19. Home Is Where The Heart Is

19. Home Is Where The Heart Is

  • Por: Carol C
  • Categoria: Especiais | McFLY
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Sinopse: “Seja apenas como amigo, parceiro na cama ou algo mais: meu coração sempre foi seu e pelo jeito não importa quanto tempo eu fique longe, o destino sempre me levará de volta para você”.

Capítulo Único

O céu de Naxos ainda estava escuro quando o despertador de tocou para anunciar o início de mais uma segunda-feira, como de costume a morena ignorou as primeiras notas da música e permaneceu deitada desejando que suas férias chegasse o mais rápido possível, ela amava seu trabalho e não se imaginava fazendo outra coisa no mundo, mas entrar de manhã nas águas geladas da ilha em pleno inverno estava longe de ser uma das suas coisas favoritas. Reunindo todas suas forças a mulher enrolou-se no cobertor e caminhou preguiçosamente em direção ao banheiro, seguindo a breve rotina criada pelo acaso, colocou a pasta em sua escova de dente antes de sentar-se na borda da pequena banheira, ao mesmo tempo que realizava sua higiene matinal respondia as notificações presentes no celular e se certificava da previsão do tempo para aquele dia.

– Bom dia, Apolo – sonolenta, iniciou o áudio destinado a um de seus companheiros de trabalho – Aceito sua carona sim, acabei de acordar, mas vou só tomar um café e em vinte minutos estou pronta. E sim, eu vi a temperatura de hoje e não estou nem um pouco empolgada para mergulhar com lá fora fazendo nove graus.

A resposta de Apolo rindo da situação da amiga veio em seguida, os dois viviam trocando provocações, mas tinham uma amizade forte desenvolvida anos atrás no começo da faculdade. Ambos eram biólogos e possuíam diversas especializações em biologia marinha, a ilha grega banhada pelo mar Egeu em que moravam sem dúvidas influenciou na decisão da profissão, porém se interessava muito mais pelos projetos de contato e cuidado direto com os animais enquanto que Apolo cuidava da catalogação e acompanhamento burocrático das espécies.
Como combinado com o amigo, apressou-se para tomar café e não se preocupou em escolher uma boa roupa porque logo que chegasse na instituição que trabalhava as trocaria pela roupa de mergulho, e com uma pontualidade perfeita em vinte minutos a morena já descia as escadas do prédio em que morava sozinha para esperar na portaria pela carona de Apolo.

– Sempre pontual – o grego comentou o vê-la entrar no carro e em seguida a cumprimentou com o habitual toque de mão criado por eles – Todo mundo que eu dou carona deveria ser como você.

– Alguns costumes ingleses a gente carrega para o resto da vida – brincou fazendo referência ao período em que morou na Inglaterra – Agora libera o bluetooth desse rádio que hoje é meu dia de escolher a música.

– Só vou fazer isso pois enjoei das minhas e não porque você pediu – Apolo disse desconectando seu aparelho antes de dar partida no carro – Preparada para mais um dia de trabalho?

– Você sabe que não – admitiu com um sorriso preguiçoso nos lábios enquanto buscava uma playlist que lhe agradasse – Ninguém em sã consciência estaria preparado antes das seis da manhã para isso.

O tráfego na ilha aquela hora era tranquilo, apenas encontrava-se nas ruas a movimentação de pescadores e outros trabalhadores responsáveis por abrir as portas dos comércios junto dos primeiros raios de sol do dia, por isso pouco mais de quinze minutos era suficiente para que eles chegassem na sede marítima da instituição.
A caminho da mesma, o casal de amigos conversavam sobre o andamento das pesquisas e a necessidade de contratar mais funcionários para auxiliar no cuidado dos animais, mas a atenção de se desviou no exato momento que Obviously, da banda McFly invadiu os altofalantes do carro. Era a primeira vez em anos que a morena escutava a música que antes costumava ser uma das suas favoritas, sequer lembrava de tê-la salvo em alguma playlist do Spotify, e sem que percebesse um sorriso bobo formou-se em seus lábios e seus pensamentos foram parar no passado, numa época que ela e – um dos integrantes da banda – eram amigos.

? – Apolo chamou após notar o silêncio repentino da amiga – Está tudo bem?

– Oi, está sim – respondeu acordando de seus pensamentos e notando que o tinha deixado falando sozinho – Só dei uma viajada aqui.

– Eu percebi – ele riu da aparência desligada dela – Como eu estava dizendo, acho que deveríamos falar com o Ítalo mais tarde sobre a contratação de pelo menos mais um biólogo, logo você entra de férias e não temos ninguém para dar continuidade ao trabalho.

– Sim, acho que podemos ver isso depois do almoço – concordou animada, pois qualquer menção ao tão sonhado descanso arrancava fácil um sorriso de – Vou até preparar meu discurso sofrido para dizer a ele.

– Não exagere porque todos sabemos que você é uma péssima atriz – o grego brincou recebendo um dedo do meio como resposta – Encare os fatos, minha querida.

Entre as trocas de “elogios” Apolo estacionou e lado a lado os dois caminharam em direção a entrada da sede, juntos bateram o ponto e se encaminhou para o vestiário para colocar a roupa adequada para mergulho. Quase uma hora depois os dois se encontraram na beira da praia para embarcarem na lancha que os levariam mar adentro, enquanto o comandante pilotava, os biólogos preparavam todos os equipamentos necessários. Com um considerável tempo de navegação a lancha parou em alto mar e pulou na água seguindo as instruções de Apolo.

– Boa sorte e cuidado lá embaixo – desejou o homem recebendo um joinha dela como agradecimento – Estarei monitorando tudo daqui, agora vai logo e volte com boas notícias.

Completavam-se três anos que a dupla trabalhava com o acompanhamento e a prevenção da extinção das focas-monges-do-mediterrâneo, a espécie estava super ameaçada e eles estimavam que existiam apenas 450 representantes da mesma, tanto como Apolo dedicavam suas vidas para reparar tamanho dano causado a espécie. Juntos eles monitoravam uma pequena colônia que apresentava indícios de uma possível reprodução, mas precisavam de mais evidências para finalmente afirmarem com precisão.
Graças ao rebreather – aparelho sofisticado de mergulho – pode aproveitar, observar e tentar uma aproximação das focas-monges por mais de três horas e meia sem que fosse necessário retornar a lancha, seu corpo já dava sinais de cansaço quando retornou a superfície, mas estava satisfeita com o pequeno avanço do dia.

