15. I’ll Be OK

15. I’ll Be OK

  • Por: Camila Fieri
  • Categoria: Especiais | McFLY
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Sinopse: Dougie Poynter sempre seguiu o lema YOLO, fugindo da depressão que o assombrava até que um dia percebeu que estava no fundo do poço e decidiu colocar um fim. Foi atrás de ajuda e se internou numa clínica de reabilitação, onde conheceu uma garota com tantos problemas quanto ele. Já dizia o ditado: há males que vêm para o bem!

Capítulo Único

Dougie Poynter do McFLY entra em centro de reabilitação com estresse.

Essa era a notícia que estampava todos os jornais do Reino Unido, o tema era retratado em todas as revistas teens do mundo, fãs estavam preocupados com seu ídolo, apavorados com o que o futuro aguardava para a banda.
Harry, Danny e Tom estavam com medo que tais manchetes e notícias pudessem atrapalhar o tratamento do amigo caso ele tomasse conhecimento delas. Seria uma nova era para o McFLY, mas eles passariam por isso juntos, como sempre passaram desde o começo da banda. O que realmente importava no momento era a saúde física e mental de Dougie e eles fariam qualquer coisa que estivesse aos seus alcances para protegê-lo.
O baixista do McFLY queria acreditar que aquela era a melhor alternativa, que estava pensando corretamente em escolher se internar em uma clínica de reabilitação para acabar com seu vício em drogas e bebidas, além de querer se tratar da profunda depressão em que se encontrava. Mas estava com medo do que as pessoas iriam pensar, não queria que associassem sua internação com o término de seu namoro com Frankie, também não queria que descobrissem tudo que ele vinha escondendo por muito tempo, assim como não queria desapontar seus fãs.
Dougie sabia que ficaria pela clínica apenas por algumas semanas, afinal sua banda tinha uma turnê para fazer dentro de dois meses, por isso havia decidido manter o mínimo de contato com os outros pacientes. Participaria das reuniões em grupo e das atividades, mas seria apenas isso. Poderiam achar que fosse prepotência da sua parte se isolar de tal maneira, mas Dougie estava apenas focado em uma coisa, e não colocaria nada a frente de sua recuperação.
Estava deitado em sua cama olhando para teto refletindo como ele havia chegado naquele estado; se falassem ao Dougie de 15 anos que aos 24 ele estaria numa clínica de reabilitação, após um término de namoro, vício em drogas e bebidas e um episódio de tentativa de suicídio, ele nunca acreditaria, mas, talvez, tentaria evitar chegar àquele ponto.
Dougie estava perdido em pensamentos quando ouviu uma batida na porta, estranhou, pois os enfermeiros só passariam por lá a noite e não poderia ter nenhuma visita em seu primeiro dia. Bateram de novo e o rapaz levantou-se para abrir, estranhando tudo aquilo. Ao abrir deu de cara com uma garota que não perdeu tempo e adentrou ao quarto.
– Sem querer ser mal-educado, mas eu não lhe dei permissão para entrar em meu quarto.
– Ops foi mal! – Ela falou, dando de ombros, no entanto permaneceu lá. – Eu sou a , sua nova vizinha de quarto. Soube que você é novo, mas não se preocupe, aqui é como se fosse um spa de férias, pelo menos é assim que eu penso sempre que eu venho pra cá. – A garota não parava de falar nem por um segundo, causando um espanto em Dougie.
– Você vem muito pra cá? – ele perguntou quando ela ficou minimamente quieta.
– Defina muito? Essa é a quarta vez que eu venho pra cá, sabe como é, meus médicos acham bom eu passar um tempo por aqui, não importa como eu esteja, eles tem medo de que eu faça algo com que eu vá me arrepender, minha mãe tem medo também, mas eu tenho certeza que pra ela é um alivio quando eu não estou em casa para dar um pouco de paz pra ela – ela disse com um pingo de agressividade na voz. – Ei, eu não sei seu nome ainda e eu até já te falei que eu tô sempre aqui.
Dougie se assustou com o fato de que a garota não havia lhe reconhecido, será que ele estava tão acabado assim? Se questionou, já que ela parecia ter idade suficiente para ter visto todo o auge da sua banda e ser uma fã.
– Você não me reconheceu? – ele perguntou espantado.
– Eu deveria? – ela disse não dando a mínima pelo tom de voz dele.
– Talvez, você não parece muito velha e nem muito nova, deve conhecer o McFLY. De qualquer forma, meu nome é Dougie, sou baixista da banda.
– Acho que já ouvi falar, mas não sou muito fã dessas bandas de hoje em dia, prefiro mais os clássicos como Beatles, Joy Division, Led Zeppelin. Sem ofensas.
– Não ofendeu!
Dougie que estava determinado a ficar naquele lugar sem fazer nenhum tipo de amizade, de repente se sentiu cativado pela menina. Não sabia se o fato de ela não dar a mínima por ele ser um baixista famoso ou pelo jeito dela, mas sentia que ela era um pouco diferente de tudo aquilo que ele conhecia. No entanto, mesmo a menina tê-lo surpreendido, ele gostaria de passar um tempo sozinho e se preparar para os dias seguintes, por isso pediu educadamente para que ela saísse, alegando que queria descansar um pouco.

