All Too Well

All Too Well

Sinopse: Você já sentiu falta de si mesmo? Da pessoa que era antes que alguém quebrasse seu coração, partisse e levasse consigo uma parte de você? Não? Bom, ela sim.
Ela queria seguir em frente, de verdade. Queria melhorar e voltar a ser a garota alegre e de sorriso contagiante que um dia fora e, por isso, resolvera partir, seguir seu sonho e não olhar para trás.
Após passar um ano longe, ela volta para sua cidade natal no interior de Indiana para o feriado de ação de graças. No entanto, o retorno apenas serve para mostrá-la que talvez não estivesse tão bem assim e que lembrava de seu antigo relacionamento muito bem, o que apenas piora quando descobre que, assim como ela, ele também está de volta.
Gênero: Drama/Romance
Classificação: livre
Restrição: O nome de seus pais é fixo
Beta: Sharpay Evans

Lafayette, uma cidadezinha do estado de Indiana, continuou a mesma depois da partida dele. O senhorzinho vendedor de cachorro quente continuou servindo os jovens universitários, que continuaram se reunindo na praça central. Os idosos não deixaram de sentar-se na calçada de suas casas, em suas cadeiras de balanço, para observar o pouco movimento das ruas ao final da tarde. O funcionamento do universo permaneceu o mesmo e a vida de todos continuaram igual.
Mas não a dela.
Quando se mudou para Atlanta para jogar profissionalmente na maior liga de beisebol dos Estados Unidos, a vida de nunca mais foi a mesma. Ela nunca mais fora a mesma.
Ele havia deixado-a. E, embora no começo estivessem dispostos a fazer o relacionamento à distância funcionar, eventualmente o DDD no começo do número deixou de ser a única diferença entre eles e, como esperado por todos — menos por eles mesmos, é claro — o relacionamento ruiu.
Como um impecável castelo de areia: lindo, mas fatalmente frágil.
passou meses dentro de seu quarto na casa dos pais, completamente despedaçada, sem rumo… Ela e passaram tanto tempo juntos que sequer tinha consciência de quem era sem a presença dele.
e ; e .
Eram mais que namorados, eram melhores amigos e além disso, era praticamente impossível pensar em um sem o outro automaticamente vir a mente. Eram o verdadeiro significado de almas gêmeas.
Ou isso era o que ela pensava.
Após meses em depressão profunda, finalmente resolveu seguir com sua vida. É claro que ainda estava quebrada e muitíssimo longe de ser a garota alegre de riso contagiante que uma vez fora, no entanto, não queria passar mais um segundo trancada em seu quarto enquanto claramente já havia seguido em frente. Ou era o que demonstrava em todos os stories em sua conta do instagram, sempre em festas com seus companheiros de time, cercado de modelos lindíssimas e muita bebida.
Ela, finalmente, enviara a carta, aplicando para uma bolsa de estudos em uma das melhores faculdades de letras de toda a América. Sempre tivera o sonho de ser uma grande escritora e estava mais do que na hora de seguir atrás dele.
E assim, ela mudou-se para Nova York. não havia parado sua vida, e ela também não deveria. Por mais que doesse mais do que mil facadas a ideia de seguir em frente e finalmente deixar no passado tudo que viveram juntos.
Não a levem a mal, não estava bem. Poderia até estar vivendo, tentando seguir em frente, mas estava longe de estar bem. Na verdade, ela duvidava seriamente que algum dia voltaria a sentir-se assim. Tinha plena consciência do quão patética parecia para os outros em sua volta, afinal, era apenas um garoto, pelo amor de Deus… Mas o que poderia fazer? Uma parte de si havia se perdido e ela não conseguia encontrá-la.
Nem mesmo sua arte fazia tanto sentido após a partida dele. Como todo bom escritor de coração despedaçado, é claro que conseguira tirar algo de positivo de toda aquela tragédia; suas histórias e poemas nunca pareceram tão vívidos e tocantes quanto naqueles últimos meses após a partida de . Mas já haviam se passado tempo demais e a magia de tudo aquilo já estava longe de ser vista.
E ainda assim, aos trancos e barrancos, resolvera seguir em frente; e após passar um pouco mais de um ano longe, ela estava de volta.
Era o feriado de ação de graças e as folhas de outono caíam pelo chão como peças em seu devido lugar. Lafayette era linda naquela época do ano, não havia como negar.
Já na porta de sua casa, ela finalmente largou as duas malas no chão e soltou um suspiro cansado. Havia sido uma longa viagem de ônibus e a caminhada a pé da rodoviária até seu bairro também não fora exatamente agradável.