– Diz que a notícia é boa, por favor – após ajudá-la a subir na lancha e tirar os equipamentos, Apolo implorou fazendo-a sorrir de lado sem muita empolgação – Com essa sua cara já vi que não.

– Calma a notícia não é boa, mas também não é ruim – a mulher adiantou-se a falar enquanto se enrolava nas toalhas para aquecer o corpo – Não deu para concluir nada, porém tem grandes chances de duas fêmeas estarem esperando filhotes.

– Menos mal, agora vem cá que preciso te mostrar algumas coisas – chamou indicando que a morena sentasse ao seu lado de frente ao computador e conferisse também as informações no tablet – Lembra da outra colônia que estávamos monitorando ano passado? Parece que ela resolveu nos visitar novamente…

Diferente do caminho de ida, os dois retornaram para praia falantes e animados com as novas descobertas, assim que desembarcaram optaram primeiro por almoçar no pequeno restaurante beira mar antes de seguirem para sede do parque natural. aproveitou o período de folga durante a tarde para acompanhar o amigo na conversa com Ícaro, mas foi surpreendida quando o diretor chamou-a antes para conversar, pedindo que Apolo aguardasse mais um pouco.

– Senhorita Colonomos, sente-se por gentileza – o homem pediu educadamente – Precisamos conversar.

– Apenas , por favor – corrigiu simpática, não gostava de ser tratada pelo sobrenome porque tinha a ideia de que estava encrencada – Estou a disposição para ouvir.

– Junto do senhor Apolo, você tem desenvolvido um trabalho incrível na prevenção das focas-monges, nós dessa instituição não temos palavras para agradecer – Ícaro iniciou deixando-a apreensiva, nenhuma conversa boa começava daquele jeito, em poucos segundos todas as piores opções passaram pela cabeça de – Somos referências nesse assunto, tanto eu como você sabemos a importância do projeto e do trabalho que realizamos aqui.

– Ícaro, com todo o respeito do mundo – angustiada, interrompeu a fala dele que não pode conter o sorriso com a inquietação da mulher – Diz logo porque você está me deixando cada vez mais nervosa. Eu vou ser mandada embora, não é?

– Claro que não, – respondeu de imediato fazendo-a respirar aliviada – Pelo contrário, considere o que eu vou lhe propor como uma promoção.

– Como é? – a morena encarou-lhe surpresa.

– Recebemos um convite para enviar um dos nossos representantes para juntar-se a uma equipe de biólogos que irá ministrar um curso na Brunel University London – o diretor explicou prendendo rapidamente a atenção de – E queremos que esse representante seja você.

– Eu? – ela disse ainda sem acreditar nas palavras dele – Mas não tenho experiência com sala de aula, Ícaro.

– Acreditamos em você – encorajou-a antes de continuar – Pense bem, não tem pessoa melhor. Você está totalmente envolvida no projeto, tem uma ótima fluência no inglês e já morou na Inglaterra durante anos.

– Mas já faz muito tempo isso, vim para Naxos com quatorze anos e nunca mais voltei lá – comentou deixando aparente sua insegurança – E o Apolo? Ele seria um bom representante… Sem falar que não posso ir e deixar meu trabalho com as focas para trás.

, por favor, você sabe que Apolo odeia falar em público e recusaria a oferta sem nem terminar de ouvir – o homem disse sincero e ela viu-se obrigada a concordar – E sobre o trabalho, são só seis meses, colocaremos alguém temporário para dar continuidade, você pode até ajudar na seleção de candidatos.

– Eu não sei não, Ícaro…

– Não precisa responder agora – gentil, o diretor interrompeu-a – Pense com carinho e me dá a resposta até o fim da semana.

– Tudo bem – assentiu ainda processando todas as informações – De qualquer forma, obrigada pela proposta, fico feliz que meu trabalho ajude de alguma forma.

– E se você disser sim, talvez possa inspirar mais pessoas a ajudarem, assim como você.

Com aquela frase martelando na cabeça deixou a sala de Ícaro e contou a novidade para Apolo que quase obrigou-a retornar naquela sala para aceitar a proposta no mesmo instante, mas a morena precisava pensar e colocar todos os prós e contras na balança antes de tomar uma decisão. No final das contas, valeria a pena toda aquela mudança? Era isso que ela queria descobrir antes de embarcar em uma nova experiência que a deixaria totalmente fora de sua zona de conforto.

🎵🎵🎵
 

Para os últimos dias tinham passado depressa, a pouco mais de um mês ela havia aceitado a proposta de lecionar na universidade inglesa e desde então vivia correndo de um lado para outro fazendo o possível para conciliar o trabalho e a organização da mudança, seriam apenas seis meses e muitas de suas coisas permaneceriam em sua casa, porém a mulher fazia questão de levar alguns pertences pessoais e diversos materiais de apoio que a auxiliaria ao longo do curso.
Com a passagem já em mãos e todos os detalhes confirmados para o embarque no dia seguinte, aproveitou para conferir as malas e após gastar bons minutos com a tarefa, concluiu que seria melhor levar também seu caderno de anotações do período em que cursava seu mestrado. Na busca pelo objeto, em meio as caixas espalhadas pelo sótão a morena perdeu-se em lembranças de diversas épocas de sua vida, muitas coisas foram deixadas ali quando seus pais decidiram se mudar para Atenas, inclusive pastas que guardavam desenhos e atividades de seu primeiro ano escolar.
Ao vasculhar uma das caixas teve sua atenção roubada quando seus olhos pousaram sobre um amontoado de cartas presos apenas por um fino elástico, todas de mesmo remetente, foi inevitável não sorrir naquele momento.

“De: garoto mais bonito da Inglaterra, .
Para: garota mais chata da Grécia, Colonomos.
27 de Abril, 2003”

Tomada por um sentimento de nostalgia as recordações invadiram o pensamento da mulher, à medida que lia o conteúdo de cada carta se lembrava dos momentos da qual as mesmas foram trocadas com o antigo melhor amigo, na época ela havia acabado de se mudar para Grécia e ele estava iniciando a carreira em uma banda que anos depois se tornou uma das mais famosas do Reino Unido. As cartas narravam vários episódios da vida de até o ano de 2008, ele contava absolutamente tudo desde os testes para banda até os shows inacreditáveis que vinha fazendo pelo mundo, todas as histórias e desabafos poderiam ter sido trocados por telefonemas ou pelas redes sociais que surgiram ao longo do tempo, mas por algum motivo durante aquele tempo eles mantiveram a tradição de trocarem cartas contando as novidades de suas vidas.

