14. UGH!

14. UGH!

Sinopse: A revolução do Kpop começou em 2020, uma simples ideia de uma mente revoltada, e como uma pequena brasa se alastrando pela palha, rapidamente se transformou numa fogueira que queimava nos quatro cantos do mundo.
Jamais imaginamos que nossas ideias tomariam aquelas proporções colossais, mas já haviamos ido longe demais para voltar atrás.
Gênero: Ficção, Aventura
Classificação: Livre
Beta: Thalia Grace

Esse é o meu relato sobre como tudo aconteceu.
A Revolução do Kpop começou em 2020. Lembro que a primeira vez que a mencionei foi na sacada de uma festa oferecida pela alta classe que comandava a Big Hit e a indústria do entretenimento sul coreano. Todos os investidores e suas esposas estavam presentes, aqui e ali eu encontrava algum CEO de alguma empresa que eu não tinha o menor interesse em conhecer, mas meu pai, um dos maiores acionistas da Big Hit, fazia questão de me apresentar como “a futura advogada de ouro da companhia”, mesmo eu insistindo em dizer que não pretendia trabalhar para ele no futuro. Minha voz nunca foi ouvida.
Todos os empregados de altos cargos também estavam lá, pouquíssimos convidados de fora, e como era um ambiente seguro e livre de câmeras, alguns membros do BTS também estavam presentes.
Eu estava com o terceiro drink na mão, eles não faziam efeito algum e o desconforto em meu estômago não passava. Encontrei e logo fugimos daquele monte de homens engravatados e mulheres de saltos barulhentos que me causava tanta repulsa, para a sacada do lado de fora do salão onde a festa acontecia. Eu conhecia os membros do grupo desde o debut, e por frequentar tanto a empresa, com o passar dos anos acabamos nos tornando bons amigos. Havíamos acabado de ficar quase dois meses sem nos vermos porque o BTS estava em turnê e aquela era nossa oportunidade de colocar as fofocas em dia.
— Então você é oficialmente advogada agora, huh? Desculpa não ter ido a sua festa de formatura — ele disse em um determinado ponto da conversa, quando encostamos na beirada de mármore da sacada pouco iluminada — Nós estávamos na Tailândia e…
— Tudo bem, . Mesmo que estivessem por aqui vocês não poderiam ir, imagina só, uma aglomeração daquelas e me aparece o BTS? Eu ia deixar de ser a estrela da noite — usei um tom sugestivo e bati meu ombro no dele, mas ele sabia que eu estava brincando, tanto que abriu um pequeno sorriso — E como o tá? — perguntei cuidadosa, não sabia o quão delicada era a situação.
— Hm, melhorando… — suspirou, depois de longos segundos em silêncio — Ele não tem saído muito desde que voltamos, então preferiu ficar em casa hoje. O que aconteceu deixou ele muito abalado, até tentou continuar a turnê, mas ele tinha um ataque de pânico toda vez que alguma fã se aproximava demais, e não queria demonstrar isso para não decepcionar ninguém.
— Imagino o quanto abalou todo o grupo.
— Eu nunca vi ele daquele jeito, , me partia o coração e nada do que falávamos ajudava. Foi inevitável ele voltar para Coréia e cuidar da saúde mental.
— Inclusive acho até que adiaram muito essa decisão, logo que aconteceu a empresa deveria ter priorizado a saúde e segurança dele, de todos vocês, não a turnê — sibilei furiosa, porque aquele assunto fazia uma faísca da raiva queimar no meu peito.
Durante a turnê do BTS, uma sasaeng que já vinha incomodando o grupo há muito tempo, conseguiu burlar a segurança, atraiu para uma cilada e o manteve refém por algumas horas dentro de um carro. Foi aterrorizante, mesmo eu tendo só escutado os detalhes do acontecido, e podia ter sido muito pior se a polícia não chegasse e negociasse, com a ajuda do próprio , sua liberdade.
Essas malucas sempre foram motivo de dor de cabeça, mas nunca foram tão longe como dessa vez, ameaçando diretamente a vida de um dos membros e consequentemente deixando um trauma para trás, que carregaria para sempre.
A pior parte era que a Big Hit, a empresa que deveria ser responsável pela segurança deles, havia apenas publicado uma carta dizendo que estava tomando as providências cabíveis, mas no final não fizeram merda nenhuma, abafaram o caso e ainda obrigaram os meninos a continuarem a turnê mesmo abalados e com um membro a menos. Eu estava presente quando meu próprio pai tomou essa decisão.
— Você acredita que eu ouvi meu pai falando com um outro engravatado sobre “como isso foi positivo para imagem do grupo” e o ibope que a ceninha do sequestro vai trazer para empresa? — Cheguei dar um soco no mármore, sentindo todo meu sangue esquentar ao lembrar do descaso.
— Acredito — deu de ombros desanimado e suspirou — Infelizmente a gente sabe que a indústria é assim, é podre, é suja, é revoltante. É triste dizer isso, mas já estamos acostumados.
— Pois não deviam! — Soquei novamente a superfície dura, com o olhar fixo no horizonte iluminado da propriedade que nos cercava.
— Para com isso, vai se machucar — ele pegou meu punho entre suas mãos, se aproximou encostando nossos ombros e começou a fazer um carinho distraidamente, até que a tensão nos nós dos meus dedos diminuísse. Senti a raiva esvair aos pouquinhos conforme seu polegar desenhava pequenos círculos na minha pele.
— Você sabe que não é fácil assim…
— Eu sei — suspirei, quase derrotada — Seria preciso uma revolução no kpop para mudar o descaso das empresas com os idols.
obviamente não me levou a sério, e eu mesma não tinha intenção nenhuma por trás daquelas palavras na época, mas foi quando a sementinha da ideia foi plantada, e eu a reguei inconscientemente muitas vezes depois daquela noite.
Toda vez que alguma polêmica nova estourava, eu entrava no twitter e falava, mesmo que de forma leviana, sobre uma revolução necessária, sempre tendo algumas centenas de likes graças aos milhares de seguidores que eu tinha na minha fan account, que estava comigo desde os meus 17 anos.
Quando o assunto surgia entre eu e minhas melhores amigas, a maioria também parte do fandom, e a minoria parte da parcela mais revoltada contra as injustiças da sociedade, a palavra revolução estava sempre presente, até que um dia, quando estávamos reunidas na sala da minha casa para o nosso encontro mensal de garotas, perguntou:
— Se a gente começasse mesmo essa tal revolução, como seria? — Sua voz sonhadora deixava claro que ela já estava perdida no mundo das ideias antes mesmo que alguma das outras 3 garotas na sala pudesse responder.
— Nós teríamos que começar pela dominação das redes sociais, eu acho. Levantar tags, ter muitos seguidores apoiando a causa, petições e essas coisas legais, fazer a voz do fandom revoltado incomodar as empresas a ponto delas serem obrigadas a melhorar.
— E você acha que conseguiríamos isso? — , minha outra amiga, perguntou séria e foi a responder:
— Claro que sim, essa daí tem milhares de seguidores no twitter, praticamente tem seu próprio fã clube — apontou para mim — Esses dias ela hitou falando sobre ervilha, quase meio milhão de likes em 3 linhas comparando ervilhas a tatuzinhos de jardim.
— Nem vem que todas vocês também são famosinhas nessa rede social, seus desenhos tem mais fãs e curtidas que muita subcelebridade que eu conheço, — apontei para a garota e logo em seguida para — e você, toda vez que tem alguma tag do fandom nos trend topics, seu tweet tá entre os mais retuitados.
— A gente tem uma certa pseudo influência pelo menos entre nossos seguidores, não que isso seja lá grande coisa — disse, levantando as sobrancelhas junto com os ombros.
— Mas pode ser! E se a gente usasse essa pseudo influência para algo útil? Eu me sinto meio mal de ter 24 anos, quase 50 mil seguidores no twitter e não me aproveitar disso. Uma vida quase foi tirada por causa do descaso da Big Hit, por favor não contem a ninguém, mas fiquei sabendo que o ainda tá muito abalado com tudo que aconteceu — confessei.
Apesar de confiar naquelas garotas sentadas ao meu redor com a minha vida, a ponto de contar algo pessoal como aquela informação, elas não sabiam exatamente o quão próxima eu era dos membros. Elas sabiam de coisas privilegiadas porque meu pai era muito próximo do grupo, mas não faziam ideia de que a maioria das coisas eu descobria direto da fonte.
— A gente podia começar pelo menos um projeto, juntar uma galera, sei lá… — soltou, suspirando.
— Se rolasse, vocês levariam a sério? — Questionei, olhando fundo nos olhos de cada uma ali, até mesmo Chaerin que estava quieta até o momento, por ser a menos envolvida com kpop do nosso grupo.
— Pelos meninos? Seríssimo! — respondeu.
— Infelizmente sou capaz de qualquer loucura pelo bem daqueles malditos talentosos — afirmou convicta, e eu sabia que ela falava sério.
— E qual seria o objetivo? — Chaerin perguntou, subitamente chamando a atenção de todas nós, que a olhamos confusa — Uma revolução precisa ter um propósito específico estabelecido, senão vira só baderna. Se querem que dê certo, decidam isso primeiro.
— Que tal… a criação e implantação de leis mais rígidas sobre como as empresas tratam seus idols? São empresas privadas, mas podemos apelar para os direitos humanos, sou formada agora, posso até me informar sobre como tornar isso algo legal perante a justiça, dificilmente vai chegar a algum órgão responsável, mas não custa nada tentar, né?
— Eu acho a ideia ótima, tendo uma advogada do nosso lado torna tudo tão mais formal — Todas sorriram a afirmaram, até Chae parecia apoiar minha ideia de alguma forma.
Chaerin era minha melhor amiga desde que me conheço por gente, ela era filha do dono de uma das maiores companhias de cosmético da Ásia, e nós crescemos em lares muito parecidos. A grande diferença era que Chae era lésbica assumidíssima, o que fazia com que seus pais a tratassem como uma estranha dentro da própria casa, da mesma forma que meus pais me tratavam na minha pelo simples fato de eu não querer seguir a carreira que eles escolheram para mim.
As outras meninas apareceram depois, durante o ensino médio. Estávamos todas juntas há mais de uma década, já havíamos provado lealdade umas às outras inúmeras vezes e por isso eu sabia que podia contar com elas para qualquer coisa.
— Eu faço a arte! — levantou o iPad que tinha em mãos, empolgada — Agora só precisamos de um nome.
E foi assim que o projeto Revolução do Kpop nasceu oficialmente. Apesar de termos passado as próximas horas da nossa festa do pijama mensal discutindo mais seriamente sobre aquilo, ainda era uma idéia crua, quase sem forma, nascida do âmago em brasa de quatro garotas cheias de raiva.
Raiva pelas injustiças, pela forma com que os membros eram tratados, pelo descaso das empresas em geral, não só com o BTS. A raiva era um sentimento que deixava um gosto ruim na garganta, torcia nossas entranhas de uma forma desconfortável, mas naquele momento nós precisávamos dela. Ela ardia por um motivo e era ele que nos impulsionava a não desistir daquela ideia.
Quando criamos a tag #KpopRevolution, naquela noite mesmo, explicando sobre o que se tratava o projeto, instantaneamente tivemos centenas de perfis nos apoiando. As campanha se alastrou rapidamente entre nossos seguidores, a arte criada pela nossa designer ficou incrível e em poucas horas já havíamos batido nossos recordes de interação e engajamento.
Éramos três fan accounts, com milhares de seguidores de vários fandoms reunidos ao longo dos anos naquela rede social, e parecia que a cada hora crescíamos mais. Empolgadas e enchendo nosso organismo de energético, passamos a noite em claro, divulgando, respondendo tweets e mensagens diretas, estudando mais a fundo como poderíamos trazer legitimidade ao nosso propósito. Quando o dia amanheceu nós tínhamos uma petição pronta, explicando detalhadamente, porém em palavras fáceis que qualquer um podia entender, o que nós buscávamos com tudo aquilo.
Lembro que antes de dormirmos, todas exaustas e largadas pelo meu enorme colchão, Chaerin sussurrou sonolenta “seu pai vai te matar quando descobrir que está fazendo isso” e não pude controlar o sorriso travesso quando concordei, segundos antes de pegar no sono.
