21. Outro: Ego

21. Outro: Ego

Sinopse: Era para ser só mais um dia comum para a nação coreana, mas tudo mudou quando J-Hope, o idol mais adorado do país, faz uma revelação chocante em rede nacional com o maior sorriso no rosto: Jung Hoseok afirmou com todas as letras que havia feito um pacto.
Gênero: Comédia
Classificação: Livre
Restrição: Personagens fixos.
Beta: Thalia Grace

 

 

Outro: Ego

 

Foi em uma belíssima manhã coreana, de um atípico céu azul turquesa com algumas poucas nuvens que mais pareciam grandes chumaços de algodão flutuantes, clima ameno e brisa fresca, que J-Hope, o popularmente conhecido como “sol da nação” por seu envolvimento em causas sociais e sua típica animação, disse em alto e bom som durante um programa de variedades matinal que havia feito um pacto.

Um pacto com um demônio.

E contou essa… peculiaridade ostentando um brilhante sorriso que fazia os olhos do rapaz transformarem-se em fendinhas. Seu empresário, Yoongi, bateu forte contra a própria testa não acreditando que Hoseok havia feito a cagada de dizer algo assim em rede nacional, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Droga, Hoseok! — Yoongi chiou.

Os MCs do programa ficaram desconcertados por alguns segundos e logo trataram de mudar de assunto, enquanto os outros artistas convidados o olhavam curiosos e a platéia se encontrava muito chocada para colaborar com a produção que pedia para que começassem a bater palmas para a apresentação de J-Hope, que já começava a cantar animadamente uma de suas faixas, nomeada Daydream.

Quando finalmente sentou-se no grande sofá com formato de ferradura, ficando exatamente no meio dos outros idols, percebeu que o clima estava um pouco estranho. Olhou para Yoongi e viu o mesmo negar com a cabeça como se dissesse “Eu não acredito que você fez isso.”

— Então, J-Hope — Soobin, o jovem e recente apresentador, pigarreou tentando se recompor. — acho que seria bom se você explicasse sobre esse tal pacto, acho que não entendemos devidamente bem… — devaneou.

— Ah! — Hoseok sorriu abertamente. — Eu não estava muito bem na época, então um dia a noite, enquanto eu me olhava no espelho, vi um reflexo que eu não conhecia, horrendo! — o rapaz tremelicou. — E aí eu acabei fazendo esse pacto com aquele demônio, e a partir daí minha vida melhorou em cem por cento! — gargalhou feliz, ignorando o Min que gesticulava incessantemente para que parasse de falar imediatamente. A plateia exclamou surpresa, não acreditando no que o rapaz mais amado do país estava dizendo.

— Desculpe, Hoseok-ssi — Arin, a outra MC do programa, franziu a testa confusamente. — mas você está dizendo que fez um pacto com um reflexo demoníaco que você viu no espelho?

Hoseok não disse mais nada, apenas continuou sorrindo e deu de ombros, fazendo mistério e encerrando o assunto. O clima naquele estúdio ficou pesado durante o resto do programa, nem quando colocaram os idols para jogar tortas no rosto um do outro a coisa foi tão divertida quanto deveria. Ninguém conseguia se esquecer do fato de que, aparentemente, Jung Hoseok havia feito um pacto com um demônio.

As semanas que se seguiram foram as mais conturbadas de toda a carreira de Hoseok. Os boatos começaram assim que o programa acabou, perto da hora do almoço, e a partir daí sua vida se tornara um caos, com as coisas saindo do controle. Logo seu nome estava nas listas de “Famosos Que Fizeram Pacto Com o Diabo”, ressuscitaram uma creepypasta bizarra que possuía um “ritual” semelhante a história do espelho que Hoseok havia contado no programa, diziam que o rapaz frequentava grupos satanistas, que provavelmente Namjoon, um de seus amigos rappers e conhecidamente ateu, devia ter um pacto também, que um de seus singles de maior sucesso, Hope World, com o álbum de mesmo nome, já estava mostrando a tempos que Hoseok era metido com o tinhoso, mas o auge foi com um vídeo que viralizou no Kakaotalk:

— Vocês não vão acreditar no que eu descobri! — o homem do vídeo dizia enquanto mostrava a uma tela de computador, onde a capa de Hope World aparecia — Eu coloquei Hope World pra tocar ao contrário e olha só isso!

O homem mudou de tela e então deu play, podendo ser ouvida uma melodia sinistra e algumas frases bem… duvidosas soarem na voz de Hoseok, coisas como “Essa é a mensagem de sangue pela boca” e “Vem me dar sangue, sangue, sangue”.

