era necessário os avisos no noticiário de que era terminantemente proibida a remoção dos óculos em ambientes comuns. As pessoas sequer os tiravam em casa após uma empresa desenvolver pacotes decorativos, onde podia-se ter a casa dos sonhos através das lentes do visores. Há trinta anos as crianças, mesmo recém nascidas, já eram inseridas ao sistema tendo seus próprios visores RN, para que fossem poupadas de qualquer trauma que a vida fora dos visores pudesse causar em suas vidas e acarretar alteração coeficiente no futuro. Havia até controle dos pais nesses visores infantis.

Sarang era dessa geração, com seus recém completos vinte e dois anos. Nem que passasse horas buscando em sua mente, era incapaz de se lembrar de qualquer coisa ruim que possa ter acontecido consigo durante toda sua infância, adolescência, e agora juventude. Até aquele fatídico dia, claro, quando seu visor anunciou Game Over, a piada mórbida e cruel de que havia fracassado no jogo da vida. Era sua própria culpa, mesmo que quando escrevera as duas palavrinhas em inglês num dia qualquer de tédio em sua casa jamais pensou que precisaria vê-las. Acreditava que provavelmente morreria como seus avós, com o coeficiente perfeito e um histórico impecável, como os pais que eram tão controlados quanto o próprio Sistema ON.

Mas então ali estava, sentada numa sala em algum lugar do que podia ser tanto a Reabilitação quando o Canil, dependendo de para quanto seu coeficiente subira. Olhava ao redor, mesmo que não houvesse nada para ser visto, e pedia mentalmente que qualquer um aparecesse e explicasse o que estava acontecendo. Sentia-se sozinha, o frio arrepiando-a, as roupas manchadas de sangue grudadas a pele, a visão dolorida pela claridade das lâmpadas — seu visor faria o trabalho de regular a iluminação, caso não houvesse sido levado quando entrara no camburão.

Assustou-se quando a porta no canto da sala se abriu abruptamente, dando passagem para uma mulher loira, de coque no alto da cabeça, entrar. Esta sentou-se na cadeira disposta do outro lado da mesa, de frente para Sarang. Era terrível não saber o que a desconhecida fazia já que não enxergava seus olhos por trás do óculos. A estava analisando? Procurando algum sinal de loucura?

— Sarang — seu nome soava como um caçoar na voz afiada da loira. — este é seu nome, certo?

— Sim — sua voz estava estranha, rasgada na garganta seca. — Onde estou? O que vai acontecer comigo? — perguntou nervosamente.

— Uma coisa de cada vez, por favor.

A mulher num gesto muito calmo retirou os visores e colocou-os sobre a mesa. Sarang acompanhou o movimento com os olhos. Voltou-se então para si e um sorriso zombeteiro brincou nos lábios pintados de vermelho.

— Você é bem diferente por trás dos visores. Estou surpresa.

Talvez aquelas palavras não tivessem a intenção real de ofender a garota, mas ainda assim se sentiu atacada. É claro que não era nada parecida com a imagem que o visor projetava de si, tinham a liberdade para alterar a aparência de acordo com sua vontade. Apostava que a desconhecida também não usava aquele coque firme demais nem o terninho preto se olhada pelos visores.

— Não estou ofendendo-a, se é isso o que está pensando, senhorita Sarang. Estou constatando um fato. Mas não estamos aqui para dizer o quão diferente é no Sistema ON e fora dele. — o sorriso se apagou instantaneamente e assumiu um semblante sério. — Meu nome é Park Ji Hyo, e estou aqui para conversarmos sobre o que aconteceu.

Sarang engoliu em seco. Então era assim que as coisas funcionavam quando se atravessava o limite? Tinha que relembrar as memórias perturbadoras? Por que simplesmente não puxavam tudo dos arquivos de seu visor?

— Não estou entendendo, senhorita Park — uma ansiedade crescente começou a tomar conta de si involuntariamente. — Por favor, não me faça pensar sobre aquilo! Está tudo registrado no meu visor, eu lhes dou acesso!

— Senhorita Sarang — aquilo soou mais como uma advertência, fazendo a garota se calar. — Primeiramente, apesar de não estar usando seu visor, esta sala é equipada para monitorar suas ondas cerebrais. A senhorita ainda está sob análise, então sugiro que se acalme. — Sarang respirou fundo tentando regular a respiração. — Segundo, o visor registra imagens e seu coeficiente. Nós podemos saber em que momento a senhorita ultrapassou o limite, mas não o que causou. Terceiro, o que houve causou-lhe um trauma, e para tratá-lo é necessário que desabafe sobre ele.