“De: quem costumava ser seu melhor amigo, .
Para: a mais nova e melhor bióloga da Grécia, Colonomos
03 de Julho, 2009”

Aquela era a última carta e consequentemente o último contato de com , a morena se lembrava muito bem da mesma porque fazia quase um ano desde a chegada da penúltima, eles já haviam perdido o contato, mas fez questão de enviá-la para parabenizar a bióloga recém formada.

“Ei, já faz muito tempo desde a última carta, não?
Desculpa não ter respondido a sua, estou bem e as coisas por aqui estão ótimas porém continua uma loucura, espero que você também esteja bem.
Enfim, sinto muito por esse afastamento, mas apesar de tudo quero te desejar os parabéns pela formatura. Você merece tudo de bom que esse mundo tem a oferecer, sempre ficarei feliz por suas conquistas, independente da distância, estou muito orgulhoso da mulher que você se tornou.
Sucesso e boa sorte.
Se um dia precisar, já sabe, é só chamar.

 

Reler aquelas palavras estranhamente fez o coração de esquentar, ela não poderia negar que sentia falta do amigo, mas muitos anos haviam se passado e tinha se tornado apenas uma boa lembrança. Após olhar todas de forma carinhosa pela última vez a mulher juntou todas as cartas e guardou-as no lugar de origem, afastando os pensamentos nostálgicos concentrou-se no real motivo de estar ali, encontrar seu caderno de anotações.

– Que porra, onde foi que eu guardei essa merda – perdendo mais alguns minutos, bufou impaciente ao vasculhar as demais caixas – Eu tinha certeza que essa porcaria estava aqui.

Próxima de se dar por vencida a morena sentou no chão apoiando-se na parede enquanto tentava buscar na memória a imagem do caderno e do lugar que estava o mesmo. E como se uma divindade escutasse e atendesse seus pedidos, um flash passou pela cabeça dela e soube exatamente onde procurar, encerrando a busca depois de quase uma hora desde a entrada no sótão.
Depois de fechar as malas e anotar em uma pequena lista os itens que seriam colocados na bolsa de mão apenas no dia seguinte, permitiu-se relaxar na banheira ao som de sua playlist favorita, não estendeu o momento devido a necessidade de acordar cedo então em pouco tempo já estava tranquilamente deitada pronta para dormir.
A mulher, seguindo sua rotina noturna, certificou todas as redes sociais e fez questão de avisar os amigos próximos que ficaria fora do ar por algumas horas. Em sua última rolagem pelo feed do instagram a foto de surgiu chamando sua atenção, ela não costumava acreditar em destino ou algo parecido, mas todas as recentes situações que a fizeram lembrar do homem pareciam bem mais do que meras coincidências. Tomada pela curiosidade entrou no perfil de e descumprindo sua promessa de dormir cedo, gastou bons minutos por ali.

“Puta que pariu, ele está gostoso demais”
Mais uma foto…

“Credo , olha esse cabelo seboso, pelo jeito continua fugindo de um banho”
Outra…

“Não é por nada não, mas eu dava muito”
– Que merda é essa, ? – falou sozinha inconformada com seu próprio subconsciente – Ele continua aquele garoto chato e fedorento, vamos parar com esses pensamentos.

“Por favor, quem eu estou querendo enganar, está de parabéns”
Quebrando a sequência de pensamentos um tanto quanto indecentes a respeito do antigo amigo, prendeu sua atenção a uma sequência de vídeos que considerou extremamente fofo e de muita importância. Nestes dava algumas dicas e recomendações sobre pequenas mudanças que as pessoas poderiam fazer em seu dia a dia, substituindo produtos de plásticos por outros mais sustentáveis, o que ela julgou ser uma bela atitude do homem.

@s_colonomos: Gostei de ver, a natureza e os animais agradecem. Arrasou na iniciativa meu amigo, parabéns 👏❤”
Comentou despretensiosa na publicação, a chance de notar seu comentário era mínima uma vez que o mesmo recebia diversos diariamente, mas ao enviar a morena não atentou-se ao horário e os fusos diferentes nos países. De novo por coincidência ou destino, sorte ou azar, se surpreendeu com a notificação de que seu comentário havia sido curtido por , entregando que o mesmo estava online no aplicativo. De imediato e aparentemente sem motivo o coração da mulher bateu mais rápido fazendo-a bloquear o aparelho na hora, conectando este no carregador virou-se de olhos fechados repetindo incansáveis vezes a frase: “é hora de dormir”.
De fato era hora de dormir, e assim ela fez após resistir a vontade de verificar a rede social, o que foi uma boa escolha porque caso contrário perderia toda a noite de sono caso visse a mais nova notificação em seu direct do instagram.

(): ei, sumida 😉
(): faz tempo que não te vejo por aqui.
(): estou dando muito orgulho para você e seus animaizinhos? Haha

II

O ar gelado atingiu em cheio o rosto de no instante que ela pisou fora do aeroporto de Londres, não deveria estar surpresa já que deixou a Grécia com os termômetros marcando oito graus, porém o frio londrino parecia castigar muito mais a mulher. Enrolando-se com o cachecol que mais parecia um pequeno cobertor, ela empurrou seu carrinho de malas até a área reservada para taxistas, onde com ajuda de um deles despejou toda a bagagem no porta-malas. Ainda com seu inglês enferrujado, devido aos anos sem utilizar o idioma, deu as coordenadas ao motorista do que seria seu apartamento temporário.
– Primeira vez em Londres? – simpático e receptivo, perguntou o senhor de meia idade – Mesmo sendo noite posso fazer um caminho mais turístico para você observar melhor a cidade.– Não, já estive aqui antes alguns anos atrás – respondeu de mesmo tom educado – Mas aceito a ideia porque tenho pouquíssimas recordações da cidade.

– Você não irá se arrepender, eu juro que não é papo de taxista, mas Londres fica linda durante a noite.

– Confiarei na tua palavra, então – rindo junto dele, brincou.