— Esse tipo de mensagem está nas músicas que seus filhos estão ouvindo, muito cuidado com o tipo de artista que influencia seus filhos, pais, um amigo meu disse que a filha começou a usar drogas e bater na mãe depois que conheceu esse tal J-Hope…

— Meu Deus! — Hoseok exclamou chocado, estendendo o celular na direção de Yoongi, que apenas fez uma careta e colocou o aparelho na mesa de cabeceira. — Ela batia na mãe! Como que eu não sabia que ao contrário minha música falava isso?

Yoongi se acomodou melhor na cama e fechou os olhos.

— Deve ser porque é mentira, Hobi. Estão inventando essas coisas sobre você para manchar sua imagem. Vamos apenas ignorar… — bocejou largamente e rodeou a cintura do maior com um dos braços.

— Mas ele mostrou o vídeo! — o rapaz choramingou.

— É, e também tem uma foto sua com o Marilyn Manson te dando um baphomet rodando na internet. Apenas esqueça e não toque mais nesse assunto, Hoseok. As pessoas não entenderiam.

E realmente não entenderam. Quando, um mês depois, J-Hope anunciou seu comeback com o álbum intitulado Boy Meets Evil foi como se dynamites tivesse sido lançadas nos lares coreanos e o anticristo encarnado fosse o cantor. Uma onde de hate massiva foi direcionada ao pobre rapaz, que sequer fez questão de se justificar ou coisa assim. Estava concentrado em trabalhar na música title, Ego, e Yoongi era bom em distraí-lo, assim como os amigos. O único que estava contente com a situação era Namjoon, que estava adorando os religiosos da Coréia espumando por algo assim.

Então, sem nenhum aviso prévio, divulgação ou promoção, na virada de uma madrugada qualquer de sábado para domingo, os celulares vibraram com a notificação de um novo MV de J-Hope. Embora a nação coreana houvesse jurado de pés juntos que boicotariam qualquer coisa que Hoseok tentasse fazer, a curiosidade sobre o que aquela música que claramente tinha a ver com o coisa-ruim dizia e mostrava aplacou qualquer medo de pecar. Nos primeiros vinte e quatro minutos o vídeo bateu cinco milhões de visualizações. Completou vinte e quatro horas com cem milhões de views, sendo o novo recorde da plataforma, além de ter conseguido um all kill perfeito e Ego e ficando em #1 em mais de cem países. Por Deus! O pacto era forte mesmo!

Não demorou muito até que a época das premiações chegasse, e não foi surpresa para ninguém que J-Hope fosse indicado na maioria das categorias. Mas o que ninguém esperava era que ele aparecesse em qualquer uma das premiações, afinal ele era o idol mais mal visto do momento.

Mas lá estava ele!

Usava um terno brilhante e vermelho, os cabelos bem penteados e lustrosos. Nos dedos ostentava diversos anéis e as unhas estavam perfeitamente pintadas de preto. Pecaminosamente bonito, pensaram todos que o viram.

Sentou-se displicentemente ao lado de seu empresário e logo outros cinco amigos do satanista coreano se juntaram a dupla, as câmeras do evento voltando-se para o grupo. Que decepção: Jimin, Jungkook, Jin estavam ali também juntos de Yoongi, Hoseok e Namjoon. Até mesmo o anjo que era Taehyung havia se juntado ao lado negro da força.

Após apresentações de alguns grupos, as categorias começaram a ser apresentadas. Em absolutamente todas em que J-Hope estava concorrendo, o rapaz ganhava sem esforço. Apenas se levantava calmamente e subia ao palco, onde recebeia o prêmio e logo retornava a seu lugar, sem dizer uma palavra.

Coincidentemente, a última da noite e uma das mais importante, a de canção do ano, fora apresentado por Soobin e Arin. Ambos estavam sorridentes e falavam calmamente, aumentando a tensão daquele momento antes da revelação. Quando finalmente o rapaz tirou o envelope de dentro do terno, todos seguraram a respiração ansiosos. Um levantar de sobrancelhas e um sorrisinho de canto quase imperceptível se fez presente no rosto de Soobin.

— O troféu de música do ano vai para…. — disse e virou o resultado para Arin, que parecia surpresa.

— Ego, de J-Hope! — anunciou a garota batendo palmas em seguida.

Uma mistura de vaias e gritos animados soou alta enquanto Hoseok caminhava em direção ao palco novamente, sem se importar com as reações de todos. Cumprimetou Arin e Soobin, recebendo o troféu, e viu de relance o microfone dos apresentador disponível. Havia prometido para Yoongi que não falaria mais sobre o assunto, mas sentia que era algo necessário. Virou o corpo e deu dois passos até chegar ao microfone.