— Minha filha! — Assim que a porta se abriu, revelando uma mulher na casa dos quarenta anos e de sorriso benevolente, a garota foi puxada para um abraço.
cambaleou por um instante e deixou um riso rouco escapar de sua garganta diante daquela excessiva demonstração de afeto.
Depois de longos segundos Pamela , sua mãe, afrouxou o abraço apenas para poder olhar a garota nos olhos.
Sempre se assustava com o tanto que sua filha lhe parecia, com a pele morena e uma escura cabeleira cacheada e volumosa, igualzinha a sua. As únicas coisas que as diferenciavam eram as marcas de expressão e as rugas no canto dos olhos castanhos da mais velha, um indicador de sua idade que também lhe conferia um ar bondoso; além do maior número de sardinhas espalhadas pelo seu rosto como resultado de anos de exposição ao sol.
Quem as olhasse de longe poderia até mesmo confundi-las com duas irmãs.
Pamela analisou cada centímetro do rosto de sua garota, como quem procura um sinal de que algo estivesse errado.
— Mãe, eu estou bem. — forçou um sorriso assim que se deu conta dos olhos preocupados que tinha sobre si.
Sua genitora a pegou pelos ombros, depois pelos braços como se certificasse de que tudo estava em seu devido lugar.
— Mas você parece tão magrinha! Você está se alimentando direito?
soltou um suspiro, revirando os olhos.
— Claro que eu estou. — Ela não estava. — Agora será que você pode parar com isso e me deixar entrar? Eu estou congelando aqui fora!
— É claro. Sinto muito, querida. — Pamela respondeu dando passagem para sua filha que logo entrou na casa, encarando maravilhada cada centímetro do lugar.
O cheiro de pão no forno preenchia deliciosamente o ambiente e sentiu a barriga roncar, como se seu estômago, repentinamente acordado pelo aroma, a repreendesse pela falta de comida ao longo do dia. A princípio, ela apenas ignorou aquele incômodo; estava feliz demais por estar ali para se preocupar com algo tão insignificante quanto sua nutrição, e então sorriu.
A casa era muitíssimo simples; e provavelmente o artefato mais caro dali eram as louças de porcelana que Jared e Pamela haviam ganhado de uma parente rica no dia de seu casamento. No entanto, isso não impedia o lugar de ser muitíssimo aconchegante, um verdadeiro lar.
E céus, ela sentira falta daquilo. Das receitas caseiras de sua mãe, da familiaridade que residia em cada cantinho, como um constante lembrete de que ali era seu lugar; além do leve cheiro de cigarro que seu pai fumava para desestressar após um dia cansativo no trabalho, apesar das represálias de Pamela que insistia em tentar cobrir o odor com aromatizadores de lavanda.
estava em casa. E a sensação de nostalgia fez com que ela se esquecesse, por um momento, da tristeza avassaladora que tomava conta de cada órgão de seu corpo há quase dois anos. Apenas por um momento.
Assim que os braços rechonchudos de Jared soltaram a filha para poder analisá-la mais aproximadamente, exatamente o mesmo instinto que Pamela tivera instantes antes, a assolação lhe atingiu novamente o peito.
É difícil agir como se tudo estivesse bem quando todos em sua volta são uma constante lembrança de que nada está.
— Olha só para você, está ainda mais linda do que no dia em que resolveu me abandonar! — Jared sorriu, numa tentativa de parecer alegre. Mas os olhos analíticos de artista da garota captaram perfeitamente aquela fração de segundos em que o rosto do homem se contorceu em preocupação.
Dois anos haviam se passado e ainda não estava nada bem. Qualquer tolo desavisado concordaria com tal fato.
— Pai, você ainda não superou isso? — A garota revirou os olhos de forma teatral, segurando o riso diante do drama exagerado de seu genitor.
— Certamente não, — Pamela gritou da cozinha enquanto preparava a mesa para um café da tarde. — ele chora quase todos os dias porque a filinha dele resolveu sair de casa.
— Isso é uma mentira! — Jared protestou e as duas mulheres caíram na risada.
Embora tentasse sempre parecer durão, ambas sabiam perfeitamente que o senhor era, na verdade, mole feito manteiga derretida.
— Querida, por que você não vai ajudar sua mãe na cozinha enquanto eu levo essas malas para o seu quarto? — Ele sugeriu e concordou, partindo para o outro cômodo logo depois de ter sua testa beijada pelo pai.
No balcão, Pamela terminava os preparativos para o café, fatiando seu pão caseiro recém saído do forno. E , cansada demais para seguir com o que prometera ao pai, apenas se encostou no batente da porta e passou a assistir a mãe cuidar de tudo com um sorriso no rosto, feliz demais pela presença da filha ali depois de tanto tempo longe.