— A senhorita vai ser para quem vou desabafar? — perguntou amarga. Aquela mulher não parecia a melhor pessoa para ouvir algo tão delicado. Não para Park Ji Hyo, mas sim para Sarang.

— Eu serei a pessoa para quem a senhorita vai relatar o acontecido para que possamos selecionar qual tratamento será adequado para seu caso.

Sarang estava nervosa demais, com medo do que se tornaria seu destino. Sentira uma angústia tão forte enquanto estava naquele beco que apostava que seu coeficiente havia ultrapassado e muito o limite de seu visor. Não saber o que aguardar só a deixava pior ainda. Tinha certeza que só não havia tido uma crise novamente até aquele momento por terem bloqueado seu lóbulo pré-frontal, para que não se lembrasse com clareza o que estava na memória a curto-prazo. Só seria desbloqueado quando Sarang se sentisse pronta para fazê-lo, mas o nervosismo bloqueava seus impulsos para tal, fazendo com que não conseguisse colaborar com Park Ji Hyo.

— Por favor, senhorita Park, eu preciso saber o que vai acontecer, ou eu não… — sequer conseguiu terminar a frase, pois um choro contido se desenroscou dentro de si. A segunda vez que chorava em menos de uma hora em vinte e dois anos.

Park Ji Hyi a observou em silêncio, provavelmente se perguntando se deveria ou não dar qualquer informação, afinal quem estava ali para fazer as perguntas era ela, não Sarang. Mas Ji hyo já esteve ali, do outro lado da mesa, e sabia o que a garota estava sentindo. Umedeceu os lábios e pigarreou para chamar atenção. Os olhos vermelhos e marejados de Sarang logo a miraram.

— Seu histórico familiar foi checado, Sarang, e graças ao impressionante controle mental de seus familiares que tiveram pouca ou nenhuma alteração de coeficiente durante a vida, o Sistema ON concluiu que você não tinha propensões à elevação dos níveis de estresse. Foi muita sorte sua, pois você ultrapassou seu limite estipulado em mais de duzentos por cento. — Sarang sentiu seu sangue congelar nas veias. — o sistema aceitou que você passou por uma situação de extremo estresse e assimilou que tratar seu trauma é o suficiente para voltar sua vida ao normal, de forma que foi decidido que você tenha acompanhamento psicológico na Reabilitação com grandes chances de reintegração assim que for estabilizada.

 

제 발로 들어온 아름다운 감옥
Ver os pais não fora reconfortante como Sarang pensou, enquanto esperava ansiosa, que seria. Na verdade fora cruel e a machucava, pois mesmo diante do que lhes contou, os sorrisos continuavam ali como se estivessem em um estupor, e não via seus rostos com clareza devido aos visores. O abraço desajeitado do pai e o beijo molhado da mãe, seguidos de um “estamos ansiosos para vê-la lá fora” só reafirmou o sentimento de que estava sozinha, mais sozinha do que nunca. Ninguém pararia a própria vida, ninguém colocaria em risco a própria saúde mental para ajudá-la. Mesmo os próprios pais. Não quando o Sistema ON já o fazia.

Ser levada a Reabilitação foi a segunda pior coisa que teve de fazer em menos de vinte e quatro horas, já que não foi colocada em uma carrocinha, e sim num dos aeromotores. A vista que sempre adorara ao sobrevoar Seoul, onde podia ver a cidade colorida, as pessoas distraídas com coisas triviais, os jardins suspensos bonitos dos prédios, tudo agora era apático sem o visor. Feio, sem vida. Uma camada de sujeira cobria não só o chão lá embaixo como também o céu que sobrevoava. As enormes construções não eram nem um pouco vistosas, e não havia nenhuma cor além do cinza, preto e raros pontos brancos. A não ser pelas placas neon por todo lado, mas mesmo eles deixavam tudo ainda mais triste. Havia ouvido falar que não existiam mais árvores e plantas, mas achava que não passava de conversa. Mas não pode mentir pra si mesma ao ver os emaranhados de cabos onde então imaginava serem jardins.