Como combinado o motorista fez o trajeto passando pelos principais pontos turísticos da região o que gerou uma sequência de stories no instagram de , a morena não costumava expor muito sua vida pessoal e evitava encher as redes sociais de fotos, mas sempre abria uma exceção para quando estava viajando porque considerava uma situação especial a ser compartilhada com os amigos e familiares.
Apesar do caminho de maior quilometragem e do intenso tráfego só foram gastos quarenta minutos até a acomodação oferecida aos convidados pela universidade, com o auxílio do taxista subiu as malas até o terceiro – e último – andar do prédio. Após pagar e agradecer o senhor levando-o até a porta, a morena retornou ao quarto e sem pensar duas vezes jogou-se de imediato na cama respirando fundo ao se espreguiçar depois de longas treze horas de viagens. A ideia de desfazer as malas não passava nem perto de sua cabeça, ainda teria muito tempo para realizar tal tarefa quando se sentisse mais disposta, e sabendo que não tinha nenhum compromisso para aquele restinho de noite sua única decisão foi descansar até sentir que fosse o suficiente.
E ela sentiu que era suficiente às quatro e dezoito da manhã…
não queria levantar, a todo custo tentou ignorar as dez horas anteriores para voltar a dormir, porém sentia-se agitada demais e por isso arrependeu-se de ter deitado tão cedo. Certa de que não conseguiria retornar ao seu estado de sonolência, a mulher buscou pela cama seu aparelho de celular com o intuito de finalmente dar uma devida atenção as dezenas de mensagens acumuladas, sequer tinha respondido direito seus pais desde o desembarque do avião. Em ordem, eliminou as mensagens da barra de notificações uma por uma, deixando por último o antigo/novo contato de sua lista de amigos.

: estou dando muito orgulho para você e seus animaizinhos? Haha

está sim hahaha ótimas dicas, acho que começarei usar algumas…

 

(): confesso que fiquei surpreso com seu comentário, bateu até uma dúvida sobre te chamar ou não, mas resolvi arriscar… como anda as coisas por aí?
(): não ache estranho, porém como você não respondeu quis matar a curiosidade sobre sua vida e vi as fotos do seu perfil, achei foda para caralho o trabalho com as focas.
(): pelo jeito vou ficar falando sozinho…
(): VOCÊ ESTÁ EM LONDRES?

não conseguiu evitar o riso ao ler as mensagens, ela de fato havia esquecido de responder e se não tivesse enviado várias provavelmente só as notariam alguns dias depois, inclusive seus amigos viviam reclamando que a morena demorava tempo demais para responder até mesmo as mais simples mensagens. Sabia disso e não negava, sempre ficou devendo no quesito ser ativa nas redes sociais, porém isto não se aplicava a sua caixa de e-mails e todos já tinham consciência disso, se quisesse falar algo urgente para este era o melhor meio de comunicação. Porém, ainda não sabia disso…

as coisas estão bem, gastando 99% do meu tempo com os projetos da instituição em que trabalho, mas tenho aproveitado bastante o 1% que sobra haha
e relaxa, confesso que também dei uma olhadinha no seu perfil 😝
ops, parece que estou sim na sua cidade… surpresa!!
ps: parece que alguém continua carente por atenção hahaha

 

Sentindo a barriga roncar pela terceira vez bufou ao levantar da cama contra sua vontade, com os armários e a geladeira vazia acabou lhe restando apenas o pacote de suas bolachas favoritas que havia trago da Grécia, apesar de não ser o suficiente para matar sua fome tapearia o estômago pelas próximas horas até o sol nascer e os mercados abrirem as portas. Para sua surpresa, ao retornar para cama, encontrou uma nova notificação no celular que a fez rir alto.

(): depois de 24 horas você aparece… pelo jeito algumas coisas não mudam mesmo
(): por que não disse que estava vindo para Londres?
(): ps: se eu sou uma pessoa carente é por culpa sua, fui abandonado por você naquela cidade, então não venha reclamar 😠

– Não é possível – pasma porém de forma divertida, disse para si após ler as mensagens – Meu deus, que horas que esse menino vai dormir?

bom, não somos mais tão próximos para eu ficar falando das viagens que vou fazer…
ai isso soou muito grosso, leia bem de boa e de maneira fofa, por favor
a verdade é que foi tudo muito rápido, estou na cidade a trabalho, mal tive tempo para pensar
ps: rodou o mundo com seus shows e agora vem dizer que foi abandonado? com todo carinho do mundo…vai se fuder, 😂

 

Se divertindo com as trocas de mensagens que duraram mais que o previsto, só foi notar o horário quando os primeiros raios de luz – ou melhor, apenas a claridade já que o sol insistia em manter-se escondido entre as nuvens – ultrapassaram a janela iluminando o quarto. Nem mesmo em seus melhores e secretos sonhos a mulher imaginou que retomar o diálogo com fosse acontecer de forma tão natural, ao ler a conversa deles não parecia que haviam passado tanto tempo sem nenhum contato e mesmo depois de anos ambos continuavam como aqueles jovens de doze anos atrás.

(): caralho, eu lembro desse dia hahaha foi incrível mesmo.
(): olha a conversa tá ótima, mas infelizmente eu preciso dormir, tenho que ir gravar uns negócios no estúdio hoje a tarde e não posso chegar lá virado.

álbum 6? se for mais um audiobook daquele dinossauro cagão, espero que se atrase e perca a hora

 

(): vai a merda, . eu poderia até te contar, mas depois dessa não falo mais nada. tchau, sua ridicula.

bye, hasta la vista, au revoir, Σας βλέπω 👋😂😂

 

🎵🎵🎵
A primeira semana de em Londres foi extremamente corrida, a princípio ela conheceu os demais membros da equipe de biólogos e juntos deram início ao planejamento do cronograma do curso que só receberia os alunos na semana seguinte, a morena apesar do receio estava ansiosa para começar a ministrar as palestras sobre biologia marinha e o trabalho de prevenção da extinção de várias espécies.
Mesmo com pouco tempo livre ela manteve um contato diário com , todos os dias os dois conversavam sobre diversas banalidades que eles julgavam ser importantes ou apenas engraçadas para serem compartilhadas um com o outro. Para facilitar esse diálogo pediu o atual número de , normalmente utilizavam as mensagens de texto, mas vez ou outra usavam algum aplicativo que disponibilizava o recurso de chamada de vídeo.

– Você tem que confiar mais em você, – despretensioso, comentou enquanto dividia sua atenção entre a tela do celular e o prato de comida – Tenha em mente que você não chegou onde está agora por pura sorte, mas sim por dedicação e muita competência, segunda-feira vai ser foda.