A mais velha colocou todos os pedaços numa delicada cesta de palha e virou-se para pegar algo na geladeira. Naquele mesmo instante, um lampejo atingiu a mente da garota.

— Saco, , quase me mata do coração! — Aturdida, sentiu seu coração querer escapar pela boca.
Ela tinha acabado de erguer-se após guardar algo na geladeira e se surpreendeu com a presença do namorado ali, parado no escuro.
soltou uma risada melodiosa que fez com que os pelos do braço da garota se eriçassem, certamente era um de seus sons prediletos no mundo inteiro.
— Não tem graça, você sabe como eu me assusto fácil. — Disse emburrada, o coração se acalmando aos poucos.
Ele apenas sorriu, irritantemente atraente sob a iluminação fraca e amarelada da geladeira, com os cabelos desgrenhados e vestindo a camiseta do seu time preferido de beisebol. Se aproximou dela e envolveu-a com os braços, suas mãos quentes contrastando com a temperatura gélida que emanava da geladeira.
encarou cada centímetro do rosto da garota, como se quisesse guardar todos os detalhes em sua memória. Embora não conhecesse todas as mulheres do mundo, podia afirmar com certeza que era a mais bonita de todas elas. E a mais inteligente, talentosa… e encantadora também.
poderia renascer um milhão de vezes, ele jamais mereceria aquela garota.
— Por que você está bravinha?
— Eu não estou bravinha. — respondeu tentando parecer séria, mas o olhar divertido do namorado não estava exatamente ajudando.
— Está sim, eu te conheço.
Ela apenas negou mais uma vez e ele, sorrindo malandro, começou a desferir beijos pelo rosto dela.
finalmente soltou uma risada, desistindo de manter a fachada séria e a encarou com adoração.
— Por que você está me olhando assim?
— Assim como?
— Como se… — Ela abriu a boca, mas as palavras certas pareceram lhe fugir da mente.
— Como se você fosse a menina mais linda do mundo? — perguntou e ela apenas assentiu tímida. — Porque você é, e eu sou o cara mais sortudo.
sorriu, genuinamente feliz. Sentia como se seu coração pudesse transbordar a qualquer minuto.
— Você não existe, . — Balançou a cabeça em descrença, enquanto ele a guiou desajeitadamente até o centro da cozinha e tirando-a da frente da geladeira.
— A porta…
— Deixa, assim eu posso te enxergar.
Ela riu, sentindo o corpo aquecer ao se distanciar da friagem.
— Você, por algum acaso, já pensou em acender a luz?
— Desse jeito é mais romântico. — pegou sua mão direita e fez com que ela girasse em seu próprio eixo, logo a puxando de volta para si, movimentando seus corpos no ritmo de uma música imaginária.
Assim, eles ficaram ali por um bom tempo, colados um no outro e dançando, sob a luz da geladeira, ao som da canção mais romântica de todas: a de seus corações.

? ! — Pamela a chamou, e algo em seu rosto dizia que não era pela primeira vez. — Filha, você está bem?
Só então a garota se deu conta de seu estado. Suas mãos tremiam e sua garganta estava seca, além das lágrimas acumuladas no canto de seus olhos castanhos.
Como quem engole um remédio de gosto terrível, engoliu o choro e forçou um sorriso. Seus pais estavam tão felizes com sua presença ali, ela não poderia estragar tudo e se tornar, mais uma vez, um fardo para eles.
— Claro que sim, por que não estaria? — Pigarreou ainda sorrindo forçado. — Me desculpe, o que foi que você disse?
Embora a encarasse desconfiada, Pamela julgou que seria melhor deixar aquilo passar.
Sei… — Respondeu dando de ombros logo em seguida. — Estava apenas me lamentando por ter esquecido de comprar leite… Sinto muito querida, eu sei como você gosta de comer esse pão acompanhado de um copo de leite.
De fato, aquilo ocupava seu lugar na lista de coisas que mais gostava na vida, logo ao lado de sua arte e cheiro de grama recém cortada.
— Não tem problema, mamãe. — Ela foi sincera, tentando sorrir.
Ainda estava levemente estremecida pela memória que lhe ocorrera instantes atrás.
— Não, tem sim! — Pamela correu nervosamente os dedos por seus cachos. — Faz tanto tempo que você não vem para casa e eu queria que tudo fosse perfeito… — Suspirou. — Quer saber? O mercado aqui perto ainda está aberto a essas horas, eu vou buscar.
Ver o desconcerto de sua mãe fez com que o sentimento de culpa se apoderasse de . Sabia perfeitamente que seus pais estavam apenas tentando deixá-la feliz a todo custo e, por isso, não pode evitar sentir como se fosse um incômodo a eles.