Eu repudiava a maioria das atitudes do meu pai e da companhia. Cresci em um lar cheio de ódio, traição e machismo, nunca havia conseguido me moldar ao que ele queria de mim, a filha perfeita e submissa, que segue os passos do pai sem questionar ou criticar nada. Para ele eu nunca tive voz, sempre me calou com seu olhar frio e muitas vezes com sua cinta de couro. Pois agora ele me ouviria, mesmo sem saber que era eu por trás da conta que começou tudo aquilo, eu gritaria em seus ouvidos a plenos pulmões, que ele não podia me controlar mais!
Quando acordamos, já no meio da tarde de domingo, a primeira coisa que fizemos foi checar nossas redes sociais.
— Mais de 20 mil curtidas, socorro! — anunciou, rolando na cama.
— Mesma coisa aqui. Acorda ! Vai olhar seu twitter — Cutuquei ela, que dormia agarrada a minha perna.
— Olha o tanto de gente nova me seguindo — Chae virou o celular em minha direção e eu sorri para a tela, mesmo que ela fizesse uma careta.
— Parece até que vazou nudes coletivos — Brinquei, me sentindo de ótimo humor — Qual o horário de maior movimento no twitter? Precisamos de momentos estratégicos para postar a petição e alcançar mais pessoas.
E assim todo o planejamento voltou a ser feito e continuou pelo resto do dia, enquanto almoçávamos em nosso restaurante favorito no horário em que já estavam servindo o jantar e depois, por mensagem, quando cada uma seguiu para a sua casa. Criamos até o grupo Kpoppers Revolucionárias naquele fim de domingo, e nos sentíamos finalmente fazendo algo útil com o que tínhamos em mãos.
A base de fãs do BTS era uma coisa bizarra, extraordinária por falta de palavra melhor. Qualquer coisa sobre os meninos se espalhava rapidamente, fosse algo bom ou não, todos os fãs eram incrivelmente dedicados às causas, o amor da maioria pelos meninos era tão genuíno que eu sabia que eles apoiariam nossa causa no momento em que vi a petição atingir as primeiras mil assinaturas.
Para uma petição pública virar um projeto de lei de iniciativa popular, era necessário a assinatura de 1% da população sul coreana. Isso equivalia a setecentos mil assinaturas. Era um número alto e confesso que aquilo me assustou, mas o número de fãs do BTS era estratosfericamente maior.
Quando fui dormir naquela noite, lá no fundo duvidando de mim mesma, cogitei a possibilidade daquilo ser passageiro, pura empolgação de momento, logo todos esqueceríam daquilo e o fogo em meu peito diminuiria, até voltar a ser apenas um pequeno incômodo. Porém não foi isso que aconteceu.
A notícia do ataque da sasaeng a estava escancarado na página da Dispatch na manhã seguinte, cheia de sensacionalismo, vários comentários dolorosos de ler porque estavam carregados de ódio, aquela raiva cheia de malícia que me deixava cada vez mais furiosa com o mundo.
Eu estava de férias, havia acabado de me formar e podia ficar alguns dias em casa sem me preocupar com nada, mas naquela manhã nem precisei pensar antes de me enfiar numa roupa que passasse a seriedade que eu precisava e dirigir até o prédio da Big Hit. Meus passos duros atravessaram a empresa agitada sem me importar em falar com ninguém, fui direto a sala do meu pai, no último andar e entrei sem bater, ignorando a secretária desesperada que tentava me impedir.
Ele estava sentado em sua enorme mesa de madeira escura, em frente a uma parede feita inteiramente de vidro. A decoração minimalista e as cores neutras do lugar me sufocavam, mas nada me causava uma sensação pior do que ver aquele sorriso nos lábios do homem com quem eu dividia meu sangue. Ao seu lado, em pé, havia outro homem igualmente engravatado e com o olhar feroz, que eu sabia ser um dos advogados da companhia, o que sempre me dava medo por ser sério demais e inteligente demais. Sr. Kang era praticamente o braço direito do meu pai, de tanto que já havia salvo sua pele, e há anos ele me olhava e eu me sentia pequena de tão intimidada que ficava.
— Vou enviar agora mesmo, senhor! — Ele fez uma reverência ao meu pai, assim que eu invadi a sala e saiu, cravando seu olhar em mim ao passar.
— Posso saber o motivo de ter entrado no meu escritório feito um furacão? As pessoas vão achar que seus pais não te deram educação — soltou debochado.
— O senhor viu o que a Dispatch postou? Sobre o e a sasaeng? — me aproximei de sua mesa, determinada — Aquilo está completamente equivocado! A matéria é tendenciosa, sensacionalista, desumanizaram totalmente a imagem da vítima. “Tragédia ou golpe de marketing”? Fala sério, pai, e aquelas fotos? Isso é ridículo, vocês precisam fazer alguma coisa!
E para a minha surpresa ele riu. Gargalhou alto diante da minha indignação, como se eu fosse uma criança que tivesse acabado de dizer a coisa mais boba do mundo, e o som era exatamente como eu lembrava. O som de alguém sem coração.
— Não só vi como fui eu quem autorizou o fornecimento e divulgação das fotos — disse, com a maior naturalidade, se reclinando para trás na cadeira.
— O que?
— Quantas vezes eu vou precisar te explicar como isso funciona, ? Somos uma empresa que vende um produto, eles são o nosso produto, esse tipo de situação é benéfico para ambos. Eles ganham maior visibilidade, nós ganhamos mais dinheiro, é como a indústria se mantém. Você devia se acostumar, vai fazer parte disso um dia.
— Eles não são um objeto! São pessoas, com sentimentos, vidas que você não pode usar como bem entender. Os meninos estão sendo massacrados naquela publicação, o já tá abalado, como você acha que ele vai reagir se ler aqueles comentários?
— O que é que tem ser um pouco criticado? — deu de ombros — Eles estão acostumados, as coisas são assim, sempre foram e sabia disso quando assinou o contrato. Foi ele que escolheu essa carreira, se ele não aguentar pelo menos isso, que peça para sair.
A essa altura da conversa meu sangue já quase evaporava de tanto que fervia com os absurdos que eu era obrigada a ouvir do meu progenitor. Chacoalhei a cabeça de uma lado para o outro, deixando claro em minha expressão o quão horrorizada eu estava com tudo aquilo.
— Eu tenho vergonha de ser sua filha — cuspi as palavras repletas de repulsa em sua direção e me virei para sair. Ainda tive tempo de ouvir, antes de bater a porta, ele murmurando “não é como se você me desse algum orgulho também” com um tom de escárnio.
Eu estaria mentindo se dissesse que as palavras daquele homem não me atingiam. Infelizmente eu não conseguia me livrar daquela sensação que me machucou a vida toda, a de não ser suficiente para que meus pais se orgulhassem de mim. Mas eu me orgulhava da mulher que eu havia me tornado, me orgulhava de nunca ficar parada diante de injustiças e de ter dentro de mim um ímpeto ardente que poderia mudar o mundo.
Meu corpo tremia tanto de raiva que não tive condições de dirigir de volta para casa, então só desci para o andar das salas de prática e escolhi uma vazia, joguei um colchonete num canto e deitei. Bufei algumas vezes, tentando me controlar para não explodir, eu não podia perder a cabeça agora.
Contei no grupo das Revolucionárias as coisas que meu pai havia dito e pude pelo menos compartilhar minha raiva com pessoas que eu sabia que sentiriam a mesma revolta que eu. E assim como eu, elas também sabiam que era hora de agir e não de surtar.
— O que temos aqui? — ouvi uma voz grossa invadir a sala silenciosa, e me sentei rapidamente.
! — foi impossível não sorrir com a imagem do garoto de cabelos brancos e bagunçados se aproximando e se jogando ao meu lado no chão, sem receio algum.
— O que está fazendo se escondendo na sala de prática? Você fazia muito isso quando era adolescente e brigava com seus pais — brincou com a lembrança.
— O motivo ainda é o mesmo, meu pai piora a cada ano — soltei um suspiro triste e tombei a cabeça em seu ombro, logo ganhando um carinho suave nos cabelos — Como você tá? Como estão os meninos?
— Lidando… — seu tom exausto deixava claro que sabia exatamente do que eu estava falando — continua quieto, mesmo a gente tentando ajudar de todas as formas. Os meninos até tentam disfarçar, mas tá todo mundo mal, estamos nos esforçando para segurar todas as pontas. Pelo menos não temos nenhum compromisso nos próximos dias, porque não sei se conseguiríamos esconder das câmeras nosso estado.
— Vocês não deveriam precisar esconder, poxa, vocês são humanos! Humanos ficam tristes, abalados, com raiva, erram. Nada disso é motivo para se envergonhar ou precisar esconder o que realmente estão sentindo como se fosse errado — e lá estava mais uma vez o tom furioso que eu não conseguia camuflar.
— Adoro esse seu jeitinho indignado de olhar para nossa realidade e se revoltar — ele soltou um risinho, mas havia pouco humor nele — Eu sei disso, os meninos sabem disso, e ainda assim não podemos. Precisamos ser fortes para os nossos fãs, muita gente se inspira na gente e de qualquer forma a empresa…
— Para o inferno com essa empresa! — Levantei a cabeça de seu ombro e me virei em sua direção, meu olho esquerdo chegava tremer, colérico — Eu não aguento mais ver meu pai e os outros acionistas tratando vocês como um objeto, um produto que eles moldam e vendem da forma que eles querem. Isso tá acabando com vocês, ano passado foi o Jimin se afundando em remédios por causa daquele cyberbullying que mexeu com a cabeça dele e a empresa só abafou o caso, depois o Jungkook sendo boicotado pela própria Big Hit por ter feito uma tatuagem, teve a perseguição do Jin e agora isso com o Taehyung. Caralho, isso não é certo, ! — Soquei a palma da minha mão, sentindo algo prestes a explodir em meu interior — Se suas fãs não aceitam que vocês são humanos, que também tem sentimentos, que também erram como qualquer um e que não são propriedade de ninguém, elas não são fãs de verdade. Elas não merecem o amor de vocês. Não dá mais para ficar quieto diante disso, eu não posso viver esperando qual vai ser a próxima injustiça que vai acontecer com vocês. Se algo acontecer com você,
Antes que eu pudesse dar outro soco para descontar minha raiva em mim mesma, ele tomou minhas mãos nas suas. Estávamos sentados um de frente para o outro, com as pernas cruzadas e agora de mãos dadas. Seu olhar aprisionou o meu e em poucos segundos eu senti outro tipo de fogo se alastrar pelo meu interior. Esse não deixava um gosto ruim por onde passava, era completamente bom, pacífico, começava no dorso das minhas mãos onde os polegares de me acariciavam e se espalhava como um incêndio sereno por todo meu corpo.
— Eu já te disse o quão sexy você fica revoltada? — as palavras saíram aveludadas.
— Cala a boca — revirei os olhos, deixando um sorriso enviesado escapar, misturando a vergonha e a incredulidade.
— É sério, você tem essa aura poderosa, esse fogo no olhar que é… fascinante. Me faz acreditar que você é capaz de fazer o que quiser — suas palavras agora não passavam de um sussurro — Eu nunca conheci alguém com essa determinação, nunca conheci uma mulher como você.
O que aconteceu a seguir talvez não tivesse impacto nenhum na revolução que estava para acontecer, mas o quanto impactou a minha vida não cabia em palavras. Quando se inclinou para frente e colou os lábios no meu, o mundo inteiro deixou de existir instantaneamente. Por um curto período de tempo me senti suspensa no ar, e fui capaz de sentir tudo, todas as melhores sensações do mundo de uma vez, em um suave mover de lábios. Era sublime, etéreo, sequer parecia real. Sua boca era tão macia que parecia acariciar a minha, sua língua tocou meu lábio inferior num movimento subitamente ousado e então ele se afastou, voltando a posição anterior.
— Faz muito tempo que eu queria fazer essa loucura, sabe? — ele abriu um sorrisinho pequeno, sem desviar os olhos dos meus — Acho que essa sua aura me contagiou e me deu coragem para finalmente te beijar. Não precisa significar nada se você não quiser, foi só um beijo, nossa amizade continua a mesma… Mas se você quiser que signifique, eu não me importaria de repetir isso mais vezes.
Eu não esperava por aquilo, não mesmo, nem em um milhão de anos poderia imaginar que tinha aquele tipo de sentimento por mim e foi por isso que não consegui reagir a tempo. Com um risinho debochado da cara de boba que ele me deixou depois disso, ele se levantou, deixou um beijinho na minha testa e pediu para eu responder as mensagens dele.