Alguns dias se passaram e Dougie já estava se acostumando com a sua nova rotina: acordar, tomar café da manhã, voltar para o quarto, esperar aparecer pra ficar falando sem parar, almoçar, ir para a reunião em grupo ou atividade do dia, jantar, voltar para o quarto onde com certeza apareceria de novo e depois de um tempo de conversa, expulsá-la para que pudesse dormir em paz e repetir tudo no outro dia.
Mas naquela sexta feira, a mulher não apareceu após a refeição matinal, causando uma leve estranheza no rapaz, que decidiu não se preocupar achando que ela apenas havia dormido demais e que a qualquer momento ela apareceria por lá falando sobre um monte de coisa e não lhe dando nem tempo de responder.
Aproveitou aquele momento sozinho para escrever e relembrar das músicas que já havia escrito. I’ll Be Ok passou pela sua cabeça e achou irônico como a música descrevia tudo o que ele passou e estava passando nos últimos tempos. Sentia que tudo estava dando errado, seu namoro havia acabado, seus melhores amigos tinham relacionamentos duradouros, até Danny parecia estar se ajeitando com Georgia, e com toda a certeza que todo o álcool que ingeriu não havia facilitado a sua vida, muito pelo contrário, era um dos motivos de estar onde estava.
Quando Dougie saiu de seu quarto em direção ao refeitório para almoçar, deparou-se com uma movimentação no corredor e, principalmente, no quarto ao lado. Tentou perguntar para algum enfermeiro o que estava acontecendo, mas não obteve nenhuma resposta. Sabia que se permanecesse ali parado de nada adiantaria, por isso foi almoçar decidido a descobrir o que tinha acontecido no quarto de durante a reunião da tarde, onde ele esperava encontrar com a mulher e obter uma explicação.
A terapia em grupo havia sido calma, Dougie se manteve quieto durante todo o tempo, estava preocupado demais com , a garota que sempre lhe enchia o saco e estava presente em todas as atividades da clínica esteve sumida o dia inteiro, por isso assustou-se quando a psicóloga lhe dirigiu a palavra perguntando o que lhe atormentava ao final da terapia.
– Dra. Helen, eu estou preocupado com a , minha vizinha de quarto, ela não apareceu no meu quarto após o café da manhã, coisa que ela sempre faz, quando eu sai para almoçar estava tendo uma movimentação em seu quarto, além de também não ter aparecido na terapia hoje. Será que você poderia me dizer se aconteceu algo com ela?
– Senhor Poynter, o caso da senhorita é muito delicado, não sei se vocês já conversaram sobre isso. – A terapeuta disse cautelosamente.
– Pode me chamar de Dougie, por favor! – ele disse sendo educado. – Nunca conversamos sobre os motivos que trouxeram cada um pra cá, mas ela já me disse que não era a primeira vez dela aqui, e que ela via toda a estadia como um spa de férias.
– Dougie, me acompanhe até a minha sala, por gentileza. Acho que precisamos conversar sobre a senhorita , já reparei que ela é a única paciente que o senhor tem contato por aqui.
Dougie seguiu a psicóloga com uma sensação ruim dentro do peito. O que poderia ser tão grave para justificar o sumiço de sua colega? E por que a dra. Helen precisava falar consigo em sua sala?
Assim que adentraram a sala, a mulher pediu para que o rapaz se acomodasse em uma das cadeiras a frente de sua mesa, separou uma pasta de prontuário de paciente e começou a falar:
– Dougie, como já te disse, essa não é a primeira vez que ela está aqui, realmente, talvez esta seja a terceira ou quarta internação desde que ela entrou na faculdade, o que já fazem dois anos. Ela sofre de Transtorno Afetivo de Bipolaridade do Tipo I, você sabe o que é essa doença ou tem alguma ideia? – ela perguntou de forma pedagógica.
– Já ouvi dizer, sei que tem algo a ver com mudanças de humor, mas é apenas isso.
– Você está um pouco certo. O TAB é uma doença em que as pessoas sofrem com essas alterações de humor, mas não como muita gente acredita. Ela pode ser resumida em dois sintomas, a depressão e a mania. A depressão é muito mais frequente que a mania, e acho que não precisamos muito nos estender muito neste sintoma, pois acredito que o senhor o conhece muito bem – a mulher disse sabendo que um dos motivos da internação do baixista era a depressão e como ele quase tirou a própria vida por causa dela. Esperou um balançar de cabeça positivo dele para continuar com a explicação. – Pois bem, a mania é uma fase mais eufórica, tem algumas características bastante notáveis como por exemplo: a inquietação, aumento de energia, perda de inibição social, necessidade diminuída de sono, irritabilidade, fuga de ideias ou pensamento corrido entre outros sintomas.
Enquanto a psicóloga falava Dougie ia reconhecendo algumas atitudes de , desde o dia que ele se internou e ela surgiu no seu quarto falando sem parar até as conversas que eles tinham, nas quais ela sempre estava se mexendo.
– Mas o que isso tudo tem a ver com o sumiço dela e a movimentação no corredor? – Ele perguntou tentando entender em que ponto a mulher queria chegar.
– Acontece, Dougie, que a senhorita estava vivendo a fase da mania, a mãe dela sempre a interna aqui quando ela chega nessa fase, porque assim que ela acaba, começa a se encher de pensamentos suicidas, causados pela culpa que ela sente. Ela acha que é um peso para família e amigos. – Explicou calmamente, retornando a falar após respirar fundo: – E ontem a noite ela tentou se matar. Ela guardou todos os remédios que eram lhe dados para que dormisse e tomou tudo de uma só vez ontem. Por sorte, como já conhecemos seu quadro, mantemos alguém sempre de olho, por isso conseguimos socorrê-la.
Dougie ficou atônito com a notícia, ele sabia que a mulher tinha algum problema, ali não era uma colônia de férias, mesmo que ela sempre brincasse com isso. No entanto, nunca passou pela sua cabeça que ela pudesse sofrer com algo sério, ele sabia que suicídio era algo que as pessoas recorriam quando já não tinham mais forças para lutar, quando a vida já não bastava mais e a dor era intensa demais; saber que sua vizinha poderia estar sofrendo de tal forma o deixou machucado e triste.
– Você pode ficar aqui o quanto quiser querido, mas quando se recuperar, aconselho a ir conversar com . Não mencione nossa conversa, eu tenho certeza que ela contará para ti assim que se sentir pronta pra se abrir. Ela andou perguntando sobre você hoje, e posso dizer que mesmo quando ela chega aqui sendo toda sociável, ela não constrói uma amizade como a que construiu contigo em tão pouco tempo. – Helen disse carinhosa para Dougie, sabia que ele estava tentando lidar com tudo aquilo e sabia o quão difícil era pra ele, ainda mais por tudo que ele vinha passando.
O baixista não passou muito tempo na sala, queria encontrar sua vizinha e conversar com ela, dizer que ele estaria por perto se precisasse dela, mesmo sabendo que esse discurso era horrível de se ouvir, ele já esteve em seu lugar. Diversas vezes seus amigos falavam isso para ele quando ele estava meio pra baixo, ele nunca deu ouvidos, indo encontrar refúgio no álcool e nas drogas.
Bateu na porta ao lado do seu quarto, mas não obteve nenhuma resposta, tentou novamente, ouvindo um sussurro o mandando ir embora. Ignorou-o e entrou no quarto, encontrando chorando encolhida em sua cama.
– Eu não te dei permissão para entrar ao meu quarto, Dougie – ela disse ainda sem olhar para ele.
– Engraçado, me lembro de ter te falado a mesma coisa no meu primeiro dia aqui. Então acho que essa é a minha vingança pessoal por você não ter me deixado em paz aquele dia – ele disse brincando. – Eu não vou sair, , antes que você me mande embora.
– O que você quer? – Ela perguntou finalmente olhando para ele.
– Quero saber como você está. Eu sei que a gente se conhece há menos de uma semana, mas é tempo suficiente pra eu me preocupar com você, já que, aparentemente, você fez meus planos de não manter contato com ninguém aqui dentro irem por água abaixo.
– Eu não sei o que você quer que eu diga! Eu tô péssima, provavelmente você já deve estar sabendo o que aconteceu ontem à noite e eu só não aguento mais isso tudo.
– Eu sei como é isso. A gente nunca conversou sobre o porquê de eu estar aqui, mas eu quero falar! Você é a única pessoa que eu converso nesse lugar. E o que eu menos quero é que você sofra!
– Dougie, só vai embora por favor! Eu não estou afim de conversar hoje. Amanhã a gente se fala. Só faz o que eu estou te pedindo.
Dougie se aproximou da mulher e deixou um beijo em sua testa lhe desejando boa noite e dizendo que eles conversariam amanhã depois do café da manhã, pedindo, em seguida, para que ela ficasse bem.
Ao retornar ao seu quarto, sua cabeça estava fervendo. Os acontecimentos do dia trouxeram lembranças dolorosas, e, pela primeira vez em dias, estava sentindo falta do álcool correndo em suas veias e das substâncias que faziam esquecer-se de tudo e lhe traziam uma falsa sensação de conforto. Observou suas mãos tremendo e o frio que estava sentindo, mesmo com o calor que estava fazendo lá fora.
Chamou a enfermeira que estava de plantão no corredor naquela noite e contou que estava começando a sentir os sintomas de abstinência, conforme lhe haviam passado quando deu entrada na clínica. A mulher foi em busca do medicamento dado para estas situações. Dougie não sabia os efeitos que o remédio teria, só desejava que isso o ajudasse a não mais sentir aquela sensação.
Enquanto esperava o remédio fazer efeito, o rapaz se sentou em uma cadeira a frente de uma escrivaninha e começou a escrever:

Darkness transforms you
Haunts you!
When you think you’re doing your best.
You’ll realize that is the worst.
And then you’ll drawn on your own.

 

This bottle will be your only friend
Because you think nobody will be there for you
And maybe you’re right
How can anyone stand by you when yourself can’t do it?

You run away from people
From family and from your friends
Your only haven is drugs and alcohol
They do what no one else does
But you don’t see the price you’re going to pay for them.

Ao terminar de escrever, sentiu-se aliviado, parecia que todo aquele sentimento estava preso em si há muito tempo estava se esvaindo. Ele nunca havia sido tão sincero quanto havia sido com esse texto. Ele colocou muita verdade de si. Enquanto escrevia, flashes de momentos da sua vida passavam pela sua cabeça, diversas vezes se isolava em seu quarto e suas únicas companhias eram as bebidas e as drogas. O preço estava pagando agora com a sua internação, ficando longe de tudo e todos que amava, mas agradecia, pois, o preço poderia ter sido muito mais caro. Não se orgulhava do seu passado, mas se orgulhava do que tinha escrito.
Naquela noite, Dougie não dormiu. Toda vez que pegava no sono, um pesadelo lhe assombrava. Começou com ele se perdendo numa floresta escura e todos os caminhos que ele pegava, o levavam para o mesmo lugar. Acordou suando e demorou para pegar no sono novamente, mas preferia ter se mantido acordado, já que novamente teve um pesadelo com o qual ninguém o reconhecia e nem se lembrava dele, sua mãe o ignorava, bem como sua irmã; seus colegas de banda falavam como se ele nunca tivesse existido; os únicos que pareciam estar fazendo algo a respeito eram seus fãs, no entanto eles estavam era planejando um funeral e falando dele como se tivesse morrido. Dougie acordou no susto e decidiu que não dormiria mais naquela noite.