— Mãe, não precisa. De verdade.
— Não seja tola, minha filha, eu volto em menos de vinte minutos. — Pamela já procurava por qualquer trocado em cima da mesa de jantar, quando repousou a mão sobre a sua de uma forma reconfortante.
Ambas sorriram.
— Por que você não deixa que eu vá? — A garota começou e a outra hesitou por um instante.
— Você deve estar muito cansada, querida.
— Mãe, por favor. — Ela bufou uma risada. — Eu passei o dia todo sentada dentro de um ônibus; estou perfeitamente disposta. E, além do mais, sinto falta da cidade… vai ser bom para mim poder olhar como as coisas estão por aqui depois de um ano.
Se aquilo era verdade? Bom, parcialmente.
não estava cansada, estava exausta; mas não queria que sua mãe saísse naquele frio apenas para comprar um maldito leite. E sim, ela até sentia falta de Lafayette e todos seus cantinhos pitorescos, mas não era esse o real motivo pelo qual se oferecera para ir. Sua mente parecia correr uma maratona desde que revivera aquela memória, estava constantemente beliscando as palmas das mãos para evitar cair no choro bem ali. Uma caminhada seria bom para esvaziar a cabeça.
Após poucos segundos de relutância, convencera seus pais a deixá-la sair sozinha para ir até o tal mercado, mas não sem antes lhe passar uma lista de outras coisas que queriam que ela comprasse. A garota apanhou seus fones de ouvido, colocou no modo aleatório sua playlist predileta no Spotify e saiu de casa.
A brisa de outono abraçou seu corpo com uma velha amiga e ela não conteve um sorriso.
A garota era genuinamente apaixonada pela sua cidade natal e pelas pessoas que nela residiam. Era tudo familiar demais, todos ali se conheciam, o que realmente fazia com que ela se sentisse em casa. No entanto, a sensação de inúmeras memórias — as quais passara meses tentando suprimir — voltando-lhe a mente a cada passo que dava estava se tornando esmagadora demais.
Talvez não fora uma boa ideia ir àquela caminhada.
Lafayette era pequena, e dela eles faziam uma tela para a obra de arte que costumavam ser juntos, pintando sua história em cada esquina da cidade.
E apesar de seus maiores esforços tentando esquecer-se, lembrava de tudo aquilo muito bem.
Ela respirou fundo ao parar no cruzamento, apertando seu casaco contra o corpo numa tentativa tola de se proteger do vento gelado que parecia cortar sua pele. O sinal estava aberto e, embora nenhum carro passasse por ali, ela resolveu esperar. Alguns segundos se passaram e assim que a luz do semáforo para pedestres mudou para o verde, permitindo sua passagem, pisou na faixa para atravessar; quando um carro surgiu do nada, quase passando no sinal vermelho, e consequentemente, por cima dela.
O barulho dos pneus freando soou alto, certamente deixando marcas no asfalto, e ela sentiu como se todo o frio de Lafayette tivesse sido concentrado em sua barriga. Se amaldiçoou mentalmente por ter sido tão descuidada ao ponto de não ver o carro se aproximando, quase sendo atropelada. Podia até ser depressiva, mas certamente não era suicida.
Sua respiração se regularizou aos poucos, e o carro ainda estava parado ali, há pouquíssimos centímetros de distância, como se não tivesse quase matado-a segundos antes. Ela se deu conta de que o tal carro estava longe de ser um dos veículos populares que costumava ver pela cidade, era uma BMW que provavelmente custava o mesmo que sua casa.
Mas certamente não foi a opulência do carro a responsável pela secura que tomou conta da garganta da garota, e tampouco o choque de segundos antes. O que fez com que travesse no lugar e sentisse o ar lhe escapar dos pulmões, foi o jovem de cabelos desgrenhados e aparência latina por trás do volante: .
Ele parecia tão em choque quanto ela.
A troca de olhares fora intensa e, embora a distância entre eles, a tensão no ar de Lafayette tornou-se praticamente palpável.
Um longo minuto se passou antes que qualquer um dos dois conseguissem esboçar alguma reação. Estavam paralisados, com uma expressão de choque que se espera de quem vê um fantasma; o que era exatamente o que tinham visto: um fantasma do passado.
E foi quem teve a primeira reação. Trocou a marcha e em poucos segundos, ele e sua BMW caríssima já não estavam em lugar nenhum a serem vistos. As marcas de pneu no asfalto e o cheiro de borracha no ar eram os únicos sinais de que aquele encontro inesperado não fora fruto da imaginação fértil e nostálgica da garota.