– Espero que você esteja certo, – no fundo ela também sabia disso, mas não conseguia evitar os pensamentos de um possível fracasso diante daquela nova experiência, ouvir aquelas palavras de de fato a ajudava bastante – Vou preparar meu psicológico durante todo o final de semana.
– Ainda dentro desse assunto, porém com outro foco – ele se adiantou a falar, notando o cansaço nos olhos da amiga e sabendo que logo pediria para encerrar a ligação – Depois do seu primeiro dia quer sair para tomar um café comigo?

– Adoraria, mas eu saio às nove da noite – riu ao ver a frustração estampada na cara de .

– Um jantar, então? – ele sugeriu.

– Desde que eu possa escolher o lugar – com um falso sorriso inocente, completou e expôs sua condição – Porque aposto que depois que ficou rico só frequenta esses lugares chiques em que a comida não mata metade da minha fome.

– Isso é mentira – protestou, porém não pareceu convencer a mulher sobre isso – Mas aceito sua proposta. Então marcado, jantar na segunda.

– Jantar na segunda – confirmou devolvendo-lhe um sorriso sincero antes de bocejar pela terceira vez.

– Bom, vou deixar você descansar e conversamos mais amanhã – concluiu carinhoso – Tenha bons sonhos, ou seja, sonhe comigo.

– Humildade mandou abraços – a morena brincou ao ajeitar-se na cama enrolando grande parte do corpo na coberta – E outra, não quero ter pesadelos não.

– Aí , sempre partindo meu coração – disse dramático fazendo-a rir em desaprovação – Mas já estou acostumado, um dia você dará valor a esse homem incrível aqui.

– Pelo amor, – riu da péssima encenação dele e aproveitou para provocá-lo – Está explicado porque sua carreira de ator não tá lá essas coisas…

– Aff, você não cansa de acabar comigo, não é? – perguntou retórico, mas mesmo assim obteve a resposta positiva da mulher – Cansei, desisto de você. Tchau, .

– Tudo bem – fingindo indiferença, disse não dando atenção as falsas lamentações dele – Tchau, .

Desligando a chamada sem aviso prévio riu sozinha ao imaginar a reação de , ela sabia que ele levaria na boa como uma brincadeira, entretanto, fez questão de enviar um “boa noite 😘❤” por escrito recebendo logo em seguida outro coração como resposta. Por mais que ainda não notasse, agora aparentemente Colonomos tinha mais um motivo para aguardar ansiosamente pela segunda-feira, e felizmente este não havia nenhuma relação com trabalho.
Para sua sorte o final de semana passou depressa graças ao tempo gasto com a preparação de sua palestra e, também, da maratona de episódios que fez ao assistir The Handmaid’s Tale, sua atual série favorita. estava bastante ocupado com os novos planos dentro do estúdio o que resultou em pouca conversa entre eles durante o dia, mas sempre que sobrava um tempo ele enviava algo para , normalmente alguma foto nojenta e estranha de coisas extremamente aleatórias que até parecia que no mundo apenas tinha acesso a elas.
Quando amanheceu na segunda-feira já estava de pé pronta para atravessar praticamente todo o campus da universidade, o prédio em que ministraria era um dos últimos dentro da Brunel University e fazia-se necessário sair alguns minutos antes para caminhar até o local. Como sempre acontecia quando era convidada a realizar uma apresentação, chegou mais cedo que os alunos para preparar seus recursos digitais que serviriam de apoio durante a palestra, mas não foi preciso esperar muito porque logo após dado o horário marcado para o início da apresentação os alunos chegaram e ocuparam todo o auditório.
Ao todo foram três grandes turmas durante todo o dia, exceto pela hora do almoço e às breve pausas entre uma turma e outra, tinha passado no mínimo nove horas de pé falando sobre a introdução de seu tema e a relevância do mesmo para o curso, a morena atentou-se para não ficar às três horas da apresentação falando sozinha e preparou diversas dinâmicas para prender a atenção dos alunos. A julgar pela expressão facial e comentários dos estudantes e demais colegas de grupo, para um primeiro dia seu trabalha tinha sido satisfatório, o que deixou-a empolgada justamente porque as próximas apresentações seriam sobre temáticas da qual ela era apaixonada e sentia-se preparada para abordar com um microfone na mão.
Agradecendo mais uma vez a equipe da faculdade pelo convite se despediu desejando uma boa noite a todos antes de deixar o prédio em direção a sua acomodação, seu relógio já marcava oito e meia da noite o que significava que tinha apenas quarenta minutos para tomar banho e se arrumar para o jantar com , não que precisasse causar uma boa impressão ou algo parecido até porque havia conhecido sua pior versão na época de colégio, mas queria estar no mínimo ajeitada para aquele reencontro.

: estou saindo de casa e acho bom que você já esteja a caminho do ponto de encontro hein.

está com medo de daqui a pouco dar meia noite e o encanto acabar, Cinderela?😂

 

: vai a merda, . Não preciso de magia nenhuma tenho um encanto natural. Te vejo em quinze minutos.

Tanto como a própria sabiam que ela não chegaria em quinze minutos no local, seria preciso pelo menos meia hora já que estava ainda saindo de casa e o tempo estimado de metrô era de pouco mais de vinte e oito minutos. No caminho a mulher aproveitou para enviar um breve relatório a seu diretor e, em seguida, para contar a Apolo sobre seu dia.

– Eu respondi tanta pergunta que chegou uma hora que não sabia mais do que falar – atenta ao caminho de saída do metrô, disse transparecendo toda a empolgação de mais cedo – Fiquei feliz demais que o pessoal se interessou nos temas que vou abordar até o final do curso.

– Não é novidade nenhuma isso – o grego comentou contagiado pela alegria da amiga – Você tem o dom de prender a atenção das pessoas e tornar qualquer assunto em algo super interessante.

– Estou começando a acreditar nisso – concordou envergonhada, ela realmente não sabia reagir a elogios e não importava o dono deles, até mesmo com seus pais era assim – E como está as coisas aí? Se virando bem sem mim?

– Estou sobrevivendo – brincou e riu enquanto cruzava a rua para chegar ao ponto de encontro – Não é tão divertido trabalhar com o novo biólogo, mas o cara é gente boa.

– Que bom, mas não se acostume porque logo estou de volta.