Todos sabiam que a realidade por trás dos óculos não era bonita como através deles, mas nunca havia se atrevido a espiar. Porém agora não havia opção, e constatar o que aprendia na escola era desolador. Tanto que cerca de vinte minutos após o início de trajeto, já havia puxado as pernas para próximo do corpo e escondido o rosto entre os joelhos. Dizia a si mesma que havia reabilitado o pesadelo sem querer, estava apenas dentro da própria mente vendo seu maior medo.

Continuou entoando este mantra na semana em que chegou na Reabilitação. Recusou-se a sair do quarto, acreditando que quanto mais tempo dormisse, melhor seria — ainda que soubesse que em algum momento teria que fazê-lo, já que não adiaria a psicóloga para sempre. Queria voltar para sua vida o quanto antes.

Pensando nisso, levantou-se na manhã do oitavo dia e se vestiu com as roupas sem graça que a Reabilitação disponibilizava. Olhar-se no espelho (ou qualquer outra superfície reflexiva) era um dos motivos pelo qual não se levantara nos últimos dias. Enfrentar a realidade de quem era sem o visor era tão ruim quanto todo o resto. Foi pensando nisso que encarou seu reflexo. Sarang sempre se achou magra demais, por isso havia acrescentado algumas curvas em sua imagem do óculos. A pele era mais escura do que gostaria, por isso clareou-a também. Agora que via seu cabelo curto e preto na altura dos ombros, sentia ainda mais saudade dos fios longos e vermelhos — vermelhos mesmo, como um pica-pau — que eram sua marca registrada. Sentia-se feia como nunca antes.

Sentir que todos os olhos estavam nela quando apareceu no que chamavam de refeitório minutos depois não ajudou em nada. Normalmente gostava de atenção, mas desde os acontecimentos da semana anterior… chamar atenção demais havia sido uma armadilha, um chamariz. Chacoalhou a cabeça e continuou andando, encolhida, até onde parecia ser a fila para pegar a refeição. Conseguiu ler uma placa avisando que teriam tteokbokki para jantar e se sentiu minimamente bem, era sua comida favorita.

Porém a surpresa ao receber qualquer coisa que nada parecia com tteokbokki a fez comprimir os lábios e ficar vários minutos encarando seu prato. Decidiu sentar-se para olhar com desgosto para aquilo mais confortavelmente. Estava ocupada fazendo isso quando viu de canto de olhos alguém se aproximar e sentar-se à sua frente. Levantou o olhar e encarou o rapaz, confusa.

Tinha cabelos muito negros, um lado pentado perfeitamente e o outro caindo sobre a testa de um jeito bonito. Seus olhos eram grandes e de orbes tão profundas e negras que Sarang se perdeu naquela imensidão por um segundo. Exibia no rosto um sorriso de tirar o fôlego, com dentes brancos onde os dois da frente eram um pouco ressaltados, fofos. O garoto lembrava um coelhinho com aqueles dentinhos.

— Oi — disse ele ainda mantendo o sorriso bonito nos lábios. — Acho que você não esperava por isso, não é?

Sarang demorou um pouco para responder.

— Eu realmente não achei que alguém fosse falar comigo assim rápido. — respondeu sem pensar sob o olhar do rapaz.

Viu quando as bochechas dele coraram e achou adorável.

— Eu estava falando do tteokbokki — o rapaz riu, o que a fez rir também.

— Era isso que deveria ser? — respondeu tentando fazer graça. — não parece nada com tteokbokki. Por que se chama assim?

Ele franziu as sobrancelhas visivelmente confuso.

— Mas é isso o que sempre comemos lá fora — coçou o queixo. — você nunca viu?

— Como assim?

— Nós não temos os ingredientes para fazer comida desde a Grande Catástrofe, tudo morreu com as bombas. É tudo sintético, mas o visor faz parecer o contrário.

Sarang ficou chocada. Algum tempo depois percebeu que isso se tornaria uma reação comum quando se tratava de Jeon Jungkook, o rapaz que odiava o Sistema ON e acreditava que a vida na Reabilitação era melhor do que fora dela. Às vezes se assustava com algumas coisas que Jeon dizia, mas gostava de sua amizade — ainda que fosse a única naquele lugar. Ele dizia coisa que soavam um pouco absurdas, principalmente para ela que havia sido criada num sistema perfeito; porém, ainda assim, muitas vezes se pegava questionando, como Jungkook fazia. Se tudo era realmente tão sem falhas quanto pensavam. Lembraria-se para sempre da primeira vez em que pensou sobre isso.