Quando ele me deixou lá, sentada no chão da sala de prática, sozinha com meus pensamentos, uma revolução começou a acontecer dentro de mim. Meus sentimentos todos se rebelaram contra minha razão, e desde aquele momento inicial eu sabia que era uma batalha que eu estava fadada a perder. Eu devia apenas aceitar que eu gostava de mais do que devia e queria sim repetir aquela loucura. Queria repetir infinitas vezes.
Infelizmente não era tão simples assim, eram raras as oportunidades em que a gente se encontrava, eu ficaria apenas sonhando em beijar aquela boca de novo pelas próximas semanas. E tudo bem, eu não era uma pessoa que sonhava em namorar, nunca tive interesse em encontrar meu grande amor e viver um romance clichê. Eu devia muito disso a meus pais, e sua relação tóxica e deturpada a qual fui exposta desde que nasci. Mentiras, brigas, agressões e traição, de ambas as partes, aquele era o único amor romântico que eu conhecia.
Eu tinha coisas mais importantes para ocupar a cabeça, como por exemplo o fato de que o número de retuítes das nossas publicações havia dobrado nas últimas horas. Aparentemente, depois que a Dispatch publicou aquela bomba em forma de matéria, a internet havia virado o maior caos e isso impulsionou nosso projeto de uma forma inesperada. Convoquei minhas companheiras e voltei mais algumas horas do meu dia as redes sociais.
O Twitter por si só era um lugar perigoso, um deslize e você pode ser comido vivo por pessoas maldosas, comentários cruéis e boatos infundados completamente fora de controle.
Naquele momento o Twitter era como um campo de batalha, de um lado estava a ofensiva do fandom revoltado, utilizando de todo sua influência virtual para levantar inúmeras tags cobrando um posicionamento da Big Hit, uma nota oficial de como estava a saúde de e deixando claro que a situação acerca da segurança e tratamento dos idols atingiu níveis insustentáveis. Do outro lado estava o que eu gostava de chamar de se diz fã, mas é só um sem noção, que consistia nas pessoas que usavam sua influência virtual para o mal, para incitar e espalhar o ódio, para cobrar coisas ridículas e egoístas, fãs que se sentiam donos dos ídolos como se por investirem seu tempo e dinheiro em alguém, tinham direito de controlar a vida dessa pessoa.
Haviam postagens xingando as empresas, todas elas, pois o problema não era exclusivo da Big Hit e sim da indústria de entretenimento sul coreana como um todo, memes surgindo de todo lado ajudando as pessoas a se expressarem melhor, um edit da empresa pegando fogo enquanto os meninos dançavam na frente que estava em todos os comentários de postagens da Big Hit, do BTS e onde mais podiam enfiar.
O fandom brigava entre si, brigava com outros fandoms, se defendia de ataques de todos os lados, até de pessoas que não faziam nem ideia do que era kpop. Eram milhares de tweets por segundo vindo de todos os cantos do mundo, interligados, falando sobre a mesma coisa. Quando eu parava para pensar naquilo profundamente, era algo gigantesco. Estar diante da era da tecnologia e perceber o poder, muitas vezes destrutivo, que a internet tem na vida das pessoas era bizarro, principalmente partindo do ponto em que era um lugar onde milhões de pessoas estão reunidas, mas que está em um plano além da matéria física, logo nem sequer existe realmente.
Quando nos reunimos no tapete do meu quarto naquela noite, após o expediente de todas, já que a vida adulta nos obrigava a trabalhar e não ficar apenas twittando o dia todo, o fogo virtual ainda queimava com vigor. A batalha continuava árdua, as tags não desciam dos trends e a nossa #KpopRevolution estava em primeiro lugar há mais de 24 horas.
— Quase duzentos mil retuítes, eu estou sem palavras — murmurou, com os olhos fixos no celular — A gente se superou demais nessa.
— Até quem não é do fandom tá apoiando a gente.
— Você viu que estão perguntando quando é que essa revolução vai pras ruas? — Chaerin virou a tela para eu ler e soltei um riso fraco.
— Vocês acham que se a gente realmente fizesse algo físico, fora do domínio virtual e do mundo das tags… Um protesto real, daria em algo? Acham que alguém iria? — perguntei.
— Acho que tendo em vista que a situação tá realmente saindo do controle, acredito que muita gente aparecia para protestar e apoiar.
— Vale a pena tentar.
— Pergunta no twitter — disse, simples como era tudo quando se tratava dela — A gente não sabia se o projeto ia funcionar e mesmo assim postou, e olha a gente batendo duzentos mil retuítes ao vivo enquanto eu falo isso! — Ela virou o celular em nossa direção e eu sorri grande com a imagem dos números que não paravam de subir.
Nós três, com exceção de Chaerin que não possuía uma fan account no twitter, lançamos a pergunta ao mesmo tempo.
“Essa situação passou de todos os limites aceitáveis, não podemos mais ficar calados. Se a Revolução for para rua, se organizarmos um protesto em frente a Big Hit, vocês estariam conosco?”
Postamos aquilo com altas expectativas e bloqueamos todos os celulares ao mesmo tempo, decidindo tirar um tempo para pedirmos o jantar, conversarmos sobre nossas vidas fora do kpop e fofocarmos, uma das nossas especialidades. Nem só de pop coreano vivia nosso grupo de mulheres.
Chaerin era a mais velha, cheia de uma sabedoria silenciosa que só se pronunciava quando achava realmente necessário. Era formada em Tecnologia da Informação pela Universidade de Yonsei e estava terminando o mestrado em segurança cibernética de alto nível. Ela era um gênio dentro e fora da sua área, às vezes eu tinha vontade de lamber aquela mente, não havia nada que ela não soubesse fazer com um computador nas mãos, mesmo que fosse ilegal. Era nossa hacker e nossa garantia de que ninguém descobriria quem estava por trás dos nossos perfis.
era nosso equilíbrio entre o racional e o emocional, trabalhava como professora na escola onde nos formamos alguns anos atrás, e mesmo com pouca idade já havia adquirido um respeito tão grande que só uma mulher com aquele nível de inteligência conseguiria. Tinha contato direto com a base de fãs formada pelos adolescentes para quem lecionava, então ela entendia a cabeça dos jovens melhor que ninguém.
era a mais nova do grupo, estava no primeiro ano de design gráfico na Universidade Nacional de Seul, depois de ficar dois anos tentando decidir o que fazer, mas ela era mesmo apaixonada por artes. Ela tinha uma mente tão única que às vezes até nos assustava, suas ideias e opiniões sempre seguiam um raciocínio artístico só dela, sempre simples e criativa. Ela era nosso bebê, a brisa de verão que trazia leveza ao grupo.
Enquanto eu, bem… eu era o furacão.
Eu fui a garota encrenqueira da escola, que precisava das amigas para me controlar porque eu nunca me dei bem com autoridades, nem com os outros adolescentes idiotas. Se algum professor falasse algo que eu não concordava, eu batia de frente, argumentava com didática, eloquência e maestria na maioria das vezes, mas quando perdia a cabeça eu era feroz. Minha língua afiada muitas vezes me garantiu advertências, suspensões e inimigos até mesmo entre o corpo docente, mas eu podia me orgulhar de nunca ter abaixado a cabeça para nenhuma autoridade que tentou usar sua influencia de forma injusta.
Após a faculdade de direito, aprendi a usar o domínio que eu tinha sobre a argumentação de forma quase persuasiva. Eu sabia que estava na profissão certa para o meu talento, mas eu havia decidido usá-lo para o bem.
Nós éramos esse grupo eclético, que tinha em comum apenas aquela vontade de mudar o mundo, mas que de alguma forma se completava e dava certo. Mas acima disso, nós éramos um grupo perigoso quando colocavamos uma ideia na cabeça.
Isso ficou ainda mais evidente quando voltamos para as redes sociais, agora de estômago cheio e peito transbordando determinação.
— Vocês não vão acreditar! Eu tive mais de quinhentas respostas! Em menos de uma hora! — soltou um gritinho, animada.
— Aqui também! A maioria pedindo data, local de encontro e mais informações.
— Ok, a coisa tá começando a ficar séria — respirei fundo, racionalizando rapidamente quais deveriam ser nossos próximos passos — Acho que nós deveríamos fazer um post com todos os detalhes. Pedir pras contas maiores e fansites que estão com a gente fazerem um grupo só com gente de confiança. Não podemos arriscar ir para rua sem preparo algum.
— Vocês já protestaram por alguma coisa, alguma vez na vida? — Chaerin questionou levantando uma sobrancelha e girando a caneta da mesa digitalizadora nos dedos.
A pergunta pegou todas de surpresa. Nós éramos determinadas e sonhadoras, mas infelizmente sempre vivemos num patamar da sociedade cheio de privilégios, e mesmo conscientes disso, nós não tínhamos a vivência necessária. Sem contar que a Coréia do Sul não é um país com um grande histórico de protestos. O último havia sido em 2008, mas conseguiu reunir 220 mil pessoas nas ruas.
Foi por isso que estudamos, a madrugada inteira, sobre todas as grandes revoluções sul coreanas e mundiais, focando nas mais atuais e como poderíamos usar as mídias sempre ao nosso favor. foi a primeira a apagar, enrolada no cantinho da minha cama. dormiu logo após, ainda segurando o celular onde liam algum artigo sobre revoluções liderada por mulheres.
Chae e eu continuamos acordadas, discutindo baixinho até resolvermos todos os detalhes que achamos necessários. Dessa forma, no dia seguinte, nós postamos as informações nas 3 contas ao mesmo tempo, e nossa tag que continuava nos trends, mas havia caído bastante, voltou a subir até estar em primeiro mais uma vez no fim do dia.
Como as outras garotas precisavam trabalhar e eu estava de férias, fiquei responsável por organizar tudo, passei mais tempo do que o recomendado nas redes sociais e na sexta-feira daquela semana acordei sentindo todo meu corpo vibrar de ansiedade.
Não sabíamos exatamente como seria, quantas pessoas apareceriam e se apareciam, mas nos preparamos para algo muito maior do que esperávamos, porque era melhor estar prevenida.
“Para todo ato ou manifestação nas ruas, é preciso seguir algumas regras e dicas, por isso fizemos esse post sobre COMO SE COMPORTAR EM UMA MANIFESTAÇÃO.
Dicas de Segurança: Venha com um amigo, use Telegram para marcar os detalhes (mais seguro) e limpe todas as conversas relacionadas ao protesto antes de sair de casa. Não marque de se encontrar no local do ato, não adicione nem marque nada com pessoas desconhecidas. Não fique sozinho e não fique incomunicável, mantenha seu celular com bateria e se possível com internet ligada, avise parentes e amigos para onde você vai e compartilhe sua localização.
O que vestir: Use roupas fechadas, se possível use casacos ou blusas de manga longa. Máscaras são essenciais para a proteção individual da sua imagem, vá de máscara e leve uma para alguém que possa precisar.
O que levar: Carregue sempre uma bolsa com água e alimentos leves, para se manter até o final sem danos a saúde. Kit de primeiros socorros são sempre importante. Não esqueça seus documentos de identidade. Cartolinas, cartazes, lightsticks, tudo que puder ser usado como comunicação visual.
É proibido: Depredar as ruas ou qualquer coisa nelas, deixar lixo no local. Esteja presente para ajudar e NÃO para tumultuar. Não concorda com o protesto? Fica em casa. É um protesto pacífico, vamos agir de acordo.
LEMBREM-SE DO PORQUE LUTAMOS E LUTEM, SOLTEM A VOZ E PROTEJAM UNS AOS OUTROS!”
O horário e local da manifestação nós divulgamos apenas por mensagem privada, mas só eu havia conversado com pelo menos 100 pessoas que me deram certeza de que estariam lá. Se metade dessas pessoas aparecessem, eu já me sentiria realizada.
Para minha surpresa, quando estacionamos o carro de Chaerin a algumas ruas de distância do prédio da Big Hit, num pequeno parque amplo e pouco movimentado, já havia um pequeno grupo de garotas esperando. Eu sorria por baixo da máscara enquanto me aproximava, conferindo a hora em meu celular. Ainda faltavam alguns minutos para hora marcada.
— Já somos 10, é alguma coisa — comentou, quando nos apresentamos as garotas sentadas em círculo no gramado.