Na manhã seguinte o baixista estava irritado, não só pela falta de sono, mas porque tinha a sensação de que seus remédios não estavam surtindo efeito e tudo o que ele queria naquele momento era uma boa dose da bebida mais forte para que tudo aquilo passasse. Sabia que precisaria intensificar suas consultas com psicólogos e psiquiatras da clínica, mas não queria. Ele só queria desaparecer.
Ouviu baterem em sua porta e momentaneamente pensou em mandar a pessoa do outro lado ir embora, não queria ver ninguém, porém, lembrou-se que poderia ser querendo conversar, por isso levantou rapidamente para abrir a porta.
– Oi, Poynter! Desculpa aparecer aqui tão cedo, mas eu não estava conseguindo mais dormir e ouvi uns barulhos vindos do seu quarto, então imaginei que você também estivesse acordado.
– Está tudo bem, . Digamos que eu não tive a melhor das noites de sono.
Os dois se sentaram na cama e um silêncio constrangedor se instalou. A mulher olhava para tudo no quarto, menos para o rapaz a sua frente, que por sua vez só conseguia encarar as próprias mãos. Ambos tinham tanto para falar, mas não sabiam por onde começar.
, eu queria te contar a minha história, mas eu não sei nem por onde começar. – Dougie disse meio sem jeito.
– Talvez do começo? – ela finalmente olhou para ele.
– Sim, eu sei, mas é complicado. – Ele riu meio sem graça.
“Eu não sei exatamente quando isso tudo começou, sei que em um momento eu estava bebendo controladamente e no outro eu estava indo com o Danny comprar várias garrafas de vinho. Sabe como é, eu achava que vinho, por ser mais sofisticado, não daria aquele status de bêbado. Quando me dei conta, o álcool não era mais suficiente e por sempre ter contato com muitas pessoas, eu sabia que poderia experimentar outras coisas, foi assim que passei do álcool para outras substâncias. Ainda bebia sempre, mas eu precisava de mais.
Eu estava num ponto em que eu acordava e a primeira coisa que eu ia fazer era me drogar e beber, só porque eu queria esquecer tudo aquilo. Eu me sentia um lixo, toda a confiança que eu tinha conquistado por causa do McFLY havia ido embora. Morria de medo dos meus amigos descobrirem e eu decepcioná-los por isso. O único que sabia superficialmente da minha situação era o Harry, mas ele não tinha dimensão do tamanho do meu problema.
Eu me lembro exatamente de quão vazio eu me sentia, era como se nada valia a pena. Eu queria parar com tudo aquilo, mas não sabia como. Até que me veio a solução. Eu não sabia como parar de beber ou de me drogar, mas eu sabia uma forma de acabar com tudo, acabar com o vazio, com a sensação ruim que eu sentia. A única solução que me parecia boa o suficiente era o suicídio. Eu pensei em várias alternativas e fui descartando conforme as possibilidades de darem certo. Eu sabia que cortar meus pulsos não resolveriam porque ao ver o sangue saindo eu desmaiaria, os cortes poderiam não ser suficientes para causar minha morte. Eu não tinha ideia de como me enforcar. Até que me lembrei de ver uma vez uma alternativa na qual se resumia a uma mangueira e a um carro.
Fiz tudo conforme deveria ser feito, não senti medo, na verdade eu não senti nada. Talvez tenha sentido alívio por finalmente colocar um fim naquilo. No entanto, eu não conseguir ter resultado. Fiquei um tempo no carro, mas o máximo que eu senti foi um pouco zonzo, por isso desliguei o carro e fiquei irritado. Nem para me matar eu prestava. Eu não me sentia arrependido por ter tentado, e acho que talvez tenha sido nesse momento que eu percebi o tamanho do estrago em mim mesmo.
A banda sempre tinha um médico que nos acompanhava, eu cheguei para ele e contei meu problema, ocultando a parte do suicídio, eu não me sentia orgulhoso de toda a minha trajetória até ali, mas eu ter falhado na minha tentativa era o que mais me envergonhava. Nosso médico me encaminhou para um conselheiro que decidiu me enviar para cá. A parte mais difícil foi ter que contar para os meus amigos sobre tudo. Mais uma vez eu ocultava o suicídio.
Harry, como já disse, tinha uma noção do que estava se passando, mas ele não imaginava o tamanho do estrago. Tom ficou decepcionado consigo mesmo por não perceber o que se passava comigo, e Danny não sabia nem o que falar.
Minha ultima noite antes de vir para cá foi na companhia do Harry, da Izzy e de Tom. Eles tomaram todo o cuidado para que eu não me embebedasse ainda mais.”
Ao terminar de contar toda sua história, Dougie se sentiu aliviado. Era a primeira vez que ele contava sobre sua tentativa de suicídio, mesmo que ainda por cima, para uma pessoa que não fosse seus terapeutas da clínica. E, naquele momento, ele percebeu que faria de tudo para permanecer sóbrio. Ele faria de tudo para melhorar e voltar para a sua banda. Não estava sendo fácil sua luta, mas ela valeria a pena.
ficou em choque com toda a história, sabia, obviamente, que Dougie tinha algum problema para estar naquele lugar, mas não imaginava nem metade do que se passava. A mulher começou a se sentir confiante para contar tudo o que se passava na sua cabeça. Sabia que o homem poderia lhe entender. E que não a julgaria, isso era o principal.
– Dougie, eu não sei nem o que te dizer. Mas eu te entendo. Quer dizer, não entendo exatamente o porquê de você ingerir álcool e outras substâncias, até porque eu nunca o fiz exatamente pela minha condição de vida. Mas eu te entendo sobre a sua tentativa de suicídio e sobre como você se sentiu após ter falhado.
Ao contar tudo, Dougie não imaginou que a menina se abriria com ele, mas estava feliz que ela iria fazê-lo. Por isso se aproximou dela, e segurou sua mão numa tentativa de lhe passar segurança e de que ele estaria ali pra ela, no que precisasse.
“Eu acho que tudo começou quando eu tinha 16 anos, foi uma fase bem complicada para mim. Meus pais se separaram e a galera da escola sempre me excluíam, então além de eu ter que lidar com meu pai saindo de casa porque ele decidiu trair minha mãe com uma mulher 15 anos mais nova que ele, eu tinha que lidar com as pessoas da escola que não queriam nem ao menos fazer trabalho em grupo comigo.
Eu tentei lidar com isso da melhor forma possível, mas fale isso para uma adolescente que acha que tudo é um milhão de vezes pior do que realmente é. Então eu comecei a entrar em depressão, eu não queria sair de casa, eu ficava deitada o tempo todo, meu rendimento escolar começou a cair muito, até porque eu mal ia às aulas. Enfim, minha mãe não aguentava mais me ver naquele estado, o que fez com que ela procurasse algum terapeuta pra me ajudar. Mas eu recusava qualquer tipo de ajuda. Até a minha primeira tentativa de suicídio. Para alguém que já se cortava, essa maneira parecia muito mais simples e eu teria me sucedido se minha mãe não tivesse chegado mais cedo do trabalho e me encontrado no chão do banheiro sangrando. Foi nessa época que eu fui internada pela primeira vez, mas não aqui. Foi em um lugar muito pior, que eu não gosto nem de lembrar.
Passei dois meses internada onde claramente me diagnosticaram com depressão e voltei para a escola depois. Por incrível que pareça, meu rendimento voltou ao normal, eu estava indo bem, tinha até feito uma amizade com uma garota nova.
E então veio a faculdade, há dois anos, consegui entrar em Literatura Inglesa. Sempre foi meu sonho ser professora, e dei sorte de entrar em um curso que era exatamente para isso. No entanto, eu não contava que pudesse ter tanta pressão. Meu sono diminuiu drasticamente, eu não conseguia mais prestar tanta atenção nas aulas porque eu simplesmente não conseguia focar ou ficar parada, de uma hora para outra eu comecei a conversar com metade do campus e tinha momentos de explosão de raiva com a minha colega de quarto.
Isso durou por umas três semanas, até que, de repente, eu voltei a sentir tudo que eu tinha sentido quando tinha 16 anos. Comecei a sentir que era um peso para minha mãe porque ela ficava sempre preocupada se eu estava tomando direito meus remédios, sentia que era um peso para meu pai que vinha me visitar a cada 15 dias e achava que ele só fazia isso por obrigação, achei que era um peso para a minha colega de quarto simplesmente por ela ter que lidar comigo. Enfim, eu era um peso e achava que a melhor maneira de acabar com isso tudo era se eu colocasse um ponto final na minha história. Eu aproveitei que minha cartela de antidepressivo estava no começo e ingeri todos de uma só vez. Mais uma vez não fui bem-sucedida, e uma colega de sala me encontrou no quarto desmaiada. Ela ligou para o hospital mais próximo que correram com a ambulância para me salvar.
Uma curiosidade: o processo de desintoxicação é horrível! Você se sente acabada e com dor no estômago.
Depois desse episódio minha mãe achou que seria melhor eu passar umas semanas em uma clinica de reabilitação. Essa foi a primeira vez que eu vim pra cá. Eu fui muito bem tratada aqui, por isso que sempre que eu tenho que voltar, esse lugar é a minha primeira escolha, todo mundo me trata bem e ninguém fica: nossa, coitada dessa garota, ela tentou suicidar! Não! Aqui eles me tratam normalmente. Além disso, foi aqui que eu fui diagnosticada corretamente.
Dougie, eu tenho TAB, Transtorno Afetivo de Bipolaridade do tipo I. Quando você me conheceu, eu estava vivendo o estado que chamamos de mania que faz com que a gente fique eufórico e apresente aqueles sintomas que eu falei agora há pouco. Minha mãe e eu decidimos que o ideal seria sempre me internar aqui depois de uma semana desse estado, porque logo que ele acaba a depressão chega de uma maneira devastadora e eu sempre recorro a tentativa de suicídio para aliviar a dor que eu sinto aqui dentro.”
– Ontem foi um desses dias, na verdade anteontem, se não fosse a Jessie, eu provavelmente estaria num caixão nesse momento. – A garota tentou fazer uma piada mórbida.
– Nem brinque com isso ! – Dougie disse fingindo estar bravo.
Após todo o relato da mulher, um silêncio se instalou no quarto, não constrangedor como antes, mas confortante. Os dois estavam pensando sobre o que levou cada um até lá, sobre toda a trajetória deles. Parecia que de alguma maneira eles estavam destinados a se conhecerem exatamente ali. Dougie estava fazendo carinho na mão de quando ouviu ela chorando.
– Ei, , o que foi? Não precisa chorar. – Ele disse sem saber como lidar.
– Tá tudo bem! Eu só nunca pensei que fosse tão difícil colocar tudo isso pra fora de uma vez, mas ao mesmo tempo eu me sinto tão bem. De alguma forma isso parece certo – ela disse olhando nos olhos do baixista.
– Eu te entendo. Eu te contei coisas que eu nunca pensei que fosse dividir senão com o meu terapeuta. Mas eu me sinto bem.
Os dois ficaram lá conversando sobre qualquer coisa até o horário de almoço e depois voltaram para o quarto do baixista, após pedirem dispensa da atividade da tarde para a Doutora Helen, que prontamente os dispensou imaginando que ambos haviam conversado sobre muitas coisas.