— Espero que eu possa dizer algumas palavras aqui… — disse olhando para os produtores atrás das cortinas no palco que lhe deram permissão imediata, afinal era bom para a audiencia. — Bom, acho que eu preciso esclarecer algumas coisas. Me perdoe, Gi, não fique bravo. — lançou uma piscadela para Yoongi que gesticulava freneticamente para que Hoseok descesse do palco, mas foi ignorado. — Há algum tempo eu confessei ter feito um pacto com um demônio, e hoje eu confirmo novamente e ainda digo que todos deveriam fazer o mesmo. — agora um silêncio constrangedor tomou conta do espaço. Hoseok riu. — Quando eu conheci esse demônio, eu estava passando por uma das piores fases da minha carreira, correndo atrás de um sonho que parecia me evitar arduamente.

“A frustração de não conseguir alcançar meus objetivos me acertava em cheio, me fazendo pensar muitas coisas ruins sobre mim mesmo, duvidando de todo o trabalho que eu vinha tendo desde que me tornei trainee há sete anos atrás, quando ainda era só um jovem bobão. Eu estava cheio de arrependimentos e sem esperança, o que é irônico visto que sou o J-Hope agora. Eu culpava meu sonho, me perguntava por que ainda respirava… Foram tempos sombrios. — Hoseok olhou para o chão, desconfortável. — Eu era ignorado, me sentia humilhado. Esse meio é muito complicado, sabia? — gesticulou para o salão, querendo indicar a indústria como um todo. — então, em uma noite em que eu estava realmente disposto a fazer uma merda, eu me olhei no espelho e vi quem estava refletido ali. Aquele não era eu. O reflexo tinha meus olhos, minha boca, meu rosto. Os mesmos cabelos pretos e as mesmas lágrimas que eu já estava habituado. Mas não era eu.”

“Sabe, todo mundo tem seus demônios. Eu só não esperava me deparar com o meu assim, num momento delicado como aquele. Eu estava refletindo tudo o que me perturbava: a desesperança, o medo, insegurança, a tristeza… Eu não podia continuar permitindo que esse demônio tomasse conta de mim e acabasse como tudo o que eu lutava para construir. Então, olhando dentro dos meus próprios olhos, fiz um pacto comigo mesmo. Eu seria o melhor, eu faria meu melhor, e eu sempre teria esperança, mesmo que a situação me puxasse para baixo. Selei o pacto ali mesmo — sorriu, olhando os nós dos dedos da mão direita com cicatrizes pequenas devido ao soco que havia dado no espelho, que o fez se partir em caquinhos afiados. — e nunca mais pensei em desistir. Todos os dias eu acabo voltando para o “ontem”, eu me deixo levar, mas há coisas que não tem como mudarmos, mesmo que queiramos muito. Mas eu estive tão cercado de amor e alegria que é fácil esquecer; eu me acalmo e fico tranquilo. O tempo corre para frente, afinal. É, eu não ligo, agora é tudo meu. Escolhi meu destino aquela noite, então estamos aqui. Não a vida de J-Hope, mas sim de Jung Hoseok. Eu apenas confio em mim, agora. A única esperança, a única alma. O único sorriso, o único “você”. A resposta definida para a verdade do mundo. Apenas o único e imutável eu, certo? Sim, pode me chamar de egocêntrico. — riu, e se surpreendeu ao ser acompanhado por alguns idols. — Bom, obrigado por me ouvirem e por isso. — indicou o troféu quase esquecido nas mãos. — Olhe para frente, o caminho está brilhando. Continue agora! — agradeceu e estava para sair do palco quando se voltou de ladinho e disse. — Só para constar, eu não tirei foto com o Marilyn Manson, infelizmente.”

A salva de palmas foi imediata. Muitas das pessoas ali se sentiram verdadeiramente emocionadas com o discurso improvisado, principalmente os artistas que sabiam exatamente do que Hoseok falava. Não era raro que alguns deles tivessem os mesmos pensamentos destrutivos consigo, inclusive aquela noite. Hoseok acenava timidamente para todos, feliz por ter esclarecido aquela história. Se aproximou dos amigos que lhe parabenizaram e voltou a se sentar perto de Yoongi.

— Eu disse para não falar mais sobre aquilo. — o menor repreendeu, mas logo abriu um sorrisinho de canto. — Mas que bom que você não me deu ouvidos.

Hoseok sorriu abertamente e se inclinou, selando seus lábios no do mais velho por alguns segundos, até se dar conta do que havia feito. Os gritos dos fãs foram ensurdecedores, principalmente porque o resto das pessoas estavam em um silêncio mortal.

— Droga, Hoseok! — Yoongi chiou.

A nação coreana perdeu o fôlego pela segunda vez com o rapaz. J-Hope podia até não ser satanista e suas músicas podiam não motivar as pessoas a usar drogas ou bater na mãe, mas definitivamente ele era gay.