— Vocês são as Revolucionárias? — Uma delas perguntou e eu franzi o cenho. Aquele era o apelido do nosso grupo, mas eu não sabia que era de conhecimento das outras pessoas. Era um título meio vergonhoso, então eu não sabia como responder, mas nem precisei porque tomou a frente.
— Sim, nós quatro — ela apontou para gente e sentou junto com elas na rodinha, rapidamente ganhando a simpatia das adolescentes ali — E foi ela ali que começou tudo. — Apontou para mim, que estava em pé, conferindo o horário mais uma vez.
— Então você é a líder da revolução?
— Eu prefiro que esse movimento seja anárquico. Ter um líder estimula a hierarquia e a desigualdade, e não precisamos di… — Chaerin tampou minha boca com a mão e terminou por mim.
— Sim, ela é a líder da revolução. Nós já voltamos — ela me puxou para longe de onde nossas amigas estão interagindo com as outras garotas, discutindo sobre os cartazes que tinham nossa tag.
— O que foi?
— Amiga, eu te conheço, você é uma mulher racional e justa, mas não tem jeito nenhum com adolescentes, nisso a tira de letra. O problema é que o movimento precisa de uma voz ativa e poderosa, essas garotas vão precisar de um modelo a seguir e foi você que começou tudo isso. Eu desconheço alguém mais preparado para assumir o posto de líder dessa revolução.
— Chaerin, eu não sei, nem veio ninguém e…
— Como não veio ninguém? Tem dez garotas aqui, prontas para lutar com unhas e dentes pelo ideal que você despertou em nossos corações. Você vai liderar essas garotas, você vai usar todo o poder argumentativo que eu sei que existe dentro de você, e é bom que tenha preparado um bom discurso, porque eu acho que você vai precisar — ela apontou para algo por cima do meu ombro e eu me virei rápido.
Eu achava impossível meu coração bater depressa e não ser um AVC, mas era um misto de susto, surpresa, alegria e ansiedade tão grande dentro de mim que não dava para controlar. Um grupo enorme de pessoas se aproximava pelo gramado do parque. Devia ter mais de cinquenta garotas ali, todas vestiam preto da cabeça aos pés e tinham seus rostos parcialmente cobertos por máscaras. Algumas seguravam cartazes, outras balançavam o Army Bomb, mas todas caminhavam determinadas em nossa direção.
— Elas vieram, elas vieram! — comemorou dando pulinhos — Eu fiz um grupo só com as donas dos fansites que organizam eventos para os meninos, os grupos do fancafe também ajudaram, nós conseguimos juntar uma galera — ela sorria animada, acenando pra uma garota que vinha na frente — Aquela é a Kanya, ela estuda comigo e descobri que ela é responsável pelo maior perfil da fanbase tailandesa, tem quase meio milhão de seguidores! Kany! — Ela correu até a garota, que a cumprimentou na mesma empolgação.
— E novamente a maknae faz mais pelo grupo que todas as mais velhas — murmurou e nós caímos na gargalhada.
Se eu estava impressionada quando o primeiro grupo chegou, não tinha palavras para descrever o que senti quando eles continuaram chegando. Mais e mais pessoas foram se juntando ao nosso redor, vários pequenos grupos espalhados por todo o gramado e quando percebemos o parque já não tinha capacidade para todas aquelas pessoas.
— Está na hora… — Chaerin esticou o megafone preto em minha direção e eu respirei fundo antes de aceitar. Uma a uma, cada amiga ao meu redor acenou com a cabeça pra mim, e foi como se sua aprovação fosse a força que me faltava pra eu assumir de vez aquele papel que exigiria tanto de mim.
Num pulo, subi no banco de madeira e testei o megafone.
— Olá! Eu queria falar algo com vocês, antes de seguirmos para frente da Big Hit! — levantei a mão esquerda lá no alto e anunciei no megafone, com a voz ainda meio incerta. Vi centenas de olhos se virarem na minha direção, todas as conversas foram morrendo até estarmos em completo silêncio. Precisei respirar fundo antes de começar, reunindo toda a determinação e coragem que havia dentro de mim. e estavam a minha esquerda e Chaerin a minha direita, eu tinha tudo que eu precisava ali. — Vocês sabem porque estamos aqui, certo? — Aguardei uma resposta, mas a maioria só afirmou com um aceno e eu continuei — Quero apenas reforçar… Há alguns dias, Kim do grupo BTS, passou por um momento traumático que podia ter terminado em uma tragédia. Ele só passou pelo que outros antes dele passaram também, e nem todas as situações acabaram de forma positiva. Nós vivemos diariamente assombrados pelo medo e ansiedade sobre qual vai ser a próxima situação desagradável que nossos idols vão passar. Qual a próxima polêmica a destruir a carreira de alguém. E quando acontece, o que as empresas fazem? O mesmo que a Big Hit fez com o ataque da sasaeng ao : NADA! — fiz uma pausa e podia ouvir alguns gritos revoltados de incentivo crescendo pela pequena multidão — Existe uma citação do Martin Luther King, que sempre me inspirou muito, ela diz: o silêncio das pessoas boas é pior que a brutalidade das pessoas más. Nós somos as pessoas boas que não podem mais ficar em silêncio. Se você escolheu ficar em silêncio, você escolheu o lado do opressor. Você escolheu o lado dessa indústria podre, que desumaniza os artistas, trata seres humanos como uma mercadoria, como uma fonte de dinheiro sem sentimentos, que é explorada até a última gota e depois jogada fora. Quantas injustiças mais a gente precisa ver para tomar um atitude? — minha voz vibrava, saia rasgando pela minha garganta tamanha era a força que eu colocava naquelas palavras — Em compensação, quantas vezes eles já não fizeram um sorriso aparecer no nosso rosto mesmo quando tudo desmoronava ao nosso redor? Quantas vezes as músicas deles nos fizeram aguentar firme e seguir em frente? Eles nos deram esperança através da arte, está na hora da gente retribuir a altura! Eles nos ensinaram uma lição valiosa: SPEAK YOURSELF! Não importa quem você é, não importa o tamanho ou o alcance de suas plataformas, fale! É hora de usarmos nossas vozes para mudar o mundo, de falar tão alto que a Big Hit e toda a indústria vai nos ouvir! É por isso que nós estamos aqui, é por isso que nós vamos fechar a entrada daquela empresa hoje e VAMOS FAZER BARULHO ATÉ TODA A COREIA NOS OUVIR!
Eu nunca me senti tão viva quanto no momento em que gritei aquelas palavras para centenas de pessoas no parque. Escutar os gritos em resposta ao meu discurso foi como jogar gasolina na fogueira em meu interior. Eu me sentia cada vez maior, cada vez mais alto.
Marchamos em direção ao edifício da Big Hit, como um só. Liderei uma manada enfurecida, a passos duros e gritos exigentes. Nos posicionamos na calçada no lado de fora, e éramos tantos que fechamos toda a fachada. As portas de saída foram bloqueadas pela pequena multidão e quando os funcionários tentaram sair, não encontraram espaço. Encontraram apenas centenas de pessoas cantando frases de impacto em uma só voz.
Ninguém esperava por aquilo, ninguém esperava que fossemos ser tantos, que gritaríamos tão estrondosamente e levantaríamos a bandeira de esperança tão alto, que seria vista de tantos lugares.
Só quando vi dois carros da imprensa estacionado do outro lado da rua foi que me dei conta de que aquilo viraria uma manchete e tanto nas garras da mídia.
Mas todo sonho parece durar tão pouco, tão rápido quanto subimos, em poucos minutos todos os seguranças do prédio atravessaram a porta em nossa direção, e a maioria das pessoas acabou recuando por medo, até eu me senti meio intimidada pelos brutamontes.
Restávamos apenas eu e minhas fiéis três amigas, caminhamos para longe do prédio sem trocar uma palavra. Eu me sentia orgulhosa por tanta gente ter aparecido quando minha expectativa era tão baixa, mas me sentia decepcionada por ter durado tão pouco.
— Decepcionada?! — praticamente berrou, quando compartilhei meus pensamentos sobre como estava me sentindo — Você tem noção do tamanho do que aconteceu hoje? Você juntou uma porrada de gente para lutar por um ideal, por uma mudança e uma esperança de um mundo melhor. Na porra de país conservador! Elas ficaram com medo dos seguranças, e bem, para falar a verdade eu também fiquei, mas e daí?! Você vai entrar nesse twitter agora, vai agradecer por todas as pessoas que apareceram hoje e vai escrever um puta texto motivacional igual aquele discurso que você fez no parque. Na próxima vez que nos reunirmos, precisamos ser o dobro e durar o triplo. É assim que se faz uma revolução!
Tanto eu como as outras garotas ficamos em quietas, em choque por alguns segundos. era como um bebê para a gente, nossa pequena grande mulher, que cresceu diante dos nossos olhos e agora já levantava a voz para gente e se impunha quando achava certo.
— choraminguei, me aproximando dela na cama — Essa foi a coisa mais legal que você já disse, e tocou meu coração. Você tem razão, em cada palavra, e eu percebo isso agora, então obrigada — a puxei para um abraço, num ato de carinho que não era exatamente comum vindo de mim — Você é incrível.
— Eles crescem tão rápido — fingiu secar uma lágrima.
Assim que fungou baixinho, se aproximou e nos abraçou também. Chaerin relutou por alguns segundos, afinal ela era a menos fã de demonstrações de afeto físico, mas não resistiu as nossas caras a chamando. Acabamos virando um bolo de braços, sorrisos e lágrimas. Todas compartilhavamos o mesmo sentimento e eu nunca havia sentido algo tão bom.
— Eu to muito orgulhosa, vocês todas foram incríveis hoje — Chaerin disse, e todas paramos de chorar instantaneamente. e trocaram um olhar suspeito e então sorriram uma para outra.
— Chaerin compartilhando seus sentimentos abertamente e nos deixando soft, esse sim é um evento histórico — brinquei, e ela me mostrou a língua, olhando para o teto e piscando rapidamente para espantar as lágrimas que se formavam no cantinho dos olhos.
Rir com minhas melhores amigas naquele momento foi sem dúvida uma memória que ficará na minha mente para sempre. Estávamos todas no auge da felicidade, orgulhosas e motivadas a continua como aquilo, mesmo com o futuro incerto que nos aguardava.
Fiz exatamente o que disse, fiz um post agradecendo abertamente todas as pessoas que estavam com a gente naquela tarde. Agradeci por estarem dispostas a fazerem o que é certo, a dar a cara e lutar por algo que acreditamos. Escrevi outro um pouco maior falando sobre o que teríamos que fazer no futuro para que aquilo não acabasse ali.
Nós estávamos apenas começando…
No dia seguinte, quando fiz questão de ir ao prédio da Big Hit, encontrei o setor de publicidade e comunicação um caos, todos trabalhavam para lá e para cá com caras frustradas e preocupadas. Meu sorriso aumentava a cada novo corredor que eu atravessava. Eu sabia o motivo de toda aquela tensão e estava plenamente feliz em saber que eu era ela.
Minha felicidade morreu tão rápido quanto cresceu em meu peito quando atravessei a porta do escritório do meu pai sem permissão, sob os protestos da secretária, e o ouvi gritar para Sr. Kang, seu advogado de olhar feroz:
— Eu vou matar aquelas merdinhas! — Ele apontava o dedo para a janela e praticamente rosnava as palavras — Não, melhor, eu vou processar cada uma delas. Eu quero que você descubra quem começou essa palhaçada, e eu quero para ontem. Contrata um hacker, descobre o IP, rastreia por satélite, eu não faço ideia de como, dá teu jeito! Eu quero a origem dessa porra de revoluçãozinha ridícula na minha mesa AGORA!
Foi a primeira vez que eu vi aquele cara com medo. Meu pai conseguia ser assustador quando queria, e, mesmo convivendo com ele e seus surtos desde criança, eu nunca o havia visto tão bravo.
— Finalmente você chegou — se dirigiu a mim, com o rosto ainda vermelho de raiva — Eu quero que você sente aqui e me diga todas as formas legais que podemos usar contra aquelas…
— Não — o interrompi, soltando a palavra com facilidade.
— O que você disse?
— Eu não acho que o que aquelas pessoas fizeram é errado, então eu não vou te ajudar com isso. Não. Simples assim. — Expliquei, sentindo meu coração se apertar por ter ouvido aquelas palavras vindo do meu próprio progenitor.