O primeiro fim de semana de Poynter na clínica havia chegado, e ele estava ansioso para ver Tom, Harry e Danny. Queria contar tudo pra eles, sobre como sentia que estava melhorando, como lhe fazia bem, sobre ele ter tido uma crise horrível, mas que achava que estava começando a ter controle. Além disso, queria apresentar seus melhores amigos da vida, sua segunda família para .
não podia negar que também estava ansiosa para conhecer os famosos companheiros de banda do Dougie, durante essa semana todas as histórias que ele contava algum deles estava envolvido. De certa forma sentia inveja de Dougie por ter pessoas como seus amigos ao seu redor, mas ficava feliz que ele tivesse tal apoio nessa luta.
Estavam sentados na área de lazer do jardim quando Dougie avistou seus amigos. Seu primeiro impulso foi sair correndo para abraçá-los. Não se lembrava quando havia sido a última vez a ficar tanto tempo sem vê-los. Naquele momento ele se sentia verdadeiramente feliz e completo.
– E aí, cara? Como você está? Estão te tratando bem? – Harry foi o primeiro a falar, preocupado com o amigo.
– Eu estou bem. Definitivamente bem! – disse após abraçar a todos – eu quero apresentar uma pessoa pra vocês.
– Não me diga que você já está transando com uma enfermeira!
– Cala a boca Danny! Não é nada disso. É só uma amiga que eu fiz aqui – disse empurrando o amigo.
– Amiga é? Huh, que interessante. Alguém quando veio para cá disse que não queria contato com ninguém. – Tom disse tirando sarro.
Dougie decidiu que iria ignorar o que eles falavam, era sempre assim quando os quatro estavam juntos. Um sempre era zoado pelos outros, geralmente Danny com suas lerdezas, como na vez em que afirmou que ovo era um vegetal. Mesmo estando na clínica, o baixista estava começando a se sentir em casa, era esse o efeito que seus amigos tinham na sua vida.
– Caras, essa é , minha vizinha de quarto e a pessoa que acabou com meu plano de não falar com nenhuma outra pessoa senão os terapeutas e enfermeiros. , estes são: Tom, Harry e Danny. Não leve a sério nada do que eles falarem.
– Oi meninos, ouvi muito sobre vocês! – ela disse meio tímida.
– Ora, ora! Espero que o nanico não tenha nos difamados. – Tom disse fazendo graça. – Estamos felizes por ele ter encontrado alguém para fazer amizade aqui. Cá entre nós, ele consegue ser bem cabeça dura quando quer – falou baixo, mas não o suficiente para que Dougie não ouvisse.
– Hey! Pode parar de falar de mim Fletcher.
– Qual a graça de conhecer alguma amiga sua e não poder falar de você, hein? – Harry falou achando toda a situação engraçada e obteve um rolar de olhos como resposta de Dougie.
– Já que vocês querem ficar me zoando e eu, obviamente, não irei deixar. Vou contar um segredo pra vocês! – ele olhou pra que na hora percebeu o que ele ia falar e tentou de todas as formas atrapalhar para que ele não revelasse seu segredo – a não conhece o McFLY!!!
– Poynter eu vou te matar! – falou entre os dentes enquanto os meninos lhe enchiam de perguntas e achavam um absurdo ela não os conhecer.