Apolo até respondeu algo porém a atenção de foi roubada quando seus olhos caíram sobre a figura masculina que aguardava preguiçosamente sentado no baixo muro, de fato a aparência do homem havia mudado bastante – principalmente as roupas a qual ele usava –, mas alguns traços continuavam os mesmos. Antes que pudesse encerrar a ligação notou a presença dela e se aproximou com um sorriso de lado nos lábios.

– Ei Apolo, eu te ligo depois pode ser? – avisou interrompendo o amigo que não parava de falar – Tenho um compromisso agora e preciso desligar.

– Tudo bem – assentiu estranhando a mudança repentina de – Até mais, eu e as focas estamos com saudade.

– Também estou com saudade de vocês – riu encarando que agora estava em sua frente – Até amanhã.

Ao desligar um estranho silêncio pairou no ar, ambos se olhavam sem saber ao certo o que dizer, retomar a amizade apenas por redes sociais era uma coisa porque eles tinham tempo para enviar uma resposta, mas pessoalmente as coisas mudavam e muito.

– Namorado? – referindo-se ao homem da ligação, que tomou iniciativa de puxar um assunto.

– O Apolo? Não… – riu ao responder de imediato – Meu amigo e parceiro de trabalho.

– Amigo mesmo ou rola uma amizade colorida? – provocando-a, perguntou com um sorriso maroto nos lábios.

– Não mesmo, eca – disse repudiando a ideia junto de uma careta – Ele é quase um irmão mais velho para mim.

– Então eu fui o único que desfrutou algo além da sua amizade? – ele perguntou sem nenhuma vergonha deixando-a sem reação – Qual é, não vai dizer que esqueceu da época que tínhamos uma amizade com uns benefícios a mais.

– Não, eu não esqueci – respondeu envergonhada e os tons avermelhados em sua bochecha confirmavam isso – Agora que tal a gente parar de falar e ir logo comer? Estou sem comer desde a hora do almoço.

– Seu pedido é uma ordem – disse cavalheiro e deu passagem para entrar no estabelecimento – Para nosso espetacular jantar teremos o combo do BigMac ou outro de sua preferência?

– Um McNifico de entrada e depois aceito um Triplo Burger Bacon, por favor – a morena embarcou na brincadeira fingindo analisar cuidadosamente o cardápio exposto no telão.

– Devo dizer que é uma ótima escolha, senhorita.

Mantendo a pose e sustentando o personagem eles pediram os lanches e encaminharam-se até a mesa, não demorou muito para que um deles caísse na risada e deixasse a falsa formalidade de lado, logo depois seus pedidos chegaram. Enquanto comiam relembraram momentos da época do colégio e fez questão de ouvir todas as histórias malucas que a profissão de proporcionava a ela.

– Sério, eu estou te falando que o negócio foi tenso nessa manifestação – a mulher enfatizou ao colocar mais uma batata frita na boca – Os policiais chegaram ameaçando dar tiro de borracha em quem não saísse do parque alegando que éramos uma ameaça à população.

– E vocês saíram? – perguntou realmente interessado no relato dela sobre as manifestações contra a caça de focas.

– Claro que não – respondeu orgulhosa da lembrança que tinha daquele dia – Levantamos as mãos como um sinal de que não ameaçavamos ninguém e pedimos que eles abaixassem as armas.

– Foi muito corajoso da parte de vocês – concluiu admirado com a atitude de – Me arrependo muito de não ter começado a pensar nessas questões antes.

– Não pense assim – bebendo seu último gole de refrigerante, a morena desaprovou o comentário do amigo – Nunca é tarde demais para começar a pensar nisso e você já está ajudando muito com suas iniciativas.

Os dois ainda ficaram conversando por mais de uma hora e só deixaram o local porque um dos funcionários avisou que o serviço estava encerrado, já era tarde e se recusou a deixar ir embora sozinha de metrô, fazendo questão de levá-la de carro até em casa.

– Foi um prazer jantar com você essa noite – verdadeira, disse ao abrir a porta do carro se preparando para descer – Espero um dia poder retribuir o convite.

– Mas você pode – adiantando-se lançou-lhe seu melhor sorriso – Lembra daquele acampamento que você mencionou e disse que aconteceria no próximo mês?

– Lembro – ela respondeu já desconfiada da ideia dele – Aquele que é exclusivo para alunos e convidados.

– Será que não rola me colocar nessa lista também? – pediu sorrindo como uma criança que tenta convencer o adulto a fazer sua vontade – Eu sempre quis acampar…

– Vou ver o que posso fazer.

Antes de deixar o carro despediu-se dele com um beijo demorado na bochecha e prometeu ligar na manhã seguinte com uma resposta. Subindo as escadas do prédio a mulher começou a achar que ele estava certo, era mesmo uma boa ideia, afinal seria bom ter a companhia de um rosto conhecido.
Porém, talvez não tivesse a mesma opinião se soubesse quais seriam as futuras consequências daquele convite…

🎵🎵🎵
Normalmente o mês passava devagar na ilha em que morava, tirando sua ocupação no trabalho, não havia muito a se fazer na cidade e o principal passatempo dos moradores era aproveitar os fins de tarde nas praias paradisíacas da região, mas como a morena já passava metade do dia na água ir á praia era sua última vontade após chegar em casa.
O contrário estava acontecendo em Londres, conforme as matérias do curso avançava os dias pareciam ter uma duração menor e faltava horas para que realizasse tudo que havia planejado no início da viagem.
Além das ocupações profissionais, gastava seu tempo curtindo a companhia de que bancava o guia turístico e levava a mulher para todo canto da cidade, era inegável que ambos se sentiam confortáveis na presença um do outro. em alguns momentos até suspeitou de um clima diferente entre eles, uma conexão maior do que a sentida nos últimos dias, mas concluiu ser coisa da sua cabeça.
Como combinado semanas antes, naquela manhã eles iriam junto do grupo de alunos e docentes acampar no parque do campus da universidade. No horário pré-estabelecido eles se encontraram no gramado e juntos começaram a montar a barraca que dividiram durante a noite. A programação do dia contava com atividades típicas do evento e rodas de conversas para conscientização de mais pessoas sobre os projetos sociais. Durante todo o dia acompanhou atento falar sobre diversos assuntos, a olhava admirado e sentia-se encantado pela sabedoria e simplicidade da mulher. A noite era livre e cada um poderia escolher o que fazer, e optaram por juntar-se ao grupo em volta da fogueira, a pedido dos alunos e com muita insistência da parte da morena, assumiu o violão e cantou algumas músicas.