Deixei a sala sem olhar para trás, sem conseguir sustentar seu olhar por nem mais um segundo. Quando parei no corredor e finalmente pude respirar aliviada por ter colocado aquilo para fora, Sr. Kang parou ao meu lado e disse sem me olhar.
— Eu sei o que você e suas amiguinhas estão fazendo — todo meu corpo gelou em um milésimo de segundo — Espero que tenha aprendido muito bem na faculdade como se defender, você vai precisar.
E eu nem tive tempo de responder, quando minha alma voltou para o meu corpo ele já estava longe. Sr. Kang já me amedrontava normalmente, mas sussurrar algo tão abertamente ameaçador naquele tom de voz era de amolecer as pernas de pavor.
Meu coração disparou no peito e eu me sentia prestes a ter um infarto. Minha respiração ficou cada vez mais pesada e eu caminhei a passos incertos na direção oposta, subi alguns lances de escada sem prestar atenção no que estava fazendo e acabei na sala de descanso do terceiro andar.
Meu cérebro não processava direito como e porquê, mas e correram em minha direção assim que me viram, disseram alguma coisa com olhares preocupados, mas todos os sons estavam abafados e não passavam de ecos distantes.
Levou alguns minutos, mas quando finalmente consegui controlar minha respiração e minha mente, eu estava suando frio, sentada no sofá confortável da sala de descanso. me trouxe água e esfregava o polegar suavemente no meu ombro, num carinho que me acalmava aos poucos.
— Quer nos contar o que houve? — perguntou, todo cauteloso.
— Eu só… briguei com meu pai — dei de ombros. Minha mentira era tão convincente que aceitou numa boa e tentou me consolar com palavras muito boas, se não fosse o fato de que aquilo não era exatamente a verdade.
por outro lado, talvez me conhecesse bem até demais, porque quando saiu atender uma ligação ele parou todo o carinho que estava fazendo, e um biquinho nasceu em meus lábios instantaneamente.
— Eu sei que não foi só uma briga com seu pai, vocês dois brigam há anos, mas você nunca ficou dessa forma. O que houve de verdade para você ter um ataque de pânico? — Seus olhos foram tão fundo nos meus que meu coração pesou mais ainda por mentir, mas usei toda a minha lábia para convencê-lo.
— Eu juro que foi isso, juro juradinho — usei meu melhor sorriso triste — você não tem noção de como meu pai tá estressado por causa do que houve ontem, e acabou descontando em mim, mas ta tudo bem agora. Obrigado por me ajudar, mas não precisa se preocupar com isso. Não é algo que acontece com frequência, então não é uma preocupação válida, ok?
— Tudo bem — ele suspirou, conformado — mas se acontecer de novo, promete que vai me contar?
— Prometo — menti, e me senti a pior pessoa do mundo por abrir um sorriso que parecia tão verdadeiro para pessoa que eu menos queria enganar.
Mas não podia saber, nenhum dos garotos podia saber. Eu não sabia como seria nossa relação se eles soubessem que era eu e minhas amigas por trás da Revolução envolvendo o nome do seu grupo, eles não haviam sido liberados para dar sua opinião sobre o acontecido, mas de qualquer forma eu não queria que eles se envolvessem diretamente com aquilo. O grupo podia acabar sendo punido, e era justamente contra aquilo que lutávamos.
— É tão injusto que eu tenha que trabalhar com um cara que eu sei que faz tão mal para pessoa que eu gosto — bufou, debruçando a cabeça sobre o braço esticado em minha direção, que voltou a me fazer um carinho delicado.
— Eu sou a pessoa que você gosta? — perguntei num fio de voz, surpresa e envergonhada por ter repetido aquilo feito uma criança.
— Queria ser melhor para demonstrar isso, mas sim. Eu gosto de você, , e queria poder passar mais tempo com você, para… sabe? Fazer as coisas apropriadas para que você soubesse que eu gosto de você faz muito tempo.
! — repreendi, rindo — Você não pode dizer essas coisas depois de eu ter tido uma crise de pânico, meu coração ainda tá fraco. Vai que eu morro e aí você tem que explicar pras pessoas que morri porque você é maravilhoso demais para mim?
apareceu na porta só para avisar que eles precisavam ir, ou se atrasariam para algum compromisso de suas agendas lotadas.
Já fazia alguns dias, mas os números no twitter ainda me assustavam. Meu post agradecendo as pessoas que compareceram no dia anterior estava chegando as 200 mil curtidas, haviam centenas de fotos nos comentários tiradas pelos próprios protestantes, de vários ângulos, e todos mostravam a entrada da Big Hit interditada pela nossa pequena multidão.
No grupo das Revolucionárias haviam dezenas de links de reportagens, todas sobre nós. Não li os comentários, porque eu sabia que haveriam coisas ali que me machucariam. Quem nos apoiava, tinha minha eterna gratidão, mas quem nos odiava, e eu sabia que o ódio na internet era algo assustador, eu preferia nem saber da existência.
#KpopRevolution estava em primeiro lugar nos trends mundiais, ficou o dia todo sendo o assunto mais falado do twitter. Caiu de posição lentamente durante os dias seguintes, em que fiquei trancada em meu quarto a maior parte do tempo, estudando e planejando cuidadosamente os próximos passos.
Todo dia eu conversava com pessoas do mundo todo sobre nosso ato. As vezes eu precisava usar e abusar do google tradutor, na maioria das vezes era sobre a mesma coisa. Como elas, em outras partes do mundo, podiam colaborar para que nosso movimento crescesse.
— Alguns outros países são mais liberais, mais acostumados a revoluções e protestos — disse nossa professora — Como a França por exemplo. A fanbase de lá tá puro ódio, não vê a hora de fazer o mesmo que nós e ir pras ruas.
— Se ao menos a gente conseguisse fazer um protesto coletivo, em vários lugares do mundo ao mesmo tempo… — suspirou, pensando na possibilidade.
— O impacto seria absurdo. Acha que damos conta? — questionou, e os três pares de olhos me encararam, em busca de uma resposta.
— Só vamos descobrir se tentarmos — sorri, já desbloqueando a tela do meu celular e flexionando os dedos pra começar a digitar.
Após convocar o resto do mundo a se juntar ao nosso movimento, as coisas explodiram de vez. Nossa petição estava com quase metade do número que precisavamos e não parava de crescer. Já éramos assunto até em alguns jornais internacionais. Camisetas foram confeccionadas com a nossa tag em pelo menos 10 idiomas diferentes, a cada 10 tweets, 6 era sobre nosso movimento. O mundo todo falava sobre a gente.
Eu jamais me acostumaria com a forma que as coisas funcionavam na internet. As proporções colossais, os números de seis dígitos que representavam seres humanos reais que apoiavam nossas ideias nos mais diversos cantos do mundo, era tudo tão surreal que eu precisava ficar conferindo a cada hora para ter certeza que estava mesmo acontecendo.
Quando o dia do protesto global chegou, as redes sociais ferviam como jamais foi visto antes. Dessa vez nosso ato duraria 24 horas, para que todos os fuso horários do planeta pudessem participar. Era sexta-feira a tarde, eu quase arranquei meu lábio inferior fora quando vi a multidão e finalmente caiu a ficha.
Éramos milhares, ali, na praça no centro de Seul, e por todo o mundo. Vídeos em tempo real passavam nos celulares ao meu redor, no meu proprio tambem. O dinheiro da venda das camisetas foi todo convertido em fundos para alugar todos os letreiros luminosos possíveis para que mostrassem imagens da nossa luta. Canais noticiando ao vivo, fotos viralizando tão rápido que não dávamos conta de acompanhar. Era assustador.
As líderes dos movimentos em outros países entraram em contato comigo, me encheram de fotos mostrando a quantidade absurda de gente que estava participando, marchando nas ruas. Pessoas corajosas, que mesmo sob chacota e zoação de pessoas que não entendiam a gravidade da situação, que invalidavam nossa luta sem motivo algum por puro preconceito, se mantinham firmes e levantavam suas vozes cada vez mais alto.
Após algumas horas nós marchamos em direção a Big Hit. Seria o horário em que os funcionários estariam saindo, nosso plano era o mesmo de antes. Incomodar. Impedir que eles conseguissem sair da empresa, sem causar baderna ou dar qualquer motivo para uma intervenção hostil.
Fechamos todas as quadras ao redor do edifício. Cantamos, gritamos e fizemos tanto barulho que era possível nos ouvir a quilômetros. Dessa vez fomos nós que intimidamos os seguranças, que até tentaram nos dispersar, mas não havia para onde ir. Éramos muitas pessoas, uma apoiando a outra, não deixando ninguém recuar. Eu estava na linha de frente da multidão, eu era a primeira que devia me manter firme não importa o que avançasse sobre mim.
“Seu pai tá fora de si. Onde você tá? Não vem para empresa agora” às 18:55
Li aquela mensagem me perguntando o que significava, quando levantei meus olhos encontrei a figura intimidadora de Sr. Kang, vindo em minha direção a passos duros e firmes, como se soubesse exatamente quem eu era por trás da máscara e meu papel ali, nunca desviando o olhar afiado do meu rosto. Chegou tão perto que meu instinto natural era dar um passo para trás, mas eu não o fiz. Me mantive firme e levantei o queixo para sustentar seu olhar cortante.
— Você tem 1 minuto para acabar com essa palhaçada, ou seu pai vai ficar sabendo que é a própria filhinha que lidera essa manada de idiotas! — Usou aquele tom que normalmente me fazia tremer na base. Mas daquela vez não. Daquela vez eu estava cercada de pessoas que me davam força, que se apoiavam em mim, eu não podia vacilar.
— Você ainda não contou para ele? — soltei uma risada alta e debochada — Você não tava guardando isso como sua carta na manga para me chantagear, tava? — o vi engasgar e perder a postura por um segundo, foi suficiente para me inflar de coragem por ter ganhado aquela batalha — Meu pai deve tá esperando a cadelinha dele voltar e contar que conseguiu resolver tudo com dinheiro e ameaças, como sempre. O que será que vai acontecer com você quando voltar com péssimas notícias? — tive o prazer de ver suas orelhas ficando vermelhas antes que ele desse meia volta e caminhasse para dentro do prédio.
As garotas começaram a bater palmas, orgulhosas, e pelos minutos seguintes eu fui a mulher mais feliz que eu poderia ser, me sentia no topo do mundo. Mas como tudo que sobe muito rápido, a queda era sempre brutal.
A polícia chegou e tudo aconteceu tão rápido que eu mal tive tempo de reagir. Eles abriram espaço entre as pessoas e vieram para cima de mim, como cobras dando o bote certeiro na presa, ignorando todos ao redor. Deram voz de prisão alegando distúrbio da paz, formação de aglomeração sem permissão, impedir o trânsito de fluir naquelas ruas lotadas, e vários motivos ridículos que eu sabia que não eram válidos para tratar alguém daquela forma.
Eu ainda tentei explicar pacificamente isso, afinal eu conhecia bem as leis, e em resposta eles avançaram bruscamente contra mim, agarraram meus braços com muito mais força do que o necessário, me jogaram contra a lateral do carro de sirenes ligadas e juntaram meus pulsos para me algemar. Minhas amigas tentaram intervir em minha defesa, claro, e todas elas foram afastadas violentamente.
Foi a cena mais horrível que eu já havia vivido. Nada me preparou para ver caída no chão toda ralada pelo impacto contra o asfalto, sendo amparada por , enquanto Chaerin discutia com outro policial que era tão alto que precisava se inclinar para sustentar o olhar. Um deles empurrou pelo ombro e Chaerin partiu para cima com o dedo a centímetros da cara dele.
Algumas garotas ao redor nos olhavam receosas, outras foram para cima também, apoiar minhas amigas e a mim. O tumulto agressivo foi aumentando a cada segundo, haviam centenas de celulares filmando aquela atrocidade de vários ângulos diferentes. Enquanto isso o policial que me algemou, aproveitou a distração, me empurrou para dentro do carro com tanta força que arrancou minha máscara e eu tinha certeza que encontraria hematomas em vários lugares do meu corpo.
Quando ele estava prestes a bater a porta eu usei meu pé para empurrá-la de volta com toda a minha força num chute que fez o corpo do policial cambalear para trás. Coloquei a cabeça para fora da viatura e gritei com todas as minhas forças pra Chaerin, que estava mais próxima e era a única que tinha sua atenção voltada para mim.