Ao fim do dia enquanto estavam indo embora, Danny, Harry e Tom estavam felizes em ver como o amigo estava bem e saudável. Ficaram contentes de ver a amizade entre ele e , não sabiam o motivo de ela estar lá, mas isso não importava, pois sabiam que a garota estava sendo uma grande ajuda pro baixista.
Dougie, ao ver seus amigos irem embora, não ficou chateado como havia ficado em seu primeiro dia quando Tom o deixou ali. Pelo contrário, estava satisfeito consigo mesmo por sentir a sensação de estar cumprindo um dever, e ele sabia que aquele dever era o mais importante de sua vida.
, por sua vez, estava radiante por ter conhecido os melhores amigos de Dougie e por ter se dado bem com eles, parecia que se conheciam há anos. No entanto, ela ficou esperando o dia inteiro para ter um momento a sós com o baixista, precisava contar a ele que iria embora terça-feira, só não sabia como faze-lo ainda.

A segunda amanheceu preguiçosa, chovendo e com as temperaturas mais baixas. Dougie enrolou em sua cama o máximo de tempo possível, achando que a qualquer momento sua amiga bateria em sua porta. Ficou pensando sobre a visita de seus amigos no fim de semana e como era importante para ele que os rapazes se dessem bem com , não sabia o porquê exatamente, só de que isso era realmente importante. Decidiu se levantar e ir até o refeitório, encontrando a mulher caminhando em direção oposta a que ele estava.
– Bom dia, ! Já tomou café? – ele perguntou enquanto a abraçava.
– Já sim! Estranhei você não estar devorando a comida, mas achei que esse tempo fez com que você ficasse mais na cama, dorminhoco do jeito que é.
– Hey! Eu não devoro comida nenhuma e nem sou dorminhoco! – ele falou como se ela tivesse o ofendido. – Assim que eu terminar de alimentar o monstro que tem na minha barriga, vou até o seu quarto, tudo bem?
– Isso é desculpa pra você ficar devorando toda a comida sem ficar com peso na consciência né, Poynter? Tudo bem, acredite no que você quiser, mas nós dois sabemos a verdade – ela disse risonha – te espero lá no quarto então.
Enquanto a mulher seguia seu caminho, o homem ficou a observando. Ele agradecia a ela todos os dias, ela com certeza era uma das responsáveis por estar se sentindo melhor, e por incrível que pareça, não imaginava mais sua vida sem ela. sabia o animar como ninguém, e o fato de ter passado por coisas parecidas, mas ao mesmo tempo tão diferentes, fazia com que ele quisesse colocar ela num potinho e proteger de todo o mal do mundo. Não sabia quando esse sentimento de proteção surgiu, só sabia que ele gostava de se sentir assim em relação a garota.
Sabia que logo menos ou logo mais um dos dois partiria logo dali, mas ele faria de tudo para não perder o contato com ela. Queria levar a relação deles para além da clínica, não mediria esforços para que isso acontecesse. Esperava que ela pensasse do mesmo jeito, pois não suportaria não a ter mais em sua vida.
Enquanto Poynter tomava seu café da manhã, pensava em como contar a ele que estaria partindo no dia seguinte. Ela gostava de ter sua amizade, amava a relação que eles haviam construído ali dentro, era como se ninguém mais importasse se não os dois. Mesmo em tão pouco tempo, a confiança que ela sentia nele era gigantesca, e sabia que o sentimento era recíproco uma vez que ele confessou coisas a ela que nem mesmo seus amigos sabiam.
No entanto, havia uma parte de si que pensava que tudo que havia acontecido ali dentro se manteria ali. Seria impossível ser amiga de Dougie Poynter fora daquela clínica. Ele certamente esqueceria dela no momento que colocasse seus pés para fora daquele lugar. Além do mais, a realidade dos dois era bem distinta, enquanto ela era uma simples universitária que sonhava um dia ser professora de Literatura Inglesa, ele era o baixista de uma banda mundialmente conhecida. De jeito nenhum aquela amizade sobreviveria a isso.

Quando Dougie entrou no quarto da garota, a encontrou cabisbaixa, sabia que havia algo errado ali. Por isso seguiu direto em direção a garota e a abraçou pelos ombros, logo perguntando o que havia acontecido para ela estar daquele jeito, já que quando a encontrou no meio do corredor, ela estava totalmente diferente.
– Então Dougie, o que aconteceu é que eu tô indo embora amanhã – ela achou melhor dizer tudo de uma só vez. Era como se arrancasse um band-aid, quanto mais se enrolava, mais doía.
O loiro ficou atônito com o que ela havia dito. Não esperava que ela fosse embora dali tão cedo, quer dizer, estava feliz por ela poder continuar sua vida fora daquele lugar, mas não queria perder sua companhia sabendo que ele teria de ficar ali por muito mais tempo. Poderia soar egoísta, mas queria que ela ficasse ali por ele.
Ao ver que o rapaz ficou em silêncio, continuou:
– Os médicos avaliaram que eu já passei da minha pior fase e que eu posso voltar para a minha rotina lá fora. Obviamente ainda farei meu acompanhamento, mas eu não posso ficar muito tempo longe da faculdade. – Ficou um tempo quieta, voltando a falar em seguida – é sempre assim. Eu entro na segunda semana da mania e venho pra cá, faço meu tratamento até chegar a depressão de forma avassaladora e quando ela chega eu fico mais uns dias só para eles perceberem que está tudo sob o controle e daí eles me mandam embora. – Dougie ainda continuava em silêncio. Estava tentando digerir toda aquela situação – Fala alguma coisa, Poynter, por favor!
– Eu não sei o que falar, ! Eu estou feliz por você, obviamente! Mas eu não imaginava que você iria partir tão cedo. Eu achava que eu teria a sua companhia por mais pelo menos, sei lá, uma semana.
– Eu prometo que sábado estarei aqui bem cedo pra te visitar! – ela disse sabendo que isso poderia aliviar a tensão que havia se instaurado. Mas no fundo sabia que aquele contato entre os dois terminaria assim que ele saísse dali.