Os dois haviam decidido se sentar na parte de trás da Reabilitação, que era um prédio de três andares em algum lugar isolado de Seoul. A vista ao redor da construção era horrível, apenas terra seca até se perder de vista, com o ar que parecia constantemente numa coloração avermelhada. Gostaria de saber como os visores projetavam aquele lugar, se se tornava um local paradisíaco, ou se encheria a paisagem de árvores e flores. Era nisso que estava pensando quando Jungkook esbarrou em seu ombro para chamar atenção.

— Como você veio parar aqui, Sarang? — apesar de ter virado o rosto para ele, Jeon continuava com o olhar a frente. Nunca haviam tido esse tipo de conversa, ambos não faziam ideia do porquê o outro estava ali. — Você não parece o tipo que perde a cabeça.

— Ah — teve que se concentrar em si mesma por alguns segundos para saber se estava pronta para contar para alguém além de sua psicóloga e a senhorita Kim o que havia acontecido há um mês atrás. — não é nada muito grandioso. Um homem me atacou.

Jungkook se virou surpreso para ela. Seus olhos que já eram grandes se arregalaram mais, e a boca formava um “O” perfeito. Sarang apenas deu de ombros, respirou fundo e apoiou o queixo nos joelhos dobrados.

— Como assim? Ele tentou te bater? — perguntou ele.

— Eu estava indo pra casa depois da faculdade, era o mesmo caminho de sempre. Eu usava um beco como atalho, mas parece que não era a única. Naquela noite havia um homem lá, não sei se ele já estava me esperando ou foi só coincidência, mas assim que passei por ele, ele me agarrou por trás e me jogou no chão. Fiquei tão nervosa que não entendi o que ele estava falando. Então senti sua língua viscosa no meu pescoço e acabei batendo a mão em uma garrafa quebrada perto de uma caçamba que ficava dentro do beco. Eu nem pensei direito quando simplesmente agarrei e acertei ele. Ele me soltou e eu fiquei lá, esperando até os robôs chegarem. A essa altura meu coeficiente já estava nas alturas. — riu, sem humor algum, encolhendo-se contra si mesma. O tratamento que fazia suprimiu o trauma, as lembranças a longo-prazo pareciam enevoadas e Sarang nunca conseguia ver mais do que leves frações do que havia acontecido. Era como se estivesse amortecida sempre que falava sobre isso. Suas emoções não emergiam, assim o Sistema ON mantinha os coeficientes sob controle. Mas Sarang ainda sentia uma angustia no peito e amargor no fundo da língua.

— Você sofreu uma tentativa de estupro. — concluiu ele.

Sarang o olhou de olhos arregalados.

— O que? Não, é impossível. Esse tipo de coisa não acontece mais. — respondeu o que havia aprendido, mas perguntou a si mesma se ele não tinha razão.

— Não acontece mais, ou simplesmente o Sistema abafa os casos quando acontece para nos fazer pensar que estamos seguros? Sarang, você passou por isso, você estava lá. Você comprova que isso acontece, assim como muitas pessoas aqui dentro.

— Outras pessoas passaram pelo o que passei? — engoliu em seco. A senhorita Kim havia dito que fazia décadas que algo assim não acontecia.

 

네가 뭐라던 누가 뭐라던
A partir desse dia as conversas entre os dois sempre tinham um tom mais sério. Jeon não confiava no Sistema, Sarang temia estar indo pelo mesmo caminho. Sabia que era errado questionar ON, e sabia que a culpa dentro de si acusaria no coeficiente quando voltasse para a sociedade e devolvessem seu visor. Mas era inevitável pensar que havia algo errado, que estavam — e ela queria dizer a nação toda — deixando algo passar.

— Tem pessoas do outro lado da muralha. Eles não usam óculos lá. — disse ele certa vez.

A muralha delimitava até onde o perímetro da cidade, Seoul, ia. Ninguém sabia o que tinha do outro lado e ninguém estava interessado em descobrir.

— Onde você quer chegar? — ah, ela sabia onde ele queria chegar.

— Eu quero dizer que a gente não precisa estar passando por essa reabilitação, não precisamos voltar pra lá — indicou o horizonte, onde alguns contornos disformes de Seoul podiam ser visto se forçassem a vista. — para dentro de ON.