Alguns segundos se passaram e ainda se encontrava estática, congelada no lugar, gradativamente se dando conta de um fato que apenas aumentara o nó incômodo em sua garganta: ela e , pela primeira vez em dois anos, estavam ao mesmo tempo na cidade.
E… merda, ela lembrava-se de tudo bem demais para não se incomodar com aquilo.
Quando finalmente soltou o ar que nem sequer tinha consciência de que segurava, girou nos calcanhares e voltou correndo para casa. Para a merda o leite e a outra série de coisas que Pamela lhe mandara comprar.
Assim que pisou no primeiro degrau em direção a sua porta, a garota parou e respirou fundo, enxugando as lágrimas que caiam copiosamente. Ela não podia, em hipótese alguma, deixar que seus pais a vissem assim.
Num ímpeto de coragem, abriu a porta, dando de cara com Pamela e Jared que já a esperavam, sentados na mesa de jantar.
Sua mãe abriu um sorriso e ia dizer alguma coisa, mas impediu-se ao ver a expressão no rosto da filha que ainda estava parada a porta, de mãos vazias.
— O que aconteceu?
E pela segunda vez em menos de quinze minutos, engoliu o choro.
— Eu perdi o apetite. — Respondeu simplesmente e saiu a passos apressados em direção de seu quarto, batendo a porta atrás de si.
O olhar que seus genitores lhe dirigiram cortou seu coração feito milhares de facas, mas ela não podia fazer isso. Não naquele momento. Estaria sendo insensível consigo mesma caso se obrigasse a sentar na mesa, tomar café da tarde e fingir que não estava completamente destruída.
Então se jogou na cama e chorou. Chorou por si mesma, por ser ridícula ao ponto de sofrer por um relacionamento que não existia mais há anos; chorou por magoar seus pais com sua constante tristeza… chorou por tudo e chorou por nada, até sentir que já não haviam mais lágrimas para derramar e ter a visão embaçada pela dor excruciante que tomara conta de sua cabeça.
Estava naquele estado intermediário entre completamente acordada e adormecida, quando uma gritaria do lado de fora de seu quarto despertou-a.
— Eu não vou deixar esse merdinha falar com ela! — A voz de seu pai soou alterada.
— Jared, não cabe a nós decidir se ela vai ou não falar com ele! — Pamela respondeu.
— Uma ova que não! Olha só o que ele fez com ela… fazem dois anos que a minha filha não é a mesma, ela só chora!
sentou-se na cama, apreensiva.
Eles estavam mesmo discutindo o que ela pensava? Não, só podia ser sua mente lhe pregando peças.
— A precisa de um desfecho, Jared. — Sua mãe continuou depois de alguns instantes em silêncio. — Isso vai ser bom para ela.
— Ela vai se afundar de novo!
Exausta, tanto física quanto mentalmente, a garota se colocou de pé e abriu a porta, assustando ambos seus pais.
— Querida… — Pamela encarou-a, aflita.
Só então se deu conta de que ela carregava um telefone sem fio em sua mão.
— O que está acontecendo?
— É o , minha filha, ele quer falar com você. — Ela respondeu e a garota sentiu cada músculo de seu corpo se retesar.
, você não precisa fazer isso; você não deve nada para ele. — Os olhos de Jared brilhavam em súplica: estava apavorado de que sua filha aceitasse a ligação e voltasse a se afundar em suas mágoas.
assentiu, engolindo em seco. A expressão de expectativa no rosto de seus pais não estavam exatamente a ajudando a pensar com clareza. Então respirou fundo.
— Me dá o telefone, mãe.

— Pai, eu preciso disso! — A garota acabou alterando um pouco a voz, fazendo com que seus genitores a encarassem assustados. — Por favor.
Eles trocaram um olhar em concordância e Pamela lhe entregou o telefone.
trancou-se de volta em seu quarto e respirou fundo pelo menos umas cinco vezes, tentando reunir coragem para responder àquela ligação.
— Alô? — Sua voz saiu baixa, quase como um sussurro.
— Já estava começando a pensar que você não me atenderia. — soou bem humorado do outro lado da linha.
Mas ela não estava no clima para brincadeiras.
Escutar aquele timbre suave e melodioso fez com que a garota se sentisse milhares de formas diferentes.
— É verdade o que eles disseram? — Ele continuou assim que percebeu que não teria uma resposta. — Que você não é a mesma e que fazem dois anos que você só chora?
se obrigou a respirar fundo mais uma vez, se esforçando ao máximo para pensar com clareza. Mas algo que não conseguia evitar era se perguntar o que diabos ele queria com tudo aquilo.
— Você escutou tudo, é?