O dia seguinte chegou, e com ele a saída de da clínica. A mulher estava radiante de poder voltar a sua vida normal, apesar dos pesares ela amava sua universidade, amava seu curso e tudo o que ela fazia lá fora. Sair daquele lugar era como atravessar uma bolha, mesmo já tendo passado pelas experiências algumas vezes, sempre se sentia de uma maneira diferente. Desta vez, sentia que estava deixando uma parte de si lá dentro, e sabia que esse sentimento era devido a um certo baixista que roubou sua atenção desde que colocou os pés naquela clínica.
iria cumprir sua promessa ao rapaz e apareceria ali no sábado de manhã, de fato ser uma paciente do local poderia lhe trazer algumas vantagens, como poder entrar mais cedo em dias de visitas. Porém queria pensar em uma maneira de deixar Dougie preparado para seu discurso de que talvez eles nunca mais se vissem. Aquela vozinha dentro de sua cabeça não a deixava em paz, sempre falando que ela devia falar logo para o garoto que a amizade deles não tinha futuro, por serem de mundos diferentes. Ela queria ter esperanças, mas essa maldita voz não a deixava.
Quando o horário de saída chegou, sua mãe já estava lá acompanhada de seu pai, era sempre assim quando recebia alta os dois esqueciam todo o passado conturbado e apareciam lá para buscar e levá-la até a faculdade.
Depois de entregar todos os pertences para os pais, a garota disse que ia atrás de um amigo para se despedir. Não havia visto Poynter o dia inteiro, com exceção do café da manhã, sabia que ele estava a evitando, mas não deixaria que isso a atrapalhasse em sua despedida com ele. Bateu na porta do quarto algumas vezes, mas não obteve resposta. Abriu apenas para checar se ele realmente não estava lá, se surpreendendo ao ver o garoto deitado olhando para o teto.
– Dougie – ela disse hesitante – eu estou indo embora já.
– Tanto faz – ele disse ainda sem olhar para ela.
– Será que você pode falar comigo, seu idiota? Você me evitou o dia inteiro! E não é como se eu pudesse fazer algo a respeito da minha alta. Eu tenho uma vida lá fora assim como você. E eu já disse que eu volto sábado pra te visitar panaca! – ela falou irritada com a infantilidade do baixista.
Sabia que estava sendo um idiota ao tratar a garota desse jeito, mas ele não estava sabendo lidar com o fato de que não teria mais a companhia dela nos próximos dias. Vê-la irritada com a sua atitude, fez com que ele deixasse o sentimento de abandono de lado e se despedir direito.
– Desculpa , é que eu não tô sabendo lidar com isso. É estranho pensar que eu vou acordar amanhã e você não estará aqui pra me encher o saco como você sempre faz. – Ele disse se levantando e caminhando em direção a garota. – Eu vou sentir sua falta.
– Eu também vou sentir sua falta, Poynter! Mesmo você sendo um babaca – ela disse fazendo graça.
– Ah garota, me erra vai! Eu sei que você me ama e na verdade é uma fã do McFLY.
– Ai meu deus! Você descobriu meu plano! – fingiu uma cara de chocada. – Vim pra cá justamente porque Dougie Poynter, baixista da banda mundialmente famosa McFLY estava internado aqui.
– EU SABIA! Aquele papinho de só gostar de banda velha era bem estranho mesmo.
Depois da brincadeira ficaram em silencio se encarando. Dougie se aproximou da garota e a abraçou fortemente. retribuiu o abraço como se sua vida dependesse daquele momento. Eles sabiam que não havia mais como fugir daquilo. Ela iria embora e ele ficaria ali.
Enquanto se abraçavam, Dougie pensava em como falar para a garota que queria tê-la sempre na sua vida, mesmo fora daquele lugar, aliás pensou em diversos convites para fazer, mas naquele momento nada parecia bom o suficiente. o abraçava sabendo que, apesar de ainda vê-lo mais algumas vezes, seria a última vez que eles teriam um momento só deles.
E com o abraço mais longo que eles se deram, se despediu e foi atrás dos pais que estavam a esperando na recepção do local. Dougie ficou encarando a porta fechada se sentindo um inútil por não saber como falar para ela que queria manter aquela amizade.

Dois meses se passaram desde aquele fatídico dia em que deixou a clínica de reabilitação.
A garota realmente cumpriu sua promessa de ir visitá-lo nos dias de visita enquanto ele ainda estava lá. Mas ao ver as noticias de que o baixista havia tido alta e já estava com seus amigos ensaiando para os shows, soube que a história dos dois havia chegado ao fim. Por isso nem ao menos voltou ao local sabendo que não iria encontrá-lo.
O que ela não sabia é que no sábado seguinte a saída de Dougie, ele estava lá, esperando que ela aparecesse para visitá-lo. Poynter sabia que a menina não era fã de sua banda, por isso esperava que ela não soubesse que ele havia tido alta. Com isso bolou um plano com Harry de que estaria lá para quando ela aparecesse, diria que tinha tido alta e a chamaria para passar a tarde consigo.
Mas ela não apareceu. Dougie se sentiu decepcionado, estava esperando por aquele momento desde quando soube que teria alta. Seria a situação perfeita para chamar para um encontro, talvez contar que ela não saia de sua cabeça e que queria sim tê-la em sua vida, mesmo que fosse apenas como sua amiga, pois ela lhe fazia bem.
Dougie tentou encontrá-la nas redes sociais, no google, na lista de aprovados da faculdade que ela fazia. Tentou diversos meios para entrar em contato com a garota. Mas não conseguiu, falhou em todas as tentativas.