— Não se preocupa comigo! Continua o plano! Cuida delas e continua o plano!
E então o policial me empurrou para dentro e bateu a porta na minha cara. Era tão claro que eles estavam ali atrás de mim, e apenas de mim, porque assim que me fecharam no banco de trás, os homem que discutiam com minhas amigas as deixaram falando sozinhas e entraram no carro também.
Olhei para trás, vendo vários pares de olhos me assistindo ser levada para longe, algemada. Me virei de volta para frente e bufei com tanto ódio que sequer tive tempo de sentir medo por estar cercada por quatro policiais corruptos.
— Quanto meu pai ta pagando para vocês? — Eu ri com escárnio porque nenhum deles abriu a boca sequer para negar — Espero que bastante, porque vocês acabaram de agredir várias garotas em um protesto pacífico, inclusive menores de idade, e prenderam uma sem a presença de uma policial feminina. Posso recitar todas as leis que vocês violaram se quiserem.
— Se entende tanto disso, sabe que tem o direito de permanecer calada — O policial no banco da frente disse, inexpressivo.
A pior parte de ser advogada, é que a gente nunca pensa que vamos precisar de um advogado também. Fui levada a delegacia, confiscaram meu celular e meus documentos, me deixaram sentada em uma cadeira nada confortável por horas até alguém aparecer e dizer que eu tinha direito a uma ligação. Encarei o telefone por alguns minutos, pensando no que faria.
Os únicos advogados que eu conhecia eram os da empresa, e eu não podia simplesmente ligar para o meu pai e dizer que eu havia sido detida. Isso se o sr. Kang já não tivesse contado para ele, o que provavelmente tinha acontecido e eles dois estariam planejando o que fazer comigo em seguida. Decidi ligar para pessoa que eu mais confiava para resolver algo assim.
— Chaerin — choraminguei, frustrada quando ela atendeu — O que eu faço agora?
! Você tá bem? Você não tem noção de como estão as coisas aqui — sua voz era alarmada, o que era estranho porque Chaerin raramente se exaltava — Tá por toda a internet, todos os sites de fofocas, passou até nos noticiários de vários países. Tá um completo caos.
— Isso é bom, não é? A divulgação que precisávamos — tentei ser positiva.
— Não, , você não entendeu… eu quero dizer, a sua foto está por todo lado. Da sua cara, sem máscara, sendo levada pela polícia. E em todas as matérias o nome do seu pai e da companhia está em letras bem grandes. Você já tá conhecida como a traidora por toda a empresa, tem muita gente querendo sua cabeça numa bandeja.
— Ah, não — afundei na cadeira, esfregando meu rosto desesperada — O que eu faço? Chaerin, o que eu faço? Preciso sair daqui, mas quando sair meu pai vai me matar, ou pior, vai descontar em vocês. Onde estão as outras? Tá todo mundo bem? O que aconteceu depois que me levaram?
ta aqui comigo e a tá liderando o protesto, estamos tentando controlar as coisas nas redes sociais, mas sem você a gente não sabe o que fazer. Depois que te levaram nós continuamos lá, como prometemos, e todo mundo ficou ainda mais revoltado. Os gritos aumentaram, a gente não recuou nem quando os seguranças tentaram nos expulsar. Acabamos de voltar para resolver isso, mas a multidão continua lá e logo vamos voltar também. Não se preocupa com nada, eu já entrei em contato com um advogado de confiança para te tirar daí, mas ele vai demorar um pouquinho para chegar porque estava em Jeju, mas quando ele pousar vamos direto para delegacia. Aguenta firme até lá, ok? A gente tá com você, tem muita gente te apoiando, muita mesmo.
E foi por saber disso que eu me mantive firme após desligar. Aguentei os risos debochados dos policiais que passavam por mim. “Presa por causa de kpop” eles comentavam, “Esses riquinhos desocupados inventam cada uma”. Segurei o choro até ser levada para uma sala de interrogatório, onde me deixaram sozinha por mais uma hora. Eu precisava me debruçar sobre a mesa para limpar as lágrimas, porque minhas mãos ainda estavam algemadas.
Só me permiti chorar por alguns minutos, e então a chama do ódio fez as lágrimas evaporarem e tudo que restou foi a fúria incalculável que me mantinha viva.
— Qual a necessidade disso?! — gritei feroz para a câmera no canto da sala, e para o vidro onde eu sabia que havia alguém me observando. Aquilo era ridículo. Me manter algemada como uma criminosa, sem ao menos um motivo plausível. Malditos policiais corruptos!
Quando a porta se abriu, suspirei aliviada, esperando ser Chaerin e o advogado que me tiraria dali, mas meus olhos se arregalaram e meu coração saltou no peito por diversos motivos diferentes.
?! — Engasguei — O que você ta fazendo aqui?
Mesmo que seu rosto estivesse parcialmente coberto por uma máscara preta e um boné, eu sabia que era ele e que ele estava fazendo uma careta. Ele se aproximou da cadeira onde eu estava e se agachou, me examinando com olhos preocupados. Logo atrás dele estava um homem engravatado e muito sério.
— Você tá bem? Eles te machucaram? — questionou com sua voz aveludada, procurando por algo nos meus braços.
— Não… Não! Eu to bem, mas o que você…? — Eu não conseguia processar o motivo dele estar ali, era totalmente errado. Eu olhava para ele e para o outro homem ali freneticamente.
— Eu vim te tirar daqui — a seriedade em sua voz chegava a ser desconfortável aos meus ouvidos desesperados — Eles já estão vindo remover isso de você e eu vou te levar para casa — cutucou a algema que me prendia e então subiu os olhos até os meus.
Havia tanta coisa transbordando dos olhos de que eu me senti instantaneamente sem ar com o contato visual. Eu queria abraçá-lo com todas as minhas forças e dizer que ele não precisava se preocupar, que aquela tristeza e angústia não deviam existir. Eu me sentia um monstro por ser a responsável por aqueles sentimentos ruins.
O advogado que estava com ele trouxe uma policial que finalmente me soltou, devolveram meus pertences e eu caminhei ao lado de de cabeça baixa para fora da delegacia. Eu sentia uma tonelada pesar em meus ombros, encarei meus pés até estar sentada no banco de trás de uma SUV preta, dirigida pelo advogado que me tirou de lá.
? — Murmurei quase chorando ao ver quem estava no banco do passageiro. Aquilo não podia ta acontecendo.
— O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA?! — explodiu ao meu lado no banco traseiro, assim que fechou a porta. — Você tem noção do quão perigoso é o que você fez? Tem noção do que causou na gente quando vimos que era você lá?! Nós confiamos em você, eu confiei…
— Não! Quer saber? Não, ! O que vocês tem na cabeça? Até quando vão ficar quietos e aceitar tudo que eles impõem a vocês? Até alguém morrer? Já passou da hora de alguém fazer alguma coisa, e se vocês são muito covardes para isso, eu me coloco na linha de frente, mesmo que isso não dê em nada. Só com luta as coisas podem mudar, você mesmo fala disso nas suas músicas, sobre ter coragem de enfrentar o sistema, e agora olha só para você se acovardando atrás de um discursinho ridículo desses — minha voz deixava explicito meu desgosto — Olha o tanto de gente que eu reuni, milhares de pessoas dispostas a lutar por vocês, por uma vida melhor para todos os idols desse país. Todas aquelas pessoas corajosas amam o BTS a ponto de se colocar em risco por vocês, assim como eu. Então não vem dizer que eu estou errada por lutar por um mundo melhor, porque mesmo que no fim do dia não faça diferença, eu sei que eu tive coragem de fazer o que era certo.
Nem , nem continuaram o assunto. O carro permaneceu num silêncio desconfortável conforme avançava pelas ruas quase vazias da madrugada. Eles insistiram em passar comprar algo para comer afinal eu não me alimentava fazia tempo demais, e nós devoramos ali mesmo no banco do carro, naquele clima pesado.
Eu não queria encarar meu pai, mas eu não tinha opção, morávamos na mesma casa e mais cedo ou mais tarde nos encontraríamos. Quando o carro estacionou em frente da porta dupla da mansão onde cresci, ele já estava me esperando e seu rosto era quase irreconhecível de tanta raiva.
— Vocês dois entrem também — ele chamou com desdém, quando me viu descer do carro. e me seguiram até o lado de dentro, paramos no meio da enorme sala de estar, que nunca me pareceu tão apertada e sufocante quanto naquele momento, sob o peso do olhar matador do meu pai, que mesmo que ignorasse completamente minha presença ali, fazia eu me sentir pequena e fraca. — Eu não tenho palavras para dizer o quanto eu estou decepcionado com vocês dois, principalmente com você . Você é líder de um grupo mundialmente conhecido, achava mesmo que essa palhaçada não acabaria na mídia?
Ele entregou um tablet aberto em uma pagina de noticias. A primeira coisa que vi foi uma foto, tirada por algum paparazzi, de entrando na delegacia ao lado do advogado, e em seguida dele saindo do edifício da polícia ao meu lado. Mesmo por trás da máscara, do capuz preto e da foto de baixa qualidade era claro que éramos nós dois ali, qualquer um podia ver. Ainda mais depois do meu nome e imagem estar nas reportagens sobre o protesto também.
“Membro do grupo BTS está apoiando a líder das manifestações contra a própria empresa, Big Hit.” Era a manchete em letras escandalosamente grandes. Meu sangue gelou.
— E esse não é o único site, já se espalhou por toda a internet, pelo mundo todo! — O homem sorriu irônico, seus olhos faiscavam o mais puro ódio — Espero que estejam prontos para dizer adeus a carreira de vocês, porque é exatamente isso que vai acontecer agora! É O FIM DO BTS! Era isso que vocês queriam? — Fez uma pausa, tentando controlar a voz e vi abaixar a cabeça sem saber como responder — Eu não quero saber de quem foi essa ideiazinha ridícula, mas eu quero vocês todos quietos até nós decidimos como lidar com esse escândalo. É da empresa pro dormitório, sem celular, sem redes sociais, sem comunicação nenhuma e acima de tudo SEM VER AS NOTÍCIAS! E você — ele apontou o indicador bem no meio do rosto de — é bom ficar longe dessa garota também! — Me olhou cheio de nojo por um fração de segundo.
— Essa garota é sua filha — respondi irônica, e seus olhos me fuzilaram tão intensamente que eu senti algo em meu interior sangrar.
Não sei dizer o que doeu mais, o tapa estrondoso que ele deu em meu rosto ou suas palavras cortantes logo em seguida.
— Eu não tenho mais filha.
Por algum segundos aquilo havia me destruído completamente, aquela agressão verbal e física, e a humilhação que ela me fez sentir foi pesado demais para processar. Deixei absolutamente tudo para trás, inclusive os meninos, e fugi covardemente até o colo que eu sabia que sempre estaria lá por mim. Chaerin me ouviu chorar por horas a fio até o dia amanhecer, sem perguntar nada, e quando finalmente consegui pôr para fora ela me ajudou a encontrar naquelas palavras a motivação que me faltava para dar tudo de mim no que viria a seguir.
… — Chaerin me chamou, quando eu já estava quase dormindo em seu colo enquanto ela mexia nas teclas do seu computador com uma velocidade assustadora — Acho melhor você ver isso…
— O que? — levantei a cabeça e cocei os olhos inchados, mas eles quase pularam para fora da minha cara quando vi o que a tela mostrava.
“Por muito tempo fomos covardes e deixamos nossa liberdade ser tirada de nós como uma mercadoria. Chega! Não existe mudança sem luta. Ninguém pode nos impedir de ficar do lado da justiça e do lado de uma amiga. Suas palavras me inspiraram, e meu único desejo é inspirar os outros a fazerem o mesmo. Armys corajosos, continuem a luta enquanto for seguro e se cuidem, nós estamos com vocês #KpopRevolution”
havia postado aquilo na conta oficial do BTS no twitter, junto com uma foto dele segurando um dos cartazes do protesto. Eu podia ver tanto dele naquela legenda que meus olhos instantaneamente voltaram a se encher de lágrimas.
— Meu pai vai matar ele!
— E as meninas vão te matar porque você nunca contou para elas que é amiga íntima do BTS.
— Eu… por que você não ta brava?