— Bom, não foi exatamente como se eu tivesse escolha.
O silêncio reinou entre eles por um instante.
— O que você quer, ? — Ela finalmente perguntou num suspiro. Seu tom de voz parecia mais uma súplica, como se quisesse acabar logo com aquela tortura.
Ele pigarreou do outro lado da linha.
— Como você viu mais cedo, eu estou de volta à cidade para passar o feriado. E te ver na rua àquela hora fez com que eu me lembrasse que ainda tem algumas coisas suas aqui em casa… — Fez uma pausa, como se esperasse uma reação da garota. Ela não abriu a boca. — Se você quiser pode vir aqui pegar.
Àquela altura, não sabia mais o que pensar, tampouco o que dizer. Mal podia acreditar que após dois anos sem se falarem, ele estava fazendo uma coisa dessas…
De repente, ela se arrependeu por ter aceitado a ligação. Seu pai estava certo, afinal. Aquilo fora um erro.
— Você está falando sério? — Foram as únicas palavras que seu cérebro foi capaz de processar.
— Qual é, … — O coração dela se partiu em um milhão de pedaços ao ouvir aquele apelido idiota que ele lhe dera. — Já fazem dois anos. Está na hora de colocarmos isso para trás e resolver nossas diferenças como adultos.
Ela levou a mão à boca numa tentativa bem sucedida de abafar um soluço, enquanto tinha sua visão embaçada pelas lágrimas que começavam a se formar no canto dos olhos. E então desligou, incapaz de escutar mais uma palavra vindo dele.
Como ele conseguia ser tão cruel?
E ela pensando que teria ligado para conversarem ou até mesmo, quem sabe, tentar voltar ao que eram antes.
Ah, menininha ingênua…
jogou-se na cama, a realização do que acontecera nos últimos segundos lhe atingindo feito uma flecha no peito. As lágrimas caíam copiosamente, ela já não podia mais controlá-las.
Como é que eles foram parar ali? Funcionavam tão bem juntos, costumavam até mesmo brincar, dizendo que eram uma obra de arte. E agora… bem, agora eram completos estranhos. Ela nem sequer reconhecia mais aquele garoto, escondido atrás de palavras indiferentes e do volante de um carro caro.
Ele não era mais , o garoto doce e engraçado, filho de comerciantes de Lafayette; invés disso, agora era , jogador estrela do Atlanta Braves. Ela não o conhecia.
A garota deitou, encolhida em sua cama, feito uma folha de papel amassada.
Quando é que tudo aquilo iria parar? não aguentava mais sofrer.
O tempo não passava, parecia estar sempre paralisado naquele fatídico dia em que ele dissera que teriam que tomar rumos diferentes. E mais do que qualquer coisa, ela queria voltar ser quem era antes, a garota alegre e de sorriso contagiante, queria voltar a ser feliz; no entanto, não tinha forças, não conseguia encontrar onde aquela versão de si mesma fora perdida. Lembrava de tudo bem demais para isso.
Mas talvez… apenas talvez, tudo que precisava era de um desfecho.
evitou pensar no que faria a seguir. Estava farta de seus próprios pensamentos, vivera afundada neles nos últimos vinte e quatro meses. Então ela levantou-se num pulo, disposta a dar a tudo que ele queria.
Poderia ser um erro, provavelmente acabaria mais magoada do que antes; mas precisava ir até lá, precisava pegar suas malditas coisas e pôr um fim naquilo tudo. Além do mais, ela até sentia falta de seu cachecol predileto que um dia se esquecera na casa da irmã dele.
Passou por seus pais feito um furacão, usando a desculpa de precisar resolver uma pendência. Sabia que apenas os deixara ainda mais preocupados, mas ela não se importava. Precisava fazer aquilo logo, antes que mudasse de ideia.
E então, quando se deu por si, já estava parada em frente a porta dele, com a respiração descompassada e os cabelos mais selvagens que o normal. As batidas fortes e determinadas na porta apenas demonstraram a impaciência da garota.
— Você veio… — Foi a única coisa que conseguiu dizer ao dar de cara com ela.
hesitou, seus joelhos vacilaram por um instante. De repente, toda coragem e determinação evaporaram de seu corpo.
Longos segundos se passaram, eles apenas se encarando.
— Entra. —Ao perceber que ela não diria nada, lhe cedeu passagem e entrou de cabeça baixa.
Céus… estar ali, tão perto dele, depois de todo aquele tempo estava a desestabilizando, e Deus sabe o quanto ela estava tentando ser forte.