McFLY finalmente estava de volta. Os garotos estavam em turnê do disco Above The Noise. Um disco totalmente diferente do que eles já haviam feito, musicas de outros estilos, mas estavam animados. A sensação de estarem em cima do palco era a melhor, eles sabiam que lá eles podiam ser realmente eles mesmos.
O show seria em Londres, Dougie não sabia o porquê, mas sentia uma necessidade de falar da sua jornada na rehab, por isso antes de começarem a introdução de I’ll Be Ok, ele surpreendeu a todos com um discurso:
“Como todos aqui sabem, há uns dois meses eu fui pra rehab, diversos motivos que agora não cabem dizer aqui, mas eu queria falar o quanto eu sou agradecido por vocês me apoiarem, vocês não sabem como eu fiquei feliz ao descobrir sobre todo o apoio que vocês me deram enquanto eu estava lá. Aos caras que não hesitaram em nenhum momento em me ajudar, mesmo que isso pudesse trazer à nossa banda o fim, obrigado por sempre estarem por perto.
Enquanto eu estava na clínica eu refleti sobre como isso tudo é importante para mim, eu amo o que eu faço e me sinto muito sortudo por isso! Quis fazer essa fala antes de I’ll Be Ok porque essa música foi algo me deu forças pra continuar, pra me esforçar para melhorar. Além dela, eu busquei forças em uma pessoa que acabou com todos os meus planos de quando entrei lá, porém me ajudou de formas que talvez nem ela saiba.
Então se alguém conhecer alguma que estuda Literatura Inglesa, falem pra ela me procurar! Por favor! , eu sinto sua falta!”
O que Dougie não sabia era que naquele exato show, misturada entre a plateia, estava , que ficou em choque ao ouvir o que ele falou. Sabia que o garoto era louco, mas não àquele ponto.

Ao fim do show, estava decidida a ir até o segurança que cuidava do backstage e procurar por Dougie. A fala do garoto fez com que ela pensasse que talvez a amizade deles tivesse algum futuro ali fora, depois dela, ficou refletindo o restante do show, sobre como eles poderiam tentar fazer dar certo.
– Oi, eu sou , a garota que o Dougie está procurando – disse ao encontrar o caminho para o backstage.
– Muito engraçado garota, e eu sou irmão do Paul McCartney. – disse o segurança tirando sarro. Já tinha escutado umas dezenas de meninas falarem aquilo naquela noite.
– Não, moço! Eu tô falando sério. Eu realmente sou a , posso até te mostrar meus documentos.
– Olha garota, me desculpe, mas se eu acreditar em todas que vem até aqui falando que é eu estou fudido no meu trabalho.
A sorte pareceu bater na porta da garota, pois naquele exato momento em que estava quase desistindo e se virando para ir embora, Harry Judd apareceu e a reconheceu.
? É você mesmo? – Perguntou surpreso.
– Harry! Meu Deus! Nem acredito que você tá aqui – ela disse animada – eu estava tentando entrar aí, mas o irmão do Paul McCartney aqui duvidou de mim.
– Não brigue com o Jerry, ele só está fazendo o trabalho. Aliás, pode deixá-la passar. Ela é realmente quem diz ser.
Ao passar pelo segurança, deu um sorriso cínico para ele. Nem acreditava que estava com a sorte de ter encontrado com Harry e que em instantes encontraria com Dougie. A verdade é que a garota se descobriu apaixonada pelo rapaz no momento em que leu que ele havia tido alta e percebido que nunca mais iria vê-lo, pensar nisso fez com que ela ficasse pior do que imaginava que poderia ficar, achava que estava conformada com toda a situação até chegar aquele momento.
Enquanto seguia Harry pelo backstage, começou a se sentir nervosa imaginando a reação que Poynter teria ao vê-la ali parada em sua frente. Não sabia nem ao mesmo qual seria a própria reação, por isso hesitou quando Harry disse que haviam chegado ao camarim que eles dividiam.
– Espero que todos estejam muito bem vestidos pois temos uma lady no recinto – Harry disse anunciando, enquanto ficava vermelha de vergonha.
– Como assim, mulher Harry? Nem a Izzy, nem a Giova… ? – Dougie ia dizendo até ver que quem estava parada no meio da sala era , sua vizinha de quarto e a garota por quem estava se apaixonando.
– Oi, Dougie! – ela disse tímida, em nada se parecia com a garota espivetada que Poynter conheceu em seu primeiro dia internado.
– Você não vai acreditar nanico! Eu estava passando pelo acesso ao backstage quando eu vi a se virando para ir embora. Obviamente que a sua ideia de jerico fez com que várias meninas falassem que se chamavam , o que irritou muito o Jerry. Sorte sua eu estar no lugar certo na hora certa. – Harry disse fazendo uma pose de herói do dia.
Os dois ficaram se encarando por um tempo. Dougie estava realmente surpreso por encontrar a mulher ali. Nem em seus melhores sonhos aquilo aconteceria, até porque ela não gostava de sua banda.
– Pera, o que você estava fazendo no show do McFLY? Você nem ouve a gente! – ele disse acusando.
– Digamos que você me influenciou a ouvir a sua banda… até que vocês são bons, Poynter!
– Olha só, parece que temos uma nova fã aqui – ele disse anunciando para os amigos, que naquela altura já estavam acomodados nos sofás prestando atenção na conversa deles.
– Não exagera, garoto! Eu disse que vocês são bons, isso não é suficiente pra me fazer ser fã não.
Naquele momento Dougie sabia que estaria presente na sua vida, que a relação dos dois fora da clínica não mudaria em nada. Eles seriam sempre os mesmos enquanto estivessem juntos. estava feliz em saber que talvez pudesse manter a amizade com ele ali fora, quem sabe aquela amizade virasse algo a mais, mesmo sendo de mundos diferentes, ela faria o possível para que aquilo desse certo.
A frase “há males que vem para o bem” finalmente fazia sentido para os dois, toda a história conturbada que possuíam era apenas o único caminho possível para que seus destinos se cruzassem, e Dougie, ao perceber isso, apenas torceu para que os destinos pudessem, agora, caminharem juntos.

 

Fim.