Home is where the heart is, it’s where we started, where we belong – cantou baixo dedilhando as últimas notas da música – where we belong…

– Foi lindo, eu sempre achei essa música maravilhosa – sem quebrar o contato visual estabelecido durante toda a música, elogiou o amigo que sorriu em agradecimento – Mas na sua voz, nossa, ficou infinitamente melhor. Você deveria cantar mais vezes.

– Prefiro ficar apenas com os instrumentos – disse sincero com um tranquilo sorriso nos lábios – Canto apenas em situações especiais ou para pessoas especiais.

– E qual é o caso da noite de hoje? – brincou.

– A segunda, com certeza – sem vacilar, afastou a mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela, deixando visivelmente envergonhada.

Entre uma música e outra os dois trocavam olhares significativos, aos poucos as pessoas foram retornando as suas barracas e logo a única companhia do casal eram as estrelas e as faíscas que saíam da fogueira. estava sentada encostada em uma árvore e repousava as costas entre as pernas dela, o mesmo apenas dedilhava melodias aleatórias no violão enquanto recebia um lento afago no cabelo. Eles estavam em silêncio havia bons minutos, mas aquilo não incomodava-os, pelo contrário, representava a grande ligação que sempre tiveram um com o outro.

, se você pudesse voltar para época que éramos jovens sonhadores, o que gostaria de reviver? – rompendo o silêncio, fez uma pergunta hipotética que após o estranhamento da questão, a morena julgou ser interessante – Pode ser qualquer coisa.

– Deixa eu pensar… – comentou fazendo uma pausa para buscar na mente suas lembranças favoritas – Ahh já sei, seria aquelas tardes chuvosas e geladas que chegávamos da escola, almoçavamos na sua casa e depois passávamos o resto do dia assistindo filmes alugados na locadora do final da rua.

– É, seria uma boa reviver isso mais uma vez – concordou sorrindo nostálgico ao ter pequenos flashs daquela lembrança – Agora fica até mais fácil graças a deusa Netflix.

– E você? – enrolando os cabelos de com a ponta dos dedos, perguntou curiosa – Aposto que deve ser alguma história estranha e bizarra.

– Aí depende do ponto de vista – ele ponderou divertido antes de deixar o violão de lado e se virar de frente para – O que eu gostaria de reviver não é bem uma história, mas sim um exato momento.

– E qual é?

Ao vê-la questionar desconfiada, se aproximou do corpo dela levando a boca próximo ao seu ouvido, causando um arrepio imediato e involuntário no corpo de , o que não passou batido pelos olhos atentos de .

– Esse – com a voz baixa e rouca, ele sussurrou fazendo-a instintivamente fechar os olhos.

Uma das mãos dele repousou sobre a cintura da mulher puxando-a delicadamente para mais perto, enquanto a outra deslizou devagar pela lateral do pescoço dela, acariciando a região com o polegar. Envolvidos em uma enorme tensão seus narizes se tocaram carinhosamente, sentiu a respiração de falhar e a mesma soltou o ar que nem havia reparado que segurava desde a aproximação dele. Sem apressar o momento, em uma quase perfeita sincronia tomaram a iniciativa de acabar com o espaço existente entre eles, e o que começou com um beijo calmo e meio receoso da parte de ambos, logo foi aprofundado por .

– Essa é a minha lembrança favorita, sem dúvidas – ele disse ofegante ainda de olhos fechados e com a testa apoiada na dela.

– Eu não imaginava repetir isso mais uma vez na minha vida – sem perder o discreto sorriso nos lábios, comentou recuperando o fôlego – Porra, .

– Não era bem isso que eu esperava ouvir agora – brincou lançando-lhe um olhar nada inocente e carregado de segunda intenções.

– Você não presta, – provocando-o, deslizou as pernas uma de cada lado do corpo dele – Deve ser por isso que eu gosto tanto de você.

Satisfeito com a resposta de , passou as duas mãos em volta da cintura dela e segurando-a firme trouxe com cuidado a mulher para seu colo, diferente do primeiro beijo este era mais urgente e intenso. E entre trocas de beijos e escorregadas de mãos puramente intencionais, eles apagaram o fogo – só o da fogueira – e juntos se apressaram para chegar a barraca.

– Eu tenho certeza que vou me arrepender disso amanhã – rompendo o beijo, a morena riu baixo ao ver tirar a camisa para enfiar-se debaixo da coberta.

– Você sabe que não precisamos, né? – ele fez questão de falar, mesmo que toda sua torcida fosse para noite não acabar naquele momento.

– Eu sei – sorriu, de certa forma admirada, pela consideração e preocupação dele – Mas eu quero…

– Tem certeza?

– Absoluta.

III

Quando aceitou a proposta de passar seis meses em Londres sequer passou em pela sua cabeça a enorme bagagem que levaria de volta para Grécia quando terminasse o curso, muito menos que deixaria na cidade britânica um relacionamento indefinido com , mas era sobre tudo isso que pensava a caminho do aeroporto.

– Ei, você está bem? – ele perguntou desviando a atenção do trânsito para olhá-la rapidamente.

– Sim – a morena sorriu repousando uma das mãos sobre a coxa dele – Só estou pensando em umas coisas aqui.

– Que tal um beijo em troca de cada pensamento? – brincou fazendo-a rir em desaprovação – Qual é, compartilha comigo…

– Não é nada, só acho muito louco pensar em tudo que aconteceu em tão pouco tempo – explicou – Quando aceitei fazer essa viagem meu único objetivo era chegar aqui, realizar meu trabalho da melhor maneira possível e depois ir embora.

– E você conseguiu, está saindo daquela universidade como uma das palestrantes favoritas – constatou orgulhoso e ela agradeceu o elogio dando-lhe um breve selinho enquanto o semáforo estava fechado – Certeza que te chamarão mais vezes.

– Não é disso que estou falando, comentou fechando os olhos e encostando a cabeça na porta do carro – Isso também, mas me refiro a você e o que quer que seja isso que temos atualmente.

– Como assim?

– Nem nos meus sonhos eu imaginei retomar o contato com você – ela falou sincera não contendo o riso ao vê-lo fingir mágoa – Sério, e muito menos que teríamos algo além da amizade.

– Que bom que você estava errada – interrompendo-a, constatou e a mulher assentiu – Esses últimos meses foram incríveis, descobri cantos na minha casa que sequer sabia da existência, foi sensacional.