— Primeiro, porque eu não sou tão fã assim deles, e segundo porque eu sempre soube. Eu sou hacker, né, meu anjo. Eu sei de tudo.
No segundo seguinte, meu celular começou a vibrar com as infinitas mensagens das meninas. Preferi nem ler e fui direto ao contato de . Ele atendeu minha chamada com sua típica voz monótona e eu explodi num sermão gigantesco sobre o porque aquilo foi imprudente e insensato da parte dele, mas as palavras que ouvi de volta foram como uma onda de calmaria para o meu coração.
, você tinha razão. Sempre teve. As coisas só chegaram nesse nível porque a gente se calou por tempo demais, e não da mais para continuar sendo covarde assim. Quase perdemos um membro, não vamos arriscar perder outros, e vai muito além de nós. O grupo todo apoiou minha decisão. Nós temos dinheiro suficiente para pagar a multa da empresa e abrir nossa própria gravadora caso chegue a isso, então não se preocupe com a nossa carreira. Nós escolhemos ficar do seu lado e arriscar absolutamente tudo porque nós acreditamos em você, acreditamos nessa luta e queremos lutar ao seu lado. Por favor, não me julgue por agir da forma certa pela primeira vez.
Ouvir falar com tanta convicção que lutaria ao meu lado era exatamente o que faltava para que uma explosão acontecesse em meu coração. Combinei com ele alguns detalhes do que planejava por telefone e então respondi as meninas dizendo apenas que esclareceria tudo no dia seguinte, numa reunião de emergência e mandei a localização para elas.
As coisas mudaram a partir daí. Com o BTS do nosso lado não havia mais como pegar leve, tínhamos feito grandes inimigos com poder o suficiente para derrubar a gente e tudo que nós representávamos para as pessoas que protestaram ao nosso lado. Eles podiam facilmente nos fazer sumir do mapa sem deixar vestígios, afinal éramos apenas um bando de garotas com sonhos e muita determinação. Mas em momento algum o fogo do ódio e indignação por todas aquelas injustiças parou de queimar em nossos corações, então não ficaríamos em silêncio. Mesmo que estivessemos assinando nossas sentenças.
— Tem certeza que são todas de confiança? — Questionei Chaerin sobre as pessoas virtualmente influentes que entramos em contato, antes de entrar na sala do galpão onde me esperavam para a reunião.
— Todos os aparelhos eletrônicos foram confiscados. Verifiquei as contas e os antecedentes de todas, e já deixei avisado e provado que sei a localização de cada uma delas caso qualquer informação vaze — ela me garantiu, abrindo a porta para que eu entrasse.
Além das minhas amigas, que tinham os braços cruzados e olhares julgadores pesados sobre mim, haviam outras 5 garotas desconhecidas ali, sentadas nas cadeiras espalhadas pela sala sem janelas. Todas elas me olhavam cheias de expectativa. Engoli a saliva com dificuldade, respirei fundo e me apresentei para quem não me conhecia, indo direto ao assunto.
— Nunca imaginamos que as coisas chegariam a essa ponto, mas agora é tarde demais para voltar atrás. Como todas sabem, nossa luta recebeu recentemente o apoio do BTS e é por isso que eu chamei vocês aqui. Precisamos pensar nos próximos passos dessa revolução, mas primeiro eu quero que entendam a seriedade do que estamos fazendo, e se concordarem tenham consciência do risco que estamos correndo — assenti pra Chaerin, que abriu a porta e deixou nosso convidado entrar — Eu trouxe alguém para nos ajudar. Por favor, não surtem.
O pedido foi totalmente ignorado e os gritinhos histéricos se espalharam pela sala quando abaixou a máscara preta que usava ao entrar e parar ao meu lado.
— Olá, Armys — ele sorriu pequeno quando elas finalmente se acalmaram — Estão prontas para começar a verdadeira luta?
As palavras seguintes de encheu o peito daquelas pessoas com esperança. Planejamos em detalhes os próximos passos, cuidando de todas as possíveis respostas e represálias de quem certamente se oporia a nós. Sabíamos exatamente como a Big Hit reagiria, como os haters não teriam piedade em atacar tanto os meninos quanto quem estivesse do nosso lado. Seria uma batalha cruel, toda a indústria, as grandes corporações, a polícia corrupta, políticos que se beneficiavam dos maus tratos que os idols sofriam para encobrir suas sujeiras, aquela seria uma batalha de cachorros grandes e ferozes, então nós também não teríamos misericórdia.
Naquele mesmo dia as fotos e vídeos dos protestos chegaram aos mais importantes jornais internacionais como um evento histórico, já que nunca na história mundial havia acontecido um protesto daquele nível por aquele tipo de coisa. Uma das formas de protesto que mais me chamaram atenção foram as centenas de fotos de muros grafitados em apoio ao movimento. Nossa tag em letras gigantescas espalhadas pelas mais diversas cidades do mundo, para que todas as pessoas vissem 24 horas por dia, mesmo fora da internet.
Só faltava ali, em Seul.
E foi por isso que resolvemos que era hora de agirmos nas ruas. Pagar outdoors eletrônicos não era mais viável, nós precisaríamos deixar nossa marca permanente e escolhemos o muro do estacionamento lateral da Big Hit para começar.
Naquela madrugada Chaerin cuidou de todos os preparativos, se certificou de que todas as câmeras de segurança estavam desligadas por tempo o suficiente para sair do carro e marcar nossa tag no muro que se estendia por uma quadra inteira.
Estávamos dentro do carro pilotado por , Chaerin estava no banco do carona com vários aparelhos eletrônicos no colo e no banco de trás, , eu e , que foi irredutível sobre querer participar daquele ato que era no mínimo perigoso para caramba.
Quando Chaerin deu o sinal, com o rosto todo coberto pela máscara e capuz preto, saltou para fora do carro estacionado num beco escuro e caminhou os poucos metros até o muro.
Senti a mão de segurar a minha e virei meu rosto em sua direção em reflexo. Eu conhecia bem o sentimento que aquele sorriso travesso transbordava. Ele queria o mesmo que eu, então apenas apertei seus dedos entre os meus e afirmei com um aceno mínimo.
Levantamos a máscara, o enorme capuz dos moletons pretos idênticos que usávamos e saltamos para fora do carro, sob os protestos desesperados de . O plano era só descer, mas nós tínhamos nosso próprio plano. Corremos de mãos dadas na quase completa escuridão, observamos os arredores, nos certificando de que estávamos sozinhos naquela rua e saímos do beco. Caminhamos até um muro gigantesco que já era vandalizado por , que nem nos notou lá de tão empolgada que estava.
Era inacreditável que algo assim estivesse acontecendo, e mais surreal ainda que estivesse ao meu lado naquela aventura perigosa. Tirei da bolsa os dois sprays de tinta preta, joguei um para ele.
— Essa é a coisa mais legal que eu já fiz — vibrou, chacoalhando o spray e começando a escrever na parede com uma habilidade que deixava claro que não era sua primeira vez grafitando. Eu fiquei apenas parada, admirando a cena que naquele momento parecia a coisa mais extraordinária do universo.
, você já se apresentou na frente de milhares de pessoas, já ganhou dezenas de prêmios internacionais…
— Mas eu nunca grafitei em protesto, no muro da empresa para qual trabalho, ao lado da garota por quem sou apaixonado — ele terminou, se afastando para observar o trabalho que havia feito.
Eu não tive tempo de olhar para o muro, meu coração que já batia rápido pelo que estávamos fazendo, agora ameaçava rasgar meu peito. Meus olhos se arregalaram com sua declaração e ele se virou para ver minha reação. Num movimento rápido, prendeu meu corpo contra o muro recém pintado e um arrepio gelado e excitante desceu minha espinha.
Uma de suas mãos agarrou minha cintura com firmeza e a outra abaixou nossas máscaras, sem nunca quebrar o contato visual intenso. Foi naquele momento que tive a certeza de que a adrenalina era uma das maiores causas do meu tesão, fazia com que meu sangue quase entrasse em ebulição de uma forma quase sobrenatural.
— Você ta falando sério, ? — questionei baixinho, afinal estávamos tão próximos que o capuz de nossos moletons se juntavam, formando uma barreira ao redor de nossos rostos quase se encostando.
— Eu tinha minhas dúvidas… — ele se aproximou ainda mais, juntou nossas testas e narizes, o cheiro inebriante de seu hálito morno acariciou meu rosto, é viciante desde o primeiro segundo — Mas desde que você quase foi presa por mim, eu não tenho mais. Achei que ficaria claro para você também quando eu escolhesse ficar ao seu lado nessa batalha contra o mundo. Você me deu força e coragem de lutar contra tudo que eu acho errado, , como eu poderia não me apaixonar por você?
A única resposta que consegui encontrar foi beijá-lo com tudo que eu tinha. As batidas do meu coração retumbavam alto em meus ouvidos e então… o nada. Nenhuma palavra naquele momento poderia descrever o que estávamos sentindo. Eu sabia que ele compartilhava exatamente a mesma sensação que eu, a de estar entorpecido, flutuando no ar, presos num universo só nosso onde tudo que existia era nós dois e aquela paixão ardente, que incendiava nossos corações.
Não existia mais ódio, fúria, preocupação, revolta, não existia espaço para mais nenhum sentimento negativo. neutralizava todos eles ao esfregar sua língua quente contra a minha. Só existia ele. E ele sabia. Ele também sentia.
Seu corpo me pressionou mais contra o muro, me esmagando com urgência, minhas mãos agarraram a lateral de seu moletom num claro pedido para que ele nunca mais se afastasse. Experimentei a doçura de seus lábios se transformar em movimentos agressivos, que queimavam meu corpo e embaralhavam meus sentidos. Nossas línguas não conseguiam se afastar, o desejo era magnético, caótico, nos prendia naquela mistura de saliva e respirações pesadas.
Senti minha nuca se arrepiar. Nunca desejei alguém com tanta intensidade. O desejava de todas as formas possíveis e imagináveis, era obsceno e ao mesmo tempo era sublime, puro. Os arrepios se alastravam pela minha pele como ondas de calor, desciam pela minha espinha me eletrizavam. Me sentia próxima de ir ao delírio com um simples beijo.
E então nos chamou de volta a realidade, nos obrigando a romper o beijo:
— Sinto muito pombinhos, mas o tempo acabou…
No dia seguinte, nossa arte no muro da Big Hit foi a notícia mais pesquisada da internet. O assunto mais falado do twitter e o incentivo necessário para que mais artes como aquela começassem a aparecer dia após dia. Quando a Big Hit mandou pintar o muro e apagar nossas tags, no dia seguinte elas estavam lá de novo, e dessa vez não havia sido a gente.
O silêncio do meu pai sobre tudo aquilo era esmagador, me deixava apreensiva e alerta. Desde o dia em que ele disse abertamente que eu não era mais sua filha, eu esperava por algo grande vindo dele. Eu o conhecia bem, e era por isso que eu estava preparada para qualquer coisa.
Nós estávamos reunidas na sala da casa de , nosso novo ponto de encontro, haviam latinhas de energético para todo lado, e todas estávamos empenhadas no que fazíamos nas redes sociais. Foi quando eu recebi o email que eu sabia que chegaria mais cedo ou mais tarde.
“Espero que esteja preparada para arcar com as consequências da sua brincadeirinha. Fiquei sabendo que a comida da cadeia tem gosto de derrota.
Com amor, papai”
Poucos minutos após ler e reler aquele email, sem conseguir digerir as palavras cruéis do homem que um dia foi meu progenitor e agora representava apenas tudo de podre que existe no mundo, se levantou para atender a porta e me chamou, avisando que era para mim.
Primeiro eu estranhei, mas assim que os dois promotores de justiça entregaram a intimação nas minhas mãos, deixando claro que meu pai sabia onde eu estava e queria me ver na cadeia, eu compreendi. Aquele era o momento de atacar, com tudo que eu tinha.
— Chaerin… — chamei, depois de avaliar cada clausura do papel — Quanto tempo para você conseguir acesso às gravações das câmeras da Big Hit?
— Algumas horas, talvez menos. Por que?
— Preciso de algumas gravações da sala do meu pai em dias específicos, e uma lá da mansão também. Vou te passar todos os detalhes.
— Qual o plano?
— Colocar meu pai na cadeia… — abri um sorriso esperto, sabendo que as minhas chances de vitória eram grandes — Por fraude, lavagem de dinheiro, chantagem, crimes contra a ordem econômica e tributária, violação dos direitos humanos e agressão física.