— Não voltar para ON? É basicamente tudo o que conhecemos. — Sarang não gostava quando as conversas tomavam esse rumo, pois apesar de ser medrosa demais e desejar com afinco voltar para sua vida normal, sabia que Jungkook não era assim. O olhar em seu rosto denunciava uma vontade e coragem que ela jamais teria

— Nós não conhecemos ON. Melhor do que ninguém, nós — apontou para os dois e o prédio atrás de si. — vemos a mentira, sabemos que é feio demais para aceitarmos a realidade da forma que ela é. Virtual Reality, Sarang, esse é o princípio de ON. Nada é o que é. Nós vivemos uma mentira lá fora, é por isso que não quero voltar. A Reabilitação não é exatamente o lugar dos sonhos, mas pelo menos eu sei que é real e que não estou fantasiando sobre as coisas, vendo um mundo que existe apenas num visor.

Sarang o encarou profundamente, tentando encontrar alguma instabilidade no universo dos olhos do rapaz, algo que indicasse que ele estava só exagerando, que ele não faria o que diz querer. Como sempre, não encontrou nada.

— Por que você está aqui, Jeon Jungkook?

Ele sorriu ladino, talvez tenha esperado ansiosamente para que lhe perguntasse.

— Eu já tentei fugir de ON mais vezes do que posso contar. — respondeu simplista.

— Você é um fugitivo? — Sarang estava realmente surpresa. — seu coeficiente devia ter te mandado pro Canil! Como você veio para na Reabilitação?

— Uma coisa sobre o coeficiente é que ele se altera quando suas emoções se descontrolam. Eu só quero ir embora, eu sei que não estou errado, meu coeficiente se altera pela adrenalina, não pelo medo ou coisa assim. Por sorte sempre fui bom no autocontrole.

— Você é louco, Jeon. — respondeu ela ainda impressionada com o rapaz.

Jungkook sorriu tão bonito que Sarang chegou a prender a respiração, sentindo as bochechas esquentarem, encantada.

Tenho que ficar louco para ficar são.

Depois dessa fatídica conversa, Sarang não teve a chance de conversar com o rapaz novamente, havia sido transferida para outra locação e em seguida recuperou seu visor. Ao se dar conta, já estava em casa, no seu quarto, encarando os óculos no colo e pensando sobre tudo o que havia conversado com o estranho garoto da Reabilitação. De alguma forma, agora que podia ter tudo de volta, as palavras de Jeon ecoavam com mais força.

— O que será que ele está fazendo agora? — se perguntou, deixando o visor sobre o colchão e se deitando um pouco torta na cama.

Sarang não voltou a usar o óculos com tanta frequência, sua família acreditava que se devia ao tempo que passara na Reabilitação, talvez a garota não tenha se deixado curar como devia. Os visores serviam apenas para sair de casa, mas eles sequer imaginavam que enquanto Sarang caminhava pelas ruas movimentadas do centro de Seoul, enxergava o mundo como ele realmente era: sujo, de ar opulento, com um cheiro grave no ar, e o céu coberto por uma camada fina de uma poeira que jamais se dissiparia. Por mais que enxergasse tudo perfeito, ela sabia que as coisas eram diferentes, por mais que tentasse esquecer.

Nunca mais ouviu falar de Jeon Jungkook, e não poupara esforços para encontrá-lo. Mais nunca havia sinal de que ele existia de fato, chegou a pensar que talvez fosse tudo fruto de sua imaginação, mas Jungkook parecia real demais e presente demais para isso, Sarang era inteligente, mas duvidava ser capaz de inventar todos os debates que tinha com o garoto. Certa vez ouviu dizer que a muralha havia sido danificada perto do antigo Rio Han de forma que um enorme buraco fora aberto e algumas pessoas fugiram. Embora todos que espalhassem o boato acreditassem que era apenas lenda urbana, Sarang sorriu e pensou que finalmente ele havia conseguido, até conseguira colegas que pensavam em ir embora também.

A garota virou mulher, mais tarde uma senhora. Seu coeficiente não se alterava muito, tornou-se mais um exemplo do controle mental em sua família. Era uma heroína, alguém que havia superado o trauma e recuperada pelo Sistema ON. Porém não houve um dia em que Sarang não lembrou-se do jovem que havia conhecido há anos, e constantemente pegava-se sonhando com uma vida longe daquela cidade, onde ninguém usava visores e via o mundo como ele realmente era.

 

나를 다 던져 이 두 쪽 세상에