Cala a boca, – chocada, mas não surpresa com a fala dele riu e encarou-o antes de empurrar de leve seu braço – Só queria saber o que a vida reserva para daqui para frente…

– Apenas coisas boa, certeza – mudando o tom da conversa, disse amoroso tentando confortá-la.

O restante do caminho o casal fez em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos sobre o futuro. Ao chegar no aeroporto ajudou ela a transferir as malas para o carrinho e levá-las até a esteira de despacho de bagagens. Faltavam ainda duas horas para o voo de e a mesma dormia preguiçosamente abraçada ao corpo de . O clima não estava muito favorável a conversa, mas assim que a morena acordou e retornou do banheiro achou melhor dizer algumas palavras.

? – chamou-a baixinho tendo como resposta um resmungo que significava que ela estava ouvindo – Posso te contar uma coisa?

– Claro.

– Sabe a última carta que eu te enviei, logo depois que você se formou, acho que em 2009? – perguntou pegando-a de surpresa, ela não sabia que ainda tinha recordações daquela fase.

– Lembro sim.

– Então, ela não foi bem a última – confessou ajeitando-se para encarar de frente – Escrevi uma depois daquela, mas sequer cheguei perto de enviar.

Com a falta de verbalização dela entendeu que poderia continuar contando e assim fez com seu relato.

– Na época que escrevi estava passando por algumas crises e comecei a imaginar como seria minha vida se tudo tivesse sido diferente – decidido em ser sincero com ela, explicou o contexto da história – Nessa outra carta eu criei um universo paralelo, onde você nunca havia saído da nossa cidade e eu não passava no teste da banda, tinham vários detalhes e suposições, mas o que interessa contar é que nessa versão eu imaginava nós dois construindo uma vida juntos. Uma casa, vários animais vivendo nela, toda quinta um jantar para os amigos da vizinhança…

Perdendo aos poucos a coragem de olhá-la nos olhos após colocar tudo aquilo para fora, continuava a falar para preencher o silêncio enquanto desenhava com a ponta dos dedos rabiscos imaginários no braço dela.

– Eu sei que não deveria estar falando disso depois de tanto tempo, mas quando vi aquele seu comentário, que você estava em Londres, e agora passando todo esse tempo ao seu lado – falou mais depressa que o normal – Todos esses pensamentos voltaram com força e não quero ver você ir embora mais uma vez sem saber disso.

– Não sei nem o que dizer – expressou-se da exata maneira que estava se sentindo ao ouvir tantas “novidades” em tão pouco tempo – Não é segredo para ninguém o quanto gosto de você, .

– E é totalmente recíproco – sincero, ele disse acariciando os cabelos dela – O que temos é muito especial e vem sendo construído a anos, apesar dessa louca ligação que temos, não quero cobrar e nem apressar nenhum sentimento, sempre fomos melhores em lidar com as coisas acontecendo naturalmente e esses quase cinco meses que estivemos juntos mostram isso demais.

– Concordo com cada palavra – sorriu encantada com tamanha maturidade da parte dele – Vamos levando um dia de cada vez.

– Sim – dando-lhe um selinho demorado, ele assentiu sorrindo largo – O que tiver que ser, será…

Aproveitando o tempo que restava os dois conversaram sobre alguns assuntos aleatórios enquanto trocavam beijos e carinhos, fez questão de presenteá-la com lembranças da cidade e optou por comprar um kit de decorativos e uma cesta de doce.

– Esta é a chamada para o voo LH 2475 que tem como destino Naxos , escala no Aeroporto de Atenas – a voz mecânica soou por toda a sala fazendo-os se olharem com um sorriso fraco nos lábios – O voo está confirmado para decolar às 14:23 horas. Último chamada.

– Pelo jeito está na hora – a ficha de caiu e ele imediatamente puxou-a para um abraço apertado seguido de um beijo não muito demorado – Eu vou sentir sua falta.

– Eu também sentirei a sua – a morena tentou esboçar um sorriso, mas já sentia seus olhos lacrimejar e o choro parar na garganta – E antes que eu esqueça, preciso te entregar uma coisa.

– O quê? – cumprindo sua promessa de manter-se sorrindo, afrouxou o abraço e olhou curioso a mulher tirar da bolsa um pequeno envelope – Uma carta?

– Basicamente isso.

– Acho então que só me resta desejar boa viagem para você – ainda com ela em seus braços, beijou carinhosamente o topo da cabeça dela e deu-lhe um breve selinho – Vê se não desaparece e mande notícias assim que chegar.

– Pode deixar.

– Tchau, garota mais bonita da Grécia – utilizando a brincadeira das formas de tratamento escritas na carta que tinha em mãos, acenou vendo-a caminhar em direção ao portão de embarque.

– Tchau, garoto mais chato da Inglaterra – respondeu com um sorriso sincero seguido de uma rápida piscada de olho – A gente se vê por aí.

Assim que imagem de sumiu virou-se em direção a saída e andando em passos lentos, ainda meio desconcertado com a despedida, ele abriu o envelope entregue minutos atrás pela morena e ao terminar de ler um sorriso formou-se em seu rosto, e não era qualquer sorriso, mas sim um de pura felicidade que representava o tamanho do amor e carinho que eles sentiam um pelo outro.

“Ei,
tem sido difícil pra eu entender o que sinto em relação a você, já se passaram praticamente quatro meses desde aquele acampamento e ainda continuamos juntos, sem rótulos ou obrigações estabelecidas. Apenas dois “amigos” curtindo a companhia – e o corpo – um do outro.
logo volto para casa e talvez as coisas voltem a ser como antes, lembraremos desses meses como um delicioso passatempo. Ou quem sabe as coisas evoluam para algo mais, não sei, não podemos afirmar e nem prometer nada.
durante uma das madrugadas que passei em sua casa, perdi o sono e enquanto te observava dormir peguei-me pensando na música que você cantou na fogueira, e bom ela traduz exatamente o que eu sinto.
seja apenas como amigo, parceiro na cama ou algo mais: meu coração sempre foi seu e pelo jeito não importa quanto tempo eu passe fora, a vida me levará de volta para casa – você –, e como a música diz, casa é onde nosso coração está.
obrigada por tudo.
com todo amor do mundo, Colonomos.
 

Afinal, nenhum dos dois faziam ideia do que o futuro guardava para eles, só o tempo poderia trazer aquelas respostas e se eles estivessem dispostos, elas chegariam…

 

Fim