Assim como a sua, a casa dos era bem simples e nada combinava com as peças de marca que o garoto usava. Em toda sua vida, ela já estivera ali mais vezes do que poderia contar, no entanto, aquela foi a primeira vez em que se sentiu como uma intrusa, como se, por algum motivo, não devesse estar ali.
E ali, assim como na cozinha de sua casa, as memórias não foram piedosas, invadiram sua mente sem pedir licença e, mais uma vez, ela estava revivendo momentos que durante todos esses meses, se esforçara muitíssimo para esquecer.
encarou um balcão do outro lado da casa, separando a sala da cozinha, e não conseguiu evitar um sorriso ao se lembrar da senhora lhe mostrando ali mesmo uma série de fotos de quando era criança. Se recordava de ter achado uma gracinha como as bochechas dele assumiram uma cor avermelhada quando sua mãe, apesar das represálias, compartilhou com ela suas histórias, da época em que ele era apenas um garotinho de óculos na liga infantil de beisebol.
E ao vê-lo ali, encarando-a de longe, com um meio sorriso arrogante, chegou à conclusão de que hoje, estava longe de ser aquele que lhe contara histórias do passado, pensando que a teria em seu futuro.
Suas roupas estavam diferentes, sua postura estava diferente, o corte de cabelo… a única coisa que continuava a mesma era o brilho no olhar ao encará-la; tal brilho que não poderia ser escondido nem com o mais arrogante dos sorrisos, ou com as palavras mais indiferentes.
— E então… — Ela começou, ficando cada vez mais incomodada com o clima tenso que pairava na sala. — onde estão?
— Onde estão o que?
arqueou uma das sobrancelhas.
— Você me ligou pedindo para eu vir buscar minhas coisas. — Respondeu com a calma de quem explica algo para uma criança. — Onde elas estão?
soltou uma risada nervosa.
— Estão no meu quarto. Eu vou pegar, só espera um minuto. — Então ele girou em seus calcanhares e desapareceu pelo corredor de quartos, deixando-a sozinha.
A garota não soube ao certo o quanto tempo ficou ali esperando, mas certamente foi muito mais de um minuto. Quando ela já estava prestes a ir atrás dele, retornou com uma caixa em mãos.
— Eu acho que isso é tudo. — Disse entregando-a a caixa.
arqueou as sobrancelhas ao constatar que se tratava apenas de um moletom surrado, dois livros que havia o emprestado — que ele provavelmente nunca lera — e uma escova de dentes velha.
Uau, você demorou todo esse tempo para pegar… isso?
coçou a nuca em sinal de nervosismo.
— É que… — Ele soltou um suspiro, derrotado. — eu não fazia ideia do que tinha seu aqui em casa. A verdade é que isso só foi uma desculpa para te ligar… precisava ouvir sua voz depois que te vi na rua. Sinto muito, não pensei mesmo que você fosse aparecer.
Por algum motivo, aquelas palavras causaram um efeito estranho em que, ao prender o ar, soltou a caixa, que caiu no chão com um baque. Aquilo doía, doía feito uma surra.
— Quem você pensa que é? — a encarou assustado. — Depois de tudo, depois de dois anos, você me liga só para me quebrar, como quebrou todas as suas promessas… E para quê? — Ele fez menção de interrompê-la, mas ela não deixou. — E nem me venha com essa palhaçada de “colocar tudo para trás e resolver nossas diferenças como adultos”, porque é o que isso é: palhaçada.
— Eu só estava sendo honesto, .
soltou uma risada sem humor.
— Não sei porque estou surpresa… sempre tão casualmente cruel em nome de ser honesto.
Por um instante, não respondeu. Eles apenas ficaram se encarando, sem ter o que dizer.
Ele não sabia exatamente o que esperar quando a ligou, uma atitude tão impulsiva que chegava a se arrepender, ao encará-la ali parada, com a respiração descompassada e os olhos arregalados, esperando uma explicação para tudo que acontecera nos últimos anos.
— Talvez a gente se perdeu na comunicação… — começou, tentando a todo custo ignorar o nó que começava a se formar em sua garganta. — Ou eu estava pedindo muito de você…
— Não, , por favor! — a interrompeu, soltando um suspiro enquanto corria nervosamente os dedos pelo cabelo.
Não podia deixar que ela se culpasse daquela forma, mas tampouco sabia o que dizer.
Um milhão de desculpas passaram por sua cabeça naquele momento; talvez se dissesse que ficara com medo de um relacionamento à distância, ou até mesmo que não soube lidar com a saudade que sentia da garota… Havia uma série de coisas que poderia dizer que certamente melhorariam as coisas, amolecendo o coração sensível dela. No entanto, tudo aquilo estava longe de ser verdade. A explicação por trás de suas atitudes não era bonita, sequer chegava ser compreensível.