Se aquilo não fosse suficiente, pelo menos sua imagem ficaria suja o bastante para as ações da empresa caírem e os outros acionistas serem obrigados a tomar a atitude mais drástica possível, exonerá-lo do cargo.
Quando todas as evidências necessárias estavam em nossas mãos, eu sentei em frente a câmera, respirei fundo como quem se prepara para um mergulho muito profundo, e dei inicio ao meu ataque.
Gravei um vídeo de cara limpa e queixo erguido, defendendo nossa causa com toda a eloquência, didática e persuasão que meu discurso podia ter. Expondo toda a sujeira do meu pai, com provas, fotos, vídeos de todas as vezes que ele me agrediu e me ameaçou, todas as fontes as quais pude recorrer, e também com a certeza de que receberia outro processo bem grande após publicar aquilo, mas eu estava pronta para arcar com as consequências.
Meu ódio havia chegado ao limite e era a motivação que eu precisava para deixar sair, rasgando minha como lava de vulcão, as palavras coléricas que encerraram o vídeo.
“A gente ta vivendo num mundo que transforma vidas humanas em dados estatísticos, objetos dispensáveis, que são usados até a exaustão e depois descartados. Que mundo absurdo é esse, que é preciso gravar um vídeo para alertar as pessoas de que vidas humanas são mais importantes do que vender álbuns, do que estar em primeiro nos charts… Eu espero que esse vídeo ajude você a enxergar a realidade por uma nova perspectiva, mas que acima de tudo, te dê esperanças de que é possível transformar o mundo.
A maioria das pessoas julgavam nossa ideia utópica, completamente impossível. E olha para gente agora. Olha até onde chegamos, com uma simples ideia e a força das pessoas que acreditam nela, que lutam por uma sociedade da qual toda a humanidade se orgulhará no futuro. Vamos precisar enfrentar a força física com a força da consciência, mas juntos nós somos um exército imparável…
Eu acredito no amor mútuo entre um ídolo e um fã, entre BTS e Army, e o amor é a verdadeira revolução.”
A explosão de respostas que meu vídeo teve na internet foi brutal. Em poucos segundos já era o assunto mais falado do momento. Chaerin filtrava as respostas que chegavam a mim, porque todas sabiamos que a quantidade de comentários de ódio eu receberia após aquela declaração poderia destruir minha sanidade.
O que eu, definitivamente, não esperava, era da onde viria o apoio mais forte que recebemos. Meus olhos se arregalaram quando eu li aquele tweet e não voltaram mais ao normal por horas. Todas as meninas tinham a mesma expressão que eu, a de total descrença pelo que estávamos vendo.
— CARALHO, O G-DRAGON ESTÁ APOIANDO A NOSSA CAUSA! CARALHO, CARALHO, ALGUÉM ME BELISCA! KWON JIYONG! O G-DRAGON! — gritava, correndo em círculos pela sala, olhando para a tela do celular.
— Não é só ele… — Chaerin virou o monitor do notebook em nossa direção e eu precisei sentar pelo choque — Vários idols se pronunciaram ao mesmo tempo a favor da Revolução. Parece que foi algo combinado entre eles…
— CARALHO, A HYUNA! A HYUNA GENTE, OLHA O TWITTER DA HYUNA! — continuava correndo na mais pura afobação, e confesso que eu só não estava da mesma forma porque minhas pernas estavam amortecidas pelo choque.
— Isso é real? — questionei, com o olhar perdido no mais puro nada.
— É muito real, amiga! O Jae, do Day6 acabou de postar também. A Jessi, o iKON, o Seventeen, as meninas do Mamamoo, o Jackson Wang, o Dawn também — Lau foi nomeando, completamente alterada e a cada palavra ficando pior.
— Hyuna e Dawn casal da nação, nunca duvidei — finalmente parou de correr feito uma maluca e ficou encarando a tela do celular paralisada — Gente… o Psy…
— Tem artistas internacionais também. Muitos! O Lauv, o Max, meu Deus! O John Cena, o Terry Crews, o James Corden e o Jimmy Fallon….
— Eu vou desmaiar — murmurei baixinho, buscando algum apoio às cegas com a minha mão. Era exatamente o que eu sentia naquele momento. Eu não conseguia acreditar na minha própria realidade, no que estava acontecendo diante dos meus olhos e a única opção plausível parecia ser desmaiar.
— Gente, alguém traz uma água com açúcar para , acho que ela ta passando mal — Chaerin pediu, mas a reação de todas foi cair na gargalhada. Alguns segundos depois eu também gargalhei, no mais puro júbilo, quase histérico e que acabou em lágrimas.
Nos dias que se seguiram ao evento massivo que foi dezenas de idols e grupos se manifestando a favor de um tratamento digno de seres humanos para si mesmos, o caos se espalhou pela Coréia do Sul. No início todas as entrevistas acabavam abordando o assunto, e os idols convictos se declaravam abertamente a favor da causa, o que gerou o completo desespero por parte das grandes empresas, que agiram de acordo com sua convicção cruel de que eles precisavam ser punidos para aprender a obedecer.
Talvez seja possível dizer que logo isso causou um completo colapso na indústria do entretenimento. Os escandalos passaram a ser cotidianos, vindo de vários artistas que já não se importavam em seguir certos padrões impostos. O ódio que isso gerou foi imensurável. O mundo se revelou ainda mais podre.
Mudar a cabeça de um ser humano que cresceu acreditando que determinada realidade é a certa, pois é a única que conhece e experiência desde que nasceu, é uma das coisas mais difíceis na história da humanidade. Mas não era impossível.
Mudar a cabeça de um ser humano que tem a maldade na essência, entretanto, talvez seja. Foi por isso que usei toda a minha habilidade até a exaustão para ganhar o processo contra meu pai, e afastá-lo do cargo. Foi talvez o momento mais doloroso da minha vida, me ver quebrando completamente qualquer laço que me ligasse a alguém que me deu a vida, mas nunca me arrependi. Era o justo a se fazer diante de toda a crueldade e sofrimento que ele causou, a inúmeras pessoas, com suas decisões.
No dia em que ganhei a causa contra ele e cheguei no meu recém alugado apartamento a beira de um colapso nervoso, antes de começar a chorar, li a notícia que mudaria tudo.
Os idols, em massa, haviam decidido entrar em greve.
Greve de idols.
Minha primeira reação foi gargalhar. Primeiro de incredulidade, a completa descrença de que aquela notícia era real. Tinha que ser algum site sensacionalista, aquilo parecia ridículo. Então gargalhei de nervosismo, desespero, desequilíbrio, até chegar a completa histeria.
Aquilo estava mesmo acontecendo? Todas as fontes pareciam confiáveis, a notícia era clara “Greve de idols: Artistas entram em greve total de suas atividades, até que leis mais justas sejam implementadas.”.
Não havia mais artistas em programas de televisão. Praticamente todos os show e lançamentos foram adiados. As punições severas das empresas escancaradas até serem compreendidas como crimes contra os direitos humanos. Artistas apoiando artistas, todos se mantendo irredutíveis sobre o que a greve demandava.
Era o assunto mundial mais discutido desde jornais até estudiosos famosos, até que chegou aonde era realmente importante para indústria capitalista. No dinheiro. As ações caíram a níveis desesperadores muito rápido, era praticamente impossível reaver os bilhões de wons que perder todos aqueles acionistas e patrocinadores causaria. O Kpop impulsionava a economia, o turismo e a diplomacia no país, sem isso, com todos os âmbitos abalados, era claro que eles perderiam muito mais se continuassem assim, então eles precisaram ceder. A batalha pela implantação das leis foi vencida e muito lentamente começou a caminhar.
Eu não pude sequer comemorar. Infelizmente o impacto que toda essa situação teve no país foi desolador. A arte, responsável por ser o espelho da vida, através da qual compreendemos nossa realidade, agora mostrava uma realidade cruel, e toda a beleza das coisas parecia abalada. As pessoas sorriam menos, ouviam menos música, pareciam ver menos cores na vida ao seu redor.
Mas se tem algo que toda essa história da revolução me ensinou foi que grandes mudanças começam com pequenos atos, pequenos mesmo, quase insignificantes, porém que quando são compartilhado pelo coração de milhares de pessoas boas, pode mudar o mundo. E assim foi criado uma ONG que ajudou financeiramente artistas independentes a voltarem a produz músicas, a se reerguer sem depender das grandes corporações e ter a liberdade de fazerem o que amavam. Eram os fãs e os artistas trabalhando lado a lado, como um só.
Pouco a pouco, como uma nova vida nascendo e se desenvolvendo, a arte foi voltando a ser o que era antes. Um sopro de esperança para um mundo insano. Nossos artistas favoritos voltaram a produzir hits de sucesso, voltaram a lotar estádios e a levar felicidade a bilhões de pessoas pelo mundo. O Kpop nunca mais foi o mesmo, mas ninguém gostaria que fosse porque, se hoje os membros do BTS tem a liberdade de mostrarem suas tatuagens, assumirem seus relacionamentos, suas sexualidades e dizer o que pensam, foi porque lá atrás nós começamos isso com uma simples ideia.
— E agora, sete anos depois da tão citada Revolução, você acha que os objetivos que vocês buscavam foram alcançados, ? — A entrevistadora pergunta.
— Não — respondo com uma convicção lenta, ainda mantendo meu rosto impassível. — O mundo ainda precisa de muita mudança para gente ter a capacidade de olhar e dizer estamos vivendo certo, somos bons seres humanos. Não adianta haver uma mudança estatal, em toda a estrutura de um país, se não houver a mudança mental das pessoas. Os erros estão enraizados na cultura e levam gerações para serem superados. Enquanto ainda houver pessoas que tratam artistas como objeto, mercadoria, enquanto houver a desumanização de vidas, a nossa luta continua. E sempre que preciso reavivar a humanidade que existe dentro de mim, eu me apego na arte. Na música. Nas pessoas que eu amo e nos artistas que me inspiram.
A entrevistadora sustenta meu olhar com profissionalismo, quase hipnotizada pela minha fala e a longa história que concordei, pela primeira vez, deixar ser gravada. Ela olha pela enorme parede de vidro que mostra o bosque no quintal dos fundos da minha casa, coberto pela neve e suspira pesadamente.
— Acho que com isso concluímos — ela sinaliza para o cameraman desligar os equipamentos — Podemos parar pra tomar uma água e depois gravamos um agradecimento final? É muita informação pra processar, eu me sinto um pouco tonta — ela confessa, sem graça.
— Sem problema, querida — Sorrio sincera e me levanto da poltrona de couro que ocupei pelas últimas horas para a entrevista — Também preciso de uma bebida, mas depois de reviver todas essas lembranças, acho que prefiro gin, tudo bem por você? — ela assente.
— Posso perguntar uma coisa um pouco mais pessoal? — ela olha para as câmeras ao longe, se certificando de que estão desligadas e então sussurra, se inclinando em minha direção — Me perdoe a indiscrição, mas eu sou Army desde o início da carreira do BTS, acompanho e apoio eles até hoje então preciso saber, como uma fã que shippava muito vocês dois: o que houve entre você e o ?
Eu sorrio abertamente, soltando uma risada quase sem graça. Giro o anel prateado em meu dedo enquanto bebo o conteúdo do meu copo, cogitando contar ou não. Havíamos combinado de não esconder nossa relação, e apesar de estarmos há muito tempo fora dos holofotes por eu ter ficado fora do país para concluir minha tese, logo estaria na mídia, afinal meu futuro marido era um dos sete donos da maior gravadora e empresa de entretenimento da Coreia do Sul. E eu estava tão feliz que não havia porque esconder.
— Ele é o amor da minha vida — levanto a mão em frente ao rosto e mexo os dedos.
Seus olhos se cravam na aliança e sorriso que ela abre é tão sincero, que meu peito se enche de um sentimento bom. O de não precisar ter medo de ser eu mesma, de ser livre. Afinal quando você ama algo precioso, na forma mais pura e altruísta de amor, como os fãs amam seus ídolos, como aquela fã em frente a mim devia amar , você a deixa livre para ser feliz do jeito que ela escolher.
E havia escolhido, naquela manhã, entre lençóis bagunçados e beijos desesperados de saudade, me pedir em casamento e ser feliz ao meu lado para o resto das nossas vidas.

FIM