A verdade é que quando se mudara para Atlanta, ficara maravilhado com o mundo de oportunidades que começava se abrir para ele. Foi mesquinho, pequeno e extremamente irresponsável com os sentimentos daquela que havia deixado para trás. E ele não tinha se dado conta do tanto que sentia por tudo que acontecera, até aquele momento.
Até encontrá-la de novo. Até olhar nos olhos dela.
As írises cor de mel da garota desempenharam perfeitamente a função de trazer de volta todos os sentimentos que se perderam com a distância entre Lafayette e Atlanta. Agora, mais do que nunca, ele se lembrava do quanto sentia-se sortudo por ter como namorada. Lembrava-se do quanto ela cheirava bem, o quanto sua voz era melodiosa e faziam com que ele se perdesse no mais encantador dos devaneios, desejando ser tão bom com as palavras quanto ela, apenas para poder escrever em um poema as milhões de formas em que se sentia apenas ao encará-la.
Ah sim, ele se lembrava. Se lembrava de tudo muito bem.
No entanto, não havia nada no mundo que pudesse dizer que apagaria todo o sofrimento que a fizera passar nos últimos dois anos.
Por isso, ele preferiu acabar com aquilo ali. Não poderia alimentar as expectativas da garota, não quando jamais conseguiria ser o namorado que ela realmente merecia. Não mais.
— A culpa não foi sua, foi minha. — fez uma pausa para respirar fundo. — Eu sinto muito, de verdade. Nós éramos uma obra de arte, lembra?
O sorrisinho singelo e sem graça que ele deu fez com que sentisse o coração pular uma batida.
— Sim, até você estragar tudo.
O garoto crispou os lábios e assentiu, mais uma vez sem saber o que dizer.
Ela estava certa, afinal.
— Eu sei que não tem nada que eu possa fazer ou dizer para mudar o que aconteceu; e eu sinto muito. — parou para pensar em suas próximas palavras. — Eu amo você,
Por algum motivo, sentiu que havia um “porém” intrínseco naquela frase.
Mas?
Mas já se passou tempo demais. E eu acho que vai ser melhor para nós dois se simplesmente seguirmos em frente.
O semblante da garota se iluminou de diversas formas diferentes, como se não soubesse exatamente como aquelas palavras a faziam se sentir.
— Por que você está fazendo isso? — Seu tom era impassível, tranquilo, como se perguntasse a alguém o porquê escolher jantar pizza invés de hambúrguer.
Mas a expressão do garoto já não estava tão serena assim.
— Porque você é a única coisa real que eu tive em minha vida, e eu já te magoei demais.
Os olhos de encheram-se de lágrimas, e sentiu o ar fugir de seus pulmões ao vê-lo daquela forma.
— Não há nada que eu possa fazer? — A garota perguntou e ele apenas balançou a cabeça em negação.
— Eu sinto muito. Por tudo.
A garota assentiu, seu coração aos poucos se dando conta da verdade que passara anos tentando evitar.
E então, sem dizer mais uma palavra, apanhou a caixa do chão e, ao se colocar de pé novamente, o encarou pela última vez. Borboletas fizeram festa em seu estômago.
— Eu também.
Dito isso, ela lhe deu um beijo na bochecha, e aceitou de bom grado, com os olhos fechados como se levasse um soco.
Doeu feito um soco.
E então ela sorriu fraco e girou nos calcanhares, finalmente saindo dali.
Ao atravessar a porta e sentir mais uma vez a brisa gelada de Indiana acertar em cheio seu rosto, sentiu que podia respirar. Era como se um fardo enorme tivesse deixado os seus ombros.
Aparentemente, sua mãe estava certa, como de costume. Tudo que ela precisava era de um desfecho.
Talvez passara tanto tempo sofrendo, se recusando a acreditar na verdade, porque não acreditava que era o fim. Estava tudo tão mal resolvido, tão inacabado, que ela simplesmente se agarrara em suas memórias e não conseguia deixá-las ir.
Até aquele momento.
Então, com o coração infinitamente mais leve, caminhou de volta para casa.
E foi entre uma rua e outra que se deu conta de que algo faltava naquela caixa, algo importantíssimo que fora um dos motivos pelo qual resolvera ir até lá…
Seu cachecol.
Diante daquela realização, ela não conseguiu conter um sorriso. Sabia perfeitamente que não fora apenas uma coincidência; não se esquecera de lhe devolver a peça.
Talvez fosse porque ela ainda tinha seu cheiro — uma das coisas que o garoto mais gostava nela… talvez lhe remetia à inocência da última vez em que o usara…
Ou talvez, também se lembrasse de tudo bem demais.